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Simultâneos pulsando

Uma antologia fescenina da


poesia brasileira contemporânea
organização:
Fabiano Calixto e Natália Agra
Simultâneos pulsando
Uma antologia fescenina da
poesia brasileira contemporânea
organização:
Fabiano Calixto e Natália Agra

2018
Simultâneos pulsando: sólidos, líquidos & gozozos

O que é obsceno? Obsceno? Ninguém sabe até hoje o


que é obsceno. Obsceno pra mim é a miséria, a fome, a
crueldade. A nossa época é obscena.

Hilda Hilst

“Oh! sejamos pornográficos / (docemente pornográficos). / Por que seremos


mais castos / Que o nosso avô português?” – eita porra, Carlos!

No convulsivo olho do furacão de nosso tempo, todo gesto que saia do serial,
do lugar comum existencial, político e poético, que desestabilize a norma,
é visto de maneira raivosa por uma plateia cada vez mais ignorante, intole-
rante, dogmatizada e imbecilizada. Entretanto, amamos – nós, os seres feitos
de paixão e tesão. O tesão, como a poesia, é resistência. A quê? A um mundo
cada vez mais mercantilizado, pauperizado, cheio de ódio e morte. O gozo
fabuloso da vida contra o turbocapitalismo, é isso que queremos. Obsceno,
bicho, é a miséria.

Simultâneos pulsando – Uma antologia fescenina da poesia brasileira contem-


porânea, que ora se apresenta e que por nós foi organizada e idealizada, conta
com 69 poetas brasileiros contemporâneos que, em algum momento de suas
trajetórias, passearam com Eros de mãos dadas por aí.

Poéticas do desvio e do excesso, da defesa da alegria e da liberdade. Lirismo


contra o policiamento do desejo, dos afetos, da vida. Carnavalizar o coração,
a existência. Mambembes, loucos varridos. Eros está aí, em todo lugar, em
cada átomo de cada pessoa, no meio do redemunho. É política afetiva. Uma
poética-antipolícia. E viva a poesia!

Fazer essa antologia, pra gente, foi como organizar um festival de música:
escolher o cast com poetas que admiramos e que trabalham em vários estilos.
Riquezas são diferenças.

Leitores de poesia só pensam naquilo, diz Fabrício Corsaletti num dos poe-
mas constantes da antologia. O leitor muda o poema, de poema, no poema,
com o poema, como quem muda de posição na brincadeira sexual. Eros e

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heresia, juntos na linguagem eletrificada da poesia. Escrever poesia é já um
ato herege – ainda mais nestes tempos tão sombrios, tão violentos, tão caro-
las. O amor erótico é resistência. O afeto como nosso duplo. Carnavalização.

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto


a felicidade.

Octavio Paz escreveu que “a relação entre erotismo e poesia é tal que se pode
dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poesia corporal e a segunda uma
erótica verbal”.

Susan Sontag escreveu que “em vez de uma hermenêutica, precisamos de uma
erótica da arte”. Este livro ajuda a compor essa erótica, universal e acolhe-
dora, transgressora e libertadora.

Assim, ficamos conversados. E, em face dos últimos acontecimen-


tos, sejamos pornográficos. Fiquem com a mágica orgia da poe-
sia destes tempos tão convulsivos. Aproveitem a eternidade: é
puro orgasmo (e é a única que temos). Que comece o bacanal!
Boa leitura!

Fabiano Calixto & Natália Agra

Inverno de 2018

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Entre a superfície e o abismo da carne

Levo meus olhos a recolher a incandescência presente nesta anto-


logia de poemas que conduzem o corpo ao limite de um gozo deci-
dido. Nela encontro a superfície e o abismo da carne, aquilo que faz irromper
o incontornável caráter obsceno da existência, o que faz cintilar a radicali-
dade de cada poeta e o contágio produzido pelo erotismo: um corpo que se
enterra em outro, um brilho na ponta do nariz, um gesto que esparrama as la-
vas de um vulcão, uma imagem que é um enigma, tudo que treme, incendeia,
oscila e goza, lusco-fusco de um rosto, de um corpo.

O que retorna é um fora da cena que estraçalha os limites, inaugurando o


impensável: a nudez que emana dos versos, a crueza de uma topografia, o
profundo erotismo de um emaranhado, devir maligno que corrompe toda
a unidade gozando tenazmente do que excede, abrindo-se para a promis-
cuidade da língua, da carne.

Entre um poema e outro, há silêncio e tensão. No trânsito entre um elemento


e outro, há a criação de um efeito de dissonância no sentido da beleza que
acaba revelando, não somente a temporalidade e seus signos, mas, principal-
mente, seus efeitos de corrupção e degenerescência. São poemas em cópula.
Daí o sentido de “beleza terrível” que comunica algo que a potencializa, mas
que também a ultrapassa. Não à toa, em Bataille a beleza é um objeto que
invariavelmente pede para ser profanado.

Michel Leiris aponta a erupção de uma ferida ou fenda. Esta fenda, tanto
em Leiris quanto em Bataille, é aberta pelo erotismo – na delicada e violenta
urgência que faz pulsar os mistérios gozosos e gloriosos, nas minúcias da pele,
nos convites ao abismo do prazer. Embaralhar versos num gesto promíscuo,
misturar o sexo dos poetas entre versos, encontrar o fio invisível e úmido que
contamina tudo: “o pensamento é um pornógrafo”, “para adentrar a ilha / é
preciso muito fôlego”.

O gozo é incivilizável. O erotismo apresenta questões de fun-


do que se referem a nossa humanidade com tudo que ela abriga:
violência, bestialidade, perda de si, prazer e dor, perturbação – “vou surgir
pulsando / das curvas do teu pescoço / e hoje quebro teu osso”, “te procuro
obsessivamente nas melancolias das mãos”.

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Neste resto que resiste ao pacto social, encontramos a possibilidade radical
de uma subversão que não se inscreve em cartilhas e ortopedias morais. No
território opaco da sexualidade, um corpo pode ser vilipendiado e, com isso,
obter prazer. O domínio do erotismo, diz Bataille, é aquele da transgressão
dos interditos, o desejo que triunfa sobre o interdito.

Na experiência tão íntima de ler estes poemas, encontro a dimensão do


feminino – este mistério que rege os sexos, a questão última tanto para um
homem quanto para uma mulher. Jacques Lacan dizia que acreditava no gozo
da mulher porque ele é a mais, um gozo suplementar. Lacan assinala esse
gozo, de maneira mais evidente, nos excessos dos místicos – como São João
da Cruz, que se colocava ao lado do feminino, ou no gozo que encontra ex-
pressão no êxtase de Santa Teresa D’Ávila.

Há algo que corrompe e perturba. E é isto a poesia em última ins-


tância, este algo estrondoso que tem a capacidade de nos deslocar de nós mes-
mos, de fazer tremular o mundo que parece firme a nossos pés. Há algo desse
tremor nos poemas desta antologia, em Sade, Bataille ou Hilda Hilst, algo de
indomesticável e inconcebível.

Neste meu ato de escrever sobre estes poemas, um segredo é violado: do


corpo anatômico ao corpo erógeno. A pulsão é polimorfa – incandescência
e beleza – mas não há como capturar o que é da ordem dos gastos inúteis,
como o riso, as lágrimas e o gozo. Há uma maneira corrosiva de permanecer
entre o infernal e o divino, o benefício e o crime.

Bianca Dias

Psicanalista, ensaísta e crítica de arte

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Esta antologia é dedicada a Assionara Souza (in memoriam)
Simultâneos pulsando
Uma antologia fescenina da
poesia brasileira contemporânea
Gente aqui há que fode e que é fodida,
De conas e caralhos há caudal
E pelo cu muita alma já perdida.

Fode-se aqui com graça sem igual,


Alhures nunca assaz reproduzida
Por toda a jerarquia putanal.

Pietro Aretino
(Trad.: José Paulo Paes)

O meu amor tem um jeito manso que é só seu


Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Chico Buarque

nisso eu sou primário nisso eu sou careta


amor pra mim amor pra mim
vem do caralho vem da buceta

Paulo Leminski Alice Ruiz

Seivas, vergônteas, virgens,


tépidos músculos
que sob as roupas rebelam-se.

Adélia Prado

Well, we work all day


And we don’t know why
Well, there’s just one thing that money can’t buy
When your body’s been starved feed your appetite
When you work all day, you gotta Uh! all night

Kiss

Sonhei que no tribunal da caretice o juiz bateu o martelo me condenando por excesso de
desbunde. Pintou um clima entre mim e o martelo. Fugimos dali, sem grilos, sem culpas.

Serguei
3 Limeiriques

Estes poemas vão para Xico Sá, Luiz Roberto Guedes e Rodrigo de Souza Leão
[Mamãe, não leia, por favor]

1.

bebeu muita vodka orlofe


catou pelas ruas o bofe:
furor uterino
fodeu-lhe o intestino:
a pica entalou no roscofe

2.

“ai” – diva gritava em falsete:


“meu cu virou um ramalhete!”
o macho, coitado,
meteu só de um lado
e teve cãibra no cacete

3.

moça singela, a catarina


tem um dilema na vagina:
com cheiro de alho
engole o caralho
e arrota linguiça da fina

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ao modo dos poetas provençais

De nada sabe quem nunca prova


Do sexo a seiva que a boca suga
Qual beija-flor beijando a flor de lótus
No jardim divino dos nossos corpos
Durante a noite e o dia inteiro
A pele em brasa do pinto ao seio

A brisa lambe o suor dos pelos


Lábios se abrem ao roçar dos dedos
Ao doce alento de lentos golpes
O grelo avança bem devagar
E a língua brinda a esse altar
Com a fina taça de leves toques

Se é pecado que Deus não saiba


Do suco ungindo a boca em dádiva
Que a língua sorve em uis e ais
Com pernas bambas o corpo jaz
Mas se alguém resta que me bem faz
Só peço vem e peco mais

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Beyond my power to dream

• sou sua vassoura minha rainha •


• pode soltar os labios assim raros e leves •
• sobre minha pele de madeira velha •

• seu gozo faz bem molha fazendo delirar •


• a desventrada floresta onde arrancaram •
• isso q se tornou apenas uma vassoura •

• seu gozo minha rainha penetra na alma •


• devastada da minha floresta e vou longe •
• pra onde mandam levar rapido a rainha •

• gozo tão intenso q faz renascer em mim •
• galhos folhas flores azuis e roxas frutos •
• q se partem e odoram o ar com seu prazer •

• seus gritos seus uivos ruivos minha loba •


• recriam a musica q apenas as florestas •
• sabem tristes e os desertos concertam •

• goze mais e ria e gargalhe e se contorça •


• q assim o mundo se revigora sem gorar •
• assim jorram quentes gotas q borbulham •

• q estalam como placas de aço e ferro •


• nos navios q nas tempestades secretam •
• o nectar q descria mangues e baleias •

• goze minha rainha goze goze e durma •
• como se fosse liberta sem a gravidade •
• do trabalho q fere de joelhos o q respira •

• quando acordar sabera o q é a morte •


• sabera o q é viver sabera o q é preciso •
• pra tornar o corpo a servidão da ordem •

• goze minha rainha goze goze e durma •


• cheia so de sonhos sombras e palavras •
• q é assim q o existir adora e respira •

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Antiguidade d’onde viemos

Péricles disse
que a maior virtude de uma mulher
era ficar calada.

Péricles se fodeu.

Péricles, hoje,
levaria uma surra
dada por mil mulheres
como eu.

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comemos mel com os dedos
olhamos a densidade lenta
a outra gravidade do mel
escorrer pelas unhas, gostamos
de comer de colher
tocar a laranja antes de comprá-la
lavar as patas de terra, lamber
os ossos das costelas e do pescoço
à noite, somos montanhas
os bicos apontados pra lua
pretos marrons cor de rosa claro
roçamos os pelos das axilas no capim
tudo se acumula
pernas, sóis, centenas de bocas
no lugar do tempo, mariposas
trombas e líquidos fermentados
no delírio escuro a matéria expande
de manhã a luz desfaz a fome
uma delicadeza encobre os corpos
há um vestígio luminoso
no interior de cada fibra
por algum tempo ainda se ouve
estão mortos, estão vivos
são um só peixe.

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a pornô.poética da vulva-externar

maintenant je le sais, je n’ai plus les mots pour le dire


m.d.

a cada vulva aberta ingressava


no oriente
o tremor cósmico
flexionava
os confins do meu corpo
um abrigo antiaéreo
e partia de novo
rumo ao sul de mim
vê-la ali
nas extremidades
nos pontos
do toque
onde vivem como se
não fosse possível dizer
essa estranha relação
entre os dedos
as mulheres e
o escrever
tudo na vulva é
exterior
como a língua que se fala
no japão
entre os vãos de mim
vive o extremo de tudo
como uma bomba no mundo
mon amour
a sua vulva na minha
é a ultra-percepção
fina
do toque
feito
de pontas e dobras
alheias
de um infinito aberto
ao mínimo

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e o eu
depois de você
é só o fato das nossas dolores
compressivas
dos dias posteriores
em que cada impacto
feito do hiato
do nosso nó
desata
a corda que agarra
a destemida-farra
a saia plissada
na dobra da calcinha
sou o teu arranca
imoral
de fera
sem língua
nas escadas da analista
sem vista
sou a menina
vendada no divã
às 15hs e 20 minutos
sou o nosso abrupto

porque mulher, quando fode,


é crueldade

contra toda a fraude


que inventaram
que sexo
é côncavo e convexo
não

porque mulher, quando fode,


é crueldade

na minha filosofia
pornô-poética
o sexo
é só

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fresta e dobra
toque e aresta
infinitamente minúscula
contração submersa
sob a sua superfície

porque mulher, quando fode,


é crueldade

tal um dia
na esquina
mais tênue
da vida
onde te entreguei

toma

a profusão pornô-poética
da vulva-externar
esse novo conceito
teórico-prático
insuflando pib’s
sem bem-estar

porque mulher, quando fode,


é crueldade

e a pornô-poética não veio


para
um lugar
ao sol queima no escuro
das ruínas sem museu
e nada
em seu beco tem eu
um lírico corrupto
mina
a sua crina modular
a vulva-externar
não é a expressão de um dentro

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porque mulher, quando fode,
é crueldade

ali mesmo
nesse buraco
onde sempre viveu
sabe que nada interior
delimita
é contra o seísmo
de quem mima
a mímesis
que a vulva-externar projeta
o denso fora
sem forma
feita dessa matéria aérea
voa
sopra
veloz
a vulva
obra das mais intensas
lentidões
ritmos sem compasso
escritas a-geométricas
desmedida
a pornô-poesia
invade
abre
fende
fode
e repete
feliz

porque mulher, quando fode,


é crueldade

e quem
toma
dela
da pornô-poética
in-festa
sem fim.
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Relâmpagos

O pensamento
é um pornógrafo

e quase só de palavras
se faz o amor

e no entanto não se embaraça


o pensamento com os cabelos
como os meus cabelos
se embaraçavam nos seus

e não se misturam as palavras


com as palavras como na boca
a saliva se mistura
com a saliva

nem as línguas que falamos deixam


gosto na língua

ou eu teria ainda na minha


o sal da sua

nem anoitece na memória


aos poucos como anoitecia
naquele quarto estreito

já fui um ser de duas cabeças


e ancas
já tive quatro pernas duas bocas
tive quatro braços e mãos
e vinte dedos das mãos
e dois sexos e dois corações
pulsando
simultâneos

já tive só palavras rápidas


como relâmpagos
atravessando a pele

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o que foi feito dessas palavras
que trocamos?

o que foi feito desse ser


desajustado para o mundo?

o que ficou além da cicatriz


dos relâmpagos?

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Boceta

da entrada à entranha
dessa eterna
morada
da morte diária
molhada
de mim
desde dentro
o tempo
acaba

entre lábio e lábio


de mucosa rósea
que abro
e me abra
ça a cabe
ça o tronco
o membro
acaba o tempo

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Buceta é uma ilha
cercada de mulher por
todos os lados
Para adentrar a ilha
É preciso muito fôlego
Braçadas e braçadas de
abraços
Beijos desses sufocados
Alguns marinheiros
afoitos, em sua primeira
viagem,
Afogam-se
Pensam tratar-se de
território livre
Mas é tudo a comando do
(a)mar
Enxergar antes os olhos e
suas duas luas
Navegar, desejar, divagar
mil delírios
Preliminares nesses
mares é preciso

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No fim do arco-íris existe um pote
dentro do pote um gnomo
que diz:

Me chupa com violência.

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Buceta vai de metrô

ninguém reparou quando eu cocei


a seriguela no metrô
me esfreguei no cano de segurança
dei uma coçada na fruta
também ninguém reparou quando eu
senti que a segurança era muito mais que
segurança o metálico cano de suar a seriguela nele
nem a freira e nem o vendedor de balas
ninguém reparou quando eu gritei
a janta tá pronta
ninguém viu a seriguela em chamas
ninguém soube a seriguela se sabendo dura e mole
confusa berinjela seriguela moranga nabo
ninguém notou as estações perdidas
ninguém apontou ninguém denunciou
a janta tá pronta
ninguém reclamou quando ejaculei
no meu próprio rosto no cano no cano no cano a
janta

pronta

Glândulas vão de metrô

todo mundo viu que a gente se


sentava diferente no metrô
a freira o vendedor de balas
a gente se sentava em comboio de
dois a gente se sentava pelo frio pelo quente
a gente se sentava pelos casacos
pelas mãos
todo mundo viu que a gente
se sentava pelas mãos
eu sentava a minha mão na sua boca
escorregava e sentava a mão debaixo do
seu rabo você sentava a mão
todo mundo viu
você sentava a mão na minha mão você

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cantava
é como no hipódromo
é como no zoológico é
como no
todo mundo viu a minha mão suada
a gente sentava as mãos juntas no seu
meu colo a gente sapateava com
as luvas nas bocas as mãos nuas sentadas
sapateando sentadas minha barriga
sua coxa minha girafa seu lince sua garça
é como no recreio
é como no metrô
todo mundo viu o lince ralado a garça depenada
todo mundo soube o zoológico arrendado
a girafa melada recém-nascida
dificultando o equilíbrio e o equilíbrio
de todo mundo que ninguém viu

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Teu coração, uma Brastemp (preta)

“Quem lavava os corpos?


Quem fazia / as orações?”

1.

quando eu surtei na praia do diabo


e você perguntou o que eu achava – amiga,

você ficaria com um cara que corta gato morto?

não, amiga, eu não ficaria

mas depende
tudo depende

eu enfrentaria o michael jackson num torneio de basquete, sim,

caso essa fosse a tua única ideia e depois


se te deitasses sob os lençóis
pretos

(Marcos,
Mateus,
Lucas &)

eu
ou então tu, quando saías do carro
descontrolado, desenrolando a echarpe da Barbie
rosa, azul, incrível –

lembra
como comias sempre
2 cafés da manhã, na índia?

(eu não, porque eu não tava lá,


mas eu vi –

como eras ainda mais maravilhosa do que L. Seydoux, ali)

depois,
a menina que parece um ventríloquo

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ela invadia o meu espaço e eu
o teu

e as tuas críticas eram feitas


todas
na mesa do bar

e havia
qualquer coisa de ( )
na alma daquela –

(como eram mesmo os e-mails


em que mencionávamos o tempo ou a queda?)

e como tudo aquilo parecia ser interpretado


como sinais
românticos?

depois,

eu sonhava que te buscava nas montanhas e perdia o trem


e não te encontrava em lugar nenhum
porque vocês viviam perdidas ali
no meio das pedras, ali, nalgum caminho
circular –

(lembra
como naquela época, apesar das mentiras, possuíamos
enormes talentos?)

o problema
é que sempre se movia rápido demais,
na água

e ninguém poderia dizer que os homens


estavam preparados
para a Dança

2.

porque você me encontrou na praia do diabo


e se sentou na minha frente na cadeira de plástico
com sandálias de plástico
e um colete de plástico e disse

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amiga,

quando você disse da banana,


sobre como era bom se masturbar com uma banana,
porque era melhor
e bem mais macia
que um dildo

e eu disse amiga
eu não sei se consigo fazer isso
não sei se consigo (um poema-
pornô)

(mas: o que é um poema-pornô?)

amiga, eu usei a banana

(mas não precisa ser pornô basta ser –


“fescenino”, disseram)

e eram bananas diferentes, é claro

que todas acabaram esmagadas


contra o meu/teu
clitóris – lembra

quando falei, na fila do bar, na chuva,

e era verdade?

mas não, amiga,

não:

eu não ficaria com um homem que corta gato morto.

Rio de Janeiro, 2017

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Horas d fluxo aural

tua saúde faz crescer minha semente


a tua astúcia lambo os calcanhares
simplíssimo peito escancarado
tacho ariado a areia esfolado
n1 simples fodinha
os dentes brilham + até qe os olhos
ligados
discretamente olha p/ o lado e goza
na rua
p/ qe o mundo venha a mim como desejo
eu devo ter 1 abertura esplêndida
gozar te deixa tão segura, imensa,
suspensa simples criatura esgazeada
o dedo nos lábios
a outra mão?

29
Joelhos e antílopes

observa agora como fabricamos as areias das montanhas de enxofre só com


nossos corpos
essa pele de tangerina diluída em grãos de K.
a gente por vir
por vir por vir
por vir
joelhos e antílopes
a grama tocando nossas costas
um sêmen
o próprio mercúrio, um metal líquido
um visco que se lambe
boca beiço buraco que se comem
cãs
um calor de umbigo
agora,
morar dentro de alguém
na goma dessa fruta azeda
um novo apartamento em Ipanema
uma nova vida

30
Eu te amo

são três palavras


as mais bonitas
as mais ansiadas

a mais singela
a mais antiga
declaração

de entrega
de desejo
de amor

come
meu
cu

31
Meditação

com o pensamento em Ailin Ko

o que eu queria agora


era ter o meu nome inteiro
encerrado no meio de tuas nádegas mornas

lugar onde a flatulência


soletra cega o meu desejo vadio

cada prega do teu cu sussurrando lentamente


a direção em que me perco e onde somos

beijar teu cu tua boca


ou mesmo os teus seios

mucosas siamesas em que me ergo


sob o sol desse céu de luz errante
que carrego comigo o seu último segredo

três palavras ditas


intimidade dentro de tuas duas coxas duras

e a eternidade se deita em meu peito

e a paz enfim pode jorrar noturna


feito caralho aberto
no centro de tua cona

onde alado medito

ohm!

32
En la frontera selvagem
ou en la nueba nobela
ninguém mama como ela
el porongo fica siempre com saudades de sua miel negra

Ela sabe lo que quer ela tem la beleza


de la terra mixturada al sol
y outras estrelas –
el porongo fica sempre com saudades de sua miel negra

seu rebolado cura


minha loucura
sua miel negra me dá suerte
sempre igual y sempre diferente
sua tatu’í me convence

non soy um lobo mau


mas gosto cuando ela besa chupa lame mama mima o meu pau

Glossarioncito selvático

Tatu’í significa bucetinha em guarani paraguayensis.

33
Não é amor ainda
enquanto um não cagar
em cima do outro
se não contrabandeou para a cama
seus quatro costados
se não pastou quadrúpede
nos pentelhos
se é o mesmo continente

34
Falso trajeto

para Ronald Polito

um dedo
dois, três
a mão em cálice
flor projetada
ponta extrema da braçada

elástico anel
pulseira, bracelete, manga
que me vai cobrindo
no uivante vestíbulo

alea jacta est

tênue túnel vasculhado


sonda-flor pela ampola
bem-me-quer, malmequer
um cu é do tamanho de um cúbito

queda de braço
ringue, rego, sumidouro
sem melhor de três
nem margem pra revanche

pois se dane a anatomia


o intestino que se abra
pouco falta pra alcançar
a alta corda
o rubro cerne
a suma víscera
bomba-relógio
que desarmarei

35
Leitores de poesia só pensam naquilo

b. tinha peitos grandes


e gostava que gozassem em cima deles
deitada ou de joelhos
nunca deixava que gozassem em outro lugar
depois comia toda a porra
com uma colherinha de café
que guardava na bolsa
junto do rímel e do spray de pimenta
amava apertar a glande
para poder sugar
a última gota
a visão dos corpos limpos
a doce acidez na garganta
lhe davam uma sensação de plenitude
e de missão cumprida

não, não lia Eliot

36
Take off

A voz em off
antes de conduzir-me
o corpo entre as nuvens
alerta a temperatura
o céu parcialmente nublado
diz
vento fraco
diz
19 graus
diz
só três horas atrás de Lisboa
está São Paulo
horário de verão
diz
e a outra
a tua
voz
sobrepõe-se
àquela
quero
roçar a minha língua em teu ventre
diz
em teu umbigo
diz
em teu sexo
diz
quero desatar outros voos
destes olhos
outros pássaros diz
principiar outros precipícios
quedas d’água digo
sobre a pista de descolagem
dos teus versos
estendo os meus
a pele branca
ruborizada pela manhã lisboeta
os seios entumecidos
como aqueles que escapavam

37
ontem
ao vestido da mulher de olhos amendoados
que caminhou comigo pelo fado
nas ladeiras da Mouraria
sua silhueta sobre a branca espuma de pedras
brancos os meus dedos

38
Kiss, kiss Thomas Lips

a derradeira per forma


a Arte Zero (0)
que, prenhe de todas as outras, sempre soubemos
(fazer)
ser a primeira
forma de encantamento
dos corpos
elemento terra em transe
elemento terra chamando
pedindo e jorrando águas
lava suave ao toque e o bafo brisa da sauna do demo

secretivo ritual
secreto e
pop

Magia sexual de açúcar sérico


melíflua
vertendo da tua pele-pentagrama
hasteamos a bandeira da vitória
branca
vermelha
marrom

39
Violante, a violenta [4970]

Jamais se conformou ella perante


o facto: a mulher arabe, africana,
privada do clitoris, donde emana
a sua sensação mais excitante!

Com ella, não! Jamais, ella garante!


Questão faz de ser virgem, mas, sacana,
masturba-se, estimula com insana
volupia seu grelão, a Violante!

Às vezes exaggera, quasi arranca


o grelo, tal a força que ella emprega:
paresce que maneja uma alavanca!

Os outros desconfiam: quando a cega


(ficou cega, convem dizer) se tranca
no quarto, em sirirycas arde e offega!

40
Soneto fálico

Não sei fotografar bem o meu pau


As fotos que tirei já não espalho.
Mandarei-te, então, um nu verbal
Pra não viralizar o meu caralho.

Mentir-vos ia se dissesse: é grande


Ao invés disso, dir-vos-ei: é bom
Fica maior na região da glande
feito um desodorante de roll on

Tem uma pinta charmosa no centro


Trabalha toda a madrugada adentro
e algumas tardes e manhãs, coitado

Não querer conhecê-lo é uma perda


Como o seu dono tende para a esquerda
e apesar de pequeno, é animado

41
paranoia no paradiso

do topo dum arranha-céu acinzentado na miséria encarnada enrabo o


rabo do cometa céu acima línguas de estrela em pau-de-arara que me
aguarde de sarjeta em riste dentro do meu matulão
as divisórias dementes do cérebro que registra meu delírio de delícias o
caminho da infinitesimal virtude celeste atropelado pelo esquema
métrico da periferia
anjinhos de rilke tomam sol por baixo dos lençóis catedráticos histéricos do
meio dia em mim a noite permanece centro da medula farol que leva a
nada apenas mala na mão

visão do paradiso desbunde metafísico do nada onde coxas ardentes lábios


de cereja & rabo louco nos convidam um café com mescalina máquina
do mundo descabelada ecce homo depilado em gosto pela algaravia
meninos comentam a ascensão dos escritórios de advocacia meninas
preferem colar velcro no canto mais à mostra as velhotas de plantão
cochicham beatamente “eis a carne de cristo”
narcóticos anônimos remontam quebra-cabeças carnívoros plantados numa
torre equilátera enquanto o espasmo estridente da morte acaricia

na indiferença cósmica da escola do suicídio do corpo orquestra desvairada


do sucesso encaro o hápax hediondo a bunda-fera de teresa dávila seus
olhos rodopiantes nas trincheiras infantis do caos num misto
na indiferença ela questiona os fundamentos sexuais da caridade a
carniçada empalhada o silêncio ofensivo da esperança além da carne a
fé cabreira
de resposta selvagem beijos através do vidro heliogábalo concêntrico no
olho onde quase existo

alçada em meio aos serafins assexuados nada disso a carne invade todo o
empíreo rosa encarnada inumeração desbotando lentamente a flor
celeste-insana do meu cu do meu cu em bandeira

42
69

A noite de cabeça para baixo


As línguas giram encolhem
Salivam em líquidos de corpos
Cada dia que cheiro que delícia
Não se cansam de pequenos montes
Dos detalhes que crescem
Na entranha tão dela tão minha
O pau duro
Espera a movimentação
Agora esperta
Cabeça lá
Cabeça cá
E viva o in verso

43
Opereta em dois movimentos

1.

A cena se desdobra
como num filme:
há dois corpos que se comem
no menor banheiro da cidade

no escuro, comem-se
com desespero e paixão
comem-se como os arcaicos
em rito de vida e morte

por ora não sabem


mas matarão um ao outro
vagarosamente
por ora, gozam

os minutos correm
naquele movimento
e o chuveiro
que não pode resistir a tanto
vai explodir dentro de instantes
nenhum dos dois vai se importar

por ora, gozam


e pelos meses seguintes
vão se lembrar e sorrir

“queimamos o chuveiro
de tanto foder”

2.

o tempo corta a cena


são dois corpos
que já não se comem no escuro

44
são dois corpos que sequer
se comunicam sem rosnar
são lobos e não admitem
menos que o uivo

há corpos que ficam


e há corpos que vão
eu sou o corpo que fica
sempre fui

sou quem recicla o vivido


e narra:
a cena que se desdobra
como num filme

digo a mim mesmo


que alguém precisa fazê-lo
e tomo o sofrimento
por uma questão de estilo

sou esse movimento


de se render à memória
que incide
puxando tudo de volta
ao buraco que não fecha
meu deus, não quer fechar

um corpo que ama


jamais segue inteiro
eu estou indo embora
desse apartamento
e eu nunca poderei trocar
esse chuveiro

45
Néctar

às 12h
o pau lateja
bucetas pingando
rios de saliva
a língua bombeando o cu
strapon preenchendo os vazios
xota-pau-boca-saliva
acompanhando o silêncio súbito da cidade

46
¿tienes ganas?

é tudo questão
de ter as ferramentas
certas ele disse
e abriu a garrafa
na manga da blusa
poucas horas antes
de suspender minha saia
numa esquina escura
e com seus dedos destros
me fazer gozar
ali mesmo no ventre
da rua

47
Disputa

na guerra
punheta & siririca
olham-se
os dois
apaixonados
na espera
um do outro
– ansiedade –
(torcer pelo empate)
o prazer que consiste
em quem goza
primeiro
na tela
do
celular

48
49
Xiri

entrelínguas
até o cu a boca
alvoroçada nunca desiste
da fome

50
Semana internacional do silêncio entre as Américas

Nesse momento estamos literalmente no olho do furacão


somos uma montanha onde vão os peregrinos
alguns mitos – diriam – eu percorri por estilo.
Me sinto um pouco como o Bob Dylan em Cuba
daquela vez em que ele teve de rever conceitos
enquanto abria uma mais outra garrafa de gim
Usando o parapeito da janela pra sentir seus fluidos
você se amassou em mim, ou fui eu que me amassei
num desejo louco louco nada manso
bem como convém
aos desejos da gente ser
uma gaivota uma tempestade uma ranhura
como um filete de página marcou a sua mão
Eu não estava a fim de discutir Schopenhauer
ou a existência secreta de alguma sociedade morta
(estão todas a priori mortas sem discutir Schopenhauer)
ou qualquer coisa que tua inteligência seja capaz de se interessar
enquanto eu dou de ouvidos escutando
a memória dos meus ossos
a me catapultar pra loucura dum tempo
mais ou menos sórdido como o nosso
na beira do teu outro tormenta ou lagoa mansa tanto faz
quando os amantes se confundem uns nos outros
há quem chame de fusão mística, combustão espontânea
questão de pele, ginga, jogada, blefe e eu truco!,
karma, desejo e necessidade, tesão e talvez
finalmente estivéssemos à porta de algo
a entrar e sair da porta de algo onde tudo
nasce e finalmente se encaixa perfeitamente
nos seus meandros de desencaixe e escuro
uma língua versátil e capaz de estabelecer
o rigor o vínculo e o terror – palavras, enfim
aprendi a usar em português
mas depois a vida me fez perder a sintaxe
mais tarde veio a vida e me levou os conceitos
mais tarde veio outro e me tirou
daquela coisa conservadora em que eu estava
ninguém tinha reparado ainda que eu estava morta

51
só você talvez
porque já me ouviu
em cada miudinho
liberdade amor
selvageria e estilo
o estilo de novo – com que calçar
umas botas e subestimar os crocodilos.

52
Sophia

(preâmbulo)

uma canoa é
uma boceta
vulva é quase um
nome próprio regina
é uma vagina uma
boceta é um meio
de transporte
navega-se

tenho sonhos eróticos na canoa


apalpo pessoas bocetas
perseguem-me
i see pussies
everywhere
as bordas da canoa não são
lábios me abraçam
uma canoa é uma ilha ou
um buraco negro sorve-me
molho rotas sobre veios
sobre tapetes de mucosa
uma boceta é uma casa
uma tábua é um banco senta-se
é um corpo é uma possibilidade
de cópula choro na canoa
plantada na grama ou veludo
púbico tudo na minha cabeça
se embaraça genitálias
embarcações despeço-me
da sanidade e dos nativos
por madeiras marujas
tudo tem o mesmo gosto
de canoa quando lambo
a ripa seca e a farpa
é sempre uma companhia
pra língua na falta
da língua
da canoa

53
“yo, la peor de todas”

o amante francês sussurra


tendresse
ao meu ouvido
era um amante secreto
para não revelar
a verdadeira identidade de lady c
minha avó, lady c sentada
em sua biblioteca de moças obscenas
lillys, marys, lisas
doidas suspirando e correndo sobre a relva
nuas
enquanto o amante francês sussurra
tendresse
ao meu ouvido
pois não seria justo para ela, lady c
a que não amou entre os morangos vermelhos
(lá nunca brotaram morangos vermelhos
mas imensas jacas com
seu visgo espalhado pelas sombras)
perder-se entre os muros velhos
de um quintal sem nome
cair na rede como um peixe
num dia qualquer de fevereiro
de qualquer ano
de qualquer uma
de alecrins perfumados
entorpecendo a pele
de lady c
enquanto o amante francês sussurra
tendresse
ao meu ouvido
ao ouvido da terra úmida
da terra negra
ao ouvido das flores arreganhadas
sobre o tapete de folhas molhadas

54
|ah santa teresa de ávila|
do visgo aberto das jacas
da sangria da carne sobre o altar
do vinho e do pão
de uma reza soprada
|ah santa teresa de ávila|
o êxtase em tuas entranhas
foi a nossa oração

55
Pequena morte

Um encontro com isto que está alguns centímetros


acima do que somos –

ou

O momento em que a consciência experimenta


a inconsciência –

ou

Tudo o que chamamos de tempo se contrai e concentra


para caber no espaço deste instante de prazer –

56
Bola gato

Olha
eu te trouxe
a garrafa
o copo
ou sei lá
é só dizer
eu te trouxe
a garrafa
e pronto
uma xícara de café quente
vai
fui eu que fiz
diz
que eu posso
tomar tudo de uma vez

se não está quente
ou sei lá
se já não esfriou
vai ver
a água não está quente
é claro
fui eu que te trouxe
o copo
são três dedos
ou dois tragos
ou quem sabe
de um gole só
tintim
por tintim
vou ficar te devendo
deixa comigo
agora não
ou muito obrigado
de nada
é só dizer
muito obrigado
de nada

57
ou alguma coisa
que vai mudar o meu dia
diz
por exemplo
agora vou te fazer
uma coisa
que vai mudar o seu dia

58
Teu cartão

mergulhei os olhos nessa orquídea


como meu dedo pelas esquinas
úmidas da tua bocetinha
tua gruta grata de arrepios
teu orgasmo floração carnívora
se abre e derrama meu convite
encharcado de um cheiro explosivo
que meu pau aceita em riste

59
beijar teu frágil corpo
lamber teus doces dedos
já embebidos em amor
é como recitar de cabeça
poemas que nem sei
o cântico dos cânticos
como se eu fosse Salomão
desbravar teu ventre cálido
com qualquer parte minha
acarinhar os filhotes de gazela
(biblicamente seus peitos)
vale mais do que
os talentos de Ofir
ou todo um reino
olhar nos teus olhos
e ficar em silêncio
ou então declarar meu amor
me faz mais sábio
do que o filho
de Batshevá

60
Cortar a carne e afiar as unhas

te amar como quem desossa um frango
dedos engordurados
asa partida ao meio
na boca
o sabor agridoce do coágulo violeta
domingo é dia de feira
cachorros babam a cada volta da televisão
“dois por trinta”
sonho com beatrix kiddo
sua carne é fibrosa demais
[para a sutileza de uma espada

61
Leite

pedi ao outro
a composição
de um samba-canção
na boca

62
belletriz transfigurada

eu vou nascer feliz numa cidade futura


eu sei atravessar as fronteiras das coisas
mário cesariny de vasconcelos in o jovem mágico

vou surgir pulsando


das curvas do teu pescoço
e hoje quebro teu osso
é hoje que te dou pernada
não de pinça
de balestrada
pra te emborcar as bolas
pois é agora
que abro também tua jaca
e desdobro uma por uma
as tuas ideias plissadas
hoje eu vou te concutir
e depois ainda passo um arado
na tua roça de cicatriz
vou te deixar terraplano
desengelhar teu bornal
te martelar o bife dos quartos
despilorar a mucosa crispada
pois toma-te-lhe, ó fona
tralhoto gorado
vou te desconcavar os písceos
é hoje que quebro teu osso.

63
Salmo

Faz de mim uma gota de porra


descendo por tua bunda
até se misturar com teu cheiro
com o doce cheiro do seu cu
doce e amargo
Põe minha língua
como um selo ,
como um selo no teu grelo
Pois forte como a Morte
é o teu desejo,
divino que guia
as estocadas
dos meus dardos de fogo;
chama sobre chama…
Que Águas antediluvianas
não conseguem
extinguir
ardor sobre furor
mais forte que a eternidade dos mortos.
Sagrada
é minha flecha de fogo,
entrando e saindo
da tua cona

64
Pietà

1.

Preciso, tenho necessidade. Ou talvez deva, se por acaso você diz meu nome.
Não sei se me entende, se vê sentido nisso. Às vezes você é tão lógica. Mas
explico. Sinto que devo. Que me sinto em dívida e que preciso. Que tudo
isso tem a ver com você. Preciso, devo lhe contar tudo. Preciso lhe contar,
preciso de você. Preciso de você para contar. Sim, preciso. Preciso dos seus
olhos, da amnésia do seu nome. De você e de mais ninguém. De você, nada
mais do que você. Preciso de você com urgência, com paixão. Vejo que vem
ao meu encontro. Você é tão decidida, pega as malas e vem. Não que precise
que decida para mim. Tudo o que tenho é de você sobre você para você com
você. Você só, você. Preciso lhe contar tudo. Preciso escrever. Contar tudo.

2.

O que vem a ser tudo? Tudo é o que vem a ser. Talvez nada especificamente.
Entende? Tudo é quando você vem chegando. Com as malas na mão. Tudo é
o que começa a ser dito. Tudo é aquilo que importa, tudo é o que mobiliza.
É o que há de irresistível. Preciso lhe dizer o que vem de começar. Que algo
começou, que algo aconteceu. O que vem acontecendo e talvez um dia terá
acontecido. Não sei se terá fim. Como também não sei de mim ao cabo dessa
linha. Olho você para confirmar que vem vindo, que está chegando. Que
continua decidida. Sinto um frio na barriga. Engulo o que disse, respiro e me
digo que vem vindo, que vem acontecendo. Digo e se isso não acontece, digo-
me, nada terá acontecido. Acontecimento não haverá. Apenas terá ocorrido se
um haver houver. Preciso que você chegue para lhe contar. Que venha. Não
venho com faixas e cartazes. Preciso lhe dizer tudo ao pé do ouvido. Tudo é
muito simples, simples demais. Não sei se você me entende. Deixe-me dizer.

3.

Ou então sente-se nesse banco de estação. Preciso do seu corpo, sentir as


suas pernas. Quero seu colo, quero lhe contar. Envolva-me com seus braços
enquanto me deito. Envolva-me um instante. Em breve terei contado tudo.
Já não estarei mais aqui. Não terei acontecido. Nada terá acontecido. Ou
teria? Você é tão distraída. É seu charme nessas horas. Combina com seus
cabelos. Talvez então ao ver você distraída, ao dizer isso, eu esteja morto.
Talvez já esteja, se esse é seu desejo. Estarei morto quando quiser. Quando

65
tiver decidido. Mas hoje não combina com seu olhar perdido. Desconfio que
levemente vesgo. É seu charme. Seria seu desejo? Se for seu desejo cá estou.
Estou morto. Estou no seu colo morto. Pendo sangro esvaio-me. É dessa
boca oca que as palavras me escaparão. Como faíscas rumo a seu ouvido
mouco, perto da mecha desarrumada dos cabelos. Estarei esquecido. Apenas
um ruído. Ali estará o seu ouvido.

4.

Agora encoste-se. Quero você no meu colo para lhe contar. Quero seu corpo
no meu colo, quero minha mão no seu corpo. Seu peito debaixo de tanta
roupa. Você é tão compacta. Você omite suas fendas. Minha mão pousada
sobre seu corpo, sobre uma camada de roupas. Como palavras sobre o ouvido
do moribundo. Gostaria de lhe dizer tudo mas você já está morta. Não sei se
você me entende. Se você me ouve. Digo-lhe isso e você está morta. Digo-lhe
justamente por isso. Porque está morta. Esperando que me ouça. Esperando
ainda ter esperança. É com você que estou falando, estendida, autônoma,
compacta. Sua morte nos separa como um crepúsculo, como uma galáxia.
Você era tão intuitiva. Preferia histórias. Que lhe contasse histórias. Preferia
sempre o outro mundo. Eu lhe aceno com o outro mundo, mas bem aqui.
Ei-lo. Olhe minhas mãos.

5.

Mudemos de posição e continuemos. Poderíamos ficar horas assim. É como


se nada mais existisse. Só o nosso delírio. Diga-me você, então. Fique à
vontade para dizer. Você que é tão falante. Você tem resposta para tudo. Você
conta histórias em cadeia, como se se encadeassem. Mas não. Você conta
aquilo que está acontecendo, como se tudo fosse parte de uma história.
Como se o mundo fosse uma grande invenção ininterrupta. Sua língua é uma
promessa. Mas do quê? Sua língua não me distrai. Sua língua me arrepia.
Sugere um ritmo. Meu corpo no seu ritmo. Vou buscá-la em sua boca. Ela
faz movimentos articulados. Ela orienta os gestos do corpo. Meu corpo faz o
que você diz. Seu corpo faz. Meu corpo está à espera da sua língua. Diga-me.
Mas diga-me baixo desta vez. Diga agora ao meu ouvido. Estou a seus pés
para ouvi-la. Ao dizer obscenidades como consegue ser tão fria? Essa frieza
de rocha. Diga-me. E se você me disser eu conto. Conte-me. E se você me
contar existo. Contarei tudo desde que você exista. E você repetirá o que eu
disse, feliz de finalmente estarmos juntos. Olhando-me como se nos olhos.
Como se estivesse viva.

66
todos aqueles cães
eram cadelas

bocetas ao sol
não é todo dia

67
é uma love story e é sobre um acidente

primeiro, a cena congelada.


um dedo pousa no vidro,
a tela vibra.
você lembra o que
disse na hora? você gritou? doeu?
você lembra do que aconteceu?
– a curva, a chuva, um clarão.

(depois ela acabou,


foi embora para o sul)

você lembra o que disse na hora


em que o carro deslizou?
três horas na chuva esperando,
a curva, o estrondo – você lembra?
você entre as ferragens
perguntando o que houve.

(mas isso é um acidente


e é sobre uma love story)

o amor, diz, é um efeito especial,


pensa que viu tudo
mas quando acende a luz
os pontos
cegos se espalham:
uma fossa abissal, uma nuvem
de distância e uma cidade chamada vidro ou
vértice
volpi ou verdi.

o amor é alguém entrando


na geometria da sua mão.

neste momento atravessa o corredor:


– não há mais isso entre nós,
de onde o timbre da sua voz
um efeito-estertor.

68
(dentro do poema
pode sentir o efeito
e nessa hora todos os porquês
ficam silenciados)

o amor é isso, diz, não um corvo,


mas um impermeável vermelho pendurado
na janela vindo de outro poema
para tocar na sua tela.

é você comendo o que sobrou


depois do estrondo.

o amor é este olhar que mancha


a retina na hora da emergência,
um olho cinzento que treme
sempre que muda
de hemisfério

“é difícil olhar as coisas


diretamente”,
elas são muito luminosas
ou muito escuras

2/3 deste país são feitos de água


e sempre que se vira, um
afogamento.
apenas um mergulho
dizia a imagem. vamos ver o deserto,
andar pelo centro do mundo?

mas isso é um dicionário


e é sobre uma love story.

69
Characters

: a menina japonesa
que vi no último inverno em Essex
conversava com seu amigo
enquanto esperava o ônibus.

: eu esperava o ônibus e vi, sem


fixar os meus olhos,
a menina coreana
vestida como uma boneca,
ou era uma boneca vestida
de menina?

: parecia tão à vontade, não se importava


com meus olhares vagos
ou antes preocupados
em ver sem olhar
o que provocava a elegante menina
japonesa com laços de fita no cabelo,
laços de fita no vestido,
laços de fita no sapato.

: com certeza uma Korean doll


ou uma Lolita japanese subculture
ou uma tentação no ar gelado
que subitamente derrete
o espaço.

70
Os pelos

Começou já assim
Nós dois deitados de costas
Indo e vindo
Ela usa óculos de piscina
E touca psicodélica
Sorriso sem cadastro
Braços pro alto
As axilas peludas
Me levam à loucura
Me deixam quase réveillon
Seus lábios inchados
Engolem meu pau violeta
Só penso não para
Até que ela tira ele de lá
Encosta a costela na minha perna
E passa a esfregar ele
E ri em transe e esfrega
Dá um zoom e vê o céu
Não olha nunca para mim
Apenas sorri e me esfrega
Sob seu braço direito
Meto em seus pelos eriçados
Esfrega com mais força
Só faço o que ela quer
A sua mão esquerda
Me bota de vez na cara da morte
Mergulho do alto do prédio
De repente explode a carne
Ela sorri vitoriosa
Os pelos grudados de felicidade
Não há tempo de despedidas
A imagem congela e fim
– E eu ainda não cheguei lá.

71
I

retalhar a carne
que a carne é fraca
tanto se lhe bata
chicote ou sálvia
tanto se lhe faça
desenho a faca
pau pedra porra
brava brecha brasa
cantemos aleluias
pele pica pala
retalhar a carne
que a carne é graça
renda e louvor
céu e pássara.

II

se render à carne
que a carne é fraca
tanto se lhe queira
o lume a brasa
tanto se lhe bata
onda ou palma
espinho que penetre
uva vulva gruta
cantemos nossa graça
e a pele mais elástica
se render à carne
que a carne é graça
dobra e redobra
peixe e água.

72
III

se fartar de carne
que a carne é fraca
tanto se lhe morda
o dente a acha
tanto se lhe busque
a mão a alma
olho que a desnude
peito pelo lábios
broto lua grelo
saudemos nossa caça
se fartar de carne
que a carne é graça
tecido que se esgarça
terra e casa.

73
Rasgos

no ponto-cheio
do meu corpo
contra teu corpo
alinhavado.
Tecido suturado
ponto-cego do desejo.

Agora, desabotoa-me a pele


atravessa-me.

Veste-me teu corpo


de seda e silêncio.

74
Kind of blues

Quando você vai por esse caminho,


pode seguir em diante infinitamente
Miles Davis

Fazia um calor infernal. Ele vertia gotas de gelo do bourbon nas costas dela,
indolente, ao som do álbum de jazz. O líquido escorria lentamente pela
espinha dorsal e seu corpo rebrilhava. O vagar do trompete de Miles deslizava
na sua mente. E a língua dele sorvia as gotas, sem pressa, que escorriam
da nuca ao ânus. De Bill Evans a Coltrane. Sua coluna de fogo ascendia,
serpenteando, temperada pelas notas do blues. Estavam finalmente livres de
saber, improvisando uma modalidade própria de amor sem nome. Sem que
o êxtase repousasse em si, seguiam num groove infinito. Depois de horas,
exaustos, largaram-se na cama num langor-ardor. A madrugada vencia-os.
Blue in green. Ao acordar ele disse: sonhei com uma nuvem azul de fumaça
que deslizava numa espiral em direção ao sol. Ela sorriu. O cheiro de um
no outro, incensava o ar úmido do verão. Retornaram à melodia inicial,
intimamente, como pássaros em migrações, atravessando longas distâncias
sobre o mar.

75
Palavra final

amai-vos uns aos outros


e o resto que se foda

76
De Ouriço

II

O amor é lindo.
mas o meu amor é mais lindo:

as dobras brancas do bumbum


e o promontório

– eu deito sobre ele a cara,


os lábios, a língua.

Deito a mão, o lado,


a palma,

a língua, a língua afirmando:


o cu do meu amor é lindo.

Disse ao meu amor


um amigo:

coisa estranha
o beijo de outro homem –

há a barba
roçando em outra barba,

e a boca
tocando em aspereza.

E ele me fala,
a boca colada no ouvido:

quanto de leveza
pode haver sob o áspero

77
– o peito do ouriço,
acaso, tem espinhos?

E lambendo-me a nuca
(que salgada!), a sentença:

todo homem,
uma vez, beije a boca de outro homem.

78
Canção pra foder nathália

vou devassar a cona de nathália


a dedos, língua, cruz e sousa.

se rapidinho não me demora


subo a sugar seus peitos flácidos, belicosos.

mas, ai, que ela implora


– fica, desce, entra, esconde, enterra, fica!

se afoitas de chupar não esquecemos, ‘inda mais deliciosos


são os vaga-lúmens de seu cuzinho a anunciar os
crepúsculos dos anéis de saturno.

79
Hard porn

penetro
cada elemento possível
:
dedo, mão, coxas entre
laçadas, boca, língua,
cheiro
; você,
gulosa, sorve
e abduz em sua boca
o favo
do mel a te temperar
com uma alegria
infantil e uma
fúria
indecente enquanto se
posta de quatro e
pede “bate!”
; as ancas latifundiárias
se expandindo em minha
frente
enquanto me enfio
e domino todo colo
do teu útero e
cutuco o fundo
da sua carne
com minha vara
em riste
; as cinturas
seguindo o pancadão
, frenéticas
, enquanto ardem
no lombo e avermelham
as marcas da mão
- na cara, na cara!
; ela é cada palavrão,
nome impróprio,
armageddon, despiste
de deus, próprio inferno

80
; arde
menos a pele
que a alma
se entregando
por qualquer desejo
, adoradora fálica
, famélica
; se revira
, ergue o torso sobre a cama
cavaleira que só
, nas pradarias
da sua própria pele umedecida
pela
cachoeira
de vertigens

; ninfa
, o calor dos seus
domínios saqueados
por hordas
, em chama os vales
, florestas
, você
entregue ao próprio
fogo
; “o anel que tu me destes
tinha prega e se rasgou
. foi chorar o seu cuzinho
: a vaselina acabou”

; encaro
o
buraco
o
co
e fundo
do
teu cu aberto
lo
go

81
relembro
a lua, o
astro
nauta lento
fincando
o
mastro
no
solo
iluminado

; as britadeiras na rua
são mais lentas que meu
sadismo sodomita,
estocada,
estocada,
estocadas as energias,
epicentro do
teu gozo,
terremotam
o corpo que liquefaz-se
e, antes da morte
anunciada
, recebe no rosto o jorro
do chafariz em lava
e lava a cara suja
da porra
do amor.

82
te procuro obsessivamente nas melancolias das mãos
nos domingos silenciosos que custam a passar
nas tardes que ardem desdém e não consigo enxergar
nenhuma humanidade

nas terras distantes da memória


algo se move sem ruído
às vezes sinto frio mas isso não me impede
de te olhar com concentração

é porque tu estás aqui e isso me acalma


se esqueço algumas dores
talvez não sejam atos falhos mas modos
de nos prevenir o rompimento de alguma
ferida contínua

as laranjas têm almas? se pergunta a poeta


tu ainda me ama?
há certos rios que é preciso rever
e tentar não se afogar, mesmo que te busque
no fim da noite

leva contigo ao menos esse abrigo


e nos dias frios se aperta contra ele
um cheiro último talvez te lembre
que as noites de amores são breves
mas ainda existem

83
[fundo]

clichê clássico
eu te amo do fundo
do meu útero
solo sagrado de pecado
perto de onde seu pau se enfia encosta e arde
no limiar da dor
afina o violino do futuro
células dançam
leite manchando mundinho cor de rosa
você não tem vontade de ir embora
porque chão é cama, chuveiro é cama
areia espelho escada e também em pé
cama é onde você se deita sente meu cheiro e perde o sono
onde eu mostro que as poetas são mais
com a mão dentro da calça
olhando fundo no seu olho
amando de novo

84
Quantas vezes pedi a orixás e santos,
Maximin, fazer de mim todo ânus
quando de pé te vejo, ou em decúbito,
seja ventral ou dorsal, ventríloquo
que és do teu pau. O teu corpo todo
é só chão sob obelisco, do chuço
madeira que apoia a ponta-de-lança,
em oito quinas tu me fazes cubo.
Quisera em teu tanquinho ralar a pança.
Que o guindaste erga-se! Eu flutuo.
Não sou eu só invólucro de um cu
e boca? Entra. Que jamais descanses.
Não espano, porca do teu parafuso.
Maximin, cruza enfim o Arco do Triunfo!

85
Dança

os pés
movimentos trêmulos
embrenho a maçã
a carne
roxa
diabólica
um grão de arroz
a faringe
o primeiro tiro

a boca um neon
seus espelhos
firmes
se contorcem
em pétalas longas

o ponto
gesto mínimo
brota
da carne
queira ou não queira
de onde surgem
as feições

passos de girafa
a fumaça semibreve

86
Lot

um lugar
ancora o tempo
e o tempo é de castigo

lágrimas
uma gota escorreu
entre as coxas

impuras
colunas de sal seu gosto
alcalino e antigo

a maldição a praga a peste


são palavras
femininas

num deserto
de mármore eu me deito
despida
de pernas abertas
imóvel

um lagarto com escamas de lantejoula


se aproxima
seu guizo é vagaroso
e meu útero
sua toca

humilhada por esta miragem


não quero que me vejam assim
por favor, feche os olhos

enquanto desejo
lugares onde habitam os mortos, meu gozo
na boca de deus

87
hálito Gelol
e estupidez santista

tombada a oeste da inocência


anca do porto

par de ferraduras bronze


em olhos azuis assinando a lua

lábios de pneus Jardel Filho


para que manhãs sorvam luz

corpos nus
não um no outro

colados ao plástico
que reveste os bancos deste automóvel novo

sono que se aproxima


com o peso de dívidas sem saída

88
As moças

Como duas moças se encontram


pelas moitas? como entram duas vulvas
sob a colcha?
como sem mergulho
marulham no fundo os líquidos
de uma na outra?
Como, como –
por que poder de Deus
– as moças
se comem se comem se comem
com as coxas?

89
vagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundava
gabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavaga
bundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabu
ndavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabund
avagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundav
agabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavag
abundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagab
undavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabun
davagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabunda
vagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundava
gabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavaga
bundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabu
ndavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabund
avagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundav
agabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavag
abundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagab
undavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabun
davagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabunda
vagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundava
gabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavaga
bundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabu
ndavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabund
avagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundav
agabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavag
abundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagab
undavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabun
davagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabunda
vagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundava
gabundavagabundavagabundavagabundavagabundavagabundavaga

90
O phallus antigo

Quando explodiram os muros cheios de sangue,


havia gente em cima dos muros
e os muros
cheios de sangue
o sangue
dos muros
cheios
de sangue
era de quem
procriava sobre eles.

Quando explodiram os muros cheios de sangue,


veio gente para ver o que saía dos muros cheios de sangue,
o que tanto ali faziam
se vida ou se morte
“Repetem poemas de sangue”,
voltavam contando de lá,
“Como quem morde uma pedra”.
E eu, menino de cicatrizes, sentia aranhas no meu estômago.

Disseram sempre
e com tal convicção
que os muros eram a pele do mundo
que alguns
mais vaidosos
marcaram à unha seus nomes
nos olhos, nos braços, nos cabelos dos muros.
Outros
menos habilidosos
agarravam as canelas dos que estavam sobre os muros,
calças arreadas, pés contraídos, vermelhos, muito vermelhos,
para, no gozo, não cair.

“São tantos”,
voltavam contando de lá,
“Que o gramado
não é mais verde”.
E eu, menino cheio de nadas, sentia gosto de ferro na língua.

91
Um dia os homens se armaram
com bombas de hidrogênio, tanques, granadas, arcabuzes, facas, pedras,
dedos, dentes.
Lavaram as pernas, os braços e as genitálias, untaram os cabelos,
escovaram o paletó, cortaram as unhas e os pelos das orelhas.
Em casa, crianças seminuas sacudiam as pernas no alto de um galho,
Mulheres descalças espetavam a carne assada no fogo,
Velhas insuspeitas esperavam no portão o marido morto na guerra.
Na rua, caminhando, braços excessivamente soltos,
calças meio largas de um terno há muito desfeito,
os homens talvez marchassem, um sorriso de pânico,
pavor de encontrar no fim do caminho um mundo de espelho.

Quando explodiram os muros cheios de sangue


abriu no céu
uma ferida:
o nome da boca,
o estalo do nervo,
a hibridização do elétron,
o sal na terra.
Quando explodiram os muros cheios de sangue
então
enfim
acho que curvado sobre si mesmo,
em posição fetal,
estava eu,
acho que era eu,
encharcado aos pés do muro.
“Queria sangue”,
voltaram contando de lá,
“Queria sangue e não era pouco.
Tinha sangue na cara, na roupa, os cabelos melados,
e queria mais”.

92
Nunca quisemos mudar o mundo.
Os homens, os homens lá fora.
Ouço uma sirene
e subitamente
uma correnteza de tiros.
Bomba contra bomba,
Lâmina abrindo outra lâmina.
“Quando explodiram os muros cheios de sangue”,
voltaram contando de lá,
“encontraram um homem debaixo do muro,
um homem dentro do muro.
Bebia o sangue dos que procriavam sobre os muros.
Um mundo todo de carne.
O muro se afundava nele,
e as veias, como trepadeiras, subiam o muro.
E as carnes eram tijolos
e os ossos eram ferragem
e o sexo uma infiltração constante e sanguínea:
mundo nenhum seu”.

O mar e o sal,
a terra revirada,
a terra e o sal.
Espuma e madeira e carne retalhada.

O mar que não muda O mar que muda sempre.

Homens abrem com os dentes pedras de 100 milhões de éons.


Muros tombando.
As paredes de casa vibram e desfalecem contra um aguaceiro vermelho:
explodiram os muros cheios de sangue.

Teus olhos de fome Tua fome de olhos:


carne, terra, papel, carbono, dinamite, pétala, hímen.

93
Te esfolaram dentro de um buraco para ver se você conseguia,
no pânico de fugir,
se dissolver na terra.
Depois te tiraram o escuro, depois o claro,
e te puxaram para fora:

procriação.

Sempre renovados muros cheios de sangue:


alternando o fogo nas águas,
vomitando a tortura em copos de leite.

A síntese das cores escorrendo sobre o vidro.


A fumaça sobre o calor da planície devastada.
Braços surgindo das ruínas e se erguendo para o céu, contra o céu.
Uma fogueira que come cabelos, músculos, pelos, escarros, suores, óleos,
espermas,
óvulos rotos, vozes de placenta, náuseas de útero,
arregalados olhos de pânico, línguas infestadas de branco.

Isso
que é meio espuma
meio pedra
Isso
que é meio esperma na terra
meio óvulo na água
Isso
que é meio sangue e sol,
carne viva se abrindo
Isso
senhoras e senhores
cantarei.

(Isto aqui com isso aí daria o nosso filho.


Disto aqui com isso aí nasceria o nosso filho.)

Com uma voz ou uma cítara,

94
debaixo de um muro ou em cima de um muro
– dentro de um muro –,
entre homens que vão derrubar muros cheios de sangue
e entre mulheres que em casa esperam que suas paredes nunca se encham
de sangue,

cantarei.

A mão comprimida do penetrado e a barriga inchada do afogado,


O boi percorrendo imensas vacas,
O país desenhado na casca de uma maçã.
O homem que cai para frente no banheiro,
em prantos,
e abre os testículos contra a quina da pia.
O velho que se recusa a destrancar a porta.
O adolescente de olhos fundos, boca aberta,
dormindo no banco de trás.
A festa de 15 anos cancelada: suicídio atrás de casa.
As bodas de ouro comemoradas num hospício:
duas macas lado a lado, um copo vazio, uma rosa de sangue.
Brilhosos homens de quatro,
pálidas mulheres se lavando num tanque.
Força, força, força.
Crianças descabeladas com um olho na fechadura: o pai molhando um
clitóris.
O silêncio dos ancestrais, os álbuns de família esquecidos na mudança,
os cemitérios para ambos os sexos, sem separação:

procriação.

Eu cantarei,
senhoras e senhores,

vocês.

95
Cobre
Minha boca passeia
pelo teu corpo
escorre da nuca
às costas
desce
e faz brotar
a seiva
que anseio
entre teus entres
desce
até a base
da coluna
desse
deslumbramento
que arranho
com os dentes
descem
os meus lábios
deslizam lentos
em tua pele
descem
em direção
ao cóccix
em busca de
acesso
como se
dessem
conta dos teus sumos
que não cessam
desço
ao teu cu fúcsia
ou quase (a cor)
que minha língua
rubra cobre
ao abrir-se de desejo
que me chama
acesa intensa
mais adentro
em nosso
quente
e urgente
movimento

96
Luana coroa baiana
tarada por anal de 4 quente
na cama garganta
profunda oral até o fim

97
e se eu te contar que já matei cinco putas de uma só vez
porque elas disseram que não gostavam dos filmes
do almodóvar e que volver era a pior coisa que elas haviam
visto em anos
e que antes de elas morrerem a gente conversou, bebeu
e riu pra caralho por causa de um cara que parecia
o houellebecq todo fodido fumando cigarro eletrônico
e que uma delas se chamava ana cristina e a outra matilde
e a outra anne e a outra elisabeth
e eu disse que só faltava uma se chamar sylvia
para que nós começássemos a foder por poesia
e que se pudéssemos nos arregaçaríamos ali mesmo
cada um com uma garrafa de cerveja
coisas fodidas a dizer, exalando um pouco de dor,
sufocando cada palavra
e que depois pegamos um ônibus na visconde de nacar
descemos perto da rodoviária
e compramos passagens para pontal do sul
e que o sol arrebentava na janela
e elas puxavam as cortinas para que ele
não conseguisse penetrá-las
e que quando descemos o sol atingiu a pele delas
e conseguiu costurar-se em cada uma
e elas depois de um tempo começaram a carregá-lo
como se nelas ele habitasse sem data, indeterminável
o sol formando cascas e assumindo a integridade dos corpos
tanta foda e nada de substância
tanto nada para a consumação de cinco corpos
encalacrados de desamor.

98
Rumo ao paraíso

“... e uma criança os guiará.”


Isaías 11:6

Milênios e milênios de luta


pela sobrevivência entre as espécies,
fizeram-nos assim tão animais
entre os nossos iguais, filhos da puta,
traidores, escrotos e que tais.
Deixai brincar as feras todas, presas
do primitivo instinto assassino.
Deixai brincar as feras, que o menino
nos conduza nos atos e palavras.
Retornemos, agora, ao paraíso
na plena comunhão dos animais.
Jamais exista algo de mais puro
do que nós dois juntinhos, de pau duro.

99
Satisfação

hoje você é rainha


e eu ando na minha
mas posso dizer na vida
que entre uma foda e outra
eu te chupei todinha

100
O canto primeiro,
o tempo suspenso,
a matéria em êxtase

Que a poesia é força imensa, energia (paradoxal) da linguagem, já se sabe:


anterior à própria literatura e seus códigos, anterior aos ritos civilizatórios
que desenvolvemos para a arte da palavra, a poesia se situa no intervalo entre
natureza e cultura, sendo ao mesmo tempo movimento vital, impulso (quase)
orgânico do corpo que quer sair de si, expandir-se, e invenção codificada
e convencional de modos de dizer o mundo, descrevendo-o, revelando-o –
como nas cosmogonias e nos cantos pastoris, por exemplo –, e também de
intervir sobre ele, convocando as suas forças ou interrompendo o seu fluxo
cego, como acontece nos poemas e imprecações xamânicas. Ligada visceral
e inseparavelmente ao corpo, desde suas origens sagradas e performáticas
até os nossos dias – em que pese as muitas formas de abstração da voz e do
gesto que, no Ocidente, tiveram lugar nos últimos séculos –, a poesia tem no
erotismo uma referência contínua, uma zona de convergência estável: como
nos lembra Octavio Paz em La llama doble, o amor e o desejo, o sexo e a pulsão
fusional, atributos de Eros, são elementos incontornáveis da experiência
simbólica humana, modos de conhecimento de si e do outro que passam
pela carne, chave para o desconhecido do real que se transformam em sons
e signos, modos sensíveis da imaginação poética, instantes concretos da luta
que a linguagem (verbal e não-verbal) trava com a própria linguagem, seus
limites e meios de expressão.

Aproximar-se do dado erótico e suas máscaras e sucedâneos (a coisa


amorosa, a energia disruptiva da pornografia) é, no poema, aproximar-se
do canto inaugural que, desde tempos imemoriais, celebra as funções do
corpo, os prazeres complexos do encontro e da mistura dos sexos, o milagre
do ventre fértil e os mistérios que as zonas escuras da matéria carregam.
Para além das listas e genealogias, para além da evocação dos mortos e das
glórias militares, tarefas mundanas e espirituais que couberam à enunciação
poética mais antiga, a poesia surgirá mesmo como fenômeno lírico quando
se transformar em canção da carnalidade, celebração profana da matéria

101
viva e do tempo presente, do gozo que faz suspender os sentidos e falhar a
linguagem, incapaz de traduzir a consumação do corpo e a elevação afetiva
em palavras articuladas, plenas de direção e significado. Conforme se dá a
ver na tradição grega arcaica (especialmente em Safo) e no universo hebraico
anterior ao Cristo (com o Cântico dos Cânticos, por exemplo), um diferente
modus operandi da poesia é posto em questão com o erotismo: o canto breve, a
consagração do agora, a centralidade atribuída ao corpo inventam o sublime
e dão ao sagrado um outro lugar – distante dos rituais e dos nichos, muito
mais próximo da vida cotidiana.

É nesse sentido, portanto, do tempo presente e da vida comum, que se deve


compreender o gesto crítico e criativo dos organizadores de uma antologia
de poesia erótica (amorosa, fescenina, pornográfica) como a que se apresenta
aqui aos leitores, Simultâneos pulsando. Os poemas reunidos por Fabiano
Calixto e Natália Agra, na sua perturbadora diversidade, ganham unidade
quando repetem, cada um a sua maneira e a partir dos dispositivos que
puderam mobilizar, o ato arcaico de voltar os seus olhos e sua atenção para
os interstícios do corpo humano e neles localizar tanto a metafísica possível
(o infinito, o transcendente, o Belo) quanto a origem mesma (suposta,
imaginada) da obra de arte e da poesia, na medida em que muitos dos textos
vão apresentar, na crueza da nomeação vulgar e da descrição direta, o corpo
como palco privilegiado, território de onde emana o desejo de representar
(registrar, arquivar, transmudar) o mundo, criar uma nova faceta do real.
Inscrever-se, traduzir-se: gestos inaugurais da arte que se fazem, justamente,
como enunciação do que há de mais íntimo na própria carne.

ii

A promessa da plenitude, a perversão do gasto: talvez entre esses dois campos


amplos, dois sentidos distintos do erotismo, se movam os mais interessantes
poemas reunidos em Simultâneos pulsando. O que equivale a dizer: de um
lado, alguns dos textos frequentam o enlevo e a melancolia, contrapartes de
um encontro com o outro que abole, momentaneamente, os limites do eu
e a solidão abissal, o ensimesmamento a que todo indivíduo, por definição,
está condenado; trata-se da aspiração utópica, tantas vezes de fundo
sacralizante, que o erotismo contém – e também da tristeza que a consciência
final da incompletude traz consigo. Por outro lado, vários outros poemas
desdobram-se na fulguração do instante e na alegria furiosa da transgressão,
do desconhecimento das leis morais e dos vários interditos que procuram

102
regular, em perspectiva autoritária, o desejo e os prazeres. O poema como
festim orgiástico das palavras, no qual a liberdade vocabular e imagética é
contígua ao desregramento dos sentidos e ao desrecalque do sexo, que se
torna matéria central, referência absoluta de textos abertamente substantivos,
que chamam pelos seus muitos nomes as porções fundamentais da anatomia
amorosa do homem.

“Relâmpagos”, de Ana Martins Marques, poema que abre a antologia (e de


onde, na inversão de um verso, vem o seu título) apresenta o ser impossível,
delicado e monstruoso, que existiu brevemente no próprio sujeito da
enunciação, uma criação do sexo e da intensidade do encontro erótico: “já
fui um ser de duas cabeças / e ancas / já tive quatro pernas duas bocas /
tive quatro braços e mãos / e vinte dedos das mãos / e dois sexos e dois
corações / pulsando / simultâneos”. O acontecimento único do enlace, sua
força iniciática, suspende os limites do eu e refaz o mundo em confusão,
mistura de corpos e coisas, como também será possível observar no poema
de Arnaldo Antunes, “Boceta”, incluído igualmente no livro. A criação de
uma nova dobra da realidade, potência afirmativa de Eros, vem aqui, em
Ana Martins Marques, acompanhada de desencanto: a curta duração do
êxtase (o estado da saída de si) indica a proximidade da morte que sempre
parece rondar, fantasmática, o excesso das paixões e a busca pela totalidade
perdida. A ruptura com o objeto amoroso, o corpo do outro, será sentida
no texto como uma forma de mutilação (metáfora dolorosa que vai remeter
o leitor atento a um outro poema de mesma extração, do israelense Yehuda
Amichai), violência que despedaça a mônada em que se haviam transformado
os amantes.

O ar melancólico desse texto (assim como, de distintos modos, os de Leda


Cartum e Marília Garcia, outros exemplos), seu caráter de recordação lutuosa,
confere uma tonalidade obscura, um muito bem-vindo ponto sombrio no
espectro de cores predominantemente vibrantes que constitui a antologia
proposta por Fabiano Calixto e Natália Agra. A alegria está no cerne de
boa parte dos textos que o livro compila, como no complexo poema de Ana
Estaregui, por exemplo, “[Comemos mel...]”, no qual a avidez da fome e o
incontrolável das passagens entre corpos, objetos, paisagem se afirma, tudo
girando numa máquina desejante que expõe, revelando, o “vestígio luminoso
/ no interior de cada fibra”, a velocidade feroz que está implicada no contato
erótico com o outro, com o mundo. Está também a alegria na desrepressão da
língua, enumeração pornô e chula das peripécias sexuais que, inventariando o
gozo, retomam o gesto transgressor de poetas de outro tempo aqui lembrados

103
(como é o caso de Gregório de Mattos, Hilda Hilst e Roberto Piva, entre
outros) e afirmam o afastamento que a lírica contemporânea brasileira
mantém da assepsia anódina de parte da poesia produzida nos anos 1990,
tantas vezes distante do sexo e do calão.

Combinando autores que já produziam poesia de alta voltagem erótica e


pornográfica, como Waldo Motta e Glauco Mattos, pertencentes a outras
gerações, com novos e novíssimos nomes que foram atrelando seu trabalho
ao roldão de poemas intensamente amorosos e carnais da poesia brasileira
(Ricardo Domeneck, Simone Brantes, Italo Diblasi, entre outros), Simultâneos
pulsando tem o mérito de provocar em autores aparentemente muito distantes
do erotismo respostas estéticas muito interessantes, trazendo à tona de suas
obras o que antes poderia passar despercebido, ofuscado por outros aspectos
da produção. Será o caso de Júlia de Carvalho Hansen (cujos Alforria blues e
Seiva veneno ou fruto estão impregnados de vida e corporalidade, aproximando-
se do sublime, mas que não tinham na pulsão erótica o seu centro, como
tem agora o seu “Semana internacional do silêncio entre as Américas”); será
também o caso de Leonardo Gandolfi (“Bola gato”) e Jussara Salazar (“Yo,
la peor de todas”), cujos trabalhos remetem ao humor e ao imaginário da
cultura pop, de um lado, e aos mitos e rituais da cultura popular do Nordeste,
de outro: em nenhum deles a centralidade do corpo ou a transgressividade
do desejo, o que torna ainda mais proveitoso ler, em perspectiva comparativa,
o que na antologia se apresenta com o restante da produção que de outros
modos se vai publicando e fazendo notar.

iii

Feito um dia morada de Deus (de um deus único, possessivo e zeloso de


tudo o que lhe pertencia), o corpo deixou de pertencer aos homens, que
foram perdendo, através dos séculos, direito sobre os seus movimentos
e desejos, reentrâncias e possibilidades. Tudo o que é sagrado, Agamben
nos lembra, deve ser interdito às mãos e ao toque – às vezes até mesmo
aos olhos. A sacralidade reside no mistério e na distância, e é uma forma
radical de despossessão. O que o erotismo faz, nas artes e fora delas, pode
ser compreendido como um modo de profanação, e como tal, de novo em
sintonia com Giorgio Agamben, um modo bastante particular de restituição:
a pele que se entrega ao toque e à contemplação do outro, a boca que enuncia
aos gritos o seu próprio prazer, o sexo que se oferece, em flor, ao contato
com outros sexos, trata de restituir a si mesmo, isto é, ao próprio homem,

104
o seu corpo. Subtraindo o corpo ao controle simbólico do poder (temporal
e religioso), o poema erótico devolve aos homens a posse daquilo que lhes
é mais íntimo e seu, mais próprio e precioso: o seu corpo, superfície porosa
ávida por acoplar-se a outras texturas, outros orifícios, distintas cavidades.
Através da palavra poética, o homem pode furtar a si momentaneamente
dos olhos vigilantes do Estado, da culpa e da civilização para entregar-se,
restituído, aos usos comuns do prazer, do gasto e da subversão. Para os que
querem fazê-lo, a presente antologia deverá ser, a partir de agora, referência
segura e incontornável.

Gustavo Silveira Ribeiro

Professor da Faculdade de Letras da ufmg

105
Sobre os autores

Adelaide do Julinho vive em Belo Horizonte (mg). Poeta neobarraco, é uma das
Escritoras Suicidas. Foi publicada em Dedo de moça – uma antologia das escritoras
suicidas (São Paulo: Terracota Editora, 2009) e 29 de abril: o verso da violência (Patuá,
2015), entre outras. Foi uma dos autores convidados da mostra #Tuiteratura (São
Paulo: Sesc Santo Amaro, 2013).

Ademir Assunção nasceu em Araraquara (sp). Poeta, escritor e jornalista, publicou


14 livros, dentre eles A voz do ventríloquo, Ninguém na Praia Brava e Zona Branca.
Tem poemas e contos traduzidos para o inglês, espanhol e alemão. Letrista de
música popular, tem parcerias gravadas por Itamar Assumpção, Edvaldo Santana e
Ney Matogrosso. É um dos editores da revista literária Coyote.

Alberto Lins Caldas publicou os livros de contos Babel (Revan, 2001), gorgonas
(cep, 2008); os romances senhor krauze (Revan, 2009), Veneza (Penalux, 2016), a
grande morte do conselheiro esterházy (Penalux, 2018/no prelo), e os livros de poemas No
interior da serpente (Pindorama, 1987), minos (Íbis Libris, 2011), de corpo presente (Íbis
Libris, 2013), 4x3 - Trílogo in Traduções (Ibis Libris, 2014) – com Tavinho Paes e João
José de Melo Franco, a perversa migração das baleias azuis (Ibis Libris, 2015), a pequena
metafisica dos babuinos de gibraltar, (Ibis Libris, 2016), minha pessoa sob o dominio dos
barbaros (Ibis Libris, 2018). Blog: www.poemasalbertolinscaldas.blogspot.com.br

Ana Elisa Ribeiro nasceu em Belo Horizonte (mg), em 1975. Publicou, entre
outros volumes, os livros de poesia Poesinha (Pandora, 1997), Perversa (Ciência do
Acidente, 2002), Fresta por onde olhar (InterDitado, 2008), Anzol de pescar infernos
(Patuá, 2013 – semifinalista do prêmio Portugal Telecom), Xadrez (Scriptum,
2015), Por um triz (rhj, 2016) e Álbum (Relicário, 2018 – Prêmio Nacional Manaus).
Foi curadora e editora, junto com Bruno Brum, da Coleção Leve um Livro, que
distribuiu milhares de livretos de poesia contemporânea pela cidade.

Ana Estaregui nasceu em Sorocaba (sp), em 1987. É autora dos livros Chá de
jasmim (Patuá, 2014) e Coração de boi (7Letras, 2016) – ambos contemplados pelo
Proac de poesia, e o último, finalista do Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da
Biblioteca Nacional, em 2017. É formada em artes visuais pela faap e mestranda em
literatura e crítica literária pela puc-sp.

Ana Kiffer é escritora, professora de literatura da puc-Rio, colunista da Revista


Pessoa, editora da revista DR. Publicou Tiráspola e Desaparecimentos (Garupa, 2016)
e A punhalada, pela Coleção Megamíni (7Letras, 2016).

106
Ana Martins Marques é poeta. Formada em letras e doutora em literatura
comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais, ufmg. É autora dos livros
A vida submarina (Scriptum, 2009), Da arte das armadilhas (Cia. das Letras, 2011),
O livro das semelhanças (Cia. das Letras, 2015), com o qual foi finalista do Portugal
Telecom e recebeu o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional. Publicou, ainda,
Duas janelas, escrito em dupla com Marcos Siscar (Luna Parque, 2016), e Como se
fosse a casa (uma correspondência) – com Eduardo Jorge (Relicário, 2017).

Arnaldo Antunes nasceu em São Paulo (sp), em 1960. Poeta, compositor e artista
visual. Foi um dos criadores e membro dos Titãs, com quem lançou os discos Titãs
(1984), Televisão (1985), Cabeça dinossauro (1986), Jesus não tem dentes no país dos
banguelas (1987), Go Back (1988), Õ Blésq Blom (1989) e Tudo ao mesmo tempo agora
(1991). Já em carreira solo, lançou os discos Nome (1993), Ninguém (1995), O silêncio
(1996), Um som (1998), O Corpo (2000), Paradeiro (2001), Saiba (2004), Qualquer
(2006), Iê-iê-iê (2009), Pequeno cidadão (2009), Disco (2013), Já é (2015) e rstuvxz
(2018). Publicou os livros de poesia Ou e (1983), Psia (1986), Tudos (1990), As
coisas (1992), Nome (1993), 2 ou + corpos no mesmo espaço (1997), Palavra desordem
(2002), et eu e tu (2003), Como é que chama o nome disso (2006), n.d.a. (2010) e
Agora aqui ninguém precisa de si (2015).

Assionara Souza nasceu em Caicó (rn), em 1969. Radicou-se em Curitiba/PR.


Formada em estudos literários pela Universidade Federal do Paraná, ufpr, onde
pesquisou a obra de Osman Lins. Publicou os volumes de contos Cecília não é um
cachimbo (2005), Amanhã.Com sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011) e Na rua:
a caminho do circo (2014) – contemplado com a Bolsa Petrobras (2014), e Alquimista na
chuva (Kotter, 2017). Sua obra tem sido publicada no México pela editora Calygramma.
Participava do coletivo Escritoras Suicidas. Idealizou e coordenou o projeto Translações:
literatura em trânsito [antologia de autores paranaenses: www.literaturaemtransito.
com]. Estreou na dramaturgia com a assinatura da peça Das mulheres de antes (2016),
com a Inominável Companhia de Teatro. Morreu no dia 21 de maio de 2018.

Bruno Brum nasceu em Belo Horizonte (mg), em 1981. Atualmente vive em São
Paulo. É poeta e designer gráfico. Publicou os livros Mínima ideia (2004), Cada
(2007), Mastodontes na sala de espera (2011) – vencedor do Prêmio Governo de
Minas Gerais de Literatura 2010, na categoria poesia, e 20 sucessos (2016 – em
parceria com Fabiano Calixto). Idealizou, junto com Ana Elisa Ribeiro, a Coleção
Leve um livro.

Carla Diacov nasceu em São Bernardo do Campo (sp), em 1975. É poeta e


publicou, entre outros, os livros: Amanhã alguém morre no samba (Douda Correria,
Portugal, 2015), A metáfora mais gentil do mundo gentil, (Macondo Edições, Juiz de
fora, 2016), A menstruação de Valter Hugo Mãe (Casa Mãe, Portugal, 2017).

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Catarina Lins nasceu em Florianópolis (sc), em 1990. É autora de Músculo (7Letras,
2015) Parvo orifício (Garupa, 2016) e O teatro do mundo (7Letras, 2017).

cavalodada, vulgo Reuben da Rocha, nasceu em São Luís do Maranhão, em 1984.


Vive em São Paulo. Publicou os livros As aventuras de cavaloDada em + realidades q
canais de tv (2014), Escaldante (2017), Na curva da cobra nos cornos do touro no couro
do tigre na voz do elefante (2015), e o seriado em seis fascículos Siga os sinais na brasa
longa do haxixe (2015-2016).

Cláudia Sehbe nasceu no Rio Grande do Sul. É poeta e artista visual. Publicou
Somos instantes (Olhares, 2016). É curadora e idealizadora do projeto Palavra, na
feira de arte do Rio de Janeiro. Vive no Rio de Janeiro e desenvolve um trabalho que
une poesia e artes visuais. Participou de diversas exposições coletivas e teve poemas
publicados em vários jornais e revistas.

Dimitri BR, carioca de sangue paraense, faz música, escreve e performa. Publicou
Breviário da sagrada dúvida (megamíni, 2015) e Ocupa (7Letras, 2016), além de
canções & videocanções reunidas no site diahum.com.

Diogo Cardoso nasceu em São Bernardo do Campo (sp). É formado em letras


pela Universidade de São Paulo, usp. Participou de diversos projetos literários,
dentre eles o sarau Faça pArte, em parceria com o departamento de cultura de São
Bernardo do Campo, e Leitores itinerantes, sob curadoria de Tarso de Melo. Publicou
o livro Sem lugar a voz (Dobradura Editorial, 2016).

Douglas Diegues nasceu no Rio de Janeiro (rj), em 1965. Vive em Ponta Porã
(ms). É poeta. Publicou os seguintes livros de poesia: Dá gusto andar desnudo por estas
selvas (2003), Uma flor na solapa da miséria (2007), El astronauta paraguayo (2007),
La camaleoa (2008), dd Erotikon & Salbaje (2009), Sonetokuera en aleman, portuniol
salvaje y guarani (2009). É o fundador da editora cartonera yiyi jambo.

Eduardo Sterzi nasceu em Porto Alegre (rs) e vive em São Paulo. Poeta, crítico
literário e professor de teoria literária na Universidade Estadual de Campinas, Unicamp.
Publicou os livros de poesia Prosa (2001), Aleijão (2009) e Maus poemas (2016).

Fabio Weintraub nasceu em São Paulo (sp). É autor dos livros de poesia Sistema de
erros (Arte Pau-Brasil, 1996), Novo endereço (Nankin/Funalfa, 2002), Baque (Editora
34, 2007), Treme ainda (Editora 34, 2015) e Falso trajeto (Patuá, 2016). Psicólogo
e doutor em letras pela Universidade de São Paulo, usp, realizou pesquisa sobre
representações do espaço urbano na poesia brasileira pós-1990.

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Fabrício Corsaletti nasceu em Santo Anastácio (sp), em 1978, e desde 1997 vive
na capital. Em 2007 publicou o volume Estudos para o seu corpo, que reúne seus
quatro primeiros livros de poesia: Movediço (2001), O sobrevivente (2003) e os então
inéditos História das demolições e Estudos para o seu corpo. Publicou, ainda, Esquimó
(2010 – Prêmio Bravo! 2011), Quadras paulistanas (2013) e Baladas (2016).

Francesca Cricelli nasceu em Ribeirão Preto (sp), em 1982. É poeta, pesquisadora


e tradutora. Publicou Repátria – no Brasil pelo selo Demônio Negro (2015), e na
Itália por Carta Canta (2017), e 16 poemas + 1 – em Nova York (edição da autora,
2017), e em Reykjavík, Islândia (Sagarana Forlag, 2017). Organizou as cartas
de Ungaretti a Bruna Bianco (Mondadori, 2017) e traduziu, entre outros, Elena
Ferrante e Igiaba Scego. É doutoranda em estudos da tradução na Universidade de
São Paulo, usp.

Gabriel Felipe Jacomel nasceu em Joaçaba (sc), em 1985. Pulicou o livro de


poemas Deflora (Patuá, 2016).

Glauco Mattoso nasceu em São Paulo (sp), em 1951. É poeta, ficcionista,


articulista, ensaísta, tradutor e letrista. Estreia na poesia em 1975, com a participação
no livro coletivo Apocrypho Apocalypse. Até os anos 2000, publica mais de 20 títulos
do gênero, organiza antologias e faz crítica literária. Recebeu o Prêmio Oceanos
2015 pela coletânea de sonetilhos Saccola de feira (2014).

Gregório Duvivier nasceu no Rio de Janeiro (rj), em 1986. É poeta, ator e


humorista. Criou em 2012, junto com amigos, o canal de humor Porta dos Fundos.
Publicou os livros A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora (7Letras, 2008),
Ligue os pontos (Cia. das Letras, 2013), os livros de crônica Put some farofa (Cia. das
Letras, 2014) e Caviar é uma ova (Cia. das Letras, 2016), um livro de humor gráfico,
Percatempos (Cia. das Letras, 2015) e uma antologia de poesia humorística, Poema-
piada – Breve antologia da poesia engraçada (Ubu, 2017).

Guilherme Gontijo Flores nasceu em Brasília (df), em 1984. É poeta, tradutor e


professor da ufpr. Publicou os livros Brasa enganosa (2013), Naharia (2017), carvão:
: capim (2017), entre outros. Traduziu Safo: fragmentos completos (Editora 34, 2017),
a Anatomia da melancolia, de Robert Burton, entre outros.

Guilherme Zarvos nasceu em São Paulo (sp) e mora no Rio de Janeiro (rj)
desde os dois anos de idade. É autor, entre outros, dos livros, Beijo na poeira (Pós-
diluviana, 1990), Nacos de carne (Francisco Alves, 1992), Ensaio do povo novo

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(Francisco Alves, 1995), Mais tragédia burguesa (7Letras, 1998), Morrer (Azougue,
2002), Zombar (Francisco Alves, 2004), Branco sobre branco (Ateliê editorial, 2009),
Lições educacionais para Tintum (Nonoar, 2012) e Olho de lince (Circuito, 2015). Nos
anos 1980, foi assistente de Darcy Ribeiro na elaboração dos cieps. Em 1989, junto
com Chacal, criou o evento Terças Poéticas, e, em 1990, o cep 20.000 (Centro de
Experimentações Poéticas 20.000) que já existe a mais de um quarto de século.

Italo Diblasi nasceu no Rio de Janeiro (rj), em 1988. Publicou o livro O limite da
navalha (Garupa, 2016). Tem poemas publicados em revistas e antologias. Edita,
junto com Julia Klien, Santiago Perlingeiro e Chacal, os Cadernos do cep.

Jean Albuquerque nasceu em Maceió (al), em 1987. É Jornalista e escritor.


Publicou os livros Meu peito é um caminhão de mudança abarrotado com todas as
lembranças que você deixou (Selo Oxenti Records, 2016) e Os deuses estão embriagados
de uísque falsificado (Selo Sirva-se Edições Alternativas, 2017). Organizou a coletânea
de contos Inferno tropical (Selo Sirva-se Edições Alternativas, 2018). Atualmente
cursa letras na Universidade Federal de Alagoas, ufal.

Jeanne Callegari nasceu em Uberaba (mg), em 1981. Escreveu Caio Fernando Abreu:
inventário de um escritor irremediável (Seoman, 2008), biografia do autor gaúcho, e
os livros de poemas Miolos frescos (Patuá, 2015) e Botões (Corsário-Satã, 2018). Tem
textos publicados nas antologias Primeiras vozes (Quelônio, 2018), Golpe: antologia-
manifesto (Nosotros, 2017), Sierra Tropicália: poesía contemporánea de Brasil e México
(Cielo Aberto, 2016) e É que os Hussardos chegam hoje (Patuá, 2014). Organiza, junto
com Reuben da Rocha, o Macrofonia!, noite mensal de poesia intermídia ao vivo na
cidade de São Paulo.

Jô Saulo nasceu em Maceió (al). É professor de literatura, músico e compositor.


Publicou seu primeiro livro de poemas: Qualquer curva que me leve sem a sua linha
reta (2017), pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos de Alagoas.

Josely Vianna Baptista nasceu em Curitiba (pr). É poeta, tradutora e editora.


Autora dos livros de poesia Ar (1991), Corpografia (1992), Cadernos da Ameríndia
(1996), A Concha das mil coisas maravilhosas do Velho Caramujo (Mirabilia, 2001 –
vi Prémio Internacional del Libro Ilustrado Infantil y Juvenil do Gov. do México,
On the Shining Screen of the Eyelids (SF, Manifest, 2003 – Prêmio Creative Works
Fund), Los poros floridos (2002), Musa paradisíaca (Mirabilia, 2004), Sol sobre nuvens
(Perspectiva, 2007) e Roça barroca (CosacNaify, 2011/unam, 2018 – Prêmio Jabuti
2012), entre outros. Integra The Oxford Book of Latin American Poetry (ny, Oxford
Univ. Press, 2009). Criadora do site-conceito http://natelarutiladaspalpebras.
telarutila.com/index.html.

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Josoaldo Lima Rêgo nasceu em Coelho Neto (ma), em 1979. É poeta e professor.
Publicou os livros Paisagens possíveis (2010), Variações do mar (2012), Máquina de
filmar (2014), Motim (2015) e Carcaça (2016). Vive em trânsito.

Júlia de Carvalho Hansen nasceu em São Paulo (sp), em 1984. É poeta, astróloga e
editora. Publicou os livros de poesia cantos de estima (2009), alforria blues ou Poemas do
destino do mar (2013) e Seiva veneno ou fruto (2016). É uma das editoras das Edições
Chão da Feira, junto com Maria Carolina Fenati, Luísa Rabello e Cecília Rocha.

Julia Klien nasceu no Rio de Janeiro (rj), em 1993. É formada em letras pela puc-Rio e
atualmente cursa o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Literatura, Cultura e
Contemporaneidade na mesma instituição. É coeditora dos Cadernos do cep, publicação
mensal de poesia vinculada ao cep 20.000.

Jussara Salazar nasceu em Caruaru (pe) e radicou-se em Curitiba (pr). É escritora


e artista visual. Mestre em estudos literários pela Universidade Federal do Paraná,
ufpr, e doutora em Comunicação e Semiótica pela puc-sp. Publicou os livros:
Inscritos da casa de Alice (1999), Baobá – Poemas de Leticia Volpi, (2002), Natália
(2004), Coraurissonoros (Buenos Aires, 2008), Carpideiras (2011), ganhador da Bolsa
Funarte de Criação Literária em 2009, a plaquete O gato de porcelana, o peixe de cera
e as coníferas (Arqueria, 2014) e Fia (Demônio Negro, 2016).

Leda Cartum nasceu em São Paulo (sp), em 1988. Publicou os livros As horas do dia
– pequeno dicionário calendário (7Letras, 2012), O porto (Iluminuras, 2016) e Bruno
Schulz conduz um cavalo (Relicário, 2018). É mestre em letras pela Universidade
de São Paulo, usp. Trabalha com texto e produção escrita em diversas áreas, desde
tradução e editoração até roteiros para cinema e tv.

Leonardo Gandolfi nasceu no Rio de Janeiro (rj), em 1981. É poeta e professor


de literatura portuguesa na Unifesp. É autor dos livros No entanto d’água (7Letras,
2006), A morte de Tony Bennett (Lumme Editor, 2010), Kansas (7Letras, 2015), Escala
Richter (7Letras, 2015) e da plaquete Minhas férias (Lumme Editor, 2016). Em 2015,
criou em São Paulo, com Marília Garcia, a Luna Parque Edições, especializada em
poesia. É um dos organizadores, junto com Fabiano Calixto, Marília Garcia, Natália
Agra e Tiago Marchesano, da Feira de Poesia Desvairada, que acontece anualmente
na cidade de São Paulo.

Leoni é compositor, músico, cantor e escritor. Começou sua carreira como baixista e
principal compositor do Kid Abelha no começo da década de 1980. Com os Heróis
da Resistência lançou três discos. Em 93, partiu para a carreira solo tendo lançado

111
um ep, dois dvds e sete discos, sendo quatro independentes. Cazuza, Herbert Vianna,
Leo Jaime, Frejat, Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Ivan Lins e Vinícius Cantuária
são alguns de seus parceiros. Em 2015, publicou seu primeiro livro de poemas, A
margarida mostrando os dentes (7Letras). Desde o início de 2016 percorre o Brasil
com seu novo show Multiversos, que mistura música, poesia contemporânea e
projeções. Publicou, em parceria com Mauro Santa Cecília, o livro de poemas Baião
de 2 (7Letras, 2017).

Luciano Ramos Mendes nasceu em Curitiba (pr), em 1986. Hoje vive debaixo do
Sol, em Fortaleza. É um idichista, poeta, tradutor e editor, a mente por trás da Editora
Dybbuk – pela qual publicou seu primeiro livro de poemas, O Livro do Yom Kippur.

Luiza Romão nasceu em Ribeirão Preto (sp), em 1992. É poeta, atriz e diretora de
teatro. Publicou os livros Coquetel motolove (Selo do Burro, 2014) e Sangria (Selo do
Burro, 2017). Participou de inúmeros saraus/slams (sendo campeã do Slam do 13,
Slam da Guilhermina e vice-campeã nacional via Slam br). Criou mais de quinze
videopoemas, explorando a linguagem do spoken word. Formou-se em direção teatral
pela eca/usp em 2014.

Magno Almeida nasceu em Maceió (al), em 1988. É poeta e professor. É autor


dos livros pelos poros e pequenos apelos (iogr, 2015) e Composição para além-vértebras
(iogr, 2016) ambos premiados pelo Programa de Incentivo à Cultura Literária do
Estado de Alagoas.

Maíra Mendes Galvão nasceu em Brasília (df) e mora em São Paulo (sp). É poeta,
tradutora de inglês, revisora e mestranda em estudos da tradução pela Universidade
de São Paulo, usp. Publicou poemas nas revistas Raimundo, Parênteses, Diversos Afins
e Casulo; e também versões para o inglês de poemas na revista Asymptote. Participou
do grupo de pesquisa em performance e poesia cødigo aberto da performance em
2017. Publicou a plaquete nove poemas de mau gosto (Corsário-Satã, 2018) e está
preparando seu primeiro livro, jamanta na testa, previsto para ser lançado em 2019.

Marcelo Ariel nasceu em Santos (sp), em 1968. É poeta e performer. Autor dos
livros Me enterrem com a minha ar-15 (Dulcineia Catadora, 2007), Tratado dos anjos
afogados (LetraSelvagem, 2008), Com o Daimon no contrafluxo (Patuá, 2016), Jaha
ñade ñañombovy’a (Penalux, 2018), entre outros.

Marcos Siscar nasceu em Borborema (sp), em 1964. É poeta, professor, tradutor e


ensaísta. Publicou os livros de poemas Metade da arte (CosacNaify, 2003), O roubo do
silêncio (7Letras, 2006), Manual de flutuação para amadores (7Letras, 2015), entre outros.

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Marília Floôr Kosby nasceu em Arroio Grande (rs), em 1984. É autora dos livros
de poemas Os baobás do fim do mundo (2011) e Mugido [ou diário de uma doula] (2017),
dentre outros, e do ensaio de antropologia Nós cultuamos todas as doçuras (Prêmio
Açorianos de Literatura 2016). Atua também como compositora, participando de
festivais de música popular. Inventou e botou no mundo o laboratório itinerante
Buscando a letra xucra: iniciação em poesia desgarrada.

Marília Garcia nasceu no Rio de Janeiro (rj), em 1979. É poeta, tradutora e ensaísta.
Publicou os seguintes livros de poesia: 20 poemas para o seu walkman (CosacNaify/
7Letras, 2007), Engano geográfico (7Letras, 2012), Um teste de resistores (7Letras, 2014),
Paris não tem centro (Megamíni, 2015) e Câmera lenta (Cia. das Letras, 2017). Reside
atualmente em São Paulo e trabalha com tradução. Organiza, junto com Fabiano Calixto,
Leonardo Gandolfi, Natália Agra e Tiago Marchesano, a Feira de Poesia Desvairada.

Masé Lemos nasceu em Belo Horizonte (mg) e vive no Rio de Janeiro desde os sete
anos de idade. Poeta, tradutora e professora da Escola de Letras da Universidade
Federal do Estado do Rio de Janeiro, UniRio. É autora de Redor (7Letras, 2007),
Rebotalho (Cozinha Experimental, 2015), No circuito das linhas (Oficina Raquel,
2016) e Belo Horizonte Boulevards (7Letras, 2018).

Mauro Santa Cecília é poeta e compositor. É autor dos livros de poemas A todo o
transe (7Letras, 1997), Olho frenético (Aeroplano, 2005), A sombra do faquir (7Letras,
2014), Errância (7Letras, 2015) e Baião de 2 (7Letras, 2017), em parceria com Leoni;
além dos romances Cão de cabelo (Língua Geral, 2008) e Argos (Móbile Editorial,
2013). Tem músicas gravadas por nomes como Barão Vermelho, Frejat, Hyldon, Blues
Etílicos e Picassos Falsos, dentre outros. Participou de quatro exposições coletivas
(2016/17) com fotografias e poemas. Criou, em 2017, com o guitarrista e produtor
Maurício Negão, o projeto experimental Célula Mater. Lança, neste ano, o disco de
samba Hoje o dia raiou mais cedo, com Agenor de Oliveira e Rogério Batalha, e com as
participações especiais de Nelson Sargento, Moacyr Luz, Frejat e Ney Matogrosso.

Micheliny Verunschk é autora de livros de poesia e prosa. Seu primeiro romance,


Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida (Patuá, 2014), foi agraciado com o
Programa Petrobras Cultural e com Prêmio São Paulo de melhor livro de 2015. É
mestre em literatura e crítica literária e doutora em comunicação e semiótica pela
puc-sp. Foi membro de vários corpos de jurados de concursos literários brasileiros,
entre eles o Prêmio Jabuti e o Prêmio Sesc de Literatura.

Mônica de Aquino nasceu em Belo Horizonte (mg), em 1979. Publicou os livros


de poesia Sístole (Bem-Te-Vi, 2005) e Fundo falso (Relicário, 2018) – Prêmio Cidade
de Belo Horizonte de 2013.

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Natalia Barros nasceu em Santos (sp), em 1963. É poeta, cantora e paisagista.
Publicou os livros Caligrafias (Ofício da Palavra – Proacsp 2011) e Nuvens
ornamentais (Demônio Negro, 2016), compôs diversas canções para o grupo Luni e
para seu trabalho solo como cantora. É uma das curadoras do projeto: Landscapes
| improvisos de poesia e música.

Nicolas Behr nasceu em Cuiabá (mt), em 1958. Mora em Brasília desde 1974.
É poeta. Publicou, dentre outros livros de poesia, Iogurte com farinha (1977),
Grande Circular (1978), Caroço de goiaba (1978), Chá com porrada (1978), Restos
vitais (2003), Laranja seleta (2007) e Beije-me (2009). Em 2010, a cineasta Danyella
Proença dirigiu o filme Braxília, um ensaio sobre a relação do poeta e sua cidade. O
filme ganhou vários prêmios em festivais de cinema.

Nilton Resende é alagoano de Maceió, onde tem trabalhado com diversas


manifestações artísticas. É professor adjunto de literatura da Universidade Estadual
de Alagoas, ufal. Tem contribuído para a retomada do audiovisual em Alagoas,
trabalhando como ator, preparador/diretor de elenco e roteirista. Participa do projeto
Amores ébrios, apresentação coletiva lítero-musical com os autores Brisa Paim, Bruno
Ribeiro, Igor Machado e Milton Rosendo. Tem livros premiados nos gêneros poesia
(O orvalho e os dias) e conto (Diabolô). Tem um livro inédito de poemas, Ouriço.
Lançou recentemente o livro A construção de Lygia Fagundes Telles: edição crítica de
Antes do baile verde – fruto de sua tese de doutoramento. Desde 2014, ministra o
curso de criação literária no Sesc Alagoas.

Nina Rizzi (sp/ce) é poeta, tradutora, pesquisadora e editora. Autora de Tambores


pra n’zinga (poesia, Orpheu/ Ed. Multifoco, 2012), A duração do deserto (poesia, Ed.
Patuá, 2014), geografia dos ossos (poesia, Douda Correria, Portugal, 2016), Quando
vieres ver um banzo cor de fogo (poesia, Editora Patuá, 2017), e Caderno-goiabada
(prosa poética, no prelo). Coedita a revista Escamandro – poesia tradução crítica
[https://escamandro.wordpress.com] e escreve regularmente no quandos [http://
ninaarizzi.blogspot.com].

Pedro Tostes nasceu no Rio de Janeiro (rj). É poeta. Editou a revista Não funciona,
cujo título expressa bem o sentido da sua vida. Publicou os livros O mínimo (Ibis
Libris, 2003), Descaminhar (Annablume, 2008), Jardim minado (Patuá, 2014) e Na
casamata de si (Patuá, 2018).

Rafael Iotti nasceu em Porto Alegre (rs), em 1992. Atualmente vive em Caxias do
Sul. Publicou o livro de poesia Mas é possível que haja outros (7Letras, 2017).

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Regina Azevedo é uma poeta brasileira nascida em Natal (rn), em 2000. É autora
dos livros Das vezes que morri em você, Por isso eu amo em azul intenso e Pirueta.

Ricardo Domeneck nasceu em Bebedouro (sp), em 1977. Lançou os livros Carta


aos anfíbios (Bem-Te-Vi, 2005), a cadela sem Logos (CosacNaify/7Letras, 2007),
Sons: Arranjo: Garganta (CosacNaify/7Letras, 2009), Cigarros na cama (Berinjela,
2011), Ciclo do amante substituível (7Letras, 2012) e Medir com as próprias mãos a
febre (7Letras, 2015). Foi coeditor da revista Modo de Usar & Co. Traduziu para o
português poemas de Hans Arp, Friederike Mayröcker, Frank O´Hara, Jack Spicer,
Harryette Mullen, Rosmarie Waldrop, Ezequiel Zaidenwerg, dentre outros. Vive e
trabalha desde 2002 em Berlim, na Alemanha.

Richard Plácido nasceu em Maceió (al), em 1985. Publicou, em abril de 2016,


o livro de poemas Entre ratos & outras máquinas orgânicas, editado pela Imprensa
Oficial Graciliano Ramos. É um dos idealizadores dos coletivos Ofélia e Elisa.

Rita Barros nasceu em São Paulo (sp). É poeta, pesquisadora e produtora cultural.
Tem poemas publicados em revistas e jornais, impressos e digitais. Seu primeiro
livro foi lançado em 2015 pela editora Cozinha Experimental (Coleção Kraft n.7: Rita
Barros). É autora do blog Sede de pedra e coautora do projeto Antares 21, realizado
em Sevilha, onde também publicou um libreto em espanhol.

Sergio Mello nasceu em São Paulo (sp), em 1977. É autor de No banheiro um


espelho trincado (Ciência do Acidente, 2004) e Inimigo em testamento (Soul Kitchen
Books, 2013). Além de poeta, é roteirista e dramaturgo. Lançou em 2010, pela
Coleção Primeiras Obras, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 5 peças de
Sergio Mello. Puma, seu próximo livro, sairá pela Corsário-Satã.

Simone Brantes nasceu em Nova Friburgo (rj), em 1963. Publicou, pela editora 7
Letras, dois livros de poemas: Pastilhas brancas (1999) e Quase todas as noites (2016),
este último ganhador do Prêmio Jabuti de Poesia 2017.

Sofia Mariutti nasceu em São Paulo (sp), em 1987. Formou-se em letras (alemão)
pela Universidade de São Paulo, usp. Trabalhou como editora da Companhia das
Letras (2012-2016). Organizou antologia comemorativa dos 30 anos da editora, O
livro é um poema (2016), e O livro das listas: referências musicais, culturais e sentimentais,
de Renato Russo (2017). É tradutora e poeta, autora de A orca no avião (Patuá,
2017).

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Thiago Mattos nasceu em Petrópolis (rj). Graduou-se em letras na Universidade Federal
Fluminense e pós-graduou-se em tradução literária na Universidade de São Paulo. Em 2012,
publicou Teu pai com uma pistola (Confraria do Vento), livro com o qual participou do Festival
de Poesia de Trois-Rivières (Canadá). Em 2014, publicou Casa devastada (Confraria do
Vento). Em 2015, traduziu e publicou, com Diego Grando, a antologia Petite rafale – Nova
poesia quebequense (OrganoGrama). Em 2018, publica, em coautoria com Álvaro Faleiros, A
retradução de poetas franceses no Brasil: de Lamartine a Prévert (Copetti Editor). Também em
2018, publica a novela Solo: noturno a quatro vozes (Confraria do Vento).

Thiago Ponce de Moraes nasceu no Rio de Janeiro (rj), em 1986. É poeta, tradutor e
professor. Publicou os livros de poemas Imp. (Caetés, 2006), De gestos lassos ou nenhuns
(Lumme Editor, 2010) e Dobres sobre a luz (Lumme Editor, 2016, livro finalista do
Prêmio Jabuti), bem como a plaquete bilíngue Glory Box (Carnaval Press, 2016), na
tradução do poeta britânico Rob Packer, e a plaquete uma fotografia (Leonella, 2017).
Na área de ensaios, publicou Remos e versões (Multifoco, 2012), Agora sim... talvez seja
eu e mais alguém: específica experiência da leitura de Paul Celan e Ricardo Reis (nea, 2014)
e Nó de ar – Paul Celan: leituras, destinos (nea, 2018). É doutor em literatura comparada
pela Universidade Federal Fluminense (uff) – com estudo sobre a obra de Paul Celan.

Veronica Stigger nasceu em Porto Alegre (rs), em 1973. Escritora, crítica de arte
e professora de pós-graduação da Fundação Armando Álvares Penteado – faap.
Publicou, dentre outros, os livros O trágico e outras comédias (2004), Gran cabaret
demenzial (2007), Os anões (2007), Opisanie swiata (2013) e Sul (2016).

Victor Hugo Turezo nasceu em Curitiba (pr), em 1993. É poeta e tradutor.


Publicou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (Editora Patuá,
2017). Traduziu, com Natália Agra, Bosque musical (Corsário-Satã, 2018), plaquete
com poemas de Alejandra Pizarnik. Cursa letras (português/espanhol) na ufpr.

Waldo Motta nasceu em Coroa da Onça, interior de São Mateus (es), em 1959.
É poeta, ator, numerólogo e autor de, entre outros, Eis o homem (fcaa-ufes, 1987),
Poiezen (Massao Ohno/ufes, 1990), Bundo e outros poemas (Unicamp, 1996) –
finalista do prêmio Jabuti 1997, Recanto – poema das 7 letras (Ímã, 2002) e Terra sem
mal (Patuá, 2015). Também ganhou, no início deste século, do Landeshauptstadt
München Kulturreferat, bolsa e estadia na Alemanha, e atuou como writer-in-
residence na Universidade da Califórnia, em Berkeley, eua.

Zhô Bertholini nasceu em Santo André (sp), em 1953. É poeta e agitador cultural.
Publicou, dentre outros, os livros de poesia Sem ensaio (1994) e Vagamundo (2010).
Editou, ao lado da poeta Jurema Barreto de Souza, a revista de poesia A Cigarra, que
atravessou 25 anos divulgando poesia.

116
Sobre os organizadores

Fabiano Calixto nasceu em Garanhuns (pe) em 1973. Vive em São Paulo. É poeta,
editor e professor universitário. Cursa doutorado em teoria literária e literatura
comparada na Universidade de São Paulo, usp. Publicou os seguintes livros de poesia:
Algum (edição do autor, 1998), Fábrica (Alpharrabio Edições, 2000), Um mundo
só para cada par (Alpharrabio Edições, 2001), Música possível (CosacNaify/7Letras,
2006), Sangüínea (Editora 34, 2007) – este, finalista do prêmio Jabuti, A canção do
vendedor de pipocas (7Letras, 2013), Equatorial (Tinta-da-China, 2014) – antologia
lançada em Portugal, e Nominata morfina (Córrego/Corsário-Satã/Pitomba, 2014).
Foi co-editor da revista Modo de Usar & Co. Prepara seu novo livro de poemas,
Fliperama. Edita, com Natália Agra e Tiago Guilherme Pinheiro, a revista de poesia
Meteöro, cujo primeiro número sai no carnaval de 2019. Organiza, com Leonardo
Gandolfi, Marília Garcia, Natália Agra e Tiago Marchesano, a Feira de Poesia
Desvairada, feira de publicações independentes que acontece anualmente na cidade
de São Paulo.

Natália Agra nasceu em Maceió (al) em 1987. É poeta, editora, tradutora e jornalista.
Publicou seu livro de estreia, De repente a chuva, em 2017, pela Corsário-Satã. Edita,
com Fabiano Calixto e Tiago Guilherme Pinheiro, a revista de poesia Meteöro, cujo
primeiro número sai em 2019. Organiza, com Fabiano Calixto, Leonardo Gandolfi,
Marília Garcia e Tiago Marchesano, a Feira de Poesia Desvairada.

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Nécessaire

Anônimo do séc. xviii. Teresa Filósofa. Porto Alegre: l&pm, 2004.

Aretino, Pietro. Sonetos luxuriosos. São Paulo: Cia. das Letras, 2011.

Bataille, Georges. O erotismo. Porto Alegre: l&pm, 1987.

______. A literatura e o mal. Porto Alegre: l&pm, 1989.

______. História do olho. São Paulo: CosacNaify, 2003.

Björk. Medúlla. Londres: One Litte Indian, 2004.

______. Utopia. Londres: One Little Indian, 2017.

Bocage, Manuel Maria Barbosa du. Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

Boccaccio, Giovanni. Decamerão. São Paulo: Abril Cultural, 1970.

Bukowski, Charles. Mulheres. Porto Alegre: l&pm, 2011.

Castello Branco, Lucia. O que é erotismo. São Paulo: Brasiliense, 1984.

Cleland, John. Fanny Hill ou Memórias de uma mulher de prazer. São Paulo: Estação
Liberdade, 1997.

Costa, Flávio Moreira da. As 100 melhores histórias eróticas da literatura universal. Rio de
Janeiro: Ediouro, 2005.

Crepax, Guido. Valentina. Porto Alegre: l&pm, 1982.

Daft Punk. Random Access Memories. Nova York, Columbia Rec., 2013.

Davis, Miles. Kind of Blue. Nova York: Columbia Rec., 1959.

______. In a Silent Way. Nova York: Columbia Rec., 1969.

______. Bitches Brew. Nova York: Columbia Rec., 1969.

Denser, Márcia. Diana caçadora & Tango fantasma. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

Desclos, Anne. A história de o. Porto Alegre: l&pm, 2014.

Despentes, Virginie. Teoria King Kong. São Paulo: Edições n-1, 2016.
Diderot, Denis. As joias indiscretas. São Paulo: Global, 1986.

Eurípedes. Bacantes. Lisboa: Edições 70, 1992.

Fils, Crébillon. O sofá. Porto Alegre: l&pm, 2014.

Foucault, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1993.

Gaye, Marvin. Let’s Get It On. Los Angeles, Tamla, 1973.

Gil, Gilberto. Refazenda. Rio de Janeiro: Warner Music, 1975.

Ginsberg, Allen. A queda da América. Porto Alegre: l&pm, 2016.

Gotan Project. La revancha del tango. Londres: xl, 2001.

Goulemot, Jean-Marie. Esses livros que se leem com uma só mão – Leitura e leitores de livros
pornográficos no século xviii. São Paulo: Discurso Editorial, 2000.

Guimarães, Bernardo. Poesia erótica e satírica. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

Hendrix, Jimi. Are You Experienced. Londres; Track Rec., 1967.

Hilst, Hilda. Da poesia. São Paulo: Cia. das Letras, 2017.

Jackson, Michael. Off The Wall. Nova York: Epic, 1979.

Joyce, James. Cartas a Nora. São Paulo: Iluminuras, 2012.

Kac, Eduardo e Trindade, Cairo Assis. (Orgs.). Antolorgia – Arte pornô. Rio de Janeiro:
Codecri, 1984.

Kiss. Love Gun. Nova York: Casablanca, 1977.

Lawrence, D. H. O amante de Lady Chatterley. São Paulo: Cia. das Letras, 2010.

Manara, Milo. Clic – Edição completa. São Paulo: Conrad, 2010.

Mansour, Joyce. Gritos rasgos e rapinas: 23 poemas de Joyce Mansour. São Paulo: Lumme,
2011.

Marcuse, Herbert. Eros e civilização – Uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Rio
de Janeiro: Zahar Editores, 1972.

Massive Attack. Blue Lines. Londres: Virgin, 1991.

Matos, Olgária. Paris 1968: as barricadas do desejo. São Paulo: Brasiliense, 1989.

Mattoso, Glauco. Jornal dobrabil. São Paulo: Edição do autor, 1977-1981.


Meschonnic, Henri. Linguagem – ritmo e vida. Belo Horizonte: fale/ ufmg, 2006.

Michael, George. Faith. Nova York: Columbia Rec., 1987.

Miller, Henry. Trópico de Câncer. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008.

Moraes, Eliane Robert. Perversos, amantes e outros trágicos. São Paulo: Iluminuras, 2013.

______. (Org.). Antologia da poesia erótica brasileira. São Paulo: Ateliê Editorial, 2015.

Moraes, Reinaldo. Pornopopéia. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

Nabokov, Vladimir. Lolita. São Paulo: Cia. das Letras, 1994.

Nin, Anaïs. Delta de Vênus. Porto Alegre: l&pm, 2008.

Novaes, Adauto (Org.). Libertinos Libertários. São Paulo: Cia das Letras, 1996.

Paes, José Paulo. Poesia erótica em tradução. São Paulo: Cia. das Letras, 2006.

Paz, Octavio. El Arco y la Lira. México: Fondo de Cultura Económica, 1973.

______. Os filhos do barro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

Petrônio. Satyricon. São Paulo: Brasiliense, 1985.

Pignatari, Décio. 31 poetas 214 poemas – Do Rigveda e Safo a Apollinaire. São Paulo: Editora
da Unicamp, 2007.

Portishead. Dummy. Londres: Go! Discs, 1994.

______. Portishead. Londres: Go! Discs, 1997.

Prince. 1999. Nova York: Warner Bros., 1982.

______. Purple Rain. Nova York: Warner Bros., 1984.

______. “Kiss”. Nova York: Warner Bros., 1986.

Rodrigues, Nelson. Asfalto selvagem – Engraçadinha, seus amores e seus pecados. São Paulo:
Cia. das Letras, 1994.

Sacher-Masoch, Leopold von. A Vênus das peles. São Paulo: Hedra, 2008.

Sade, Marquês. Os 120 dias de Sodoma ou A escola da libertinagem. São Paulo: Iluminuras,
2006.

Safo. Fragmentos completos. São Paulo: Editora 34, 2017.

SaintClair, Apollonia. < http://apolloniasaintclair.bigcartel.com/ >


The Rolling Stones. Beggars Banquet. London: Decca, 1968.

The Strokes. First Impressions of Earth. Nova York: rca, 2006.

Vários. Cadernos Negros. São Paulo: QuilombHoje, 1985-1997.

Vatsyayana. Kama Sutra. Porto Alegre: l&pm, 1987.

Williams, Pharell. In My Mind. Nova York: Interscope Rec., 2006.


Índice

“Simultâneos pulsando: sólidos, líquidos & gozozos”, de Fabiano Calixto e


Natália Agra 2
“Entre a superfície e o abismo da carne”, de Bianca Dias 4

“3 limeiriques”, de Adelaide do Julinho 10


“69”, de Ademir Assunção 11
“Beyond my Power to Dream”, de Alberto Lins Caldas 12
“Antiguidade de onde viemos”, de Ana Elisa Ribeiro 13
“[Comemos mel...]”, de Ana Estaregui 14
“a pornô.poética da vulva-externar”, de Ana Kiffer 15
“Relâmpagos”, de Ana Martins Marques 19
“Boceta”, de Arnaldo Antunes 21
“[Buceta é...]”, de Assionara Souza 22
“[No fim do arco-íris...]”, de Bruno Brum 23
“Buceta vai de metrô”, de Carla Diacov 24
“Teu coração, uma Brastemp (preta)”, de Catarina Lins 26
“Horas d fluxo aural”, de cavalodada 29
“Joelhos e antílopes”, de Cláudia Sehbe 30
“Eu te amo”, de Dimitri br 31
“Meditação”, de Diogo Cardoso 32
“[En la frontera...], de Douglas Diegues 33
“[Não é amor...]”, de Eduardo Sterzi 34
“Falso trajeto”, de Fabio Weintraub 35
“Leitores de poesia só pensam naquilo”, de Fabrício Corsaletti 36
“Take Off”, de Francesca Cricelli 37
“Kiss, Kiss, Thomas Lips”, de Gabriel Felipe Jacomel 39
“Violante, a violenta [4970]”, de Glauco Mattoso 40
“Soneto fálico”, de Gregório Duvivier 41
“Paranoia no Paradiso”, de Guilherme Gontijo Flores 42
“69”, de Guilherme Zarvos 43
“Opereta em dois movimentos”, de Italo Diblasi 44
“Néctar”, de Jean Albuquerque 46
“¿Tienes ganas?”, de Jeanne Callegari 47
“Disputa”, de Jô Saulo 48
“[pulseiras de lilases...]”, de Josely Vianna Baptista 49
“Xiri”, de Josoaldo Lima Rêgo 50
“Semana internacional do silêncio entre as Américas”, de Júlia de Carvalho
Hansen 51
“Sophia”, de Julia Klien 53
“Yo, la peor de todas”, de Jussara Salazar 54
“Pequena morte”, de Leda Cartum 56
“Bola gato”, de Leonardo Gandolfi 57
“Teu cartão”, de Leoni 59
“[Beijar...]”, de Luciano Ramos Mendes 60
“Cortar a carne e afiar as unhas”, de Luiza Romão 61
“Leite”, de Magno Almeida 62
“Belletriz transfigurada”, de Maíra Mendes Galvão 63
“Salmo”, de Marcelo Ariel 64
“Pietà”, de Marcos Siscar 65
“[Todos...], de Marília Floôr Kosby 67
“É uma love story e é sobre um acidente”, de Marília Garcia 68
“Characters”, de Masé Lemos 70
“Os pelos”, de Mauro Santa Cecília 71
“[Retalhar a carne...], de Micheliny Verunschk 72
“Rasgos”, de Mônica de Aquino 74
“Kind of Blue”, de Natalia Barros 75
“Palavra final”, de Nicolas Behr 76
de “Ouriço”, de Nilton Resende 77
“Canção para foder Nathália”, de Nina Rizzi 79
“Hard Porn”, de Pedro Tostes 80
“[Te procuro obsessivamente...]”, de Rafael Iotti 83
“[Fundo]”, de Regina Azevedo 84
“[Quantas vezes pedi...]”, de Ricardo Domeneck 85
“Dança”, de Richard Plácido 86
“Lot”, de Rita Barros 87
“[Hálito...]”, de Sergio Mello 88
“As moças”, de Simone Brantes 89
“vagabunda”, de Sofia Mariutti 90
“O phallus antigo”, de Thiago Mattos 91
“Cobre”, de Thiago Ponce de Moraes 96
“[Luana...]”, de Veronica Stigger 97
“[E se eu te contar que...]”, de Victor Hugo Turezo 98
“Rumo ao paraíso”, de Waldo Motta 99
“Satisfação”, de Zhô Bertholini 100

“O canto primeiro, o tempo suspenso, a matéria em êxtase”, de Gustavo


Silveira Ribeiro 101
© Corsário-Satã, 2018
© Dos autores, 2018

Os autores permitem a reprodução dos poemas deste livro por qualquer meio, desde que sem objetivos
comerciais e citada a fonte.

1ª edição única [2018]

Editores: Fabiano Calixto e Natália Agra

Conselho Corsário: Fabiano Calixto, Gabriel Pedrosa, Luciano Ramos Mendes, Natália
Agra, Rodrigo Lobo Damasceno e Tiago Guilherme Pinheiro

Projeto gráfico: Maíra Mendes Galvão e Natália Agra


Revisão: Fabiano Calixto, Natália Agra e dos autores
Fotografia da capa: Wladimir Vaz

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)


________________________­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­_____________________________________________________________

Simultâneos pulsando – Uma antologia fescenina da poesia brasileira contemporânea / Fabiano


Calixto e Natália Agra (Orgs.).
– São Paulo: Corsário-Satã, 2018. 128 páginas.

Vários autores.

isbn: 978-85-93979-05-7

1. Poesia – Coletâneas – Literatura brasileira 1. Calixto, Fabiano / Agra, Natália.

cdd 869.1

________________________­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­_____________________________________________________________

Índice para catálogo sistemático:

1. Poesia: Coletâneas: Literatura brasileira 2. Poesia erótica 869.91


Outros lançamentos da coleção de poesia da Corsário-Satã:

Nominata morfina – Fabiano Calixto

Suite de pièces que l’on peut jouer seul – Manuel de Freitas

De repente a chuva – Natália Agra

nove poemas de mau gosto – Maíra Mendes Galvão

Botões – Jeanne Callegari

Próximos lançamentos:

Ponto-sombra – Inês Dias

speechless tribes – três séries de poemas incompreensíveis – Dirceu Villa

Puma – Sergio Mello

Quebrada – Diogo Cardoso, Fabiano Calixto e Helio Neri

Fundações – Júlio Bittar

Fliperama – Fabiano Calixto


Corsário-Satã

H
corsariosata@gmail.com
https://www.facebook.com/corsariosata/
@satacorsario
https://corsariosata.wordpress.com/
Este livro foi desenhado por Maíra Mendes Galvão e Natália Agra na cidade de São Paulo, no inverno de
2018, ano do centenário de nascimento de Antonio Candido; centenário da Insurreição Anarquista no
Rio de Janeiro; centenário do primeiro desfile do Cordão do Bola Preta no carnaval do Rio de Janeiro;
no centenário de nascimento dos compositores Jacob do Bandolim e Leonard Bernstein; nos 69 anos
de nascimento do baterista húngaro Tommy, dos Ramones; nos 69 anos de nascimento dos cantores e
compositores Djavan, Bruce Springsteen, Fagner, Zé Ramalho, Lionel Richie, nos 69 anos de nascimento
do guitarrista Billy Gibbons; nos 69 anos de nascimento da cantora Gloria Gaynor; nos 69 anos de
nascimento do poeta Nuno Júdice; nos 69 anos de El gran calavera, de Luis Buñuel; nos 69 anos de
nascimento de John Belushi; nos 69 anos de nascimento da atriz Bete Mendes; nos 69 anos de nascimento
de Paulo César Caju; nos 69 anos de nascimento do grande lateral-direito Zé Maria; nos 69 anos da
descoberta, por Karl Wilhelm Reinmuth, do asteroide 4001 Ptolemaeus; nos 64 anos de nascimento do
Dr. Sócrates; nos 20 anos de lançamento do extraordinário Los detectives salvajes, de Roberto Bolaño.
Adelaide do Julinho Guilherme Gontijo Masé Lemos
Ademir Assunção Flores Mauro Santa Cecília
Alberto Lins Caldas Guilherme Zarvos Micheliny Verunschk
Ana Elisa Ribeiro Italo Diblasi Mônica de Aquino
Ana Estaregui Jean Albuquerque Natalia Barros
Ana Kiffer Jeanne Callegari Nicolas Behr
Ana Martins Marques Jô Saulo Nilton Resende
Arnaldo Antunes Josely Vianna Baptista Nina Rizzi
Assionara Souza Josoaldo Lima Rêgo Pedro Tostes
Bruno Brum Júlia de Carvalho Rafael Iotti
Carla Diacov Hansen Regina Azevedo
Catarina Lins Julia Klien Ricardo Domeneck
cavaloDADA Jussara Salazar Richard Plácido
Cláudia Sehbe Leda Cartum Rita Barros
Dimitri BR Leonardo Gandolfi Sergio Mello
Diogo Cardoso Leoni Simone Brantes
Douglas Diegues Luciano Ramos Mendes Sofia Mariutti
Eduardo Sterzi Luiza Romão Thiago Mattos
Fabio Weintraub Magno Almeida Thiago Ponce
Fabrício Corsaletti Maíra Mendes Galvão de Moraes
Francesca Cricelli Marcelo Ariel Veronica Stigger
Gabriel Felipe Jacomel Marcos Siscar Victor Hugo Turezo
Glauco Mattoso Marília Floôr Kosby Waldo Motta
Gregório Duvivier Marília Garcia Zhô Bertholini

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