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Trabalho: um jogo afetivo?

 A tarefa da clínica da atividade é tornar o trabalho defensável para quem trabalha


 Hoje há duas linhas de cuidados com a saúde do trabalhador:
o Com a pessoa: garantia de bem-estar, gestão dos riscos psicossociais e
criação de espaços humanitários no ambiente de trabalho, separando saúde
e performance
o Com o trabalho: é mais difícil e menos hegemônica

Dos riscos da gestão à gestão dos riscos


 A tirania do curto prazo coloca a saúde dos trabalhadores em risco
 Há uma tendência em se aliar a gestão financeira à gestão dos riscos gerando a
vitimologia
o Segmentar os trabalhadores em públicos-alvo aos quais se associam riscos
os quais sofrerão ações de especialistas
o Assim se reduz ainda mais o poder de agir dos trabalhadores e os classifica
como sujeitos frágeis
o Gera-se uma engenharia do sofrimento profissional, redobrando-se as
prescrições
o Via de regra também leva a se recorrer ao tratamento individualizado e
externo ao trabalho
o Essa situação gera um despotismo compassional (expressão de Gajdos)
 A partir do paradigma da vitmologia gera-se um novo mercado de consultoria
o Promovem a caça aos resíduos psíquicos de desordem
o Converter a fragilidade do trabalho em fragilidade pessoal
o Promovem a superproteção no trabalho
 A geração dessas novas prescrições, na verdade, gera novos riscos que o
trabalhador deve correr para manter o seu emprego
 Lidar com os riscos é uma tarefa dos coletivos de trabalho quando eles estão
compromissados com a qualidade do trabalho
o A vitimologia eleva a passividade dos trabalhadores
o Ela protege os responsáveis dos riscos da confrontação com os critérios do
trabalho “bem feito”

Higienismo ou saúde?
 O foco do higienismo é a erradicação da doença, não a promoção da saúde
 “Sem potência de expansão, sem uma certa dominação das coisas, a vida é
indefensável” (Artaud)
 "O essencial é que o homem ou a mulher se sinta viver sua própria vida, tome a
responsabilidade de sua ação ou inação, se sinta capaz de se atribuir o mérito de
um sucesso e a responsabilidade de um fracasso" (Winnicott)
 A saúde tem a ver com a capacidade que temos de produzir coisas novas,
promover ativamente a relação entre as coisas
 “Não somos nada adaptados a viver em um contexto já dado”
 O combate às doenças no trabalho é menos a sua supressão e mais o cuidado com
a saúde, cuidado em fazer com que os trabalhadores promovam a relação entre as
coisas
 Essa promoção das relações é possível por meio do ofício

O que é um ofício?
 Uma terceira via para pensar a saúde do trabalhador é reposicionando o lugar do
especialista. Em vez de ser ele o modificador do trabalho (tarefa nunca realizável),
seriam os próprios profissionais os responsáveis por isso, ao se engajarem em seu
ofício e com a ajuda dos especialistas.
 O ofício é uma discordância criativa entre as quatro instâncias da arquitetura
social do trabalho. Essas instâncias seriam:
o Pessoal: a ação singular do sujeito diante do trabalho – situada, dirigia e
não reiterável
o Interpessoal: a ação singular e coletiva diante do trabalho – situada, dirigia
e não reiterável
o Transpessoal: gênero profissional (história coletiva impessoal que
atravessa a atividade) e o sobredestinatário. Quando o coletivo de trabalho
assume a tarefa (segundo ofício) de cuidar do gênero. Esse gênero torna-
se o continente profissional do coletivo
o Impessoal: a tarefa prescrita que é necessariamente reelaborada pelo
gênero profissional. Sustenta o ofício para além das situações singulares
 O gênero profissional abre os horizontes do poder de agir dos trabalhadores, pois
o fazem com base na herança histórica dos erros e acertos do gênero que participa.
o Com esse gênero fragilizado o ofício ele faz com que o trabalho seja
indefensável, coloca o sujeito em confronto direto e sozinho com o real.
o Ofício se apaga quando o fluxo em alguma dessas instâncias está
interrompido.
 O ofício só se revela no movimento. Mesmo no caso do trabalho prescrito
(dimensão impessoal) é necessário que haja as normas para que ela seja
transformada, não negada.

Coletivo e coletivo
 O coletivo pode ser um muro de proteção contra o sofrimento no trabalho
 O melhor modo de cultivar um ofício é questioná-lo, é mantendo-o em
movimento, deve haver o conflito criativo sobre o trabalho bem feito
o O silêncio ou negação do conflito engessa e reduz a potência do ofício

O ofício no sujeito
 A disputa profissional empreendida pelo coletivo também se interioriza nos
sujeitos.
 O coletivo comparece não apenas como um sentimento de pertencimento, mas
como um instrumento de trabalho em si
 Quando se encontra com o coletivo é porque ele foi recriado na e para a atividade
em si.
 O coletivo não recobre o todo do ofício, haja vista que ele tem outras dimensões
e se refaz na atividade