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TEORIA POLÍTICA

FEMINISTA
IntroduCAO - PARTE 4: O VALOR DA AUTONOMIA
O presente texto é a transcrição parcial do capítulo I do livro

“Teoria política feminista: textos centrais”, denominado “Introdução:

teoria política feminista, hoje”, escrito por Luis Felipe Miguel e Flavia

Biroli.

Nesta introdução, os autores enumeram quatro eixos de

discussão políticas gerados ou reconstruídos pela teoria feminista: 1) a

distinção entre as esferas públicas e privadas; 2) a relação entre

igualdade e diferença; 3) o conceito de identidade; 4) o valor da

autonomia.

Em relação ao valor da autonomia, os autores trazem


Sumário

O indivíduo abstrato do liberalismo .......................................................................................... 3


A defesa da autonomia das mulheres nas abordagens feministas ............................................ 3
As garantias iguais para a autonomia dos indivíduos nas sociedades liberais ............................4
O caráter voluntário das escolhas individuais e as restrições à autonomia ................................ 5
Os contratos de casamento e de trabalho e sua relação com as esferas públicas e privadas ..... 5
Mudanças e permanências nas últimas décadas relativas à autonomia das mulheres ...............6
A subordinação das mulheres aos homens na esfera doméstica ...............................................6
A divisão sexual do trabalho doméstico, o casamento e o divórcio e suas influências nas
oportunidades das mulheres .................................................................................................... 7
Os mecanismos da dominação masculina atuais ...................................................................... 7
O valor da autonomia ...............................................................................................................8
Os mecanismos que restringem a autonomia dos indivíduos nas abordagens liberais ..............8
O feminismo e a importância de sua análise crítica de formas de subjugação e das restrições à
autonomia ................................................................................................................................8
A divisão sexual do trabalho .....................................................................................................9
As “preferências adaptativas” ou “aprendidas”.........................................................................9
O exemplo da mulher que, ao casar-se ou ter filhos, opta por não mais exercer trabalho
remunerado e sua inserção em ciclos de vulnerabilidade ........................................................ 10
A problematização do efeito de condicionantes estruturais, econômicas e institucionais sobre
as alternativas disponíveis para os indivíduos ......................................................................... 11
As relações de dependência enquanto questões sociais e políticas ......................................... 12
A relação entre as análises pautadas na vulnerabilidade e as correntes maternalistas ............ 12
A autonomia enquanto mito................................................................................................... 13
Objeção em relação às correntes que trabalham para colocar as relações de dependência
como questões políticas de primeira ordem ........................................................................... 14
Caminho para redefinir as conexões entre dependência e desigualdades ............................... 14
Conclusão sobre a privatização do cuidado com os mais vulneráveis, associada à visão
convencional sobre as responsabilidades de cada um dos sexos ............................................. 15
Conclusão sobre a contribuição do feminismo para a redefinição da noção de autonomia ..... 16
Referências bibliográficas ....................................................................................................... 17

Autonomia, dominaCAo e opressAo

O indivíduo abstrato do liberalismo

O indivíduo abstrato do feminismo critica, expondo sua


liberalismo tem sido alvo de relação com a dominação de
críticas e redefinições no debate classe e de gênero.
feminista.
Valores caro ao feminismo,
Ele se define em relação a uma como autonomia e liberdade
esfera pública burguesa e a um individual, são marcados por
conjunto de valores que o essa herança. (p. 32-33]

A defesa da autonomia das mulheres nas abordagens

feministas
A defesa da autonomia das des liberais – reconhecendo, no
mulheres nas abordagens entanto, seu valor como
feministas é, assim, orientação normativa -, ora
acompanhada de redefinições defendem que ele expressa um
que ora destacam a pouca ideal masculino de afirmação da
efetividade desse ideal nas individualidade. (p. 33)
socieda-

As garantias iguais para a autonomia dos indivíduos nas

sociedades liberais

As garantias iguais para a que é preciso, a partir da


autonomia dos indivíduos nas posição das mulheres e de
sociedades liberais esbarram no outros grupos em condição de
fato de que a posição concreta subalternidade nas democracias
dos indivíduos, e não sua contemporâneas, analisar
caracterização abstrata, define criticamente os limites de ideais
possibilidades e organiza e normas que colaboram para
distintamente o acesso a suspender as desigualdades
recursos. sociais concretas como
questões políticas de relevância
Por isso, boa parte do debate
primordial – colocando,
sobre autonomia no feminismo
portanto, obstáculos a seu
converge, se não em outros
enfrentamento. (p. 33)
aspectos, no entendimento de
O caráter voluntário das escolhas individuais e as restrições

à autonomia

A ênfase do pensamento liberal Restrições à autonomia de


no caráter voluntário das alguns são constitutivas das
escolhas individuais é um sociedades liberais nas quais
exemplo do que vem sendo formalmente a autonomia
criticado (Pateman, 1985 [1979], estaria garantida a todos os
1988). indivíduos.

Nesse caso, a ausência de Estão na sua base – na medida


coerção implica a possibilidade em que essas sociedades se
do exercício da liberdade, ainda organizaram da oposição entre
que as escolhas voluntárias – no esfera pública, domínio da
sentido de não coagidas – dos autonomia e da liberdade civil, e
indivíduos os conduzam a esfera privada, domínio da
relações de subordinação. sujeição e das hierarquias
“naturais”. (p. 33)

Os contratos de casamento e de trabalho e sua relação com

as esferas públicas e privadas

Os contratos de casamento e de trânsito e das acomodações,


trabalho são exemplos do entre as duas esferas.
Neles, indivíduos livres, mas de sua possibilidade de
socialmente vulneráveis autodeterminação, incluído em
relativamente a outros, deci- muitos casos o controle sobre o
próprio corpo (Pateman, 1988).
dem livremente firmar contratos
(p. 33]
nos quais abrem mão de parte

Mudanças e permanências nas últimas décadas relativas à

autonomia das mulheres

As muitas mudanças ocorridas sejam rupturas, na divisão


nas últimas décadas não podem sexual convencional do
ser ignoradas. trabalho, nos sentidos
atribuídos à feminilidade e à
Em muitos sentidos, tiveram
masculinidade, na moral sexual
impacto para as oportunidades
convencional.
das mulheres e sua
possibilidade de maior Ainda assim, permanece a
autonomia – com o acesso tolerância social a muitas das
ampliado à educação formal e formas de subordinação
ao mercado de trabalho, com a diretamente conectadas a
crescente criminalização da relações de poder nas quais as
violência doméstica e sexual, diferenças de gênero são
com os deslocamentos, ainda fundamentais. (p. 33-34)
que não

A subordinação das mulheres aos homens na esfera

doméstica
A subordinação das mulheres exaltação da beleza feminina
aos homens na esfera são formas de controle, ainda
doméstica está longe de ser que não determinem a sujeição
uma realidade superada, mas se das mulheres a um homem em
redefine em relações nas quais especial (Wolf, 2002 [1991]). (p.
a objetificação e mesmo a 34)

A divisão sexual do trabalho doméstico, o casamento e o

divórcio e suas influências nas oportunidades das mulheres

A divisão sexual do trabalho segunda metade do século XX e


doméstico continua a ter peso o casamento, assim como o
determinante nas divórcio, incidem distintamente
oportunidades das mulheres sobre as expectativas e
em muitos países nos quais oportunidades de mulheres e
formalmente a igualdade de homens. (p. 34)
gênero avançou bastante na

Os mecanismos da dominação masculina atuais

É possível considerar que os mulheres determinadas, e ao


mecanismos da dominação mesmo tempo mais fluidos, isto
masculina são hoje mais é, não correspondem
impessoais, isto é, não necessariamente a restrições
coincidem necessariamente legais e a impedimentos
com as restrições impostas por institucionalizados. Mas isso
homens determinados a não significa que a
subordinação das mulheres não
continue a ser reproduzida nas
sociedades. (p. 34)

O valor da autonomia

O valor da autonomia, que aqui autodeterminação e


podemos provisoriamente participação das decisões
considerar, com Pateman (2009 coletivas, está em muitos
[2002]), como a realização da sentidos apartado dos ideais
igualdade pela garantia aos liberais e das formas históricas
indivíduos de de sua realização. (p. 34)

Os mecanismos que restringem a autonomia dos indivíduos

nas abordagens liberais

Os mecanismos que restringem maior parte das abordagens


a autonomia dos indivíduos não liberais da democracia e da
são tratados, ou não são justiça. (p. 34)
adequadamente tratados, na

O feminismo e a importância de sua análise crítica de

formas de subjugação e das restrições à autonomia

Por avançar na análise crítica de restrições à autonomia que


formas de subjugação e das existem mesmo sem a presença
de coerção física aberta, o impactam a participação dos
feminismo define problemas e indivíduos em diferentes esferas
fornece ferramentas para a da vida social (Biroli, 2012). (p.
análise das relações cotidianas 34)
de poder – e de como elas

A divisão sexual do trabalho

A divisão sexual do trabalho é Tem relação direta, também,


um dos motores, como foi dito, com a socialização diferenciada
da definição de posições de meninas e meninos, com a
distintas para mulheres e construção diferenciada de
homens. horizontes de possibilidade
para mulheres e homens, desde
Ela está na base do acesso
a infância.
diferenciado a recursos, a
tempo – para dedicação ao Esse é um dos sentidos em que
trabalho, mas também ao nascer homem ou mulher tem
tempo livre –, a experiências impacto sobre as possibilidades
distintas e ao desenvolvimento de exercício da autonomia. (p.
de aptidões que se convertem 34-35)
em alternativas.

As “preferências adaptativas” ou “aprendidas”

As “preferências adaptativas” ou crítica da reprodução das


“aprendidas” são, por isso, um desigualdades de gênero,
problema central para a análise levando a discussões que
superam a oposição entre restrições diferenciadas da
autonomia e coerção em autonomia das mulheres e dos
direção a compreensões mais homens (Nussbaum, 2008
complexas e matizadas dos [2000]; Phillips, 2010). (p. 35)
processos sociais que levam a

O exemplo da mulher que, ao casar-se ou ter filhos, opta

por não mais exercer trabalho remunerado e sua inserção

em ciclos de vulnerabilidade

A importância distinta do problema, é o da mulher que,


casamento para mulheres e ao casar-se ou ter filhos, opta
homens, em muitas sociedades, por não mais exercer trabalho
assinala uma parte dos remunerado, ativando a divisão
problemas que esse debate sexual convencional do
expõe. trabalho.

A “opção” por ocupar as Assim fazendo, torna-se


posições convencionalmente no dependente financeiramente do
casamento, por outro lado, cônjuge ou de outros familiares,
incide de maneira distinta sobre tem suas redes e aptidões não
as suas vidas. domésticas e/ou profissionais
diminuídas, torna-se vulnerável
Um exemplo, bastante fincado
no caso de uma separação ou
na experiência das mulheres de
sente-se vulnerável demais para
classe média, mas ainda assim
escapar a uma relação violenta
útil para a exposição desse
ou que simplesmente não termina por inseri-la em “ciclos
deseja mais manter. de vulnerabilidade socialmente
causada e distintamente
Sua decisão, ainda que
assimétrica” (Okin, 1989a, p.
“autônoma” e não coagida
138). (p. 35]
quando vista de forma isolada,

A problematização do efeito de condicionantes estruturais,

econômicas e institucionais sobre as alternativas disponíveis

para os indivíduos

O fato de que decisões não noções correntes da


coagidas colaborem, responsabilidade individual.
correntemente, para reproduzir
O indivíduo autônomo não é
as condições de maior
aquele que determina
vulnerabilidade das mulheres
inteiramente a sua vida; esta é
conduz à problematização do
uma abstração que colabora
efeito de condicionantes
para valorizar quem está em
estruturais, econômicas e
posição vantajosa em
institucionais sobre as
determinados contextos e
alternativas disponíveis para os
arranjos institucionais, ao
indivíduos (Young, 2011).
mesmo tempo em que
Nesse caso, as análises mantêm caracteriza como desviantes
o valor da autonomia, mas aqueles que não “dão conta” de
procuram desvinculá-lo de si.
Em outras palavras, as formas responsáveis ou falhas que
sociais de produção da levariam à autonomia e
vulnerabilidade são enfocadas, independência (no primeiro
em vez de presumir que as caso) e à dependência e
ações individuais poderiam ser inaptidão para cuidar de si e dos
explicadas como seus (no segundo caso). (p. 35]
desdobramentos de ações

As relações de dependência enquanto questões sociais e

políticas

A análise das formas correntes, As relações de dependência


mas diferenciadas, de restrição são, nesse caso, elevadas a
à autonomia dos indivíduos se questões sociais e políticas
definiria no feminismo também relevantes, afastando-nas do
como crítica à compreensão da estigma do desvio que as define
autonomia como descolamento em análises que enfatizam a
ou distanciamento do indivíduo responsabilidade individual. (p.
em relação a outras pessoas. 36]

A relação entre as análises pautadas na vulnerabilidade e as

correntes maternalistas
A valorização da organizado pela valorização
intersubjetividade, das alternativa da empatia e da
interações e do cuidado com os autonomia.
mais vulneráveis aproxima
Essa oposição foi criticada
algumas dessas análises às
porque desconsideraria a
correntes maternalistas.
complementaridade possível
A própria Elshtain (1997) discute entre os princípios da empatia e
o fato de que as representações da universalidade, em noções
correntes do indivíduo silenciam de justiça redefinidas a partir da
sobre as formas de problemática de gênero (Okin,
dependência e os afetos – e 1989b), mas também porque
avança para a definição desses não expressaria suficientemente
como a base para valores que o fato de que a valorização das
se afastam, justamente, do valor relações de cuidado não
da autonomia. prescinde de garantias para a
autonomia individual (Ruddick,
O contraponto entre ética do
1995). (p. 36]
cuidado ou relacional e ética da
justiça seria, nesse caso,

A autonomia enquanto mito

Em algumas dessas quais se situa, assim como dos


abordagens, a autonomia foi com textos institucionais em
definida como um mito – o mito que sua
do indivíduo que determina a si
vida toma forma (Fineman,
mesmo e independe das
2004).
relações de sociabilidade nas
Mas essa é uma estratégia das dependência como questões
correntes que trabalham para políticas de primeira ordem. (p.
colocar as relações de 36]

Objeção em relação às correntes que trabalham para

colocar as relações de dependência como questões políticas

de primeira ordem

A objeção, nesse caso, é o fato vulneráveis, em atividades não


de que a privatização das remuneradas ou
relações de cuidado e de malremuneradas.
dependência oculta seu
Essa forma de privatização
impacto diferenciado na vida de
impede, ainda, a tematização
mulheres e homens – as
adequada das conexões entre
primeiras são tipicamente
dependência e desigualdades.
prejudicadas por estarem na
(p. 36]
posição de cuidar dos mais

Caminho para redefinir as conexões entre dependência e

desigualdades
Um dos caminhos propostos precisariam ser adequadamente
para redefini-las, no debate tratadas.
teórico e na prática política, é a
Sem um tratamento adequado,
distinção entre relações de
as últimas são fatores
dependência indesejáveis –
importantes na reprodução das
aquelas que restringem a
primeiras, isto é, de formas
autonomia dos indivíduos
indesejáveis de dependência e
porque estão em posições de
das desigualdades de gênero e
vulnerabilidade socialmente
de classe (essa é, em linhas
causada – e formas
gerais, a orientação de Fineman,
incontornáveis de dependência,
2004; cf. também McLain, 2006;
que são parte da vida em
Macedo e Young, 2003). (p. 36-
qualquer sociedade e
37]

Conclusão sobre a privatização do cuidado com os mais

vulneráveis, associada à visão convencional sobre as

responsabilidades de cada um dos sexos

A privatização do cuidado com dos sexos, resultaria na redução


os mais vulneráveis, associada à sistemática da capacidade de
visão convencional sobre as agência autônoma pelas
responsabilidades de cada um mulheres. (p. 37]
Conclusão sobre a contribuição do feminismo para a

redefinição da noção de autonomia

Os debates sobre autonomia no física ou nas restrições legais,


feminismo colaboram, assim, incorporando os padrões de
para trazer novos ângulos às socialização que estruturam
análises sobre a acomodação expectativas e
entre direitos formais e comportamentos, bem como o
desigualdades. acesso aos recursos materiais.

A noção liberal de autonomia Em sentidos distintos, e mesmo


como independência absoluta conflitivos, estes debates
em relação ao mundo social é redefinem a noção de
descartada como enganosa. autonomia e produzem
deslocamentos nos
Ela falha tanto em reconhecer
entendimentos correntes.
que somos todos seres sociais
quanto – o que é mais Este tem sido um dos principais
importante – que a organização efeitos das críticas elaboradas a
da vida em comum é crucial partir da posição das mulheres
para reduzir o espaço de nas relações de poder e de sua
autonomia de alguns (ou especificidade, relativamente
algumas). aos homens, no usufruto dos
direitos nas democracias
O foco deixa de estar
contemporâneas. (p. 37]
exclusivamente na coerção
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