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LIÇÕES DE NOTARIADO ANGOLANO

O estudo do notariado em Angola,


compreende um conjunto de situações,
algumas de cariz mais prático, outras mais
relacionadas ao próprio desenvolvimento
legislativo. Entre umas e outras, não se
pode perder de vista a necessidade de se
estudar esta área, tão importante para a
afirmação do próprio sistema jurídico, o
qual se processa em obediência a
realização da vontade negocial, fundada
na liberdade contratual.
Ora, é em sede da boa administração da
justiça, na faceta extrajudicial, que se
impõe o estudo destas matérias.
Módulo I

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 Enquadramento legal
A actividade notarial em Angola é regida
pelo Código do Notariado (CN), de 1967.
Mais recentemente, e sobre a égide da
evolução e conformação legais, nasceu a
Lei da Liberalização do Notariado ( Lei
8/11, 16 de Fevereiro) e o seu Regime
Jurídico (Dec. Pres. 51/11, 23 de Março),
numa clara tentativa de privatizar o
notariado em Angola. Enteada de toda
esta evolução continua a ser a reforma da
justiça e do Direito, a qual, no essencial,
devia fazer nascer novos códigos para os
registos e o notariado.

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 Princípios
Variam, conforme o sistema notarial
adoptado. Podemos destacar três (3), em
que o princípio da Legalidade se pontifica.
Princípio da Legalidade, toda a actuação
do notário deve pautar – se pela
observância da Lei. Assim, quer recuse,
quer aceite documentos submetidos a sua
apreciação, o primado da Lei é o limite.
Princípio da Imparcialidade, o notário é
equidistante, não tomo parte
relativamente aos interesses submetidos a
sua apreciação e intervenção.
Princípio da Livre Escolha, são as partes
que, livremente, escolhem o notário da sua
preferência.
Os princípios da Autonomia e da
Exclusividade, na nossa realidade ganha
reduzida importância, porquanto, por
serem funcionários públicos, os notários em
Angola, subordinam – se a um conjunto de
outras orientações, algumas e em alguns
casos, efectivamente, contrárias ao seu
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exercício funcional. Com a previsão da
norma constante do art. 1º da LSMRPCN,
no seu nº 2, o Princípio da Exclusividade
perdeu alguma da sua força. Ou seja, ao
permitir que os notários pudessem exercer
a advocacia, não se teve em conta a
especial função do notário, mas, o
alcance material desse exercício (vide art.
1º, 6, LSMRPCN).
O regime jurídico do notariado, pelo
contrário, deixa, claramente, vincado
todos esses princípios conferindo – lhes a
mesma importância ( vide art.10º e ss, DP
51/11).

 Actividade Notarial
Complexo organizado de agentes,
procedimentos e actos.
 Agentes
Notário e seus Ajudantes (artº. 2º, CN)
O notário, é o redactor tecnicamente
qualificado, jurista e profissional livre, que
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tem por missão aconselhar, receber,
interpretar e conformar legalmente a
vontade dos particulares, nos actos e
contratos em que intervenha, e aos quais a
lei confere autenticidade e fé pública (artº.
1, Dec. Presid. Nº 51/11). É o agente mor de
toda a acção notarial, mas não exclusivo.
Agentes especiais (artº. 3,CN)
Podem execer funções notariais, nos limites
definidos, a título excepcional, outras
pessoas:
a) Agentes Consulares;
b) Funcionários das Administrações,
com esta competência atribuída;
c) Notários Privativos de instituições
com vocação para o efeito.

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Procedimentos
Compreende a organização do
serviço notarial, incluída a
competência territorial e funcional do
notário.
a) A organização (artº. 4º CN) do
cartório notarial é feita por recurso
aos livros previstos no CN, por meio
dos quais o notário concretiza as
suas atribuições, que são,
essencialmente:
i) Livros de Notas, para testamentos,
revogações de testamentos;
ii) Livros de Notas, para escrituras
diversas
iii) Livros de registo de actos
(Testamentos, suas revogações e
escrituras diversas).
iv) Livro de registo de outros
instrumentos avulsos;

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v) Livro de emolumentos e selos.
NB: O s livros descritos, e outros que
possam ser adoptados, obedecem a
um modelo previamente aprovado
pelo Ministro da Justiça, por proposta
do DNRN.
Os livros previstos devem ser
legalizados (art. 33º e 34º,CN), por
termos de abertura e encerramento,
feitos pelo notário (vide art. 34º,
LSMRPCN/art. 36º, CN).
b) A competência territorial do
notário é regulada por lei especial
(vide art. 4º,CN). No quadro actual,
circunscreve – se ao territorio
administrativo (província) da sua
localização, porém, intervém em
todos os actos que lhe forem
requeridos, independentemente da
localização da pessoa e dos bens,

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sendo esta a regra (vide art. 7º,
Dec. Pres. 51/11).
c) A competência funcional
absorve a totalidade dos actos
notariais (art. 5º, CN), em estrita
observância do princípio da
legalidade. O limite ao exercício da
função corresponde aos
impedimentos, os quais sao
extensivos a todos os funcionários
(artº.8 e 9 CN).

Actos (artº. 51 CN).


Os actos notariais podem ser: a)
autênticos; b) autenticados ou c)
reconhecimentos de assinatura.
Os actos em geral, obedecem a
critérios de execução,
nomeadamente, se autênticos, devem
ser lavrados nos respectivos livros.
Fazem prova plena dos factos a que se
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referem ou neles atestados. Ex:
escrituras públicas, certidões,
certificados..!
Indepedentemente das regras a
observar na sua elaboração (art.º 56,
CN), ressalvas (artº 57, CN) e
averbamentos(art.º 142, CN) feitos, é
sempre admissivel às partes
apresentarem uma minuta (art.º59,
CN).
NB: os documentos exarados no
estrangeiro, desde que em
cumprimento da lei local, são aceites
para instruir actos notariais, ainda que
sem prévia legalização (art.º60, CN).

Os autenticados, por sua vez,


correspondem ao conjunto de
documentos particulares confirmados
pelas partes perante o notário (vide

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arts.º 162 e 163, CN). Ex: Termo de
autenticação.
Os reconhecimentos de assinatura
(art.º 165 e ss, CN), consiste na
comprovação da assinatura aposta no
documento face a constante do
documento de identificação. Pode ser
por semelhança ou presencial.
Há assinaturas que não podem ser
reconhecidas (art.º 169, CN).
Módulo II
Escrituras em especial
 Habilitação de herdeiros (artº. 91ss
CN)
É a declaração prestada por três
pessoas, idóneas, confirmando a
qualidade dos herdeiros e que não os
precedem outras pessoas ou com eles
concorram.
Pode ser feita, notarialmente, quando:

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a) Não haja inventário obrigatório;
b) Não haja bens em Angola,
apesar de existirem herdeiros
menores ou equiparados.
Por força das alterações introduzidas
pela Lei 1/97, de 17 de Janeiro, deixou
de ser feita a publicação obrigatória
do extracto da escritura.
Os efeitos da habilitação de herdeiros
são os da habilitação judicial, ou seja,
corresponde a título bastante para
serem feitos, em comum e a favor dos
herdeiros e cônjuge meeiro, os registos,
averbamentos e levantamento de
dinheiro. Para tal, é fundamental
proceder – se ao pagamento do
imposto sucessório.

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