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Desenhando a realidade interna

RESUMO ABSTRACT

O presente artigo tem por objetivo apre- The present paper aims to show a
sentar uma reflexão a respeito da diferença reflection about the difference between the
que há no modo de funcionamento (organi- neurotical and psychotical organization
zação) neurótico e psicótico observado por observed by the graphism, mainly in the HTP
meio do grafismo, especificamente pelos de- (House, Tree, Person) test. Based on the
senhos do HTP (House, Tree, Person). Com concept of projection, which shows that the
base no conceito de projeção, em que o indi- subject puts in the external world what is on
víduo coloca no externo aquilo que está in- his internal world, the authors could observe
terno, é que as autoras puderam observar tais such differences, thet is, the manner
diferenças, ou seja, a maneira como neuróti- psychotical and neurotical both organize
cos e psicóticos organizam suas produções their graphical productions similar they
gráficas assemelha-se à maneira como orga- organize their lives. To exemplify that
nizam suas vidas. Para exemplificar tal re- reflection, two drawings of patients attended
flexão, escolheram os desenhos de dois by one of the authors are chose.
pacientes atendidos por uma das autoras.

Palavras-chave: projeção, organização neurótica, organização psicótica, HTP, teste projetivo


gráfico.

Key-words: projection, neurotical organization, psychotical organization, HTP test,


projective graphic test.

demos a utilizar muitas vezes como más-


INTRODUÇÃO cara: a beleza, perfeição e estética. Nes-
se sentido, fazemos uso do desenho,
Quando Freud declarou “A criança é exatamente para tirarmos rótulos, porque
o pai do homem”, talvez não imaginasse o que buscamos em sua produção é exa-
que tal frase nos remeteria à idéia de uti- tamente o que se revela: a essência, o
lizarmos um mecanismo explorado pe- fenômeno existencial, o homem como é.
los pequeninos para conhecermos o
homem que nos chega com o rótulo de Objetivo
paciente. É isso mesmo, o desenho que é Com o objetivo de compreender fe-
habito comum entre as crianças, nos au- nomenologicamente o paciente é que
xilia na detecção da realidade interna, optamos por trabalhar com o HTP, em-
ficando para segundo plano o que apren- bora existam outras técnicas semelhan-

Endereço para correspondência: Rua Antonio Luiz Vieira, 77


CEP 03463-150 – Vl. Formosa – São Paulo, SP – Tel.: (11) 6918-2012 / 6958-2412 / 6961-7697 –
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Sandra Dalle M.Siqueira
Walkyria de Fátima Doro
Edna de Oliveira Santos
CLIPSI – Assessoria e Aperfeiçoamento em Psicologia e Fonoaudiologia

tes. Aqui o indivíduo recebe o estímulo, vore, uma pessoa é mais ambígua do que
porém tem o espaço em branco para que se pode pensar à primeira vista, porque,
se revele. Optamos por indivíduos que embora se peça para desenhar uma casa,
já estejam em tratamento psicológico, já não se faz nenhuma indicação de qual
que conhecemos o seu histórico, com o casa, tamanho, localização ou tipo, o mes-
cuidado de não enquadrarmos o desenho mo ocorre com a árvore e com a pessoa.
em estereótipo pronto, mas observarmos Logo, revela-se como uma técnica rica
o arranjo em si e a organização dada, até para a exploração da realidade interna.
para pensarmos em seus aspectos saudá- Como bem esclarece Grassano (1996),
veis e refletirmos sobre a semelhança que o diagnóstico diferencial de graus de
vem à luz quando comparamos a organi- patologia tem por objetivo determinar as
zação deste em sua conduta diária e a características qualitativas de estruturação
organização que nos salta aos olhos na e funcionamento do aparato psíquico por
produção dos desenhos realizados no meio da investigação das conquistas ou
HTP. perturbações que apresentam as funções
mentais que estabelecem relações com
o mundo externo e com a realidade psí-
DESENVOLVIMENTO quica.
As características diagnósticas de
Não nos cabe aqui explicar em pro- graus de patologia se referem fundamen-
fundidade a teoria e técnica do teste, visto talmente à diferenciação entre neuroses e
que há uma ampla bibliografia específi- psicoses. Grassano (1996) também con-
ca. Salientamos, porém, que a escolha não sidera a psicopatia como outra categoria
foi aleatória, mas, sim, pensando num es- diagnóstica; no entanto, utilizaremos para
tímulo único a todos os sujeitos para que este artigo apenas a neurose e a psicose.
cada um trouxesse sua experiência. Segundo essa autora, Melanie Klein
Com os desenhos de uma casa, uma conceituou como origem do desenvolvi-
árvore e uma pessoa, pretende-se obser- mento psicótico o resultado da interação
var a imagem interna que o cliente tem de um modo exagerado de inveja consti-
de si mesmo e de seu ambiente. Os de- tucional com a presença de uma mãe ou
senhos têm grande poder simbólico, sa- substituta incapaz de produzir empatia com
turados de experiências emocionais e as necessidades biopsíquicas da criança.
ideacionais ligados ao desenvolvimento Acrescenta que Bion retomou as formu-
da personalidade. lações de Melanie Klein, privilegiando
Ademais, a escolha de tais elementos a interação entre um bebê com alta quan-
específicos deve-se ao fato de serem itens tidade constitucional de inveja e uma
familiares a todos, até mesmo a criança mãe incapaz de metabolizar as intensas
bastante nova oferece fácil aceitação situações de pânico, nas quais não con-
como objetos a serem desenhados. A es- segue conter o medo da morte do bebê,
truturação envolvida na solicitação para devolvendo-lhe como um terror de mes-
que o sujeito desenhe uma casa, uma ár- ma intensidade, carente de sentido (ter-

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ror sem nome). A intensidade da dor psí- lecimento de relações simbólicas
quica e a incapacidade de tolerar a frus- com a realidade, assim como de-
tração provocam um ataque ativo à parte senvolvimentos atingidos nas fun-
do aparato psíquico que contém a per- ções de realidade. Os fracassos
cepção de necessidade e dor. Não só esse parciais na elaboração depressiva
aspecto é atacado, como também toda marcam as zonas de bloqueio e ini-
função psíquica capaz de estabelecer li- bição de funções ou ainda falhas
gação com a realidade externa e interna de simbolização, mas estas funções
numa tentativa de evitar a dor, mas à estão, em seu aspecto geral, con-
custa da destruição do aparato psíquico. servadas. (Grassano, 1996, p. 26)
Nesse sentido, o conflito central na
psicose é a necessidade de construir um Na neurose, o conflito central é a ne-
aparato mental como único meio de sair cessidade de instalar e reparar o objeto
do fechamento persecutório; no entanto, bom em luta com sentimentos ambiva-
qualquer função psíquica é tímida, pois lentes que ameaçam essa conquista.
pode despertar a consciência de dor e A conceitualização dos testes proje-
enfermidade, necessitando, assim, ser tivos, a partir da perspectiva da Teoria
submetida a novos e ativos ataques hos- das Relações Objetais feita por Grassa-
tis e invejosos. Faltam-lhe as precondi- no (1996), refere que por meio das condu-
Na neurose,
ções mínimas para estabelecer contato tas verbais, gráficas ou lúdicas do paciente
verifica-se que o com a realidade, para desenvolver vín- observamos sua capacidade de dar forma,
aparato psíquico culos e qualquer função de síntese e in- organização e sentido emocional a esse
tegração. aspecto da realidade que o estímulo pro-
conseguiu se Na neurose, verifica-se que o aparato jetivo representa. Cada produção projeti-
organizar em psíquico conseguiu se organizar em fun- va é uma criação que expressa o modo
função dos ção dos mecanismos adaptativos de repres- pessoal de estabelecer contato com a rea-
são, em que cada modalidade neurótica lidade interna e externa.
mecanismos elaborou distintos métodos defensivos As pranchas ou instruções, diz a auto-
adaptativos de que tendem a evitar a dor dessa situação ra, atuam dentro da situação projetiva
repressão por meio de novas dissociações e parcia- como objetos mediadores das relações
lizações do objeto. vinculares pessoais, que mobilizam e
De acordo com Grassano (1996), o que reeditam diversos aspectos da vida emo-
marca a passagem da psicose para a neu- cional. Dessa forma, toda produção pro-
rose é a instalação da situação depressi- jetiva é produto de uma síntese pessoal.
va, que corresponde ao momento do A autora esclarece que os testes grá-
desenvolvimento das funções de discri- ficos são os que detectam, com maior
minação, juízo de realidade, princípio de precisão, as características estruturais e
realidade e instalação da repressão como de integração da personalidade. A pos-
mecanismo evolutivo. sibilidade de controle intelectual e de
Assim, a autora esclarece: disfarce, consciente ou inconsciente, di-
minui de forma marcante em relação aos
Como conseqüência desta evolução testes verbais.
alcançada na neurose, observamos Considerando que a folha em branco
evidências de um aparato psíquico é um objeto para o qual o paciente deve
capaz de organização intrapsíquica, dar forma e sentido a partir de uma ins-
em função do mecanismo de repres- trução dada, e funciona como objeto que
são (consciente-inconsciente) que deve ser recriado. Para fazer isso, o pa-
possibilita o desenvolvimento do ciente experimenta uma intensa situação
pensamento simbólico e o estabe- emocional, que se inicia no contato com

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esse objeto incompleto, que deve recons- graus de patologia são importantes cri-
truir por meio de um intenso trabalho térios (como indicadores de graus de in-
interno de busca de significados, que re- tegração) muito mais do que produções
sultará na resposta, seja gráfica ou ver- “lindas” ou “feias”, e também aspecto
bal. Cada estímulo projetivo coloca à harmônico ou grotesco, desorganizado
prova a capacidade de recriação que se ou integrado, paralisado ou com movi-
baseia na capacidade reparadora. mento.
Pensando nisso é que pudemos verifi-
car a diferença no modo de funcionamento
mental dos neuróticos e psicóticos quan- CASOS CLÍNICOS
do estes realizam uma atividade gráfica.
Observamos nas produções que cor- CASO 1 – Exemplo de funcionamen-
respondem ao funcionamento psicótico to psicótico
o fracasso em obter algum grau de sen-
tido e integração, com características de Dados pessoais e histórico: F. A. G. A.,
objeto quebrado, desintegrado, desarti- 17 anos, sexo masculino, solteiro, natu-
culado e desvinculado. A folha em bran- ral de Fortaleza, cursa o 1º ano do Su-
co funciona como disparador para a pletivo. Foi criado pela avó materna,
identificação projetiva de aspectos mi- desde os 5 anos de idade, quando seus
núsculos e fragmentados do corpo e do pais se separaram. Sua mãe veio morar
aparato mental do paciente, dando lu- em São Paulo e dificilmente ia para For-
gar a produções confusas e fragmen- taleza vê-lo. Todo mês mandava dinheiro
tadas, com falta dos mecanismos de para seu filho. O pai continuou morando
ordenação e integração, próprias do pro- em Fortaleza, porém, desde a separação
cesso secundário, ou seja, predominam não quis mais saber de F.A.. Casou-se
os aspectos do processo primário. Os novamente. Há quatro anos, F.A. mora
desenhos são estranhos, parciais e con- em São Paulo com a avó materna e sua
fusos e não mantêm entre si relações mãe. Esta se casou novamente e tem um
lógico-formais, evidenciando a neces- filho de 4 anos.
sidade de evacuar fragmentos persecu- Um dado relevante: o primeiro nome
tórios e mostrando os intensos processos foi escolhido pelo pai, e o segundo pela
de divisão (splitting) que levam à con- mãe. Na escolha do nome houve brigas
fusão e desintegração. entre os pais. O pai sempre o chamou de
Nas produções que correspondem ao F. e a mãe sempre o chamou de A., o que
funcionamento neurótico, a percepção e tende a trazer ambigüidade para F. A.
o juízo de realidade e a atribuição de sen-
tido, ou significado, à realidade percebi- Queixa: dificuldade escolar (de adapta-
da estão mantidos de forma adequada. ção e socialização), falta de motivação e
As tendências desorganizadoras afetam atenção dispersa. Observação dos pro-
áreas da personalidade, ocasionando ini- fessores: suas tarefas escolares são co-
bições, bloqueios e sintomas; no entan- piadas duplamente.
to, é importante ressaltar que não alteram A família tem conhecimento do com-
de forma significativa a percepção e a portamento do adolescente, afirmando
integração da realidade. que desde pequeno gostava de ficar iso-
Conforme já destacado, toda produ- lado no seu quarto jogando videogame.
ção projetiva é uma criação pessoal, e Não conseguia se envolver emocional-
como tal manifesta as possibilidades in- mente com os membros da família, não
dividuais de recriação simbólica do ego tinha muitos amigos e estava sempre dis-
e de seus objetos. Para o diagnóstico de tante de todos.

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Hoje, F. A. apresenta traços na sua tinuidade a conversa. Sua postura cor-
estrutura psíquica muito confusos, pois poral também é rígida. Senta-se na ca-
não vive o seu presente. A realidade deira e dificilmente muda de posição,
para ele é ausente, há predomínio de apresentando ausência total de movimen-
fantasias, revelando um núcleo psicóti- tos e de expressão, o mesmo acontece
co, que pode ser observado no desenho na realização das atividades lúdicas.
da figura humana. Faz uma figura gro- Raramente sorri, não demonstra afetivi-
tesca, com omissões de pescoço e mãos, dade e não se importa em perder no jogo.
o que nos faz pensar que ele não se re- Freqüenta todas as sessões de terapia e
conhece ou não se aceita como realmen- ao seu término confirma sua presença
te é. Apresenta dificuldade em controlar para a próxima semana.
os impulsos do seu corpo, no entanto, Mesmo sendo a segunda aplicação do
nos desenhos da árvore e casa a gestalt teste HTP, F. A. apresentou muita ten-
manteve-se preservada, denotando con- são. No desenho da casa, podemos dizer
trole neurótico. Há um mecanismo de que F. A. está tentando defender-se con-
defesa neurótico obsessivo, que pode tra a ameaça de uma ruptura no controle
ser observado em seus traços precisos. da fantasia, defesa contra o mundo ex-
Em todos seus desenhos, o traçado e a terno. Também apresenta ambivalência,
pressão ao desenhar são fortes, signifi- pois ele tem sua casa, mas ao mesmo tem-
cando insegurança, medo e agressivida- po vive pensando em outra: na vida que
de, próprios de sujeitos extremamente deixou em Fortaleza.
tensos. No desenho da árvore, apresenta de-
Foi possível observar que no desenho sejo de ocultar, disfarçar os conflitos ínti-
da árvore, ele acentua a linha de solo e mos. Novamente aparece a ambivalência
a linha divisória da copa com o tronco, quando desenha três flores de cada lado.
significando ansiedade, desejo de ocul- No desenho da figura humana dese-
tar ou disfarçar os conflitos íntimos. No nha uma figura grotesca, como na pri-
desenho da casa a porta está fechada, re- meira aplicação, com partes omissas.
presentando uma autodefesa, aspecto de Observamos que a figura está no meio
regressão, defesa contra o mundo. Em de duas árvores e flores (novamente a
ambos os desenhos, podemos dizer que ambivalência), o que nos leva a pensar
F. A. controlou-se constantemente, já no que o sujeito está “perdido” em seus pen-
desenho da figura humana não conseguiu samentos e suas fantasias, apresentando
manter o mesmo controle. Isso nos leva dificuldades em controlar seus impulsos.
a pensar que nos desenhos da casa e da Podemos dizer, ainda, que seus dese-
árvore o sujeito apresenta, ou quer de- nhos apresentam um monólogo interno,
monstrar ter, um controle sobre a situa- absolutamente subjetivo, ausência total
ção, no entanto deixa indícios de que não de movimento e de expressão, e figuras
é possível. Quando desenha a figura hu- estáticas e inexpressivas. As omissões e
mana grotesca, perde totalmente o con- distorções que aparecem pertencem ao
trole e mostra-se realmente como é. seu mundo interno. Predominam a de-
sintegração pela perda das funções egói-
Reteste (HTP): três meses de psico- cas, a fragmentação do ego e a projeção
terapia direta do mundo interno, povoado por
objetos bizarros.
Após três meses de psicoterapia, o Como foi observado, seus desenhos
diálogo com a psicóloga ainda é difícil. apresentam traços de ambivalência, e em
Somente responde ao que lhe é pergun- sua vida real essa ambivalência também
tado (após a segunda vez) e não dá con- pode ser verificada, onde tudo é duplo:

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tem duas mães (avó materna e a mãe pecto harmônico e comunicam algo com
biológica), duas famílias (paterna e mais vivacidade. Podemos dizer que E.
materna), dois pais (pai biológico e pa- apresenta imaturidade psíquica, necessi-
drasto), duas cidades (São Paulo e For- dade de retraimento e extrema relutân-
taleza), copia duas vezes a mesma lição cia à interação com o outro, bem como
na escola, e fez duas vezes o 1º ano do necessidade de inter-relação e afeto.
Ensino Médio. Em seus desenhos observa-se ambi-
valência. No desenho da casa: portas (2)
CASO 2 – Exemplo de funcionamen- e nos detalhes (borboletas e flores). No
to neurótico desenho da figura humana, os pés estão
um para cada lado; no entanto, predomi-
Dados pessoais e histórico: E. C. S., nam a integração porque as funções do
18 anos, sexo feminino, solteira, natural ego estão conservadas. Tal ambivalência
de São Paulo, cursando a 2º série do En- nos leva a pensar que E. não internalizou
sino Médio. Filha de pais separados. Sua positivamente sua mãe biológica, porém
mãe foi embora, deixando-a com o pai alguém (sua tia) fez essa função.
desde o nascimento. Seu pai foi morar
com a irmã casada (esta com dois filhos
adolescentes). Quando E. tinha 7 anos, seu CONCLUSÃO
pai faleceu. Seus tios a adotaram como
filha. A mãe biológica nesse momento Podemos concluir que a realidade in-
queria a guarda da filha, mas o juiz não terna é “desenhada” por meio da proje-
concedeu por “não ter boa índole”. ção. A importância do grafismo é que,
pela projeção o indivíduo traz à tona sua
Queixa: Segundo sua tia, E. é muito capacidade de vinculação objetal, capa-
triste, vive falando em morte e não tem cidade esta que é a marca fundamental
amigos. da passagem de níveis primitivos de evo-
lução para níveis neuróticos.
No teste HTP observa-se que seus Em um modo primitivo de funciona-
desenhos apresentam gestalt conserva- mento, isto é, psicótico, há um ataque
da e comunicam algo. Revelam insegu- hostil ao aparato psíquico, objetivando
rança, falta de maturidade intelectual ou destruir as funções destinadas a manter
afetiva, autodefesa contra os estímulos ex- o contato com a realidade externa e in-
ternos e sentimento de inferioridade; no terna: a percepção, a memória, a aten-
entanto, predominam a integração porque ção e o juízo de realidade (funções de
as funções do ego estão conservadas. vinculação), evitando com esse ataque o
contato com a dor.
Reteste (HTP): três meses de psico- Na neurose há uma organização em
terapia função dos mecanismos adaptativos, sen-
do que cada modalidade neurótica ela-
Após três meses de psicoterapia, E. borou distintos métodos defensivos,
já possui um vínculo com a psicóloga. atingindo uma organização intrapsíqui-
Aceita realizar todas as atividades lúdi- ca que possibilita o desenvolvimento do
cas e gráficas propostas. Durante as ses- pensamento simbólico e o estabeleci-
sões em que E. relata o seu histórico, mento de relação simbólica com a reali-
demonstra muita tristeza e agressivida- dade, a discriminação e o sentido de
de ao falar da mãe biológica. realidade.
No reteste do HTP, a gestalt está con- Assim sendo, a folha em branco será
servada e os desenhos apresentam as- um local onde o indivíduo revive a for-

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ma de vinculação objetal, trazendo de- 1) que pontos saudáveis se revelam para
senhos harmônicos, organizados, integra- que haja a manutenção deste;
dos, revelando organização neurótica, 2) onde se encontram as maiores difi-
conforme pôde ser observado no caso 2, culdades para uma possível estratégia
ou trazendo produções que evidenciam de intervenção, visando à diminuição
hostilidade contra os objetos internos e do sofrimento naquela condição exis-
contra a capacidade de pensamento, união tencial;
e integração que, prejudicando a criativi- 3) adoção de uma visão crítica perante a
dade, trouxeram no grafismo evidência de técnica, porque também é de nossa res-
diferentes graus de fracasso em sua inte- ponsabilidade avaliarmos as técnicas
gração, revelados por desarticulação, de- existentes, reformulando ou perpetuan-
sagregação, empobrecimento, estereotipia, do sua validade, quando estas se mos-
ausência de vinculação, vazios, falta de tram eficazes diante da nossa rotina
vitalidade, conforme o caso 1. com pessoas tão diferentes, com angús-
Fica evidente então que, nas produções tias e traços surpreendentemente tão
gráficas de predominância neurótica, a particulares, mas muito semelhantes.
estruturação das defesas evolui concomi- Nesse sentido, poderíamos atribuir ao
tantemente. O contrário ocorrendo nas HTP o mérito de ser também um méto-
produções de predominância psicótica, do de trabalho, onde à medida que o pro-
ou seja, à medida que vão acontecendo cesso de desestruturação-estruturação (e
os desenhos, as defesas diminuem, evo- vice-versa) vai se evidenciando, o psi-
luindo para a desestruturação, podendo coterapeuta faria as intervenções neces-
ser observado um processo de estrutura- sárias? É óbvio que para tal consideração
ção–desestruturação. há que se ponderar toda a complexidade
Não podemos deixar de ressaltar que teórica que está envolvida, mas que faz
todo indivíduo tem em sua personalida- jus diante de tal possibilidade.
de ambas funções, e que os desenhos nos
auxiliam a confirmar qual aspecto está Encaminhado em 24/11/03
mais atuante: neurótico ou psicótico. Revisado em 28/11/03
Assim, podemos refletir: Aceito em 23/12/03

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Grassano, E. (1996). Indicadores psicopatológicos nas técnicas projetivas. São Paulo: Casa
do Psicólogo.

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