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Texto de Referência: O legado de Paul B.

Baltes à Psicologia do Desenvolvimento e do


Envelhecimento (Neri, 2006).
Conceito chave:Lifespan.

Primitivamente, a expectativa de vida do homem oscilava entre 20 e 40 anos


(Trinkaus,2010); expectativa de vida esta que se manteve linear até 1820, a partir de então
aumentando gradativamente em razão do desenvolvimento tecnológico e comércio
intercontinental (Maddison, 2001), atingindo hodiernamente a média de 73 anos para
mulheres e 68 para homens (WHO 2014) no mundo, e de 78 anos para mulheres e 71 para
homens (IBGE 2014) no Brasil. Ora, com o aumento do tempo de vida das populações
em geral, se tornou urgente a reflexão sobre o envelhecimento, tendo em vista as
demandas que estas populações acarretam, e a própria estrutura social, que se modifica.
Sendo a psicologia, em sua definição mais enxuta, o estudo do comportamento, seja de
indivíduos ou grupos, ela também se ocupou da reflexão acerca deste tema.

Tradicionalmente, a idade adulta, e por conseguinte, a velhice, sempre foram


vistas como a época do declínio, ou seja, passado o momento da infância e da primeira
juventude, épocas estas do desenvolvimento físico e aprendizado, o homem decairia
paulatinamente, física e cognitivamente, de forma inderrogável. Paradigmas estes que
caíram por terra com o advento da moderna Psicologia do Adulto, que desenvolveu
metodologias que levaram em conta o paradigma de Lifespan, ou seja, que o homem se
desenvolve ao longo de toda a vida, e não apenas na sua primeira idade. (Baltes, 1987).

O desenvolvimento humano se caracteriza basicamente pelas características que


sofrem mudanças ao longo da vida e as que permanecem estáveis. Esse devir, esse vir a
ser, foi primeiro pensado pelo filósofo pré-socrático Heráclito, que disse que nada é
permanente, exceto a mudança: “Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo” (Sobre
a Natureza (DK 22 b 1-126) Apud HERÁCLITO de Éfeso, p. 97).

O psicólogo alemão Paul Baltes, considerado universalmente um dos mais


proeminentes psicólogos do desenvolvimento, vê como características fundamentais do
desenvolvimento humano que: ele é plástico, ou seja, tende a se modificar no desempenho
de suas capacidades ao longo do tempo, portanto, é suscetível a treino, o que não significa
potencial infinito; o desenvolvimento é histórico, ou seja, cada homem se desenvolve
tendo em vista os múltiplos fatores que agem sobre a sua vida no tempo e no espaço; ele
é duradouro, ou seja, o homem se desenvolve até a morte, cada período afetando o
subsequente, tendo cada etapa da sua vida características próprias, que não podem ser
medidas por juízo de valor; e ele é multidimensional e multidirecional (Baltes, 1987), ou
seja, ao longo da vida o desenvolvimento tem como propriedade o equilíbrio entre
crescimento e decadência, e esse equilíbrio muda gradualmente ao longo do tempo.

O paradigma Lifespan, desenvolvido por Baltes, mostra que a “vida útil” do ser
humano compreende não o período que o senso comum, ou mais ainda, os imperativos
de uma sociedade pós-industrial definem como importantes na vida humana: seu
aprendizado na infância, trabalho na idade adulta para súbito declínio e inutilidade na
velhice. Não, o desenvolvimento compreende toda a vida, e é resultado da interação da
biologia e da cultura, tendo cada estágio suas características, cuja próxima etapa não é
nem pior nem melhor que a anterior. Isto contribui enormemente para o refinamento da
definição de dignidade humana, porque o paradigma Lifespan dissocia o valor do
indivíduo à sua idade cronológica, mas ao contrário, existe a despeito dela.

Contudo, Baltes não perseguiu com essa concepção a ideia de que a morte deve
ser adiada ao máximo ou que a capacidade de desenvolvimento humano, embora presente
em todos os estágios da vida, seja ilimitada. Inversamente, “ele acreditava no caráter
incompleto da arquitetura do desenvolvimento humano, no caráter normativo do
envelhecimento e na existência de descontinuidade entre a velhice inicial e a velhice
avançada” (Neri, 2006). Nesta última, o adiamento indefinido da morte deveria ser
interrompido com a perda da dignidade imposta pelas prováveis doenças que essa fase
acarreta, dependência e perda de identidade. Portanto, Baltes, um grande humanista,
dignifica o envelhecimento humano, mas resguarda a liberdade de tornar essa dignidade
mais importante do que a mera sobrevivência biológica.

Essa potencialidade de desenvolvimento que a velhice possui, depende, contudo,


das oportunidades presentes na sociedade na qual o indivíduo está inserido. É neste
contexto que o Brasil promulgou o Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741, 2003). Esta lei
garante proteções à saúde do idoso; o acesso facilitado à cultura, proíbe a limitação de
idade a atividade profissional; garante renda mínima aos economicamente
hipossuficientes; torna acessível o transporte; dá prioridade à moradia do idoso, dentre
outras. Ora, ao assegurar o bem estar material, o acesso à cultura e educação, a lei torna
propício o ambiente para o desenvolvimento constante, inclusive na velhice, como o
paradigma Lifespan propõe. O economista Ferdinand Lassalle cunhou uma tese que nega
que a Constituição, ou seja, o ordenamento jurídico, possa mudar a realidade (Lenza,
2009). Embora contradito por outros pensadores, ele parece definir a situação do Estatuto
do Idoso no Brasil: a incapacidade premente do Estado Brasileiro de cumprir a letra da
lei.

Não interessa apenas a ausência de doenças, mas o desenvolvimento integral das


pessoas e da comunidade (Bleger,1984). Contudo, se o Idoso é negligenciado, se o
homem deixa de realizar sua tarefa primordial de desenvolver-se, de sentir e perceber
utilidade em sua vida, é natural não apenas que sofra com o declínio inevitável que a
velhice acarreta do ponto de vista fisiológico, mas também sofram do ponto de vista
psíquico e social. Inversamente, se o desenvolvimento do seu potencial é garantido, é
mais provável que ao envelhecimento coexista saúde psíquica e bem estar social. O
pensamento de Baltes, e sua teoria do Lifespan, municia a Psicologia para contribuir
efetivamente para o desenvolvimento, liberdade e dignidade do ser humano.

Referências

Baltes, P. (1987). Theoretical propositions of life-span developmental psychology: On


the dynamics between growth and decline. Developmental Psychology, 23, 611-626.

Bleger, J. (1984). Psico-higiene e psicologia institucional. Porto Alegre: Artes Médicas.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). (2014). Tábua completa de


mortalidade para o Brasil – 2014. Disponível em:
ftp://ftp.ibge.gov.br/Tabuas_Completas_de_Mortalidade/Tabuas_Completas_de_Mortal
idade_2014/notastecnicas.pdf

Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. (2003). Recuperado em 03 de maio de 2015,


em http://www2.camara.leg.br/responsabilidade-social/acessibilidade/legislacao-
pdf/Legislaoidoso.pdf
LENZA, P. (2009). Direito Constitucional Esquematizado. São Paulo. Editora Saraiva.
25 p.

Maddison, A. (2001) The World Economy: A Millennial Perspective. Organization for


Economic Cooperation and Development.

Neri, A. (2006). O legado de Paul Baltes à psicologia do desenvolvimento e do


envelhecimento. Temas em Psicologia, 14(1), 17-34.

Pré-Socráticos. 1 ed. São Paulo, 2000. Trad. de José Cavalcante de Souza. 97 p.

Trinkaus, E. (2010). Late Pleistocene adult mortality patterns and modern human
establishment. Proceedings of the National Academy of Sciences, vol. 108, n. 4, 1267-
1271.

World Health Organization (WHO). (2014). World Health Statistics 2014. Disponível
em: http://www.who.int/mediacentre/news/releases/2014/world-health-statistics-
2014/en/