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Disciplina: Estruturas de Concreto Protendido

Profa. Natália Alves

1- INTRODUÇÃO AO CONCRETO PROTENDIDO

O concreto resiste bem à compressão, mas não tão bem à tração.


Normalmente a resistência à tração do concreto é da ordem de 10% da
resistência à compressão do concreto. Devido à baixa capacidade de resistir à
tração, fissuras de flexão aparecem para níveis de carregamentos baixos. Como
forma de maximizar a utilização da resistência à compressão e minimizar ou até
eliminar as fissuras geradas pelo carregamento, surgiu a ideia de se aplicar um
conjunto de esforços autoequilibrados na estrutura, surgindo aí o termo
protensão.

2- O QUE SE ENTENDE POR PROTENSÃO?

A palavra protensão, pré-tensão, prestressing (no Inglês),


précontrainte (no Francês), e similares em outras línguas, já transmite a ideia
de se instalar um estado prévio de tensões em algo, que na nossa área de
interesse seriam materiais de construção ou estruturas.
Antes de apresentar os primeiros comentários sobre o concreto
protendido, nosso tema principal, vejamos como se poderia ilustrar o conceito
geral de protensão, recorrendo-se a exemplos clássicos da literatura, muito
significativos.
Veja só por exemplo quando se resolve carregar um conjunto de livros,
não na forma de uma pilha vertical como é usual, mas na forma de uma fila
horizontal. Como os livros são peças soltas, para que se mantenham em
equilíbrio na posição mostrada no desenho , é necessário que se aplique uma
força horizontal comprimindo os livros uns contra os outros, provocando assim a
mobilização de forças de atrito, e ao mesmo tempo forças verticais nas
extremidades da fila para, afinal, poder levantá-la.
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Observe que, para que a operação de levantar


a fila de livros possa ser cumprida, é
imprescindível que a força normal seja
aplicada antes da força vertical, ou seja, a
força normal deve causar tensões prévias de
compressão na fila de livros, que levantada
sofreria tensões de tração na parte inferior, como numa viga simplesmente
apoiada.
A aplicação da força normal pode ser entendida como uma forma de se
protender o conjunto de componentes "estruturais", que no caso é uma simples
fila de livros, com o objetivo de se criar tensões prévias contrárias àquelas que
podem vir a inviabilizar ou prejudicar o uso ou a operação desejada.
Outro exemplo clássico de estrutura protendida, hoje pouco empregada,
é o da roda de carroça, antigamente construída em madeira.
Essa roda de carroça tem suas partes de madeira devidamente preparadas e
montadas, apenas por encaixes. Emprega-se também um aro de aço exterior,
cuja função não é unicamente proteger as partes de madeira do desgaste, mas
tem também a função importante de solidarizar o conjunto.

O aro de aço, aquecido de tal forma a ter seu diâmetro aumentado pela
dilatação do aço, é então colocado em torno da roda de madeira pré-montada.
Com o resfriamento, o aro de aço tende a voltar a ter seu diâmetro inicial, mas
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encontrando oposição da roda de madeira, aplica esforços sobre ela,


protendendo-a, solidarizando-a.
Este exemplo indica mais uma característica importante do potencial da
protensão, que é a possibilidade de se promover a solidarização de partes de
uma estrutra como por eemplo nas estruturas de concreto prémoldado.
Mais um exemplo clássico de protensão: o do barril de madeira.
Como no caso da roda de madeira, o barril tem partes – gomos laterais,
tampa e fundo de madeira – que devem ser encaixadas e solidarizadas. O líqüido
armazenado no interior do barril exerce pressão hidrostática na parede e assim
provoca esforços anulares de tração, que tenderiam a abrir as juntas entre
gomos.
Neste caso não se utiliza o aquecimento das cintas metálicas, mas é
executada uma operação mecânica em que elas são forçadas a uma posição
correspondente a um diâmetro maior, ficando assim tracionadas e comprimindo
transversalmente os gomos do barril.
Deste modo, o conjunto fica solidarizado, e as juntas entre gomos do barril
ficam pré-comprimidas.

O peso próprio dos livros atua no sentido de fazê-los escorregar, de


tracionar a região inferior de uma viga hipotética. A força normal externa neste
caso produz tensões de compressão prévias e faz com que seja mobilizado o
atrito entre os livros e sejam eliminadas as tensões normais de tração.
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A roda de madeira poderia se desconjuntar após curto período de uso,


não fosse a forte pressão radial exercida pelo aro de aço, que pré-comprime todo
o conjunto.

O líqüido a ser colocado no barril exerce pressões sobre a parede,


tendendo a abrir frestas entre os gomos. As cintas metálicas exercem efeito
contrário nos gomos, que são pré-comprimidos, ou pelo menos melhor
ajustados.

Então podemos dizer, de acordo com PFEIL, que: "protensão é um


artifício que consiste em introduzir numa estrutura um estado prévio de tensões
capaz de melhorar sua resistência ou seu comportamento, sob diversas
condições de carga".

Ampliando ainda mais o conceito, pode-se dizer que a protensão pode ser
encarada como uma forma artificial de se criar reações permanentes às ações
que sejam adversas ao uso de uma estrutura.

3- A PROTENSÃO APLICADA AO CONCRETO

Como a protensão pode melhorar as condições de utilização do concreto?

Ora, sabe-se que o concreto tem resistência à tração várias vezes inferior à
resistência à compressão, e que é necessário que se tomem medidas para evitar
ou controlar a fissuração.

Então a protensão pode ser empregada como um meio de se criar tensões


de compressão prévias nas regiões onde o concreto seria tracionado em
conseqüência das ações sobre a estrutura.

Além disso, a protensão pode ser empregada como meio de solidarização


de partes menores de concreto armado, para compor componentes e sistemas
estruturais. Lembrando o exemplo da fila horizontal de livros, pode-se concluir
pela viabilidade de se compor uma viga de concreto protendido, a partir de
"fatias" ou aduelas pré-moldadas de concreto armado.
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Para isso, deve-se recorrer a um sistema de protensão que possibilite a


introdução da armadura que vai produzir a força normal necessária, assim como
a ancoragem dessa armadura nas extremidades da viga. Isto será visto adiante,
com mais detalhes.

Por ora, imaginemos que se deixe, nos elementos pré-moldados de


concreto, orifícios tubulares que possam ser alinhados, e que por eles possa ser
passada uma barra de aço com rosca nas extremidades. Por meio de porcas e
chapas de distribuição de esforços nas extremidades da viga, e com o auxílio de
um torquímetro, poderíamos aplicar a força normal com a intensidade desejada.

Além disso, se quiséssemos, poderíamos após a aplicação da força de


protensão, injetar calda de cimento nos orifícios de modo a se promover a
aderência da barra de aço com o concreto.

Teríamos então a armadura aderente ao concreto, com aderência


posteriormente desenvolvida, o que traz vantagens que serão oportunamente
discutidas.

Este mesmo conceito permite a construção de grandes estruturas, como a


de pontes de grande vão executadas por balanços progressivos, em que aduelas
pré-moldadas são paulatinamente acrescentadas, como o próprio nome sugere,
em balanços sucessivos.

É claro que, embora o conceito seja simples, o projeto e a execução de uma


estrutura como essa envolve conhecimentos, equipamentos, equipes treinadas,
etc., enfim, recursos tecnológicos avançados em razão do tipo e do porte da
obra.

O artifício de protensão tem importância particular no caso do concreto,


pelas seguintes razões:
a) O concreto é um dos materiais de construção mais importantes. Seus
ingredientes são disponíveis a baixo custo em todas as regiões habitadas na
terra.
b) O concreto tem boa resistência a compressão.
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c) O concreto tem pequena resistência a tração, da ordem de 10% de resistência


à compressão. Além de pequena, é pouco confiável. De fato, quando não é bem
executado sua retração pode provocar fissuras, que eliminam a resistência a
tração do concreto, antes mesmo de atuar qualquer solicitação.
Sendo o concreto um material de propriedades tão diferentes a
compressão e a tração, o seu comportamento pode ser melhorado aplicando-se
uma compressão prévia (isto é, protensão) nas regiões onde as solicitações
produzem tensões de tração.
O artifício da protensão, aplicada ao concreto, consiste em introduzir na
viga esforços prévios que reduzam ou anulem as tensões de tração no concreto
sobre a ação das solicitações em serviço. Nessas condições, minimiza-se a
importância da fissuração como condição determinante de dimensionamento da
viga.
A protensão do concreto é realizada, na prática, por meio de cabos de aço
de alta resistência, tracionados e ancorados no próprio concreto.

Viga de
concreto armado convencional, sujeita a uma solicitação de flexão simples. A parte superior da
seção de concreto é comprimida e a inferior é tracionada, admitindo-se fissurada para efeito de
análise. Os efeitos de tração são resistidos pelas armaduras de aço.

Aplicação de um estado prévio de tensões na viga de concreto, mediante cabos de aço


esticados e ancorados nas extremidades. P = esforço transmitido ao concreto pela ancoragem
do cabo, geralmente denominado esforço de protensão.

Como as tensões de tração são desprezadas por causa da fissuração do


concreto, verifica-se que uma parte substancial da área da seção da viga não
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contribui para inércia da mesma. Com a protensão aplicam-se tensões prévias


de compressão que pela manipulação das tensões internas, pode-se obter a
contribuição da área total da seção da viga para a inércia da mesma.
Sendo os cabos de aço tracionados e ancorados, pode-se empregar neles
aços com alta resistência, trabalhando com tensões elevadas, assim temos:
- Concreto com elevada resistência a compressão,
- Aços com elevada resistência a tração,
O estado prévio de tensões, introduzido pela protensão na viga de
concreto, melhora o comportamento da mesma, não só para solicitações de
flexão, como também para solicitações de cisalhamento.

4- HISTÓRICO

O desenvolvimento do concreto armado e protendido iniciou-se a partir da


criação do cimento Portland, em 1824, na Inglaterra. A partir daí, franceses e
alemães também começaram a fabricar cimento e a desenvolver sua tecnologia.
Em meados do século 19 já se conhecia no mundo todo a possibilidade
de reforçar peças de concreto com armaduras de aço :
- 1855 : fundada a primeira fábrica de cimento Portland na Alemanha
- 1855 : o francês Lambot patentea técnica para fabricação de embarcações de
concreto armado
- 1867 : o francês Monier inicia a fabricação de vasos, tubos, lajes e pontes em
concreto utilizando armaduras de aço
- 1877 : o americano Hyatt reconhece o efeito da aderência entre o concreto e
a armadura através de vários ensaios, passando-se a utilizar a armadura apenas
do lado tracionado das peças
- 1886 : o americano P. J. Jackson faz a primeira proposição de pré-tensionar o
concreto
No final do século 19, várias patentes de métodos de protensão e ensaios
foram requeridas, porém sem êxito. A protensão se perdia devido a retração e
fluência do concreto desconhecidas na época
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- 1919 : o alemão K. Wettstein fabricou painéis de concreto protendidos com


cordas de aço para piano
- 1923 : o americano R. H. Dill reconheceu a necessidade de utilizar fios de aço
de alta resistência sob elevadas tensões para superar as perdas de protensão
- 1924 : o francês Eugene Freyssinet utilizou protensão para reduzir o
alongamento de tirantes em galpões com grandes vãos
- 1928 : Freyssinet apresentou o primeiro trabalho consistente sobre concreto
protendido. Freyssinet foi uma das figuras de maior destaque no
desenvolvimento da tecnologia do concreto protendido. Inventou e patenteou
métodos construtivos, equipamentos, aços especiais e concretos especiais. A
partir daí a pesquisa e o desenvolvimento do concreto protendido e armado
tiveram rápida e crescente evolução.
1948 : executada no Brasil, a primeira obra em concreto protendido, a Ponte do
Galeão, no Rio de Janeiro, com 380 m de comprimento, na época a mais extensa
no mundo. Utilizou o sistema Freyssinet e tudo foi importado da França, inclusive
o projeto.
1950 : primeira conferência sobre concreto protendido em Paris
1950 : Finster Walder executou a primeira ponte em balanços sucessivos e o
método espalhou-se pelo mundo
1950 : surgem as primeiras cordoalhas de fios
1952 : a Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira iniciou a fabricação do aço de
protensão no Brasil. A segunda obra em concreto protendido no Brasil foi a ponte
de Juazeiro, já executada com aço brasileiro.
1956 : surgiram as bainhas produzidas com fitas plásticas enroladas
helicoidalmente sobre os fios pintados com betume
1958 : surgem no Brasil as bainhas metálicas flexíveis, com injeção de
argamassa de cimento posterior a protensão dos cabos, promovendo a
aderência. Este sistema permitiu a execução de estruturas protendidas de
grandes vãos.
- final da década de 1950 : surge a primeira patente de protensão com a
utilização de de bainhas individuais de plástico extrudadas sobre a cordoalha.
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- 1969 : concluído o primeiro edifício em laje lisa protendida com distribuição de


cabos em duas direções, sendo numa delas distribuídos e na outra concentrados
em faixas sobre os apoios.
- 1978 : o Comitê Euro-Internacional du Betón (CEB/FIP) publicou, em 1978, o
Código Modelo para Estruturas de Concreto Armado e Concreto Protendido. Ele
serviu de base para elaboração de normas técnicas em vários países.
Atualmente a utilização de estruturas em concreto protendido tem larga
aceitação no mundo todo, e vem se popularizando a cada dia mais,
principalmente em edificações de uma maneira geral, com a aplicação de
cordoalhas não aderentes.

5- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

NBR 6118 - Projeto de estruturas de concreto

NBR 7197 - Projeto de estruturas de concreto protendido


BASTOS, Paulo Sergio S. Concreto Protendido. UNESP- Bauru-,2015
HANAL, João Bento. Fundamentos do Concreto Protendido. Universidade de
São Paulo. São Carlos, 2005
RODRIGUES, Glauco J. de O. Concreto Protendido. 2008