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LITERATURA PORTUGUESA I / 1º sem.

2018 – AVALIAÇÃO
Profa. Dra. Annie Gisele Fernandes

Apresentam-se, a seguir, 05 (cinco) propostas para o Trabalho Final: Proposta 01 – Tristão e


Isolda, de Joseph Bédier; Proposta 02 – Cantiga de amor e poema de Manuel Bandeira;
Proposta 03 – cantiga de amigo; Proposta 04 – Poesia Palaciana (Cancioneiro); Proposta 05 –
Discussão histórico-teórica. Considere-as a partir destas duas possibilidades:
A) Você deverá escolher UMA e redigir um ensaio de, no máximo, cinco (5) laudas, no
qual analisa o texto literário E o(s) fragmento(s) de texto(s) crítico(s) que o
acompanham.
B) Se preferir, você pode escolher 3 (três) das 5 questões e respondê-las em cinco (5)
laudas considerando, também, o texto literário E o fragmento crítico.

Datas de entrega: 12 de junho, nos horários das aulas (19:30 às 22:30hs) e 15 de junho, nos
horários das aulas (8:00 às 11:45hs).
NÃO serão aceitos trabalhos enviados por e-mail, nem trabalhos enviados além da data (salvo
em caso de greve e de divulgação de novo calendário acadêmico).

1) Analise o excerto abaixo do Romance de Tristão e Isola (Joseph Bédier), atentando para o
fragmento de “Para Viver um Grande Amor”, de Vinícius de Moraes. O texto crítico de Denis
de Rougemount, “O Mito de Tristão” (O amor e o ocidente, Editora Guanabara) deve ser
considerado em sua análise.
“– Amigo, seria pouco o maior amor que eu pudesse dedicar-vos, pois conservastes esta terra.
Quero recompensar-vos. Minha filha, Isolda das Brancas Mãos, descende de duques, de reis e
de rainhas. Ficai com ela, eu vo-la dou.
– Sire, fico com ela – disse Tristão.
Ah! Senhores, por que disse ele essas palavras? Mas por essas palavras, ele morreu.
Marcou-se dia, estabeleceu-se um prazo. O duque veio com seus amigos, Tristão com os dele. O
capelão cantou a missa. Diante de todos, à porta do mosteiro, segundo a lei da santa Igreja,
Tristão desposou Isolda das Brancas Mãos. As núpcias foram magníficas e ricas. Mas tendo
chegado a noite, enquanto os homens de Tristão o despojavam de suas vestes, aconteceu que, ao
puxarem a manga estreita demais de seu casaco, tiraram e fizeram cair de seu dedo o anel de
jaspe verde, o anel de Isolda, a Loura, que produziu um som límpido nas lajes.
Tristão olhou e viu-o. então seu antigo amor despertou, e Tristão reconheceu o seu erro.
Lembrou-se do dia em que Isolda, a Loura, lhe dera esse anel: estavam na floresta onde, por ele,
ela levara vida cruel. E, deitado ao lado da outra Isolda, reviu a cabana do Morois. Por que
maldade do seu coração acusara intimamente sua amiga de traição? Não, ela sofria por ele todas
as penas e somente ele a tinha traído.
Mas ele também se compadecia de Isolda, sua esposa, a Simples, a Bela. As duas Isolda tinham-
no amado em má hora. A ambas ele mentira a sua fidelidade.
Entretanto, Isolda das Brancas Mãos admirava-se de ouvi-lo suspirar, estendido a seu lado.
Finalmente, disse-lhe um pouco envergonhada:
– Caro senhor, por acaso vos ofendi em alguma coisa? Por que não me dais nenhum beijo
sequer? Dizei-mo para que eu reconheça minha falta e venha a expiá-la, se puder.
– Amiga – disse Tristão – não vos zangueis, mas eu fiz uma promessa. Tempos atrás, num outro
país, combati um dragão e ia perecer, quando lembrei-me da Mãe de Deus. Prometi-lhe então
que, uma vez livre do monstro por sua intercessão, se um dia eu viesse a me casar, durante todo
um ano abster-me ia de abraçar e de beijar minha esposa...
– Ora, pois – disse Isolda das Brancas Mãos – suportá-lo ei de boa vontade.
Mas quando as servas, pela manhã, arrumaram-lhe a camisinha das mulheres desposadas, ela
sorriu tristemente, e pensou que ainda não tinha direito àquele adorno.” (capítulo “Isolda das
Brancas Mãos”).
“Para viver um grande amor, preciso
É muita concentração e muito siso
Muita seriedade e pouco riso
Para viver um grande amor
Para viver um grande amor, mister
É ser um homem de uma só mulher
Pois ser de muitas - poxa! - é pra quem quer
Nem tem nenhum valor
Para viver um grande amor, primeiro
É preciso sagrar-se cavalheiro
E ser de sua dama por inteiro
Seja lá como for
Há de fazer do corpo uma morada
Onde clausure-se a mulher amada
E postar-se de fora com uma espada
Para viver um grande amor”
(Vinícius de Moraes, “Para Viver um Grande Amor”)

2) Vimos que uma das principais características da Cantiga de Amor é a coita amorosa.
Explique-a na cantiga que segue, apontando também outras características daquele tipo de
composição nela presentes bem como as relações (de aproximação e de afastamento) que se
pode notar entre ela e o poema “Letra Para Uma Valsa Romântica”, de Manuel Bandeira. Em
sua análise, considere o texto Tratado do amor cortês, de André Capelão, E “Amor cortês” (in
Revista Camoniana)

Estes meus olhos nunca perderán,


senhor, gran coita, mentr’eu vivo for;
E direi-vos, fermosa mia senhor,
D’estes meus olhos a coita que an:
choran e cegan, quand’alguen non veen,
E ora cegan por alguen que veen.

Guisado teen de nunca perder


meus olhos coita e meu coraçon,
E estas coitas, senhor, mias son,
mais os meus olhos, por alguen veer,
choran e cegan, quand’alguen non veen,
E ora cegan por alguen que veen.

E nunca já poderei aver ben,


pois que amor ja non quer nen quer Deus;
mais os cativos d’estes olhos meus
Morrerán sempre por veer alguen:
choran e cegan, quand’alguen non veen,
E ora cegan por alguen que veen.
(Joan Garcia de Guilhade, CA 237)

Vocabulário: mentr’eu vivo for: enquanto eu for


vivo; a coita que an: o sofrimento que têm;
guisado teen: estão certos; poderei haver ben:
poderei ter o seu afeto.

Letra Para Uma Valsa Romântica


A tarde agoniza
Ao santo acalanto
Da noturna brisa,
E eu, que também morro,
Morro sem consolo,
Se não vens, Elisa!

Ai nem te humaniza
O pranto que tanto
Nas faces deslizas
Do amante que pede
Suplicantemente
Teu amor, Elisa!

Ri, desdenha, pisa!


Meu canto, no entanto,
Mais te diviniza,
Mulher diferente,
Tão indiferente,
Desumana, Elisa!
(Manuel Bandeira, Estrela da Vida Inteira)

3) Leia a cantiga que segue e comente-a apoiando-se no texto crítico transcrito abaixo:

Bailemos nós ja todas tres, ai amigas, Por Deus, ai amigas, mentr’al non fazemos
so aquestas avelaneiras frolidas, so aqueste ramo frolido bailemos,
e quen for velida como nós velidas, e quen ben parecer como nós parecemos,
se amigo amar, se amigo amar,
so aquestas avelaneiras frolidas so aqueste ramo, sol que nós bailemos,
verrá bailar. verrá bailar.

Bailemos nós ja todas tres, ai irmanas, (Airas Nunes, CV 462)


so aqueste ramo d’estas avelanas,
e que[n] for louçana como nós, louçanas, Vocabulário: velida: formosa; verrá: virá;
se amigo amar, louçana: formosa; mentr’al: enquanto outra
so aqueste ramo d’estas avelanas coisa; quen ben parecer: quem tiver belo
verrá bailar. aspecto.

“As formas tradicionais compreendem todos os cantares d’amigo que refletem a fragância
virginal do campo, das serras e da praia [...]. Como se sabe, os cantares dessa inspiração,
sobretudo aqueles que refletem a vida simples do campo, estão intimamente associados à
música e à dança, motivo por que o conteúdo poético da canção desce algumas vezes para um
plano secundário. [...]” (Segismundo Spina. Introdução. A Lírica Trovadoresca. São Paulo:
Edusp, 1996, p. 50).

4) A Poesia Palaciana (dos Cancioneiros) é, como vimos, vinculada à Época Medieval.


Entretanto, sabemos também que aquela Poesia foi suscetível às novidades do Renascimento,
que já desde a década de 1480 chegavam a Portugal. Considere isso, bem como esta afirmação
de Johan Huizinga e as seguintes, de Agnes Heller:

“[...] o Quattrocento dá-nos a impressão duma cultura renovada que tivesse quebrado as
algemas do pensamento medieval, quando Savonorola nos vem lembrar que debaixo da
superfície a Idade Média ainda subsiste” (“O advento da nova forma”, p. 327),

Com o Renascimento surge um conceito dinâmico de homem. O indivíduo passa a ter a sua
própria história de desenvolvimento pessoal, tal como a sociedade adquire também a sua
história de desenvolvimento. A identidade contraditória do indivíduo e da sociedade surge em
todas as categorias fundamentais. A relação entre o indivíduo e a situação torna-se fluida; o
passado, o presente, o futuro transformam-se em criações humanas. Esta ‘humanidade’, no
entanto, constitui um conceito generalizado, homogêneo. [...]”(“Introdução”, O Homem do
Renascimento, pág. 9).
“A concepção dinâmica renascentista do homem era tão unitária como a concepção antiga.
Nenhum pensador do Renascimento voltou a uma concepção estática do homem (harmoniosa
ou dualista), tendo este avanço de ser reconhecido até pela Contra-Reforma e a idade barroca.
No interior desse dinamismo, os dois pólos extremos eram a grandeza do homem e a sua
pequenez; a ênfase dada a um ou outro depende apenas do ponto de vista. [...]” (“Introdução”, O
Homem do Renascimento, pág. 21).

ao analisar os poemas que seguem:

Ó meu bem, pois te partiste D’esperança em esperança


dante meus olhos coitado, pouco a pouco me levou
os ledos me farão triste, grand’engano ou confiança,
os tristes desesperado. que me tão longe leixou.
Se m’isto tomara outrora,
Triste vida sem prazer cuidara de ver-lhe fim;
me deixas com grã cuidado, mas qu’hei-de cuidar já’gora,
que por meu negro pecado sem esperança e sem mim?
me vejo vivo morrer; (Bernardim Ribeiro, in Cancioneiro
meu prazer me destruíste, Geral de Garcia de Resende).
meu nojo será dobrado,
porque sou cativo, triste,
de meu bem desesperado.
(Diogo de Miranda, in Cancioneiro Geral de G. de Resende)

5) Alguns estudiosos definem a Europa Ocidental de fins do século XV e primeiras décadas do


XVI como dividida: de um lado, a Itália e os Humanistas, promotores dos valores humanos, do
Quattrocento italiano, depois conhecido como Renascimento; de outro, Alemanha e Martinho
Lutero, que, em 31 de Outubro de 1517, afixou na porta da catedral de Wittenberg as 95 teses
que combatiam especialmente o luxo da Igreja católica e as indulgências e, desse modo,
efetivou a Reforma Religiosa, combatida pouco depois pela Contra-Reforma.
Comente essa definição dos séculos XV e XVI, atentando para a “ação” desse contexto em
Portugal. Considere esta reflexão de Agnes Heller (“Introdução”, O Homem do Renascimento):
“A consciência de que o homem é um ser histórico constitui um produto do desenvolvimento
burguês; a condição da realização do homem é a negação da existência burguesa. Durante a
Antiguidade prevaleceu um conceito estático do homem; as suas potencialidades eram limitadas
tanto na vida social como na individual. O seu ideal apresentava limites concretos, em vez de
constituir uma projecção subjetiva de desejos e objectivos a atingir. A ideologia cristã medieva
dissolveu esses limites. Tanto a perfectibilidade como a perversão podem constituir um
processo ilimitado, pelo menos no sentido terreno de limites; o início e o final do processo são
no entanto fixados pela transcendência do início e do fim, pelo pecado original e o Juízo Final.
Com o Renascimento surge um conceito dinâmico de homem. O indivíduo passa a ter a sua
própria história de desenvolvimento pessoal, tal como a sociedade adquire também a sua
história de desenvolvimento. A identidade contraditória do indivíduo e da sociedade surge em
todas as categorias fundamentais. [...]”. (p. 9).
“Durante o Renascimento a base social da concepção cristã do homem deixou de existir. Ao
lado da subordinação ao estado e à religião e cada vez mais acima destas, surgiu uma outra: a
subordinação nacional (primeiramente uma lealdade local à cidade-estado, mais tarde nacional
no sentido moderno). A nova interpretação do cristianismo já não postulava os estados sociais e
certos estratos sociais enquanto opostos a uma hierarquia total, como acontecera com os
movimentos heréticos, mas sim nações individuais frente a outras nações. Shaw observou
correctamente, em Saint Joan, que se devia procurar aqui as raízes do protestantismo. A relação
entre cada pessoa e a nação não se fundamenta, porém, num sistema de estados sociais mas em
relações de classe; e num sistema de relações de classes o facto e o conceito de subordinação
pessoal deixam de ter sentido. Simultaneamente também era abalada a subordinação
eclesiástica. Os homens começaram cada vez mais a procurar caminhos individuais para Deus,
porque agora podiam procurá-los; também aqui encontramos as sementes do protestantismo.
[...]” (p. 21).

Ao tratar de Portugal, considere que em “‘História’ e ‘discurso’ n’Os Lusíadas” (Ao


Contrário de Penélope, Lisboa, Bertrand, 1976) Jacinto do Prado Coelho ressalta que
n’Os Lusíadas “o poeta empenha-se em agir, pelo canto, no ânimo dos seus
compatriotas; coloca-se, pelo discurso épico, na esfera do “mundo comentado”. (p. 90) e
explique como essas ideias podem ser vistas / entendidas nas seguintes estrofes:

Vereis amor da pátria, não movido


Do prêmio vil, mas alto e quase eterno,
Que não é prêmio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno,
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor supremo,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente. (Canto I, est. 10).

Ó glória de mandar, ó vã cobiça


Desta vaidade a quem chamamos Fama! (Fama: personificação de vaidade)
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!” (Canto IV, est. 95).