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Metáforas primárias e metáforas congruentes: integrações cognitivo-


culturais

Ricardo Yamashita Santos


Orientador: Marcos Antonio Costa
Departamento de Letras – UFRN

RESUMO

A metáfora, desde a obra Metaphors we live by, de Lakoff e Johnson, é vista como um
elemento básico e inerente à capacidade cognitiva do ser humano. Essa capacidade
cognitiva envolve nossa experiência sensório-motora e nossa capacidade de construir e
negociar conceitos em sociedade. A metáfora é, portanto, um recurso cognitivo que nos
permite relacionar esquemas imagéticos, ou seja, esquemas básicos que começamos a
aprender desde bebês, como, por exemplo, o esquema ORIGEM/CAMINHO/META, a
frames, que são domínios conceptuais constituídos socialmente. Essas relações não são
preestabelecidas, uma vez que a todo o momento as reconfiguramos, através de redes de
integrações produzidas online, ou seja, produzidas em nossas práticas discursivas.
Nosso trabalho intenta explicar a teoria da metáfora primária e da metáfora congruente e
mostrar o quanto elas estão relacionadas à nossa linguagem cotidiana, auxiliando-nos no
processo de construção de sentido.

Palavras-chave: Metáforas. Cognição. Cultura.

Concepção cognitiva da metáfora

A Linguística Cognitiva tem como um de seus principais pilares a proposta


de que nossa mente é corporificada (embodied mind, LAKOFF & JOHNSON, 1980,
1999). Para os autores, nossas experiências sensório-motoras e nossa relação com uma
cultura são decisivas para o processamento cognitivo. Tal proposta teórica quebra com
uma tradição secular de mente autônoma, como argumentava Descartes no século XVII.
Para ele, poderíamos compreender o mundo a priori, através da razão.
Nessa perspectiva filosófica, a metáfora era entendida apenas como um
desvio, uma mera ornamentação linguística utilizada bravamente por pessoas
possuidoras de uma boa retórica ou ainda por poetas que soubessem fazer bom uso da
estilística linguística, como apregoava Aristóteles no século IV a. C.
Porém, podemos dizer que essa perspectiva já foi derrubada. A Linguística
Cognitiva chamada de “segunda geração” pôde constatar, conjuntamente com as
chamadas Ciências Cognitivas contemporâneas, que somos amplamente dependentes de
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nosso corpo, sendo que nossa mente só funciona através dessa simbiose corpórea. Em
outras palavras, somos seres que construímos coerência através de nossas experiências.
E a produção de metáfora é o resultado desse processo cognitivo, uma vez que nossa
capacidade conceptual de construir domínios pode ser remodelada.
As metáforas representam nossa capacidade de compararmos não apenas
conceitos, mas situações experienciais. Basta lembrarmos da extensa lista de metáforas
conceptuais já analisadas por Lakoff e Johnson, bem como da proposta da Teoria Neural
da Metáfora, atualmente estudada pelo grupo da Teoria Neural da Linguagem (NTL), do
qual Lakoff faz parte, conjuntamente com nomes como Bergen, Feldman etc.
Já Kövecses (2005), Kövecses e Lakoff (1987) e Lakoff (1987) mostraram a
importância de se estudar a metáfora em contextos culturais. A metáfora além de ser
fruto de nossa capacidade de construir conceitos, nos mostra como tais conceitos são
compreendidos em cada sociedade.
Lakoff (1987) afirma que construímos esquemas imagéticos baseados em
nossa experiência corporal. A esses esquemas agregamos os chamados frames, que são
o resultado dos domínios conceptuais compartilhados culturalmente. Esses elementos
compõem os Modelos Cognitivos Idealizados (MCI), que são os domínios que norteiam
a nossa compreensão. Os esquemas são o resultado de nossa experiência corpórea em
contato direto com o mundo. Esses esquemas compõem o princípio da universalidade
(KÖVECSES, 2005), uma vez que a estrutura corpórea é algo compartilhado pelos seres
humanos em todo o mundo. Porém, os frames são elementos construídos culturalmente,
dentro das relações intersubjetivas de casa sociedade. Eis que o princípio da
universalidade não pode ser aplicado aos frames, uma vez que estes resultam dessa
experiência cultural.
Essa relação que criamos entre esquemas e frames resultam nas chamadas
metáforas primárias (GRADY, 1997) e metáforas congruentes (KÖVECSES, 2005). É
nelas que nos debruçaremos nas páginas seguintes para constatar o quanto nossa
linguagem depende dessa relação metafórica. Além disso, essa teoria comprova que as
culturas são construídas sobre alicerces metafóricos, resultando em variedades culturais.

Construindo as metáforas primárias e as metáforas congruentes

Desde bebês começamos a construir coerência para nossas vidas. Dentre elas,
a noção espacial, de tempo, de tamanho etc. São esses conceitos básicos que vão se
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formando a partir do nascimento e são denominados por esquemas imagéticos


(LAKOFF, 1987). Os esquemas nos permitem compreender noções básicas que serão
aplicadas nas mais diversas situações em nossas vidas. Por exemplo, imaginemos um
bebê que começa a engatinhar em direção ao berço.
Obviamente, um exemplo como esse é meio improvável, uma vez que os
bebês não gostam muito de estar no berço, mas fora dele. Porém, a questão é que ao
engatinhar, o bebê cria uma trajetória até o berço, sendo, portanto, criado um esquema
imagético denominado por ORIGEM/CAMINHO/META (O/C/M). Nessa situação, o
bebê passa a ser o TRAJETOR, ou seja, o elemento que faz o percurso. Nesse cenário
que vai sendo construído pelo bebê, temos também o berço, que estaria na META. Isso
significa que ao evocarmos os esquemas, evocamos também a noção do foco, que vai
sendo construído através da gestalt (LAKOFF, 1987). Essa focalização permite
entendermos o todo pela parte, ou seja, qual a parte está sendo analisada. Quando eu
digo que “caminho em direção à faculdade” estou dando atenção ao CAMINHO, o que
significa que quero focalizar o percurso que estou realizando. O tempo presente do
enunciado nos auxilia nessa compreensão, evocada através dos elementos linguísticos.
Voltando ao exemplo do bebê, ao percorrer o trajeto em direção ao berço, o
bebê evoca o esquema O/C/M e transfere ao berço a relação de outro esquema básico, o
esquema CONTÊINER. Podemos entrar e sair de um berço, colocar e tirar algo dele,
exatamente como fazemos com algum recipiente ou até mesmo quando entramos em
nossa casa, por exemplo, sendo que, nesse caso, a casa passa a ser o recipiente. Assim,
somados os dois esquemas, temos a seguinte relação:

Figura 1 sobre esquemas associados: ORIGEM/CAMINHO/META e CONTÊINER. Retirado de Duque e


Costa (no prelo).

Associado a isso, relacionamos conceitos aos esquemas, como, por exemplo,


BERÇO É CONTÊINER, ou ainda CAMINHAR AO BERÇO É TRAJETÓRIA. Essa
ligação é estabelecida graças a outro esquema básico, o esquema LIGAÇÃO, que nos
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permite fazer as analogias entre os conceitos e os esquemas, bem como nos permite
fazer a ligação entre conceitos, permitindo apenas que focalizemos quais pontos serão
“ligados”. Desse modo, o berço teria a noção de recipiente compartilhada com o
esquema CONTÊINER e não o fato do berço ser o lugar onde os bebês dormem. Isso é
legitimado através do esquema LIGAÇÃO.

Figura 2: esquema LIGAÇÃO. Na entidade A temos o BERÇO. Na entidade B encontram-se o


CONTÊINER.

Essa relação, que construímos entre esquemas imagéticos e conceitos, é


chamada de metáfora primária (GRADY, 1997). Desse modo, como diz SANTOS (no
prelo, p. 4),

As metáforas primárias são consideradas, sobremaneira, como universais, uma


vez que são constituídas automaticamente, ou seja, o simples fato de
possuirmos uma estrutura corpórea como a nossa, que se locomove para frente,
que possui dois olhos, paladar, tato etc. criam esquemas básicos desde nossas
primordiais experiências, desde bebês, quando nos locomovemos pela primeira
vez e reconhecemos nossos pais etc.

Assim, as metáforas primárias são o resultado de nosso agir no mundo, de


acordo com nossas limitações corpóreo-sensoriais. Essa construção resulta na
universalidade da metáfora, como dissemos anteriormente, uma vez que essas relações
corporais são compartilhadas por todos os seres humanos. Lakoff e Johnson (1999)
mostram algumas metáforas primárias baseadas nos estudos de Narayanan (1997), como
apresentado no quadro abaixo.

Quadro 1: metáforas primárias (LAKOFF e JOHNSON, 1999)

AFEIÇÃO É CALOR: “Eles me receberam calorosamente”.


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FELIZ É PARA CIMA: “Eu estou para cima hoje”.


INTIMIDADE É ESTAR PRÓXIMO: “Não nos vemos há
anos e por isso nós estamos desafeiçoados”.
DIFICULDADE É ALGO PESADO: “Ela está
sobrecarregada de atividades”.
MAIS É PARA CIMA: “Os preços estão altos”.
CATEGORIAS SÃO CONTÊINERS: “O João está inserido
no grupo dos homens”.
SIMILARIDADE É PROXIMIDADE: “A cor de sua blusa
está parelha com a de Joana D´arc”.
ESCALAS LINEARES SÃO CAMINHOS: “A inteligência
de Raimundo vai além da conta”.
TEMPO É MOVIMENTO: “Nem vi a hora passar”.
ESTADOS SÃO LUGARES: “Eu estou imerso em uma
depressão muito forte”.
MUDANÇA É MOVIMENTO: “Meu carro está indo fazer a
revisão do chassi”.
PROPÓSITOS SÃO DESTINOS: “Ele ainda vai chegar ao
mesmo lugar que o Pelé jogando bola”.
PROPÓSITOS SÃO OBJETOS DESEJADOS: “Ele espera
agarrar a chance de ser um bom jogador”.
CAUSAS SÃO FORÇAS FÍSICAS: “Eles empurraram o
projeto de lei por todo o Congresso”.
CONHECER É VER: “Eu vejo o que você me diz”.

Essas metáforas primárias podem ser preenchidas de modos distintos, de


acordo com cada experiência cultural. Por exemplo, quando eu digo que VIDA É UM
PERCURSO, sabemos que tal metáfora será entendida em todas as culturas. Porém,
onde termina esse percurso, os problemas pelos quais são enfrentados nesse percurso
podem variar.
Köves (2002) fez um estudo comparativo do conceito de VIDA entre os
Estados Unidos e a Hungria e chegou à seguinte conclusão: os norte-americanos tendem
a usar com maior recorrência a metáfora VIDA É BEM PRECIOSO e VIDA É JOGO,
enquanto os húngaros utilizam mais frequentemente metáforas como VIDA É
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GUERRA e VIDA É COMPROMISSO. Esses resultados foram atribuídos pelo


pesquisador por estarem atrelados a fatores socioculturais bem marcados, como, por
exemplo, o fato da Hungria ter sofrido muito com guerras faz com que os húngaros
construam uma semântica de vida como algo extremamente hostil, enquanto nos
Estados Unidos é valorizada a vida sob uma ótica mais sistemática, como algo precioso
ou um jogo. Essa variação cultural ao modo como encaramos a VIDA em cada cultura
traz uma noção básica de vida, VIDA É PERCURSO. Porém, as questões que vão
acontecendo durante a nossa vida estariam no CAMINHO a ser percorrido durante a
vida, exatamente os percalços como VIDA É GUERRA, VIDA É COMPROMISSO etc.
Essas variações entre o modo de encarar a vida nos EUA e na Hungria
evidenciam as metáforas congruentes, pois estariam no nível cultural construindo a
relação que fazemos entre os conceitos inseridos em contextos específicos. De acordo
com Kövecses (2005), as metáforas congruentes fornecem às estruturas das metáforas
primárias uma contrapartida de estruturas online, ou seja, agrega as experiências
concretas das estruturas socioculturais. Para esse entendimento, Kövecses analisa a
metáfora conceptual PESSOA COM RAIVA É UM CONTÊINER COM PRESSÃO,
“eu estou com tanto ódio que acho que irei explodir”.
Ele comprova a existência dessa metáfora em diversas culturas, como o
japonês, o húngaro, polonês, chinês etc. Essa condição da metáfora conceptual pode
trazer a impressão de que ela seja um universal. Vejamos o exemplo:

Pessoa Contêiner
Zangada Fluído
Escala Escala
Pressão subjetiva Pressão interna
Agitação psicossomá- Agitação do fluído
tica Limites do contêiner
Limites do sujeito explosão
Perda de controle

Domínio-fonte Domínio-alvo

Figura 2: mapeamento metafórico retirado de Lakoff (1987)


Vemos que os dois domínios, através de mapeamentos, compartilham alguns
aspectos: a pessoa e o contêiner; estar zangada com um fluído no contêiner; perda do
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controle com explosão etc. Porém, percebemos que essa metáfora é extremamente
genérica, pois, não especifica questões do tipo “onde está concentrada a raiva?”. Essa
questão é abordada diferentemente pelas culturas, de acordo com o linguísta. Por
exemplo:

Japão: RAIVA ESTÁ NO ESTÔMAGO


Zulu: RAIVA ESTÁ NO CORAÇÃO
China: RAIVA ESTÁ VOANDO PELO CORPO (Como um fluído de gás)

Essas metáforas seriam congruentes por sofrerem a influência direta da


cultura em questão. As metáforas primárias recebem contornos específicos quando
analisadas socioculturalmente, causando as variações das metáforas. Tais variações são
o resultado da gestalt pela qual cada cultura focaliza a raiva. As metáforas congruentes
resultam, portanto, de uma rede de integrações, como propõem Fauconnier e Turner
(2008), pois associam diversas relações metafóricas na formação do todo, construindo
elos entre os esquemas, os frames, a gestalt e a produção da linguagem online, uma vez
que essa linguagem é analisada em seus contextos reais.

Conclusões

Pretendemos ter deixado clara a importância da metáfora em nossa vida


cotidiana. O modo como encaramos o mundo é visto sobre uma base amplamente
metafórica, sendo a metáfora um processo cognitivo e dependente de nossas
experiências. As experiências sensório-motoras nos auxiliam na produção de esquemas
imagéticos básicos, considerados como universais. Associamos metaforicamente a esses
esquemas conceitos, como BERÇO É CONTÊINER.
A cultura, porém, tem papel decisivo no modo como compreenderemos
essas metáforas, norteando o foco que se torna elemento cultural, como, por exemplo, a
noção de PESSOA COM RAIVA É UM CONTÊINER COM PRESSÃO sendo
associada como um fluído na China, no estômago no Japão e no coração em Zulu. Eis
as metáforas congruentes surgindo como o resultado dessa variedade cultural.
A metáfora pode nos ser útil até mesmo como elemento para compreender as
culturas. Atualmente, pesquisadores norte-americanos, liderados por Bergen, que
trabalha nas pesquisas juntamente com Lakoff, têm produzido programas para estudar
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as metáforas, uma vez que é comprovado que as metáforas são o resultado de relações
culturais. Assim, aprofundar os estudos da metáfora nos parece ser o próximo passo
para uma revolução tanto tecnológica quanto na descoberta de como funciona nosso
cérebro. Os dados estão lançados.

Referências

DUQUE, P. H.; COSTA, M. A. Linguistica Cognitiva: em busca de uma arquitetura de


linguagem compatível com modelos de armazenamento e categorização de experiências.
Natal: EDUFRN, 2011.

FAUCONNIER, G.; TURNER, M. The origin of language as a product of the


evolution of double-scope blending. Behavioral and Brain Sciences, 31(5):520-521,
2008.

GRADY, J. E. Foundations of meaning: primary metaphors and primary scenes. Tese


PhD. University of California at Berkley, Departament of Linguistics, Berkley, 1997.

KÖVECSES, Z. Metaphor in culture: universality and variation. Cambridge University


Press, 2005.

KÖVES, N. Hungarian and American dreamworks of life. Term paper – Department of


American Studies, Eötvös Loránd University, Budapest, 2002.

LAKOFF, G. Women, Fire and Dangerous Things: what categories reveal about the
mind. University of Chicago Press, 1987.

LAKOFF, G.; JOHNSON, 1980. Metaphors we live by. University of Chicago Press,
1980.

________ . Philosophy in the Flesh: the embodied mind and its challenge to Western
thought. New York: Basic Books, 1999.

LAKOFF, G.; KÖVECSES, Z. The cognitive model of anger inherent in American


English. In: Holland, Dorothy; Quinn, Naomi. (orgs.) Cultural models in language and
tought. Cambridge Universitiy Press, 1987.

LAKOFF, G.; TURNER, M. More than cool reason: a field guide to poetic metaphor.
University of Chicago Press, 1989.

SANTOS, R. Y. O conceito de Bloco Construcional como ferramenta analítica nos


estudos da linguagem. No prelo.