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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

INSTITUTO DE LETRAS
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
Disciplina: Literatura Grega I
Profº: Bruno Gripp
Aluna: Thais Gomes da Silva Nogueira

AVALIAÇÃO GERAL
O presente trabalho visa trazer à tona a imagem de algumas personagens femininas
da poesia épica de Homero, a Odisseia, para contrapor com suas características e
estilo de vida que atualmente é incorporado por essas personagens em algumas
releituras.

O autor de obras épicas


Este trabalho épico de Homero foi constituído na chamada Idade das Trevas1 da
Grécia, uma época em que a utilização das formas geométricas eram privilegiadas e
a escrita quase esquecida. Odisseia é uma obra posterior à Ilíada, sendo
considerada com uma continuação, e as duas são consideradas como obras
importantes de seu tempo, constituindo assim o período homérico, que recebeu esse
nome por causa do autor destas obra.
As obras de Homero são utilizadas como referência para outras obras até os dias de
hoje, mas teve uma influência ainda mais intensa no mundo antigo, como bem
exemplificado por Anthony Snodgrass (2004):
[...] Homero era frequentemente apresentado como um manancial (se não
como a única fonte) de sabedoria em um vasto campo de atuação:
espiritual, intelectual e prático.[...] Citar um verso de Homero era um meio
hábil de dar força a um argumento relativo a praticamente qualquer assunto.
Conhecer tão bem a suas obras a ponto de recorrer à vontade a uma
passagem apropriada constituía um requisito para a solução de muitos
problemas de ordem prática. Conhecê-las de memória poderia, ao menos
em tese, ser uma habilitação suficiente para o exercício da liderança, em
qualquer esfera.[...] (SNODGRASS, 2004, p. 20 – 21)

Além disso, é dito que os poemas homéricos é uma compilação de várias tradições
e sabedorias gregas, e era reconhecido como o principal instrumento de instrução e
integração de um indivíduo numa sociedade grega naquele tempo.
Atualmente, uma corrente que cresce cada vez mais à respeito da autoria dos
poemas homéricos é levantada. Não se sabe se os poemas homéricos são de fato
de uma pessoa só, sendo Homero ou não, ou se ele é uma compilação de várias
histórias. Muitas correntes divergem quanto a isso, mas eles se baseiam em traços

1
Não se deve confundir a Idade das Trevas grega, com a Idade Média que também era conhecida pelo mesmo
nome, pois a Idade das Trevas medieval se refere a um retrocesso no campo técnico científico e
desaparecimento quase total da escrita. Já a Idade das Trevas grega é de fato usada para exemplificar a falta de
informações que a historiografia tem sobre este período
na história, como a distinção das temáticas e os estilos de escrita, sem deixar de
lado a pouca informação bibliográfica sobre o autor.
Vale ressaltar que essas poesias eram passadas de geração em geração numa
prática de oralidade, ou seja, mudanças certamente podem acontecer. Essa função
de “criar versos” era do aedo, um indivíduo inserido e educado em uma longa
tradição de poesia oral, que lhe conferia um expressivo repertório cultural de poema,
fórmulas e temas. Valendo-se desses artifícios, o aedo era capaz de compor um
poema durante sua performance. Homero era possivelmente esse aedo, mesmo
com as dúvidas de sua existência.
Não haviam dúvidas na época a respeito da existência dos heróis mencionados na
obra, e nem dos mitos criados ali. Para a sociedade grega da época, as obras eram
verídicas e as histórias em tradicionalmente transmitidas ao passar dos tempos,
como Paul Veyne cita “os mitos mais verdadeiros e as invenções dos poetas se
sucediam nos ouvidos dos ouvintes, que escutavam docilmente o homem que sabia,
não tinham interesse em separar o falso do verdadeiro” (VEYNE, 1983, p. 40-1).

A presença feminina e suas marcas na sociedade grega


No épico que é a Odisseia, Homero abre um mundo para as personagens femininas,
que não eram muito aparentes na Ilíada. Penélope aparece como uma personagem
feminina protagonista, esposa do grande Odisseu e mãe de Telêmaco. Mas
Penélope não é só uma esposa e mãe, ela é alguém que tem uma inteligência
comparada a de seu marido, que a levou a ganhar fama por aquilo que logo
chamariam de “virtude”. Penélope esperou o retorno de seu marido por longos vinte
anos, lhe caracterizando como uma esposa fiel que obedecia todos os deveres da
sociedade em relação ao comportamento feminino.
Essa figura de Penélope contribuiu para expandir o imaginário grego do
comportamento da esposa na época. Como já dito, essas obras viraram um
espécime de manual para a sociedade e isso, levou essa personagem ao ideal de
exemplo à ser seguido, despontando-a como um símbolo de constância feminina.
Em geral, as presenças femininas da Odisseia destacam-se por possuírem
diferentes modos e maneiras que acabam se justapondo, assim como Martin (2014,
p. 55) diz:
Penélope e a ninfa Calipso são ambas tecelãs e criadoras de uma relação
profunda com Odisseu; Helena parece Circe em seu conhecimento de
drogas e seus efeitos sobre os homens; Arete, a rainha dos feácios,
governa a casa assim como Penélope; ela, assim como a filha Nausícaa e a
ninfa Leocoteia, revelam-se benfeitoras durante a busca do herói. E, claro,
Atena – a astuta e sábia protetora de Odisseu – assume algo de todos
esses papéis femininos como diretora de cena da trama e traça a volta do
herói.

O autor ainda destaca que diante o tamanha fascínio por personagens tão
energizantes e inspiradoras, alguns críticos cogitaram que a obra houvesse sido
criado em uma audiência de público majoritariamente feminino. Ou até por uma
jovem como Nausicaa, como Samuel Butler chegara a atribuir em 1897.
Dentro do épico homérico, as responsabilidades masculinas eram completadas
pelas responsabilidades femininas. Ou seja, enquanto os homens lutavam as
guerras e praticavam os discursos, às mulheres cabiam os serviços de manutenção
do lar e da família. E isso contribuía para dinamizar uma vida em conjunto.
As relações entre os gêneros figuravam entre as principais engrenagens
que articulavam a rica e vívida sociedade descrita por Homero na Odisseia.
Nesse poema em especial, vislumbram-se tanto o mundo masculino quanto
o feminino e as formas diretas e indiretas através das quais ambos se
correlacionam. (OUTEIRO, 2017, p. 52)

Na Odisseia o protagonista enfrenta diversos seres, e isso é mais evidente nas


personagens femininas. Odisseu conhece deuses, feiticeiras, sirenas, ninfas, entre
outros. A participação de cada um desses seres impulsiona Odisseu de diferentes
maneiras. Mas isso não ocorre só com os seres diferentes, pois as presenças
humanas também se mostram de determinados jeitos. A hierarquia e as regras
rígidas em que vivem são levadas a ter comportamentos característicos.
Dentro dessa dicotomia entre seres estranhos e a mulher humana, Homero inseriu
às mulheres humanas todas aquelas características “ideais” para a mulher grega da
sociedade, com todas as virtudes e hábitos. O que é visto em Nausícaa, Penélope,
Arete e Helena, as donzelas, esposas, mães que integravam sua própria realidade.
Belas, tímidas, virtuosas, habilidosas e maternais, enfim, cada uma delas encarnava
algum atributo glorificado que todas as mulheres deveriam desejar para si.

A releitura de clássicos
Não dá para ignorar a quantidade de material existente quando se trata de
adaptações de clássicos. Assim como é inevitável que isso acabe por abrir
discussões, pois a adaptação/tradução de um material acaba desenvolvendo um
projeto diferente daquele inicial. E também, muitos estudiosos reprovam a tradução
dos clássicos para uma linguagem mais simples ou coloquial, tirando todo o
rebuscamento que o autor da obra original havia colocado, pois isso não instiga a
pessoa a investigar mais daquele mundo.
Todavia, é importante ressaltar que a leitura e o entendimento de clássicos literários
se fazem crucial para que o leitor desenvolva uma ideia do mundo com fundamento
em suas leituras e suas experiências de vida. Segundo Calvino (1999, p.11) “um
clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer” e ele
completa “toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a
primeira”
Vivemos em um tempo que não é tão fácil incutir a cultura dos clássicos para os
jovens, com toda a cultura tecnológica que nos rodeia. E dito isso, digo que a
questão a ser tratada aqui volta-se mais para a área da recriação.
Penso em tratar a releitura de personagens femininas da Odisseia, em uma visão de
mundo mais moderna e criar uma justaposição com suas versões originais. Já
adianto que essas personagens podem estar em ambientes bem diferentes do
original, como uma singularidade pequena, mas a intenção é pensar em como elas
seriam numa “versão atualizada”.

Uma deusa, uma louca, uma feiticeira


Circe é agora centro de nossas atenções. Ela é a feiticeira que ficou por mais tempo
com Odisseu durante sua viagem de retorno, estando com ele por um período de
sete anos. Ela é a figura que o recebeu bem, que o enganou e que depois quis ficar
com ele, ajudando-o até. Ela é uma das figuras femininas mais perigosas dentro do
universo da Odisseia e sua ambiguidade revela sua consciência de seu poder
amigável e perigoso.
A marca distintiva de Circe e a ambiguidade, ao aparecer na ação,
sucessivamente, como corruptora e benfeitora: ela é filha de Hélio e a neta
de Oceano. Nela estão inseparavelmente mesclados os elementos do fogo
e da água, e é essa indivisibilidade, no sentido de uma oposição ao primado
de um aspecto determinado de uma natureza – seja matriarcal, seja
patriarcal – que constitui a essência da promiscuidade, o hetáirico, que
ainda brilha no olhar da prostituta, o úmido reflexo do astro. (ADORNO &
HORKHEIMER, 1985, p. 64)

Ela seria aquilo que se tornou a figura da mulher do mundo atual, uma imagem
enigmática da sedução irresistível e da impotência. A imagem da força que foi
contida, mas que ainda precisa ser vigiada.
E essa força mágica grandiosa de Circe não aparece só no universo da Odisseia.
Circe é uma das maiores vilãs da Mulher Maravilha, e a sua primeira aparição nos
quadrinhos aconteceu na edição 37, do primeiro volume dos quadrinhos da Mulher-
Maravilha, entre Setembro e Outubro de 1949, considerado o período histórico das
aventuras de Diana. Nessa HQ Circe foi criada por Robert Kanigher e Harry G Peter.
Nos quadrinhos, a vilã nasceu mais de mil e duzentos anos antes da Era Comum,
sendo a dona de uma pequena ilha chamada Aeaea, onde ela começou a acumular
uma série de poderes mágicos, mas funcional apenas na ilha.
Por ali, ela começou a trabalhar com as sereias para seduzir homens até a ilha,
onde eles se tornariam brinquedos nas mãos da feiticeira. Tudo isso enquanto ela
era abençoada pela Deusa da Magia Hécate, que sempre atendia as suas preces e
buscava utilizar da bruxa em sua vingança contra os outros Deuses.
A rivalidade entre ela e a Mulher-Maravilha tem histórias distintas. Numa das
versões começou por conta da Rainha Hippolyta ter banido a feiticeira de seu reino.
Noutra Circe temia uma profecia lançada por Hécate: "Sob a morte da bruxa e o
nascimento da bruxa, Hécate, por nome e escolha, irá repossuir sua alma".
Acontece que Hécate fazia parte do trio de deusas lunares juntamente com a deusa
Diana (Ártemis) e a titânide Selene; Circe teria suposto que a Mulher-Maravilha, por
ter o nome de Diana, poderia tomar-lhe o poder. Desde então teria decidido
perseguir a heroína.
Certa vez, quando a Mulher-Maravilha surge enviando para todos uma mensagem
de paz e amor, os habitantes de Aeaea, a ilha onde a bruxa ainda vivia, passaram a
ficar contra Circe e declarar apoio a Diana. Ainda que estivesse furiosa com isso, a
vilã evitou agir diretamente contra a amazona, com medo de que os poderes Hécate
a abandonassem, devido a uma profecia feita pela própria Deusa.
Mesmo assim, ela planejou um feitiço que transformaria Diana em barro, mas o
Deus Hermes acabou intervindo, destruindo a torre da vilã e resgatando Mulher-
Maravilha. E é interessante ressaltar que a relação entre Hermes e Circe até em
outros tempos nunca fora boa, assim como no episódio da Odisseia, em que
Hermes ajuda Odisseu à escapar dos feitiços da deusa.
Depois da Guerra dos Deuses - e da decisão de que eles iriam se afastar do plano
terreno - Circe se aliou a Hércules para reinar sobre o mundo como Deuses. Juntos,
eles sequestraram Donna Troy, a Garota Maravilha e até mesmo a Mulher-Maravilha
que, nesse período, estava mais ou menos aposentada.
Circe trai Hércules e, sozinha, absorve os poderes dele e das outras heroínas. A vilã
se auto-proclama a nova Mulher-Maravilha e diz que fez isso para poder ajudar as
mulheres injustiçadas que, segundo ela, Diana não estava interessada em socorrer.
Ela segue em uma jornada matando vendedores de escravos em diversas cidades,
libertando uma grande quantidade de mulheres. Eventualmente Diana recupera seus
poderes e Circe segue sua jornada como vilã.
Esse breve momento da trama é interessante, pois vemos uma visão mais redentora
da vilã. Diga-se de passagem, em algumas outras releituras de Circe, ela quase
sempre se apresenta como uma mulher que privilegia outras mulheres à homens,
sendo sua marca registrada tanto na versão clássica, quanto nos quadrinhos de ser
a mulher que transforma homens em animais.
Circe realmente desponta como uma presença feminina, pois sua força e seus
desejos eram conseguidos com suas próprias mãos. Assim como a feiticeira que
dormiu com Odisseu, assim como a vilã das amazonas, ela tende a ter essa força
interior representada. Esse é um traço que poderia ser o que a caracterizou como
uma vilã nos quadrinhos, pois ela é capaz até de trair e enganar para alcançar o que
almeja.

A princesa destemida
Nausicaa é responsável por um dos encontros mais empáticos da Odisseia, pois a
princesa encontra um homem nu e empastado de sal desorientado pela praia e o
ajuda, e após esse ato, nasce um misto de amor e amizade nela.
Ela é a princesa dos feácios e está em idade para casar. Essa fato é
constantemente dito em sua passagem, mas ainda assim, Nausicaa não sente o
desejo de se casar com qualquer pretendente. E depois que ela leva Odisseu para o
palácio, oferecendo-lhe banho, roupas e comida, assim como é o tradicional ritual de
hospitalidade do povo grego naquele tempo, ela acaba se apaixonando por ele, e
chega a comentar com uma de suas servas que desejaria que ele a desposasse.
A aparência da princesa é comparada à de Artêmis, como comentado por Odisseu.
Mas nada surge entre esse casal, pois Odisseu recusou a mão de Nausicaa que o
rei Alcínoo ofereceu e partiu em viagem com presentes e uma nau de Esquéria.
O comportamento da princesa se difere dos de suas servas quando deparam-se
com Odisseu nu na praia, por sua atitude destemida de ir ao encontro do estranho.
Mas também, o próprio ato de ter ido lavar as roupas com suas servas já a destaca,
pois essa não é umas das atividades que costumavam ser praticados por pessoas
do seu porte na época.
A prática da tecelagem estava associada aos deveres da esposa zelosa, cujo
produto final era extremamente necessário a todos os membros da realeza, visto
que os tecidos, mesmo sendo itens básicos, poderiam ser extremamente valiosos,
contribuindo para o aumento do tesouro da propriedade esponsal. Sua própria mãe
costumava tecer por horas e horas, mas a princesa cumpria essa outra atividade,
que foi bem oportuna para Odisseu, uma vez que elas também estavam lavando
vestes não-femininas.
No entanto, a questão a ser tratada está mais relacionada com a atitude da princesa
na praia, pois agora criarei um contraposto com uma outra obra.
Nausicaa do Vale do Vento (1984) é um dos primeiros filmes de Hayao Miyazaki,
grande mestre da animação japonesa. Baseado na história do mangá que tem o
mesmo nome, escrito em sete volumes que narram uma distopia futurista, Miyazaki
explora a ganância do homem – fundada numa visão instrumentalizada e
desmistificadora da Natureza – e qual o resultado dessa atitude. O filme é um dos
mais populares da história do Japão, e seu grande sucesso permitiu que se criasse,
um ano depois, o renomado Studio Ghibli.
Nausicaa é uma personagem forte, altruísta e destemida nesse filme, ela emana um
enorme poder de decisão e uma grande empatia. Assim como as protagonistas dos
filmes de Miyazaki, Nausicaa não se limita à espera de um príncipe encantado,
enfrentando seus dilemas com suas próprias mãos.
A narrativa do filme ocorre em um futuro considerado pós-apocalíptico e tem como
ponto de partida o evento chamado Os Sete Dias de Fogo, em que os seres
humanos, com seu poder e ambição, utilizaram criaturas horrendas e gigantescas
que possuíam um grande poder de aniquilação para dominar o planeta. Toda a flora
e fauna foram destruídas como resultado dessa guerra, ou seja, o ecossistema
terrestre entrou em degradação. Como consequência, surgiram as terríveis e
temidas florestas de gás tóxico chamada de Mar da Podridão ou Fukai.
‘‘Mar podre’ refere-se ao ecossistema das terras devastadas pela poluição
da antiga cidade industrial. O mundo estava prestes a ser engolido de forma
silenciosa pela floresta gigante, que produz fungos venenosos a que apenas
insetos conseguem sobreviver (MIYAZAKI, 2006, p. 20, vol.1).
O ar nessa floresta é denso e irrespirável, somente insetos monstruosos habitam
seu interior; um deles são os Ohms que são seres atraídos pelo disparo de armas de
fogo ou pela ameaça a algum dos seus. Os Ohms aparecem em duas formas: ou
como larvas gigantes (são as que mais aparecem) ou como insetos com asas. Em
um dado momento não especificado na narrativa, o Vale do Vento é invadido e
tomado pelo exército de Tolmekia, que tem um grande poderio bélico e sem piedade
transformam os cidadãos em escravos. O objetivo deles é fazer voltar à vida um dos
gigantes guerreiros que estavam nos Sete Dias de Fogo e que está adormecido há
mil anos para destruir os seres da floresta tóxica formada por insetos grandiosos.
Este guerreiro está adormecido em um casulo deixado acidentalmente pelo avião da
cidade de Pejite, nas terras do Vale do Vento. A princesa Nausicaa possui uma
grande sensibilidade e consegue compreender a natureza; tem o dom de se
comunicar com os animais e utiliza esta dádiva para salvá-los da destruição. Ao
mesmo tempo, auxiliará seu povo a se libertar dos Tolmekia, tornando possível a
profecia em que os seres humanos poderão coexistir em paz com a floresta tóxica e
seus habitantes.
Segundo Miyazaki, sua protagonista nasceu da inspiração com a princesa de
Feácia, pois para ele, ela era reconhecida como uma pessoa de uma sensibilidade
enorme, por ser uma bela jovem e bastante sonhadora e que amava a natureza. “Foi
ela que, sem medo, salvou Odisseu e cuidou de seus ferimentos quando ele
apareceu na praia, coberto de sangue. Nausicaa acalmou seu espírito improvisando
uma canção para ele” (MIYAZAKI, 2006, vol.1).
O conto japonês intitulado The Tales of the Past and Present possui uma heroína
que também inspirou Miyazaki a compor a personalidade de Nausicaä. Filha e
descendente de uma família aristocrática, era conhecida como “princesa que
adorava insetos”.
Era vista como excêntrica porque, mesmo depois de chegar à idade do
casamento, continuava gostando de brincar nos campos e se encantava
com a transformação de uma lagarta em borboleta. Suas sobrancelhas
eram escuras, e seus dentes, brancos – diferente das outras garotas de sua
época, ela não seguia costume de raspar as sobrancelhas e enegrecer os
dentes. De acordo com os Tales, ela era bem estranha. Ela não se
intimidava com as restrições da sociedade; corria o quanto queria pelas
montanhas e campos, comovida com as plantas, as árvores e nuvens [...]
(MIYAZAKI, 2006, vol.1).

Ambas as princesas converteram-se em uma única criação na mente do diretor,


tornando Nausicaa uma personagem referencial e emblemática dentre as demais
criações femininas de Miyazaki.
A protagonista do filme é uma figura redentora, ela é aquela que consegue levar a
harmonia entre os humanos e o Mar de Podridão, assim como a harmonia entre as
nações. Essa sua aparente característica de desbravadora e simpática aos seres
não-humanos dá aos seus próximos uma segunda chance de viver em harmonia
com a Natureza.
Em linhas gerais, a semelhança das duas Nausicaa parte muito desse propósito de
ser uma pessoa a frente e curiosa, que pensa nas consequências de seus atos e
vive de uma maneira que não prejudica empática.

O odisseia de uma velha Penélope


Enfim chegamos a protagonista feminina da Odisseia. Penélope é um resultado da
concepção homérica de uma esposa fiel e inteligente na medida em que é permitida.
Ela é filha de Icário e Peribeia de Esparta, tendo nascido do mar, de acordo com
Didímo.
A imagem de Penélope ganha destaque em meio às aventuras de Odisseu e em seu
retorno a ilha de Ítaca. A esposa desponta sob o suporte de sua métis (do grego,
inteligência prática), revelando-se uma estrategista singular, subvertendo os
pretendentes sob o véu da obediência e da submissão, características pertinentes à
mulher durante o patriarcado da Grécia Antiga, prerrogativas, estas, impostas por
seu filho Telêmaco, em sua primeira aparição no canto I, como segue o diálogo:
[...] Volta a teus aposentos, ocupa-te de teus misteres, do tear e da roca, e
manda tuas servas pôr-se ao trabalho; a palavra de ordem compete a
homens, principalmente a mim, pois que a mim cabe a autoridade nesta
casa. Ela, tomada de espanto, voltou a seus aposentos; tinha acolhido em
sua alma a sábia ordem do filho. Subiu com as suas aias para os aposentos
de cima; em seguida, pôs-se a chorar a Odisseu, o amado esposo, até que
Atena de olhos verde-mar lhe esparziu nas pálpebras um doce sono.
(HOMERO, 2006, P. 16)

O autor, porém, não nos deixa a par do que procede no íntimo da rainha de Ítaca. E
tais indícios lacunares prosseguem: por exemplo, na afirmação de Antínoo, um de
seus pretendentes. Este revela-nos a astúcia de Penélope, ao descobrir os ardis em
seu plano de tecer uma mortalha para Laertes, executando tal tarefa durante o dia e
desfazendo-a durante a noite. Se retomarmos o casamento de Penélope, é devido à
ausência de seu esposo e com o filho declarando-se adulto, que a rainha de Ítaca se
vê em um dilema, ao se retirar da casa do esposo e retornar ao seu país de origem,
Esparta, Penélope rompe os laços com o oikos de Odisseu, entregando-o ao filho
Telêmaco, que por sua vez sofreria alguma retaliação por parte dos pretendentes,
ansiosos pela decisão da rainha, que tece no intuito de ludibriá-los até a volta do
marido. A metáfora do tear, essa arte historicamente tão ligada ao universo feminino,
do criar e recriar a trama que dá forma ao que é tecido reconhecemos, a
manipulação e entrelaçamento dos fios do destino, o que em Penélope torna-se
prova da engenhosidade e um prolongamento de sua personalidade.
E essa deixa foi a prorrogativa para a criação de uma obra com a voz de Penélope,
como criada pela escritora canadense Margaret Atwood, em seu livro intitulado
Odisseia de Penélope (2005), e é por meio da proposta inovadora resgatada por
Atwood que repensamos criticamente o papel feminino e as categorias de gênero,
que se perpetuaram na tradição patriarcal, e consequentemente desmistificando a
imagem de passividade instaurada por um discurso, no qual a mulher não é sujeito.
Agora que morri, sei de tudo2, nos comunica a personagem, em seu relato sem
retoques, a narradora autodiegética nos conta a sua versão dos fatos desde o seu
nascimento, passando por seu casamento e sua morada no Hades. Penélope nos
desvela o seu precioso silêncio, que dotado de múltiplos significados, fora utilizado,
como parte do comportamento esperado de uma mulher na Grécia Antiga, ainda
mais em se tratando de uma rainha. Essa princesa, filha de Icário, rei de Esparta e
da náiade Peribéia tece a sua própria trama. Desde o seu nascimento até a sua vida
no Hades.
Nas mãos de Atwood, Penélope é alguém consciente e crítica, que tem uma voz e
conta a sua história toda. Ela critica seu pai, por tentar matá-la e sua mãe por ser
alguém que não se importa de fato com ela. Relata como foi conhecer Odisseu e o
plano ardiloso que ele elaborou para conseguir se casar com ela, e logo depois
dessa passagem, ela diz que sentia orgulho e fascínio pelo marido. Mas isso muda
depois de anos e anos de vivencia, ela passa a escutar as histórias de Odisseu, mas
não com tanta confiança de que aquilo realmente seja verídico.
Desse modo, uma reflexão é criada e retornando ao passado grego, que
observaremos a releitura dos saberes homéricos, aliados aos saberes
contemporâneos da autora, que permite a interação entre passado e presente. A voz
dela possivelmente não seria importante no seu tempo, todavia com a realidade
atual em que vivemos, essa reinvenção dela torna-se cabível.
Penélope ainda resguarda os valores da civilização grega, mas agora imbuídos de
pensamentos e reflexão crítica sobre os costumes e as questões de gênero. A
autora não distorce a obra, logo ela não deve ser considerada uma paródia, por mais
que apresente traços de humor e ironia.
Penélope é uma fonte de inspiração para diversas obras, como o conto “Penélope”
de Dalton Trevisan que faz parte do livro “Novelas nada exemplares”, o autor
proporciona uma visão panorâmica da sociedade atual, demonstrando a metódica
vida de um casal de velhos que se mudaram depois de perderam seus filhos, há
alguns anos, em um desastre misterioso. Esse mistério os deixava cada vez mais
endurecidos e frios na relação matrimonial. A regrada vida desse casal é
interrompida pelo recebimento de uma série de cartas anônimas, que são deixadas
na porta do casal todos os sábados enquanto esses saiam ao passeio rotineiro,
sendo que umas delas trazia o seguinte conteúdo: “corno manso”.
A mulher está sempre a tecer uma toalhinha fazendo e desfazendo pontos. O
homem estranha esse comportamento e começa, não só a vigiá-la, mas também a
questioná-la sobre paixões e amores antigos. O velho, todos os dias, quando
chegava em casa, na tentativa de reconstituir os passos da velha, passava o dedo
nos móveis e até apalpava a terra dos vasos. No entanto, para a surpresa do
mesmo, quando a mulher termina a toalhinha e comete suicídio com um tiro da
própria arma que o ele havia comprado, ainda assim, mesmo depois da morte da
velha, as cartas continuam a ser entregues.

2
(ATWOOD, 2005, p. 15)
As duas Penélopes se diferem quanto as atitudes realizadas dentro do patrimônio,
pois a Penélope da Odisseia é marcada por sua fidelidade ao esposo, por sua
espera e atitude condizente com a época. Já a Penélope de Trevisan é uma mulher
adultera, que cometeu suicídio ao ficar com a consciência pesada, depois que seu
marido descobre.
A partir das comparações entre Penélope, esposa de Odisseu, personagem do
poema épico Odisseia e entre a trama e a Penélope presentes no conto de Dalton
Trevisan, notamos que esse último autor estabeleceu a intertextualidade e
intratextualidade que caracterizam a paródia, essa pode ser percebida já no título do
conto, pois as duas Penélope se assemelham no ato de tecer.
A Penélope de Trevisan tecia a toalhinha que não era para alguém e, sim, para si
mesma. Tecia perto do marido, a mortalha da morte e da separação eterna, pois
comete suicídio e quando o companheiro retorna do enterro vê a toalhinha concluída
em cima da mesa: Entrou na sala, viu a toalhinha na mesa – a toalhinha de tricô.
Penélope havia concluído a obra, era a própria mortalha que tecia – o marido em
casa. (TREVISAN, 2004, p. 175)
Dalton Trevisan se aproxima de Homero, quanto a falta de pensamento por parte de
suas Penélope, o que não acontece com em “A odisseia de Penélope”, que tem sua
obra pautada nesse quesito.

Conclusão
Os trabalhos que aqui foram utilizados apontam para essa característica do “eterno
clássico”, pode não ser por uma referência direta, como acontece em “A odisseia de
Penélope”, pode ser uma simples busca de traços de personalidades, como
aconteceu com a Nausicaa do filme. O importante é ressaltar que o mundo sempre
busca se modernizar, ele está em constante evolução e isso não impede que ele
revisite os clássicos.
É certo que as personagens aqui abordadas podem ter outras características das
mesmas na versão original, mas esse processo é natural. O ímpeto de realizar algo,
de sonhar com um infinito de possibilidades não era uma realidade para as mulheres
do tempo de Homero.
Nausicaa é a heroína de sua própria história, ela sabe que existem coisas mais
importantes do que pretendentes. Circe é uma vilã excepcional, que busca o poder
para si e não se rende nem aos maiores deuses para conseguir o que deseja. E
Penélope julga seu próprio comportamento, sua própria liberdade de viver e sentir.
Penélope também trai, se desespera e até tece sua própria mortalha. E todas essas
novas vivencias podem nos aproximar dos clássicos, para lembrá-los, criticá-los ou
simplesmente admirá-los.
Bibliografia:

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento:


fragmentos filosóficos. Trad. Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro, 1985.
ATWOOD, Margaret. A Odisseia de Penélope: o mito de Penélope e Odisseu.
Trad. Celso Nogueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

CALVINO, Ítalo. (Tradução Nilson Moulin). Por que ler os clássicos. São Paulo:
Companhia de Letras, 1999.
CHAVES, Ravena A.; TORRES, José W. L. DISTOPIA E ANIMAÇÃO: O
UNIVERSO FANTÁSTICO EM NAUSICAÄ DO VALE DO VENTO, DE HAYAO
MIYAZAKI. 2017.

HOMERO. Odisseia. Tradução, introdução e notas de Jaime Bruna. São Paulo:


Cultrix, 2006.

Legião dos Heróis. (2017). 10 Fatos e curiosidades sobre Circe, a maior vilã da
Mulher-Maravilha! Disponível em: <http://legiaodosherois.uol.com.br/lista/10-fatos-
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