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ISSN 2179-1740 Revista de Psicologia

Ψ Revista
de Psicologia
SELFIE E TEORIA CRÍTICA: CONSIDERAÇÕES
ACERCA DO TRABALHO COM IMAGENS
EM PSICOLOGIA
SELFIE AND CRITICAL THEORY: CONSIDERATIONS ON THE WORK
ISSN 2179-1740 WITH IMAGES IN PSYCHOLOGY

Fernanda Carvalho de Almeida1 Maria de Fátima Vieira Severiano2

Resumo
Contemporaneamente, a imagem tem ganhado destaque na vida dos indivíduos. Tal fato torna-se flagrante no fenômeno selfie.
Neste, indivíduos autorretratam-se em diversas situações a fim de compartilhar tais conteúdos em redes sociais virtuais. As
imagens tornam-se, portanto, relevantes à compreensão do homem contemporâneo, isto é, de uma subjetividade que se constitui
na tela – do computador, do smartphone etc. Indagamo-nos: como a pesquisa em Psicologia tem se ocupado da delicada tarefa
de ler uma imagem? Neste trabalho, buscamos explorar possibilidades de investigação de imagens na Psicologia, por meio de
uma base teórico-metodológica alicerçada na Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. Optamos por fazer referência aos selfies,
pois estes são paradigmáticos da produção imagética atual da web. Abordaremos aspectos teórico-metodológicos da Teoria
Crítica no trabalho com selfies, bem como discorreremos acerca dos desafios encontrados na análise de imagens. Apontaremos
caminhos possíveis no manejo destes desafios, tendo por base a Teoria Crítica. Como resultado, a apropriação desta pela
investigação em Psicologia propicia sentido prático ao trabalho teórico, assim como aprimoramentos da teoria pela prática.
Ainda, a Teoria Crítica fomenta um olhar acurado a detalhes reveladores do todo social, permitindo ao pesquisador vagar como
o flanêur de Benjamin pela transitoriedade do agora.

Palavras-chave: Teoria Crítica; selfie; imagens.

Abstract
Nowadays, image has become an important part of individual’s life. This fact gets obvious on selfie phenomenon. On that,
individuals self-portrait themselves in many situations to share those contents at social media. Images become, therefore,
relevant to contemporary man’s comprehension, in other words, they become relevant to the comprehension of a subjectivity
that constitutes itself on screen – computer’s screen, smartphone’s screen etc. We ask ourselves: how psychology’s research has
occupied itself with such delicate work as an image reading? In this paper, we seek to explore image investigation’s possibilities
through the theoretical methodological base of Frankfurt’s School Critical Theory. We choose to refer to selfies, because they are
paradigmatic at web’s nowadays’ image production. We will approach theoretical methodological aspects on selfie reading and
elaborate on image analysis’ challenges. We will point possible paths on this challenges’ handling through Critical Theory. As
result, its appropriation by Psychology propitiates practical sense to theoretical work and ameliorations to theory through
praxis. Still, Critical Theory foments an accurate look to social whole’s revealing details, allowing the researcher to drift as
Benjamin’s flanêur into now’s transience.

Keywords: Critical Theory; selfie; images.

1 Graduada em Psicologia Pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Especialista em Propaganda e Marketing pela FA7. Mestranda em
Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Membro do LAPSUS – laboratório de psicologia em subjetividade e sociedade.
E-mail: Fernanda_Dupret@yahoo.com.br.
2 Professora Titular do Departamento de Psicologia e da Pós-Graduação em Psicologia da UFC. Doutora pela UNICAMP e Universidad

Complutense de Madrid. Pós Doutorado no Programa de Psicologia Social da UERJ. Membro Fundadora do LAPSUS – Laboratório de
Psicologia em Subjetividade e Sociedade. E-mail: fatimaseveriano@gmail.com.

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1. INTRODUÇÃO de imagens advindas de 500 milhões de


usuários (Evans, 2015). Finalmente, a rede
A agência turística Tauck possui social virtual Instagram, baseada principal-
curiosas normas acerca de suas excursões: mente no compartilhamento de imagens,
“desliguem seus smartphones, tablets e ou- assinala mais de 80 milhões de postagens
tros aparelhos eletrônicos portáteis du- diárias (G1, 2015).
rante as atividades de grupo” (Associated Assim, inundado por imagens e ávido
Press, 2014, §14). Tal regra fez-se neces- produtor destas, o homem contemporâneo
sária porque os responsáveis pelos pas- parece apropriar-se, cada vez mais, da lin-
seios constataram que a maioria dos excur- guagem imagética, tornando-a insumo
sionistas parecia mais ávida a fotografar os para a compreensão da subjetividade atual.
museus visitados do que se atentar aos De fato, trabalhar com imagens torna-se
guias turísticos, quadros ou monumentos. imprescindível à pesquisa contemporânea:
Em situações como esta, o ímpeto por
fotografar do homem contemporâneo tor- O mundo em que vivemos é cres-
na-se evidente e, em outros casos, extra- centemente influenciado pelos
pola situações de viagens, estendendo-se à meios de comunicação, cujos resul-
vida cotidiana. A exemplo disto, é possível tados, muitas vezes, dependem de
citar o fenômeno selfie, que vem percor- elementos visuais, consequente-
rendo o globo nos últimos anos, segundo mente, “o visual” e “a mídia” desem-
Aykroyd (2015). O selfie consiste no ato de penham papéis importantes na vida
se autorretratar, em geral com smartphone social, política e econômica. (...)
ou webcam, e compartilhar a imagem em Eles não podem ser ignorados.
uma rede social (Oxford Dictionaries, 2014). (Loizos, 2000, p.137).
Este fenômeno propagou-se pela cena
contemporânea e suas diversas modali- Na verdade, o mero fato de que as
dades englobam vários aspectos da vida di- imagens se apresentem como linguagem
ária dos indivíduos. Faz-se selfies ao ir marcante da contemporaneidade suscita
dormir (bedtimeselfie), durante a leitura de questionamentos: O que dizer de um indi-
um livro (bookselfie), em meio ao exercício víduo que constantemente fotografa a si,
físico (fitnessselfie), ao se deparar com uma aos outros e a seu entorno? Por que o selfie
“celebridade”, ao empreender viagens e se tornou um fenômeno global que tende a
passeios ou ao adquirir objetos socialmente ser irresistível ao homem hodierno? Que
desejados (braggie). Faz-se selfies, até contexto sociocultural tem servido de in-
mesmo, após o sexo (aftersexselfie). sumo e palco a este indivíduo, ou seja, a
Tal fenômeno tem, pois, contribuído esta subjetividade contemporânea?
para que o número de fotos produzidas dia- Estas perguntas apontam para cami-
riamente fuja a qualquer tentativa de cál- nhos a serem trilhados pela pesquisa em
culo, pois se modifica a cada segundo, difi- Psicologia na contemporaneidade acerca
cultando aferições precisas. Em maio de do que Sodré (2006) denomina de um “novo
2015, o Facebook estimou que 2 bilhões de bios”, isto é, “um novo tipo de relaciona-
fotos fossem compartilhadas todos os dias mento do indivíduo com as referências con-
– neste período, a rede social virtual men- cretas e com a verdade, ou seja, uma outra
cionada possuía 1,4 bilhão de usuários condição antropológica” (p. 23).
(Evans, 2015). Ainda, em abril de 2014, o Logo, aos pesquisadores que, a partir
aplicativo de comunicação à distância da Psicologia, observam as atividades hu-
WhatsApp revelou contar com um tráfego manas acima referidas, um novo desafio
diário de, aproximadamente, 700 milhões aflora: como “decifrar” estas imagens, pre-

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ciosas enquanto forma de vislumbrar as- suas potencialidades: a Teoria Crítica não
pectos psicossociais do homem contempo- se pronuncia acerca de objetos, no sentido
râneo? Ressaltamos, ainda, que cabe à de concebê-los como algo imediato, estático
Psicologia empreender uma reflexão crítica e isolado. Ela teoriza acerca de realidades
frente aos atuais modos de subjetivação em movimento, reconhecendo suas dimen-
que as mencionadas imagens propiciam. sões históricas e sociais. Ao se debruçar
Portanto, exporemos neste artigo, um sobre um selfie, por exemplo, o olhar crítico
dos caminhos possíveis à Psicologia frente não enxerga meramente uma imagem, mas
aos questionamentos suscitados. Optamos um valioso índice, um microcosmo da rea-
por fazê-lo por meio de uma apropriação da lidade, conforme tornar-se-á mais claro no
Teoria Crítica enquanto estrutura teórico- decorrer de nossas considerações.
-metodológica viabilizadora do trabalho Isto não significa, porém, que a Teoria
com imagens. Tomaremos os selfies como Crítica se limite a compor um panorama
objeto de nossas considerações por estes histórico através do material investigado.
serem imagens de extrema recorrência no Ao elucubrar acerca do índice de um tempo,
momento atual. fala-se também do homem que o habita: um
Inicialmente exporemos aspectos ge- ser histórico, ativo e produtor de sua época.
rais da Teoria Crítica, buscando destacar Logo, na perspectiva crítica,
sua aplicabilidade no trabalho com selfies.
Em seguida, levantaremos pontos desafia- o que diz respeito ao homem nunca
dores da análise de imagens, contrapon- pode ser tomado como um dado na-
do-os a contribuições da Teoria Crítica no tural. Tomar o homem como pro-
manejo destes. dutor das práticas que constituem
a sua realidade é tirá-lo da esfera
2. TEORIA CRÍTICA E SELFIES: dos objetos físico-inertes, é consi-
O TRABALHO COM IMAGENS EM derar a impossibilidade de separar,
UMA PERSPECTIVA TEÓRICO- no sujeito, o que ele é do que ele faz,
METODOLÓGICA CRÍTICA entendendo que a ação humana se
distingue da ação dos objetos natu-
A Teoria Crítica, também conhecida rais por ser dotada de intencionali-
como Escola de Frankfurt, é um movimento dade. (Silva, 1997, §21).
de ideias. A despeito da impressão gerada
pelo termo “Escola”, isto é, apesar da im- Esta maneira de enxergar o homem
pressão de unidade de pensamento e mé- tem dupla aplicação. Ela torna evidente o
todo, a Teoria Crítica consiste em um mo- caráter histórico e construído do objeto exa-
saico de contribuições provenientes de minado, desnaturalizando-o. Ainda, ela pos-
diversos campos do saber – filosofia, socio- sibilita ao homem, por meio da reflexão, en-
logia, psicologia social etc. xergar para além da realidade estabelecida,
Todavia, a multiplicidade de conheci- tornando-o capaz de transformá-la – o que
mentos presente nas reflexões frankfur- consiste na dimensão da investigação acerca
tianas possui em comum a busca por des- das potencialidades que a realidade encerra.
velar a lógica de funcionamento do projeto Voltaremos a este ponto mais à frente.
da modernidade. De fato, segundo Soares Nesta perspectiva, então, o selfie tor-
(2010), a Teoria Crítica é mais uma pers- na-se, mais que um objeto, ou mesmo um
pectiva do que uma teoria. Trata-se de um documento histórico: faz-se índice de um
jeito de produzir conhecimento. tempo e do homem que constrói e que é cons-
Este modo de conhecer inicia-se no truído por esse tempo. Como pode, porém,
olhar do pesquisador sobre a realidade e uma imagem fornecer tão rica leitura?

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Ora, para a Teoria Crítica o particular A modificação da teoria pela prática


é índice do todo. Nesta, ocorre porque o objeto estudado é apreen-
dido em consonância com o seu devir his-
a relação com o todo não é estabe- tórico. Logo, o conhecimento produzido é
lecida para dissolver, através de transitório, de modo que “uma caracterís-
um princípio universal, a integri- tica da Teoria Crítica é a sua permanente
dade do particular, mas para des- renovação, a sua permanente capacidade
cobrir o universal no particular, e de analisar o momento histórico pre-
através dele. Seu método [crítico] sente.” (Nobre, 2013, p.18). Em outras pa-
consiste em levar tão a sério o par- lavras, porque se propõe a estudar seu
ticular – mesmo o mais insignifi- objeto em movimento, a Teoria Crítica
cante – que este acabe falando, e deve ser permanentemente reformulada e
nesta fala revele aquilo que o trans- repensada tendo em vista as condições
cende. (...) Quanto mais humilde históricas do presente.
esse particular, maior a probabili- Por sua vez, a transformação da prá-
dade de que em sua humildade tica pela teoria pode acontecer devido às
mesma tal particular abra o ca- reflexões desenvolvidas. Ao ponderar acerca
minho para a descoberta da ver- de sua realidade, o indivíduo modifica-se,
dade. (Rouanet, 1986, p.107). isto é, sua visão acerca de certo objeto
transforma-se e isto pode acarretar ações
Baseia-se, pois, em uma abordagem que transmudam seu entorno. A mutação
micrológica que privilegia o paradigma indi- da prática a partir da reflexão liga-se a um
ciário, isto é, princípios e procedimentos aspecto fundamental da Teoria Crítica: o
que propõem um método direcionado ao de- sentido do trabalho teórico – o que é de
talhe. Buscam-se dados marginais, vestí- fundamental importância para o pensa-
gios e indícios desveladores da totalidade. mento crítico emancipatório.
A exemplo disto, citamos a pesquisa Assim, um dos objetivos da Teoria
conduzida por Adorno (1970) na obra As es- Crítica é elaborar um “diagnóstico do
trelas descem à terra. Nesta, o autor des- tempo” presente, isto é, uma leitura da re-
tacou a presença de aspectos culturais pró- alidade de seu tempo, não apenas para
prios ao momento histórico vivido – totalidade descrevê-la, mas tendo em vista a emanci-
– através de uma pesquisa em horóscopos pação, pois
publicados – particular. Adorno (1970)
afirmou que estes últimos funcionavam não cabe à teoria limitar-se a dizer
como um tubo de ensaio no qual era pos- como as coisas funcionam, mas sim
sível identificar tendências e processos do analisar o funcionamento concreto
todo. De maneira análoga, deter-se aos sel- das coisas à luz de uma emanci-
fies é atentar para um particular represen- pação ao mesmo tempo concreta-
tativo de um todo, isto é, de traços culturais, mente possível e bloqueada pelas
históricos e sociais da contemporaneidade. relações sociais vigentes. Com isso,
Outro aspecto peculiar à Teoria Crítica é a própria perspectiva da emanci-
é o tipo de conhecimento produzido, que re- pação que torna possível a teoria,
sulta da articulação entre teoria e prática. pois é essa perspectiva que abre
Desta combinação, duas possibilidades pela primeira vez o caminho para a
emergem: o aprimoramento da teoria a efetiva compreensão das relações
partir de novos aspectos da prática ou mo- sociais. Sem a perspectiva da eman-
dificações em aspectos da prática, por meio cipação, permanece-se no âmbito
de reflexões produzidas através da teoria. das ilusões reais criadas pela pró-

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pria lógica interna da organização Como, porém, ela poderia auxiliar-nos no


social capitalista. Dito de outra ma- “passo a passo” do método, orientando-nos
neira, é a orientação para a emanci- em meio aos desafios próprios a uma aná-
pação o que permite compreender a lise imagética? A seguir, buscaremos res-
sociedade em seu conjunto, o que ponder esta pergunta, salientando cami-
permite pela primeira vez a consti- nhos oferecidos pela Teoria Crítica frente
tuição de uma teoria em sentido en- aos impasses da análise de imagens.
fático. (Nobre, 2013, p.17).
3. SUBJETIVIDADES EM FOCO:
Existe, pois, uma intencionalidade no CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA
conhecimento produzido. A inseparabili- CRÍTICA À ANÁLISE DE IMAGENS
dade entre o homem e o que ele produz EM PSICOLOGIA
mostra-se tanto no objeto investigado – em
nosso caso, o selfie – quanto na atividade Embora o trabalho com imagens mos-
do próprio pesquisador. Este também é tre-se vital à pesquisa social contempo-
homem e agente histórico de seu tempo, rânea, algumas particularidades e dilemas
logo o conhecimento por ele produzido é in- alusivos ao manuseamento de imagens
separável desta dimensão de ser que age. vêm à cena. Loizos (2000) aponta alguns
Suas reflexões orientam-se, pois à emanci- destes percalços, a serem examinados a se-
pação e transformação de seu entorno; e guir à luz da Teoria Crítica.
quando tal não acontece, é apontado e re- Para Loizos (2000), embora as ima-
fletido pelo pesquisador. gens ofereçam “um registro poderoso das
Ressaltamos, ainda, que esta capaci- ações temporais e dos acontecimentos reais
dade de transformação advinda da reflexão – concretos e materiais” (p.137), elas não
vem da possibilidade de pensar o não-pen- devem ser tomadas como incorruptíveis em
sado. Ora, ao compreender certa realidade sua sinceridade. As imagens estão sujeitas
em uma perspectiva histórica, outras possi- a distorções ou editorações através de ma-
bilidades de arranjo emergirão. Logo, para nipulação eletrônica.
Soares (2010), a Teoria Crítica fomenta a Concordamos com o autor quando ele
capacidade de vislumbrar possibilidades. explicita que “a manipulação de imagem vi-
Desta forma, lançar um olhar crítico sual pode ser mais sutil e oculta, mas ela é
aos selfies não é desmerecer a tecnologia, claramente ideológica” (Loizos, 2000,
as subjetividades contemporâneas ou as p.140). De fato, ao olhar crítico importa
potencialidades do agora. Trata-se, sim, de justamente estas interferências nas ima-
examinar tal objeto “da perspectiva da dis- gens, elucidativas do momento histórico e
tância que separa o que existe das possibi- cultural vivido, assim como das subjetivi-
lidades melhores nele embutidas e não rea- dades associadas a este.
lizadas, vale dizer, à luz das carências do Loizos (2000) aponta, ainda, que a
que é diante do melhor que pode ser” manipulação não necessita ser eletrônica,
(Nobre, 2013, p.16). pois ao fotografar já se faz uma opção: o
Portanto, frente a estes breves aportes que mostrar e o que ocultar. Interessa ao
do trabalho com imagem por meio da Teoria olhar crítico justamente esta escolha,
Crítica, resta-nos inquirir acerca das con- porque esta também constitui dado signifi-
tribuições desta à análise de imagens em cativo da investigação.
si. Em outras palavras, até aqui nos de- Tomemos o selfie como exemplo. Ao
temos às contribuições da Teoria Crítica se autorretratar, o indivíduo escolhe por
enquanto estrutura teórico-metodológica se mostrar, preferencialmente, em situa-
viabilizadora do trabalho com imagens. ções valorizadas socialmente ou fazendo

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uso de objetos desejados – o que revela ricos constituem dados relevantes. Vale
ideais próprios da sociedade de consumo ressaltar que ao inserir objeto e olhar em
contemporânea (Almeida, 2016). Esta foi um contexto sócio-histórico, a Teoria
nossa compreensão, em estudos ante- Crítica busca quebrar a rigidez de uma re-
riores, a partir da leitura de vasto referen- alidade “objetificada”, que parece externa e
cial teórico pertinente ao tema em articu- alienada ao homem. Evidencia-se, pois a
lação com a leitura de dados oriundos de possibilidade de mudança.
postagens em redes sociais. Como o olhar crítico fita, porém, a re-
O referido estudo evidenciou, no fenô- alidade? Isto ocorre através da abordagem
meno contemporâneo dos selfies, uma ten- micrológica, fundamentadora de um olhar
dência a uma subjetividade exteriorizada, flanêur. Este pode ser tomado como orien-
baseada no olhar do outro e no reconheci- tador na leitura de imagens, de maneira
mento de ideais midiáticos. Busca-se atrair que nos deteremos a explicá-lo a partir das
o olhar da alteridade com o que já lhe é fa- considerações de Benjamin (1989) acerca
miliar, ou seja, com aquilo que corrente- do flanêur, personagem urbano que se ca-
mente e “inquestionavelmente” é veiculado racteriza pelo caminhar errante em espaços
como o “ideal” na mídia e na publicidade, em transformação.
no contexto da sociedade do consumo con- Em meio aos processos de moderni-
temporânea (Severiano, 2001). zação da cidade de Paris, repleta de grandes
Não nos delongaremos na continui- reformas urbanas, Benjamin (1989) destaca
dade do referido estudo, pois apenas dese- esta figura. O que distingue o flanêur dos
jamos mostrar como, por meio de um dado outros, isto é, o que torna seu olhar tão sin-
aparentemente insignificante ou de uma gular? Ora, seja por meio de um passeio
particularidade apresentada pelo objeto, é com tartarugas que lhe ditam os passos,
possível depreender reflexões críticas rele- seja por meio do olhar acurado ao detalhe, o
vantes para a compreensão da subjetivi- flanêur enxerga o novo sem fascinação, be-
dade contemporânea. bendo deste ao mesmo tempo que a este
Outro desafio no trabalho com ima- reage, fazendo “botânica do asfalto” (Ben­
gens destacado por Loizos (2000) como uma jamin, 1989, p.34).
limitação é o olhar de quem as analisa. A De fato, conforme afirma Jacques
investigação é profundamente dependente (2014), “o flanêur se distingue por sua
da habilidade do analista quanto à “per- enorme potência crítica” (p.59). Esta pa-
cepção de detalhes significativos” (p.141) e rece nascer justamente da tensão entre a
de suas contingências enquanto ser histó- experiência do novo, da multidão, da mo-
rico em um determinado contexto social. dernidade e a aguda consciência do desa-
Ora, a consciência da parcialidade e parecimento do que é antigo, “que não
transitoriedade do conhecimento produ- chegando a ser exatamente uma nostalgia,
zido é integrante da Teoria Crítica, de forma é mais uma denúncia da violência e da ve-
que não apenas o objeto do qual se fala, locidade da transformação urbana, social
mas também aquele que dele fala são en- e cultural” (Jacques, 2014, p.69). A pró-
tendidos como históricos. Ou seja: “os fatos pria figura do flanêur é ambígua, pois ao
que os sentidos nos fornecem são pré-for- mesmo tempo em que tece críticas às re-
mados de modo duplo: pelo caráter histó- formas modernas, é personagem da mo-
rico do objeto percebido e pelo caráter his- dernidade, sem a qual suas percepções
tórico do órgão perceptivo” (Adorno & não existiriam.
Horkheimer, 1983, p. 125). Quanto ao uso que este personagem
Assim, tanto os detalhes percebidos faz da abordagem micrológica, Jacques
quanto o olhar do pesquisador são histó- (2014) afirma que

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sem dúvida, podemos encontrar mente porque substitui a um espaço traba-


nos registros dos errantes uma lhado conscientemente pelo homem, um
apreensão aguçada na escala micro, espaço que ele percorre inconscientemente”
tanto do ponto de vista social quanto (Benjamin, 1987, p.94).
do político; uma busca do estranha-
mento mesmo no familiar (...). 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Talvez sua liberdade de ação sem
uma metodologia tradicional prees- Iniciamos este artigo norteados por
tabelecida garanta aos errantes um algumas inquietações: Como a Psicologia
outro tipo de sensibilidade, de apro- se ocupa de ler uma imagem, por mais
ximação sensível da cidade. (p.76). “simples” que esta seja, como um selfie,
por exemplo?
Portanto, imbuídos da mesma “em- Por meio de uma investigação via
briaguez anamnésica, na qual o flanêur va- Teoria Crítica, esta pergunta desperta-nos
gueia pela cidade” (Benjamin, 1989, p.39), o para a potencialidade destas simples ima-
olhar do pesquisador deve vagar pelas ima- gens como reveladoras do momento socio-
gens. Assim como o flanêur de Benjamin, de- cultural presente, bem como da subjetivi-
ve-se percorrer territórios em mutação, em- dade que o habita.
bora estes sejam virtuais como o selfie e não Isto, por sua vez, possibilita denun-
concretos como a cidade. Logo, semelhante ciar formas controladoras e mercantili-
ao flanêur, cabe ao pesquisador dirigir olhar zadas de utilização dos selfies, bem como
sensível e crítico às imagens analisadas. descortinar possibilidades de outros ar-
Ainda, Sontag (2005) afirma que “o ranjos socioculturais. Em outras palavras,
flanêur não é atraído pela realidade oficial a crítica viabiliza refletir acerca das poten-
da cidade, mas por seus cantos escuros e cialidades do selfie como forma de resis-
infames, pela sua população negligenciada tência e criação que está para além de seu
– uma realidade não-oficial por trás da fa- uso habitual. Somos instigados, como já
chada da vida burguesa” (p.43). Ao ana- mencionamos anteriormente, a “pensar o
lisar selfies, busca-se também esta reali- não pensado”, bem como a agirmos e nos
dade “não-oficial”, através de vestígios, apropriarmos de maneira singular de nosso
detalhes e pistas. objeto de investigação.
Logo, ao observar um selfie, “apesar Deste modo, muito tem a Psicologia a
de toda perícia do fotógrafo e de tudo o que contribuir com a análise das imagens, es-
existe de planejado em seu comportamento, pecialmente ao se ater à sua especificidade,
o observador sente a necessidade irresis- na medida em que é capaz de enxergar para
tível de procurar nessa imagem a pequena além de descrições de elementos semió-
centelha do acaso, do aqui e agora, com a ticos. É capaz de enxergar o homem e ou-
qual a realidade chamuscou a imagem” tras possibilidades de ser homem em um
(Benjamin, 1987, p.94). Este olhar que ta- “simples” selfie.
teia imagens é, portanto, o olhar do flâneur,
que em suas errâncias dá conta de ele- REFERÊNCIAS
mentos que fugiram ao controle e à per-
cepção de quem se autorretratou.
Adorno, T. W. (2008). As estrelas descem à
O olhar flanêur, portanto, empenha-se
Terra : a coluna de astrologia do Los
muito mais em ler entrelinhas do que li-
Angeles Times : um estudo sobre supers-
nhas. Ao percorrer selfies, entende, pois,
tição secundária. São Paulo: UNESP.
que “a natureza que fala à câmera não é a
mesma que fala ao olhar; é outra, especial- Adorno, T. W., & Horkheimer, M. (1983).

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