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Ano XXVI- janeiro/2015 nº280 - R$ 13,00 - www.musitec.com.

br

MIDAS M32
Tudo sobre o novo console de alto
desempenho com conversores de grande
capacidade e pré-amp analógico

PRESSÃO SONORA
AO VIVO TESTES
Medições e mixagens para
evitar excessos nos shows INTERFACES BEHRINGER
U-PHORIA UM2 E UMC22
FAÇA Opções para o seu home studio
C Ê M E S MO
VO truir
ns
Como coacústicos SMART CONTROLS
p a i n é i s óve i s Novo recurso organiza melhor área de
m
trabalho no Logic e estimula criatividade
Imagens do passado: musical Constellation transporta público para os anos 1950
A
CEN

Por dentro das novas câmeras URSA e Studio Camera, da Blackmagic


Z&
LU

áudio música e tecnologia | 1


Efeitos de correção no Media Composer para facilitar seu dia a dia
2 | áudio música e tecnologia
áudio música e tecnologia | 1
ISSn 1414-2821
EDITORIAL
Áudio Música & Tecnologia
Ano XXVI – nº 280/janeiro de 2015
Fundador: Sólon do Valle

Começando
Direção geral: Lucinda Diniz -
lucinda@musitec.com.br
Edição jornalística: Marcio Teixeira

bem o novo ano


Consultoria de PA: Carlos Pedruzzi

COLABORARAM nESTA EDIÇÃO


André Paixão, Cristiano Moura, Daniel
Raizer, Davison Pinheiro, Denio Costa,
Feliz ano novo, caro leitor! Como é que foram as festas? No dia primeiro che-
Emerson Duarte, Enrico De Paoli, Fábio
gou a listar planos para os próximos 365 dias? Metas? Disse pra si mesmo Henriques, Farlley Derze, Lucas Ramos,
o que vai mudar, o que vai mudar radicalmente e o que seguirá do mesmo Renato Muñoz e Ricardo Honório.
jeito? Caso trabalhe com áudio, já está pensando em novos cursos e/ou equi-
pamentos e naquela obra no estúdio? Caso faça sua própria música, 2015 REDAÇÃO
será marcado por uma guinada rumo ao desconhecido, em direção ao expe- Marcio Teixeira - marcio@musitec.com.br
rimentalismo com o auxílio da tecnologia? Finalmente vai colocar em prática Rodrigo Sabatinelli - rodrigo@musitec.com.br
o que até agora não saiu do papel? Dirá alguns “olás” e alguns “adeus”? Que redacao@musitec.com.br
você tenha respondido alguns “sins” a essas perguntas, leitor, pois ano novo cartas@musitec.com.br
é tempo de transformação, e que sempre seja pra melhor.
DIREÇÃO DE ARTE E DIAGRAMAÇÃO
Client By - clientby.com.br
Nesta edição da AM&T que inaugura 2015 trazemos como principal destaque o
Frederico Adão e Caio César
novo console Midas M32. Na matéria, o especialista Emerson Duarte mostra cada
detalhe do produto e indica o que faz da mesa um item que vale ser conferido (e Assinaturas
que vale capa, diga-se de passagem). Ainda no tema produtos, apresentamos os Karla Silva
testes que nosso colunista Lucas Ramos (autor da seção Em Casa) fez com duas assinatura@musitec.com.br
novas interfaces Behringer – UM2 e UMC22 – indicadas para home studios.
Distribuição: Eric Brito
O pianista Fernando Moura abriu seu estúdio para nós e contou a história do
lugar, além de falar sobre o mais recente álbum da dupla que forma com o Publicidade
Mônica Moraes
percussionista do A Cor do Som Ary Dias. Indo do estúdio para o palco, Re-
monica@musitec.com.br
nato Muñoz, nessa edição do Notícias do Front, continua a tratar do assunto
“compressão”, enquanto que Denio Costa, em seu texto sobre pressão sono-
Impressão: Ediouro Gráfica e Editora Ltda.
ra em shows, discorre sobre a necessidade de medição adequada dos níveis
sonoros em apresentações ao vivo, sobre saúde auditiva e sobre mixagem Áudio Música & Tecnologia
em níveis menores como alternativa a este panorama. Bem interessante. é uma publicação mensal da Editora
Música & Tecnologia Ltda,
Na seção Produção Fonográfica Davison Pinheiro mostra como você pode CGC 86936028/0001-50
construir painéis acústicos móveis de um jeito fácil e gastando pouco, en- Insc. mun. 01644696
quanto que na Desafiando a Lógica o autor André Paixão, vulgo Nervoso, Insc. est. 84907529
apresenta uma novidade de grande valor pra quem usa o programa: os Periodicidade Mensal
Smart Controls, recursos que, como o próprio André destaca, tornam possí-
ASSInATURAS
vel organizar melhor a área de trabalho do usuário do Logic, além de estimu-
Tel/Fax: (21) 2436-1825
lar a criatividade. E tem muito mais coisa legal nessa AM&T. Só não vai dar
(21) 3435-0521
pra citar aqui por pura falta de espaço mesmo.
Banco Bradesco
Ag. 1804-0 - c/c: 23011-1
Por sua vez, o caderno Luz & Cena reserva ao leitor matérias sobre o musi-
cal Constellation, que nos leva a 1955 com suas luzes, cenários e canções, Website: www.musitec.com.br
e também sobre as novas câmeras URSA e Studio Camera, da Blackmagic,
além de trazer as colunas Iluminando, Media Composer e Final Cut. Distribuição exclusiva para todo o Brasil
pela Dinap S/A – Distribuidora nacional de
Enfim, a revista está no capricho. Que o ano de todos nós seja assim! Publicações, Rua Dr. Kenkiti Shimomoto, nº
1678, CEP 06045-390 – São Paulo – SP”
Boa leitura!
não é permitida a reprodução total ou
parcial das matérias publicadas nesta revista.

Marcio Teixeira AM&T não se responsabiliza pelas opiniões


de seus colaboradores e nem pelo conteúdo
2 | áudio música e tecnologia dos anúncios veiculados.
áudio música e tecnologia | 3
34 Som ao Vivo
Pressão sonora em shows: Tem como trabalhar mais alto?
Denio Costa

40
Novo console Midas M32
38 Quem é Quem?
Técnico de instrumentos – Por dentro do trabalho dos
roadies, verdadeiras “sombras” dos músicos
Rodrigo Sabatinelli
Uma mesa de alto desempenho com
conversores de grande capacidade, 46 Tudo em casa
Lançando novo disco, Fernando Moura mostra seu
pré-amplificador analógico e faders estúdio caseiro, resultado de um investimento de 30 anos
motorizados feitos para durar Rodrigo Sabatinelli
Emerson Duarte
14 Teste
Interfaces de áudio Behringer U-Phoria UM2 e UMC22
50 Desafiando a Lógica
Smart Controls – Uma novidade para organizar melhor sua
Boas opções para home studios, modelos oferecem área de trabalho no Logic e estimular performances criativas
compatibilidade com Windows e Mac e podem ser André Paixão
usados com quase todos os softwares de áudio
Lucas Ramos
54 Mixagem
Plug-ins pra levar pra uma ilha deserta: Falando
sobre ferramentas de confiança que servem para
20 Áudio no Brasil
Lembrando grandes obras do lado agilizar – ou até viabilizar – o trabalho
produtor de Paulinho Tapajós Fábio Henriques
Marcio Teixeira
58 Produção Fonográfica
24 Em Casa
Conexões Analógicas (Parte 4): Como soldar
Emplacando a acústica: Economia que se ouve
Davison Pinheiro
cabos com diferentes conectores
Lucas Ramos 96 Lugar da Verdade
Piloto automático no soundcheck do show
28 Plug-ins
Renaissance Maxx Bundle: Sim: o “bom e barato” existe
Enrico De Paoli

Cristiano Moura
seções
30 Notícias do Front
Compressão ao vivo (Parte 2) – Voltando editorial 2 notícias de mercado 6
um pouco no tempo novos produtos 10 índice de anunciantes 95
Renato Muñoz

76
vídeo
URSA e Studio Camera: Por dentro dos novos modelos da
recém-ampliada linha de câmeras Blackmagic

72
por Rodrigo Sabatinelli

80
media composer
capa Efeitos para correção: Soluções para
Imagens do passado: Musical o dia a dia na ilha de edição
Constellation transporta por Cristiano Moura
público para os anos 1950

86
por Rodrigo Sabatinelli

PRODUTOS ........................................... 68
iluminando
História dos profissionais de iluminação cênica no Brasil:
EM FOCO .............................................. 70
Sétimo capítulo – Aurélio de Simoni (Parte 2)
F i n al C ut .............................................. 90
por Farlley Derze
4 | áudio música e tecnologia
áudio música e tecnologia | 5
nacionais de pró-áudio e showbusiness ainda
têm muito a evoluir

NOTÍCIAS DE MERCADO

SHURE TEM nOVO InTEGRAnTE nA EQUIPE DE


VEnDAS E MARKETInG PARA A AMÉRICA LATInA
A Shure Incorporated anunciou em novembro o nome de Jon Lopes como novo espe-
Divulgação

cialista em desenvolvimento de mercado do time de Vendas e Marketing da empresa


para a América Latina. Com base em São Paulo, Jon, que tem mais de 15 anos no ramo
de tecnologia, áudio e RF, irá trabalhar junto a distribuidores, clientes e parceiros da
empresa, além de oferecer suporte aos usuários no Brasil e de ser o responsável pelo
marketing de produtos para toda a AL.

“É importante termos alguém da Shure atuando como uma interface entre a empresa
e o consumidor na região”, afirmou José A. Rivas, diretor da companhia para América
Latina e Caribe. Jon, por sua vez, destacou que sua longa história com a marca e o
Jon Lopes: reforço da
conhecimendo de idiomas foram determinantes para a contratação. "Meu desafio é
Shure para seu time
ajudar a Shure a crescer ainda mais no Brasil, país continental que é um dos principais
latino-americano
mercados da América Latina", concluiu.

MÚSICA ELETRÔnICA VInTAGE EM WORKSHOP


Nos dias 24 e 25 de janeiro acontece, no Rio, o workshop Synthcamp, que abordará produção musical com baterias ele-
trônicas e synths analógicos das décadas de 1970, 80 e 90. A proposta é contar com o apoio dessas ferramentas para que
o aluno estude os princípios da música eletrônica.

À frente do workshop estarão o instrutor de síntese André Dessandes (músico, produtor, publicitário e fundador do estúdio
Synthcamp) e o instrutor de produção André Paixão, o Nervoso (músico, diretor musical, produtor, sócio do Superstudio e
colunista da AM&T). Para obter mais informações e realizar sua inscrição, visite http://www.synthcamp.com/workshop.
Divulgação

QUEEnS OF THE STOnE AGE DE VOLTA AO ROCK In RIO


Após os surpreendentes anúncios de System of a Down e A-Ha para a

Wiki Images
edição deste ano do Rock in Rio, o Queens of the Stone Age é o mais novo
nome a integrar o line up do festival idealizado por Roberto Medina. O
grupo de Josh Homme fez um dos melhores shows do Rock in Rio III, em
2001, e passou pelo Brasil há pouco, em 2014, para apresentar o seu mais
recente álbum, ...Like Clockwork.

Embora a data do show ainda não tenha sido definida, já se sabe que o
QOTSA tocará no mesmo dia que o System of a Down, no Palco Mundo. A
organização do RIR 2015, que acontece nos dias 18, 19, 20, 24, 25, 26 e
Josh Homme, líder da banda:
27 de setembro de 2015, na Cidade do Rock, Rio de Janeiro, também já
de volta ao RIR após 14 anos
confirmou apresentações de John Legend e Katy Perry.

A HORA DA nAMM SHOW 2015


De 22 até 25 janeiro, Anaheim, na Califórnia, recebe a NAMM Show 2015, maior feira de produtos musicais dos EUA. O evento,
que apresenta as diversas facetas da indústria musical, também é palco para a exposição de ideias inovadoras voltadas para faci-
litar o trabalho dos fabricantes e revendedores. Mais de cinco mil produtos poderão ser conferidos de perto pelo público presente.

Na edição deste ano, um dos pontos altos será o tema "Educação Musical", e Moby (músico, produtor, DJ) e Richard Gerver
(speaker premiado) comandarão cinco dias de networking, trabalho voluntário, sessões educacionais e pesquisas. Mais infor-
mações sobre o evento em www.namm.org/thenammshow/2015.

6 | áudio música e tecnologia


GOBOS DO BRASIL APRESENTA NOVA
LINHA DE AMPLIFICADORES EM EVENTO
A Gobos do Brasil promoveu em sua sede, em São Bernardo do
Divulgação

Campo-SP, no último dia 02/12, um workshop para apresentação


ao mercado da nova Série X de amplificadores Powersoft, compos-
ta pelos modelos X4 e X8, que reunem, cada um, funcionalidades
de um rack de som inteiro. Para mostrar as tecnologias e possibi-
lidades dos equipamentos, o evento contou com a participação do
italiano Mario Di Cola, engenheiro sênior de áudio da Powersoft;
Fabiano Rezende, proprietário da Fly Audio Solution, e de Gilberto
Morejon, gerente comercial da marca para América Latina e Caribe.

Esteban Risso, diretor comercial da Gobos do Brasil, conduziu


a abertura do evento, seguido pelo gerente de áudio Valdinei
Vieira “Jabá”, que fez a introdução do trabalho da Powersoft.
Amplificadores Powersoft X4 e X8 foram Rezende apresentou as principais tecnologias de energia do
testados e explicados para os participantes modelo X8, enquanto a demonstração do que os modelos po-
dem fazer por meio do aplicativo Armonia ficou a cargo de
Mario di Cola. No final do encontro, Edinei Lima, diretor industrial da Gobos, demonstrou como os equipamentos con-
seguem ir além da variação entre 85 VAC e 440 VAC. O evento também permitiu que os participantes tirassem dúvidas
e visitassem as instalações da Gobos, conhecendo melhor o trabalho feito pela empresa.

YAMAHA MUSIC SCHOOL CHEGA AO BRASIL


A Yamaha Music School, rede de escolas com presença em mais de 40 países e que promove o ensino e a difusão da música
junto a todas as faixas etárias, finalmente chegou ao Brasil. A iniciativa da marca de origem japonesa parte do princípio de que
o envolvimento com a música influencia a sociedade de forma positiva.

No Brasil já estão disponíveis o curso de educação musical para crianças de quatro e cinco anos e cursos de diversos instrumentos para
as demais idades. Mais informações podem ser obtidas em http://br.yamaha.com/pt/music_education e no telefone (11) 3078-1605.

CURSO DA DGC SOBRE CONSOLES


DIGITAIS EM BELO HORIZONTE Divulgação

Especializada em instalações e elaboração de projetos de áu-


dio, vídeo, acústica e prestação de serviço de treinamento pro-
fissional, a DGC promove no dia 07/03, em Belo Horizonte,
o curso Consoles Digitais, que tem como objetivo ensinar ao
participante os pilares do funcionamento da maioria das mesas
digitais do mercado. Em seu programa estão temas como con-
versores AD/DA, sinais digitais, calibragem dos ganhos, patch-
bays, stage box/master box, equalizadores, armazenamento
de dados e grupo de mute e canais.

Mais informações podem ser obtidas em www.dgcaudio.


com.br/cursos/consoles_digitais.php. As matrículas, por Turma do curso Consoles Digitais de novembro de
sua vez, são realizadas em www.dgcaudio.com.br/cursos/ 2013, em Belo Horizonte: segundo da esquerda para
matriculas.php. O curso acontece no Espaço Helium, locali- a direita na primeira fila, Denio Costa é diretor da
zado na Rua Aimorés, 1.017, Lourdes, BH. DGC, onde também dá aulas
áudio música e tecnologia | 7
8 | áudio música e tecnologia
áudio música e tecnologia | 9
NOVOS PRODUTOS

CUBASE PRO 8 JÁ DISPOníVEL


Foi anunciada, em dezembro, a chegada ao mercado da nova versão do Cubase, que, de acordo com a Steinberg Brasil, “unifica inovação
técnica e inspiração artística em um ambiente de produção poderoso e acessível”. Visualmente mais interessante e dotado de novas ferra-
mentas de áudio e instrumentos, o Cubase Pro 8 combina novas tecnologias de áudio com recursos musicais que beneficiam a criatividade
para proporcionar um fluxo de trabalho mais intuitivo. "Adicionar 'Pro' ao nome reflete nosso comprometimento aos produtores e muitos
outros profissionais ao redor do mundo que trabalham com o Cubase diariamente. A palavra também enfatiza a evolução de um incrível
conjunto de recursos", destaca a fabricante em material de
divulgação da atualização do programa.

Divulgação
Entre estes principais recursos do Pro 8 estão o turbo no
desempenho, para mais instrumentos, pistas e maior rapi-
dez na operação; faders VCA; renderização “in-place”; pads
de acordes; gerenciamento de janelas otimizado; “Agente
Acústico” do Groove Agent SE 4; gerenciador de plug-ins;
novos efeitos (Amplificador Virtual de Contra-Baixo, Qua-
drafuzz v2, Expander Multibanda e Envelope Shaper Multi-
banda) e o Allen Morgan Pop-Rock Toolbox, com 30 kits de
construção, cada um com 25 a 30 loops de áudio e MIDI.

www.steinbergbrasil.com.br
br.yamaha.com

DBX 676 TUBO MIC PRE CHAnnEL STRIP: SOM COM PERSOnALIDADE
A dbx, empresa do grupo Harman, anunciou em dezembro o lançamento do pré-amplificador de microfone modelo 676 Tubo Mic
Pre Channel Strip. Capaz de oferecer alta qualidade de áudio, o produto é aplicável tanto em gravações quanto em som ao vivo,
podendo ser ajustado para permitir um som límpido e puro ou sujo e cheio de diferentes harmônicos. O 676 incorpora o compres-
sor/limiter do dbx 162SL e um equalizador paramétrico de três bandas.

"Nós criamos o dbx 676 para ser nada menos que o último mic pré-amp", sintetizou Jason Kunz, gerente de marketing
para equipamentos de PA portátil e gravação e broadcast da Harman. "Se você precisa de um pré-amp que fornece um som
puro e com qualidade e quer adicionar alguma personalidade para os vocais e instrumentos ou está procurando melhorar o
som da sua gravação ou live rig, o
dbx 676 é a ferramenta ideal para
Divulgação

conseguir um som do mais alto


nível", concluiu.

www.dbxpro.com
www.harmandobrasil.com.br

SHURE UnIDYnE 5575LE RECRIA O MAIS


FAMOSO MICROFOnE DO MUnDO
Ao longo da quase centenária história da Shure, nenhum de seus produtos causou maior impacto
nem foi mais emblemático do que o microfone Unidyne. Prova disso é que, em janeiro de 2014,
o Institute of Electrical and Electronic Engineers (IEEE) concedeu à Shure o Milestone Award pela
tecnologia Unidyne. Para marcar essa conquista e comemorar o 75º aniversário do desenvolvimento e
da disponibilidade do microfone Unidyne 55, a Shure anunciou um novo modelo, em edição limitada:
o microfone dinâmico cardioide 5575LE Unidyne

O 5575LE, que reproduz o desenho original do produto, com melhorias em durabilidade e qualidade de som,
Divulgação

apresenta o elemento cardioide Unidyne III atual, a clássica grelha externa grande, etiqueta de época e fundição
em zinco, com acabamento prateado no suporte de mesa. O microfone vem em um estojo em alumínio com o
logotipo do 75º aniversário e inclui duas fotos impressas do Unidyne e um certificado de autenticidade, apre-
sentando um tributo da presidente do conselho da Shure, Rose L. Shure. Chega ao mercado em fevereiro.

www.shure.com
www.shure.com.br
áudio música e tecnologia | 11
NOVOS PRODUTOS

IZOTOPE LAnÇA SOFTWARE IRIS 2


A iZotope recentemente colocou no mercado a mais nova versão do seu software Iris - o Iris 2, que combina o poder do sampler
com a flexibilidade modular do synth. Entre seus novos recursos estão um sistema de modulação robusto; interface
completamente redesenhada, com visualizações extensas e medição; melhores efeitos e filtros e ori-
ginal patches para inspirar a criatividade. De acordo com a iZotope, o Iris 2 foi construído para que
novos sons possam ser descobertos a partir do uso de, inclusive, de sintetizadores clássicos e de efei-
tos de percussão. Mais de 350 patches com controles intuitivos estão na nova
versão, de modo que os usuários podem facilmente produzir e executar a
música personalizada por eles.

"Depois de ouvir cuidadosamente o feedback de centenas de músicos, produto-


res e sound designers, ficou claro que o Iris é uma ferramenta de grande ajuda
no trabalho deles", disse Bradford Swanson, manager de produto da iZotope.
"Nós, então, projetamos o Iris 2 para ajudar os músicos com novas possibilida-
Divulgação

des e sons que são fáceis de acessar e ajustar", acrescentou.

www.izotope.com

LEVEZA E VERSATILIDADE DÃO O TOM


nA LInHA JBL SELEnIUM SPM nEO
A JBL Selenium apresentou no fim de 2014 sua linha de caixas acústicas SPM Neo. A novidade fica por conta da leveza e versatilidade
dos modelos, facilitando o transporte e montagem em diversos ambientes. A série, produzida com imã de Neodímio, ganhou um visual
diferenciado em relação à sua antecessora, com um aspecto mais discreto. Outra característica da linha
são os pés de borracha, que permitem um adequado assentamento sobre a superfície de apoio, evitan-
do escorregões, ruídos e vibrações. As caixas podem ser montadas diretamente sobre o chão, deitadas,
em coluna, em fly e sobre tripé.

As caixas que integram a família são as SPM1203 NEO Ativa, SPM1203 NEO Passiva, SPM 1503 NEO
Ativa e SPM1503 NEO Passiva (foto). Enquanto as duas primeiras contam com falantes de 12", as
últimas têm de 15". As ativas oferecem potência de 400 W, com as passivas chegando a 150 W.
Todos os modelos trabalham com resposta de frequência de 60 Hz a 20 kHz, dispersão sonora de
90° H x 4° V e SPL máximo 124 dB. Cada caixa mede 61 x 42 x 39 cm.

Divulgação
www.jblselenium.com.br
www.harmandobrasil.com.br

SISTEMA SEM FIO DE ÁUDIO PORTÁTIL SEnnHEISER LSP 500 PRO


A facilidade e comodidade de gerenciar e controlar um sistema de áudio durante um evento empresarial ou social é de grande importância.
E, claro, sem fios espalhados o cenário fica bem melhor. Com isso em mente, a Sennheiser lançou o sistema sem fio de áudio portátil LSP
500 PRO, que permite ambientar eventos com eficiência e qualidade, poupando tempo ao conectar a aparelhagem. Livre de cabos, o sis-
tema oferece três canais para microfones sem fio, conexão Bluetooth e uma porta
USB, para gravação do evento ou reprodução de áudios.
Divulgação

Na parte frontal, conta com um driver de ¾ de polegada que recebe e


controla as funções do sistema de áudio, além de ter um woofer de 8"
que oferece grande potência de áudio. Em sua parte traseira, conta com
receptores para microfones de mão ou bodypack e controles de volume.
Cada alto-falante conta com duas baterias substituíveis, com indicador
de carga. É possível conectar até 20 alto-falantes sem fio – em série –, e
todos podem ser controlados a partir de um iPad.

www.sennheiser.com
www.quanta.com.br
áudio música e tecnologia | 13
Teste | Lucas Ramos

Interfaces de áudio
Behringer U-Phoria
UM2 e UMC22

Boas opções para home studios, modelos oferecem


compatibilidade com Windows e Mac e podem ser
usados com quase todos os softwares de áudio
A Behringer é uma empresa alemã criada em 1989, mas que U-PHORIA
na última década tem crescido exponencialmente até se tornar
uma das empresas de equipamentos de áudio mais populares A linha U-Phoria, da Behringer, inclui nove interfaces diferen-
do mundo. Foi uma das primeiras a “enxergar” o futuro da tes, com modelos direcionados para cada faixa do mercado de
produção musical caseira e tem avançado muito devido à sua áudio: dos estúdios caseiros simples aos estúdios de médio
filosofia de oferecer produtos a um preço acessível e abaixo do e grande porte. Os dois modelos mais baratos foram criados
praticado pela maioria dos competidores. Hoje eles dispõem para o mercado caseiro, com um preço bastante acessível e
de uma enorme fábrica própria na China (conhecida como poucas entradas e saídas. São eles o UM2 e UMC22.
Behringer City), que permite manter seus preços bem abaixo
dos da concorrência devido ao seu baixo custo de produção. UM2
Porém, sempre há o outro lado da moeda, e às vezes seus O modelo UM2 é o mais simples da linha e dispõe de duas
produtos, em função do preço reduzido, fazem com que al- entradas e duas saídas. Uma entrada é equipada com um
guns torçam o nariz (apesar disso não impedir que as pesso- conector combo, que permite a ligação de um cabo XLR
as continuem comprando seus produtos!). Mas isso também (microfone) ou P10 (linha) e utiliza um pré-amplificador
tem mudado bastante, pois além de manter seus preços bai- da linha Xenyx (com phantom power +48V). A segunda
xos, a Behringer tem melhorado a qualidade deles drastica- entrada utiliza um conector P10 para a ligação de um ins-
mente. Com design e componentes melhores se comparados trumento elétrico (guitarra ou baixo).
à antiga linha de produtos, os equipamentos da marca hoje
são infinitamente superiores. Tanto que têm conseguido com- As duas saídas utilizam conectores RCA e podem ser usa-
petir em qualidade com as demais marcas da sua categoria, das para a ligação de monitores. Há também uma saída
e em muitos casos é até superior. Isso tem ajudado cada vez (P10 estéreo) para fones de ouvido, equipada com a fun-
mais a quebrar esse preconceito. ção Direct Monitor (veja box).

Com isso em mente, vamos conhecer melhor alguns produ- A ligação com o computador é feita através de um cabo USB
tos da marca Behringer. e a alimentação é fornecida pelo mesmo cabo. A interface é

14 | áudio música e tecnologia


áudio música e tecnologia | 15
Teste

O modelo UM2 dispõe de duas


entradas: uma com conector
combo e pré-amp Xenyx e
outra com conector P10

compatível com os dois sistemas operacionais mais popula-


res, Windows e Macintosh. Há um driver Asio para Windows Xenyx vs Midas
e um driver Core Audio para Macintosh. Com isso, pode ser
utilizada com praticamente qualquer software de áudio, in- A linha Xenyx de pré-amplificadores é a básica da Behrin-
cluindo Pro Tools, Logic Pro, Ableton Live, Cubase etc. ger, e pode ser encontrada na maioria de suas mesas.
São conhecidos por não terem uma sonoridade muito
A interface pode funcionar em 44.1 ou 48 kHz de taxa de definida, especialmente nos médios, mas são capazes de
amostragem (sample rate), e 16 ou 24 bits de resolução. fornecer uma gravação boa o suficiente para a maioria
Apesar de não ser compatível com taxas de amostragem das produções caseiras simples.
mais altos (88.2, 96 kHz, etc.), como na maioria dos casos
44.1 ou 48 kHz são suficientes (CD é 44.1 kHz e DVD 48 kHz) Já a linha Midas é a mais recente da Behringer, e é uti-
isso não será um problema para a maioria das pessoas. lizada em seus produtos de melhor qualidade. Como a
empresa-mãe da Behringer (Music Group) adquiriu a Mi-
das em 2010, eles passaram a utilizar pré-amplificadores
com desenho da Midas nos produtos da Behringer. Apesar
de não serem os mesmos pré-amplificadores utilizados
nas famosas mesas Midas, são um salto em qualidade
em relação à linha Xenyx. E em comparação à compe-
tição, a linha Midas de pré-amplificadores da Behringer
tem recebidos diversos elogios do meio.

Testando ambos, notei uma certa deficiência de definição


nos médios e um pouco mais de ruído no Xenyx. Já o
Midas tinha um pouco mais de presença e clareza nos
As saídas utilizam conectores RCA e médios e agudos. Mas em comparação aos velhos pré-
podem ser usadas para a ligação de -amplificadores do antigo e eterno ADA8000, ambos são
monitores. Há também saída para fones. um avanço fenomenal!

A construção parece bastante sólida, apesar do chassis ser de


plástico. Os controles de ganho e nível são localizadas no topo
Especificações UM2
da interface, que foi projetada para ser posicionada sobre uma
mesa. Há LEDs de “sinal” e “clip” para cada entrada, além de Sistema operacional Mac ou Windows
um LED para indicar que a interface está ligada (“power”) e Conexão USB 2.0
outro para indicar que o phantom power está ligado (+48 V). Entradas (analógicas) 1 x linha (TRS)/mic (XLR) +
1 x instrumento (TS)
UMC22 Pré-amplificadores 1 x Xenyx
Saídas (analógicas) 2 x linha (RCA) +
O modelo UMC22 é um pouco mais avançado, mas também
1 x fone (TRS)
dispõe de duas entradas e duas saídas. Assim como a UM2,
a primeira entrada é equipada com um conector combo, Entradas (digitais) Nenhuma
que permite a ligação de um cabo XLR (microfone) ou P10 Saídas (digitais) Nenhuma
(linha), porém, o pré-amplificador é da linha Midas (com MIDI Não
phantom power +48V) e produz uma sonoridade superior à Sample rate: até 48 kHz Até 48 kHz
do Xenyx. A segunda entrada utiliza um conector P10 para
Bit depth Até 24 bits
a ligação de um instrumento elétrico (guitarra ou baixo).
Bus-Power Sim

As duas saídas utilizam conectores P10 e podem ser usadas


para a ligação de monitores. Há também uma saída (P10 es-

16 | áudio música e tecnologia


áudio música e tecnologia | 17
Teste

UMC22: um pouco mais


avançado, conta com pré-
amplificador da linha Midas

téreo) para fones de ouvido, equipada com a função Direct


Monitor (veja box).
Direct Monitor
A função Direct Monitor encontrada nas saídas de
A ligação com o computador também é feita através de um fone das interfaces da linha U-Phoria pode ser utili-
cabo USB, e a alimentação é fornecida pelo mesmo cabo. zada para minimizar problemas de latência em uma
Assim como a UM2, a interface é compatível com os dois sis- gravação. A latência é uma diferença de tempo entre
temas operacionais mais populares, Windows e Macintosh. a execução de um som e o retorno da gravação do
Há um driver Asio para Windows e um driver Core Audio mesmo, devido ao tempo que o sistema leva para
para Macintosh. Com isso, pode ser utilizada com pratica- gravar o sinal no computador e, em seguida, lê-lo e
mente qualquer software de áudio, incluindo Pro Tools, Logic enviar para as saídas da interface. Ou seja, quando
Pro, Ableton Live, Cubase etc. A interface também pode fun- você fala no microfone e sua voz é ouvida com um
cionar em 44.1 ou 48 kHz de taxa de amostragem (sample atraso. E isso pode ser um problema grave quan-
rate) e com 16 ou 24 bits de resolução. do estiver gravando algum instrumento, pois você
só ouvirá as notas um pouco depois de executá-las,
tornando impossível acompanhar um ritmo.

A função Direct Monitor envia o sinal que chega na en-


trada da placa, direto para a saída de fone, antes mes-
mo de gravá-lo no computador. Isso minimiza o tempo
levado para o som chegar aos seus ouvidos e permite
que você ouça o seu instrumento na mesma hora que
o toca. Uma solução simples, porém eficiente!
As saídas podem ser usadas para a ligação
de monitores, e há também uma P10 estéreo
com a função Direct Monitor para fones CONCLUSÃO
A construção da UMC22 é bastante sólida e o chassis é de Ambas as interfaces são direcionadas para os usuários ca-
metal, tornando-a bem mais robusta que a UM2. Os controles seiros, que geralmente não dispõem de um alto orçamento
de ganho e nível ficam na parte da frente da interface, que e não têm a necessidade de diversas entradas e saídas. E,
também foi projetada para ser posicionada sobre uma mesa. nesse nicho, ambas se encaixam muito bem.
Também há LEDs de “sinal” e “clip” para cada entrada, além
de um LED para indicar que a interface está ligada (“power”) e Porém, devido à sua construção mais sólida e robusta, o pré-
outro para indicar que o phantom power está ligado (+48 V). -amplificador de melhor qualidade e as saídas P10 (ao invés
de RCA), o modelo UMC22 me parece uma alternativa me-
Especificações UMC22 lhor, especialmente porque a diferença de preço não é enor-
Sistema operacional Mac ou Windows me. Mas, dependendo das suas necessidades (e orçamento),
a UM2 pode ser o suficiente para você. É tudo uma questão de
Conexão USB 2.0
necessidade. Mas qualquer uma das duas pode ser uma boa
Entradas (analógicas) 1 x linha (P10)/mic (XLR)
alternativa para um estúdio caseiro de pequeno porte. Fora
+ 1 x instrumento (TS)
que também servem para ajudar a acabar com o preconceito
Pré-amplificadores 1 x Midas que alguns nutriam pelos produtos da Behringer. •
Saídas (analógicas) 2 x linha (P10) + 1 x fone (P10 estéreo)
Entradas (digitais) Nenhuma
Saídas (digitais) Nenhuma Lucas Ramos é tricolor de coração, engenheiro de áudio, produtor
musical e professor do IATEC. Formado em Engenharia de Áudio pela
MIDI Não
SAE (School of Audio Engineering), dispõe de certificações oficiais
Sample rate: até 48 kHz Até 48 kHz
como Pro Tools Certified Operator, Apple Logic Certified Trainer e
Bit depth Até 24 bits Ableton Live Certified Trainer. E-mail: lucas@musitec.com.br
Bus-Power Sim

18 | áudio música e tecnologia


áudio música e tecnologia | 19
Áudio no Brasil | Marcio Teixeira

Paulinho
Tapajós
Lembrando

Divulgação
grandes
obras do lado
produtor de
um renomado
compositor
Paulinho Tapajós:
currículo como
produtor repleto de
obras que integram
a discoteca básica da
música brasileira

O produtor, compositor, cantor, escritor e arquite- sa, gravado pela cantora Magda. Paulinho seguiu
to Paulo Tapajós Gomes Filho, o Paulinho Tapajós, compondo e obteve sucesso nesse caminho, sen-
nasceu no Rio de Janeiro no dia 17 de agosto de do que entre 1968 e 1970 recebeu prêmios em
1945. Filho do compositor, cantor e radialista Paulo diversos festivais de música, com destaque espe-
Tapajós e com irmãos, entre outros familiares, que cial para sua participação nas edições III e IV do
também seguiram a trilha do som, Paulinho, du- Festival Internacional da Canção. No primeiro, ele
rante a infância, frequentava o auditório da Rádio conquistou o terceiro lugar na fase nacional com
Nacional, emissora que tinha seu pai como diretor a hoje clássica Andança, fruto de uma parceria
artístico. O ambiente musical o cercava, tendo con- com Edmundo Souto e Danilo Caymmi. No festi-
vivido desde bem novo com nomes como Radamés val seguinte, o primeiro lugar nas fases nacional
Gnatalli, Marlene e Emilinha Borba. e internacional com outro clássico, Cantiga por
Luciana, outra escrita com Edmundo.
Mais à frente, já adolescente, estudou música ao
lado de Arthur Verocai, primeiro parceiro em sua MUITO ALÉM DAS COMPOSIÇÕES
vida artística, iniciada no fim da década de 1960.
O ano de 1968 é um marco em sua trajetória, Em 1972, Tapajós deu início à sua carreira como in-
pois foi nele em que, pela primeira vez, uma mú- térprete, gravando, com sua irmã Dorinha Tapajós,
sica de sua autoria, Madrugada (feita com Vero- o compacto duplo Paulinho e Dorinha, que tinha em
cai), foi registrada. Entrou no álbum Música Nos- seu tracklist as faixas É Natural, O Profeta, O Tris-

20 | áudio música e tecnologia


te e Vivências. No entanto, vamos aqui lembrar de Muita Zorra, do Trio Mocotó; Meu Primeiro Amor, de
um outro lado de Paulinho, artista que por mais Nara Leão; Manera Fru Fru Manera, do já citado Fag-
que tenha se consagrado e sido eternizado por suas ner; Antologia do Samba-Canção, do Quarteto em Cy;
composições, também foi um nome de peso nos es- Eu e Elas, de Carlos Lyra; Gil & Jorge; Negro é Lindo,
túdios, como produtor, estando por trás de grandes Ben, Dez Anos Depois, Solta o Pavão e A Tábua de
álbuns da música brasileira. Esmeralda, de Jorge Ben, entre muitos outros.

Foi em 1969 que Tapajós começou a também A TáBUA


atuar como produtor, pelo selo Forma/Philips,
da gravadora Phonogram. Lá, até 1970, também Entre todas essas grandes obras, a Tábua pode ser
trabalhou como diretor de produção. Nestas duas apontada como seu principal trabalho. O álbum,
funções, lançou artistas de grande relevância, dono de uma aura mágica, é uma lenda na história
como Fagner, Gonzaguinha, Ivan Lins, Lucinha da música mundial não apenas pelas composições
Lins e a banda O Terço. Bem-sucedido na emprei- e execuções das faixas, mas pelo clima nele con-
tada, foi chamado para dar um passo além, como tido. Pelo ambiente magistralmente capturado no
produtor musical contratado da Philips, cargo que estúdio por Paulinho Tapajós.
ocupou entre 1970 e 1978.
Com Paulinho no comando, as 12 músicas do dis-
Neste período, Paulinho foi responsável por coletâneas co lançado em 1974 misturam temas como al-
como Som Livre Exportação, Os Maiores Sambas-En- quimia, personagens do cotidiano, negritude e
redo e Antologia da Marcha-Rancho, e pela produção a beleza da mulher brasileira. Para “engrossar o
dos discos Vinicius e Toquinho, Toquinho e Vinicius; caldo” das viagens poéticas de Ben, o som é um

áudio música e tecnologia | 21


ÁUDIO nO BRASIL

samba suingado com base nas cordas de nylon Est, que dão a ela uma “espacialidade” bastante
muito bem captadas pelo produtor, que, segundo de acordo com a letra que passeia pela pergunta-
consta, para dar um toque especial nesse bolo so- -livro “eram os deuses astronautas?” e que con-
noro, lançou mão de macetes geniais, como gra- trasta com o coro feminino e com o próprio som do
var um Jorge Ben de tamancos e unir o som do violão, bastante cru em sua essência.
calçado batendo no chão ao som do surdo.
“Eu gostava muito do jeito dele, gosto muito do
“Ele [Jorge] tinha isso pegar os textos, como fez trabalho dele. Como produtor, teve voos sen-
com Xica da Silva, que era um briefing que o Cacá sacionais, e ajudou o Jorge Ben a se expressar
Diegues lhe mandou para que tivesse uma ideia da como artista. Foi algo muito expressivo, muito
música que tinha que compor para o filme, e dali falado à época. Até hoje o Jorge o reverencia.
criar as músicas”, contou Paulinho ao jornal O Esta- Começamos na música na mesma época, e o co-
do de S. Paulo em 2010, ao falar sobre seu trabalho nheci quando ele tinha o Verocai como parceiro.
em A Tábua de Esmeraldas. “Acho que funcionava Tinha um aluno do Verocai que era meu amigo.
porque ele tem uma alma infantil. É um crianção. Éramos todos de um mesmo grupo”, destacou à
Um cara superpuro, espontâneo”, completou. AM&T o compositor, músico e cantor Tibério Gas-
par, primo, amigo e fã da obra de Paulinho. “Pena
O álbum ainda tem outras características especiais não termos chegado a trabalhar juntos”, concluiu
e inesquecíveis, como o uso do eco, entre outros o autor (junto com seu parceiro Antonio Adolfo)
efeitos, na faixa de abertura, Errare Humanum de canções imortais como Juliana e Sá Marina.

EXPERIêNCIA NO VÍDEO
Reprodução

E MAIS DISCOS
Tapajós atuou entre 1977 e 1980 na Rede
Globo, sendo responsável pela produção
musical do Fantástico e dos especiais
Saudade Não Tem Idade, Alerta Geral,
Milton Nascimento e Frenéticas. Após
passagem entre 1979 e 1980 como di-
retor artístico e de produção da grava-
dora gaúcha Isaec, Paulinho assinou, em
1984, a produção musical, para a Globo,
do especial Verde Que Te Quero Ver,
adaptação do livro de mesmo nome es-
crito por ele e por Edmundo Souto.

Paulinho, que faleceu em 2013, aos 68


anos, ainda atuou como produtor musical
autônomo para as gravadoras BMG/Ario-
la, CID, Continental, Copacabana, Som
Livre e Universal, tendo assinado discos
como Cante Comigo, de Nélson Gonçal-
A Tábua de Esmeralda: Tapajós
ves; Tempo de Guarnicê, de Alcione; Ca-
captou atmosfera de forma magistral
belo de Milho, de Sivuca; e A Banda do
e lançou mão de macetes (como unir
Zé Pretinho, de Jorge Ben, entre outros. E
o som dos tamancos de Jorge Ben às
por falar em Jorge, também foi de Tapajós
batidas do bumbo) para alcançar a
a produção do aguardado Acústico MTV do
sonoridade encontrada neste álbum
Babulina, gravado em 2002. •
clássico da música mundial

22 | áudio música e tecnologia


áudio música e tecnologia | 23
em casa | Lucas Ramos

Equipamentos para
um Home Studio
Conexões Analógicas (Parte 4): Como
soldar cabos com diferentes conectores
Na edição passada nós aprendemos a soldar e a fabricar P10 (BANANA) OU P2 (BANANINHA)
cabos para que você possa ter os seus próprios cabos com
as medidas e os conectores exatos para o seu home stu- Não-balanceado (TS)
dio. Esse mês, vamos continuar no assunto de soldagem
de cabos, aprendendo como fabricar cabos com diferentes Os conectores P10 ou P2 não-balanceados têm dois pon-
conectores. É necessário saber qual condutor deve ser sol- tos de contato denominados de Ponta (Tip) e Manga (Sle-
dado em qual pino do conector para garantir que o sinal será eve). Na parte interna, a Ponta (Tip) é o pino mais curto,
transmitido corretamente. Então vamos lá! enquanto a Manga (Sleeve) é o pino conectado à haste
mais longa. Há buracos em cada pino para prender a pon-
XLR ta dos condutores para soldagem.

Os pinos de um conector XLR (Cannon) são nomeados pelos - A blindagem deve ser soldada à Manga (Sleeve)
números 1, 2 e 3. O número do pino fica escrito na parte inter-
na do conector, e é de extrema importância certificar-se sem- - O condutor deve ser soldado à Ponta (Tip)
pre que se está soldando o pino correto. Há buracos em cada
pino para prender a ponta dos condutores para soldagem. BALANCEADO (TRS)

- A blindagem deve ser soldada ao pino número 1 Os conectores P10 ou P2 balanceados têm três pontos de
contato, denominados Ponta (Tip), Anel (Ring) e Manga
- O condutor positivo deve ser soldado ao pino número 2 (Sleeve). Na parte interna, a Ponta (Tip) é o pino mais
curto, enquanto o Anel (Ring) é o pino médio e a Manga
- O condutor negativo deve ser soldado ao pino número 3 (Sleeve) é o pino conectado à haste mais longa. Há bu-

POSITIVO OU NEGATIVO?
Há dois tipos de cabo coaxial, com um ou dois necessário definir um como positivo e o outro
condutores, além da blindagem. Para conexões como negativo, e observar essa distinção ao
não-balanceadas utiliza-se cabos com um con- longo do processo.
dutor, enquanto que
para conexões ba-
lanceadas utiliza-
-se cabos com dois
condutores. Quando
há dois condutores,
é importante certifi-
car-se de que esteja
soldando o condutor
certo, e por isso o
encapamento dos Quando há dois condutores em um cabo a ser soldado, é
condutores tem co- importante definir um como positivo e o outro como negativo e
loração distintas. É observar essa distinção ao longo do processo de soldagem

24 | áudio música e tecnologia


racos em cada pino para prender a ponta dos condutores
MINIMIZANDO O RUÍDO DE MANUSEIO
para soldagem.
Nos conectores P10 e P2, assim como os RCAs,
há uma haste longa com suas “orelhas”, que - A blindagem deve ser soldada à Manga (Sleeve)
servem para fixar o conector ao cabo e preve-
nir ruídos de manuseio e garantir maior longe- - O condutor positivo deve ser soldado à Ponta (Tip)

vidade às suas soldas. Isso ocorre pois o cabo


- O condutor negativo deve ser soldado ao Anel (Ring)
não moverá tanto quando estiver fixado a esta
haste, minimizando a tensão sobre as soldas.
Por isso é muito importante passar o cabo por RCA
entre as “orelhas” da haste e entortá-las até
fixar bem ao cabo. Isso pode ser feito com a Os conectores RCA têm dois pontos de contato denominados
de Tip (Ponta) e Sleeve (Manga). Na parte interna, o Tip
mão ou com um alicate de bico fino. Isso vale
(Ponta) é o pino mais curto, enquanto o Sleeve (Manga) é o
para ambos os tipos de conector P10 ou P2
conectado à haste mais longa. Também há buracos em cada
(balanceados e não-balanceados).
pino para prender a ponta dos condutores para soldagem.

- A blindagem deve ser soldada à Manga (Sleeve)

- O condutor deve ser soldado à Manga (Sleeve)

CABOS COM DOIS


CONECTORES DIFERENTES
Muitas vezes é necessário o uso de cabos com diferentes
conectores em cada ponta para se adequar aos diferentes
conectores dos diferentes equipamentos de um home stu-
dio. Por exemplo, é possível que as saídas de monitoração
da sua interface de áudio utilizem conectores XLR, enquan-
to as entradas dos seus monitores sejam P10. Nesse caso,
seria necessário um cabo com um conector XLR fêmea em
uma ponta e um conector P10 balanceado na outra ponta.
Vamos aprender como devem ser feitas as ligações dos
condutores entre os diferentes tipos de conectores.

XLR - P10 ou P2 balanceado (TRS)

- O pino número 1 deve ser ligado à Manga (Sleeve)

- O pino número 2 deve ser ligado à Ponta (Tip)

- O pino número 3 deve ser ligado ao Anel (Ring)

XLR - P10 OU P2 NÃO-BALANCEADO (TS)

- O pino número 1 deve ser ligado à Manga (Sleeve)

- O pino número 2 deve ser ligado à Ponta (Tip)


É necessário saber qual condutor deve ser
soldado em qual pino do conector para garantir
- O pino número 3 deve ser ligado à Manga (Sleeve)
que o sinal será transmitido corretamente

áudio música e tecnologia | 25


EM CASA

XLR – RCA P10 OU P2 BALANCEADO – RCA

- O pino número 1 deve ser ligado à Manga (Sleeve) - A Manga (Sleeve) do P10 ou P2 deve ser ligada à Manga
(Sleeve) do RCA
- O pino número 2 deve ser ligado à Ponta (Tip)
- O Anel (Ring) do P10 ou P2 também deve ser ligado à
- O pino número 3 deve ser ligado à Manga (Sleeve) Manga (Sleeve) do RCA

- A Ponta (Tip) do P10 ou P2 deve ser ligada à Ponta (Tip)


do RCA

P10 NÃO-BALANCEADO – RCA

- A Manga (Sleeve) do P10 ou P2 deve ser ligada à Manga


(Sleeve) do RCA

- A Ponta (Tip) do P10 ou P2 deve ser ligada à Ponta (Tip)


do RCA

P10 OU P2 BALANCEADO – P10 OU


P2 NÃO-BALANCEADO (TS)

- A Ponta (Tip) do balanceado deve ser ligada à Manga (Sle-


eve) do não-balanceado

- O Anel (Ring) do balanceado deve ser ligado à Manga (Sle-


eve) do não-balanceado

- A Manga (Sleeve) do balanceado deve ser ligada à Manga


(Sleeve) do não-balanceado

Vamos ficando por aqui nessa edição, e com isso finalizamos


o tema de soldagem de cabos e conectores. Agora vocês vão
poder economizar na compra de cabos e garantir que seu home
studio seja equipado com os cabos ideais, com conectores e
comprimento perfeitos. Isso é um luxo normalmente exclusivo
aos grandes estúdios, mas que agora você também pode ter.

Só não se esqueça de que, como tudo na vida, é necessário


tempo e experiência para poder soldar bem os cabos. Por
isso treine bastante com cabos e conectores velhos antes de
se arriscar a soldar todos os cabos do seu home studio. Mas,
Muitas vezes é necessário o uso de cabos com com paciência e dedicação, logo, logo você estará fabrican-
diferentes conectores em cada ponta para se do seus próprios cabos!
adequar aos diferentes conectores dos diferentes
equipamentos de um home studio Até a próxima!

Lucas Ramos é tricolor de coração, engenheiro de áudio, produtor musical e professor do IATEC. Formado em Engenharia de Áudio
pela SAE (School of Audio Engineering), dispõe de certificações oficiais como Pro Tools Certified Operator, Apple Logic Certified
Trainer e Ableton Live Certified Trainer. E-mail: lucas@musitec.com.br

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áudio música e tecnologia | 27
PLUG-InS | Cristiano Moura

RENAISSANCE
MAXX BUNDLE
Sim: o “bom e barato” existe

Apesar do “mundo dos piratas” ser muito convidativo à pri-


meira vista, ter centenas de plug-ins e ferramentas dispo-
níveis em uma máquina de forma ilegal é muito ruim por
diversos motivos, como falta de estabilidade no sistema, di-
ficuldade de atualização, entre outros. Mas há, em especial,
um motivo que afeta mais o usuário do que a indústria: o do-
mínio das ferramentas de trabalho. Vamos entender melhor.

Como um carro de Formula 1, para dominar uma ferramenta é


necessário um tempo de exposição, uso frequente e ajustes no
seu método de trabalho. Simplesmente pendurar um compres-
sor, rodar os botões por dois minutos, não atingir o resultado,
dizer “não gostei” e partir para outro compressor é uma ma-
neira muito ineficaz de estudar ou de se especializar em algo.
Fig. 1 – Comportamento do “Q” no filtro Shelving

Quanto mais palestras, congressos, cursos e conversas com mesclar toda a flexibilidade de um equalizador digital, porém
outros profissionais, mais nítida será a percepção disso. A emulando as curvas de equalização de um equalizador ana-
grande maioria cita suas ferramentas de preferência quase lógico. Por exemplo, se um shelving estiver com muito ga-
sempre. E não são ferramentas da última geração tecno- nho, repare que o parâmetro “Q” permite gerar um pequeno
lógica. Pelo contrário, são ferramentas de três a oito anos corte logo após a frequência de corte (fig. 1). Também é
atrás, nas quais eles se tornaram especialistas a ponto de possível perceber que mesmo com o “Q” no mesmo valor, o
chegar ao resultado esperado em pouquíssimo tempo. tipo de abertura de um filtro do tipo bell/peaking é diferente
de acordo com o nível de ganho ou atenuação (fig. 2).
Ferramentas novas continuam sendo agregadas ao seus ar-
senais, mas aos poucos e com muito critério. Um ou dois O Reinassence Compressor tem a mesma filosofia. Possui
plug-ins por ano talvez sejam substituídos por outros mais uma interface mais moderna, porém há um cuidado em
modernos e eficazes. Nunca 30 plug-ins por semestre. tentar recriar o comportamento de um compressor opto
(baseado em foto-célula) e um valvulado (fig. 3). Estes
Entre estas ferramentas, uma muito utilizada é a série Re- controles estão basicamente atrelados ao attack e rele-
naissance, da Waves. Uma série “clássica”, muito antiga ase, e dependendo da fonte sonora e de seu envelope o
e mais do que testada e aprovada por grandes nomes do attack e release são mais lentos ou mais rápidos.
mercado. O Renaissance Maxx é o pacote com dez plug-ins,
que tem um preço bem acessível, inferior ao que boa parte E sem chamar muito atenção, ele é bem mais do que um
das pessoas gasta por mês em diversão. compressor. Basta regular o ratio para cima da linha central
e ele se transforma num Expander. Se elevar o ganho, ele
PLUG-INS PARA O DIA A DIA passa a atuar também como um limiter.

Este pacote conta com o Reinassence EQ, que já foi abor- O Renaissance Axx é um compressor moldado para gui-
dado em outras edições. Sua característica principal é a de tarra e baixo, com controles simples. Basicamente é um

28 | áudio música e tecnologia


De-esser, que funciona muito
bem, e o Reinassence Chan-
nel, que simplesmente integra
o equalizador, um compressor
e um noise gate numa única
interface, facilitando, e muito,
o acesso às ferramentas e a
seus parâmetros, que costu-
mam sofrer alterações diver-
Fig. 2 – Repare que mesmo com o sas vezes durante o processo
“Q” igual, as curvas são diferentes de mixagem. Interessante ob-
servar que há internamente
compressor em que a Waves disse “o ratio e o release você
uma opção para escolher a or-
deixa comigo, ok?”.
dem do fluxo de sinal destes
processadores (fig. 4).
Já o Renaissance Vox, como o próprio nome diz, leva em
consideração as características da voz humana e tem o
mesmo princípio. Porém, neste caso, ratio, attack e release
BUSCANDO UM Fig. 4 – Renaissance Channel
são por conta da Waves e o usuário não tem acesso.
“ALGO A MAIS”

Não menospreze estes compressores simplesmente por Para os casos em que apenas equalização e compressão
eles terem menos botões. Pelo contrário, eles são bem pro- não são suficientes para chegar no timbre desejado, o
jetados, e, principalmente o RVox, é muito mais usado do pacote contempla o Reinassence Bass, que recria graves
que o Rcomp quando o assunto é compressão de voz. artificialmente. Este plug-in é muito útil em diversos ce-
nários em que as frequências baixas, apesar de captadas
Também encontramos no mesmo pacote o Reinassence e/ou geradas, não foram suficientes para a função que
o elemento vai exercer na mix. Acontece principalmente
com bumbo ou com qualquer tambor.

O Renaissance Reverb também é um clássico. Na sua época


já existiam reverberadores em plug-ins renomados, como
os da Lexicon e T.C Eletronic, mas precisavam do poder de
processamento dos Chips DSP do Pro Tools TDM. O rever-
berador da Waves foi um marco, pois foi o primeiro plug-in
nativo (ou seja, que utiliza poder de processamento da CPU)
a ser, de fato, “aprovado” para uso profissional. Em especial,
os modelos de plate e spring merecem toda a sua atenção.

Como se já não fosse suficiente, o bundle ainda contempla


o IR-L Convolution Reverb: um reverberador baseado em
convolução que trabalha com amostras. É muito bem-vindo
quando o interesse é o de tentar recriar um ambiente espe-
cífico de forma mais fiel possível. E, por último, mas não me-
nos importante, o Waves Tune LT é o plug-in de afinação da
Waves, com proposta similar à do Melodyne e do Auto-Tune.

Então vamos ficando por aqui. Até o nosso próximo en-


Fig. 3 – Renaissance Compressor contro!

Cristiano Moura é produtor musical e instrutor certificado da Avid. Atualmente leciona cursos oficiais em Pro Tools, Waves, Sibelius e os treina-
mentos em mixagem na ProClass. Também é professor da UFRJ, onde ministra as disciplinas Edição de Trilha Sonora, Gravação e Mixagem de
Áudio e Elementos da Linguagem Musical. Email: cmoura@proclass.com.br

áudio música e tecnologia | 29


Notícias do Front | Renato Muñoz

Compressão ao Vivo (parte 2)


Voltando um pouco no tempo

Divulgação
O AM 864/U, lançado
na década de 1950, era
utilizado para controlar a
dinâmica do sinal de áudio
nas transmissões de rádio
nos Estados Unidos

Como eu disse no artigo anterior, os compressores foram um bemos, há um domínio completo dos plug-ins, porém,
dos primeiros equipamentos desenvolvidos para se tratar o como veremos mais adiante, alguns destes plug-ins, na
sinal de áudio. Eles já podiam ser encontrados nos estúdios verdade, são simulações de antigos compressores, que
de rádios, de televisão e nos estúdios de gravação no come- em um determinado período fizeram muito sucesso tan-
ço da década de 1950. Sendo assim, veremos que houve um to nos estúdios quanto ao vivo.
grande desenvolvimento neste tipo equipamento.
Existem diferentes categorias de compressores, e em cada
Nos antigos estúdios de rádio ou gravação, antes da im- uma delas o processamento do sinal de áudio é feito de
plementação do compressores, a melhor maneira de se uma maneira peculiar, criando uma assinatura sonora para
fazer um controle na dinâmica do sinal de áudio era afas- cada uma destas categorias. Um bom engenheiro de som
tando ou aproximando a fonte do microfone escolhido para sabe trabalhar com todas elas, buscando a melhor sonori-
captá-la. Isso podia funcionar bem se o cantor dominasse dade possível para a aplicação do momento.
esta técnica. O grande problema eram os outros instru-
mentos que nem sempre podiam fazer o mesmo. Estas categorias são:

Durante o processo de mixagem, muitos técnicos ainda gos- - VCA (Voltage Controlled Amplifier): É um dos mais
tam de fazer o controle da dinâmica do sinal de áudio, utilizan- versáteis compressores que podemos encontrar. Possui
do o fader para isto. Porém, é claro, fica muito difícil efetuar um circuito muito rápido e transparente, não “colore” o
este tipo de procedimento (que é válido) quando estamos tra- som e é ideal quando não queremos que a compressão
balhando com a dinâmica de vários canais ao mesmo tempo. seja percebida. Exemplos: SSL G Bus Compressor, dBX
160 e Focusrite Red.
A utilização dos compressores vem sendo aprimorada
bastante nos últimos anos, técnicas de compressão pa- - Óptico: Uma fotocélula é utilizada para trabalhar no sinal
ralela ou compressão multibandas são cada vez mais de áudio que entra no equipamento. Este método suaviza
utilizadas. Com a massificação dos plug-ins, antigas li- o processo tanto de compressão quanto de attack e rele-
mitações foram superadas e a criatividade dos técnicos ase, fazendo com que o compressor tenha uma resposta
pode ser aplicada quase que sem limite. mais lenta e um ataque mais suave. É ideal para instrumen-
tos que necessitem de uma compressão menos agressiva.
TIPOS DE COMPRESSORES Exemplos: LA2A e Tube-Tech CL1B.

Existe no mercado uma grande variedade de marcas e - Tube (Valvulado): São os mais antigos e difíceis de se-
modelos de compressores. Hoje em dia, como já sa- rem encontrados. Além de muito caros, possuem tanto at-

30 | áudio música e tecnologia


tack quanto release lentos, além de “colorirem” bastante o
som do sinal processado. Exemplo: Teletronix LA-2A.

- FET (Field Effect Transistor): Este compressor simula


válvulas utilizando um circuito transistorizado. Possui uma
alta impedância e uma característica sonora própria, e como
sua construção é cara, não existem muitos modelos no mer-
cado. É extremamente rápido e não muda muito as carac-
terísticas sonoras do sinal de áudio que está processando.
Exemplos: Universal Audio 1176 e Purple Audio MC77.

- Híbridos: Alguns compressores possuem mais de um cir-


cuito integrado ao seu desenho. Desta forma, o técnico pode
explorar diferentes características sonoras utilizando apenas
um equipamento. Exemplo: Empirical Labs Distressor.
Gráfico demonstra o comportamento de um limitador
- Variable-Mu: Possuem um desenho de circuitos mais antigo.
São compressores naturalmente mais “macios”, porém, quando mas, nos antigos crossovers analógicos ou, finalmente, junto
exigidos, se tornam mais agressivos, muito utilizados para com alguns compressores. Neste caso, tudo o que temos que
masterização e em broadcast. Exemplo: Manley Variable-MU. fazer é mudar o chamamento de compressor para limitador.

LIMITANDO EM VEZ DE COMPRIMIR PLUG-INS


Como o próprio nome diz, o limitador limita o sinal de áudio Podemos dizer que os plug-ins são a representação digita-
e não apenas comprime, como faz o seu “primo” compres- lizada dos equipamentos analógicos de áudio, e isto serve
sor. Desta forma, quando um limitador está atuando, ele, para várias marcas e modelos de equalizadores, compresso-
diferentemente do compressor, não deixa passar nada além res, pré-amplificadores, efeitos, simuladores de amplificado-
do ponto de limitação. Isto é importante, pois o limitador res e mais uma grande quantidade de equipamentos. A ideia
normalmente é utilizado para proteger algo. é que estes processadores digitais simulem o som original de
cada equipamento analógico.
Esta proteção é relacionada a componentes de um siste-
ma de sonorização, como falantes e drivers. Normalmen- O que basicamente aconteceu nos últimos anos foi que a
te, caixas amplificadas, como os monitores de referência, a indústria de equipamentos de áudio (em hardware) viu
possuem limitadores internos que têm como objetivo pro- suas vendas despencarem drasticamente, principalmen-
teger este equipamento de picos de sinal. Quando a caixa te devido ao grande avanço no mercado dos sistemas de
recebe um sinal acima do estabelecido pelo seu limitador, gravação e mixagem baseados em computadores. O sur-
ela deixa de funcionar até aquele pico passar. gimento e o desenvolvimento dos plug-ins foram a forma
destes fabricantes se manterem no mercado.
Nem todos os técnicos gostam de utilizar os limitadores nos
canais de entrada do console porque nem sempre eles são Esta ideia surgiu a partir do desenvolvimento dos computado-
muito musicais. Porém, em alguns casos, técnicos de moni- res e dos softwares de gravação. O objetivo é fazer com que
tor podem utilizá-los nas mandadas de monitor dos consoles, todo o processo de gravação e mixagem fosse feito inteiramen-
pois alguns sistemas de monitores in-ear trabalham com li- te no formato digital, assim, além de eliminar os problemas já
mitadores muito ruins, e o técnico pode querer substituí-los. conhecidos dos equipamentos analógicos, poderia-se, então,
fazer um boa economia, devido ao custo menor dos plug-ins
Muitos limitadores, então, podem ser internos, colocados junto
ao processamento das caixas processadas, no processamento Levando-se em consideração que para se fazer uma mixa-
digital de alguns amplificadores, nos gerenciadores de siste- gem em um estúdio ou ao vivo é necessário uma grande

Compressor Manley Variable MU áudio música e tecnologia | 31


nOTíCIAS DO FROnT

versão em hardware (na verdade, existem pouquíssimas


opções), porém, quando procuramos as versões em plug-
-ins, as opções são bem variadas.
Divulgação

O princípio básico deste equipamento é que ele é capaz de


comprimir regiões de frequências diferentes de uma ma-
neira independente, podemos usar como explicação o caso
de termos um equalizador paramétrico com a possibilida-
de de acrescentarmos um compressor em cada uma de
suas bandas de equalização. Se você utiliza um compres-
sor multibandas na bateria por exemplo, com uma com-
pressão mais acentuada nas altas frequências, quando o
baterista tocar os pratos com mais força estes pratos se-
rão comprimidos, enquanto que as outras peças da bateria
continuarão com a sua dinâmica original.

A imagem é da clássica máquina de reverb Normalmente eu utilizo o compressor multibandas nos


Lexicon 224, fabricada nos anos de 1970 e grupos e nas saídas do console. No primeiro caso eu con-
mais tarde transformada em plug-in sigo controlar bem a dinâmica de vários instrumentos
agrupados, como bateria, metais e vocais, e, no segundo,
quantidade de processadores de áudio, como reverbers,
tenho um maior controle na dinâmica da mixagem final.
delays, compressores, equalizadores, gates etc., quando se
Em casos mais específicos, como a voz, o compressor é
utiliza os plug-ins podemos ter uma máquina atendendo
colocado diretamente no canal em questão.
a mais de um canal de processamento ao mesmo tempo.

Existe um tipo de compressor que trabalha em apenas uma


A utilização dos plug-ins requer alguns cuidados. Primei-
banda de frequência (normalmente as altas frequências). Ele é
ro, é necessário se ter processamento para trabalhar com
conhecido como D-Esser, tendo sido desenhado para eliminar
eles: quanto mais plug-ins, maior será a exigência sobre
a sibilância, principalmente dos vocais, evitando que o técnico
o equipamento. Segundo, o técnico deve ficar atento a
tenha que, na mixagem, retirar frequências que, em muitos
versões tanto dos plug-ins quanto dos consoles. Havendo
casos, ajudam na inteligibilidade. •
alguma incompatibilidade, toda a opera-
ção pode ser inviabilizada.

O que sempre devemos ter em mente é


que os plug-ins foram criados para serem
emuladores de equipamentos original-
mente feitos em hardware, ou seja, eles
nunca terão exatamente a mesma sono-
ridade e sempre irão trabalhar tentando
chegar ao som original, alguns com mais
e outros com menos precisão. Tudo vai
depender do desenho do seu software.

COMPRESSÃO MULTIBANDAS
Na minha opinião, o melhor e mais com-
Reprodução

pleto tipo de compressor atualmente é o


multibandas. Confesso que nunca havia
utilizado este tipo de compressor na sua
Compressor multibandas (plug-in) Waves C6

Renato Muñoz é formado em Comunicação Social e atua como instrutor do IATEC e técnico de gravação e PA. Iniciou sua carreira
em 1990 e desde 2003 trabalha com o Skank. E-mail: renatomunoz@musitec.com.br

32 | áudio música e tecnologia


áudio música e tecnologia | 33
SOM AO VIVO | Denio Costa

PRESSÃO SONORA EM SHOWS


Tem como trabalhar mais alto?

Divulgação
Em recentes discussões pelas redes sociais, ida a shows e pessoas que estão trabalhando nos ambientes? É possível
peças teatrais, observei o quanto o nível de pressão sonora conscientizar os profissionais?
ainda é assunto para longos debates. Precisamos cuidar des-
te tema de forma mais profissional e eficaz, fazendo com que Em um primeiro momento imagino que não seja neces-
os resultados destas discussões possam ir para o campo e sário algo específico para shows, mas não que seja dis-
integrar a rotina de nossos técnicos, tanto de artistas quanto pensável. Basta avaliarmos os critérios usados nas leis
de locadoras, e, como consequência, atenuar os níveis de trabalhistas que consideram os índices de insalubridade e
pressão sonora empregados atualmente nos eventos. periculosidade gerados por ruídos aéreos. Se um determi-
nado nível e tempo de exposição a ruídos de máquinas e
Por enquanto isto ainda está longe de acontecer, visto que equipamentos pode afetar a audição de um trabalhador,
muitos técnicos apenas obedecem aos “artistas”, que exi- por que a exposição a um show não afetaria a audição do
gem sons cada vez mais altos para o público, acreditando público, já que possui amplo espectro de frequência, lon-
que desta forma farão mais sucesso por ter um estilo de som ga duração e elevados níveis de pressão sonora?
“pancada, aborto, lenha, tranco, porrada, tiro” ou qualquer
outro adjetivo do gênero. Acreditam que os elevados níveis NÍVEL DE SPL E TEMPO
de pressão sonora são mais importantes até do que os arran- DE EXPOSIÇÃO
jos e letras de suas músicas. O pior é que muitos operadores
de áudio ainda correm o risco de perderem seus empregos se Tenho o hábito de levar meus protetores auriculares para
não obedecerem a estes patrões. os eventos, independentemente de estar trabalhando
ou apenas assistindo. Recentemente fui a um espetá-
Então pergunto: qual o critério a ser seguido para os volu- culo humorístico. Em função do perfil do evento, nem
mes utilizados nos eventos? Basta a vontade de alguém? me preocupei em levar meus fiéis companheiros. Ima-
Será que nossa legislação não teria uma norma que de- ginei: teremos alguns microfones auriculares captando
fine estes limites? Como proteger a audição do público e vozes, uma trilha sonora eletrônica ou talvez um peque-

34 | áudio música e tecnologia


no grupo musical fazendo a trilha ao vivo. Na verdade trabalho. Mas é algo que vai além – trata-se da saúde audi-
havia alguns microfones auriculares e apenas uma trilha tiva de inúmeros espectadores.
sonora eletrônica, sem música ao vivo. Ou seja, o SPL
todo nas mãos do técnico, sem vazamentos acústicos dos Além do nível de pressão sonora, devemos considerar o tempo
instrumentos. Infelizmente me dei mal: 90% do tempo de exposição a esta pressão. Se o tempo for longo, mesmo
do espetáculo assisti com os dedos indicadores quase níveis mais baixos podem ser danosos à saúde auditiva. Exem-
encostando nos tímpanos. E não fui o único, pois minha plo: uma exposição de uma hora a 100 dB SPL pode ser menos
irmã, sobrinho e esposa fizeram o mesmo. Não sei qual o danosa do que quatro horas de 90 dB SPL. Aqui cabe uma
objetivo daquele volume. Se era o de animar e envolver reflexão ao uso contínuo dos fones de ouvido em celulares.
a plateia, não sei se foi alcançado.
MEDIÇÃO
As primeiras dúvidas são “por que medir?”, “o que medir?”
e “como medir?”. Para sabermos qual o nível de pressão
sonora em um determinado ambiente, será necessário re-
alizar uma medição. Então vamos precisar de um sonôme-
tro (medidor de SPL ou medidor de nível de pressão so-
nora – NPS), ferramenta que alguns insistem em chamar
de decibelímetro. Para efetuar as medições de pressão
sonora de um show não há necessidade de se trabalhar
com equipamentos de precisão Classe 1. Classe 2 ou 3
atendem à nossa demanda, que é o zelo pela audição de
nossos patrões. No caso, o público.

O mais difícil é saber porque e o que medir. Medimos para


nos certificarmos do desempenho de um sistema e se
estamos atendendo a especificações e/ou normas técni-
Nível de SPL cas. Por ora, vamos medir o nível de pressão sonora no
ambiente. Lembrando que o medidor de pressão sonora
mede um determinado ponto no espaço, local onde for
Fiquei muito incomodado e até mesmo decepcionado porque posicionado o microfone de medição. Portanto, muitas ve-
naquele teatro operei, algumas semanas antes, o som para zes realizamos diversas medições alterando o microfone
o show da Fernanda Abreu, com banda ao vivo, e estava de lugar ou usamos diversos microfones distribuídos no
muito confortável, com um de 98 dB SPL ( = ambiente ligados a um sistema de medições.
nível sonoro médio integrado, durante uma faixa de tempo
específica). Nem mesmo eu, que estava com meus prote- Inicialmente, este equipamento de medição precisa ser
tores auriculares, cheguei a usá-los neste show. O público calibrado. Utilizando um calibrador eletroacústico, ire-
raramente tem esta preocupação. Isto é coisa de técnico mos aferir se o equipamento de medição está medindo
“véio” e atento com a longevidade de suas ferramentas de corretamente. O calibrador gera um tom puro de 1 kHz

SPL por tempo Tabela de exposição SPL x tempo


SOM AO VIVO

SAÚDE AUDITIVA
Não basta reduzir o nível do master da mesa: é preciso
aprender a mixar em níveis mais baixos. Para conferir, basta
ouvir uma música em um sistema de som em diversos volu-
mes. Verá que faria alguns ajustes na equalização para que
soasse agradável nos diversos níveis.

Calibrador
eletroacústico

com 1Pa de pressão (94 dB SPL – - Pressão é


força aplicada em uma determinada área). É posicionado
sobre o microfone, que deve estar na vertical. Existem
também calibradores mecânicos (pistonfones) que são
mais precisos e geram sinal de 250 Hz.

Os medidores possuem filtros de ponderação baseados Curvas de ponderação


nas curvas isofônicas de nível de audibilidade (phons)
para que possam se assemelhar a percepção subjetiva Como a percepção psicoacústica muda com o nível de pres-
de intensidade sonora dos seres humanos. A curva de são sonora, é necessário mais cuidados no momento da
ponderação A se aproxima da sensação auditiva da curva mixagem. Até mesmo rever a forma de trabalhar e de se
de 40 phons (40 a 70 dB), ou seja, para níveis modera- equalizar os masters. Aqui não estou ponderando os obje-
dos. A curva de ponderação C se aproxima da sensação tivos da otimização do sistema de sonorização ambiente,
auditiva da curva de 90 phons (90 a 100 dB), níveis mais mas apenas da equalização das fontes sonoras e mixagem.
elevados e próximos da realidade de shows e eventos. A otimização de sistemas é outro assunto.
Veja as curvas no gráfico de audibilidade.

Calibrando o sonômetro Curvas de audibilidade – phons

36 | áudio música e tecnologia


Muito já se avançou com o uso de sistemas para mo-
nitoração intra-auricular. É raro vermos um palco com
16 ou mais caixas para monitoração dos músicos, como
era comum há alguns anos. O lado positivo (ou não) é
que o nível de SPL fica cada vez mais na mão do técni-
co. Cabe a ele cuidar da saúde auditiva do público.

Muitos operadores já se acostumaram a mixar com


os limiters dos sistemas atuando quase que continu-
amente. Isto também afeta o resultado de sua mi-
Maximizer
xagem, sem falar na durabilidade do sistema. Quando os
limiters entram em ação, o nível RMS sobe e o headroom Lembre-se de fazer regularmente sua audiometria e avaliar
diminui, e as possíveis dinâmica e linearidade vão pro espa- o quanto de sua audição já foi comprometida pelo avanço da
ço. Não é raro ouvirmos shows em que a dinâmica, ou a sua idade e pelos abusos sonoros. Peça perdão, diariamente e de
falta, parece ter sido feita em uma sessão de gravação em joelhos, pelos tímpanos danificados ao longo de sua carreira.
que se usa apenas a função “maximizer”. Este é o resultado
de excessos de compressão e/ou limitação. Um abraço!

Denio Costa é diretor da empresa de projetos DGC Áudio, Vídeo e Acústica e da escola de áudio núcleo de Formação Profissional – nFP. Elabora projetos
e presta serviços de otimização de sistemas de sonorização. É consultor técnico da Attack Audio System. E-mail: deniocosta@dgcaudio.com.br

áudio música e tecnologia | 37


Wiki Images
QUEM É QUEM? | Rodrigo Sabatinelli

TÉCNICO DE INSTRUMENTOS
Por dentro do trabalho dos roadies,
verdadeiras “sombras” dos músicos
Nesta edição falaremos sobre o técnico de instrumentos, cêndio” relacionado ao espetáculo. Entretanto, com o passar
que, ao lado dos técnicos de PA e monitor e do diretor de do tempo, o roadie pode executar outras funções dentro do
palco, já apresentados em números passados, “engorda” “crew”, como, por exemplo, auxiliar os técnicos de PA, monitor
o organograma profissional de um espetáculo musical ao ou de luzes em suas respectivas funções e até mesmo assumir
vivo, tema de nossa série Quem é Quem? o posto de produtor executivo ou diretor de palco.

Também chamado de roadie, ele é o cara que cuida com No Brasil, nomes como os de Diego Soares, Alexandre
muito carinho de baixos, guitarras, Duayer, Alex Silvino, Nilson Batista
violões, baterias, microfones e sis- e Jason Spera, que já fizeram parte
Divulgação

temas de monitoração in-ear, dentre das equipes técnicas de Lulu Santos,


outros equipamentos, ou seja, das O Rappa, Capital Inicial, Engenhei-
ferramentas de trabalho, que, em ros do Hawaii e Jota Quest, entre
muitos casos, são usadas diariamente outros artistas, são os grandes des-
por músicos e artistas. taques da profissão, que a cada dia
é vista com mais respeito.
A disciplina do personagem em ques-
tão geralmente comporta do transpor- QUANTO MENOS
te seguro destes equipamentos, que APARECER, MELHOR
saem diretamente de aviões, cami-
nhões e galpões para cima dos palcos, É comum ouvirmos artistas elogiando
às montagens, cabeamentos, afina- o trabalho de seus roadies, dizendo
ções, gerenciamento de trocas duran- que “são bons por aparecerem pouco”.
te as apresentações e desmontagens, Alexandre Duayer, que trabalhou Faz sentido. Tirando, obviamente, os
passando ainda por limpezas e manu- com O Rappa e que hoje faz parte momentos em que estes profissionais
tenções dos mesmos. da equipe de Lulu Santos, está têm que entrar em cena para entregar
entre os mais bem-sucedidos e retirar os instrumentos das mãos de
Na hora do show, cabe a ele servir as profissionais nacionais que cuidam seus artistas, quando um roadie fica
estrelas e, claro, “apagar qualquer in- de instrumentos musicais diante da plateia por alguns segundos

38 | áudio música e tecnologia


Wiki Images
– e, quando “o bicho pega”, por alguns
minutos – é que algo de muito errado
está acontecendo.

Dentre os imprevistos que fazem parte


de seu dia a dia estão problemas com
conexões de instrumentos e microfo-
nes, como cabos partidos ou com ruídos
que impossibilitem a execução das mú-
sicas; danos físicos nestes instrumen-
tos, como cordas e peles rompidas pela
força das mãos em palhetas e baque-
tas, e até mesmo panes em amplifica-
A manutenção periódica dos instrumentos deve ser
feita pelo roadie, caso esteja preparado para isso
dores e acessórios como pedaleiras e módulos de efeitos.
Um bom roadie, no entanto, tira tudo isso de letra.
tar ambientado com o universo da execução certamente
LIMPEZA E MANUTENÇÃO PERIóDICAS facilita – e muito – a vida deste profissional, tido como
“o melhor amigo do artista”, ou melhor, como sua pró-
Cabe, ainda, ao técnico de instrumentos, além das funções pria “sombra”.
executadas durante as apresentações dos artistas, cuidar
da limpeza e da manutenção de seus instrumentos e equi- Há quem diga, no entanto, que os cursos disponíveis no
pamentos em geral. Afinal de contas, é importante que os mercado são suficientes para tal formação. De qualquer
encontrem sempre em perfeitas condições de uso. forma, adquirir conhecimento e praticar o ofício são duas
frentes importantes para quem deseja seguir uma carrei-
As limpezas, que comportam partes interna e externa, de- ra que requer dedicação em excesso e abdicação de lazer,
vem ser feitas com produtos indicados, de modo que assegu- de horas de sono e até da vida conjugal e familiar.
rem a integridade física dos instrumentos, enquanto que as
manutenções, geralmente mais detalhadas, devem ser feitas Como curiosidade, vale lembrar que algumas das gran-
por especialistas, tais como luthiers e assistências autoriza- des estrelas da música nacional e internacional um dia
das, naturalmente, se o roadie não for capaz de realizá-las. foram técnicos de instrumentos. Andreas Kisser, guitar-
rista do Sepultura, por exemplo, trabalhou como roadie
TOCAR UM INSTRUMENTO = PREMISSA da banda antes de fazer parte dela. Já Lemmy Kilmister,
do Motorhead, quando nem sonhava em se tornar um dos
Todo técnico de instrumento deve ser, essencialmente, grandes ícones do rock, cuidou das guitarras e dos ampli-
músico. Não que isso seja uma regra, mas, de fato, es- ficadores de Jimi Hendrix. Não custa nada sonhar, né? •
Wiki Images

Divulgação

No detalhe, parte do material de trabalho do profissional Há muitos anos, antes de fazer parte do
Sepultura, Andreas Kisser foi roadie da banda
CAPA | Emerson Duarte

Novo Console
Midas M32
Uma mesa de alto desempenho com conversores
de grande capacidade, pré-amplificador analógico
e faders motorizados feitos para durar
Após o sucesso do console Behringer X32, o Music Group DÚVIDAS E DESENVOLVIMENTO
apresenta agora mais um console digital da marca Midas,
o M32, que conta com alguns “empréstimos” do X32. O Depois da aquisição da tradicional fabricante inglesa pelo
resultado é o mais recente produto em 40 anos de his- Music Group, surgiram intensas discussões, e não apenas
tória de grandes consoles de mixagem, que vem sendo no Reino Unido, sobre como essa mudança radical influen-
usados por alguns dos mais importantes nomes da in- ciaria o mercado. “A Midas se tornará agora um fabricante
dústria. Lá atrás, por exemplo, Frank Zappa, Yes, Beach de produtos em massa?” foi uma das principais questões
Boys e Pink Floyd foram alguns dos que colocaram os levantadas. A resposta: isso não aconteceu até agora; as
Midas no mapa, e desse mapa as mesas nunca mais saí- duas marcas ocupam posições individuais no mercado e,
ram, ocupando posição de destaque. com isso, coexistem muito bem.

40 | áudio música e tecnologia


Rodrigo Sabatinelli

Apesar deste fato, existem, naturalmente, sobreposi- anos no mercado, aproveitando seu hardware DSP, software
ções, com as quais as duas linhas de produtos podem e a interface do usuário, revestindo com um gabinete nobre
obter vantagens. Há tempos os pequenos consoles ana- e novos faders, já temos o novo console Midas 32? Não. O
lógicos Midas Venice e Verona mostraram que o rótulo processo não foi assim tão simples. Resumindo, podemos
Midas pode atingir um grande número de vendas. Com falar que o X32 não chega naturalmente aos padrões dos
esses consoles, a Midas atraiu consumidores que normal- consoles digitais de alta definição (que são dez vezes mais
mente não teriam condições de adquirir seus consoles, caros). Obviamente isso não seria esperado por ninguém.
atingindo um maior círculo de usuários.
E exatamente esse ponto foi colocado no desenvolvimen-
Se tomarmos a bem-sucedida Behringer X32, que está há dois to do Midas M32. Para elevar o console para uma classe

áudio música e tecnologia | 41


CAPA
Guilherme Grasel

mília Midas Pro Series), um display colorido de sete po-


legadas e funções de efeitos variados.

Os hardwares de entrada e saída estão conectados no


console através de uma matriz de bloco e uma matriz de
canal. No console se encontram novamente 32 entradas
analógicas com pré-amplificadores Midas (novamente:
os mesmos da família Midas Pro Series) e seis entradas
de line P10 ¼ TRS (balanceado). Há 16 saídas físicas, 16
simétricas, com conectores XLR e também seis outputs
com conector P10 ¼ TRS. São duas as saídas para Moni-
tor Control Room, com conexões XLR e conexões P10 ¼
TRS. A mesa M32 já vem equipada com uma poderosa
interface de gravação Klark Teknik DN32, que possibilita
gravar até 32 canais e também reproduzi-los de volta na
M32, utilizando, para isso, qualquer software de grava-
ção existente no mercado.

Também como alternativa, a Klark Teknik oferece cards


para comunicação externa com protocolos Dante, Madi
e ADAT. A M32 Possui duas portas de rede por meio das
quais se pode enviar ou receber sinais via cabo de rede,
utilizando, para isso, o protocolo AES50, o mesmo usado
por todos os consoles digitais da família Pro Series, per-
mitindo assim que se utilize todos os stage box Midas, e,
claro, o novo Stage Box DL16. Este último conta com 16
O console M32 conta com faders Midas 100 mm, entradas XLR, com o mesmo pré-amp do console e oito
que são os mesmos da família Midas Pro Series saídas com conectores XLR – isso tudo com a baixa latên-
cia que o protocolo AES50 oferece.
acima, o M32 combina a qualidade de áudio Midas a uma
avançada tecnologia digital, com conversores altamente As portas AES50 A e B podem enviar e receber até 48
capazes unidos a um excelente pré-amplificador analógico sinais cada e conectar até três DL16 a uma M32. Então
(Midas Pro Series Preamp) e faders moto-
rizados que foram projetados para atingir

Guilherme Grasel
um milhão de ciclos de vida útil.

Podemos resumir que temos, entre X32 e


M32, o mesmo software, com um opera-
cional exatamente igual, mas hardwares
bastante distintos.

ESTRUTURA DO
SINAL DA M32
Primeiramente, faremos uma rápida
descrição do console de 38 canais, total
recall, que oferece 16 bus sends, seis
grupos de mute, oito grupos DCA, seis
matrix, L/R e C mono com faders Midas
100 mm (os mesmos utilizados pela fa-

Display de LCD de sete polegadas tem resolução


de 800 x 480 e oferece 262 mil cores

42 | áudio música e tecnologia


Katheleen Pereira

Kutty começou seu trabalho no M32 anali-


sando elementos de design que ajudaram a
fazer com que os consoles Midas tivessem
grande aceitação por grandes técnicos do
mundo do áudio, incluindo a ergonomia e
a disposição lógica e simples. Muitos ma-
teriais de construção foram testados, com
inúmeras variações de design sendo explo-
radas. No final, um estilo foi escolhido e
este representa, de acordo com a fabrican-
te, o casamento perfeito entre arte aero-
dinâmica e desempenho intransigente. De
fato, o design ao mesmo tempo é bem mo-
derno e, ainda assim, clássico.

O novo box da M32 foi projetado em fibra


de carbono, alumínio e chassi em aço, e isso
Rajesh Kutty, renomado designer do mercado tem sido alvo de elogios. Segundo a fabri-
automobilístico, foi o responsável por desenvolver a “cara” cante, agora a Midas faz ainda mais jus ao nome que car-
da mesa, que leva em conta ergonomia e disposição lógica rega e deixa uma impressão de valor em todos os sentidos.
e simples dos recursos
Outro dos grandes diferenciais da M32 são os seus con-
seriam 96 entradas e 48 saídas, tudo isso interligado via versores A/D e D/A, que trabalham com um sample rate
cabo Cat5 com um comprimento máximo de 100 me- de 192 kHz. Isso, aliado a um pré-amp Midas, garante
tros. Podemos conectar consoles M32 via cabo de rede, uma excelente qualidade do áudio. Embora o software
dispensando, assim, o uso de um multicabo analógico. processe tudo em 48 kHz, já há rumores de um upgrade
Ainda há a função Gain-Splitting, que permite dividir o de versão para 96 kHz.
ganho quente do “trim” ganho digital.
SOFTWARES E MAIS
DESIGN ESPECIAL E CONVERSORES
QUE BENEFICIAM A QUALIDADE A Midas disponibiliza gratuitamente em seu site softwares
de controle remoto da M32 para Microsoft Windows, Apple
O novo console Midas M32 conta com um design inovador, e OS X, Linux e um app para iPad. A conexão entre o roteador
isso se deve à contratação, pelo Music Group, de um desig- wi-fi e o console acontece pela Ethernet ligada por cabos ou
ner do mercado automobilístico chamado Rajesh Kutty, que por W-Lan. O M32 possui ainda uma porta de rede Ultranet
tem no currículo a assinatura de projetos como
os de automóveis Bentley. Mas por que contar

Divulgação
com um designer do mercado automobilís-
tico? Segundo a fabricante, simplesmente
porque equipes de design de marcas como
Aston, Martin, Bentley,
Rolls Royce, entre
outras de referên-
cias, são hábeis em
introduzir tecnolo-
gias inovadoras, man-
tendo, ao mesmo tempo, a
essência e a qualidade de seus pro-
dutos. E este foi o desafio que também Vista traseira do console: 32 entradas analógicas com pré-amplificadores
enfrentou a engenharia de desenvolvi- Midas e seis de line P10 ¼ TRS balanceado. Equipamento também tem 16
mento Midas ao criar o console M32. saídas físicas, conectores XLR e seis outputs com conector P10 ¼ TRS.

áudio música e tecnologia | 43


CAPA

Console Midas M32 - Especificações Técnicas


Processamento
Canais de processamento de entrada 32 canais de entrada
8 canais de entrada de linha
Saídas processadas 16 saídas XLR
6 saídas P10 1/4 TRS balanceadas
16 auxiliares, 6 matrix e master L/R e mono Fader de 100 mm
Rack de máquinas de efeitos estéreo e mono 16/8
Automação de cenas e snippets 500/100
Cenas de total recall 100
Processamento de sinal 40 bits, processador de ponto flutuante
Conversores A/D D/A 24 bits 192 kHz 114 dB de range dinâmico
Latência de entrada para saída 0,8 ms
Latência com stagebox 1,1 ms
Conectores
Midas Pro Series pré-amplificadores 32 XLR
RCA entradas e saídas 2/2
Saídas XLR 16
Saídas de monitor XLR e P10 1/4 TRS 2/2
Saídas de fone 2 estéreo
Saída digital AES/EBU 1
Portas AES50 2
Placa de expansão Card 32/32 entradas e saídas
Porta Ultranet
conexão com sistema de monitor pessoal 1
Entradas e saídas MIDI 2
Porta USB 1
Porta Ethernet para controle remoto 1
Entradas e saídas
THD+N(0 dB de ganho, 0 dBu de saída) <0.01% unweighted
THD+N (+40 db de ganho, 0 dBu para +20 dBu de saída) <0,03% unweighted
Impedância de entrada 10 KΩ / 10 KΩ
Phantom Power + 48 V
Resposta de frequência 48Khz 0 dB para -1 dB 20 Hz a 20 kHz
Range dinâmico de entrada e saída analógica 106 dB 22 Hz-22 kHz
Display
Tela 7" TFT LCD 800 x 480 de resolução, 262K cores
Meters do master 24 segmentos (-57 dB clip)
Fonte AC
Fonte Chaveada 100-240 V 50/60 Hz
Consumo de energia 120 W
Dimensões e peso
Dimensões 891 x 612 x 256 mm
Peso 24,5 kg

44 | áudio música e tecnologia


que permite comunicação com o sistema pessoal de monitoração
Behringer P16 e também com caixas acústicas da família IQ da
Turbosound. Isso garante o correto uso destas caixas acústicas
com DSP, que já vêm com seus presets de fábrica.

Um RTA de alta resolução com 100 bandas pode ser utilizado em


cada um dos canais do console e o sistema M32 também con-
ta com uma biblioteca com mais de 50 plug-ins, que podem ser
usados em oito racks stereo. Pode-se destacar a forte aposta da
Klark Teknik na emulação de clássicos do áudio digital, como os
renomados compressores Urei 1176, Teletronix LA-2A e Fairchild
670, bem como os lendários equalizadores Pultec EQP-1A e EQ5.

A função Gain Splitting na entrada divide o Headamp Gain ana-


lógico do Gain Digital, de modo que para cada console conec-
tado (F.O.H, Monitor etc.) pode se definir um Gain Digital para
cada canal respectivo. Isso não vale somente para o uso com
um stage box, mas também para as entradas analógicas do
console. Desse modo, as 32 entradas XLR e as seis P10 1/4TRS
podem ser utilizadas como um stagebox e enviadas através de
AES50 por um cabo de rede.

CONCLUSÃO
Aceitar que o console Midas M32 é um derivado nobre do Behrin-
ger X32 é uma comparação simplista e limitada. Como comenta-
mos, é fato que houve algumas sinergias. Por outro lado, havia
um potencial de melhoramento do design e o X32 alcançou novos
valores de áudio, correspondendo a um excelente nível técnico.

A partir disso, pode-se afirmar que o novo console Midas M32


manteve o núcleo DSP e o sistema operacional intocáveis, contu-
do, os significativos melhoramentos sobre seus hardwares, pré-
-amplificadores, conversores analógico-digital e digital-analógico
levaram a mesa a uma classe mais elevada. •

Mais fotos em
www.musitec.com.br

Emerson Duarte atua na ProShows como especialista de pró-audio. Possui


o certificado CMDSE (Midas Digital System Engineer) Inglaterra.

áudio música e tecnologia | 45


ESTÚDIO | Rodrigo Sabatinelli

Arquivo Fernando Moura


TUDO EM CASA
Lançando novo disco, Fernando Moura mostra seu estúdio
caseiro, resultado de um investimento de 30 anos
Colaborador de nossa revista há anos, o músico, produtor, Fernando Moura: Mudei para cá em 1984, quando,
compositor e arranjador Fernando Moura acaba de lançar aconselhado por minha mãe, entendi que era desperdí-
seu mais novo trabalho, Pros Meninos, duo de piano e cio usar o cachê de um show – entre os 10 ou 15 que
percussão que repete a fórmula usada em CosmeDamião, fazia mensalmente acompanhando artistas da MPB – para
também gravado em parceria com o percussionista Ary pagar aluguel. Então comprei esse imóvel para morar e
Dias, integrante do grupo A Cor do Som. trabalhar, o que, na época, significava ensaiar, compor e
fazer demos em quatro canais. Hoje, moro a dez minutos
Dono de um superestúdio, localizado em um apartamento daqui e não consigo passar um dia sem pensar em algum
em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, Fernando melhoramento [para ele], alguma coisa que precise ser
conta, nas próximas páginas, detalhes sobre a história do feita para aumentar a qualidade e o conforto para mim e
local – adquirido com parte dos cachês recebidos de artis- meus clientes. Isso pode ser tanto uma reforma no ba-
tas que acompanhou no passado – e fala sobre a produção nheiro quanto trazer um piano Steinway & Sons para a
do CD, mixado em Nova York por Tom Swift e masteriza- sala de gravação, subindo quase 20 lances de escada.
do, também na Big Apple, por Luis Herrera.
Em todos os aspectos, não é fácil montar um estú-
AM&T: Fernando, como você mesmo diz, seu estúdio dio. Na época em que iniciou o projeto, você contou
é uma espécie de “diário de 30 anos de trabalho”, com a ajuda de alguém?
e, ao contrário daquele estúdio que se constrói para
fazer um negócio, é “o negócio que foi sendo cons- Tive a sorte de receber ajuda e conselhos de muitos gê-
truído ao longo de sua vida profissional”, desde os nios e mitos da música e da tecnologia do cenário profis-
tempos do Tascam Porta Studio, do DX7 e do SPX sional brasileiro. Sólon do Valle, por exemplo, deu a com-
90. Fale um pouco sobre tudo isso. binação dos materiais que fariam um isolamento acústico

46 | áudio música e tecnologia


Arquivo Fernando Moura
para a vizinhança não querer me expulsar; Nel-
son Nuccini colocou as placas de lã de vidro,
madeira e espuma nos intervalos das excursões
do Barão [Vermelho] e da Marisa [Monte]; Fá-
bio Henriques aprovou minha maneira de gravar
o piano acústico – com a tampa fechada para
melhor controle da reverberação –; Paulinho
Carvalho, do Eco Som, organizou as ligações de
força, e na confecção e dimensionamento dos
cabos de instrumentos tive a grande ajuda do
pessoal da Santo Angelo.

Um bom estúdio caseiro precisa, essencial-


mente, de um bom par de caixas de moni-
toração. No seu caso, qual é a opção? Coleção de teclados de Fernando: juntos com o
piano Steinway (foto do instrumento, posicionado
Olha, aconselhado pelo Sólon, uso na sala de na sala, abre a matéria) são os xodós do músico
teclados e mix as NS 10, da Yamaha, para as
quais tenho vários alto-falantes de reserva,
comprados ao longo de mais de 15 anos trabalhando com Meu estúdio é destinado basicamente à produção, criação,
artistas japoneses, aqui e lá. Também coloquei fusíveis gravação e mixagem de trilhas sonoras para cinema e TV,
nas caixas depois que queimei dois pares de twitters en- que respondem pela maior parte da minha atividade pro-
quanto aprendia a usar o Vocoder, da Korg. Mas como nin- fissional, mas tem servido a vários outros projetos fora
guém é de ferro, quando estou compondo, prefiro ouvir [o do âmbito [da trilha sonora], como, por exemplo, meus
som] nas caixas Genelec 1030A. Por sorte, dois de meus trabalhos autorais, que, na minha opinião, necessitam da
maiores e mais frequentes clientes usam essas mesmas contribuição de um bom engenheiro para mixar e masteri-
caixas em suas ilhas de sonorização. Então, o que eu ouço zar. TudoPiano, por exemplo, foi gravado aqui, em 2008, e
aqui é o que eles ouvem lá, e isso facilita bastante na mixado nos lendários Angel e Miloco Studios, em Londres.
hora de considerar os pedidos de modificações nas trilhas
sonoras que faço para eles. Fale um pouco sobre a gravação deste novo traba-
lho. Que microfones usaram para captar os instru-
Por ser baseado em um apartamento, o estúdio tem mentos, por exemplo?
algum tipo de “limitação”?
Usamos um par de Neumann KM 184 para captar o pia-
O estúdio, hoje em dia, é um bom negócio. Claro, se no acústico e deixamos os Neumann U87, Sennheiser 421,
for dimensionado corretamente para a sua área de Electro Voice RE20 e Studio Electronics SE 1 para a per-
atuação. Não posso, por exemplo, gravar cordas, me- cussão e convidados. Tudo passando por pré-amplificadores
tais nem bateria aqui, mas essas formações são bem Neve. Há tempos uso um preset de gravação de piano acús-
menos frequentes entre meus pedidos, e, quando elas tico com a tampa fechada a fim de minimizar a influência
acontecem, fico muito feliz por poder gravar num es- externa. Esse preset foi desenvolvido com o Nelson Nuccini,
túdio preparado para isso, no qual eu possa me con- aperfeiçoado pelo Sólon do Valle e aprovado não só pelo Fá-
centrar no aspecto musical do trabalho. O mesmo vale bio Henriques, como até por meus clientes japoneses, para
para mixagem e masterização. Se não tem orçamento, quem mando os pianos gravados aqui. Já ficava feliz com o
a gente faz o melhor possível, mas não dá para sonhar Yamaha C2, agora fico muito mais com o Steinway & Sons.
com um equalizador Maselec, que custa uma grana,
para masterizar trilhas sonoras de TVs a cabo. E como foram gravados os metais?

Mesmo com um estúdio pronto para realizar todas Gravamos no Casa das Máquinas, em Salvador, com os 17
as etapas de uma produção, você ainda terceiriza músicos tocando ao vivo, o que deu um calor sensacional
serviços. Em Pros Meninos, por exemplo, você mi- à execução e uma dor de cabeça mais sensacional ainda
xou e masterizou fora. ao Tom Swift [engenheiro de mixagem], que teve que usar

áudio música e tecnologia | 47


ESTÚDIO

toda sua experiência de anos com Miles

Arquivo Fernando Moura


Davis, Charles Mingus e Mingus Dinasty
Big Band para mixar a faixa-título do CD.
Vale lembrar que um acaso nos salvou
do pior! O tubista estava com o horário
apertado e precisei interromper a grava-
ção com os outros instrumentistas que
estavam juntos para que ele gravasse a
parte dele e corresse para o avião que
teria de pegar. Dessa forma, o som dele
ficou separado dos outros, assim como
as flautas, tocadas pelos saxofonistas
em overdub. O lance foi encontrar o
equilíbrio musical entre quatro trombo-
nes, cinco saxes e quatro trompetes.

Fale sobre o processamento des-


tes microfones. Houve muita “ro-
dada de botão” já na gravação?
Que equipamentos usaram para
isso? Compressores, gates? Fernando e Ary Dias abraçam Armandinho:
trio esteve junto em novo projeto
O fato de eu não ser exatamente um sujeito paciente
talvez tenha até ajudado na objetividade da busca pelo num dos muitos crossfades de alguma track. Ou seja,
som que queríamos. Acho que, depois de mais de 30 pequenos detalhes da vida independente.
anos gravando, a gente já aprendeu qual é a influên-
cia das “rodadas de botão” e “trocas de lâmpada” em Do ponto de vista da produção, quais são as dife-
busca de sons mirabolantes e já sabe se conter e guar- renças entre este trabalho e o anterior, também
dar energia para tocar. Eventualmente, levei uma ou gravado com Ary?
outra puxada de orelha dos engenheiros que mixaram
as faixas, mas nada que eles não tenham contornado Meu primeiro CD com Ary, CosmeDamião, foi um álbum de
com técnica e talento. Uma coisinha fora de fase aqui, performance. Por três meses ensaiamos seu repertório, que
uma distorcidinha ali e uma edição meio displicente foi gravado em cinco sessões no estúdio do Sergio Lima Neto,
em Araras, Região Serrana do Rio, e mixado em mais cinco
sessões por Alexandre “Meu Rei” no
Aloízio Jordão

Eco Som, aqui no Rio. Foi uma onda


nossa como duo.

Nesse segundo, Pros Meninos, com-


pusemos as músicas especificamente
para o disco ou arranjamos especial-
mente as que já existiam. Tivemos
ainda o prazer de contar com al-
guns ilustres convidados. O processo
era construir as músicas em MIDI e
percussão-guia – gravada sem muita
sofisticação – até chegarmos a uma
forma. Então o Ary gravava a percus-
são valendo, convocávamos o solista
e eu gravava por último o piano acús-
tico, antes de mandar mixar de duas
em duas músicas. •

Fernando dirige a gravação de metais no Eco Som com Zé Carlos Bigorna e


Eduardo Neves (saxes), Nílton Rodrigues (trompete) e Aldivas Ayres (trombone)
48 | áudio música e tecnologia
DESAFIAnDO A LÓGICA | André Paixão

SMART
CONTROLS
Uma novidade para organizar melhor
sua área de trabalho no Logic e
estimular performances criativas
Salve, leitor! Você que costuma usar note-
book ou apenas uma tela de monitoração
em seu ambiente de produção vai gostar
desse novo recurso presente no Logic X:
os Smart Controls. Trata-se de uma super-
fície de controle virtual que, por padrão,
oferece os principais botões com parâme-
tros de cada instrumento presente em seus
projetos. Mas os recursos vão muito além,
portanto te convido para dar uma explora-
da comigo. Vamos nessa.

Chega aquele momento em que a quanti-


dade de janelas abertas pipocando com in-
terfaces de plug-ins e instrumentos virtu- Imagem 2 – O botão mágico capaz de nos
ais ultrapassa o limite que definimos como proporcionar maravilhas em termos de controle e
nossa zona de conforto visual. Foi com esse simplicidade é o terceiro da direita para esquerda
pensamento em mente que os desenvolve- na barra de ferramentas localizada no canto
dores do Logic X implantaram um pequeno superior esquerdo da interface de arranjos

botão no canto superior esquerdo da interfa-


ce de arranjos da plataforma. Um botão feito
para nos aliviar de qualquer confusão mental
causada pelo excesso de informação presente
num projeto cheio de canais. Basta selecionar
a pista desejada e clicar nele.

Além de possuir uma interface apetitosa – al-


gumas lembram hardwares antigos – e sim-
ples, os Smart Controls também podem con-
trolar efeitos inseridos em cada pista. Basta
você configurar de acordo com o que dese-
ja. Abra um preset qualquer, como o Fretless
Bass, presente no menu Library do Logic.
Imagem 1 – Smart Controls de um dos presets do sintetizador ES2 Clique no botão Smart Controls e depare-se

50 | áudio música e tecnologia


Smart Controls são tudo de
bom, pois você pode configurá-
-los para controlar parâmetros
simultâneos de diferentes plug-
-ins e, ainda mais, você pode
criar e salvar seus controles com
labels criativos, como “Psicode-
lia Louca” ou “Arpejo Randômi-
co”. E foi o que eu fiz no exemplo
a seguir, criando controles para
um novo instrumento, nesse
caso, o String Ensemble. Repare
que a interface desses controles
Imagem 3 – Com o botão Smart Controls e o canal Fretless é composta por oito botões: At-
Bass selecionados, surge a interface de controle do tack, Release, Low, High, Decay,
instrumento com os respetivos botões definidos como padrão Sustain, Ambience e Reverb.
pelo sistema. Ao lado, as informações sobre cada indexação. Quero substituir os dois últimos
pelos mencionados acima e que
com a linda interface de controladores. A princí- controlem respectivamente Intensidade e Feedback
pio, cinco botões se fazem presentes, indexados a do Flanger; o botão Play/Stop do Arpeggiator.
cinco parâmetros: Boost, Tone, Compressor, Flan-
ger e Exciter. Clicando em Inspector, um pequeno Clicando com o botão direito do seu mouse, uma
ícone ao lado esquerdo do botão Compare, você janela surge com menu oferecendo a possibilida-
tem acesso às informações relacionadas a cada de de você visualizar o(s) plug-in(s) relativo(s) ao
botão dos SC. Repare que o Boost e Tone estão, seu Smart Control. Experimente mexer e visualize
respectivamente, controlando o ganho e timbre o(s) parâmetro(s) sendo alterado(s) na janela do
de DI do plug-in Bass Amp Designer, inserido nes- plug-in respectivo. Há casos em que podemos con-
te track. Já os botões Compressor, Flanger e Ex- trolar dezenas deles. Imagine se você tivesse que
citer controlam parâmetros dos respectivos plug- fazer isso com as mãos em botões de hardware...
-ins homônimos, também inseridos nesse canal.
Cereja do bolo, o botão Compare é uma maneira Pra completar, o Logic ainda oferece opções de auto-
fácil e rápida de você acessar o timbre original mação para cada um dos SCs. Basta acionar o botão
e compará-lo com o modificado pelos controles. de automação, selecionar o modo Latch, apertar o
REC e começar a mexer nos botões. Não há limite
Quando falamos em possibilidades criativas, os para tantas opções criativas!

Imagem 4 – Interface de Smart Controls padronizada para String Essemble do Logic:


repare que não há plug-ins inseridos além do EQ e do Sampler ESX24, que, nesse
caso, é o próprio instrumento utilizado para reproduzir os samples de cordas

áudio música e tecnologia | 51


DESAFIAnDO A LÓGICA

Caso você tenha se apaixonado


por uma outra interface de Smart
Controls e queira aplicar ou subs-
tituir no seu instrumento, o Logic
oferece um extenso menu com as
mais diversas opções, cada uma
delas criada para um tipo de ins-
trumento. Mas nada impede que
você aplique naquele que quiser.
Repare na imagem 6.

Para quem utiliza controladores


MIDI, os Smart Controls são uma
mão na roda. Selecione o botão
Imagem 5 – Gravação de automação dos Smart Controls desejado; clique no botão learn e
em Latch Mode: o envelope roxo, em evidência na imagem, mexa no botão do seu controla-
representa o botão “Psicodelia Louca” criado nesse tutorial dor que deseja acionar. Imediata-
mente você terá uma reação. Com
emoção. Sempre. O mesmo acon-
tece com os parâmetros que você
deseja controlar em seus plug-ins.
Mais uma vez: selecione o botão
desejado; abra o plug-in que de-
seja controlar; clique em learn e
selecione o parâmetro de sua pre-
ferência. Inteligentemente, o Logic
dá ao botão o nome do parâmetro
escolhido, mas nada impede que
você o altere depois, caso queira
uma nomenclatura mais criativa.

Imagem 6 – Caso tenha se apaixonado por uma outra interface de


Até a próxima. Grande abraço!
Smart Controls e queira aplicar ou substituir no seu instrumento, o
Logic oferece um grande menu com as mais diversas opções, cada
uma delas criada para um tipo de instrumento

André Paixão é produtor de trilhas so-


noras para teatro, TV, publicidade e
cinema. O SuperStudio é sua segunda
casa, onde passa grande parte de seu
tempo compondo, arranjando e mixan-
do. Faz parte das bandas Acabou La
Tequila e Lafayette e os Tremendões.
Atualmente dedica-se à produção mu-
sical em seu estúdio, como o mais re-
cente trabalho da banda Tipo Uísque.
Contatos: andre@suprasonica.com.br,
Imagem 7 – O botão learn acaba com www.facebook.com/DesafiandoLogic e
qualquer burocracia na hora de configurar seu www.facebook.com/SuperStudio
controlador MIDI para acionar os Smart Controls

52 | áudio música e tecnologia


MIXAGEM | Fábio Henriques

PLUG-INS PRA LEVAR


PRA UMA ILHA DESERTA
Falando sobre ferramentas de confiança que
servem para agilizar – ou até viabilizar – o trabalho
Sempre que dou cursos e workshops chamo a gente acaba elegendo um conjunto de ferramentas
atenção para o fato de que a gente não pode de- em que a gente confia, e somos levados a usá-
pender demais de equipamento nem de softwa- -las sempre em nossas soluções. Como nos pro-
re. Versões mudam, máquinas dão defeito e se a jetos o prazo é sempre curto, acabamos elegendo
gente começa a depender muito deste ou daquele nossos plug-ins de confiança, pois eles garantem
item lá se vai nossa capacidade de gerar resulta- um resultado rápido e com a qualidade necessária.
dos quando as coisas mudam. Minha proposta aqui então é apresentar os plug-
-ins que eu levaria pra uma ilha deserta, ou seja,
Antigamente, quando só existiam equipamentos, a aqueles em que confio e sem os quais o trabalho
gente ficava limitado ao que o estúdio podia ofere- muitas vezes demora muito para ser realizado ou
cer. Esse negócio de usar mais de três reverbs em até mesmo se torna inviável.
uma música é coisa de tempos recentes. Além disso,
a gente era obrigado a trabalhar com o que o estú- Para aqueles que usam plug-ins contrariados, pois
dio tinha a oferecer. Pra falar a verdade, isso até que preferiam lançar mão dos equipamentos reais,
era um ótimo exercício pra nossa habilidade, e até preciso dar um aviso: não me incluo nesta cate-

hoje minhas mixes em software


exibem atitudes moldadas nes-
sas épocas de escassez.

O advento da gravação e mixa-


gem em computador veio dimi-
nuir muito e até eliminar essas
limitações, pois, de uma manei-
ra ou de outra, as pessoas têm
acesso a dezenas de plug-ins di-
ferentes e podem utilizar várias
instâncias de um mesmo softwa-
re, apenas limitados pela capaci-
dade de suas CPUs ou DSPs. As
opções são tantas que o usuá-
rio menos experiente pode se
sentir perdido em meio a tantas
opções – o processo oposto ao
que acontecia quando éramos
obrigados a usar o que estivesse
disponível no estúdio.

O que observo, porém, é que a

Equalizadores Waves 550A e 550B: belos trabalhos de


emulação, mas falta a opção de colocar a frequência em 4k

54 | áudio música e tecnologia


goria, pois não me preocupo nem um pouco se o pre acaba usando mais o plug-in com a interface
plug-in que emula o equipamento X é fiel a ele. mais amistosa, com a qual nos sentimos mais à
Se o plug-in me dá a sonoridade que preciso, não vontade. Isso é normalíssimo, e inerente ao ser
quero nem saber se sua emulação é “fiel”, pois o humano. Não conheço ninguém que diga “esse
que busco não é o som do equipamento X, mas o plug-in é muito difícil de usar, mas gosto muito
som que está na minha cabeça. dele e o uso o tempo todo”. Ok, talvez não tenha
conhecido gente o suficiente, mas se apelarmos ao
Antes de prosseguirmos, preciso alertar o leitor bom senso, porque eu escolheria, dentre a enorme
para o fato de que não sou “endorsed” por nenhum quantidade de opções disponíveis, usar uma ferra-
fabricante, e me orgulho de minha independência. menta complicada para uma função tão frequente
O fato de eu citar um determinado produto não sig- quanto a equalização?
nifica que não haja opções equivalentes no merca-
do. A coisa é mais pra ser interpretada numa visão RECRIAÇÃO DE DEFEITOS
funcional do que objetiva.
Uma coisa sempre me intrigou nessa geração de
O CASO DOS EQUALIZADORES plug-ins que emula equipamentos de hardware
famosos: a emulação é tão verdadeira que recria
Parodiando o poeta, um equalizador é um equa- fielmente até os defeitos do equipamento original.
lizador, é um equalizador. E nada mais que isso. Mas por que? A API faz belos equalizadores e a Wa-
O equalizador é o tipo de ferramenta mais usada ves fez um ótimo trabalho os emulando, como nos
em gravação e mixagem, e a gente muitas vezes casos do 550A e 550B. Os equipamentos originais
precisa conseguir resultados rápida e confiavel- possuem frequências, ganhos e atenuações em
mente. Tenho observado que todo mundo acaba valores pré-determinados, fixos. Não há como dar
elegendo seu equalizador “de segurança”, aque- ganho em 4k, por exemplo. É 3k ou 5k, e essa limi-
le cujos resultados são totalmente confiáveis. E, tação, na verdade, faz o circuito elétrico ser muito
convenhamos, se para cada canal que a gente for mais preciso e confiável (isso permite usar compo-
equalizar tivermos que escolher o melhor equali- nents de maior precisão, dentre outras coisas). Mas
zador, a mix não vai acabar nunca. a emulação precisa dessa limitação? Por que não
existe uma opção no plug-in que nos permita fugir
Eu até teria a ousadia de classificar aqui as equa- da “realidade” e colocar a frequência em 4k?
lizações em níveis de importância,
fugindo um pouco da classificação
ortodoxa quanto à função (corre-
tiva x criativa). A afirmação poli-
ticamente correta seria dizer que
toda equalização em uma mix tem
a mesma importância, mas qual-
quer um que já tenha mixado sabe
que existem equalizações mais e
menos significativas para uma mi-
xagem. Por exemplo, se queremos
apenas cortar os graves no canal
do hi-hat, francamente, qualquer
equalizador serve. Se, por outro
lado, queremos achar o melhor
timbre de voz, a coisa muda de
figura.

Um outro fator a considerar é a fa-


cilidade de operação. A gente sem-

Focusrite d2: facilidade de uso e gráfico coerente são os pontos


altos desta minha antiga opção de plug-in de equalizador

áudio música e tecnologia | 55


MIXAGEM

Perguntei isso ao pessoal da Waves (sim, sou mente o que a gente quer. Afinal, qual personalidade
chato a esse ponto), e me responderam que em deve prevalecer, a sua ou a do equipamento?
alguns plug-ins isso é possível, mas não nesse.
Fica então minha sugestão para a próxima ge- Quando a equalização é mais exigente e merece
ração de plug-ins, uma em que tenhamos uma muito mais atenção, aí eu recorro ao FabFilter Pro-Q
realidade expandida, em que eu possa escolher e a seu irmão mais recente, o Pro-Q2. Neles encon-
4k em um API 550x (de eXpandido). tro todos os controles necessários para a equaliza-
ção mais precisa, e há até a opção
de se evitar totalmente as rotações
de fase. Equalização “cirúrgica”, mas
com uma transparência invejável.

Neste ponto vale uma observação:


sou daqueles que se acham mais
importantes que seus equipamen-
tos. Em outras palavras, não quero
usar nenhum plug-in que me faça
refém. Quem manda no som é o uti-
lizador, não a ferramenta. Tanto o
EQ3 quanto o Pro-Q são muito efi-
cientes em serem eficientes ferra-
mentas, e nós continuamos no co-
mando, como deve ser.

Pois bem. Estava eu, do alto de mi-


nha autoconfiança, dizendo que um
equalizador é um equalizador e que
O EQ III de sete bandas, da Avid, me permite obter
não devia se caracterizar por ter uma
belos resultados em pouco tempo. É versátil e não conta
“sonoridade” própria, até que usei os
com as limitações induzidas por um hardware original.
Nomad Factory Motown Studio EQs.
Eles emulam equalizadores passivos
OS ESCOLHIDOS
Voltando ao nosso assunto, então, que plug-in de
equalizador eu levaria a uma ilha deserta? Até al-
guns anos atrás, eu levaria o Focusrite d2: fácil de
usar e com um gráfico totalmente coerente com o
que se ouvia. A gente chegava a resultados nele
com uma rapidez fantástica. Infelizmente, porém,
os tempos mudaram e ficamos sem eles.

Hoje, meu equalizador “default”, totalmente confiável,


é o da própria Avid – o EQ III de sete bandas. Versátil,
com auxílio visual, sem limitações induzidas por um
hardware original, equaliza decente e eficientemente.
Consigo ótimos resultados em pouquíssimo tempo. A
interface é muito amistosa e intuitiva. Para quem bus-
ca personalidade numa equalização, primeiro eu per-
guntaria “pra que?”, depois alertaria que o EQ III não
vai proporcionar personalidade, mas vai fazer exata-

Fabfilter Pro-Q: alta precisão para


equalizações mais exigentes

56 | áudio música e tecnologia


Retro Music-Tone e Retro Film-Tone: dois dos equalizadores
Nomad Factory da série Motown Studio, que, para minha
surpresa, oferece plug-ins de sonoridades únicas

usados obviamente na Motown, e contrariando todas as minhas cren-


ças, soam excepcionalmente únicos.

Tudo bem, mas eu havia afirmado minha vida toda que equalizado-
res eram apenas equalizadores, que faziam o que se pedia, inde-
pendentemente de se ter uma sonoridade própria e característica.
Pois é. É bem verdade isso, mas estes equalizadores me mostraram
o que significa “personalidade”. Sua atuação, por falta de adjetivo
mais adequado, é “doce”. Possuem uma suavidade impressionante
e entregam resultados muito interessantes. Lamento apenas que o
pessoal que os criou não tenha pensado em uma realidade expandi-
da, onde eu não ficasse preso às limitações do equipamento original
emulado. Estes equalizadores realmente são impressionantes, mas
são limitados em recursos, infelizmente.

Assim, se eu fosse voluntariamente para uma ilha deserta, precisaria


levar o EQ III, da Avid, o FabFilter Pro-Q (ou o Pro-Q2) e os Nomad Fac-
tory Motown. Dessa forma, estaria cercado de versatilidade, precisão e
personalidade na medida do que fosse necessário.

Em nosso próximo encontro veremos quais compressores nos acompa-


nhariam nestas condições.

Fábio Henriques é engenheiro eletrônico e de gravação e autor dos Guias de Mixagem


1, 2 e 3, lançados pela editora Música & Tecnologia. É responsável pelos produtos da
gravadora Canção Nova, onde atua como engenheiro de gravação e mixagem e produ-
tor musical. Visite www.facebook.com/GuiaDeMixagem, um espaço para comentários
e discussões a respeito de mixagens, áudio e música. Comente este artigo em www.
facebook.com/GuiaDeMixagem.
PRODUÇÃO FOnOGRÁFICA | Davison Pinheiro

EMPLACANDO A ACÚSTICA
Economia que se ouve
O produtor fonográfico atua nos

Divulgação
domínios físico, analógico e digital,
buscando efeitos psicoacústicos e
estéticos. Além do áudio, os aspec-
tos legais e de gestão formam o seu
universo profissional. Certamente
não é um conhecimento simples. A
acústica dos ambientes é a primeira
experiência humana com o som e a
referência original das simulações
dos efeitos eletrônicos e digitais. No
curso de Produção Fonográfica da
Fatec-Tatuí procuramos consolidar
tal compreensão sistêmica.

A relação sinal-ruído, a densida-


de modal e tantas outras consi-
derações são vitais na qualidade
fonográfica, mas neste artigo trouxemos um dispositivo cias médias e baixas. A armadilha de grave, do inglês “bass
que atua no tempo de reverberação do ambiente: o painel trap”, cumpre essa função complementar. Para termos uma
absorvedor móvel. Esse painel é uma ferramenta acústica ideia, comparamos os dados fornecidos por um fabricante
das mais úteis, mas antes de tratarmos do mesmo, co- de espuma acústica 50/125 (50 mm é a menor espessura e
mentaremos brevemente sobre o tempo de reverberação. 125 mm é a maior espessura desta espuma ondulada) com
os dados fornecidos por outro fabricante de lã de rocha de
Em um estúdio de gravação que tenha os ruídos controlados espessura de 100 mm e densidade de 48 kg/m³.
encontraremos dois tipos de som: o som direto emitido pelo
músico e o refletido pelas superfícies e pelos objetos próximos. Evidentemente são materiais de especificações e aplicações
A qualidade da captação fonográfica depende da integridade do distintas, mas independentemente da qualidade dos mes-
som direto e do controle do som refletido. O som refletido, de- mos, é importante sabermos os seus índices e a utilização
pois das primeiras reflexões, é conhecido como campo rever- possível. Na tabela 1 temos as frequências e a quantidade
berante. Quanto mais próxima a captação do áudio estiver da de sabines correspondentes em cada material:
origem sonora, maior será o som direto. Ao distanciarmos essa
captação, teremos cada vez mais o som do campo reverberante. O valor destes índices depende muito da sala em que
é feita a medição e do equipamento utilizado na mes-
O tempo de reverberação é a duração que o som em um am- ma (falantes, microfones e interfaces). O índice de zero
biente leva para perder a sua amplitude inicial. Como depois sabines significa 0% de absorção em certa frequência
que o som original cessa resta apenas a duração do som do e o índice de um sabine quer dizer 100% de absorção
campo reverberante, este campo pode ser medido no tempo na mesma frequência. Teoricamente, deveríamos ter o
de queda da pressão sonora no ar. Se esta queda for estabele- máximo de um sabine por metro quadrado, mas, como
cida em 60 dB SPL, teremos o RT60 – Reverberation Time 60. as medições sofrem influências diversas e os materiais
possuem rugosidades, coletamos diversas vezes valores
O índice de absorção de um material depende do seu grau maiores do que os esperados.
de porosidade, de espessura e de den-
sidade. Os modelos comerciais de es- Material Frequências (Hz)
puma acústica, em geral, têm excelen- 125 250 500 1000 2000 4000
te alcance nas frequências altas, mas
Espuma 50/125 0,15 0,31 0,81 1,01 0,99 0,95
precisam de outros equipamentos de
apoio para o tratamento das frequên- Lã de rocha 100mm 0,84 1,24 1,24 1,08 1,00 0,97

Tabela 1
58 | áudio música e tecnologia
O pré-dimensionamento da absorção de uma placa de lã de
rocha baseia-se em que a mesma absorverá integralmente
um comprimento de onda quatro vezes maior do que a sua
espessura. Por exemplo, uma lã de vidro de 10 cm absorverá
o comprimento de onda de 40 cm, que corresponde à
frequência de 860 Hz. Se dobrarmos a espessura de 10 cm
para 20 cm, teremos a absorção total a partir de 430 Hz.
Por isso que o bass trap exige dimensões consideráveis. Para
uma onda de 41 Hz, que tem o seu comprimento de onda em
8,39 metros, precisaremos de uma espessura de 2,09 metros
de lã de rocha para absorvermos 100% desta frequência.

CONSTRUINDO PAINÉIS
ACÚSTICOS MÓVEIS
Na tabela 2 está a listagem de materiais que enviamos
aos fornecedores e o custo que tínhamos no mês de março
de 2014. Com esta relação, construímos oito painéis de

Figura 1

Figura 2: O esquema de
montagem de cada absorvedor

Descrição do Produto Unidade Quantidade Valor unitário (R$) Valor total (R$)
Itens de marcenaria:
DUR 122X274 3MM PERF CHAPA 4 31,50 126,00
COMP DD 10 MM 160X220 NAVAL PR CHAPA 3 59,00 177,00
RODIZIO 01 64 MM SILICONE C/TR PEÇA 16 5,94 95,04
RODIZIO 01 64 MM SILICONE S/TR PEÇA 16 5,67 90,72
CANT .85 P/MONTAGENS ZI PEÇA 64 0,80 51,20
PARAFUSO 40X25 C/50 PACOTE 1 2,32 2,32
PARAFUSO 40X16 C/50 PACOTE 4 1,71 6,84
PREGO 10X10 GR S/C PACOTE 1 1,30 1,30
COLA BR FORMICA 1 KG PEÇA 2 11,40 22,80
Lã de rocha:
48KG/M³ 100MM 60X120 M² 11,52 69,15 796,61
Tecido:
OXFORD M 26 7,50 195,00
Retardante antichamas:
PARA TECIDOS GALÃO (5L) 1 400,00 400,00
Soma total (R$) = 1964,83
Tabela 2 áudio música e tecnologia | 59
PRODUÇÃO FOnOGRÁFICA

Divulgação
0,80 metro de largura por 1,60 metro de altura. As peças
de marcenaria vieram cortadas pelo fornecedor seguindo o
projeto que pode ser conferido na Figura 1.

O quadro principal montado com os compensados navais foi


fixado com as cantoneiras devidamente aparafusadas entre
eles, sendo usadas oito cantoneiras por painel absorvedor. Nes-
te ponto, devemos atentar para que as placas maiores de 1,60
metro se apoiem nas placas menores de 0,80 metro (foto 1).

Para fixarmos os pedaços da placa perfurada que fará o fun-


do do painel acústico podemos usar fitas de nylon, gram-
Foto 3

Divulgação

Divulgação
Foto 4

peador ou qualquer amarração. Neste caso, usamos fitas


de nylon. Este elemento opcional está fora da listagem de
Foto 1 materiais relacionados na tabela 2.
Divulgação

Para trabalharmos com a lã de rocha, precisamos proteger


o corpo do contato direto. É necessário usarmos máscara,
óculos, luvas e camisa de manga comprida. Colamos a lã
de rocha na placa perfurada e esperamos secar. Na foto 3
utilizamos um painel de compensado pesando sobre a lã de
rocha até que a cola secasse. Para o devido acabamento, o
tecido deve contornar a extensão lateral das placas de com-
pensado. Usamos um grampeador para a fixação (foto 4).
Pregamos a placa perfurada colada à lã de rocha no quadro
principal dos compensados e parafusamos as quatro rodi-
nhas no painel absorvedor (fotos 5 e 6).

Por fim, passamos o retardante antichamas no tecido ex-


posto. Com o painel pronto, teremos uma excelente fer-
ramenta de apoio no tratamento acústico de nossas salas
(foto de abertura da seção).

Um exemplo caseiro de uso desses painéis é a gravação de


áudio em um típico quarto residencial, de três metros de
largura por quatro de comprimento e altura de 2,70 metros.
Em um espaço desses, vazio, com as paredes rebocadas e o
piso de madeira, espera-se encontrar um tempo de reverbe-
ração (RT60) de aproximadamente 1,2 segundo em 500 Hz.
Com todas as deficiências acústicas de uma sala pequena,
Foto 2 para a captação fonográfica aceitável, deveríamos ter um

60 | áudio música e tecnologia


Divulgação

Divulgação
RT60 de 0,35 segundo.
Com o uso de seis des-
tes painéis, conseguimos
chegar neste valor facil-
mente. Contudo, para a
devida coloração acústi-
ca do quarto, precisamos
de certas composições
de materiais.

O cenário próximo ao
ideal seria utilizarmos
três painéis absorvedores
Foto 5 Foto 6
móveis, mais 16 placas
de 0,60 por 0,60 metro da espuma acústica 50/125. Restaria Com essa relação de materiais e a solução do “faça
um leve ajuste nas frequências acima de 1.000 Hz, facilmen- você mesmo”, temos oito painéis absorvedores móveis,
te corrigido com dez outras placas de 0,60 por 0,60 metro de de baixo custo, que podem nos ajudar a emplacar os
espuma acústica em relevo de 20 mm de espessura. nossos trabalhos. •

Davison Cardoso Pinheiro é arquiteto formado pela Universidade Federal Fluminense com participação em centenas de projetos e construções. Desde o
ano de 2012 é professor de Acústica Aplicada ao Ambiente no curso de Produção Fonográfica, na Fatec-Tatuí. E-mail: da.v@uol.com.br

FATEC Tatuí - Curso gratuito de Produção Fonográfica. Site: http://tinyurl.com/fatec-prodfono

áudio música e tecnologia | 61


Pro Tools | Daniel Raizer

Ano novo,
vida nova
Renove-se e aproveite
para renovar seu
estúdio e seu Pro Tools
Janeirão: primeiro mês do ano. Coisa boa. Uma baixa, o ideal é parar, refletir e tomar uma atitude.
nova estrada para alguns: nova, fluida e motiva- Talvez o mais importante seja realmente tomar uma
dora. A mesma para outros: velha, longa e desa- atitude. Se está muito chato trabalhar no estúdio,
nimadora. Até que ponto a máxima popular “ano talvez não seja mesmo essa a sua praia. Vá então
novo, vida nova” se completou para você? Melho- procurar outra coisa pra fazer: abra um restaurante
rou? Que bom! Tá tudo na mesma? Que chato! (são duas alegrias!), delivery de empadinha, mar-
Piorou? Nem me diga... cenaria, especialização em recursos termoelétricos,
medicina ayurveda ou preste concurso público para
O que fazer então quando você entra no estúdio e agente rodoviário (o salário e bem bacana!).
vê com seus olhos que você não aguenta mais tudo
aquilo que você vê com seu cérebro? Faz tempo que Mas se você acha que não vai dar porque você
tudo continua na mesma e parece que nada sai do gosta demais de música, equipamentos e do cli-
lugar e nem tem direção? O mesmo ar-condicionado ma de estúdio, mas esse clima está meio desa-
amarelado com cheiro rançoso. O mesmo acaba- nimador para você, pare, avalie e tome fôlego
mento despedacento das paredes. O mesmo Pro To- para dar a tacada inicial: peça demissão de seu
ols acinzentado, os mesmos equipamentos, os mes- emprego, faça um acordo para trabalhar meio pe-
mos plug-ins, o mesmo você... ríodo, procure um emprego na área musical, peça
divórcio, quebre alguma coisa com uma marreta
Estúdio é que nem casamento: tem a fase estimu- de obra. Você sabe o que é melhor e é tempo de
lante das descobertas no namoro, depois alguns me- ação agora. Agora ou nunca. Já!
ses loucos de clima de lua de mel quando tudo é per-
mitido, depois o primeiro filho, o segundo, daí vem a Algumas dicas de ações que deram certo para mim
rotina e com ela e fase da irritabilidade, geralmente e que podem dar certo para você:
causada pela pasta de dente que perdeu a tampi-
nha, a toalha molhada que não ficou bem esticada 1 - Reforme o acabamento do estúdio. Você mes-
no banheiro e a lata de cerveja que ficou no balcão, mo! Todo mundo tem capacidade de ser eletricis-
assim como outras coisas vulgares como estas. Daí ta, pintor e marceneiro. Não existe aquele que
uma conversa, um jantar, uma namoradinha e uma não saiba desmontar uma tomada e remendar um
fase melhor toma a cena alguns dias. Depois do final fio com fita isolante, pintar uma parede, cortar
de semana, nova rotina. E o ciclo se instaura... um sarrafo e pregar lambril. Portanto, desmon-
te tudo, desenhe um projeto de reforma de seu
Nesse momento em que tudo parece estar na maré espaço e faça-o. Começe utilizando as tabelas de

62 | áudio música e tecnologia


Divulgação
cálculo de modos e de
RT60 que estão no site
da Musitec para down-
load. Assim você vê se
está ok (ou não) na sua
acústica e poderá acertar
dimensões e materiais.
Essas tabelas são sim-
ples de usar, mas se fi-
carem difíceis, compre o
livro do Sólon, o "Manual
Prático de Acústica".

Se você contratar um ele-


tricista, pintor ou marce-
neiro para fazer o trabalho
Pro Tools 11: nenhuma edição anterior compete com essa
você estará perdendo a
oportunidade de trabalhar
naquilo que realmente irá te dar satisfação: refazer um clima intimista, faça absorvedores com lã de
seu próprio espaço de criação musical. Faça uma rocha com um tecido legal, acredite no seu lado
parede de madeira com um desenho legal, invente empreiteiro. Fique contente por não haver proble-
um sistema de iluminação indireta bacana que crie ma se demorar dois ou seis meses ou se ficar meio
torto, pois foi você quem fez e é isso o que impor-
ta. E mais, garanto que no momento em que você
Reprodução

terminar e sentar lá dentro o clima será totalmente


novo e inspirador. Só isso já basta para ativar a
caixola, mas se você quiser mais, continue Lennon,
como diria o Paul...

2 - Venda alguma coisa a preço de banana só para


você se livrar de algo. Aquele peso. Com certeza
tem algo que você não usa em seu estúdio. Livre-
-se disso. Venda por preço módico, pois ninguém
está pagando o preço real das coisas, nem se valer
a pena. Venda barato e não fique com peso na cons-
ciência. Pense que assim ainda libera recursos para
outra coisa, mesmo que seja uma caixa de parafu-
sos. Doe, se quiser. É gratificante também.

3 - Atualize o Pro Tools, seu software rei. Nada


até aqui vale a pena se você abrir seu software e
ele tiver a mesma cara de sempre. Pro Tools 11,
no mínimo, por favor! Nada de M-Powered, SE ou
Essentials. Faça direito. Faça com o Pro Tools 11

Manual Prático de Acústica:


indispensável para a obra do seu estúdio

áudio música e tecnologia | 63


Pro Tools

de verdade. São 64 bits na veia: bits fluindo na tanto adoro. Os 16 faders motorizados são da Alps,
RAM como a radiação solar fluindo do sol. Faça ou seja, incríveis. O layout é sensacional, com uma
uma sessão gigante, lote de plug-ins, dobre um qualidade alta de feedback visual via knobs coloridos
monte de pistas, mude de pitch, faça um monte e mini displays em OLED. Se você tem um Mac, ela
de compressão paralela, crie 100 canais auxilia- pode ser usada como uma interface de áudio de alta
res e quatro reverbs, 400 pistas MIDI. Aplique qualidade com quatro canais de entrada e seis de
side-chaining no master. Invente. saída via porta Ethernet (AVB), e pode ser expandi-
da para 64 canais quando atrelada a um sistema E3
4 - Coisas novas trazem felicidade. Fato! Então com- e quatro stage boxes (sistema S3L-X).
pre alguma coisa. mas não vale DI, cabo novo e nem
cordas novas. Tem que ser uma compra especial, Mas a novidade é que agora ela é vendida sepa-
secreta e audaciosa. Faça em mil vezes, se precisar. radamente, então fica fácil você montar ou ex-
Troque de carro se precisar fazer dinheiro. Compre pandir seu setup quando e como quiser. Com ela,
escondido. Diga que é emprestado. Invente, mas seu estúdio pode também virar seu PA, rodando o
compre aquele pré que você tá querendo, ou aquele aclamado software Venue. Você pode querer op-
microfone, ou aquela interface, ou aquela mesinha, tar por usar uma placa HDX e suas interfaces e
ou aquele Mac, ou aquela superfície de controle... mantê-la somente como uma super-superfície de
Qualquer coisa! Você sabe melhor que eu o que é, controle para seu PT 11 HDX. Show! Se quiser,
mas tem que ser algo imponente, expressivo, top, opte por uma HD Native e uma OMNI IO. Sairá
que te dê poder e cause inveja nos visitantes. Isso mais em conta e você terá um setup igualmente
lhe trará meses de exploração e satisfação e com provido de qualidade. Use uma interface da Uni-
certeza você vai arranjar dinheiro para pagar. versal Audio ou RME (por que não?). Muito chique
e com certeza vai dar um "up" no seu estúdio que
Quer uma sugestão? Que tal a S3, da Avid? Para co- todo mundo vai perceber assim que entrar. Prin-
meçar, ela é linda. Bem mais que a Artist Mix que eu cipalmente você. •

Divulgação

S3, da Avid: plena

64 | áudio música e tecnologia


áudio música e tecnologia | 65
Pro Tools

5 - Troque sua cadei-


ra velha do estúdio.
Pegue ela e ponha na
cozinha, na rua ou dê
para algum amigo.
Se for difícil, compre
ao menos uma almo-

Divulgação
fada de poliuretano
viscoelástico para co-
locar no assento e se
acomodar com pro-
priedade. Conforto é
essencial, principal-
mente se você é do
estilo meio magrelo
fora de forma que
nem eu.
Eletrodomestic = sucesso pessoal
6 - Jogue fora o filtro
do ar-condicionado.
Retire-o com cuidado, ensaque-o e deixe-o à pró- amigos, ensaio aberto com cervejada, churrasco
pria sorte no passeio público. Coloque um novo beneficente... Qualquer coisa. Tem que fazer mu-
no lugar e lembre de limpá-lo com frequência. Se vuca. Deu certo? Já programe outra para o mês
você for do tipo zen, coloque algumas gotas de que vem. Não deu, mude o público alvo ou corte
extrato de Tea Tree na entrada para dar um up a cerveja.
na alegria.
Depois disso tudo seu estúdio estará renovado, sua
7 - Entre numa banda. Remonte aquela sua banda mente estará renovada, seu Pro Tools estará reno-
velha ou entre em uma banda nova. Seu ponto for- vado, seu rack estara renovado e aquela sensação
te é que tem lugar para ensaiar de graça, com pos- de completude, otimismo, motivação e movimen-
sibilidade de gravar CD na faixa, o sonho de todo tação acústica estará pairando no ar. Agora é hora
mundo que tem banda. Tocar traz alegria! Gente de sentar de novo (confortavelmente) na cadeira de
tocando traz alegria. Faça a energia acústica do es- piloto do estúdio, respirar fundo, libertar o espírito
túdio se mover sem se preocupar se ele está dando criativo e mandar bala horas a fio.
resultado financeiro, só pessoal.
Se depois de aplicar tudo isso você ainda não fi-
8 - Faça um evento no estúdio quando ficar pron- car contente, anime-se: há remédio novo na praça.
to que tenha nome, logo, edição e camiseta. Consulte um psiquiatra para maiores detalhes.
Uma reinaugração com petiscos, aniversário do
estúdio, palestra grátis, curso grátis, sessão de Um abraço e até a próxima!

Daniel Raizer é músico, especialista em tecnologia musical e autor do livro Como Fazer Música Com o Pro Tools, lançado pela editora
Musitec (em segunda edição) e do blog www.danielraizer.blogspot.com.br. Trabalhou o estúdio do Belchior como técnico principal e
na Quanta Brasil como especialista de produtos. Atualmente trabalha na Loudness Sonorização como gestor de contas de AV Pro e
dedica-se à sua música, seus trabalhos artísticos e aos seguidores de seu blog.

66 | áudio música e tecnologia


CONSTELLATION
Musical promove viagem
sensorial pelos anos 1950

URSA e Studio Camera


Por dentro dos novos modelos
da recém-ampliada linha de
câmeras Blackmagic
EDIÇÃO DE
MEDIA COMPOSER EFEITOS E ESTILOS
Efeitos de correção para Conhecendo e aplicando
facilitar seu dia a dia recursos no Final Cut
áudio música e tecnologia | 67
à produtos
MOVInG LED QUAD BEAM
A Star Lighting Division apresentou recentemente ao mer- Conta com display digital, con-
cado o Moving LED Quad Beam, um moving inovador ca- some 350 W, com alimentação

Divulgação
paz de criar uma grande possibilidades de efeitos. O apa- de 127V – 240V. Mede 39 cm x
relho possui 25 LEDs Beam de 12 W RGBW com abertura 39 cm x 48,5 cm (comprimento
de 3 a 5°. Oferece controle individual de cada LED, tilt e x largura x altura).
pan contínuo, dimmer/strobe e programas de efeitos in-
ternos, sendo controlado por 16, 20 ou 116 Canais DMX. www.star.ind.br

PR 5000 SPOT E BEAM


Destaque nos Jogos Asiáticos 2014, o PR 5000 Spot e Beam proporciona alta per-
Divulgação

formance com baixa manutenção. Possui 25, 31 ou 38 canais DMX, um disco com
setes cores dicroicas mais branco; dois discos de gobo rotativo, com seis gobos inter-
cambiáveis mais branco; um disco de gobo fixo, com sete gobos intercambiáveis mais
branco e um disco de efeito intercambiável.

O produto, que oferece pan de 540° e tilt de 270°, pesa 48 kg e mede 495 x 544 x 873 mm.

www.pr-lighting.com
www.proshows.com.br

AnÁLISE AUTOMÁTICA nA

Divulgação
CAnOn POWERSHOT SX520 HS
A Canon Latin America Inc. anuncia a chegada do novo vação, que, neste mode-
modelo Canon PowerShot SX520 HS. Compacta e ergo- lo, permite mais conforto
nômica, a câmera conta com sensor de 16 megapixels, durante o manuseio. Além
zoom óptico de até 42 vezes e capacidade para filmar disso, o recurso Smart
em 1080p Full HD. A combinação do sensor CMOS e o Auto reconhece 32 situ-
processador de imagem Digic 4+ resultam na tecnologia ações de fotografia e 21
HS System, da fabricante, que melhora o desempenho cenas de vídeo, sem a neces-
da câmera em condições de baixa luminosidade e pro- sidade de alternar entre os modos, e realizaos ajustes
duz imagens de alta qualidade. mais adequados para capturar a melhor foto ou vídeo.

Outro recurso que simplifica o uso e amplia as possibi- www.canon.com


lidades do equipamento é o botão dedicado para gra- www.canon.com.br

UM MOVInG HEAD FEITO PARA O BRASIL


Outro produto que chega dade de efeitos de luzes e cores, de ampla abertura e alto
ao Brasil via ProShows tem impacto visual. São 8oito os LEDs de 8W RGBW e 37 os
jeito e nome de Brasil: é canais DMX, para combinar todos os efeitos.
o Samba, da Acme, que
foi especialmente desen- Vale ainda destacar que o produto trabalha com
volvido para o nosso país. strobo de velocidade variável, fonte de luz de 8 x 8
Este moving head combina RGBW watt (Quad) LED, ângulo de feixe de 6,5° e
os movimentos comuns de potência de 80 W. Pesa 6,5 kg.
Divulgação

pan e tilt, mas adiciona a


eles efeitos multibeam rota- www.acme.com.cn
tivos. O resultado é uma infini- www.proshows.com.br
68 | áudio música e tecnologia
áudio música e tecnologia | 69
em fo c o

PROGRAMA BRASIL DE TODAS AS TELAS INVESTE


R$ 41 MILHÕES EM PROJETOS DE TV E CINEMA
A Agência Nacional do Cinema (Ancine) anunciou no fim de Programadora de Canais de TV. A proposta da Globosat
2014 que 88 projetos de filmes e séries de TV serão benefi- prevê aporte de R$ 8 milhões em três obras audiovisuais
ciados com R$ 41 milhões. A operação faz parte do progra- a serem exibidas no GNT. A proposta da Synapse para o
ma do Governo Federal Brasil de Todas as Telas, que utiliza canal Curta! beneficiará 12 produções com um total de R$
recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) para incen- 10 milhões. Os contratos de investimento serão firmados
tivar o desenvolvimento de toda a cadeia do audiovisual bra- diretamente com as produtoras independentes brasileiras.
sileiro. Por meio da linha de Laboratórios de Desenvol-

Rafael Castilho
vimento, 44 projetos de produtoras de seis estados e
do Distrito Federal receberão recursos para aplicação
na etapa de desenvolvimento, etapa essencial para o
aprimoramento do roteiro e da estruturação técnica
e financeira do projeto. Essa linha é voltada para a
qualificação de projetos em fase inicial.

Além do apoio financeiro, que totaliza R$ 4,01 mi-


lhões nesta operação, os projetos terão o suporte
de laboratórios de desenvolvimento a serem ofe-
recidos a partir do início de 2015. O edital para o
credenciamento de empresas aptas a oferecer os
laboratórios está aberto a inscrições no site da An-
cine desde 13 de novembro. Outra novidade, a linha
de Proposta de Programação contemplou com R$ 18
milhões duas propostas de programação apresenta- A diretora Rosana Alcântara e Manoel Rangel,
das pelas programadoras de TV Globosat e Synapse diretor-presidente da Ancine, durante a coletiva

INSCRIÇÕES ABERTAS PARA O PRÊMIO ABC 2015


A Associação Brasileira de Cinematografia anunciou a abertu- Cinemateca Brasileira, em São Paulo. No último dia, 16/05,
ra das inscrições para o Prêmio ABC 2015, que acontece jun- está programada a cerimônia de premiação. Os interessados
to à Semana ABC (evento anual promovido pela Associação em participar deverão, através do site www.abcine.org.br,
Brasileira de Cinematografia - ABC), de 13 a 15 de maio, na preencher o formulário até o dia 21 de fevereiro e fazer o
upload de seus trabalhos de 5 de janeiro a 28 de fevereiro
Divulgação

através do link abc.whitegorilla.com.br.

As categorias do Prêmio ABC 2015 são Melhor Direção de


Fotografia para Longa-Metragem de Ficção, Melhor Direção
de Fotografia para Longa-Metragem Documentário, Melhor
Som para Longa-Metragem, Melhor Direção de Arte para
Longa-Metragem, Melhor Montagem para Longa-Metra-
gem, Melhor Direção de Fotografia para Curta-Metragem,
Melhor Direção de Fotografia para Filme Publicitário, Me-
lhor Direção de Fotografia para Série de TV e Melhor Dire-
ção de Fotografia para Filme Estudantil.

A ficha de inscrição pode ser encontrada em www.abcine.


org.br/form-inscricao.php, enquanto que o regulamen-
Cena do filme O Som ao Redor, vencedor do Prêmio ABC to completo está no link http://abcine.org.br/premio-
2014 na categoria Melhor Montagem para Longa-Metragem -abc/?id=1523&/regulamento.

70 | áudio música e tecnologia


áudio música e tecnologia | 71
Capa Rodrigo Sabatinelli

Divulgação
IMAGENS DO PASSADO
Musical Constellation transporta
público para os anos 1950
O ano é 1955. O cenário, uma Copacabana que nucci, no Rio, a peça leva ao público um repertório
vivia sua época de ouro, encantando celebridades de 16 clássicos da música americana das décadas
internacionais e lançando modismos que se espa- de 1950 e 1960, tais como Only You, Blue Moon e
lhavam pelo país. Stand by Me, entre outros.

Foi neste contexto que a extinta companhia aérea A convite da Luz & Cena, Paulo César e o operador
Varig adquiriu a aeronave mais moderna do merca- de luz do espetáculo, Eder Nascimento, contaram
do da aviação e inaugurou uma nova rota entre o Rio detalhes sobre a concepção e a execução das lu-
de Janeiro e Nova York. zes, que têm características distintas e contrastam
os atos entre si.
Surgia, então, o Super Constellation G, um avião lu-
xuoso, que reduziu de 72 para 20 horas o tempo de POUCO PARA MUITO
voo entre as duas cidades, influenciando diretamen-
te os hábitos locais. Constellation é iluminado por 40 lâmpadas PAR 64
foco 2; 16 lâmpadas PAR LED RGBW, da Live Light;
Este é o pano de fundo para o musical Constellation, 20 elipsoidais 26 graus, da ETC; cinco moving lights
espetáculo escrito e idealizado por Cláudio Magna- NEO 700, da American Pro, e dois canhões HMI, de
vita, dirigido por Jarbas Homem de Mello e que tem 1200 W, todos, exceto os canhões, controlados por
projeto de luz assinado por Paulo César Medeiros e Eder em um console Pearl 2010, da Avolites.
cenografia de Natalia Lana.
No contraluz do rider, distribuídas em duas linhas,
Em cartaz desde novembro passado no Teatro Van- estão seis dessas PAR LED e oito dessas PAR 64,

72 | áudio música e tecnologia


enquanto que, no centro dele,

Divulgação
em duas linhas, estão os cinco
movings, sendo três em uma
das varas e dois na outra. Nas
laterais, em seis varas, estão
mais quatro das PAR 64, com
corretivos R02, enquanto que,
na frente, em três linhas, estão
outras 24 PAR 64, corrigidas
em AB R02, Azul R67 e Âmbar
R21. Por fim, no chão, em duas
linhas, outras quatro PAR LED.

COMPLEXIDADE
OPERACIONAL
Trata-se de um mapa simples,
enxuto, porém seu operacional
é complexo, e, de acordo com o
iluminador, “requer muita aten- Ao fundo, imagem do Constellation sobre um
ção, muita sensibilidade, espe- tecido leitoso: projeções vêm por trás do palco
cialmente pelo fato de os núme-
ros musicais terem cerca de dez mudanças precisas ambientar os diálogos e luzes azul, lavanda, rosa
de movimentos e cores que devem acompanhar e magenta, entre outras, para climatizar as can-
‘sem folgas’ o canto e a dança dos personagens”. ções. “A soma do branco com o âmbar é para dar
aquele clima de época, de passado, meio sépia, e
E por falar em cores, Eder aproveita o embalo as cores se relacionam com temas das músicas,
e explica o contraste proposto por Paulo César, como, por exemplo, o azul, o vermelho e o bran-
que escolheu contraluzes brancos e âmbar para co, usados em Surfin’ USA”, diz.

Atuando como platafor-


Divulgação

ma visual do espetáculo,
dois projetores Benq se
encarregaram de proje-
tar imagens internas e
externas do Constella-
tion G, de nuvens, de um
céu estrelado e de per-
sonalidades como Cauby
Peixoto, Garrincha, Elis
Regina e Jorginho Guinle,
que, na época, viajaram
no avião. A fim de evitar
que a fumaça utilizada
para “desenhar” as luzes
dos moving lights, dentre
outros, atrapalhasse a
operação, esses projeto-
res foram dispostos por
trás de um tecido leitoso.

As luzes das cenas têm o propósito de levar o espectador ao passado

áudio música e tecnologia | 73


Capa

Com a palavra, o lighting designer do espetáculo


Paulo César Medeiros fala sobre a concepção das luzes
sob os olhares do diretor Jarbas Homem de Mello
Luz & Cena: Ao contrário do que se vê em lida, ao mesmo tempo, com todos os elementos pos-
musicais como os da Broadway, em Cons- síveis – projeção, luz, cenografia, figurinos, maquia-
tellation há uma certa dose de intimismo. gem, atuação, música e dança. São diversas “frentes”
Fale sobre a concepção diferenciada adotada que contam com elementos pedindo atenção. Jarbas
para o projeto. teve um olhar cuidadoso para tudo e continua tendo.

Paulo César Medeiros: Sim, ele tem um aspecto A criação da luz passou por ele ou você teve
mais intimista, mais despojado, mas com um apelo total liberdade para criar?
musical fortíssimo, que fala direto ao coração, já que
seu repertório é composto por músicas das décadas No teatro, em nenhuma área existe essa coisa de
de 1950 e 1960 que fazem parte do inconsciente liberdade total. Isso é uma ilusão. Todas estão sub-
coletivo do nosso romantismo. metidas e em relação com a direção. No entanto, há
diretores que nos dão um espaço de criação maior
Sua luz tem por objetivo criar um equilíbrio entre ou menor. Eu tento me colocar sempre à disposi-
a realidade da protagonista e suas tias, que vivem ção da direção, da mesma forma que um ator deve
num mundo mediano e com alguns sonhos românti- se colocar, ou seja, com seus aparelhos de trabalho
cos, quase irrealizáveis, e a projeção desses sonhos prontos para serem usados a favor do espetáculo.
em si. Num espetáculo musical, o grande barato é
você imaginar que aquelas emoções são tão fortes, Procuro não ter apego a nada, a nenhuma ideia.
tão extremas, que não há como expressá-las em pa- Crio um plano inicial da luz e vou trabalhando
lavras, somente pelo canto. Portanto, a luz pode e junto com os ensaios, ouvindo e propondo. Aos
deve ajudar a realizar essa ideia. poucos chegamos a um ponto de equilíbrio em
que todos estão curtindo o que construímos jun-
Como é trabalhar com o Jarbas, diretor do es- tos. Acho muito bonita a ideia de um cenógrafo
petáculo? que tem orgulho da luz, de um iluminador que
adora o figurino, de um diretor que adora tudo.
Jarbas é um dos grandes homens do nosso teatro Busco sempre o trabalho de equipe. Sempre!
musical. Além de ser
um extraordinário ator, Divulgação

ele sabe tudo de palco


e se preocupa com cada
detalhe. Ele conseguiu
fazer do Constellation
algo que vai além de
uma gostosa homena-
gem a uma época de
ouro do Brasil. Ele deu
aos personagens as co-
res exatas para contar
essa história de forma
mais humana e sensível.

O diretor de um musical
é, na verdade, como o di-
retor de uma ópera, pois Moving lights American Pro são usados no rider do espetáculo

74 | áudio música e tecnologia


Ví deo Rodrigo Sabatinelli

URSA e Studio
Camera Por dentro dos novos modelos da
recém-ampliada linha de câmeras Blackmagic

Divulgação

Lançada na última edição da NAB Show, realizada ícones da revolução do dito “mercado UHD/4K” de
em abril de 2014, em Las Vegas, a filmadora digital longas, publicidade e séries de TV, dentre outros
URSA, produzida pela Blackmagic Design, está aos produtos audiovisuais.
poucos conquistando seu espaço diante dos profis-
sionais do mercado nacional, composto por usuários E não é para menos. Comercializada a preços
das Sony, RED e Arri Alexa. bastante atraentes, principalmente se compara-
dos aos das menos “potentes” DSLRs Canon e Lu-
Distribuída no país pela Pinnacle Broadcast, a câ- mix, ela segue a linha das Cinema Camera 2.5K,
mera vem sendo apontada como um dos grandes Production Camera 4K e Pocket Cinema Camera e

76 | áudio música e tecnologia


O porte da URSA se assemelha ao da Arri Alexa Divulgação

faz com a Studio Camera a nova “dobradinha”


da fabricante.

ERGONOMIA “GRANDIOSA”
Projetada tanto para uso individual quanto para
conjunto, como ocorre nas grandes equipes de
filmagem, a URSA tem, em seu corpo, encaixes
para tubos de suporte de lentes, montagem de
sistemas “follow focus” e “matte boxes”, dispen-
sando totalmente a utilização de rigs externos.
Por ser maior do que as câmeras de sua gera-
ção, ela conta com um eficiente sistema líquido
de refrigeração, que permite a filmagem em ve-
locidades mais elevadas.

Ainda sobre seu aspecto físico, que lembra mui-


to o da Arri Alexa – considerado ideal para quem
prefere uma câmera, digamos, mais parruda,
com peso acima de sete quilos –, a URSA se
difere das demais em pelo menos mais um pon-
to: seu monitor LCD dobrável de dez polegadas,
que, segundo o fabricante, é o primeiro no mun-
do nessa classe de equipamentos, e também
por contar com uma tela de cinco polegadas
dedicada exclusivamente à setagem da câmera.

INQUESTIONáVEL
VERSATILIDADE
Em linhas gerais, a URSA pode ser apresentada da
seguinte forma: a câmera possui, do ponto de vista
da conexão, entradas de áudio XLR, com alimenta-
ção phantom power e saídas SDI 6G e para fones
de ouvido, além de entrada e saída de timecode.

áudio música e tecnologia | 77


Divulgação
Ví deo

Do ponto de vista da gravação e do ar-


mazenamento, conta com latitude de
12 stops – a mesma do modelo Produc-
tion Camera 4K – e gravadores duais
CFast, que trabalham com os formatos
Cinema DNG RAW 12 bits e Apple Pro-
Res HQ, 422, LT e Proxy e permitem o
fluxo descomplicado de pós-produção,
com requisitos mínimos de armazena-
mento e sem um formato pesado.

VARIEDADE DE
MOUNTS AGRADA
Acoplada a uma Mark III, da Canon, a URSA
Atualmente, a URSA está disponível em
HDMI deve chegar em breve ao mercado
dois mounts: EF, com o qual é possível
utilizar lentes Canon e Zeiss, muito co-
muns no mercado “on demand”, e PL, compatível lançamento das duas câmeras “irmãs”. No site do
com as Zeiss mais usadas nos segmentos de cinema fabricante constam informações bem básicas sobre
e publicidade. No entanto, outros dois modelos es- os dois modelos, sendo a Broadcast compatível com
tão em fase de produção e prestes a serem lança- lentes B4, específicas para o segmento, enquanto a
dos. Tratam-se da URSA Broadcast e da HDMI. HDMI não dispõe de sensor, e no local do bocal de
conexão de lentes há uma placa com diversos pontos
Até o fechamento desta edição edição do caderno de montagem e uma entrada HDMI que permite que
Luz & Cena, não havia, de fato, uma data oficial de qualquer câmera com saída do gênero possa se be-
neficiar de sua qualidade de gravação e monitoração.

MUITO MAIS PRÓS


DO QUE CONTRAS
Indiscutivelmente, a URSA vem atendendo muito
bem aos mais exigentes diretores de fotografia.
Um de seus maiores diferenciais, de acordo
com informações contidas em reviews diver-
sos, está na possibilidade de remoção de seu
sensor Super 35mm para a realização de fu-
turas atualizações, não sendo necessário que
o usuário troque de câmera quando quiser
fazer um upgrade, o que prolonga a vida útil
do equipamento.

Por outro lado, há sempre um ou outro que


aponte determinado aspecto nem tão favo-
rável ao uso. No caso da URSA, dois pontos
são tidos como limitadores por parte dos
profissionais que já a utilizam: a capacidade
de gravação em frame-rates altos (hoje, o
Divulgação

mínimo permitido é de 24 fps e o máximo é


de 60 fps, mas, com os futuros sensores, che-
gará a 100 fps) e o fato de o autofocus não
operar em modo contínuo.

Variedade de mounts é um dos pontos


fortes da nova câmera da Blackmagic

78 | áudio música e tecnologia


ESTAMOS AÍ!
Fabricante lança câmera
para produções em estúdios
De olho no mercado de câmeras de estúdio, ambiente até en-
tão “dominado” pela Sony, a Blackmagic lançou a Studio Ca-
mera, equipamento que, de acordo com o fabricante, além de
ter um preço competitivo, oferece todos os recursos de uma
câmera de estúdio tradicional, mas com superior qualidade
de imagem – baseada na Production Camera 4K e na Cinema
Camera, lançadas anteriormente pela fabricante.

Divulgação

A Studio Camera, da Blackmagic, chega para


disputar mercado com as Sony
Com sistema universal de intercomunicadores, entradas de
genlock (SYNC), entrada e saída SDI, entradas de áudio XLR
e controle total por meio dos switchers ATEM, além de um
monitor de dez polegadas que também equipa a URSA, a
Studio Camera conta com uma bateria interna que permite
até quatro horas de operação e alimentação externa tradicio-
nal por meio de conector padrão XLR de quatro pinos e 12V.

Com mount no padrão MFT, ou Micro 4/3, compatível com


uma grande variedade de lentes, incluindo as especiais
para broadcast – usadas com anéis adaptadores –, a Stu-
dio Camera está disponível em dois modelos: Full HD e
Ultra HD (4K). •

áudio música e tecnologia | 79


Me dia Com po s e r Cristiano Moura

EFEITOS PARA
CORREÇÃO
Técnicas e métodos
para um trabalho a jato
Frase universal em um set de filmagem: “isso a gen-
te resolve na pós”. De fato, muitas coisas podem e
devem ser decididas na ilha de edição, mas isso não
justifica a falta de cuidado na filmagem. Indepen-
dentemente da origem da culpa, a verdade é que o
editor precisa estar armado com recursos para apro-
veitar aquela imagem bonita ou aquele momento
especial, mesmo que a filmagem não tenha ficado
100%. Neste artigo vamos ver algumas opções que
garantem esse aproveitamento.

REENQUADRAMENTO DA CENA
A regra de três quadros usados para fotografia e
pintura também pode funcionar muito bem para ví-
deo. Ela se baseia num estudo que chegou à conclu-
são de que nem sempre o centro da tela é o melhor Figura 1A – Regra de três quadrados
local para se posicionar o objeto a ser filmado. A
técnica consiste em dividir a imagem em nove qua-
dros, e a área de interesse (rosto da pessoas, por
exemplo) deve ser posicionada no encontro entre as
linhas (figuras 1A e 1B).

Em outros casos, temos uma cena boa mas com al-


guns elementos nas laterais que precisam ser su-
primidos. Pode ser um microfone no alto, cabos na
parte lateral etc. Então, para estes casos usamos o
efeito “Resize”, que é composto de controle de po-
sição e de escala, sendo muito simples de entender.

É importante notar que, quando usamos o controle


de escala para aumentar o zoom, a qualidade da
imagem está sendo diretamente prejudicada. Deve-
-se usar o mínimo necessário. Figura 1B – Exemplo de uma imagem sem uso da técnica

80 | áudio música e tecnologia


áudio música e tecnologia | 81
Me dia Com po s e r

QUEBRA DE EIXO
Repare na sequência das figuras 2A, 2B e 2C. Há
algo desconfortável em relação à figura 2C, pois
os dois atores parecem estar virados para o mesmo
lado, e não um virado para o outro, como numa con-
versa normal.

Em situações de diálogo, quando se faz um close


nos atores, é interessante que eles estejam virados
para direções opostas da tela, exatamente como es-
tavam no set. Isto ajuda na inteligibilidade da cena e
compreensão por parte do espectador. Porém, mui-
tas vezes a mesma cena é gravada por vários ângu-
los e pode acontecer de o editor ou diretor preferir

Figura 2A – Plano aberto da cena Figuras 2C (no alto) e 2D (abaixo) – Close original no
personagem 2 e resultado após aplicação do efeito Flop

a interpretação de uma cena vista por um ângulo


oposto, e é ai que acontece o que chamamos de
“quebra de eixo”.

Para estes casos, podemos encontrar, na categoria


“Image”, o efeito “Flop”, que simplesmente inver-
te a imagem horizonalmente, como se fosse um
espelhamento. Neste caso, não há nada para con-
figurar. É realmente só uma questão de aplicar e
pronto (figura 2D).

Como em todo efeito, há de se ter um cuidado


na aplicação. Neste caso, é necessário levar em
consideração que objetos, logotipos, texto e tudo
mais estará espelhado, podendo denunciar que o
Figura 2B – Close no personagem 1 efeito foi utilizado".

82 | áudio música e tecnologia


áudio música e tecnologia | 83
Me dia Com po s e r

Ou seja: dá para consertar na pós? Sim, mas só até um artigo à parte, mas, para os objetivos deste
um certo ponto. Nenhum outro elemento da cena artigo, vale a pena mencionar o sistema de cor-
pode denunciar a inversão de eixo. reção de cor automática do Media Composer. Este
método não substitui de forma alguma a etapa
Por último, repare que também existe o efeito de colorimetria (color grading), mas serve como
“Flip”, que neste caso inverte imagens vertical- uma maneira rápida para ajustar contraste e ba-
mente. Era muito utilizado por questões artísti- lanço de cor no programa.
cas, mas hoje em dia se tornou realmente útil no
dia a dia. No jornalismo, por exemplo, é muito O procedimento é simples. Primeiramente, vamos
comum receber imagens de flagrantes feitas com acessar o menu Workspaces > Color Correction para
o celular, e muitas delas acabam sendo filmadas entrar no modo de correção de cor e ajustar a área
de cabeça para baixo. Utilizando o efeito resolve- de trabalho para este propósito.
-se o problema.
Agora basta posicionar o cursor no clip desejado e
EVITANDO IMAGENS TREMIDAS pressionar os botões “Auto Contrast” para ajustar o
Luma e “Auto Balance” para ajustar a cor.
Este, sem dúvidas, é o um dos maiores problemas
enfrentados pelo e ditor. Imagens tremidas acon- A figura 3A apresenta o material original, en-
tecem em ambientes profissionais e amadores e quanto a 3B mostra o resultado após a aplicação
muitas vezes não é culpa do cinegrafista. Podem tanto do Auto Contrast quanto do Auto Balance.
ser registradas tremidas, por exemplo, por falta
de um apoio mais sólido e por serem frutos da Vamos ficando por aqui. Abraços e até a próxima! •
captação de uma cena
espontânea, não pla-
nejada, que foi filma-
da “no susto”, entre
muitas outras possibi-
lidades.

Na mesma categoria
“Image” encontramos
o efeito “Stabilize”, que
é bastante similar ao
Flop. Para aplicá-lo bas-
ta arrastar para o clip
desejado, de modo que
o Media Composer pos-
sa fazer a análise dos
movimentos e realizar
os ajustes necessários.

AjUSTANDO
CORES
Figuras 3A (acima) e 3B (abaixo) – Antes e depois da correção automática de cor
Este assunto merecia

Cristiano Moura é produtor musical e instrutor certificado da Avid. Atualmente leciona cursos oficiais em Pro
Tools e treinamentos em mixagem na ProClass-RJ.

84 | áudio música e tecnologia


áudio música e tecnologia | 85
Il um inando Farlley Derze

História dos

Divulgação
Profissionais
de Iluminação
Cênica no
Brasil
Sétimo capítulo: Aurélio
Aurélio de Simoni de Simoni (Parte 2)
A CRIAÇÃO DA LUZ mostrou e disse ‘está aqui, uma chave trifásica, um
neutro...’ Eu olhei, fiz a leitura do valor nominal do
“Foi engraçado porque a primeira luz que criei foi fusível, estava escrito duzentos ampéres, e pensei ‘ô
numa peça do Guarnieri chamada Ponto de Partida beleza›, já que eu usava oitenta e poucos por fase.
(risos)”. Era o ano de 1979. Teatro do SESC, na Ti- Montei minha luz, afinei, coloquei meu amperímetro,
juca, Rio de Janeiro. Na época, saiu em um jornal o estava tudo ótimo. Começou o espetáculo e dez mi-
elogio de um conceituado crítico de teatro, Yan Mi- nutos depois ‹PUF!!!›; apagou tudo. Mas eu vi que
chalski (1932-1990), que falava sobre “a expressiva a luz da cabine não apagou. Já a da cena... Tudo
iluminação de Aurélio de Simoni”. Aurélio mostrou escuro. Com a luz da cabine acesa eu já soube que
o jornal para os seus colegas de trabalho da rede não era um apagão no bairro, não era problema na
ferroviária e se tornou comum uma brincadeira no rede. Fernanda em cena, no escuro, perguntou ‘meu
local de trabalho: um ou outro colega, em vez de amigo, o que aconteceu?’. Eu me lembro que botei
perguntar “o Aurélio está aí?”, dizia “o expressivo minha cabeça pro lado de fora da cabine e falei ‘Fer-
está aí?”. Aurélio relembra com muito bom humor nanda, eu vou procurar ver, só um instante’.
daqueles momentos. Em 1981 deixaria seu emprego
na rede ferroviária. Quando abri a caixa e meti a mão nos fusíveis...
Porque se tivesse um quente era trocar aquele e
SUFOCO pronto. Mas estavam frios. Eu perguntei ao técni-
co ‘cara o que alimenta esse sistema?’, e ele disse
“Foi no Teatro do Centro de Convenções, em Natal, ‘ah... é lá na subestação, no outro prédio’. Fui até
Rio Grande do Norte. Quem estava no palco era a lá. Quando cheguei na subestação, o que alimen-
Fernanda Montenegro. Fazia a luz de ‘Phedra’. Fi- tava era um disjuntor trifásico de 100 ampéres. E
quei um ano viajando fora do Rio de Janeiro. Na- o disjuntor estava retorcido, derretido. Eu voltei,
quela época tinha um caminhão que levava o equi- passei a luz da plateia para aquela rede e disse
pamento na estrada, e a gente ia de avião. Quando ‘ó, Fernanda, não tem jeito’. O espetáculo parou.
cheguei para montar a luz, perguntei ao técnico da Foram devolvidos os oitocentos ingressos. Eu me
casa onde ficava a alimentação do sistema. Ele me lembro que fiquei sentado, dando socos na perna,

86 | áudio música e tecnologia


me perguntando se tinha feito alguma coisa erra- Carvalho inaugurou. Muitos profissionais segui-
do, enquanto lembrava que havia realizado todas ram esse exemplo e criaram suas oficinas de luz.
as leituras. Isso foi em 1986.” Aurélio vê que a publicação de livros, como o de
Jamile Tormann, ou trabalhos acadêmicos, como
FORMAÇÃO PROFISSIONAL a tese de Hamilton Saraiva, são parte da constru-
ção, formação e disseminação do conhecimento
“Eu tenho certeza de que aqui no Rio de Janeiro o sobre iluminação cênica no Brasil.
Jorginho de Carvalho foi o primeiro a sistematizar
uma maneira de ensinar e passar o conhecimento “Além de meus companheiros de trabalho, com
sobre iluminação para teatro. Ele realizava ofici- quem a gente aprende muito no decorrer da pro-
nas de luz, inclusive fora do Rio. Muitas pessoas fissão, posso dizer que tive dois mestres: Jor-
fizeram curso com o Jorginho, as oficinas dele. Eu ginho de Carvalho e Luíz Paulo Neném. Aprendi
fui fazer também. Aliás, no segundo dia da oficina com eles a como me conduzir, como trabalhar.
aconteceu um fato (risos)... Eu estava esperan- O Neném me passou muita coisa técnica desde
do o Jorginho chegar, as pessoas ali esperando janeiro de 1978”, afirma.
também, e de repente chega alguém e pergunta
‘quem é o Aurélio?’. Eu me apresentei e ele disse Perguntado sobre como se determina o cachê, faz
‘ó, telefone pra você’. Aí fui atender e era o Jorgi- alguns esclarecimentos. “Pelo sindicato há valo-
nho. ‘Ô, Aurélio, hoje eu não vou poder dar aula, res previstos para as duas funções técnicas, de
entendeu... E você faz o seguinte: quem vai dar eletricista em espetáculo e operação de luz. Exis-
aula é você. Ensina pra eles como é que se instala te uma tabela de valores, que eu prefiro chamar
mesa de luz, o que é 110 e 220, ligação em série, de ‘tabela o-fi-ci-o-sa’. Eu digo oficiosa porque
ligação paralela...’ Olha, eu já fazia aquilo, mas nunca foi oficializada, chancelada pelo Ministério
na prática. Dei a aula, mas aquela experiência me do Trabalho. É uma tabela idealizada pelo Sindi-
fez estudar um pouco mais a teoria.” cato (Sated/RJ) e com certeza essa tabela varia
de região para região do Brasil, conforme o Sa-
Aurélio é enfático ao afirmar que a formação ted de cada lugar. Para a parte técnica existe um
do iluminador no Brasil foi construída com base teto salarial, em vez de piso salarial (risos)... Mas
na relação do tipo mestre e discípulo, além das para o iluminador, porque entra a parte artística,
oficinas de iluminação como as que Jorginho de há mais maneiras de cobrar. No meu caso, tenho
três formas:
comunidade-artistas.blogspot.com.br

1) Pelo tempo que minha


cabeça vai ficar empenhada
com o trabalho;
2) Se a pessoa não tem di-
nheiro para me pagar, estipu-
lo um prolabore;
3) Um percentual da bilhe-
teria.

Fora desses três, ainda


acontecem outras duas si-
tuações: aquela em que
não rola nada em termos fi-
nanceiros, e aquela em que
você paga para trabalhar.
Às vezes, nessa última op-
ção, é também uma forma
de jogar sementes para co-
lher frutos no futuro”.

Espetáculo “Fim de Partida”

áudio música e tecnologia | 87


1996 e 1997. Ouviu de mui-
www.aureliodesimoni.blogspot.com.br

tas pessoas que a luz criada


por ele para o espetáculo
“Caravana da ilusão” tornou-
-se inesquecível para quem
viu no Teatro Nelson Rodri-
gues. Foi o primeiro prêmio
Shell que Aurélio ganhou. Ele
se lembra que, numa noite,
ao final do espetáculo, quan-
do ele saiu da cabine de luz,
havia um crítico que lhe es-
perava no foyer do teatro,
lá embaixo nas escadas. E
ouviu dele: “Aurélio, eu já
vi belos trabalhos seus, mas
quero te dizer que você se
superou neste”.

Quando lhe perguntei sobre


Oficina de iluminação com Aurélio de Simoni que luz ele sonhava fazer, a
resposta foi “seu eu pudesse, queria fazer a luz para
ADMIRAÇÃO E A LUZ a música ‘Ilha dos Açores’, do grupo português Ma-
dredeus”, concluiu.
INESQUECÍVEL
“A luz de Jorginho de Carvalho no

priscilacamargo.com
espetáculo ‘As quatro patas do
poder’. Tinha um momento dessa
luz: ‘gente, ainda falta uma coi-
sa’... ‘o que?’... ‘a casa do Jonas’.
Essa era a deixa. Saía toda a luz
de frente, entrava um contra-luz
e todo o fundo do SESC Tijuca se
iluminava. Eu lembro disso e me
arrepio até hoje. Foi um privilégio
operar essa luz.”

Aurélio já fez a iluminação para


mais de 500 espetáculos em
seus mais de 35 anos de carrei-
ra, com mais de 20 prêmios no
currículo, dentre eles seis prê-
mios pela luz de espetáculos in-
fantis. Entre 1989 e 1999, foram
diversos prêmios Shell por espe-
táculos adultos, em 1992, 1995,
Espetáculo “Histórias de medo”

Farlley Derze é professor do Instituto de Pós-Graduação (IPOG), diretor de Gestão e Pesquisa da empresa Ja-
mile Tormann Iluminação Cênica e Arquitetural, membro do comitê científico do Núcleo de Estética, Hermenêu-
tica e Semiótica da UnB. Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela UnB. E-mail: diretoria@jamiletormann.com.

88 | áudio música e tecnologia


áudio música e tecnologia | 89
F i n al Cut Ricardo Honório

Edição de
Efeitos e Estilos
Conhecendo
e aplicando
algumas
possibilidades

O Final Cut Pro X já conta com


muitos efeitos prontos para ser
utilizados, e entre as categorias
disponíveis no programa está a
Stylize, que oferece uma vasta
gama de possibilidades. Inclu- Figura 1 – Vista geral
sive, você pode editá-la e criar
keyframes para animação. Vamos saber mais so- No exemplo separado para esta edição da Final Cut,
bre o tema? Boa viagem. passei o mouse no filtro Bad TV. Repare que a ima-
gem já aparece com o filtro antes mesmo deste ser
Para começar, você deve acessar o menu de Effects aplicado definitivamente – isso porque o Final Cut
(o atalho para isso, em seu teclado, é command + Pro X é um dos únicos softwares que nos permite
5). Será aberta uma lista ao lado direito da time- ver o que se pretende aplicar antes mesmo de criar
line, na qual você poderá acrescentar a qualquer um processo de render... E, você sabe, isso é muito
elemento uma das categorias. Observe que é pos- valioso no sempre corrido dia a dia de um editor.
sível aplicar mais do que uma na mesma imagem
ou elemento. Ou seja: um texto, por exemplo, Optamos, agora, por colocar o filtro que pertence
pode entrar no jogo. à categoria Stylize chamado Cross Hatch. Vamos
aplicá-lo, e não apenas ver o preview, para então
Aplicando na imagem, selecione a mesma clicando podermos animar as suas propriedades.
na timeline e deixando-a em marcação. O contorno
em amarelo significa que que ela foi selecionada. Para utilizá-lo, é só dar dois click em cima do filtro.
Repare que agora a sua timeline começa a ren-
Agora que você já tem a imagem devidamente derizar automaticamente. Isso acontece porque o
marcada, repare que ao passar o mouse na lista sistema de render do FCPX é automático, e basta
de filtros que está localizado à sua direita, antes qualquer item que precise de render entrar na ti-
mesmo de aplicar um deles você poderá ter um meline para que o software faça a sua parte, sem
preview de como ficará. Viu? complicação alguma.

90 | áudio música e tecnologia


áudio música e tecnologia | 91
F i n al Cut

Após aplicar o filtro, va-


mos abrir o menu Ins-
pector, que fica ao lado
direito da janela de vi-
sualização dos clipes
(seu atalho no tecla-
do para abrir e fechar
é command + 4). Com
isso, você poderá ter to-
tal acesso às funcionali-
dades do clipe e a seus
ajustes. Também inclu-
ídos nestes itens estão
os controles do efeito.

Figura 2 – Filtros Veja que o filtro aparece


no topo da lista e está
fechado. Para abri-lo e começar a edição, basta cli-
car na seta que se encontra à frente do quadrado
azul na mesma linha e direção do nome do filtro. No
caso, conforme você vê na figura, estamos traba-
lhando com o Cross Hatch.

Pronto. Agora que você já abriu as propriedades do


filtro, pode começar a, à sua maneira, editá-lo. Cada
filtro tem parâmetros diferentes, e entre eles há os
que oferecem maiores ou menores quantidades de
ajustes (para saber mais sobre isso, nada como ir
em cada filtro e explorar).

Figura 3 – Bad TV: veja que a imagem já aparece


com o filtro antes mesmo deste ser aplicado
Figura 4 – Filtro fechado no topo da lista

92 | áudio música e tecnologia


áudio música e tecnologia | 93
F i n al Cut

Figura 5 – Filtro Cross Hatch já aberto: para abri-lo e começar a


edição, clique na seta que se encontra à frente do quadrado azul

Agora podemos começar. Para isso, basta escolher Pronto! Agora será feito o ajuste com o processo
o que pretende ajustar no efeito. Neste caso, dei- de automatização de keyframes. Sempre volte o
xarei o ajuste Sepia Amount em zero e em um de- cursor, dê um play e teste para ver se ficou bom.
terminado ponto de minha imagem eu quero que
ele esteja em 0,31%. Para tal, basta colocar o seu Até o nosso próximo encontro, com mais dicas sobre
cursor no ponto onde o valor será zero e então adi- o Final Cut! •
cione um keyframe
no ponto de parti-
da. Então escolha,
em seguida, outro
ponto de sua ima-
gem. Quando che-
gar neste ponto, o
efeito tem que ser
feito ou alcançado,
e então basta mo-
vimentar o ajuste
do Sepia Amount.
Simples, não?

Figura 6 – Sepia Amount em zero

Ricardo Honório é editor de vídeo e professor do Studio Motion, em São Paulo.


Envie suas sugestões e dúvidas para ricardo@studiomotion.com.br. Seu e-mail poderá ser publicado na revista.

94 | áudio música e tecnologia Até o mês que vem, com mais um caderno Luz & Cena!
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áudio música e tecnologia | 95


lugar da verdade | Enrico De Paoli

Piloto automático
No soundcheck do show
(Tá bem: não quero dizer exatamente que o ca chegou a começar e eu percebo que não está em
soundcheck será sem a interferência do engenheiro, andamento, não me custa pegar o microfone com a
mas, sim, sem a interferência do engenheiro no an- finalidade de ajudar a conduzir um soundcheck para
damento do mesmo. Vamos lá!) todos; 2) ou, se após o palco ter passado e eu tê-los
acompanhado passando o som “pra mim” no PA, eu
Mesmo quem não trabalha com áudio, música e shows venha a precisar trabalhar em algum (ou alguns)
em algum momento já ouviu aquele famoso “um, dois, canais específicos que não tenham sido passados,
teste, som...” em microfones por aí. E pouco depois ou que eu os tenha perdido por algum motivo, ou
disso vêm 15 minutos de bumbo (da bateria), mais 35 que eu precise aplicar algum efeito complexo em um
minutos de caixa e uns dez para cada tom-tom. E as- determinado canal. Mas, ainda assim, eu procuro
sim segue o famoso e desgastante soundcheck. E quem trabalhar nos efeitos antes do soundcheck, falando
disse que tem que ser assim? Realmente não sei. Eu com a minha voz em um microfone enquanto “con-
não era nascido quando inventaram o processo! fecciono” o efeito daquele canal.

O soundcheck (como quase tudo na vida) não preci-


Voltando, então, ao momento em que os músicos
sa ser cansativo e estressante. Procuro usar o bom
estão relaxadamente se divertindo, levando um som
senso. Confesso que não invejo muito o engenheiro
no palco... Este é um mau momento pra interrom-
de monitor, normalmente com cinco músicos pedindo
per! Quando a banda toca junto é justamente quando
coisas diferentes ao mesmo tempo. E eu não faço
o engenheiro tem a sagrada oportunidade de ouvir
questão nenhuma de ser mais uma pessoa a pedir!
como ela soa tocando junta. E é neste momento que
Então, meu método é deixar o palco seguir e ficar
devemos timbrar os canais, pois estamos ouvindo
bem pronto pra ir aproveitando o soundcheck “deles”
cada instrumento em perspectiva com o todo, com o
para eu passar “o meu som”, claro que após um PA
arranjo e com os outros instrumentos.
bem alinhado e soando musical.

O soundcheck definitivamente não precisa ser do volu-


Não é necessário tanto tempo pra fazer um instru-
me do show. Claro que vale a pena ter uma noção do
mento soar decentemente. Não estou me referindo
volume em que o show será mixado, mas lembre-se
à aplicação de efeitos ultracomplexos e nem neces-
de duas coisas mais: 1) o ambiente sem o público tem
sariamente à sonoridade final de cada instrumento,
mas se o PA está soando bem, e à medida que o en- muito mais reflexões e faz com que o som fique mais

genheiro de monitor vai passando o palco, nós con- alto; 2) o ambiente sem o público não tem milhares
seguimos acompanhar passando o PA. E, ao final da de pessoas gritando durante a música. Eu costumo di-
“passada” do palco, já estaremos bem próximos de zer que a mixagem do show realmente ocorre quando
uma timbragem muito decente para cada canal. En- começa o show.
tão, o que normalmente acontece (se é que já não vi-
nha acontecendo) é que os músicos começam a tocar Por fim, se depois disso tudo você não conseguiu ter
juntos. Em vez de interrompê-los pedindo coisas, eu, certeza de que os tom-tons estão soando bem porque
sem sombra de dúvidas, prefiro deixá-los tocando, durante o soundcheck o baterista os tocou somente
e eu vou fazendo a minha mix sem “incomodá-los”. uma vez a cada 15 minutos, esta é uma boa hora para
pedir os tons e quaisquer outras coisas que precisam
Ok, mas nem tudo são flores! Há dois momentos em de um ajuste final antes que a banda volte pra o hotel!
que eu pego o microfone e converso com a banda no
palco: 1) se o soundcheck saiu do controle ou se nun- Bom show!

Enrico De Paoli é engenheiro de música em estúdios e turnês. Mixou recentemente Jorge Vercillo no Riviera Maya Jazz
Festival, em Playa del Carmen, México, onde teve um soundcheck dinâmico e incrível que o inspirou a escrever este artigo.
Visite www.EnricoDePaoli.com

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