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RELATÓRIO

Trata-se de recurso extraordinário interposto pela acusada contra


acórdão proferido na apelação criminal n. 126632/MG, do Tribunal Regional Federal
da 7ª Região, com fundamento na alínea “a” da Constituição Federal.

Consta dos autos que a recorrida foi denunciada pela prática do crime
do art. 297, § 4º e art. 337-A, I e III, do Código Penal. O Juiz de primeiro grau julgou
procedente a inicial acusatória, sob o fundamento de que "há provas evidentes de que
a ré concorreu dolosamente para o resultado" (f. 139).

A apelação criminal foi desprovida nos termos da seguinte ementa:

"PENAL E PROCESSUAL PENAL. APELAÇÃO. SONEGAÇÃO DE


CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA (CP, ART. 337-A). EXITOSA
COMPROVAÇÃO DO DOLO.
1. Pratica crime de sonegação de contribuição previdenciária aquele que omite, da
folha de pagamento, segurado empregado, empresário, trabalhador avulso ou
trabalhador autônomo ou a este equiparado (art. 337-A, inciso I, do Código Penal).
2. O crime de sonegação de contribuição previdenciária (CP, art. 337-A), o Pleno
desta Corte Regional, em diversas oportunidades, sufragou a tese de que o tipo
subjetivo do injusto não exige a demonstração do especial fim de agir, ou seja, do
dolo específico de fraudar a Previdência Social, como elemento essencial do tipo
penal, configurado na intenção de suprimir ou reduzir contribuição social, ou dela se
apropriar o gestor público (INQ 1645-PE, Des. Vladimir Souza Carvalho, julgado em
25 de junho de 2008; INQ 970/PE, des. Napoleão Maia Filho, julgado em 15 de
fevereiro de 2006; INQ 962/PE, des. José Maria Lucena, julgado em 18 de abril de
2007).
3. Precedente desta Corte Regional Federal.
4. Apelação improvida, manutenção da sentença".

Irresignada, a ré interpôs o presente recurso extraordinário, sob o


argumento de que o elemento subjetivo exigido pelo tipo penal em análise é o dolo
específico, sendo necessário perquirir acerca de eventuais danos à Previdência Social.

Aduz que se mostrava necessária a prova pericial no caso em apreço,


para demonstração das dificuldades financeiras sofridas pela empresa, para
comprovar a inexigibilidade de conduta diversa. Só não houve o pagamento do tributo
porque a empresa atravessava sérias dificuldades financeiras.
No que diz respeito à suposta falsificação de documento público,
prevista no artigo 297, § 4º, do Código Penal, há que se reconhecer que a condenação
também por este delito representa bis in idem em relação ao crime de sonegação de
contribuição previdenciária.

Por fim, sustentou que, na esteira da compreensão firmada pelo


Supremo Tribunal Federal, não é possível a deflagração de ação penal pela prática dos
crimes de sonegação de contribuição previdenciária e apropriação indébita
previdenciária, enquanto não houver lançamento definitivo do tributo, no âmbito
administrativo.

Contrarrazões às fls. 231/234, em que o Ministério Público defendeu


que se trata de crime formal e, por conseguinte, desnecessária a constituição definitiva
do crédito tributário. Apontou ser prescindível a realização de perícia contábil porque
a parte poderia demonstrar as dificuldades financeiras por outros meios. Defendeu
que o crime de falsificação e de sonegação tutelam bens jurídicos distintos e existe
autonomia entre eles.

Instado a se manifestar, o Ministério Público Federal opinou pelo


provimento do recurso (f. 255/267).

É o relatório.