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CAPÍTULO 1

INTRODUÇÃO
A par da Mecânica e da Termodinâmica, o Electromagnetismo (incluindo a Óptica) cons-
titui um ramo da Fı́sica Clássica. Desenvolveu-se, como disciplina independente, a partir
do século xviii, embora só tenha ficado estabelecido como corpo coerente de doutrina no
século xix. Fica a dever-se a Maxwell a formulação sintética das leis que regem os fenómenos
electromagnéticos, o que é reconhecido como um dos feitos mais admiráveis da história da
Fı́sica. A este respeito recordem-se as seguintes palavras de Feynman retiradas das suas
famosas Lectures on Physics:
Vista a História do Homem daqui a muito tempo, digamos daqui a dez mil anos, não
restam muitas dúvidas sobre o facto de maior significado no século xix — a descoberta
de Maxwell das leis do Electromagnetismo. A Guerra Civil na América será reduzida
a uma mera questão provinciana comparada com aquela descoberta cientı́fica que data
da mesma década.
Seria fastidioso referir o impacte que o Electromagnetismo teve e continua a ter no desen-
volvimento das sociedades, referindo os inúmeros aspectos onde a sua importância é mani-
festa. Basta, tão-só, mencionar que este ramo da Fı́sica está na base de todo o sistema de
telecomunicações que se tornou de capital importância em todos os sectores da vida moderna.

1.1 O ELECTROMAGNETISMO CLÁSSICO E A FÍSICA MODERNA

Referimo-nos habitualmente à teoria de Maxwell como sendo o Electromagnetismo


Clássico. Mas, apesar de “clássica”, tal teoria continha o gérmen do que se designa ha-
bitualmente por Fı́sica Moderna.
Desde logo, a teoria de Maxwell representou um primeiro passo no sentido da unificação
das forças fundamentais da natureza. Tal unificação é um dos tópicos da fronteira do con-
hecimento cientı́fico neste virar de século.
2 •
Campo electromagnético

Na verdade, os fı́sicos procuram hoje entender as interacções fundamentais entre partı́culas


elementares com base numa única força, a qual, em regimes diferentes de energia, pode as-
sumir formas diversificadas. Para energias relativamente baixas, correspondentes às situações
em que desenvolvemos as nossas vidas, distinguem-se quatro forças fundamentais: a força elec-
tromagnética, que se exerce entre quaisquer duas partı́culas com carga eléctrica; a força fraca,
que se manifesta ao nı́vel dos constituintes dos núcleos atómicos e que é responsável, entre
outros processos, pela desintegração β; a força forte (a mais intensa das forças fundamentais),
que governa a interacção entre quarks, embora, mais prosaicamente, ela seja habitualmente
referida como a força responsável pela estabilidade do agregado nuclear; e a força gravitacio-
nal, de todos bem conhecida, à qual estão sujeitas todas as partı́culas. As forças eléctrica,
fraca e forte, hoje “unificadas” numa força única, formam, conjuntamente com as partı́culas
elementares (seis quarks e seis leptões), o chamado modelo-padrão da Fı́sica de Partı́culas.
A unificação significa que as forças, tal como as conhecemos, são diferentes manifestações de
uma força mais fundamental, manifestações essas determinadas por factores de circunstância
como seja, por exemplo, a temperatura da matéria. Para temperaturas muitı́ssimo elevadas,
superiores a 1027 K, não se distinguiria entre a força electromagnética, a força fraca e a força
forte, pois teriam todas a mesma intensidade.
É justamente um mero factor circunstancial que separa, de facto, a Electricidade do Mag-
netismo. Para melhor se entender esta afirmação, suponhamos que uma carga eléctrica está
em repouso num determinado referencial, criando um campo eléctrico. Se essa carga estiver
em movimento, produz-se uma corrente que, por sua vez, é a fonte de um campo magnético.
Assim, o carácter do campo produzido (eléctrico ou magnético) depende apenas de a carga
estar em repouso ou em movimento e, portanto, do referencial de onde o sistema está a
ser observado. Serve este exemplo para mostrar que a distinção entre campos eléctricos e
magnéticos é meramente formal.
O Electromagnetismo Clássico é a teoria unificada de fenómenos aparentemente tão diver-
sos como os eléctricos e os magnéticos. Para temperaturas da ordem de 1015 K e superiores
desaparece a distinção entre o campo electromagnético e o campo fraco e a interacção re-
sultante designa-se por electro-fraca. No laboratório, embora em regiões do espaço muito
localizadas e apenas por perı́odos de tempo muito curtos, já se consegue obter essas temper-
aturas, que ocorreram nos primeiros instantes do Universo. Por seu lado, as temperaturas
para as quais as interacções forte e electro-fraca se tornariam indistinguı́veis não são actual-
mente alcançáveis. Quanto à unificação “final” da interacção gravitacional com as outras,
subsistem, mesmo em aspectos teóricos, problemas muito sérios — não se sabe ainda, em
definitivo, qual é a “simetria” subjacente à interacção única. Em resumo, o Electromag-
netismo Clássico, ao revelar-se como uma teoria unificadora de duas forças diferentes, foi
precursor das ideias desenvolvidas neste século sobre a unificação das forças fundamentais da
natureza.
Além disso, o Electromagnetismo Clássico revelou aspectos fı́sico-matemáticos que levaram
à formulação de uma nova mecânica — a Mecânica Relativista — no alvor do nosso século.
A questão era bem simples: enquanto as leis da Mecânica Clássica ficavam invariantes sob
transformações de Galileu, o mesmo não acontecia com as equações de Maxwell. Não fos-
sem as sucessivas e brilhantes comprovações experimentais das leis do electromagnetismo,
culminando com a produção e a recepção das ondas hertzianas, não seria difı́cil admitir a
possibilidade de, pelo menos, se tentar reformular a teoria, procurando levá-la a uma for-
mulação que fosse invariante quanto a transformações de Galileu.
Contudo, os factos experimentais e (porque não admiti-lo?) a beleza das próprias equações
de Maxwell acabariam por impor uma reforma da Mecânica, ciência já então secular e que
Introdução •
3

tantas e tão boas provas tinha dado e continuava a dar. Verificava-se que as equações do
Electromagnetismo Clássico, ou mais precisamente, a equação de propagação de uma onda
electromagnética, ficava invariante perante uma classe de transformações espácio-temporais
conhecidas por transformações de Lorentz. Seria afinal esta simetria que haveria de ser
incorporada nas leis da Mecânica (para além das simetrias de translação e de rotação), dando
origem à Teoria da Relatividade.
Até agora falámos de dois aspectos altamente meritórios do Electromagnetismo Clássico
que tiveram grande repercussão na Fı́sica Moderna. Falemos também daqueles aspectos que,
sendo negativos do ponto de vista do confronto com os factos experimentais, acabariam por
ser cruciais para o desenvolvimento da Fı́sica do nosso século. Assim, o Electromagnetismo
Clássico revelou-se inadequado quando se pretendeu explicar o espectro de um corpo negro.
De facto, a teoria clássica previa intensidades da radiação electromagnética irremediavelmente
crescentes para pequenos comprimentos de onda (o que ficou conhecido por “catástrofe do
ultra-violeta”). Tal débâcle viria a ser resolvida por Planck, que usou o conceito de quantum
— quantidade mı́nima de energia de radiação electromagnética de determinada frequência —,
o que permitiu explicar cabalmente o espectro de radiação do corpo negro. A plausibilidade
de uma tal teoria “quântica” era então, como é evidente, puramente fenomenológica. Numa
outra situação de interacção da radiação com a matéria — o efeito fotoeléctrico — voltaria
a verificar-se a impossibilidade da sua explicação à luz do Electromagnetismo Clássico. Foi
Einstein quem avançou com a explicação do fenómeno, utilizando a mesma ideia de quantum
proposta por Planck, para concluir que, independentemente da intensidade da fonte de luz,
se a sua frequência não fosse igual ou superior a um certo valor que dependia do metal que
se estava a usar na experiência, nunca poderia haver emissão de electrões por parte deste.
O quantum ficava definitivamente a pertencer à linguagem da Fı́sica Moderna, tornando-se
num dos seus mais fecundos conceitos.
Uma outra dificuldade (embora, esta, aparente) com o Electromagnetismo Clássico surgiu
quando, também no inı́cio do século xx, se tornou necessário conceber modelos para a es-
trutura do átomo. J. J. Thomson propôs um modelo engenhoso segundo o qual o átomo
seria uma esfera com uma distribuição uniforme de carga positiva, estando as partı́culas de
carga negativa — os electrões — dispostas em circunferências no seu interior. Os electrões
estariam igualmente espaçados e as circunferências podiam ser mesmo em número superior a
um. Aplicando a Mecânica e a Electrodinâmica Clássica, este modelo era capaz de explicar
algumas riscas dos espectros de emissão dos átomos, podendo mesmo ser considerado a teoria
clássica do átomo.
O modelo revelou-se, porém, totalmente incapaz de explicar os resultados da célebre ex-
periência de Rutherford de dispersão de partı́culas α e β, pelo que teve de ser abandonado.
Mas o modelo atómico de Rutherford e o modelo, mais quantitativo, de Bohr eram absoluta-
mente incompatı́veis com as leis de Maxwell! Os electrões, descrevendo órbitas circulares em
torno do núcleo, perderiam energia, pois radiavam constantemente e acabariam por cair nele.
O grande sucesso do modelo planetário de Bohr na explicação dos espectros dos átomos hidro-
genóides seria um primeiro passo para se encontrar a explicação da estabilidade atómica (não
pondo afinal em causa a lei de Coulomb), no contexto de uma nova mecânica — a Mecânica
Quântica, formulada na década de 20. No final dessa mesma década, Dirac desenvolveu uma
teoria quântica relativista para o electrão. A interacção da luz com a matéria ou, dito de outra
maneira, a interacção da luz com a nuvem electrónica que rodeava os núcleos atómicos, deve-
ria ser tratada no quadro da nova teoria quântica. Essa teoria — a Electrodinâmica Quântica
(em inglês QED, de Quantum Electrodynamics) — começou de facto a ser desenvolvida nos
últimos anos da década de 20 mas os resultados revelaram-se insatisfatórios. Diz Feynman
no seu livro QED — a Estranha Teoria da Luz e da Matéria a respeito desta situação:
4 •
Campo electromagnético

[...] Se se calculasse algo aproximadamente, [a teoria] daria uma resposta razoável; se


se tentasse calcular a mesma coisa mas com mais rigor, verificava-se que a correcção
que se pensava ser pequena (o número seguinte numa série convergente, por exemplo)
era, de facto, muito grande — na realidade era infinita —, de maneira que resultou
que, na prática, não se podia calcular nada para além de uma certa precisão.

A situação viria a ficar esclarecida depois dos trabalhos de Schwinger, Tomonaga e do


próprio Feynman, que inventaram o método de calcular propriedades fı́sicas no quadro da
teoria quântica relativista da luz em interacção com a matéria. Claro que não cabe aqui fazer
mais do que esta breve alusão à QED, que é, sessenta anos depois da sua formulação, a teoria
fı́sica com comprovação experimental mais rigorosa: há quantidades para as quais o valor
previsto pela QED concorda em mais de dez dı́gitos com o respectivo valor experimental. À
luz dessa teoria, a interacção entre duas cargas eléctricas é vista como o resultado da permuta
de fotões — as partı́culas (ou quanta) de campo. Os fotões só interagem com as cargas
eléctricas, podendo ser por estas emitidos e absorvidos, mas não interagem directamente
consigo mesmos.
Teorias algo parecidas com a QED, embora formuladas em espaços mais gerais e abstractos,
e tendo subjacentes outras classes de simetria, estão na base do modelo-padrão da Fı́sica de
Partı́culas a que já fizemos referência anteriormente. Por exemplo, a força forte, também
chamada força de cor, tem muitas analogias com a força electromagnética, embora a teo-
ria daquela seja mais complexa por envolver cargas de três tipos (cores) e as partı́culas de
campo (gluões) poderem interagir consigo mesmas. Na QED há um só tipo de partı́culas de
campo (fotões), ao passo que na QCD (do inglês Quantum Chromodynamics) as partı́culas de
campo são de oito tipos diferentes. Existem, pois, oito campos “cromo-eléctricos” e oito cam-
pos “cromo-magnéticos”, mas muitos dos conceitos da Electrodinâmica Quântica aplicam-se,
mutatis mutantis, na Cromodinâmica Quântica.
Aprender electromagnetismo significa também adquirir as bases necessárias à abordagem
de outras teorias fı́sicas, na realidade mais complexas, mas que fazem uso de um conjunto de
conceitos que são originários do Electromagnetismo.

1.2 ESTRUTURA CONCEPTUAL DO LIVRO

No Electromagnetismo Clássico, um dos problemas fundamentais que importa considerar


é o da determinação de campos eléctricos e magnéticos a partir de distribuições de cargas e
de correntes conhecidas.
A presente obra pressupõe que o leitor conheça os métodos e técnicas básicas de deter-
minação dos campos a partir das suas fontes (cargas e correntes) no vazio. No entanto, e
no sentido de procurar tornar a leitura mais cómoda, evitando ao máximo a necessidade de
remeter o leitor para outras obras, incluı́mos um capı́tulo de revisão destes assuntos. Assim,
no Capı́tulo 2 apresenta-se, de uma forma necessariamente breve, o conjunto de conceitos e
leis básicas do Electromagnetismo. Esses conceitos e leis são, por vezes, apresentados sem
qualquer dedução (como a lei de Gauss ou a força de Lorentz), embora sejam ilustrados com
exemplos, que se apresentam ao longo do texto, e com problemas resolvidos, que se apresen-
tam no final do capı́tulo. Também nos capı́tulos seguintes se inclui sempre um conjunto de
problemas resolvidos que ajudam a uma melhor compreensão de todo o formalismo. Um dos
objectivos do Capı́tulo 2 é obter as equações de Maxwell no vazio. O electromagnetismo em
meios materiais é um assunto cujo tratamento fica para mais tarde.
Os capı́tulos 3 a 6 referem-se exclusivamente à electrostática. No Capı́tulo 3 começa-se
por obter a energia de uma distribuição de cargas estáticas. Esta energia é aqui apresentada
Introdução •
5

como o trabalho que um agente externo tem de realizar para construir essa distribuição a
partir de uma situação inicial em que as cargas estão infinitamente afastadas. Na sequência
deste estudo, aborda-se o problema das forças em condutores carregados em equilı́brio elec-
trostático.
O Capı́tulo 4 é dedicado ao desenvolvimento em multipolos do potencial escalar. Para
facilitar a abordagem do assunto estuda-se primeiro o dipolo e o quadrupolo linear, focando as
caracterı́sticas do potencial e do campo eléctrico produzidos por estes sistemas. Apresentam-
se alguns exemplos que ilustram a utilidade do desenvolvimento multipolar. Trata-se também
a questão da energia de interacção de uma distribuição de cargas (com ou sem caracterı́sticas
multipolares bem definidas) com um campo externo.
O Capı́tulo 5 é dedicado ao estudo do campo electrostático em meios dieléctricos. A
apresentação é feita com bastante pormenor, pois um formalismo idêntico é aplicado, embora
com algumas modificações, ao estudo dos campos magnéticos em meios magnéticos (Capı́tulo
8). Introduzem-se os conceitos de polarização e de campo deslocamento eléctrico, classificam-
se os dieléctricos e determina-se a energia armazenada no campo electrostático quando há
meios dieléctricos. Consideram-se depois as forças sobre dieléctricos e obtêm-se campos
eléctricos em cavidades no interior de dieléctricos. Por fim, analisam-se as caracterı́sticas
das constantes dieléctricas de substâncias como gases e lı́quidos apolares e polares.
No Capı́tulo 6 estuda-se a equação de Laplace. Apresenta-se o método das imagens e
deduzem-se várias soluções particulares dessa equação em coordenadas cartesianas, cilı́ndricas
e esféricas. Ilustram-se as técnicas apresentadas com vários exemplos com distribuições de car-
gas no vazio,
à superfı́cie de condutores e em dieléctricos.
Os capı́tulos 7 e 8 são dedicados ao magnetismo. No Capı́tulo 7 estuda-se a energia
armazenada no campo magnético e faz-se o desenvolvimento em multipolos do potencial
vector (seguindo, de perto, o procedimento utilizado no Capı́tulo 4). No Capı́tulo 8 trata-se
a questão do magnetismo em meios materiais.
A propagação do campo electromagnético no vazio e em meios materiais é o assunto
abordado no Capı́tulo 9. No que diz respeito aos meios materiais, estuda-se a propagação em
meios dieléctricos e magnéticos e também em meios condutores. Obtêm-se as leis da reflexão
e da refracção e estuda-se ainda a propagação do campo electromagnético em guias de ondas.
O Capı́tulo 10 é dedicado ao Electromagnetismo e à Teoria da Relatividade. No sentido
de facilitar a leitura, faz-se uma breve introdução a aspectos da cinemática e da dinâmica
relativista e ao cálculo tensorial no espaço de Minkowski. Constrói-se o tensor do campo
electromagnético e apresentam-se as equações de Maxwell na sua forma covariante.
Finalmente, o Capı́tulo 11 é uma introdução à teoria clássica da radiação. Apresentam-se
os potenciais retardados e estuda-se a radiação dipolar e quadrupolar eléctrica.
Nos Apêndices apresentam-se os teoremas de Gauss e de Stokes e tratam-se alguns aspectos
do cálculo vectorial, que são de grande utilidade no desenvolvimento do formalismo próprio
das matérias abordadas.
CAPÍTULO 2
EQUAÇÕES DE MAXWELL
Neste capı́tulo faz-se uma revisão das leis básicas da electricidade e do magnetismo,
chegando-se às equações de Maxwell. Recorda-se, no caso da electrostática, a lei de Coulomb e
a lei de Gauss.
No caso do magnetismo revêem-se as leis de Biot-Savart, de Laplace, de Ampère e de Faraday
e Lenz. São apresentados alguns exemplos de movimentos de partı́culas carregadas em cam-
pos eléctricos e magnéticos para ilustrar a força de Lorentz. Por fim, obtêm-se as equações
de propagação no vazio dos potenciais escalar e vector e dos campos eléctrico e de indução
magnética.

2.1 CAMPOS ELECTROSTÁTICOS

A lei de Coulomb, obtida experimentalmente na segunda metade do século xviii, descreve


a força que uma carga eléctrica pontual, q, exerce numa outra, q 0 , quando estão separadas
por uma distância a:
1 qq 0
F = â , (2.1)
4π²0 a2
onde â é o vector unitário com a direcção e o sentido de a (Figura 2.1). A constante ²0
designa-se por permitividade do vácuo e tem o valor ²0 = 8, 8542 × 10−12 F/m, pelo que, no
SI
1
= 9 × 109 N m2 C−2 .
4π²0
É um facto experimental que, se q for uma carga estática, a força exercida sobre q 0 é dada
pela expressão (2.1), qualquer que seja a velocidade desta carga. No caso de a carga q estar
em movimento, a força que esta exerce sobre a carga q 0 já não é dada simplesmente pela lei
de Coulomb.
8 •
Campo electromagnético

F
q '
P
a

Figura 2.1. Força que a carga q exerce na carga q 0 (as cargas


têm
o mesmo sinal). A força que q 0 exerce sobre q é de grandeza
igual mas de sentido oposto.

É muito útil introduzir o conceito de campo eléctrico, E , que é a força por unidade de
carga. Em P (Figura 2.1) o campo eléctrico é dado por
F 1 q
E= = â. (2.2)
q0 4π²0 a2
No SI o campo eléctrico exprime-se em N C−1 ou, o que é equivalente, em V m−1 .
No caso de um número arbitrário de cargas, aplica-se o princı́pio de sobreposição. De
acordo com este princı́pio, o campo eléctrico resultante em P é a soma vectorial dos cam-
pos criados individualmente por cada carga eléctrica. Se num volume v existir uma dis-
tribuição contı́nua de cargas, descrita por uma densidade ρ(r 0 ), da aplicação do princı́pio de
sobreposição resulta o campo electrostático (ver Figura 2.2)
Z
1 ρ(r 0 ) â
E= dv.
4π²0 v a2

z a P
P '
S v d v d E

r'
r

y
x

Figura 2.2. Distribuição contı́nua de cargas no volume v. O


campo elementar dE é produzido pela carga elementar
dq = ρ(r 0 ) dv.

Fazemos uma chamada de atenção para a notação que estamos a utilizar e que manteremos
ao longo do livro. Assim, o vector r , cujas componentes cartesianas no sistema de referência
Equações de Maxwell •
9

ortonormado S são (x, y, z), é o vector posicional do ponto P onde se pretende calcular o
campo (ou outra grandeza como, por exemplo, o potencial). O vector r 0 indica, relativamente
à origem do mesmo referencial, a posição do ponto P0 onde se localiza a fonte do campo. As
coordenadas cartesianas desse ponto são (x0 , y 0 , z 0 ). Note-se que (x, y, z) e (x0 , y 0 , z 0 ) são
coordenadas independentes. O vector

a = r − r0 (2.3)

indica a localização do ponto P relativamente a P0 e é uma função dos dois conjuntos de


coordenadas. As fontes do campo distribuem-se num volume v, sendo o elemento de volume
nesse domı́nio designado por dv. Em coordenadas cartesianas esse elemento infinitesimal de
volume escreve-se dv = dx0 dy 0 dz 0 .

P 2

r P
2
F
r q '

q P
r 1
1

Figura 2.3. Carga q 0 a deslocar-se de P1 para P2 . O trabalho


da força eléctrica é independente da trajectória.

Consideremos agora a Figura 2.3. O trabalho realizado pela força eléctrica que q exerce
sobre q 0 quando esta última se desloca de P1 para P2 é dado por
Z Z
0
WP1 →P2 = F · dl = q E · dl ,
P1 P2 P1 P2

tendo-se utilizado a definição de campo eléctrico para escrever a última igualdade. Como o
campo electrostático é conservativo, o integral na expressão anterior não depende do percurso
entre P1 e P2 . O trabalho WP1 →P2 é simétrico da variação da energia potencial:

WP1 →P2 = − [U (r2 ) − U (r1 )] . (2.4)

O trabalho realizado pela força externa quando a carga se desloca com velocidade de módulo
constante de P1 para P2 é o simétrico de (2.4). Esse trabalho exterior iguala a variação da
energia do sistema, ∆U :

∆U = −WP1 →P2 = U (r2 ) − U (r1 ) = q 0 [V (r2 ) − V (r1 )]. (2.5)

Introduziu-se nesta expressão a função V (r ), que é o potencial no ponto P, à distância r de


q. Em geral, a diferença de potencial entre dois pontos P1 e P2 é dada por
Z
V (r1 ) − V (r2 ) = E · dl . (2.6)
P1 P2
10 •
Campo electromagnético

Para se conhecer o potencial num ponto (digamos P2 ), é necessário fixar um valor para o
potencial num outro ponto de referência (digamos P1 ). No caso de distribuições finitas de
carga, a escolha usual corresponde a P1 → ∞ e considera-se aı́ o potencial nulo. O potencial
no ponto P é então Z P
V (r ) = − E · dl. (2.7)

Chama-se a atenção para o facto de esta maneira de fixar o potencial não ser aplicável
quando a distribuição de cargas é infinita (por exemplo, uma linha infinita de carga). Deve
então usar-se uma outra origem para o potencial V (r ).
O facto de o campo electrostático ser conservativo significa que a sua circulação ao longo
de uma trajectória fechada C se anula:
I
E · dl = 0 . (2.8)
C

Da Eq. (2.6) resulta que o campo electrostático se pode escrever como o simétrico do
gradiente do potencial V :
E (r ) = −∇V (r ) . (2.9)
Esta expressão mostra que o potencial V (r ) descreve completamente o campo electrostático,
indicando o sinal negativo na expressão anterior que E aponta no sentido dos potenciais
decrescentes.
Se recordarmos que, qualquer que seja a função escalar V , se tem [ver (B.35)]

∇ × ∇V = 0 ,
imediatamente se conclui que
∇ × E = 0. (2.10)
Esta equação pode também ser obtida a partir de (2.8) por aplicação do teorema de Stokes
(ver Apêndice A).
O potencial criado por uma carga pontual q num ponto situado à distância a desta é
particularmente simples de obter, se no integral (2.7) se considerar um percurso que tenha a
direcção definida pela carga e pelo ponto onde se pretende obter o potencial:
Z ∞
q dr q
V = 2
= . (2.11)
a 4π²0 r 4π²0 a
No caso de uma distribuição de cargas descrita por ρ(r 0 ) contida num volume v (Figura 2.2),
o potencial é dado, de acordo com o princı́pio da sobreposição, por
Z
1 ρ(r 0 ) dv
V = , (2.12)
4π²0 v a
onde [ver (2.3)] a é a distância do ponto (x0 , y 0 , z 0 ) — onde se localiza a carga elementar —
ao ponto (x, y, z) — onde se pretende calcular o potencial. Os pontos do espaço que estão ao
mesmo potencial definem as chamadas superfı́cies equipotenciais.
É também conveniente relembrar a lei de Gauss, a qual desempenha um papel muito
importante quando se pretende calcular o campo electrostático E criado por uma distribuição
de cargas possuindo determinadas simetrias. De acordo com a lei de Gauss, o fluxo do campo
eléctrico E através de uma superfı́cie fechada S que encerra a carga total Q é
I
Q
E · dS = . (2.13)
S ²0
Equações de Maxwell •
11

Usando agora o teorema de Gauss (ver Apêndice A) e atendendo a que a carga total é dada
R
por Q = v ρ(r 0 ) dv, sendo v o volume total delimitado por S, conclui-se que
Z Z
1
∇ · E dv = ρ dv ,
v ²0 v

de onde resulta a seguinte equação local para o campo electrostático:


ρ
∇·E = . (2.14)
²0

Combinando com a Eq. (2.9) obtém-se a equação de Poisson:


ρ
∇2 V = − . (2.15)
²0

Numa região do espaço livre de cargas,

∇2 V = 0 ,

que é a equação de Laplace.


Vamos, a seguir, considerar alguns exemplos de distribuições estáticas de carga e obter os
correspondentes campos eléctricos.

Exemplo 2.1: Distribuição linear de carga de densidade uniforme

Consideremos um fio cilı́ndrico de comprimento L (muito grande) sobre o qual se encontra


uniformemente distribuı́da a carga Q (λ = Q/L é a densidade linear de carga).

z
l

Figura 2.4. Superfı́cie de Gauss adequada à determinação do


campo eléctrico produzido por uma distribuição linear
infinita de carga.

Escolhe-se o eixo z coincidente com o eixo do fio, como se mostra na Figura 2.4. Comece-
mos por investigar a configuração das linhas do campo eléctrico E .
Devido à extensão infinita da distribuição e à simetria axial, o campo não pode depender
das coordenadas cilı́ndricas z e φ; igualmente, por se tratar de uma distribuição muito longa
com simetria axial, o campo não tem componente Ez nem Eφ . Assim, o campo eléctrico tem
apenas componente radial, a qual é função de r, isto é, E = E(r)êr .
A determinação de E pode ser feita usando a lei de Gauss (2.13), que se escreve na forma
I Z
1
E · dS = λ d` , (2.16)
S ²0 `
12 •
Campo electromagnético

sendo a superfı́cie gaussiana adequada uma superfı́cie cilı́ndrica de comprimento ` e raio r,


coaxial com a linha de carga, como mostra a Figura 2.4. O integral no primeiro membro da
Eq. (2.16) reduz-se ao fluxo do campo eléctrico que sai pela superfı́cie lateral do cilindro

λ`
2πr`E(r) = ,
²0

de onde se obtém
λ
E= êr . (2.17)
2π²0 r

Exemplo 2.2: Distribuição volumétrica de carga com simetria esférica


Considere-se uma carga Q distribuı́da uniformemente numa esfera de raio R. A densidade
volumétrica de cargas é ρ = 3Q/(4πR3 ).
Devido à simetria da distribuição de carga, o campo eléctrico tem apenas componente
radial, a qual só depende de r (distância ao centro da esfera).
A aplicação da lei de Gauss far-se-á em duas etapas:

i) Obtenção do campo E num ponto interior (r < R):

ρ 4
E(r) 4 π r2 = π r3 , (2.18)
²0 3
tendo-se considerado uma superfı́cie gaussiana esférica, de raio r, concêntrica com a
distribuição de carga; no segundo membro de (2.18) considera-se a carga contida no
interior desta superfı́cie;

ii) Cálculo do campo E num ponto exterior (r > R):


A aplicação da lei de Gauss a esta situação segue os mesmos passos, obtendo-se

Q
E(r) 4 π r2 = ,
²0

dado que agora toda a carga Q está contida no interior da superfı́cie gaussiana de raio
r > R.

Temos, em conclusão:

Q
E = r êr , r ≤ R, (2.19)
4π²0 R3
Q
E = êr , r ≥ R. (2.20)
4π²0 r2

2.2 CAMPOS DE INDUÇÃO MAGNÉTICA

Considere-se a Figura 2.5, que representa um troço de um circuito eléctrico percorrido por
uma corrente estacionária (quer dizer, que não varia no tempo) de intensidade i. A corrente
no circuito cria num ponto P, à distância a do elemento (orientado) de circuito, dl, um campo
de indução magnética, B .
Equações de Maxwell •
13

d l

â a d B
P

Figura 2.5. Campo produzido por um elemento de corrente.


O campo elementar dB é perpendicular a a e a dl.

A contribuição elementar dB para este campo devida ao troço elementar dl é dada pela lei
de Biot-Savart:
µ0 i dl × â
dB = ,
4π a2
onde µ0 = 4π × 10−7 N/A2 (ou, equivalentemente H/m) é a permeabilidade magnética do
vácuo.
O campo de indução magnética B , no ponto P, obtém-se integrando sobre todo o circuito
fechado: I
µ i dl × â
B= 0 , (2.21)
4π C a2
e exprime-se, no SI, em tesla (T) ou weber por metro quadrado (Wb/m2 ).
Quando se tem uma distribuição extensa de corrente de intensidade i, pode introduzir-se
a densidade de corrente j (expressa em A/m2 no SI) na seguinte forma:
Z
i= j · dS , (2.22)
S

sendo dS um elemento de superfı́cie orientado da secção do condutor.


Desta forma, a expressão (2.21) pode ser generalizada e, em lugar do integral estendido a
uma linha de corrente, passa a ter-se um integral estendido a todo o volume v que contém a
distribuição de correntes: Z
µ0 j (r 0 ) × â
B= dv. (2.23)
4π v a2
As fontes do campo B estão confinadas num volume v e são função das coordenadas (x0 , y 0 , z 0 ),
tal como se tinha, na Secção 2.1, para uma distribuição de cargas.
Experimentalmente, verifica-se que um circuito quando é colocado numa região onde existe
um campo de indução magnética fica sujeito a uma força (também uma carga colocada numa
região onde existe campo eléctrico fica sujeita a uma força). Considere-se, então, uma região
do espaço onde existe um campo de indução magnética, B , cuja origem não importa conhecer,
e que se coloca, nessa região, um circuito percorrido por uma corrente i (mas que não é a
fonte do campo B ).1 Verifica-se experimentalmente que sobre cada elemento dl do circuito
se exerce uma força dada por
dF = i dl × B . (2.24)
1
Não confundir, portanto, com a situação da Figura 2.5, em que o circuito representado é a fonte do campo
de indução magnética.
14 •
Campo electromagnético

Esta expressão é denominada lei de Laplace. No Exemplo 2.5 consideram-se duas correntes
paralelas e determina-se a força entre elas.
O campo de indução magnética pode ser formalmente obtido a partir de cargas (monopo-
los) magnéticas. Os monopolos magnéticos, embora úteis de um ponto de vista conceptual,
são objectos fictı́cios, no sentido em que nunca foram detectados experimentalmente. As
cargas magnéticas (que designamos por q ∗ ) foram propostas por Dirac e têm a vantagem de
permitir escrever a força magnética de atracção ou de repulsão existente entre elas de uma
forma idêntica à lei de Coulomb (2.1):

1 q∗q0∗
F = â.
4πµ0 a2
O facto de não se observarem monopolos magnéticos significa que os campos de indução
magnética são produzidos por correntes, e as linhas de campo são sempre fechadas. Conse-
quentemente, o fluxo de B através de uma superfı́cie fechada qualquer é sempre nulo:
I
B · dS = 0 . (2.25)
S

Por aplicação do teorema de Gauss (ver Apêndice A) resulta a seguinte equação local para o
campo de indução magnética:
∇ · B = 0. (2.26)
Formalmente, o resultado expresso por (2.26) pode ser obtido directamente a partir da lei
de Biot-Savart. De facto, tomando a divergência de (2.23) tem-se, usando a Eq. (B.43) e
notando que a corrente j é só função das coordenadas (x0 , y 0 , z 0 ) e que o operador ∇ só actua
nas coordenadas (x, y, z),
Z µ ¶
µ0 â
∇·B =− j (r 0 ) · ∇ × dv , (2.27)
4π v a2

sendo o vector a definido por (2.3). Mas, por outro lado, â/a2 pode ser escrito como o
gradiente de uma função escalar:
µ ¶ µ ¶
1 1 r − r0 â
∇ =∇ =− =− 2. (2.28)
a |r − r 0 | |r − r 0 |3 a

Assim, a quantidade dentro de parêntesis no integral da Eq. (2.27) é zero (trata-se do


rotacional de um gradiente) e, portanto, obtém-se o resultado (2.26). A Eq. (2.26) (válida
sempre) está contida na lei de Biot-Savart (que se aplica em regimes estacionários).
Da Eq. (2.26) resulta ainda, e de uma maneira automática [ver (B.36)], que o campo B (r )
se pode exprimir como o rotacional de um campo vectorial A(r ), ou seja,

B = ∇ × A. (2.29)

Conhecido A — o potencial vector — B fica univocamente determinado, mas o mesmo não


sucede com A, quando B é conhecido. De facto, pode adicionar-se a A qualquer vector
cujo rotacional seja zero sem que tal afecte o campo fı́sico B . De resto, uma situação algo
semelhante ocorre também para o potencial escalar V introduzido na Secção 2.1. Pode sempre
somar-se a V uma função escalar cujo gradiente seja nulo (em particular uma constante
qualquer) que isso não altera o campo fı́sico E . (Vimos mesmo, na Secção 2.1, que se podia
arbitrar a origem do potencial.)
Equações de Maxwell •
15

Vejamos, então, qual a forma geral do potencial A do qual “deriva” o campo de indução
magnética. A Eq. (2.23) pode ser escrita na forma
Z µ ¶
µ 1
B= 0 ∇ × j (r 0 ) dv ,
4π v a
tendo-se usado (2.28). A expressão (B.40) permite escrever
µ ¶ µ ¶
1 1 1
∇ ×j =∇× j − ∇×j.
a a a
A última parcela é nula, uma vez que o cálculo do rotacional envolve derivadas em ordem a
(x, y, z) e a função vectorial j só depende do conjunto de variáveis (x0 , y 0 , z 0 ). Assim,
Z · Z ¸
µ0 j (r 0 ) µ0 j (r 0 )
B= ∇× dv = ∇ × dv , (2.30)
4π v a 4π v a
onde se usou novamente o facto de o operador nabla, por actuar em funções das coorde-
nadas (x, y, z), poder passar para fora do integral [as variáveis sobre as quais se integra são
(x0 , y 0 , z 0 )]. Comparando (2.30) com (2.29) conclui-se que
Z
µ0 j (r 0 )
A(r ) = dv . (2.31)
4π v a
Se as correntes forem superficiais (κ é a densidade superficial de corrente),
Z
µ κ(r 0 ) dS
A(r ) = 0 . (2.32)
4π S a
Quando a corrente é filamentar tem-se
I
µ i dl
A(r ) = 0 , (2.33)
4π C a
uma vez que a corrente i é a mesma em qualquer ponto do circuito.
A lei de Biot-Savart também permite obter a chamada lei dos circuitos de Ampère. Inte-
grando o campo de indução magnética ao longo de um contorno fechado qualquer e aplicando
o teorema de Stokes, tem-se
I Z
B · dl = ∇ × B · dS . (2.34)
C S

Para determinar o rotacional do campo B vamos usar (2.29) e (2.31). De (B.41),

∇ × B = ∇ × (∇ × A) = ∇(∇ · A) − ∇2 A, (2.35)

tendo, pois, de se determinar a divergência e o laplaciano do potencial vector A. Consider-


emos, de momento, um regime estacionário, o qual corresponde a uma situação em que não
há dependências temporais nem na densidade de carga, nem na densidade de corrente. A
equação de continuidade que, em geral, se escreve
∂ρ
+∇·j =0 (2.36)
∂t
reduz-se a
∇ · j = 0, (2.37)
16 •
Campo electromagnético

dado que, na situação que estamos a considerar, o primeiro termo no membro esquerdo de
(2.36) é nulo. O significado fı́sico da equação anterior é claro: as linhas de corrente fecham-se
sobre si próprias. Se atendermos agora, por um lado, à Eq. (2.12) para o potencial escalar V
e à expressão que se obtém para o seu laplaciano [Eq. de Poisson (2.15)], e, por outro lado, à
forma semelhante a (2.12) de cada uma das componentes de A [ver (2.31)], podemos concluir
que cada uma dessas componentes terá de obedecer a equações de Poisson semelhantes a
(2.15). Numa notação compacta,
∇2 A = −µ0 j . (2.38)
Vejamos finalmente o valor da divergência de A a fim de retomarmos (2.35). Aplicando o
operador ∇ a (2.31),
Z · µ ¶¸
µ ∇ · j (r 0 ) 1
∇·A= 0 + j (r 0 ) · ∇ dv .
4π v a a
A primeira parcela do segundo membro é nula porque ∇ não actua nas coordenadas r 0 ; na
segunda parcela pode fazer-se a seguinte substituição
µ ¶ µ ¶ µ ¶ µ ¶
1 1 0 1 0 1
∇ =∇ = −∇ = −∇ , (2.39)
a |r − r 0 | |r − r 0 | a
onde o operador ∇0 actua nas coordenadas r 0 . Integrando por partes, reescreve-se o termo
resultante na seguinte forma:
·Z µ ¶ Z ¸
µ j (r 0 ) ∇0 · j (r 0 )
∇·A=− 0 ∇0 · dv − dv .
4π v a v a
A última parcela é nula atendendo a que estamos a considerar um regime estacionário, pelo
que (2.37) se verifica. Aplicando o teorema de Gauss à primeira parcela,
I
µ0 j (r 0 )
∇·A=− · dS = 0 .
4π S a
A igualdade a zero verifica-se porque as correntes estão limitadas no espaço, o que significa
que j = 0 sobre a superfı́cie S ou então j é tangente à superfı́cie S, sendo, por isso, nulo o
fluxo através de S. Usando este resultado e o expresso por (2.38) na Eq. (2.35), obtém-se
∇ × B = µ0 j , (2.40)
que é a forma local da lei dos circuitos de Ampère. A forma integral desta lei é obtida a
partir de (2.34): I Z
B · dl = µ0 j · dS . (2.41)
C S

O conjunto de Eqs. (2.10), (2.14), (2.26) e (2.40) são as equações de Maxwell no vazio
para o regime estacionário.
É útil escrever essas equações em superfı́cies de descontinuidade:
σ
divS E = n̂ · (E2 − E1 ) = (2.42)
²0
rotS E = 0 (2.43)
divS B = 0 (2.44)
rotS B = n̂ × (B2 − B1 ) = µ0 κ . (2.45)
O versor n̂ é normal à superfı́cie de separação dos meios 1 e 2 e aponta para o lado 2;
E2 , B2 e E1 , B1 são os campos junto à superfı́cie nos meios 2 e 1, respectivamente; σ é a
densidade superficial de carga e κ é a densidade superficial de corrente sobre a superfı́cie de
descontinuidade.
Vamos considerar exemplos de distribuições estacionárias de correntes e obter os campos
de indução magnética resultantes.
Equações de Maxwell •
17

Exemplo 2.3: Condutor infinito percorrido por corrente distribuı́da uniforme-


mente

i C 1
d z
S 1

r
h

S 2

Figura 2.6. Esquema para a determinação de B produzido


por uma corrente num condutor rectilı́neo e infinito.

Consideremos um fio condutor muito longo de raio a percorrido por uma corrente i
uniformemente distribuı́da (Figura 2.6). A densidade de corrente é
i
j = j êz = êz .
π a2
Vamos procurar a solução para o campo B usando coordenadas cilı́ndricas, atendendo à
simetria axial do problema. Em termos das suas componentes, o campo de indução magnética
escreve-se
B (r, φ, z) = Br (r, φ, z)êr + Bφ (r, φ, z)êφ + Bz (r, φ, z)êz .
Por simetria, B não pode depender de φ nem de z, quer dizer

B (r) = Br (r) êr + Bφ (r) êφ + Bz (r) êz . (2.46)

A Eq. (2.26), quando aplicada ao campo dado por (2.46), permite concluir que
1d C
(rBr ) = 0 ⇒ Br = .
r dr r
Ora, o campo B é uma quantidade fı́sica e portanto nunca poderá tornar-se infinito, de onde
se conclui que a constante C deve ser nula, senão B divergiria na origem.
Poderı́amos ter chegado à mesma conclusão partindo da lei do fluxo (2.25). Considerando
como superfı́cie auxiliar a superfı́cie cilı́ndrica de raio r > a e altura h (bases S1 e S2 e
superfı́cie lateral SL ), coaxial com o tubo de corrente, como se indica na Figura 2.6,
I Z Z Z
B · dS = BL · dS + B1 · dS + B2 · dS
S SL S1 S2
Z
= Br (r) dS = 2 π r h Br (r) = 0 , (2.47)
SL
18 •
Campo electromagnético

onde se teve em conta o facto de os integrais estendidos a S1 e a S2 terem valores simétricos,


uma vez que B não depende de z. A Eq. (2.47) confirma que
Br (r) = 0.
Consideremos agora a lei dos circuitos de Ampère aplicada ao contorno C1 situado num
plano vertical contendo o eixo do cilindro, como se mostra na Figura 2.6. Tem-se
I
B · dl = 0 → Bz (r) dz − Bz (r0 ) dz = 0
C1

e, supondo B (r0
→ ∞) = 0, vem Bz (r) dz = 0, ou seja, Bz (r) = 0.
O campo B é então da forma B = Bφ (r) êφ , sendo a sua expressão obtida recorrendo
de novo à lei dos circuitos de Ampère. Consideremos os caminhos C1 e C2 , indicados na
Figura 2.7, para o cálculo do campo em pontos interiores e pontos exteriores à distribuição,
respectivamente.

i
C 1

C 2

B B

Figura 2.7. Contornos C1 e C2 adequados ao cálculo do campo


no Exemplo 2.3.

Para r < a
i
Bφ (r) 2 π r = µ0 π r2 ,
π a2
ou seja,
ir
Bφ (r) = µ0 êφ .
2 π a2
Para r > a
B(r) 2 π r = µ0 i ,
de onde resulta
µ0 i
B (r) = êφ . (2.48)
2πr
Estes resultados foram obtidos tendo em conta que, sobre os caminhos escolhidos, o campo
de indução magnética mantém constante a sua grandeza, e B é paralelo em cada ponto à
tangente ao caminho.
Equações de Maxwell •
19

Exemplo 2.4: Solenóide infinito


De novo recorremos às equações de Maxwell, quer na sua forma local, quer na sua forma
integral, para obter o campo de indução magnética criado por um solenóide infinito. Este
sistema é, na prática, um enrolamento compacto de espiras circulares cujo raio, a, é muito
pequeno em comparação com o comprimento L do solenóide. Dada a simetria da distribuição
de correntes, o problema resolve-se adequadamente em coordenadas cilı́ndricas, podendo
desde logo notar-se que B é, em todo o espaço, independente das coordenadas z e φ, pelo
que o campo de indução magnética tem a forma dada pela Eq. (2.46).

z
a i

C 1
S
h

Figura 2.8. Esquema utilizado para o cálculo do campo


produzido por um solenóide infinito.

De modo análogo ao que atrás se discutiu, podemos usar a lei do fluxo, aplicando-a à
superfı́cie cilı́ndrica fechada de raio r e altura h, indicada por S na Figura 2.8. Designando
por S1 e S2 as superfı́cies das bases e por SL a superfı́cie lateral,
I Z Z Z
B · dS = BL · dS + B1 · dS + B2 · dS
S SL S1 S2
Z
= Br (r) dS = 2 π r h Br (r) = 0 ,
SL

uma vez que, sendo B independente de z, a segunda e a terceira parcelas do segundo membro
são simétricas. O resultado do cálculo anterior permite concluir que

Br (r) = 0 .

Consideremos agora a lei dos circuitos de Ampère aplicada ao contorno circular C1 de raio
r > a situado no plano perpendicular ao eixo do solenóide:
I I
B · dl = Bφ (r) r dφ = 2 π r Bφ (r) = 0 ,
C1 C1

onde se fez uso do facto de o campo ser independente de φ e de o fluxo de corrente através
da superfı́cie aberta que se apoia em C1 ser nulo. Pode concluir-se que Bφ = 0 em todo o
espaço, pois o resultado anterior é independente do raio r do contorno escolhido.
O campo B será, em princı́pio, da forma B = Bz (r)êz .
Vejamos agora o campo em pontos interiores, r < a. A equação local (2.40) escreve-se,
neste caso,
∂Bz
− êφ = 0,
∂r
20 •
Campo electromagnético

uma vez que as correntes se distribuem sobre a superfı́cie do solenóide; assim, o campo
no interior tem um valor constante Bz = C; usando exactamente os mesmos argumentos,
concluı́mos que Bz no exterior também tem de ser constante. Pela lei de Biot-Savart o
campo criado num ponto infinitamente afastado do eixo do solenóide (r → ∞) é nulo. Assim,
o campo de indução magnética é nulo em todo o espaço fora do solenóide: Bext → 0. A
expressão de B no interior é obtida usando a Eq. (2.45)
rotS B = êr × (0 − Cêz ) = Cêφ = µ0 κ = µ0 n i êφ , (2.49)
em que n = N/L designa o número de espiras por unidade de comprimento.
Podemos então escrever, para r < a,
B = µ0 n i êz ; (2.50)
e, para r > a,
B=0. (2.51)

Exemplo 2.5: Força entre duas correntes paralelas


Consideremos dois fios rectilı́neos, muito longos, percorridos por correntes de intensidades
i1 e i2 , respectivamente, como mostra a Figura 2.9. Pretende-se determinar a força que um
fio exerce sobre o outro.

i1
i2

e^ z

d e^ f
d l
e^ r

1
2

Figura 2.9. Fios paralelos percorridos por correntes i1 e i2 , à


distância d um do outro.

O fio 1 produz um campo de indução magnética que é dado por (2.48):


µ0 i1
B1 = êφ . (2.52)
2πr
De acordo com a lei de Laplace [ver Eq. (2.24)], a força que o campo B1 exerce sobre
cada elemento de comprimento do condutor 2 é dada por
µ0 i1 i2 dl
dF = i2 dl êz × B1 = êz × êφ
2πd
µ0 i1 i2 dl
= − êr .
2πd
Equações de Maxwell •
21

A intensidade da força por unidade de comprimento é, então,


dF µ0 i1 i2
= , (2.53)
dl 2πd
que é também igual à intensidade da força por unidade de comprimento que o condutor 2
exerce sobre o condutor 1. Os dois fios atraem-se se as correntes tiverem o mesmo sentido e
repelem-se se tiverem sentidos opostos.
A Eq. (2.53) é utilizada para definir o ampere (unidade de corrente eléctrica no SI).

2.3 REGIME NÃO ESTACIONÁRIO E CORRENTE


DE DESLOCAMENTO DE MAXWELL

Vimos na Secção 2.2 como se relaciona o campo de indução magnética com as correntes
que o criam. E se o regime não for estacionário? E se houver dependências temporais nas
densidades de carga e de corrente? Neste caso há, para além de uma dependência espacial,
uma dependência temporal nos campos eléctrico e de indução magnética.
A lei de Faraday, por exemplo, refere-se a situações em que há uma dependência temporal
do fluxo do campo de indução magnética B através de uma superfı́cie aberta S:
Z
φ= B · dS . (2.54)
S

A variação temporal deste fluxo induz uma força electromotriz, Ei , num circuito fechado C
no qual se apoia a superfı́cie aberta S. Em termos quantitativos, essa força electromotriz é
dada por

Ei = − , (2.55)
dt
equação que exprime a lei de Faraday. O sinal negativo traduz a lei de Lenz, segundo a qual
a corrente induzida no circuito C vai, ela própria, estar na origem de um campo de indução
magnética (campo induzido) cujo fluxo, através de S, tem uma variação temporal que se opõe
à variação de φ. As leis de Faraday e de Lenz são, à semelhança das outras leis que temos
vindo a rever, puramente experimentais, isto é, a sua validade assenta na sua verificação
experimental.
A força electromotriz induzida pode ser escrita como a circulação do campo eléctrico ao
longo do contorno C, pelo que, de (2.54) e (2.55), se obtém
I Z
d
E · dl = − B · dS ,
C dt S

que é a forma integral da lei de Faraday. A aplicação do teorema de Stokes ao primeiro


membro conduz à forma diferencial da lei de Faraday:

∂B
∇×E =− .
∂t

É esta equação de Maxwell que exprime a fı́sica que está na base do funcionamento de
componentes tão importantes como os geradores e os transformadores. Note-se que, no caso
estático, a equação anterior reduz-se à Eq. (2.10).
No caso não estacionário, também a Eq. (2.40) tem de ser modificada. Calculando a
divergência de ambos os membros desta equação vectorial, verifica-se que o primeiro se anula
22 •
Campo electromagnético

trivialmente.
O segundo membro fica, simplesmente, µ0 ∇ · j , que só se anula no caso estacionário [situação
que corresponde a (2.37)]. Assim, terá de se incluir no segundo membro de (2.40) um novo
termo cuja divergência seja o simétrico de µ0 ∇ · j . Maxwell verificou que esse termo era
²0 µ0 ∂ E /∂t. De facto, se em vez da Eq. (2.40) se considerar

∂E
∇ × B = µ0 j + ²0 µ0 , (2.56)
∂t

verifica-se que a divergência do segundo membro (tal como a do primeiro) se anula:

· ¸ · ¸
∂∇ · E ∂ρ
µ0 ∇ · j + ²0 = µ0 ∇ · j + = 0.
∂t ∂t

A igualdade a zero resulta da equação de continuidade que relaciona a densidade de carga,


ρ, com a densidade de corrente, j [ver (2.36)]. A expressão ²0 ∂ E /∂t é a corrente de deslo-
camento de Maxwell e a necessidade da sua introdução tem um significado fı́sico claro: sem
esse termo não poderia haver conservação local da carga eléctrica expressa pela equação de
continuidade.

Claro que a Eq. (2.56) poderia ter sido obtida formalmente a partir de (2.31) e de (2.35).

2.4 AS EQUAÇÕES DE MAXWELL E A FORÇA DE LORENTZ

Em resumo, no vazio, as equações de Maxwell podem ser escritas na forma:

ρ
∇·E = (2.57)
²0
∂B
∇×E = − (2.58)
∂t
∇·B = 0 (2.59)
∂E
∇ × B = µ0 j + ²0 µ0 . (2.60)
∂t
Equações de Maxwell •
23

Na forma integral, estas equações escrevem-se:


I Z
1 Q
E · dS = ρ dv = (2.61)
S ² 0 v ² 0
I Z
d
E · dl = − B · dS (2.62)
I C dt S

B · dS = 0 (2.63)
S
I Z µ ¶
∂E
B · dl = µ0 j + ²0 · dS . (2.64)
C S ∂t

Faz-se notar que a equação integral (2.62) é mais geral do que a equação diferencial (2.58), a
qual só é aplicável quando B varia no tempo. Se a superfı́cie S variar no tempo, há ainda uma
variação temporal do fluxo do campo de indução magnética (mesmo que B seja estacionário)
e, neste caso,
é (2.62) que se deve aplicar.
Recorde-se, também, que quando uma carga eléctrica q se desloca, com velocidade v ,
numa região do espaço onde existem campos eléctrico e de indução magnética fica sujeita a
uma força (força de Lorentz), que é dada por

F = q (E + v × B ) . (2.65)

Como exemplos de aplicação da força de Lorentz vamos considerar duas experiências


históricas: a experiência de Thomson e a experiência de Hall.

Exemplo 2.6: Experiência de Thomson


A determinação experimental da razão carga/massa do electrão, realizada por J. J. Thom-
son em 1897, marca a descoberta do electrão. Conceptualmente, a experiência baseia-se no
efeito que os campos eléctricos e magnéticos exercem sobre partı́culas carregadas e, por isso, é
um exemplo apresentado frequentemente para ilustrar a aplicação da força de Lorentz (2.65).
O dispositivo experimental utilizado, conhecido por tubo de raios catódicos, está representado
esquematicamente na Figura 2.10.

+ E , B

F
P

-
V

Figura 2.10. Tubo de raios catódicos usado na experiência de


Thomson.

Há um filamento F que, depois de aquecido, liberta electrões cuja velocidade, em geral
pequena, se pode aumentar estabelecendo uma diferença de potencial V entre P e F. A
24 •
Campo electromagnético

placa metálica P tem uma pequena abertura que permite colimar o feixe de electrões. Estes
entram a seguir numa região entre duas placas metálicas deflectoras indo, finalmente, embater
num écran fluorescente (a fluorescência do écran permite determinar visualmente o ponto de
impacto).
Na região entre as placas pode estabelecer-se um campo eléctrico, de intensidade E (con-
trolável externamente) que aponta para baixo, e um campo de indução magnética de intensi-
dade B (também controlada externamente) e que aponta para dentro do plano do papel. Sob
a acção do campo eléctrico, o feixe de electrões sofre um desvio na sua trajectória, devido à
força vertical, dirigida para cima, que sobre eles se exerce, passando a descrever uma parábola
(no plano da Figura 2.11). O campo de indução magnética, quando presente, exerce uma
força sobre os electrões que é ainda vertical mas que aponta para baixo. As intensidades E
e B dos campos podem ser escolhidas de modo a que a força resultante que se exerce sobre
cada electrão seja nula (despreza-se a força de interacção mútua entre os electrões do feixe e
a força gravı́tica). Nestas condições a trajectória das partı́culas passa de novo a ser rectilı́nea
[Figuras 2.10 e 2.11)].

y
y
L E E B
x
(a ) (b ) (c )

Figura 2.11. Placas deflectoras na experiência de Thomson.


(a) Ausência de campos; (b) apenas campo eléctrico aplicado;
(c) campos eléctrico e de indução magnética aplicados.

Experimentalmente, consideram-se três situações distintas: (a) ausência de campos aplica-


dos; (b) apenas campo eléctrico aplicado; (c) campo eléctrico e campo de indução magnética
aplicados. Na Figura 2.11 representam-se as placas deflectoras, de comprimento L, e cada
uma destas situações. Em qualquer das situações, o movimento das cargas segundo o eixo x é
rectilı́neo e uniforme, pois a componente da força nessa direcção é nula (quer haja, quer não
campos aplicados). O tempo que um electrão demora a passar entre as placas é t = L/v0 ,
sendo v0 a sua velocidade à saı́da do colimador (ou, por outras palavras, à entrada das pla-
cas). Na situação (b), a partı́cula fica sujeita a uma força constante na direcção do eixo y,
dada em módulo por F = e E, sendo e o módulo da carga do electrão. Segundo esse eixo,
o movimento é uniformemente acelerado, com aceleração a = e E/m, onde m é a massa do
electrão. Nestas condições os electrões descrevem uma trajectória parabólica na região entre
as placas deflectoras e a distância y indicada na Figura 2.11 (b) é dada por

1 2 e E L2
y= at = . (2.66)
2 2 m v02

O valor de y pode ser medido experimentalmente a partir da posição do ponto de impacto


do feixe no écran fluorescente e do conhecimento das dimensões do tubo. Mantendo o mesmo
campo eléctrico e ligando agora o campo de indução magnética [situação (c)], este pode ser
ajustado de tal modo que o desvio da trajectória dos electrões seja nulo quando atravessam
as placas [tal como em (a)]. Usando a expressão (2.65) da força de Lorentz e impondo a
Equações de Maxwell •
25

igualdade da força eléctrica e magnética, e E = e B v0 , conclui-se que v0 = E/B. Inserindo


em (2.66), encontra-se a expressão
e 2yE
= 2 2.
m L B
Esta expressão pode ser usada para obter experimentalmente o valor da razão carga/massa
do electrão (ou de qualquer outra partı́cula carregada).

Exemplo 2.7: Efeito Hall


A Figura 2.12 representa um bloco de material condutor, de condutividade σ, fixo no
espaço. Sob a acção do campo eléctrico, E (direcção y), estabelece-se uma densidade de
corrente de condução
j = ρv, (2.67)
cujo fluxo através da secção recta do condutor é a intensidade de corrente i [ver Eq. (2.22)].
A relação entre a densidade de corrente j e o campo eléctrico E é

j = σE.

h E
v
j
0
y
x B

Figura 2.12. Condutor para verificar o


efeito Hall.

Sob a acção do campo eléctrico, as cargas negativas (electrões) deslocam-se para a es-
querda do condutor2 . Consideremos que se aplica um campo de indução magnética estático
e uniforme segundo o eixo x. Sob a acção deste campo, os electrões ficam sujeitos à força
magnética Fm = q v × B , que aponta no sentido de −z (note-se que q = −e < 0). Devido a
esta força, as partı́culas de carga negativa são desviadas para baixo, contribuindo para uma
acumulação de cargas deste tipo na face inferior do condutor (plano xy). Concomitantemente,
há uma acumulação de cargas positivas na face superior (plano z = h) do condutor. Estas
acumulações de cargas dão origem a uma diferença de potencial entre as duas faces (diferença
de potencial de Hall), e o correspondente campo eléctrico é vertical, apontando no sentido
de −z. Sob a acção deste campo, que vamos designar por E 0 = −E 0 k̂, as cargas eléctricas
no condutor ficam também sujeitas a uma força vertical, dirigida de baixo para cima, que
2
O efeito de uma corrente de cargas negativas é equivalente, muitas vezes, ao de uma corrente de cargas
positivas deslocando-se em sentido oposto. O efeito Hall, como veremos, permite distinguir as duas situações.
26 •
Campo electromagnético

tende a equilibrar a força magnética. Este é o chamado efeito Hall, descoberto em 1879 pelo
norte-americano Edwin H. Hall. Quando as forças eléctrica e magnética se igualam, tem-se,
da Eq. (2.65),
E0 = v B . (2.68)
O campo eléctrico pode ser medido experimentalmente, de forma indirecta através da
diferença de potencial de Hall, V , pois E 0 = V /h.
Sabemos hoje que, nos metais, a corrente eléctrica é devida aos electrões, pelo que a face
superior do condutor fica a um potencial mais elevado do que a face inferior. Se as cargas
em movimento que estão na origem da corrente eléctrica fossem positivas, ter-se-ia a situação
contrária. De resto, é este o caso em alguns semicondutores e foi justamente o efeito Hall que
permitiu chegar a essa conclusão.
Combinando as expressões (2.68) e (2.67), podemos escrever
E0 1
= , (2.69)
jB nq
tendo-se usado ρ = n q, em que n é o número de cargas por unidade de volume do material
condutor. A razão 1/(n q) é conhecida por coeficiente de Hall e é uma caracterı́stica do
material.
Conhecidos j (a corrente), B (o campo de indução magnética aplicado) e E 0 (através
da diferença de potencial medida), pode conhecer-se a estrutura do material, ou seja, o seu
coeficiente de Hall. Por outro lado, conhecidos j, E 0 e o coeficiente de Hall, a expressão (2.69)
permite conhecer o campo de indução magnética B. É esta, precisamente, a função de uma
“sonda de Hall”, que pode ter dimensões muito reduzidas. Claro que, antes de ser utilizada,
a sonda tem de ser “calibrada” com campos de indução magnética conhecidos, isto é, o seu
coeficiente de Hall tem de ser conhecido.

2.5 EQUAÇÕES PARA OS POTENCIAIS

A equação de Maxwell (2.58) implica a generalização da Eq. (2.9), que relaciona o potencial
escalar com o campo eléctrico no caso estático. Assim, usando (2.29) no segundo membro da
Eq. (2.58), conclui-se que é a quantidade E + ∂ A/∂t (e não apenas o campo eléctrico) que
se pode exprimir como o gradiente de uma função escalar, isto é,
∂A
E = −∇V − , (2.70)
∂t
A a contribuição não conservativa para E . A equação anterior, a par da Eq. (2.29)
sendo − ∂∂t
que aqui reescrevemos,
B = ∇ × A, (2.71)
permitem determinar os campos fı́sicos E e B a partir dos potenciais V e A. Surge aqui
um ponto muito interessante. Constata-se que a escolha destes potenciais não é única, isto
é, há vários conjuntos de pares de potenciais (escalar e vector) que conduzem aos mesmos
campos eléctrico e de indução magnética. Considere-se o par (V, A), a que correspondem
os campos fı́sicos obtidos a partir de (2.70) e de (2.71). Se alterarmos V e A, juntando ao
segundo o gradiente de uma função escalar χ e subtraindo ao primeiro a derivada temporal
dessa mesma função, isto é, se considerarmos os novos potenciais (V 0 , A0 ) que se relacionam
com os anteriores através de
∂χ
V0 =V − (2.72)
∂t
Equações de Maxwell •
27

A0 = A + ∇χ, (2.73)
os campos E 0 e B 0 gerados pelos novos potenciais coincidem com os anteriores:
µ ¶
∂χ ∂A ∂
E 0 = −∇V + ∇ − − ∇χ = E
∂t ∂t ∂t

B 0 = ∇ × (A + ∇χ) = ∇ × A = B .
As Eqs. (2.72) e (2.73) expressam a chamada liberdade de padrão (gauge, em inglês) na
fixação dos potenciais. Esta liberdade é, de resto, uma das caracterı́sticas mais peculiares
da teoria do electromagnetismo e corresponde a uma das mais importantes simetrias que as
modernas teorias das forças fundamentais incorporam. Até se designam habitualmente por
teorias de gauge!
Vejamos quais as equações a que os potenciais electromagnéticos têm de obedecer. A
equação para o potencial V obtém-se aplicando o operador nabla a ambos os membros de
(2.70) e usando a Eq. (2.57):
∂A ρ
−∇2 V − ∇ · = . (2.74)
∂t ²0
Por outro lado, de (2.35) e de (2.60) conclui-se que

1 ∂2A 1 ∂V
∇(∇ · A) − ∇2 A = µ0 j − − 2∇ , (2.75)
c2 ∂t2 c ∂t
tendo-se utilizado (2.70) e onde
1
c2 = (2.76)
²0 µ0
é o quadrado da velocidade da luz (c = 3×108 m/s). À Eq. (2.75) pode ainda dar-se uma
outra forma: µ ¶
1 ∂2A 2 1 ∂V
− ∇ A = µ0 j − ∇ + ∇ · A . (2.77)
c2 ∂t2 c2 ∂t
Usando a liberdade de escolha do padrão, é sempre possı́vel escolher um par (V, A) que
satisfaça a equação
1 ∂V
+ ∇ · A = 0. (2.78)
c2 ∂t
Este é o chamado padrão de Lorentz. Nestas condições [frisamos bem que a condição (2.78)
não introduz nenhuma restrição na determinação dos campos E e B ] as Eqs. (2.74) e (2.77)
ficam desacopladas, passando a escrever-se nas formas

1 ∂2V ρ
∇2 V − 2 2
=− (2.79)
c ∂t ²0

1 ∂2A
∇2 A − = −µ0 j . (2.80)
c2 ∂t2
Há outras escolhas de padrão que também são habituais. Uma delas consiste em considerar
simplesmente ∇ · A = 0 e é denominada gauge de Coulomb, da radiação, ou transversa.
As Eqs. (2.79) e (2.80), obtidas na gauge de Lorentz, reduzem-se, no caso do vazio e na
ausência de fontes (ρ = 0, j = 0), a um par de equações diferenciais homogéneas,

1 ∂2V
∇2 V − =0 (2.81)
c2 ∂t2
28 •
Campo electromagnético

1 ∂2A
∇2 A − = 0, (2.82)
c2 ∂t2
cujas soluções são ondas que se propagam com velocidade c.
Também os campos E e B obedecem a equações de onda semelhantes a estas. Assim,
tomando o rotacional em ambos os membros de (2.58) e usando (2.60) e (B.41), tem-se

∂j ∂2E
∇(∇ · E ) − ∇2 E = −µ0 − µ0 ²0 2 .
∂t ∂t
Finalmente, fazendo uso de (2.57) e de (2.76), obtém-se

1 ∂2E 1 ∂j
∇2 E − 2 2
= ∇ ρ + µ0 , (2.83)
c ∂t ²0 ∂t

que é uma equação não homogénea. De modo análogo, tem-se, para o campo de indução
magnética,
1 ∂2B
∇2 B − 2 = −µ0 ∇ × j . (2.84)
c ∂t2
Na ausência de cargas e de correntes, as Eqs. (2.83) e (2.84) transformam-se em equações
homogéneas do tipo da Eq. (2.82).

2.6 PROBLEMAS RESOLVIDOS

2.6.1 Campo electrostático (coordenadas cartesianas)


Questão

Um campo de vectores é definido do seguinte modo:



 k


 ²0 ĵ para y > a



 µ ¶

E = 3 k 1 + y ĵ para 0 < y < a (2.85)
 ²0 a






 − k ĵ
²0 para y < 0 .

Verificar se pode tratar-se de um campo electrostático e determinar a distribuição de


cargas que cria este campo.

Resposta

Para que E seja um campo electrostático tem de se verificar ∇ × E = 0 [cf. Eq. (2.10)].
O rotacional do campo eléctrico em coordenadas cartesianas é (ver Apêndice B):
µ ¶ µ ¶ µ ¶
∂Ez ∂Ey ∂Ex ∂Ez ∂Ey ∂Ex
∇×E = − î + − ĵ + − k̂ .
∂y ∂z ∂z ∂x ∂x ∂y

Sendo o campo vectorial dado em (2.85) da forma E = Ey (y) ĵ em todo o espaço, o seu
rotacional é nulo e pode, pois, tratar-se de um campo electrostático.
Equações de Maxwell •
29

As distribuições volumétricas de carga são obtidas a partir de (2.14). Em coordenadas


cartesianas a divergência do campo eléctrico é (ver Apêndice B):
∂Ex ∂Ey ∂Ez
∇·E = + + .
∂x ∂y ∂z
i) Para y > a e y < 0, o campo E é constante e, portanto, ρ = 0.
ii) Para 0 < y < a, tomando a divergência de (2.85), obtém-se
3k
∇·E =
a²0
e, de ∇ · E = ρ/²0 [cf. (2.14)],
3k
ρ= .
a
As distribuições superficiais de carga são obtidas a partir da divergência superficial de E
[cf. (2.42)]:
σ
divS E = n̂ · (E2 − E1 ) = ,
²0
sendo n̂ a normal à superfı́cie; o ı́ndice 2 designa a região para onde aponta o vector unitário
e o ı́ndice 1 a outra região.
i) Carga superficial em y = 0:
· µ ¶¸
3k k
σ = ²0 ĵ · ĵ − − ĵ = 4k ,
²0 ²0

tendo-se escolhido n̂ = ĵ .
ii) Carga superficial em y = a (escolhendo também n̂ = ĵ ):
µ ¶
k 6k
σ = ²0 ĵ · ĵ − ĵ = −5k .
²0 ²0

2.6.2 Campo eléctrico com simetria cilı́ndrica — I


Questão
Um campo eléctrico é dado, em coordenadas cilı́ndricas, por
 µ ¶3



r
 E0 êr para 0 < r < a
E = a



 0 no resto do espaço.

Determinar a distribuição de cargas que cria este campo e o potencial eléctrico em todo o
espaço.

Resposta
A distribuição de carga é obtida a partir das expressões (2.14) e (2.42). Como o campo é
dado em coordenadas cilı́ndricas deve utilizar-se a expressão da divergência do campo eléctrico
em coordenadas cilı́ndricas (ver Apêndice B):
1∂ 1 ∂Eφ ∂Ez
∇·E = (r Er ) + + .
r ∂r r ∂φ ∂z
30 •
Campo electromagnético

Na questão proposta, E = Er (r)êr , pelo que a divergência do campo eléctrico é dada por
µ ¶
1d 1d E0 4 4r2
∇·E = (r Er ) = r = E0 ,
r dr r dr a3 a3

donde
r2
ρ = 4²0
E0 (2.86)
a3
na região 0 < r < a. Na região r > a o campo é nulo e ρ = 0.
A distribuição volumétrica de carga localiza-se num cilindro de raio a. A distribuição
superficial de carga sobre a superfı́cie r = a é obtida a partir da divergência superficial do
campo eléctrico dada por

n̂ · (E2 − E1 ) = êr · (0 − E0 êr ) = −E0 .

Usando (2.42) pode concluir-se que, em r = a,

σ = −²0 E0 . (2.87)

É interessante notar que as distribuições de carga (2.86) e (2.87) conduzem a uma carga
total nula para um cilindro de altura arbitrária L. A carga total nesse cilindro é
Z Z
Q= ρ dv + σ dS

e, de (2.86) e (2.87),
a Z
4²0 E0
Q = 2πL r2 r dr − 2πaL²0 E0
a3 0
= 2πaL²0 E0 − 2πaL²0 E0 = 0 .

Vamos agora obter o potencial electrostático, o qual, devido à simetria cilı́ndrica do prob-
lema, só pode depender de r. Para r > a o campo electrostático é nulo, pelo que o potencial
é constante nessa região. Para garantir que V (r → ∞) = 0 e, como o potencial é constante
no exterior, devemos considerar o potencial nulo em r = a. Na região exterior ao cilindro,

V (r) = 0 , r ≥ a.

Na região r ≤ a, podemos determinar o potencial a partir da circulação do campo eléctrico


dado (é conveniente utilizar percursos radiais nessa circulação). Assim, a circulação entre um
ponto do eixo do cilindro e um ponto à distância r deste é
Z r Z r
E E0 r4
V (0) − V (r) = E · dr = 30 r3 dr = .
0 a 0 4a3

Para garantir que V (a) = 0 terá de ser V (0) = E0 a/4. Introduzindo este valor na expressão
anterior obtém-se o potencial
" µ ¶4 #
E0 a r
V (r) = 1− , r ≤ a.
4 a
Equações de Maxwell •
31

2.6.3 Campo eléctrico com simetria cilı́ndrica — II


Questão
A região entre dois cilindros coaxiais infinitamente longos está carregada, sendo a densi-
dade de carga, expressa em coordenadas cilı́ndricas, dada por

ρ = A exp(−αr) ,

onde A e α são constantes. Calcular o campo eléctrico em todo o espaço em função dos raios
dos cilindros interno e externo, a e b respectivamente.

Resposta
Dada a simetria da distribuição de cargas, o campo eléctrico não depende de φ, nem de z.
Também, pela mesma razão, tem apenas componente radial, E (r ) = Er (r) êr . Designaremos
Er simplesmente por E. O método mais expedito para calcular o campo eléctrico em todo o
espaço consiste em aplicar a lei de Gauss expressa pela Eq. (2.13), que aqui reescrevemos:
I
Q
E · dS = , (2.88)
S ²0

onde Q é a carga no volume limitado pela superfı́cie fechada S (superfı́cie de Gauss).


Para a situação apresentada, escolhemos superfı́cies de Gauss cilı́ndricas coaxiais, cujo
eixo comum é o eixo de simetria da distribuição de cargas e cuja altura é L (esta altura é
arbitrária e os resultados não vão depender de L). Consideremos, pois, três superfı́cies de
Gauss, S1 , S2 e S3 .

C 3

C 2
a
C 1

Figura 2.13. Corte transversal do sistema referido no


Problema 2.6.3.

A Figura 2.13 mostra um corte por um plano perpendicular ao eixo de simetria, sendo
C1 , C2 e C3 as circunferências que resultam da intersecção desse plano com as superfı́cies
de Gauss, S1 , S2 e S3 . Seja r o raio de uma qualquer dessas circunferências Ci . O fluxo do
campo eléctrico [ver Eq. (2.88)] é
I
E · dS = 2πrLE . (2.89)
S
32 •
Campo electromagnético

• Região 0 < r < a


A carga na região limitada pela superfı́cie cilı́ndrica S1 é zero, pelo que

E=0 (2.90)

nessa região.

• Região a < r < b


Comecemos por calcular a carga dentro da região v2 limitada por S2 :
Z Z r
Q = ρ dv = 2πLA e−αr r dr
v2 a
·µ ¯ µ ¯ ¸
r exp(−αr) ¯¯r exp(−αr) ¯¯r
= 2πLA ¯ − ¯
−α a α2 a
· ¸
r −αr a −αa 1 −αr 1 −αa
= 2πLA − e + e − 2e + 2e . (2.91)
α α α α

Combinando (2.88), (2.89) e (2.91), o campo eléctrico vem dado por


·µ ¶ µ ¶ ¸
A 1 −αa 1 −αr
E= a+ e − r+ e . (2.92)
²0 rα α α

• Região r > b
Segue-se um procedimento análogo, mas neste caso a integração na coordenada radial
para determinar a carga [Eq. (2.91)] vai de a até b. Encontra-se para o campo elec-
trostático uma expressão parecida com (2.92), mas agora com uma dependência mais
simples em r: ·µ ¶ µ ¶ ¸
A 1 −αa 1 −αb
E= a+ e − b+ e . (2.93)
²0 rα α α
Esta dependência em 1/r é tı́pica da linha infinita carregada (ou do campo criado no
exterior por qualquer distribuição infinita de carga com simetria cilı́ndrica).

É interessante confirmar que o campo eléctrico é contı́nuo, pois não há distribuições su-
perficiais de carga. Sobre a superfı́cie r = a obtém-se E = 0 de (2.92) [cf. Eq. (2.90)]. Por
outro lado, sobre a superfı́cie r = b, as Eqs. (2.92) e (2.93) conduzem ao mesmo valor para
o campo eléctrico.

2.6.4 Campo eléctrico em coordenadas esféricas


Questão
Um campo eléctrico na região r > a é dado por

2A cos θ
Er =
r3
A sin θ
Eθ =
r3
Eφ = 0,

sendo A uma constante. Calcular a distribuição volumétrica de carga nesta região.


Equações de Maxwell •
33

Resposta
De acordo com (2.14), ρ = ²0 ∇ · E , de modo que o problema se reduz à determinação
da divergência do campo vectorial dado. Convém, evidentemente, utilizar a expressão da
divergência do campo eléctrico em coordenadas esféricas (ver Apêndice B):
1 ∂ 2 1 ∂ 1 ∂Eφ
∇·E = 2
(r Er ) + (Eθ sin θ) + .
r ∂r r sin θ ∂θ r sin θ ∂φ
O campo dado não depende de φ, pelo que a última parcela é nula. As duas primeiras
parcelas são µ ¶
1 ∂ 2 2A cos θ 1 2A cos θ
2
(r Er ) = 2
− 2 =−
r ∂r r r r4
e
1 ∂ 1 2A sin θ cos θ 2A cos θ
(Eθ sin θ) = 3
= ,
r sin θ ∂θ r sin θ r r4
donde
ρ=0
em todos os pontos da região considerada.

2.6.5 Esfera uniformemente carregada


Questão
Uma esfera de raio R está carregada com uma carga total Q uniformemente distribuı́da
no seu volume.
Determinar o potencial para todos os valores de r.

Resposta
No Exemplo 2.2 foi obtido o campo eléctrico criado por esta distribuição de cargas [ver
Eqs. (2.19) e (2.20)]:
1 Q
E= êr (r ≥ R) , (2.94)
4π²0 r2
e
1 Qr
E= êr (r ≤ R) . (2.95)
4π²0 R3
O potencial electrostático, que só depende da coordenada radial, pode ser calculado a
partir da circulação do campo eléctrico tal como no Problema 2.6.2. O potencial vem dado
por
Q
V (r) = (r ≥ R) (2.96)
4π²0 r
" µ ¶2 #
Q r
V (r) = 3− (r ≤ R) . (2.97)
8π²0 R R

O termo constante nesta última expressão garante a continuidade do potencial sobre a su-
perfı́cie r = R. Note-se que foi feita a escolha usual, limr→∞ V (r) = 0. Usando a relação
∇V = −E
e tomando a expressão do gradiente em coordenadas esféricas (Apêndice B) pode o leitor
confirmar que as expressões obtidas para o potencial são consistentes com as indicadas para
o campo eléctrico [Eqs. (2.94) e (2.95)].
34 •
Campo electromagnético

2.6.6 Campo criado por um plano de corrente uniforme


Questão
Calcular o campo de indução magnética em todo o espaço criado por uma densidade de
corrente uniforme que percorre um plano infinito.

Resposta
Considere-se que o plano de correntes é o plano xy e, portanto, que o eixo z é perpendicular
a esse plano. Seja κ = κ ĵ a densidade superficial de corrente. O campo de indução magnética
não pode depender nem de x nem de y, pois a distribuição de correntes é infinita segundo
essas direcções. Eventualmente, poderá depender de z, ou seja, da distância ao plano. Assim,

B (r ) = Bx (z) î + By (z) ĵ + Bz (z) k̂ . (2.98)

De acordo com a lei de Biot-Savart, o campo elementar dB produzido por um elemento


de corrente dl0 é perpendicular a este. Logo, o campo não pode ter componente segundo
y (a direcção da corrente superficial). Por outro lado, a divergência do campo de indução
magnética é nula, ∇ · B = 0 [cf. Eq. (2.26)] e, dada a forma (2.98), conclui-se que Bz tem
de ser constante. Usando argumentos de simetria, é fácil concluir que esta constante é nula.
Assim, consideremos um ponto P de coordenadas (X, Y, Z). As correntes no semiplano x > X
criam em P um campo B cuja componente segundo z é anulada pelas correntes no semi-plano
x < X, resultando um campo de indução magnética paralelo ao plano de correntes.

k 2
x
k 1
d B
d B 1

d B 2
P
z

Figura 2.14. Campo de indução magnética criado por plano


de correntes.

Na Figura 2.14 representam-se esquematicamente os campos criados num ponto P (0, 0, Z)


por duas correntes localizadas simetricamente relativamente ao eixo y. O campo (infinites-
imal) produzido por estas correntes é paralelo ao plano xy, o mesmo se verificando para
quaisquer duas correntes localizadas simetricamente em relação ao eixo y. Como o plano de
correntes é infinito, as razões aduzidas mantêm-se válidas para qualquer ponto, independen-
temente da sua localização. Desta discussão conclui-se que

B = Bx (z) î .
Equações de Maxwell •
35

Exploremos agora a Eq. (2.45) em z = 0:


rotS B = n̂ × (B2 − B1 ) = µ0 κ .

Escolhendo n̂ = k̂, se fizermos B2 = B î em z = 0+ , então B1 = −B î em z = 0− e a


equação anterior reduz-se a
2 B = µ0 κ ,
donde se obtém a grandeza do campo,
κ µ0
B= , (2.99)
2
junto ao plano de correntes.

C
B
D
L
A z

Figura 2.15. Contorno ABCDA adequado ao cálculo da


circulação
do campo de indução magnética. Esse contorno é paralelo ao
plano xz.

Considere-se, por fim, a circulação de B ao longo de um rectângulo horizontal (paralelo ao


plano xz, como mostra a Figura 2.15). Esta circulação é nula, pois não há fluxo de corrente
através da superfı́cie que se apoia no contorno considerado. Os lados do rectângulo paralelos
ao plano de corrente têm comprimento L e os lados perpendiculares comprimento arbitrário.
A circulação de B ao longo destes dois lados é nula, porque B é perpendicular ao versor k̂
(direcção da circulação). Sendo L o comprimento comum dos segmentos AB e CD, B 0 o valor
do campo de indução magnética em cada ponto do segmento AB e B 00 o valor do campo no
segmento CD, a circulação ao longo do contorno escolhido reduz-se a
B 0 L − B 00 L = 0 → B 0 = B 00 ,
ou seja, o módulo do campo B não depende da distância ao plano de correntes.
Podemos, então, concluir que o campo B é constante, tanto nas regiões z > 0, como z < 0,
sendo o seu valor dado por (2.99). Teremos, pois,

κ µ0
B = − î para z < 0
2
κ µ0
B = î para z > 0 .
2
36 •
Campo electromagnético

2.6.7 Distribuição de correntes entre planos paralelos


Questão

Considerar uma distribuição de correntes de densidade uniforme, j = j0 k̂, entre duas


superfı́cies planas infinitas perpendiculares ao eixo x e situadas à distância a uma da outra.
Calcular o campo de indução magnética em todo o espaço.

Resposta

Em regime estacionário o campo de indução magnética e as correntes volumétricas que o


produzem relacionam-se através da Eq. (2.40), que aqui reescrevemos:

∇ × B = µ0 j . (2.100)

A direcção do campo produzido é identificada explorando algumas simetrias do problema.


Sabemos que o campo tem de ser perpendicular às correntes que o originam e, por isso,
na situação concreta que estamos a estudar, o campo só pode estar no plano x y, já que a
corrente tem a direcção do eixo z.

B j
j
a /2
B j
y
a /2 B

D n ^

C
x
A B B

Figura 2.16. Esquema da distribuição de correntes do


Problema 2.6.7.

A Figura 2.16 mostra um esquema da situação descrita no enunciado, tendo-se considerado


a origem dos eixos no ponto médio do segmento perpendicular aos dois planos infinitos. A
Figura 2.17 mostra a situação em estudo segundo um corte por um plano horizontal (por
exemplo, o plano z = 0). O campo criado em qualquer ponto, P1 , do eixo y (x = 0) é nulo.
Compreende-se que assim seja pois a distribuição de correntes é simétrica relativamente a
este ponto, quer no sentido positivo, quer no sentido negativo do eixo x, do eixo y e do eixo z.
Como se depreende da Figura 2.17, para pontos P2 da região − a2 < x < 0 o campo é paralelo
ao eixo y e aponta no sentido negativo deste eixo.
Na zona 0 < x < a2 , o campo continua a ser paralelo a y, mas aponta agora no sentido
positivo de y. O campo de indução magnética só tem, pois, componente segundo a direcção
Equações de Maxwell •
37

- a /2
P
B
2

P 1

y
P 3
B

a /2
D C
x
A B

Figura 2.17. Corte transversal da distribuição de correntes


do Problema 2.6.7.

y. Por outro lado, só pode depender da coordenada x (a distribuição é infinita segundo y e
segundo z). Para B = By (x) ĵ a Eq. (2.100) escreve-se então


∇ × B = k̂ By = µ0 j0 k̂ ,
∂x
donde
dBy
= µ0 j0 ,
dx
que integrada conduz a
By (x) = µ0 j0 x .
A constante que vem da integração da equação diferencial é nula, pois só assim se garante
que By (x = 0) = 0.
Em termos vectoriais
a a
B = µ0 j0 x ĵ , − ≤x≤ .
2 2
Para determinar o campo fora do domı́nio onde há correntes considere-se o contorno
ABCDA indicado nas figuras 2.16 e 2.17, e a equação integral correspondente à lei difer-
encial (2.100): I
B · dl = µ0 i , (2.101)
C
onde i é a corrente que flui através de uma superfı́cie que se apoia no contorno fechado
C. Fora da região onde há correntes o campo continua a ter a direcção de y, como se
pode comprovar utilizando os mesmos argumentos de simetria expressos acima (que são os
argumentos utilizados também no problema anterior). A circulação do campo de indução
magnética ao longo de ABCDA é nula, pois i = 0. Por outro lado, a circulação ao longo de
BC e de DA é zero, dado que o campo tem a direcção do eixo y e a circulação se faz ao longo
do eixo x. Deste modo, a circulação do campo ao longo do lado AB terá de ser simétrica
da circulação ao longo do lado CD. Como estes lados têm igual comprimento, o campo B
terá de ter o mesmo valor sobre cada um deles. Sendo arbitrária a distância a que cada um
38 •
Campo electromagnético

dos referidos segmentos se encontra do eixo y, podemos concluir que, fora da distribuição
volumétrica de correntes, o campo B não depende de y (em analogia com a situação do
problema anterior). Como não existe distribuição superficial de correntes, a componente
tangencial do campo de indução magnética (de resto, a única) não tem descontinuidade nos
planos x = ± a2 . Deste modo, o valor do campo nas regiões onde não há correntes é constante
e igual ao seu valor para x = ± a2 . Em resumo
a a
B = −µ0 j0 ĵ para x≤−
2 2
a a
B = µ0 j0 x ĵ para − ≤x≤
2 2
a a
B = µ0 j0 ĵ para x≥ .
2 2

2.6.8 Cilindro carregado a rodar


Questão
Um cilindro infinito de raio a tem distribuı́da no seu interior uma densidade de carga
uniforme, ρ. O cilindro roda em torno do seu eixo com velocidade angular constante, ω.
Calcular o campo de indução magnética em todo o espaço.

Resposta
A densidade de corrente devida ao movimento de rotação é

j = ρ v = ρ ω × r = ρ ω r êφ . (2.102)

O campo B não pode depender de z, pois o cilindro é infinito. Também não pode depender
do ângulo φ, pois a distribuição de correntes não depende deste ângulo. Dadas estas restrições,
o campo B só pode ter a forma

B = Br (r)êr + Bz (r)êz + Bφ (r)êφ . (2.103)

Da lei de Biot-Savart tem de se concluir que Bφ = 0, pois os elementos de corrente têm a


direcção de êφ , como mostra (2.102). Como a divergência do campo de indução magnética é
nula,
∇ · B = 0,
conclui-se, utilizando coordenadas cilı́ndricas, que
1∂ ∂Bz
(r Br ) + = 0.
r ∂r ∂z
Ora, o último termo é nulo, pois não há dependência em z, e portanto
C
Br = .
r
Esta expressão é válida tanto no interior como no exterior da distribuição, mas a constante
C não tem de ser necessariamente a mesma dentro e fora do cilindro. Do lado de dentro,
C = 0, a fim de evitar que o campo em r = 0 se torne infinito. Por outro lado, a divergência
superficial do campo B é nula, o que significa que a componente de B segundo a normal a
uma superfı́cie de separação tem de ser contı́nua. Uma vez que se tem Br = 0 no interior do
Equações de Maxwell •
39

cilindro (incluindo r = a− ), terá de ser Br = 0 para r = a+ , o que implica que, também no


exterior, C = 0. Assim, tem-se Br = 0 em todo o espaço. A expressão (2.103) reduz-se agora
a
B = Bz (r) êz . (2.104)
No interior do cilindro,
∇ × B = µ0 j = µ0 ρ ω r êφ
e, no exterior,
∇ × B = 0,
pois não há correntes. O rotacional de (2.104) em coordenadas cilı́ndricas é simplesmente

dBz
∇×B =− êφ ,
dr
uma vez que não há dependência em φ. No interior

dBz
− = µ0 ρ ω r ,
dr
donde
1
Bz = − µ0 ρ ω r2 + C0 . (2.105)
2
No exterior,
dBz
− = 0,
dr
donde
Bz = C00 .
A constante C00 tem de ser nula para que o campo seja nulo no exterior, tal como se mostrou no
Exemplo 2.4. Por outro lado, não havendo distribuições superficiais de corrente, o rotacional
superficial do campo B é nulo:

rotS B = êr × (B2 − B1 ) = 0 .

Esta expressão permite obter o valor da constante C0 em (2.105):

1
C0 = µ0 ρ ω a2 .
2
Finalmente, o campo de indução magnética em todo o espaço é dado por
1
B = µ0 ρ ω (a2 − r2 ) êz r≤a
2
B = 0 r ≥ a.

2.6.9 Cilindro com carga superficial a rodar


Questão
Sobre a superfı́cie de um cilindro infinito de raio a encontra-se distribuı́da uma carga
eléctrica com densidade uniforme σ. O cilindro roda em torno do seu eixo com velocidade
angular constante, ω. Determinar o campo de indução magnética em todo o espaço.
40 •
Campo electromagnético

Resposta
Devido ao movimento de rotação do cilindro, as cargas superficiais dão origem a correntes
superficiais, tendo-se
κ = σv.
A velocidade linear de rotação dos pontos da superfı́cie do cilindro relaciona-se com a veloci-
dade angular através de
v = ωa,
podendo escrever-se
κ = σ ω a êφ . (2.106)
Esta densidade superficial de correntes é aquela que se observa no caso de um solenóide.
Recordamos que, no caso do solenóide infinito (Exemplo 2.4), há uma densidade de corrente
superficial κ = n i êφ (n é o número de espiras por unidade de comprimento e i é a corrente)
que produz um campo de indução magnética nulo fora do solenóide e constante, igual a [cf.
Eq. (2.50)] B = µ0 n i êz (z é a direcção do eixo do solenóide), no interior. Fazendo a cor-
respondência ni → σ ω a, conclui-se que o campo produzido pelo cilindro que roda é nulo no
exterior do cilindro e no interior é constante e dado por

B = µ0 σ ω a êz . (2.107)

Formalmente, este resultado pode ser obtido a partir de (2.45) notando que (i) o campo
no exterior é nulo; (ii) no interior, junto à superfı́cie, o campo tem a direcção do eixo do
cilindro; (iii) sobre a superfı́cie lateral, n̂ = êr . Vem, então [ver (2.106)],

êr × (0 − B êz ) = µ0 σ ω a êφ ,

donde se conclui (2.107).

2.6.10 Potencial vector de um campo uniforme


Questão
Determinar o potencial vector A que dá origem a um campo uniforme B0 = B0 k̂.

Resposta
Da relação entre o potencial vector e o campo de indução magnética, B = ∇ × A [cf. Eq.
(2.29)] obtemos, usando coordenadas cartesianas,

∂Az ∂Ay
− = 0
∂y ∂z
∂Ax ∂Az
− = 0
∂z ∂x
∂Ay ∂Ax
− = B0 .
∂x ∂y

O potencial A é ortogonal a B , pelo que não pode ter componente segundo o eixo z. Fazendo
nas equações anteriores Az = 0, verifica-se que elas são satisfeitas simultaneamente se Ax e
Ay não dependerem de z.
Têm-se, de entre muitas outras, as seguintes situações possı́veis:
Equações de Maxwell •
41

a) Ax = 0 e Ay = B0 x. O potencial vector está representado num diagrama xy na


Figura 2.18 (a);
b) Ay = 0 e Ax = −B0 y. O potencial vector está representado num diagrama xy na
Figura 2.18 (b);
c) Ax = −B0 y2 e Ay = B0 x2 . As linhas equipotenciais, dadas pela equação A2x + A2y = C
estão representadas num diagrama xy na Figura 2.18 (c).

y y y

x x x

(a ) (b ) (c )

Figura 2.18. Linhas do potencial vector para campo de


indução magnética constante. Em cada linha indica-se o
vector A.

Este problema deixa clara a arbitrariedade que existe na determinação do potencial vector.
No caso considerado, esta arbitrariedade na obtenção de A reflecte a possibilidade de um
campo de indução magnética uniforme poder ser obtido numa dada região do espaço de
muitas maneiras.
De facto, o campo uniforme pode ser obtido, por exemplo, a partir de um plano de correntes
uniformes (ver Problema 2.6.6), correspondendo-lhe, neste caso, os diagramas (a) ou (b), tal
como pode ser criado por um solenóide muito longo em pontos do seu interior (Exemplo 2.4),
correspondendo, neste caso, à situação (c). A simetria de A reflecte, em cada caso, a simetria
das fontes que dão origem ao campo de indução magnética. A direcção de A é, em cada caso,
paralela à direcção das fontes.

2.6.11 Potencial vector de um solenóide infinito


Questão
Considerar um solenóide muito longo, com n espiras por unidade de comprimento, e
percorrido por uma corrente i. Calcular o potencial vector A no interior e no exterior do
solenóide.

Resposta
O potencial vector criado por uma corrente filamentar é [cf. (2.33)]
I
µ0 i dl
A= ,
4π C a
42 •
Campo electromagnético

onde C designa a linha percorrida pela corrente i, e a a distância desde um elemento de linha
d` até ao ponto onde se deseja obter o potencial. A integração faz-se sobre todos os elementos
de linha dl = d` t̂, sendo t̂ o versor tangente ao elemento de linha. No caso do solenóide, e
utilizando coordenadas cilı́ndricas, o potencial vector A tem a direcção do versor êφ .

d l1

i
d l2

Figura 2.19. Vista em corte do solenóide infinito. Sobre o


eixo do solenóide o potencial vector é nulo.

Em qualquer ponto do eixo do solenóide (ver Figura 2.19) o potencial vector é nulo, pois
a contribuição de um elemento dl de uma qualquer espira do solenóide é anulada pela do
elemento diametralmente oposto da mesma espira. As linhas equipotenciais do potencial
vector são circunferências com centro no eixo do solenóide [ver problema anterior; ao campo
constante B no interior do solenóide correspondem as linhas equipotenciais representadas na
Figura 2.18 (c)].
Usando o teorema de Stokes e atendendo à relação entre o potencial vector e o campo de
indução magnética, B = ∇ × A, pode escrever-se
I Z Z
A · dl = ∇ × A · dS = B · dS . (2.108)
C S S

Nesta expressão, S designa uma superfı́cie que se apoia em C. O campo de indução magnética
no interior do solenóide é
B = µ0 n i êz
e no exterior é nulo. Aplicando a expressão (2.108) a um contorno circular com centro no
eixo do solenóide, obtém-se:

i) No interior do solenóide,

2πrA(r) = µ0 n i π r2 ,
donde
µ0 n i r
A(r) = ;
2
ii) no exterior do solenóide,

2πrA(r) = µ0 n i π a2 ,
Equações de Maxwell •
43

donde
µ0 n i a2
A(r) = .
2r

Em sı́ntese, e em termos vectoriais,



 µ0 n i r ê r≤a

 2 φ
A= (2.109)


 µ0 n i a2
2r êφ r ≥ a.

É curioso notar que, no exterior do solenóide, o potencial varia com r, apesar de o campo
de indução magnética ser nulo nessa região.

2.6.12 Corrente variável em solenóide

Questão

Um fio condutor está enrolado uniformemente em torno de um cilindro de comprimento


L e raio a (L À a), descrevendo N espiras.
Sendo i(t) = i0 cos(ωt) a corrente que percorre o fio condutor (com i0 constante e ω desi-
gnando a frequência angular), determinar a corrente induzida numa espira quadrada de lado
` colocada no interior do solenóide num plano perpendicular ao seu eixo. A espira quadrada
tem resistência R.

Resposta

O campo de indução magnética produzido pelo solenóide infinito é [ver (2.50) e (2.51)]

 B = µ0 n i0 cos ωt êz
 r<a

 B=0 r > a,

sendo perpendicular ao plano da espira quadrada. O número de espiras por unidade de


comprimento é n = N/L. O fluxo do campo através da superfı́cie plana S que se apoia na
espira quadrada é
φ = `2 µ0 n i0 cos ωt .

A força electromotriz induzida na espira é dada pela lei de Faraday [Eq. (2.55)]


Ei = − = `2 µ0 n i0 ω sin ωt , (2.110)
dt

onde o sinal negativo exprime a lei de Lenz.


A corrente induzida, i0 (t), é dada por

Ei `2 ω µ0 n i0
i0 (t) = = sin ωt .
R R
44 •
Campo electromagnético

2.6.13 Solenóide toroidal


Questão
Um solenóide toroidal é constituı́do por um condutor enrolado em torno de um tubo de
secção rectangular, como se indica na Figura 2.20, formando N espiras.

a) Sabendo que o fio é percorrido por uma corrente de intensidade i, calcular o campo de
indução magnética no interior e no exterior do toróide;

b) Calcular o fluxo do campo de indução magnética que atravessa a área delimitada pela
espira ABCDA indicada na figura;

c) Se a intensidade da corrente variar com o tempo segundo i(t) = 2t, calcular a força
electromotriz induzida na espira ABCDA.

A B

b
a

D C

Figura 2.20. Solenóide toroidal.

Resposta
Tal como no solenóide infinito, também aqui não há campo de indução magnética na
região exterior à superfı́cie onde há distribuição de correntes e, dada a simetria do sistema,
no interior do solenóide toroidal as linhas do campo são circunferências com centro no eixo
do toróide.
Vamos determinar, em primeiro lugar, a forma do campo de indução magnética B (r ). Seja
o eixo z o eixo de simetria do sistema. A face plana inferior do toróide está no plano z = 0 e
a face plana superior no plano z = L. O campo de indução magnética não pode depender do
ângulo azimutal φ, pois há simetria axial em torno de z. Dado um ponto qualquer, considere-
se o plano vertical que passa por esse ponto e pelo eixo z. Esse plano divide o toróide em duas
partes. As correntes nas faces cilı́ndricas do toróide são paralelas ao eixo z e, por isso, pro-
duzem no ponto considerado um campo de indução magnética sem componente z. Por outro
Equações de Maxwell •
45

lado, as correntes horizontais nas faces superior e inferior já podem, em princı́pio, produzir
componentes Bz . Considerando uma face plana de cada vez, as correntes horizontais de um
dos lados do plano vertical acima referido produzem um campo de indução magnética cuja
componente vertical é exactamente anulada pela componente vertical do campo produzido
pelas correntes dispostas simetricamente do outro lado do plano. Pode pois concluir-se que
Bz = 0 e, consequentemente, em qualquer ponto do espaço, B (r ) = Br (r, z) êr + Bφ (r, z) êφ .
Esta expressão vai simplificar-se ainda mais, como veremos de seguida.
O campo de indução magnética obedece à equação ∇ · B = 0. Em coordenadas cilı́ndricas,
e não havendo dependência em φ, esta equação reduz-se a
1∂
(r Br ) = 0 ,
r ∂r
de onde se obtém
C
Br =.
r
Para r = 0 (eixo do toróide), o campo tem de permanecer finito, pelo que C = 0. Contudo,
Br = 0 não só para r < a, mas também para a ≤ r ≤ b e r ≥ b, pois a componente normal do
campo tem de ser contı́nua nas superfı́cies cilı́ndricas do toróide. Evidentemente que, para
z < 0 e z > L, também Br = 0. O campo de indução magnética tem agora a forma mais
restrita B (r ) = Bφ (r, z) êφ e as linhas de campo são circunferências com centro em pontos
do eixo z.
Vamos mostrar que, no interior do solenóide, não pode haver dependência do campo na
variável z. Considere-se o contorno MNOPM totalmente dentro do solenóide, sendo MN e
OP arcos de circunferência, de raio r, comprimento `1 e com centro no eixo z; NO e PM são
segmentos de recta verticais de comprimento arbitrário `2 (ver Figura 2.21).

N M

O
P

Figura 2.21. Contorno MNOPM no interior do solenóide. A


circulação do campo de indução magnética é nula ao longo
desse contorno.

A circulação do campo B ao longo do trajecto MNOPM é nula, pois não há fluxo de
corrente através, por exemplo, da superfı́cie cilı́ndrica delimitada por aquele contorno. Mas
a circulação de B é igual à soma das seguintes contribuições: 1) circulação em MN que é
simplesmente B`1 , sendo B o valor do campo em cada um dos pontos do arco da circunferência
considerada (recorda-se que B = Bφ (r, z) êφ ); 2) circulação nos segmentos NO e PM, a qual
é nula, pois o campo é sempre perpendicular à direcção da circulação; 3) circulação em OP,
46 •
Campo electromagnético

que é dada por −B 0 `1 , sendo B 0 o valor do campo de indução magnética em cada um dos
pontos do arco de circunferência. O sinal negativo indica que, apesar de o campo ter aqui
a mesma direcção que no trajecto MN, o sentido da circulação é agora o oposto. Daqui se
conclui que B = B 0 e, portanto, o campo não depende da coordenada z. O mesmo raciocı́nio
pode ser aplicado a um contorno cilı́ndrico do tipo do considerado mas totalmente fora do
toróide para se concluir que, em todo o espaço,

B = Bφ (r) êφ .

a) Consideremos uma das linhas do campo, uma circunferência de raio arbitrário r (a <
r < b), que vamos designar por C, e apliquemos a lei de Ampère [cf. Eq. (2.41)]
I
B · dl = µ0 itotal (2.111)
C

onde itotal é toda a corrente que flui através da superfı́cie que se apoia no contorno circu-
lar C. Todas as espiras do toróide intersectam perpendicularmente o cı́rculo delimitado
por C — ver Figura 2.22 —, pelo que a corrente total que flui através dessa superfı́cie

itotal = N i .

Figura 2.22. Vista em corte por um plano horizontal do


solenóide toroidal.

Usando este resultado em (2.111) e tendo em atenção o sentido da corrente, obtém-se

µ0 N i
B (r) = − êφ a < r < b,
2πr
expressão que é válida no interior do solenóide. Fora do solenóide B só poderá depender
de r como atrás se concluiu. Aplicando de novo a lei de Ampère e considerando uma
circunferência de raio r < a ou r > b, o primeiro membro da Eq. (2.111) fica, do mesmo
modo, 2πrB(r), mas o segundo membro anula-se. Conclui-se, então, que o campo é
nulo.
Equações de Maxwell •
47

A B

a
B L

D C

Figura 2.23. Vista em corte, pelo plano vertical que contém a


espira ABCDA, do solenóide toroidal.

b) Considere-se a Figura 2.23, onde se representa a espira ABCDA da Figura 2.20. Indica-
se o campo de indução magnética que só existe no interior do solenóide e é perpendicular
ao plano da espira ABCDA (recorda-se que AD está sobre o eixo do toróide). O fluxo
de B através da espira reduz-se ao fluxo através da área L×(b − a). Esse fluxo é dado
por
Z Z
φ = B · dS = − B dS
S S
Z b µ ¶
µ0 N iL dr µ0 N iL b
= − =− ln .
2π a r 2π a
c) A força electromotriz induzida é dada pela expressão (2.55). Tendo-se i = 2t, vem
µ ¶
µ0 N L b
Ei = ln .
π a
2.6.14 Anel em campo de indução magnética variável
Questão
Um anel condutor de raio a encontra-se numa região onde existe um campo de indução
magnética uniforme perpendicular ao plano do anel e que varia com o tempo segundo a
expressão B(t) = βt. Determinar a intensidade do campo eléctrico induzido no anel. Calcular
o seu valor quando a = 5 cm e β = 0, 1 Wb m−2 s−1 .

Resposta
A força electromotriz induzida no anel é dada pela expressão (2.55). Por outro lado, o
fluxo do campo de indução magnética através do cı́rculo (de área S = πa2 ) delimitado pelo
anel é Z
φ= B · dS = πa2 B .
S
A força electromotriz induzida é pois3

εi = − = −πa2 β . (2.112)
dt
3
Representamos a força electromotriz induzida por εi , ao contrário da notação Ei recomendada pelas normas
em vigor, para que se não confunda com o campo eléctrico, E.
48 •
Campo electromagnético

A corrente no anel e o campo eléctrico são proporcionais e, portanto, este é da forma


E = E êφ , sendo E constante. Por outro lado, a força electromotriz no anel é, por definição,
igual à circulação ao longo do anel C do campo eléctrico induzido, E :
I
εi = E · dl = 2 π a E .
C

O módulo do campo eléctrico induzido obtém-se facilmente das duas expressões anteriores:
1
|E| = aβ .
2
Os sentidos de B e de E são os indicados na Figura 2.24.

B
B
E a

Figura 2.24. Campo de indução magnética e campo eléctrico


induzido na espira.

Para os valores dados para a e β obtém-se

|E| = 2, 5×10−3 V/m .

2.6.15 Ciclotrão
Questão
A Figura 2.25 representa esquematicamente um ciclotrão, que é um dispositivo que permite
aumentar a energia cinética de cargas eléctricas recorrendo à acção combinada de campos
eléctricos e de indução magnética. O ciclotrão é formado por duas cavidades semicilı́ndricas,
ligeiramente afastadas, nas quais está presente um campo de indução magnética estático e
uniforme com a direcção do eixo do cilindro. Na fenda entre as partes semicilı́ndricas aplica-se
uma diferença de potencial alternada. Seja R o raio do ciclotrão e B a intensidade do campo
de indução magnética aplicado.
Obter a energia cinética máxima que uma partı́cula de massa m e carga q pode adquirir
neste acelerador.

Resposta
Vamos analisar este problema sabendo que no interior das cavidades semicilı́ndricas o
campo eléctrico é nulo e, na fenda entre as cavidades, é nulo o campo de indução magnética.
Quando uma partı́cula carregada é ejectada na fenda entre as cavidades fica sujeita a uma
diferença de potencial que, dependendo do sinal da sua carga, a obriga a deslocar-se para
uma das cavidades semicilı́ndricas, onde penetra com uma certa velocidade v0 , que vamos
Equações de Maxwell •
49

E
B

Figura 2.25. Ciclotrão.

considerar perpendicular ao plano que delimita a cavidade semicilı́ndrica, como mostra a


Figura 2.25.
Sob a acção do campo de indução magnética, a partı́cula passa a descrever uma trajectória
circular de raio R0 , mantendo constante o valor da velocidade até entrar de novo na região
da fenda. Se nessa altura, a diferença de potencial entre os dois semicilindros for oposta
à que a partı́cula experimentou inicialmente, o que requer uma adequada sincronização do
gerador da tensão, a partı́cula é acelerada até à outra cavidade semicilı́ndrica, onde penetra
com velocidade v1 > v0 . Sujeita de novo a um campo de indução magnética, a partı́cula
carregada passa a ter movimento circular uniforme, agora de raio R1 > R0 . Ao chegar
novamente à região da fenda, o potencial já deve estar outra vez invertido, de tal modo que a
partı́cula é acelerada até penetrar na outra cavidade semicilı́ndrica com velocidade v2 > v1 .
Passa então a descrever uma trajectória circular de raio R2 > R1 . E assim sucessivamente, até
que o raio da trajectória seja próximo do raio do ciclotrão, sendo então a partı́cula deflectida,
por meio de um campo, para fora do ciclotrão, através de uma pequena abertura na superfı́cie
cilı́ndrica.
O ponto crucial para o adequado funcionamento do dispositivo é a frequência do potencial
acelerador, ou do campo eléctrico resultante, a qual tem de estar ajustada à frequência
do movimento circular da partı́cula dentro das cavidades. Por cada passagem na fenda a
partı́cula aumenta a sua energia cinética de q V , sendo V o “potencial efectivo” aplicado.
Antes de calcularmos a energia cinética máxima que a partı́cula carregada pode adquirir,
convém apresentar alguns resultados importantes relativos ao movimento circular uniforme de
uma carga sujeita a um campo de indução magnética uniforme perpendicular à velocidade.
Da expressão da força de Lorentz (2.65) e da equação fundamental da dinâmica podemos
escrever, para o movimento circular uniforme,

v2
qBv = m ,
r
donde se obtém o raio da trajectória:
mv
r= . (2.113)
qB
50 •
Campo electromagnético

O perı́odo do movimento,
2πr 2πm
tciclo = = ,
v qB
não depende nem do raio nem da velocidade, mas apenas da razão entre eles, o que constitui
um resultado notável4 . Assim, as trajectórias semicirculares que as cargas descrevem no
ciclotrão demoram todas o mesmo tempo, independentemente do seu raio e da velocidade
da partı́cula. É este resultado que permite uma fácil sincronização do potencial alternado
aplicado: basta utilizar um gerador de tensão alternada de frequência 1/tciclo .
A energia cinética da partı́cula é
1
T = mv 2 .
2
Resolvendo (2.113) em ordem a v, substituindo na expressão anterior e fazendo r = R (o
valor máximo do raio das trajectórias semicirculares é o raio do ciclotrão), obtém-se para a
energia cinética máxima
q 2 R2 B 2 m 2 2
Tmax = = ω R ,
2m 2 c
onde
2π qB
ωc = =
tciclo m
é a frequência do ciclotrão.

2.6.16 Magnetrão
Questão

Considerar dois cilindros condutores coaxiais, o interior com raio a e o exterior com a
superfı́cie interior de raio b, como mostra a Figura 2.26. Estabelece-se uma diferença de
potencial entre os dois cilindros, ficando o exterior a um potencial positivo, V , relativamente
ao interior, e aplica-se um campo de indução magnética, B , estático e uniforme, paralelo ao
eixo do cilindro e dirigido para fora do plano da figura. Este dispositivo chama-se magnetrão.
Estuda-se a dinâmica de electrões, de massa m e carga −e, que saem da superfı́cie do
cilindro interior (superfı́cie aquecida).

a) Aplica-se inicialmente o potencial V com B = 0. Determinar a velocidade v com que


um electrão atinge a superfı́cie r = b, admitindo que se liberta da superfı́cie do cilindro
interior com velocidade desprezável;

b) Considerar agora que V = 0, mas que há campo de indução magnética aplicado e que
um electrão parte na direcção radial com velocidade inicial v0 . Para campos de indução
magnética com valor superior a um certo valor crı́tico Bc , o electrão não atinge o cilindro
exterior (ânodo). Representar esquematicamente a trajectória do electrão quando B é
ligeiramente superior a Bc e determinar este valor crı́tico;

Na parte restante deste exercı́cio considerar que tanto o potencial V como o campo uni-
forme B estão presentes.
4
Este resultado é válido quando a velocidade das partı́culas for muito menor do que a velocidade da luz.
Equações de Maxwell •
51

b
a

Figura 2.26. Magnetrão.

c) Na presença do campo de indução magnética o electrão adquire um momento angular L


relativamente ao eixo do cilindro. Obter uma equação para a taxa de variação temporal
do momento angular, dL/dt. Mostrar, a partir dessa equação, que L − k e B r2 é uma
constante do movimento, sendo k um número e r a distância do electrão ao eixo do
cilindro. Determinar o valor de k;

d) Considerar que um electrão libertado do cilindro interior com velocidade desprezável não
atinge o cilindro exterior. Seja rm a distância máxima ao eixo do cilindro. Determinar,
em função de rm , a sua velocidade v no ponto onde a distância radial é máxima;

e) Pretende usar-se o campo de indução magnética com o fim de regular a corrente de


electrões para o cilindro exterior. Sendo o campo B superior a um valor crı́tico Bc0 , um
electrão libertado com velocidade desprezável não atinge o cilindro exterior. Determinar
Bc0 ;

f) Se os electrões são libertados devido ao aquecimento do cilindro interior, terão, em


geral, uma velocidade inicial diferente de zero à superfı́cie do cilindro. A componente
da velocidade de um electrão paralela a B é vB , e as componentes perpendiculares a
B são vr (na direcção radial) e vφ (na direcção azimutal). Determinar, neste caso, o
valor crı́tico Bc00 para que o electrão alcance o cilindro exterior.

Resposta
a) Quando o electrão é libertado a sua energia é apenas potencial. Quando atinge o cilindro
exterior a sua energia é apenas cinética. A conservação da energia permite escrever

1
m v2 = e V ,
2
donde s
2 eV
v= . (2.114)
m
52 •
Campo electromagnético

No caso de um tratamento relativista5 temos, da conservação da energia

m c2
q − m c2 = e V ,
v2
1− c2

donde s
µ ¶2
m c2
v=c 1− ;
m c2 + e V

b) Quando V = 0, o electrão fica sujeito apenas ao campo B e a força que sobre ele
se exerce, que é perpendicular ao campo e à sua velocidade, obriga-o a descrever um
movimento circular uniforme. A trajectória é o arco de circunferência representado na
Figura 2.27. Como a força de Lorentz é a força centrı́peta, o raio da órbita, R, obtém-se
da seguinte igualdade:
m v02
e B v0 = . (2.115)
R

a
R

b -R R

Figura 2.27. Trajectória do electrão para o campo de indução


magnética crı́tico.

A
√ Figura 2.27 mostra que, na situação crı́tica, o raio da trajectória satisfaz a relação
a2 + R2 = b − R , da qual se obtém a expressão de R:

b2 − a2
R= .
2b

Inserindo em (2.115), obtém-se, para o campo de indução magnética crı́tico,

2 b m v0
Bc = .
(b2 − a2 ) e

Para campos de intensidade superior a Bc o electrão não alcança o ânodo;


5
No Capı́tulo 10 faz-se uma introdução à Teoria da Relatividade Restrita.
Equações de Maxwell •
53

c) A variação temporal do momento angular do electrão é igual ao momento da força que


actua sobre a partı́cula. Da diferença de potencial aplicada resulta um campo eléctrico
que tem a direcção radial e a força que este campo exerce no electrão, Fe = −eE , é
também radial e dá contribuição nula para o momento da força em relação a qualquer
ponto do eixo dos cilindros. A força devida ao campo de indução magnética, Fm =
−e v × B , tem componente radial, Fr , e componente azimutal, Fφ . Só esta última
contribui para o momento da força em relação a qualquer ponto do eixo dos cilindros,
sendo Fφ r o módulo deste momento. Note-se, por outro lado, que apenas a componente
radial da velocidade, vr = dr/dt, contribui para Fφ , pelo que podemos escrever

dL dr
M= = r Fφ = e B r
dt dt
ou ainda à !
d e B r2
L− = 0.
dt 2
Desta expressão pode concluir-se que a quantidade entre parêntesis é uma constante do
movimento:
1
L − e B r2 = C . (2.116)
2
O parâmetro k referido no enunciado é, portanto, 12 ;

d) Podemos utilizar a constante de movimento C obtida na alı́nea anterior para determinar


a velocidade da partı́cula no ponto de afastamento máximo relativamente ao eixo do
cilindro. No instante em que o electrão se desprende do cilindro interior o momento
angular é nulo. No ponto de afastamento máximo o momento angular do electrão é
m v rm . Assim, de (2.116),

1 1
− e B a2 = m v rm − e B rm
2
2 2
e, portanto,
2 − a2 )
e B (rm
v= ; (2.117)
2 m rm

e) No caso do campo de indução magnética crı́tico Bc0 , a distância máxima rm é igual


ao raio do cilindro exterior, b. A velocidade no ponto de afastamento máximo é, de
(2.117),
e Bc0 (b2 − a2 )
v= . (2.118)
2mb
Por outro lado, como o trabalho da força magnética é nulo, a energia cinética da
partı́cula ao atingir o cilindro exterior é igual a e V , pelo que a sua velocidade é dada
por (2.114). Igualando esta expressão a (2.118) vem, finalmente,
s
2b 2mV
Bc0 = 2 ;
b − a2 e

f) Nenhuma força actua sobre o electrão segundo a direcção do campo de indução


magnética.
Se a componente da velocidade inicial do electrão ao longo dessa direcção for vB , será
54 •
Campo electromagnético

também vB quando atinge o cilindro exterior. Designemos por vφ e por vr as com-


ponentes azimutal e radial da velocidade inicial do electrão com energia mı́nima para
atingir o cilindro exterior. A conservação da energia exprime-se por
1 2 1
m (vB + vφ2 + vr2 ) + e V = m (vB
2
+ v2) , (2.119)
2 2
onde v é a componente azimutal da velocidade do electrão ao atingir o cilindro exterior
(como estamos a considerar a situação-limite em que o electrão ainda atinge o cilindro
exterior, a componente radial da velocidade é nula). De (2.119),
s
2eV
v= vr2 + vφ2 + . (2.120)
m

Por outro lado, pode aplicar-se à presente situação a Eq. (2.116), tendo em conta que
a grandeza L que entra nessa expressão é o momento angular na direcção do eixo dos
cilindros (ou seja, a componente vB da velocidade não contribui para L dessa expressão).
Considerando pontos à superfı́cie dos dois cilindros tem-se
1 1
m vφ a − e Bc00 a2 = m vb − e Bc00 b2 .
2 2
O campo crı́tico é, pois,
2 m (v b − vφ a)
Bc00 = ,
e (b2 − a2 )
ou ainda, utilizando (2.120),
s 
2mb 2eV vφ a 
Bc00 = 2 2
 v2 + v2 +
r φ − .
e (b − a ) m b
56 •
Campo electromagnético
CAPÍTULO 3
ENERGIA ELECTROSTÁTICA
Na primeira parte deste capı́tulo aborda-se o problema da determinação da energia elec-
trostática associada a uma distribuição estática de cargas. Na segunda parte considera-se o
problema das forças eléctricas em condutores.

3.1 ENERGIA DE UMA DISTRIBUIÇÃO ESTÁTICA DE CARGAS

Consideremos um conjunto de cargas eléctricas pontuais fixas (não importa como!) numa
certa região do espaço. Pretende-se saber qual é a energia (potencial electrostática) “ar-
mazenada” num tal sistema fı́sico. Conceptualmente, a questão é bem simples: a energia é
igual ao trabalho que é necessário realizar por um agente externo, por exemplo pela força ex-
terior Fext , para construir a referida distribuição, trazendo as cargas do infinito. Para trazer
uma primeira carga q não é necessário realizar qualquer trabalho: a energia electrostática de
uma só carga pontual ou auto-energia ou energia própria considera-se nula1 . Traz-se agora
do infinito uma segunda carga q 0 à presença de q, deixando-a, no final, a uma distância a
desta. A força eléctrica a que q 0 fica sujeita é dada por [ver (2.2)]
F = q0E ,
sendo E o campo eléctrico criado por q no ponto em que q 0 se encontra. Ora, a força cujo tra-
balho importa considerar para a obtenção da energia electrostática é a simétrica desta, Fext =
−F .
O trabalho realizado pela força externa é dado por
Z a Z a µ ¯
qq 0 1 qq 0 1 ¯a qq 0
Wext = Fext · dl = − 2
dr = − − ¯¯ = .
∞ 4π²0 ∞ r 4π²0 r ∞ 4π²0 a
1
Dizemos “considera-se” porque, embora isso possa parecer paradoxal, a teoria clássica do electromag-
netismo prevê uma auto-energia que até é infinita! Veremos este ponto mais à frente nesta mesma secção. Na
verdade, sempre que se fala em energia electrostática de uma distribuição de cargas pontuais excluem-se todas
as auto-energias.
58 •
Campo electromagnético

Este trabalho é igual à energia (electrostática) armazenada no sistema. Numa outra per-
spectiva, pode afirmar-se que esta energia é afinal o trabalho realizado pela força do campo
quando se “desfaz” a distribuição, ou seja2 ,
Z ∞ Z ∞
q q0 1 qq 0
U =W = F · dl = 2
dr = .
a 4 π ²0 a r 4 π ²0 a

Se tivermos mais de duas cargas, é conveniente considerar para cada par de cargas qi e qj
a energia respectiva:
qi qj
Uij = ,
4π²0 rij
onde rij =| ri − rj |, sendo ri e rj respectivamente os vectores posicionais de cada uma das
cargas. Usando a nova notação, a energia associada às cargas 1 e 2 é, pois, U21 = U12 . Se
transportarmos agora uma terceira carga q3 do infinito para junto das outras duas, colocando-
a a uma distância r31 de q1 e r32 de q2 , o trabalho que é necessário realizar é
q3 q1 q3 q2
+ = U (3)
4 π ²0 r13 4 π ²0 r23

e a energia total do sistema é esta mais U (2) = U21 . Para trazer a carga N à presença das
restantes N − 1 tem de se realizar um trabalho que vai ser igual à variação da energia do
sistema:
N
X −1
U (N ) = UN i .
i=1

A energia total armazenada no sistema de N cargas é, pois,


N
X
U= U (j)
j=2

ou, ainda,
X X N N
1 X X qi qj
U= Uij = Uij = . (3.1)
todos os pares i<j
2 i=1 j=1,j6=i
4 π ²0 rij

O factor 12 é incluı́do para que se não conte duas vezes o mesmo par.
Se notarmos que o potencial que a carga qi (localizada em ri ) sente, devido à presença
das outras cargas, é dado por
N
X qj
V (ri ) = ,
j=1, j6=i
4 π ²0 rij

a expressão (3.1) pode ser escrita na forma


N
1X
Ue = qi V (ri ) , (3.2)
2 i=1

sublinhando-se, com o ı́ndice “e”, que se trata de uma energia electrostática.


2
De facto, devı́amos escrever ∆U em vez de U . Mas, como se considera nula a energia na ausência de
cargas, a variação da energia, ∆U , é igual à energia, U .
Energia electrostática •
59

Esta expressão sugere que, no caso de distribuições contı́nuas de carga, se escreva


Z
1
Ue = V dq ,
2 D

estendendo-se o integral ao domı́nio D onde existam cargas. No caso de uma distribuição


volumétrica de carga, descrita pela densidade ρ no volume v, tem-se:
Z
1
Ue = ρ(r )V (r ) dv ; (3.3)
2 v

de modo análogo, para uma distribuição superficial de carga, descrita pela densidade σ na
superfı́cie S, Z
1
Ue = σ(r ) V (r ) dS ; (3.4)
2 S
e para uma distribuição linear de carga, descrita pela densidade linear λ na linha C,
Z
1
Ue = λ(r ) V (r ) d` .
2 C

Na verdade, os integrais anteriores podem estender-se a todo o espaço, pois nas regiões onde
não há cargas as densidades são nulas e, portanto, a função integranda é nula. Se for Ue (1)
a energia de uma certa distribuição e Ue (2) a de outra distribuição das mesmas cargas, a
energia que é necessário fornecer para alterar a configuração 1 para a configuração 2 é igual
à variação da energia do sistema:

∆Ue = Ue (2) − Ue (1) .

Se esta energia for positiva, foi necessário fornecer energia ao sistema (sob a forma de tra-
balho). No caso contrário, o sistema adquiriu uma maior estabilidade (diminuiu a sua energia
potencial electrostática) e, portanto, o trabalho das forças externas foi negativo.
Consideremos uma situação concreta para melhor ilustrar a forma como se calcula a energia
de uma distribuição de cargas.

Exemplo 3.1: Esfera uniformemente carregada


Qual é a energia electrostática de uma esfera de raio R carregada uniformemente com
uma carga total Q? A expressão (3.3) pode ser aplicada directamente se recordarmos que,
no interior da esfera, o potencial é dado por [ver Problema 2.6.5 e Eq. (2.97)]
à ! à !
Q 3 r2 ρ R2 3 r2
V (r) = − = − ,
4π²0 R 2 2R2 3 ²0 2 2R2

em que a densidade uniforme, ρ, satisfaz a relação:


4π 3
Q= R ρ.
3
Como o elemento de volume, dv, quando há simetria esférica, é dado por dv = 4πr2 dr,
aplicando (3.3) resulta:
Z RÃ !
2πρ2 R2 3 r2 3 Q2
Ue = − r2 dr = . (3.5)
3²0 0 2 2R2 5 4π²0 R
60 •
Campo electromagnético

3.1.1 A energia em função do campo eléctrico


Usando as equações de Maxwell, podemos exprimir a energia armazenada numa dis-
tribuição de cargas3 em função do campo eléctrico que ela própria cria. Da expressão (3.3) e
da equação de Maxwell (2.57) podemos escrever
Z
²0
Ue = ∇ · E (r ) V (r ) dv , (3.6)
2
estendendo-se o integral a todo o espaço, como se fez notar acima. Usando (B.37) e (2.9),
obtemos
∇ · E V = ∇ · (E V ) − E · ∇V = ∇ · (E V ) + E · E . (3.7)
Substituindo em (3.6) e aplicando à primeira parcela o teorema de Gauss, vem
I Z
²0 ²0
Ue = V E · dS + E · E dv . (3.8)
2 2
O primeiro integral é sobre uma superfı́cie infinita. Existindo a carga numa região finita, o
termo dominante em V , longe da distribuição, é de ordem 1/r (como veremos em pormenor
no próximo capı́tulo) e o campo eléctrico de ordem 1/r2 . Assim,
1 2
V E · dS ∼ r dΩ (3.9)
r3
tende para zero, quando r → ∞, de modo que o primeiro integral em (3.8) é nulo. A energia
é simplesmente dada por Z
²0
Ue = E · E dv . (3.10)
2
Esta expressão, embora não contenha as cargas de forma explı́cita, depende naturalmente
delas, uma vez que são as cargas as fontes do campo.
Podemos interpretar a expressão anterior associando a cada ponto do espaço uma densi-
dade de energia electrostática
²0 ²
ue = E · E = 0 E2. (3.11)
2 2
Ao campo eléctrico está sempre associada uma energia!
Se aplicarmos a expressão (3.10) a uma carga pontual surge uma dificuldade. Considere-
mos o campo (2.2) criado por uma carga pontual. A uma distância r da carga a densidade
de energia electrostática é
²0 2 q2
E = .
2 32π 2 ²0 r4
Fazendo a integração em (3.10) (note-se que há simetria esférica), obtém-se
Z ∞ µ ¯
q2 q2 1 ¯∞
Ue = dr = − ¯¯
0 8π²0 r2 8π²0 r 0
e o resultado é infinito. No inı́cio desta secção não se nos deparou esta dificuldade porque
considerámos que a energia de uma distribuição de cargas pontuais era a energia entre essas
cargas, excluindo a energia própria de cada carga. Do resultado que acabámos de obter
teremos de concluir que a “localização” da energia no campo eléctrico é incompatı́vel com a
3
Por simplicidade, vamos admitir uma distribuição volumétrica de cargas, embora os mesmos argumentos
possam ser aplicados a outro tipo de distribuições de cargas, o que confere generalidade ao resultado que
vamos obter.
Energia electrostática •
61

hipótese da existência de cargas pontuais. Uma maneira de resolver o problema seria dizer
que não há efectivamente cargas pontuais; mesmo o electrão deve ser extenso (embora, e até
distâncias da ordem de 10−16 m, não haja indicação experimental de uma estrutura para o
electrão, tal como há, e muito clara, para o protão). Pode ainda admitir-se que a teoria falha
para distâncias muito pequenas (talvez não haja, por exemplo, conservação local de energia).
Ambos os pontos de vista apresentam dificuldades e, na realidade, a questão suscitada não
tem uma resposta cabal.

3.2 FORÇAS ELÉCTRICAS EM CONDUTORES

Num condutor carregado em equilı́brio electrostático a carga distribui-se sobre a sua su-
perfı́cie. Designemos por dq = σ dS um elemento dessa carga e vejamos qual a força a que
ele fica sujeito devido à presença das restantes cargas. Na situação de equilı́brio essa força
resultante não poderá ter componente tangencial pois, se assim fosse, haveria movimento da
carga sobre a superfı́cie. Quer dizer, para um condutor em equilı́brio electrostático a força
sobre cada elemento de carga só tem componente perpendicular à superfı́cie do condutor.
Designemos por E o campo criado por toda a carga do condutor, incluindo a carga elemen-
tar dq. Note-se que a força exercida sobre dq não é E dq. O campo que importa considerar
(o que actua em dq) é devido à distribuição de carga do sistema excluindo dq.

d S

Figura 3.1. Condutor em equilı́brio electrostático. O cilindro


representado tem área de base elementar, dS, e a sua altura
acima do condutor é arbitrariamente pequena.

Consideremos o condutor representado na Figura 3.1, o qual está em equilı́brio elec-


trostático.
O cilindro tem volume elementar e área de base dS, estando a base exterior infinitamente
próxima da superfı́cie do condutor. A aplicação da lei de Gauss à superfı́cie cilı́ndrica permite
escrever I
σ dS
E · dS = , (3.12)
δS ²0
onde δS é a área total do cilindro elementar representado na Figura 3.1 e E designa, como
atrás se referiu, o campo produzido pela totalidade das cargas. O fluxo do campo eléctrico
através de δS pode ser escrito como a soma de três termos: o fluxo de E através da superfı́cie
lateral do cilindro, que é nulo, pois o campo, sendo perpendicular ao condutor, é tangente a
essa superfı́cie; o fluxo através da base interior, que também é zero, pois o campo electrostático
anula-se no interior do condutor em equilı́brio; e, finalmente, o fluxo através da base exterior,
62 •
Campo electromagnético

que é simplesmente EdS. Substituindo o lado esquerdo da Eq. (3.12) por este valor obtém-se
para a grandeza do campo eléctrico à superfı́cie do condutor criado por toda a carga
σ
E= . (3.13)
²0
Mas qual é a contribuição da carga elementar dq para o campo eléctrico total? Designemos
por E0 o campo criado pela carga elementar dq. A lei de Gauss pode ser aplicada supondo
que esta é a única carga que constitui o sistema. O campo E0 é perpendicular à superfı́cie dS,
mas agora há campo quer do lado de fora, E0ext , quer do lado de dentro, E0int . Designando
por n̂ o versor exterior normal a dS, da aplicação da lei de Gauss a um cilindro semelhante
ao que se considerou antes resulta
σ σ
E0ext = n̂ ; E0int = − n̂ .
2²0 2²0
Designando por E 0 o campo em dq devido à restante distribuição de carga, dado que E =
E0 + E 0 , tem-se
0 σ σ σ
Eext = E − E0ext = n̂ − n̂ = n̂
²0 2²0 2²0
0 σ
Eint = 0 − E0int = n̂ .
2²0
Do lado de dentro este campo anula o que é criado pela própria carga. Do lado de fora
reforça-o.
Podemos agora obter a força que as outras cargas exercem em dq = σ dS. Trata-se de
uma força elementar cuja grandeza é dada por
σ σ2
dF = σ dS = dS ,
2 ²0 2 ²0
pelo que a força por unidade de área é
µ ¶2
dF ²0 σ 1
= = ²0 E 2 , (3.14)
dS 2 ²0 2
tendo-se usado (3.13) para escrever a segunda igualdade. Confrontando a equação anterior
com (3.11) podemos concluir que a força por unidade de área é igual à densidade de energia
electrostática.
A força total sobre um condutor de área total S é obtida por integração sobre toda a
superfı́cie do condutor, I I
² 1
F = 0 E 2 dS = σ 2 dS
2 2²0
com dS = dS n̂ um vector que aponta para fora.

3.2.1 Método do trabalho virtual


É igualmente possı́vel calcular forças eléctricas pelo chamado método do trabalho virtual.
A ideia subjacente consiste em tomar um deslocamento infinitesimal de uma carga ou de uma
distribuição de cargas e aplicar o princı́pio de conservação da energia: iguala-se a energia que
é transferida para o sistema durante o deslocamento (sob a forma de trabalho) à variação
da sua energia. Este método é muitas vezes utilizado em mecânica para obter as forças que
actuam num sistema a partir de considerações meramente energéticas.
O exemplo seguinte ilustra este método.
Energia electrostática •
63

Exemplo 3.2: Condensador plano a potencial constante


Consideremos um condensador plano ligado a uma bateria que mantém uma diferença
de potencial constante V entre as suas placas (ver Figura 3.2). A distância entre as pla-

d x
V
x

Figura 3.2. Condensador plano a potencial constante para


ilustrar o método do trabalho virtual.

cas, inicialmente igual a x, é aumentada para x + dx. Este deslocamento infinitesimal é


quase estático, isto é, processa-se com aceleração nula. Designando por Fext a força externa
(de módulo F ) que se aplica à placa superior, a energia mecânica fornecida ao sistema (e
armazenada no condensador) é o trabalho elementar (positivo)4

δW = F dx . (3.15)

Por outro lado, a energia eléctrica fornecida pela bateria ao condensador é (trata-se de
trabalho eléctrico)
δWB = dQ V ,
onde dQ é o acréscimo de carga no condensador quando a placa ocupa a nova posição. Na
situação que estamos a considerar, o potencial imposto pela bateria mantém-se constante,
pelo que dQ = V dC (recorde-se que Q = V C). A energia fornecida ao condensador pela
bateria pode então ser escrita do seguinte modo:

δWB = V 2 dC , (3.16)

pelo que µ ¶
2 d A 2 A
δWB = V dC = V ²0 dx = −V 2 ²0 dx , (3.17)
dx x x2
tendo-se usado a expressão para a capacidade do condensador plano C = ²0 A/x (A é a área
de cada placa). A energia (3.16) é negativa, isto é, há cargas a fluir do condensador para a
bateria. A energia electrostática armazenada no condensador é, recorde-se, Ue = 21 QV , pelo
que a sua variação infinitesimal — que é uma diferencial total exacta — é dada por
1 1
dUe = V dQ = V 2 dC .
2 2
4
Representamos o trabalho infinitesimal por δW , e não por dW , para deixar claro que o trabalho, em geral,
não é uma função de ponto, e por isso a sua diferencial total não é exacta. Não é este o caso do trabalho
das forças electrostáticas ou de quaisquer outras forças conservativas, mas convém, por princı́pio, manter uma
diferença na notação.
64 •
Campo electromagnético

Tal como em (3.17),


1 2 1 A
dUe = V dC = − V 2 ²0 2 dx . (3.18)
2 2 x
A variação de energia no condensador dUe deve-se, evidentemente, ao trabalho realizado
pela força exterior e à energia fornecida (trabalho) pela bateria, dUe = δW + δWB . Desta
expressão e de (3.15), (3.17) e (3.18) pode encontrar-se uma expressão para F :

1 A A
− V 2 ²0 2 = F − V 2 ²0 2 ,
2 x x
donde
1 2 A ²0 E 2
F = V ²0 2 = A. (3.19)
2 x 2
Para se obter a última igualdade utilizou-se a relação entre o potencial e o campo eléctrico:
V = E x. Da Eq. (3.19) torna-se evidente que a força por unidade de área é igual à energia
por unidade de volume [cf. eqs. (3.14) e (3.11)]. A força de atracção que a placa inferior
exerce na superior é simétrica da força externa, Fext .
No Problema 3.3.4 obtém-se novamente a expressão (3.19), considerando que o conden-
sador é inicialmente carregado com uma carga Q e depois desligado da bateria e isolado.

3.3 PROBLEMAS RESOLVIDOS

3.3.1 Energia electrostática de uma esfera uniformemente carregada


Questão
Calcular a energia electrostática de uma esfera uniformemente carregada.

a) A partir do trabalho necessário para transportar a carga desde o infinito até à região
em que fica localizada;

b) Usando a expressão da energia em função do campo eléctrico [Eq. (3.10)].

Resposta
A energia da esfera uniformemente carregada já foi obtida no Exemplo 3.1, tendo-se então
utilizado a Eq. (3.3). No problema são indicados dois outros métodos para obter esta mesma
energia.

a) A energia electrostática armazenada na distribuição de cargas é igual ao trabalho ex-


terno realizado para trazer todas as cargas desde o infinito até à posição onde ficam,
for fim, localizadas. Seja V (r ) o potencial criado pelas cargas que entretanto já foram
trazidas do infinito até à sua posição final. Para trazer uma nova carga (infinitesimal)
dq será necessário realizar um trabalho (infinitesimal)

δW = dq V (r ) .

Vão ser considerados elementos de carga dq em camadas esféricas, ou seja, elementos


dados por
dq = ρ 4πr2 dr.
Energia electrostática •
65

O potencial de uma distribuição esférica de cargas de raio r (r ≤ R) sobre a superfı́cie


de raio r é dado por
Qr2
V (r) = ,
4π²0 R3
uma vez que a carga no interior da esfera de raio r é
Z Z r µ ¶3
3Q r
Q0 = ρ dv = 4π r2 dr = Q .
4πR3 0 R

O trabalho total é Z Z R
Qr2
W = dq V (r) = 4πρ r2 dr .
0 4π²0 R3
Resolvendo o integral e substituindo a densidade ρ pelo seu valor dado por

Q 3Q
ρ= = , (3.20)
V 4πR3
obtém-se para a energia
3 Q2
Ue = W = ,
5 4π²0 R
que é o resultado (3.5);

b) Pode também determinar-se a energia a partir do campo eléctrico. Parte-se da expressão


(3.10) e utilizam-se as expressões (2.94) e (2.95) do campo eléctrico:
µ ¶2 "Z R µ ¶ Z ∞ #
²0 Q r 2 2 1 2
Ue = 4π r dr + r dr
2 4π²0 0 R3 R r
4
µ ¶
Q2 1 1 3 Q 2
= + = . (3.21)
8π²0 5R R 5 4π²0 R

3.3.2 Energia de esfera condutora carregada


Questão
Calcular a energia electrostática de uma esfera condutora isolada, de raio R, carregada
com carga Q.
A partir dos resultados que encontrados agora e no problema anterior, determinar o raio
do electrão, admitindo que a energia em repouso desta partı́cula, mc2 , é a sua energia elec-
trostática. Considerar o caso de a carga do electrão estar à superfı́cie da esfera e de a carga
estar distribuı́da uniformemente no volume esférico.

Resposta
Como o campo electrostático é dado por


 0 r<R

E=

 1 Q
 êr r > R ,
4π²0 r2
66 •
Campo electromagnético

é mais fácil calcular a energia a partir de (3.10):


Z µ ¶2 Z ∞
²0 2 ²0 Q 1
Ue = E dv = 4π r2 dr
2 2 4π²0 R r4
Q2 1 Q2
= 2π²0 = .
16π 2 ²20 R 8π²0 R

Admitindo que esta energia é igual à energia de repouso de um electrão, mc2 , obtém-se
para o raio desta partı́cula o valor

Q2
R= .
8π²0 mc2
Fazendo as substituições,

Q = 1, 602×10−19 C
²0 = 8, 854×10−12 F m−1
m = 9, 109×10−31 kg
c = 3×108 m s−1 ,

obtém-se
R = 1, 4×10−15 m = 1, 4 fm .
Um tal modelo para o electrão está claramente errado, pois o electrão, se for extenso, terá
uma dimensão várias ordens de grandeza inferior a esta. O protão (partı́cula cuja estrutura
é relativamente bem conhecida experimentalmente) tem dimensão da ordem do fermi.
Considerando agora que a carga do electrão se distribui uniformemente, tem-se Ue0 = mc2
onde agora se designa por Ue0 a energia (3.21). Como Ue0 = 6Ue /5, segue-se que R0 = 6R/5,
isto é, no modelo em que a carga está uniformemente distribuı́da no volume esférico o raio
do electrão é da mesma ordem de grandeza da do valor encontrado antes.

3.3.3 Energia de um condensador plano


Questão
²0 R
Calcular a energia armazenada num condensador plano a partir de 2 E 2 dv.

Resposta
Seja A a área das placas do condensador plano e d a distância (pequena) entre elas. A
capacidade do condensador plano é
A
C = ²0 . (3.22)
d
Se for Q a carga do condensador, a energia armazenada é

1 Q2
Ue = . (3.23)
2 C
Trata-se agora de obter este resultado a partir da expressão (3.10). O módulo do campo
eléctrico entre as placas do condensador é constante e dado por
σ
E= ,
²0
Energia electrostática •
67

sendo σ a densidade superficial de carga nas placas. O campo é nulo fora dessa região. A
energia calculada a partir de (3.10) é, pois,
µ ¶2
²0 σ
Ue = Ad.
2 ²0
Como Q = σA, e atendendo a (3.22), da expressão anterior resulta imediatamente (3.23).

3.3.4 Força num condensador plano isolado


Questão
Considere-se um condensador plano carregado e isolado. Usando o método do trabalho
virtual, obter a força por unidade de área que se exerce em cada placa do condensador em
função do campo eléctrico.

Resposta
Seja x a separação das placas do condensador plano e A a área de cada uma das placas.
A capacidade do condensador é
A
C = ²0 . (3.24)
x
Se o condensador estiver carregado com a carga Q, a densidade superficial de carga é σ = Q/A
e o campo eléctrico entre as placas é
σ
E= . (3.25)
²0
Considere-se que uma placa do condensador está fixa e que a outra, devido a uma força
exterior, de módulo F (igual à força electrostática), se desloca de uma distância infinitesimal
dx. O trabalho realizado pela força exterior é
δW = F dx .
Estando o condensador isolado, este trabalho é igual à variação da energia do condensador.
A energia do condensador é
1 1 Q2
Ue = QV =
2 2 C
e a sua variação, mantendo-se constante a carga, vem
1 dC
dUe = − Q2 2 .
2 C
2
Da expressão (3.24) obtém-se dC = −²0 A dx/x , pelo que
µ ¶2
1 A dx x Q2 dx
dUe = ²0 Q2 2 = ,
2 x ²0 A 2 A ²0
tendo-se usado novamente (3.24). Igualando a variação da energia interna dUe ao trabalho
realizado sobre o sistema, dU = δW , obtém-se
µ ¶2
Q2 ²0 σ
F = = A
2A²0 2 ²0
e, finalmente, — ver (3.25) — vem
F ²0
= E2 .
A 2
Vimos, na Secção 3.2, que a expressão geral para a força por unidade de superfı́cie, para
qualquer condutor em equilı́brio electrostático, é dada por (3.14). A expressão anterior
(também encontrada no Exemplo 3.2) está de acordo com essa expressão geral.
68 •
Campo electromagnético

3.3.5 Condensador plano suspenso de uma mola


Questão
Um condensador plano é formado por duas placas, cada uma com área A. A placa inferior
está fixa ao tampo de uma mesa isoladora e a placa superior é suspensa de uma mola de
constante de elasticidade k. As placas estão inicialmente descarregadas. Mostrar que, quando
as placas são carregadas com as cargas Q e −Q, a distância entre elas varia de Q2 /(2Ak²0 ).

Resposta
Quando o condensador está descarregado as placas do condensador estão a uma distância
d. Quando se carrega o condensador a força por unidade de superfı́cie (pressão) que a placa
de baixo exerce sobre a placa de cima é igual à densidade de energia electrostática junto a
essa placa. Essa densidade é dada por (3.14) e, atendendo a que o campo é constante,
dF ²0 F
= E2 = . (3.26)
dA 2 A
Para um condensador plano o campo eléctrico é dado por
σ Q
E= = ,
²0 A²0
donde, substituindo em (3.26), se obtém

Q2
F = .
2A²0
Quando há equilı́brio estático esta força, dirigida de cima para baixo, é compensada pela
força elástica, dirigida de baixo para cima e que vale k ∆d. Tem-se então, como se pretendia
demonstrar,
Q2
∆d = .
2 A k ²0

3.3.6 Forças num condensador cilı́ndrico


Questão
Um condensador é formado por dois condutores infinitamente longos com superfı́cies
cilı́ndricas coaxiais. Seja a o raio do cilindro interior, que é maciço, e b e c os raios in-
terno e externo, respectivamente, do cilindro exterior. Aplica-se uma diferença de potencial
V entre os dois cilindros, ficando o condutor exterior ligado à terra.
Calcular a grandeza da força, por unidade de área, exercida sobre a superfı́cie do cilindro
interior. Indicar a direcção e o sentido desta força. Calcular a força total exercida por unidade
de comprimento do cilindro.

Resposta
Quando se aplica uma diferença de potencial V entre as armaduras do condensador, a
superfı́cie externa do cilindro interior adquire uma densidade de carga λ (carga Q uniforme-
mente distribuı́da no comprimento L), a face interna da armadura exterior fica com uma
densidade de carga −λ e sobre a superfı́cie externa desta armadura não há cargas. O campo
eléctrico no exterior é nulo, como é fácil reconhecer a partir da lei de Gauss, tal como é
Energia electrostática •
69

nulo o campo no interior de ambas as armaduras, pois trata-se de condutores em equilı́brio


electrostático. Para a < r < b o campo eléctrico é radial e é igual ao que seria produzido por
uma linha infinita carregada com uma densidade λ = Q/L, quer dizer, o campo é dado por
[cf. (2.17)]
λ
E= r̂ .
2π²0 r
O campo eléctrico junto da superfı́cie da armadura interior é perpendicular à superfı́cie
cilı́ndrica e o seu módulo é
λ
E= . (3.27)
2π²0 a
A força por unidade de superfı́cie é dada por (3.14). Interessa primeiro, porém, exprimir λ em
função dos dados do problema. A diferença de potencial entre as armaduras do condensador,
V , é simplesmente a circulação do campo eléctrico entre as armaduras interna e externa.
Escolhendo um percurso radial,
Z Z b Z b
λ dr
V = E · dr = Edr =
2π²0 r
µ ¶a a
λ b
= ln ,
2π²0 a
donde · µ ¶¸−1
λ b
= V ln .
2π²0 a
Substituindo, primeiro em (3.27), e o resultado em (3.14) obtém-se para a intensidade da
força por unidade de superfı́cie
· µ ¶¸−2
dF ²0 V 2 b
= ln .
dA 2a2 a
A força sobre uma superfı́cie elementar do cilindro interior é perpendicular a essa superfı́cie e
aponta para fora. Assim, a força num elemento de superfı́cie dA é de intensidade igual, mas
de sentido contrário, à força sobre o elemento de superfı́cie diametralmente oposto. Deste
modo, em cada “anel” de comprimento arbitrário do condutor a força resultante é nula,
pelo que, considerando toda a superfı́cie cilı́ndrica, tem-se, evidentemente, que é nula a força
resultante.
70 •
Campo electromagnético
CAPÍTULO 4
MULTIPOLOS ELÉCTRICOS
4.1 INTRODUÇÃO

Indicou-se, no Capı́tulo 2, a expressão do potencial escalar criado por uma carga eléctrica
pontual [Eq. (2.11)]. No caso de uma distribuição arbitrária de cargas, basta aplicar o
princı́pio de sobreposição para se conhecer o potencial num dado ponto. O cálculo explı́cito
do potencial produzido por determinadas distribuições de cargas pode ser intrincado. No
entanto, sempre que a região do espaço que importa considerar seja suficientemente afastada
das cargas, esse cálculo é desnecessário.
Na região onde as cargas se localizam ocorrem grandes variações no potencial elec-
trostático. Aı́, o conhecimento da forma pormenorizada da distribuição das cargas é determi-
nante na obtenção do valor do potencial, de modo que são de esperar variações significativas
do potencial quando se passa de um ponto a outro. Contudo, longe da região onde as cargas se
encontram, o potencial é naturalmente menor, mas, acima de tudo, as variações do potencial
quando se passa de um ponto para outro já não são grandes. Há uma menor sensibilidade do
potencial relativamente à distribuição espacial das cargas e o conjunto das cargas, dispostas
de uma forma arbitrária, actua como se de uma só carga se tratasse. Quando falamos em
distâncias “grandes” (ou “pequenas”) estamos sempre a tomar como referência a separação
tı́pica entre as cargas, ou melhor, uma distância que possa caracterizar a dimensão da região
do espaço onde as cargas se localizam.
Demonstra-se que o efeito de uma dada distribuição de cargas, por mais complexa que
seja, pode ser expresso como uma sobreposição de vários termos multipolares. Cada multi-
polo é, na realidade, um conjunto de cargas eléctricas pontuais que possuem determinadas
simetrias. O estudo dos multipolos tem muito interesse, pois vários sistemas fı́sicos — desde
sistemas macroscópicos até às moléculas, aos núcleos atómicos e aos hadrões, passando ainda
por diferentes formas de matéria condensada — possuem campos eléctricos que podem ter
caracterı́sticas multipolares bem definidas: dizem-se então monopolos, dipolos, quadrupolos,
72 •
Campo electromagnético

octopolos, etc., cujo significado preciso será dado neste capı́tulo. Pode também acontecer
que o campo eléctrico em torno desses objectos seja uma sobreposição de dois ou mais (mas
poucos!) multipolos, circunstância em que ainda é muito útil fazer a análise multipolar.
Um campo monopolar é o campo produzido por uma carga eléctrica pontual (monopolo).
Antes de estudarmos com toda a generalidade os multipolos eléctricos, abordaremos a questão
mais concreta do dipolo e do quadrupolo linear. Estes são sistemas simples e o seu estudo não
só serve de motivação como ajuda a compreender os termos multipolares de ordem superior.
Estudaremos na parte final do capı́tulo a interacção dos diferentes termos multipolares com
um campo eléctrico externo.

4.2 DIPOLO ELÉCTRICO

Um dipolo eléctrico é um sistema formado por duas cargas, uma positiva e outra negativa,
de grandezas iguais e separadas por uma distância s.

P ( r ,q ,f )

r
+ Q r
s /2
q
s r +

s /2
Q

Figura 4.1. Dipolo eléctrico.

A Figura 4.1 representa um dipolo eléctrico. Nesta secção iremos calcular o potencial V e o
campo eléctrico E que ele produz a distâncias grandes comparadas com s, isto é, admitiremos
sempre que r À s, em que r é a distância do ponto P que estamos a considerar ao centro do
dipolo. Esta distância é uma das coordenadas esféricas desse ponto, sendo θ e φ as outras
duas coordenadas (num referencial em que o eixo z tem a direcção definida pelo dipolo).
A simetria do sistema permite adiantar que os resultados não podem depender do ângulo
azimutal, mas apenas de r e do ângulo polar θ.
O potencial em P é dado por
µ ¶ µ ¶
Q 1 1 Q r r
V = − = − . (4.1)
4π²0 r− r+ 4π²0 r r− r+

As distâncias r± (Figura 4.1) são os módulos dos vectores


s
r± = r ± , (4.2)
2
Multipolos eléctricos •
73

sendo s o vector posicional da carga positiva relativamente à carga negativa. Da expressão


anterior resulta µ ¶2
2 2 s
r± = r + ± sr cos θ.
2
As quantidades que importa considerar em (4.1) são
" µ ¶2 #−1/2
r s s
= 1+ ± cos θ . (4.3)
r± 2r r

Dado que r À s, faz todo o sentido considerar o desenvolvimento desta expressão em potências
de s/r, cabendo aqui recordar que, em geral, se tem o seguinte desenvolvimento em série:
1 3 5
(1 + η)−1/2 = 1 − η + η 2 − η 3 + O(η 4 ) . (4.4)
2 8 16
Assim, desenvolvendo (4.3) e retendo apenas os termos até ordem (s/r)2 , obtém-se
µ ¶2 h i
r 1s 1 s
=1∓ cos θ + (3 cos2 θ − 1) + O (s/r)3 . (4.5)
r± 2r 8 r
Substituindo na expressão (4.1), vem
· ³ ´ ¸
Q s
V = cos θ + O (s/r)3 ,
4π²0 r r
pelo que, em primeira ordem, podemos escrever
Qs cos θ
V ≈ . (4.6)
4π²0 r2
Esta expressão é válida para r3 À s3 (como admitimos sempre esta condição, substituiremos
de agora em diante o sinal de “aproximadamente” igual por uma igualdade). De notar que
a dependência do potencial é em 1/r2 e não em 1/r, como seria no caso de o sistema ser
formado por uma só carga. O facto de existirem duas cargas de sinais opostos leva ao não-
aparecimento do termo de ordem r−1 caracterı́stico do potencial monopolar.
O momento dipolar do dipolo é, por definição, o vector

p = Qs . (4.7)

Se notarmos que p · r̂ = Qs cos θ, podemos escrever o potencial (4.6) na forma


p cos θ p · r̂
V = 2
= . (4.8)
4π²0 r 4π²0 r2
O campo eléctrico criado pelo dipolo calcula-se a partir do potencial (E = −∇V ). Em
coordenadas esféricas,
E = Er êr + Eθ êθ + Eφ êφ
com
∂V p cos θ
Er = − = (4.9)
∂r 2π²0 r3
1 ∂V p sin θ
Eθ = − = (4.10)
r ∂θ 4π²0 r3
1 ∂V
Eφ = − = 0. (4.11)
r sin θ ∂φ
74 •
Campo electromagnético

Assim, o campo eléctrico dipolar é dado por


p
E (r, θ) = (2 cos θ êr + sin θ êθ ). (4.12)
4π²0 r3
As superfı́cies equipotenciais — superfı́cies sobre as quais o potencial é constante, V = C
— são obtidas a partir da equação que resulta directamente de (4.8):
p
r2 = cos θ = C0 cos θ ,
4π²0 C
sendo C0 uma nova constante. Estas superfı́cies equipotenciais nunca cortam o plano perpen-
dicular ao dipolo que passa pelo seu centro, plano esse que se pode considerar ao potencial
zero (os potenciais são positivos para θ < π/2 e negativos para θ > π/2). Na Figura 4.2 estão
representadas a tracejado linhas equipotenciais. Note-se que, perto da origem, a aproximação
que se faz ao admitir r À s deixa de ser válida.

V 2

V 1

E
V = 0 V = 0
E '

-V 1

-V 2

Figura 4.2. Curvas equipotenciais (representadas por linhas a


tracejado) e linhas de campo eléctrico (a cheio) para o dipolo
eléctrico. O campo eléctrico é, em cada ponto, tangente às
linhas de campo. Estas linhas vão interceptando superfı́cies
equipotenciais a potenciais sucessivamente menores.

As linhas do campo eléctrico são perpendiculares às superfı́cies equipotenciais e estão


representadas na Figura 4.2, a cheio. Por definição, o campo eléctrico é tangente às linhas de
campo, pelo que, formalmente, elas podem ser obtidas resolvendo a equação
dl × E = 0 , (4.13)
onde dl = dr êr + rdθ êθ + r sin θdφ êφ é um elemento infinitesimal da linha de campo. Esta
equação pode ser escrita sob a forma do seguinte determinante simbólico:
¯ ¯
¯ êr êθ êφ
¯
¯ ¯
¯ dr r dθ r sin θ dφ ¯¯ = 0.
¯
¯E Eθ 0 ¯
r
Multipolos eléctricos •
75

Daqui resulta
r sin θ Eθ dφ = 0 , r sin θEr dφ = 0 (4.14)
e ainda
Eθ dr = r Er dθ. (4.15)
As relações (4.14) exprimem o facto de o campo eléctrico estar no plano definido pelos versores
(êr , êθ ), isto é, dφ = 0. A Eq. (4.15), uma vez feita a substituição de Er e Eθ pelas expressões
(4.9) e (4.10) e a integração por separação de variáveis, conduz à equação

r = C00 sin2 θ ,

onde C00 é uma constante. Cada uma das linhas a cheio na Figura 4.2 corresponde a um certo
valor de C00 .

4.3 O QUADRUPOLO ELÉCTRICO LINEAR

O quadrupolo eléctrico linear é um conjunto de cargas agrupadas como se indica na


Figura 4.3.

P ( r ,q ,f )

+ Q r
s q
2 Q r +

s
+ Q

Figura 4.3. Quadrupolo eléctrico


linear.

Consideramos, tal como na Secção 4.2, regiões do espaço tais que r À s. Usando a técnica
exposta no caso do dipolo, vamos determinar o potencial e o campo eléctrico devidos a este
arranjo de cargas. O potencial é dado por
µ ¶ µ ¶
Q 1 2 1 Q r r
V = − + = + −2 . (4.16)
4π²0 r− r r+ 4π²0 r r− r+

As distâncias r± são os módulos dos vectores r± = r ± s. Note-se, relativamente a (4.2),


a ausência do factor 21 , uma vez que s é agora outro vector posicional. Por este motivo, as
razões r/r± escrevem-se numa forma ligeiramente modificada relativamente a (4.5), ou seja,
µ ¶2 h i
r s 1 s
= 1 ∓ cos θ + (3 cos2 θ − 1) + O (s/r)3 .
r± r 2 r
76 •
Campo electromagnético

Substituindo em (4.16), obtém-se o potencial

Qs2
V = (3 cos2 θ − 1) , (4.17)
4π²0 r3

tendo-se desprezado termos de ordem (s/r)4 e superiores (os termos de ordem ı́mpar anulam-
se sempre). Pode agora obter-se o campo eléctrico tal como se fez para o caso dipolar. Em
coordenadas esféricas as componentes de E são

∂V 3Qs2
Er = − = (3 cos2 θ − 1) (4.18)
∂r 4π²0 r4

1 ∂V 3Qs2
Eθ = − = 2 sin θ cos θ , (4.19)
r ∂θ 4π²0 r4
sendo nula a componente Eφ . O campo eléctrico criado pelo quadrupolo linear a grandes
distâncias é
3Qs2 h 2
i
E (r, θ) = (3 cos θ − 1) ê r + 2 sin θ cos θ êθ . (4.20)
4π²0 r4
As superfı́cies equipotenciais são determinadas a partir da equação [ver (4.17)]

r3 = C (3 cos2 θ − 1) , (4.21)

sendo C uma constante relacionada directamente com o valor do potencial. As linhas de


campo são obtidas a partir de (4.13), que, para o campo dado por (4.20), resulta nas eqs.
(4.14) e (4.15). Usando as componentes de E dadas por (4.18) e (4.19) na equação diferencial
(4.15), obtém-se à !
dr 3 cos2 θ − 1 r 2 cos2 θ − 1 cos θ
=r = + .
dθ 2 cos θ sin θ 2 cos θ sin θ sin θ
Separando as variáveis e integrando,
1 1
ln r = [ln(cos θ sin θ) + ln(sin θ)] + ln C0
2 2
e finalmente
r2 = C0 cos θ sin2 θ , (4.22)
onde C0 é uma constante de integração que caracteriza cada uma das linhas de campo.
Na Figura 4.4 representam-se as curvas equipotenciais1 para o quadrupolo linear (a trace-
jado) e as linhas do campo eléctrico (a cheio).

4.4 DESENVOLVIMENTO EM MULTIPOLOS DO POTENCIAL ES-


CALAR

Já anteriormente se afirmou que uma carga eléctrica pontual, Q, é um monopolo. O


dipolo pode ser obtido deslocando ligeiramente essa carga e colocando no sı́tio onde ela
estava inicialmente uma outra carga de grandeza igual mas de sinal oposto. O quadrupolo
linear obtém-se deslocando o dipolo paralelamente a si mesmo, para uma distância igual à
separação entre as cargas, e colocando outro dipolo igual na posição do primeiro, mas com
1
As curvas equipotenciais indicadas resultam da intersecção das superfı́cies equipotenciais com um plano
vertical que contém o eixo z.
Multipolos eléctricos •
77

Figura 4.4. Linhas de campo eléctrico (a cheio) e curvas


equipotenciais (representadas por linhas a tracejado) para o
quadrupolo eléctrico linear. Não se representam as linhas
perto do quadrupolo, pois a aproximação efectuada e que
permitiu obter a Eq. (4.21) para as superfı́cies equipotenciais,
e a Eq. (4.22) para as linhas de campo, não é válida.

orientação oposta. Da mesma maneira se pode construir um octopolo linear e, generalizando,


um multipolo linear de ordem qualquer. O multipolo de ordem 2` requer ` deslocamentos
(por exemplo, o hexadecapolo — ordem ` = 4 — requer quatro deslocamentos). O valor de
2` é igual ao número de vezes que a carga Q aparece no multipolo, levando em conta apenas
a grandeza e não o sinal das cargas. A carga total do multipolo, à excepção do monopolo, é
nula.
Veremos que, dada uma distribuição de carga, o potencial V num ponto P longe dessa
distribuição é equivalente a um potencial V0 criado por um monopolo de valor igual à carga
total na distribuição, mais V1 , que é o potencial criado por um dipolo cujo momento dipolar
é igual ao momento dipolar da distribuição de cargas (adiante se definirá momento dipolar de
uma distribuição), mais um potencial V2 , que é o potencial criado pelo quadrupolo cujo mo-
mento quadrupolar é igual ao momento quadrupolar da distribuição (conceitos que também
se definirão adiante com todo o rigor), mais etc.
Vimos que o potencial criado por um monopolo (ordem ` = 0) varia com 1/r, o do dipolo
(ordem ` = 1) com 1/r2 e o do quadrupolo (ordem ` = 2) com 1/r3 . O potencial octopolar
(ordem ` = 3) varia com 1/r4 e, em geral, o do 2` -polo varia com 1/r`+1 . Fica claro que, para
distâncias muito grandes (comparadas com a dimensão tı́pica da distribuição de cargas), os
termos multipolares de ordens sucessivamente mais elevadas dão contribuições sucessivamente
menos importantes.
Consideremos um conjunto de N cargas pontuais qi , i = 1, ..., N localizadas num volume v
(Figura 4.5). Seja O a origem de um referencial e ri0 , com i = 1, ..., N os vectores posicionais
das cargas relativamente a essa origem. Queremos obter o potencial num ponto P que está
à distância r de O e cujo vector posicional é r . Tal como no Capı́tulo 3, distinguiremos
78 •
Campo electromagnético

coordenadas das fontes, que são as componentes do vector r 0 , das coordenadas do ponto
onde se pretende saber o potencial ou o campo, que são as componentes de r .

q a
v
i
P
'
r i r

O
q i

Figura 4.5. Distribuição de carga em v produzindo um


potencial eléctrico em P.

Esse potencial é
N
X N
X
qi qi
V (r ) = = , (4.23)
i=1
4π²0 |r − ri0 | i=1
4π²0 ai
onde
2
ai = |r − ri0 | = (r2 − 2ri0 r cos θi + ri0 )1/2 ,
sendo θi o ângulo que ri0 e r formam entre si. Se escolhermos a direcção r̂ como sendo a
direcção z de um referencial, θi é, nesse referencial, a coordenada esférica polar da carga i (ri0 é
coordenada esférica radial nesse referencial). Relembramos que estamos sempre a considerar
que P está longe de O, isto é, que r À ri0 qualquer que seja i. Podemos então desenvolver a
expressão
1 1 1
= · ³ 0 ´2 ¸1/2
ai r r0 r
1 − 2 ri cos θi + ri

em série de potências de ri0 /r à semelhança do que fizemos nas secções anteriores para r± .
Usando o desenvolvimento (4.4) e considerando termos até segunda ordem em ri0 /r, vem
( "µ ¶2 # · ¸2 )
1 1 1 ri0 r0 3 r0
= 1− − 2 i cos θi + −2 i cos θi + ...
ai r 2 r r 8 r
" µ 0 ¶2 #
1 r0 1 r
= 1 + i cos θi + i
(3 cos2 θi − 1) + ... . (4.24)
r r 2 r

Substituindo em V (r ),
N N
1 X 1 X
V (r ) = qi + qi ri0 cos θi
4π²0 r i=1 4π²0 r2 i=1
XN 2
1 0 2 (3 cos θi − 1)
+ qi ri + ... (4.25)
4π²0 r3 i=1 2

Esta expressão corresponde ao desenvolvimento “multipolar” do potencial. Cada termo do


desenvolvimento tem uma dependência em r da forma 1r , r12 , r13 , r14 , ... pelo que, para r grande,
apenas os primeiros termos do desenvolvimento em série são importantes.
Multipolos eléctricos •
79

Introduzindo os polinómios de Legendre podemos exprimir o desenvolvimento do potencial


em multipolos de uma forma compacta. O polinómio de Legendre de ordem n é definido pela
relação
1 dn 2
Pn (ξ) = n (ξ − 1)n , ξ = cos θ , n inteiro.
2 n! dξ n
Os polinómios de ordem mais baixa são

P0 (ξ) = 1
P1 (ξ) = ξ
1
P2 (ξ) = (3 ξ 2 − 1)
2
1
P3 (ξ) = (5 ξ 3 − 3 ξ)
2
1
P4 (ξ) = (35 ξ 4 − 30 ξ 2 + 3)
8
1
P5 (ξ) = (63 ξ 5 − 70 ξ 3 + 15 ξ) .
8
Conhecidos P0 e P1 , podem ser determinados todos os outros polinómios de Legendre a partir
da seguinte relação de recorrência:

(` + 1) P`+1 (ξ) = (2` + 1) ξ P` (ξ) − ` P`−1 (ξ).

Se analisarmos os primeiros termos do desenvolvimento do potencial (4.25), verificamos que


eles podem ser escritos em função dos polinómios de Legendre de ordem mais baixa. De
facto, mostra-se que

X
1
= P` (ξ) y ` para y < 1, |ξ| ≤ 1 ,
(1 − 2ξy + y 2 )1/2 `=0

r0
pelo que a expressão (4.24), identificando yi = ri e ξi = cos θi , representa exactamente os
três primeiros termos do desenvolvimento em série
∞ µ ¶`
1 1X r0
= P` (ξi ) i . (4.26)
ai r `=0 r

O potencial (4.23) escreve-se então na seguinte forma geral:


N
X X∞ µ 0 ¶` ∞ N
qi r 1 X 1 X `
V (r ) = P` (ξi ) i = qi ri0 P` (ξi ) . (4.27)
i=1
4 π ²0 r `=0 r 4π²0 `=0 r`+1 i=1

As variáveis ξi podem ser escritas em termos dos co-senos directores lx , ly , lz da direcção r :

ri0 lx x0i + ly yi0 + lz zi0


ξi = cos θi = r̂ · r̂i0 = r̂ · = ,
ri0 ri0

sendo (x0i , yi0 , zi0 ) as componentes cartesianas de ri0 .


Para uma distribuição volumétrica contı́nua de cargas, descrita por ρ(r 0 ), tem-se o seguinte
potencial:
∞ Z
1 X 1 `
V (r ) = ρ(r 0 ) P` (ξ) r0 dv, (4.28)
4π²0 `=0 r`+1 v
80 •
Campo electromagnético

sendo dv o elemento de volume, expresso em função das componentes de r 0 sobre as quais se


integra.
Façamos algumas considerações sobre cada um dos termos do desenvolvimento multipolar
do potencial escalar.

Termo monopolar (` = 0)
É o primeiro termo do desenvolvimento (4.27):
N
1 1X Q
V0 (r ) = qi =
4π²0 r i=1 4π²0 r

com
N
X
Q= qi
i=1

a carga total ou momento monopolar da distribuição. O termo monopolar é o termo domi-


nante do desenvolvimento em série. Para pontos muito afastados da distribuição de cargas
esta comporta-se como se fosse uma carga pontual, de valor Q, colocada na origem.
Se a distribuição de cargas for contı́nua, tem-se, evidentemente,
Z
Q = ρ(r 0 )dv
Zv
Q = σ(r 0 )dS
S
Z
Q = λ(r 0 )dl,
C

conforme a distribuição de cargas seja volumétrica, superficial ou linear.

Termo dipolar (` = 1)
O termo com ` = 1 em (4.27) é dado por
N N
1 1 X 0 1 X
V1 (r ) = qi ri cos θi = r̂ · qi ri0 .
4π²0 r2 i=1 4π²0 r2 i=1

Na última expressão o somatório depende apenas de caracterı́sticas intrı́nsecas da distribuição


de cargas, ou seja, do valor das cargas e da sua disposição no espaço. Introduz-se habitual-
mente o momento dipolar da distribuição, que se define por
N
X
p= qi ri0 , (4.29)
i=1

o qual só depende da natureza da distribuição e não do ponto onde se pretende obter o
potencial. Em função deste vector, o potencial escreve-se


V1 (r ) = p · . (4.30)
4π²0 r2

É importante notar que o termo dipolar do potencial, V1 , é o produto escalar de dois fac-
tores: p, que só depende da distribuição de cargas; e r /(4π²0 r3 ) , que apenas depende da
Multipolos eléctricos •
81

localização do ponto P. Comparando com (4.8) concluı́mos que a contribuição do termo dipo-
lar é equivalente à de um dipolo colocado na origem com momento dipolar p. No caso de o
momento monopolar ser nulo (Q = 0), o termo dominante do desenvolvimento multipolar é
V1 e prova-se neste caso, como veremos, que o momento dipolar é independente da escolha
da origem.
No caso de distribuições contı́nuas de carga, o momento dipolar da distribuição é dado
por
Z
p= ρ(r 0 ) r 0 dv ; (4.31)
Zv
p= σ(r 0 ) r 0 dS; (4.32)
ZS
p= λ(r 0 ) r 0 dl , (4.33)
C

conforme a distribuição de cargas seja volumétrica, superficial ou linear.

Termo quadrupolar (` = 2)
O termo quadrupolar do desenvolvimento em multipolos do potencial eléctrico (4.27) é
dado por
N µ ¶
1 X qi ri0 2
V2 (r ) = (3 cos2 θi − 1) (4.34)
4π²0 r i=1 2 r
e, também neste caso, é possı́vel factorizar a expressão num termo que depende apenas das
caracterı́sticas da distribuição de cargas e outro apenas dependente das coordenadas do ponto
onde se pretende calcular o potencial eléctrico. Usando a igualdade
2 2
ri0 (3 cos2 θi − 1) = 3(ri0 .r̂ )2 − ri0

podemos escrever o membro esquerdo desta equação usando os co-senos directores (lx , ly , lz )
de r̂ e das componentes cartesianas (x0i , yi0 , zi0 ) de ri0 . Assim, temos:
2 2
ri0 (3 cos2 θi − 1) = 3(x0i lx + yi0 ly + zi0 lz )2 − ri0 (lx2 + ly2 + lz2 )
2 2 2
= 3(x0i lx2 + yi0 ly2 + zi0 lz2 + 2x0i yi0 lx ly + 2x0i zi0 lx lz + 2yi0 zi0 ly lz )
2
−ri0 (lx2 + ly2 + lz2 )
2 2 2 2 2 2
= lx2 (3x0i − ri0 ) + ly2 (3yi0 − ri0 ) + lz2 (3zi0 − ri0 )
+6 lx ly x0i yi0 + 6 lx lz x0i zi0 + 6 ly lz yi0 zi0 .

Substituindo em (4.34), esta expressão passa a ser escrita do seguinte modo:


" N N N
1 X 2 2 X X
V2 = lx2 qi (3x0i − ri0 ) + lx ly 3qi x0i yi0 + lx lz 3qi x0i zi0
8π²0 r3 i=1 i=1 i=1
N
X N
X N
X
2 2
+ly lx 3qi yi0 x0i + ly2 qi (3yi0 − ri0 ) + ly lz 3qi yi0 zi0
i=1 i=1 i=1
N N N
#
X X X 2 2
+ lz lx 3qi zi0 x0i + lz ly 3qi zi0 yi0 + lz2 qi (3zi0 − ri0 )
i=1 i=1 i=1
X3
1
= lk Qkm lm (4.35)
8 π ²0 r3 k,m=1
82 •
Campo electromagnético

com
N
X (i) (i) 2
Qkm = qi (3x0 k x0 m − δkm ri0 ) . (4.36)
i=1
(i)
Usou-se nesta expressão a notação x0 k para designar a componente cartesiana k do vector ri0 .
As nove quantidades Qkm são as componentes cartesianas do tensor momento quadrupolar
da distribuição de carga.
Trata-se, efectivamente, de um tensor de segunda ordem. Num novo referencial que se
obtenha a partir do primeiro por uma transformação ortogonal, as novas componentes do
tensor quadrupolar eléctrico são dadas por
3
X
Q0km = akj ami Qji ,
j,i=1

onde {alj } são os coeficientes que definem a transformação ortogonal. O valor da quantidade
P3
k,m=1 lk Qkm lm é independente do referencial considerado, pois trata-se de um escalar.
Se em (4.35) substituirmos os co-senos directores de r por lj = xj /r, obtém-se
3
1 1 X
V2 (r ) = xk Qkm xm . (4.37)
4π²0 r5 2 k,m=1

Esta é a parcela dominante do desenvolvimento multipolar se V0 (r ) e V1 (r ) forem ambos


nulos.
Para uma distribuição contı́nua e volumétrica de cargas, as componentes do tensor mo-
mento quadrupolar são dadas por
Z
2
Qkm = ρ(r 0 ) (3x0k x0m − δkm r0 ) dv . (4.38)
v

Vejamos algumas propriedades do tensor momento quadrupolar. Trata-se de um ten-


sor simétrico, ou seja, Qmk = Qkm , o que reduz para seis o número de componentes Qkm
independentes. Além disso, é fácil verificar que tem traço nulo. De facto:
X N
X 2 2 2 2 2 2
Qkk = Qxx + Qyy + Qzz = qi (3x0 i − r0 i + 3y 0 i − r0 i + 3z 0 i − r0 i ) = 0 , (4.39)
k=x,y,z i=1

o que diminui para cinco o número de componentes independentes.


Se o sistema fı́sico tiver certas simetrias, há componentes do tensor momento quadrupolar
que se anulam. Consideremos, por exemplo, que a distribuição de cargas tem simetria axial,
isto é, que fica invariante quanto a rotações em torno de um eixo que se escolhe para eixo z.
A existência desta simetria implica que, se existir uma carga qi num ponto (x0i , yi0 , zi0 ), terá
de existir também uma carga de valor igual em cada um dos pontos (−x0i , yi0 , zi0 ), (x0i , −yi0 , zi0 )
e (−x0i , −yi0 , zi0 ), pelo que (e considerando agora a distribuição contı́nua de cargas2 ),
Z
Qxy = ρ(r 0 ) 3x0 y 0 dv = 0
Z
Qxz = ρ(r 0 ) 3x0 z 0 dv = 0
Z
Qyz = ρ(r 0 ) 3y 0 z 0 dv = 0 .
2
Só uma distribuição contı́nua de carga pode ter simetria cilı́ndrica. Mas certas distribuições discretas de
carga podem também ter Qkm = 0, se k 6= m.
Multipolos eléctricos •
83

Sempre que haja simetria axial Qkm = 0, se k 6= m. Restam, pois, duas componentes
independentes. Mas, havendo simetria em torno do eixo z é evidente que se terá Qxx = Qyy ,
o que permite, usando (4.39), encontrar ainda uma relação entre Qxx e Qzz :

2Qxx + Qzz = 0
Qzz Q(2)
Qxx = − =− .
2 2
Neste caso, podemos exprimir o potencial V2 (r ) apenas em função de uma quantidade Q(2) :
µ ¶
Q(2) 1 1
V2 = − (x2 + y 2 ) + z 2
4π²0 r5 2 2
à !
Q(2) 1 3 2 r2
= z −
4π²0 r5 2 2 2
Q(2) 3 cos2 θ − 1
= , (4.40)
4π²0 4 r3
sendo θ o ângulo entre o eixo z, e a direcção r̂ .

Exemplo 4.1: Momentos quadrupolares de núcleos


A Fı́sica Nuclear fornece exemplos concretos que ilustram a utilidade do que acabámos de
estudar.

Tabela 4.1. Momentos quadrupolares de alguns núcleos em


unidades de carga do protão por 10−28 m2 (barn).

Núcleo Q(2)

16
6O 0,0
17
8O −0,026
39
19 K 0,11
40
20 Ca 0,0
161
66 Dy 2,4
176
71 Lu 8,0
208
82 Pb 0,0
209
83 Bi −0,35

Muitos núcleos apresentam uma deformação mas continuam a possuir um eixo de simetria.
Podem, por exemplo, ter a forma de um elipsóide de revolução e a sua forma assemelhar-se-á
à de um charuto (dizem-se então prolatos) ou ter uma forma semelhante à de uma panqueca
(dizem-se, neste caso, oblatos). Estas formas são aquelas que dão maior estabilidade ao
84 •
Campo electromagnético

sistema com certo número de protões e de neutrões e resultam das múltiplas interacções
entre os nucleões, questão que não vamos aqui considerar. O que é comum aos núcleos
deformados com simetria axial é a existência de um momento quadrupolar diferente de zero.
O momento quadrupolar mede o afastamento relativamente à distribuição esférica de cargas.
Os valores positivos do momento quadrupolar correspondem a formas prolatas, os negativos
a formas oblatas e os valores nulos indicam distribuições de carga esfericamente simétricas.
Na Tabela 4.1 indicam-se os momentos quadrupolares de alguns núcleos. O oxigénio-16,
o cálcio-40 e o chumbo-208 têm momento quadrupolar eléctrico nulo (têm “números mágicos”
de protões e de neutrões). O oxigénio-17 e o bismuto-209 são ambos oblatos, mas o primeiro
é menos deformado. O potássio-39 tem uma forma prolata. O disprósio-161 e o lutécio-
176 apresentam deformações prolatas muito acentuadas, em particular o segundo, e dizem-se
superdeformados.

4.5 ESCOLHA DA ORIGEM

Vejamos qual a influência da escolha da origem nos momentos multipolares.


O momento monopolar Q é, evidentemente, independente da origem do sistema de re-
ferência, mas, em geral, quer o momento dipolar p, quer o quadrupolar Qij , dependem do
referencial e, em particular, da escolha da origem O.
Consideremos um novo referencial com uma nova origem O0 , sendo R o vector posicional
da nova origem relativamente a O. Designando, no novo referencial, os vectores posicionais
das cargas por s0i , tem-se
ri0 = s0i + R (4.41)
(relembra-se que, relativamente a O, a localização das cargas é dada pelos vectores
posicionais ri0 ).
Se designarmos por pO o momento dipolar relativamente a O, e por pO0 o momento
dipolar em relação à nova origem O0 , vem [ver (4.29) e (4.41)]
N
X N
X
p O0 = qi s0i = qi (ri0 − R) = pO − QR.
i=1 i=1
P
Quando i qi = Q = 0, o momento dipolar não depende da origem das coordenadas. Nesse
caso têm de existir, pelo menos, duas cargas de sinais opostos e grandezas iguais. O sistema
mais simples com momento dipolar eléctrico é o dipolo, estudado na Secção 4.2. O valor do
momento dipolar do dipolo não depende, pois, da origem das coordenadas [ver (4.7)].
Por seu lado, num sistema com Q 6= 0, é sempre possı́vel escolher para origem um ponto
relativamente ao qual o momento dipolar da distribuição seja nulo. Esse ponto especial é o
centro de cargas que, em analogia com o centro de massa de um sistema de partı́culas, se
define através de
N Z
1 X 1
RC = qi ri0 ou RC = ρ(r 0 ) r 0 dv . (4.42)
Q i=1 Q

Seja então O0 o centro de cargas. Relativamente a esse ponto, o momento dipolar eléctrico
da distribuição é
N
X N
X N
X
pO 0 = qi s0i = qi ri0 − RC qi = RC Q − RC Q = 0 .
i=1 i=1 i=1
Multipolos eléctricos •
85

Consideremos agora o momento quadrupolar, analisando, por exemplo, a sua componente


Qxy . Relativamente a O0 esta componente vem [designamos as componentes cartesianas de
s0i por (Xi0 , Yi0 , Zi0 )]
N
X
Q0xy = qi 3 Xi0 Yi0
i=1
XN
= qi 3 (x0i − Rx ) (yi0 − Ry )
i=1
XN N
X N
X
= qi 3 x0i yi0 − qi 3 (x0i Ry + yi0 Rx ) + qi 3 Rx Ry
i=1 i=1 i=1
= Qxy − 3 px Ry − 3 py Rx + 3 Q Rx Ry .

Se Q e p se anularem, o momento quadrupolar não dependerá da origem, quer dizer,

Q0xy = Qxy .

As condições Q = 0 e p = 0 são satisfeitas se a distribuição contiver, pelo menos, quatro


cargas de módulo igual, duas positivas e duas negativas (daı́ o nome quadrupolo). Dois
exemplos de sistemas que satisfazem as condições anteriores estão representados na Figura
4.6. No quadrupolo linear há uma carga dupla ao centro que pode ser considerada uma
sobreposição de duas cargas −Q pelo que há, ao todo, quatro cargas. Da Figura 4.6 reconhece-
se imediatamente que os momentos monopolar e dipolar de qualquer das distribuições são
nulos.

Q Q
Q 2 Q Q
p 1 p 1 p p
2 2
Q Q

Figura 4.6. Quadrupolos eléctricos.

4.6 ENERGIA DE UMA DISTRIBUIÇÃO DE CARGAS


NUM CAMPO EXTERIOR

Vimos, no Capı́tulo 3, como se determinava a energia armazenada numa distribuição de


cargas. Nesta secção abordaremos uma questão relacionada com aquela temática: qual é a
energia de interacção de uma certa distribuição de cargas, sistema que designaremos por D,
com um campo externo E ?
Se pensarmos que o campo externo também tem origem numa distribuição de cargas, o
que pretendemos, afinal, é apenas uma parte da energia de interacção entre todas as cargas
envolvidas. Note-se que não nos interessa, neste momento, obter a energia electrostática
armazenada na distribuição D, cujas cargas ocupam posições fixas e bem determinadas. Esta
energia é, digamos, uma constante caracterı́stica de D.
86 •
Campo electromagnético

A energia total, que podemos designar por Utotal , é a soma de três contribuições e, de
acordo com (3.1), dada por
Utotal = Uext + Usis + Uint , (4.43)

onde
Ne
1 X 1 Qe,i Qe,j
Uext = ,
2 i,j=1,i6=j 4π²0 re,ij

sendo Qe as cargas “externas” (fontes do campo externo E ) e re,ij = |re,i − re,j | a distância
entre os pares de cargas externas; a segunda parcela em (4.43) é

N
1 X 1 qi qj
Usis = 0 ,
2 i,j=1,i6=j 4π²0 rij

em que q são cargas que constituem o sistema D; a terceira parcela (note-se, agora, a ausência
do factor 12 ),
Ne
N X
X 1 qi Qe,j
Uint = 0 (4.44)
i=1 j=1
4π² 0 |r e,j − ri |

é a energia de interacção que nos importa considerar. Se designarmos por V (ri0 ) o potencial
electrostático devido ao conjunto de cargas “externas” Qe,i , a energia (4.44) pode ser escrita,
de acordo com (3.2), na forma
N
X
Uint = qi V (ri0 ) . (4.45)
i=1

Frisemos bem o carácter de V (ri0 ): trata-se do potencial “externo”, isto é, o potencial devido
apenas às cargas externas a D no ponto onde se encontra a carga qi que pertence a D,
localizada pelo vector posicional ri0 .
Numa situação experimental tı́pica, as cargas que dão origem ao campo externo estão
muito afastadas de D, pelo que o potencial V (r 0 ) não varia muito dentro do volume v que
contém a distribuição D. Sejam O um ponto desse volume escolhido para origem de um
(i) (i) (i)
referencial e (x0 1 , x0 2 , x0 3 ) as componentes cartesianas de ri0 — vector posicional de qi
— nesse referencial. Dado que o potencial varia pouco, podemos desenvolvê-lo em série de
Taylor em torno de O de coordenadas (0, 0, 0):

3
à ! 3
à !
X (i) ∂V 1 X (i) (i) ∂2V
V (ri0 ) = V0 + x0 n + x0 n x0 m + ...
n=1 ∂x0 (i)
n 0
2 n,m=1 ∂x0 (i) 0 (i)
n ∂x m 0

O ı́ndice 0 significa que a função e as suas derivadas estão a ser tomadas na origem [por
exemplo, V0 = V (0, 0, 0)]. Introduzindo a notação mais compacta, ∂n0 = ∂ 0 (i) , a expressão
∂x n
anterior pode ser escrita na forma
3
1 X (i) (i)
V (ri0 ) = V0 − ri0 · E0 − x0 x0 (∂ 0 Em )0 , (4.46)
2 n,m=1 n m n

pois, como se sabe, (∇0 V )0 = −E0 . Como a divergência de E é nula em todos os pontos
da distribuição D, porquanto não há aı́ fontes do campo “externo”, podemos acrescentar à
Multipolos eléctricos •
87

equação anterior uma parcela da forma ri0 2 (∇ (i) · E )0 /6 sem com isso lhe alterar o valor.
0

Inserindo a expressão que resulta para V em (4.45), vem

Uint = U0,int + U1,int + U2,int + ...


N X 3
1X (i) (i) 2
= Q V0 − p · E0 − qi (3x0 m x0 n − ri0 δmn ) (∂m
0
En )0 + ...
6 i=1 n,m=1

tendo-se usado, no segundo termo, a definição de momento dipolar p da distribuição D [ver


(4.29)]. Podemos ainda escrever o terceiro termo numa forma mais compacta, se atendermos
à definição (4.36) do momento quadrupolar:
3
1 X
U2,int = − Qmn (∂n0 Em )0 .
6 m,n=1

Num outro referencial, cuja origem seja dada pelo vector posicional r relativamente à
origem O, a energia de interacção vem
3
1 X ∂Em (r )
Uint = Q V (r ) − p · E (r ) − Qmn + ... , (4.47)
6 m,n=1 ∂xn

o que equivale a fazer o desenvolvimento em série em torno de um ponto localizado pelo


vector posicional r com origem em O.
A suposição de que o sistema D é constituı́do por cargas pontuais não é restritiva. Poder-
se-iam ter considerado distribuições contı́nuas de carga que o resultado anterior ainda se
mantinha.
Importa sublinhar que a interacção quadrupolar [terceira parcela em (4.47)] é importante
em muitos domı́nios da Fı́sica. Por exemplo, em Fı́sica Nuclear, essa interacção permite
a medição de momentos quadrupolares, podendo daı́ inferir-se a forma dos núcleos e com-
preender melhor a natureza da força entre os neutrões e os protões. Recorde-se que numa
rede cristalina há variações de campo eléctrico e, estando os núcleos sujeitos a este campo,
a sua energia inclui uma contribuição de tipo quadrupolar. Esta contribuição levanta de-
generescências existentes no espectro de energias do núcleo e o desdobramento dos nı́veis
permite determinar o seu momento quadrupolar.

4.6.1 Interacção dipolo - campo eléctrico


Vejamos qual é o efeito da aplicação de um campo exterior sobre um dipolo eléctrico. Se
designarmos por θ o ângulo que a direcção do momento dipolar do dipolo p forma com o
campo E , a energia de interacção, como vimos acima, é dada por

Uint = −p · E = −pE cos θ (4.48)

com o valor do campo eléctrico a ser tomado no centro do dipolo. A equação anterior também
P
pode ser obtida fazendo o cálculo directo a partir de i qi V (i). Assim, Uint = q ( V+q − V−q ),
onde os ı́ndices ±q se referem à posição da carga positiva e negativa. Considerando o de-
senvolvimento do potencial em série de Taylor, até primeira ordem, em torno do centro do
dipolo [ver Eq. (4.46)] a energia vem Uint = −q (r+q − r−q ) · E , que se reduz à forma dada
na Eq. (4.48), atendendo à definição de momento dipolar do dipolo.
A Eq. (4.48) mostra que, na presença de um campo eléctrico, o dipolo tende a alinhar com
a direcção do campo, tornando assim mı́nima a energia. Ao invés, a energia será máxima
88 •
Campo electromagnético

quando cos θ = −1, isto é, quando p e E forem antiparalelos. Se o campo eléctrico for
constante na região do dipolo, a força total que sobre ele se exercer será nula: F = q (E+q −
E−q ) = 0. Mas se houver uma dependência espacial do campo eléctrico a força sobre o dipolo
já não será nula. Por exemplo, as componentes x das forças que se exercem sobre cada uma
das cargas são dadas por q Ex + q (r±q · ∇)Ex , com Ex e derivadas de Ex tomadas na origem.
A força total que se exerce sobre o dipolo é

F = q [(r+q − r−q ) · ∇] E = (p · ∇)E . (4.49)

Verificamos que, se E for constante, a força será nula. Contudo, mesmo neste caso, há
um momento M que é dado por

M = q r+q × E − q r−q × E = q(r+q − r−q ) × E = p × E . (4.50)

Dado tratar-se de um sistema de força resultante nula, este momento é independente do ponto
escolhido para origem.
Deve assinalar-se que se podia explorar um pouco mais a expressão (4.47), desenvolvendo
o campo externo em multipolos, e identificando no final as contribuições para a energia
resultantes de termos com caracterı́sticas multipolares bem definidas: energia de interacção
dipolo-dipolo, monopolo-quadrupolo, dipolo-quadrupolo, etc.

Exemplo 4.2: Interacção dipolo-dipolo


Vejamos, a tı́tulo de exemplo, o caso da interacção dipolo-dipolo. É conveniente exprimir
o campo criado por um dipolo [ver (4.12)] sem fazer referência a um qualquer sistema de
coordenadas. Assim, partindo do potencial (4.8) pode obter-se o campo eléctrico:

3(p · r̂ )r̂ − p
E= ,
4π ²0 r3
expressão que é equivalente a (4.12). A expressão anterior será obtida formalmente no Prob-
lema 4.7.11.
Seja p1 o momento dipolar de um dipolo localizado em r1 e p2 o momento de um dipolo
localizado em r2 . Seja ainda R = r1 − r2 . A energia de p1 no campo de p2 (energia de
interacção dipolo-dipolo) é dada por

UDD = −p1 · E2
1 h i
= p1 · p2 − 3 ( p2 · R̂ )(p 1 · R̂ ) .
4π²0 R3
Como é óbvio, se tivéssemos calculado a energia de p2 no campo produzido por p1 , terı́amos
chegado ao mesmo resultado. De facto, a expressão anterior fica invariante quando se permuta
p1 com p2 (e R̂ → −R̂).

4.7 PROBLEMAS RESOLVIDOS

4.7.1 Distribuição de carga em superfı́cie esférica


Questão
Calcular o momento dipolar de uma distribuição superficial esférica de carga cuja densi-
dade é σ = σ0 cos θ, sendo θ o ângulo polar. O raio da esfera é R.
Multipolos eléctricos •
89

Resposta
Por definição, o momento dipolar de uma distribuição superficial de carga é [cf. (4.32)]
Z
p= σ(r 0 ) r 0 dS . (4.51)
S

Considere-se a Figura 4.7. O vector posicional r 0 de um elemento de carga sobre a su-


perfı́cie esférica é
r 0 = R r̂ 0 .

r'
q

f y

Figura 4.7. Distribuição de carga


do Problema 4.7.1.

O vector unitário r̂ 0 relaciona-se com os vectores unitários segundo os eixos x, y e z através


de
r̂ 0 = sin θ cos φ î + sin θ sin φ ĵ + cos θ k̂ .
É conveniente utilizar um elemento de superfı́cie da esfera carregada da forma
dS = Rdθ R sin θ dφ = R2 sin θ dθ dφ. (4.52)
Usando o elemento de superfı́cie (4.52), a componente x do momento dipolar (4.51) é
Z
px = σ0 cos θ R sin θ cos φ R2 sin θ dθ dφ
S
Z 2π Z π
= σ0 R3 cos φ dφ sin2 θ cos θ dθ = 0 .
0 0

A
R 2πcomponente y do momento dipolar eléctrico é proporcional a um integral da forma
0 sin φ dφ, verificando-se, por esta razão, que também

py = 0 .
Finalmente, a componente z é dada por
Z
pz = σ0 cos θ R cos θ R2 sin θdθdφ
S
Z π
4πσ0 R3
= 2πσ0 R3 cos2 θ sin θ dθ = .
0 3
90 •
Campo electromagnético

Para se escrever a última igualdade utilizou-se a expressão


Z π Ã ¯π
m (cos θ)m+1 ¯¯ 1 − (−1)m+1
cos θ sin θ dθ = − ¯ = , (4.53)
0 m + 1 ¯0 m+1

com m = 2.
Em conclusão, podemos escrever
4
p= π R3 σ0 k̂ .
3

4.7.2 Cubo de carga


Questão
No interior de um cubo de aresta a está distribuı́da, uniformemente, uma carga Q.
Tomando para origem o centro do cubo, provar que os momentos dipolar e quadrupolar
da distribuição são nulos.

Resposta
O momento dipolar eléctrico escreve-se [cf. (4.31)]
Z
p= r 0 ρ(r 0 ) dv .
cubo

Na situação do problema a densidade de carga é constante e dada por


Q
ρ= .
a3
Considera-se a origem no centro do cubo (que é também o centro de cargas). Os três
eixos coordenados passam pelo centro de todas as faces do cubo. Isto significa que as coor-
denadas x0 , y 0 e z 0 — componentes do vector posicional r 0 = x0 î + y 0 ĵ + z 0 k̂ dos elementos
de carga localizados no volume elementar dv = dx0 dy 0 dz 0 — variam todas de −a/2 a +a/2.
A componente x do momento dipolar eléctrico é
Z a/2 Z a/2 Z a/2
Q 0 0 0
px = 3 x dx dy dz 0 = 0 , (4.54)
a −a/2 −a/2 −a/2

pois o primeiro dos três integrais é nulo (trata-se do integral de uma função ı́mpar num
domı́nio simétrico). Quando se calculam as componentes y e z do momento dipolar eléctrico,
surgem integrais, respectivamente, sobre y 0 e sobre z 0 do tipo do integral em x0 na expressão
(4.54), pelo que
p = 0.
De resto, dada a simetria do problema, os momentos px , py e pz têm de ser iguais (as direcções
dos três eixos coordenados são equivalentes). Se px é nulo, as outras duas componentes, py e
pz , também têm de ser nulas.
Os elementos do tensor momento quadrupolar são dados por [cf. (4.38)]
Z
2
Qij = (3x0i x0j − r0 δij ) ρ(r 0 ) dv . (4.55)
cubo
Multipolos eléctricos •
91

Vejamos, em primeiro lugar, os elementos diagonais. O elemento xx é dado por


Z Z
02 Q 02 Q 2 2 2
Qxx = (3x − r ) 3 dx0 dy 0 dz 0 = 3 (2x0 − y 0 − z 0 ) dx0 dy 0 dz 0
" Z
a a
a/2 Z a/2 Z a/2 Z a/2 Z a/2 Z a/2
Q 02 0 0 0 0 02 0
= 2 x dx dy dz − dx y dy dz 0
a3 −a/2 −a/2 −a/2 −a/2 −a/2 −a/2
Z a/2 Z a/2 Z a/2 #
0 0 02 0
− dx dy z dz . (4.56)
−a/2 −a/2 −a/2

Ora,
Z α
αm+1 − (−α)m+1
ξ m dξ = (4.57)
−α m+1
e de (4.56) vem, finalmente,
" #
Q a5 a5 a5
Qxx = 3 − − = 0. (4.58)
a 6 12 12

Repetindo os cálculos para os outros elementos diagonais, verifica-se que também são nulos:

Qxx = Qyy = Qzz = 0 .

Uma forma bem mais simples de concluir que os elementos diagonais têm de ser nulos
consiste em notar que, por simetria, Qxx = Qyy = Qzz . Mas, por outro lado, o traço do
tensor momento quadrupolar eléctrico tem de ser nulo, o que só é possı́vel, em função das
igualdades anteriores, se cada um dos elementos diagonais se anular.
Quanto aos elementos não diagonais, considere-se, em primeiro lugar, Qxy . Tem-se, a
partir de (4.55),
Z
Qxy = 3x0 y 0 ρ(r ) dx0 dy 0 dz 0
Z a/2 Z a/2 Z a/2
3Q
= x0 dx0 y 0 dy 0 dz 0 .
a3 −a/2 −a/2 −a/2

Calculando os integrais a partir de (4.57) conclui-se que Qxy é nulo. Nulos são também os
outros elementos não diagonais, ou seja:

Qxy = Qxz = Qyz = 0 .

Em conclusão, o vector momento dipolar e os elementos do tensor momento quadrupolar


são nulos para a distribuição dada e no referencial considerado.

4.7.3 Distribuição discreta de cargas — I


Questão
Considerar a distribuição de cargas da Figura 4.8 dispostas simetricamente em relação
à origem O. Com base na desenvolvimento multipolar do potencial, obter a expressão do
potencial eléctrico criado por esta distribuição de cargas num ponto à distância r À a da
origem.
92 •
Campo electromagnético

y
Q

a 4 Q
a
Q O Q
a a x
a
4 Q a

z Q

Figura 4.8. Distribuição de carga


do Problema 4.7.3.

Resposta
O momento monopolar é a carga total:

Qtot = 12Q . (4.59)

O momento dipolar, que é dado por [cf. (4.29)]


6
X
p= qi ri0 ,
i=1

é nulo, pois por cada carga localizada num ponto há uma outra, de igual valor, localizada
simetricamente relativamente à origem (ver Tabela 4.2, que resume os dados relativos à
distribuição de cargas). Assim,
p = 0. (4.60)
Os elementos do momento quadrupolar são dados por [cf. (4.36)]
6
X (i) (i) 2
Qkm = qi (3x0 k x0 m − δkm ri0 ) , (4.61)
i=1

onde i é o ı́ndice de partı́cula e k, m = x, y, z são ı́ndices cartesianos. Note-se que, para todas
as cargas da distribuição (ver Figura 4.8), ri0 2 = a2 . O elemento xx de (4.61) é
6
X · ³ ´2 ¸
0 (i) 2
Qxx = qi 3 x − ri0
i=1
= (3a2 − a2 )Q + (3a2 − a2 )Q − a2 Q − a2 Q − a2 4Q − a2 4Q
= −6 a2 Q . (4.62)

Efectuando os cálculos, verifica-se que o elemento yy tem também este valor:

Qyy = −6a2 Q . (4.63)


Multipolos eléctricos •
93

Tabela 4.2. Localização das cargas


do Problema 4.7.3.

Carga Valor x0 y0 z0

# 1 Q a 0 0
# 2 Q −a 0 0
# 3 Q 0 a 0
# 4 Q 0 −a 0
# 5 4Q 0 0 a
# 6 4Q 0 0 −a

De resto, este resultado pode ser obtido notando que os eixos x e y são equivalentes entre si
(o eixo z já não!). A maneira mais simples de obter o elemento zz é tirar partido do facto de
o tensor do momento quadrupolar ter traço nulo:

3
X
Qkk = 0 .
k=1

Assim,
Qzz = −Qxx − Qyy = 12 a2 Q . (4.64)

Pode o leitor chegar a este resultado usando a expressão geral (4.61).


Quanto aos elementos não diagonais, são todos nulos. Vejamos apenas um, a tı́tulo de
exemplo:
6
X
Qxy = 3 x0i yi0 qi = 0 (= Qxz = Qyz ) , (4.65)
i=1

pois duas das coordenadas x0i , yi0 , zi0 são nulas para cada uma das seis cargas (ver Tabela 4.2).
Tendo obtido os momentos multipolares de ordem mais baixa, podemos utilizar agora a
expressão do desenvolvimento multipolar do potencial para obter V (r) a distâncias relativa-
mente grandes da distribuição de cargas:

3
Q p · r̂ 1 1 X
V (r ) ' + + xk Qkm xm .
4π²0 r 4π²0 r2 4π²0 r5 2 k,m=1

Usando nesta expressão os resultados (4.59), (4.60), (4.62), (4.63), (4.64) e (4.65), obtém-se
" #
Q a2
V (r ) ' 12 + 4 (−6x2 − 6y 2 + 12z 2 )
4π²0 r 2r
12Q 3a2 Q
' + (3z 2 − r2 ) .
4π²0 r 4π²0 r5
94 •
Campo electromagnético

4.7.4 Distribuição discreta de cargas — II


Questão
Considerar uma distribuição de cargas pontuais localizadas nos vértices de um cubo de
aresta a do modo seguinte:

−3q(0, 0, 0);−2q(a, 0, 0);−q(a, a, 0);q(0, a, 0);2q(0, a, a);3q(a, a, a);4q(a, 0, a);5q(0, 0, a).

a) Calcular os momentos monopolar, dipolar e quadrupolar desta distribuição de cargas


em relação à origem (0, 0, 0);

b) Determinar a posição de uma nova origem, em relação à qual o momento dipolar seja
nulo.

Resposta
Na Tabela 4.3 resume-se a distribuição de cargas. Na última coluna
√ indica-se o quadrado

da distância de cada carga à origem. Essa distância pode ser a, 2a e 3a.

Tabela 4.3. Localização das cargas do Problema 4.7.4. A


quantidade na última coluna é o quadrado da distância de
cada carga à origem.

Carga Valor x0 y0 z0 r0 2

# 1 −3q 0 0 0 0
# 2 −2q a 0 0 a2
# 3 4q a 0 a 2a2
# 4 5q 0 0 a a2
# 5 q 0 a 0 a2
# 6 −q a a 0 2a2
# 7 3q a a a 3a2
# 8 2q 0 a a 2a2

a) O momento monopolar da distribuição é

Q = 15 q − 6 q = 9 q . (4.66)

O momento dipolar é dado pela expressão (4.29). Em relação à origem (0, 0, 0) tem-se

px = (−2q + 4q − q + 3q)a = 4 q a
py = (q − q + 3q + 2q)a = 5 q a
pz = (4q + 5q + 3q + 2q)a = 14 q a ,

ou seja,
p = q a (4 î + 5 ĵ + 14 k̂) . (4.67)
Multipolos eléctricos •
95

Os elementos do tensor momento quadrupolar são calculados a partir de (4.36). Os


elementos diagonais são:
8
X 2 2
Qxx = qi (3x0i − ri0 )
i=1
= −2q (3a2 − a2 ) + 4q (3a2 − 2a2 ) + 5q (−a2 ) + q (−a2 )
−q (3a2 − 2a2 ) + 3q (3a2 − 3a2 ) + 2q (−2a2 )
= −11 q a2
8
X 2 2
Qyy = qi (3yi0 − ri0 )
i=1
= −2q (−a2 ) + 4q (−2a2 ) + 5q (−a2 ) + q (3a2 − a2 )
−q (3a2 − 2a2 ) + 3q (3a2 − 3a2 ) + 2q (3a2 − 2a2 )
= −8 q a2
Qzz = −Qxx − Qyy = 19 q a2 .

Quanto aos elementos não diagonais,


8
X
Qxy = 3 qi x0i yi0
i=1
= 3 (−qa2 + 3qa2 ) = 6 q a2 = Qyx
8
X
Qxz = 3 qi x0i zi0
i=1
= 3 (4qa2 + 3qa2 ) = 21 q a2 = Qzx
8
X
Qyz = 3 qi yi0 zi0
i=1
= 3 (2qa2 + 3qa2 ) = 15 q a2 = Qzy ;

b) Quando o momento monopolar de uma distribuição de cargas é diferente de zero, é


sempre possı́vel encontrar um ponto relativamente ao qual o momento dipolar dessa
distribuição é nulo. Esse ponto especial — centro de cargas — define-se através de
[cf. (4.42)]
N
1 X 1
RC = qi ri0 = p
Q i=1 Q
(repare-se na analogia com a definição de centro de massa).
Relativamente à origem (0, 0, 0), o vector posicional do centro de cargas da distribuição
é, atendendo a (4.66) e a (4.67),
a
RC = (4 î + 5 ĵ + 14 k̂) .
9

4.7.5 Distribuição linear de carga


Questão
Uma carga Q está uniformemente distribuı́da num segmento de recta de comprimento d.
96 •
Campo electromagnético

a) Calcular V por integração, escolhendo a origem das coordenadas no centro de cargas;

b) Calcular os termos monopolar, dipolar e quadrupolar do desenvolvimento de V ;

c) Para que valores de r é o termo quadrupolar inferior a 1/100 do termo monopolar?


Discutir o resultado.

Resposta
Na Figura 4.9 introduz-se a notação que se irá utilizar: r 0 é o vector posicional de um
elemento de carga relativamente à origem, r é o vector posicional, relativamente à mesma
origem, do ponto onde se pretende conhecer o potencial e a = r − r 0 .

q
d /2 O r' d /2 x

Figura 4.9. Segmento de recta uniformemente carregado.

a) O potencial no ponto P é
Z d/2
1 λ dx
V = , (4.68)
4π²0 −d/2 |r − r 0 |
onde λ = Q/d é a densidade linear de carga. Relembrando o seguinte desenvolvimento
multipolar (4.26)
∞ µ 0 ¶`
1 1 X r
= P` (cos θ) ,
|r − r 0 | r `=0 r

e substituindo em (4.68), vem


∞ Z d/2 µ 0 ¶`
1 λX r
V = P` (cos θ) dx ,
4π²0 r `=0 −d/2 r

que é a Eq. (4.27) [ou (4.28)] adequada à distribuição linear de carga deste problema.
Para x < 0, r0 = −x (r0 é sempre positivo) e o ângulo θ é o suplementar do que está
indicado na Figura 4.9, pelo que o co-seno do ângulo entre r e r 0 é o simétrico do
co-seno do ângulo indicado. Dado que P` (− cos θ) = (−1)` P` (cos θ), o potencial pode
ser escrito na forma

" Z 0 Z d/2 #
1 λX P` (cos θ)
V = (−1)` (−x) dx + ` `
x dx
4π²0 r `=0 r` −d/2 0
Multipolos eléctricos •
97

∞ Z
λ X P` (cos θ) d/2 `
= x dx
4π²0 r `=0 r` −d/2
à `+1 ¯d/2
λ X ∞
P` (cos θ) r0 ¯
¯
= ¯
4π²0 r `=0 r` ` + 1¯ −d/2

X µ ¶`
λ 1 (d/2)`+1 − (−d/2)`+1
= P` (cos θ) .
4π²0 r `=0
r `+1

Se ` é ı́mpar, o último factor é nulo. Se ` é par, o numerador do último termo dá


simplesmente 2(d/2)`+1 . O potencial vem então

X µ ¶`+1
2λ 1 d
V = P` (cos θ) ; (4.69)
4π²0 `+1 2r
`=0
(` par)

b) O termo monopolar do potencial — termo correspondente a ` = 0 em (4.69) — é


2λd Q
V0 = = . (4.70)
8 π ²0 r 4 π ²0 r

O termo dipolar (` = 1) é nulo. Note-se que o momento dipolar eléctrico da distribuição


é nulo, pois o centro geométrico do segmento, escolhido para origem, é também o centro
de cargas.
O termo quadrupolar (` = 2) do desenvolvimento (4.69) é

λ d3 λ d3
V2 = 2 P2 (cos θ) 3 = (3 cos2 θ − 1) 3 . (4.71)
12π²0 8r 12π²0 8r
Desta expressão e da expressão geral para o potencial quadrupolar quando há simetria
axial [cf. (4.40)], como é o caso presente, conclui-se que

Q d2
Q(2) = Qzz = ;
6

c) Pretende-se determinar os valores de r para os quais


1
|V2 | < |V0 | .
100
A partir de (4.70) e (4.71) obtém-se

|V2 | d2 |3 cos2 θ − 1| 1
= < .
|V0 | 24r2 100

Ora, |3 cos2 θ − 1| varia entre 0 e 2. Quando |3 cos2 θ − 1| = 0, tem-se, r > 0. Quando


3 cos2 θ − 1 = 2, tem-se
200 2 √
r2 > d ∼ 8d2 −→ r > 2 2d.
24

Para distâncias r > 2 2 d o potencial quadrupolar é tal que |V2 | < 100 |V0 |.
98 •
Campo electromagnético

4.7.6 Anel de carga


Questão

Considerar um anel de raio a sobre o qual existe uma carga total Q uniformemente dis-
tribuı́da. Obter o desenvolvimento multipolar do potencial eléctrico criado pelo anel em
qualquer ponto P a uma distância r do centro do anel tal que r À a.

Resposta

A situação está representada na Figura 4.10.

P
z
r

a y
f

Figura 4.10. Anel circular carregado


uniformemente.

O ponto P está a uma distância r do centro do anel que é muito maior do que o raio deste.
Designa-se por θ o ângulo entre a direcção vertical (eixo z) e a direcção do vector posicional
do ponto P.
O momento monopolar, Q, relaciona-se com a densidade linear de carga, λ, através de

Q = 2πλa. (4.72)

O momento dipolar da distribuição, sendo dado por


I
p= λ r 0 d` , (4.73)
anel

não tem componente segundo o eixo z, pois a distribuição de cargas localiza-se no plano
xy (para qualquer elemento de carga z 0 = 0). As componentes x e y do momento dipolar
eléctrico (4.73) também se anulam. De facto, fazendo d` = a dφ, x0 = a cos φ, y 0 = a sin φ
em (4.73), obtém-se
I Z 2π
px = λ x0 d` = λa2 cos φ dφ = 0
anel 0
I Z 2π
py = λ y 0 d` = λa2 sin φ dφ = 0 .
anel 0
Multipolos eléctricos •
99

Como o sistema tem simetria axial relativamente ao eixo z, basta calcular o elemento Qzz
do tensor momento quadrupolar:
I
2 2
Qzz = Q(2) = λ (3z 0 − r0 ) d` .
anel

Recordando que z 0 é sempre nulo e, fazendo a integração na coordenada angular, tal como
anteriormente, obtém-se
Z 2π
Q(2) = −λa3 dφ = −2πλa3 = −Qa2 ,
0

tendo-se utilizado (4.72).


Recorda-se que o termo quadrupolar do potencial, no caso de simetria axial, é dado por
(4.40). Assim, considerando os termos do potencial de ordem mais baixa (o que é válido a
distâncias grandes), o potencial em P é

Q Qa2 3 cos2 θ − 1
V = − .
4π²0 r 4π²0 4 r3

4.7.7 Distribuições lineares de carga


Questão

Duas distribuições lineares de carga λ1 = λ0 y e λ2 = −λ0 y (sendo λ0 uma constante


positiva) estão localizadas em x = b e x = −b, respectivamente, e estendem-se desde y = −a
até y = a. Calcular os termos monopolar, dipolar e quadrupolar do desenvolvimento em
multipolos do potencial eléctrico criado por esta distribuição de cargas, em relação à origem.

Resposta

A distribuição está indicada na Figura 4.11 (o eixo z é perpendicular ao plano do papel e


aponta para fora).

b b
x

Figura 4.11. Distribuições lineares de carga do Problema


4.7.7.
100 •
Campo electromagnético

Atendendo às expressões da densidade linear de carga, cada uma das linhas tem carga
total nula. A linha 1 tem carga positiva para y > 0 e carga simétrica desta para y < 0. Para
a linha 2 tem-se o oposto. O momento monopolar do sistema é, pois, nulo:
Q = 0.
O momento dipolar é, neste caso, dado por
Z Z
0
p= λ1 r d` + λ2 r 0 d` .
linha 1 linha 2
x0 z0
Para a linha 1, = b, = 0 e λ1 = λ0 y0; para a linha 2, x0 = −b, z 0 = 0 e λ2 = −λ0 y 0 . Em
ambos os casos, d` = dy 0 . Assim,
Z a Z a ³ ¯
2 ¯a
px = λ0 b y 0 dy 0 − λ0 (−b) y 0 dy 0 = λ0 b y 0 ¯ =0
−a −a −a
Z a Z a
2 2
py = λ0 y 0 dy 0 − λ0 y 0 dy 0 = 0
−a −a
pz = 0 ,
quer dizer, o momento dipolar da distribuição é nulo.
Vejamos agora as componentes do tensor momento quadrupolar. Os elementos diagonais
[ver (4.38)] são Z Z
a a
2 2 2 2
Qii = (3x0 i − r0 )λ1 dy 0 + (3x0 i − r0 )λ2 dy 0 ,
−a −a
que se anulam, pois as duas parcelas são simétricas (λ1 = λ0 y 0 e λ2 = −λ0 y 0 ). Globalmente,
as funções integrandas são ı́mpares e por isso o integral é zero. Os elementos não diagonais
Qxz e Qyz são evidentemente nulos, pois ambos incluem o factor z 0 , que é sempre nulo.
Finalmente,
Z a Z a
Qxy = 3x0 y 0 λ1 dy 0 + 3x0 y 0 λ2 dy 0
−a −a
Z a Z a
2 2
= 3 b λ0 y 0 dy 0 + 3 b λ0 y 0 dy 0
−a −a
à ¯a
y0 3 ¯
¯
= 6 b λ0 ¯ = 4 b a3 λ0 = Qyx .
3 ¯
−a
A contribuição de ordem mais baixa para o desenvolvimento multipolar do potencial —
que é a quadrupolar — é dada por [cf. (4.37)]
3
1 1 X b λ0 a3 x y
V2 = x Q x
k km m = .
4π²0 r5 2 k,m=1 π ²0 r5

4.7.8 Distribuição de carga com simetria axial


Questão
Uma distribuição de carga é dada, em coordenadas esféricas, pela seguinte densidade
volumétrica 
 ρ0 r2 sin2 θ

 r<a
 2
a
ρ = (4.74)




0 r > a,
sendo ρ0 uma constante.
Calcular os momentos monopolar, dipolar e quadrupolar da distribuição.
Multipolos eléctricos •
101

Resposta
O momento monopolar é a carga total do sistema:
Z
Q= ρ dv , (4.75)
v

sendo v o volume onde a carga se distribui (interior de uma esfera de raio a). Assim, inserindo
(4.74) em (4.75), vem
Z Z π Z 2π
ρ0 a 4 3
Q= 2 r dr sin θdθ dφ .
a 0 0 0

Aplicando a relação3
Z π
2 (2m)!!
(sin θ)2m+1 dθ = ,
0 (2m + 1)!!
obtém-se
ρ0 a5 4 8
Q= 2π = π ρ0 a3 .
a2 5 3 15
O momento dipolar é definido por4
Z
p= ρ r dv ,
v

cujas componentes são:


Z a Z π Z 2π
ρ0
px = r5 dr sin4 θ dθ cos φ dφ = 0 ,
a2 0 0 0

uma vez que o último integral é nulo; do mesmo modo,


Z a Z π Z 2π
ρ0
py = r5 dr sin4 θ dθ sin φ dφ = 0 ;
a2 0 0 0

finalmente Z a Z π Z 2π
ρ0 5 3
pz = 2 r dr sin θ cos θ dθ dφ = 0
a 0 0 0

pelo que p = 0 para a distribuição dada. A última expressão anula-se, pois o integral em θ é
nulo. Em geral, Z π
sinm θ cos θdθ = 0 .
0

A distribuição de cargas tem simetria axial, pois a densidade de cargas não depende da
coordenada esférica φ. Para conhecer o tensor momento quadrupolar basta, pois, calcular
Qzz :
Z
Qzz = (3z 2 − r2 ) ρ dv
v
Z a Z π Z 2π
ρ0 6 2 3
= r dr (3 cos θ − 1) sin θdθ dφ .
a2 0 0 0
3
O sı́mbolo “!!” designa duplo factorial, tendo-se (2m)!! = 2×4×6×...×2m, e (2m+1)!! = 1×3×5×...×(2m+1).
4
Para tornar mais leve a notação, e quando apenas se calculam momentos multipolares, não vamos pôr
“linhas” nas variáveis sobre as quais se integra.
102 •
Campo electromagnético

Usando (4.53) obtém-se, para o integral em θ,


Z π Z π
2 3
(3 cos θ − 1) sin θ dθ = (3 cos2 θ − 1)(1 − cos2 θ) sin θ dθ
0 0
Z π
4 2 2 2 8
= (−3 cos θ + 4 cos θ − 1) sin θdθ = −3× + 4× − 2 = − ,
0 5 3 15

donde
8 ρ0 a7 16
Qzz = − 2π 2 =− π a5 ρ0 .
15 a 7 105
Lembrando que Qxx = Qyy = −Qzz /2, a matriz completa dos elementos do momento
quadrupolar escreve-se  
1 0 0
8 π ρ0 a5  
(Qij ) =  0 1 0 .
105
0 0 −2

4.7.9 Cilindro de carga


Questão

Considerar uma distribuição de cargas com simetria axial dada, em coordenadas


cilı́ndricas, pela seguinte densidade volumétrica:


 ρ0 r/a para 0 ≤ r ≤ a ; 0 ≤ z ≤ L




ρ = − ρ0 r/a para 0 ≤ r ≤ a ; −L ≤ z ≤ 0 (4.76)






0 para r > a ; z qualquer

Calcular os momentos monopolar e dipolar da distribuição e mostrar que este é indepen-


dente da origem escolhida.

Resposta

O problema tem simetria cilı́ndrica, pois a densidade de cargas não depende da coordenada
angular cilı́ndrica φ. A carga total do cilindro é nula, uma vez que na parte de cima do cilindro,
z > 0, a densidade de carga é simétrica da da parte de baixo, z < 0. Vejamos qual é a carga
em cada uma das partes (na parte de cima, por exemplo):
Z a Z L Z 2π
Q+ = ρ r dr dz dφ
0 0 0
2
= π L ρ0 a2 . (4.77)
3

Recordando que, em coordenadas cilı́ndricas r = r cos φ î+r sin φ ĵ +z k̂, e que a integração
na variável φ de um seno ou de um co-seno dá zero, o momento dipolar só pode ter componente
na direcção z. Esta componente é dada por
Z a Z L Z 2π
pz = r dr ρ z dz dφ .
0 −L 0
Multipolos eléctricos •
103

As integrações a efectuar são semelhantes às da expressão (4.77), com a excepção da integração
em z. Obtém-se
ρ0 a3 2 2π
pz = 2π L = ρ0 a2 L2 .
a 3 3
Atendendo ao resultado (4.77) podemos escrever

p = Q+ L k̂ .

Esta expressão sugere que a distribuição (4.76) é equivalente a um dipolo formado pelas
cargas Q+ e −Q+ localizadas no eixo z, respectivamente em L/2 e em −L/2.
O momento dipolar da distribuição é independente da escolha da origem, pois a carga
total é nula.

4.7.10 Momento quadrupolar de um elipsóide


Questão
Mostrar que o elemento zz do tensor quadrupolar eléctrico de um elipsóide de revolução
de semi-eixo maior, b, e semi-eixo menor, a, com uma carga Q uniformemente distribuı́da, é
dado por
4 b−a a+b
Qzz = Q R̄2 δ com δ = , R̄ = . (4.78)
5 R̄ 2

Resposta
É conveniente fazer o estudo utilizando coordenadas cilı́ndricas. Escolhe-se o eixo z se-
gundo o eixo maior do elipsóide. O momento quadrupolar é
Z
Qzz = ρ [3z 2 − (r2 + z 2 )] r dr dφ dz , (4.79)
v

onde ρ é a densidade de carga. Esta é simplesmente

Q
ρ= 4 2
, (4.80)
3 πa b

sendo o denominador o volume do elipsóide de revolução. A equação do elipsóide é

x2 y 2 z 2
+ 2 + 2 = 1,
a2 a b
ou ainda, em termos da coordenada cilı́ndrica r,

r2 z2
+ = 1.
a2 b2
A integração sobre r, em (4.79), terá de ser efectuada de 0 até
s
z2
r=a 1− .
b2
104 •
Campo electromagnético

Tem-se, então,
q
Z b Z a 1− z2
2
b
Qzz = 2πρ dz (2z 2 − r2 ) r dr
−b 0
 Ã ! Ã !2 
Z b
z2 a4 z2
= 2πρ dz z 2 a2 1− 2 − 1− 2 
−b b 4 b
Z b à !
z 4 a2 a4 a4 z 2 a4 z 4
2 2
= 2πρ dz z a − 2 − + − .
−b b 4 2b2 4b4

Efectuando a integração em z, obtém-se

8
Qzz = π ρ a2 b (b2 − a2 ) .
15
Esta expressão pode ainda ser escrita, atendendo a (4.80), na seguinte forma:

2
Qzz = Q (b − a) (b + a) .
5

Finalmente, atendendo às definições de δ e de R̄ — ver (4.78) — obtém-se a expressão


pretendida:
4
Qzz = Q R̄2 δ .
5

4.7.11 Campo eléctrico dipolar


Questão

Um dipolo de momento dipolar p está localizado na origem, mas sem orientação especial
relativamente ao sistema de eixos. Mostrar que o campo eléctrico pode ser escrito na forma

1
E (r ) = [3 ( p · r̂ ) r̂ − p ] . (4.81)
4π²0 r3

Resposta

Basta notar que, independentemente da orientação do dipolo, o potencial dipolar é dado


por [cf. (4.8)]
p · r̂ 1 1
V = = p·r 3 .
4π²0 r2 4π²0 r
Tomando o simétrico do gradiente desta expressão, obtém-se o campo eléctrico:
· µ ¶¸
1 ∇(p · r ) 1
E = −∇V = − +p·r∇ 3 . (4.82)
4π²0 r3 r

Em geral (ver Apêndice B),

∇(A · B ) = (B · ∇)A + (A · ∇)B + B × (∇ × A) + A × (∇ × B ) . (4.83)


Multipolos eléctricos •
105

No cálculo de ∇(p · r ) deve notar-se que, sendo o vector p constante, o primeiro e o terceiro
termos no lado direito de (4.83) anulam-se. Além disso, o rotacional de r é nulo, pelo que

∇(p · r ) = (p · ∇)r
µ ¶
∂ ∂ ∂
= px + py + pz (xî + y ĵ + z k̂) = p .
∂x ∂y ∂z

Por outro lado, verifica-se que µ ¶


1 3 r̂
∇ 3 =− .
r r4
Substituindo as duas últimas expressões em (4.82), obtém-se
µ ¶
1 p 3 1
E=− 3
− p · r 4 r̂ = [ 3(p · r̂ )r̂ − p ] .
4π²0 r r 4π²0 r3

4.7.12 Energia de um dipolo


Questão
Considerar uma esfera imaginária de raio a centrada num dipolo de momento p. Mostrar,
por integração da densidade de energia de r = a até infinito, que a energia eléctrica associada
à região do espaço fora da esfera é U = p2 / (12π²0 a3 ).

Resposta
Consideremos a expressão do campo eléctrico produzido por um dipolo [Eq. (4.81)]. Se
tomarmos a direcção do momento dipolar para eixo z, o ângulo de p com r é a coordenada
esférica angular θ, podendo escrever-se
1
E= [3p cos θ r̂ − p k̂] .
4π²0 r3

A densidade de energia, u, é proporcional ao quadrado desta expressão (note-se que r̂ · k̂ =


cos θ):
²0
u = E·E
2
µ ¶2
²0 p
= (3 cos2 θ + 1) .
2 4π²0 r3

A energia pretendida é o integral desta expressão para r ≥ a,


µ ¶2 Z ∞ Z π Z 2π
²0 p 1 2 2
U= r dr (3 cos θ + 1) sin θ dθ dφ .
2 4π²0 a r6 0 0

A integração no ângulo θ faz-se recorrendo à expressão (4.53), tendo-se, finalmente,


µ ¶2 µ ¶µ ¯
²0 p 2 1 ¯¯∞
U = 2π 3× + 2 −
2 4π²0 3 3r3 ¯a
p2
= .
12π²0 a3
106 •
Campo electromagnético

4.7.13 Força entre dipolos


Questão
Um dipolo de momento p1 está localizado em r1 e um outro dipolo de momento p2 em
r2 . Determinar a força F2 exercida em p2 . Calcular F2 nos seguintes casos particulares:
i) p1 é paralelo a p2 mas perpendicular a R; ii) p1 é paralelo a p2 e paralelo a R, sendo
R = r2 − r1 .

Resposta
Vimos no Exemplo 4.2 que a energia de interacção dipolo-dipolo era dada por
1
UDD = [ p1 · p2 − 3(p1 · R̂)(p2 · R̂) ] , (4.84)
4π²0 R3
sendo R = r2 − r1 .
A força a que um dipolo de momento p fica sujeito quando está na presença de um campo
eléctrico E é, em geral, dada por (4.49). Além disso, a força pode ser expressa como o
simétrico do gradiente da energia potencial (que, neste caso, é a energia do sistema). Para
mostrarmos isso mesmo, neste caso particular, consideremos o gradiente do escalar p · E e
apliquemos a expressão (4.83):
∇(p · E ) = (E · ∇)p + (p · ∇)E + E × (∇ × p) + p × (∇ × E ) .
No lado direito desta equação, o primeiro e o terceiro termos são nulos, porque p é constante;
o quarto termo é zero porque o campo electrostático é irrotacional; a única parcela não nula é
o segundo termo, que é a força (4.49): F = (p · ∇)E . De (4.48) conclui-se, como se esperava,
que
F = −∇U .
Podemos agora determinar a força que se exerce no dipolo 2. Basta tomar o gradiente
da energia de interacção dipolo-dipolo em relação às coordenadas r2 (é este o significado do
ı́ndice 2 no operador nabla na expressão seguinte):
F2 = −∇2 UDD . (4.85)
Mas, como R = r2 − r1 , tomar o operador nabla em ordem às coordenadas do dipolo 2
é equivalente a tomar o operador nabla relativamente a R. Vamos designar este operador
nabla simplesmente por ∇, sem qualquer ı́ndice. Para se calcular o gradiente de (4.84) tem
de se usar µ ¶
1 R
∇ = −3 5 (4.86)
R3 R
e
R
∇(p · R̂) = (p · ∇) (4.87)
R
[para se escrever esta última expressão usou-se (4.83) e ainda o facto de p ser constante
e de R̂, tal como R, ser irrotacional]. Usando coordenadas cartesianas, em termos das
componentes, tem-se
3
X µ ¶
∂ xi
∇i (p · R̂) = pj
j=1
∂xj R
3 µ
X ¶
pj δij xj
= − pj xi 3
j=1
R R
pi xi
= − (p · R) .
R R3
Multipolos eléctricos •
107

A Eq. (4.87) passa a ser escrita do seguinte modo:

p R
∇(p · R̂) = − (p · R) . (4.88)
R R3

Vamos usar os resultados (4.86) e (4.88) para, de acordo com (4.85), tomarmos o gradiente

da energia (4.84):

· ¸
3R 3 p1 R
F2 = 5
[ p1 · p2 − 3(p1 · R̂)(p2 · R̂) ] + 3
− 3 (p1 · R) (p2 · R̂)
4π²0 R 4π²0 R R R
· ¸
3 p2 R
+ − 3 (p2 · R) (p1 · R̂)
4π²0 R3 R R
3 h i
= (p1 · p2 )R̂ − 5 ( p1 · R̂ ) ( p2 · R̂ )R̂ + p1 (p 2 · R̂ ) + p2 (p 1 · R̂ ) . (4.89)
4π²0 R4
108 •
Campo electromagnético

Consideremos agora os seguintes casos particulares:

i) Os momentos p1 e p2 são paralelos entre si e perpendiculares a R. Neste caso (4.89)


reduz-se a
3p1 p2
F2 = R̂ .
4π²0 R4
ii) Os momentos p1 e p2 são paralelos entre si e paralelos a R. Neste caso, (4.89) reduz-se
a
3
F2 = (p1 p2 − 5p1 p2 + p1 p2 + p1 p2 ) R̂
4π²0 R4
3p1 p2
= − R̂ .
2π²0 R4
CAPÍTULO 5
MEIOS DIELÉCTRICOS
5.1 INTRODUÇÃO

À escala do nanometro, a matéria pode ser vista como um conjunto de cargas positivas
(núcleos) e negativas (nuvem electrónica). Átomos e moléculas, porque são electricamente
neutros, têm momento monopolar nulo. Em certos materiais, como os condutores, algumas
cargas eléctricas podem mover-se com grande liberdade quando ficam sujeitas à acção de
campos eléctricos externos. Noutros materiais não há cargas livres e, por isso, são não con-
dutores. Esses materiais, que vamos considerar neste capı́tulo, são designados por dieléctricos
e só possuem cargas ligadas. A presença de um campo eléctrico externo dá origem unicamente
a um pequeno deslocamento das cargas negativas relativamente às positivas, dizendo-se então
que o material fica polarizado. Esta ideia deve ficar bem clara desde o inı́cio: nos condutores
e semicondutores há cargas livres que se deslocam; nos dieléctricos as cargas estão sempre
ligadas, podendo apenas sofrer pequenos deslocamentos.
Saliente-se que, mesmo na ausência de campos externos, há certas moléculas que, embora
globalmente neutras, apresentam, devido à sua estrutura, um momento dipolar permanente.
Um exemplo comum é a molécula de água. Estas moléculas são polares, assim chamadas
por oposição às que não apresentam qualquer momento dipolar e que se denominam não
polares. Os dipolos moleculares orientam-se quase sempre ao acaso, pelo que o momento
dipolar de uma amostra é nulo (tal como o momento monopolar). Refira-se, a tı́tulo de
curiosidade, que há materiais com dipolos eléctricos permanentes que tendem a orientar-se
paralelamente entre si, mesmo na ausência de campo externo. São os chamados electretes,
bastante raros e de muito menor interesse do que os seus correspondentes magnéticos —
os magnetes permanentes. Por fim, para certos materiais pode acontecer que, depois de
estarem sujeitos à acção de um campo eléctrico externo, mantenham por mais algum tempo
a polarização que neles foi induzida.
Em geral, o electromagnetismo pode ser formulado sem necessidade de recorrer à descrição
microscópica da matéria. Pode, pois, falar-se de cargas e correntes sem necessidade de apurar
110 •
Campo electromagnético

qual é a sua constituição elementar, ou seja, sem necessidade de saber de que são “feitas”
essas cargas e essas correntes. No caso dos dieléctricos, embora a mesma perspectiva possa
ser adoptada, há vantagem em procurar entender os fenómenos com base no comportamento
microscópico dos constituintes da matéria. Notemos, no entanto, que, à escala microscópica,
muitos dos fenómenos só são compreensı́veis no quadro da mecânica quântica. As cautelas
terão, portanto, de ser redobradas...
Num pedaço de matéria cujas moléculas sejam não polares, e na ausência de campo
eléctrico externo, os centros de cargas positivas e negativas de cada molécula coincidem (um
exemplo é a molécula de O2 ). Sob a acção de um campo electrostático externo, o centro de
carga da nuvem electrónica desloca-se ligeiramente em relação ao centro de carga do núcleo
(o deslocamento é da ordem de ∼ 10−8 do diâmetro do átomo). Diz-se que o campo eléctrico
externo produziu uma polarização electrónica.
A polarização direccional ocorre no caso de o material ser constituı́do por moléculas po-
lares. Neste caso, o campo eléctrico externo faz orientar os dipolos para tornar mı́nima a
energia de interacção (como vimos no fim do capı́tulo anterior, o momento dipolar tende a
alinhar com a direcção do campo). Além disso, o próprio momento dipolar de cada molécula
aumenta por acção do campo externo.
Se o material for um sólido como o NaCl, os iões de diferentes sinais deslocam-se em
sentidos opostos quando sujeitos a um campo eléctrico externo e tem-se então a polarização
atómica.

5.2 POLARIZAÇÃO ELÉCTRICA. CARGAS E CORRENTES


DE POLARIZAÇÃO

A polarização de um material é caracterizada por uma grandeza vectorial — o vector


polarização, P — que se define como o momento dipolar eléctrico por unidade de volume do
material, isto é,
dp
P = , (5.1)
dv
sendo dp o momento dipolar eléctrico da matéria contida no volume elementar dv. Portanto,
o vector P (r ) é uma densidade de momento dipolar. O momento dipolar total de uma
amostra de volume v é Z
ptotal = P dv .
v
Nas expressões anteriores, o volume elementar dv, que é “pequeno” à escala macroscópica,
deverá ser, contudo, suficientemente “grande” à escala molecular, de modo a conter muitas
moléculas para que eventuais flutuações estatı́sticas no número de moléculas ou na orientação
dos seus dipolos não tenham efeito significativo. Se assim for, a polarização definida por (5.1)
é uma função bem comportada.
Se todos os momentos dipolares moleculares, p, apontarem numa mesma direcção, e se n
for o número de moléculas por unidade de volume, a polarização pode ser escrita como

P = np . (5.2)

Esta expressão estabelece uma relação entre uma propriedade macroscópica, P , e uma pro-
priedade microscópica1 , p. No caso de se aplicar ao dieléctrico um campo eléctrico externo
1
No Capı́tulo 4 introduzimos o sı́mbolo p para representar o momento dipolar de uma distribuição de
cargas. Advertimos o leitor para o facto de o mesmo sı́mbolo ser usado para designar tanto o momento dipolar
do “indivı́duo” (átomo ou molécula) como o de uma porção macroscópica de matéria.
Meios dieléctricos •
111

E , é evidente que, sendo P uma medida da “resposta” do material à solicitação externa, a


densidade de polarização deverá ter uma relação directa com E . Mas deixemos para mais
tarde a discussão desta relação entre os dois vectores.
As cargas ligadas dos dieléctricos são afinal a “fonte” (origem) do vector P e deverão
também ter com este uma relação muito estreita. Vejamos qual é essa relação.
Consideremos uma área infinitesimal dS no interior de um material dieléctrico como mostra
a Figura 5.1.

E
^
n
d v = s d S
+

d S
+

s
+

Figura 5.1. Superfı́cie elementar no interior de um dieléctrico


polarizado por acção do campo externo E . O volume
elementar referido no texto é dv = s · n̂ dS = s · dS .

Designemos por s o vector posicional do centro de cargas positivas, Q, numa molécula


polarizada, relativamente ao centro de cargas negativas, −Q, da mesma molécula. Quando se
aplica um campo externo E , as moléculas orientam-se tendendo a alinhar os seus momentos
dipolares eléctricos com E . Seja N+ o número de cargas positivas que se deslocam num
sentido (o do campo E ) atravessando a área dS (Figura 5.1) e N− o número de cargas
negativas, −Q, que se deslocam no sentido oposto, atravessando a mesma área infinitesimal.
A carga total deslocada e que atravessa a superfı́cie dS é igual a

dQ = N+ Q − N− (−Q) = (N+ + N− )Q .

Ora, N+ + N− é o número de moléculas num volume elementar dv = s · dS (dS = dS n̂, com


n̂ a normal à superfı́cie elementar dS), de modo que a carga deslocada é dada pela expressão

dQ = Q n s · dS , (5.3)

onde, como foi dito antes, n é o número de partı́culas (moléculas) por unidade de volume.
Atendendo à definição de momento dipolar da molécula, p = Qs e à Eq. (5.2), pode escrever-
se (5.3) na forma
dQ = n p · dS = P · dS . (5.4)
Se o elemento de área se localizar sobre a superfı́cie do dieléctrico, haverá aı́ uma acu-
mulação de carga ligada ou carga de polarização, cuja densidade superficial é

dQ
σp = = P · n̂ . (5.5)
dS
112 •
Campo electromagnético

Quanto à densidade volumétrica de carga ligada, comecemos por notar o seguinte. A


carga que sai de um volume elementar é, de acordo com (5.4), o fluxo de P através da área
orientada que delimita esse volume. Assim, a carga total que sai de um volume finito v no
interior do dieléctrico é dada pelo integral
I
Qsai = P · dS
S

estendido à superfı́cie fechada S que delimita v. A carga que fica no volume é o simétrico da
carga que sai. A expressão anterior e o teorema de Gauss permitem escrever a carga que fica
na forma de um integral estendido ao volume v:
Z
Qfica = − ∇ · P dv.
v

Sendo v qualquer, esta expressão permite-nos definir uma densidade volumétrica de carga
ligada ou de polarização, ρp (r ), dada por

ρp = −∇ · P . (5.6)

Se um dieléctrico está sob a acção de um campo eléctrico variável no tempo, gera-se


no material uma corrente de polarização, cuja densidade designamos por jp . Considerando
novamente um volume v arbitrário no interior do dieléctrico, limitado pela superfı́cie fechada
S, o fluxo da corrente de polarização através desta superfı́cie, isto é, o fluxo do vector jp , é
igual à variação por unidade de tempo da carga de polarização nesse volume v. Como se tem
de verificar a equação de continuidade para as cargas ligadas,
I Z
d
jp · dS = − ρp dv .
S dt v

Usando (5.6) e o teorema de Gauss,


I I
∂P
jp · dS = · dS ,
S S ∂t
de onde resulta, porque S é qualquer,

∂P
jp = .
∂t
Existe uma corrente de polarização sempre que P dependa explicitamente do tempo.

5.3 POTENCIAL ELÉCTRICO CRIADO PELAS CARGAS


DE POLARIZAÇÃO

Consideremos um bloco de material dieléctrico, electricamente neutro, que se encontre


polarizado, sendo, por isso, equivalente a um conjunto de dipolos eléctricos. O momento
dipolar do volume elementar dv, cuja localização é descrita pelo raio vector r 0 , é dada por
P dv. Vamos calcular o potencial produzido num ponto P, fora do dieléctrico, sendo r o
seu vector posicional. Na Secção 5.8 consideraremos o caso em que o ponto P se localiza no
interior do dieléctrico. Mantendo a notação utilizada no Capı́tulo 2, introduzimos o vector
Meios dieléctricos •
113

a = r − r 0 (ver Figura 2.2). Atendendo à expressão (4.8), o potencial criado em P pela


distribuição de dipolos contida no volume v é
Z
1 P (r 0 ) · â
V (r ) = dv .
4π²0 v a2
Note-se que a integração é sobre as variáveis r 0 (em coordenadas cartesianas, por exemplo,
dv = dx0 dy 0 dz 0 ). Usando (2.28) e (2.39) podemos escrever o potencial na forma
Z µ ¶
1 0 0 1
V (r ) = P (r ) · ∇ dv ,
4π²0 v a
onde ∇0 é o operador gradiente relativamente à variável r 0 . Algumas transformações
algébricas simples permitem dar outra forma à equação anterior. Assim,
·Z µ ¶ Z ¸
1 0 P (r 0 ) ∇0 · P (r 0 )
V (r ) = ∇ · dv − dv
4π²0 v a v a
I Z
1 P · n̂ 1 −∇0 · P
= dS + dv , (5.7)
4π²0 S a 4π²0 v a
sendo S a superfı́cie fechada que envolve v e n̂ a normal exterior, em cada ponto, a essa
superfı́cie. Conclui-se que o potencial criado pelo material dieléctrico polarizado é afinal o
mesmo que seria produzido por uma distribuição volumétrica de carga de densidade ρp =
−∇ · P [segundo termo de (5.7)] e por uma distribuição superficial de densidade σp = P · n̂
(primeiro termo da referida expressão). Verificamos que estas densidades são precisamente
aquelas que foram deduzidas na Secção 5.2.
Do ponto de vista dos efeitos no exterior, podemos considerar que o bloco de material
dieléctrico polarizado — que é um conjunto de dipolos descritos por P — pode ser “sub-
stituı́do” por uma distribuição de cargas ligadas (ou de polarização) de densidades σp e ρp
dadas por (5.5) e (5.6), respectivamente. As cargas de polarização são distribuições reais de
carga, que representam acumulações de carga em determinadas zonas do material dieléctrico.
É conveniente considerar desde já alguns exemplos de aplicação.

Exemplo 5.1: Efeito de um dieléctrico num condensador plano


Consideremos um condensador plano com capacidade C0 (área das placas, A, e distância
entre estas, d), carregado com uma carga Q. Essa carga resulta da aplicação da diferença de
potencial V0 entre as suas placas, tendo-se
Q
C0 = .
V0
Isolando o condensador (isto é, mantendo Q constante) e colocando um material dieléctrico
entre as suas placas, verifica-se experimentalmente que a diferença de potencial entre as
placas diminui, quer dizer V < V0 e, portanto, a capacidade aumenta: C > C0 . A diferença
de potencial é, em cada caso,
Z − Z −
V0 = E0 · dl = E0 d e V = E · dl = E d , (5.8)
+ +

sendo a circulação do campo eléctrico da placa positiva do condensador para a negativa


e E0 e E as grandezas do campo eléctrico entre as placas na situação em que não existe
114 •
Campo electromagnético

+ + + + + + + + + + + + + + +
E 0 P E

+ + +

(a ) (b )

Figura 5.2. Condensador plano carregado (a) sem dieléctrico


e (b) com dieléctrico.

[Figura 5.2 (a)] e em que existe dieléctrico [Figura 5.2 (b)]. Admitindo que P é constante, de
(5.6) conclui-se que ρp = 0, isto é, não há densidade volumétrica de carga de polarização no
dieléctrico. Mas à superfı́cie deste há carga, tendo sinal contrário à carga livre nas placas do
condensador [Figura 5.2 (b)]. O campo eléctrico com dieléctrico, E = σ/²0 , é menor do que o
campo quando não há dieléctrico, E0 = σ` /²0 , onde σ = σ` + σp é a densidade superficial de
carga total, σ` a densidade de carga livre e σp , que tem sinal contrário a σ` , a densidade de
carga de polarização. De (5.8) obtém-se imediatamente a relação entre os potenciais quando
existe e quando não existe dieléctrico:
µ ¶
σp
V = 1+ V0 .
σ`

A capacidade do condensador com dieléctrico é


µ ¶−1
Q σp σ`
C= = 1+ C0 = C0 . (5.9)
V σ` σ

A presença de um meio dieléctrico entre as placas de um condensador faz aumentar a sua


capacidade, pois, como anteriormente se disse, σp tem sinal oposto a σ` e portanto σ` /σ > 1
(ver Problema 5.12.3).

Exemplo 5.2: Campo criado por uma esfera uniformemente polarizada


Uma esfera uniformemente polarizada é equivalente a duas distribuições esféricas de carga
Q e −Q, cuja separação entre os centros é descrita pelo vector s (Figura 5.3). Designamos
por ρ a densidade (uniforme) de carga de cada esfera.
O campo eléctrico é a soma dos campos criados pelas cargas positivas e pelas cargas
negativas. Mantendo a notação da Secção 4.2, designamos por r− o vector posicional do
ponto P onde se quer obter o valor do campo relativamente ao centro de cargas positivas, e
por r+ o vector posicional do mesmo ponto, agora em relação ao centro de cargas negativas
(note-se que r+ = s + r− ). Comecemos por obter a expressão do campo num ponto localizado
no interior da esfera polarizada. Relembrando o resultado expresso na Eq. (2.18), podemos
escrever o campo criado por cada um dos tipos de carga,
ρ r−
E+ =
3²0
ρ r+
E− = − ,
3²0
Meios dieléctricos •
115

P
r
+ + + +
r +

s
P

Figura 5.3. A esfera polarizada uniformemente pode ser vista


como uma sobreposição de duas esferas com cargas opostas
cujos centros estão ligeiramente afastados um do outro.

de onde se obtém o campo no interior da esfera,


ρs
E = E+ + E− = − .
3 ²0
Atendendo a que o vector polarização está relacionado com s através de
dp dq
P = =s = ρs,
dv dv
conclui-se que
P
E=− . (5.10)
3²0
Para a situação descrita, P é constante e a densidade volumétrica de carga de polarização é
nula. Só há carga de polarização à superfı́cie, sendo a respectiva distribuição superficial dada
por
σp = P · r̂ = P ŝ · r̂ = P cos θ ,
onde θ é o ângulo que o vector posicional do ponto da superfı́cie forma com a direcção s.
No exterior da esfera os campos criados pelas cargas positivas e negativas são [ver (2.20)]:
Q r−
E+ = 3
4π²0 r−
Q r+
E− = − 3
4π²0 r+
e o campo total é
à !
Q r− r+
E = 3 − 3
4π²0 r− r+
µ ¶
Q r − s/2 r + s/2
= − ,
4π²0 |r − s/2|3 |r + s/2|3
sendo r o vector posicional do ponto relativamente ao centro da esfera polarizada (r± =
r ± s/2). É interessante escrever a expressão do potencial num ponto exterior e analisá-la
116 •
Campo electromagnético

na situação em que r À s (os pormenores deste cálculo foram apresentados na Secção 4.2).
Tem-se µ ¶
Q 1 1 Q s · r̂ v P · r̂
V (r ) = − ≈ = ,
4π²0 |r − s/2| |r + s/2| 4π²0 r2 4π²0 r2
onde v é o volume da esfera. Quer dizer, a esfera uniformemente polarizada produz em pontos
exteriores (r À s) o mesmo potencial que seria criado por um dipolo, de momento dipolar
p = v P , colocado no centro da esfera.

5.4 LEI DE GAUSS NA PRESENÇA DE DIELÉCTRICOS E


CAMPO DESLOCAMENTO D

A lei de Gauss, tal como foi formulada no Capı́tulo 2, continua a ser válida, desde que
se inclua a carga total, isto é, a carga livre mais a carga de polarização. Consideremos uma
superfı́cie fechada S no interior da qual (região de volume v) podem existir cargas livres e
cargas de polarização. Admita-se que sobre a superfı́cie S não há distribuições superficiais
de carga de qualquer espécie. A lei de Gauss aplicada ao volume v conduz à expressão
I
Q Q` + Qp
E · dS = = ,
S ²0 ²0
onde Q é a carga total contida no volume v,
Z
Q= (ρ` + ρp )dv .
v

Daqui resulta que a equação local para o campo E passa a ser escrita do seguinte modo:
ρ` + ρp ρ
∇·E = = , (5.11)
²0 ²0
onde ρ, ρ` e ρp designam, respectivamente, as densidades volumétricas de carga total, livre e
de polarização. Atendendo a (5.6), a Eq. (5.11) pode ser escrita na forma

∇ · (²0 E + P ) = ρ` .
É, pois, possı́vel definir um vector cuja divergência dependa apenas da densidade volumétrica
de cargas livres. Esse vector,
D = ²0 E + P , (5.12)
chama-se vector ou campo deslocamento eléctrico (ou, simplesmente, deslocamento) e obedece
à equação local
∇ · D = ρ` , (5.13)
bem como à correspondente equação integral,
Z I
∇ · D dv = D · dS = Q` , (5.14)
v S

as quais permitem, em princı́pio, calcular D uma vez conhecida a distribuição de carga livre.
O campo eléctrico macroscópico no interior de um dieléctrico pode ser visto como a so-
breposição do campo deslocamento [que obedece à Eq. (5.13)] e do campo devido às cargas
de polarização:
D P
E= − .
²0 ²0
Meios dieléctricos •
117

Sobre a superfı́cie que separa dois meios 1 e 2, a divergência, no primeiro membro de


(5.13), é substituı́da pela divergência superficial, tendo-se a seguinte equação, análoga à Eq.
(2.42) para o campo eléctrico:

divS D = n̂ · (D2 − D1 ) = D2n − D1n = σ` , (5.15)

sendo n̂ o versor normal à superfı́cie e que aponta para o meio 2. Note-se que a componente
do vector D segundo a normal à superfı́cie é contı́nua sobre esta superfı́cie se não houver
distribuição superficial de cargas livres. É este o caso quando a fronteira separa dois meios
dieléctricos. Se, porém, a fronteira é entre um condutor e um dieléctrico, D = 0 no interior
do condutor (meio 1) pelo que, de (5.15), no meio 2 (dieléctrico), junto à superfı́cie, Dn = σ` ,
sendo σ` a densidade de carga livre à superfı́cie do condutor.
Em situações estáticas, da equação de Maxwell ∇ × E = 0 e de (5.12) resulta

∇×D = ∇×P. (5.16)

Sobre uma superfı́cie de descontinuidade a componente do campo eléctrico E tangente à


superfı́cie é contı́nua [ver (2.43)], isto é, E2t = E1t . Pode adiantar-se que esta continuidade
de Et é geral, mantendo-se mesmo no caso de situações não estáticas (ver Capı́tulo 9). Se
o meio 1 for um condutor e o meio 2 um dieléctrico, no meio 1 E = 0, e portanto Et = 0
no dieléctrico. Esta equação exprime o facto, já conhecido, de o campo eléctrico ser sempre
perpendicular à superfı́cie do condutor.
Para uma superfı́cie de descontinuidade a Eq. (5.16) conduz a:

D2t − D1t = P2t − P1t , (5.17)

onde Pit , Dit são as componentes dos campos P e D numa direcção perpendicular à normal2
na superfı́cie de separação dos meios 1 e 2.

5.5 CLASSIFICAÇÃO DOS DIELÉCTRICOS

Na Secção 5.2 foi afirmado que deve existir uma relação entre o campo eléctrico, E ,
e o vector polarização, P . Há certos meios dieléctricos que apresentam uma polarização
permanente, quer dizer P 6= 0 mesmo quando E = 0. Mas, em geral, a relação funcional
P = P (E ) é tal que P (E = 0) = 0, isto é, não há polarização se não houver campo aplicado.
Neste caso, a expressão mais simples que se pode considerar para as componentes do vector
polarização é um desenvolvimento nas componentes de E :
X X
Pi = αij Ej + βijk Ej Ek + ... (5.18)
j jk

Os valores dos coeficientes deste desenvolvimento caracterizam o tipo de dieléctrico. Se


forem necessários termos de segunda ordem e superiores para relacionar os vectores E e P , o
dieléctrico diz-se não linear. Se a primeira parcela de (5.18) for suficiente, o dieléctrico diz-se
linear e, nesse caso, X X
Pi = αij Ej = ²0 χij Ej , (5.19)
j j

2
Na superfı́cie de separação podem ser definidos dois eixos ortogonais. A Eq. (5.17) designa, de uma forma
compacta, a projecção sobre cada um desses eixos.
118 •
Campo electromagnético

onde χij são as componentes do tensor susceptibilidade eléctrica. Estas quantidades são
adimensionais e caracterı́sticas do material, não dependendo de E (caso contrário, cai-se na
situação não linear). As componentes do tensor susceptibilidade eléctrica podem não ser
constantes, isto é, podem variar de ponto para ponto do material. A Eq. (5.19) mostra que,
em geral, P e E não são paralelos mesmo em materiais dieléctricos lineares (situação que
ocorre, por exemplo, em cristais). Mas há materiais dieléctricos lineares que são também
isotrópicos. A isotropia significa que, em cada ponto do material, as suas propriedades
eléctricas são independentes da direcção E ; o vector polarização é então paralelo ao campo
eléctrico. Todas as direcções são equivalentes e χij = 0 se i 6= j e χxx = χyy = χzz = χe . A
relação entre P e E é, então, localmente, de simples proporcionalidade,
P = ²0 χe E , (5.20)
embora a susceptibilidade eléctrica χe , numa situação mais geral, possa ser uma função
de r , ou seja, possa variar de ponto para ponto do dieléctrico. Se tal dependência não
existir, quer dizer se o dieléctrico for linear, isotrópico e homogéneo, χe é uma constante
e o dieléctrico diz-se da classe A. Naturalmente que o valor de χe depende do dieléctrico
considerado, verificando-se experimentalmente que é sempre positivo para todos os materiais
conhecidos.
Usando a relação (5.20), a expressão do vector deslocamento eléctrico, dada por (5.12),
pode ser escrita na forma
D = ²0 E (1 + χe ) = ²0 ²r E = ² E , (5.21)
sendo ² a permitividade do meio e ²r , dada por
²
²r = 1 + χe = , (5.22)
²0
a permitividade relativa, que é uma quantidade sempre maior ou igual a 1. Esta grandeza é
também designada por constante dieléctrica do material, sendo então representada por κe . As
quantidades χe , ²r (≡ κe ) ou ² são obtidas experimentalmente e caracterizam as propriedades
dieléctricas do material.
Quando o campo externo E é pouco intenso os dieléctricos têm um comportamento linear.
Mas, mesmo para campos de intensidade moderada, a grande maioria dos materiais exibe
ainda um comportamento linear. A anisotropia aparece essencialmente em sólidos cristalinos
cujas propriedades variam com a direcção. Em materiais anisotrópicos, a relação (5.12)
continua válida mas, em geral, D , E e P não P são paralelos. A Eq. (5.21) é escrita, em
termos das componentes de D , na forma Di = ²0 j (²r )ij Ej , sendo (²r )ij as componentes de
um tensor.
Em meios dieléctricos isotrópicos, lineares e homogéneos, o potencial electrostático satisfaz
uma equação semelhante a (2.15). Assim, reescrevendo a Eq. (5.21) em função do potencial
V,
D = ²E = −² ∇V ,
tomando a divergência de ambos os membros desta equação e considerando que a permitivi-
dade do meio, ², é constante, vem
∇ · D = −² ∇2 V ,
ou, fazendo uso de (5.13),
ρ`
∇2 V = − , (5.23)
²
que é a equação de Poisson. Apesar de, no numerador do segundo membro, aparecer sim-
plesmente a densidade de carga livre, isto não significa que o efeito das cargas de polarização
tenha desaparecido. Esse efeito está incluı́do em ². A Eq. (5.23) é equivalente a (2.15) [no
numerador de (2.15) a densidade de carga refere-se à carga total], como veremos na próxima
secção.
Meios dieléctricos •
119

5.5.1 RELAÇÃO ENTRE CARGAS LIVRES E DE POLARIZAÇÃO


Tendo-se analisado a relação entre os vectores E e P para dieléctricos lineares e
isotrópicos, será fácil encontrar agora uma relação entre as densidades de carga livre e de
polarização (ou de carga total e de polarização). Assim, usando (5.6) e (5.20), e considerando
χe constante, pode escrever-se
ρp = −²0 χe ∇ · E .
A equação de Maxwell (2.42) permite substituir a divergência de E pela densidade de carga
total dividida pela permitividade do vazio, o que conduz a
ρp = −χe (ρ` + ρp ) ;
usando a relação entre ²r e χe dada por (5.22), obtém-se
µ ¶
1
ρp = −ρ` 1 − . (5.24)
²r
Este resultado mostra que se a densidade de carga livre for nula, a de polarização sê-lo-á
também. A relação entre a densidade de carga total ρ e a carga livre obtém-se da expressão
anterior, bastando somar a ambos os membros de (5.24) a quantidade ρ` :
ρ`
ρ= . (5.25)
²r
Esta equação mostra que a densidade de carga total num ponto é igual ou menor do que a
densidade de carga livre nesse ponto, uma vez que se verifica sempre ²r ≥ 1. Substituindo ρ` ,
dado por (5.25), em (5.23) obtém-se a equação de Poisson (2.15).

Exemplo 5.3: Interface condutor-dieléctrico


Consideremos as distribuições superficiais de carga de polarização e de carga livre na
superfı́cie de separação entre um condutor e um dieléctrico, como se representa na Figura
5.4.

n^
d ie lé c tric o

+ + +
+ c o n d u to r
n '
^
+
+
E = 0
D = 0

Figura 5.4. Interface


condutor-dieléctrico.

No condutor, E e D são nulos. As densidades superficiais de carga livre (no condutor) e de


polarização (no dieléctrico) são
σ` = D · n̂ (5.26)
σp = P · n̂0 = −P · n̂ . (5.27)
120 •
Campo electromagnético

A última destas equações ainda se pode escrever, usando (5.20) e (5.21), na forma
²0 χe
σp = − D · n̂ . (5.28)
²
Tendo em conta (5.22) e combinando (5.28) com (5.26), conclui-se que
µ ¶
1
σp = −σ` 1 −
²r
[note-se a semelhança com (5.24)] ou, ainda, somando σ` a cada membro da equação anterior,
σ`
σ= .
²r
A Eq. (5.9) que relaciona as capacidades de um condensador plano sem dieléctrico (C0 ) e
com dieléctrico (C) pode, atendendo à equação anterior, ser escrita na forma seguinte:
C = ²r C0 . (5.29)

5.5.2 Dieléctricos lineares e isotrópicos — exemplos que ilustram


o cálculo de D , E e P
Vamos considerar alguns exemplos com dieléctricos lineares e isotrópicos. A Eq. (5.20),
válida para esta classe de dieléctricos, pode ser escrita nas seguintes formas [ver (5.22)]:
P = ²0 χe E = (²r − 1) ²0 E = (² − ²0 ) E .
Na Tabela 5.1 fornecem-se alguns valores para permitividades relativas estáticas, ²r , para
vários meios dieléctricos e nas condições indicadas. Para a maior parte dos gases à temper-
atura T = 273, 15 K (= 0 ◦ C) e pressão P = 1, 01×105 Pa (= 1 atm) — condições PTN —
a permitividade relativa é apenas ligeiramente superior à unidade.
No caso de um campo eléctrico variável, a permitividade de um material pode depender
da frequência do campo. Na realidade, quando a frequência de oscilação é muito elevada, os
dipolos não se orientam em tempo útil e a permitividade relativa diminui com o aumento da
frequência. Na Tabela 5.2 apresentam-se os valores de ²r para três frequências distintas.

Exemplo 5.4: Carga pontual num dieléctrico infinito


Consideremos uma carga pontual Q num dieléctrico infinito. Como se conhece a dis-
tribuição de cargas livres, mas não as de polarização, podemos primeiro calcular o campo D
e só depois E . Atendendo à simetria esférica do problema, o vector deslocamento eléctrico
pode ser calculado usando a Eq. (5.14) e considerando uma superfı́cie de Gauss esférica com
centro na carga pontual. Como o campo D tem de ser radial, a aplicação de (5.14) conduz
imediatamente a
1 Q
D= êr .
4π r2
O campo eléctrico é obtido a partir de D , fazendo uso de (5.21):
D 1 Q
E= = êr .
² 4π² r2
Esta expressão mostra claramente que o campo eléctrico é atenuado relativamente ao campo
no vazio, pois o factor ² é sempre maior ou igual a ²0 . Também a força que a carga Q exerce
numa carga Q0 é menor na presença de um meio dieléctrico do que no caso do vácuo. No
Problema 5.12.7 obtêm-se as cargas de polarização no dieléctrico.
Meios dieléctricos •
121

Tabela 5.1. Permitividades relativas


(estáticas) de alguns
materiais dieléctricos.

Material ²r

Ar (PTN) 1,000 59
Água (vapor: 1 atm, 110 ◦ C) 1,012 6
Água (lı́quida: 1 atm, 100 ◦ C) 55,33
Água (lı́quida: 1 atm, 25 ◦ C) 78,54
Água (lı́quida: 1 atm, 0 ◦ C) 88,00
Benzeno (1 atm, 20 ◦ C) 2,28
Diamante (1 atm, 20 ◦ C) 5,5
Hélio (1 atm, 140 ◦ C) 1,000 07
Hélio lı́quido (1 atm, 4,19 K) 1,048
Nylon (1 atm, 20◦ C) 3,5
Parafina (1 atm, 20◦ C) 2,0 – 2,5
Porcelana (1 atm, 20◦ C) 6,0 – 8,0
Vidro, pı́rex 7070 (1 atm, 20 ◦ C) 4,00

Exemplo 5.5: Superfı́cie de separação de dois meios dieléctricos


Consideram-se dois meios dieléctricos lineares, isotrópicos e homogéneos.
Abordámos, na Secção 5.4, as condições que o campo D deve satisfazer sobre uma su-
perfı́cie que separa dois meios. A Eq. (5.15), que aqui recordamos,

D2n − D1n = σ` , (5.30)

mostra que a componente do campo D segundo a normal à superfı́cie só é contı́nua se a


densidade superficial de cargas livres for nula. É este, em geral, o caso, quando os meios 1 e
2 são ambos dieléctricos.
A partir das eqs. (5.30) e (5.21) pode obter-se uma expressão que relaciona as componentes
normais do campo E . O potencial electrostático tem de ser contı́nuo sobre a superfı́cie de
separação de dois meios pois, caso contrário, o campo fı́sico E , que é mensurável, tornar-se-á
infinito sobre a superfı́cie, o que não será aceitável. A equação para o campo eléctrico sobre
a superfı́cie é dada por (2.42), sendo a densidade de carga superficial que surge no membro
direito dessa equação a soma da carga livre e da carga de polarização. De (5.30) obtém-se
uma equação equivalente para as componentes normais do campo eléctrico nos meios 1 e 2
junto da superfı́cie de separação:

²2 E2n − ²1 E1n = σ` ,

onde ²1 e ²2 são as permitividades dos meios 1 e 2, respectivamente. Não havendo carga


superficial livre, a equação anterior reduz-se a
²1
E2n = E1n .
²2
122 •
Campo electromagnético

Tabela 5.2. Permitividades relativas de alguns materiais à


temperatura de 25 o C para três frequências do campo
eléctrico.

²r

Material f = 102 Hz f = 106 Hz f = 1010 Hz

Água 81 78,2 34
Ácido clorı́drico 5,90 5,90
Benzeno 2,28 2,28 2,28
Esferovite 1,03 1,03 1,03
Gelo 4,15 3,20
Tetracloreto de carbono 2,17 2,17 2,17
Vidro (borosilicato de sódio) 5,00 4,84 4,82

Por outro lado, e como também já se referiu na Secção 5.4, as componentes perpendiculares
a n̂ dos campos eléctricos E1 e E2 (componentes tangenciais) são sempre iguais:

E2t = E1t .

Dividindo membro a membro as duas equações anteriores, obtém-se


²1
tan θ1 = tan θ2 ,
²2

onde θ1 e θ2 são os ângulos que os vectores E1 e E2 fazem com a normal n̂.

E 2 n E 2

q 2

E 1 t
m e io 2
E 2 t m e io 1
E 1 n
q 1

E 1

Figura 5.5. Refracção das linhas de campo eléctrico na


superfı́cie de separação de dois meios dieléctricos.
Meios dieléctricos •
123

A Figura 5.5 mostra, em esquema, uma superfı́cie plana a separar dois meios dieléctricos
1 e 2, e ilustra a refracção das linhas do campo eléctrico. As linhas de E afastam-se da
normal (θ2 > θ1 ) quando, ao passar de um meio 1 para um meio 2, a permitividade aumenta
(²2 > ²1 ).

5.6 ENERGIA ARMAZENADA NO CAMPO NA PRESENÇA


DE MEIOS DIELÉCTRICOS

A energia de uma distribuição de carga no vazio, R


representada pela densidade ρ, foi obtida
no Capı́tulo 3 e é dada por [ver (3.3)] U = 12 v ρ(r )V (r )dv, sendo o integral estendido
ao volume v onde se encontra a distribuição de carga. Na realidade, como referimos no
Capı́tulo 3, o integral pode ser estendido a todo o espaço, pois fora do volume v a densidade
é nula e não haverá qualquer contribuição para o integral nos pontos exteriores a esse volume.
Na altura, embora não se tenha explicitado qual o tipo de carga representado por ρ, fez-se a
interpretação fı́sica de U : trata-se da energia (trabalho reversı́vel) que é necessário dispender
para juntar as cargas numa dada configuração, trazendo-as do infinito. Esta é também a
energia que o sistema fornece ao exterior quando a distribuição de cargas se desfaz.
Havendo meios dieléctricos, apenas as cargas livres podem ser “úteis” na “reposição” do
trabalho inicialmente realizado. Assim, a expressão da energia electrostática na presença de
um dieléctrico deve ser3 Z
1
Ue = ρ` (r )V (r ) dv , (5.31)
2
com o integral estendido a todo o espaço pelas razões atrás referidas. O potencial V (r ) é
devido à presença de todas as cargas, incluindo as de polarização, e é precisamente aı́ que
está incluı́do o efeito do dieléctrico. Recordando que ρ` = ∇ · D e escrevendo uma equação
semelhante a (3.7), envolvendo agora o campo deslocamento eléctrico, ou seja (∇ · D )V =
∇ · (D V ) − D · ∇V , a energia (5.31) vem dada por
Z Z
1 1
Ue = (−D · ∇V ) dv + ∇ · (D V ) dv . (5.32)
2 2
Aplicando o teorema de Gauss ao segundo integral, obtém-se o fluxo do vector D V através
de uma superfı́cie infinita, uma vez que o integral de volume é estendido a todo o espaço.
Usando argumentos semelhantes aos apresentados no Capı́tulo 3 [ver Eq. (3.9)], conclui-se
que o valor deste integral é zero. Substituindo, no primeiro integral −∇V = E , a energia
(5.32) vem dada por Z
1
Ue = D · E dv . (5.33)
2
No caso de dieléctricos da classe A,
Z
²
Ue = E 2 dv , (5.34)
2
que é uma generalização de (3.10). A densidade de energia [cf. (3.11)] é agora
1 1 ²
ue = D · E = D2 = E 2 , (5.35)
2 2² 2
sendo as duas últimas igualdades válidas apenas para meios dieléctricos lineares e isotrópicos.
3
A fórmula (5.31) é válida para dieléctricos lineares.
124 •
Campo electromagnético

Exemplo 5.6: Energia de um condensador esférico

Consideremos um condensador esférico de raio interno a e externo b carregado com a carga


Q. O espaço entre os condutores é ocupado por um material dieléctrico de permitividade ².
É conveniente utilizar a lei de Gauss para determinar o campo D , escolhendo superfı́cies de
Gauss esféricas com centro em O e com raios r < a , a < r < b , e r > b , (ver Figura 5.6).

+ Q

O
e
a

Figura 5.6. Condensador esférico com


dieléctrico.

Obtemos

D= 0, r < a, r > b;
Q
D= r̂ , a < r < b.
4πr2

A densidade de energia, Eq. (5.35), é

1 Q2 1
ue = , (5.36)
2² (4π)2 r4

na região onde existe dieléctrico e é nula fora dessa região. Integrando sobre todo o espaço
ocupado pelo dieléctrico obtemos a energia electrostática armazenada no condensador
Z Z b µ ¶
4π Q2 dr Q2 1 1
Ue = ue dv = = − ,
2² (4π)2 a r2 8π² a b

ou ainda,
Q2 b − a
Ue = .
8π² ab
2
Como, por outro lado, Ue = 21 QV = 12 QC , pode obter-se directamente quer a diferença de
potencial entre as duas esferas, quer a capacidade do condensador. Para a capacidade

ab
C = 4π² ,
b−a
Meios dieléctricos •
125

expressão que é análoga à da capacidade do condensador esférico, C0 , quando não existe


dieléctrico entre as armaduras. A diferença entre as duas expressões reside apenas na substi-
tuição da permitividade do vazio, ²0 , pela permitividade do meio, ². Como ² = ²0 ²r , podemos
relacionar facilmente as duas capacidades:

C = ²r C0 .

Uma vez mais se verifica que quando o espaço entre as armaduras é ocupado por um
dieléctrico, a capacidade do condensador aumenta: veja-se a semelhança entre a equação
anterior e a Eq. (5.29), que se refere ao condensador plano.
Retomando a expressão (5.36), note-se que, no caso de ausência de dieléctrico e estando
o condensador carregado com a mesma carga Q, a densidade de energia seria dada por uma
expressão análoga, mas agora no denominador apareceria ²0 em vez de ², ou seja, ue0 = ²r ue ,
com o ı́ndice “0” referente à situação em que não existe dieléctrico.
Para um condensador plano isolado, com ou sem dieléctrico entre as suas placas, a grandeza
do vector deslocamento é D = σ` , pois possuem ambos a mesma carga livre. A densidade de
energia, dada por (5.35), é ue0 = σ`2 /2²0 no caso em que não existe dieléctrico, e ue = σ`2 /2²
quando este está presente. Também neste caso, ue0 = ²r ue (ver Problema 5.12.3).

5.7 FORÇAS EM DIELÉCTRICOS

A situação que acabámos de descrever é geral: a densidade de energia e, portanto, a en-


ergia total de um condensador isolado, carregado com uma certa carga Q, diminui quando
nele se introduz um dieléctrico. No Exemplo 5.8, a apresentar mais adiante, analisa-se por-
menorizadamente esta situação, para o caso de um condensador plano. Antes, no Exemplo
5.7, considera-se igualmente um condensador plano, mas agora mantido a um potencial cons-
tante. Neste caso, o condensador já não está isolado e, portanto, pode receber mais carga
livre da bateria, que o mantém a um potencial constante, quando possui um dieléctrico no
seu interior. Consequentemente, aumenta a sua energia, tal como a sua densidade de en-
ergia, verificando-se agora ue = ²r ue0 . Assim, dados dois condensadores, iguais do ponto
de vista das suas caracterı́sticas geométricas, um sem dieléctrico e o outro com dieléctrico,
possui menor energia o que tiver dieléctrico, no caso de ambos estarem carregados com a
mesma carga livre, Q; armazena mais energia o que tiver dieléctrico se ambos estiverem a um
mesmo potencial, V .
Em qualquer dos casos, quando se começa a introduzir um dieléctrico no condensador4 ,
o dieléctrico fica sujeito a uma força que o puxa para o espaço entre as placas, situação que
é ilustrada nos exemplos 5.7 e 5.8. Importa referir que, quando um dieléctrico fica sujeito
à acção de um campo externo, sofre uma deformação que, em geral, é pequena, pelo que as
forças mecânicas envolvidas não são consideradas.
Para se obter a força exercida sobre um dieléctrico é útil usar “métodos energéticos” como,
por exemplo, o método do trabalho virtual referido e aplicado na Secção 3.2. Vamos considerar
um mesmo sistema fı́sico — o condensador plano — e calcular a força a que fica sujeito um
dieléctrico quando é introduzido entre as placas do condensador. Dada a importância de que
se reveste o facto de o sistema estar ou não isolado, teremos de distinguir duas situações: num
primeiro exemplo, consideramos que a diferença de potencial entre as placas do condensador
permanece constante e, no segundo, consideramos que a carga nas placas do condensador é
mantida constante. Em ambos os casos vamos desprezar o efeito dos bordos, isto é, o efeito
da distorção das linhas do campo eléctrico na periferia das placas.
4
Podemos raciocinar em função de um condensador plano, mas a situação descrita é geral.
126 •
Campo electromagnético

Exemplo 5.7: Força sobre um dieléctrico introduzido entre as placas de um


condensador (V constante)
Considere-se um condensador plano ligado a uma bateria e um dieléctrico que cabe ex-
actamente entre as suas placas. O dieléctrico é um paralelepı́pedo de dimensões L × b × d,
como mostra a Figura 5.7, e é introduzido entre as placas do condensador num processo
quase-estático.

b
x L -x

d A
1

Figura 5.7. Dieléctrico a ser introduzido entre as placas de


um condensador plano.

Para manter o potencial constante, à medida que se introduz o dieléctrico, tem de haver um
acréscimo de carga dQ nas placas, uma vez que a capacidade do condensador vai aumentando
(recorde-se que V = Q/C). O trabalho realizado sobre o condensador é igual à variação da
sua energia interna, dU , e contém duas contribuições: o trabalho da força exterior F que
segura o dieléctrico e o trabalho realizado pela bateria. Quando o bloco dieléctrico se desloca
dx entre as placas do condensador, a lei de conservação da energia permite escrever
dU = F dx + V dQ . (5.37)
Nesta expressão, F dx é o trabalho que a força exterior realiza durante o deslocamento dx,
e V dQ é o trabalho realizado pela bateria para manter constante a diferença de potencial
entre as placas do condensador. Por outro lado, a energia armazenada num condensador é
dada por U = QV /2 = V 2 C/2. A sua variação, mantendo-se constante o potencial, é
V2
dU = dC .
2
Atendendo a que
dQ = V dC ,
pode concluir-se, a partir da Eq. (5.37), que
V2
F dx = − dC . (5.38)
2
Coloca-se agora a questão de saber como varia a capacidade do condensador à medida que
o dieléctrico vai sendo introduzido. A capacidade do condensador representado na Figura 5.7
é igual à capacidade da associação em paralelo de dois condensadores, com capacidades
²0 ²r bx ²0 b(L − x)
C1 = e C2 = ,
d d
Meios dieléctricos •
127

o primeiro para a parte já com dieléctrico (zona 1) e o segundo para a parte sem dieléctrico
(zona 2). A capacidade total é
²0 b
C = C1 + C2 = (L − x + ²r x) (5.39)
d
e a sua variação é dada por
²0 b
dC = (²r − 1) dx .
d
Introduzindo esta expressão em (5.38) e recordando que V = Ed, vem

²0 E 2
F =− (²r − 1) b d .
2
Esta é a força exterior que se exerce sobre o dieléctrico durante o processo de introdução
no condensador. A força devida ao campo eléctrico, Fe , é igual a esta em grandeza, mas de
sentido oposto (a introdução do dieléctrico é feita com aceleração nula),

²0 E 2
Fe = (²r − 1) b d . (5.40)
2
A força, por unidade de área, exercida sobre a face do dieléctrico de área A = bd é uma força
atractiva dada por
Fe ²0 E 2
= (²r − 1) ,
A 2
que puxa o dieléctrico para o interior do condutor.

Exemplo 5.8: Força sobre um dieléctrico introduzido entre as placas de um


condensador (Q constante)
Consideremos agora o mesmo condensador plano, carregado com carga Q e isolado, e o
mesmo dieléctrico do problema anterior. Sendo Q constante, o trabalho realizado, durante
o processo quase-estático de introdução do dieléctrico, é apenas o trabalho realizado para
empurrar (ou segurar) o bloco. Este trabalho é igual à variação de energia interna do con-
densador, isto é,
F dx = dU . (5.41)
Durante o processo a carga total em cada placa mantém-se constante, mas o campo deslo-
camento eléctrico, D , não é constante em toda a região entre as placas. De facto, a introdução
do dieléctrico faz mover as cargas nas placas condutoras, pois só assim é possı́vel manter to-
dos os pontos de cada placa do condensador ao mesmo potencial. Assim, na zona já ocupada
(1)
pelo dieléctrico (zona 1 da Figura 5.7) deverá haver uma densidade de carga superficial σ`
maior do que na outra zona (zona 2) para que V1 e V2 , dados por
(1) (2)
σ σ
V1 = ` d e V2 = ` d ,
²0 ²r ²0
sejam iguais. Desta igualdade resulta
(1) (2)
σ` = σ` ²r .

Sabemos também que a carga total nas placas se mantém constante e igual a Q:
(1) (2)
Q = σ` bx + σ` b(L − x) .
128 •
Campo electromagnético

Resolvendo estas duas equações em ordem às densidades superficiais de carga, obtém-se:

(1) Q²r
σ` =
b[²r x + (L − x)]
(2) Q
σ` = .
b[²r x + (L − x)]

(i)
As grandezas dos vectores deslocamento eléctrico nas zonas 1 e 2 são D(i) = σ` , i = 1, 2,
pelo que as densidades de energia, calculadas a partir de (5.35), são

Q2 ²2r
ue1 =
2²b2 [²
r x + (L − x)]
2

Q2
ue2 = .
2²0 b2 [²r x + (L − x)]2

Para uma dada distância x estas densidades são constantes e as energias em cada uma das
zonas são obtidas multiplicando as densidades pelos volumes respectivos. Efectuando os
cálculos obtém-se para a energia

Q2 d
U= .
2 ²0 b (²r x + L − x)

Esta equação poderia igualmente ter sido obtida a partir de U = Q2 /2C, usando a expressão
da capacidade dada por (5.39).
A variação da energia do condensador com x é

dU Q2 d (1 − ²r )
= .
dx 2²0 b (²r x + L − x)2

A força exercida pelo campo eléctrico sobre o dieléctrico é oposta a F , isto é, Fe = −F .
De (5.41) e da expressão anterior resulta

dU Q2 d(²r − 1) Q2 (²r − 1) ²0 b
Fe = −F = − = = ,
dx 2 ²0 b (²r x + L − x)2 2 C2 d

tendo-se usado a expressão da capacidade (5.39).


Em função do potencial (V = Q/C) tem-se

V 2 (²r − 1)²0 b
Fe = ;
2d

em função do campo eléctrico (E = V /d),

²0 (²r − 1)E 2
Fe = bd ,
2

que é precisamente a Eq. (5.40).


Meios dieléctricos •
129

5.8 CAMPO NO INTERIOR DO DIELÉCTRICO

Os cálculos desenvolvidos na Secção 5.3 para se obter o potencial eléctrico criado por um
material dieléctrico num ponto exterior não podem ser aplicados directamente ao caso de um
ponto interior.
Em rigor, o campo eléctrico no interior do dieléctrico é uma função com grandes flutuações,
quer no espaço, quer no tempo: num dado ponto, pode variar muito de instante para instante
e pode também variar muito de ponto para ponto, não só em grandeza, mas também em
orientação.
Em muitas situações, o que importa considerar é o campo eléctrico macroscópico, o qual
deve ser tomado como um valor médio no espaço e no tempo do campo local que vamos
designar por ε. Sendo ε o valor médio no tempo do campo eléctrico em determinado ponto,
Z ∆t
1
ε= ε dt ,
∆t 0

o campo eléctrico macroscópico é resultado de uma nova média sobre o espaço do vector dado
pela equação anterior, isto é, Z
1
E= ε dv .
v v
O volume v deverá ser suficientemente grande para que as flutuações estatı́sticas não tenham
um grande significado mas, por outro lado, não deve ser tão extenso que a polarização tenha
grandes modificações, quer dizer, o vector P não deve variar significativamente nesse volume
v. O campo eléctrico E será, assim, uma grandeza que variará suavemente no espaço e no
tempo e será mesmo independente do tempo no caso estático.

v '
S '
P
v "

Figura 5.8. Domı́nio esférico no


interior de dieléctrico.

Vamos calcular o campo eléctrico no interior do dieléctrico polarizado do modo que a


seguir se descreve. Consideramos no interior do dieléctrico uma esfera imaginária de raio R
(arbitrariamente pequeno) centrada no ponto P onde se quer calcular o campo. No interior e
sobre a superfı́cie desta esfera o vector polarização é constante. A superfı́cie da esfera divide
o material em duas partes: a região interior, que é o volume v 00 da esfera, e a região exterior
à esfera, com volume v 0 . A superfı́cie da esfera imaginária é S 0 e a superfı́cie exterior do
dieléctrico é S (ver Figura 5.8). O campo no ponto P é o resultado de duas contribuições:
E = E 0 + E 00 . A contribuição E 0 é devida ao campo criado pelos dipolos que estão mais
130 •
Campo electromagnético

afastados, isto é, os da região v 0 ; quanto a E 00 , resulta da contribuição dos dipolos do in-
terior da esfera. Sendo σp e σp0 as densidades superficiais de carga na superfı́cie exterior do
dieléctrico e na superfı́cie da esfera, e ρp a densidade de carga de polarização no volume v 0 ,
a contribuição E 0 , ou seja, o campo criado por todo o material menos a esfera centrada em
P, é dada por "Z #
0 I I 0 dS 0
1 ρ dv σ dS σ
E0 = p
â + p
â + p
â . (5.42)
4π²0 v0 a2 S a
2
S0 a2
Começamos por calcular o terceiro destes integrais (ou seja, o integral sobre a superfı́cie
esférica). Escolhe-se o eixo z com a orientação do vector polarização, que é constante sobre
a superfı́cie esférica, isto é, P = P k̂ (ver Figura 5.9).

P P
n ^

q
R

Figura 5.9. Cavidade esférica no dieléctrico indicado na


Figura 5.8.

A densidade de carga superficial σp0 é

σp0 = P · n̂ = −P cos θ .

O versor â que aparece nos integrais (5.42), em função das suas componentes cartesianas, é
escrito do seguinte modo:

â = n̂ = − sin θ cos φ î − sin θ sin φ ĵ − cos θ k̂ .


Para o terceiro integral em (5.42) o elemento de área é dS 0 = R2 sin θdθdφ; R 2π
as compo-
nentes
R 2π
x e y desse integral são nulas, pois, no seu cálculo, surgem os integrais 0 cos φ dφ =
0 sin φ dφ = 0. Vem então
I Z Z 2π
σp0 dS 0 π
â = P k̂ dθ sin θ cos2 θ dφ
S0 a2 0 0

= P k̂ .
3
O campo devido à distribuição de carga sobre S 0 — designemo-lo por E(3)
0 — é, então, dado

por
0 1 4π P
E(3) = P k̂ = . (5.43)
4π²0 3 3²0
Meios dieléctricos •
131

Considerando que o vector polarização é constante no interior da esfera, o campo E 00 ,


criado pela distribuição de dipolos existente no volume v 00 , é [ver (5.10)]

P
E 00 = − ,
3²0

que cancela exactamente o campo (5.43) devido à carga de polarização em S 0 .


Assim, o campo eléctrico em P é apenas o que resulta dos dois primeiros termos de (5.42)
·Z I ¸
1 ρp dv 0 σp dS
E= â + â . (5.44)
4π²0 v0 a2 S a2

Notemos que, ao primeiro destes integrais, podemos sempre juntar uma parcela do tipo
Z
1 ρp dv 00
E= â . (5.45)
4π²0 v 00 a2
De facto, se a polarização no interior da esfera é constante, como anteriormente se considerou,
ρp = 0 e o integral (5.45) é nulo. Podemos, pois, estender o primeiro integral em (5.44) a
todo o volume v do dieléctrico; o segundo estende-se a toda a superfı́cie que o limita:
·Z I ¸
1 ρp dv σp dS
E= â + â .
4π²0 v a2 S a2

Este campo é devido às cargas de polarização (dipolos induzidos). Se a ele se juntar o que
tem origem em cargas livres, Elivre , obtém-se o campo eléctrico total:

Etotal = Elivre + E .

5.9 CAMPO ELÉCTRICO EM CAVIDADES NUM DIELÉCTRICO

O campo eléctrico no interior de uma cavidade existente num meio dieléctrico depende
muito da forma da cavidade. Nas situações que vamos analisar, consideramos sempre, por
uma questão de simplicidade, que o meio dieléctrico tem uma polarização constante, P .
Designamos por E o campo eléctrico no dieléctrico e por E0 o campo na cavidade.
No primeiro caso, a cavidade tem a forma de um paralelepı́pedo muito estreito (aresta
infinitesimal, d`), com a face maior paralela ao campo eléctrico (ver Figura 5.10). Como
∇ × E = 0, a circulação do campo eléctrico ao longo do contorno C, indicado na referida
figura, é nula.
Conclui-se, assim, que o campo no interior desta cavidade estreita tem de ser igual ao
campo no dieléctrico:
E0 = E . (5.46)
Analisemos agora uma cavidade, ainda com a forma de um paralelepı́pedo, de altura
infinitesimal, dh, e com a face maior perpendicular ao campo eléctrico (ver Figura 5.11).
Neste caso, devido às cargas de polarização sobre as bases, o campo no interior da cavidade
vai ser diferente do campo no dieléctrico. Aplicando a lei de Gauss à superfı́cie fechada S
indicada em corte na Figura 5.11, vem

σp P · n̂
n̂ · (E − E0 ) = =− ,
²0 ²0
132 •
Campo electromagnético

d l
E 0

E 0 E
C
E

d l

Figura 5.10. Cavidade com a forma de um paralelepı́pedo


num dieléctrico polarizado. A face maior é paralela ao campo
eléctrico.

^
n
E E E 0

+ + + + + +
d h S

Figura 5.11. Cavidade com a forma de um paralelepı́pedo


num dieléctrico polarizado. A face maior do paralelepı́pedo é
perpendicular ao campo eléctrico.

de onde resulta
P
E0 = E + , (5.47)
²0
isto é, na cavidade o campo eléctrico é mais intenso do que no dieléctrico (recorde-se que P
e E são paralelos para dieléctricos lineares e isotrópicos).
Consideremos finalmente uma cavidade esférica. O campo num ponto P no interior de uma
cavidade esférica pode ser visto como o campo devido a todo o material dieléctrico menos
o campo produzido por uma esfera uniformemente polarizada, com a mesma polarização do
dieléctrico, centrada em P e com as dimensões da cavidade. Esta interpretação está ilustrada
na Figura 5.12.
O campo criado pela esfera, Eesfera , relaciona-se com a polarização P através da Eq.
(5.10). Como se tem E = E0 + Eesfera , podemos concluir que o campo no interior da
cavidade esférica é
P
E0 = E + . (5.48)
3²0
Meios dieléctricos •
133

P P P
=

Figura 5.12. Esquema para ilustrar o modo de obter o campo


eléctrico no interior de uma cavidade esférica num dieléctrico
polarizado.

Sublinhe-se que este campo é intermédio relativamente ao que se tem no caso da cavidade
paralelepipédica estreita, consoante a face maior do paralelepı́pedo seja paralela [ver (5.46)]
ou perpendicular [ver (5.47)] ao campo eléctrico E .

5.10 PERMITIVIDADE RELATIVA DE GASES E LÍQUIDOS


NÃO POLARES

Como sabemos, a presença de um campo eléctrico E induz um momento dipolar em


moléculas apolares. Afirmou-se na Secção 5.1 que o tipo de polarização que essas moléculas
sofrem é a chamada polarização electrónica. No caso dos gases mono-atómicos (hélio,
por exemplo) e, considerando campos relativamente fracos, o deslocamento da distribuição
electrónica, relativamente ao núcleo, é pequeno, pelo que o momento dipolar atómico induzido
p também é pequeno. Num grande número de materiais, o momento dipolar é proporcional
a E,
p = α ²0 E , (5.49)

sendo α a chamada polarizabilidade, grandeza que mede a facilidade com que um momento
dipolar é induzido [o factor ²0 em (5.49) é incluı́do por razões históricas]. Na Tabela 5.3
apresentam-se valores para polarizabilidades de iões de halogéneos, para átomos de gases
raros e para iões de metais alcalinos.
Havendo n moléculas por unidade de volume, a polarização, P = np, é escrita do seguinte
modo:
P = n α ²0 E . (5.50)

A permitividade relativa (ou constante dieléctrica) do meio, ²r , relaciona-se com o campo


eléctrico e a polarização através de [ver (5.20) e (5.22)]

P
²r − 1 = . (5.51)
²0 E

Combinando as duas últimas equações, resulta

²r − 1 = nα , (5.52)
134 •
Campo electromagnético

Tabela 5.3. Polarizabilidades de iões de halogéneos, de


átomos de gases raros e de iões de metais alcalinos em
unidades de 10−30 m3 . O elemento e os iões da mesma linha
têm a mesma estrutura electrónica.

Halogéneos α Gases raros α Alcalinos α

He 0,2 Li+ 0,03



F 1,2 Ne 0,4 Na+ 0,2
Cl− 3 Ar 1,6 K+ 0,9
Br− 4,5 Kr 2,5 Rb+ 1,7
I− 7 Xe 4,0 Cs+ 2,5

Fonte: Ref. 1 (ver Bibliografia).

concluindo-se que a permitividade relativa aumenta com a massa volúmica5 . Contudo, se a


massa volúmica aumentar muito, por exemplo, aumentando muito a pressão e diminuindo
a temperatura, a expressão (5.52) deixa de ser válida. De facto, um material denso apolar
(como o hélio lı́quido ou o árgon lı́quido), colocado, por exemplo, entre as armaduras de um
condensador, pode adquirir uma polarização P muito grande. Nestas condições, o campo
eléctrico que actua num átomo, campo local, é, em boa aproximação, determinado pela
polarização dos átomos seus vizinhos. Já se disse que o campo eléctrico apresenta variações
enormes à escala microscópica, sendo muito intenso junto ao átomo e menos intenso na
região entre os átomos. Até agora, ignorámos completamente estas variações microscópicas,
considerando um campo “médio”, E , que é o campo eléctrico sentido por um átomo “médio”,
ocupando uma posição “média”. Num lı́quido, esta aproximação é bastante grosseira. De
facto, o campo que um átomo sente deverá assemelhar-se ao que existe numa cavidade esférica
no meio dieléctrico quando se aplica um campo externo. Assim, no caso de lı́quidos apolares,
será mais correcto substituir o campo eléctrico em (5.50) pelo campo numa cavidade esférica
dado por (5.48). Obtém-se
µ ¶
P
P = n α ²0 E0 = n α ²0 E + ,
3²0
de onde resulta, para a expressão da polarização,

P = ²0 E .
1 − nα/3
Combinando a equação anterior com (5.51) obtém-se a relação entre a permitividade relativa
dos lı́quidos não polares e a sua polarizabilidade atómica α,

²r − 1 = , (5.53)
1 − n α/3
que é conhecida por lei de Clausius-Mossotti. Se nα for muito pequeno, como no caso dos
gases, nα/3 pode ser desprezado no denominador da equação anterior, reduzindo-se essa
expressão a (5.52).
5
Sendo n o número de partı́culas por unidade de volume, a sua relação com a massa volúmica é directa.
Meios dieléctricos •
135

Tabela 5.4. Permitividades relativas de lı́quidos obtidas a


partir das permitividades relativas de gases da mesma
substância. Por d designam-se as densidades relativas.

GÁS LÍQUIDO

Substância ²r nα dg d` d` /dg nα ²r ²r
(exp.) (teor.) (exp.)

O2 1,000523 0,000523 0,00143 1,19 832 0,435 1,509 1,507


Ar 1,000545 0,000545 0,00178 1,44 810 0,441 1,517 1,54
CS2 1,0029 0,0029 0,00339 1,293 381 1,11 2,76 2,64
CCl4 1,0030 0,0030 0,00489 1,59 325 0,977 2,45 2,24

Fonte: Ref. 7 (ver Bibliografia).

A Eq. (5.53) permite fazer previsões para a permitividade relativa de lı́quidos partindo
das polarizabilidades e das massas volúmicas. A partir de ²r do gás pode ser obtido o valor
de nα para o gás usando (5.52), e, a partir da razão das massas volúmicas de lı́quido e vapor
da mesma substância, obtém-se nα para a fase lı́quida. A Eq. (5.53) permite, finalmente,
determinar o valor de ²r para o lı́quido.
A Tabela 5.4 mostra dados experimentais relativos a vários materiais e a previsão de ²r
para cada lı́quido feita com base na Eq. (5.53). Verifica-se um bom acordo para o árgon
e para o oxigénio e acordos razoáveis para o tetracloreto de carbono e para o sulfureto de
carbono.

5.11 PERMITIVIDADE RELATIVA DE GASES DE MOLÉCULAS PO-


LARES

Como referimos anteriormente, algumas substâncias possuem momentos dipolares perma-


nentes. Um exemplo familiar é a molécula de água, cujo momento dipolar intrı́nseco vamos
designar por p0 . Quando o campo eléctrico externo é nulo, estes dipolos orientam-se de forma
aleatória e a polarização total de uma amostra macroscópica é nula. Quando se aplica um
campo externo os dipolos moleculares tendem a orientar-se paralelamente ao campo. Além
da polarização que resulta da orientação dos dipolos, há que ter em conta, se quisermos ser
rigorosos, a polarização electrónica que foi considerada na secção anterior. Vamos supor, con-
tudo, que essa contribuição é pequena e que pode ser desprezada (um tal efeito pode sempre
ser acrescentado).
Quando se aplica um campo externo, se todos os dipolos se orientassem paralelamente
a esse campo, a polarização resultante seria muito grande. O que acontece, na prática, é
que, devido à agitação térmica, há um alinhamento “médio” dos dipolos moleculares, mas
nem todos ficam a apontar na direcção de E . É necessário utilizar os métodos da Fı́sica
Estatı́stica para se calcular a polarização a uma dada temperatura. Obtivemos no Capı́tulo 4
[Eq. (4.48)] a energia de interacção de um dipolo com um campo externo E ,

U = −p0 E cos θ ,
136 •
Campo electromagnético

onde θ é o ângulo que o campo eléctrico forma com o momento dipolar. Numa situação de
equilı́brio térmico o número de moléculas com uma dada energia U é proporcional a
µ ¶
U
exp − ,
kT
onde k é a constante de Boltzmann e T a temperatura absoluta. O número de moléculas por
unidade de volume e por unidade de ângulo sólido, para um dado ângulo polar θ, escreve-se,
então,
n0 (θ) = n0 e−U/kT = n0 ep0 E cos θ/kT , (5.54)
sendo n0 uma “constante de normalização”. À temperatura ambiente, T é grande e o ex-
poente, para campos eléctricos de interesse prático, torna-se pequeno. Pode fazer-se um
desenvolvimento em série da exponencial e tomar para n0 (θ) a expressão
µ ¶
E cos θ
n0 (θ) = n0 1 + p0 . (5.55)
kT

Esta equação mostra que n0 (θ) é máximo quando θ = 0 e mı́nimo para θ = π, o que significa
que há mais moléculas cujos momentos dipolares são paralelos ao campo externo do que
antiparalelos. Integrando a expressão (5.55) sobre todo o ângulo sólido [só a primeira parcela
de (5.55) contribui para o integral], obtém-se o número de partı́culas por unidade de volume,
n: Z
n0 (θ) dΩ = 4 π n0 = n .

A constante de normalização em (5.54) é, pois,


n
n0 = .

A polarização média é dada pelo somatório das componentes segundo E dos momentos
dipolares de cada uma das moléculas contidas na unidade de volume, p0 cos θi para cada
molécula i, ou, ainda, Z
P = p0 cos θ n0 (θ) sin θ dθ dφ .

Inserindo (5.55) nesta expressão e notando que só o segundo termo de (5.55) contribui para
este integral, obtém-se
p2 E n
P = 0 . (5.56)
3kT
A polarização média é proporcional ao campo eléctrico e inversamente proporcional à temper-
atura, como seria de esperar: para temperaturas mais altas haverá menos alinhamentos dos
dipolos com a direcção do campo por causa das colisões. A dependência em 1/T é chamada
lei de Curie.
A permitividade relativa do meio obtém-se de (5.51) e de (5.56):

p20 n
²r − 1 = . (5.57)
3 ²0 k T
Note-se a dependência com n da permitividade relativa, semelhante à das outras situações
estudadas na secção anterior.
A Figura 5.13 mostra, para o vapor de água, ²r − 1 em função de 1/T dado pela equação
anterior, bem como alguns valores obtidos experimentalmente, para diferentes temperaturas,
Meios dieléctricos •
137

e r 1 / 1 0 3

0
0 1 2 3 T 1 / 1 0 3 K 1

Figura 5.13. Valores experimentais e previsão teórica [Eq.


(5.57)] da permitividade relativa do vapor de água para
várias temperaturas.

mantendo n constante. A comparação dos resultados mostra que existe um bom acordo entre
as previsões teóricas e as medições experimentais.
Refira-se, por último, uma outra caracterı́stica da permitividade relativa no caso de
moléculas polares. Devido ao momento de inércia das moléculas, demora algum tempo a
efectuar-se o alinhamento dos momentos dipolares com a direcção do campo externo. As-
sim, para um campo oscilante de elevada frequência, a contribuição da polarização intrı́nseca
das moléculas para ²r desaparece, pois as moléculas deixam de conseguir “responder” em
tempo útil às variações do campo. Ao invés, mesmo para frequências de oscilação elevadas,
a polarização electrónica, estudada na secção anterior, perdura, devido à menor inércia dos
electrões.

5.12 PROBLEMAS RESOLVIDOS

5.12.1 Diamante polarizado


Questão
Uma amostra de diamante tem uma massa volúmica 3,5×103 kg/m3 e uma polarização 10−7
C/m2 . O átomo de carbono tem uma carga nuclear igual a + 6e rodeada por seis electrões e
o seu diâmetro é da ordem de 10−10 m.
Determinar a separação média entre os centros de carga positiva e negativa. Calcular o
momento dipolar médio por átomo de carbono.

Resposta
A polarização, P , é o produto do número de dipolos por unidade de volume, n, pelo
momento dipolar de cada dipolo, p, de acordo com (5.2). Por outro lado, sendo Q o valor
138 •
Campo electromagnético

absoluto de cada uma das cargas que constituem o dipolo e s o vector dirigido da carga
negativa para a positiva, podemos escrever

P = nQs. (5.58)

Para determinar o número de partı́culas por unidade de volume, lembremos que em


0,012 kg de carbono há um número de átomos igual à constante de Avogadro, NA , ou seja,
6, 022×1023 átomos. Na amostra de diamante considerada o número de partı́culas por unidade
de volume é
3, 5×103 × 6, 022×1023
n= = 1, 756×1029 m−3 .
0, 012
A partir do valor dado para a polarização, do valor encontrado para o número de partı́culas
por unidade de volume, n, e da carga Q = 6 e = 6 × 1, 602 ×10−19 C, obtém-se, de (5.58), o
seguinte valor para a separação s:

10−29 1019
s = 10−7 = 5, 924×10−19 m = 5, 924×10−4 fm ,
1, 756 6×1, 602

valor que é muito menor do que a dimensão do átomo (o diâmetro do átomo é da ordem de
10−10 m) e até do próprio nucleão (diâmetro da ordem de 1 fm = 10−15 m)!
O momento dipolar médio de cada átomo é [cf. (5.2)] p = Pn , pelo que

10−7
p= = 5, 695×10−36 C m .
1, 756×1029

5.12.2 Dieléctrico com polarização não uniforme


Questão
Uma placa de um dado material dieléctrico tem faces paralelas. Uma das faces está no
plano z = 0 e a outra no plano z = h. O material tem uma polarização não uniforme
P = P (1 + αz) k̂, onde P e α são constantes. Calcular as densidades de carga ligada
superficial e volumétrica. Verificar que a carga ligada total, contida num cilindro de secção
A cujo eixo é paralelo ao eixo z, é nula.

Resposta
A densidade volumétrica de carga de polarização é dada por (5.6) e a densidade superfi-
cial de carga de polarização é dada por (5.5)6 . No caso presente, a normal à superfı́cie do
dieléctrico, assente no plano z = 0, é −k̂. Para a outra face a normal é k̂. Têm-se, pois, as
seguintes densidades superficiais:

σ(z = 0) = −P (z = 0) · k̂ = −P
σ(z = h) = P (z = h) · k̂ = P (1 + αh) ;

usando a expressão da divergência em coordenadas cartesianas, a densidade volumétrica vem

ρp = −∇ · [ P (1 + αz) k̂ ] = −P α .
6
Chama-se de novo a atenção para o facto de o versor n̂ nesta equação ser normal à superfı́cie do dieléctrico
e apontar para o lado de fora deste.
Meios dieléctricos •
139

A carga total contida num cilindro de área de base A é a soma da carga de polarização na
base inferior, q1 , da carga de polarização na base superior, q2 , e da carga no volume cilı́ndrico,
q3 . Na superfı́cie lateral não pode haver carga de polarização, pois o vector P tem a direcção
do eixo z e, por isso, é perpendicular ao versor normal à superfı́cie lateral do cilindro. As
densidades superficiais de carga são constantes e as cargas nas bases são

q1 + q2 = −A P + A P (1 + αh) = A P α h . (5.59)

A carga de polarização no volume cilı́ndrico é


Z Z h
q3 = ρp dv = −P αA dz = −A P α h .
v 0

Comparando com (5.59) conclui-se que a carga total de polarização, q1 + q2 + q3 , é nula.

5.12.3 Condensador plano com dieléctrico


Questão

Considere-se um condensador plano, com placas de área A separadas por uma pequena
distância d. O condensador está carregado com uma carga Q uniformemente distribuı́da e
está isolado.
O espaço entre as placas é totalmente preenchido por um dieléctrico linear, isotrópico e
homogéneo de permitividade relativa ²r . Calcular:

a) A intensidade do campo eléctrico no interior do dieléctrico;

b) As densidades de carga de polarização no dieléctrico;

c) A capacidade do condensador;

d) A relação entre a energia do condensador com dieléctrico e sem dieléctrico.

Resposta

A intensidade do vector deslocamento entre as placas do condensador é D = σ` , sendo


σ` = Q/A a densidade de carga livre na placa do condensador.

a) O valor do campo eléctrico é


D Q
E= = ; (5.60)
² A ²r ²0

b) O vector polarização relaciona-se com o campo eléctrico e com o vector deslocamento


através de
P = D − ²0 E .
Se as placas do condensador forem paralelas ao plano xy e a placa superior tiver carga
positiva, tem-se µ ¶
Q 1 ²r − 1 Q
P = −k̂ 1− = −k̂ .
A ²r ²r A
140 •
Campo electromagnético

Trata-se de um vector constante e, por isso a densidade de carga de polarização no


interior do dieléctrico é nula. Sobre as superfı́cies do dieléctrico

²r − 1 Q
σp,1 = −P · k̂ =
²r A
²r − 1 Q
σp,2 = P · k̂ = − ,
²r A

respectivamente, para as faces inferior e superior do dieléctrico, reconhecendo-se, de


imediato, que a carga total de polarização é nula;

c) A capacidade de um condensador é definida por

Q
C= ,
V

onde V é a diferença de potencial entre as placas. Como a diferença de potencial é a


circulação do campo eléctrico, tem-se, usando (5.60),

Qd
V =Ed= .
A ²r ²0

A capacidade vem
A
C = ²r ²0 . (5.61)
d
A introdução do dieléctrico faz aumentar a capacidade de um factor ²r (cf. Exemplo
5.1);

d) A energia do condensador é
1 1 Q2
U= QV = . (5.62)
2 2 C
Como a capacidade é alterada pela introdução do dieléctrico, de acordo com (5.61),
também a energia armazenada no condensador com dieléctrico, U , vai ser diferente da
energia do condensador sem dieléctrico, U0 . Usando (5.61) e (5.62), essa relação é

1
U= U0 . (5.63)
²r

5.12.4 Condensadores — I

Questão

Dois condensadores de igual capacidade C estão ligados em paralelo. São primeiro carrega-
dos até ficarem ao potencial V e depois desligados da fonte e isolados. Introduz-se então um
dieléctrico de permitividade relativa ²r num dos condensadores, preenchendo completamente
o espaço entre as placas. Calcular a carga livre que flui de um condensador para o outro e a
nova diferença de potencial entre as placas dos condensadores.
Meios dieléctricos •
141

Resposta

Quando os condensadores estão ao potencial V a carga em cada um deles é

Q=CV .

As capacidades dos condensadores depois da introdução do dieléctrico, e de acordo com (5.61),


passa a ser
C10 = ²r C e C20 = C . (5.64)

Mesmo depois de desligados da fonte de alimentação e de se ter introduzido o dieléctrico, os


condensadores continuam ao mesmo potencial, pois estão em paralelo. Designando por V 0 o
novo potencial, tem-se
Q0 Q0
V 0 = 10 = 20 ,
C1 C2

donde, usando (5.64),


Q01 = ²r Q02 . (5.65)

Por outro lado, a carga total tem de se conservar:

Q01 + Q02 = 2Q = 2 C V . (5.66)

Resolvendo o sistema de equações (5.65) e (5.66), obtém-se



 0 2²r
 Q1 = 1 + ²r C V



 Q0 = 2
2 1 + ²r C V .

A carga que flui de um condensador para o outro é

²r − 1
Q01 − Q = CV
²r + 1

e o novo potencial é
2
V0 = V.
1 + ²r

5.12.5 Condensadores — II

Questão

Uma lâmina de um material dieléctrico é inserida entre as placas de um condensador


plano. A espessura do dieléctrico é metade da distância de separação entre as placas. Sendo
²r a permitividade relativa da lâmina dieléctrica, calcular a relação entre as capacidades do
condensador antes e depois de se introduzir a lâmina.
142 •
Campo electromagnético

Resposta
A capacidade do condensador sem lâmina é
A
C = ²0 , (5.67)
d
onde A é a área de cada placa do condensador. Depois de se introduzir a lâmina o sistema
pode ser visto, para efeito deste cálculo, como uma associação de dois condensadores em
série, cada um com distância “entre placas” igual a d/2, e portanto de capacidades

2A 2A
C 1 = ²0 , C2 = ²0 ²r .
d d
Da associação em série de condensadores com estas capacidades resulta uma capacidade
equivalente:
C1 C2 2²r
C0 = = C.
C1 + C2 1 + ²r

5.12.6 Condensadores — III


Questão
Considerar um condensador plano com dois dieléctricos de permitividades relativas ²r1 e
²r2 , cada um ocupando metade do volume entre as armaduras, como se mostra na Figura
5.14. Obter a capacidade deste condensador.

Figura 5.14. Condensador plano com


dois dieléctricos.

Resposta
O sistema representado na Figura 5.14 é equivalente a uma associação de dois conden-
sadores em paralelo, de capacidades C1 e C2 , cada um com o seu dieléctrico. A capacidade
do condensador sem dieléctricos é [cf. (5.67)] C = ²0 Ad , e as capacidades C1 e C2 são dadas
por
A A
C1 = ²r1 ²0 e C2 = ²r2 ²0 .
2d 2d
A capacidade equivalente é simplesmente a soma destas duas capacidades:
²r1 + ²r2
C 0 = C1 + C2 = C.
2
Meios dieléctricos •
143

5.12.7 Esfera dieléctrica com carga livre no centro


Questão
Uma esfera dieléctrica da classe A, com raio R e permitividade relativa ²r , tem uma carga
pontual, Q, no seu centro.
Calcular o vector campo eléctrico em todo o espaço. Calcular a carga total de polarização.

Resposta
O campo eléctrico no interior e no exterior do dieléctrico é (cf. Exemplo 5.3)

 E= Q r̂ para r < R


 4π²0 ²r r2



 E= Q r̂ para r > R .
4π²0 r2
A fim de calcularmos a carga de polarização vamos primeiro determinar o vector polar-
ização, que se relaciona com o campo eléctrico segundo (5.20). Tem-se:

 ²r − 1 Q r̂
 P = ²r
 para r < R
4πr2


 P =0 para r > R .

A densidade volumétrica de cargas resulta do cálculo da divergência do vector polarização.


Usando coordenadas esféricas, obtém-se
µ ¶
1 ²r − 1 d Q
ρp = −∇ · P = − 2 r2 =0
r ²r dr 4πr2

no interior da esfera; no exterior, ρp = 0, pois P = 0. Na superfı́cie da esfera a densidade de


carga de polarização é
²r − 1 Q
σp = r̂ · P (R) = (5.68)
²r 4πR2
e a carga total de polarização na superfı́cie da esfera é obtida multiplicando (5.68) por 4πR2 ,
ou seja,
²r − 1
Qp = Q . (5.69)
²r
Como a carga total de polarização é nula, terá de existir uma carga de polarização em r = 0
com valor simétrico de (5.69). Para tornarmos este ponto mais claro consideremos uma
superfı́cie esférica de raio dr, arbitrariamente pequeno, em torno da carga livre Q. O versor
normal a esta superfı́cie que aponta para fora do dieléctrico é −r̂ e a densidade superficial
de carga de polarização é
µ ¶
0 ²r − 1 Q ²r − 1 Q
σp = −r̂ · r̂ =− .
²r 4π(dr)2 ²r 4π(dr)2

Multiplicando este valor pela área da superfı́cie interior, 4π(dr)2 , obtém-se

Q0p = −Qp .
144 •
Campo electromagnético

5.12.8 Polarização com simetria cilı́ndrica


Questão
Considerar a seguinte distribuição de densidade de momento dipolar em coordenadas
cilı́ndricas:  µ ¶
 r 2 b b
 P = P0 1 − 2 k̂
 para r ≤ a e − < z <
a 2 2



P = 0 no resto do espaço
(note-se que r é a distância ao eixo z).
a) Calcular a correspondente distribuição de carga de polarização;

b) Calcular ∇ × P , mostrando que o módulo desse vector é apenas função de r e que, em


cada ponto, esse vector é perpendicular ao plano que contém o ponto considerado e o
eixo z. Obter as linhas de campo de ∇ × P .

Resposta
A polarização no interior do cilindro pode ser escrita, em função das coordenadas carte-
sianas, do seguinte modo: Ã !
x2 + y 2
P = P0 1 − k̂ . (5.70)
a2

a) Utilizando a expressão (5.6) para determinar a densidade volumétrica de carga de po-


larização, conclui-se que esta é nula. De facto, a Eq. (5.70) mostra que a polarização
só tem componente z, a qual depende apenas das variáveis x e y.
As distribuições superficiais de carga são dadas por (5.5). Na base superior do cilindro,
n̂ = k̂, pelo que à !
r2
σp = P0 1 − 2 .
a
Sobre a base inferior, Ã !
0 r2
σp = −P0 1− 2 = −σp .
a
Na superfı́cie lateral do cilindro a densidade superficial de carga de polarização é nula,
pois P e a normal a essa superfı́cie são sempre ortogonais;

b) O rotacional do vector polarização pode ser obtido em coordenadas cartesianas:


¯ ¯
¯ î ĵ k̂ ¯¯
¯ 2P0
∇ × P = ¯¯ ∂
∂x

∂y

∂z
¯
¯ = − 2 ( y î − x ĵ ) . (5.71)
¯ ¯ a
¯ 0 0 Pz ¯

Em função do versor êφ = − yr î + x


r ĵ , a expressão (5.71) é escrita do seguinte modo:
2P0 r
∇×P = êφ ;
a2
o módulo deste vector é apenas função de r.
Meios dieléctricos •
145

Figura 5.15. Linhas de campo do


rotacional de P .

Pode mostrar-se que, em cada ponto, o vector (5.71) é perpendicular ao plano que
contém esse ponto e o eixo z. De facto, notemos que a direcção normal a esse plano é
a do vector k̂ × ( x î + y ĵ + z k̂ ) = x ĵ − y î que é a direcção de (5.71). As linhas do
campo ∇ × P são circunferências assentes em planos paralelos ao plano xy, como se
indica na Figura 5.15.

5.12.9 Condensador esférico com dieléctrico de permitividade variável


Questão
No espaço compreendido entre duas superfı́cies metálicas esféricas e concêntricas encontra-
se um dieléctrico com permitividade relativa ²r = r/a. As superfı́cies interior e exterior do
dieléctrico têm raios a e b, respectivamente (Figura 5.16). Existe uma carga livre Q na
superfı́cie metálica interior e a armadura exterior está ligada à terra. Calcular:
a) O vector deslocamento D em todo o espaço;
b) A densidade de carga livre em r = a e r = b;
c) A densidade de carga de polarização no dieléctrico;
d) A carga total de polarização no dieléctrico.

Resposta
a) No interior da superfı́cie metálica interna não há cargas livres e a carga total livre
contida numa esfera de raio r > b também é nula. O vector deslocamento é, pois, nulo
para r < a e para r > b. Considerando uma superfı́cie de Gauss esférica, de raio r, na
região entre as duas superfı́cies metálicas obtém-se o vector deslocamento, que é dado
por
Q
D= r̂ a < r < b;
4πr2
146 •
Campo electromagnético

Figura 5.16. Condensador esférico


com dieléctrico.

b) A densidade superficial de carga livre em r = a e em r = b é dada pela divergência


superficial do vector D [cf. (5.15)]:

divS D = σ` = n̂ · (D2 − D1 ) .

Para r = a vem µ ¶
Q Q
σ` = −r̂ · 0 − 2
r̂ = ;
4πa 4πa2
para r = b, de forma análoga se obtém
Q
σ0` = − ;
4πb2

c) O campo eléctrico é nulo para r < a e para r > b. Na região a < r < b é dado por
1 Q Qa
E= D= 2
r̂ = r̂ .
²r ²0 4π²0 ²r r 4π²0 r3

De (5.20) e de (5.22), e atendendo a que ²r − 1 = r/a − 1, vem


µ ¶
r Qa Q (r − a)
P = ²0 −1 3
r̂ = r̂ . (5.72)
a 4π²0 r 4πr3

A densidade de carga de polarização no interior do dieléctrico é dada por:


· ¸
Q 1 d r−a
ρp = −∇ · P = − 2
r2 3 ,
4π r dr r
que conduz a
Qa
ρp = − . (5.73)
4πr4
A densidade superficial de carga de polarização em r = a é nula, pois o vector de
polarização é nulo [ver (5.72)]. Em r = b,
Q (b − a) Q (b − a)
σp0 = P · n̂ = 3
r̂ · r̂ = ; (5.74)
4πb 4πb3
Meios dieléctricos •
147

d) A carga de polarização em r = b é simplesmente o produto de (5.74) pela área da


superfı́cie esférica:
Q (b − a)
Qp(s) = . (5.75)
b
Vamos confirmar que a carga de polarização distribuı́da no volume, Q(v)
p , é simétrica
desta. Integrando (5.73), obtém-se
Z b Z b µ ¯
Qa 1 1 ¯¯b Q (a − b)
Q(v) = −4π r2 dr = −Qa dr = Qa = ,
p
a 4πr 4
a r 2 r ¯a b
que é, de facto, simétrica de (5.75).

5.12.10 Dieléctrico não homogéneo


Questão
Mostrar que, num dieléctrico linear e isotrópico mas não homogéneo, se não houver qual-
quer carga livre, ρ` = 0, a densidade de carga de polarização é dada por ρp = −(²0 /²r )E ·∇²r .

Resposta
A densidade de carga livre é a divergência do vector deslocamento
∇ · D = ρ` ; (5.76)
este vector relaciona-se com o campo eléctrico através de
D = ²0 ²r E (5.77)
e o vector polarização relaciona-se com o campo eléctrico através de
P = ²0 (²r − 1) E . (5.78)
Usando (5.78) em (5.77) e introduzindo a expressão resultante para D na expressão (5.76),
obtém-se µ ¶
²r
∇· P = ρ` . (5.79)
²r − 1
Recordando que (ver Apêndice B)
∇ · (f A) = f ∇ · A + A · ∇f
e que, por hipótese, ρ` = 0, a Eq. (5.79) passa a ser escrita do seguinte modo:
µ ¶
²r ²r
∇·P +P ·∇ = 0.
²r − 1 ²r − 1
Usando (5.6),
²r P
− ρp − · ∇²r = 0 ,
²r − 1 (²r − 1)2
donde
P
· ∇²r .
²r ρp = −
²r − 1
Finalmente, exprimindo P em termos de E [ver (5.78)], conclui-se que
²0
ρp = − E · ∇²r . (5.80)
²r
148 •
Campo electromagnético

5.12.11 Condensador esférico com dois dieléctricos


Questão
O espaço entre as duas armaduras de um condensador esférico é exactamente preenchido
por dois dieléctricos homogéneos, lineares e isotrópicos de permitividades ²1 e ²2 . Cada
dieléctrico ocupa metade do volume total entre as armaduras, como se mostra na Figura
5.17. Sobre a armadura interior está distribuı́da a carga Q e os raios das armaduras interna
e externa são a e b, respectivamente. A armadura exterior está ligada à terra.

a) Determinar os campos E e D em todo o espaço;

b) Calcular as densidades de carga de polarização;

c) Determinar a energia armazenada no condensador.

e 1 e 2
a

Figura 5.17. Condensador esférico com dois dieléctricos.

Resposta
O sistema descrito está representado na Figura 5.17.

a) Devido à presença dos dieléctricos, a distribuição de cargas livres não vai ser uniforme
sobre a superfı́cie das esferas. Cada uma das armaduras pode ser dividida em dois
hemisférios que estão em contacto com o dieléctrico 1 e com o dieléctrico 2, respectiva-
mente. Consideremos apenas uma das armaduras, por exemplo, a interior. A densidade
de carga livre no hemisfério em contacto com o dieléctrico 1 é diferente da densidade de
carga livre no hemisfério em contacto com o dieléctrico 2. De facto, a distribuição de
cargas que confere ao sistema estabilidade máxima (energia mı́nima) é aquela em que
a densidade de carga total está uniformemente distribuı́da sobre a superfı́cie esférica
r = a. Assim, e porque os dieléctricos polarizam de formas diferentes, quando se car-
rega o condensador, as cargas livres distribuem-se até que na superfı́cie r = a haja
uma distribuição uniforme de carga total. Designemos por Q0 a carga total distribuı́da
em r = a. No interior dos dieléctricos não há cargas livres, pelo que as densidades
de carga de polarização são nulas [ver Problema 5.12.10, designadamente a expressão
(5.80)]. Para obter o campo eléctrico para a < r < b podemos aplicar a lei de Gauss
Meios dieléctricos •
149

usando como superfı́cie de Gauss uma superfı́cie esférica concêntrica com as armaduras,
obtendo-se
Q0
E= r̂ a < r < b.
4π²0 r2
O vector deslocamento nas regiões ocupadas por cada um dos dieléctricos é

²1 Q0
D1 = ²1 E1 = r̂ (5.81)
4π²0 r2
²2 Q0
D2 = ²2 E2 = r̂ . (5.82)
4π²0 r2

Falta calcular o valor de Q0 , que é a soma da carga livre e da carga de polarização


(tem-se, evidentemente, Q0 < Q). A densidade superficial de carga livre no hemisfério
1 é obtida a partir da divergência superficial de D1 :

divS D1 = r̂ · (D1+ − D1− ) = σ`,1 ,

onde o sinal + em ı́ndice se refere ao lado para onde aponta o versor r̂ e o sinal − ao
outro lado. Usando (5.81) e atendendo a que o campo é nulo no interior da armadura,
D1− = 0, vem
²1 Q0
σ`,1 = .
4π²0 a2
A densidade de carga superficial livre no outro hemisfério é dada por uma expressão
análoga:
²2 Q0
σ`,2 = .
4π²0 a2
Multiplicando cada uma destas expressões pela área de cada hemisfério, 2πa2 , e so-
mando obtém-se a carga livre Q:
²1 + ²2 0
Q= Q ,
2²0
ou seja,
2 ²0
Q0 = Q,
²1 + ²2
verificando-se que, de facto, Q0 < Q. Introduzindo o resultado anterior nas expressões
dos campos, obtém-se, para a < r < b:

Q
E= r̂ (5.83)
2π(²1 + ²2 ) r2
e
²1 Q
D1 = r̂ (5.84)
2π(²1 + ²2 ) r2
²2 Q
D2 = r̂ . (5.85)
2π(²1 + ²2 ) r2

Para r > b o campo eléctrico é nulo, pois na esfera exterior há uma distribuição uniforme
da carga total −Q0 ; assim, também o vector deslocamento se anula, nesta região;
150 •
Campo electromagnético

b) O vector polarização, que se relaciona com E através da expressão P = (² − ²0 )E , é


dado, em cada uma das regiões, por
²1 − ²0 Q
P1 = r̂
²1 + ²2 2πr2
²2 − ²0 Q
P2 = r̂ .
²1 + ²2 2πr2

Pode agora confirmar-se que a densidade de carga de polarização no interior dos


dieléctricos é nula [resultado que já se utilizou na alı́nea a)]. Usando coordenadas
esféricas, tem-se, para o dieléctrico 1,
µ ¶
Q(²1 − ²0 ) 1 d 1 2
ρ1 = −∇ · P1 = − r 2 =0
2π(²1 + ²2 ) r2 dr r
e o mesmo se passa para o dieléctrico 2.
A densidade superficial de carga de polarização em r = a é, para o dieléctrico 1,
²1 − ²0 Q
σ1 (r = a) = −r̂ · P1 = − ,
²1 + ²2 2πa2
e para o dieléctrico 2,
²2 − ²0 Q
σ2 (r = a) = − .
²1 + ²2 2πa2
Para a superfı́cie r = b vem
²1 − ²0 Q
σ1 (r = b) =
²1 + ²2 2πb2
²2 − ²0 Q
σ2 (r = b) = .
²1 + ²2 2πb2

Sobre a superfı́cie de separação dos dois dieléctricos (que é uma coroa circular) não
há cargas de polarização, pois a normal a essa superfı́cie é perpendicular ao vector
polarização num e noutro meio. Por outras palavras, a divergência superficial do vector
polarização é nula nesta superfı́cie;

c) A energia armazenada no condensador pode ser obtida a partir da expressão (5.33). O


integral, que se estende ao volume entre as armaduras do condensador, é uma soma de
dois termos: um para a região ocupada pelo dieléctrico 1 e outro para a região ocupada
pelo dieléctrico 2. Fazendo uso das expressões (5.83) a (5.85), vem
à Z b Z b !
1 Q2 1 1
Ue = 2π 2 ²1 dr + ²2 dr ,
2 4π (²1 + ²2 )2 a r2 a r2

e, finalmente,
Q2 (b − a)
Ue = . (5.86)
4 π a b (²1 + ²2 )
Como a energia de um condensador é dada por Ue = Q2 /(2C), podemos obter de (5.86)
uma expressão para a capacidade do condensador esférico considerado:
2 π a b (²1 + ²2 )
C= .
b−a
Meios dieléctricos •
151

5.12.12 Condensador plano com dieléctrico de permitividade variável — I


Questão
O espaço entre as placas de um condensador plano é preenchido com um material
dieléctrico cuja permitividade absoluta varia linearmente desde ²1 numa placa até ²2 < ²1
na outra. As placas — dois discos circulares de área A — estão carregadas com as cargas Q
e −Q, respectivamente, e encontram-se a uma pequena distância d uma da outra.

a) Calcular a capacidade do condensador assim constituı́do;

b) Obter as distribuições de carga induzidas no dieléctrico;

c) Verificar que a carga total de polarização é nula.

Resposta
Considere-se que uma placa do condensador (a que tem carga positiva) está em x = 0 e a
outra em x = d. O campo deslocamento é dado por

Q
D = σ î = î .
A
A permitividade absoluta é
²2 − ²1
²(x) = ²1 + x (5.87)
d
e, portanto, o campo eléctrico, considerando o dieléctrico linear e isotrópico, vem

D Q d
E= = î .
²(x) A ²1 d + (²2 − ²1 ) x

a) A diferença de potencial é a circulação do campo eléctrico, ou seja,


Z d Z d
Qd dx Qd 1
V = E dx = = [ ln |²1 d + (²2 − ²1 ) x | |d0
0 A 0 ²1 d + (²2 − ²1 ) x A ²2 − ²1
µ ¶
Qd ²2
= ln .
A(²2 − ²1 ) ²1

A capacidade do condensador, que é dada por C = Q/V , vem então


· µ ¶¸−1
A ²2
C= (²2 − ²1 ) ln ;
d ²1

b) Determinemos agora o vector polarização. Tem-se


µ ¶
Q Q ²0
P = (² − ²0 )E = (² − ²0 ) î = 1− î ,
A² A ²

ou, inserindo a expressão (5.87) de ²,


· ¸
Q d ²0
P = 1− î .
A ²1 d + (²2 − ²1 ) x
152 •
Campo electromagnético

A densidade de carga de polarização é

Q d ²0 (²2 − ²1 )
ρp = −∇ · P = − . (5.88)
A [ ²1 d + (²2 − ²1 ) x ]2

As densidades de carga superficial são


i) sobre x = 0,
Q ²1 − ²0
σp = −î · P (0) = − ; (5.89)
A ²1

ii) sobre x = d,
Q ²2 − ²0
σp = î · P (d) = ; (5.90)
A ²2

c) Calculemos em primeiro lugar a carga de polarização sobre as superfı́cies do dieléctrico,


para o que basta multiplicar as densidades (5.89) e (5.90) pela área A. A carga total
de polarização sobre as superfı́cies do dieléctrico é dada por
µ ¶
(s) ²0 ²0
Qp = Q 1− −1+
²2 ²1
²2 − ²1
= Q ²0 . (5.91)
²1 ²2

A carga de polarização no volume é o integral de (5.88) estendido ao volume do


dieléctrico:
Z d
dx
Q(v) = −Q d ²0 (²2 − ²1 )
p
0 [²1 d + (²2 − ²1 ) x]2
· ¯ · ¸
1 ¯d
= Q d ²0 ¯ = Q²0 1 − 1
[²1 d + (²2 − ²1 ) x] ¯0 ²2 ²1
²1 − ²2
= Q ²0 ,
²1 ²2
que é o simétrico de (5.91). Está pois provado, como se pretendia, que a carga total de
polarização, Q(s)
p + Q(v)
p , é nula.

5.12.13 Condensador plano com dieléctrico de permitividade variável — II


Questão
Um condensador plano com placas condutoras em x = 0 e x = d está preenchido com
material dieléctrico cuja permitividade relativa varia de acordo com a expressão ²r = 2d / (x+
d).
Aplica-se uma d.d.p. V0 entre as suas placas. Considerando desprezáveis os efeitos dos
bordos, calcular:

a) Os campos E , D e P entre as placas e representar graficamente esses campos;

b) As distribuições de carga livre e de polarização;

c) A capacidade do condensador.
Meios dieléctricos •
153

Resposta
O problema é semelhante a 5.12.12, mas agora é dada a permitividade relativa (e não a
absoluta, como anteriormente).
Considere-se que uma placa do condensador (a que tem carga positiva) está em x = 0 e a
outra em x = d. O campo deslocamento é dado por
Q
D = σ î = î , (5.92)
A
sendo Q a carga do condensador quando lhe é aplicada uma d.d.p. V0 . A permitividade
relativa é dada por
2d
²r (x) = ,
x+d
e, portanto, o campo eléctrico é

D Q(x + d)
E= = î . (5.93)
²0 ²r (x) 2dA²0

a) A diferença de potencial, V0 , é a circulação do campo eléctrico, ou seja,


Z d Z d
Q 3Qd
V0 = E dx = (x + d) dx = ,
0 2dA²0 0 4A²0
donde se obtém a carga em função do potencial:
4 A V0 ²0
Q= . (5.94)
3d
Substituindo este resultado em (5.92) e em (5.93) obtêm-se as seguintes expressões para
o vector deslocamento e para o campo eléctrico:
4V0 ²0
D= î
3d
e
2V0 (x + d)
E= î .
3d2
O vector polarização vem
µ ¶
2d 2V0 (x + d)
P = (²r − 1) ²0 E = − 1 ²0 î
x+d 3d2
2²0 V0 (d − x)
= î .
3d2

A representação gráfica das grandezas dos vectores deslocamento, campo eléctrico e


polarização é dada na Figura 5.18;

b) A densidade volumétrica de carga de polarização é

2²0 V0
ρp = −∇ · P = . (5.95)
3d2

Para as densidades superficiais de cargas de polarização obtém-se


154 •
Campo electromagnético

D , e 0 E , P

D
4 V 0e 0/3 d
e 0 E

d x

Figura 5.18. Campo eléctrico, campo deslocamento e


polarização em função da distância x.

i) sobre x = 0,
2²0 V0
σp = −î · P (0) = − ; (5.96)
3d
ii) sobre x = d,
σp = î · P (d) = 0 .
Calculemos em primeiro lugar a carga de polarização sobre as superfı́cies do dieléctrico,
para o que basta multiplicar a densidade (5.96) pela área A. A carga total superficial
de polarização no dieléctrico é
2A²0 V0
Qp(s) = − . (5.97)
3d
Como a densidade de carga de polarização (5.95) é constante, a carga de polarização
no volume é
2A²0 V0
Q(v)
p = ,
3d
que é simétrica de (5.97).
Quanto às cargas livres, só se encontram nas placas do condensador, tendo-se, em x = 0
[ver (5.94)],
Q 4V0 ²0
σ= = ,
A 3d
e o simétrico em x = d;
c) A capacidade do condensador, que é dada por C = Q/V , vem então
4A
C = ²0 .
3d
5.12.14 Esfera polarizada radialmente
Questão
Uma esfera de raio a tem uma polarização radial P = α rn r̂ , sendo α e n constantes e
n ≥ 0. Calcular as densidades superficial e volumétrica de carga de polarização. Determinar
E dentro e fora da esfera. Determinar também o potencial V dentro e fora da esfera.
Meios dieléctricos •
155

Resposta
A densidade volumétrica de carga de polarização obtém-se a partir da divergência do
vector polarização (convém calcular a divergência em coordenadas esféricas):
α d n+2
ρp = −∇ · P = − r = −α (n + 2) rn−1 .
r2 dr
Sobre a superfı́cie da esfera a densidade de carga de polarização é
σp = P · n̂ = α an r̂ · r̂ = α an . (5.98)
À semelhança do que se fez em problemas anteriores, podemos mostrar explicitamente que a
carga total de polarização é nula. A carga existente no volume é
Z a
Q(v)
p = −α (n + 2) 4π rn+1 dr = −4 π α an+2 . (5.99)
0

Na superfı́cie a carga é [ver (5.98)]


Q(s)
p = 4 π α an+2 ,
que é, de facto, o simétrico de (5.99).
O campo eléctrico só pode depender da coordenada radial e aponta na direcção radial:
E = E(r)r̂ . No exterior da esfera o campo é nulo, como se pode concluir aplicando a lei de
Gauss e usando o facto de a carga total na esfera ser nula. O campo eléctrico no interior da
esfera calcula-se também utilizando a lei de Gauss. Através de uma superfı́cie de raio r, o
fluxo do campo eléctrico é 4πr2 E e a carga total no interior dessa superfı́cie esférica é
Z r
0
Q = 4π ρp (r)r2 dr = −4 π α rn+2 .
0

Da lei de Gauss I
Q0
E · dS =
S ²0
resulta
1 n+2 αrn P
E=− 2
4 π α r r̂ = − r̂ = − . (5.100)
4πr ²0 ²0 ²0
Para r > a o campo eléctrico é nulo e, portanto, o potencial é constante. Como o potencial
é nulo em pontos muito afastados da esfera (r → ∞), conclui-se que o potencial é nulo no
exterior da esfera. O potencial dentro da esfera é igual à diferença de potencial entre um
ponto do interior da esfera e um ponto da superfı́cie, que está ao potencial nulo. Calculando
a circulação do campo eléctrico (5.100) ao longo de uma trajectória radial, obtém-se:
Z a Z a
α α
V = E dr = − rn dr = (rn+1 − an+1 ) .
r ²0 r ²0 (n + 1)

5.12.15 Dieléctrico em equilı́brio


Questão
Um condensador cilı́ndrico de comprimento ` formado por dois condutores coaxiais de
raios a e b (ver Figura 5.19) está carregado com a carga Q (a, b ¿ `).
É introduzido no condensador um dieléctrico, de permitividade relativa ²r , que preenche
completamente o espaço entre os cilindros condutores. Sabendo que o dieléctrico tem a
massa m, calcular o comprimento z0 indicado na figura na posição em que o dieléctrico fica
em equilı́brio no campo gravı́tico.
156 •
Campo electromagnético

b
a

z 0

Figura 5.19. Condensador cilı́ndrico


com dieléctrico em equilı́brio estático.

Resposta
Se não existir dieléctrico, o campo eléctrico entre as armaduras do condensador cilı́ndrico

Q
E=
2πr²0 `
e o potencial entre as armaduras, V , é simplesmente a circulação deste campo entre r = a e
r = b.
A capacidade do condensador cilı́ndrico sem dieléctrico é Q/V , obtendo-se

2π²0 `
C0 = .
ln(b/a)

Quando existe dieléctrico, a expressão da capacidade é semelhante à anterior, bastando sub-


stituir ²0 por ² = ²r ²0 .
À medida que o dieléctrico vai preenchendo o espaço entre as armaduras, o sistema pode
ser considerado uma associação de dois condensadores em paralelo. A capacidade do conjunto
é, pois,
2π²0 (` − z) 2π²0 ²r z 2π²0
C= + = [ ` + z(²r − 1) ] .
ln(b/a) ln(b/a) ln(b/a)
A energia do sistema é

1 Q2 Q2 ln(b/a) 1
U= = .
2 C 4π²0 ` + z (²r − 1)
Meios dieléctricos •
157

O trabalho da força eléctrica sobre o dieléctrico quando este sofre um deslocamento infinites-
imal dz é δW = F dz, sendo tal trabalho o simétrico da variação infinitesimal da energia do
sistema, dU , decorrente do deslocamento infinitesimal do dieléctrico. Podemos, pois, escrever

dU Q2 ln(b/a) ²r − 1
F =− = . (5.101)
dz 4π²0 [` + z(²r − 1)]2

A condição de equilı́brio estático é F + Fg = 0, pelo que a força eléctrica (5.101) é, em


módulo, igual à força gravı́tica, mg, exercida no dieléctrico. Da igualdade

Q2 ln(b/a) ²r − 1
= mg
4π²0 [` + z0 (²r − 1)]2

tira-se a expressão de z0 :
s 
1  Q2 (²r − 1) ln(b/a)
z0 = − ` .
²r − 1 4 π m g ²0
158 •
Campo electromagnético
CAPÍTULO 6
SOLUÇÃO DA EQUAÇÃO
DE LAPLACE
O campo eléctrico produzido por uma dada distribuição de cargas estáticas pode ser
calculado a partir do simétrico do gradiente do potencial electrostático, o qual é muitas vezes
obtido por integração [ver (2.12)].
Alternativamente, a determinação do potencial pode ser procurada resolvendo-se a equação
de Poisson (2.15), que é uma equação diferencial de segunda ordem às derivadas parciais:
ρ
∇2 V = − ,
²0
ou, tal como vimos no Capı́tulo 5,
ρ`
∇2 V = − , (6.1)
²
no caso dos meios dieléctricos da classe A.
Mais simples do que resolver a equação de Poisson é resolver a equação de Laplace,

∇2 V = 0 , (6.2)

válida em domı́nios onde não existam cargas. É este o objectivo principal deste capı́tulo.
Antes de abordar esta questão, vamos apresentar um teorema importante que fundamenta
e justifica os desenvolvimentos a fazer a seguir.

6.1 TEOREMA DA UNICIDADE

Segundo o teorema da unicidade para potenciais eléctricos, não pode haver mais do que
um potencial V (r ) que satisfaça a equação de Poisson e um dado conjunto de condições de
160 •
Campo electromagnético

fronteira. Uma consequência importante deste teorema é a liberdade de que dispomos para
calcular V (r ), usando o método mais apropriado a cada situação.
Põe-se, naturalmente, a questão de explicitar quais são as condições de fronteira apro-
priadas para que a equação de Poisson (ou de Laplace) tenha uma solução única e bem
comportada, ou seja, fisicamente aceitável, numa região limitada por uma superfı́cie. Os
resultados experimentais levam-nos a concluir que a especificação do potencial sobre a su-
perfı́cie-fronteira define um problema único. Neste caso tem-se uma dada região do espaço
limitada por uma superfı́cie e, embora não se conheçam os pormenores da distribuição de
cargas, conhece-se o potencial em todos os pontos dessa superfı́cie (condição de fronteira de
Dirichlet). A expressão geral da função V é determinada a partir de (6.2), com a condição de,
sobre a superfı́cie de fronteira, reproduzir os valores dados. Em alternativa ao conhecimento
de V sobre a fronteira, pode especificar-se a derivada do potencial eléctrico segundo a normal,
∂V
∂n = ∇V · n̂, em cada ponto da superfı́cie de fronteira (n̂ é a normal à superfı́cie). Neste
caso, as condições de fronteira dizem-se de von Neumann.
Vamos então demonstrar que existe apenas uma solução da equação de Poisson dentro de
um volume, v, com condições de fronteira impostas sobre a superfı́cie fechada, S, que delimita
esse volume. Admitamos, por hipótese, que existiam duas soluções, V1 e V2 , satisfazendo as
mesmas condições de fronteira, e seja a diferença entre elas designada por V :

V = V2 − V1 .

Dado que, por hipótese,


ρ ρ
∇2 V1 = − , ∇2 V2 = − , em v
²0 ²0
e
∂V1 ∂V2
V1 = V2 = ou em S,
∂n ∂n
conforme se imponham condições de fronteira de Dirichlet ou de von Neumann, a função V
satisfaz as seguintes expressões:
∇2 V = 0 em v
e
∂V
V =0 ou
=0 em S.
∂n
Estas condições de fronteira permitem que se escreva
I I
∂V
V ∇V · dS = V dS = 0 . (6.3)
S S ∂n
Por outro lado, usando o teorema de Gauss,
I Z Z Z
V ∇V · dS = ∇ · (V ∇V ) dv = ∇V · ∇V dv + V ∇2 V dv
S v v v
Z
= |∇V |2 dv = 0 . (6.4)
v

(A igualdade I Z Z
∂V
V dS = ∇V · ∇V dv + V ∇2 V dv (6.5)
S ∂n v v
é designada teorema de Green.)
Solução da equação de Laplace •
161

Conclui-se então, de (6.4), que ∇V = 0, pois a função integranda é definida positiva. Em


coordenadas cartesianas, este resultado implica que

∂V ∂V ∂V
= = = 0, (6.6)
∂x ∂y ∂z

ou seja, V é constante em todos os pontos do volume v. Considerando condições de Dirichlet,


V = 0 sobre S, terá de verificar-se V = 0 em todo o domı́nio (volume e superfı́cie), pois só
assim se garante a continuidade de V . Logo, V1 = V2 em todo o domı́nio, como querı́amos
provar. Considerando condições de von Neumann, a Eq. (6.6), que se refere ao volume v,
mantém-se ainda sobre a superfı́cie S, donde se conclui que V é constante em todo o domı́nio,
e portanto V1 = V2 + C. Quer dizer, as duas soluções são iguais a menos de uma constante
arbitrária que não é relevante. Relembramos que a origem do potencial é arbitrária e que o
campo fı́sico E é obtido a partir das derivadas do potencial.

6.2 O MÉTODO DAS IMAGENS

O método das imagens fornece uma técnica para o cálculo do potencial eléctrico e, con-
sequentemente, do campo eléctrico. A ideia subjacente consiste em encontrar um conjunto
de cargas fictı́cias (chamadas cargas-imagem) que, juntamente com as cargas reais presentes,
criem um potencial eléctrico que satisfaça todas as condições de fronteira.
Este método é utilizado frequentemente em problemas envolvendo cargas pontuais na viz-
inhança de condutores. O efeito dos condutores pode ser simulado por uma ou por várias
cargas-imagem, de tal modo que as superfı́cies dos condutores são “substituı́das” por su-
perfı́cies equipotenciais que, devido à acção conjunta de cargas reais e das cargas-imagem
(ou fictı́cias) devem encontrar-se ao mesmo potencial dos condutores reais do problema.
Respeitam-se, deste modo, as condições de fronteira e a solução assim encontrada para o
potencial é única.
As cargas fictı́cias simulam, afinal, o papel de outras distribuições de carga que determinam
as condições de fronteira. O potencial pode, então, ser escrito na forma
X qi,reais X qj,fictı́cias
V = + , (6.7)
i
4π²0 Ri j
4π²0 Rj

sublinhando-se que todas as cargas fictı́cias têm de estar localizadas fora da região onde
importa conhecer o potencial. Caso contrário, estarı́amos a alterar os dados do problema.
Consideremos alguns exemplos concretos que ilustram o método e ajudam a compreendê-lo
melhor.

Exemplo 6.1: Carga pontual e condutor plano ligado à terra


A Figura 6.1 representa um condutor semi-infinito com uma fronteira plana em x = 0 e
uma carga pontual Q à distância d do plano. O plano condutor está ligado à terra, pelo que
a condição de fronteira sobre o plano x = 0 é V (0, y, z) = 0, para qualquer y e z. Pretende
calcular-se o potencial no ponto P de coordenadas (x, y, z), para x ≥ 0, devido à carga Q e
ao condutor.
É fácil reconhecer que se pode obter a mesma condição de fronteira colocando uma carga
0
Q simétrica da carga real à mesma distância d do plano, mas do lado oposto. A carga
Q0 = −Q está fora da região onde se quer conhecer o potencial e, juntamente com a carga
162 •
Campo electromagnético

y
P ( x ,y ,z )

R ' R

-Q d d Q x

m a te ria l c o n d u to r v a z io

Figura 6.1. Carga pontual e condutor plano ligado à terra.

real, cria no plano x = 0 um potencial nulo. De facto, o potencial criado pelas duas cargas
no ponto P é
µ ¶
Q 1 1
V = VQ + V−Q = − 0
4π²0 R R
à !
Q 1 1
= p −p (6.8)
4π²0 (x − d)2 + y 2 + z 2 (x + d)2 + y 2 + z 2

e, sobre o plano x = 0, o potencial anula-se, quaisquer que sejam y e z, tal como se pretendia.
O potencial (6.8), válido para x ≥ 0, satisfaz as condições de fronteira do problema e é único.
Para x ≤ 0 o potencial é identicamente nulo, dado tratar-se do interior de um condutor em
equilı́brio electrostático.
O campo eléctrico obtido a partir da equação E = −∇V é
µ ¶
Q x−d x+d
Ex = − (6.9)
4π²0 R3 R0 3
µ ¶
Qy 1 1
Ey = − (6.10)
4π²0 R3 R0 3
µ ¶
Qz 1 1
Ez = − . (6.11)
4π²0 R3 R0 3

Para x = 0, tem-se R = R0 e, das equações anteriores, resulta Ey = Ez = 0, pelo que o campo


eléctrico apenas tem componente segundo x:

Q 2d
E (x = 0, y, z) = − î . (6.12)
4π²0 (d + y + z 2 )3/2
2 2

O campo eléctrico é perpendicular, em qualquer ponto, à superfı́cie do condutor, como era


de esperar.
Vejamos a seguir qual é a distribuição de carga, σ, na superfı́cie condutora. Pela lei de
Gauss em superfı́cies de descontinuidade,
σ
n̂ · (E2 − E1 ) = = î · E ,
²0
Solução da equação de Laplace •
163

sendo n̂ = î, e E2 e E1 , respectivamente, os campos nas regiões x = 0+ e x = 0− ; E2 =


E (0, y, z) é dado por (6.12). A densidade superficial de carga é
Qd
σ(0, y, z) = − .
2π(d2 + y 2 + z 2 )3/2

Esta distribuição de carga “induzida” no plano pela presença da carga pontual Q não é
uniforme: tem um máximo na origem (em frente a Q) e tende para zero quando y, z → ∞.
A carga total no condutor obtém-sepintegrando a densidade superficial, sendo conveniente
utilizar as coordenadas polares r = y 2 + z 2 e φ, ao efectuar a integração sobre o plano:
Z Z ∞ Z 2π
Qd r dr
Qplano = σdS = − dφ
2π 0 (d + r2 )3/2
2
0
µ ¯
Q −1 ¯¯∞
= − 2πd √ ¯ = −Q .
2π d2 + r 2 0
Conclui-se, assim, que a carga total induzida no plano condutor é igual à carga-imagem, como
seria de esperar, uma vez que se pretende, com a carga-imagem, simular o comportamento
global do condutor.
Vejamos, por fim, qual é a força exercida pelo plano condutor sobre Q. O campo produzido
pelo plano condutor é dado pelas eqs. (6.9), (6.10) e (6.11), mas no ponto (d, 0, 0), onde se
encontra a carga Q, só a componente x é diferente de zero. O campo é obtido de (6.9) e a
força — produto da carga Q pelo campo que as outras cargas criam nesse ponto — é

−Q Q2
F =Q î = − î .
4π²0 (2d)2 16π²0 d2

Esta expressão é exactamente a mesma que resultaria de (2.1), usando o facto de as cargas
pontuais Q e Q0 estarem à distância 2d uma da outra.

Exemplo 6.2: Carga pontual junto a uma esfera condutora ligada à terra
Consideremos uma carga pontual Q à distância d do centro de uma esfera condutora de
raio a, ligada à terra. Escolhemos um sistema de eixos com origem no centro da esfera e
cujo eixo dos z passa pelo ponto onde está a carga Q. Pretende calcular-se o potencial em
pontos exteriores à esfera (no interior da esfera o potencial é nulo), devendo ser satisfeita a
condição de fronteira V (a, θ, φ) = 0. Introduz-se uma carga-imagem Q0 a uma distância d0 do
centro da esfera O (d0 < a), portanto fora da região onde se pretende conhecer o potencial.
A situação está representada esquematicamente na Figura 6.2.
O potencial criado, em P (x, y, z), pelas cargas real e fictı́cia é
µ ¶
1 Q Q0
V (r, θ, φ) = + . (6.13)
4π²0 R R0
Designando por r o vector posicional, relativamente à origem das coordenadas, do ponto
genérico P e por d o vector posicional de Q relativamente a O, tem-se r = d + R, pelo que

R = (r2 + d2 − 2rd cos θ)1/2 (6.14)

e, de modo análogo, designando por d0 o vector posicional de Q0 relativamente a O, se escreve


r = d0 + R0 , donde
164 •
Campo electromagnético

z
Q R Q R
P ( x ,y ,z ) P ( x ,y ,z )
d R '
d
Q ' r r

d ' q
q
a O O

Figura 6.2. Carga pontual e esfera condutora ligada à terra.

2
R0 = (r2 + d0 − 2rd0 cos θ)1/2 . (6.15)

Sobre a superfı́cie da esfera, a expressão (6.13) tem de se anular, pois esta é a condição de
fronteira que deve ser satisfeita. Para r = a, o potencial escreve-se
" #
1 Q Q0
V (a, θ, φ) = 0 = √ +p .
4π²0 a2 + d2 − 2ad cos θ a2 + d0 2 − 2ad0 cos θ

Esta expressão é válida para qualquer ângulo θ, em particular para θ = 0 e para θ = π.


Obtêm-se, assim, duas equações que permitem determinar Q0 e d0 . Tem-se, respectivamente
(note-se que d > a > d0 ),
Q Q0
+ = 0,
d − a a − d0
Q Q0
+ = 0.
d + a a + d0
Resolvendo o sistema de equações, chega-se a

a2 a
d0 = e Q0 = − Q . (6.16)
d d
Substituindo em (6.13), obtém-se o potencial, válido para qualquer ponto do exterior da
esfera,
 
Q  √ 1 a/d 
 ,
V (r, θ, φ) =  −r ³ ´ ³ ´ 
4π²0 2 2
r + d − 2rd cos θ 2 2
a 2
a
r2 + d − 2r d cos θ

e que satisfaz as condições de fronteira.


Solução da equação de Laplace •
165

O campo eléctrico só tem componentes (esféricas) Er e Eθ :


( £ ¤)
∂V Q r − d cos θ (a/d) r − (a2 /d) cos θ
Er = − = − (6.17)
∂r 4π²0 R3 R0 3
" #
1 ∂V Qd sin θ 1 (a/d)3
Eθ = − = − . (6.18)
r ∂θ 4π²0 R3 R0 3
A distância R0 [ver (6.15)], em função de d, a e θ, é
s
µ 2 ¶2 µ 2¶
a a
R0 = r2 + − 2r cos θ ,
d d
donde se conclui que, para r = a, R0 e R [ver Eq. (6.14)] relacionam-se entre si através de
R0 = R a/d. Inserindo este resultado em (6.18), obtém-se Eθ (r = a) = 0, ou seja, o campo
eléctrico é perpendicular em todos os pontos à superfı́cie da esfera.
Tal como fizemos no exemplo anterior, vejamos qual é a densidade superficial de carga
induzida na esfera condutora. A divergência superficial do campo é
σ
n̂ · (E2 − E1 ) = . (6.19)
²0
Com n̂ = êr , o campo “interior” é E1 = 0 e o “exterior” é E2 , o qual se obtém de (6.17)
fazendo r = a:
Q
E2 = (a2 − d2 ) êr .
4π²0 R3 a
A densidade superficial de carga sobre a esfera obtém-se a partir de (6.19):
Q(d2 − a2 )
σ=− .
4πa(a2 + d2 − 2ad cos θ)3/2
Deixa-se ao leitor a tarefa de verificar que o integral desta densidade estendido a toda a
superfı́cie esférica — carga total na esfera condutora — é igual à carga-imagem [cf. (6.16)]:
I Z π
Q (d2 − a2 ) a sin θdθ a
Qesfera = σdS = −2π 3/2
= −Q .
S 4π 0 (a2 + d2 − 2ad cos θ) d
A força que a esfera condutora exerce sobre a carga Q pode ser determinada a partir da força
que a carga-imagem exerce sobre Q. Como o campo produzido pela carga-imagem no ponto
onde se encontra Q é
1 Qa
E=− k̂ ,
4π²0 d (d − d0 )2
a força vem
Q2 a
F = QE = − k̂ .
4π²0 d (d − d0 )2
Usando a relação entre d e d0 [ver (6.16)] esta força pode ser expressa por
Q2 ad
F =− k̂ .
4π²0 (d2 − a2 )2
No limite em que d À a, pode desprezar-se a2 no denominador relativamente a d2 e, usando a
relação entre Q0 e Q [ver (6.16)], escrever a expressão anterior na forma da força coulombiana
entre duas cargas pontuais à distância d uma da outra:
Q Q0
F = k̂ .
4 π ²0 d2
166 •
Campo electromagnético

Exemplo 6.3: Carga pontual próxima de uma esfera condutora descarregada


e isolada
Considere-se um sistema fı́sico semelhante ao anterior, mas com a esfera condutora descar-
regada e isolada. “Coloca-se” a mesma carga-imagem Q0 a uma distância d0 do centro da
esfera, sendo os valores destas quantidades ainda dados por (6.16). Como vimos, as cargas
real Q e imagem Q0 criam sobre a superfı́cie da esfera um potencial nulo. Na situação presente
o potencial da esfera tem de ser constante, mas não nulo, pois a esfera não está ligada à terra;
por outro lado, a carga total da esfera tem de ser nula. Terá, pois, de se considerar uma nova
carga-imagem de valor Q00 = −Q0 = ad Q algures no interior da esfera. Ora, a única posição
possı́vel para esta carga, de modo a que a superfı́cie esférica continue a ser uma superfı́cie
equipotencial, é o centro da esfera. O potencial da esfera é

1 Qa/d Q
V (r = a) = = ,
4π²0 a 4π²0 d
sendo esta a condição de fronteira, sobre a superfı́cie da esfera, a ser satisfeita pela solução
V (r, θ, φ) válida para o exterior da esfera.

Exemplo 6.4: Dieléctrico semi-infinito e carga pontual


Considere-se um material dieléctrico da classe A de permitividade ² e com uma fronteira
plana, e seja Q uma carga pontual colocada à distância d da superfı́cie do dieléctrico (Figura
6.3). Pretende conhecer-se o potencial eléctrico em todo o espaço.

y
m e io 1 m e io 2
(d ie lé c tric o ) (v a z io )

d x

Figura 6.3. Carga pontual e dieléctrico plano semi-infinito.

Na região do dieléctrico, x < 0, a densidade volumétrica de carga de polarização é zero.


Efectivamente [ver (5.6) e (5.20) a (5.22)], tem-se

²0 (²r − 1)
ρp = −∇ · P = −²0 (²r − 1)∇ · E = − ∇ · D = 0,
²0 ²r

uma vez que, não existindo densidade de carga livre no dieléctrico, vem ∇ · D = 0. Sobre a
superfı́cie do dieléctrico há uma densidade de carga de polarização σp . A componente x do
Solução da equação de Laplace •
167

campo eléctrico produzido por esta carga de polarização é


σp
Epext
,x = x = 0+
2²0
σp
Epint,x = − x = 0− .
2²0
Considerando apenas a componente do campo total perpendicular à superfı́cie do dieléctrico,
tem-se, para x = 0+ ,
σp Qd
Exext = − . (6.20)
2²0 4π²0 r3
Para x = 0− , vem
σp Qd
Exint = − − . (6.21)
2²0 4π²0 r3
Nestas duas expressões, a segunda parcela no segundo membro é a contribuição para a com-
ponente x do campo eléctrico resultante da presença da carga real Q (a quantidade d/r é o
co-seno do ângulo que a direcção r faz com o eixo x). A densidade superficial de carga de
polarização σp é
σp = P · n̂ = ²0 (²r − 1) E int · î = ²0 (²r − 1)Exint . (6.22)
Substituindo em (6.21),
²0 (²r − 1) int Qd
Exint = − Ex −
2²0 4π²0 r3
e resolvendo em ordem a Exint ,
µ ¶
int ²r − 1 Qd
Ex =− 1− . (6.23)
²r + 1 4π²0 r3
Usando agora (6.23) em (6.22) e a expressão resultante em (6.20), obtém-se
µ ¶
²r − 1 Qd
Exext = − 1 + . (6.24)
²r + 1 4π²0 r3
As duas últimas equações exprimem condições de fronteira e vão ser exploradas no sentido
de se obterem as cargas-imagem úteis para o cálculo do campo em todo o espaço.
A equação relevante para a região x > 0 é (6.24). A condição de fronteira expressa por
esta equação é a que seria obtida colocando, para além da carga real em (d, 0, 0), uma carga
de valor Q0 = −Q(²r − 1)/(²r + 1) no ponto (−d, 0, 0), isto é, fora da região onde se pretende
determinar o potencial e o campo.
Para se calcular o campo no interior do dieléctrico, ou seja, para x < 0, atente-se na
Eq. (6.23). Conclui-se que esse campo é o que seria produzido colocando uma carga-imagem
justamente sobre Q [ponto (d, 0, 0)] de valor igual a Q00 = −Q(²r − 1)/(²r + 1) ou, o que é o
mesmo, substituindo a carga real pela carga Q000 = Q + Q00 = 2Q/(²r + 1).
Em suma: primeiro substituı́mos o dieléctrico por uma densidade de cargas superficial σp .
Para a situação estudada verifica-se que ρp = 0 e, portanto, pudemos resolver o problema
substituindo σp pela carga-imagem Q0 = −Q(²r − 1)/(²r + 1) colocada em (−d, 0, 0), quando
se pretendeu calcular o campo para x > 0. Ou então, para a região x < 0, substituindo σp e
Q pela carga 2Q/(²r + 1) colocada em (d, 0, 0). Repare-se que, em cada um dos casos, x > 0 e
x < 0, as cargas-imagem consideradas estão sempre fora da região onde se pretende calcular
o potencial. Note-se, também, que, com as cargas-imagem consideradas, está garantida a
continuidade das componentes tangenciais do campo eléctrico na superfı́cie de separação.
168 •
Campo electromagnético

6.3 SOLUÇÃO DA EQUAÇÃO DE LAPLACE EM COORDENADAS


CARTESIANAS

O método das imagens é adequado em muitas circunstâncias, mas um método mais geral
para a obtenção do potencial (e do campo eléctrico) será a própria resolução da equação de
Poisson (6.1).
Por ser mais simples, abordaremos a questão da resolução da equação de Laplace (6.2),
que se aplica em regiões do espaço onde não existam cargas. Obtida a solução desta equação
— equação diferencial, homogénea, de segunda ordem — é fácil, em princı́pio, escrever a
solução da equação de Poisson. Esta solução é a soma da solução da equação de Laplace e
de uma solução particular da equação completa.
Nesta secção vamos obter soluções da equação de Laplace. Em coordenadas cartesianas,
a Eq. (6.2) vem (ver Apêndice B)

∂2V ∂2V ∂2V


∇2 V = + + = 0. (6.25)
∂x2 ∂y 2 ∂z 2
Esta equação vai ser resolvida pelo método da separação das variáveis, procurando-se uma
solução da forma
V (x, y, z) = X(x) Y (y) Z(z) , (6.26)
em que X(x), Y (y) e Z(z) são funções, respectivamente, das variáveis x, y e z. Substituindo
(6.26) em (6.25) e dividindo por V obtém-se

1 d2 X 1 d2 Y 1 d2 Z
2
+ 2
+ = 0.
X(x) dx Y (y) dy Z(z) dz 2

Cada uma das parcelas desta expressão depende apenas de uma das variáveis x, y ou z, pelo
que a igualdade a zero só se obtém se cada uma das parcelas for igual a uma constante, ou
seja, se

1 d2 X
= ±c21 (6.27)
X(x) dx2
1 d2 Y
= ±c22 (6.28)
Y (y) dy 2
1 d2 Z
= ±c23 , (6.29)
Z(z) dz 2

onde c2i são três constantes positivas arbitrárias apenas sujeitas à condição

±c21 ± c22 ± c23 = 0 (6.30)

e, naturalmente, às condições de fronteira. O problema da resolução da equação de Laplace


reduz-se ao da resolução das três equações diferenciais dependentes de uma variável apenas,
(6.27) a (6.29), com as condições (6.30). A solução X(x) é, para −c21 , uma função oscilante,
dada por
X(x) = Aeic1 x + Be−ic1 x (6.31)
ou, de modo equivalente, por

X(x) = A0 cos(c1 x) + B 0 sin(c1 x) . (6.32)


Solução da equação de Laplace •
169

Para +c21 a solução da Eq. (6.27) é uma sobreposição de exponenciais:

X(x) = Cec1 x + De−c1 x (6.33)

ou, de forma equivalente,

X(x) = C 0 cosh(c1 x) + D0 sinh(c1 x) . (6.34)

Nestas expressões, A, B, ..., C 0 , D0 são constantes de integração. As funções Y (y) e Z(z) são
formalmente idênticas a X(x), pois as equações a que obedecem são do mesmo tipo.
Há, evidentemente, muitos conjuntos de valores de c1 , c2 , c3 que satisfazem (6.30). Uma vez
que cada combinação corresponde, de facto, a uma solução possı́vel da equação de Laplace,
há um número infinito de possı́veis soluções do tipo

V{c} (x, y, z) = Xc1 (x) Yc2 (y) Zc3 (z) ,

linearmente independentes. Uma combinação linear destas soluções é ainda uma solução,
pelo que a equação de Laplace tem por solução geral
X
V (x, y, z) = A{c} V{c} (x, y, z) ,
{c}

em que A{c} são constantes fixadas pelas condições de fronteira.


É a introdução das condições de fronteira que permite eliminar todas as soluções que,
sendo possı́veis matematicamente, não o são fisicamente. Chega-se, então, a uma solução
que, como já sabemos, é única.
De notar que as eqs. (6.27) a (6.29) admitem soluções simplificadas em alguns casos
especiais. De facto, a condição (6.30) verifica-se sempre que c1 = c2 = c3 = 0, tendo-se, nesse
caso, a solução dada por

V (x, y, z) = (A + B x) (C + D y) (E + F z) . (6.35)

Outra situação particular ocorre num problema a duas dimensões, em que V (x, y) =
X(x) Y (y) e a Eq. (6.30) se reduz a c21 + c22 = 0, ou seja, c21 = −c22 = β 2 , sendo β uma
constante real ou imaginária. As soluções de (6.27) e (6.28) são, respectivamente, do tipo
(6.33) e (6.32), ou seja,

X(x) = Aeβx + Be−βx

Y (y) = C cos(βy) + D sin(βy) .

Uma solução geral do problema a duas dimensões é, pois, uma combinação linear de produtos
de funções do tipo X(x) e Y (y). As condições de fronteira impõem, de um modo geral, que
o parâmetro β seja discreto, pelo que a solução do problema a duas dimensões é da forma
∞ ³
X ´
V (x, y) = An eβn x + Bn e−βn x [Cn cos(βn y) + Dn sin(βn y)] , (6.36)
n=1

onde βn , An , Bn , Cn e Dn são determinados pelas condições de fronteira. Note-se que se os


βn forem imaginários, a dependência em x é oscilante e a dependência em y é exponencial.
170 •
Campo electromagnético

V 0

Figura 6.4. Dois condutores planos


ligados à terra
e lâmina ao potencial V0 .

Exemplo 6.5: Potencial entre dois eléctrodos planos semi-infinitos, ligados à


terra e separados por um eléctrodo plano ao potencial V0
Vamos aplicar o formalismo desenvolvido nesta secção à situação representada na Figura
6.4.
A separação entre os eléctrodos ligados à terra é b e as condições de fronteira são1

V = 0 y = 0 (x ≥ 0) (6.37)
V = 0 y = b (x ≥ 0) (6.38)
V = V0 x = 0 (0 < y < b) (6.39)
V → 0 x → ∞. (6.40)

O sistema é infinito segundo o eixo dos z e, por isso, o potencial não deve depender de z.
A solução é, pois, do tipo (6.36). A condição (6.37) implica que Cn = 0 para qualquer n.
A condição (6.38) implica que

Dn sin(βn b) = 0 ⇒ βn = (n = 1, 2, ...) .
b
Fica, assim, determinada a dependência em y da expressão do potencial:
µ ¶

Yn (y) ∼ sin y (n = 1, 2, ...) .
b
Quanto à parte que depende de x, a condição de fronteira (6.40) implica que todos os coefi-
cientes An , em (6.36), se anulem. Teremos, portanto,

X µ ¶
nπ nπ
V (x, y) = Cn0 sin y e− b
x
. (6.41)
n=1
b
1
A situação apresentada é académica. De facto, ela é impossı́vel de ser realizada na prática, pois há uma
descontinuidade no potencial segundo o eixo y. A uma descontinuidade no potencial corresponderia um campo
eléctrico infinito.
Solução da equação de Laplace •
171

Os coeficientes Cn0 desta série são determinados usando-se a condição de fronteira (6.39) que
não foi ainda explorada. A equação anterior em x = 0 reduz-se a

X µ ¶

V (0, y) = V0 = Cn0 sin y . (6.42)
n=1
b

Antes de prosseguir, convém recordar alguns aspectos das séries de Fourier que vão ser
necessários ao problema em estudo. Uma função bem comportada F (y), isto é, contı́nua ou,
pelo menos, contı́nua por partes, e nunca infinita, definida num intervalo [0, b] pode sempre
ser escrita como uma série de Fourier:
∞ ·
X µ ¶ µ ¶¸
nπ nπ
F (y) = Cn00 sin y + Dn00 cos y .
n=0
b b

As funções trigonométricas formam uma base completa e gozam das seguintes propriedades
de ortogonalidade:
Z b µ ¶ µ ¶ Z b µ ¶ µ ¶
mπy nπy mπy nπy b
sin sin dy = cos cos dy = δmn , n, m 6= 0 . (6.43)
0 b b 0 b b 2
¡ mπ ¢
Retomemos a Eq. (6.42), multipliquemos ambos os membros por sin b y e integremos
de 0 a b. O primeiro membro fica

Z b µ

¶  2V0 b

se m é ı́mpar
V0 sin y dy = mπ (6.44)
0 b 
 0 se m é par.

Quanto ao segundo membro pode usar-se a propriedade de ortogonalidade da função seno


[ver (6.43)]:
X∞ Z b µ ¶ µ ¶
0 mπy nπy 0 b
Cn sin sin dy = Cm .
n=1 0 b b 2
0 :
Desta equação e de (6.44) obtém-se a expressão pretendida para Cm

 4V0

se m é ı́mpar
0
Cm = mπ (6.45)

 0 se m é par .

Substituindo, finalmente, os valores de Cn0 dados por esta expressão em (6.41),



X µ ¶
4V0 1 nπ nπ
V (x, y) = sin y e− b
x
. (6.46)
π n=1,3,...
n b

O campo eléctrico é então



X · µ ¶ µ ¶ ¸
4V nπ nπ nπ
E (x, y) = −∇V = − 0 − sin y î + cos y ĵ e− b
x
.
b n=1,3,...
b b

As contribuições das diferentes parcelas são tanto menores quanto maior for n devido
à função exponencial. Na direcção x o campo tende para zero rapidamente. Por outro
lado, para (x = 0, y = 0, z) e (x = 0, y = b, z), o campo torna-se infinito (como já se referiu
anteriormente, o potencial tem uma descontinuidade e a situação apresentada não pode ser
realizada na prática).
172 •
Campo electromagnético

6.4 SOLUÇÃO DA EQUAÇÃO DE LAPLACE EM COORDENADAS


ESFÉRICAS

Em coordenadas esféricas, a equação de Laplace tem a forma (ver Apêndice B)


µ ¶ µ ¶
1 ∂ ∂V 1 ∂ ∂V 1 ∂2V
∇2 V = r2 + sin θ + = 0,
2
r ∂r ∂r 2
r sin θ ∂θ ∂θ r2 sin2 θ ∂φ2

sendo a sua solução expressa em função das coordenadas esféricas, V = V (r, θ, φ). Utilizare-
mos a mesma técnica de separação de variáveis mas, como o desenvolvimento do formalismo
se torna bastante trabalhoso, limitar-nos-emos aos casos em que haja simetria axial, isto é,
às situações em que o potencial seja independente do ângulo azimutal φ. A equação anterior
reduz-se a µ ¶ µ ¶
2 1 ∂ 2 ∂V 1 ∂ ∂V
∇ V (r, θ) = 2 r + 2 sin θ =0 (6.47)
r ∂r ∂r r sin θ ∂θ ∂θ
e procuram-se soluções da forma

V (r, θ) = R(r) Θ(θ) . (6.48)

Substituindo (6.48) em (6.47) e dividindo por V , vem


µ ¶ µ ¶
1 d dR 1 d dΘ
r2 + sin θ = 0. (6.49)
R dr dr Θ sin θ dθ dθ

A primeira parcela só depende de r e a segunda só depende de θ. Para que a equação seja
satisfeita com toda a generalidade, cada uma das parcelas só pode ser igual a uma constante:
se a parte que depende de r for igual a k, a que depende de θ terá de ser igual a −k, sendo
k uma constante real. A equação para R(r) é

d2 R dR
r2 2
+ 2r − kR = 0 , (6.50)
dr dr
a qual admite soluções da forma

R(r) = Arn + Br−(n+1) . (6.51)

A relação entre n e a constante k obtém-se substituindo (6.51) em (6.50). Vem, então,


³ ´
(n2 + n − k) A rn + B r−(n+1) = 0 ,

concluindo-se que
k = n (n + 1) . (6.52)
Vejamos agora a equação para Θ(θ), que se obtém facilmente a partir de (6.49). Usando já
o resultado (6.52), a Eq. (6.49) vem
µ ¶
d dΘ
sin θ + n(n + 1) sin θ Θ(θ) = 0 . (6.53)
dθ dθ

Trata-se de uma equação que aparece em muitos ramos da Fı́sica (por exemplo, no estudo de
um campo de forças central em mecânica quântica não relativista) e cuja solução se exprime
Solução da equação de Laplace •
173

em função dos polinómios de Legendre. Para obter essas soluções efectuamos a mudança de
variável q q
d d
ξ = cos θ → sin θ = 1 − ξ 2 ; e = − 1 − ξ2
dθ dξ
na Eq. (6.53). Escrevendo Θ(θ) = Pn (ξ), obtém-se a conhecida equação de Legendre:
· ¸
d dPn
(1 − ξ 2 ) + n(n + 1) Pn = 0 .
dξ dξ
As soluções desta equação, Pn (cos θ), com n inteiro, são os polinómios de Legendre, que já
foram referidos no Capı́tulo 4 (Secção 4.4).
É importante notar que n0 = −(n + 1) conduz exactamente ao mesmo valor de k [ver
(6.52)] e, portanto, a equação de Legendre fica invariante. Quer isto dizer que Pn (cos θ) =
P−(n+1) (cos θ). Combinando a solução para a parte angular, representada pelos polinómios
de Legendre, com a solução (6.51) para a parte radial (onde, então, n = 0, 1, 2, ...), podemos
afirmar que, quando existe simetria axial, a equação de Laplace admite, em coordenadas
esféricas, uma solução geral da forma
∞ ³
X ´
V (r, θ) = An rn + Bn r−(n+1) Pn (cos θ) . (6.54)
n=0

A relação de ortogonalidade dos polinómios de Legendre,


Z 1
2
Pm (cos θ) Pn (cos θ)d(cos θ) = δmn , (6.55)
−1 2n + 1
é muito útil na obtenção dos coeficientes An e Bn da expressão (6.54), como se mostra nos
exemplos de aplicação seguintes.

Exemplo 6.6: Esfera ligada à terra num campo uniforme


Consideremos um campo uniforme, E0 = E0 k̂, numa região do espaço onde se coloca
uma esfera condutora, de raio a, ligada à terra. As cargas que produzem o campo (por
exemplo, cargas nas placas de um condensador plano) estão muito longe da esfera. Pretende-
se determinar o potencial V e o campo eléctrico E na região fora da esfera. A situação está
esquematizada na Figura 6.5.
Vamos considerar coordenadas esféricas com origem no centro da esfera. As condições de
fronteira, para este problema, devem garantir que, a uma grande distância da esfera (r → ∞),
o campo inicial se mantém inalterado (E = E0 ) e que o potencial se anula para r = a. As
expressões seguintes traduzem estas duas condições

r→∞ V (r → ∞, θ) = −E0 z = −E0 r cos θ (6.56)


r=a V (r = a, θ) = 0 . (6.57)

Note-se que, para escrever a Eq. (6.56), se utilizou o facto de E = −∇V e z = r cos θ.
A simetria do problema sugere que se procure o potencial a partir da solução da equação
de Laplace em coordenadas esféricas com simetria axial [Eq. (6.54)]. Em r = a a Eq. (6.54)
e a condição de fronteira (6.57) conduzem a
∞ ³
X ´
V (a, θ) = An an + Bn a−(n+1) Pn (cos θ) = 0 . (6.58)
n=0
174 •
Campo electromagnético

E 0

Figura 6.5. Esfera condutora ligada à terra colocada numa


região onde existia previamente um campo eléctrico uniforme
E0 .

Os coeficientes An e Bn podem ser determinados utilizando as condições de ortogonalidade


dos polinómios de Legendre. Assim, se multiplicarmos ambos os membros de (6.58) por
Pm (cos θ) e integrarmos sobre cos θ obtém-se, aplicando a relação de ortogonalidade (6.55),
a seguinte equação para An e Bn :
2 ³ ´
An an + Bn a−(n+1) = 0 ,
2n + 1
ou seja,
Bn = −An a2n+1 . (6.59)
Para grandes distâncias, o termo Bn r−(n+1)
tende para zero, mas o potencial, de acordo
com (6.56), não tende para zero. Para r grande,

X
An rn Pn (cos θ) = −E0 r cos θ . (6.60)
n=0

O segundo membro depende de θ apenas através do co-seno. Ora (ver Secção 4.4) P1 (cos θ) =
cos θ, pelo que, usando novamente as condições de ortogonalidade (6.55), concluı́mos que
An = 0 se n 6= 1 e A1 = −E0 e, de (6.59), segue-se que B1 = E0 a3 , Bn = 0 (n 6= 1).
Finalmente, o potencial que se procura é dado por
à !
a3
V (r, θ) = −E0 1− 3 r cos θ . (6.61)
r

Note-se que o primeiro termo corresponde ao potencial a grandes distâncias. O segundo


termo resulta da presença da esfera. As componentes esféricas do vector campo eléctrico, que
deriva deste potencial, são:
à !
∂V 2a3
Er = − = E0 1 + 3 cos θ
∂r r
à !
1 ∂V a3
Eθ = − = −E0 1 − 3 sin θ .
r ∂θ r
Solução da equação de Laplace •
175

Em r = a a componente Eθ anula-se — o campo é perpendicular à superfı́cie do condutor


(superfı́cie equipotencial). Junto à superfı́cie da esfera e do lado exterior o campo eléctrico
só tem componente normal: E = 3E0 cos θ êr . Como o campo no interior da esfera é nulo,
pode obter-se, a partir da divergência superficial do campo eléctrico [Eq. (2.42)], a densidade
superficial de carga na esfera:

σ = ²0 divS E = 3²0 E0 cos θ . (6.62)

A carga total induzida na esfera é nula, mas a esfera adquire o momento dipolar

p = 4π²0 a3 E0 k̂ ,

como se pode verificar efectuando a integração em (4.32) para a distribuição de carga (6.62).
De resto, note-se que o segundo termo em (6.61) tem a forma tı́pica do potencial criado por
um dipolo eléctrico [ver (4.8)].

Exemplo 6.7: Esfera dieléctrica num campo uniforme


Consideremos uma esfera dieléctrica de raio a e permitividade relativa ²r numa região do
espaço onde existe inicialmente um campo uniforme E0 = E0 k̂. A situação é semelhante à
que acabou de ser estudada (ver Figura 6.5), substituindo-se a esfera condutora pela esfera
dieléctrica. Pretende obter-se o potencial e o campo eléctrico em todo o espaço. O problema
é um pouco mais complicado do que o anterior em virtude de, na região interior da esfera, o
potencial já não ser simplesmente constante.
Usaremos de novo a solução da equação de Laplace em coordenadas esféricas (caso em que
há simetria axial) — Eq. (6.54) —, tendo-se as seguintes condições de fronteira:

1. Para r = 0, o potencial Vint deve manter-se finito.

2. Em r = a o potencial deve ser uma função contı́nua:

Vint (r = a) = Vext (r = a) .

3. Para r → ∞ (r À a) o campo inicial não deverá ser perturbado significativamente.


Tal como em (6.56),
V (r → ∞, θ) = −E0 r cos θ . (6.63)

4. A componente normal do campo deslocamento eléctrico é contı́nua para r = a, pois


σ` = 0, isto é (Dint )n = (Dext )n . Daqui resulta ²r (Eint )n = (Eext )n . Sendo a direcção
da normal à superfı́cie esférica a do versor êr , tem-se En = Er = − ∂V ∂r . Verifica-se,
pois, a seguinte condição de fronteira em r = a:
∂Vint ∂Vext
²r = .
∂r ∂r

5. As componentes tangenciais de E são contı́nuas na superfı́cie esférica r = a. Como não


há dependência em φ, exige-se a continuidade para a componente Eθ = − 1r ∂V ∂θ , isto é,
(Eint )θ = (Eext )θ , ou ainda, usando o potencial,

∂Vint ∂Vext
= .
∂θ ∂θ
176 •
Campo electromagnético

Consideramos para Vint e para Vext expressões do tipo (6.54). O potencial no interior da
esfera é simplesmente X
Vint = A(i) n
n r Pn (cos θ) , (6.64)
n
(i)
pois todos os Bn
têm de se anular para que se verifique a condição de fronteira 1., isto é,
para que o potencial se mantenha finito. No exterior
X³ ´
Vext = A(e) n (e) −(n+1)
n r + Bn r Pn (cos θ) . (6.65)
n

A condição (6.63) implica que a expressão de Vext para r À a se reduza a


X
Vext (r À a) = A(e)
n Pn (cos θ) = −E0 r cos θ ,
n

(e) (e)
de onde se conclui, usando as relações de ortogonalidade (6.55) que A1 = −E0 e An =
0, n 6= 1. A Eq. (6.65) passa, então, a ser escrita na forma
X
Vext = −E0 r cos θ + Bn(e) r−(n+1) Pn (cos θ) . (6.66)
n

A condição 2. exige a continuidade da função potencial em r = a:


X X
−E0 a cos θ + Bn(e) a−(n+1) Pn (cos θ) = A(i) n
n a Pn (cos θ) .
n n

Da equação anterior resulta


(e)
B1 (i)
−E0 a + = A1 a , n = 1 (6.67)
a2
e
(e)
Bn
= A(i) n
n a , n 6= 1 . (6.68)
an+1
Usando ainda as expressões de Vint [Eq. (6.64)] e de Vext [Eq. (6.66)], a condição de fronteira
4. conduz às seguintes equações em r = a:
(e)
(i) 2 B1
²r A1 = −E0 − , n=1 (6.69)
a3
(e)
Bn
n ²r A(i)
n a
n−1
= −(n + 1) , n 6= 1 . (6.70)
an+2
As eqs. (6.68) e (6.70) permitem concluir que

Bn(e) = A(i)
n = 0, n 6= 1 . (6.71)

Por outro lado, resolvendo o sistema formado pelas eqs. (6.67) e (6.69), obtém-se

(i) 3E0
A1 = − (6.72)
2 + ²r
(e) ²r − 1
B1 = E 0 a3 . (6.73)
²r + 2
Solução da equação de Laplace •
177

Podemos confirmar que a solução obtida satisfaz automaticamente a condição de fronteira


5. Estamos finalmente em condições de escrever os potenciais no interior e no exterior.
Substituindo os resultados (6.71), (6.72) e (6.73) nas expressões (6.64) e (6.66), os potenciais
tomam as formas
3E0
Vint (r, θ) = − r cos θ r≤a (6.74)
²r + 2
²r − 1 a3 E0 cos θ
Vext (r, θ) = −E0 r cos θ + r ≥ a. (6.75)
²r + 2 r2
O campo eléctrico no interior obtém-se mais facilmente em coordenadas cartesianas, no-
tando que r cos θ = z. Vem, então, Vint = − ²3E 0
r +2
z e o campo eléctrico é

3E0 3
Eint = −∇Vint = k̂ = E0 . (6.76)
²r + 2 ²r + 2
O campo no interior da esfera dieléctrica é constante, paralelo ao campo exterior inicialmente
existente, mas menos intenso do que este, pois ²r > 1. O vector polarização é [ver (5.20) e
(5.22)]
² −1
P = (²r − 1) ²0 Eint = r 3 ²0 E0 . (6.77)
²r + 2
Este vector é constante e, por isso, para obter o momento dipolar da esfera dieléctrica, p,
basta multiplicá-lo pelo volume da esfera:
²r − 1
p = 4 π ²0 a3 E0 . (6.78)
²r + 2
O potencial criado pela esfera polarizada num ponto exterior é [ver (4.8)]

p · r̂ ²r − 1 a3 E0 cos θ
Vdip = = ,
4π²0 r2 ²r + 2 r2
tendo-se utilizado o valor do momento dipolar dado por (6.78). Esta parcela é exactamente
a que se acrescenta ao potencial inicial, −E0 z, para obter o potencial no exterior da esfera
[ver (6.75)]. O potencial no exterior pode, pois, ser escrito na forma

Vext = −E0 z + Vdip .

O campo eléctrico no exterior da esfera é

Eext = −∇Vext
à ! à !
²r − 1 2a3 ² − 1 2a3
= E0 cos θ 1 + êr + E0 sin θ −1 + r êθ .
²r + 2 r3 ²r + 2 r3

Para r À a,
Eext = E0 cos θ êr − E0 sin θ êθ = E0 .
As linhas do campo eléctrico E para uma esfera dieléctrica num campo uniforme estão
representadas na Figura 6.6.
É interessante acrescentar um comentário relativamente ao campo eléctrico no interior da
esfera. Este campo, Eint , tem duas contribuições: o campo E0 e o campo local criado pela
distribuição de cargas de polarização:

Eint = E0 + Elocal .
178 •
Campo electromagnético

Figura 6.6. Linhas de campo eléctrico para esfera dieléctrica


colocada numa região onde existia um campo eléctrico
uniforme E0 .

Usando a expressão (6.76) para o campo no interior, obtemos


3 1 − ²r
Elocal = E0 − E0 = E0 .
²r + 2 ²r + 2
Atendendo a (6.77) pode escrever-se o campo local em função do vector polarização:
P
Elocal = − .
3²0
Note-se que este é precisamente o resultado (5.10). De um modo geral,
µ ¶
P
Elocal = −N ,
²0
onde N é o chamado factor de despolarização.

6.5 SOLUÇÃO DA EQUAÇÃO DE LAPLACE EM COORDENADAS


CILÍNDRICAS

Comecemos por escrever a equação de Laplace em coordenadas cilı́ndricas (ver Apêndice


B):
µ ¶
2 1∂ ∂V 1 ∂2V ∂2V
∇ V = r + 2 + = 0. (6.79)
r ∂r ∂r r ∂φ2 ∂z 2
Aplicando, de novo, o método de separação de variáveis, procuram-se soluções da forma
V (r, φ, z) = R(r) Φ(φ) Z(z) . (6.80)
Substituindo a expressão (6.80) na Eq. (6.79) e dividindo por V , obtém-se a seguinte equação:
µ ¶
1 1 d dR 1 1 d2 Φ 1 d2 Z
r + + = 0.
R r dr dr Φ r2 dφ2 Z dz 2
Solução da equação de Laplace •
179

As duas primeiras parcelas não dependem de z e a última só depende de z, pelo que cada
uma das partes referidas tem de ser igual a uma constante:
1 d2 Z
= k2
Z(z) dz 2
e µ ¶
1 1 d dR 1 1 d2 Φ
r + = ξ2 . (6.81)
R r dr dr Φ r2 dφ2
Como k 2 + ξ 2 = 0, tem-se que k 2 = −ξ 2 . Multiplicando ambos os membros de (6.81) por r2 ,
a equação resultante contém uma parte que só depende de r e outra que só depende de φ:
µ ¶
1 d dR 1 d2 Φ
r r + k2 r2 + = 0. (6.82)
R dr dr Φ dφ2
A última parcela é igual a uma constante, que designamos por −η 2 . Supomos que k, ξ e η são
parâmetros reais. Com a constante assim escolhida, Φ é uma função periódica, o que garante
que a função potencial satisfaz V (r, φ, z) = V (r, φ + 2π, z). A dependência da solução nas
variáveis z e φ é determinada, respectivamente, pelas equações:
d2 Z
− k2 Z = 0 ,
dz 2
que admite soluções das formas (6.33) ou (6.34) e

d2 Φ
+ η2 Φ = 0 , (6.83)
dφ2
que admite soluções das formas (6.31) ou (6.32).
Desenvolvendo a parte radial em (6.82) e igualando-a a η 2 , resulta a seguinte equação para
r: Ã !
d2 R 1 dR 2 η2
+ + k − 2 R = 0. (6.84)
dr2 r dr r
dR
Introduzindo a variável x = kr (então dr = k dR
dx ), a equação anterior transforma-se em
à !
d2 R 1 dR η2
+ + 1 − R = 0,
dx2 x dx x2

que é a equação de Bessel. As suas soluções são as funções de Bessel de ordem η.


Há muitas situações em que, devido à simetria do problema, a solução da equação de
Laplace assume uma forma mais simples. Referimo-nos ao caso em que não há dependência
em z, pelo que o potencial é da forma V = V (r, φ), ou seja, só depende das coordenadas
polares. Nesse caso, procuram-se soluções da forma

V (r, φ) = R(r) Φ(φ)

e, na Eq. (6.81), o segundo membro é nulo, pois ξ 2 = −k 2 = 0. A Eq. (6.83) continua válida
e tem solução da forma [ver (6.31) ou (6.32)]

Φ = A cos(ηφ) + B sin(ηφ) (6.85)

ou, equivalentemente,
Φ = A0 eiηφ + B 0 e−iηφ .
180 •
Campo electromagnético

Para garantir a periodicidade de Φ(φ) [e.g. Φ(0) = Φ(2π)], η só pode ser nulo ou inteiro2 .
Passaremos, então, a designar η, de forma mais sugestiva, por n.
A equação para r obtém-se fazendo k 2 = 0 em (6.84):

d2 R 1 dR n2
+ − 2 R = 0, (6.86)
dr2 r dr r

que admite soluções da forma

R(r) = C rn + D r−n , válidas para n 6= 0 . (6.87)

Sugere-se ao leitor que verifique, por substituição, que (6.87) é de facto solução de (6.86).
A expressão geral do potencial, para n 6= 0, escreve-se na forma


X £ ¤
V (r, φ) = [An cos(nφ) + Bn sin(nφ)] Cn rn + Dn r−n .
n=1

Consideremos a solução que corresponde a n = 0. A solução em φ é, neste caso,

V = Φ = A + Bφ .

Se se exigir a periodicidade de Φ, então B = 0. A solução em r é obtida da equação


µ ¶
d2 R 1 dR 1 d dR
2
+ = r = 0,
dr r dr r dr dr

da qual se conclui que


µ ¶
dR
r = k1
dr
e, portanto,
R = k1 lnr + k2

sendo k1 e k2 constantes.
Finalmente, a solução geral da equação de Laplace em coordenadas cilı́ndricas (periódica
em φ), quando não há dependência da coordenada z, é


X £ ¤
V (r, φ) = A0 + B0 ln r + [An cos(nφ) + Bn sin(nφ)] Cn rn + Dn r−n . (6.88)
n=1

Têm-se as seguintes relações de ortogonalidade [cf. (6.43)], muito úteis na determinação dos
coeficientes An e Bn em situações concretas:
Z 2π Z 2π
sin(nφ) sin(mφ) dφ = cos(nφ) cos(mφ) dφ = π δnm , n, m 6= 0 (6.89)
0 0
Z 2π
sin(nφ) cos(mφ) dφ = 0 . (6.90)
0
Solução da equação de Laplace •
181

y E 0

r P
a
f
x

Figura 6.7. Cilindro condutor colocado numa região onde


existia inicialmente um campo eléctrico uniforme E0 .

Exemplo 6.8: Condutor cilı́ndrico em campo uniforme


Considere-se um condutor cilı́ndrico infinito de raio a ligado à terra e colocado numa região
onde existe um campo eléctrico uniforme, E0 = E0 î, perpendicular ao eixo do cilindro, o
qual é coincidente com a direcção z. A situação está representada na Figura 6.7.
As condições de fronteira a satisfazer são: para r = a,

V (r = a, φ) = 0 (6.91)

e, para r À a (r → ∞),

V (r → ∞, φ) = −E0 x = −E0 r cos φ , (6.92)

que é uma expressão idêntica a (6.56), com z substituı́do por x e θ por φ. Esta última condição
implica que no somatório em (6.88) interesse apenas o termo com n = 1. Ambas as condições
de fronteira implicam que, não havendo termos constantes, e não havendo dependência em
sin φ ou qualquer dependência logarı́tmica, se tenha3 A0 = B0 = B1 = 0. Para grandes
distâncias, a solução geral (6.88) fica reduzida a

V (r À a, φ) = A1 C1 r cos φ .

A condição (6.92) implica que A1 C1 = −E0 . Para r = a o potencial é


µ ¶
D1
V (a, φ) = A1 cos φ C1 a + = 0,
a
2
Acrescente-se que a Eq. (6.84) só tem soluções “bem comportadas” para η inteiro.
3
Esta argumentação está, digamos, baseada na intuição fı́sica. Na realidade, a redução do somatório em
(6.88) a n = 1 é matematicamente justificável. Tal como se fez no Exemplo 6.7, se considerássemos todos
os termos de (6.88), seriam as condições de fronteira (6.91) e (6.92) a seleccionar, através das relações de
ortogonalidade (6.89) e (6.90), não só n = 1, mas também Bn = 0, para qualquer n, e A0 = B0 = 0. Deixamos
este tratamento matemático completo como exercı́cio para o leitor, salientando que a parte da solução geral
(6.88) que estamos a considerar é a relevante. De facto, o potencial (6.93) que se vai determinar verifica as
condições de fronteira e, pelo teorema da unicidade, é a solução do problema.
182 •
Campo electromagnético

para qualquer valor de φ. A condição (6.91) implica que

A1 D1
A1 C1 a + =0 → A1 D1 = −a2 A1 C1 = a2 E0 .
a
Finalmente, Ã !
a2
V (r, φ) = −E0 r cos φ 1− 2 . (6.93)
r
Quanto ao campo eléctrico, é obtido calculando o gradiente de (6.93):

∂V 1 ∂V
E = −∇V = −êr − êφ .
∂r r ∂φ

Efectuando as operações de derivação da função (6.93) encontra-se4

a2 E0
E = E0 î + (êr cos φ + êφ sin φ) .
r2

6.6 PROBLEMAS RESOLVIDOS

6.6.1 Linha carregada e plano condutor


Questão
Uma linha infinita, carregada com densidade linear de carga constante λ, está colocada
paralelamente a um plano condutor ligado à terra, e à distância a deste. Calcular o potencial
em todos os pontos e a força por unidade de comprimento exercida sobre a linha carregada.

Resposta
Considere-se a Figura 6.8, onde a situação está representada.
O condutor é espesso e, por isso, para x < 0, o potencial é nulo. A condição de fronteira
é que o potencial seja zero sobre o plano x = 0. A linha de carga, perpendicular ao plano do
papel, localiza-se paralelamente ao eixo z, passando pelo ponto (x = a, y = 0).
O problema consiste em determinar o potencial electrostático para x > 0 e é conveniente,
para a situação apresentada, utilizar o método das imagens. Note-se que, se considerarmos
uma linha infinita de carga fictı́cia, de sinal contrário à da linha de carga real, e paralela a
esta, localizada em (x = −a, y = 0), o conjunto das duas distribuições (a real e a “imagem”)
garante que o potencial sobre x = 0 seja nulo, observando-se assim a condição de fronteira.
Veja-se, de resto, a semelhança deste problema com o Exemplo 6.1. O potencial criado por
uma linha infinita de carga de densidade λ, num ponto à distância r da linha, é
µ ¶
λ r0
V (r) = ln ,
2π²0 r
onde r0 é a distância da linha de carga ao ponto de referência onde o potencial é zero.
O potencial criado pelas duas distribuições lineares de carga num ponto P pode ser escrito
· µ ¶ µ 0 ¶¸
λ r0 r 0
V = ln − ln , (6.94)
2π²0 r r0
4
Nota: î = (êr cos φ − êφ sin φ).
Solução da equação de Laplace •
183

P ( x ,y ,z )
r'
r

l l
a a x

c o n d u to r v a z io

Figura 6.8. Linha carregada


uniformemente e condutor plano
ligado à terra.

onde r e r0 são, respectivamente, as distâncias do ponto P às linhas de carga real e de carga
fictı́cia. Por outro lado, r0 e r00 , são as distâncias das linhas de carga ao ponto de referência
a potencial nulo. No presente caso qualquer ponto do plano ligado à terra pode servir de
referência e, qualquer que seja o ponto escolhido, verifica-se sempre r0 = r00 . A expressão
(6.94) simplifica-se, reduzindo-se a
µ ¶
λ r0
V = ln .
2π²0 r
Em coordenadas cartesianas,
Ãp !
λ (x + a)2 + y 2
V (x, y) = ln p .
2π²0 (x − a)2 + y 2
O potencial não depende de z, uma vez que as “distribuições de carga” são infinitas segundo
z, e satisfaz V (x = 0, y) = 0, como se tinha de garantir.
A distribuição de carga real induz no plano ligado à terra uma densidade superficial de
carga que produz, na região x > 0, um campo eléctrico igual ao que seria produzido pela
carga-imagem. Assim, o campo eléctrico experimentado pela carga real é exactamente o
campo eléctrico que seria produzido pela linha de carga fictı́cia nos pontos (a, 0, z) e que é
λ λ
E=− î = − î .
2π²0 (2a) 4π²0 a
A força exercida sobre a carga Q, existente no comprimento L de fio, é
λ
F = −Q î
4π²0 a
e, como Q = λ L, a força por unidade de comprimento do fio é
F λ2
=− î .
L 4π²0 a
184 •
Campo electromagnético

6.6.2 Cavidade esférica em condutor


Questão
Considerar uma carga pontual Q no interior de uma cavidade esférica de um condutor
ligado à terra. A cavidade tem raio a e a carga Q encontra-se à distância b do seu centro,
conforme mostra a Figura 6.9.
a) Mostrar que o campo dentro da cavidade é o mesmo que existiria se o condutor fosse
retirado e uma carga Q0 = −aQ/b fosse colocada à distância D = a2 /b do centro da
cavidade, verificando que o potencial V criado por Q e Q0 sobre a superfı́cie esférica é
constante;

b) Calcular a força exercida sobre Q;

c) Calcular a densidade superficial de carga na superfı́cie interna de cavidade esférica.

a
Q Q '
O
b
D

Figura 6.9. Cavidade esférica em condutor com carga no seu


interior.

Resposta
Considere-se um ponto P no interior da cavidade, e seja r o raio vector desse ponto
relativamente ao centro. Conforme se indica na Figura 6.10, designando por r1 e por r2 as
distâncias das cargas real, Q, e fictı́cia, Q0 , ao ponto P, o potencial nesse ponto é dado por
· ¸
1 Q Q0
V = + . (6.95)
4π²0 r1 r2
a) Designando por b e por D os vectores posicionais das cargas Q e Q0 , respectivamente,
em relação ao centro da cavidade, e sendo θ o ângulo que r faz com a direcção comum
destes vectores, tem-se (ver Figura 6.10)

b + r1 = r e D + r2 = r ,
donde, p p
r1 = b2 + r2 − 2rb cos θ e r2 = D2 + r2 − 2rD cos θ .
Solução da equação de Laplace •
185

r 2

r r 1

q
O
b Q D Q '

Figura 6.10. Esquema vectorial


relativo à situação apresentada
na Figura 6.9.

Substituindo estas expressões em (6.95) e usando para D e Q0 os valores dados no


enunciado, isto é,
aQ
Q0 = − (6.96)
b
e
a2
D= , (6.97)
b
vem
· ¸
Q 1 a/b
V = √ −√
4π²0 2 2
b + r − 2rb cos θ 2 2
D + r − 2rD cos θ
 
Q  √ 1 1 
.
=  −r ³ ´2  (6.98)
4π²0 2 2
b + r − 2rb cos θ br
a2 + a − 2rb cos θ

Fazendo r = a na expressão anterior, obtém-se V = 0, para qualquer valor de θ, que


é exactamente o valor que o potencial deve ter sobre a superfı́cie da cavidade esférica.
Fica assim provado que a carga fictı́cia Q0 , com o valor (6.96), localizada no ponto
determinado por (6.97), “simula” o efeito da cavidade do condutor ligado à terra;

b) A força que a superfı́cie esférica condutora exerce sobre Q pode ser obtida calculando
a força que a carga Q0 exerce sobre a carga Q. Tal força é, em módulo, dada por

F = Q E0 ,

sendo E 0 o campo eléctrico criado pela carga Q0 no ponto onde está Q. Assim,

aQ/b Q2 ab
F =Q = .
4π²0 (D − b)2 4π²0 (a2 − b2 )2

A força que se exerce em Q tem a direcção e o sentido dos vectores b ou D ;


186 •
Campo electromagnético

c) A densidade de carga superficial determina-se a partir da divergência superficial do


campo eléctrico:
σ = ²0 n̂ · (E2 − E1 ) .

Escolhendo n̂ = −êr , o campo E2 é o campo na cavidade e E1 é o campo no condutor,


o qual é nulo. A densidade superficial de carga é, pois,

σ = −²0 Er (a, θ) , (6.99)

sendo Er obtido a partir do gradiente do potencial (6.98):


 

 


 

∂V Q r − b cos θ b2 r/a2 − b cos θ
Er (r, θ) = − = − · ³ ´2 ¸3/2  .
∂r 4π²0 
 (b2 + r2 − 2rb cos θ)3/2
 br 

 a2 + a − 2rb cos θ 

Fazendo r = a na expressão anterior e substituindo em (6.99), obtém-se a densidade σ,

Q(a2 − b2 )
σ=− . (6.100)
4πa(a2 + b2 − 2ab cos θ)3/2

Refira-se a grande semelhança entre estes resultados e os obtidos no Exemplo 6.2.

6.6.3 “Iglu” ligado à terra

Questão

O condutor que se esquematiza na Figura 6.11 é uma superfı́cie plana infinita, excepto
numa zona hemisférica de raio a, fazendo lembrar um iglu, e encontra-se ao potencial V = 0.
Calcular a força que o condutor exerce numa carga pontual Q, colocada à distância d acima
do centro do bojo esférico.

Figura 6.11. Arranjo com um condutor semi-esférico sobre


um condutor plano.
Solução da equação de Laplace •
187

Resposta
Comecemos por considerar o bojo esférico do condutor. Vimos no Exemplo 6.2 que o
condutor esférico ligado à terra na presença de uma carga Q à distância d do centro da esfera
pode ser substituı́do por uma carga fictı́cia de valor −Qa/d, colocada num ponto à distância
d0 = a2 /d do centro e sobre a linha que une o centro à carga real [Eq. (6.16)].
Na presente situação, teremos de considerar uma distribuição de cargas fictı́cias que anule
o potencial, quer sobre a parte plana do condutor, quer sobre o “iglu”.
Representa-se na Figura 6.12 essa distribuição de cargas.

Q '

Q ''= Q '

Q '''= Q

Figura 6.12. Arranjo de cargas, real e fictı́cias, que permite


obter V = 0 sobre a superfı́cie condutora da Figura 6.11.

As cargas Q (real) e Q0 (fictı́cia) produzem um potencial nulo sobre toda a esfera: sobre
a parte de cima (a cheio), que é a que corresponde ao condutor real; mas também sobre a
parte de baixo (a tracejado), que diz respeito a uma zona fora da região que interessa con-
siderar. Colocando duas outras cargas fictı́cias de valores Q00 = −Q0 e Q000 = −Q em posições
simétricas das posições de Q0 e Q, respectivamente, em relação ao plano horizontal, é evidente
que o novo conjunto de cargas produz também potencial nulo sobre toda a superfı́cie esférica,
em particular sobre a parte de cima da esfera, o bojo que designámos por “iglu”. Além disso,
pelo facto de terem valores simétricos duas a duas e estarem colocadas simetricamente rel-
ativamente ao plano horizontal, as quatro cargas produzem igualmente potencial nulo sobre
todos os pontos do plano horizontal.
Em resumo, dada a carga Q à distância d do centro e o condutor, com a forma indicada, ao
potencial nulo, o efeito deste pode ser substituı́do pelas seguintes cargas-imagem, colocadas
fora da região onde se pretende calcular o campo eléctrico, sobre a linha que contém Q, e que
passa pelo centro do bojo esférico:

• carga de valor Q0 = −Qa/d colocada à distância d0 = a2 /d acima do plano horizontal;

• carga de valor Q00 = −Q0 = Qa/d colocada à distância d00 = a2 /d abaixo do plano
horizontal;

• carga de valor Q000 = −Q colocada à distância d000 = d abaixo do plano horizontal.


188 •
Campo electromagnético

A força que as cargas induzidas na superfı́cie condutora ligada à terra exercem sobre a
carga real Q é obtida a partir das forças exercidas sobre esta carga pelas cargas fictı́cias:
· ¸
Q Q0 Q00 Q000
F = + + .
4π²0 (d − d0 )2 (d + d00 )2 (2d)2

Substituindo as cargas e as distâncias pelos valores atrás indicados obtém-se a expressão do


módulo da força exercida sobre Q,
· ¸
Q Qad Qad Q
F = 2 2 2
− 2 2 2
− 2 ,
4π²0 (d + a ) (d − a ) 4d

que aponta para o centro do bojo esférico do condutor.

6.6.4 Uma solução particular da equação de Laplace


Questão
Mostrar que a equação de Laplace pode admitir soluções da forma X(x) + Y (y) + Z(z) e
explicitar as condições para que tal aconteça.

Resposta
A equação de Laplace ∇2 V = 0 é escrita, em coordenadas cartesianas, na forma

∂2V ∂2V ∂2V


+ + = 0. (6.101)
∂x2 ∂y 2 ∂z 2

Considerando a seguinte forma para o potencial:

V (x, y, z) = X(x) + Y (y) + Z(z) ,

e inserindo-a em (6.101), obtém-se

d2 X d2 Y d2 Z
+ + = 0.
dx2 dy 2 dz 2

Em princı́pio, o primeiro termo desta expressão só pode depender de x; o segundo só pode
depender de y e o terceiro pode apenas depender de z. Mas, para que a sua soma dê zero,
nem sequer pode haver dependências nas variáveis indicadas: cada uma das parcelas terá de
ser uma constante, pelo que a equação anterior pode ser escrita na forma

c1 + c2 + c3 = 0 , (6.102)

sendo
d2 X
= c1
dx2
d2 Y
= c2
dy 2
d2 Z
= c3 .
dz 2
Solução da equação de Laplace •
189

Resolvendo cada uma destas equações diferenciais, obtém-se


c1 2
X(x) = x + c01 x + c001
2
c2 2
Y (y) = y + c02 y + c002
2
c3 2
Y (z) = z + c03 z + c003 ,
2
em que c0i , c00i , i = 1, 2, 3, são constantes de integração. Está, pois, provado que a soma
X(x) + Y (y) + Z(z) é solução da equação de Laplace, desde que as constantes ci , i = 1, 2, 3,
satisfaçam a condição (6.102). Quanto às constantes c0i e c00i , podem ter quaisquer valores.

6.6.5 Resistência paralelepipédica


Questão
Uma resistência paralelepipédica com bases rectangulares de lados a e b tem comprimento
L e é feita de um material com condutividade χ0 . Entre as bases aplica-se uma d.d.p. de
valor V0 . Calcular a função potencial no interior da resistência.

Resposta
A resistência está representada na Figura 6.13.

y
b a

x L

Figura 6.13. Resistência


paralelepipédica.

A corrente entra pela face y = L e sai pela face y = 0, tendo, portanto, em todo o condutor,
a direcção do eixo y. O fluxo de corrente para o exterior através das faces laterais é nulo,
pelo que
∂V
n̂ · ∇V = = 0,
∂n
sendo n̂ a normal a cada uma das faces laterais. As condições de fronteira são, pois:

y=0 → V =0 (6.103)
y = L → V = V0 (6.104)
∂V
x=0ex=a → =0 (6.105)
∂x
∂V
z=0ez=b → = 0. (6.106)
∂z
190 •
Campo electromagnético

Este conjunto de condições de fronteira sugere que se procure para o potencial uma solução
do tipo5 (6.35):
V = (A + Bx) (C + Dy) (E + F z) .
Para se satisfazerem as duas últimas condições de fronteira, as constantes B e F têm de ser
nulas. A solução terá, pois, a forma mais restrita

V (y) = C 0 + D0 y ,

sendo C 0 e D0 novas constantes. A Eq. (6.103) impõe C 0 = 0. Finalmente, para que se


verifique (6.104), terá de ser D0 = V0 /L. Então,
V0
V (y) = y,
L
na região 0 ≤ x ≤ a, 0 ≤ y ≤ L e 0 ≤ z ≤ b. O campo eléctrico é dado por
dV V
E=− ĵ = − 0 ĵ .
dy L

6.6.6 Potencial num condutor plano


Questão
Uma folha rectangular de material condutor com condutividade χs tem dois lados ligados
à terra, como se mostra na Figura 6.14. Estes lados do rectângulo são constituı́dos por um
metal perfeitamente condutor (χ → ∞).
Aplicam-se aos outros lados da folha os potenciais:
x
V (x) = V0 para y=b e 0≤x≤a
a
y
V (y) = V0 para x = a e 0 ≤ y ≤ b.
b
Calcular a função potencial em todos os pontos da folha.

Resposta
As condições de fronteira são:

V (x = 0, y) = 0 (6.107)
V (x, y = 0) = 0 (6.108)
V (x, y = b) = V0 x/a (6.109)
V (x = a, y) = V0 y/b . (6.110)

A solução para o potencial, sugerida por estas condições de fronteira, é da forma

V (x, y) = (A + Bx) (C + Dy) .


5
Na Secção 6.3 foram apresentadas algumas soluções particulares da equação de Laplace, em coordenadas
cartesianas, com as variáveis separadas. Essas não são as soluções mais gerais da equação diferencial, de
segunda ordem, às derivadas parciais. Não há propriamente uma regra que permita saber qual é o tipo
de solução que deve ser procurado. Conhecidas as condições de fronteira, só a intuição e uma prática de
abordagem destas questões podem ajudar na busca da solução. Note-se que, partindo de um dado tipo de
solução, se for possı́vel satisfazer todas as condições de fronteira, então a solução assim encontrada é única,
de acordo com o teorema da unicidade.
Solução da equação de Laplace •
191

a x

Figura 6.14. Condutor plano do


Problema 6.6.6.

De (6.107) conclui-se que A = 0 e de (6.108) conclui-se que C = 0. O potencial é, pois, da


forma
V (x, y) = E x y .
A constante E = BD é determinada a partir das condições de fronteira (6.109) e (6.110), e
é dada por V0 /(ab). A expressão para o potencial assume, então, a forma
xy
V (x, y) = V0
ab
na região 0 ≤ x ≤ a e 0 ≤ y ≤ b.

6.6.7 Cavidade em U num condutor


Questão
Considerar uma lâmina espessa de um condutor infinito, ligado à terra, contendo uma
cavidade de secção rectangular, como mostra a Figura 6.15. Aplica-se, em y = b e 0 ≤ x ≤ a
o potencial Vap (x) = V0 sin(πx/a). Calcular a função potencial no interior da cavidade.

0 a x

Figura 6.15. Condutor com cavidade


em forma de U.
192 •
Campo electromagnético

Resposta
As condições de fronteira são:

V (x = 0, y) = 0 para 0 ≤ y ≤ b (6.111)
V (x, y = 0) = 0 para 0 ≤ x ≤ a (6.112)
V (x = a, y) = 0 para 0 ≤ y ≤ b (6.113)
πx
V (x, y = b) = V0 sin para 0 ≤ x ≤ a . (6.114)
a
As três primeiras condições de fronteira dizem respeito às paredes laterais e à base da cavi-
dade.
O potencial no interior da cavidade deverá ter uma forma semelhante a (6.36), que é uma
solução da equação de Laplace em coordenadas cartesianas com variáveis separadas e sem
dependência em z:

X
β y
V (x, y) = [An cos(βn x) + Bn sin(βn x)] × (Cn e n + Dn e−βn y ) . (6.115)
n=1

Relativamente a (6.36), estamos agora a considerar a dependência exponencial na variável y


e a oscilatória na variável x, como é sugerido pela condição (6.114).
A condição de fronteira (6.111), que se refere a x = 0, implica que todas as constantes An
em (6.115) se anulem:
An = 0 .
A condição de fronteira (6.112) — para y = 0 — conduz a
X
Bn sin(βn x) (Cn + Dn ) = 0 ,
n

donde,
Dn = −Cn .
A condição de fronteira (6.113) — para x = a — conduz à expressão
X ³ ´
En sin(βn a) eβn y − e−βn y = 0 ,
n

onde se introduziu a constante En = Bn Cn . A equação anterior implica

sin(βn a) = 0 ,

donde,

. βn =
a
O potencial pode, então, ser escrito na forma
X µ ¶³ ´ X µ ¶ µ ¶
nπ nπ
y nπ nπ nπ
V (x, y) = En sin x e a − e− a
y
= En sin x 2 sinh y . (6.116)
n a n a a

Falta implementar a condição de fronteira (6.114) — para y = b —, a qual permite escrever


µ ¶ X µ ¶ µ ¶
πx nπ nπ
V0 sin = En sin x 2 sinh b . (6.117)
a n a a
Solução da equação de Laplace •
193

Esta expressão deixa antever que apenas o termo n = 1 é diferente de zero e, portanto,

V0
E1 = ³ ´.
πb
2 sinh a

Utilizando estes resultados em (6.116), tem-se, finalmente,


µ ¶ µ ¶
V0 πx πy
V (x, y) = ³ ´ sin sinh ,
sinh πb a a
a

que é o potencial na região definida por 0 ≤ x ≤ a, 0 ≤ y ≤ b e, evidentemente, qualquer


valor de z.
O resultado n = 1, sugerido pela igualdade (6.117), pode ser obtido formalmente multi-
plicando ambos os membros dessa equação por sin(mπx/a), integrando sobre x de 0 a a, e
usando a relação de ortogonalidade (6.43).

6.6.8 Potencial numa cavidade

Questão

Uma cavidade infinita segundo o eixo z é delimitada pelas superfı́cies indicadas na


Figura 6.16.
Determinar o potencial no interior da cavidade, sabendo que as condições de fronteira a
que obedece são as seguintes:

V = 0 para y = 0 e y = b , (6.118)
∂V
= 0 para x = 0 , (6.119)
∂x µ ¶
∂V πy
= V0 sin para x = a . (6.120)
∂x b

a x
0

Figura 6.16. Cavidade do Problema


6.6.8.
194 •
Campo electromagnético

Resposta
Vai ser considerada a solução da equação de Laplace em coordenadas cartesianas, com
variáveis x e y separadas e sem dependência em z, dada por (6.36), que escrevemos:
X
V (x, y) = [ An cos(βn y) + Bn sin(βn y) ] × (Cn e−βn x + Dn eβn x ) . (6.121)
n

A escolha da parte oscilante na variável y e da dependência exponencial em x é sugerida pela


condição de fronteira (6.120). Poder-se-ia igualmente ter escolhido uma expressão da forma
(6.115) mas, nesse caso, as quantidades βn seriam imaginários puros.
A condição de fronteira (6.118) só se pode verificar se em (6.121) se tiver, para qualquer
n,
An = 0 , (6.122)
e X
−βn x
Bn sin(βn b) × (Cn e + Dn eβn x ) = 0 ,
n

donde se conclui que


sin(βn b) = 0 ,
ou seja,

βn = . (6.123)
b
Usando os resultados (6.122) e (6.123) em (6.121), o potencial passa a ser escrito na forma
X µ ¶³ ´
nπ nπ nπ
V (x, y) = Bn sin y C n e− b
x
+ Dn e b
x
. (6.124)
n b

A derivada parcial desta função em ordem a x é


X nπ µ ¶³ ´
∂V nπ nπ
x nπ
= Bn sin y Dn e b − Cn e− b
x
.
∂x n b b

Para x = 0 esta derivada tem de ser nula — ver condição de fronteira (6.119) —, ou seja,
X nπ µ ¶

Bn sin y (Dn − Cn ) = 0 ,
n b b

donde,
Bn Dn = Bn Cn (= En ) .
Retomando (6.124),
X µ ¶³ ´
nπ nπ
x nπ
V (x, y) = En sin y e b + e− b
x
.
n b

Derivando esta expressão em ordem a x, tomando o resultado em x = a, e fazendo uso da


condição de fronteira (6.120), obtém-se
µ ¶ µ ¶ X nπ µ ¶³ ´
∂V πy nπ nπ
a nπ
= V0 sin = En sin y e b − e− b
a
.
∂x x=a b n b b
Solução da equação de Laplace •
195

As relações de ortogonalidade (6.43) permitem concluir que no somatório do segundo membro


apenas o termo n = 1 contribui. A expressão anterior passa, pois, a ser escrita na forma
µ ¶ µ ¶³ ´
πy π πy πa πa
V0 sin = E1 sin e b − e− b ,
b b b
donde,
b ³ πa ´
πa −1
E1 = V0 e b − e− b .
π
A expressão do potencial é dada por
µ ¶ πx πx µ ¶ µ ¶
V0 b πy e− b + e b V0 b πy πx
V (x, y) = sin πa = ¡ πa ¢ sin cosh .
π b − πa π sinh b b
e −e
b b
b

6.6.9 Potencial no exterior de uma esfera


Questão
A função potencial sobre uma superfı́cie esférica não condutora de raio a é da forma
3
Vs = C sin2 θ , (6.125)
2
sendo θ o ângulo polar e C uma constante. Calcular a função potencial nos pontos exteriores
à esfera.

Resposta
Admite-se que no exterior da esfera não há cargas, pelo que o potencial é obtido resolvendo
a equação de Laplace. A solução geral dessa equação em coordenadas esféricas, no caso em
que há simetria axial, é da forma
∞ µ
X ¶
Bn
n
V (r, θ) = An r + n+1 Pn (cos θ) , (6.126)
n=0
r

onde {An } e {Bn } são constantes e Pn (cos θ) são os polinómios de Legendre. As condições
de fronteira que terão de ser satisfeitas são:
V (r = a) = Vs , (6.127)
V (r → ∞) = 0 . (6.128)
A ordem dos polinómios de Legendre é dada pelo ı́ndice n. Assim, a função sin2 θ em
(6.125) pode ser expressa em função dos polinómios de Legendre até ordem 2. De facto,
atendendo a que
P0 (cos θ) = 1
P1 (cos θ) = cos θ
3 cos2 θ − 1
P2 (cos θ) = ,
2
facilmente se verifica que
· ¸
2 2 2 1
sin θ = 1 − cos θ = P0 (cos θ) − P2 (cos θ) + P0 (cos θ)
3 3
2
= [P0 (cos θ) − P2 (cos θ)] .
3
196 •
Campo electromagnético

A condição de fronteira (6.127) — válida para r = a — implica que se escreva


∞ µ
X ¶
Bn
C[P0 (cos θ) − P2 (cos θ)] = An an + Pn (cos θ) . (6.129)
n=0
an+1

Como os polinómios de Legendre obedecem às relações de ortogonalidade [ver (6.55)]:


Z π
2
Pn (cos θ) Pm (cos θ) sin θ dθ = δnm ,
0 2m + 1

o somatório no lado direito de (6.129) só pode ter os termos n = 0 e n = 2. Assim, a expressão
(6.126) passa a ser escrita do seguinte modo:
µ ¶
B0 B2
V (r, θ) = A0 + + A2 r2 + 3 P2 (cos θ) . (6.130)
r r

Atendendo a que V = 0 quando r → ∞ (6.128), vem

A0 = A2 = 0 . (6.131)

Este resultado permite escrever (6.129) na forma

B0 B2
C [1 − P2 (cos θ)] = + 3 P2 (cos θ) ,
a a
donde,
B0 = aC e B2 = −a3 C . (6.132)
Usando, por fim, (6.131) e (6.132) em (6.130), obtemos a seguinte expressão para o potencial:

Ca 1 Ca3
V (r, θ) = − (3 cos2 θ − 1) ,
r 2 r3
válida para r ≥ a.

6.6.10 Cilindros coaxiais


Questão
Duas superfı́cies cilı́ndricas coaxiais de raios a e b (a < b) estão aos potenciais V (a) = 0
e V (b) = V0 cos φ, sendo V0 constante e φ a coordenada angular cilı́ndrica. Considerando
que os cilindros são muito longos, de modo a poder desprezar os efeitos das extremidades,
determinar o potencial em todos os pontos do espaço. Obter a distribuição de carga em cada
uma das superfı́cies cilı́ndricas. O potencial é nulo quando r → ∞.

Resposta
A forma geral da solução da equação de Laplace em coordenadas cilı́ndricas, quando não
há dependência de z, é [ver (6.88)]

X
V (r, φ) = A0 + B0 ln r + (An rn + Bn r−n ) (Cn cos nφ + Dn sin nφ) . (6.133)
n=1
Solução da equação de Laplace •
197

As condições de fronteira que têm de ser observadas são:

V (r = a, φ) = 0 (6.134)
V (r = b, φ) = V0 cos φ (6.135)
V (r → ∞) = 0. (6.136)

Vamos considerar três regiões: r ≤ a , a ≤ r ≤ b e r ≥ b. Em cada uma das regiões o


potencial é dado pela expressão geral (6.133). Comecemos por analisar a região r ≤ a : para
que em r = 0 o potencial seja finito, é necessário que todos os Bn sejam nulos e que B0
seja também nulo. Por outro lado, é necessário suprimir a dependência angular em r = a, o
que só é possı́vel se todos os coeficientes Cn e Dn em (6.133) se anularem. Finalmente, para
garantir potencial nulo em r = a, é necessário que A0 = 0. Conclui-se assim que o potencial
deve ser nulo em toda a região considerada:

V =0 r ≤ a.

Para a região entre os dois cilindros, a condição de fronteira (6.135) indicia que apenas o
termo n = 1 no somatório (6.133) deva contribuir para o potencial. Além disso, a dependência
em seno tem também de ser suprimida, o que implica que todos os Dn devam ser nulos.
Formalmente, estes resultados são obtidos usando as condições de ortogonalidade das funções
seno e co-seno (6.89) e (6.90): tomando o potencial (6.133) em r = b e igualando a (6.135)
obtém-se

X
A0 + B0 ln b + (An bn + Bn b−n ) (Cn cos nφ + Dn sin nφ) = V0 cos φ ,
n=1

de onde se conclui que, no membro esquerdo, se anulam todos os coeficientes à excepção de


C1 , ou seja, A0 = B0 = Dn = Cn6=1 = 0. Para a região a ≤ r ≤ b podemos, então, reduzir a
expressão geral do potencial [Eq. (6.133)] a

V (r, φ) = (A r + Br−1 ) cos φ . (6.137)

Usando novamente as duas condições de fronteira (6.134) e (6.135), obtém-se


µ ¶
B
Aa + cos φ = 0
a
µ ¶
B
Ab + cos φ = V0 cos φ .
b
Da primeira das equações,
B
A=− , (6.138)
a2
e da outra equação µ ¶
B 1 b
Ab + =B − = V0 ,
b b a2
donde,
V0 a2 b
B=
a2 − b2
e, portanto, fazendo uso de (6.138),
V0 b
A=− .
a2 − b2
198 •
Campo electromagnético

Finalmente, o potencial na região entre as superfı́cies cilı́ndricas é


µ ¶
V0 a2 b 1 r
V (r, φ) = 2 − 2 cos φ a ≤ r ≤ b.
a − b2 r a
Pelos motivos apresentados anteriormente, na região r ≥ b o potencial tem de ser da forma
(6.137), isto é,
V (r, φ) = (A0 r + B 0 r−1 ) cos φ ,
pois só assim é satisfeita a condição de fronteira em r = b (A0 e B 0 são novas constantes a
determinar). A constante A0 tem de ser nula para que o potencial não seja infinito quando
r → ∞. Para satisfazer a condição (6.135), a outra constante é B 0 = V0 b. O potencial
escreve-se, então,
V0 b
V (r, φ) = cos φ r ≥ b.
r
Em sı́ntese, o potencial em todo o espaço é dado por

V (r, φ) = 0 para r ≤ a (6.139)


µ ¶
V0 a2 b 1 r
V (r, φ) = − cos φ para a ≤ r ≤ b (6.140)
a2 − b2 r a2
V0 b
V (r, φ) = cos φ para r ≥ b . (6.141)
r
Para se obterem as distribuições de carga nas superfı́cies cilı́ndricas é preciso determinar
primeiro o campo eléctrico nas três regiões.

• Região r < a
Nesta região o campo é nulo, pois o potencial é constante. A componente radial do
campo eléctrico, relevante para o cálculo da distribuição de cargas, é nula na vizinhança
da superfı́cie cilı́ndrica interna:

Er (r = a− ) = 0 . (6.142)

• Região a < r < b


Tomando o simétrico do gradiente de (6.140), obtém-se

∂V 1 ∂V
E = − êr − êφ
∂r r ∂φ
·µ ¶ µ ¶ ¸
V0 a2 b 1 1 1 1
= + cos φ êr + 2 − 2 sin φ êφ .
a2 − b2 r2 a2 r a

As componentes radiais do campo nas vizinhanças das superfı́cies cilı́ndricas, sobre as


quais se pretende determinar a distribuição superficial de cargas, são

2V0 b
Er (r = a+ ) = cos φ (6.143)
a2− b2
e
V0 (a2 + b2 )
Er (r = b− ) = cos φ .
b(a2 − b2 )
Solução da equação de Laplace •
199

• Região r > b
O campo eléctrico é obtido a partir de (6.141), resultando
V0 b
E= (cos φ êr + sin φ êφ ) ,
r2
pelo que,
V0
Er (r = b+ ) = cos φ .
b
As cargas superficiais são obtidas a partir da divergência superficial do campo eléctrico
sobre as superfı́cies cilı́ndricas. Sobre r = a, de (6.142) e de (6.143),
£ ¤
σ(r = a) = ²0 êr · E (r = a+ ) − E (r = a− ) = ²0 [ Er (a+ ) − Er (a− ) ]
2 V0 b ²0
= cos φ.
a2 − b2
Sobre r = b,

σ(r = b) = ²0 [ Er (b+ ) − Er (b− ) ]


" #
V0 V0 (a2 + b2 )
= ²0 cos φ − cos φ
b b(a2 − b2 )
2 V0 b ²0
= cos φ = −σ(r = a) .
b2 − a2

6.6.11 Cabo coaxial


Questão
Um cabo coaxial é formado por dois condutores cilı́ndricos de raios a e b, à diferença de
potencial V0 , estando o condutor exterior ligado à terra. Entre os condutores existe uma
substância dieléctrica de permitividade relativa ²r .
Determinar a capacidade por unidade de comprimento do cabo, em função de a, b e ²r .

Resposta
Começamos por obter o potencial na região entre os condutores. Esse potencial é bem
conhecido, pois o sistema é um condensador cilı́ndrico muito longo. Vamos mostrar que esse
resultado pode também ser obtido a partir da solução da equação de Laplace em coordenadas
cilı́ndricas (note-se que o cabo é longo, pelo que não deve haver dependência do potencial em
z):

X
V (r, φ) = A0 + B0 ln r + [Cn cos(nφ) + Dn sin(nφ)] (An rn + Bn r−n )
n=1
[cf. Eq. (6.88)].
Além de não depender de z, o potencial também não pode depender do ângulo φ, pelo
que a expressão anterior se reduz a

V (r) = A0 + B0 ln r . (6.144)

O cilindro interior é condutor e, por isso, o potencial é constante para r ≤ a. Esta constante
é o valor, V0 , do potencial em r = a:

V (a) = V0 = A0 + B0 ln a . (6.145)
200 •
Campo electromagnético

Em r = b o potencial é nulo
V (b) = 0 = A0 + B0 ln b ,
donde,
A0
B0 = − .
ln b
Substituindo em (6.145), obtém-se
µ ¶
A0 b
V0 = ln , (6.146)
ln b a
o que conduz a
· µ ¶¸−1
a
A0 = −V0 ln b ln
b
e · µ ¶¸−1
a
B0 = V0 ln .
b
O potencial (6.144) vem, finalmente,
µ ¶
V0 r
V (r) = ln .
ln(a/b) b
O campo eléctrico só tem componente segundo o versor êr , a qual é dada por
dV V0 1
Er = − =− .
dr ln(a/b) r
O campo deslocamento, que se relaciona com o campo eléctrico através de D = ²0 ²r E ,
também só tem componente Dr :
V0 1
Dr = −²0 ²r .
ln(a/b) r
A divergência superficial do campo em r = a permite calcular a densidade de carga livre
nessa superfı́cie, obtendo-se
V0 1
σ(r = a) = ²0 ²r .
ln(b/a) a
Na superfı́cie r = b existe a densidade de carga
V0 1
σ(r = b) = −²0 ²r .
ln(b/a) b
Assim, no comprimento L do cabo, existe, no condutor interior, a carga
V0
Q = 2πaLσ(r = a) = 2 π L ²0 ²r
ln(b/a)
e, no condutor exterior, a carga simétrica desta. Como a capacidade do cabo é a razão entre
a carga, Q, e a diferença de potencial, V0 , entre os condutores cilı́ndricos,
Q 1
C= = 2 π L ²0 ²r ,
V0 ln(b/a)
o valor pretendido para a capacidade do cabo coaxial por unidade de comprimento é
C 2 π ²0 ²r
= . (6.147)
L ln(b/a)
202 •
Campo electromagnético
CAPÍTULO 7
ENERGIA MAGNÉTICA
E MULTIPOLOS MAGNÉTICOS
No Capı́tulo 2 foi feita uma breve revisão das leis básicas do magnetismo. Na primeira
parte deste capı́tulo vamos obter a energia associada a um conjunto arbitrário de correntes,
que são fonte do campo de indução magnética. Os resultados serão comparados com os
que encontrámos no Capı́tulo 3 para a energia do campo electrostático. Na segunda parte
faremos a decomposição do potencial vector em multipolos e, também aqui, confrontaremos
os resultados com os que obtivemos antes (Capı́tulo 4) para o potencial escalar.

7.1 ENERGIA ARMAZENADA NUM CAMPO


DE INDUÇÃO MAGNÉTICA

Consideremos um grupo de N circuitos indeformáveis ocupando posições fixas no espaço.


Designemos por Cj , j = 1, ..., N cada um desses circuitos e por Ij as respectivas correntes
estacionárias numa situação final. Usando o método apresentado no Capı́tulo 3, podemos
obter a energia armazenada na distribuição de correntes calculando o trabalho reversı́vel que
é necessário fornecer ao sistema para que se passe da situação em que não há correntes e a
energia do sistema é considerada nula para a situação em que há um sistema de correntes no
grupo de circuitos.
A existência de correntes implica que, na prática, ocorra um aquecimento do sistema
devido ao efeito Joule. Para compensar esta energia dissipada é necessário que as baterias
que alimentam os circuitos forneçam energia; como não se trata de trabalho reversı́vel, não
será considerado, o que equivale a admitir que os circuitos têm todos resistência nula, pelo
que o efeito Joule não tem lugar.
Designemos por ij a corrente instantânea em cada circuito Cj . Cada uma destas correntes
cresce desde zero até ao valor final, estacionário, Ij . Uma variação de ij implica necessaria-
mente uma variação do fluxo do campo de indução magnética B através de uma superfı́cie
204 •
Campo electromagnético

que se apoie em Cj . Seja φj esse fluxo e dφj a respectiva variação infinitesimal associada ao
incremento de corrente dij . A variação do fluxo do campo de indução magnética origina uma
corrente induzida no circuito, a qual se opõe à variação de ij . Assim, para manter a corrente,
a fonte externa tem de criar uma força electromotriz, Eext , que contrarie a induzida, Eint . Os
ı́ndices “ext” e “int” significam, respectivamente, “externa” e “interna”. Durante o intervalo
de tempo dt o circuito recebe a carga dqj = ij dt e o trabalho que se realiza externamente
para contrariar a força electromotriz induzida, devido à variação de ij , é

dφj
δWext,j = Eext dqj = −Eint dqj = +dqj = ij dφj ,
dt
tendo-se usado a lei de Faraday (2.55). A variação infinitesimal da energia magnética é
igual ao trabalho infinitesimal reversı́vel fornecido ao sistema de circuitos, pelo que podemos
escrever, somando sobre todos os circuitos,
N
X N
X
dUm = δWext,j = ij dφj . (7.1)
j=1 j=1

Note-se que se escreve dUm , pois trata-se de uma diferencial exacta: a energia Um é uma
função de estado (o ı́ndice “m” indica que esta energia é magnética).
Como estamos a admitir que os circuitos são rı́gidos e ocupam posições fixas, as indutâncias
dos circuitos são constantes e o fluxo φj apenas pode variar devido à variação das correntes
ij , ou seja,

N
X
dφj = Mjk dik , (7.2)
k=1

onde Mjk é a indutância mútua entre os circuitos Cj e Ck , a qual só depende das propriedades
geométricas da distribuição de circuitos e não das correntes que os percorrem. A Eq. (7.2)
pode ser vista como a definição dos elementos da matriz das indutâncias. Substituindo (7.2)
em (7.1), obtemos
N
X N
X
dUm = Mjk ij dik = Ij Mjk Ik f df . (7.3)
j,k=1 j,k=1

Para escrever a última igualdade da expressão anterior, considerou-se que ij (t) = f (t) Ij ,
sendo f (t) uma função que varia entre 0 e 1 e que descreve o aumento das correntes em
cada circuito. Considera-se a mesma função para todos os circuitos, o que corresponde a
admitir que todas as correntes aumentam da mesma maneira. A dependência temporal de
f não é importante, pois a energia do sistema só pode depender das correntes que fluem no
estado estacionário final e não do modo como esse estado é alcançado. Independentemente
R
da variação temporal de f (t), verifica-se que 01 f (t)df = 12 , pelo que, por integração da
expressão (7.3), se obtém
N
1 X
Um = Wext = Ij Mjk Ik . (7.4)
2 j,k=1

No instante inicial não há correntes e a energia interna é considerada nula. O trabalho externo
que é necessário realizar para estabelecer a distribuição final de correntes é igual à energia
magnética armazenada no sistema.
Energia magnética e multipolos magnéticos •
205

No caso de um único circuito, o somatório em (7.4) reduz-se a um único termo, obtendo-se


a conhecida expressão da energia armazenada numa bobina de indutância L = M11 :
1
Um = L I2 . (7.5)
2
A energia magnética pode ainda ser escrita em termos dos fluxos φj , se integrarmos a Eq.
P
(7.2) e substituirmos o resultado, φj = Nk=1 Mjk Ik , em (7.4)

N
1X
Um = Ij φj . (7.6)
2 j=1

Sublinhamos que não importa a forma como as correntes finais são alcançadas: a variação
da energia do sistema só depende do estado inicial (ausência de correntes nos circuitos) e do
estado final (N correntes Ij ).
No Capı́tulo 2 verificámos que o campo de indução magnética se podia obter do potencial
vector A [ver (2.29)], o que permite escrever sucessivamente
Z Z I
φj = B · dS = ∇ × A · dS = A · dlj ,
Sj Sj Cj

sendo a última igualdade resultante da aplicação do teorema de Stokes. Usando este resultado
em (7.6),
N I
1X
Um = Ij A(rj ) · dlj , (7.7)
2 j=1 Cj

onde A(rj ) é o potencial vector no ponto rj pertencente ao circuito Cj .


Podemos ainda exprimir a energia magnética armazenada no sistema em termos da den-
sidade de corrente livre j` 1 . A relação entre a corrente e a densidade de corrente é dada por
(2.22) e, na expressão (7.7), podemos substituir o somatório e os integrais de linha por um
único integral de volume estendido ao espaço v onde fluem correntes, isto é, onde j` 6= 0:
Z
1
Um = j` (r ) · A(r ) dv . (7.8)
2 v

Este integral pode ser estendido a todo o espaço, uma vez que fora de v as correntes são nulas
e, por isso, não resulta daı́ qualquer contribuição para (7.8). Assim
Z
1
Um = j` (r ) · A(r ) dv , (7.9)
2
subentendendo-se sempre integração sobre todo o espaço, quando não se indica explicitamente
qualquer domı́nio de integração. No caso de distribuições de corrente superficiais, descritas
pela densidade κ` (r ), a energia magnética é escrita do seguinte modo:
Z
1
Um = κ` (r ) · A(r ) dS . (7.10)
2 S

Repare-se na semelhança entre as expressões (7.9) e (7.10) e as obtidas para a energia de


distribuições de cargas estáticas [ver (3.3) e (3.4)].
1
Por agora, estaremos sempre a referir-nos a “correntes livres” e daı́ o ı́ndice “`”; no próximo capı́tulo será
introduzido o conceito de “correntes de magnetização”.
206 •
Campo electromagnético

Exemplo 7.1: Energia armazenada num solenóide longo de comprimento L


A um solenóide longo, de comprimento L e raio a, percorrido por uma corrente i, corre-
sponde uma densidade superficial de corrente livre (ver Figura 2.8)

κ` = n i êφ , (7.11)

onde n é o número de espiras por unidade de comprimento, n = N/L, sendo N o número


total de espiras. O campo de indução magnética no interior do solenóide é dado por (2.50),
sendo nulo no exterior. O potencial vector A, do qual este campo deriva, é dado por (2.109)
pelo que, sobre a superfı́cie do solenóide,
µ0 nia
A= êφ . (7.12)
2
Usando as eqs. (7.11) e (7.12) em (7.10) obtém-se
Z
1 µ0 n2 i2 a 1 µ0 n2 i2 a
Um = dS = 2πaL
2 2 2 2
1
= µ0 n2 πa2 i2 L . (7.13)
2
Do resultado anterior e da expressão (7.5), conclui-se que a indutância de um solenóide longo
é dada por
L = µ0 n2 πa2 L = µ0 n2 AL , (7.14)
sendo A a área da secção do solenóide.

7.2 ENERGIA EM FUNÇÃO DA INDUÇÃO MAGNÉTICA B

Tal como fizemos com a energia electrostática, podemos exprimir a energia magnética,
Um , em termos do campo B . Vamos admitir que não existem materiais magnéticos presentes
e que o regime é estacionário, isto é, que o fenómeno transitório já foi ultrapassado, de modo
que apenas a corrente de condução está presente. Aplica-se, neste caso, a lei dos circuitos
de Ampère, ∇ × B = µ0 j` , Eq. (2.40), e não a expressão local mais geral (2.56) para o
rotacional do campo de indução magnética. Usando (2.40) em (7.9)
Z
1
Um = ∇ × B · A dv . (7.15)
2µ0
Esta expressão pode ser escrita de outra forma, se tivermos em conta a igualdade vectorial
(B.43):
∇ · (A × B ) = B · (∇ × A) − A · (∇ × B ) = B 2 − A · (∇ × B ) ,
tendo-se utilizado a relação (2.29) entre o potencial vector e o campo de indução magnética.
Substituindo em (7.15), resulta
Z Z
1 1
Um = B 2 dv − ∇ · (A × B ) dv
2µ0 2µ0
Z I
1 1
= B 2 dv − (A × B ) · dS . (7.16)
2µ0 2µ0
O integral de superfı́cie resulta do integral de volume por aplicação do teorema de Gauss.
Note-se que, em (7.9), o integral é sobre todo o espaço, pelo que, na expressão anterior, o
Energia magnética e multipolos magnéticos •
207

integral de volume é também sobre todo o espaço e o integral de superfı́cie é então sobre
uma superfı́cie infinita. Como veremos mais adiante neste capı́tulo, o campo A admite um
desenvolvimento multipolar semelhante ao que se obteve no Capı́tulo 4 para o potencial
escalar, sendo o termo dominante, em pontos afastados das fontes, o termo dipolar que varia
com 1/r2 . Assim, a grandes distâncias, a contribuição dominante para o campo B criado
pela distribuição dipolar varia com 1/r3 . Como dS é proporcional a r2 o integral de superfı́cie
em (7.16) varia com r−3 e, portanto, anula-se. Tem-se, finalmente, a expressão da energia
em termos do campo de indução magnética
Z
1
Um = B 2 dv , (7.17)
2µ0

numa forma correspondente a (3.10). A energia armazenada no campo de indução magnética


distribui-se continuamente no espaço com uma densidade um = 2µ1 0 B 2 [cf. Eq. (3.11)].
Acrescente-se que as eqs. (7.17) e (3.10) são ainda válidas para campos eléctricos e de
indução magnética variáveis no tempo. Já as expressões da energia eléctrica e magnética
em termos dos potenciais — eqs. (3.3) e (7.9), respectivamente — são válidas apenas para
campos estáticos.
Utilizando a Eq. (7.17) pode encontrar-se a expressão da energia magnética armazenada
no solenóide obtida no Exemplo 7.1. Substituindo (2.50) e (2.51) em (7.17), obtém-se
Z
1 µ0 2 2
Um = (µ0 ni)2 dv = n i π a2 L ,
2µ0 2

que é o resultado (7.13).

Exemplo 7.2: Energia armazenada num cabo coaxial


Considere-se um cabo coaxial muito longo, de comprimento L, formado por condutores
perfeitos. O raio do condutor interior é a e o do condutor exterior — que é uma superfı́cie
cilı́ndrica — é b. A corrente, i, num condutor é igual e oposta à corrente no outro condutor.
O campo de indução magnética é nulo para r < a, pois trata-se do interior de um condutor
perfeito2 . Assim, a corrente flui no condutor interior apenas à superfı́cie, sendo o campo de
indução magnética dado ainda por (2.48) na região a < r < b. No exterior do cabo, o campo
é nulo, pois a corrente na superfı́cie cilı́ndrica de raio a é, como se disse, igual e oposta à
corrente na superfı́cie cilı́ndrica de raio b. Utilizando então a expressão (2.48) em (7.17),
obtém-se
µ ¶ Z
1 µ0 i 2 dv
Um =
2µ0 2π r2
Z µ ¶
µ0 i2 b dr µ0 i2 L b
= L = ln .
4π a r 4π a

Deste resultado e de (7.5) obtém-se a indutância do cabo coaxial:


µ ¶
µ0 L b
L= ln . (7.18)
2π a
2
Veremos, no Capı́tulo 9, que os campos eléctrico e de indução magnética não penetram no interior de
condutores perfeitos.
208 •
Campo electromagnético

7.3 INDUTÂNCIA PRÓPRIA E INDUTÂNCIA MÚTUA

Qualquer circuito possui uma indutância própria L. A aplicação de uma diferença de


potencial constante traduz-se na existência de uma corrente no circuito, a qual varia con-
tinuamente desde o valor zero até um valor final quando se atinge o estado estacionário. A
relação entre a força electromotriz externa (que é simétrica da força electromotriz induzida)
e a corrente induzida resulta directamente da lei de Faraday, e é
di
Eext = L . (7.19)
dt
A potência fornecida ao circuito é i Eext , ou seja,
dUm di
= Li .
dt dt
Integrando, obtém-se o resultado (7.5).
No caso de se terem dois circuitos, a energia magnética Um , dada por (7.4), vem
1³ ´
Um = M11 I12 + M12 I1 I2 + M21 I1 I2 + M22 I22 .
2
O primeiro e o último termo têm apenas a ver com cada um dos circuitos 1 e 2. As quantidades
M11 e M22 são, respectivamente, as indutâncias L1 e L2 . Os segundo e terceiro termos
assinalam o facto de uma variação do fluxo do campo de indução magnética através de uma
superfı́cie que se apoia num dos circuitos poder produzir uma força electromotriz no outro
circuito. Veremos já a seguir que a indutância mútua depende apenas das caracterı́sticas
geométricas dos dois circuitos e que M12 = M21 , pelo que a energia de interacção pode ser
escrita na forma
(int)
Um = M12 I1 I2 .
Consideremos dois solenóides, S1 e S2 , estando o segundo solenóide enrolado em torno
do primeiro. Uma corrente variável em S1 induz uma força electromotriz E2 em S2 e uma
corrente variável em S2 induz uma força electromotriz E1 em S1 . Consideramos que as
correntes variam lentamente com o tempo, de tal modo que o campo de indução magnética
por elas produzido é igual ao que seria produzido se as correntes fossem estacionárias. No
interior do solenóide Sj (j = 1, 2) a grandeza do campo de indução magnética é [ver (2.50)]
N
Bj = µ0 Lj ij , sendo Nj o número de espiras do solenóide Sj . A lei de Faraday permite
escrever para a força electromotriz induzida em S2 (que se considera em circuito aberto):
dφ2 d µ0 N1 i1 µ0 N2 N1 A di1 di1
E2 = − = − N2 A=− = −M21 , (7.20)
dt dt L L dt dt
onde A é a área da secção recta dos solenóides e M21 apenas depende das caracterı́sticas
P
geométricas do sistema. O último termo de (7.20) resulta de derivar φj = N k=1 Mjk ik em
ordem ao tempo. Analogamente, a corrente variável i2 induz uma força electromotriz em S1
(que está em circuito aberto) dada por
di2
E1 = −M12 .
dt
Esta é uma expressão geral, estando a informação sobre as caracterı́sticas dos circuitos contida
no elemento de matriz M12 . A forma de M12 (ou de M21 ) pode ser obtida da última igualdade
em (7.20), confirmando este exemplo o caso geral de simetria dos elementos de matriz.
Energia magnética e multipolos magnéticos •
209

Considerem-se agora dois circuitos arbitrários. A força electromotriz no circuito 1 pro-


duzida pela corrente variável no circuito 2 escreve-se, por aplicação do teorema de Stokes,
Z I
d d
E1 = − B · dS1 = − A(r1 ) · dl1 , (7.21)
dt S1 dt C1

onde A(r1 ) é o potencial vector correspondente ao campo B (r1 ) criado pelo circuito 2 no
circuito 1. O primeiro integral na expressão anterior é de superfı́cie, sendo S1 a superfı́cie
aberta que se apoia no circuito 1, e o segundo é um integral de caminho ao longo do circuito
1. O potencial vector da expressão (7.21) é dado por [ver (2.33)]
I
µ0 i2 dl2
A(r1 ) = ,
4π C2 |r1 − r2 |
resultando, então, para a força electromotriz induzida no circuito 1,
I I I I
d µ0 dl2 · dl1 µ0 dl1 · dl2 di2 di2
E1 = − i2 =− = −M12 .
dt 4π C1 C2 |r1 − r2 | 4π C1 C2 |r1 − r2 | dt dt
Daqui pode obter-se a forma explı́cita da indutância mútua — equação de Neumann — que,
no SI, se exprime em weber por ampere (ou henry):
I I
µ0 dl1 · dl2
M12 = .
4π C1 C2 |r1 − r2 |
Esta expressão mostra explicitamente que M12 = M21 . As indutâncias, própria ou mútua, só
dependem das caracterı́sticas geométricas dos circuitos, tendo-se, em geral, Mij = Mji .

7.4 DESENVOLVIMENTO MULTIPOLAR DO POTENCIAL VECTOR

Apresentaremos nesta secção o desenvolvimento multipolar do potencial vector A, cujo


formalismo segue de perto o do Capı́tulo 4 quando se considerou o desenvolvimento em
multipolos do potencial escalar V .
Seja v a região do espaço onde existem correntes, caracterizadas pela densidade j (r 0 ),
e seja O um ponto de v tomado para origem de um sistema de coordenadas. Pretende-se
obter o potencial vector A num ponto P, cujo vector posicional é r relativamente à origem
O. Mantendo a notação que tem vindo a ser utilizada, introduz-se o vector a = r − r 0 , cujo
módulo é a distância da fonte ao ponto P (Figura 7.1).
O potencial vector é dado por [cf. (2.31)]
Z
µ0 j (r 0 )
A(r ) = dv . (7.22)
4π v a
Designando por θ o ângulo entre r 0 e r , e introduzindo em (7.22) o desenvolvimento de 1/a,
dado por (4.26), obtemos para o potencial vector um desenvolvimento em multipolos do tipo
(4.28), ou seja,
∞ Z
µ X 1
A(r ) = 0 j (r 0 ) P` (cos θ) r0 ` dv . (7.23)
4π `=0 r`+1 v
Os primeiros dois termos deste desenvolvimento são o monopolar AM (r ) e o dipolar AD (r ),
que vão ser discutidos a seguir. Os termos de ordem superior não têm tanto interesse prático.
210 •
Campo electromagnético

a P
d v
r ' r
q
O
v y
x

Figura 7.1. Distribuição de correntes no volume v, que


produzem o potencial vector A no ponto P.

Termo monopolar (` = 0)
Verifica-se que o primeiro termo do desenvolvimento (7.23) é sempre nulo. De facto, se
considerarmos uma corrente filamentar i num circuito C, o termo monopolar que resulta de
(7.23) anula-se, I
µ
AM (r ) = 0 i dl = 0 ,
4πr C
pois o integral é sobre
R
um caminho fechado. Mesmo não sendo a corrente filamentar, em
regime estacionário v j (r 0 ) dv
H
é equivalente à contribuição de um conjunto de correntes
P
fechadas, de modo que j ij Cj dlj = 0.
Pode mostrar-se, de modo mais formal, que o Rtermo monopolar se anula, considerando
cada uma das componentes cartesianas do integral v j (r 0 ) dv. Assim, para i = x, y, z tem-se:
(dv = dx0 dy 0 dz 0 )
Z Z Z Z
ji dv = j· ∇0 x0i dv = 0
∇ · (j x0i ) dv − x0i ∇0 · j dv .
v v v v

Em regime estacionário, a divergência da corrente anula-se, pelo que o último integral é igual
a zero. Aplicando o teorema de Gauss ao primeiro integral, obtém-se a igualdade
Z I
ji dv = x0i j · dS = 0 , (7.24)
v S

dado que as correntes estão limitadas no espaço e não atravessam S; se existirem correntes
em S, estas são tangenciais e, de novo, o fluxo de j é nulo.
Em conclusão, o termo monopolar não contribui para a expressão do potencial vector A.

Termo dipolar (` = 1)
Recordando que P1 (cos θ) = cos θ = r̂ · r̂ 0 , o termo dipolar pode ser escrito na forma
Z
µ0
AD = j (r 0 ) r · r 0 dv . (7.25)
4πr3 v

Usando (B.46),
r × (r 0 × j ) = r 0 (r · j ) − j (r · r 0 ) ,
Energia magnética e multipolos magnéticos •
211

obtém-se para (7.25)


Z
µ £ 0 ¤
AD = 0 3 r (r · j ) − r × (r 0 × j ) dv . (7.26)
4πr
Comecemos por considerar o primeiro termo do lado direito e analisar apenas a sua compo-
nente cartesiana k:
Z Z
µ0 X µ0 X
A0D, k = xi x0
j
k i dv = x i x0k j · ∇0 x0i dv .
4πr3 i v 4πr3 i v

Integrando por partes e tendo em conta que, sobre a superfı́cie S que limita v, a corrente j
ou se anula ou é tangente a essa superfı́cie, vem
Z
µ0 X
A0D, k = − xi ∇0 · (x0k j ) x0i dv .
4πr3 i v

Em regime estacionário, a divergência da densidade de corrente é nula, pelo que


Z
µ0 X
A0D, k =− xi jk x0i dv .
4πr3 i v

Em termos vectoriais, Z
µ0
A0D=− j r · r 0 dv ,
4πr3 v
que é precisamente a expressão simétrica da do termo dipolar do potencial vector dada por
(7.25), isto é, A0D = −AD . Introduzindo o resultado que acabámos de obter em (7.26),
tem-se Z
µ 1
AD = − 0 3 r × r 0 × j dv . (7.27)
4πr 2 v
O integral em (7.27) depende apenas das caracterı́sticas da distribuição de correntes em v.
Definindo o momento dipolar magnético da distribuição de correntes através de
Z
1
m= r 0 × j (r 0 ) dv , (7.28)
2 v

o termo dipolar (7.27) escreve-se


µ0
AD = m × r̂ . (7.29)
4πr2
Repare-se na analogia que se pode estabelecer entre esta expressão e a Eq. (4.30) referente
ao termo dipolar do potencial escalar.
Pode demonstrar-se que o momento dipolar magnético é independente da escolha da origem
O. Se escolhermos uma nova origem O1 , cuja localização relativamente a O seja dada pelo
vector R, tem-se r 0 = r1 + R. O momento dipolar magnético m1 relativamente à nova
origem é Z
1
m1 = r1 × j dv ,
2 v
ou, ainda, Z Z
1 0
m1 = r × j dv − R × j dv .
2 v v
O último termo é nulo [ver (7.24)], pelo que m = m1 , ou seja, o momento dipolar magnético
é independente da escolha da origem.
212 •
Campo electromagnético

d l d l
r' d A
r'
O O

Figura 7.2. Espira de corrente plana e filiforme. A área


elementar sombreada é metade da área do paralelogramo,
dA = 12 |r 0 × dl|.

Exemplo 7.3: Momento magnético de uma espira de corrente


Calculemos o momento dipolar magnético de uma corrente plana e filiforme (Figura 7.2).
A Eq. (7.28) toma a forma de um integral de linha:
I
i
m= r 0 × dl .
2 C

Este vector é perpendicular ao plano da espira. Designando por k̂ o versor na direcção normal
ao plano da espira e atendendo a que a área elementar dA, indicada na Figura 7.2, é dada
por dA = 12 |r 0 × dl|, temos Z
m = ik̂ dA = i A k̂ . (7.30)
A
No caso de uma espira circular de raio a,

m = iπa2 k̂ .

7.4.1 Campo de indução magnética criado por um dipolo


Dada a relação entre B e A, expressa por (2.29), pode obter-se o campo de indução
magnética criado por um dipolo magnético, calculando o rotacional de (7.29):
µ ¶
1 µ
B =∇×A=∇× 3
m×r 0 .
r 4π
Usando (B.40), (B.44) e o facto de m ser um vector constante, obtém-se a seguinte expressão:
µ ¶
4π B 1 1
= ∇ 3 × (m × r ) + 3 ∇ × ( m × r )
µ0 r r
3 r 1
= − 4 × (m × r ) + 3 [m (∇ · r ) − (m · ∇) r ] .
r r r
Utilizando agora (B.46), a expressão anterior passa a ser escrita na forma
4π B 3 h 2 i 3 1
= − r m − (r · m ) r + 3 m− 3 m
µ0 r5 r r
1
= [3 (r̂ · m) r̂ − m] .
r3
Energia magnética e multipolos magnéticos •
213

O campo de indução magnética é, pois,


µ0
B= [3 (r̂ · m) r̂ − m] .
4πr3
Escolhendo para eixo dos z a direcção do vector m, a coordenada esférica θ é o ângulo entre
r e m e o vector B ainda pode ser escrito na forma3 (recorde-se que k̂ = cos θ êr − sin θ êθ ):
µ0 m µ0 m
B= 3
( 3 cos θ êr − k̂) = ( 2 cos θ êr + sin θ êθ ) . (7.31)
4πr 4πr3
Este resultado pode ser obtido mais facilmente se, logo de inı́cio, introduzirmos em (7.29) a
escolha m = m k̂. Como k̂ × r̂ = sin θ êφ , o potencial vector vem dado por
µ0 m
A= sin θ êφ .
4πr2
Calculando o rotacional de A, em coordenadas esféricas, obtém-se o resultado (7.31) para o
campo de indução magnética.
As superfı́cies ao longo das quais |A| é constante são definidas pela equação C sin θ = r2 ,
µ0 m
com C = 4π|A| . As linhas do campo B a grandes distâncias são idênticas às que se obtiveram
na Secção 4.2 para o campo eléctrico produzido por um dipolo.4 Note-se, de resto, a similitude
entre as expressões (7.31) para o campo de indução magnética produzido por um dipolo
magnético e (4.12) para o campo eléctrico produzido por um dipolo eléctrico.

7.5 MOMENTO SOBRE UMA ESPIRA PERCORRIDA


POR UMA CORRENTE

Vamos calcular nesta secção o momento das forças que actuam numa espira de corrente
colocada numa região onde existe um campo de indução magnética. Por razões de simpli-
cidade, consideremos uma espira plana, quadrada, de lado `, que contém o eixo y, tendo
dois dos seus lados (3 e 4) paralelos a esse eixo (ver Figura 7.3). Escolhe-se a origem das
coordenadas coincidente com o centro do quadrado. O plano da espira forma com o plano xy
um ângulo θ.
O versor n̂ é perpendicular ao plano da espira e aponta no sentido da progressão de um
saca-rolhas rodando no sentido da corrente i que percorre a espira. De acordo com (7.30), o
momento magnético da espira percorrida pela corrente i é

m = i `2 n̂ ,

com o versor n̂ dado por


n̂ = sin θ î + cos θ k̂ .
Em cada um dos lados da espira, os versores que apontam no sentido da corrente são:

t̂1 = cos θ î − sin θ k̂ = −t̂2 (7.32)


t̂3 = ĵ = −t̂4 . (7.33)
3
r̂ = êr .
4
No caso dos dipolos eléctrico e magnético fı́sicos, as linhas são diferentes junto às fontes: relembre-se que
as linhas do campo B são fechadas e que as do campo E têm origem nas cargas positivas e terminam nas
negativas. Contudo, as linhas dos dipolos eléctrico e magnético coincidem no caso ideal de as fontes não terem
dimensão.
214 •
Campo electromagnético

z
B z
4
^
t4 ^
t2 y F 4

^
t2
2 q n^
q
x y ^
t1 x
1
3 F 3
t1
^

t3
^

Figura 7.3. Espira de corrente e forças que sobre ela actuam.

Vamos considerar que a espira está colocada numa região onde existe um campo de indução
magnética uniforme, B = B k̂. A força que este campo exerce sobre a espira é a soma das
quatro forças, Fj = i ` t̂j × B (j = 1, 2, 3, 4), exercidas sobre cada um dos lados:
³ ´
F = F1 + F2 + F3 + F4 = i ` t̂1 × B + t̂2 × B + t̂3 × B + t̂4 × B ,

a qual é igual a zero, atendendo às expressões (7.32) e (7.33) para os versores. Contudo, o
momento das forças não é zero. Relativamente ao centro da espira (e, portanto, em relação
a qualquer ponto, pois a força resultante é nula), esse momento é

M = r3 × F3 + r4 × F4 . (7.34)

Nesta expressão, r3 e r4 são os vectores posicionais dos pontos médios dos lados 3 e 4,
respectivamente. Em (7.34) não se incluiu a contribuição para o momento das forças sobre os
lados 1 e 2: essa contribuição é nula, pois as duas forças e os respectivos vectores posicionais
são colineares. A força sobre o lado 3 é F3 = i ` B î e a força no lado 4 é simétrica desta.
Atendendo agora a que r3 = 2` t̂1 = −r4 , podemos escrever

i `2 B h i
M = t̂1 × î + (−t̂1 ) × (−î)
2
= −i `2 B sin θ ĵ . (7.35)

Como m × B = i `2 B (n̂ × k̂) = −i `2 B sin θ ĵ , a expressão (7.35) pode ser escrita na


seguinte forma:
M =m×B. (7.36)
O primeiro comentário que importa fazer sobre esta expressão é que ela continua válida
para qualquer espira e não apenas para a espira que foi considerada. A Eq. (7.36) é, de facto,
a expressão geral para o momento das forças que se exercem sobre um dipolo magnético
colocado numa região de campo de indução magnética constante. Um outro aspecto que
importa focar é a semelhança entre (7.36) e (4.50), referindo-se esta última ao momento do
binário exercido sobre um dipolo eléctrico situado numa região onde o campo eléctrico é
constante.
Energia magnética e multipolos magnéticos •
215

Tal como para o dipolo eléctrico, pode calcular-se a energia de interacção campo - dipolo
magnético através do trabalho que é necessário fornecer ao dipolo para lhe dar uma determi-
nada orientação final, partindo de uma dada orientação inicial a que se atribui energia zero.
No caso da espira quadrada, atendendo ao binário formado por F3 e F4 , conclui-se que a
posição mais estável ocorre quando a espira está no plano xy e a normal n̂ alinha com a
direcção do campo de indução magnética. Se a corrente fosse em sentido inverso, n̂ e B
seriam antiparalelos. Neste caso a força e o momento seriam nulos, mas a situação seria de
equilı́brio instável.
Tomando para posição de energia zero aquela em que o plano da espira é paralelo ao
campo B (θ = 90◦ ), obtém-se, recorrendo, por exemplo, ao método do trabalho virtual, (ver
Secção 4.6), que a energia de interacção campo - dipolo é

Uint = −m · B , (7.37)

análoga a (4.48) para a energia de interacção campo - dipolo eléctrico.


Reforce-se a ideia de que (7.37) é uma energia de interacção: ela não leva em conta nem
a energia da própria espira, nem a dos circuitos que é necessário utilizar para criar o campo
uniforme B . Por outro lado, na obtenção da expressão (7.37) pelo método do trabalho virtual,
pressupõe-se que a corrente na espira se mantém constante durante o processo quase estático
de rotação, desde a orientação de referência até à posição final. A espira é indeformável, pelo
que o valor do momento magnético, m, permanece constante.

7.6 PROBLEMAS RESOLVIDOS

7.6.1 Energia de um sistema de duas correntes


Questão
Um sistema é constituı́do por dois condutores cilı́ndricos coaxiais muito longos (compri-
mento L). O cilindro interior tem raio a e o cilindro exterior tem raio interno b e raio externo
c (L À a, b, c), como mostra a Figura 7.4. Os condutores são percorridos por correntes I,
iguais mas de sentidos opostos, uniformemente distribuı́das. Na região entre os condutores
fez-se o vazio. Calcular a energia magnética armazenada por unidade de comprimento nas
regiões do espaço: r < a, a < r < b, b < r < c e r > c.

Resposta
A Figura 7.4 representa uma secção transversal dos condutores cilı́ndricos descritos no
problema.
O campo de indução magnética só depende da coordenada cilı́ndrica r e aponta na direcção
de êφ . A distribuição de correntes existente no cilindro interior origina o campo B1 (ver
Exemplo 2.3):

 µ0 i r
 2 π a2 êφ
 r≤a
B1 =


 µ0 i
2 π r êφ r ≥ a.
Usando a lei de Ampère, conclui-se que o cilindro exterior produz um campo de indução
magnética nulo no seu interior, isto é, para r < b. A lei de Ampère permite igualmente obter
216 •
Campo electromagnético

a
c

Figura 7.4. Esquema de uma secção transversal do sistema de


dois condutores descrito no Problema 7.6.1.

o campo nas outras regiões do espaço. O campo B2 produzido pelo cilindro exterior é


 0 r≤b





 µ0 i r2 − b2 ê
B2 = − 2πr c2 − b2
φ b≤r≤c







 µ0 i− 2πr êφ r ≥ c.

O campo de indução magnética, nas várias regiões do espaço, é a soma dos campos pro-
duzidos por cada um dos cilindros:



µ0 ir ê r≤a

 2πa2
φ







 µ0 i
2πr êφ

 a≤r≤b
B = B1 + B2 =




 µ0 i c2 − r2 ê b≤r≤c
 2πr φ


 c2 − b2





0 r ≥ c.
A energia armazenada em cada uma das regiões é obtida a partir da expressão (7.17) que
passa agora a ser escrita na forma
Z r1
Um 1
= 2π B 2 r dr ,
L 2µ0 r0

onde r0 e r1 são, respectivamente, os limites inferior e superior da região onde estamos a


calcular a energia. A energia por unidade de comprimento, para cada uma das regiões, é:

• Região r ≤ a
Um µ0 i2
= .
L 16π
Energia magnética e multipolos magnéticos •
217

• Região a ≤ r ≤ b
µ ¶
Um µ0 i2 b
= ln .
L 4π a

• Região b ≤ r ≤ c
( · µ ¶ ¸ )
Um µ0 i2 2 c 3 b4
= (c − b2 )−2 c 4
ln − + c2 b2 − .
L 4π b 4 4

• Região r ≥ c
Um
= 0.
L

7.6.2 Momento dipolar magnético de uma esfera carregada a rodar


Questão
Uma esfera de raio a tem distribuı́da sobre a sua superfı́cie uma carga cuja densidade
é constante e igual a σ. A esfera roda em torno de um diâmetro com velocidade angular
constante, ω. A distribuição de carga não é afectada pela rotação. Calcular o momento
magnético dipolar do sistema.

Resposta
Devido à rotação, passa a haver sobre a esfera uma densidade superficial de corrente dada
por
κ = σv, (7.38)
sendo v = ω × R a velocidade de um ponto da superfı́cie e R o vector do eixo de rotação
da esfera ao ponto P (ver Figura 7.5).

R P
d i a
q

Figura 7.5. Superfı́cie esférica


carregada a rodar.
218 •
Campo electromagnético

Pelo ponto P da superfı́cie da esfera faz-se passar um plano perpendicular ao eixo de


rotação da esfera. O módulo de R é o raio da circunferência que se obtém por intersecção
desse plano com a esfera. O módulo da velocidade linear do ponto P é v = ω R = ω a sin θ e
a densidade superficial de corrente (7.38) escreve-se

κ = σ ω a sin θ êφ .

Esta é a densidade de corrente sobre uma “espira” de raio R e largura d` = adθ. A corrente
que percorre esta espira é igual à densidade de corrente κ multiplicada pela secção da espira
perpendicular à corrente, d`, ou seja di = κ d`, pelo que

di = σ ω a2 sin θ dθ .

Uma espira de área πR2 = πa2 sin2 θ percorrida pela corrente di possui o momento dipolar
magnético elementar
dm = σ π ω a4 sin3 θ dθ êz , (7.39)

sendo z a direcção do eixo de rotação da esfera. Para se escrever a expressão anterior,


utilizou-se o facto de o momento dipolar magnético produzido por uma espira de corrente ser
dado, em módulo, pelo produto da área da espira pela corrente que a percorre, ter a direcção
perpendicular ao plano que contém a espira e ter o sentido da progressão de um saca-rolhas
que roda no sentido da corrente na espira.
O momento dipolar magnético total produzido pela esfera em rotação é obtido por inte-
gração de (7.39):
Z π
4
m = êz σ π ω a sin3 θ dθ .
0

O valor do integral angular é 43 , pelo que

4
m= σ π ω a4 êz .
3

7.6.3 Disco carregado a rodar

Questão

Um disco de raio a uniformemente carregado com uma carga Q é posto a rodar com
velocidade angular constante, ω, sem que a distribuição de cargas seja alterada. O eixo de
rotação é o eixo de simetria, perpendicular ao plano do disco.

a) Determinar o momento dipolar magnético desta distribuição de correntes;

b) Obter o potencial vector A e o campo de indução magnética B no ponto P (x, y, z)


(tomar para origem das coordenadas o centro do disco e considerar pontos tais que
r À a).
Energia magnética e multipolos magnéticos •
219

z
x
r + d r r

Figura 7.6. Disco uniformemente


carregado a rodar em torno do eixo z.

Resposta
a) A densidade superficial de carga é
Q
σ= . (7.40)
πa2
Quando o disco roda, gera-se uma densidade superficial de corrente dada por

κ = σ v êφ = σ ω r êφ .

Considere-se agora uma “espira” de raio compreendido entre r e r + dr. A corrente


que percorre essa espira é
di = σ ω r dr ,
à qual corresponde o momento dipolar magnético elementar

dm = π r2 di êz = σ π ω r3 dr êz ,

sendo z o eixo de rotação (ver Figura 7.6). Integrando sobre r, de 0 a a, obtém-se o


momento dipolar magnético total:
σπωa4
m= êz ,
4
ou, considerando a carga total do disco [ver (7.40)],

Qωa2
m= êz ; (7.41)
4

b) No cálculo do potencial vector a distâncias grandes (comparadas com o raio do disco)


o termo dominante é o termo dipolar, dado por (7.29). Introduzindo (7.41) nessa
expressão, obtém-se
µ Q ω a2
A= 0 sin θ êφ ,
16 π r2
220 •
Campo electromagnético

onde θ é o ângulo que a direcção z faz com a direcção do raio-vector r .


O campo de indução magnética é o rotacional do potencial vector. Utilizando coorde-
nadas esféricas, o rotacional de um vector só com componente segundo êφ é

1 ∂ 1 ∂
B =∇×A= (sin θAφ ) êr − (rAφ ) êθ ,
r sin θ ∂θ r ∂r
obtendo-se, finalmente [cf. Eq. (7.31)],

µ0 Qωa2
B= ( 2 cos θ êr + sin θ êθ ) .
16πr3
222 •
Campo electromagnético
CAPÍTULO 8
MAGNETISMO EM MEIOS
MATERIAIS
Em substâncias como o ferro, o nı́quel e o cobalto, determinadas propriedades magné-
ticas revelam-se com grande destaque. Referimo-nos, por exemplo, à atracção a que ficam
sujeitas na presença de campos magnéticos. No entanto, a maioria das substâncias apresenta
propriedades magnéticas menos intensas.
É possı́vel classificar os diferentes materiais de acordo com o seu comportamento na pre-
sença de campos magnéticos. Assim, há alguns — os ferromagnéticos — que são forte-
mente atraı́dos por campos magnéticos; outros são-no apenas levemente e dizem-se param-
agnéticos; finalmente, há materiais que são repelidos, embora pouco intensamente, e dizem-se
diamagnéticos.
O comportamento magnético dos materiais tem origem na sua estrutura microscópica.
Na verdade, os átomos possuem momento dipolar magnético, devido não só ao movimento
orbital dos electrões, mas também ao facto de os electrões possuı́rem um momento dipolar
magnético intrı́nseco. Há ainda uma contribuição para o momento magnético do átomo com
origem no núcleo, mas esta é muito pequena.
Existe uma relação directa entre o momento dipolar magnético e o momento angular, quer
para o electrão, quer para o átomo. O momento angular intrı́nseco do electrão designa-se por
spin. Como atrás se referiu, a causa microscópica do magnetismo da matéria encontra-se na
existência de momentos magnéticos ao nı́vel atómico que resultam da soma dos momentos
magnéticos dos electrões de cada átomo. Esta situação deixa antever que o magnetismo
só pode ser descrito cabalmente no quadro da Mecânica Quântica. Embora seja possı́vel
encontrar um análogo clássico para o momento magnético do electrão de origem orbital,
o mesmo não sucede quanto ao seu momento magnético de spin, que é uma propriedade
intrı́nseca daquela partı́cula (tal como a massa ou a carga). Para justificar o spin, ou o
momento magnético de spin do electrão, não é possı́vel recorrer a modelos clássicos. É errado,
224 •
Campo electromagnético

por exemplo, atribuir o momento magnético de spin do electrão a correntes que circulem no
seu interior, embora seja forçoso reconhecer que é o próprio significado da palavra spin o
responsável por este tipo de interpretação errónea.
Embora as propriedades magnéticas dos materiais sejam de origem quântica, a abordagem
do problema pode ser feita classicamente, numa base fenomenológica, e é esta a atitude que
aqui se adopta. Supõe-se que a matéria neutra é equivalente a um conjunto de dipolos
magnéticos e que estes, como veremos, podem ser considerados como tendo origem em cor-
rentes efectivas. Estas distribuições de dipolos representam valores médios no espaço e no
tempo dos momentos dipolares dos átomos, considerando regiões “pequenas” (ou volumes
elementares) à escala macroscópica. Contudo, esses volumes terão de ser suficientemente
“grandes” à escala microscópica para que haja um grande número de momentos dipolares
magnéticos atómicos a contribuir para as referidas médias, minimizando-se assim eventuais
flutuações estatı́sticas.
No caso do ferromagnetismo, existem momentos magnéticos permanentes alinhados em
regiões finitas do material (domı́nios). Nas substâncias paramagnéticas, os momentos dipo-
lares magnéticos de cada “volume elementar” apontam para direcções arbitrárias, mas há
uma tendência para um alinhamento quando se aplica um campo externo. Este alinhamento
será tanto maior quanto menor for a temperatura, pois a agitação térmica não favorece a
tendência para o alinhamento.
Será notório, ao longo deste capı́tulo, que o estudo do magnetismo em meios materiais
segue um formalismo próximo do exposto no Capı́tulo 5 para o caso dos meios dieléctricos.

8.1 VECTOR MAGNETIZAÇÃO. CORRENTES DE MAGNETIZAÇÃO

O análogo do vector polarização, introduzido na Secção 5.2, é o vector magnetização.


Assim, designando por dm o momento dipolar magnético no volume elementar dv, define-se
o vector magnetização, M , através de
dm
M= . (8.1)
dv
A unidade SI de magnetização é A/m. O momento dipolar magnético total de uma amostra
de volume v é Z
mtotal = M dv .
v
Calculemos o potencial vector A criado por um corpo com magnetização M (r 0 ) e volume
v, limitado por uma superfı́cie S, num ponto P de vector posicional r (ver Figura 8.1).
Utilizando a expressão (7.29), o potencial criado em P pela distribuição de dipolos
magnéticos contida no volume v é [note-se que, de (8.1), se obtém dm = M dv]
Z
µ a
A(r ) = 0 M (r 0 ) × dv .
4π v a3
Mas, atendendo a (2.28) e a (2.39), podemos escrever
Z µ ¶
µ0 1
A(r ) = M (r 0 ) × ∇0 dv , (8.2)
4π v a
onde ∇0 é o operador gradiente relativamente à variável r 0 . Refira-se que até aqui se seguiu
pari passu o formalismo apresentado na Secção 5.3. A expressão (B.40) permite que se escreva
µ ¶ µ ¶
1 M (r 0 ) ∇0 × M (r 0 )
M (r 0 ) × ∇0 = −∇0 × + . (8.3)
a a a
Magnetismo em meios materiais •
225

S
a P
d v
v

r'

Figura 8.1. O material magnetizado, de volume v, produz no


ponto P um campo de indução magnética.

Inserindo em (8.2) e usando a igualdade [ver Apêndice A, Eq. (A.2)]


Z I
∇ × F dv = − F × dS ,
v S
vem Z I
µ ∇0 × M µ0 M × n̂
A= 0 dv + dS . (8.4)
4π v a 4π S a
O versor n̂ é normal à superfı́cie elementar dS e aponta para fora. As duas parcelas na
expressão (8.4) têm a estrutura do potencial vector (2.31) e (2.32), respectivamente. Pode,
pois, concluir-se que, num ponto exterior, o potencial devido a um material magnetizado é
equivalente ao que seria criado por uma distribuição volumétrica de correntes no volume v
mais uma distribuição superficial de correntes na superfı́cie S. A comparação com (2.31) e
(2.32) permite obter as chamadas densidades de corrente equivalentes:
jm = ∇ × M (8.5)
para a distribuição volumétrica; e
κm = M × n̂ (8.6)
para a distribuição superficial. Estas correntes também se designam por correntes de mag-
netização, daı́ o ı́ndice “m” nas expressões anteriores, ou correntes amperianas.
Pode, igualmente, mostrar-se que o potencial vector A num ponto pertencente ao material
é ainda dado por (8.4), o que significa que, também neste caso, A é equivalente ao potencial
que seria obtido se o material magnetizado fosse substituı́do pelas densidades de correntes
volumétrica, jm , e superficial, κm .
De um modo geral, o potencial vector com origem em distribuições volumétricas e super-
ficiais de correntes livres ou de magnetização é dado por
·Z Z ¸
µ0 j` + jm κ` + κm
A= dv + dS .
4π v a S a
O campo B devido às correntes de magnetização pode ser obtido a partir de B = ∇ × A,
sendo A o potencial devido apenas às correntes de magnetização, ou directamente a partir
da lei de Biot-Savart, escrevendo-se, neste caso,
Z Z
µ0 jm × â µ0 κm × â
B= 2
dv + dS .
4π v a 4π S a2
O campo de indução magnética total obtém-se adicionando a este o campo produzido pelas
correntes livres.
226 •
Campo electromagnético

Exemplo 8.1: Campo de indução magnética criado por cilindro uniformemente


magnetizado
Seja M = M0 k̂ a magnetização (uniforme) de um cilindro infinito de raio a com o seu
eixo segundo o eixo z. A partir das expressões (8.5) e (8.6) obtêm-se as correspondentes
correntes de magnetização:
jm = M0 ∇ × k̂ = 0
κm = M0 k̂ × êr = M0 êφ .
Esta corrente superficial é formalmente idêntica à de um solenóide infinito [ver (2.49)]. No
caso do solenóide infinito, há uma densidade de corrente superficial, κ = n i êφ , que produz,
no interior do solenóide, um campo de indução magnética B = µ0 n i k̂ [ver (2.50)]. Con-
siderando esta analogia entre o cilindro magnetizado e o solenóide e comparando as densidades
superficiais de corrente, basta fazer a correspondência M0 ↔ n i para se obter o campo:
B = µ0 M0 k̂ = µ0 M ,
no interior do cilindro magnetizado.

8.2 CAMPO INTENSIDADE MAGNÉTICA H

Havendo correntes de magnetização e, simultaneamente, correntes livres, o campo de


indução magnética B tem a sua origem em ambas. No caso estacionário, a equação de
Maxwell (2.60) é
∇ × B = µ0 ( j` + jm ) . (8.7)
Mesmo na presença de meios materiais continua a verificar-se
∇ · B = 0, (8.8)
o que significa que não há monopolos magnéticos.
O conhecimento das correntes de magnetização jm e κm depende do conhecimento do
vector magnetização. É conveniente dispor de expressões onde intervenham apenas correntes
livres, que são aquelas sobre as quais se pode ter algum tipo de controlo directo. Atendendo
a (8.5), a Eq. (8.7) pode ser escrita na forma
∇ × B = µ0 (j` + ∇ × M ) ,
ou ainda µ ¶
B
∇× − M = j` . (8.9)
µ0
Esta expressão mostra que o campo H , definido através de
B
H= −M , (8.10)
µ0
é determinado pelas correntes livres. Na expressão do campo de indução magnética,
B = µ0 ( H + M ) , (8.11)
identifica-se uma contribuição devida às correntes livres, µ0 H , e outra devida às correntes
de magnetização, µ0 M . O campo H designa-se por intensidade magnética ou simplesmente
campo magnético e o seu rotacional é, de acordo com (8.9), dado por
∇ × H = j` (8.12)
em regime estacionário.
Magnetismo em meios materiais •
227

8.3 CONDIÇÕES DE FRONTEIRA PARA OS CAMPOS B, H E M

Comecemos por analisar o comportamento da componente normal de B numa superfı́cie


de separação de dois meios com caracterı́sticas magnéticas diferentes. O fluxo de B através
da superfı́cie cilı́ndrica fechada de altura infinitesimal dh e área de base δS, representada na
Figura 8.2 é, de acordo com (8.8), igual a zero:
I
B · dS = B1 · n̂1 δS + B2 · n̂2 δS = 0 . (8.13)
S

Em (8.13) omitiu-se já a contribuição do fluxo de B através da área lateral do cilindro,


a qual é nula no limite em que dh → 0. Quando as bases do cilindro ficam infinitamente
próximas são coincidentes com a superfı́cie de separação, tendo-se n̂2 = −n̂1 = n̂, pelo que
a Eq. (8.13) pode, neste caso, ser escrita na forma (B2n − B1n ) δS = 0, ou seja, a componente
normal de B é contı́nua:
B2n = B1n .
Por outras palavras, mesmo na presença de meios materiais, a equação superficial (2.44)
continua válida:
divS B = n̂ · (B2 − B1 ) = 0 .
Desta expressão e de (8.11) resulta ainda

divS H = n̂ · (H2 − H1 ) = −divS M = −n̂ · (M2 − M1 ) . (8.14)

Analisemos o comportamento da componente tangencial de H . Considere-se o circuito


fechado C da Figura 8.3, com dois lados de comprimento infinitesimal ds e os outros dois, C1 e
C2 , de comprimento δ`. Tome-se o fluxo dos vectores em ambos os membros de (8.12) através
de uma superfı́cie S que se apoia em C. O primeiro membro pode ser transformado, usando
o teorema de Stokes, na circulação de H ao longo de C; o fluxo da densidade de corrente
livre, j` , é simplesmente a corrente livre i` que atravessa S. No limite em que ds → 0, a
circulação de H só recebe contribuições dos lados C1 e C2 . Assim,
I Z Z
H · dl = H2 · t̂2 d` + H1 · t̂1 d` = i` .
C C2 C1

Notando que t̂2 = −t̂1 = t̂, tem-se


I
H · dl = (H2t − H1t ) δ` = i` = κ` δ` ,
C

n^ 2

^
n
d h d S m e io 2
m e io 1

n^ 1

Figura 8.2. Cilindro infinitesimal na


superfı́cie de separação de dois meios.
228 •
Campo electromagnético

C t^ 2
d l
2

d s ^
t m e io 2
C m e io 1
t1
^
C 1

Figura 8.3. Caminho rectangular de altura infinitesimal na


superfı́cie de separação de dois meios.

considerando uma densidade superficial de corrente, κ` perpendicular à superfı́cie que contém


C e que aponta para dentro. Se não existir corrente livre sobre a superfı́cie de separação dos
dois meios, a componente tangencial de H é contı́nua (H2t = H1t ). Em geral, tem-se, para
o campo intensidade magnética, a seguinte equação superficial:

rotS H = n̂ × ( H2 − H1 ) = κ` ,

em que κ` é a densidade de corrente livre sobre a superfı́cie de separação dos dois meios. O
campo de magnetização M , que tem origem nas correntes equivalentes, verifica uma equação
superficial semelhante:
rotS M = n̂ × ( M2 − M1 ) = κm .
Finalmente, tem-se para B a seguinte equação superficial:

rotS B = n̂ × ( B2 − B1 ) = µ0 (κ` + κm ) = µ0 κ ,

que é, afinal, a Eq. (2.45).

8.4 MATERIAIS MAGNÉTICOS HOMOGÉNEOS, LINEARES


E ISOTRÓPICOS

Pretendemos conhecer a relação entre a magnetização, M , e o campo intensidade


magnética, H , ou seja, obter a função M = M (H ).
Esta relação pode ser obtida experimentalmente ou com base em modelos teóricos. Em
muitos materiais de interesse prático a dependência não é linear e nem sequer é definida
univocamente, mas há outros materiais em que a situação é relativamente simples, uma vez
que se verifica uma variação linear de M com H . Os materiais com este comportamento
dizem-se lineares e isotrópicos e, neste caso,

M = χm H , (8.15)

sendo χm a susceptibilidade magnética do meio, que é uma grandeza adimensional. Se a


susceptibilidade for constante, ou seja, a mesma em todos os pontos do material, este, além
de linear e isotrópico, diz-se homogéneo. A expressão (8.11) para este tipo de materiais pode
ser reescrita, tirando partido da relação (8.15), na forma

B = µ0 ( H + χm H ) = µ0 ( 1 + χm ) H = µ0 µr H = µ H . (8.16)
Magnetismo em meios materiais •
229

Introduziu-se nesta expressão a quantidade µr = µ/µ0 , que é a permeabilidade relativa, sendo


µ a permeabilidade absoluta do material. A permeabilidade relativa também se designa
muitas vezes por κm .
A relação B = µH mostra que, nos meios lineares e isotrópicos, B e H são paralelos.
Como se disse, esta expressão verifica-se aproximadamente nestes materiais, mas está longe
de ser uma relação universal.
Para os materiais com comportamento linear e isotrópico, tem-se sempre |χm | ¿ 1. Mas há
que distinguir entre os materiais diamagnéticos, para os quais χm < 0, da ordem de grandeza
de −10−5 , e os materiais paramagnéticos, cuja susceptibilidade magnética é positiva, χm > 0,
variando a sua grandeza entre 10−5 e 10−2 . Nos materiais diamagnéticos, os momentos
magnéticos elementares não são permanentes, mas sim induzidos por um campo externo
aplicado. Nestes materiais, µr < 1 e a permeabilidade relativa não depende da temperatura.
A magnetização do material dá origem a uma diminuição de B relativamente ao vazio. Nos
átomos dos materiais paramagnéticos, os momentos magnéticos orbital e de spin não se
cancelam e existe um momento magnético dipolar residual que permanece. Na presença de
um campo externo, estes momentos dipolares tendem a alinhar-se e µr > 1.
Nos materiais ferromagnéticos não há simples proporcionalidade entre M e H . O primeiro
destes vectores é, por vezes, um milhão de vezes maior do que o segundo. A magnetização é
muito forte, devido ao facto de os momentos magnéticos elementares estarem alinhados.
Nos meios onde se observa a relação linear (8.15) as correntes livres, j` , e de magnetização,
jm , são também proporcionais. Tomando o rotacional de ambos os membros de (8.15) e
utilizando (8.5) e (8.12) obtém-se
jm = χm j` . (8.17)
Atendendo a que a permeabilidade relativa é dada por

µr = 1 + χm ,

da expressão (8.17) vem, para a corrente total,

j = jm + j` = µr j` .
Para materiais paramagnéticos, j > j` e para materiais diamagnéticos, j < j` . De qualquer
modo, verifica-se sempre µr > 0, pelo que j e j` apontam no mesmo sentido.

Exemplo 8.2: Solenóide enrolado em torno de um cilindro magnetizado


O campo de indução magnética no interior de um solenóide infinito com n espiras por
unidade de comprimento e percorrido por uma corrente i é dado por (2.50). Dessa expressão
conclui-se, de imediato, que a intensidade magnética é H = n i k̂. Se o enrolamento for feito
em torno de um material magnetizável de permeabilidade relativa µr , o campo de indução
magnética vem
B = µ0 µr n i k̂ .
A indutância do circuito obtém-se dividindo o fluxo do campo de indução magnética, φ, pela
corrente:
φ BAnL µ0 µr An2 iL
L= = = = µr µ0 n2 AL ,
i i i
em que A designa a área de cada espira e L o comprimento do solenóide. Atendendo à Eq.
(7.14), e designando a indutância de um solenóide sem núcleo de material magnetizável por
L0 , conclui-se que
L = µr L0 .
230 •
Campo electromagnético

8.5 POTENCIAL ESCALAR MAGNÉTICO

No caso de não haver dependência no tempo e de não existirem correntes livres, a Eq.
(8.12) é escrita simplesmente na forma

∇ × H = 0, (8.18)

ou seja, o campo H é, neste caso, um campo irrotacional e, por isso, pode sempre ser escrito
como o gradiente de uma função escalar:

H = −∇Vm . (8.19)

Nesta expressão Vm é o potencial escalar magnético que desempenha um papel, do ponto de


vista da obtenção do campo magnético, semelhante ao do potencial electrostático no caso
da determinação do campo eléctrico. A relação expressa por (8.19) é análoga a (2.9). Por
outro lado, para materiais homogéneos, lineares e isotrópicos, verifica-se a Eq. (8.16), com µ
constante. Usando a equação de Maxwell ∇ · B = 0, conclui-se que, nestas circunstâncias,

∇ · H = 0. (8.20)

Esta equação, combinada com (8.19), permite obter a seguinte equação para o potencial
magnético:
∇2 Vm = 0 , (8.21)
que é a equação de Laplace. Note-se que, sempre que se verifique a equação ∇ · M = 0, a
Eq. (8.20) também é verificada e, portanto, a Eq. (8.21) aplica-se.
Em situações para as quais (8.18) e (8.20) se verifiquem, a obtenção de H (ou de B )
pode ser feita partindo do conhecimento de Vm . Este potencial é determinado resolvendo a
equação de Laplace, usando as técnicas apresentadas para o potencial escalar (Capı́tulo 6).
A tı́tulo de exemplo, refira-se que, para determinar o campo H em todo o espaço, quando
uma esfera de permeabilidade magnética constante, µ, é colocada numa região onde existe
um campo de indução magnética uniforme, podem aplicar-se os raciocı́nios desenvolvidos no
Exemplo 6.7 (ver também Problema 8.9.5).

8.6 MODELO DAS CARGAS MAGNÉTICAS

O estudo do magnetismo em meios magnéticos pode também ser feito seguindo de perto o
formalismo que se utiliza para os dieléctricos. Assim, em analogia com a carga de polarização
nos dieléctricos, postula-se a existência de densidades de carga magnética e desenvolve-se um
formalismo que, do ponto de vista dos resultados, é equivalente ao modelo das correntes de
Ampère.
Definem-se as densidades volumétrica e superficial de carga magnética através de

ρ∗ = −∇ · (µ0 M ) (8.22)
σ ∗ = −divS (µ0 M ) = −n̂ · ( µ0 M2 − µ0 M1 ), (8.23)

onde n̂ é a normal à superfı́cie, apontando para o meio 2. Note-se que a correspondência


com o vector polarização é µ0 M ↔ P . Tomando a divergência de ambos os membros de
(8.10) e utilizando (8.8) e (8.22), escreve-se
ρ∗
∇·H = . (8.24)
µ0
Magnetismo em meios materiais •
231

Por outro lado, usando a definição (8.23) em (8.14), tem-se


σ∗
divS H = . (8.25)
µ0
Estas equações são análogas às que se têm para o campo eléctrico. Por integração da Eq.
(8.24) e utilizando o teorema de Gauss, obtém-se
I
Q∗
H · dS = , (8.26)
S µ0
sendo Q∗ a “carga magnética” total contida no volume v delimitado pela superfı́cie fechada
S. A principal vantagem do formalismo das cargas magnéticas reside no facto de poderem
ser aplicadas à determinação de H as técnicas desenvolvidas para a determinação do campo
eléctrico a partir das distribuições de carga eléctrica.

8.7 ENERGIA ARMAZENADA NO CAMPO MAGNÉTICO


NA PRESENÇA DE MEIOS MAGNÉTICOS

Verificámos no Capı́tulo 7 que, no vazio, a energia magnética armazenada numa dis-


tribuição de correntes livres pode ser escrita na forma [Eq. (7.9)]
Z
1
Um = j` · A dv . (8.27)
2
Vejamos agora como se exprime a energia magnética armazenada numa distribuição de cor-
rentes livres numa região do espaço que contém materiais magnetizáveis. Essa energia, igual
ao trabalho reversı́vel para construir a distribuição de correntes livres, é, ainda, dada pela
Eq. (8.27), mas, neste caso, A contém também os efeitos provenientes da magnetização do
meio.1 Utilizando a relação (8.12), válida para regimes estacionários (admitimos situações
em que o regime estacionário já foi alcançado), a Eq. (8.27) é escrita na forma
Z
1
Um = ∇ × H · A dv .
2
Utilizando, novamente, a argumentação que, na Secção 7.2, permitiu obter (7.17) a partir de
(7.15), tem-se:
Z Z
1 1
Um = ∇ × A · H dv − ∇ · (A × H ) dv
2 2
Z I
1 1
= B · H dv − (A × H ) · dS .
2 2
Como se concluiu naquela secção, o integral de superfı́cie é nulo e, portanto,
Z
1
Um = B · H dv ,
2
sendo a densidade de energia magnética dada por
1
um = B · H .
2
No caso de meios lineares, homogéneos e isotrópicos, a energia magnética é
Z
µ
Um = H 2 dv , (8.28)
2
sendo o integral estendido a todo o espaço. A expressão (8.28) é válida tanto em regime
estacionário como em regime não estacionário.
1
De facto, tal como (5.31), também (8.27) pressupõe a linearidade do meio magnético.
232 •
Campo electromagnético

8.8 MATERIAIS FERROMAGNÉTICOS

Já referimos anteriormente algumas caracterı́sticas dos materiais ferromagnéticos, para os


quais não se verifica uma relação simples entre o campo de indução magnética, B , e o campo
magnético, H . Como veremos em pormenor nesta secção, em geral, o comportamento do
material depende da “história” da amostra em questão. Microscopicamente, o ferromagnete
é caracterizado pela existência de domı́nios que são regiões nas quais os spins estão espon-
taneamente alinhados numa dada direcção. No material não magnetizado os spins dos vários
domı́nios apontam para direcções arbitrárias e o campo macroscópico resultante é nulo. Con-
tudo, por aplicação de um campo externo, os spins dos domı́nios tendem a alinhar com a
direcção do campo. Digamos que a magnetização corresponde a um desaparecimento das
paredes dos vários domı́nios do material.
Vejamos de que modo se pode estabelecer uma relação entre o campo B num meio fer-
romagnético e o campo H devido às correntes livres. Considere-se um solenóide toroidal
formado por N espiras de um fio percorrido pela corrente i enrolado em torno de um núcleo
de um material ferromagnético, por exemplo, ferro macio. A situação está esquematizada na
Figura 8.4.

C
r a

b
i

(a ) (b )

Figura 8.4. (a) Enrolamento de espiras em torno de um


toróide de material ferromagnético. (b) Caracterı́sticas
geométricas do toróide e caminho C referido no integral em
(8.29).

As linhas do campo H são circunferências com centro no eixo do toróide e raio r, variável
entre a e b. O campo magnético está confinado no interior do enrolamento (fora do toróide
é nulo) e pode ser calculado facilmente usando a forma integral da expressão (8.12),
I Z
H · dl = j` · dS , (8.29)
C S
resultando
Ni
H = êφ a<r<b (8.30)
2πr
H = 0 fora do toróide. (8.31)
Se o raio, R1 , da secção circular do toróide for muito pequeno comparado com o raio médio do
toróide, R = a+b2 , a grandeza do campo (8.30) pode ser considerada constante, escrevendo-se
Ni
H≈ . (8.32)
2πR
Magnetismo em meios materiais •
233

Nesta base, também os vectores magnetização e indução magnética são, em grandeza, aprox-
imadamente constantes, em todos os pontos do interior do toróide.
Pode ter-se informação sobre B medindo o fluxo que atravessa uma secção do toróide
de área S1 = πR12 (ver Figura 8.5). Quando a corrente no circuito varia, o valor de H e o

R 1

S 1

Figura 8.5. Secção recta do toróide.

fluxo de B através de S1 também variam, o que origina uma força electromotriz induzida
na espira. Seja di a variação na corrente; a correspondente variação no valor de H decorre
directamente de (8.32):
N di
dH = .
2πR
A força electromotriz induzida no circuito total (N espiras), devida à variação de fluxo de
B , é
dφ dB
Ei = −N = −N S1 , (8.33)
dt dt
onde φ é o fluxo do campo de indução magnética através da secção do toróide. A partir da
medição de Ei pode saber-se como varia B quando ocorre uma variação de H. A Figura 8.6
mostra um resultado tı́pico do comportamento de B em função do campo aplicado H. A
função representada é chamada curva de magnetização. O módulo de M em função de H
apresenta um comportamento do mesmo tipo.

0 H

Figura 8.6. Variação de B com H (curva de magnetização).

Importa comentar dois aspectos evidenciados pela curva de magnetização: o manifesto


comportamento não linear da função B = B(H) e o facto de a magnetização tender para um
234 •
Campo electromagnético

valor máximo constante, Ms = Cte , a chamada magnetização de saturação. Nesta situação


todos os momentos magnéticos dipolares no material já estão alinhados. De (8.11) conclui-se
que B = µ0 H + µ0 Cte , ou seja, a variação de B com H passa a ser linear e, na Figura 8.6,
tem-se, uma vez atingida a saturação, uma recta de declive µ0 .
Consideremos agora a Figura 8.7 e analisemos outros aspectos da variação de B com H.

B
B 1
b

d
a g H H
1

Figura 8.7. Ciclo de histerese.

• Inicialmente H = 0 e B = 0 (ponto a da Figura 8.7); à medida que se aumenta a


corrente i, B segue o comportamento referido anteriormente e que está representado a
tracejado na Figura 8.7 (curva a-b).

• Após atingir o valor H1 , ao qual corresponde B = B1 , faz-se diminuir H até ao seu


valor inicial, H = 0. O valor de B diminui seguindo a linha b-c, ou seja, muito mais
lentamente do que inicialmente tinha aumentado. De salientar que:

– o valor do campo B não só não varia linearmente com H como não é univocamente
definido: ao mesmo valor de H correspondem diferentes valores de B;
– mesmo quando H volta a ser zero, B (e a magnetização) tem um valor diferente
de zero, quer dizer, há uma indução magnética remanescente.

• Para conseguir ter de novo B = 0, terá de se aplicar um campo H com sentido inverso
e ir aumentando gradualmente a sua grandeza como inicialmente se tinha feito. O valor
de H para o qual B se anula (ponto d) denomina-se força coerciva ou coercividade.

• Continuando a aumentar a grandeza de H, o módulo do campo B vai também au-


mentando segundo a curva d-e, e B atinge em e um valor simétrico do que tinha em
b.

• Diminuindo agora o módulo de H , B segue a curva e-f e, de novo, se observa um valor


B 6= 0 quando H atinge o valor zero.

• Finalmente, invertendo de novo o sentido da corrente (e logo o sentido de H ), atinge-se


outra vez o ponto b.
Magnetismo em meios materiais •
235

A curva fechada bcdefgb é denominada curva de histerese ou ciclo de histerese e a sua


forma tı́pica é a apresentada na Figura 8.7. A sua forma particular depende do valor máximo
de H e das caracterı́sticas dos diversos materiais ferromagnéticos. Assim, nos materiais
magnéticos moles a curva de histerese é apertada. Como veremos já a seguir, há, neste caso,
uma pequena dissipação de energia quando o ciclo é percorrido. Estes materiais são usados
em transformadores, motores, electromagnetes, etc. Nos materiais magnéticos duros a curva
de histerese é larga (quase rectangular). Os magnetes permanentes têm este comportamento.
Para descrever um ciclo de histerese é necessário fornecer energia ao meio. Esta energia é
fornecida pela fonte externa à qual o circuito, que tem vindo a ser referido, está ligado.
À medida que vai variando a corrente i no circuito, surge uma força electromotriz induzida,
dada por (8.33), que se opõe a essa variação. Para manter a corrente inicial, é necessário
fornecer uma potência cujo valor seja igual ao produto da corrente i pela força electromotriz
externa, que é simétrica da induzida (8.33). Assim, podemos escrever para a potência

dUm dB
= i N S1 ,
dt dt

ou ainda, dado que o denominador no lado direito de (8.32) é aproximadamente o compri-


mento L do toróide,
dUm dB
= H LS .
dt dt
A energia elementar, dUm , vem
dUm = v H dB ,

onde v = L S é o volume do toróide. Integrando tem-se, finalmente,


I
Um = v H dB , (8.34)

sendo o integral estendido a todo o ciclo de histerese. O integral em (8.34) representa a área,
na Figura 8.7, delimitada pelo ciclo de histerese.

8.9 PROBLEMAS RESOLVIDOS

8.9.1 Cubo magnetizado

Questão

Um cubo de aresta a é constituı́do por um material magnetizado com magnetização


µ ¶
y x
M = M0 − î + ĵ , (8.35)
a a

onde M0 é uma constante. A origem dos eixos está num vértice e o cubo encontra-se no
primeiro octante. Obter as densidades de correntes de magnetização no material, calcular
o momento dipolar magnético do bloco de material magnetizado e escrever a expressão do
potencial vector em pontos do plano xy tais que |x| À a e |y| À a.
236 •
Campo electromagnético

Resposta
A densidade de corrente de magnetização é obtida a partir do rotacional do vector mag-
netização [Eq. (8.5)], jm = ∇ × M , donde, para o vector (8.35),
¯ ¯
¯ î ĵ k̂ ¯¯
M0 ¯¯ ∂ ∂ ∂ ¯ 2M0
jm = ¯ ∂x ∂y ∂z¯= k̂ .
a ¯¯ ¯
¯ a
−y x 0
As correntes superficiais de magnetização são obtidas a partir de (8.6), κm = M × n̂,
sendo n̂ o versor normal à superfı́cie apontando para fora do meio magnético. Consideremos,
separadamente, cada uma das faces do cubo:
• Face no plano x = 0: o versor normal exterior é n̂ = −î e a magnetização [ver (8.35)]
é M = −M0 y/a î, donde
κm (x = 0) = 0 .
• Face no plano x = a: o versor normal exterior é n̂ = î, donde
κm (x = a) = M (x = a) × î = −M0 k̂ .

• Face no plano y = 0: o versor normal exterior é n̂ = −ĵ e a magnetização M =


M0 x/a ĵ , donde
κm (y = 0) = 0 .
• Face no plano y = a: o versor normal exterior é n̂ = ĵ , donde
κm (y = a) = M (y = a) × ĵ = −M0 k̂ .

• Face no plano z = 0: a normal exterior é n̂ = −k̂ e a corrente superficial vem


µ ¶
y x
κm (z = 0) = −M0 ĵ + î . (8.36)
a a

• Face no plano z = a: a normal exterior é n̂ = k̂ e a corrente superficial é a simétrica


de (8.36), µ ¶
y x
κm (z = a) = M0 ĵ + î .
a a
O momento dipolar magnético, m, é o integral da magnetização:
Z
m= M dv .
v
Tomando a expressão da magnetização (8.35) e integrando sobre o volume do cubo, obtém-se
µ Z Z ¶
M0 M0 3
m= −î y dv + ĵ x dv = a ( −î + ĵ ) . (8.37)
a v v 2
A distâncias muito grandes do cubo, o potencial vector pode ser aproximado pelo seu
termo dipolar, dado por (7.29)
µ
A = 03 m × r . (8.38)
4πr
Como interessa considerar pontos do plano xy, o vector posicional é simplesmente r = xî+y ĵ .
Inserindo em (8.38) juntamente com (8.37) obtém-se
µ0 M0 a3
A=− (x + y) k̂ .
4πr3 2
Magnetismo em meios materiais •
237

8.9.2 Cabo coaxial


Questão
Um cabo coaxial infinito tem o espaço entre os dois condutores preenchido por um material
de permeabilidade magnética constante µ (Figura 8.8).
O condutor interior transporta uma densidade de corrente uniforme j0 e o condutor ex-
terior, de espessura infinitesimal, uma densidade superficial de corrente κ0 uniformemente
distribuı́da sobre a sua superfı́cie, de tal modo que as correntes nos dois condutores são ambas
de grandeza I0 mas fluem em sentidos opostos. Calcular B , H e M em todo o espaço.

I 0
b

a m

I 0

Figura 8.8. Cabo coaxial com material de permeabilidade


magnética constante entre os condutores.

Resposta
O material magnético que preenche o espaço entre os condutores é linear, isotrópico e
homogéneo. O campo magnético H tem a sua origem nas correntes livres e, atendendo à
simetria cilı́ndrica do problema, depende apenas da distância r ao eixo de simetria e aponta
na direcção do versor êφ :
H (r ) = H(r) êφ . (8.39)
Na situação presente é útil usar a forma integral da lei de Ampère:
I Z
H · dl = j` · dS . (8.40)
C S

O vector dl é tangente ao contorno C e dS é normal, em cada ponto, à superfı́cie S que se


apoia em C. Atendendo à expressão (8.39), escolhemos contornos circulares com centro no
eixo do cilindro. As superfı́cies S consideradas são cı́rculos limitados pelas circunferências C.
Importa ainda notar que a corrente I0 que flui no condutor interior e a densidade de corrente,
j0 , nesse condutor, se relacionam através de2
Z
I0 = j0 · dS = j0 πa2 ,
S
2
Escolhe-se a direcção da densidade de corrente j0 para eixo z, isto é, j0 = j0 êz .
238 •
Campo electromagnético

donde
I0
j0 = .
πa2
Vamos obter o campo magnético nas diferentes regiões do espaço.

• Região r < a:
o campo magnético é obtido a partir de (8.40):

I0
2 π r H = j0 πr2 = πr2 ,
πa2
donde
I0 r
H= êφ . (8.41)
2πa2

• Região a < r < b: usando, novamente, (8.40),

2πrH = j0 πr2 = I0 , (8.42)

donde
I0
H= êφ . (8.43)
2πr

• Região r > b: o campo resultante é nulo nesta região, pois o campo (8.43) é anulado
por um de igual valor e sentido contrário com origem no condutor exterior, o qual é
percorrido pela corrente −I0 . De facto, considerando um contorno C, de raio r > b, a
corrente total que flui através da superfı́cie S é nula, pois as correntes nos condutores
exterior e interior são simétricas. Por outro lado, a circulação de H é dada por 2πrH =
0, de onde se conclui que H = 0.

O campo magnético está representado no gráfico da Figura 8.9 e apresenta uma descon-
tinuidade para r = b.

H (r)

I0
2 p a

I 0
2 p b

a b r

Figura 8.9. Valor do campo magnético em função da distância


ao eixo do cilindro.
Magnetismo em meios materiais •
239

É um exercı́cio útil confirmar que o rotacional superficial de H em r = b é igual à densidade


de corrente superficial, κ0 . Esta corrente superficial pode ser expressa em termos da corrente
I0 :
I
κ0 = − 0 êz . (8.44)
2πb
O rotacional superficial de H é dado por [ver (8.43)]
µ ¶
I0 I0
êr × êφ 0 − =− êz ,
2πb 2πb
que é, de facto, a expressão de κ0 [cf. Eq. (8.44)].
Nas regiões onde não há material magnético, o campo de indução magnética B é simples-
mente B = µ0 H , donde,
µ I r
B = 0 02 êφ para r < a (8.45)
2πa
e
B=0 para r > b . (8.46)
No material magnetizado,
B = µH ,
obtendo-se
µ I0
B= êφ para a < r < b . (8.47)
2πr
A Figura 8.10 apresenta o gráfico do campo de indução magnética em função da coordenada
cilı́ndrica r. Há descontinuidades em r = a e em r = b relacionadas com a existência de
distribuições superficiais de correntes nessas superfı́cies.

B (r)

m I0
2 p a

m 0 I0
2 p a

m I0
2 p b

a b r

Figura 8.10. Valor do campo de indução magnética em função


da distância ao eixo do cilindro.

A magnetização M é nula para as regiões r < a e r > b, pois não existe aı́ material
magnetizável. Na região entre os dois condutores, a < r < b, tem-se [cf. (8.15) e (8.16)],

M = χm H = (µr − 1) H ,
240 •
Campo electromagnético

onde χm é a susceptibilidade magnética do material e µr = µ/µ0 a sua permeabilidade relativa.


Em termos da permeabilidade magnética, µ,
µ ¶
µ
M= −1 H,
µ0

obtendo-se µ ¶
µ I0
M= −1 êφ para a < r < b .
µ0 2πr
A grandeza do vector magnetização, em função da coordenada cilı́ndrica r, está representada
na Figura 8.11. Também o vector M apresenta descontinuidades sobre as superfı́cies r = a e
r = b, o que significa que existem correntes superficiais de magnetização nessas superfı́cies.

M (r)
(m - m 0)I 0
2 p m 0a

(m - m 0)I 0
2 p m 0b

a b r

Figura 8.11. Módulo da magnetização em função da distância


ao eixo do cilindro.

As densidades de correntes de magnetização são obtidas a partir do vector magnetização.


Para as correntes volumétricas
1∂
jm = ∇ × M = (rMφ )êz = 0 ;
r ∂r
para as correntes superficiais, em r = b,
µ ¶
µ I0
κm = rotS M = êr × êφ [0 − M (b)] = − −1 êz , (8.48)
µ0 2πb
e, em r = a, µ ¶
µ I0
κm = −êr × êφ [0 − M (a)] = −1 êz . (8.49)
µ0 2πa
Podemos, finalmente, calcular o rotacional superficial do campo de indução magnética e
assim confirmar que se obtêm as correntes totais (livres e de magnetização).
A corrente superficial total em r = a é apenas a corrente de magnetização (8.49), pois não
há aı́ correntes livres: µ ¶
µ I0
κtotal (r = a) = −1 êz . (8.50)
µ0 2πa
Magnetismo em meios materiais •
241

Em r = b, a densidade total de corrente é a soma de (8.48) e de (8.44):

µ I0
κtotal (r = b) = − êz . (8.51)
µ0 2πb

A partir de (8.45), (8.46) e (8.47) pode obter-se o rotacional superficial do campo de indução
magnética, que é igual ao produto de µ0 pela densidade total de corrente superficial:

rotS B = µ0 κtotal .

Calculando explicitamente este rotacional superficial, para r = a, e, para r = b, obtêm-se, a


menos do factor µ0 , as expressões (8.50) e (8.51), respectivamente.

8.9.3 Fatia magnetizada


Questão

A região do espaço definida por 0 < x < d está preenchida com uma substância magneti-
zada de magnetização M = M0 î.
Determinar os campos H e B em todo o espaço.

Resposta

A Figura 8.12 mostra, em esquema, a situação descrita no enunciado.

M = 0 M M = 0

0 d x

Figura 8.12. Representação esquemática de uma “fatia”


de material magnetizado.

É conveniente usar o formalismo das cargas magnéticas (Secção 8.6). As densidades


volumétrica e superficial de carga magnética são dadas, respectivamente, por (8.22), ρ∗ =
−∇ · (µ0 M ) e por (8.23), σ ∗ = −divS (µ0 M ).
As eqs. (8.24) e (8.25) são formalmente idênticas às que relacionam o campo eléctrico, E ,
com as densidades de carga eléctrica que o originam. Esta analogia sugere a determinação do
242 •
Campo electromagnético

campo H a partir de ρ∗ e σ ∗ , exactamente como se determinaria o campo eléctrico a partir


de densidades de carga eléctrica3 .
No problema em questão a magnetização é constante e, por isso, a densidade de carga
magnética, ρ∗ , é nula. As distribuições superficiais de carga são [ver Eq. (8.23)]:
i) em x = 0, h i
σ ∗ (x = 0) = −µ0 −î · (0 − M0 î) = −µ0 M0 ;

ii) em x = d, h i
σ ∗ (x = d) = −µ0 î · (0 − M0 î) = µ0 M0 .

O campo magnético devido a esta distribuição de carga magnética é da forma do campo


eléctrico criado por duas distribuições superficiais e simétricas de carga nos planos x = 0 e
x = d (condensador plano). Assim, na região entre os planos,

σ∗
H =− î = −M0 î = −M , (8.52)
µ0

com σ ∗ = σ ∗ (x = d). O campo magnético é constante entre 0 < x < d e nulo fora dessa
região. Recorde-se que, no caso do condensador plano ideal, o campo eléctrico entre as placas
também é constante, igual a σ/²0 , e as linhas de campo apontam das cargas positivas para
as negativas.
O campo de indução magnética relaciona-se com M e H através de [ver (8.11)]

B = µ0 (H + M ) ,

sendo, por isso, nulo na região 0 < x < d, de acordo com (8.52). Fora dessa região o campo de
indução magnética também é nulo, pois M e H são nulos. O facto de B e de H se anularem
em todo o espaço fora do material magnetizado tem a ver com a extensão infinita deste. Na
prática, porque os sistemas são finitos, os campos magnético ou de indução magnética não
serão nulos fora da região onde existe meio magnético.
Este é um exemplo de um material que não é linear, pois B = 0 e H 6= 0.

8.9.4 Esfera uniformemente magnetizada


Questão
Uma esfera de raio a possui uma magnetização uniforme M = M0 êz . Calcular B e H e
fazer um esboço das linhas destes campos em todo o espaço.
(Sugestão: utilizar o formalismo do potencial escalar magnético.)

Resposta
Trata-se de uma situação em que não há correntes livres, nem correntes de deslocamento,
pois não há variações temporais. O campo magnético H é, neste caso, irrotacional, ∇ × H =
0, podendo ser escrito, como vimos na Secção 8.5, como o gradiente de uma função escalar,
H = −∇Vm , sendo Vm o potencial escalar magnético. Como se tem, na presente situação,
∇ · M = 0, também ∇ · H = 0 e, portanto, o potencial escalar obedece à equação de Laplace
[ver (8.21)], ∇2 Vm = 0.
3
A correspondência que se faz é H ↔ E, ρ∗ ↔ ρ , σ ∗ ↔ σ e µ0 ↔ ²0 .
Magnetismo em meios materiais •
243

Em coordenadas esféricas, havendo simetria axial, como é o caso, a solução da equação de


Laplace, tanto no interior como no exterior da esfera, é da forma (6.54):
∞ µ
X ¶
Bn
Vm (r, θ) = An rn + Pn (cos θ) .
n=0
rn+1

Os coeficientes An e Bn são determinados a partir das seguintes condições de fronteira4 :


1) Vme é nulo quando r → ∞;

2) Vmi é finito para r = a;

3) Há continuidade do potencial sobre a superfı́cie da esfera:

Vmi (r = a, θ) = Vme (r = a, θ) ;

4) O rotacional superficial de H é nulo sobre a superfı́cie da esfera, pois não há correntes
livres, ou seja,
êr × (H e − H i ) = 0 , em r = a ; (8.53)

5) A partir da magnetização define-se a carga magnética superficial [ver (8.23)],

σ ∗ = −divS (µ0 M ) = µ0 M0 êr · êz = µ0 M0 cos θ .

Dado que divS H = −divS M , o campo H deve satisfazer a condição

êr · (H e − H i ) = M0 cos θ . (8.54)

Vejamos o que resulta da aplicação das condições de fronteira acima enumeradas. Pas-
saremos a designar por An e Bn os coeficientes no potencial interior e por A0n e Bn0 os do
potencial exterior. Para satisfazer a primeira condição de fronteira, o potencial no exterior
deve assumir a forma ∞
X Bn0
Vme (r, θ) = Pn (cos θ) . (8.55)
n=0
rn+1
Da segunda condição de fronteira resulta, para o potencial no interior,

X
Vmi (r, θ) = An rn Pn (cos θ) . (8.56)
n=0

A descontinuidade da componente normal do campo H , expressa em (8.54), pode ser


escrita em termos das derivadas em ordem a r do potencial:
µ ¶ Ã !
∂Vme ∂Vmi
− + = M0 cos θ .
∂r r=a ∂r r=a

Derivando (8.55) e (8.56) em ordem a r, a expressão anterior conduz a


∞ ·
X ¸
Bn0
(n + 1) n+2 + nan−1 An Pn (cos θ) = M0 cos θ ,
n=0
a
4
Nas expressões seguintes os ı́ndices “i” e “e” indicam interior e exterior da esfera, respectivamente. Assim,
Vmi é o potencial interior e Vme o exterior.
244 •
Campo electromagnético

igualdade que só se verifica, para qualquer θ, desde que

Bn0
(n + 1) + nan−1 An = 0 , n 6= 1 (8.57)
an+2
e
2B10
+ A1 = M0 , n = 1. (8.58)
a3
A continuidade do potencial, para r = a, introduz as seguintes condições:

Bn0
= an An , n 6= 1 (8.59)
an+1
e
B10
= aA1 , n = 1. (8.60)
a2
As eqs. (8.57) e (8.59) só se podem verificar simultaneamente se Bn0 = An = 0, para qualquer
n 6= 1. Por outro lado, combinando (8.60) com (8.58), obtém-se

M0 M0 a3
A1 = e B10 = .
3 3
Os potenciais interior e exterior tomam as formas, respectivamente,

M0 M0
Vmi = r cos θ = z
3 3
e
M0 a3
Vme = cos θ .
3 r2
Como se poderá verificar, as expressões obtidas para o potencial satisfazem necessariamente
a condição de fronteira que traduz a continuidade da componente tangencial do campo H ,
Eq. (8.53).
O campo magnético é obtido tomando o simétrico do gradiente de Vm . No interior, convém
usar a expressão do gradiente em coordenadas cartesianas, obtendo-se

dVmi M M
H i = −∇Vmi = − êz = − 0 êz = − .
dz 3 3
Note-se a analogia formal entre este resultado e a expressão obtida para o campo eléctrico
no interior de uma esfera uniformemente polarizada (ver Exemplo 5.2).
No exterior, é mais fácil utilizar coordenadas esféricas, obtendo-se
µ ¶
∂Vme 1 ∂Vme
He = − êr + êθ
∂r r ∂θ
M0 a3
= ( 2 cos θ êr + sin θ êθ ) .
3r3
As dependências radial e angular encontradas são tı́picas de um campo dipolar, observando-
se, também neste caso, uma analogia formal com o campo eléctrico no exterior de uma esfera
uniformemente polarizada (ver Exemplo 5.2).
Magnetismo em meios materiais •
245

Calculemos, finalmente, o campo de indução magnética nas duas regiões: a interior e a


exterior.
i) Região interior:
µ ¶
M0 2
B i = µ0 (H i + M ) = µ0 − êz + M0 êz = µ0 M0 êz ;
3 3
ii) Região exterior:

µ0 M0 a3
B e = µ0 H e = ( 2 cos θ êr + sin θ êθ ) .
3r3
De resto, este resultado também podia ser obtido a partir da expressão geral do campo de
indução magnética dipolar [Eq. (7.31)],
µ0 m
Be = ( 2 cos θ êr + sin θ êθ ) ,
4πr3
usando o valor do momento dipolar da esfera uniformemente magnetizada:
4
m = M0 πa3 .
3
As linhas dos campos B , H e M estão esboçadas na Figura 8.13.

B
M
B ,H
H

Figura 8.13. Linhas dos campos B , H


e M.

8.9.5 Esfera magnética em campo uniforme


Questão
Uma esfera de raio a e permeabilidade magnética µ constante é colocada numa região
onde existe um campo de indução magnética uniforme B0 = B0 k̂ . Calcular os campos B
e H em todo o espaço.

Resposta
Não há correntes livres nem dependências temporais. O material é linear, homogéneo
e isotrópico e podemos então adoptar o formalismo do potencial escalar magnético, Vm , o
qual obedece à equação de Laplace, ∇2 Vm = 0, e obter o campo magnético a partir de
H = −∇Vm .
246 •
Campo electromagnético

Pode estabelecer-se uma analogia entre a presente situação e o Exemplo 6.7 relativo a uma
esfera dieléctrica colocada numa região onde existia um campo eléctrico uniforme. Remete-
se, pois, o leitor para esse exemplo, devendo notar-se o seguinte: o potencial electrostático
deve ser substituı́do pelo potencial escalar magnético; a permitividade relativa, ²r , deve ser
substituı́da pela permeabilidade relativa µr = µ/µ0 ; o valor do campo eléctrico, E0 , deve ser
substituı́do por H0 = B0 /µ0 . O potencial escalar Vm é dado, no interior e no exterior da
esfera, por [ver (6.74) e (6.75)]
3H0
Vmi = − r cos θ r≤a (8.61)
µr + 2

µr − 1 a3 H0 cos θ
Vme = −H0 r cos θ + r ≥ a. (8.62)
µr + 2 r2
Atendendo a que z = r cos θ, é mais fácil utilizar coordenadas cartesianas, na determinação
do campo H no interior da esfera:
3H0
H i = −∇Vmi = k̂ . (8.63)
µr + 2
O campo de indução magnética é
3H0
B i = µ H i = µr µ0 k̂ ,
µr + 2
ou ainda
3µr
Bi = B0 k̂ .
µr + 2
A magnetização da esfera é dada pelo vector M ,
µ ¶
Bi 3µr B0 3H0
M = − Hi = − k̂
µ0 µr + 2 µ0 µr + 2

3 (µr − 1)
= H0 k̂ .
µr + 2

Como χm = µr − 1 e H i é dado por (8.63), verifica-se a relação M = χm H i , o que é


coerente com o facto de se tratar de um material linear, homogéneo e isotrópico. A partir
das expressões obtidas para B i , H i e M , é fácil mostrar que
2
B i = B0 + µ0 M
3
e
M
H i = H0 − .
3
No exterior, o campo magnético é obtido calculando −∇Vme , com Vme dado por (8.62),
µ ¶3
µr − 1 a
H e = H0 + H0 (2 cos θ êr + sin θ êθ ) ,
µr + 2 r
ou seja, é a soma do campo que existia inicialmente com um campo dipolar [ver Eq. (7.31)].
O campo de indução magnética, B e , é simplesmente µ0 H e , uma vez que a magnetização
no exterior é nula.
Magnetismo em meios materiais •
247

8.9.6 Cilindro magnetizado


Questão
Um cilindro de comprimento L e raio R é constituı́do por um material permanentemente
magnetizado, cuja magnetização é dada por
(
0<r<R
M = M0 êz para
−L/2 < z < L/2 ,

com M0 constante. O material encontra-se no vácuo.


Determinar os campos H e B em todo o espaço no caso L À R e R À L.

Resposta

z
n^

L /2
M
M
y
n^ L /2
x

n^

Figura 8.14. Cilindro uniformemente


magnetizado.

Consideremos a Figura 8.14, que representa o cilindro magnetizado. As correntes


volumétricas de magnetização são obtidas a partir do rotacional da magnetização [cf. (8.5)]
jm = ∇ × M (8.64)
e as correntes superficiais a partir do rotacional superficial da magnetização [cf. (8.6)]:
κm = rotS M = n̂ × (M2 − M1 ) ,
onde n̂ é a normal à superfı́cie que aponta para o meio 2.
Como a magnetização dada é constante, o rotacional (8.64) é nulo e, portanto,
jm = 0 .
As correntes superficiais são nulas nas bases do cilindro, pois a magnetização e o versor normal
às bases têm a mesma direcção. Na superfı́cie lateral do cilindro,
κm = êr × (0 − M0 êz ) = M0 êφ . (8.65)
248 •
Campo electromagnético

Esta corrente superficial é semelhante à que se tem num solenóide e, portanto, o campo B ,
devido ao cilindro magnetizado, deverá ser análogo ao do solenóide com as mesmas dimensões.
Vamos supor que o cilindro é muito longo (L À R) e, por isso, considerar que o campo B
é da mesma forma do campo de indução magnética criado por um solenóide infinito: nulo
em pontos exteriores na vizinhança do solenóide e constante no seu interior 5 . O rotacional
superficial do campo de indução magnética é

rotS B = µ0 κtotal = µ0 κm ,

pois não há correntes livres. Calculando o rotS B sobre a superfı́cie lateral e usando a ex-
pressão (8.65), obtém-se
B = µ0 M0 k̂ = µ0 M (8.66)

no interior do cilindro.
Sendo o campo magnético H dado por

B
H= −M ,
µ0

é nulo no interior do cilindro. No exterior a magnetização é nula e H e B são paralelos; no


cilindro de comprimento infinito estes campos seriam nulos. No entanto, deve reforçar-se a
ideia de que (8.66) não se verifica efectivamente para um cilindro finito e, portanto, H não é
efectivamente nulo em todo o espaço como aconteceria para a magnetização constante dada
num cilindro infinito. A Figura 8.15 mostra as linhas de B e M no caso de L À R.

B , H » 0

H » 0

Figura 8.15. Linhas dos campos B e M no caso do cilindro


longo.

5
Na prática, nunca o cilindro (nem o solenóide) são infinitos, pelo que, em rigor, o campo de indução
magnética não é nulo no exterior, nem uniforme no interior.
Magnetismo em meios materiais •
249

Consideremos agora o formalismo das cargas magnéticas, que é o mais adequado para
tratar o problema no limite R À L. A densidade volumétrica de carga magnética é nula,
pois a magnetização é constante. A densidade superficial de carga magnética é
σ ∗ = −divS (µ0 M ) = −n̂ · (µ0 M2 − µ0 M1 ) ,
sendo nula sobre a superfı́cie lateral do cilindro, pois M e n̂ são ortogonais. Na base superior
do cilindro (z = L/2) existe uma densidade superficial de carga magnética

σsup = −k̂ · (−µ0 M0 k̂) = µ0 M0
e, na base inferior (z = −L/2), uma densidade superficial de carga magnética simétrica:

σinf = −µ0 M0 .
As eqs. (8.24) e (8.25) indicam que se pode obter o campo H por analogia com o campo
eléctrico criado por dois discos carregados. Se os discos puderem ser considerados infinitos,
o campo criado por cada um deles será, em cada ponto, independente da distância ao disco
σ∗ M0
e de módulo 2 µ0 = 2 .
O campo criado pelo disco superior tem, para z > L/2, o sentido de k̂ e para z < L/2 o
sentido de −k̂. O disco inferior cria um campo que, para z > −L/2, tem o sentido de −k̂ e
o sentido contrário para z < −L/2. Tal significa que
L L
H =0 para z < − e z>
2 2
e
L L
H = −M0 k̂ para −
<z< .
2 2
Dentro do cilindro este campo magnético é oposto à magnetização, donde resulta um campo
de indução magnética nulo.

B , H » 0

H
B » 0

Figura 8.16. Linhas dos campos H e M para um cilindro


uniformemente magnetizado com o raio da base muito maior
do que o seu comprimento.

Na Figura 8.16 representam-se as linhas de H para o caso R À L. As cargas magnéticas


estão indicadas nas bases do cilindro, sendo as linhas de H semelhantes às linhas de E
resultantes de uma distribuição semelhante de cargas eléctricas. Na região central o campo
é uniforme e nos bordos há “distorção” das linhas do campo, tal como se observa num
condensador plano. Fora da região entre as “placas” os campos magnético e de indução
magnética são nulos.
Muitas vezes, as situações reais não correspondem nem ao primeiro caso (cilindro infinito),
nem ao caso que acabámos de analisar (bases do cilindro infinitas); são situações intermédias,
para as quais a análise pormenorizada é mais delicada.
250 •
Campo electromagnético

8.9.7 Casca esférica magnetizada


Questão
Uma casca esférica de raios a e b (a < b) está magnetizada, sendo o vector magnetização no
seu interior dado por M = êr M0 /r, em que M0 é constante. Obter as correntes equivalentes
de Ampère e determinar B e H em todo o espaço.

Resposta
As correntes equivalentes de Ampère são dadas por jm = ∇ × M e κm = rotS M . As
correntes volumétricas são nulas, pois o rotacional do campo de magnetização, que é radial e
só depende da coordenada radial, é nulo. Considere-se a Figura 8.17, onde está representada
em corte a casca esférica.

b
M

Figura 8.17. Vista em corte da “casca


magnetizada”.

Sobre as superfı́cies esféricas de raios a e b também não há correntes de Ampère, pois
a magnetização, embora tenha descontinuidade segundo a normal, não tem descontinuidade
segundo qualquer direcção perpendicular à normal: a componente tangencial da magnetização
é sempre nula, dentro e fora da camada. Como também não há correntes livres, o campo B
é nulo em todo o espaço. O campo H é, então, dado por

B M0
H= − M = −M = − êr , (8.67)
µ0 r

na região a < r < b. Fora do material magnetizado, o campo magnético é nulo.


É útil abordar o mesmo problema no formalismo das cargas magnéticas. A distribuição
volumétrica de carga magnética é
µ ¶
∗ 1 d µ0 M0 µ0 M0
ρ = −∇ · (µ0 M ) = − 2 r2 =−
r dr r r2

e a superficial µ ¶
µ0 M0 µ0 M0
σ ∗ (r = a) = êr · 0 − êr =−
a a
Magnetismo em meios materiais •
251

e µ ¶
∗ µ0 M0 µ0 M0
σ (r = b) = −êr · 0 − êr = .
b b
A carga total existente no volume é
Z b
µ0 M0
Q∗v = −4π r2 dr = −4πµ0 M0 (b − a) ,
a r2

e, nas superfı́cies,

Q∗s (r = a) = −4 π µ0 M0 a

Q∗s (r = b) = 4 π µ0 M0 b ,

verificando-se, assim, que a carga total é nula: Q∗ = Q∗v + Q∗ (r = a) + Q∗ (r = b) = 0.


O teorema de Gauss permite relacionar o campo H com as cargas de magnetização:
I
Q∗
H · dS = .
S µ0

A sua aplicação a este problema, escolhendo superfı́cies gaussianas esféricas concêntricas com
as camadas r = a e r = b, permite concluir que:

• O campo H é nulo para r < a e para r > b;

• Na região a < r < b o campo é dado por


µ Z r ¶
2 1 µ0 M0 2
4πr H = −4 π µ0 M0 a − 4 π 2
r dr = −4 π M0 r ,
µ0 a r

donde
M0
H =− êr = −M ,
r
resultado já anteriormente obtido [cf. (8.67)].

8.9.8 Esfera com magnetização não uniforme

Questão

Uma esfera de raio a tem uma magnetização não uniforme dada por

M = (αz 2 + β)k̂ ,

onde α e β são constantes. A origem dos eixos é o centro da esfera.


Calcular as correntes equivalentes de Ampère e as densidades de “carga magnética”. Ex-
plicitar as condições que as componentes normais e tangenciais de H , M e B devem satis-
fazer sobre a superfı́cie da esfera.
252 •
Campo electromagnético

^
k
^e
r
z

q a
x
y

Figura 8.18. Esquema da esfera magnetizada do Problema


8.9.8

Resposta

A densidade volumétrica de corrente é

∂Mz ∂Mz
jm = ∇ × M = î − ĵ = 0.
∂y ∂x

Sobre a superfı́cie (ver Figura 8.18) a densidade superficial de corrente é dada por

κm = êr × (M2 − M1 ) = êr × [0 − (αz 2 + β) k̂] , (8.68)

com z = a cos θ. Por outro lado, êr × k̂ = −êφ sin θ, pelo que

κm = (α a2 cos2 θ + β) sin θ êφ . (8.69)

As densidades de carga magnética são:


i) volumétrica

dMz
ρ∗ = −∇ · (µ0 M ) = −µ0 = −µ0 2 α z
dz
= −2 µ0 α r cos θ ;

ii) superficial

σ ∗ = −n̂ · (µ0 M2 − µ0 M1 )
= −êr · [0 − µ0 (α a2 cos2 θ + β) k̂ ] = µ0 (α a2 cos2 θ + β) cos θ .
Magnetismo em meios materiais •
253

Vejamos agora quais são as condições que as componentes normais e tangenciais dos cam-
pos devem satisfazer.

• Campo H
As componentes tangenciais do campo magnético satisfazem a equação

rotS H = κ` = 0 ,

pois, no caso presente, não há correntes livres. As componentes tangenciais de H são
contı́nuas sobre a superfı́cie da esfera:

H2t − H1t = 0 . (8.70)

Quanto às componentes normais, a condição que devem satisfazer resulta da equação
σ∗
divS H = n̂ · (H2 − H1 ) = ,
µ0

donde se obtém [ver também (8.70)]

H2n − H1n = (αa2 cos2 θ + β) cos θ ; (8.71)

• Campo M
As componentes tangenciais da magnetização satisfazem a condição expressa por (8.68),
tendo-se [ver também (8.69)]

M2t − M1t = (αa2 cos2 θ + β) sin θ . (8.72)

Para as componentes normais a condição é expressa por (8.70), que aqui se volta a
escrever na forma
M2n − M1n = −(αa2 cos2 θ + β) cos θ ; (8.73)

• Campo B
Sendo B = µ0 (H + M ), as condições que as componentes de B têm de satisfazer
resultam directamente das condições obtidas para o campo magnético e para a magne-
tização. Assim, de (8.70) e de (8.72),

B2t − B1t = µ0 (αa2 cos2 θ + β) sin θ ;

e, de (8.71) e de (8.73),
B2n − B1n = 0 .
254 •
Campo electromagnético
CAPÍTULO 9
ONDAS ELECTROMAGNÉTICAS
No inı́cio do capı́tulo apresentam-se, em jeito de sumário, as equações de Maxwell.
Estudam-se depois as equações de onda para os campos E e B no vazio e suas soluções
de onda plana. No âmbito de considerações energéticas relativas ao campo electromagnético,
define-se o vector de Poynting e apresenta-se o teorema de Poynting. Analisam-se seguida-
mente as soluções das equações de onda para os campos eléctrico e magnético em meios
estáticos, lineares, isotrópicos e homogéneos (meios não condutores e meios condutores).
Estuda-se a mudança de meio de uma onda electromagnética para se deduzirem as leis da
reflexão e da refracção. O problema dos guias de ondas é abordado no final do capı́tulo.

9.1 EQUAÇÕES DE MAXWELL — RESUMO

As equações de Maxwell mais gerais, no sentido em que são válidas quer no vazio, quer
em meios materiais, são escritas na forma:
ρ
∇·E = (9.1)
²0
∂B
∇×E+ =0 (9.2)
∂t
∇·B =0 (9.3)
1 ∂E
∇×B− 2 = µ0 j , (9.4)
c ∂t
onde (entre parêntesis rectos apresenta-se a respectiva unidade SI):

• E é o campo eléctrico [V/m];

• B é o campo de indução magnética [T];


256 •
Campo electromagnético

• ρ é a densidade de carga [C/m3 ];

• j é a densidade de corrente [A/m2 ];

• ²0 = 8, 85×10−12 F/m é a permitividade do vazio;

• µ0 = 4 π ×10−7 H/m é a permeabilidade do vazio;

• c = (²0 µ0 )−1/2 = 3×108 m/s é a velocidade da luz.

As densidades de carga e de corrente são dadas, respectivamente, por

ρ = ρ` + ρp
∂P
j = j` + jm + ,
∂t
onde

• ρ` é a densidade de carga livre;

• j` é a densidade de corrente livre;

• ρp é a densidade de carga de polarização;

• jm é a densidade de corrente de magnetização;

• P é o vector polarização [C/m2 ];


∂P
• ∂t é a densidade de corrente de polarização [A/m2 ].

A densidade de carga de polarização relaciona-se com o vector polarização e a densidade


de corrente de magnetização relaciona-se com o vector magnetização, M [A/m], através de

ρp = −∇ · P
jm = ∇ × M .

Em meios em repouso, com comportamento linear e isotrópico, tem-se

j` = σ E (9.5)
P = ²0 χe E (9.6)
M = χm H , (9.7)

onde

• σ é a condutividade [1/(Ω·m)];

• χe é a susceptibilidade eléctrica (sem dimensões);

• χm é a susceptibilidade magnética (sem dimensões);

• H é a intensidade magnética [A/m].


Ondas electromagnéticas •
257

Define-se a permitividade relativa, ²r , e a permeabilidade relativa, µr , dos meios através


de
²
²r = 1 + χe = ⇒ ² = ²0 ²r
²0
µ
µr = 1 + χm = ⇒ µ = µ0 µr ,
µ0
sendo ² e µ, respectivamente, a permitividade e a permeabilidade absolutas.
Há outras maneiras equivalentes de escrever as equações de Maxwell mas, insistimos, nada
contêm de novo. Uma delas é a formulação amperiana que considera os vectores E , B , P ,
M e as densidades de carga e corrente livres, tendo-se
ρ` − ∇ · P
∇·E = (9.8)
²0
∂B
∇×E+ =0 (9.9)
∂t
∇·B =0 (9.10)
µ ¶
1 ∂E ∂P
∇×B− 2 = µ 0 j` + +∇×M . (9.11)
c ∂t ∂t
No caso de meios homogéneos, lineares e isotrópicos, ρ` = ²r ρ, P = ²0 (²r − 1) E ,
M = (µr − 1) B /(µr µ0 ); as equações de Maxwell são dadas por
ρ`
∇·E =
²
∂B
∇×E+ =0
∂t
∇·B =0
∂E
∇ × B − ²µ = µ j` .
∂t
A formulação de Minkowski das equações de Maxwell utiliza os vectores E , D = ²0 E + P
(que é o vector deslocamento [C/m2 ]), B e H . O conjunto anterior de equações é escrito
então na forma

∇ · D = ρ` (9.12)
∂B
∇×E+ =0 (9.13)
∂t
∇·B =0 (9.14)
∂D
∇×H − = j` . (9.15)
∂t
D é a corrente de deslocamento (Secção 2.3) ou, mais apropriadamente, densidade
O termo ∂∂t
de corrente de deslocamento.
As equações de Maxwell contêm a lei de conservação da carga, como se pode verificar
tomando a divergência de (9.4) e usando (9.1) e a igualdade c−2 = ²0 µ0 :
∂ρ
∇·j =− .
∂t
Esta forma da equação de continuidade é geral: ρ contém as contribuições de cargas livres e
de polarização, se existirem, e j as correntes livres, de polarização e de magnetização.
258 •
Campo electromagnético

Façamos, finalmente, um resumo das condições de fronteira:

divS D = n̂ · (D2 − D1 ) = σ` (9.16)


rotS E = n̂ × (E2 − E1 ) = 0 (9.17)
divS B = n̂ · (B2 − B1 ) = 0 (9.18)
rotS H = n̂ × (H2 − H1 ) = κ` (9.19)
divS P = n̂ · (P2 − P1 ) = −σp (9.20)
rotS M = n̂ × (M2 − M1 ) = κm , (9.21)

onde n̂ é o versor perpendicular à superfı́cie que aponta para o meio 2, e


• σ` é a densidade superficial de carga livre [C/m2 ];

• κ` é a densidade superficial de corrente livre [A/m];

• σp é a densidade superficial de carga de polarização [C/m2 ];

• κm é a densidade superficial de corrente de magnetização [A/m].

Note-se que nem ∂∂t B , em (9.13), nem ∂ D , em (9.15), contribuem para estas condições
∂t
de fronteira. Na verdade, o fluxo destes vectores, através de uma superfı́cie que se apoia
no contorno fechado C da Figura 8.3, tende necessariamente para zero, porque a área dessa
superfı́cie tende para zero (nessa mesma figura, ds → 0).

9.2 CAMPO ELECTROMAGNÉTICO NO VAZIO

No Capı́tulo 2 (Secção 2.5) obtiveram-se equações não acopladas para os campos E e B


no caso em que existiam fontes, cargas e correntes livres, mas na ausência de meios materiais.
O estudo das equações de onda em meios materiais será deixado para mais tarde. Analisamos
agora as soluções das equações para os campos E e B no vazio.
Fora das regiões onde se localizam as fontes, tem-se j` = 0 e ρ` = 0, pelo que as eqs.
(2.83) e (2.84) se reduzem às seguintes equações diferenciais homogéneas lineares às derivadas
parciais:

1 ∂2E
∇2 E − = 0 (9.22)
c2 ∂t2
1 ∂2B
∇2 B − 2 = 0. (9.23)
c ∂t2
Estas são equações de onda, cujas soluções são ondas que se propagam com velocidade c.
Consideremos o caso particular de ondas planas que se propagam na direcção do eixo z.
Designando por Φ qualquer das componentes dos campos eléctrico e de indução magnética,
tem-se para Φ a seguinte dependência no espaço e no tempo: Φ(r , t) = Φ(z, t). A solução
mais geral da equação
∂2Φ 1 ∂2Φ
= (9.24)
∂z 2 c2 ∂t2
é da forma
Φ(z, t) = f− (z − ct) + f+ (z + ct) , (9.25)
sendo f− e f+ funções arbitrárias dos respectivos argumentos indicados em (9.25). A função
f− representa uma onda progressiva que se propaga no sentido positivo do eixo z e a função
Ondas electromagnéticas •
259

f+ uma onda que se propaga no sentido negativo desse mesmo eixo (ver Problema 9.9.6).
Dado o carácter linear da equação de onda (9.24), qualquer combinação linear de soluções do
tipo (9.25) é ainda uma solução.
Como a equação de Maxwell ∇ · E = 0 se verifica em qualquer ponto do espaço, pode
concluir-se que ∂Ez /∂z = 0, uma vez que não há dependências em x ou em y no caso de uma
onda plana. Pelo mesmo motivo, e dado que ∇ · B = 0, também ∂Bz /∂z = 0, pois o campo
de indução magnética também não depende de x nem de y. Por outro lado, da equação de
Maxwell ∇ × E = −∂ B /∂t, pode concluir-se que ∂Bz /∂t = 0. De facto, no primeiro membro
daquela equação de Maxwell não há componente segundo k̂, o que é uma consequência de o
campo eléctrico não depender de x nem de y. Aplicando a mesma argumentação ao campo de
indução magnética, ou seja, fazendo agora uso da equação de Maxwell ∇ × B = ²0 µ0 ∂ E /∂t,
conclui-se que ∂Ez /∂t = 0. Sumariando, podemos escrever
∂Ez ∂Ez ∂Bz ∂Bz
= 0, = 0, = 0, = 0, (9.26)
∂z ∂t ∂z ∂t
e concluir que as componentes segundo a direcção de propagação não variam nem no espaço
nem no tempo. Tem-se, de facto, Ez = 0 e Bz = 0, pois interessam unicamente soluções
com carácter ondulatório e não campos uniformes. Pode afirmar-se que o campo eléctrico e
o campo de indução magnética (ou, seja, o campo electromagnético) são transversos, quer
dizer, não têm componente segundo a direcção de propagação da onda.
Fixada a direcção z de propagação da onda e, tendo-se mostrado que os campos E e B
se encontram no plano perpendicular a esta direcção, vamos supor que a direcção do campo
eléctrico é sempre a mesma. Seja essa a direcção do eixo x:

E = Ex (z, t) î . (9.27)

Quando o campo eléctrico mantém fixa a sua direcção diz-se que a onda plana está polarizada
linearmente (Secção 9.3). A partir das equações de Maxwell no vazio, (9.2) e (9.4) com j = 0,
conclui-se, usando (9.26), que, para o campo eléctrico da forma (9.27), se tem necessariamente
um campo de indução magnética, tal que
∂Bx ∂Bx
= 0, = 0.
∂z ∂t
Reafirmando que não importa considerar campos uniformes, mas sim campos que variem no
espaço e no tempo, faz-se Bx = 0, de modo que o campo de indução magnética compatı́vel
com (9.27) é perpendicular ao campo eléctrico, sendo da forma

B = By (z, t) ĵ . (9.28)

Vamos continuar a considerar ondas linearmente polarizadas, que se propagam no sentido


positivo do eixo z, mas agora com uma dependência espácio-temporal bem definida do tipo
sinusoidal. A função · µ ¶ ¸
z
Ex = E0x cos ω t − +θ (9.29)
c
representa uma onda progressiva deste tipo. Trata-se de uma solução da componente x da
equação de onda (9.22), mas não é, evidentemente, a sua solução geral. Relembre-se, porém,
que a análise de Fourier permite sempre decompor uma onda progressiva qualquer, que se
propaga na direcção positiva do eixo z, numa combinação linear de funções sinusoidais do tipo
(9.29) e daı́ a sua utilidade, pois constituem uma base completa de funções. A quantidade
260 •
Campo electromagnético

real e positiva E0x é a amplitude da onda; o ângulo θ é a sua fase na origem; e ω é a frequência
angular. O campo B associado a (9.29) é obtido atendendo a (9.28) e à equação de Maxwell
∇ × E = −∂ B /∂t. Esta equação fica reduzida à sua componente segundo a direcção ĵ ,
passando a ser escrita do seguinte modo:
∂Ex ∂By
=− .
∂z ∂t
Usando (9.29), a equação anterior fica
· µ ¶ ¸
ω z ∂By
E0x sin ω t − +θ =−
c c ∂t
e, integrando em ordem ao tempo e fazendo nula a constante de integração por não interes-
sarem campos constantes, vem
· µ ¶ ¸
E0x z
By = cos ω t − +θ . (9.30)
c c

A equação ∇ × B = c−2 ∂ E /∂t é também satisfeita por (9.29) e (9.30), como pode ser
comprovado directamente. Comparando (9.30) com (9.29) conclui-se que, em cada instante,
a componente x do campo eléctrico e a componente y do campo de indução magnética se
relacionam através de
Ex
By = . (9.31)
c
Os campos eléctrico e de indução magnética, além de serem sempre ortogonais entre si, estão
em fase. A Figura 9.1 representa um esquema dos campos eléctrico e de indução magnética
de uma onda electromagnética plana, sinusoidal, linearmente polarizada, que se propaga no