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A Queixa Escolar e o Predomínio de uma visão de mundo

 O Brasil convive com um alto índice de reprovação escolar (evasão e repetência);


 A maioria das crianças reprovadas frequenta escolas públicas da rede estadual, são
provenientes das camadas mais pobres da população;
 Pedagogia da repetência: a repetência cria espaço para a estigmatização, marcando a
criança como diferente dos demais;
 Índices de aprovação não significam aquisição de conhecimento

 70% dos encaminhamentos feitos para atendimento psicológico tem como queixa
problemas de escolarização; (pesquisa 1989/ UBS de SP);
 Metade das criança encaminhadas eram ingressantes cujos professores já acreditam
que apresentam problemas de aprendizagem;

 A presença da atitude diagnóstica escolar ou preditiva da performance de atuação da


criança é muito preocupante em função das consequências para seu futuro;
 É possível que a criança vá mal na escola porque é isso que se espera dela;
 Encaminhamento para atendimento médico e psicólogo é o modelo mais praticado
por grande parte de diretores e professores;
 Ênfase nas explicações psicológicas aos problemas escolares;
 Questão de gênero: os meninos* são mais encaminhados para atendimento
psicológico;
 *Medo de que o menino eventualmente venha a ser um marginal, exigindo
comportamentos socialmente estabelecidos (submissão);
 Muitos pais não conseguem entender a razão pela qual os filhos são encaminhados
para o atendimento psicológico; busca-se a causa na história de vida; geração de
culpa;

 A queixa escolar vem sendo atendida através do modelo proposto pelo processo
psicodiagnóstico; tripé entrevista inicial—anamnese—aplicação de testes;
encaminhamento para psicoterapia e orientação de pais;
 Os instrumentos utilizados para atender a queixar escolar são os mesmos utilizados
para queixas de natureza diferente; (HTP; CAT-a; Wisc);
 Ênfase recai sobre fatores intrapsíquicos e dinâmica familiar;
 Inversão: aquilo que se passa com a criança na escola é um dos conflitos vividos
internamente por ela;
 Tal abordagem/interpretação de mundo não é considerada uma das versões possíveis
na Psicologia, mas, sim, como a única versão possível para explicar os problemas de
escolarização;
 Resulta de uma visão de mundo que explica a realidade a partir de estruturas
psíquicas; negação de influências e/ou determinações das relações institucionais e
sociais sobre o psiquismo, encobrindo arbitrariedades, preconceitos e estereótipos de
que as crianças de classes populares são vítimas no processo educacional e social;

 Os psicólogos precisam ampliar as interpretações e práticas, direcionando o olhar a


complexidade do conjunto de práticas que compõe a vida escolar;
As crianças excluídas da escola: um alerta para a Psicologia

 Estudos questionam a concepção que culpabiliza a vítima, o aluno, pelo fracasso


escolar;

 Não difundir as críticas às concepções preconceituosas é compactuar com a exclusão


da criança, do adolescente e adulto do universo escolar;

 Encaminhamentos de crianças para atendimentos psicológicos e/ou médicos selam


destinos e trajetórias escolares;

 Falsas perguntas sobre o aluno-problema

 Se a pessoa apresenta uma tendência de forma que nas relações essa tendência se
cristalize, essa pessoa vira um personagem: “aluno-problema”; o aluno especial; o o
louco; o tímido; o chato;
 Observa-se uma série de práticas que objetivam os alunos;
 A prática objetivação implica uma prática de subjetivação; produz-se algo e produz-se
o sujeito que entende este algo naturalmente;
 Ex: crianças de 8 a 16 anos foram objetivadas como alunos especiais para que elas
sejam percebidas pelos professores como alunos que precisam de um programa
especial de ensino;

 Se nas relações e nas práticas se produzem as objetivações, as perguntas devem ser


feitas sobre as relações e as práticas, e não sobre os objetos;

 Ex: Como as relações de aprendizagem e as relações diagnósticas fabricam esses


alunos?
 Falsa pergunta: por que o aluno não aprende? Por que ele não está feliz? (busca de
causas que possivelmente venham a obscurecer as relações e práticas estabelecidas
no contexto escolar)

 É falsa a ideia de se perguntar algo sobre um objeto, como se a pergunta não


estivesse, de alguma forma, produzindo este mesmo objeto;

 Naturalizar: é pensar que o que acontece é decorrente da natureza mesma das coisas
e não da história;
 Relação cristalizada: é aquela na qual as queixas são as mesmas há muito tempo; não
há movimento; o efeito é a sensação de que nada se pode fazer, apenas esperar.

 A naturalização fortalece a cristalização;

 Em uma escola especial, a criança vai ter sempre o desejo captura, aprisionado ao fato
de ela ser especial;
 É fundamental que a criança consiga pensar e opinar sobre as coisas da sua vida para
aprender a ler e a escrever;
 Para a prática da psicólogo educacional:
 Importância de observar a diversidade, a heterogeneidade na vida diária escolar;
compreender o espaço escolar como contraditório; dinâmico; confuso; divergente;
atravessado por muitas outras instituições;
 Cada escola se constitui, portanto, como um espaço historicamente construído por
aqueles que o compõem;

 A Psicologia tem utilizado um saber que estabelece, de forma geral, um recorte sobre
o indivíduo;
 Foco na localização das causas psíquicas que estejam interferindo em seu não-
aprendizado; seu “mau” comportamento é visto como um sintoma de algo mais
profundo; ou, ainda, as causas de tal comportamento estariam vinculadas a uma
relação familiar inadequada ou insuficiente para o bom desenvolvimento da criança,
permeada de carências afetivas, emocionais, nutricionais e cognitivas;

 As práticas psicológicas utilizam, neste contexto, ferramentas como o psicodiagnóstico


clínico, composto de entrevistas com os pais ou responsáveis; ludodiagnósticos
individuais ou grupais; aplicação de testes de inteligência ou projetivos;

 Tais práticas incluem a busca do sentido da existência; do significado de estar no


mundo; compreender-se; lidar com anseios e desejos;
 Porém, elas excluem todo o contexto escolar no qual a criança está inserida; exclui a
existência da diversidade escolar, de seus determinantes e variantes;