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ENSAIO DE IMPACTO CHARPY EM AÇO AISI 1020 E AÇOAISI 304L

Leticia Suguiy, leticiasuguiy@hotmail.com, NA


Maiara Marques, maiaramarques7@gmail.com, MC
Willian Sampaio, williansampaio36@hotmail.com, MC

Resumo: Com o objetivo de prevenir eventuais falhas, se faz necessário um estudo minucioso sobre o comportamento
dos materiais ao serem submetidos a esforços dinâmicos repentinos através do ensaio de impacto realizado por uma
máquina de oscilação pendular ou martelo pendular. Para que os resultados do ensaio façam sentido, é necessário o
conhecimento prévio de algumas propriedades do corpo de prova tais como: ductilidade, elasticidade e tenacidade.
Com isso, poderemos entender como se manifesta as eventuais falhas nos materiais aço AISI 1020 e aço inoxidável
AISI304L nas temperaturas ambiente (13ºC), baixa temperatura (-10ºC) e alta temperatura (550ºC) como ocorre a
propagação de uma trinca antes de sua fratura. O ensaio de impacto não fornece valores absolutos e sim relativos a
materiais que foram ensaiados sob mesmas condições. Assim, entender o motivo de tal procedimento não entrar para
cálculos de projetos de engenharia.

1. INTRODUÇÃO

As propriedades mecânicas constituem as características mais importantes dos metais. Elas definem o
comportamento do material quando submetido a um esforço mecânico e correspondem as propriedades do material,
determinam a capacidade que o material tem de resistir aos esforços a ele aplicados, sem romper ou alterar sua
estrutura.
Com o objetivo de diminuir eventuais falhas mecânicas, se faz necessário uma pesquisa sobre as principais formas
de um dado material falhar em sua aplicação.
O ensaio de impacto é largamente utilizado nas indústrias naval e bélico, na construção que deverão suportar baixas
temperaturas. A temperatura influência muito a resistência de alguns materiais ao choque. Ao ensaiar os metais ao
impacto, verificou-se que há uma faixa de temperatura relativamente pequena na qual a energia absorvida pelo corpo de
prova cai apreciavelmente. Esta faixa é denominada temperatura de transição.
O ensaio de impacto caracteriza-se por submeter o corpo de prova a uma força brusca e repentina, em diversas
temperaturas, afim de rompe-los e avaliar a energia absorvida pelo material, propagações de trincas e conseqüentemente
sua fratura.

2. FUNDAMENTAÇÃO

Os materiais possuem habilidade de absorver muita, pouca ou nenhuma deformação antes da fratura. Com isso, é
possível prever o comportamento de certos materiais para suas eventuais aplicações.
Qualquer processo de fratura envolve a formação de trincas e são classificadas de acordo com o tipo de fratura,
podendo esta, ser uma fratura dúctil ou frágil. Segundo o Dr. Jorge Medina em sua tese de doutorado pela PUC-Rio,a
ductilidade é o grau de deformação plástica que um material suporta antes de ocorrer a ruptura. Para materiais que
apresentam pouca ou nenhuma deformação antes da fratura é tido como frágil. Por outro lado, o material que apresentar
uma deformação plástica, isto é, sua deformação passa do ponto de escoamento é denominado dúctil.

2.1 FRATURA DUCTIL

Conhecido por apresentar trincas em fase estável, não propagam sem uma tensão que ultrapasse seu limite de
resistência. É possível caracterizar a fratura dúctil pelo aspecto fibroso na superfície da fratura como mostra a Figura 1
(é um indicativo de deformação antes da fratura). Além das irregularidades visíveis, é possível notar um contorno
superficial característico da fratura Taça cone, onde a fratura ocorre a 45º da tensão aplicada.

Figura 1. Fratura dúctil - Taça cone. Callister,W. Ciência e Engenharia de Materiais 7º ed. 2008
2.2 FRATURA FRÁGIL

Possui trincas instáveis, propagam-se de maneira brusca e rápida, com pouca deformação plástica, uma vez iniciada
irá continuar a difundir-se espontaneamente sem precisar de um aumento de tensão aplicada. No espaço em que ocorre a
fratura, uma superfície lisa e brilhante como resultado da pouca deformação plástica em níveis macroscópicos. A Figura
2 apresenta facetos e degraus de clivagem ou trincas intergranulares.

Figura 2. Fratura frágil. Dr. Sergio Medina, PUC-Rio, tese Doutorado.

Entre as duas fraturas apresentadas, a segunda (frágil) é a menos desejada por possuir trincas que se propagam
rapidamente sem demonstrar sinais de falhas mecânicas, gerando grandes catástrofes.

Propagação da trinca:
 Transgranular: quebra sucessiva das ligações entre a vizinhança do plano cristalográfico Figura 3. As trincas se
propagam através dos grãos

Figura 3. Caminho da trinca. Callister, W.D Ciência e Engenharia dos Materiais.

 Intergranular: Em algumas ligas, a propagação da trinca se dá ao longo dos contornos de grão. Esse tipo de
fratura resulta após a ocorrência de processos que enfraquecem ou fragilizam a região dos contornos de grão,
como mostra a figura 4.

Figura 4. Propagação intergranular. Callister, W.D. Ciência e Engenharia dos Materiais.

2.3 MECÂNICA DA FRATURA

Devido as limitações nas aplicações dos conceitos tradicionais para prever o comportamento dos materiais quanto á
presença de descontinuidade interna e superficial, criou-se a mecânica da fratura linear elástica. Segundo Cleber Fortes
engenheiro metalúrgico, em sua publicação monográfica (1/10/2003), a mecânica elástica surgiu em função das
imitações na aplicação do critério de Kc em materiais dúcteis, com sítio de tamanho considerável de deformação.
De modo geral, a mecânica da fratura linear elástica avalia os mecanismos de fratura dos materiais frágeis, a
intermédia dos conceitos da elasticidade linear.
“As bases da MFLE foram introduzidas por Griffith através de um critério energético. Um segundo critério foi
proposto por Irwin, que introduziu um parâmetro denominado fator de intensidade de tensão, e supôs que a trinca se
propaga quando o fator de intensidade de tensão atinge um valor crítico, denominado de tenacidade à fratura. Williams
e Irwin introduziram as técnicas necessárias para calcular os fatores de intensidade de tensão” (Jorge Medina, 2014, pg.
31).

2.4 TENACIDADE A FRATURA

“Tenacidade é definida como a capacidade de um material de absorver energia até a ruptura. A tenacidade cresce
com a área total sob a curva tensão vs. deformação, a qual é uma indicação da quantidade de trabalho por unidade de
volume que pode ser realizado no material sem causar a fratura.” (Jorge Medina, 2014, pg. 29).
Segundo Medina, a tenacidade é definida como a capacidade do material resistir à propagação de trincas. E são
levados em conta alguns aspectos como: crescimento estável da trinca, estado e tipo de material e estado de tensões.
Materiais tenazes possuem crescimento de trinca estável, é possível detectar a trinca com ultrassom e evitar as
fraturas catastróficas. O comportamento do material é proporcional a tensão aplicada.

2.5 FATOR DE CONCENTRAÇÃO DE TENSÕES

As trincas são entalhes que possuem raio “p” e podem ser geradas durante a fabricação ou na montagem da peça
(Figura 5). Charles Edward Inglis demonstrou ao analisar uma placa infinita com furos elípticos que o fator de
concentração de tensão é inversamente proporcional ao tamanho do raio da ponta do entalhe, isto é, o fator de
concentração de tensões cresce a medida que o raio da ponta do entalhe diminui, como mostra a figura 5 . A maior
tensão que atua na borda do furo elíptico e dada pela equação 1.

Equação 1.

Figura 5. Perfil de tensões através de uma secção reta que contém uma trinca interna.

2.6 BALANÇO DE ENERGIA GRIFFTH

A primeira análise bem sucedida do comportamento à fratura de componentes trincados, através de experiências em
vidro, assumindo que a fratura ocorre em material frágil ideal, foi desenvolvida por Griffith em 1920. Segundo Griffith,
em materiais idealmente frágeis, se a energia de deformação liberada fosse maior que a energia requerida para formar
uma superfície de trinca, quando avançasse de um comprimento infinitesimal, a mesma se propagaria de maneira
instável.
2.7 ANALISE DE TENSÕES DE TRINCA

Existem maneiras sobre as quais uma carga opera sobre uma trinca e cada uma irá resultar num deslocamento
diferente da superfície da trinca. Como mostra figura 6, abertura ou tração (a), deslizamento (b) e rasgamento (c).

Figura 6 – Tensões de Trinca

2.8 ENSAIO DE IMPACTO

Caracteriza-se por submeter o corpo ensaiado a uma força brusca e repentina, que deverá rompê-lo. É usado para
medir a tendência de um metal de se comportar de maneira frágil.
O ensaio de impacto consiste em medir a quantidade de energia absorvida por um corpo de prova ao ser submetido
a um esforço de choque dinâmico de valor conhecido. A máquina que disfere esse golpe é chamado de martelo
pendular. A diferença entre as energias potenciais corresponde à energia absorvida pelo material que será medida de
acordo com o sistema internacional (Joule).

Figura 7 - Martelo pendular.

2.9 CORPOS DE PROVA

São utilizados no ensaio de impacto duas classes de corpo de prova com entalhe: o Charpy e o Izod. Esses corpos
de prova seguem especificações de normas internacionais, baseada na norma americana E-23 do ASTM. Os corpos de
prova Charpy são divididas em três submúltiplos (a,b e c) de acordo com a forma do entalhe:

Figura 8. Submúltiplos de acordo com entalhe. Corpos de provas Charpy. Imagem ensaio destrutivo SENAI

O corpo de prova Izod apresenta a mesma forma de entalhe do Charpy,localizado em posições diferentes não
centralizados. A única diferença entre o ensaio Charpy e o Izod é onde o golpe é desferido. No Charpy, o golpe será na
face oposta do entalhe, enquanto no Izod será no mesmo lado do entalhe.
Corpos de provas de ferro fundido não apresentam entalhe.
Esse tipo de ensaio não fornece valores absolutos, fornece apenas valores relativos em que os corpos de prova serão
ensaiados sob as mesmas condições. Por esse motivo, os resultados obtidos não têm aplicações nos cálculos do projeto.

3.0 METODOLOGIA

As amostras utilizadas no ensaio foram o aço 1020 e aço 304L em diferentes temperaturas como mostra a tabela
1.A temperatura baixa foi garantida deixando as amostras em um congelador com álcool até atingir – 10º C, bem como
a alta temperatura deixando a amostra em um forno a 550 º C.
O equipamento utilizado para o ensaio de impacto tipo Charpy, marca PANANTEC ATMI. As amostras foram
posicionadas horizontalmente para o golpe do martelo. O pendulo do ensaio foi 150 Joule.

Energia de Impacto Energia de Impacto Energia de Impacto


Aços
(Baixas temperaturas) (Temperatura ambiente) (Alta temperatura)
Aço AISI 304L - 10° C 13° C 550° C
Aço AISI 1020 - 10° C 13° C 550° C
Tabela 1 – Temperatura das Amostras

4.0 ANÁLISE DOS RESULTADOS

Ensaio de impacto realizado em laboratório, com pendulo 150 Joule. A Tabela 2 mostra a temperatura de ensaio e a
energia absorvida com o impacto

Temperatura de Absorção
Material
Ensaio (°C) Energia (J)

13° C 134 J
Aço AISI 1020 - 10° C 4J
550° C 62 J
13° C 147 J
Aço AISI 304L - 10° C 147 J
550° C 118 J
Tabela 2 – Temperatura/absorção energia

A figura 9 mostra os corpos de prova ensaiados após a absorção de energia potencial gravitacional do martelo
pendular.

Figura 9 - Imagem dos corpos de provas utilizados no ensaio de impacto

AISI 1020

O corpo de prova do aço 1020 em temperatura ambiente absorveu 134 J de energia e não rompeu. Isso mostra que o
material é bastante dúctil. Em alta temperatura o material absorveu 62 J de energia e a amostra quebrou e também se
comportou de maneira dúctil.
Em baixas temperaturas o mesmo material se comporta de maneira completamente diferente, pois não absorveu
quase nada de energia (Tabela 2), rompeu por completo e sua fratura se mostrou frágil, isso se dá pela sua estrutura
cristalina que é CCC. Os metais com estrutura de corpo centrado apresentam a transição dúctil-frágil. Para esses metais,
a temperatura de transição depende tanto da composição química da liga quanto da microestrutura .

AISI 304L

O corpo de prova AISI 304L em temperatura ambiente absorveu 147 J de energia (tabela 2), apesar de ter quebrado
a amostra, o material se mostrou extremamente dúctil. Sob alta temperatura o material quebrou, porém continuou
absorvendo bastante energia e uma grande deformação plástica.
Em baixas temperaturas a amostra quebrou, entretanto prosseguiu absorvendo bastante energia e não se mostrou tão
frágil quanto o AISI 1020, isto se dá pela sua estrutura cristalina.
Os metais que apresentam estrutura cúbica de face centrada (CFC), que incluem ligas de alumínio e inox,
permanecem dúcteis, mesmo em temperaturas extremamente baixas.
Como alguns corpos não romperam, na pratica deve-se aumentar o peso do pendulo ou fazer um entalhe maior,
como é para fins didáticos foi considerado o resultado.
O principal resultado do ensaio de impacto é a energia absorvida pelo corpo de prova para se deformar e romper,
sua característica da fratura é (dúctil ou frágil). A energia é calculada antes e após o impacto, ou seja, quanto menor for
à energia absorvida, mais frágil será o material naquela temperatura.

5.0 CONCLUSÃO

Os materiais usados para os ensaios comportaram-se de maneiras distintas, mudando suas condições iniciais em que se
encontram, como por exemplo, a temperatura. O aço AISI 304L, material dúctil, após receber a tensão aplicada pelo
martelo pendular, absorveu quase toda energia e rompeu, como previsto, uma vez que sua estrutura é CFC, isto é, sua
tenacidade não se altera sob variação de temperatura. Por outro lado, o Aço AISI 1020 absorveu pouca energia a-10°C
apresentando pouca deformação antes da fratura, devido a sua estrutura cristalina ser CCC. Em outras palavras, corpos
com estrutura CCC tendem a comportar-se de maneira frágil em temperaturas relativamente baixas.
O ensaio de impacto é uma forma simples de determinar a temperatura de transição dúctil-frágil de metais. Esse
parâmetro é extremamente importante no que diz respeito à seleção de materiais, pois permite selecionar o material de
acordo com a temperatura e utilização do material de modo a combater catástrofes que podem ser geradas por falha
mecânica, tanto para proteger a integridade humana contra acidentes, quanto para evitar colapsos financeiros e o
retrabalho.

6.0 REFERÊNCIAS

Callister, Jr, W.D. - Materials Science and Engineering - An Introduction, J. Wiley & Sons, 2000.
Chiaverini, Vicente, Tecnologia Mecânica. 2 ed. – São Paulo, vol. 1, 1986
Medina, J.A.H; Avaliação de Previsões de Fratura Elastoplástica, Tese de Doutorado; PUC –RIO; 2014.
Souza, Sérgio Augusto de. Ensaios Mecânicos de Materiais Metálicos – 3ª edição. Ed. Edgard Blücher. 1977