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QUEIMEM OS POETASMALDITOS!

Sobre “Tropykaos” (2017), de Daniel Lisboa

Não é porque você se tornou artista que isso te eximirá de ser um completo idiota. Ser artista não te
salva de nada: nem das agruras da vida, nem da timidez, nem da falta de consistência política, nem
da burrice, nem da canalhice. Existem tantos artistas canalhas quanto obras canalhas. Mas há
também, ao longo da história da arte, centenas de artistas canalhas que beiraram a monstruosidade
moral e nem por isso deixaram de produzir obras absolutamente não-canalhas. Em matéria de
ignorância política o mesmo acontece. Igualmente com a timidez ou o sofrimento. Muitas obras
interessantes surgiram dessas desgraças. Commented [D1]: Eu tiraria isso. Achei redundante

Talvez a única exceção seja a burrice. A burrice não cria. O artista burro é um sujeito condenado
desde o princípio à indignidade total, tanto em matéria de vida quanto de arte, contando aí com
todas as suas possíveis imbricações. E se alguém como Romero Britto traz estampada na testa e nos
quadros a marca indelével da burrice, ao menos um tipo de inteligência deve possuir: a do
marketing.

Acontece que os problemas do artista vão mudando ao decorrer do tempo. Se assistirmos Andrei
Rublev (1966), de Andrei Tarkovsky, acompanhando a trajetória sofrida de um pintor medieval que
passa do aprendizado à maturidade artística (isto é, se o acompanhamos sem dormir, porque o
mundo está dividido entre pessoas que dormem em filmes e pessoas que não dormem, e os filmes
de Tarkovsky são prato cheio para os sonolentos), logo perceberemos que seus objetivos e códigos
morais já se encontram tão distantes de nós quanto os de um samurai. Commented [D2]: Bom periodo longo

Tropykaos apresenta o poeta Guima como quem o joga numa cova de leões. Ele tem tudo para ser
um completo idiota contemporâneo: branco, homem, heterossexual, olhos verdes, romântico,
hipocondríaco, neurótico-obsessivo, paranóico, medroso, burguesinho, poser, sociopata, carente,
sentimental, tímido, drogadito e dono de um talento duvidoso (suas poesias são bem meia-boca).
Guima é tão imbecil que é impossível acreditar que Daniel Lisboa tenha pretendido apresentá-lo
como herói exemplar, ou que nos tenha sugerido depositar qualquer fé nesse personagem Commented [D3]: Discurso de intencionalidade, ainda mais
colocando o nome do director. Armadilha. Eu reformularia isso aqui.
lamentável. Guima sequer consegue ser um anti-herói como o são Macunaíma ou o alter-ego de
Robert Crumb - estes são inteligentes, safos, ácidos e remetem a personagens mitologicamente
demoníacos como Dionísio ou Arlequim. Se assim for, devemos acompanhar Guima não pela via da
identificação (o jeito mais tradicional de acompanhar heróis), mas a da derrisão, do cinismo, da
crítica e da ironia.

Então é lógico que a ironia não poderia surgir da presença do próprio Guima - de sua boca ou de
suas ações. Se o poeta demonstrasse qualquer traço de ironia, teria, obviamente, alguma
inteligência; tendo alguma inteligência, ao menos deixaria de ser um completo idiota; isso o tornaria
mais próximo daquele herói que um espectador genérico espera ao ver um filme: a confirmação da
sua mais alta estima egóica; a projeção unilateral e superpoderosa de suas próprias fraquezas
mentais, morais ou corporais, transformadas em superpotências pela alquimia do labor ficcional.
Só restaria ao diretor, portanto, plasmar essa derrisão ao próprio Guima por meio da linguagem Commented [D4]: Não sei se precisa colocar “o director”

cinematográfica. Seria pelo olhar da câmera, pelo ritmo da montagem e pelos encontros com outros
personagens que poderíamos nos conectar a uma possível crítica ao próprio mito do artista maldito.

É nesse sentido que o filme nos apresenta uma amálgama perigosa - e nem sempre bem executada -
entre a secura do realismo e a fabulação vertiginosa do fantástico, onde planos fixos (típicos de uma
cinematografia contemporânea demasiadamente sociológica) encerram personagens quase
desprovidos daquela humanidade que identificamos, geralmente, com certa profundidade
psicológica e meios-tons sentimentais. É que esses personagens estão a um passo - e sempre aí, no Commented [D5]: Mesma estrutura do periodo anterior. Quer
apostar nesse tom colloquial?
limite - da superficialidade alegórica. Mas é necessário alertar: tal superficialidade, quando se trata
da alegoria, é, na maioria das vezes, bem vinda. É justamente ela que faz do personagem uma
película fina dividindo dois mundos: o real e o imaginário. Commented [D6]: Até consigo ler o primeiro período com dois
parêntesis sintáticos, mas o parágrafo inteiro assim ficar meio difícil,
pai.
O enredo é simples. Guima é um poeta drogadito que vive num apartamento sujo e vazio no centro Commented [D7]: É é é é é é tem umas cinco frases que você
começa com “é em sequência”
da cidade. Sua meta de vida é consertar o ar-condicionado e pagar as contas de luz sempre
Commented [D8]: Vai repetir essa palavra usada lá em cima?
atrasadas, já que não tem dinheiro devido à crise criativa disparada por uma fobia irracional aos
raios solares. É essa fobia que o leva a querer - a qualquer custo - consertar o eletrodoméstico
amado. Commented [D9]: Troca o adjetivo

Se encaramos o roteiro pela via realista, a base da narrativa parece bastante verossímil. Mesmo que
pertença a classes mais abastadas, a vida de um artista, principalmente no nordeste, é Commented [D10]: Não é só no Nordeste. Achei meio forçado
isso aqui. Artista é meio que fodido em tudo que é lugar
permanentemente acossada pelos ditames da política de editais, tornando-o vulnerável aos altos e
baixos do mercado e do Estado neoliberal. Guima deve entregar seu livro ao Estado para receber a
segunda parcela do pagamento. Recebendo o pagamento, é claro, poderá pagar as contas de luz e
até, quem sabe, comprar um novo ar-condicionado.

Já no plano do fantástico - que briga o tempo inteiro com o realista - há a fobia aos “raios ultra-
violentos” (é assim que os raios solares entram no registro alegórico, incorporados aos trocadilhos
de um poeta ruim). Se existem pessoas que simplesmente sofrem de fotofobia, Lisboa projeta em Commented [D11]: Aqui cabe o nome.

Guima um medo incomensurável do próprio Sol enquanto entidade. É através dessa hipertrofia de
um fato cotidiano corriqueiro que o diretor consegue transformar a paisagem de toda a cidade. O
Rei Sol redime a urbes de sua inocência fingida, transmutando-a numa espécie de monstro
distópico. A cidade inspira, expira, transpira. Os planos impessoais são importantíssimos. Ali
amplia-se a visão obsessiva que insiste em ocupar-se apenas do poeta. Salvador surge, então,
impressa em suor e musgo. Há os labirintos de um submundo escuro, típicos de qualquer grande
cidade brasileira. Há a praia onde os corpos se banham ao sol sem vergonha alguma. Há as estátuas
que suam bicas. Há o sorriso da baiana, sutilmente demoníaco. Há a luz branca onipresente, como a Commented [D12]: Baiana de acarajé

do meio-dia, que parece espremer a tudo e a todos contra o calor do asfalto. Os ar-condicionados,
vistos de baixo, deixam cair suas gotas de salvação - viram entidades dotadas de vida própria. As
máquinas de fazer frio choram pelo destino de Guima e da malfadada cidade.

Mas eu não choro. Aliás: que morram os poetas malditos - incluindo aquele poeta chatíssimo de A
Febre do Rato (2011). Que morra a velha Bahia e leve com ela todos os sósias de Castro Alves.