Você está na página 1de 71

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.

com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 1


Módulo I - História e Fundamentos
da Psicanálise

Índice

O que é psicanálise? 5

Primórdios da Psicanálise 7

Um síntese do modelo psicanalítico 9

A centralidade da Histeria na Psicanálise Freudiana 10

Surgimento da psicanálise 11

As relações de Freud com sua família 11

Sigmund Freud, o pai da psicanálise. 15

Freud, uma breve biografia 18

Breuer e Charcot 24

De onde vem a resistência 26

Um progresso importante 28

As neuroses 29

“O sonho é a estrada real do psiquismo” (Freud) 31

Por que a história de Édipo é fascinante? 33

A Interpretação dos Sonhos 33

Pacientes de Freud 36

Teoria da Representação 38

Teoria do processo de pensamento 39

Processo Primário 39

Processo Secundário 39
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 2


Inovações de Freud 40

Estudos sobre a Cocaína 41

Libido 42

Transferência 43

A psicanálise: ciência e ética 43

Como é feita a pesquisa psicanalítica? 45

Aspectos centrais da teoria psicanalítica 47

Estrutura e dinâmica da personalidade 47

Os níveis da consciência ou modelo topológico da mente 48

Modelo estrutural da personalidade 49

Os mecanismos de defesa 50

As fases do desenvolvimento psicossexual 52

A fase oral 52

A fase anal 54

A fase fálica 54

O período de latência 56

A fase genital 56

A teoria psicanalítica dos transtornos mentais 57

Primeiro tipo: neuroses 57

Segundo tipo: psicoses 58

Terceiro tipo: psicopatias 60

Avaliação e crítica da teoria 60

Críticas a Freud 62

Crítica ao modelo psicossexual 63

Correntes, dissensões e críticas 64

Desenvolvimento posterior 66

Diferença entre o Psicólogo, Psicanalista e Psiquiatra 67

PSICOLOGIA 67

PSIQUIATRIA 68

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 3


PSICANÁLISE 69

Este material é parte das aulas do Curso de Formação em Psicanálise.


Proibida a distribuição onerosa ou gratuita por qualquer meio, para não alunos
do Curso. Os créditos às obras usadas como referências ou citação constam
nas Referências Bibliográficas.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 4


O que é psicanálise?

O texto abaixo é do Vocabulário de Psicanálise, de Laplanche e Pontalis:

Disciplina fundada por Freud e na qual podemos, com ele, distinguir três níveis:

a) Um método de investigação que consiste essencialmente em evidenciar o


significado inconsciente das palavras, ações, das produções imaginárias
(sonhos, fantasias, delírios) de um sujeito. Este método baseia-se
principalmente nas associações livres do sujeito, que são a garantia da
validade da interpretação. A interpretação psicanalítica pode estender-se a
produções humanas para as quais não se dispõe de associações livres.

b) Um método psicoterápico baseado nesta investigação e o especificado pela


interpretação controlada da resistência, da transferência e do desejo. O
emprego da psicanálise como sinônimo de tratamento psicanalítico está ligado
a este sentido; exemplo: começar uma psicanálise (ou uma análise).

c) Um conjunto de teorias psicanalíticas e psicopatológicas em que são


sistematizados os dados introduzidos pelo método psicanalítico de investigação
e de tratamento.

Freud empregou inicialmente os termos análise, análise psíquica, análise


psicológica, análise hipnótica, no seu primeiro artigo “As psiconeuroses de
defesa”, de 1894. Só mais tarde introduziu o termo psycho-analyse num artigo
sobre a etiologia das neuroses publicado em francês. Em alemão,
Psychoanalyse figura pela primeira vez em 1986 em Novas observações sobre
as psiconeuroses de defesa. O uso do termo “psicanálise” consagrou o
abandono da catarse sob hipnose e da sugestão, e o recurso exclusivo à regra
da associação livre para obter o material.

Freud deu várias definições de psicanálise. Uma das mais claras encontra-se
no início do artigo da Enciclopédia publicado em 1922: “Psicanálise é o nome:

1) De um procedimento de investigação de processos mentais que, de outra


forma, são praticamente inacessíveis

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 5


2) De um método baseado nessa investigação para o tratamento de distúrbios
neuróticos.

3) De uma série de concepções psicológicas adquiridas por esse meio e que se


somam uma às outras para formarem progressivamente uma nova disciplina
científica”

A definição proposta na abertura deste verbete produz de forma mais


pormenorizada a que Freud apresente neste texto.

Sobre a escolha do termo psicanálise, nada melhor do que dar a palavra


àquele que forjou o termo ao mesmo tempo que identificava a sua descoberta:
“Chamamos psicanálise ao trabalho pelo qual levamos à consciência do doente
o psíquico recalcado por ele. Por que “análise”, que significa fracionamento,
decomposição, e sugere uma analogia com o trabalho efetuado pelo químico
com as substâncias que encontra na natureza e que leva para o laboratório?

Porque, num ponto importante, essa analogia é, efetivamente, bem fundada.


Os sintomas e manifestações patológicas do paciente são, como todas as suas
atividades psíquicas, de natureza altamente compósita; os elementos dessa
composição são em última análise motivos, moções pulsonais. Mas o doente
nada sabe, ou sabe muito pouco, desses motivos elementares.

Nós lhe ensinamos, pois, a compreender a composição dessas formações


psíquicas altamente complicadas, reconduzimos os sintomas às moções
pulsionais que os motivam, apontamos ao doente nos seus sintomas os
motivos pulsionais até então ignorados, como o químico separa a substância
fundamental, o elemento químico, do sal em que, em composição com outros
elementos, se tornara irreconhecível.

Da mesma maneira, mostramos ao doente, quanto às manifestações psíquicas


consideradas não patológicas, que ele só estava imperfeitamente consciente
da motivação delas, que outros motivos pulsionais que para ele permaneceram
desconhecidos tinham contribuído para as produzir.

Explicamos também a tendência sexual no ser humano fracionando-a nas suas


componentes, e, quando interpretamos um sonho, procedemos de forma a pôr

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 6


de lado o sonho como totalidade, pois é dos seus elementos isolados que
fazemos partir as associações.

Essa comparação justificada da atividade médica psicanalítica com um trabalho


químico poderia sugerir uma direção nova à nossa terapia (…) Disseram-nos: à
análise do psiquismo doente deve suceder a síntese! E logo houve quem se
mostrasse preocupado com o fato de que o doente pudesse receber análise a
mais e síntese a menos, e desejoso de colocar o peso da ação
psicoterapêutica nessa síntese, numa espécie de restauração daquilo que, por
assim dizer, tinha sido destruído por vivissecção.

A comparação com a análise química encontra o seu limite no fato de que na


vida psíquica lidamos com tendências submetidas a uma compulsão à
unificação e à combinação. Mal conseguimos decompor um sintoma, liberar
uma moção pulsional de um conjunto de relações, e logo esta não se conserva
isolada, mas entra imediatamente num novo conjunto.

Também no sujeito em tratamento analítico a psicossíntese se realiza sem


nossa intervenção, automática e inevitavelmente.

A Standard Edition traz uma lista das principais exposições gerais sobre a
psicanálise publicada por Freud.

A moda da psicanálise levou numerosos autores a designar por este termo


trabalhos cujo conteúdo, método e resultados têm apenas relações muito
tênues com a psicanálise propriamente dita.

Primórdios da Psicanálise

A psicanálise foi criada por Sigmund Freud (1856-1939), ele nasceu em


Freiberg, mas sua família se mudou para Viena quando ele tinha três anos de
idade. Freud só deixou a capital austríaca em 1938, após a ocupação nazista;

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 7


já idoso e doente, instala-se em Londres. A trajetória e historia da psicanálise
está indissociavelmente ligada à vida de Freud. A teoria criada por ele em
Viena no início do século XX se difundiu por inúmeras áreas do saber, e seus
termos circulam até mesmo em conversas coloquiais. Freud inaugurou uma
nova área do conhecimento, uma nova forma de ver e pensar o mundo: as
neuroses, a infância, a sexualidade, os relacionamento humanos, a
subjetividade, a sociedade etc.

A psicanálise, na verdade não é uma escola da psicologia, é uma área do


conhecimento independente, que surgiu como uma forma alternativa de dar
conta do sofrimento psíquico e de entender o funcionamento mental como um
todo. Suas noções e hipóteses teóricas são forjadas e articuladas de maneira a
constituir modelos para a compreensão de fenômenos psíquicos que povoam a
clínica e a vida cotidiana. A psicanálise tem seu próprio princípio organizador,
sua própria episteme. Entender sua criação e desenvolvimento envolve
questões epistemológicas, relações com outras áreas do conhecimento e sua
contextualização através da história.

Freud teve sensibilidade e receptividade para escutar o discurso do histérico e


aprender o que este tinha a lhe ensinar. Foi escutando o histérico que Freud
criou a psicanálise, sua teoria, sua prática, seu método terapêutico e sua ética.
Ele teve o despojamento de reconhecer a ignorância e a impotência diante de
um sem número de situações, diante do sofrimento e lançou-se a busca de
novos instrumentos, novos conceitos, novas técnicas.

O ambiente cultural da Áustria, o contexto iluminista pós-Revolução Industrial e


a Revolução Francesa, aliada aos conhecimentos psiquiátricos,
neurofisiológicos, literários, sociológicos, antropológicos e artísticos,
contribuíram, segundo Colich (2005) para que Freud identificasse fenômenos
mentais que iam além dos perceptíveis pela consciência.

Segundo Colich (2005), Freud procurou construir uma ciência explanatória que
pudesse provar seus achados, encontrando seus fatores e agentes causais,
organizados em forma de leis e princípios gerais. Olhava o cérebro e a mente
como fenomenologicamente idênticos e estava preocupado com o modelo

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 8


neurofisiológico, a hidrostase, a termodinâmica e o conceito darwiniano de
evolução da mente. Isso influenciou de forma decisiva o modelo de
inconsciente construído por Freud, estabelecendo a centralidade dos conceitos
de pulsão (formulação teórica para tentar expressar a transformação de
estímulos em elementos psíquicos) e recalque. Decorre daí formulações sobre
“investimento”, “representação”, “resistência”, “defesas”, fases do
desenvolvimento da libido”, “a teoria inicial sobre ansiedade”, a “transferência”
como revivência de uma memória passada, e a “realidade psíquica”.

Até a Primeira Guerra Mundial vigorava uma situação de relativa centralidade


em torno da figura de Freud. Mas aos poucos ocorre a formação de tradições
psicanalíticas locais. Budapest, Londres, Zurique, além de Viena e Berlim,
tornam-se referencia para analistas, que agora ultrapassam o laço pessoal e
direto com a figura do fundador. Dunker (2005) diz que trata-se agora de
pequenos grupos à procura de autolegitimação e reconhecimento no quadro de
um movimento psicanalítico cada vez mais extenso e impessoal.

O modelo psicanalítico da mente considera que a atividade mental é baseada


no papel central do inconsciente dinâmico. O contato com a realidade teórica
da psicanálise põe em evidência uma multiplicidade de abordagens, com
diferentes níveis de abstração, conceituações conflitantes e linguagens
distintas. Mas isso deve ser entendido um em um contexto histórico cultural e
em relação as próprias características do modelo psicanalítico da mente.

Um síntese do modelo psicanalítico

Psicanálise é o nome de:

1. um procedimento para investigação de processos mentais, praticamente


inacessíveis de outra forma, especialmente vivências internas e profundas
como pensamentos, sentimentos, emoções, fantasias e sonhos.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 9


2. Um método (baseado nessa investigação) para o tratamento das
neuroses;

3. um acúmulo sistemático de conhecimentos sobre a mente, obtidos


através desse procedimento, que gradualmente está se tornando uma nova
ciência.

4. é um método de investigação que busca evidenciar o significado


inconsciente das palavras, atos e produções imaginárias (sonhos,
devaneios...) de um indivíduo, baseados na associação livre.

Psicanalista = Espelho

Objetivo = Tornar o Inconsciente, consciente

A centralidade da Histeria na Psicanálise Freudiana

1. A palavra grega hystera significa útero.

2. Acreditava-se que apenas as mulheres podiam sofrer sintomas


histéricos: paralisias, convulsões, sonambulismo, alucinações, perda da
fala, das sensações ou da memória.

3. As histéricas foram outrora perseguidas como bruxas.

As pessoas histéricas costumavam ser queimadas como bruxas, ou eram


presas e perseguidas como se estivessem possuídas. Essa era a visão do
censo comum. Apesar de Charcot lidar com os histéricos de forma mais

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 10


humana e de acreditar que podiam ser tratados, ele se prendia à opinião de
que a histeria era uma degeneração hereditária. As demonstrações de Charcot
com pacientes sob hipnose deixaram Freud fascinado.

Freud começou a trabalhar com Josef Breuer (1842 – 1925), um respeitável


médico e velho amigo de Freud, e que empregava a hipnose como forma de
tratamento. Breuer mandou alguns pacientes para Freud e, além de ajudá-lo
profissionalmente, também lhe dava um apoio financeiro.

Surgimento da psicanálise

Psicanálise é um campo clínico e de investigação teórica da psique humana


independente da Psicologia, que tem origem na Medicina, desenvolvido por
Sigmund Freud, médico que se formou em 1881, trabalhou no Hospital Geral
de Viena e teve contato com o neurologista francês Jean Martin Charcot, que
lhe mostrou o uso da hipnose.

As relações de Freud com sua família

Sigmund Shilomo Freud nasceu em 6 de maio de 1856, em Freiberg, Moravia


(atualmente Pribor, Checoslovaquia), filho de Jacob Freud e sua terceira
esposa, Amália (vinte anos mais jovem que o marido). Sigi, como era chamado
por seus parentes, teve sete irmãos mais jovens.

A constelação familiar era incomum, pois, dois meio-irmãos de Freud,


Emmanuel e Philipp, tinham praticamente a mesma idade de sua mãe. Freud
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 11


era ligeiramente mais novo que seu sobrinho John, filho de Emmanuel. Esta
situação peculiar pode ter estimulado o interesse de Freud em dinâmica
familiar, levando-o às suas posteriores formulações sobre o Complexo de
Édipo.

O pai de Freud, um comerciante judeu de posses modestas, levou a família


para Leipzig, Alemanha (1859), seguindo para Viena (1860), onde Freud viveu
até 1938.

Aos 8 anos de idade, Freud lia Shakespeare e, na adolescência, ouviu uma


conferência, cujo tema era o ensaio de Goethe sobre a natureza, ficando
profundamente impressionado.

Abreviou seu nome para Sigmund Freud em 1877.

Pretendia estudar Direito, mas decidiu seguir Medicina, interessado na área de


pesquisas. Ingressou na Universidade de Viena em 1873. Como aluno, Freud
iniciou um trabalho de pesquisa sobre o sistema nervoso central, orientado por
Ernst Von Brucke (1876), e formou-se médico em 1881. Trabalhou na Clínica
Psiquiátrica de Theodor Meynert (1882-83), estudando posteriormente com
Charcot (Salpetrière), em Paris (1885).

De 1884 a 1887, Freud publicou vários artigos sobre cocaína.

Casou-se com Martha Bernays em 1886. O casal teve seis filhos (Mathilde,
1887); Jean-Martin, 1889; Olivier, 1891; Ernst, 1892; Sophie, 1893; Anna,
1895). Freud iniciou seu trabalho clínico, em consultório próprio,
especializando-se em doenças nervosas.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 12


6 de maio de 1856

Nasce Sigmund Freud em Freiburg, Moravia, hoje Tchecoslováquia, mas então


parte do Império Austro-Húngaro, Freud nasceu numa família judia.

Seu pai Jacob Freud (1815 – 1896), era um comerciante de lã. Aos 40 anos,
com dois filhos adultos e já avô, casou-se pela segunda vez, com Amalie
Nathanson (1835 – 1930).

Freud foi o primeiro e o preferido dos oito filhos que teve com Amalie.

1860:

Devido à guerra austro-italiana, os negócios de Jacob vão à ruína e a família é


obrigada a se transferir para Viena, aí é que Freud iniciará seus estudos e
viverá até praticamente o fim de sua vida.

Aos 17 anos, termina os estudos secundários, Freud dominava perfeitamente o


inglês, o francês, o latim, o grego e o hebraico; possuía bons conhecimentos de
espanhol e de italiano.

1873:

Freud começa a estudar Medicina na Universidade de Viena, e termina em


1881, três anos a mais do que o normal. Seus principais interesses se dirigiam
à histologia e neurofisiologia: Ele queria ser um cientista, não um médico. O
que levou Freud a se interessar pelos estudos médicos foi, em grande parte, a
excelente reputação da escola médica vienense.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 13


1878 – 1881:

Freud realiza trabalhos pioneiros sobre as células nervosas.

1882:

Outras coisas aconteciam: planos de casamento. Freud conheceu e se


apaixonou por Martha Bernays (1861 – 1951)

Freud estava feliz realizando seu trabalho científico no laboratório de Brucke,


na Universidade. Brucke ajuda-o com uma bolsa de estudo para um estágio em
Paris, juntamente com o célebre Joseph Charcot.

Charcot era o médico que mais entendia das questões da histeria, e utilizava a
hipnose como técnica básica para tratamento dos seus pacientes. Sua figura
causou grande impressão em Freud.

São seis meses que Freud fica em Paris. Viria depois a traduzir para o alemão
alguns dos livros de Charcot.

1884 – 1887:

Freud estudou os efeitos da cocaína – a começar por ele mesmo.

Abril de 1886:

Freud inicia sua clínica privada como neuropatologista e encontra seu primeiro
paciente histérico.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 14


Sem se dar conta, tinha se deparado com um fato revolucionário. A verdadeira
explicação dos sintomas histéricos não era biológica, nem mecânica.

Sigmund Freud, o pai da psicanálise.

Freud, médico neurologista austríaco, propôs este método para a compreensão


e análise do homem, compreendido enquanto sujeito do inconsciente,
abrangendo três áreas:

- um método de investigação do psiquismo e seu funcionamento;

- um sistema teórico sobre a vivência e o comportamento humano;

- um método de tratamento caracterizado pela aplicação da técnica da


Associação Livre.

Essencialmente é uma teoria da personalidade e um procedimento de


psicoterapia; a psicanálise influenciou muitas outras correntes de pensamento
e disciplinas das ciências humanas, gerando uma base teórica para uma forma
de compreensão da ética, da moralidade e da cultura humana.[4]

Em linguagem comum, o termo "psicanálise" é muitas vezes usado como


sinônimo de "psicoterapia" ou mesmo de "psicologia". Em linguagem mais
própria, no entanto, psicologia refere-se à ciência que estuda o comportamento
e os processos mentais, psicoterapia ao uso clínico do conhecimento obtido
por ela, ou seja, ao trabalho terapêutico baseado no corpo teórico da psicologia
como um todo, e psicanálise refere-se à forma de psicoterapia baseada nas
teorias oriundas do trabalho de Sigmund Freud; psicanálise é, assim, um termo
mais específico, sendo uma entre muitas outras formas de psicoterapia, no
entanto a psicanálise não é uma ciência, sendo na melhor das hipóteses
apenas uma prática médica.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 15


De acordo com Sigmund Freud, psicanálise é o nome de (1) um procedimento
para a investigação de processos mentais que são quase inacessíveis por
qualquer outro modo, (2) um método (baseado nessa investigação) para o
tratamento de distúrbios neuróticos, e (3) uma coleção de informações
psicológicas obtidas ao longo dessas linhas, e que gradualmente se acumulou
numa "nova" disciplina científica. A essa definição elaborada pelo próprio
Freud pode ser acrescentada um tratamento possível da psicose e perversão,
considerando o desenvolvimento dessa técnica.

Ainda segundo o seu criador, a psicanálise cresceu num campo muitíssimo


restrito. No início, tinha apenas um único objetivo — o de compreender algo da
natureza daquilo que era conhecido como doenças nervosas ‘funcionais’, com
vistas a superar a impotência que até então caracterizara seu tratamento
médico. Em sua opinião, os neurologistas daquele período haviam sido
instruídos a terem um elevado respeito por fatos químico-físicos e patológico-
anatômicos e não sabiam o que fazer do fator psíquico e não podiam entendê-
lo. Deixavam-no aos filósofos, aos místicos e — aos charlatães; e
consideravam não científico ter qualquer coisa a ver com ele.

Os primórdios da psicanálise datam de 1882 quando Freud, médico recém


formado, trabalhou na clínica psiquiátrica de Theodor Meynert, e mais tarde,
em 1885, com o médico francês Charcot, no Hospital Salpêtrière (Paris,
França). Sigmund Freud, um médico interessado em achar um tratamento
efetivo para pacientes com sintomas neuróticos ou histéricos. Ao escutar seus
pacientes, Freud acreditava que seus problemas se originaram da não
aceitação cultural; ou seja, seus desejos eram reprimidos, relegados ao
inconsciente. Notou também que muitos desses desejos se tratavam de
fantasias de natureza sexual. O método básico da psicanálise é o manejo da
transferência e da resistência em análise. O analisado, numa postura relaxada,
é solicitado a dizer tudo o que lhe vem à mente (método de associação livre).
Suas aspirações, angústias, sonhos e fantasias são de especial interesse na

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 16


escuta, como também todas as experiências vividas são trabalhadas em
análise. Escutando o analisado, o analista tenta manter uma atitude empática
de neutralidade. Uma postura de não-julgamento, visando a criar um ambiente
seguro.

A originalidade do conceito de inconsciente introduzido por Freud deve-se à


proposição de uma realidade psíquica, característica dos processos
inconscientes. Por outro lado, analisando-se o contexto da época observa-se
que sua proposição estabeleceu um diálogo crítico à proposições Wilhelm
Wundt (1832 — 1920) da psicologia com a ciência que tem como objeto a
consciência entendida na perspectiva neurológica (da época) ou seja opondo-
se aos estados de coma e alienação mental.

Muitos colocam a questão de como observar o inconsciente. Se a Freud se


deve o mérito do termo "inconsciente", pode-se perguntar como foi possível a
ele, Freud, ter tido acesso a seu inconsciente para poder ter tido a
oportunidade de verificar seu mecanismo, já que não é justamente o
inconsciente que dá as coordenadas da ação do homem na sua vida diária.

Não é possível abordar diretamente o inconsciente (Ics.), o conhecemos


somente por suas formações: atos falhos, sonhos, chistes e sintomas diversos
expressos no corpo. Nas suas conferências na Clark University (publicadas
como Cinco lições de psicanálise) nos recomenda a interpretação como o meio
mais simples e a base mais sólida de conhecer o inconsciente.

Outro ponto a ser levado em conta sobre o inconsciente é que ele introduz na
dimensão da consciência uma opacidade. Isto indica um modelo no qual a
consciência aparece, não como instituidora de significatividade, mas sim como
receptora de toda significação desde o inconsciente. Pode-se prever que a
mente inconsciente é um outro "eu", e essa é a grande ideia de que temos no
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 17


inconsciente uma outra personalidade atuante, em conjuntura com a nossa
consciência, mas com liberdade de associação e ação.

O modelo psicanalítico da mente considera que a atividade mental é baseada


no papel central do inconsciente dinâmico. O contato com a realidade teórica
da psicanálise põe em evidência uma multiplicidade de abordagens, com
diferentes níveis de abstração, conceituações conflitantes e linguagens
distintas. Mas isso deve ser entendido em um contexto histórico cultural e em
relação às próprias características do modelo psicanalítico da mente.

Freud, uma breve biografia

Sigismund Schlomo Freud (Freiberg in Mähren, 6 de maio de 1856 — Londres,


23 de setembro de 1939), mais conhecido como Sigmund Freud, foi um médico
neurologista criador da psicanálise.[4] Freud nasceu em uma família judaica,
em Freiberg in Mähren, na época pertencente ao Império Austríaco
(atualmente, a localidade é denominada Příbor, e pertence à República
Tcheca).

Freud iniciou seus estudos pela utilização da técnica da hipnose no tratamento


de pacientes com histeria, como forma de acesso aos seus conteúdos mentais.
Ao observar a melhora dos pacientes tratados pelo médico francês Charcot,
elaborou a hipótese de que a causa da histeria era psicológica, e não orgânica.
Essa hipótese serviu de base para outros conceitos desenvolvidos por Freud,
como o do inconsciente.

Freud também é conhecido por suas teorias dos mecanismos de defesa e


repressão psicológica e por criar a utilização clínica da psicanálise como
tratamento das psicopatologias, através do diálogo entre o paciente e o
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 18


psicanalista. Freud acreditava que o desejo sexual era a energia motivacional
primária da vida humana. Sua obra fez surgir uma nova compreensão do ser
humano, como um animal dotado de razão imperfeita e influenciado por seus
desejos e sentimentos. Segundo Freud, a contradição entre esses impulsos e a
vida em sociedade gera, no ser humano, um tormento psíquico.

Freud tinha uma visão biopsicossocial do ser humano. Fatos como a descrição
de pacientes curados através do diálogo por Josef Breuer e a morte do colega
Ernst von Fleischl-Marxow por dose excessiva do antidepressivo da época, a
cocaína, levaram-no ao abandono das técnicas de hipnose e de drogas para
criar um novo método: a cura pela fala, ou seja, a psicanálise, que utilizava a
interpretação de sonhos e a livre associação como vias de acesso ao
inconsciente.[6][7]

Suas teorias e seus tratamentos foram controversos na Viena do século XIX, e


continuam a ser muito debatidos hoje. Sua teoria é de grande influência na
psicologia atual e, além do contínuo debate sobre sua aplicação no tratamento
médico, também é, frequentemente, discutida e analisada como obra de
literatura e cultura geral.

Sigmund Freud é filho de Jacob Freud (um judeu proveniente da Galícia e


comerciante de lã) e de sua terceira mulher, Amalie Nathanson (1835-1930).
Nascido com o nome de Sigmund Schlomo Freud em 1856, Freud mudou-se
para Viena em 1860, quando tinha quatro anos de idade, por causa de
problemas financeiros e de problemas de saúde de sua família.

Freud ingressou na Universidade de Viena aos 17 anos. Ele planejava estudar


direito mas, ao invés disso, entrou para a faculdade de medicina, onde seus
estudos incluíram filosofia, com o professor Franz Brentano, fisiologia, com o
professor Ernst Brücke e zoologia, com o professor Darwinista Carl Friedrich
Claus.[8] Em 1876, Freud passou quatro semanas na estação zoológica de

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 19


Claus em Trieste, dissecando o sistema reprodutor masculino de centenas de
enguias, num estudo que se revelou inconclusivo.

Os primeiros anos de Freud são pouco conhecidos, já que ele destruiu seus
escritos pessoais em duas ocasiões: a primeira em 1885 e novamente em
1894. Além disso, seus escritos posteriores foram protegidos cuidadosamente
nos Arquivos de Sigmund Freud, aos quais só tinham acesso Ernest Jones
(seu biógrafo oficial) e uns poucos membros do círculo da psicanálise. O
trabalho de Jeffrey Moussaieff Masson pôs alguma luz sobre a natureza do
material oculto.

Os estudos na universidade tomaram-lhe inesperadamente bastante tempo até


a graduação, em 1881. Registros de amigos que o conheciam naquela época,
assim como informações nas próprias cartas escritas por Freud, sugerem que
ele foi menos diligente nos estudos de medicina do que devia ter sido. Em lugar
dos estudos, ele atinha-se à pesquisa científica, inicialmente pelos estudos dos
órgãos sexuais de enguias — um estranho, mas interessante presságio das
teorias psicanalíticas que estariam por vir vinte anos mais tarde. De acordo
com os registros, Freud completa tal estudo satisfatoriamente, mas sem
distinção especial. Em 1877, desapontado com os resultados e talvez menos
excitado em enfrentar mais dissecações de enguias, Freud vai ao laboratório
de Ernst Brücke, que torna-se seu principal modelo de ciência.

Com Brücke, Freud entra em contato com a linha fisicalista da fisiologia. O


interesse de Brücke não era apenas descobrir as estruturas de órgãos ou
células particulares, mas sim, suas funções. Dentre as atribuições de Freud,
nesta época, estavam o estudo da anatomia e da histologia do cérebro
humano. Durante os estudos, identifica várias semelhanças entre a estrutura
cerebral humana e a de répteis, o que o remete ao então recente estudo de
Charles Darwin sobre a evolução das espécies e à discussão da
"superioridade" dos seres humanos sobre outras espécies.

Freud, então, conhece Martha Bernays, e parece ter sido amor à primeira vista.
O seu desejo de desposar Martha, o baixo salário e as poucas perspectivas de

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 20


carreira na pesquisa científica fazem-no abandonar o laboratório e a começar a
trabalhar no Hospital Geral, o principal hospital de Viena, passando por vários
departamentos do mesmo. O próprio Brücke aconselha-o a mudar, apesar de
seu bom desempenho e com razão, já que Freud precisava ganhar dinheiro.

No hospital, depois de algumas desilusões com o estudo dos efeitos


terapêuticos da cocaína — com inclusive um episódio de morte por overdose
de um amigo da época do laboratório de Brücke —, Freud recebe uma licença
e viaja para a França, onde trabalha com Charcot, um respeitável psiquiatra do
hospital psiquiátrico Saltpêtrière que estudava a histeria.

De volta ao Hospital Geral e entusiasmado pelos estudos de Charcot, Freud


passa a atender, na maior parte, jovens senhoras judias que sofriam de um
conjunto de sintomas aparentemente neurológicos que compreendiam
paralisia, cegueira parcial, alucinações, perda de controle motor e que não
podiam ser diagnosticados com exames. O tratamento mais eficaz para tal
doença incluía, na época, massagem, terapia de repouso e hipnose.

Em 14 de Setembro de 1886, em Hamburgo, Freud casou-se com Martha


Bernays com a ajuda financeira de alguns amigos mais abastados, dentre eles
Josef Breuer, um colega mais velho da faculdade de medicina.

Freud em 1905.

Foi com as discussões de casos clínicos com Breuer que surgiram as ideias
que culminaram com a publicação dos primeiros artigos sobre a psicanálise. O
primeiro caso clínico relatado deve-se a Breuer e descreve o tratamento dado a
uma paciente (Bertha Pappenheim, chamada de "Anna O." no livro), que
demonstrava vários sintomas clássicos de histeria. O método de tratamento
consistia na chamada "cura pela fala" ou "cura catártica", na qual o ou a
paciente discute sobre as suas associações com cada sintoma e, com isso, os
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 21


faz desaparecer.[9] Esta técnica tornou-se o centro das técnicas de Freud, que
também acreditava que as memórias ocultas ou "reprimidas" nas quais
baseavam-se os sintomas de histeria eram sempre de natureza sexual. Breuer
não concordava com Freud neste último ponto, o que levou à separação entre
eles logo após a publicação dos casos clínicos.

Na verdade, inicialmente, a classe médica em geral acaba por marginalizar as


ideias de Freud; seu único confidente durante esta época é o médico Wilhelm
Fliess. Depois que o pai de Freud falece, em outubro de 1896, segundo as
cartas recebidas por Fliess, Freud, naquele período, dedica-se a anotar e
analisar seus próprios sonhos, remetendo-os à sua própria infância e, no
processo, determinando as raízes de suas próprias neuroses. Tais anotações
tornam-se a fonte para a obra A Interpretação dos Sonhos. Durante o curso
desta autoanálise, Freud chega à conclusão de que seus próprios problemas
eram devidos a uma atração por sua mãe e a uma hostilidade em relação a seu
pai. É o famoso "complexo de Édipo", que se torna o coração da teoria de
Freud sobre a origem da neurose em todos os seus pacientes.

Nos primeiros anos do século XX, são publicadas suas obras A Interpretação
dos Sonhos e A psicopatologia da vida cotidiana. Nesta época, Freud já não
mantinha mais contato nem com Josef Breuer, nem com Wilhelm Fliess. No
início, as tiragens das obras não animavam Freud, mas logo médicos de vários
lugares — Eugen Bleuler, Carl Jung, Karl Abrahams, Ernest Jones, Sandor
Ferenczi — mostram respaldo às suas ideias e passam a compor o Movimento
Psicanalítico.

Por sua vida inteira, Freud teve uma posição financeira modesta. Josef Breuer
foi, no início, um aliado de Freud em suas ideias e também um aliado
financeiro.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 22


Freud criou o termo "psicanálise" para designar um método para investigar os
processos inconscientes e de outro modo inacessíveis do psiquismo.

Nos tempos do nazismo, Freud perdeu quatro das cinco irmãs nos campos de
concentração: Regine (Rosa) em Auschwitz, Mitzi (Marie) em Theresienstadt,
Dolfi (Esther Adolfine) e Paula (Pauline) em Treblinka. Embora Maria
Bonaparte tenha tentado tirá-las do país, elas foram impedidas de sair de Viena
pelas autoridades nazistas.

Morou em Viena até 1938, quando, após a anexação da Áustria à Alemanha


nazista, em razão de sua etnia judaica, refugiou-se na Inglaterra, onde já se
encontrava parte de sua família.

Freud morre de câncer no palato aos 83 anos de idade (passou por trinta e três
cirurgias). Supõe-se que tenha morrido de uma dose excessiva de morfina.
Freud sentia muita dor, e segundo a história contada, ele teria dito ao médico
que lhe aplicasse uma dose excessiva de morfina para terminar com o
sofrimento, o que seria eutanásia.

Encontra-se sepultado no crematório de Golders Green, no bairro de Golders


Green, em Londres, na Inglaterra.

Freud e Martha tiveram seis filhos: Mathilde, nascida em 1887, Jean-Martin,


nascido em 1889, Olivier, nascido em 1891, Ernst, nascido em 1892, Sophie,
nascida em 1893 e Anna, nascida em 1895. Um deles, Martin Freud, escreveu
uma memória intitulada Freud: Homem e Pai, na qual descreve o pai como um
homem que trabalhava extremamente, por longas horas, mas que adorava ficar
com suas crianças durante as férias de verão. Anna Freud, filha de Freud, foi
também uma psicanalista destacada, particularmente no campo do tratamento

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 23


de crianças e do desenvolvimento psicológico. Sigmund Freud foi avô do pintor
Lucian Freud e do ator e escritor Clement Freud, e bisavô da jornalista Emma
Freud, da desenhista de moda Bella Freud e do relações públicas Matthew
Freud.

Breuer e Charcot

Apesar de relutante, Breuer foi persuadido por Freud a escrever com ele um
livro: Estudos sobre a Histeria (1895)

Alguns termos e idéias-chave:

1. Os histéricos padecem de recordações dolorosas e desprazerosas de


natureza traumática (trauma, palavra grega que designa “ferida”)

2. As lembranças traumáticas são patogênicas, ou seja, produzem doença.


Esta foi uma noção antimecanicista revolucionária, a qual implicava em que
um agente psíquico (estritamente mental) influencia diretamente os
processos orgânicos do corpo.

3. As lembranças traumáticas não se desgastam normalmente, mas


permanecem como uma força ativa inconsciente motivadora do
comportamento. (O que não pode ser lembrado também não pode ser
esquecido).

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 24


4. A retirada da consciência de lembranças dolorosas carregadas de afeto
requer a ação de um mecanismo de repressão num nível inconsciente da
vida mental.

5. Enquanto negativas, as lembranças inconscientes não podem se


expressar normalmente, e sua carga emocional ou afeto é represado,
estrangulado.

6. O afeto estrangulado é “convertido” nos sintomas físicos da histeria por


estímulo inconsciente.

7. Os sintomas estimulados pelo inconsciente desaparecerão se ocorrer a


ab-reação. Ab-reação é o processo de liberação de um afeto reprimido
relativo a um acontecimento anteriormente esquecido. O problema da
terapia é levar o paciente a reviver a experiência original traumática que
causou o sintoma.

Uma das coisas mais importantes que Freud e Breuer descobriram foi que o
gatilho que acionava a histeria também podia ter origem psicológica.

Também se observou que os pacientes não se lembravam deste evento. Isto


fez com que Freud começasse a pensar na noção de processos inconscientes
de memória e na idéia de repressão. Constatou-se mais de uma vez que
depois de se trabalhar uma memória, ou dela se tornar consciente através da
hipnose, ela desaparecia. A única maneira de explicar isso era reconhecer o
fato de que as memórias são reprimidas e distorcidas. O grande avanço neste
ponto foi o desenvolvimento da noção de RECALQUE (ligada à sexualidade).

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 25


De onde vem a resistência

Essa era a pergunta mais difícil de se responder. Ao observar seus pacientes,


Freud chegou à conclusão de que ela derivava de desejos sexuais que estes
não queriam admitir. O fato de Breuer se recusar a aceitar esta hipótese,
apesar de todas as provas, parece corroborar o argumento de que a resistência
e o recalque são características gerais da mente humana. Em 1886, Freud
apresentou uma palestra sobre histeria masculina na sociedade de medicina de
Viena, onde expôs algumas de suas idéias. A reação do público não foi muito
entusiástica. Para Freud, foi completamente hostil. Ele começou a perceber
que estava trilhando um caminho solitário e que a recompensa pelas suas
idéias radicais poderia ser ridículo, ao invés da fama.

A sexualidade recalcada não podia ser um assunto popular numa época que
dava uma importância enorme à respeitabilidade.

Freud ganhou uma filha, mais paciente e um novo amigo, um certo Wilhelm
Fliess, (1858 – 1928) otorrinolaringologista de Berlin.

“Um amigo íntimo e um inimigo odiado sempre foram requisitos necessários de


minha vida afetiva”, revela Freud em A Interpretação dos Sonhos. Fliess
ocuparia o cargo de amigo íntimo; inimigos ele conseguia encontrar em todos
os cantos. Para um homem tão genial, Freud tinha um gosto duvidoso na hora
de escolher seus amigos. Mesmo que se queira ser bonzinho com Fliess, o
mínimo que se pode dizer é que ele era meio esquisito. Ele manteve uma
correspondência constante com Freud.

Freud relatava todas as suas reflexões e investigações a Fliess, que assumiu o


importante papel de confidente, ou de “termômetro” de suas teorias. É através

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 26


das cartas que escreveu para Fliess que podemos saber dos avanços que
Freud estava fazendo nesta época. Fliess lia e comentava todos os seus
trabalhos, funcionando como um bom crítico e editor.

Pode-se perceber a estranha influência de Fliess no drama da teoria da


sedução. Freud chegara à conclusão de que todas as neuroses eram
conseqüência de um abuso sexual sofrido na infância, cometido na maioria das
vezes pelo pai.

Essa idéia foi aplaudida por Fliess e o próprio Freud parecia acreditar que ela
oferecia uma explicação satisfatória para muitos fatores complexos. O
escândalo da Teoria da Sedução não foi esquecido até hoje e Freud se
arrependeu profundamente de ter aceito esta noção de forma tão precipitada.

Como seria de se esperar, Freud desistiu dessa teoria.

Aos 40 anos Freud tinha 6 filhos, a esposa, pais e irmãs para sustentar. Não
ganhava muito dinheiro com suas teorias.

Suas diversões eram poucas. Um jogo de cartas num sábado à noite,


caminhadas pelo campo, ou sair à cata de cogumelos e colecionar
antiguidades.

Em 1892: A Técnica da Pressão

Pela primeira vez Freud usa o divã. Pressiona a mão sobre a cabeça do
paciente e faz perguntas.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 27


Descobriu que podia fazer o paciente concentrar-se sem hipnotismo – e as
recordações começavam a emergir – e o significado da lembrança foi se
aprofundando.

Em 1896: Freud cria o termo Psicanálise

• Freud estava bombardeando sua paciente com perguntas

• Ela interfere e diz: você não me deixa falar – suas perguntas


perturbam o livre curso de meus pensamentos.

• A Técnica da Pressão tem que ser abandonada

• Entra a Técnica da associação livre – os pacientes devem se sentir


livres, sem nada que os censure ou pressione, para falarem sobre o que
quer que venha às suas mentes.

Um progresso importante

1. Charcot deu o primeiro passo em direção a um tratamento mais humano


para as neuroses.

2. Mas a hipnose e a técnica da pressão eram ainda arbitrárias e


autoritárias.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 28


3. A técnica da Associação Livre para recordar eventos traumáticos era
completamente nova e revolucionária.

A chave para a compreensão dos sintomas neuróticos era escondida no


inconsciente do paciente. O paciente nada sabe sobre o que está reprimido
em seu inconsciente. Mas mesmo assim, só ele pode levar o terapeuta a
desvendar o recalcado e poder ajudá-lo.

4. O Paciente, entretanto, resistirá e se tornará menos cooperante à


medida que o material desagradável venha a emergir.

5. Será necessário muita paciência para seguir as divagações cegas de um


neurótico, porque a resistência é apenas uma tentativa de adiar a
emergência do material reprimido. Independente da quantidade de desvios
que haja, todos estes caminhos levam ao reprimido.

As neuroses

• São fenômenos gerados pelo conflito, envolvendo a frustração de um


impulso instintivo.

• São o resultado de nossas experiências, vivências, traumas,


recalques, sobretudo relacionados com a fixação da libido, fixação
problemática.

• Doença na mente e não da mente.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 29


• Afecção em que os sintomas são a expressão simbólica de um conflito
psíquico que tem raízes na história infantil do indivíduo e constitui
compromissos entre o desejo e a defesa. (L.P)

• A neurose é para compensar, equilibrar (é um peso) – Barril de


Tallaferro

• É um conflito inconsciente obstruindo uma descarga instintual.

• Neurótico, gostaria de deixar de ser neurótico, mas não consegue – o


inconsciente alimenta os instintos, os impulsos.

23 de Outubro de 1896:

• Morre o pai de Freud

Isso fez com que Freud se voltasse para si mesmo e empurrou seu
pensamento em outra direção. Mais tarde, ele diria que sua reação diante da
morte do pai mostrava que esta era a perda mais significativa, mais decisiva,
na vida de um homem.

Muitos afirmam que esta ênfase no masculino e na figura do pai marca toda a
abordagem de Freud.

Freud se sentiu completamente desorientado, ou até mesmo culpado. Estava


passando por aquilo que mais tarde chamaria de “retorno do recalcado”. Os
sentimentos recalcados que tinha pelo pai, sentimentos como rivalidade, ciúme,

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 30


ambição e ressentimento, voltaram sob a forma de remorso, vergonha,
impotência e inibição.

A sua mente estava tomada por sentimentos de um período anterior e ele


lutava contra os fantasmas do passado. A sua auto-análise consistia em
encarar calmamente esses fantasmas e avaliar como o afetavam. A auto-
análise se voltou para as memórias da infância.

Durante este período de crise e de auto-análise, Freud começa a escrever “A


Interpretação dos Sonhos”.

“O sonho é a estrada real do psiquismo” (Freud)

Freud já estava trabalhando na análise dos sonhos e começou a perceber, com


uma freqüência cada vez maior, que o desejo inconsciente que se manifestava
no sonho vinha das memórias da infância. A partir desta análise, chegou à
conclusão que o inconsciente do adulto era formado pela criança que se
esconde dentro de cada um.

• O amor pela mãe

• A rivalidade com o pai

• O medo de castração

A solução destes sentimentos na entrada da vida adulta e seus efeitos


permanentes nos sonhos e no inconsciente: Freud descobriu todas estas
coisas durante a auto-análise intensiva que conduziu de 1896 a 1899. Neste

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 31


processo, ele empregou a técnica da Associação Livre, que se tornaria a marca
registrada da psicanálise. Freud abandonou a hipnose depois da auto-análise e
os sonhos passaram a ser seu principal material de trabalho.

Sabendo que seus pacientes sempre apresentavam uma forte resistência, não
ficou surpreso ao perceber que sofria o mesmo problema e às vezes seu
progresso era lento e difícil.

Foi na última fase desta marcante auto-análise que começou a escrever A


Interpretação dos Sonhos. É como se um novo Freud, uma nova teoria e uma
nova ciência, a psicanálise, tivessem nascido desta luta por auto-compreensão.

A paixão secreta da criança pela mãe, que não pode continuar inocente, acaba
se ligando ao desenvolvimento sexual. O medo inevitável do pai, encarado
como um rival, leva ao famoso complexo de Édipo.

Um oráculo anunciou a Laio, rei de Tebas e a rainha Jocasta, que seu próprio
filho o mataria e se casaria com a mãe. O rei, assustado, ordenou que
levassem o filho, Édipo, para longe da cidade. O menino foi criado por outro rei,
cresceu forte e sábio, até que um dia encontrou um homem em uma estrada,
teve com ele uma briga e o matou. Era seu pai. Édipo chega a Tebas, a cidade
se encontra ameaçada por um monstro, a esfinge, que devora todo aquele que
não consegue resolver seus enigmas. Qual é o animal que tem 4 (quatro) pés
ao amanhecer, 2 (dois) ao meio-dia e 3 (três) ao anoitecer? – Édipo responde –
O homem, em cuja infância engatinha, anda ereto, sobre dois pés, na
maturidade e ao envelhecer toma a ajuda de uma bengala. A esfinge é
derrotada e se joga no mar. Édipo torna-se rei de Tebas e se casa com a
rainha Jocasta, sem saber que se tratava de sua própria mãe. Tiveram filhos e
foram felizes, até que descobriram a verdade e a tragédia se consumou. Édipo
fura seus olhos e Jocasta se enforca.
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 32


A cegueira simboliza o horror diante da revelação de idéias e desejos
reprimidos.

Por que a história de Édipo é fascinante?

Porque em Édipo atua um desejo sentido por todos na infância. A fantasia do


incesto – apaixonar-se pela mãe e ter ciúmes do pai – é o que Freud chamou
mais tarde de Complexo de Édipo.

A Interpretação dos Sonhos

A interpretação dos sonhos de Freud contém duas descobertas:

1. A compreensão do significado dos sonhos – de forma geral, que “todos os


sonhos representam a realização de desejos”.

2. O mecanismo de funcionamento dos sonhos fornece evidências


sistemáticas sobre o funcionamento do inconsciente.

Primeiro vejamos qual é o trabalho do sonho:

• Os sonhos ocorrem durante o sono – quando a parte consciente da


personalidade está relaxada e adormecida.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 33


• Sonho é parte da vida normal.

• Os desejos realizados nos sonhos são em geral (mas não sempre)


sexuais.

• Embora os sonhos se refiram a desejos, isto não significa que


possamos sonhar com o que queremos!

• O desejo do sonho está tão bem escondido, disfarçado e distorcido


que podemos nem nos dar conta de que um desejo sexual apareceu em
nosso sonho.

Portanto:

1. Os sonhos são apenas uma expressão parcial ou censurada de um


desejo.

2. O conteúdo latente do sonho (onde está contido o desejo sexual


inconsciente), só pode aparecer se for disfarçado na forma de conteúdo
manifesto.

O conteúdo manifesto aparece sob a forma de uma mensagem codificada,


como um quebra-cabeça remexido ou censurado.

O sonho manifesto é forçado a expressar a idéia latente através do uso de


símbolos – todo tipo de objetos que normalmente não tem nenhum significado
sexual.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 34


Estas imagens disfarçadas das idéias latentes se tornaram popularmente
conhecidas como “símbolos freudianos” ou “símbolos sexuais”.

Freud afirmou que o ato de sonhar funciona como um modelo protótipo da


neurose.

Mas se o sonho é um mecanismo normal, por que ele fornece a chave para a
compreensão do comportamento neurótico?

Vamos primeiro recordar quais foram os passos que levaram Freud à evidência
de que existem idéias inconscientes.

Vimos que o conteúdo manifesto de um sonho expressa indiretamente um


desejo sexual latente pelo uso de símbolos.

Freud chama de deslocamento essa representação do desejo através do


conteúdo manifesto do sonho.

O deslocamento também ocorre na neurose.

A carga afetiva da idéia patogênica (produtora da doença) é deslocada para os


sintomas. E isso ocorre de modo inconsciente.

Isso nos leva à descoberta de Freud, que revolucionou as concepções que


existiam até então sobre a mente humana. A descoberta do inconsciente.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 35


Freud não estava interessado apenas na mente “enferma”, como
frequentemente se supõe.

O que ele nos forneceu foi uma teoria geral sobre como funciona a mente.

As neuroses não são apenas anormalidades doentias – mas antes uma outra
forma de funcionamento mental.

Entretanto, possibilitam atingir as profundezas da mente, que, “normalmente”,


não estão abertas à visitação.

A descoberta do inconsciente e de sua importância na vida psíquica constitui o


fundamento da psicanálise.

Através da auto-análise e da interpretação dos sonhos (e, mais tarde, de outros


sintomas cotidianos), Freud chegou às teorias sobre a sexualidade infantil, os
estágios de desenvolvimentos e o poder do inconsciente.

As dificuldades que enfrentou para elaborar estas teorias talvez expliquem, em


parte, porque Freud insistia que elas eram inquestionáveis.

Pacientes de Freud

Esta é uma lista parcial de pacientes cujos estudos de caso foram publicados
por Freud.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 36


Anna O. = Bertha Pappenheim (1859-1936), paciente de Breuer, tratada pelo
método catártico (livre associação de ideias).

Cäcilie M. = Anna von Lieben

Dora = Ida Bauer (1882-1945)

Frau Emmy von N. = Fanny Moser

Fräulein Elizabeth von R.

Fräulein Katharina = Aurelia Kronich

Fräulein Lucy R.

O pequeno Hans = Herbert Graf (1903-1973)

O homem dos ratos = Ernst Lanzer (1878-1914)

O homem dos lobos = Sergei Pankejeff (1887-1979)

Teoria[editar | editar código-fonte]

Pensamento e Linguagem[editar | editar código-fonte]

Em suas teorias, Freud afirma que os pensamentos humanos são


desenvolvidos por processos diferenciados, relacionando tal ideia à de que o
nosso cérebro trabalha essencialmente no campo da semântica, isto é, a
mente desenvolve os pensamentos num sistema intrincado de linguagem
baseada em imagens, as quais são meras representações de significados
latentes. Em diversas obras, como "A Interpretação dos Sonhos", "A
Psicopatologia da Vida Cotidiana" e "Os Chistes e suas Relações com o
Inconsciente", Freud não só desenvolve sua teoria sobre o inconsciente da
mente humana, como articula o conteúdo do inconsciente ao ato da fala,
especialmente aos atos falhos.[3] Para Freud, a consciência humana
subdivide-se em três níveis: Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente – o
primeiro contém o material perceptível; o segundo, o material latente, mas
passível de emergir à consciência com certa facilidade; e o terceiro contém o
material de difícil acesso, isto é, o conteúdo mais profundo da mente, que está
ligado aos instintos primitivos do homem.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 37


Teoria da Representação

Rede de neurônios associados

O fenômeno representacional psíquico está relacionado ao sistema nervoso


humano. As representações, segundo Freud, são analógicas e imagéticas.
Estas se inter-relacionam através de redes associativas. As redes associativas
das representações são provenientes do processo fisiológico cerebral, que se
baseia em uma rede de neurônios. Esse processo ocorre através de um
mecanismo reflexo: a informação parte por uma rede associativa de neurônios
até chegar à região motora e sensorial. Ela provoca então, modificações nas
células centrais, causando a formação das representações.

Enquanto elementos, as representações são originadas da percepção sensorial


do indivíduo. São unidades mentais tanto de objetos, como de situações,
sensações, relações.

A representação de objeto, também chamada de representação da "coisa", é


"um complexo de associações, formado por uma grande variedade de
apresentações visuais, acústicas, táteis, cinestésicas e outras", de acordo com
Freud.

As emoções, por exemplo, são processos de descarga de energia, que são


percebidos como os sentimentos. São as chamadas representações
imagéticas, que não formam imagens psíquicas, e sim traços mnésicos de
sensações.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 38


É preciso destacar que as relações entre as representações não são a
demonstração e a manifestação dos sentimentos, dos afetos, das emoções. A
relação entre os tipos de representação formam as ideias, ou seja, as relações
associativas contidas nas representações de objeto (captadas pelos processos
perceptivos) formam os complexos de sensações associados, dando origem a
uma representação completa. Portanto, um único objeto representado na
mente é constituído por seus vários aspectos sensoriais da realidade externa:
cor, gosto, textura, cheiro e coisas do gênero. [8]

Teoria do processo de pensamento

Segundo Freud, o processo de pensamento é a ativação ou inibição dos


complexos de sensações associadas que tornam, possível, o fenômeno
representacional psíquico, o que se dá através da energia que flui no sistema
nervoso pelos sistemas de neurônios. Podemos distinguir, neste
processamento, um nível primário e um secundário.

Processo Primário

Associado ao inconsciente, o processamento primário do pensamento é aquele


que dirige ações imediatas ou reflexas, sendo associado, assim, ao prazer, ao
emocional do indivíduo e ao fenômeno de arco reflexo. Nele, a energia
presente no aparelho mental flui livremente pelas representações, do polo do
estímulo ao da resposta.

Processo Secundário

O processo de pensamento secundário, por outro lado, está associado ao pré-


consciente, também chamado de "ação interiorizada" ou, ainda, de "processo
racional do pensamento". Nele, o escoamento de energia mental fica retido, só
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 39


acontecendo após uma série de associações, as quais se refletem no aparelho
psíquico. As ações decorrentes dessa forma de processamento devem ser
tomadas com base no mundo externo, no contexto em que a pessoa se
encontra e em seus objetivos. Assim, ao contrário da energia do processo
primário, que é livre, a energia do secundário é condicional, ou seja, está
sujeita a quaisquer ações.

Inovações de Freud

Freud foi inovador. Simultaneamente, desenvolveu uma teoria da mente e da


conduta humana, e uma técnica terapêutica para ajudar pessoas afetadas
psiquicamente. Alguns de seus seguidores afirmam estar influenciados por um,
mas não pelo outro campo.

Provavelmente a contribuição mais significativa que Freud fez ao pensamento


moderno é a de tentar dar, ao conceito de inconsciente, um status científico
(não compartilhado por várias áreas da ciência e da psicologia). Seus conceitos
de inconsciente, desejos inconscientes e repressão foram revolucionários;
propõem uma mente dividida em camadas ou níveis, dominada em certa
medida por vontades primitivas que estão escondidas sob a consciência e que
se manifestam nos lapsos e nos sonhos.

Em sua obra mais conhecida, A Interpretação dos Sonhos, Freud explica o


argumento para postular o novo modelo do inconsciente e desenvolve um
método para conseguir o acesso ao mesmo, tomando elementos de suas
experiências prévias com as técnicas de hipnose.

Como parte de sua teoria, Freud postula também a existência de um pré-


consciente, que descreve como a camada entre o consciente e o inconsciente

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 40


(o termo subconsciente é utilizado popularmente, mas não é parte da
terminologia psicanalítica). A repressão em si tem grande importância no
conhecimento do inconsciente. De acordo com Freud, as pessoas
experimentam repetidamente pensamentos e sentimentos que são tão
dolorosos que não podem suportá-los. Tais pensamentos e sentimentos (assim
como as recordações associadas a eles) não podem ser expulsos da mente,
mas, em troca, são expulsos do consciente, para formar parte do inconsciente.

Embora, ao longo de sua carreira, Freud tenha tentado encontrar padrões de


repressão entre seus pacientes que derivassem em um modelo geral para a
mente, ele observou que pacientes diferentes reprimiam fatos diferentes.
Observou, ainda, que o processo da repressão é, em si mesmo, um ato não
consciente (isto é, não ocorreria através da intenção dos pensamentos ou
sentimentos conscientes). Em outras palavras, o inconsciente era tanto causa
como efeito da repressão.

Estudos sobre a Cocaína

Como um pesquisador da área médica e da psicanálise, Freud foi um dos


primeiros a usar e a propor o uso da cocaína como um estimulante, bem como
analgésico. Ele escreveu vários artigos sobre as qualidades antidepressivas do
medicamento e ele foi influenciado por seu amigo e confidente Wilhelm Fliess,
que recomendou a cocaína para o tratamento da "neurose nasal reflexa". Fliess
operou Freud e o nariz de vários pacientes de Freud que ele acreditava
estarem sofrendo do transtorno, incluindo Emma Eckstein, cuja cirurgia foi
desastrosa.

Freud achava que a cocaína iria funcionar como uma panaceia para muitos
transtornos e escreveu um artigo científico bem recebido, "Sobre Coca" (Über
Coca, em alemão), explicando as suas virtudes. Prescreveu-o para seu amigo

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 41


Ernst von Fleischl-Marxow para ajudá-lo a superar o vício da morfina, que tinha
adquirido ao tratar uma doença do sistema nervoso.

Libido

Freud também acreditava que a libido amadurecia nos indivíduos por meio da
troca de seu objeto (ou objetivo). Argumentava que os humanos nascem
"polimorficamente perversos", no sentido de que uma grande variedade de
objetos possam ser uma fonte de prazer, sem ter a pretensão de se chegar à
finalidade última, ou seja, o ato sexual. O desenvolvimento psicossexual
ocorreria em etapas, de acordo com a área na qual a libido está mais
concentrada: a etapa oral (exemplificada pelo prazer dos bebês ao chupar a
chupeta, que não tem nenhuma função vital, mas apenas a de proporcionar
prazer); a etapa anal (exemplificada pelo prazer das crianças ao controlar sua
defecação); e logo a etapa fálica (que é demonstrada pela manipulação dos
órgãos genitais).

Até então, percebe-se que a libido é voltada para o próprio ego, ou seja, a
criança sente prazer consigo mesma. O primeiro investimento objetal da libido,
segundo Freud, ocorreria no progenitor do sexo oposto, esta fase caracterizada
pelo investimento libidinal em um dos progenitores (se chama complexo de
Édipo). A criança percebe, então, que, entre ela e a mãe (no caso de um
menino), existe o pai, impedindo a comunhão por ele desejada. A criança
passa então a amar a mãe e a experienciar um sentimento antagônico de amor
e ódio com relação ao pai. Ela percebe, então, que tanto o amor vivido com a
mãe como o ódio vivido com o pai são proibidos e o complexo de Édipo é,
então, finalizado com o surgimento do superego, com a desistência da criança
com relação à mãe e com a identificação do menino com o pai.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 42


Freud e a neurologia[editar | editar código-fonte]

É menos conhecido o interesse de Freud pela neurologia. No início de sua


carreira, investigou a paralisia cerebral. Publicou numerosos artigos médicos
neste campo. Também mostrou que a doença existia muito antes de outros
pesquisadores de seu tempo terem notícia dela e de a estudarem. Também
sugeriu que era errado que esta doença, segundo descrito por William Little
(cirurgião ortopédico britânico), tivesse, como causa, uma falta de oxigênio
durante o nascimento. Ao invés disso, Freud afirmou que as complicações no
parto eram somente um sintoma do problema. Somente na década de 1980,
suas especulações foram confirmadas por pesquisadores modernos.

Transferência

Outro elemento importante da psicanálise é a pouca intervenção do


psicanalista, para que o paciente possa projetar seus pensamentos e
sentimentos no psicanalista. Através deste processo, chamado de
transferência, o paciente pode reconstruir e resolver conflitos reprimidos
(causadores de sua doença), especialmente conflitos da infância com seus
pais.

A psicanálise: ciência e ética

Podemos contar a história do mundo, do nosso mundo, em poucas palavras e


entender o sentido da psicanálise. A psicanálise só é possível em um mundo
onde a ciência está presente. Mas a psicanálise, atualmente, não se considera
ciência. Neste texto, você aprenderá mais sobre a psicanálise, como esta
disciplina está relacionada com a ciência e com a ética.

O que havia antes da ciência, antes do surgimento da modernidade? Havia um


discurso que centralizava o saber. A partir de Aristóteles, pensa-se o mundo
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 43


como sendo perfeito acima da lua (mundo supra-lunar) e imperfeito abaixo da
lua.

Acima da lua era possível criar uma ciência, um conhecimento perfeito e exato:
a astronomia.Abaixo da lua, como o mundo nosso é imperfeito, não era
possível criar uma ciência, uma física-matemática. E o campo da ética era
centralizado pelo discurso da Igreja. Tudo em seu lugar.Este foi o pensamento
até o Renascimento.

Com Galileu e Newton, a ideia de que não era possível criar uma ciência nesse
mundo foi questionada. Conseguimos chegar a resultados exatos com a nova
física (na época ainda uma filosofia natural). Com o pensamentos destes
autores, há uma revolução no pensamento humano e uma separação radical
entre dois campos de saber:

A episteme ou ciência (o conhecimento exato)

A ética (ou moral)

Passamos a viver em um mundo infinito, em que a terra não é o centro. O


homem está perdido nesse infinito – quem garante que a ética, a moral está
realmente certa? É desta forma que podemos ler a importante obra de
Descartes, Discurso sobre o Método, em que ele duvida de tudo, até de que
existe e tem um corpo.A dúvida passa a ser fundamental ao homem moderno.
Com a dúvida, a filosofia, desde o Renascimento, tem que ser pensada sempre
sob a sombra do niilismo, sob a sombra do nada e também do infinito.

O homem perdido busca uma resposta, um sentido, uma orientação. Perdido


em si mesmo, ainda acossado por um moralismo excessivo o mundo vê surgir
a figura de Sigmund Freud. Polêmico, ele questiona a moralidade reinante. E
faz uma nova revolução: o centro da psique não é o eu, mas o inconsciente. O
eu é apenas a ponta do Iceberg.

Voltando um pouco na história do mundo, devemos ressaltar a diferença entre


ética e episteme. E aí saberemos que a psicanálise não é uma ciência, mas

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 44


uma ética.Os cientista descobrem que Coca-cola causa celulite. (É uma
verdade científica, um conhecimento positivo).

Uma mulher tem então que responder: – Devo ou não tomar Coca-cola?

Responder à esta pergunta é uma questão ética. Não uma questão científica.

Entretanto, esta diferença clara entre ética e episteme é recente na própria


história da psicanálise. Tanto Freud como Lacan tentaram fazer da psicanálise
uma ciência. Para Freud, a psicanálise era uma ciência natural,
empírica. Lacan também, por certo tempo, tentou mas depois percebeu que
não era possível fazer uma ciência de um sujeito.

E nem por isso a psicanálise é menos.

Nascida das horas e horas no divã, a talking cure (a conversa que cura) ficou
mundialmente conhecida e, apesar das atuais controvérsias com a psiquiatria e
a neurociência, continua prosperando e ajudando os sujeitos a lidarem com
seus sintomas.

Desta forma, entendemos atualmente que a psicanálise situa-se no campo da


ética e não no campo da ciência.

Como é feita a pesquisa psicanalítica?

A expressão "pesquisa psicanalítica" é a tradução de "psychoanalytische


Forschung".

A expressão "pesquisa psicanalítica" que, para Freud, é "psychoanalytische


Forschung" aparece em Lacan com o nome de "recherche psychanalytique".

Nessa perspectiva, mantendo fidelidade pesquisadora a Freud e Lacan


devemos eticamente empregar a expressão "pesquisa psicanalítica", pois, a
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 45


expressão pesquisa em psicanálise não diferencia o que é pesquisa
psicanalítica de outra pesquisa qualquer. De fato, muitos pesquisadores que se
acham pesquisadores psicanalíticos somente pelo fato de fazerem pesquisas
psicológicas, sociológicas, antropológicas, filosóficas, teológicas, psiquiátricas,
etc, no campo da psicanálise, não chegam, por essa escolha, a produzirem
pesquisas psicanalíticas.

A pesquisa psicanalítica define-se não somente pelo objeto da pesquisa, mas


também pelo método como esse objeto é pesquisado. Assim sendo, o método
não pode ser outro a não ser o método psicanalítico que, iniciado como método
clínico e incipiente método científico por Freud, foi elevado a método científico
por Lacan.

Herrmann (2004) caracteriza a pesquisa psicanalítica como o procedimento de


investigação criado pela psicanálise, justificado pois "cada grande teoria
constituída cria seu procedimento de investigação – em certos casos, como o
nosso, que também se presta a intervenções – no qual, por assim dizer, esta
se encarna em forma concentrada".

Iribarry (2003) destaca: "A pesquisa psicanalítica marca sua diferença em


relação às demais abordagens pelo menos em dois pontos fundamentais:
primeiro, porque ela não inclui em seus objetivos a necessidade de uma
inferência generalizadora, seja para a amostra ou para a população, pois seus
resultados modificam a maneira como os pesquisadores da comunidade
psicanalítica irão demarcar sua posição em relação aos novos sentidos
produzidos pelo texto que torna a pesquisa pública; segundo, porque suas
estratégias de análise de resultados não trabalham com o signo, mas sim com
o significante".

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 46


Aspectos centrais da teoria psicanalítica

A teoria psicanalítica foi desenvolvida pelo neurologista austríaco Sigmund


Freud (1856-1939) e está intimamente relacionada a sua prática
psicoterapêutica. É uma teoria que procura descrever a etiologia dos
transtornos mentais, o desenvolvimento do homem e de sua personalidade,
além de explicar a motivação humana. Com base nesse corpo teórico Freud
desenvolveu um tipo de psicoterapia. Ao conjunto formado pela teoria, a prática
psicoterapêutica nela baseada e os métodos utilizados dá-se o nome de
psicanálise.

Estrutura e dinâmica da personalidade


Freud imaginava a psique (ou aparelho psíquico) do ser humano como um
sistema de energia: Cada pessoa é movida, segundo ele, por uma quantidade
limitada de energia psíquica. Isso significa, por um lado, que se grande parte
da energia for necessária para a realização de determinado objetivo (ex.
expressão artística) ela não estará disponível para outros objetivos (ex.
sexualidade); por outro lado, se a pessoa não puder dar vazão à sua energia
por um canal (ex. sexualidade), terá de fazê-lo por outro (ex. expressão
artística). Essa energia provém das pulsões (às vezes chamadas
incorretamente de instintos). Segundo o autor, o ser humano possui duas
pulsões inatas, a sexual e a de morte. Essas duas pulsões opõem-se ao ideal
da sociedade e, por isso, precisam ser controladas através da educação, de
forma que a energia gerada pelas pulsões não podem ser liberadas de maneira
direta. O ser humano é, assim, sexual e agressivo por natureza e a função da
sociedade é amansar essas tendências naturais do homem. A situação de não
poder dar vazão a essa energia gera no indivíduo um estado de tensão interna
que necessita ser resolvido. Toda ação do homem é motivada, assim, pela
busca hedonista de dar vazão à energia psíquica acumulada.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 47


Os níveis da consciência ou modelo topológico da mente
O ser humano, no entanto, não se dá conta de todo esse processo de geração
e liberação de energia. Para explicar esse fato, Freud descreve três níveis de
consciência:

O consciente (al. das Bewusste), que abarca todos os fenômenos que em


determinado momento podem ser percebidos de maneira conscientes pelo
indivíduo;

O pré-consciente (al. das Vorbewusste), refere-se aos fenômenos que não


estão conscientes em determinado momento, mas podem tornar-se, se o
indivíduo desejar se ocupar com eles;

O inconsciente (al. das Unbewusste), que diz respeito aos fenômenos e


conteúdos que não são conscientes e somente sob circunstâncias muito
especiais podem tornar-se. (O termo subconsciente é muitas vezes usado
como sinônimo, apesar de ter sido abandonado pelo próprio Freud.)

Freud não foi o primeiro a propor que parte da vida psíquica se desenvolve
inconscientemente. Ele foi, no entanto, o primeiro a pesquisar profundamente
esse território. Segundo ele, os desejos e pensamentos humanos produzem
muitas vezes conteúdos que causariam medo ao indivíduo, se não fossem
armazenados no inconsciente. Este tem assim uma função importantíssima de
estabilização da vida consciente. Sua investigação levou-o a propor que o
inconsciente é alógico (e por isso aberto a contradições); atemporal e aespacial
(ou seja, conteúdos pertencentes a épocas ou espaços diferentes podem estar
próximas). Os sonhos são vistos como expressão simbólica dos conteúdos
inconscientes.

Através da compreensão do conceito de inconsciente torna-se clara a


compreensão da motivação na psicanálise clássica: muitos desejos,
sentimentos e motivos são inconscientes, por serem muito dolorosos para se
tornarem conscientes. No entanto esse conteúdo inconsciente influencia a
experiência consciente da pessoa, por exemplo, através de atos falhos,
comportamentos aparentemente irracionais, emoções inexplicáveis, medo,

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 48


depressão, sentimento de culpa. Assim, os sentimentos, sonhos, desejos e
motivos inconscientes influenciam e guiam o comportamento consciente.

Modelo estrutural da personalidade

Freud desenvolveu mais tarde (1923) um modelo estrutural da personalidade,


em que o aparelho psíquico se organiza em três estruturas:

Id (em alemão: es, "ele, isso"): O id é a fonte da energia psíquica, a libido. O id


é formado pelas pulsões, instintos, impulsos orgânicos e desejos inconscientes.
Ele funciona segundo o princípio do prazer (Lustprinzip), ou seja, busca sempre
o que produz prazer e evita o desprazer. Não faz planos, não espera, busca
uma solução imediata para as tensões, não aceita frustrações e não conhece
inibição. Ele não tem contato com a realidade e uma satisfação na fantasia
pode ter o mesmo efeito de uma atingida través de uma ação. O id desconhece
juízo, lógica, valores, ética ou moral, sendo exigente, impulsivo, cego,
irracional, antissocial e dirigido ao prazer. O id é completamente inconsciente.

Ego (ich, "eu"): O ego desenvolve-se a partir do id com o objetivo de permitir


que seus impulsos sejam eficientes, ou seja, levando em conta o mundo
externo. É o chamado princípio da realidade. É esse princípio que introduz a
razão, o planejamento e a espera ao comportamento humano. A satisfação das
pulsões é retardada até o momento em que a realidade permita satisfazê-las
com um máximo de prazer e um mínimo de consequências negativas. A
principal função do ego é buscar uma harmonização inicialmente entre os
desejos do id e a supervisão/realidade/repressão do superego.

Superego (Über-Ich, "super-eu", "além-do-eu"): É a parte moral da mente


humana e representa os valores da sociedade. O superego tem três objetivos:
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 49


(1) reprimir, através de punição ou sentimento de culpa, qualquer impulso
contrário às regras e ideais por ele ditados; (2) forçar o ego a se comportar de
maneira moral, mesmo que irracional; e, (3) conduzir o indivíduo à perfeição,
em gestos, pensamentos e palavras. O superego forma-se após o ego, durante
o esforço da criança de introjetar os valores recebidos dos pais e da sociedade
a fim de receber amor e afeição. Ele pode funcionar de uma maneira bastante
primitiva, punindo o indivíduo não apenas por ações praticadas, mas também
por pensamentos inaceitáveis; outra característica sua é o pensamento dualista
(tudo ou nada, certo ou errado, sem meio-termo). O superego divide-se em
dois subsistemas: o ego ideal, que dita o bem a ser procurado, e a consciência
(Gewissen), que determina o mal a ser evitado.

Os mecanismos de defesa

O ego está constantemente sob tensão, nas suas tentativas de harmonizar os


impulsos do id no mundo exterior e adequando-os à repressão do superego.
Quando essa tensão (normalmente sob a forma de medo) se torna grande
demais, ameaça a estabilidade do ego, que pode fazer uso dos mecanismos de
defesa ou ajustamentos. Estas são estratégias do ego para diminuir o medo
através de uma deformação da realidade - dessa forma o ego exclui da
consciência conteúdos indesejados. Os mecanismos de defesa satisfazem os
desejos do id apenas parcialmente, mas, para este, uma satisfação parcial é
melhor do que nenhuma.

Entre os mecanismos de defesa é preciso considerar, por um lado, os


mecanismos bastante elaborados para defender o eu (ego), e por outro lado,
os que estão simplesmente encarregados de defender a existência do
narcisismo. Freud (1937)[3] diz que mecanismos defensivos falsificam a
percepção interna do sujeito fornecendo somente uma representação
imperfeita e deformada.[4]

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 50


Freud descreveu muitos mecanismos de defesa no decorrer da sua obra e seu
trabalho foi continuado por sua filha Anna Freud; os principais mecanismos
são[5]:

Repressão é o processo pelo qual se afastam da consciência conflitos e


frustrações demasiadamente dolorosos para serem experimentados ou
lembrados, reprimindo-os e recalcando-os para o inconsciente; o que é
desagradável é, assim, esquecido;

Formação reativa consiste em ostentar um procedimento e externar


sentimentos opostos aos impulsos verdadeiros, indesejados.

Projeção consiste em atribuir a outros as ideias e tendências que o sujeito não


pode admitir como suas.

Regressão consiste em a pessoa retornar a comportamentos imaturos,


característicos de fase de desenvolvimento que a pessoa já passou.

Fixação é um congelamento no desenvolvimento, que é impedido de continuar.


Uma parte da líbido permanece ligada a um determinado estágio do
desenvolvimento e não permite que a criança passe completamente para o
próximo estágio. A fixação está relacionada com a regressão, uma vez que a
probabilidade de uma regressão a um determinado estágio do desenvolvimento
aumenta se a pessoa desenvolveu uma fixação por este.

Sublimação é a satisfação de um impulso inaceitável através de um


comportamento socialmente aceito.

Identificação é o processo pelo qual um indivíduo assume uma característica


de outro. Uma forma especial de identificação é a identificação com o agressor.

Deslocamento é o processo pelo qual agressões ou outros impulsos


indesejáveis, não podendo ser direcionados à(s) pessoa(s) a que se referem,
são direcionadas a terceiros.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 51


As fases do desenvolvimento psicossexual

Uma importante parte da teoria freudiana é dedicada ao desenvolvimento da


personalidade. Duas hipóteses caracterizam sua teoria[5]:

Freud foi o primeiro a afirmar que os primeiros anos das vida são os mais
importantes para o desenvolvimento da pessoa e o desenvolvimento do
indivíduo se dá em fases ou estádios psico-sexuais. Freud foi, assim, o
primeiro autor a afirmar que as crianças também têm uma sexualidade.

Freud descreve quatro fases distintas, pelas quais a criança passa em seu
desenvolvimento. Cada uma dessas fases é definida pela região do corpo a
que as pulsões se direcionam. Em cada fase surgem novas necessidades que
exigem satisfação; a maneira como essas necessidades são satisfeitas
determina como a criança se relaciona com outras pessoas e quais
sentimentos ela tem para consigo mesma. A transição de uma fase para outra
é biologicamente determinada, de tal forma que uma nova fase pode iniciar
sem que os processos da fase anterior tenha se completado. As fases se
seguem umas às outras em uma ordem fixa e, apesar de uma fase se
desenvolver a partir da anterior, os processos desencadeados em uma fase
nunca estão plenamente completos e continuam agindo durante toda a vida da
pessoa[5].

A fase oral

A primeira fase do desenvolvimento é a fase oral, que se estende desde o


nascimento até aproximadamente dois anos de vida. Nessa fase a criança
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 52


vivencia prazer e dor através da satisfação (ou frustração) de pulsões orais, ou
seja, pela boca. Essa satisfação se dá independente da satisfação da fome,
mas inicialmente por ela. Assim, para a criança sugar, mastigar, comer,
morder, cuspir etc. têm uma função ligada ao prazer, além de servirem à
alimentação. Ao ser confrontada com frustrações a criança é obrigada a
desenvolver mecanismos para lidar com tais frustrações. Esses mecanismos
são a base da futura personalidade da pessoa. Assim, uma satisfação
insuficiente das pulsões orais pode conduzir a uma tendência para ansiedade e
pessimismo; já uma excessiva satisfação pode levar, através de uma fixação
nessa fase, a dificuldades de aceitar novos objetos como fonte de prazer/dor
em fases posteriores, aumentando assim a probabilidade de uma regressão.

A fase oral se divide em duas fases menores, definidas pelo nascimento dos
dentes. Até então a criança se encontra em uma fase passiva-receptiva; com
os primeiros dentes a criança passa a uma fase sádica-ativa através da
possibilidade de morder. O principal objeto de ambas as fases, o seio materno,
se torna, assim, um objeto ambivalente. Essa ambivalência caracteriza a maior
parte dos relacionamentos humanos, tanto com pessoas como com objetos.

A fase oral apresenta, assim, cinco modos de funcionamento que podem se


desenvolver em características da personalidade adulta:

● O incorporar do alimento se mostra no adulto como um "incorporar" de


saber ou poder, ou ainda como a capacidade de se identificar com
outras pessoas ou de se integrar em grupos;
● O segurar o seio, não querendo se separar dele, se mostram
posteriormente como persistência e perseverança ou ainda como
decisão;
● Morder é o protótipo da destrutividade, assim do sarcasmo, cinismo e
tirania;
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 53


● Cuspir se transforma em rejeição e
● O fechar a boca, impedindo a alimentação, conduz a rejeição,
negatividade ou introversão.
● O principal processo na fase oral é a criação da ligação entre mãe e
filho.

A fase anal

A segunda fase, segundo Freud, é a fase anal, que vai aproximadamente do


primeiro ao terceiro ano de vida. Nessa fase a satisfação das pulsões se dirige
ao ânus, ao controle da tensão intestinal. Nessa fase a criança tem de
aprender o controle dos esfincteres sobre o ato de defecar e, dessa forma,
deve aprender a lidar com a frustração do desejo de satisfazer suas
necessidades imediatamente. Como na fase oral, também os mecanismos
desenvolvidos nesta fase influenciam o desenvolvimento da personalidade. O
defecar imediato e descontrolado é o protótipo dos ataques de raiva; já uma
educação muito rígida com relação à higiene pode conduzir tanto a uma
tendência ao caos, aos descuido, à bagunça quanto a uma tendência a uma
organização compulsiva e exageradamente controlada. Se a mãe faz elogios
demais ao fato de a criança conseguir esperar até o banheiro, pode surgir uma
ligação entre dar (as fezes) e receber amor, e a pessoa pode desenvolver
generosidade; se a mãe supervaloriza essas necessidades biológicas, a
criança pode se desenvolver criativa e produtiva ou, pelo contrário, se tornar
depressiva, caso ela não corresponda às expectativas; crianças que se
recusam a defecar podem se desenvolver como colecionadores, coletores ou
avaros.

A fase fálica

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 54


A fase fálica, que vai dos três aos cinco anos de vida, se caracteriza segundo
Freud pela importância da presença (ou, nas meninas, da ausência) do falo ou
pênis; nessa fase prazer e desprazer estão, assim, centrados na região genital.
As dificuldades dessa fase estão ligadas ao direcionamento da pulsão sexual
ou libidinosa ao genitor do sexo oposto e aos problemas resultantes. A
resolução desse conflito está relacionada ao complexo de Édipo e à
identificação com o genitor de mesmo sexo[5].

Freud desenvolveu sua teoria tendo sobretudo os meninos em vista, uma vez
que, para ele, estes vivenciariam o conflito da fase fálica de maneira mais
intensa e ameaçadora. Segundo Freud o menino deseja nessa fase ter a mãe
só para si e não partilhá-la mais com o pai; ao mesmo tempo ele teme que o
pai se vingue, castrando-o. A solução para esse conflito consiste na repressão
tanto do desejo libidinoso com relação à mãe como dos sentimentos agressivos
para com o pai; em um segundo momento realiza-se a identificação do menino
com seu pai, o que os aproxima e conduz, assim, a uma internalização por
parte do menino dos valores, convicções, interesses e posturas do pai. O
complexo de Édipo representa um importante passo na formação do superego
e na socialização dos meninos, uma vez que o menino aprende a seguir os
valores dos pais. Essa solução de compromisso permite que tanto o ego
(através da diminuição do medo) e o id (por o menino poder possuir a mãe
indiretamente através do pai, com o qual ele se identifica) sejam parcialmente
satisfeitos[5].

O conflito vivenciado pelas meninas é parecido, contudo com mais


possibilidades de solução. A menina deseja o próprio pai, em parte devido à
inveja que sente por não ter um pênis (al. Penisneid); ela sente-se castrada e
culpa à própria mãe por tê-la privado de um falo. Por outro lado, a mãe
representa uma ameaça menos séria, uma vez que uma castração não é
possível. Devido a essa situação diferente, a identificação da menina com a
própria mãe é menos forte do que a do menino com seu pai e, por isso, as
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 55


meninas teriam uma consciência menos desenvolvida - afirmação esta que foi
rejeitada pela pesquisa empírica[5]. Freud usou o termo "complexo de Édipo"
para ambos os sexos; autores posteriores limitaram o uso da expressão aos
meninos, reservando para as meninas o termo "complexo de Electra", mas que
foi rejeitado por Freud no texto "Sobre a Sexualidade Feminina" de 1931.

A apresentação do complexo de Édipo dada acima é, no entanto, simplificada.


Na realidade o resultado da resolução do complexo de Édipo é sempre uma
identificação como ambos os pais e a força de cada uma dessas identificações
depende de diferentes fatores, como a relação entre os elementos masculinos
e femininos na predisposição fisiológica da criança ou a intensidade do medo
de castração ou da inveja do pênis. Além disso, a mãe mantém em ambos os
sexos um papel primordial, permanecendo sempre o principal objeto da
libido[5].

O período de latência

Depois da agitação dos primeiros anos de vida segue-se uma fase mais
tranquila que se estende até a puberdade. Nessa fase a libido é desinvestida
das fantasias e da sexualidade, tornando-as secundárias, mas reinvestida em
outros meios como o desenvolvimento cognitivo, aprendizado, a assimilação de
valores e normas sociais que se tornam as atividades principais da criança,
continuando o desenvolvimento do ego e do superego[5].

A fase genital

A última fase do desenvolvimento psicossocial é a fase genital, que se dá


durante a adolescência. Nessa fase as pulsões sexuais, depois da longa fase
de latência e acompanhando as mudanças corporais, despertam-se

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 56


novamente, mas desta vez se dirigem a uma pessoa do sexo oposto. Como se
depreende da explanação anterior, a escolha do parceiro não se dá
independente dos processos de desenvolvimento anteriores, mas é
influenciada pela vivência nas fases anteriores. Além disso, apesar de
continuarem agindo durante toda a vida do indivíduo, os conflitos internos
típicos das fases anteriores atingem na fase genital uma relativa estabilidade
conduzindo a pessoa a uma estrutura do ego que lhe permite enfrentar os
desafios da idade adulta[5].

A teoria psicanalítica dos transtornos mentais

A melhor maneira de definir “distúrbio” é caracterizá-lo como deficiência


psicológica com repercussão na área emocional e interpessoal. Este termo
caracteriza uma faixa que vai desde formas neuróticas leves até a loucura, na
plenitude do seu termo. "Normal" seria aquela personalidade com capacidade
de viver eficientemente, manter um relacionamento duradouro e
emocionalmente satisfatório com outras pessoas, trabalhar produtivamente,
repousar e divertir-se, ser capaz de mensurar, julgar e lidar com base realista
suas qualidades e imperfeições, aceitando-as como são. A falha de uma, outra
ou o conjunto dessas características pode indicar a presença de uma
deficiência psicológica ou “distúrbio” mental.

Classificam-se os distúrbios mentais em 3 grandes tipos básicos:

Primeiro tipo: neuroses

É a existência de tensão excessiva e prolongada, de conflito persistente ou de


uma necessidade prolongadamente frustrada, é sinal de que na pessoa se

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 57


configurou uma neurose. A neurose determina uma modificação, mas não uma
desestruturação da personalidade e muito menos de perda de valores da
realidade. Costuma-se catalogar os sintomas neuróticos em certas categorias,
como:

a) de Ansiedade (de angústia) - a pessoa é tomada por sentimentos


generalizados e persistente de intensa angústia sem causa objetiva. Alguns
sintomas são: palpitações do coração, tremores, falta de ar, suor, náuseas. Há
uma exagerada e ansiosa preocupação por si mesmo.

b) Fobias - uma área da personalidade passa a operar por respostas de medo


e ansiedade. Na angústia o medo é difuso e quando vem à tona é sinal de que
já existia, há longo tempo. Se apresenta envolta em muita tensão,
preocupação, excitação e desorganização do comportamento. Na reação
fóbica, o medo se restringe a uma classe limitada de estímulos e
representações objetais. Geralmente verifica-se a associação do medo a certos
objetos, animais ou situações.

c) Obsessiva-compulsiva: a obsessão é um termo que se refere a ideias que se


impõem repetidamente à consciência. São por isto dificilmente controláveis. A
compulsão refere-se a impulsos que levam à ação. Está intimamente ligada a
uma desordem psicológica chamada transtorno obsessivo-compulsivo.

Segundo tipo: psicoses

O psicótico pode encontrar-se ora em estado de depressão, ora em estado de


extrema euforia e agitação. Em dado momento age de um modo e em outro se
comporta de maneira totalmente diferente. Houve uma desestruturação da sua
personalidade. O dado clínico para se aferir à psicose é a alteração dos juízos
da realidade. O psicótico passa a perceber a realidade de maneira diferente,
mas não menos real em sua percepção. Por isso afirma com convicção que
tem percepções que nos parecem irreais não apoiadas nem justificadas na
lógica e na razão. Nas psicoses, além da alteração do comportamento, são
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 58


comuns alucinações (alterações dos órgãos dos sentidos: ouvir vozes, ver
coisas, sentir cheiros ou toques) e delírios (alterações do pensamento sob
forma de conspirações, perseguição, grandeza, riqueza, onipotência ou de
predestinação). As Psicoses se manifestam como:

a) Esquizofrenia - apatia emocional, carência de ambições, desorganização


geral da personalidade, perda de interesse pela vida nas realizações pessoais
e sociais. pensamento desorganizado, afeto superficial e inapropriado,riso
insólito, bobice, infantilidade, hipocondria, delírios e alucinações transitórias.
(Consultar DSM-V ou CID 10 para mais subtipos)

b) Maníaca-depressiva – caracteriza-se por perturbações psíquicas duradouras


e intensas, decorrentes de uma perda ou de situações externas traumáticas. O
estado maníaco pode ser leve ou agudo. É caracterizado por comportamento
exacerbado, hipersexualidade. Os maníacos são cheios de energia, inquietos,
barulhentos, falam alto e têm ideias bizarras, uma após outra. O estado
depressivo, ao contrário, caracteriza-se por inatividade e desalento. Seus
sintomas são: apatia, pesar, tristeza, desânimo, crises de choro, perda de
interesse (embotamento afetivo) pelo trabalho, por amigos e família, bem como
por suas distrações habituais. Torna-se lento na fala, não dorme bem à noite,
perde o apetite, pode ficar um tanto irritado e muito preocupado.

c) Paranoia – caracteriza-se sobretudo por ilusões fixas. É um sistema


delirante. As ilusões de perseguição e de grandeza são mais duradouras do
que na esquizofrenia paranoide. Os ressentimentos são profundos. É
desconfiado, agressivo, egocêntrico e destruidor. Acredita que os fins justificam
os meios e é incapaz de solicitar carinho.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 59


d) Psicose alcoólica – é habitualmente marcada por violenta intranquilidade,
acompanhada de alucinações de uma natureza aterradora.

Terceiro tipo: psicopatias

Os psicopatas não estruturam determinadas dimensões da personalidade,


verificando-se uma espécie de falha na própria construção. As principais
características das psicopatias são: diminuição ou ausência da consciência
moral (Super eu). O certo e o errado; o permitido e o proibido não fazem
sentido para eles. Desta maneira, simular, dissimular, enganar, roubar,
assaltar, matar, não causam sentimentos de repulsa e remorso, em suas
consciências nem sob forma de ação ou pensamento. O único valor para eles é
o de seus interesses egoicos: ausência de empatia; inexistência de
alucinações; ausência de manifestações neuróticas; falta de confiança; busca
de estimulações fortes; incapacidade de adiar satisfações; não toleram um
esforço rotineiro e não sabem lutar por um objetivo distante; não aprendem
com os próprios erros, pelo fato de não reconhecerem estes erros; em geral,
têm bom nível de inteligência e baixa capacidade afetiva; parecem incapazes
de se envolver emocionalmente. Não entendem o que seja socialmente
produtivo.

Avaliação e crítica da teoria

A teoria freudiana é a mais influente das teorias do desenvolvimento da


personalidade e dos transtornos mentais. Ela influenciou grande parte do
pensamento psicoterapêutico durante todo o século XX. Seus principais pontos
fortes são:

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 60


A introdução de novos processos psíquicos, como o inconsciente, a
sexualidade infantil, id, ego e superego, além de acentuar a importância dos
primeiros anos de vida para o desenvolvimento do indivíduo;

a ênfase no desenvolvimento emocional da criança, ao contrário de outras


teorias que enfatizam somente o desenvolvimento cognitivo. A teoria freudiana
procura explicar porque os seres humanos não se comportam sempre de
maneira lógica e como o conteúdo do pensamento abrange mais do que a
pesquisa cognitiva costuma estudar.

As principais críticas à teoria freudiana referem-se a:

Problemas metodológicos com relação à coleta dos dados:

O uso dos métodos próprios da psicanálise exige que o pesquisador seja ele
mesmo um psicanalista. A longa formação exigida para isso provoca, por um
lado, problemas práticos e também problemas com relação à imparcialidade da
pesquisa, uma vez que após a longa formação psicanalítica um pesquisador
dificilmente poderá ser imparcial.

As sessões psicoterapêuticas de Freud, com base nas quais suas teorias foram
desenvolvidas, não foram gravadas, mas reconstruídas de memória, às vezes
imediatamente depois das sessões, às vezes apenas horas mais tarde. Dessa
forma suas anotações podem ser vítimas das distorções típicas da memória,
um problema similar se refere a basear teorias sobre a infância em lembranças
de adultos.

Problemas metodológicos com relação à possibilidade de comprovação


da teoria:

os conceitos freudianos são de difícil definição e operacionalização. Isso quer


dizer que um mesmo comportamento observável pode ser explicado por

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 61


diferentes processos psíquicos e vice-versa, o que dificulta a realização de um
exame empírico de tais conceitos.

A ênfase excessiva da sexualidade infantil: Apesar de ter sido a primeira a


chamar a atenção para essa face até então desconhecida do desenvolvimento
humano, deixou de lado muitas outras faces, como a influência social. Assim,
Malinowski encontrou entre os povos de Papua-Nova Guiné por ele
pesquisados poucos indícios do complexo de Édipo, tal como descrito por
Freud. Ligado a esse problema se encontra outro, ligado à estrutura tautológica
com que a teoria freudiana muitas vezes se reveste: criticas à teoria são, por
vezes, vistas como formas de repressão dos conteúdos inconscientes.

Críticas a Freud

Atualmente, muitas críticas têm sido feitas ao método psicanalítico, porém, por
mais que a ciência moderna avance, muitos dos conceitos estruturadores da
psique humana e os resultados obtidos pela aplicação do método continuam
melhorando a qualidade de vida de muitas pessoas. Nota-se que a revolução
promovida por Freud abriu caminhos para estudos que antigamente se
encontravam em um plano imaginário. A criação de um método clínico a
serviço do diagnóstico e tratamento de doenças da psique é um fato sem igual
em toda a história da ciência. Porém, é de se constatar, certamente, que, em
muitos escritos de Montaigne e de Pascal, a ideia da autoanálise já era usada
para explicar problemas subjetivos usando a lógica vigente, transformando os
problemas do ser e de seu inconsciente em desafios universais, com os quais
todos os homens se deparam.

Uma das mais severas críticas sofridas pelo método psicanalítico foi feita pelo
filósofo da ciência Karl Popper. Segundo ele, a psicanálise é pseudociência,
pois uma teoria seria científica apenas se pudesse ser falseável pelos
fatos.[carece de fontes]

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 62


Um exemplo é a teoria freudiana do "Complexo de Édipo". Freud afirmava que
esse complexo era universal, mas com que base de dados chegou a essa
conclusão? Na época da formulação da psicanálise, a sua "amostra" era
bastante limitada; parte dela vinha de sua experiência subjetiva (a sua
"autoanálise" precedendo a publicação de A Interpretação dos Sonhos) e da
sua prática clínica, feita na maioria das vezes com pacientes burgueses de
uma Áustria vitoriana. Ou seja: uma amostra retirada de contextos bem
específicos e que não poderiam fundamentar a universalidade pretendida pelo
autor.

Outra crítica robusta foi feita pelo psiquiatra inglês Willian Sargant no livro "A
possessão da mente". O autor relata suas experiências com pacientes com
traumas de guerra, em que ele se deparou com situações nas quais estes se
tornavam altamente sugestionáveis. O método psicanalítico, segundo Sargant,
atuaria de forma semelhante a estes fenômenos, o que tornava não críveis os
relato dos pacientes que supostamente confirmavam o pensamento freudiano.
Como a relação psicanalista-paciente pode provocar estados de alta
sugestionabilidade, estes estariam, na verdade, expressando as crenças do
próprio psicanalista.

Crítica ao modelo psicossexual

O modelo psicossexual que desenvolveu tem sido criticado por diferentes


frentes. Alguns têm atacado a afirmação de Freud sobre a existência de uma
sexualidade infantil (e, implicitamente, a expansão que se fez na noção de
sexualidade). Outros autores, porém, consideram que Freud não ampliou os
conhecimentos sobre sexualidade (que tinham antecedentes na psiquiatria e na
filosofia, em autores como Schopenhauer); senão que Freud "neurotizou" a
sexualidade ao relacioná-la com conceitos como incesto, perversão e
transtornos mentais. Ciências como a antropologia e a sociologia argumentam
que o padrão de desenvolvimento proposto por Freud não é universal nem
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 63


necessário no desenvolvimento da saúde mental, qualificando-o de
etnocêntrico por omitir determinantes socioculturais.

Freud esperava provar que seu modelo, baseado em observações da classe


média austríaca, fosse universalmente válido. Utilizou a mitologia grega e a
etnografia contemporânea como modelos comparativos. Recorreu ao "Édipo
Rei" de Sófocles para indicar que o ser humano deseja o incesto de forma
natural e como é reprimido este desejo. O complexo de Édipo foi descrito como
uma fase do desenvolvimento psicossexual e de amadurecimento. Também
fixou-se nos estudos antropológicos de totemismo, argumentando que este
reflete um costume ritualizado do complexo de Édipo (Totem e Tabu).
Incorporou, também, em sua teoria, conceitos da religião católica e da judaica;
assim como princípios da Sociedade Vitoriana sobre repressão, sexualidade e
moral; e outros da biologia e da hidráulica. Esperava que sua investigação
proporcionasse uma sólida base científica para seu método terapêutico.

Correntes, dissensões e críticas

Diversas dissidências da matriz freudiana foram sendo verificadas ao longo do


século XX, tendo a psicanálise encontrado seu apogeu nos anos 50 e 60.

As principais dissensões que passou o criador da psicanálise foram C. G. Jung


e Alfred Adler, que participavam da expansão da psicanálise no começo do
século XX. C. G. Jung, inclusive, foi o primeiro presidente do Instituto
Internacional de Psicanálise (IPA), antes de sua renúncia ao cargo e a seguidor
das ideias de Freud. Outras dissidências importantes foram Otto Rank, Erich
Fromm e Wilhelm Reich. No entanto, a partir da teoria psicanalítica de Freud,
fundou-se uma tradição de pesquisas envolvendo a psicoterapia, o

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 64


inconsciente e o desenvolvimento da práxis clínica, com uma abordagem
puramente psicológica.

Desenvolvimentos como a psicoterapia humanista/existencial, psicoterapia


reichiana, dentre diversas e tantas terapias existentes, foram, sem dúvida,
influenciadas pela tradição psicanalítica, embora tenham conferido uma visão
particular para os conteúdos da psicologia clínica.

O método de interpretar os pacientes e buscar a cura de enfermidades físicas e


mentais através de um diálogo sistemático/metodológico com os pacientes foi
uma inovação trazida por Freud desenvolvido a partir de suas observações e
experiência de tratamento através da hipnose. Até então, os avanços na área
da psicoterapia eram obsoletas e tinham um apelo pela sugestão ou pela
terapia com banhos, sangrias e outros métodos antigos no combate às
doenças mentais.

Sua contribuição para a Medicina, Psicologia, e outras áreas do conhecimento


humano (arte, literatura, sociologia, antropologia, entre outras) é
inegável[carece de fontes]. O verdadeiro choque moral provocado pelas ideias
de Freud serviu para que a humanidade rompesse, ou pelo menos repensasse
muito de seus tabus e preconceitos na compreensão da sexualidade, e
atingisse um maior grau de refinamento e profundidade na busca das verdades
psíquicas do ser humano.[carece de fontes]

Na atualidade, a Psicanálise já não se limita à prática e tem uma amplitude


maior de pesquisa, centrada em outros temas e cenários, desenvolvendo-se
como uma ciência psicológica autônoma. Hoje fica muito difícil afirmar se a
Psicanálise é uma disciplina da Psicologia ou uma Psicologia própria.[carece
de fontes]

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 65


Após Freud, muitos outros psicanalistas contribuíram para o desenvolvimento e
importância da psicanálise. Entre alguns, podemos citar Melanie Klein,
Winnicott, Bion e André Green. No entanto, a principal virada no seio da
psicanálise, que conciliou ao mesmo tempo a inovação e a proposta de um
"retorno a Freud" veio com o psicanalista francês Jacques Lacan. A partir daí
outros importantes autores surgiram e convivem em nosso tempo, como
Françoise Dolto, Serge André, J-D Nasio e Jacques-Alain Miller.

Uma das recentes tendências é a criação da neuropsicanálise segundo


Soussumi tendo como antecedentes a fundação do grupo de estudos de
neurociência e psicanálise no Instituto de Psicanálise em 1994 com a
participação de Arnold Pfefer, e o neurocientista da Universidade de Columbia
como James Schwartz, que a partir de 1996, fica sobre a coordenação de Mark
Solms, psicanalista inglês com formação em neurociência, que vinha
trabalhando em Londres e publicando trabalhos sobre o assunto desde a
década de 1980 que juntamente com Pfeffer, em Londres, julho de 2000 ,
organizam o I Congresso Internacional de Neuro-Psicanálise, onde é criada a
Sociedade Internacional de Neuro-Psicanálise.

Destaca-se ainda nesse ínterim a publicação do artigo intitulado Biology and


the future of psychoanalysis: a new intellectual framework for psychiatry (em
português, “A biologia e o futuro da psicanálise: uma nova estrutura intelectual
para a psiquiatria”) do neurocientista Eric Kandel, em 1999 . Segundo Kandel, a
neurociência poderia fornecer fundamentos empíricos e conceituais mais
sólidos à psicanálise. Um ano após a publicação do referido texto, em 2000,
Kandel recebe o prêmio Nobel de medicina por suas contribuições à
neurobiologia, introduzindo o conceito de plasticidade neural.

Desenvolvimento posterior

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 66


O trabalho de Sigmund Freud foi continuado por sua filha Anna Freud. Outros
autores procuraram desenvolver a teoria, enfatizando outros aspectos e
procurando solucionar os pontos críticos, entre eles os que mais se destacam
são os psicanalistas Heinz Kohut, Melanie Klein e Karen Horney; os
humanistas Abraham Maslow e Carl Rogers; o fundador da psicologia do
desenvolvimento individual Alfred Adler e o fundador da psicologia analítica
Carl Jung.

Diferença entre o Psicólogo, Psicanalista e Psiquiatra

Existe uma grande confusão sobre as três profissões que são intimamente
ligadas à área psi. Muitas pessoas não sabem a diferença sobre o modo como
psicólogos, psicanalistas psiquiatras trabalham, muito menos sobre que
faculdade ou curso é necessário para seguir cada uma destas profissões.

Assim, é muito comum que pacientes me peçam medicamentos psiquiátricos.


O psicologo, não pode receitar nenhum tipo de medicamento. Também é muito
frequente as pessoas pensarem que a psicanálise é uma faculdade e não
saberem ao certo o que é a psicoterapia.

Neste texto, vamos esclarecer os principais pontos.

PSICOLOGIA
Para ser um profissional da psicologia, a pessoa interessada deve cursar
uma faculdade de psicologia (que em geral, tem duração de 4 a 5 anos).
Durante o curso, estudamos diversas matérias e disciplinas, inclusive
psicofarmacologia, ou seja, os principais remédios psiquiátricos e sua ação no
organismo. Mas, mesmo tendo este conhecimento, não podemos receitar
nenhum tipo de remédio para nossos pacientes. Esta função cabe somente aos

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 67


profissionais que se formaram em medicina e fizeram especialização em
psiquiatria.

Durante a faculdade, também estudamos diversas abordagens que podem ser


utilizadas no consultório e na clínica. Entre estas abordagens, podemos
encontrar a psicanálise. A psicanálise foi fundada por Sigmund Freud e é, além
de uma técnica muito útil para tratar diversos sintomas, problemas e
dificuldades mentais e emocionais, uma importante teoria sobre o ser humano,
que teve influência em diversas outras áreas, como a antropologia, filosofia,
letras.

Deste modo, podemos dizer que o profissional da psicologia não receita


remédios. Com relação à psicanálise, o profissional pode se especializar na
abordagem psicanalítica. Mas também existem diversos profissionais que
preferem outras abordagens ou formas de tratar seus pacientes como o
behaviorismo, humanismo, psicologia analítica, entre outras.

Neste texto sobre o Mercado de Trabalho, você encontrará mais informações


sobre as matérias na faculdade de psicologia.

PSIQUIATRIA
A psiquiatria é uma especialidade da medicina. Para ser um profissional da
psiquiatria, a pessoa deve cursar 6 anos de faculdade de medicina e, após este
período, realizar a especialização em psiquiatria (geralmente em 4 anos). Após
a conclusão, o profissional estará habilitado a receitar medicamentos para os
pacientes que sofrem de determinados problemas mentais, que vão desde
problemas simples como insônia e ansiedade até os pacientes com transtornos
mais graves, como esquizofrenia.

Além da prescrição de medicamentos, o psiquiatra também pode realizar


consultas mais psicoterapêuticas, utilizando formas de terapia que não fazem
uso de nenhum tipo de remédio. De forma que, em uma consulta com um
psiquiatra, o paciente pode apenas conversar com o profissional, expor seus

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 68


problemas e obter do psiquiatra formas de solucionar aquela dificuldade
específica.

PSICANÁLISE
Para se tornar um psicanalista, existem basicamente duas formas. A forma
mais completa é realizar um curso de formação em uma instituição vinculada à
outra instituição internacional. Existem também diversas linhas da psicanálise e
isto se reflete na existência de instituições diferentes.

Mas de modo geral, podemos dizer que esta forma mais “completa” é um curso
extremamente intensivo que tem duração de cerca de 5 anos. Durante este
período o profissional vai conhecer profundamente os conhecimentos teóricos
deixados por Freud e outros teóricos, bem como se submeter a fazer análise
ele mesmo. Após a análise, ele terá que fazer estágio, atendendo pacientes e
tendo supervisão (orientação) de profissionais mais experientes.

Outro modo de ser um psicanalista, é primeiro fazer uma faculdade. Em geral,


qualquer faculdade da área de ciências humanas (psicologia, filosofia, história,
letras, etc) e depois fazer uma pós-graduação em psicanálise. Nesta pós-
graduação, o estudante aprenderá também as técnicas e teorias, mas o
período é mais breve: por volta de 2 anos.

Também encontramos cursos de psicanálise que são mais breves do que 2


anos e não exigem que o aluno tenha uma graduação anterior. Mas estes
cursos, em geral, não são recomendados.

Após as explicações acima, podemos entender porque quem não é da área


pode confundir uma profissão com a outra. Afinal, um psicólogo pode ser
psicanalista, assim como um psiquiatra pode ser psicólogo e utilizar a
psicanálise para atender seus pacientes!

O que é importante saber é que cada profissão possui um grupo que coordena
e fiscaliza os profissionais:

● Profissionais da Psicologia – Conselho Federal de Psicologia


● Profissionais da Psiquiatria – Conselho Federal de Medicina
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 69


● Profissionais da Psicanalise – Institutos Internacionais como a Associação
Internacional de Psicanálise ou a Associação Mundial de Psicanálise.

E ainda fica uma pergunta a ser respondida – como escolher o melhor


profissional para se tratar?

Bem, se você avalia que existe a necessidade de medicação ou se o seu


médico lhe orientou a tomar um determinado medicamento psiquiátrico, busque
um psiquiatra.

Se você deseja entender melhor os seus problemas e encontrar formas para


mudar, escolha um profisisonal da psicologia e lhe pergunte em qual
abordagem ele se especializou. Você poderá procurar por informações sobre
aquela abordagem e, depois de conhecer melhor, poderá avaliar se você se
sente bem com a abordagem ou não.

Se você quer realizar um profundo processo de auto-conhecimento, sugiro a


procura de um psicanalista. Mas como disse acima, um psicanalista também
pode ser psicólogo, de forma que você pode também procurar um psicólogo
que se especializou em psicanálise.

O mais importante é avaliar que tipo de problema você está vivenciando no


momento, se é necessário o uso de algum medicamento, se sim, também
avaliar se este medicamento está lhe ajudando ou não. Também é de extrema
importância avaliar se a terapia com um psicólogo ou psicanalista está
trazendo resultados e crescimento pessoal e, por fim, se você se sente bem e
confia naquela profissional.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 70


Este material é parte das aulas do Curso de Formação em Psicanálise.
Proibida a distribuição onerosa ou gratuita por qualquer meio, para não alunos
do Curso. Os créditos às obras usadas como referências ou citação constam
nas Referências Bibliográficas.

FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE - www.psicanaliseclinica.com

MÓDULO 1 - HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE - pág. 71