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Lançamentos ãa IMAGO EDITORA

EDIÇÃO STANDARD BRASILEIRA DAS


OBRAS PSICOLÓGICAS COMPLETAS DE
SIGMUND FREUD

Nas livrarias:
Volume XI — "Cinco Lições de Psicanálise", "Uma
Lembrança de Leonardo da Vinci".
"Contribuição para a Psicologia do
Amor" e outros trabalhos.

Na gráfica:
Volume VII — "Fragmento da Análise de um Caso
de Histeria", "Três Ensaios sobre a
Teoria da Sexualidade" e outros
trabalhos.
Em preparo:
Volumes IV e V — "A Interpretação de Sonhos".

Em preparo:
"A Vida e a Obra de Sigmund Freud"
de Ernest Jones

A biografia completa de Sigmund Freud


Tradução do original, em 3 volumes
O SENTIMENTO DE SOLIDÃO
Nosso Mundo Adulto e Outros Ensaios
MELANIE KLEIN

O Sentimento de
Solidão
Nosso Mundo Adulto e Outros Ensaios

Coleção Psicologia Psicanalítica


Direção de
JAYME SALOMÃO
Membro-Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise do
Rio de Janeiro. Membro da Associação Psiquiátrica do Rio de
Janeiro.

Tradução, Prefácio e Notas de


PAULO DIAS CORRÊA
Membro-Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicoterapia de
Grupo. Membro-Associado da Sociedade Brasileira de Psicaná-
lise do Rio de Janeiro. Membro da Associação Psiquiátrica do
Rio de Janeiro

IMAGO EDITORA LTDA.


Título Original
OUR ADULT WOELD AND OTHER ESSAYS
Traduzido da l.a edição, publicada em 1983 por WILLIAM
HEINEMANN MEDICAL BOOKS LIMITED, Londres, Inglaterra.

Copyright © 1963 by William Heinemann Medicai Books


Limited, (© Melanie Klein Trust). ÍNDICE
Este volume aparece sob os auspícios da Fundação
MELANIE KLEIN

Prefácio à Edição Inglesa IX


Notas à Guisa de Introdução e Prefácio XI

Capítulo Primeiro
Nosso Mundo Adulto e Suas Raízes na Infância 1

Capítulo Segundo
Algumas Reflexões sobre "A Oréstia" 31

Capítulo Terceiro
Sobre a Identificação 74

Capítulo Quarto
1971 Sobre o Sentimento de Solidão 133
Direitos para a língua portuguesa adquiridos por
IMAGO EDITORA LTDA.
Rua Siqueira Campos, 6'5-B, sobrado, telefone 237-1963,
Rio de Janeiro, que se reserva a propriedade desta tradução

Impresso no Brasil
Printeã in Brasil
PREFÁCIO À EDIÇÃO INGLESA

Este livro constitui o primeiro volume da obra de


Melanie Klein patrocinado pela Fundação Melanie
Klein na condição de seus Testamenteiros Literários.
Na presente coletânea encontram-se dois artigos
que não tinham sido anteriormente publicados, "O
Sentimento de Solidão" e "Certas Reflexões Sobre
'A Oréstia' de Esquilo". Esses dois artigos combina-
dos a "Nosso Mundo Adulto e suas Raízes na Infân-
cia" e "Sobre a Identificação" reúnem os escritos
mais recentes de Melanie Klein a respeito de assun-
tos diferentes do trabalho estritamente clínico. Ela
vinha dedicando mais sua atenção em seus últimos
anos a tais aplicações de maior amplitude de seu co-
nhecimento psicanalítico.
Apenas um dos artigos, "O Sentimento de
Solidão", requereu uma preparação editorial bem
mais extensa. Fora apresentado em sua forma pri-
meira e abreviada ao 21.° Congresso Internacional de
Psicanálise de Copenhague em 1959. Um esboço qua-
se definitivo da presente versão havia sido concluí-
do pouco antes do falecimento da Sr a. Klein, mas sua
redação final estava por ser feita.
A Fundação deseja agradecer ao Dr. Eric Bren-
nan e à srta. Judith Fay pela tarefa de compilar o
índice Analítíco-Remissivo e também, à Tavistock
Publications Limited pela permissão de reimprimir
"Sobre A Identificação" de New Directions In Psy-
cho-AnalysIs e "Nosso Mundo Adulto e Suas Raízes
na Infância", de HumaB UelatioHs. NOTAS À GUISA DE INTRODUÇÃO E PREFÁCIO
ELLIOTT JAQUES O aparecimento da tradução em português desse último
BETTY JOSEPH volume da obra publicada de Melanie Klein vinha tardando.
Quase todos os demais — e montam a cerca de oito livros
— são do conhecimento do leitor interessado. Os que se dedi-
cam à psicologia, à pedagogia e à educação, os que trabalham
com a psicologia de crianças especialmente, com as psicote-
rapias e a psicoterapia de grupo em geral —• a analítica e as
outras —• além dos sociólogos, antropólogos ou psicanalistas,
tanto de crianças como de adultos, por certo já os leram e os
conhecem, ou os estudam no original e nas traduções para os
diferentes idiomas.
A característica principal, no entanto, do presente volume,
que traz o título de O Sentimento de Solidão, agora entregue
pela Imago Editora Ltda., principalmente, ao leitor brasileiro
de média e grande cultura, é a de reunir quatro estudos analí-
ticos da criadora da chamada "escola inglesa" de psicanálise
— três dos quais permaneciam inéditos e cuja importância e
significação eu não conseguiria exagerar.
Como em geral se reconhece, Melanie Klein foi uma inova-
dora em matéria de técnica e, consequentemente, de teoria
psicanalíticas. Contribuiu deveras para o desenvolvimento da
psicanálise. Tal fato lhe custou, como seria de se prever, sérios
riscos para a carreira de psicanalista, além de inúmeros con-
tratempos de ordem pessoal. O impacto causado na "Sociedade
Britânica de Psicanálise" quando aí começou a apresentar e
a defender suas ideias marcou época e, ao final de cerca de
quinze anos, acaba por cindir internamente a Sociedade.
As polémicas suscitadas e os ataques que eram ferrenhos,
principalmente por parte da ala mais conservadora da psica-
nálise vigente, valeram-lhe inimizades sem conta e muitos e
rancorosos adversários de prestígio no mundo psicanalítico de
então. O período decisivo ocorreu por volta dos anos de 1943-
via meios de se permitir recuos ou desfalecimentos diante da
1944, conforme rezam as quatro séries das "Controversial Series
evidência de suas descobertas.
o/ Discussions" da Britlsh Psycho-Analytical Society, e a ex-
Impelida, pela observação clínica, a perscrutar analitica-
tensa bibliografia a respeito (Glover, 1945).
mente durante meses e anos consecutivos, e a acompanhar e
Por fim — os ânimos já arrefecidos e, praticamente, sere- a assistir as vicissitudes e as raízes da relação da criancinha
nada a contenda —• torna-se patente que a famosa entidade, com a mãe, e com o seio materno, viu-se colocada diante da
passando a abrigar e a manter, lado a lado, três correntes dis- importância fundamental dessa primeira relação bipessoal.
tintas e bem delimitadas de psicanalistas, por pouco não ex-
cluíra definitivamente de seus quadros, a corajosa pesquisado- Daí por diante, torna-se para ela muito difícil negar se-
ra das ideias do inventor da Psicanálise. melhantes achados. Era inevitável que a tónica de sua análise
recaísse predominantemente, sobre tal situação bipessoal. Vê
Em escala menor, na verdade, reeditava~se processo idên- que esta, a princípio, se caracteriza meramente pela relação
tico ao ocorrido cerca de meio século antes com o próprio "bôca-seio". A seguir, é que pode falar de relação "mãe-filho".
Freud, quando também começou a revelar ao mundo suas des- Compreende logo e descreve as diferenças entre o relaciona-
cobertas. Com êle, segundo nos afiança Ernest Jones (1953), mento da mãe com o filho, e o da mãe com a filha.
em documentada e exaustiva biografia do criador da Psicaná- Ainda com base nas várias manifestações da relação pri-
lise, a situação fora mais crítica: por alguns anos, bem longos, mitiva bipessoal, vai reencontrando como reedições delas, os
teve que sustentar, sozinho, suas ideias e achados. múltiplos aspectos da relação triangular clássica —• "filho-mãe-
Ao tempo de Melanie Klein, no entanto, em Londres, já pai" que Freud mui leal e penosamente desvendara em si pró-
havia ela encontrado adeptos e seguidores, e o mesmo Jones prio e descrevera em seus pacientes adultos.
chegou a exercer, pessoalmente, grande influência em seu fa- De vários modos, revela Melanie Klein iterativamente em
vor — circunstância e fato, aliás, que Melanie Klein nunca crianças e adultos, neuróticos e psicóticos, a situação edipiana
esqueceu nem deixou de proclamar. plena e completa. A ênfase era posta, entanto, na relação bi-
Contribuir, por conseguinte, ainda que seja em plano cien- pessoal ("bôca-seio", "filho-mãe"), indicando com isto a des-
tífico e clínico, nem sempre chega a despertar acolhimento ou coberta do que chamou (em 1928) de "estágios precoces do
simpatia. Pior ainda se as achegas fornecidas implicam certa conflito edipiano", ou seja, as indefectíveis raízes e universais
ampliação de conceitos ou aprofundamento consequente de precursores da situação plenamente desenvolvida, em suas ma-
anteriores descobertas já, por si, tidas como arrojadas. Melanie nifestações mais completas, clássica e amplamente descritas
Klein o que fêz — hoje se reconhece — foi apenas estender o por Freud.
conceito do inconsciente, dentro da acepção dinâmica em que Aconteceu que, o brinquedo das crianças, antes praticamen-
Freud o descrevera e apresentou. Suas ilações e achados, po- te destituído de significação, ou não passando de mera libe-
rém, foram considerados perigosos ou quase heréticos, e se ração de energia ainda sem finalidade — como na teoria da
afiguraram como praticamente insuportáveis para o Establish- "surplus energy" de Franz Alexander (1948) — para Melanie
ment de então. Klein, ao contrário, em suas análises de crianças muito peque-
nas, foi visto como encerrando uma mensagem carregada de
Freud também, nos começos da Psicanálise, teve que pros-
ansiedade e acompanhada de mecanismos específicos de defesa.
seguir apesar de tudo e de todos, e de submeter-se às conclu-
Ela demonstra clinicamente (de 1923 em diante) poder com-
sões inelutáveis de seu trabalho clínico. Diante delas não po-
preender tal situação e interpretá-la dentro da técnica psica-
dia recuar. Foi, por vezes, é verdade, compelido a reformular
nalítica preconizada por Freud, com pequenas adaptações in-
sua exposição não só da teoria como da técnica, por amor à
dispensáveis à condição da criança, e de cujas interpretações
verdade ê observância dos princípios já estabelecidos de pes-
se seguiam "the release of quantities of anxiety" (1929, pág.
quisa psicanalítica. Assim, Melanie Klein, nos começos de seu
225 de "Contributions to Psycho-Análysis").
trabalho analítico, igualmente em razão de seus achados não
A técnica que desenvolveu, a sua play-analysis, por neces- o pensamento verbal: por exemplo, as inibições do "impulso
sitar prosseguir como .psicanalista o tratamento de criancinhas epistemofílico" (da curiosidade) responsabilizando-se direta-
que apenas iniciavam a fazer uso da palavra, precisou eviden- mente pelos distúrbios da fala ou da aprendizagem em geral.
temente basear-se na atividade lúdica. Esta, ela pôde ver e A capacidade de formar símbolos, portanto reconhecida
demonstrar, além de constituir integralmente significativa ma- como de importância fundamental, tanto para o aparecimento
nifestação da fantasia inconsciente da criança de tenra idade, e uso da palavra quanto como um meio de designação do con-
era absolutamente necessária ao desenvolvimento de sua vida creto pelo abstrato é recurso precioso de comunicação com o
mental florescente. mundo externo e com o mundo interno; é ainda fator essen-
Logrou reconhecer assim, com clareza, que o brinquedo re- cial no surgimento da capacidade de abstração e generaliza-
presentava uma forma definida da cerebração infantil (ou pri- ção; na de particularização; na possibilidade de discernimen-
mitiva) . Deduziu, por conseguinte, que a criança enquanto brin- to, na de cálculo e de previsão, exatamente por dispensar a
ca está como que proto-pensanão. A expressão pode não ser presença do objeto concreto do qual, naquele momento, se pre-
adequada, nem será, por certo, a que Melanie Klein empregou. cisaria para pensar ou trabalhar com êle.
Melhor diria, talvez, que a criancinha estava simplesmente Tal aptidão funciona também como agente do poder de
sendo: sendo como é; sendo como consegue ser, mas comuni- síntese dos objetos, antes defensivamente cindidos pelo ego
cando-se, e passível, portanto, segundo a técnica da play- em seus aspectos bom e mau; atua no aumento da capaci-
therapy, de ser entendida e interpretada analiticamente, e apre- dade de integração do ego — a instância psíquica das habili-
sentar assim "resolving anã liberating effect" (1927, pág. 190 dades humanas, do poder de adequação e das realizações —
de "Contributions" citada). propiciando a utilização de suas várias funções e virtualidades.
Com o brinquedo, a criança está pois simbolizando algo. Por fim, não seria admissível deixar de mencionar — se
Possivelmente criando imagens concretas e condensadas de bem que de passagem também — o que em geral se considera
proto-idéias (ou de fantasias inconscientes). Melanie Klein o ponto alto do desenvolvimento da formação de símbolos
admitiu e comprovou que, verbalizadas ou designadas por meio — o tema fascinante do mistério da criação artística, ainda
de palavras, tais fantasias podiam vir a ser conscientizaãas. por desvendar. Mormente dado o fato de que o presente volu-
Isto, caso alguém que, sabendo entendê-las (mãe ou psicana- me de Melanie Klein consta, em mais de metade, de dois alen-
lista), se dispusesse a lhes fornecer o significado — ou as in- tados estudos de Psicanálise Aplicada, em que ela analisa e
terpretações, como em geral se diz em análise. acompanha, interpretando em detalhe, como se estivesse no
Melanie Klein não alcançou isto sozinha e de imediato consultório, duas importantes obras literárias. Uma, a trilogia
(de 1919 a 1945). Partiu —• além de sua análise pessoal é evi- "Orestia", considerada obra prima de Esquilo e do teatro mun-
dente — das descobertas de Freud e seu ensinamento de que dial, poetização trágica de episódios que vinham ao encontro
os instintos, constituindo-se na fonte e origem de toda energia das inquietações da antiguidade clássica relativos ao Destino
vital, encontram sua representação psíquica (simbólica por ou ao fatalismo; e outra, moderna, o romance de Julien Green
conseguinte), na fantasia inconsciente que é, por sua vez, como — "If I Were You" (Se Eu Fosse Você), em que se pode ver
estamos repetidamente acentuando, raiz e primeiro mó- também a trágica emolduração, num círculo fechado de cri-
vel do pensamento verbal. mes, tal como na trilogia mencionada, uma luta contra a ti-
Melanie Klein viu também, no desenvolvimento do apare- rania da "moira", o quinhão de cada um neste mundo.
lho psíquico, o quanto o poder de formar símbolos (1929) im- Êle — o mistério —• ultimamente se encara, de modo su-
porta e tem significação relevante no aparecimento e evolu- mário, à luz das descobertas e achados da "escola inglesa" de
ção da capacidade de personificação, da dramatização e de psicanálise como um fenómeno de reparação à figura da mãe.
transformação do pensamento primitivo ou concreto (também O artista, já parecendo ter elaborado suas fantasias primitivas
chamado pensamento esquizofrénico) e na sua passagem para de destruí-la, através dos seus sentimentos de inveja e com-
petição, agora —• suficientemente motivado em sua capacidade A situação edipiana — seja a precoce ou a completa — am-
de admirar a mãe boa e reconhecer-lhe as qualidades — tenta, bas de significação e alcance insofismáveis, têm em análise
com sua criatividade, devolver a ela algo gerado por êle sob suas vicissitudes consectárias à chegada ou a descoberta da
o ponto-de-vista estético universal, como se desse modo sim- existência também de irmãos e irmãs, ou de familiares e agre-
bólico, estivesse alcançando uma solução de ser mãe e che- gados ao círculo familiar de um modo geral.
gando a criar vida ou uma representação de vida. A suposta heresia daquele tempo, os chamados estágios
Ainda com o recurso da play-technique, Melanie Klein precoces do que seria a situação triangular continuaram para
vislumbrou na mente infantil, a existência de angustiante e dentro do anteriormente descrito complexo edipiano pleno e
às vezes desesperado esforço de se defender, principalmente serviram de modelo, com o grupo familiar, também para o
contra determinados temores primitivos: a perseguição, a per- relacionamento com o grupo social mais amplo.
da, a separação, o luto — e suas consequências imediatas — O modo de convivência ou a maneira de ser com esse gru-
a depressão e a melancolia ou o recurso ao suicídio. Seguindo po social, inconscientemente já repete e revive, em suas gran-
Freud, Klein vinculou-os à força conflitante dos impulsos ins- des linhas, o tipo de relação afetiva do que se conhece como
tintivos de amor e de ódio inerentes ao ser humano. Percebeu o "grupo interno". Este, segundo se comprova em clínica psica-
que estavam na raiz do relacionamento inicial bipessoal, bebê- nalítica ou de psicoterapia analítica de grupo, não passa de
mãe, e eram elementos constantes do que descrevera sob a uma réplica do "grupo externo", com a diferença única e im-
rubrica de "estágios precoces do conflito edipiano". portante, de que a realidade psíquica o colore à maneira de
seus instintos conforme as pressões ou predominância interna
Tais temores ou ansiedades — persecutórias e depressivas
inconsciente dos sentimentos de amor ou de ódio inerentes ao
como as denominou — encontram-se descritas e apresentadas
de modo claro e direto no primeiro ensaio do presente volume, indivíduo que estabelece o relacionamento.
a conferência que prenunciou perante os membros dos Depar- O chamado "grupo interno" continuará pois a constar e
tamentos de Antropologia Social e de Estudos Sociais da Uni- se compor e a se formar das imagens e figuras encontradas,
versidade de Manchester, em Maio de 1959, e se referem, desde desde o início da vida, e consideradas boas ou más, exatamente
o raiar da consciência na criancinha (ou seja, desde os seus em acordo com a instintividade particular que cada ser huma-
três primeiros meses de idade em diante) ao resultado daque- no apresenta de senti-las. É desse modo particular que elas
les conflitos internos específicos, no relacionamento inicial — imagens e figuras externas —• existem "concretamente"
com a figura da mãe ou substituta, e depois com o mundo, dentro do indivíduo, se assim posso me expressar, isto é, no
mas decorrentes sempre da polaridade e concomitância de fan- reino de sua fantasia, revelando dinamismo bastante para de-
tasias amorosas e de fantasias agressivas. terminar o comportamento da criança ou da parte infantil do
adulto. Isso continuará assim, sempre, caso não sobrevenha
Convém ressaltar que, a relação bipessoal, alvo de tantas alguma influência suficientemente esclarecedora do padrão es-
e tamanhas críticas, constitui hoje relacionamento tido como tereotipado.
raiz, base e modelo para todos os demais que se seguiram na Esse grupo interno foi considerado mais operante em fun-
infância e continuarão a vir no futuro. A figura do pai, que ção do grupo familiar, como Melanie Klein o demonstrou, à
logo passou a fazer parte da cena, adquiriu realmente grande luz do relacionamento inicial primitivo com o seio e a mãe.
importância tanto para o desenvolvimento emocional e men- Seria hoje difícil negar, sob esse ângulo de pensamento, que
tal da menina como do menino. Com a descoberta da existên- daí, desses estágios precoces, como o leitor verá pelo volume
cia do pai, a situação triangular ganha na verdade substância, inteiro, da leitura de cada página e cada linha dos quatro
concretamente, e se apresenta com toda a sua pujança, dos ensaios — partem os fundamentos e a compreensão das varia-
três aos cinco anos de idade. das e numerosas manifestações dos temores, das ansiedades e
fobias, das inibições, das idiossincrasias, das rivalidades, dos Berlim e temperada pelas alegrias de ver o emprego e a acei-
amores e ódios, crimes e renúncias, ou das culpas e repara- tação de sua técnica e principais teorias.
ções, com seus múltiplos e complexos mecanismos de defesa Se foi perda não havê-lo terminado, a colaboração dedi-
ou dispositivos de proteção. cada dos seguidores que lhe completaram a forma expositiva
A escolha de cônjuge ou amante, a de profissão, a voca- fala em favor da unidade de vistas da escola, quanto à experi-
ção, os chamamentos de natureza vária e recôndita — se bem ência de trabalho com a teoria e a técnica, e o vigor e pro-
que às vezes aparentemente inexplicáveis ou em direções an- fundidade de sua compreensão analítica.
tes insuspeitadas •— qualquer nossa maneira de ser enfim, ou
de outrem, nosso proceder e atitudes existenciais, não obs- Para Klein, expressamente nesse ensaio, o sentimento de
tante as influências modificadoras benfazejas ou não, dificil- solidão nunca desaparece no ser humano; mas não tem o sen-
mente podem deixar de revelar as raízes, ou fundamentos ou- tido de estar só. Revela, antes, uma implicação de se sentir
tros que não aqueles primitivos e formadores iniciais de nossa mal acampanhaão, sob o ponto-de-vista interno. Resulta da
caracterologia ou tipo de personalidade. Ao que tudo indica, fantasia da presença de figura ou figuras perseguidoras dentro.
este foi gradativamente plasmado a partir de nossa entrada Êle é, entanto, que, no comum, impele a humanidade à
no mundo e em função dos relacionamentos mais precoces que busca inconsciente da imagem boa do começo da vida (a mãe
com êle estabelecemos. ou substituta), na relação com o mundo, e, aliando-se à espe-
Se a importância que os especialistas, mormente os da rança de reencontrá-la, favorece e propicia a capacidade de
chamada "escola inglesa" de psicanálise atribuem aos fatôres estar só externamente, sem se sentir muito em solidão.
inconscientes e instintivos na formação da personalidade, no
desenvolvimento das capacidades e aptidões, no poder de rea- Paulo Dias Corrêa
lizar e nas atitudes diante da vida — fôr considerada faná-
tica, hiperbólica ou mesmo subjugada a ideias preconcebidas,
ou a lucubrações apenas de mentes enfermas e tendentes ao
misticismo e à fabulação, a leitura dos quatro ensaios de que
se compõe este opulento volume O Sentimento de Solidão é
que poderá dizer.
Daqueles, um — o último da coletânea — era ainda esboço
quando a morte colheu Melanie Klein, em Setembro de 1960.
Permaneceria inédito se, o alcance e a importância da comu-
nicação não encontrasse redação definitiva, na colaboração
meticulosa e atenta de dois de seus mais constantes e ínti-
mos seguidores — a Dra. Betty Joseph e Mr. Elliott Jaques.
Os que o lêem hoje, e os que conheceram, antes, a Sra.
Klein e com ela privaram ou lhe puderam acompanhar e pe-
netrar a linha de pensamento, consideram o estudo contribui-
ção de plena maturidade e de detida reflexão.
Ao redigir o esboço, Melanie Klein, em idade provecta, já
nele havia consubstanciado uma experiência "ida e vivida" de
cerca de quatro fecundas décadas de clínica, de observação e
pesquisa, caldeada ao calor dos acontecimentos de sua vida
particular, sofrida desde o início da carreira profissional em
Capítulo Primeiro

NOSSO MUNDO ADULTO E SUAS


RAÍZES NA INFÂNCIA

Ao considerar do ponto de vista psicanalítico o com-


portamento das pessoas no seu ambiente social, é
necessário investigar como o indivíduo se desen-
volve desde a infância até a maturidade. Um grupo
— seja pequeno ou grande — consta de indivíduos
num relacionamento recíproco; e, portanto, a com-
preensão da personalidade é o fundamento para com-
preender a vida social. A exploração do desenvolvi-
mento do indivíduo conduz o psicanalista de volta,
através de estádios graduais, à infância; e por conse-
guinte, eu primeiro me estenderei sobre as tendên-
cias fundamentais da criança de tenra idade.
Os vários sinais de dificuldades da criancinha
— os estados de raiva, falta de interesse pelos que
a circundam, de incapacidade de suportar a frus-
tração e as expressões fugazes de tristeza — não
encontravam anteriormente qualquer explicação, a
não ser em termos de fatôres físicos. Pois até às
grandes descobertas de Freud havia uma tendência
geral a considerar a infância como um período de
felicidade perfeita, e os vários distúrbios revelados
pelas crianças não eram levados a sério. Os achados

1
de Freud vieram, no curso do tempo, nos ajudar a pelas emoções mais primitivas e fantasias incons-
compreender a complexidade das emoções da crian- cientes. É desse ângulo que descreverei, com o em-
ça e revelaram que elas passam por conflitos graves. prego do menor número possível de termos técnicos,
Isso conduziu a uma melhor compreensão (insight) o que concluí sobre a vida emocional da criancinha.
da mente infantil e sua conexão com os processos Formulei a hipótese de que o recém-nasci do ex-
mentais do adulto. perimenta, tanto no processo do nascer como no ajus-
A técnica do brinquedo que desenvolvi na psica- tamento à situação pós-natal, uma ansiedade de na-
nálise de criancinhas e outros progressos na técnica tureza persecutória. Isto se pode explicar pelo fato
resultante de meu trabalho me permitiu tirar novas de que a criança de tenra idade, sem ser capaz de
conclusões sobre os estágios mais primitivos da in- apreendê-lo intelectualmente, sente de forma in-
fância e as camadas mais profundas do inconsciente. consciente todos os desconfortos como se fossem in-
Tal visão (insight) retrospectiva baseia-se em um dos fligidos sobre ela por forças hostis. Se logo lhe fôr
achados cruciais de Freud, a situação de transferên- proporcionado conforto — em particular calor, a
cia, isto é, no fato de que numa psicanálise o pacien- maneira carinhosa com que é segurada e a gratifi-
te restabelece em relação ao psicanalista situações cação de ser alimentada — isto dá origem a emoções
e emoções primitivas — e eu acrescentaria, mesmo mais felizes. Ela sente que tal conforto lhe advém
muito primitivas. Portanto, o relacionamento com o de forças boas e, creio eu, torna possível a primeira
psicanalista às vezes apresenta, mesmo em adultos, relação amorosa da criança com uma pessoa ou, como
características muito infantis, tais como a superde- o diria o psicanalista, com um objeto. Minha hipótese
pendência e a necessidade de ser orientado, junta- é que a criancinha possui uma percepção inconscien-
mente com uma desconfiança inteiramente irracio- te inata da existência da mãe. Sabemos que animais
nal. Faz parte da técnica do psicanalista reconhecer de pouca idade de imediato se voltam para a mãe
o passado nessas manifestações. Sabemos que Freud e buscam nela seu alimento. O animal humano não
descobriu primeiro o complexo de Édipo no adulto é diferente nesse sentido, e esse conhecimento ins-
e foi capaz de ver suas origens na infância. Visto tintivo constitui a base da relação primária da crian-
que tive a boa sorte de analisar crianças de idade cinha com a mãe. Podemos também observar que
muito tenra, pude conseguir uma compreensão numa idade de apenas algumas semanas o bebé já
(insight) ainda mais acurada de sua vida mental, o olha o rosto da mãe, reconhece-lhe os passos, o to-
que me conduziu a uma compreensão da vida men- que de suas mãos, o cheiro e o tato de seu seio ou
tal do bebé. Pude desse modo, pela atenção meti- da mamadeira que ela lhe dá, tudo isso sugerindo
culosa que dispensei à transferência na técnica do que certa relação, conquanto primitiva, foi estabeleci-
brinquedo, chegar a um entendimento mais profundo da com a mãe.
das formas pelas quais — na criança e posteriormente Ela não só espera alimento da mãe como tam-
também no adulto — a vida mental é influenciada bém deseja seu amor e compreensão. Nos estágios
2 3
mais primitivos, o amor e a compreensão se expres- que a criancinha receber; e tais fatôres continuam
sam através do cuidado da mãe com o bebé e con- operantes durante todo o desenvolvimento. Embora
duz a certa unicidade inconsciente que se baseia no a importância de circunstâncias externas, no entanto,
fato de o inconsciente da mãe e da criança estar em seja agora reconhecida em escala crescente, a im-
íntima relação mútua. A sensação que a criancinha portância dos fatôres internos ainda é subestimada.
experimenta de estar sendo compreendida fundamen- Os impulsos destrutivos, que variam de indivíduo
ta o primeiro relacionamento básico de sua vida — para indivíduo, constituem parte integrante da vida
a relação com a mãe. Ao mesmo tempo, a frustração, mental, mesmo em circunstâncias favoráveis, e, por-
o mal-estar e a dor, percebidos, segundo sugeri, como tanto, temos que considerar o desenvolvimento da
perseguição, entram também em seus sentimentos criança e as atitudes dos adultos como resultantes
a respeito da mãe, porque nos primeiros meses ela da interação entre as influências internas e exter-
representa para a criança o todo do mundo externo; nas. A luta entre o amor e o ódio — agora que nos-
desse modo, tanto o que é bom como o que é mau sa capacidade de compreender os bebes aumentou
chegam-lhe à mente, provindo da mãe, e isto leva a — pode, até certo ponto, ser reconhecida através de
uma atitude dúplice em relação a ela mesmo sob as cuidadosa observação. Alguns bebes experimentam
melhores condições possíveis. intenso ressentimento por qualquer frustração e de-
Tanto a capacidade de amar como o sentido de monstram isso pela incapacidade de aceitar a grati-
perseguição têm raízes profundas nos processos men- ficação quando ela se segue à privação. Diria que
tais mais primitivos da criancinha. Primeiramente tais crianças têm uma agressividade inata e voraci-
eles se dirigem para a mãe. Os impulsos destrutivos dade mais intensas do que aquelas criancinhas cujas
e seus concomitantes — tais como o ressentimento explosões ocasionais de raiva logo se dissipam. Se
por frustração, o ódio que ela desperta, a incapaci- um bebé indicar que é capaz de aceitar alimento e
dade para se reconciliar, e a inveja do objeto todo amor, isto significa que pode superar o ressentimento
poderoso, a mãe, de quem dependem sua vida e seu pela frustração com relativa rapidez e, quando a
bem-estar — essas várias emoções despertam ansie- gratificação for novamente proporcionada, readqui-
dade persecutória na criancinha. Mwtatis mutandis, rir seus sentimentos de amor.
tais emoções estão ainda operantes na vida ulterior. Antes de prosseguir na minha descrição do de-
Os impulsos destrutivos, por conseguinte, em rela- senvolvimento da criança, julgo que devo definir
ção a qualquer pessoa estão sempre fadados a dar brevemente do ponto de vista psicanalítico, os ter-
origem ao sentimento de que essa pessoa também se mos eu e ego. O ego, de acordo com Freud, é a parte
tornará hostil e retaliadora. organizada do eu, constantemente influenciada por
A agressividade inata inegavelmente aumentará impulsos instintivos, porém mantendo-os sob contro-
pelas circunstâncias externas desfavoráveis e, in- le pela repressão; além disso, dirige todas as ativi-
versamente, será mitigada pelo amor e compreensão dades e estabelece e mantém a relação com o mundo
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externo. O eu é empregado para abranger toda a per- nalidade que se originam da introjeção contínua. A
sonalidade, que inclui não só o ego como a vida ins- projeção, que ocorre simultaneamente, implica que
tintiva que Freud denominou de id. existe uma capacidade na criança de atribuir a ou-
Meu trabalho levou-me a supor que o ego exis- tras pessoas em torno dela sentimentos de várias es-
te e opera a partir do nascimento e que, além das pécies, predominantemente o amor e o ódio.
funções mencionadas acima, tem a importante tarefa Cheguei à conclusão de que o amor e o ódio para
de defender-se contra a ansiedade estimulada pelo com a mãe estão vinculados à capacidade da crian-
conflito interno e pelas influências de fora. Ademais, ça em idade muito tenra de projetar todas as suas
dá início a numerosos processos dos quais, menciona- emoções sobre ela, tornando-a assim tanto um obje-
rei primeiro, a introjeção e a projeção. Ao processo to bom como perigoso. A introjeção e a projeção,
não menos importante de divisão, isto é, de dividir no entanto, embora tenham raízes na infância, não
impulsos e objetos, voltarei mais tarde. são apenas processos infantis. Constituem parte das
Devemos a Freud e a Abraham a grande desco- fantasias da criança, que segundo me parece tam-
berta de que a introjeção e a projeção são de gran- bém operam desde o começo e ajudam a plasmar
de importância tanto em distúrbios mentais graves sua impressão do ambiente; e pela introjeção este
como na vida mental normal. Tenho aqui que aban- quadro modificado do mundo externo influencia o
donar mesmo a tentativa de descrever como especial- que se passa em sua mente. Desse modo, estrutura-
mente Freud, partindo do estudo da psicose maníaco- se um mundo interno que é, em parte, um reflexo do
depressiva, chegou à descoberta da introjeção sub- externo. Isto é, o duplo processo de introjeção e de
jacente ao superego. Êle também explanou a relação projeção contribui para a interação entre os fatôres
vital entre o superego e o ego e o id. Com o decorrer externos e internos. Esta interação continua através
do tempo, esses conceitos básicos sofreram um de- de cada estágio da vida. Da mesma forma, a introje-
senvolvimento ulterior. Como vim a reconhecer, à ção e a projeção prosseguem pela vida afora e se mo-
luz de meu trabalho psicanalítico com crianças, a in- dificam no curso da maturação; mas nunca perdem
trojeção e a projeção funcionam desde o começo sua importância na relação do indivíduo para com o
da vida pospus, tcàl como uma das atividades mais pri- mundo qúe o cerca. Mesmo no adulto, portanto, o jul-
mitivas do ego, que a meu ver opera a partir do nas- gamento v de realidade jamais está inteiramente isen-
cimento. Considerada sob esse ângulo, a introjeção to da influência de seu mundo interno.
significa que o mundo exterior, seu impacto, as si- Já sugeri que sob um único ângulo os processos
tuações que a criancinha vive, e os objetos que ela de projeção e introjeção que venho descrevendo têm
encontra, são experimentados não só como externos que ser considerados como sias inconscientes.
mas são recebidos dentro do eu e se tornam parte da Como minha amiga, a falecida Susan Isaacs, o disse
vida interna dela. A vida interna não pode ser avalia- em seu trabalho sobre o tema (1), "A fantasia é (no
da mesmo no adulto sem esses acréscimos à perso- primeiro caso) o corolário mental, a representação

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psíquica do instinto. Não há impulso, nem pressão ou sugerir, é até certo ponto, inata. Para que o objeto
resposta instintiva que se não experimentem como bom se converta suficientemente numa parte do eu
fantasia inconsciente... Uma fantasia representa o depende, em certa medida, da ansiedade persecutória
conteúdo específico das necessidades ou sentimentos — e, consequentemente, o ressentimento — não de-
(por exemplo, desejos, temores, ansiedades, triunfos, ve ser muito intenso; ao mesmo tempo, uma atitude
amor ou pesar) que dominam a mente no momento". amorosa por parte da mãe muito contribui para o
As fantasias inconscientes não são o mesmo que êxito deste processo. Se a criança coloca no seu
devaneios (embora a eles estejam vinculadas), mas mundo interno a mãe como um objeto bom e mere-
uma atividade da mente que ocorre em níveis incons- cedor de confiança, um elemento de vigor é adiciona-
cientes profundos e acompanha todo impulso experi- do ao ego. Presumo, pois, que o ego se desenvolve,
mentado pela criancinha. Por exemplo, um bebe com em grande parte, em torno desse objeto bom, e a
fome pode temporariamente lidar com sua fome alu- identificação com as boas características da mãe
cinando a satisfação de lhe darem o seio, com todos torna-se a base para ulteriores identificações benfa-
os prazeres que normalmente tira dele, tais como o zejas. A identificação com o objeto bom revela-se ex-
gosto do leite, o cálido tato do seio, e de estar nos ternamente no copiar a criança de tenra idade as ati-
braços da mãe e ser por ela amado. A fantasia in- vidades e atitudes da mãe; isto se pode observar no
consciente, porém, também assume a forma oposta seu brinquedo e amiúde também em seu comporta-
de sentir-se privado e perseguido pelo seio que se re- mento com crianças mais jovens. Uma intensa iden-
cusa a proporcionar-lhe esta satisfação. As fantasias tificação com a mãe boa torna mais fácil para a crian-
— tornando-se mais elaboradas e referentes a uma ça identificar-se também com um pai bom e ulterior-
variedade maior de objetos e situações — continuam mente com outras figuras amigas. Como resultado,
durante todo o desenvolvimento e acompanham to- seu mundo interno passa a conter predominante-
das as atividades; nunca deixam de desempenhar mente objetos e sentimentos bons, e a criancinha
grande papel na vida mental. A influência da fanta- sente que esses objetos bons correspondem ao seu
sia inconsciente sobre a arte, sobre o trabalho cientí- amor. Tudo isto contribui para uma personalidade
fico e sobre as atividades da vida cotidiana não po- estável, e torna possível estender uma simpatia e sen-
de ser superestimada. timentos amistosos para outras pessoas. É eviden-
te que uma boa relação dos genitores entre si e com
Já mencionei que a mãe é introjetada e que isto a criança, e uma atmosfera doméstica feliz, desem-
é um fator fundamental do desenvolvimento. A meu penham um papel vital no êxito deste processo.
ver, as relações de objeto começam quase desde o
nascimento. A mãe nos seus bons aspectos — aman- Por melhores que sejam, no entanto, os sentimen-
do, ajudando e alimentando a criança — é o primeiro tos da criança em relação a ambos os genitores, a
objeto bom que a criança inclui em seu mundo inte- agressividade e o ódio também permanecem operan-
rior. Sua capacidade de conseguir isto, gostaria de tes. Uma expressão disso é a rivalidade com o pai

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que resulta dos desejos do menino em relação à mãe to, no entanto, é aceito dentro do eu (é introjetado),
e todas as fantasias a eles ligadas. Semelhante ri- a ênfase está na aquisição de algumas das caracte-
validade encontra expressão no complexo de Édipo, rísticas desse objeto e no ser influenciado por elas.
que nitidamente se observa nas crianças de três, Por outro lado, ao colocar uma parte de si em ou-
quatro, ou cinco anos de idade. Este complexo exis- tra pessoa (por projeção), a identificação se baseia
te, todavia, muito mais cedo e tem raízes nas pri- em atribuir ao outro algumas características. A pro-
meiras suspeitas do bebe de que o pai lhe tome o jeção tem inúmeras repercussões. Inclinamo-nos a
amor e a atenção da mãe. Há grandes diferenças no atribuir a outrem — em certo sentido, a colocar neles
complexo de Édipo da menina e do menino, que eu — algumas de nossas emoções e pensamentos; e é
caracterizarei apenas dizendo que, enquanto o me- óbvio que dependerá de quão equilibrados ou per-
nino em seu desenvolvimento genital retorna ao seu seguidos estivermos se a natureza dessa projeção vai
objeto original, a mãe, e por conseguinte procura ser amistosa ou hostil. Atribuindo parte de nossos
objetos femininos com consequente ciúme do pai e sentimentos à outra pessoa, compreendemos seus sen-
dos homens em geral, a menina, até certo ponto, tem timentos, suas necessidades e satisfações; em outra
que se afastar da mãe e encontrar o objeto de seus palavras, estamos nos colocando na pele do outro.
desejos no pai e ulteriormente em outros homens. Há pessoas que vão tão longe nessa direção que se
Afirmei isso, contudo, de forma bastante simplifica- perdem inteiramente dentro de outrem e se tornam
da, porque o menino se sente também atraído pelo incapazes de discernimento objetivo. Ao mesmo tem-
pai e com êle se identifica; e portanto um elemento po, a introjeção excessiva põe em perigo a força do
de homossexualidade entra no desenvolvimento nor- ego porque êle fica inteiramente dominado pelo obje-
mal. O mesmo se aplica à menina, para quem a re- to introjetado. Se a projeção for predominantemente
lação com a mãe, e com as mulheres em geral, nunca hostil, a verdadeira empatia e compreensão dos ou-
perde a importância. O complexo de Édipo não é tros é prejudicada. A característica da projeção é,
assim, apenas uma questão de sentimentos de ódio e portanto, de grande importância em nossas relações
de rivalidade em relação a um genitor e de amor com os outros. Se a interação entre a introjeção e a
pelo outro, mas os sentimentos de amor e a sensação projeção não fôr dominada pela hostilidade ou super-
de culpa também existem em conexão com o geni- dependência, e fôr bem equilibrada, o mundo interno
tor rival. Muitas emoções conflitantes centralizam-se, se enriquecerá e melhoram as relações com o mundo
portanto, sobre o complexo de Édipo. externo.
Passamos agora novamente à projeção. Quando Referi-me anteriormente à tendência do ego in-
alguém projeta a si ou parte de seus impulsos e sen- fantil para dividir os impulsos e os objetos e consi-
timentos sobre outra pessoa, realiza uma identifica- dero isto como outra das atividades primárias do ego.
ção com essa pessoa, embora tal identificação seja Esta tendência a dividir resulta do fato de que fal-
diferente da que se origina da introjeção. Se um obje- ta coerência bastante ao ego primitivo. Mas — aqui

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de novo tenho que referir-me aos meus próprios
conceitos — a ansiedade persecutória reforça a ne- três a quatro primeiros meses de vida. Descrevi essa
cessidade de manter separado o objeto amado do pe- combinação de mecanismos e ansiedades como a po-
rigoso e, portanto, de afastar o amor do ódio. É sição esquizoparanóide, que em casos extremos cons-
que a autopreservação da criança em tenra idade titui a base da paranóia e da esquizofrenia. Os con-
depende de sua confiança numa mãe boa./Áo dividir comitantes dos sentimentos de destruição nesse está-
os dois aspectos e ao apegar-se ao bom, ela preserva gio primitivo são de grande importância e separo
sua crença num objeto bom e em sua capacidade deles a voracidade e a inveja como fatôres muito per-
de amá-lo; e esta é uma condição essencial para se turbadores, em primeiro lugar na relação com a mãe
manter viva. Isso porque, sem pelo menos certa par- e ulteriormente com os outros membros da família,
cela desse sentimento, ela ficaria exposta a um mun- em verdade por toda a vida.
do inteiramente hostil que ela teme venha a destruí- A voracidade varia consideravelmente de uma
la. Esse mundo hostil também seria estruturado den- criancinha para outra. Há bebés que nunca se satis-
tro dela. Há, como sabemos, bebes em quem falta vi- fazem porque sua voracidade ultrapassa tudo que
talidade e que não se mantêm vivos, provavelmente eles possam receber. A voracidade se acompanha do
porque não foram capazes de desenvolver sua rela- impulso de esvaziar o seio da mãe e de explorar
ção de confiança numa mãe boa. Em contraste, há todas as fontes de satisfação sem consideração por
outros bebes que passam por grandes dificuldades quem quer que seja. A criancinha muito voraz pode
mas que manifestam suficiente vitalidade para utili- se satisfazer, por alguns instantes, com o que rece-
zar a ajuda e o alimento oferecidos pela mãe. Sei be; mas tão logo desaparece a gratificação, ela fica
de uma criancinha que passou por um parto pro- insatisfeita e é impelida a explorar, primeiro a mãe,
longado e difícil e sofreu lesões no processo, mas e a seguir todos da família que lhe possam propor-
quando posta ao seio, sugou-o avidamente. O mes- cionar atenção, alimento ou outra gratificação. Não
mo tem sido relatado acerca de bebés que sofreram resta dúvida que a ansiedade aumenta a voracidade
operações graves logo após o nascimento. Outras — a ansiedade de se sentir privado, de se sentir rou-
criancinhas em tais circunstâncias não conseguem bado e de não se sentir suficientemente bom para ser
sobreviver porque apresentam dificuldades em acei- amado. A criancinha que se mostra tão voraz por
tar alimento e amor, o que implica que não puderam amor e atenção sente-se também insegura quanto a
estabelecer a confiança e o amor na mãe. sua capacidade de amar; e todas essas ansiedades
reforçam a voracidade. Tal situação permanece imu-
O processo de divisão muda de forma e conteúdo tável em seus fundamentos, tanto na voracidade
à medida que o desenvolvimento prossegue, mas sob da criança de mais idade como na do adulto.
certos aspectos êle nunca é inteiramente abandona-
No tocante à inveja, não é fácil explicar como a
do. A meu ver, os impulsos destrutivos onipotentes,
mãe que alimenta a criancinha e dela cuida possa
a ansiedade persecutória e a divisão predominam nos
também ser um objeto de inveja. Mas sempre que
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tem fome ou se sente abandonada, a frustração da para o prazer e a gratidão tornam possíveis inúme-
criança leva-a à fantasia de que o leite e o amor ros interesses e alegrias. \
lhe são deliberadamente' negados, ou retidos pela No desenvolvimento normal, com a crescente in-
mãe para se beneficiar com eles. Tais suspeitas cons- tegração do ego, os processos de divisão diminuem
tituem a base da inveja. É inerente ao sentimento e a capacidade aumentada de compreender a reali-
de inveja não só o desejo de posse, mas também um dade externa, e até certa medida de conciliar os im-
forte impulso de destruir o prazer que o outro obtém pulsos contraditórios da criancinha, conduzem tam-
com o objeto desejado — impulso que tende a des- bém a uma síntese maior dos aspectos bons e maus
truir o objeto. Se a inveja é muito intensa, sua natu- do objeto. Isto significa que as pessoas podem ser
reza destruidora perturba a relação com a mãe assim amadas apesar de suas limitações e que o mundo não
como ulteriormente com os outros; o que quer dizer é visto apenas em termos de preto e branco.
também que nada pode ser plenamente desfrutado
de vez que o objeto do desejo já foi destruído pela O superego — a parte do ego que critica e con-
inveja. Além disso, se a inveja fôr intensa, a bonda- trola os impulsos perigosos, e que Freud primeira-
de não pode ser assimilada, nem fazer parte da vida mente situou, em torno do quinto ano de vida —
interna, e nem assim dar origem à gratidão. Em con- vigora, de acordo com os meus pontos de vista, des-
traste, a capacidade de desfrutar plenamente o que de muito antes. Admito a hipótese de que no quinto
foi recebido e a experiência de gratidão para com a ou sexto mês de vida o bebé começa a temer o dano
pessoa que a proporciona influenciam intensamente que seus impulsos destrutivos e sua voracidade cau-
tanto o caráter quanto as relações com outras pes- sam, ou podem ter causado, a seus objetos amados.
soas. Não é em vão que ao dar graças antes das re- É que êle ainda não distingue seus desejos e impulsos
feições, os cristãos empregam as palavras, "Pelo dos efeitos que causam. Êle experimenta sentimen-
que estamos prestes a receber, que o Senhor nos fa- tos de culpa e a necessidade de preservar tais objetos
ça verdadeiramente agradecidos". Essas palavras im- e de repará-los pelo dano causado. A ansiedade que
plicam no pedido daquela qualidade — a gratidão — agora experimenta é de natureza predominantemen-
que traz a felicidade e liberta do ressentimento e te depressiva; e as emoções que a acompanham, bem
da inveja. Ouvi uma meninazinha dizer que amava domo as defesas desenvolvidas contra elas, eu as
a mãe mais que a todas as outras pessoas, pois que reconheço como parte do desenvolvimento normal,
faria se a mãe não a fizesse nascer e não a houvesse e as denominei de "posição depressiva". Os senti-
alimentado? Esse acentuado sentimento de gratidão mentos de culpa, que ocasionalmente surgem em to-
estava vinculado a sua capacidade para o prazer e dos nós, têm raízes bastante profundas na infância
revelava-se em seu caráter e suas relações com ou- e a tendência para a reparação desempenham um im-
tras pessoas, particularmente em sua generosidade e portante papel em nossas sublimações e relações de
consideração. Através da vida semelhante capacidade objeto.
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emoções conflitantes. A ansiedade depressiva nesse
Quando observamos criancinhas por esse ângulo, estágio predomina e diminui a ansiedade persecutó-
podemos ver que às vezes, sem qualquer causa exter- ria. Acredito que muitas manifestações aparente-
na particular, elas parecem deprimidas. Nesse está- mente estranhas, fobias inexplicáveis e idiossincra-
gio tentam agradar às pessoas em torno de todas as sias que se podem observar em crianças em tenra
formas ao seu alcance — por meio de sorrisos, de
idade são, a um tempo indicações de elaboração da
gestos travessos, mesmo de tentativas de alimentar
a mãe pondo-lhe na boca colher com alimento. Ao posição depressiva e da maneira de elaborá-la. Se
mesmo tempo, este é também um período em que as os sentimentos de culpa que surgem na criança não
inibições a alimentos e os pesadelos muitas vezes so- são excessivos, a necessidade de reparar e outros
brevêm, e todos esses sintomas chegam ao máximo processos que fazem parte do crescimento trarão
por ocasião do desmame. Com crianças maiores, a alívio. As ansiedades depressivas e persecutórias,
necessidade de lidar com sentimentos de culpa ex- no entanto, nunca são inteiramente superadas; po-
pressa-se mais claramente; várias atividades constru- dem retornar temporariamente sob pressão interna
tivas se empregam para essa finalidade e na relação ou externa, embora uma pessoa relativamente nor-
com os genitores ou irmãos há uma necessidade ex- mal possa lidar com esse reaparecimento e readqui-
cessiva de agradar e de ser prestimosa, o que ex- rir seu equilíbrio. Se, contudo, a tensão fôr demasia-
pressa não somente amor como também a necessi- do grande, o desenvolvimento de uma personalida-
dade de reparar. de forte e bem equilibrada poderá ser impedido.
Freud postulou o processo de elaboração como Tendo tratado — embora eu tema que de ma-
parte essencial do método psicanalítico. Em poucas neira bastante simplificada — das ansiedades para-
palavras, isso significa permitir ao paciente experi- nóides e depressivas e suas implicações, gostaria de
mentar suas emoções, ansiedades e situações passa- considerar a influência dos processos por mim descri-
das repetidas vezes tanto em relação ao analista como tos sobre as relações sociais. Falei da introjeção do
às diferentes pessoas e situações na vida presente e mundo externo e sugeri que esse processo continua
passada do paciente. Há, contudo, uma elaboração através da vida. Sempre que podemos admirar e amar
que ocorre em certa medida no desenvolvimento in- alguém — ou odiar e desprezar alguém — também
dividual normal. A adaptação à realidade externa ficamos com algo deles em nós e nossas atitudes
aumenta e com ela a criancinha atinge um quadro mais profundas são plasmadas por semelhantes ex-
menos fantástico do mundo que a cerca. A experiên- periências. No primeiro caso nos enriquece, e se tor-
cia repetida da mãe que vai e volta para ela torna na um fundamento para preciosas lembranças; no
sua ausência menos assustadora e portanto sua des- outro, algumas vezes sentimos que o mundo externo
confiança de que ela a abandone diminui. Dessa está destruído para nós e o mundo interno fica, por-
forma, ela gradualmente elabora seus temores primi- tanto, empobrecido.
tivos e consegue certo equilíbrio de seus impulsos e
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Posso aqui apenas mencionar a importância das nossos filhos, é essencial manter um equilíbrio entre
experiências favoráveis e desfavoráveis concretas a excessiva e escassa severidade. Fazer vista grossa a
que a criancinha está, desde o início, sujeita, pri- certas pequenas travessuras constitui uma atitude
meiro por parte dos genitores, e ulteriormente por bastante saudável. Mas se estas se transformam em
parte de outrem. As experiências externas são de persistente falta de consideração, é necessário ex-
suprema importância durante a vida. Contudo, mui- pressar desaprovação e pôr um limite a seu compor-
to depende, mesmo na criancinha, das maneiras pelas tamento.
quais ela vai interpretar e assimilar as influências ex- Há outro ângulo do qual cumpre considerar a
ternas; e isto por sua vez depende em grande parte indulgência excessiva dos genitores: enquanto a
da intensidade com que atuam os impulsos destru- criança pode tirar vantagem da atitude dos pais, ela
tivos e as ansiedades persecutórias e depressivas. também experimenta um sentimento de culpa quan-
Da mesma forma, nossas experiências adultas são to a explorá-los e sente necessidade de certa restri-
influenciadas por nossas atitudes básicas, que ou ção que lhe proporcione segurança. Isto também lhe
nos ajudam a lidar melhor com os infortúnios ou, se permitirá experimentar respeito pelos genitores, que
estivermos demasiadamente dominados pela suspeita é essencial a uma boa relação para com eles e ao
e pela autocompaixão, transformam mesmo pequenas desenvolvimento do respeito pelos outros. Além dis-
desilusões em desastres. so, devemos considerar também que os pais que so-
As descobertas de Freud sobre a infância au- frem demasiado diante da auto-afirmação sem limi-
mentaram a compreensão dos problemas da educa- tes da criança — por mais que tentem submeter-se
ção, mas tais conhecimentos têm sido amiúde mal a ela — experimentarão por certo algum ressenti-
interpretados. Embora seja verdade que uma edu- mento que irá contaminar a atitude deles com a
cação demasiado rigorosa reforça a tendência da criança.
criança para a repressão, temos que nos recordar de Já descrevi a criança de tenra idade que reage
que demasiada indulgência pode ser quase tão da- intensamente contra toda frustração — e não há
nosa para a criança quanto a extrema restrição. A educação possível sem certa inevitável frustração —
chamada "auto-afirmação plena" pode apresentar e que tende a se ressentir amargamente ante quais-
grandes desvantagens tanto para os genitores como quer falhas e restrições de seu ambiente e a subesti-
para a criança. Enquanto que em épocas pregressas mar a bondade recebida. Em consequência, projetará
a criança era amiúde a vítima da atitude rigorosa seus rancores muito intensamente sobre as pessoas
dos genitores, estes podem agora tornar-se as víti- em torno. Atitudes semelhantes são bem conhecidas
mas de seus filhos. É um chiste conhecido de que em adultos, Se confrontamos as pessoas capazes de
havia um homem que nunca comeu peito de galinha; suportar a frustração sem ressentimento excessivo,
é que comiam-no os genitores quando êle era crian- e que logo readquirem seu equilíbrio após uma desi-
ça, e quando cresceu dava-o aos filhos. Ao lidar com lusão, com aquelas que se inclinam a lançar toda a
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culpa sobre o mundo externo, podemos verificar o tar suas convicções, são as que, em última análise,
efeito prejudicial da projeção hostil, É que a proje- despertam respeito e mesmo amor.
ção do rancor desperta nos outros um sentimento con- Um interessante exemplo da influência das ati-
trário de hostilidade. Poucos de nós temos tolerân- tudes primitivas através da vida é o fato de que a
cia para suportar a acusação, mesmo não expressa relação com as figuras arcaicas continua reaparecen-
em palavras, de que sob certas modalidades somos a do e que os problemas que permaneceram não resol-
parte culpada. De fato, isso muito amiúde nos faz vidos no bebé ou na tenra infância são revividos,
desgostar de tais pessoas e lhes parecermos ainda embora de forma modificada. Por exemplo, a atitude
mais hostis; em consequência, elas experimentam por em relação a um subordinado ou a um superior re-
nós mais sentimentos persecutórios e suspeitas, e as pete até certo ponto a relação com um irmão mais
relações se tornam cada vez piores. jovem ou com um genitor. Se nos relacionamos com
Uma maneira de lidar com a suspeita excessiva é uma pessoa mais velha de modo cordial e amistoso,
tentar apaziguar os inimigos supostos ou reais. Isto inconscientemente se revive a relação com um geni-
é raramente coroado de êxito. Naturalmente, algu- tor ou progenitor amado; ao passo que uni indivíduo
mas pessoas podem ser influenciadas pela lisonja e mais velho condescendente e desagradável incita no-
vamente as atitudes rebeldes da criança para com os
pelo apaziguamento, mormente se seus sentimentos
pais. Não é necessário que tais pessoas sejam fisica-
de perseguição contribuírem para a necessidade de
mente, mentalmente, ou mesmo em idade real seme-
serem apaziguados. Mas tal relação facilmente se lhantes às figuras originais; algo em comum em sua
desmorona e se transforma em hostilidade mútua. atitude é bastante. Quando alguém se acha inteira-
De passagem, gostaria de mencionar as dificuldades mente sob o domínio de situações e relações primiti-
que tais flutuações nas atitudes dos principais esta- vas, seu julgamento das pessoas e dos fatos estará
distas poderão produzir nos assuntos internacionais. perturbado. Normalmente, tal vivência das situa-
Quando a ansiedade persecutória é menos intensa, ções primitivas se limita e se retifica pelo juízo obje-
e a projeção, atribuindo, principalmente a outrem tivo. Isto é, somos todos capazes de ser influenciados
bons sentimentos, torna-se desse modo a base da por fatôres irracionais, mas na vida normal não so-
empatia, a resposta do mundo exterior é bem dife- mos dominados por eles.
rente. Todos nós conhecemos pessoas que têm a ca- A capacidade de amor e de dedicação, primeiro
pacidade de se fazerem amadas; é que temos a im- pela mãe, de muitas maneiras se transforma em de-
pressão de que elas têm certa confiança em nós, o dicação a várias causas consideradas boas e valiosas.
que desperta em nós um sentimento de amizade. Não Isto significa que o prazer que no passado o bebé con-
me refiro a pessoas que tentam tornar-se populares seguia experimentar ao se sentir amado e amando,
de maneira insincera. Pelo contrário, creio que as na vida ulterior se transfere não só para suas rela-
pessoas que são autênticas e têm coragem de susten- ções com os outros, o que é muito importante, mas
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também para o trabalho e para tudo que lhe parece ção produtiva que se estende até à idade adulta.
digno de valor. Isto implica também num enriqueci- Quando a inveja e a rivalidade não são demasiado
mento da personalidade e na capacidade de gostar intensas, torna-se possível desfrutar vicariantemen-
do trabalho, e lhe abre múltiplas fontes de satisfação. te dos prazeres alheios. Na infância a hostilidade e a
Nesse esforço para alcançar nossos objctivoS, rivalidade do complexo de Édipo são contrabalança-
bem como nossa relação com outras pessoas, o de- das pela capacidade de desfrutar vicariantemente a
sejo primitivo de reparar se acrescenta à capacidade felicidade dos genitores, Na vida adulta, os pais po-
de amar. Já disse que em nossas sublimações, que dem partilhar dos prazeres da infância e evitar ne-
decorrem dos interesses mais primitivos da criança, les interferir porque podem se identificar com os fi-
as atividades construtivas ganham mais ímpeto por- lhos. São capazes de observar sem inveja os seus
que a criança inconscientemente sente que desta ma- filhos crescerem.
neira ela restaura as pessoas amadas a quem dani- Semelhante atitude torna-se particularmente im-
ficou. Esse ímpeto nunca perde sua intensidade, em- portante quando as pessoas se tornam mais velhas
bora muito amiúde não seja reconhecido na vida e os prazeres da juventude se tornam cada vez me-
comum. O fato irrevogável de que nenhum de nós nos acessíveis. Se a gratidão por satisfações passa-
jamais esteja inteiramente isento de culpa apresenta das não tiver desaparecido, as pessoas idosas podem
aspectos bastante valiosos porque implica o desejo desfrutar do que quer que ainda se encontre ao seu
nunca plenamente esgotado de reparar e de criar de alcance. Além disso, com tal atitude, que dá margem
qualquer maneira que esteja ao nosso alcance. à serenidade, podem identificar-se com pessoas jo-
Todas as formas de serviço social se beneficiam vens. Por exemplo, qualquer um que esteja em bus-
com essa necessidade. Em casos extremos, os senti- ca de talentos jovens e que ajude a desenvolvê-los —
mentos de culpa impelem as pessoas a se sacrificarem seja em sua função como professor ou crítico, seja
completamente por uma causa ou por seus semelhan- em épocas anteriores como patrono das artes e da
tes, e podem levar ao fanatismo. Sabemos, contudo, cultura — somente é capaz de fazê-lo porque pode
que algumas pessoas arriscam suas vidas a fim de identificar-se com outros; num certo sentido, está
salvarem outras, e isto não é necessariamente da repetindo sua vida, algumas vezes chegando mesmo
mesma ordem. Não é tanto a culpa o que poderia a alcançar de modo vicariante a satisfação de objeti-
ser operante em tais casos como a capacidade para vos não realizados em sua vida.
amar, para a generosidade e uma identificação com Em todo estágio, a capacidade de identificar-se tor-
o semelhante em perigo. na possível a felicidade de poder admirar o caráter
Ressaltei a importância da identificação com os ou as realizações alheias. Se não pudermos nos per-
pais, e subsequentemente com outras pessoas, para mitir apreciar as realizações e as qualidades dos ou-
o desenvolvimento da criança em tenra idade e ago- tros — e isso significa que não somos capazes de su-
ra desejo frisar um aspecto particular de identifica- portar o pensamento de que nunca poderemos emu-
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lar com eles — estaremos privados de fontes de
grande felicidade e enriquecimento. O mundo seria demasiadamente grande. Ao mesmo tempo ela inter-
aos nossos olhos um lugar muito mais pobre se não naliza esta atitude adulta hostil e colérica. De tais
tivéssemos oportunidade para compreender que a experiências, um genitor excessivamente rigoroso,
grandeza existe e continuará a existir no futuro. Tal ou um genitor carente de compreensão e amor, por
admiração também desperta algo em nós e aumenta identificação influencia a formação do caráter da
criança e pode conduzi-la a repetir na vida ulterior
indiretamente nossa crença em nós. Essa é uma das
aquilo que êle próprio sofreu. Um pai, por conse-
muitas maneiras pela qual as identificações prove-
guinte, algumas vezes emprega os mesmos métodos
nientes da infância se tornam parte importante de
erróneos com os filhos que seu pai utilizou em re-
nossa personalidade.
lação a êle. Por outro lado, a rebelião contra os
A capacidade de admirar as realizações de outra erros experimentados na infância podem conduzir à
pessoa é um dos fatôres que torna o trabalho em equi- reação oposta de fazer tudo diferentemente do modo
pe bem sucedido. Se a inveja não fôr grande em pelo qual os genitores fizeram. Isto conduziria ao
demasia, podemos ter prazer e orgulho em trabalhar outro extremo, por exemplo à super indulgência com
com pessoas que às vezes superam nossas capaci- a criança, a que já me referi anteriormente. Ter
dades, pois nos identificamos com esses membros aprendido de nossas experiências na infância e, por-
proeminentes da equipe. tanto, ser mais compreensivo e tolerante para com
O problema de identificação é, contudo, mui- nossos filhos, bem como no tocante a pessoas fora
to complexo. Quando Freud descobriu o superego, do círculo familiar, é um sinal de maturidade e de
considerou-o como parte da estrutura mental deriva- desenvolvimento sadio. A tolerância, porém, não sig-
da da influência dos pais sobre a criança — uma nifica ser cego às faltas dos outros. Significa reco-
influência que faz parte das atitudes fundamentais nhecer tais faltas e, não obstante, não perder a ca-
da criança. Meu trabalho com crianças de tenra ida- pacidade de cooperar com pessoas ou mesmo de ex-
de mostrou-me que mesmo da tenra infância em perimentar amor por algumas delas.
diante, a mãe, e logo outras pessoas no ambiente da
criança, se incorporam ao eu, e isto constitui a base Ao descrever o desenvolvimento da criança, res-
de múltiplas identificações, favoráveis e desfavorá- saltei de forma particular a importância da voraci-
veis. Apresentei acima exemplos de identificações dade. Consideremos agora qual o papel que a vora-
que são úteis tanto para a criança como para o adul- cidade desempenha na formação do caráter e o quan-
to. A influência vital, no entanto, do ambiente pri- to ela influencia as atitudes do adulto. Pode-se obser-
mitivo exerce também o efeito de que os aspectos var facilmente o papel da voracidade como um ele-
desfavoráveis das atitudes do adulto com a criança mento bastante destrutivo da vida social. A pessoa
são prejudiciais ao seu desenvolvimento porque in- voraz quer cada vez mais, mesmo à custa de qualquer
citam nela o ódio e a rebelião ou uma submissão outra pessoa. Ela realmente não tem consideração
nem generosidade com os outros. Não me refiro aqui
24
25
apenas aos bens materiais mas também ao status Quando a voracidade e a inveja não são exces-
e ao prestígio. sivas, mesmo uma pessoa ambiciosa encontra satis-
O indivíduo muito voraz está sujeito a ser am- fação em ajudar os outros a realizarem sua tarefa.
bicioso. O papel da ambição tanto em seus aspectos Temos aqui uma das atitudes subjacentes à lideran-
úteis como nos perturbadores revela-se onde quer ça verdadeira. Aliás, até certo ponto, isto já é obser-
que observemos o comportamento humano. Não res- vável entre as crianças pequenas. Uma criança maior
pode orgulhar-se das realizações de um irmão ou ir-
ta dúvida que a ambição dá ímpeto à realização mas,
mã menor e tudo fazer para ajudá-los. Algumas
se ela se torna a principal força propulsora, a coope-
crianças chegam mesmo a exercer um efeito integra-
ração com os outros fica em perigo. A pessoa alta- dor sobre toda a vida familiar; sendo predominante-
mente ambiciosa, apesar de todos os seus êxitos, per- mente amistosas e prestativas melhoram a atmosfera
manece sempre insatisfeita, da mesma forma que o familiar. Tenho observado que mães que eram mui-
bebé voraz nunca fica satisfeito. Conhecemos bem o to impacientes e intolerantes diante de dificuldades
tipo da figura pública que, cada vez mais faminto melhoraram pela influência de uma criança assim.
de êxito, nunca parece estar contente com o que al- O mesmo se aplica à vida escolar, em que algumas
cançou. Uma característica desta atitude — na qual vezes apenas uma ou duas crianças exercem efeito
a inveja também desempenha importante papel — benéfico sobre a atitude de todas as outras por uma
é a incapacidade de permitir a outros que se desta- espécie de liderança moral que se baseia numa rela-
quem suficientemente. Pode-se-lhes permitir que de- ção amistosa e cooperante com outras crianças sem
sempenhem um papel secundário enquanto não qualquer tentativa de fazê-las sentir-se inferiores.
ameaçarem a supremacia da pessoa ambiciosa. Veri-
Voltando à liderança: se o líder — e isso pode
ficamos igualmente que tais pessoas não conseguem
também aplicar-se a qualquer membro de um gru-
e não estão dispostas a estimular nem a encorajar po — desconfia de que é objeto de ódio, todas as suas
pessoas mais jovens, porque algumas delas poderiam atitudes anti-sociais aumentam com esse sentimento.
tornar-se seus sucessores. Um motivo da falta de sa- Verificamos que a pessoa que é incapaz de suportar
tisfação que tiram do êxito aparentemente grande críticas porque ferem de imediato sua ansiedade per-
resulta do fato de que o interesse delas não se de- secutória é não somente presa de sofrimento como
dica tanto ao setor no qual trabalham como ao seu também apresenta dificuldades em relação a outras
prestígio pessoal. Essa descrição implica a vincula- pessoas e podem até mesmo pôr em perigo a causa
ção entre a voracidade e a inveja. O rival não é ape- pela qual trabalham em qualquer condição social;
nas encarado como aquele que roubou e privou al- mostrará incapacidade de corrigir erros e de apren-
guém de sua posição ou posses, mas também como o der com os outros.
possuidor de valiosas qualidades que incitam a in- Se encaramos nosso mundo adulto do ponto de
veja e o desejo de destrui-las. vista de suas raízes na infância, ganhamos uma visão

26 27
interior (insight) da maneira pela qual nossa men- lidades despertam nos outros uma imagem daquilo
te, nossos hábitos e nossos conceitos se estruturaram que eles poderiam chegar a ser ou talvez mesmo ve-
a partir das fantasias e emoções da mais tenra in- nham a ser. Tais personalidades lhes dão certa es-
fância até as manifestações adultas mais complexas perança a respeito do mundo em geral e uma con-
e elaboradas. Há mais uma conclusão a ser inferida, fiança maior na bondade.
ou seja, de que nada que alguma vez existiu no in- Concluí este trabalho examinando a importância
consciente não perde inteiramente sua influência so- do caráter, de vez que, a meu ver, o caráter é o
bre a personalidade. fundamento de toda realização humana. O efeito de
Outro aspecto do desenvolvimento da criança a um bom caráter sobre os outros constitui a base do
ser examinado é a formação de seu caráter. Apresen- desenvolvimento social sadio.
tei alguns exemplos de como os impulsos destruti-
vos, a inveja e a voracidade, e as resultantes ansie-
dades persecutórias, perturbam o equilíbrio emocio- Pós-Escriío
nal da criança e suas relações sociais. Referi-me tam-
bém aos aspectos benéficos de um desenvolvimento Quando discuti minhas opiniões sobre o desen-
oposto e tentei mostrar como eles se originam. Expe- volvimento do caráter com um antropólogo, êle con-
rimentei comunicar a importância da interação en- testou meu presuposto de um fundamento geral para
tre os fatôres inatos e a influência do meio. Ao atri- o desenvolvimento do caráter. Citou sua experiência
buir importância plena a essa interação, alcançamos de que em seu campo de trabalho havia chegado a
uma compreensão mais profunda de como o caráter uma valorização completamente diferente do cará-
da criança se desenvolve. Sempre tem sido o aspecto ter. Por exemplo, tinha trabalhado em uma comuni-
mais importante do trabalho psicanalítico, no curso dade em que se considerava admirável enganar os
de uma análise satisfatória, que o caráter do paciente outros. Descreveu também, em resposta a algumas
sofra mudanças favoráveis. de minhas perguntas, que nessa comunidade se con-
siderava fraqueza demonstrar clemência com o
Uma consequência de um desenvolvimento equi-
adversário. Perguntei-lhe se não havia circunstâncias
librado é a integridade e a força do caráter. Tais qua-
em que se devesse mostrar clemência. Replicou-me
lidades têm um efeito de longo alcance tanto sobre
que se alguém pudesse se colocar atrás de uma mu-
a autoconfiança do indivíduo como sobre suas rela-
lher de maneira tal que até certo ponto permaneces-
ções com o mundo exterior. A influência de um cará-
se recoberto pela vida lhe seria poupada.
ter realmente sincero e genuíno sobre outras pes-
Em resposta a outras perguntas, disse-me êle que se
soas facilmente se observa. Mesmo aquelas que não
o inimigo conseguisse entrar na tenda de um homem,
possuem as mesmas qualidades se impressionam e
não seria morto; e que também havia segurança den-
não podem deixar de experimentar certo respeito
tro de um santuário.
pela integridade e pela sinceridade. É que tais qua-

28 29
O antropólogo concordou quando sugeri que a
tenda, a saia da mulher e o santuário eram símbolos
da mãe boa e protetora. Aceitou, também, minha in-
terpretação de que a proteção da mãe se estendia a
um irmão odiado — o homem oculto atrás da saia
da mulher — e que a proibição de matar alguém em
sua própria tenda se ligava às leis da hospitalidade.
Minha conclusão a respeito do último ponto é que, Capítulo Segundo
fundamentalmente, a hospitalidade se liga à vida fa-
miliar, à relação das crianças entre si, e principal- ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE
mente com a mãe. É que, como lembrei anterior- "A ORÉSTIA"
mente, a tenda representa a mãe que protege a fa-
mília.
A discussão que se segue baseia-se na famosa tra-
Cito este exemplo para lembrar possíveis vín- dução da Orésíia, de Gilbert Murray. O ângulo prin-
culos entre culturas que parecem inteiramente dife- cipal de que tenciono considerar essa trilogia é o da
rentes e indicar que tais vínculos se encontram na re- multiplicidade de papéis simbólicos em que as per-
lação com o objeto bom primitivo, a mãe, quaisquer sonagens aparecem.
que sejam as formas de distorções de caráter que se
aceitem e mesmo se admirem. Darei primeiro um esboço breve das três peças.
Na primeira, Agamênon, o herói, retorna triunfante,
depois do saque de Tróia. É recebido por Clitemnes-
BIBLIOGRAFIA tra, sua esposa, com falso louvor e admiração, e ela
o persuade a entrar em casa caminhando sobre sun-
1. ISAACS, S. "The Nature and Functions of Phantasy". In tuoso tapete. Há certos indícios de que ela se utilizou
Klein, M., Heimann, P. Isaacs, S., e Riviere, J. Developments in
Psyeho-Analysis, Londres: Hogarth Press, 1952. (Trad. brasil.) da mesma tapeçaria ulteriormente para prender Aga-
2. KLEIN, M. Envy anã Gr atitude. Londres: Tavistock Publica- mênon no banho e torná-lo inerme. Ela o mata com
tions, 1957; Nova York: Basic Books. (Trad. brasil.)
sua acha-de-armas e comparece diante dos Anciãos
num estado de grande triunfo. Justifica seu crime
alegando vingança pela imolação de Ifigênia. É que
Ifigênia tinha sido sacrificada por ordem de Aga-
mênon com a finalidade de conseguir ventos favorá-
veis na viagem para Tróia.
A vingança de Clitemnestra contra Agamênon,
contudo, não tem causa apenas no pesar pela filha.
Durante a ausência do marido, aceita como amante,
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um inimigo figadal dele, e se defronta, por conse- to chega sozinho e desarmado, e Orestes o mata.
guinte, com o temor da vingança de Agamênon. É Uma escrava informa a Clitemnestra a morte de
claro que ou Clitemnestra e o amante serão mortos, Egisto e esta, sente-se em perigo e pede a sua acha-
ou ela terá que matar o marido. Acima e além de de-armas. Orestes realmente ameaça matá-la; ao in-
tais motivos, ela dá a impressão de odiá-lo profun- vés, no entanto, de lutar com êle, suplica-lhe que
damente, o que se evidencia de modo manifesto quan- lhe poupe a vida. Ela também o adverte que as Erí-
do ela fala aos Anciãos e proclama seu triunfo pela nias o puniriam. A despeito de tais advertências, êle
morte dele. A esses sentimentos logo se segue a de- mata a mãe, e as Erínias imediatamente lhe apa-
pressão. Ela admoesta Egisto, que quer imediata- recem.
mente suprimir, pela violência, a oposição entre os Decorrem anos até que a terceira peça (As Eu-
Anciãos, e lhe suplica: "não nos manchemos de san- mênicíes) inicia — anos em que Orestes é perseguido
gue". pelas Erínias e distanciado do lar e do trono do pai.
A parte seguinte da trilogia, As Coéforas, refere- Tenta alcançar Delfos, onde espera ser perdoado.
se a Orestes, desterrado pela mãe quando criança de Apolo o aconselha a apelar para Atena, que simbo-
tenra idade. Êle se encontra com Electra na pira fu- liza a justiça e a sabedoria. Atena forma um tribu-
nerária do pai de ambos. Electra, que arde de hosti- nal para que convoca os homens mais sábios de
lidades contra a mãe, viera acompanhada das es- Atenas e diante dele depõem Apolo, Orestes e as
cravas, por ordens de Clitemnestra, após um sonho Erínias. Os votos a favor e contra Orestes se igua-
muito assustador, fazer libações sobre o túmulo de lam, e Atena, que detém o voto decisivo, concede o
Agamênon. É a porta-voz do coro de libações que perdão a Orestes. No curso do processo, as Erínias
sugere a Electra e Orestes que uma vingança com- sustentam obstinadamente que Orestes deve ser cas-
pleta seria a morte tanto de Clitemnestra como de tigado e que não vão abandonar sua presa. Atena,
Egisto. Tais palavras só fazem confirmar em Ores- no entanto, promete-lhes que partilhará com elas seu
tes a ordem que lhe fora dada pelo Oráculo de Del- poder sobre Atenas e que elas serão para sempre
fos — ordem que, em última instância, provinha do guardiãs da ordem e da lei e, corno tcil, serão honra-
próprio Apolo. das e amadas. Tais promessas e argumentos produ-
Orestes se disfarça de mercador itinerante e, zem uma transformação nas Erínias, que se trans-
acompanhado por seu amigo Pílades, chega ao Palá- formam nas Eumênides, as "bondosas". Concordam
cio, onde, admitindo não ser reconhecido, contra a que Orestes seja perdoado, e êle retorna a sua cidade
Clitemnestra que Orestes morrera. Clitemnestra ma- natal para se tornar o sucessor do pai.
nifesta seu pesar. De que não está plenamente con- Antes de tentar examinar aqueles aspectos da
vencida, no entanto, se revela no seu mandar chamar Oréstia, que apresentam um interesse especial para
Egisto com o aviso de que venha com seus lanceiros. mim, desejo reexpor algumas de minhas verificações
A porta-voz das escravas omite essa mensagem. Egis- sobre o desenvolvimento primitivo. Na análise de
32 33
crianças de tenra idade, descobri um superego im- destrutivos (cuja projeção origina os objetos per-
plável e perseguidor, de par com a relação com os ge- secutórios) e uma divisão da figura da mãe numa par-
nitores amados e mesmo idealizados. Retrospecti- te muito má e numa idealizada boa. Há inúmeros ou-
vamente, descobri que durante os três primeiros me- tros processos de divisão, tais como a fragmentação
ses, em que os impulsos destrutivos, a projeção e a e uma forte tendência a relegar as figuras terrorífi-
divisão chegam ao seu máximo, figuras terroríficas cas para as camadas profundas do inconsciente. 3
e perseguidoras fazem parte da vida emocional da Dentre os mecanismos em sua plenitude durante esse
criança. Em primeiro lugar, elas representam os as- estágio, está a negação de todas as situações assusta-
pectos terroríficos da mãe e ameaçam a criancinha doras; isto se prende à idealização. Desse estágio
com todos os males que ela, nos momentos de ódio e mais primitivo em diante, tais processos se reforçam
de raiva, dirije contra seu objeto primário. Embora pelas experiências repetidas de frustração, que nun-
0 amor pela mãe contrabalance essas figuras, elas são, ca se podem evitar completamente.
não obstante, a de grandes ansiedades.1 Des- Faz parte da situação de ansiedade da crianci-
de o princípio, a introjeção e a projeção estão operan- nha o não conseguir expelir completamente as fi-
tes e constituem a base da internalização do objeto guras terrificantes. Além disso, a projeção do ódio
primeiro e fundamental, o seio da mãe e a mãe, tan- e dos impulsos destrutivos só tem êxito até certo pon-
to em seus aspectos terroríficos como nos bons. E é to, e a divisão entre a mãe amada e a odiada não se
essa internalização que representa o fundamento do mantém plenamente. A criancinha, portanto, não
superego. Tentei mostrar que mesmo a criança que consegue escapar inteiramente aos sentimentos de
estabelece uma relação amorosa com a mãe experi- culpa, embora nos estágios mais primitivos estes se-
menta também inconscientemente o terror de ser jam apenas fugazes.
devorada, despedaçada e destruída por ela.2 Seme- Todos esses processos se ligam à tendência da
lhantes ansiedades, conquanto modificadas pelo sen- criancinha para a formação de símbolos e fazem par-
timento crescente de realidade, perduram numa ex- te de sua vida de fantasia. Sob impacto da ansiedade,
tensão maior ou menor, através da primeira infância. da frustração e de sua limitada capacidade para ex-
As ansiedades persecutórias dessa natureza fa- pressar suas emoções em relação aos objetos amados,
zem parte da posição esquizoparanóide que caracteri- ela é impelida a transferir suas emoções e ansieda-
za os primeiros meses de vida. Inclue certo grau de des para os objetos que a cercam, ocorrendo essa
retraimento esquizóide; também intensos impulsos transferência, primeiramente tanto para as partes
1
do seu corpo como para partes do corpo da mãe.
Minhas primeiras descrições dessas ansiedades encontram-se Os conflitos que a criança experimenta desde o
em meu trabalho "Estágios Primitivos do Conflito Edípico"
(1928). nascimento se derivam da luta entre os instintos de
2
Tratei desse ponto mais amplamente e apresentei exemplos
de tais ansiedades em minha "Psicanálise de Crianças". (Trad. 3
Ver meu artigo "Sobre o Desenvolvimento do Funcionamen-
em português publicada pela Livraria Mestre Jou (1969). to Mental" (1958) Int. Jl. Psycho-Anal.
34 35
vida e os de morte que se expressam no conflito en- pais punidores e restritivos. Ulteriormente Freud
tre os impulsos amorosos e os destrutivos. Ambos aceitou minha ideia de que o ódio e a agressividade
assumem múltiplas formas e têm muitas ramifica- da criança projetados sobre os genitores desempe-
ções. Assim, por exemplo, o ressentimento reforça os nham um papel importante no desenvolvimento do
sentimentos de privação que nunca faltam na vida superego.
de qualquer criancinha. Enquanto que a capacidade Cheguei, no curso de meu trabalho, a ver mais
da mãe para alimentar constitue uma fonte de admi- claramente que uma consequência dos aspectos per-
ração, a inveja dessa capacidade representa um for- secutórios dos pais internalizados é a idealização de-
te estímulo para os impulsos destrutivos. É inerente les. Desde o nascimento, sob a influência do instinto
à inveja que ela vise espoliar e destruir a criativi- de vida, a criancinha também introjeta um objeto
dade da mãe, de que a criancinha, ao mesmo tempo, bom, e a pressão da ansiedade conduz à tendência a
depende; e esta dependência reforça o ódio e a inve- idealizar esse objeto. Isto vai repercutir sobre o de-
ja. Tão logo se inicia a relação com o pai, surge a
senvolvimento do superego. Lembramo-nos aqui da
admiração pela sua potência e força, o que de novo
opinião que Freud expressa em seu trabalho sobre o
conduz à inveja. As fantasias de inverter a situação
primitiva e de triunfar sobre os genitores são ele- "Humor", 4 que a atitude bondosa dos genitores se
mentos da vida emocional da criancinha. Os impul- assimila ao superego da criança.
sos sádicos oriundos de fontes orais, uretrais e anais Quando a ansiedade persecutória ainda está em
encontram expressão nesses sentimentos hostis dirigi- seu máximo, os sentimentos primitivos de culpa e
dos contra os pais, e por sua vez dão origem a uma de depressão são vividos, em certo grau como per-
perseguição maior e maior medo de retaliação por seguição. Gradativamente, com o fortalecimento
parte deles. crescente do ego, com a integração maior e o pro-
gresso na relação com objetos totais, a ansiedade per-
Verifiquei que os frequentes pesadelos e fobias secutória diminue de intensidade e predomina a an-
das criancinhas se originam do terror dos pais per- siedade depressiva. Uma integração maior implica
seguidores que, pela internalização, formam o núcleo em que o ódio é em certa medida mitigado pelo amor,
do superego impiedoso. É um fato curioso que as que a capacidade para amar ganha em intensidade,
crianças, a despeito do amor e da dedicação dos pais, e que a divisão entre objetos odiados e, por conse-
contenham figuras internalizadas ameaçadoras; como guinte, terroríficos e os objetos amados diminui. Os
já acentuei, encontro a explicação para esse fenóme- sentimentos de culpa transitórios, ligados à sensa-
no na projeção sobre os pais do próprio ódio da crian- ção de incapacidade para impedir que os impulsos
ça, aumentado pelo ressentimento por se encontrar destrutivos venham a danificar os objetos amados.
sob o poder dos genitores. Essa opinião, em certa épo- aumentam e se tornam mais penosos. Descrevi esse
ca, parecia contradizer o conceito de superego de
Freud, resultantes principalmente da introjeção dos * Standard Edition. Vol. XXI, pág. 116.

36 37
estágio como posição depressiva, e minha experiên- depressiva, embora nela predominem os sentimentos
cia psicanalítica com crianças e adultos veio a con- depressivos.
firmar minhas conclusões de que o elaborar a posi- As experiências de sofrimento, de depressão e de
ção depressiva se dá à custa de sentimentos bastan- culpa ligadas a um maior amor pelo objeto, estimu-
te penosos. Não me cabe examinar aqui as múltiplas lam uma tendência para a reparação. Essa tendência
defesas que o ego mais fortalecido desenvolve para diminui a ansiedade persecutória em relação ao obje-
fazer face à depressão e à culpa. to e torna-o, por conseguinte, mais digno de confian-
Nesse estágio, o superego funciona como a cons- ça. Todas essas modificações, que se expressam num
ciência; êle condena as tendências assassinas e des- sentimento de esperança, inevitavelmente se ligam
truidoras e reforça a necessidade que a criança tem a uma diminuição da severidade do superego.
de orientação e de certa restrição provindas dos pais Se a posição depressiva estiver sendo elaborada
concretos. O superego representa a base da lei moral satisfatoriamente — não só durante o seu clímax na
que é comum para a humanidade. Mesmo em adultos tenra infância mas através da meninice e da vida
adulta — o superego será vivido principalmente na
normais, no entanto, sob intensas pressões internas e
sua função de comandar e refrear os impulsos des-
externas, os impulsos expelidos do eu e as figuras trutivos e algo de sua severidade terá sido mitigado.
perigosas e persecutórias também expelidas ressur- Quando o superego não é excessivamente rígido, o
gem temporariamente e atingem o superego. As an- indivíduo se sente apoiado e ajudado por essa in-
siedades então experimentadas se assemelham aos fluência, de vez que ela lhe fortalece os impulsos
terrores da criancinha, se bem que se apresentem de amorosos e lhe estimula a tendência para reparação.
forma diferente. Um equivalente desse processo interno está no in-
Quanto mais pronunciada a neurose da criança, centivo dos genitores quando a criança revela ten-
menos capaz se mostrará de efetuar a transição para dências mais criadoras e construtivas e sua relação
a posição depressiva, e sua elaboração estará obstada com o ambiente melhora.
por uma vacilação entre a ansiedade persecutória e a Antes de retornar à Oréstia e às conclusões que
depressiva. Durante esse desenvolvimento primitivo pretendo extrair dela no que diz respeito à vida men-
poderá ocorrer uma regressão à fase esquizoparanói- tal, gostaria de tratar do conceito helénico de Hubris.
de, se bem que um ego mais fortalecido e uma capa- Na definição de Gilbert Murray, "o pecado típico
cidade maior de suportar o sofrimento redundem que todas as criaturas, enquanto viverem, cometem
numa melhor percepção (insight) da realidade psí- é, em linguagem poética, Hubris, palavra em geral
quica e lhe permitam elaborar a posição depressiva. traduzida por 'insolência' ou 'orgulho'... Hubris
Isto não significa, conforme acentuei, que nessa fa- agarra vorazmente, arrebenta grilhões e desafia a
se ela não experimente ansiedade persecutória. De ordem; sua consequência é Dike, a Justiça, a que re-
fato, a ansiedade persecutória faz parte da posição faz. Esse ritmo — Hubris-Dike, o Orgulho e a Queda,

38 39
o Pecado e a Punição — constitui o refrão mais co- O triunfo sobre os demais, o ódio, o desejo de
mum daqueles poemas filosóficos que caracterizam destruir a outrem, de os humilhar, o prazer na sua
a tragédia grega.. ." destruição porque foram invejados, todas essas emo-
A meu ver, a razão por que o Hubris parece algo ções primitivas, primeiro experimentadas em rela-
tão pecaminoso é que se baseia em determinadas ção aos genitores e irmãos fazem parte do hubris.
emoções experimentadas como perigosas para os ou- Toda criança experimenta às vezes certa inveja e
tros e para o eu. Uma das mais importantes de tais deseja possuir os atributos e as capacidades, primei-
emoções é a voracidade, primeiramente experimenta- ro, da mãe, e, a seguir, do pai. A inveja está prima-
da em relação à mãe; ela se acompanha da expectati- cialmente voltada contra o seio da mãe e o alimento
va de ser punida pela mãe que foi explorada. A vora- que ela pode produzir, em realidade contra a sua
cidade se liga ao conceito de moira, exposto na In- criatividade. Um dos efeitos da inveja intensa é o
trodução de Gilbert Murray. A moira representa o desejo de inverter a situação, de tornar os genitores
quinhão atribuído pelos deuses a cada homem. Quan- inermes e infantis e desfrutar um prazer sádico des-
do a moira é infringida, segue-se o castigo dos deu- sa inversão. Quando a criancinha teme ser domina-
ses. O medo de tal punição remonta ao fato de que a da por esses impulsos hostis e destrói em sua mente
voracidade e a inveja são, primeiramente, experimen- a bondade e o amor da mãe, ela se sente não só per-
tadas em relação à mãe, vivida agora como tendo si- seguida por esta, mas também culpada e despojada
de objetos bons. Uma das razões por que tais fanta-
do danificada por essas emoções e que pela proje-
sias exercem semelhante impacto sobre a vida emo-
ção se transforma na mente da criança numa fi-
cional é que são vividas como onipotentes. Em ou-
gura voraz e ressentida. Ela se torna, por conseguin- tras palavras, na mente da criancinha, aquelas tive-
te, temida como fonte de punição, o protótipo de ram efeito concreto ou podem ter, e ela se sente
Deus. Qualquer excesso de moira é também vivido responsável por todos os transtornos ou males que
como intimamente ligado à inveja dos bens de ou- recaiam sobre seus pais. Isto conduz a um temor
tros; como sequela, por projeção, levanta-se o medo constante de perda que aumenta a ansiedade perse-
persecutório de que outros invejarão e vão destruir cutória e constitui a base do medo de punição pelo
as realizações ou posses. hubris.

" . . . E poucos homens amarão sem ter inveja Ulteriormente, a rivalidade e a ambição, compo-
nentes do hubris, podem se tornar em profundos mo-
Ao amigo que viu prosperar em seus bens.
tivos de culpa, se a inveja e a destrutividade nelas
Pois se penetra esse veneno a sua mente predominam. Semelhante culpa pode ser sobrepujada
Duplo e pesado é o sofrimento que ela sente: pela negação, mas por trás desta as reprimendas
— Pensar a chaga do seu próprio coração oriundas do superego continuam presentes. Acredito
E ver o alheio bem como uma maldição." que os processos descritos sejam a razão por que o
40 41
hubris constitui um sentimento tão acentuadamente seu mundo. Durante inúmeras sessões restava, em
proibido e punido na tradição helénica. geral, um único sobrevivente — êle próprio — e a
A ansiedade infantil de que triunfar sobre os consequência do "desastre" era um sentimento de
outros, e lhes destruir as capacidades os torna inve- solidão, a ansiedade e um anseio pelo retorno do
josos e perigosos apresenta importantes consequên- objeto bom.
cias na vida ulterior. Determinadas pessoas tentam Outro exemplo provém da análise de um adulto.
livrar-se dessa ansiedade inibindo seus dotes: Freud Um paciente que durante toda a vida havia restrin-
descreveu um tipo de indivíduo que não pode supor- gido sua ambição e seu desejo de ser superior aos
tar o êxito de vez que este lhe desperta culpa, e vin- outros, e não fora, por conseguinte, capaz de desen-
culou essa culpa, principalmente, com o complexo volver de maneira adequada seus dons, sonhou que
de Édipo5. A meu ver, tais pessoas acreditavam ori- estava de pé ao lado do mastro de uma bandeira,
ginariamente eclipsar e destruir a fertilidade da mãe. cercado de crianças. Êle era o único adulto. As crian-
Certos sentimentos desses se transferem para os pais ças tentavam, cada uma por sua vez, galgar o alto
e irmãos, e ulteriormente para outras pessoas cuja
do mastro, mas não o conseguiam. No sonho êle pen-
inveja e ódio então se temem; a culpa consequente
pode levar a fortes inibições do talento e das poten- sou que se tentasse subir e também fracassasse, isso
cialidades. Há uma afirmação apropriada, feita por iria divertir as crianças. Não obstante, contra a sua
Clitemnestra, que sintetiza esse medo: "Quem teme vontade, realizou o feito, e se encontrou no topo.
a inveja, teme ser grande". Este sonho confirmou e fortaleceu sua percep-
Tentarei agora consubstanciar minhas conclu- ção (insight), originária de material anterior, de que
sões com alguns exemplos da análise de crianças de sua ambição e rivalidade eram bem maiores e mais
tenra idade. Quando uma criança no brinquedo ex- destrutivas do que anteriormente se havia permi-
pressa sua rivalidade com o pai, fazendo um tren- tido reconhecer. No sonho êle tinha depreciativa-
zinho mover-se mais depressa que um grande ou mente transformado os pais, a analista e todos os
mostra que o trenzinho ataca o grande, a consequên- rivais em potencial em crianças incompetentes e
cia é amiúde um sentimento de perseguição e de desvalidas. Apenas êle era o adulto. Ao mesmo tem-
culpa. Em A Marrative of a Child Analysis, descrevi po, tentara impedir-se de ter êxito, porque este sig-
como toda sessão durante algum tempo terminava nificaria ferir e humilhar as pessoas que êle também
com o que o menino chamava de um "desastre" e amava e respeitava e que ficariam transformadas em
que consistia em que todos os brinquedos eram der- perseguidores invejosos e temíveis — as crianças que
rubados. Simbolicamente, isso significa para a crian- iriam se divertir com o seu fracasso. Como o sonho
ça que ela havia sido forte bastante para destruir demonstrou, no entanto, falhou a tentativa de inibir
os seus dons. Êle alcançou o topo e ficou apreensivo
5
"Some Character Types Met With in Psycho-Analytic Work" quanto às consequências.
(1916).

42 43
Na Oréstia, Agamênon revela o hubris em toda pois de suas vitórias. Agamênon, ao referir seus
a plenitude. Não experimenta a menor simpatia pelo triunfos e a destruição de Tróia, não parece digno de
povo de Tróia a quem êle destrói, e parece achar que amor, nem capaz de amar. Cito Esquilo de novo:
era seu direito fazê-lo. Apenas quando fala a Clitem-
nestra sobre Cassandra, refere-se êle ao preceito de "Eis aí o pecado.
que o conquistador devia mostrar clemência com os Visivelmente o Orgulho o seu retorno gera
vencidos. De vez, no entanto, que Cassandra era Aos orgulhosos: pois crescendo suas casas
obviamente sua amante, não é só compaixão o que Com a riqueza feliz, respiram ódio e sangue."
expressa, mas também o desejo de preservá-la para
seu deleite. Ao lado disso, fica evidente o quanto se Sua destrutividade irreprimível e a glorificação
orgulha da terrível destruição que espalha. A pro- do poder e da crueldade mostram, a meu ver, uma
longada guerra, porém, que sustenta também signi- regressão. Na tenra idade, a criancinha — principal-
fica sofrimento para o povo de Argos, de vez que mente o menino — não só admira a bondade como
muitas mulheres ficam viúvas e inúmeras mães pran- o poder e a crueldade e atribui essas características
teiam seus filhos; sua própria família sofre por ficar ao pai potente com quem se identifica mas a quem,
abandonada durante dez anos. Assim, em última ins- ao mesmo tempo, teme. No adulto, a regressão pode
tância, algo da destruição de que tanto se orgulha reviver essa atitude infantil e enfraquecer a com-
quando retorna, se abate sobre o povo em relação paixão.
a quem êle supunha ter algum amor. Sua destrutivi- Considerando o hubris excessivo que Agamênon
dade, alcançando aqueles que lhe eram mais próxi- demonstra, Clitemnestra é, em certo sentido, o ins-
mos, poderia ser interpretada como dirigida contra os trumento de justiça, o dike. Numa passagem bastan-
seus objetos amados primitivos. A razão ostensiva te reveladora no Agamênon, ela descreve para os An-
para perpetrar todos aqueles crimes era vingar a ciãos, antes que o marido chegue, sua visão dos so-
ofensa contra seu irmão e ajudá-lo a reaver Helena. frimentos do povo de Tróia, e o faz com simpatia e
Esquilo torna claro, no entanto, que Agamênon foi sem palavra alguma de admiração pelos feitos de
igualmente impelido pela ambição, e ao se ver acla- Agamênon. Ao revés, no momento em que ela o
mado "Rei dos Reis" satisfazia seu hubris. assassina, o hubris domina seus sentimentos e não
Seus êxitos, entretanto, não satisfizeram apenas revela sinais de remorso. Quando de novo se dirige
seu hubris; aumentaram-no e acarretaram um en- aos Anciãos, mostra~se orgulhosa do assassinato co-
durecimento e deterioração do seu caráter. Entreve- metido e exultante por isso. Dá apoio a Egisto na
mos que a Sentinela lhe foi dedicada, que os mem- usurpação dos poderes reais de Agamênon.
bros de sua casa e os Anciãos o amavam, e que seus O hubris de Agamênon segue-se assim do dike
súditos ansiavam por seu retorno. Isso indicaria que e este por sua vez, do hubris de Clitemnestra, que
no passado êle teria sido mais humano do que de- de novo é punido pelo dike, representado por Crestes.

44 45
Gostaria de expor algumas ideias a respeito da confortá-lo, afirmando que êle fizera justiça com o
mudança de atitude de Agamênon em relação a seus seu feito e que havia restaurado a ordem. O fato de
súditos e a sua família em consequência do êxito de ninguém, exceto Orestes, poder ver as Fúrias, reve-
suas campanhas. Como já mencionei anteriormente, la que semelhante situação persecutória era interna.
é impressionante a sua falta de simpatia pelos sofri- Como sabemos, ao assassinar a mãe, Orestes obe-
mentos que com aquela guerra prolongada infligia dece ao comando de Apolo recebido em Delfos. A
ao povo de Argos. Êle se atemoriza, no entanto, dian- isto também se pode considerar como parte de sua
te dos deuses, e do castigo iminente, e por isso só a
situação interna. Apolo, sob certo aspecto, representa
contragosto concorda em entrar em casa caminhan-
aqui a crueldade e os impulsos de vingança de Ores-
do pelos belos tapetes que as servas de Clitemnestra
tes, e assim percebemos os sentimentos de destrutivi-
haviam estendido para êle. Quando alega que se pre-
cisa cuidar de não atrair a cólera dos deuses, êle ape- dade de Orestes. Os elementos principais no entanto,
nas expressa sua ansiedade perseutória e não a que o hubris encerra, tais como a inveja e a neces-
culpa. Talvez a regressão que antes mencionei foi sidade de triunfar, não parecem dominantes nele.
possível porque a bondade e a compreensão nunca se É significativo que Orestes intensamente se com-
estabeleceram suficientemente como elementos do padeça da abandonada, infeliz e fúnebre Electra. A
seu caráter. destrutividade dele fora estimulada pelo ressenti-
mento contra a mãe que o abandonou. Esta o havia
Ao contrário, Orestes fica presa de sentimentos desterrado para junto de estranhos; em outras pala-
de culpa tão logo perpetra o assassinato da mãe. Essa vras, dera-lhe muito pouco amor. O motivo primário
a razão que me leva a crer que no fim, Atena con- para o ódio de Electra foi que, na aparência, ela não
segue ajudá-lo. Embora êle não sinta culpa alguma se sentiu suficientemente amada pela mãe e que seu
pelo assassinato de Egisto, vive sério conflito por anseio de receber dela amor tinha sido frustrado. O
haver matado a mãe. Seus motivos para assim proce- ódio de Electra contra a mãe — embora intensificado
der foram o comando recebido e também seu amor pelo assassinato de Agamênon —• se compõe também
pelo pai morto, com quem se identifica. Quase nada da rivalidade da filha com a mãe, que culmina em
há que demonstre a necessidade de triunfar sobre a não poder ter seus desejos sexuais gratificados pelo
mãe. Isso indicaria que o hubris e concomitantes não pai. Tais perturbações primitivas da relação da meni-
seriam excessivos nele. Sabemos que, em parte a in- na com a mãe constituem um fator importante no
fluência de Electra e a ordem de Apolo o levaram a desenvolvimento de seu complexo de Édipo6.
perpetrar o assassinato da mãe. Imediatamente de-
pois de matá-la, surgem-lhe o remorso e o horror de Outro aspecto do complexo de Édipo se revela
si próprio, simbolizados pelas Fúrias que logo o ata- na hostilidade entre Cassandra e Clitemnestra. Tal
cam. A porta-voz das escravas, que tanto o encora- rivalidade direta no tocante a Agamênon ilustra uma
jou a matar a mãe, e que não via as Fúrias, tenta
s Cf. The Psycho-Analysis of Children, Capítulo XI.

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na, ou seja, que certos sinais do complexo de Édipo
característica da relação filha e mãe — a rivalidade
positivos não estão inteiramente ausentes.
de duas mulheres pela gratificação sexual com o mes-
A boa e prestimosa Atena não nasceu de mãe,
mo homem. Como Cassandra tinha sido amante de
tendo sido gerada por Zeus. Ela não revela hostili-
Agamênon, ela podia também se sentir como a filha
dade contra as mulheres, mas gostaria de lembrar
que na realidade, havia tirado o pai da mãe e espera,
que semelhante ausência de rivalidade e de ódio re-
por conseguinte, o castigo desta. Faz parte da situação
vela certa conexão com o ter ela se apropriado do
edipiana que a mãe reaja — ou pareça que reaja —
pai; este lhe retribui a dedicação, de vez que, ela
com ódio aos desejos edípicos da filha.
detém uma situação especial dentre todos os deuses
Se consideramos a atitude de Apolo, percebemos e é conhecida como a favorita de Zeus. Sua total sub-
indícios de que sua obediência cega a Zeus se liga a missão e dedicação a Zeus se podem considerar como
seu ódio às mulheres e ao seu complexo de Édipo expressão do seu complexo de Édipo. Sua aparente
invertido. As passagens que se seguem são caracterís- isenção de conflito se poderia atribuir a ter ela orien-
ticas de seu menosprezo pela fertilidade das mu- tado o seu amor inteiramente apenas para um objeto.
lheres:
O complexo de Édipo de Orestes também se po-
de deduzir de vários trechos da Trilogia. Êle acusa
"Não é rebento de um escuro ventre, a mãe de tê-lo abandonado e exprime seu ressenti-
Mas vida a florescer que deusa alguma mento contra ela. Apesar disso, há indícios de que
Gerou j a m a i s . . . " (referindo-se a Atena) sua relação com a mãe não foi inteiramente negati-
va. As libações que Clitemnestra manda fazer a Aga-
"Essa, que os homens dizem mãe por dar à luz, mênon são obviamente valorizadas por Orestes de
Essa não gera a vida; essa é a nutriz, não mais, vez que acredita que estariam revivendo o pai. Quan-
Do gérmen a florescer. "O que espalha a semente do ela lhe lembra que o havia nutrido e amado, ainda
É o semeador, tão só, e apenas gera..." bebé, êle vacila em sua decisão de matá-la e se vol-
ta para o amigo Pílades em busca de conselho. Há
Seu ódio às mulheres também está na ordem de também sinais de seu ciúme que indicam uma re-
que Orestes deve matar a mãe, e na pertinácia com lação edipiana positiva. A tristeza de Clitemnestra
que persegue Cassandra, qualquer que tenha sido o pela morte de Egisto e seu amor por êle despertam
pecado dela relativo a êle. O fato de que êle era pro- a fúria de Orestes. É experiência frequente que o
míscuo não contradiz seu complexo de Édipo inver- ódio pelo pai na situação de Édipo pode se refletir
tido. Em contraposição, louva Atena, que mal possui para outra pessoa; por exemplo, o ódio de Hamlet
atributos propriamente femininos e se mostra bas- pelo tio7. Orestes idealiza o pai, e amiúde é mais fá-
tante identificada com o pai. Ao mesmo tempo, sua
7
admiração pela irmã mais velha pode também indi- Cf. Ernest Jones (1949), Hamlet anã Oeãipus, Victor
car uma atitude positiva em relação à figura mater- Gollancz, Tiondon.

49
48
cil refrear a rivalidade e o ódio em relação ao pai zado pela mudança de atitude de Orestes no Areó-
morto do que em relação ao que vive. Sua idealiza- pago — a culpa se torna predominante e diminui a
ção da grandeza de Agamênon — idealização que perseguição.
Electra também experimenta — leva-o a negar que A peça me faz crer que Orestes pode superar
Agamênon sacrificara Ifigênia e revelou extrema in- suas ansiedades persecutórias e elaborar a posição
sensibilidade pelos sofrimentos dos troianos. Admi- depressiva de vez que nunca abandona o anseio de
rando Agamênon, Orestes também se identifica com se purificar do seu crime e de retornar a seu povo,
o pai idealizado, e essa é a maneira pela qual o filho a quem êle, presumivelmente deseja governar de ma-
supera sua rivalidade pela grandeza do pai e sua neira benévola. Tais intenções indicam um impulso
inveja dele. Tais atitudes, fortalecidas tanto pelo para a reparação característica da superação da po-
abandono a que votou sua mãe como por haver ela sição depressiva. Sua relação com Electra que estimu-
assassinado a Agamênon, formam parte do complexo la sua compaixão e amor, o fato de que êle nunca
de Édipo invertido de Orestes. perde a esperança, a despeito do sofrimento e de to-
Mencionei acima que Orestes parecia relativa- da a sua atitude em relação aos deuses, em especial
mente isento de hubris e, a despeito de sua identifica- sua gratidão com Atena — tudo isso mostra que sua
ção com o pai, mais propenso a um sentimento de internalização de um objeto bom era relativamente
culpa. Seu sofrimento consequente ao assassinato de estável e havia uma base para o desenvolvimento
Clitemnestra, representa, a meu ver, a ansiedade per- normal. Só podemos admitir que no estágio mais pri-
secutória e os sentimentos de culpa que fazem parte mitivo, esses sentimentos, de alguma maneira, fize-
da posição depressiva. A interpretação parece indi- ram parte de sua relação com a mãe, de vez que,
car que Orestes apresentava uma doença maníaco- quando Clitemnestra lhe lembra,
depressiva — Gilbert Murray chama-o de louco —
em razão de seus sentimentos de culpa excessivos (re- "Ai, filho meu, não temes
presentados pelas Fúrias). Por outro lado, podemos Este seio golpear? Pois aqui não dormiste
supor que Esquilo mostra de forma exacerbada um E sugou tua boca o leite que te dei?"
aspecto de desenvolvimento normal. É que certos
traços que constituem a base da doença maníaco- decai a espada de Orestes e êle hesita. O calor que
depressiva não se vêem intensamente operantes em a nutriz lhe demonstra sugere o amor dado e recebi-
Orestes. A meu ver, êle revela o estado mental que do na meninice. A nutriz pode ter sido uma substitu-
acredito seja característico da transição entre a po- ta da mãe; mas até certa época essa relação amorosa
sição esquizoparanóide e a posição depressiva, está- deve igualmente ter-se referido à mãe. O sofrimento
gio em que a culpa fundamentalmente se experimen- mental e físico de Orestes, quando impelido de um
ta como perseguição. Quando se alcança e se elabora lugar para outro, constitui um quadro vívido dos
a posição depressiva — que na Trilogia está simboli- padecimentos experimentados quando a culpa e a
50 51
perseguição alcançam o seu máximo. As Fúrias que gurança e a alegria. O inimigo implacável é assim,
o perseguem são a personificação da consciência a corporificação de todos os males que a criancinha
acusadora e não as aplaca a circunstância de lhe ter receia como retaliação por seus impulsos destrutivos.
sido ordenado que perpetrasse o crime. Indiquei aci- Ocupei-me alhures 8 do medo excessivo da mor-
ma que quando Apolo deu a ordem êle representava te naqueles para quem a morte constitui uma per-
a crueldade de Orestes, e vista desse ângulo compre- seguição de inimigos internos e externos do mesmo
endemos por que as Fúrias não se abrandaram pelo modo que uma ameaça de destruição do objeto bom
fato de Apolo lhe ter imposto que cometesse o homi- internalizado. Se esse medo fôr muito intenso, êle vai
cídio; é que constitui uma característica do superego se estender a terrores que ameaçam no após-vida. No
implacável não perdoar a destrutividade. Hades, a vingança contra a ofensa sofrida antes de
A natureza, rígida do superego, e as ansiedades morrer é essencial para a paz depois da morte. Ores-
persecutórias que origina, encontram expressão, creio tes e Electra estão ambos convictos que o pai assas-
eu, no mito helénico de que o poder das Fúrias con- sinado os apoia na tarefa de vindita; e Orestes, ao
tinua mesmo após a morte. Isto se vê como uma for- descrever seu conflito diante do Areópago acentua
ma de punir o pecador e constitui um elemento co- que Apolo lhe vaticinou o castigo, caso não vingas-
mum à maioria das religiões. Nas Eumênides, diz se o pai. O fantasma de Clitemnestra, forçando as
Atena: Erínias a renovarem a perseguição a Orestes, quei-
xa-se do menosprezo a que se vê exposta no Hades
" . . . Mãos grandes e potentes, ó Erínias, porque seu assassino não foi castigado. Ela obvia-
Tendes nestas paragens mente se move pelo ódio pertinaz contra Orestes, e
Onde residem os mortos e imortais." poder-se-ia concluir que o ódio além-túmulo funda-
menta a necessidade de vingança após a morte. Tal-
As Fúrias também proclamam que vez seja também que o sentimento que se atribui aos
mortos, de serem menosprezados enquanto o assas-
"Até que eu morra, meu, Êle vagueia, sino deles continuar impune, se origina da descon-
Mas liberdade nunca mais terá fiança de que os descendentes não estariam se im-
Nem mesmo quando m o r t o . . . " portando bastante com eles.
Outra razão pela qual os mortos exigem vindita
Outro ponto peculiar às crenças helénicas é a parece indicada na Introdução em que Gilbert Mur-
necessidade de vingar os mortos se a morte foi vio- ray se refere à crença de que a Mãe-Terra está man-
lenta. Gostaria de lembrar que semelhante exigência chada com o sangue nela derramado e que ela e o
de vingança se origina das ansiedades persecutórias povo ctoniano (os mortos) dentro dela clamam por
primitivas que se exacerbam pelos desejos de morte 8
"On Identification" (em New Directions in Psyeho-Analysls),
da criança contra os genitores e lhe debilitam a se- e também o Capítulo Terceiro do presente volume, pág. 74.

52 53
vingança. Eu interpretaria o povo ctoniano como os cassa — e há muitas razões para isso — é que essa
bebés que a mãe não pôde ter, e que a criança teme, internalização não conseguiu êxito e as identifica-
com seu ciúme e fantasias hostis, haver destruído ções propícias foram prejudicadas. O apelo de Elec-
dentro da mãe. Um abundante material psicanalítico tra e de Orestes ao pai morto sob o túmulo para
mostra os profundos sentimentos de culpa por causa apoiá-los e fortalecê-los, corresponde ao desejo de
de um aborto da mãe ou do fato de ela não ter outro se reunir ao objeto bom perdido externamente pela
filho após o nascimento 9 da criança, e os temores de morte e que precisa ser restabelecido internamente.
que a mãe danificada se vingue. Semelhante objeto bom, cujo auxílio imploram, faz
Gilbert Murray, no entanto, fala também da parte do superego em seus aspectos orientadores e
Mãe-Terra como doadora de vida e de fecundidade benfazejos. Essa relação boa com o objeto interna-
ao inocente. Nesse aspecto, ela representa a mãe boa, lizado constitui a base para uma identificação que
nutrícia e amorosa. Há muitos anos, sustento que a se revela da maior importância para a estabilidade
divisão da mãe em boa e má, constitui um dos pro- do indivíduo.
cessos mais primitivos na relação com ela. A crença de que a libação "abre os lábios res-
O conceito helénico de que os mortos não desa- sequidos" do morto se origina, acredito, do sentimen-
parecem mas continuam uma espécie de existência to básico de que o leite da mãe proporciona ao bebé
obscura do Hades e exercem uma influência sobre um meio de manter vivo não só ao bebé como tam-
aqueles que permanecem vivos recorda a crença nos bém a seu objeto interno. De vez que a mãe inter-
fantasmas impelidos a perseguirem os vivos de vez nalizada (primeiramente o seio) se converte numa
que não logram encontrar paz enquanto não forem parte do ego da criança, e esta sente que sua vida
vingados. Devemos também ligar semelhante cren- está ligada à dela, sente também que, o leite, o amor
dice de que os mortos influenciam e controlam os vi- e o cuidado dispensados pela mãe externa à criança
vos ao conceito de que eles subsistem como objetos são, em certo sentido, benéficos para a mãe interna.
internalizados, experimentados, ao mesmo tempo, co- Isto igualmente se aplica a outros objetos internali-
mo mortos e ativos dentro do eu, de maneiras boas zados. À libação, ordenada na peça por Clitemnestra,
ou más. A relação com o objeto interno bom — em Electra e Orestes tomam-na como um sinal de que
primeiro lugar a mãe boa — subentende que êle é alimentando-lhes o pai internalizado, ela o revive, a
experimentado como propício e conselheiro. É prin- despeito de também haver sido uma mãe má.
cipalmente na perda e no processo do luto que o in- Descobrimos na psicanálise o sentimento de que
divíduo luta para preservar a relação boa que an- o objeto interno participa de qualquer prazer que o
teriormente existia e participar da força e do con- indivíduo experimente. Isso também constituo um
forto dessa companhia interna. Quando o luto fra- meio de reviver o objeto amado morto. A fantasia
9
de que o objeto internalizado morto mantém, quan-
Cf. Narrative of a Chila Anatysis, Hogarth Press, London, do amado, vida própria — benfazejo, consolador, con-
1960.

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selheiro — está em consonância com a convicção
de Orestes e Electra de que serão auxiliados pelo Tais figuras persecutórias também se personifi-
pai morto redivivo. cam nas Erínias. Na vida mental primitiva, mesmo
Lembrei que os mortos não vingados represen- normalmente, a divisão nunca se processa com pleno
tam os objetos mortos internalizados e se transfor- êxito e, por conseguinte, os objetos internos assus-
mam em figuras internalizadas ameaçadoras. Quei- tadores continuam atuantes até certo ponto. Ou seja,
xam-se do dano que o indivíduo com o seu ódio lhes a criança experimenta ansiedades psicóticas que va-
causou. Nas pessoas doentes, tais figuras terroríficas riam de grau conforme o indivíduo. Segundo a lei
fazem parte do superego e intimamente se ligam à taliônica que se baseia na projeção, a criança se tor-
crença no destino que impele para o mal e pune assim tura com o medo de que os pais lhe façam o que
o malfeitor. ela, na fantasia, fêz a eles; e isso deve representar
um estímulo para o reforço dos impulsos cruéis. Co-
mo se sente perseguida interna e externamente, é im-
" . . . Der kenní euch nicht, ihr himmlischen pelida a projetar o castigo para fora e, assim fazen-
[Machte. do, experimenta na realidade externa, suas ansie-
Ihr ftihrt ins Leben uns hinein, dades e temores internos de punição concreta. Quan-
Ihr lasst den Ârmen schuldig werden, to mais culpada e perseguida uma criança se sente —
Dann uberlasst ihr ihn der Pein; o que vale dizer, quanto mais doente estiver — mais
Denn alie Sclrald racht sieh auf Erden." agressiva amiúde ela se mostra. Devemos admitir
(Goethe, Harfenspieler) que processos similares estejam em ação no delin-
quente ou criminoso.
( " . . . Este vos desconhece, ó Potências celestes De vez que os impulsos destrutivos primacial-
Para dentro da vida elas nos conduziram, mente se dirigem contra os genitores, o pecado que
E os miseráveis mais culpados se sentiram, se experimenta como de maior gravidade é o assas-
Viram-se gente à própria dor abandonada; sinato dos pais. Isso claramente se expressa nas Eu-
E em torno a terra pelo ódio envenenada.") mêeides quando, após a intervenção de Atena, as
(Goethe, O Tocador de Harpa) 10 Erínias descrevem a situação de caos que iria surgir
10
se elas deixassem de agir como um obstáculo contra
Esse fragmento do poema de Goethe, bastante truncado na os pecados de matricídio e parricídio e de puni-los
citação do livro de Melanie Klein, e não acompanhado de tra-
dução para o inglês, foi aqui reposto para sua forma original quando ocorressem.
alemã, de acordo com a pág. 163 da antologia de Erwin Laaths
(Das Geãicht, Droemer, Múnchen, 1951) e traduzido para o
português. Nilo Aparecida Pinto, com sua delicada sensibilida- "Daí por diante há para os pais a insídia
de e inspiração, deu, a meu pedido, forma poética à tradução
que lhe apresentei •— não só dos versos de Goethe como de to- Que espreita, e a grande angústia; e às mãos do
dos os de Esquilo que aparecem no ensaio sobre a "Oréstia". [infante
(Nota da tradução).
A lâmina que o peito há de rasgar."
56
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Afirmei anteriormente que os impulsos cruéis e frustração, e a dor que esta lhe causa, reforça seus
destrutivos da criancinha originam o superego primi- impulsos destrutivos e a impele a intensificar suas
tivo e terrorífico. Há vários indícios acerca do modo fantasias agressivas.
pelo qual as Erínias realizam seus ataques: As cruéis Erínias, no entanto, também se ligam
a esse aspecto do superego formado de figuras danifi-
"Nutrindo-se de veias cadas e queixosas. Contam-nos que o sangue lhes caí
Teu próprio sangue generoso e rubro dos olhos e dos lábios, o que mostra que se sentem
Vossas crispadas bocas sugarão torturadas. A criancinha sente como vingativas e
Até que de amargura se alimente ameaçadoras essas figuras danificadas internalizadas
E de sangue o virtuoso coração; e tenta expulsá-las. Apesar disso, elas se imiscuem
Até que como os mortos arruinados em suas ansiedades primitivas e pesadelos e tomam
Eu te arremesse entre os assassinados..."1011 parte em todas as suas fobias. Porque Orestes inju-
riou e matou a mãe, ela se transformou num daqueles
As torturas com que as Erínias ameaçam Orestes objetos danificados cuja vindita a criança teme. Êle
são da natureza sádico-oral e anal mais primitiva. fala das Erínias como "cães danados" de sua mãe.
Ficamos sabendo que seu hálito é "como um fogo
Poderia parecer que Clitemnestra não se sente
lançado em todas as direções" e que de seus corpos
perseguida pelo superego, de vez que as Erínias não
emanam vapores venenosos. Alguns dos meios mais
a perseguem. Todavia, depois de seu discurso triun-
primitivos de destruição de que o bebé se vale, em
fante e exaltado, em seguida ao assassinato de Aga-
sua mente, são os ataques pelos flatos e pelas fezes
mênon, ela manifesta sinais de depressão e de culpa.
com que sente estar envenenando a mãe, assim como
Daí suas palavras: "Não nos manchemos de sangue."
queimando-a com urina — o fogo. Em consequên-
Experimenta, além disso, ansiedade persecutória que
cia, o superego primitivo ameaça-o com igual des-
claramente se vê no seu sonho com o monstro que
truição. Quando as Erínias temem que seu poder lhes
ela alimenta ao seio; este a morde com tamanha vio-
seja arrebatado por Atena, expressam sua cólera e
lência que sangue se mistura ao leite. Em consequên-
apreensão com as seguintes palavras: "Não se volta-
cia da ansiedade que se expressa no sonho, ela orde-
rá a injúria a mim feita sobre este povo, para esma-
na libações no túmulo de Agamênon. Por conseguin-
gá-lo? Não cairá sobre êle o veneno, este mesmo cuja
te, embora não seja perseguida pelas Erínias, não
dor me queima o coração?" Isto nos lembra a manei-
estão ausentes a ansiedade persecutória e a culpa.
ra pela qual o ressentimento da criança oriundo da
Outro aspecto das Erínias é que se apegam à
10a Essa descrição de sugar o sangue de vítima lembra a opi- sua mãe — a Noite — sua única protetora e para
nião de Abraham de que, a crueldade também faz parte da fa- ela reiteradamente apelam contra Apolo, o deus-sol,
se oral suctória; êle se referiu ao "sugar como um vampiro".
"A Short Study of Development of the Libido, Viewed in The o inimigo da noite, que deseja privá-las de seu poder
Light of Mental Disorders" (1924). Tradução brasileira — Teoria e por quem se sentem perseguidas. Deste ângulo
Psicanalítica da Libido, 1970 — IMAGO EDITORA LTDA.

58 59
chegamos a uma compreensão (insight) do papel que habitarão em Atenas. Minha suposição é que Ate-
o complexo de Édipo invertido desempenha mesmo na, representando aqui a mãe e agora partilhando
nas Erínias. Gostaria de lembrar que os impulsos des- com as filhas o amor dos homens, isto é, de figuras
trutivos em relação à mãe, em certa medida, se des- paternas, lhes ocasiona uma mudança em seus senti-
locam para o pai — para os homens em geral — e mentos e impulsos e no todo do caráter.
que a idealização da mãe e do complexo de Édipo Encarando a Trilogia como um todo, podemos
invertido apenas se podem manter por esse deslo- ver o superego representado por uma série de figuras.
camento. Elas estão particularmente voltadas para Por exemplo, Agamênon, quando se afigura redivivo
qualquer dano feito à mãe, e só parecem vingar o e apoiando os filhos, constitue um aspecto do su-
matricídio. Eis a razão por que não perseguem Cli- perego que se estruturou no amor e na admiração
temnestra, que assassinou o marido. Argumentam pelo pai. Descrevem-se as Erínias como pertencentes
que ela não matou um parente consanguíneo e, por- ao período dos antigos deuses, os Titãs, que reina-
tanto, semelhante crime não revelava importância vam de maneira bárbara e violenta. A meu ver, elas
suficiente para que elas a perseguissem. Acho que se ligam ao superego primitivo e inexorável e re-
existe uma grande dose de negação nesse argumento. presentam as figuras terroríficas resultantes princi-
O que se nega é que qualquer assassinato se origina, palmente da projeção que a criança faz de suas fan-
em última análise, dos sentimentos destrutivos con- tasias destrutivas sobre seus objetos. Elas, contudo
tra os pais e que nenhum homicídio se justifica. se mitigam — embora de uma maneira expelida —
É significativo que a influência de uma mulher pela relação com o objeto bom ou com o objeto idea-
— Atena — tenha ocasionado nas Erínias a mudan- lizado. Já indiquei que a relação da mãe com o filho
ça de um ódio implacável para sentimentos mais — e em grande parte a relação do pai com êle — é
brandos. Elas, contudo, não tiveram pai; ou antes, importante para o desenvolvimento do superego de
Zeus, que poderia ter-se-lhes afigurado corno um pai, vez que influe sobre a internalização dos pais. Em
voltou-se contra elas. Afirmam que por causa do ter- Orestes a internalização do pai, que se funda na
ror que difundem "e pelo ódio ao mundo que carre- admiração e no amor, revela-se da máxima signifi-
gamos, Deus nos arremessou fora de sua Morada." cação para suas ações futuras; o pai morto é parte
Apoio, cheio de desprezo, lhes diz que nem homem muito importante do superego de Orestes.
nem deus as beijou jamais. Quando, pela primeira vez, defini o conceito
Acredito que o complexo de Édipo invertido delas de posição depressiva, lembrei que os objetos danifi-
aumentou pela ausência de pai, ou por havê-las odia- cados internalizados se queixam e por isso fazem
do e negligenciado. Atena promete-lhes que serão parte dos sentimentos de culpa e, portanto, do su-
amadas e honradas pelos atenienses, ou seja, tanto perego. De acordo com os pontos de vista que de-
pelos homens quanto pelas mulheres. O Areópago, senvolvi ulteriormente, tais sentimentos de culpa —
integrado por homens, acompanha-as até o local que conquanto fugazes e ainda não configurando a posi-

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ção depressiva — são, em certa medida, ativos duran- mostrando-se ao mesmo tempo intimidado com suas
te a posição esquizoparanóide. Observa-se que há profecias. i
bebés que não mordem o seio, que mesmo se desma- Cassandra como um superego prediz o infortúnio
mam numa idade por volta dos quatro aos cinco me- vindouro e lembra que o castigo virá e o pesar há de
ses sem motivos externos, enquanto que outros, por surgir. Conhece de antemão, tanto o seu destino como
danificarem o seio, impossibilitam a mãe de alimen- a catástrofe geral que recairá sobre Agamênon e sua
tá-los. Tal impossibilidade, eu acredito, indica que o casa; mas ninguém dá ouvidos a seus augúrios, e tal
bebé tem uma percepção inconsciente do desejo de descrença é atribuída à maldição de Apolo. Os An-
infligir dano à mãe com sua voracidade. Em conse- ciãos, que revelam grande simpatia por Cassandra,
quência, o bebé sente que danificou a mãe e a es- em parte acreditam nela e no entanto, a despeito
vaziou, sugando-a vorazmente ou mordendo-a e por de perceberem a validade dos perigos que ela profeti-
conseguinte, em sua mente, êle contém a mãe ou o za para Agamênon, para si e para o povo de Argos,
seio numa condição deteriorada. Há evidência bas- negam suas profecias. Sua recusa em admitir o que
tante, alcançada retrospectivamente na psicanálise naquele momento já sabem expressa a tendência uni-
de crianças e mesmo na de adultos, da percepção versal para a negação. A negação é uma defesa po-
muito precoce da mãe como um objeto danificado, derosa contra a ansiedade persecutória e a culpa re-
internalizado e externo 11 . Gostaria de lembrar que sultantes de nunca se poder controlar completamen-
esse objeto danificado e queixoso é uma parte do te os impulsos destrutivos. A negação, que sempre
superego. se liga à ansiedade persecutória, pode sufocar os sen-
timentos de amor e a culpa, minar a simpatia e a es-
A relação com esse objeto danificado e amado tima tanto pelos objetos internos como externos e
compreende não apenas a culpa mas também a com- perturbar a capacidade de julgamento e o sentido de
paixão e constitui a fonte primeira de toda simpatia realidade.
pelos outros e da consideração por eles. Na Trilogia,
a infeliz Cassandra representa esse aspecto do su- Como sabemos, a negação é um mecanismo oni-
perego. Agamênon, que a infamou e a atira sob o po- presente e também muito utilizado como justificati-
der de Clitemnestra, experimenta compaixão e exor- va para a destrutividade. Clitemnestra justifica ter
ta Clitemnestra a ter comiseração por ela. (É o único assassinado o marido com o fato de que êle havia
momento em que êle revela compaixão.) O papel de imolado a filha e nega seus outros motivos para ma-
Cassandra como aspecto danificado do superego li- tá-lo. Agamênon, que destruiu até os templos dos
ga-se ao fato de ser famosa profetisa cuja principal deuses de Tróia, sentia-se justificado em sua cruel-
tarefa é anunciar presságios. O corifeu dos Anciãos dade por ter seu irmão perdido a esposa. Crestes tem
comove-se ante o destino dela e tenta confortá-la, toda razão, assim pensa, não só de matar o usurpador
Egisto, mas mesmo a própria mãe. A justificativa a
11 Cf. The Psycho-Analysis of Chilãren, Capítulo VIII. que me referi é uma parte da poderosa negação da
62 63
culpa e dos impulsos destrutivos. As pessoas com gundo nos contam, ali mora de geração em geração
maior percepção (insighí) dos seus processos inter- até que encontra o repouso quando Orestes é per-
nos e que, portanto, recorrem muito menos à ne- doado e regressa a Argos. A crença no demónio fa-
gação, mostram-se menos sujeitas a satisfazer seus miliar nasce de um círculo vicioso em consequên-
impulsos destrutivos; em consequência são também cia do ódio, da inveja e do ressentimento dirigidos
mais tolerantes em relação aos outros. contra o objeto; tais emoções aumentam a ansie-
Há outro ângulo significativo do qual se pode dade persecutória pela percepção do objeto atacado
considerar o papel de Cassandra como superego. No como retaliador e então surgem novos ataques a êle.
Agamênon ela se apresenta em estado de transe e, a Ou seja, a ansiedade persecutória aumenta a destru-
princípio, não consegue voltar a si. Recupera-se des- tividade e a destrutividade aumenta os sentimentos
se estado e diz claramente o que estivera tentando de perseguição.
comunicar antes de maneira confusa. Cumpre-nos Interessa notar que o demónio, exercendo desde
supor que a parte inconsciente do superego se tor- o tempo de Pélope um reinado de terror na casa real
nou consciente, o que representa um passo essencial de Argos, encontre o repouso — assim diz a lenda
para que se possa senti-lo como consciência. — quando tendo sido Orestes perdoado e sem sofri-
Outro aspecto do superego se vê em Apolo que mentos retorna, segundo podemos pressupor, a uma
segundo indiquei acima, simboliza os impulsos des- vida normal e profícua. Minha interpretação seria
trutivos de Orestes projetados no superego. Esse as- que a culpa seguida da necessidade de reparação e a
pecto do superego impele Orestes à violência e amea- elaboração da posição depressiva romperam o cír-
ça puni-lo se não matar a mãe. De vez que Agamê- culo vicioso, de vez que tendo diminuído os impul-
non amargamente se ressentiria de não ser vingado, sos destrutivos e sua sequela de ansiedade persecutó-
tanto Apolo como o pai representam ambos o su- ria, pôde se restabelecer a relação com o objeto ama-
perego cruel. Semelhante exigência de vingança se do.
harmoniza com a fúria com que Agamênon destruiu Apolo, no entanto, que reina em Delfos, repre-
Tróia, sem revelar a menor piedade pelos sofrimen- senta na Trilogia não apenas os impulsos destrutivos
tos de seu povo. Já me referi à conexão entre a cren- e o superego cruel de Orestes. Através da sacerdoti-
ça helénica de ser a vingança um dever imposto aos za de Delfos êle é também, como sustenta Gilbert
descendentes, e ao papel do superego impelindo ao Murray, "o profeta cie deus" além de ser o deus-sol.
crime. É paradoxal que ao mesmo tempo o superego No Agamênon, Cassandra a êle se refere como "a
configure a vingança como um crime, e por conse- luz dos caminhos dos homens" e a "Luz de tudo que
guinte castigue os descendentes pelo assassinato que existe". Apesar disso, não só sua atitude implacável
perpetraram, embora este lhes fosse o dever. contra Cassandra mas ainda as palavras dos Anciãos
A sequência repetida de crime e castigo, hwbris a seu respeito: "Está escrito, Êle não acolhe a afli-
e dike, se exemplifica no demónio familiar que, se- ção nem a ela dá ouvidos", indicam o fato de que êle
64 65
não consegue experimentar compaixão e simpatia pacidade de julgamento e, de um modo geral, para
pelo sofrimento, a despeito de sua palavra de que maior prudência. Como diz Esquilo,
representa o pensamento de Zeus. Deste ângulo Apo-
lo, o Deus-Sol, faz lembrar as pessoas que se esqui- "Só pelo sofrimento o homem aprende.
vam a qualquer tristeza para se defenderem dos sen. De novo, a doer de relembrada dor,
timentos de compaixão e recorrem a um excesso de Assim o seu coração sangra e não dorme.
negação dos sentimentos depressivos. É típico de Até que contra o seu querer, um dia,
tais pessoas que não experimentem simpatia pelos Há-de encontrar-se com a sabedoria."
velhos e desvalidos. O coro das Fúrias descreve Apo-
lo com os seguintes versos: Zeus também simboliza a parte ideal e onipo-
tente do eu, o ego-ideal, conceito formulado por
"Mulheres somos nós, e velhas; tu cavalgas Freud antes de desenvolver plenamente seus pon-
Sobre nós, moço e orgulhoso nos calcando." tos de vista sobre o superego12. A meu ver, a parte
idealizada do eu e a do objeto internalizado são afas-
Tais versos também se podem considerar de outro tadas da parte má do eu e da parte má do objeto,
ponto de vista; se atentamos para sua relação com mantendo o indivíduo semelhante idealização para
Apolo, as Erínias se afiguram como a velha mãe poder lidar com suas ansiedades.
maltratada pelo filho jovem e ingrato. Essa falta de
Há outro aspecto da Trilogia que desejo consi-
compaixão se liga ao papel de Apolo na função de
derar, ou seja, a relação dos acontecimentos internos
parte implacável e cruel do superego, que descrevi
com os externos. Descrevi as Fúrias como simboli-
acima.
zando os processos internos, e Esquilo revela isso nos
Há outro aspecto, e bastante significativo do su- versos seguintes:
perego representado por Zeus. Ele é o pai (o Pai
dos Deuses) que aprendeu atravez do sofrimento a "Algumas vezes será o Medo:
ser mais tolerante com seus filhos. Ficamos saben- — Esse que suga o seio enquanto espreita
do que Zeus, tendo pecado contra o pai e experimen- Pela fome sobre êle reinará."
tado culpa por isso, mostra-se então generoso com
os suplicantes. Zeus simboliza uma parte importante Na Trilogia, entanto, as Fúrias aparecem como fi-
do superego, o pai indulgente introjetado, e repre- guras externas.
senta um estágio em que a posição depressiva foi
elaborada. Conseguir reconhecer e compreender as A personalidade de Clitemnestra como um todo
tendências destrutivas voltadas contra os pais ama- ilustra como Esquilo — enquanto penetra fundo na
dos concorre para uma tolerância maior consigo e mente humana — também se interessa pelas per-
com as deficiências dos outros, para uma melhor ca- i2 "Sobre o Narcisismo: Introdução", 1914 (S. E. XIV).

66 67
sonagens como figuras externas. Êle nos fornece vá- ordem. Outro exemplo do efeito de situações exter-
rios indícios de que Clitemnestra era realmente uma nas é a mudança do caráter de Agamênon que se
mãe má. Orestes de falta de amor e sabemos torna o "Rei dos Reis" graças a seus êxitos na expe-
que ela baniu o filho pequeno e maltratou Electra. dição. O êxito, mormente se seu maior valor está
Clitemnestra se move por seus desejos sexuais por num aumento de prestígio, amiúde é perigoso —
Egisto e rejeita os filhos. Isso não se menciona assim como em geral observamos na vida — porque êle
tão explicitamente na Trilogia, mas é óbvio que Cli- reforça a ambição e a rivalidade e interfere nos sen-
temnestra se livrou de Orestes por vislumbrar nele timentos de amor e de humildade.
o vingador do pai em vista de sua relação com Egisto. Atena representa, como tão frequentemente ela
Na verdade, quando duvida do relato de Orestes, or- o diz — os pensamentos e sentimentos de Zeus. Ela
dena que Egisto venha com seus lanceiros. Tão logo é o superego prudente e aplacado, em contraste com
descobre que Egisto foi morto, clama por seu ma- o superego primitivo, simbolizado pelas Erínias.
chado: Vimos Atena em muitos papéis; ela é o porta-voz
de Zeus e expressa-ihe os pensamentos e desejos; é
"Eia! a arma de guerra! Vamos ver um superego aplacado; é também a filha sem mãe e
Quem vencerá, quem vai cair, se êle ou se eu..." desse modo evita o complexo de Édipo. Mas revela
ainda outra função e muito importante; contribui
e ameaça matar Orestes. para a paz e o equilíbrio. Ela exprime a esperança
Há, não obstante, indicações de que nem sem- de que os atenienses evitarão a luta interna, repre-
pre foi Clitemnestra uma mãe má. Ela alimentou o sentando simbolicamente o livrar-se da hostilidade
filho quando bebé, e seu luto pela filha Ifigênia de- dentro da família. Consegue uma mudança nas Fú-
ve ter sido sincero. Situações externas adversas, po- rias no que toca ao perdão e à paz. Semelhante atitu-
rém, operaram uma mudança no seu caráter. Eu acre- de expressa a tendência para a reconciliação e a in-
dito que o ódio precoce e os ressentimentos, exacer- tegração.
bados por situações externas, reacendem os impul- Esses traços são característicos do objeto bom
sos destrutivos; estes chegam a predominar sobre os iníernalizado — fundamentalmente da mãe boa —
amorosos, e isto acarreta uma mudanç cl Í1HS condi- que se revela a portadora do instinto de vida. Dessa
ções da fusão dos instintos de vida com os de morte. forma, Atena como a mãe boa se contrapõe a Clitem-
A transformação das Erínias em Eumênides se nestra, que representa o aspecto mau da mãe. Aque-
apresenta também, em certo grau, influenciada por le papel também entra na relação de Apolo com ela.
uma situação externa. Muito se atormentam diante É a única figura de mulher que êle considera. Re-
do risco de perda de seu poder e Atena as tranqui- fere-se a ela com grande admiração e amplamente
liza dizendo-lhes que em seu novo papel vão exercer se submete a seu julgamento. Conquanto ela pare-
influência sobre Atenas e ajudar a manter a lei e a ça apenas representar uma irmã mais velha, espe-

68 69
cialmente favorecida pelo pai, eu admito que ela paixão têm outras. A paz interna não se estabelece
também representa para êle o aspecto bom da mãe. facilmente.
Se o objeto bom fôr suficientemente estabelecido A integração do ego se realiza quando suas di-
no bebe, o superego se torna mais indulgente; a ten- versas partes — representadas na Trilogia pelos
dência para a integração, que acredito atua desde o membros do Areópago — podem se reunir, apesar
início da vida e que faz que o amor mitigue o ódio, de suas tendências conflitantes. Isso não significa
adquire força. Mas mesmo o superego indulgente exi- que nunca se possam tornar unificados, pelo fato de
ge o controle de impulsos destrutivos e visa ao equi- que os impulsos destrutivos por um lado, e o amor
líbrio dos sentimentos destrutivos e amorosos. Veri- e a necessidade de reparar, por outro, se contradi-
ficamos, por conseguinte, que Atena representa um zem. Mas o ego, na sua plenitude, consegue reconhe-
estágio maduro do superego que visa à reconciliação cer esses diferentes aspectos e aproximá-los mais
de impulsos contrastantes; isso se liga ao estabeleci- intimamente, se bem que, na tenra infância, eles te-
mento do objeto bom com maior segurança, e cons- nham sido intensamente afastados. Nem se elimina
tituo a base para a integração. Atena expressa a ne- a força do superego; pois mesmo em seu aspecto
cessidade de controlar os impulsos destrutivos nas mais indulgente, êle ainda pode provocar sentimen-
seguintes palavras: tos de culpa. A integração e o equilíbrio constituem
a base de uma vida mais plena e mais rica. Em Esqui-
"E repelindo o Medo, o não repeles todo; lo esse estado mental se revela pelos cânticos alegres
— O impávido, do mal se livrará também? com que termina a Trilogia.
Não! Reina sobre vós, sobre a vossa cidade, Esquilo apresenta-nos um quadro do desenvol-
Esse que, Regra e Lei, do mais fundo nos vem..." vimento humano, de suas raízes até a seus níveis
mais avançados. Uma das maneiras pela qual sua
A atitude de Atena, orientando mas sem domi- compreensão das profundidades da natureza huma-
nar, característica do superego maduro estruturado na se expressa está nos vários papéis simbólicos que
na base do objeto bom, nela se mostra ao não se ar- em especial os deuses desempenham. Semelhante va-
rogar o direito de decidir o destino de Orestes. Ela riedade corresponde aos diversos impulsos e fanta-
convoca o Areópago e escolhe os homens mais sábios sias, amiúde conflitantes, que existem no inconscien-
de Atenas, confere-lhes plena liberdade de votar e te e que, em última análise, se originam da polarida-
apenas reserva para si o voto de qualidade. Se con- de dos instintos de vida e de morte em seus distintos
sidero de novo essa parte da Trilogia como represen- estados de fusão.
tando os processos internos, iria concluir que os vo- De modo a compreender o papel que o simbolis-
tos contrários indicam que o eu não se integra com mo desempenha na vida mental, cumpre-nos consi-
facilidade, que os impulsos destrutivos têm uma di- derar as muitas maneiras pelas quais o ego em de-
reção, o amor e a capacidade de reparação e de com- senvolvimento lida com os conflitos e a frustração.
70 71
Otí meios de expressar os sentimentos de mágoa e ciar a fantasia e a realidade e de ver as pessoas e as
de satisfação, e toda a gama de emoções infantis, se coisas na condição que têm.
alteram gradativamente. De vez que as fantasias O artista criador faz uso pleno dos símbolos;
povoam a vida mental desde o nascimento, há um po- e quanto mais servem para expressar os conflitos
deroso impulso a ligá-las aos vários objetos — con- do amor e do ódio, da destrutividade e da reparação,
cretos e fantasiados — que se tornam símbolos e dos instintos de vida e de morte, tanto mais se apro-
constituem um escoadouro para as emoções do bebé. ximam da manifestação universal. Êle assim conden-
Tais símbolos representam, a princípio, objetos par- sa a diversidade de símbolos infantis, enquanto se
ciais e dentro de alguns meses objetos totais (ou se- funda na plena força das emoções e fantasias que
ja, pessoas). A criança volta seu amor e ódio, seus neles se expressam. A capacidade que o dramaturgo
conflitos, suas satisfações e seus anseios para a cria- revela de transferir alguns desses símbolos universais
ção desses símbolos, internos e externos, que pas- para a criação de suas personagens, e de ao mesmo
sam a fazer parte do seu mundo. O impulso para criar tempo transformá-las em pessoas concretas, mostra
símbolos é tão intenso que mesmo a mãe mais amo- um dos aspectos de sua grandeza. A conexão dos
rosa não consegue satisfazer as poderosas necessida- símbolos com a criação artística amiúde tem sido
des emocionais do bebe. Na verdade, nenhuma situa- lembrada, porém meu interesse principal é estabe-
ção concreta pode preencher os anseios e desejos lecer o elo que existe entre os processos infantis mais
não raro contraditórios da vida de fantasia da crian- primitivos e as ulteriores produções do artista.
ça. Somente quando, na infância, a formação de sím- Esquilo na sua Trilogia faz que os deuses se ma-
bolos se desenvolve em toda a sua plenitude e varie- nifestem numa variedade de papéis simbólicos, e
dade, e não se vê impedida por inibições, é que o tentei demonstrar como isso acrescenta a riqueza e o
artista pode ulteriormente se utilizar das forças emo- significado de suas peças. Concluo com a admissível
cionais subjacentes ao simbolismo. Em antigo traba- sugestão de que a grandeza das tragédias de Esquilo
lho meu13 ressaltei a importância considerável da — e isso talvez encontre uma aplicação geral na me-
formação de símbolos para a vida mental infantil e dida em que se refere a outros grandes poetas —
deixei subentendido que se a formação de símbolos provém de sua percepção intuitiva da inexaurível
era verdadeiramente rica, ela contribuía para o de- profundeza do inconsciente e das maneiras pelas
senvolvimento do talento ou mesmo do génio. quais semelhante percepção influencia as persona-
gens e as situações que êle cria.
Na análise de adultos verificamos que a forma-
ção de símbolos é ainda operante; o adulto, igual-
mente, se vê rodeado de objetos simbólicos. Ao mes-
mo tempo, no entanto, êle é mais capaz de diferen-
is "A Análise da Criança", 1933, em Contribuições à Psicanálise.

72 --.''.;
\

plexos de identificação; a ansiedade persecutória,


oriunda da experiência do nascimento, é a primeira
forma de ansiedade, logo seguida pela ansiedade de-
pressiva; a introjeção e a projeção operam desde o
início da vida pós-natal e interatuam constantemen-
te. Essa interação estrutura tanto o mundo interno
Capítulo Terceiro como forma o quadro da realidade externa. O mun-
do interno consiste de objetos, principalmente a mãe,
SOBRE A IDENTIFICAÇÃO internalizados nos vários aspectos e situações emo-
cionais. Os relacionamentos dessas figuras interna-
lizadas e delas com o ego tendem a ser experimenta-
Em "O Luto e a Melancolia" 1 Freud mostrou a co- dos — quando a ansiedade persecutória é dominante
nexão intrínseca entre a identificação e a introjeção. — como principalmente hostis e perigosas; aqueles
Sua descoberta ulterior do superego2, que êle atribuiu relacionamentos, o bebé os experimenta como amo-
à introjeção do pai e à identificação com o mesmo, rosos e bons, quando gratificado e prevalecem os sen-
conduziu ao reconhecimento de que a identificação timentos de felicidade. Este mundo interior, que se
como uma sequela da introjeção faz parte do desen- pode descrever em termos de relações e aconteci-
volvimento normal. Desde essa descoberta, a intro- mentos internos, representa o produto dos impulsos,
jeção e a identificação têm desempenhado um papel emoções e fantasias do bebé. Êle é, como é natural,
profundamente influenciado por suas experiências
central no pensamento e na pesquisa psicanalíticos.
boas e más oriundas de fontes externas 3 . Mas ao
Antes de iniciar o tópico básico deste artigo, pen-
mesmo tempo o mundo interno influencia sua percep-
so que seria útil recapitular minhas conclusões prin-
ção do mundo externo de um modo que não é me-
cipais sobre esse tema: pode-se fazer remontar o nos decisivo para o seu desenvolvimento. A mãe,
desenvolvimento do superego à introjeção aos está- principalmente o seio, é o objeto primário tanto para
gios mais primitivos da infância; os objetos interna- os processos introjetivos como projetivos do bebé.
lizados primários formam a base de processos com- O amor e o ódio são desde o início projetados sobre
1 ela e simultaneamente ela é internalizada junto com
(1917) S. E. XIV. O trabalho de Abraham sobre a melanco-
lia, já em 1911 ("Notas sobre a Investigação e o Tratamento essas emoções primitivas contrastantes, subjacentes
Psicanalíticos da Doença Maníaco-Depressiva e Condições Aná- ao sentimento do bebé de que tanto existe uma mãe
logas") e 1924 ("Breve Estudo do Desenvolvimento da Libido,
Visto à Luz das Desordens Mentais") também foram de gran-
de importância nesse sentido. Cf. Artigos Selecionaãos sobre s
Dentre elas, desde o início da vida, a atitude da mãe é de
Psicanálise, Karl Abraham (Londres, 1927). Trad. brasil. — importância vital e permanece um fator relevante no desenvol-
Teoria Psicanalítica da Libido, 1970 — IMAGO EDITORA LTDA. vimento da criança. Cf., por exemplo, Os Progressos da Psicaná-
2 O Ego e o lã (1923) S. E. XIX. lise, Zahar Editores, Rio, 1969.

74 75
\

(seio) boa como má. Quanto mais valorizados são â radas boas e valiosas. Acentuei anteriormente que
mãe e o seio — e na medida em que a valorização desde o início da vida o primeiro objeto do bebé, o
depende de uma combinação de fatôres internos e seio da mãe (e a mãe), está investido de libido e que
externos, entre os quais a capacidade inata de amar isto influencia de maneira vital o modo pelo qual
é da máxima importância — tanto mais provavel- a mãe é internalizada. Isto por sua vez é de grande
mente se instalará na mente do bebe o seio bom in- importância para a relação com ela como objeto ex-
ternalizado, protótipo dos objetos internos bons. Isto terno e interno. O processo pelo qual a mãe é investi-
por sua vez influencia tanto a intensidade como a da de libido consiste principalmente na projeção de
natureza das projeções; principalmente determina sentimentos bons e de partes boas do eu sobre ela.
se nelas predominam os sentimentos de amor ou os No curso de trabalho ulterior cheguei também
impulsos destrutivos 4 . a reconhecer a grande importância que têm, para a
Tenho descrito em situações várias as fantasias identificação, certos mecanismos projetivos comple-
sádicas do bebé dirigidas contra a mãe. Verifiquei mentares aos introjetivos. O processo subjacente ao
que os impulsos e as fantasias agressivas oriundos sentimento de identificação com outras pessoas, em
da relação mais primitiva com o seio da mãe, tal razão de se lhes haver atribuído qualidades ou ati-
como sugá-lo, secá-lo e esvaziá-lo, logo conduzem a tudes da gente, já era, em geral, tacitamente admiti-
ulteriores fantasias de entrar dentro da mãe e rou- do mesmo antes que o conceito correspondente tives-
bar-lhe os conteúdos do corpo. Simultaneamente, o se sido incorporado à teoria psicanalítica. Por exem-
bebé experimenta impulsos e fantasias de atacar a plo, o mecanismo projetivo que está implícito na em-
mãe, colocando excrementos dentro dela. Em tais patia é familiar na vida cotidiana. Os fenómenos bem
fantasias, o bebé sente que os produtos do corpo e as conhecidos em psiquiatria, por exemplo, o sentimen-
partes do seu eu foram expelidos, projetados dentro to de um paciente de que êle realmente é Cristo,
da mãe e que continuam a existir dentro dela. Seme- Deus, um rei, uma pessoa famosa, incluem uma pro-
lhantes fantasias logo se estendem ao pai e a outras jeção maior do que de afetos simples. Os mecanismos
pessoas. Afirmei também que a ansiedade persecutó- subjacentes, porém, em tais fenómenos, não tinham
ria e o medo da retaliação, resultantes dos impulsos sido investigados com tanto pormenor quando, nas
sádico-orais, uretrais e anais — estão na base do de- minhas "Notas sobre Alguns Mecanismos Esquizóí-
senvolvimento da paranóia e da esquizofrenia. des"5, sugeri a expressão "identificação projetiva" 8 ,
Não somente são expelidas e projetadas para 6
Lidas perante a Sociedade Inglesa de Psicanálise em 4 de
dentro de outra pessoa aquelas partes consideradas dezembro de 1946, publicadas em Int. J. Psycho-Anal., Vol.
destrutivas e "más" do eu, como também as conside- XXVII (1946) e em Os Progressos ãa Psicanálise, Zahar Edito-
res, Rio, 1969, Cap. IX.
6
* Expressando-o em termos da dualidade de instintos, cum- Nesse sentido, refiro-me aos artigos de Herbert Rosenfeld,
pre saber se na luta entre os instintos de Vida e de Morte pre- "Analysis of a Schizophrenic State with Despersonalization",
domina o instinto de Vida. Int. J. Psycho-Anal., Vol. XXVIII, 1947; "Remarks on the Re-
lation of Male Homosexuality to Paranóia, Paranoid Anxiety,
76
77
para aqueles processos que fazem parte da posição plano, em consequência da maior capacidade do ego
esquizoparanóide. As conclusões a que cheguei na- para se integrar e para sintetizar seus objetos. Isto
quele artigo baseavam-se, no entanto, sobre alguns acarreta pesar e culpa quanto ao dano feito (nas fan-
de meus achados anteriores 7 , em particular no das tasias onipotentes) a um objeto que é agora vivido
fantasias e impulsos infantis sádico-orais, uretrais e ao mesmo tempo como amado e odiado; tais ansie-
anais de atacar o corpo da mãe de muitas maneiras, dades e defesas contra elas representam a posição
inclusive pela projeção de excrementos e partes do depressiva. Nesse ponto, uma regressão à posição
eu sobre ela. i esquizoparanóide pode ocorrer na tentativa de esca-
A identificação projetiva se liga aos processos par à depressão.
de desenvolvimento que surgem durante os três ou Sugeri também que a internalização é de gran-
quatro primeiros meses de vida (a posição esquizo- de importância para os processos projetivos, em par-
paranóide) quando a divisão está no seu máximo e ticular daquele em que o seio bom internalizado age
predomina a ansiedade persecutória. O ego está ain- como um ponto central do ego, do qual os sentimentos
da em grande parte não integrado e, por conseguinte, bons se projetam sobre os objetos externos. Êle for-
passível de dividir a si suas emoções e a seus objetos talece o ego, contrabalança os processos de divisão
internos e externos, embora a divisão seja também e dispersão e favorece a capacidade para a integração
uma das defesas fundamentais contra a ansiedade e síntese. O objeto bom internalizado é assim uma
persecutória. Outras defesas oriundas nesse estágio das pré-condições para um ego integrado e estável
são a idealização, a negação e o controle onipotente e para boas relações de objetos. A tendência para a
dos objetos internos e externos. A identificação pela integração, simultânea com a divisão, parece-me ser,
projeção implica uma combinação de expelir partes desde a mais tenra infância, um traço dominante da
do eu e de projetá-las sobre outra pessoa (ou melhor) vida mental. Um dos fatôres principais subjacentes à
dentro dela. Tais processos apresentam muitas rami- necessidade para a integração é o sentimento do in-
ficações e influenciam fundamentalmente as relações divíduo de que esta implica estar vivo, estar amando
de objeto. e sendo amado pelo objeto bom interno e externo;
No desenvolvimento normal, no segundo trimes- ou seja, que existe vinculação íntima entre a inte-
tre do primeiro ano, a ansiedade persecutória dimi- gração e as relações de objeto. Inversamente, o sen-
nui e a ansiedade depressiva vem para o primeiro timento de caos, de desintegração, de deficiência de
emoções resultantes da divisão, parecem-me estreita-
and Narcissism", Int. J. Psycho-Anal, Vol. XXX (1949); e "A mente relacionados ao medo da morte. Sustentei (nos
Note on the Psychopathology of State in Chronic Schizophre- "Mecanismos Esquizóides") que o temor do aniqui-
nias", Int. J. Psycho-Anal., Vol. XXXI (1950), que são relevan- lamento pelas forças destrutivas dentro é o medo
tes para esses problemas. (Todos incluídos em "Os Estados
Psicóticos", Zahar Editores, Rio, 1967). mais profundo que existe. A divisão como uma pri-
7 Cf. minha Psycho-Analysis of Children; por exemplo, págs. meira defesa contra este temor é eficaz na medida
186 ff.

73 79
em que ocasione uma dispersão da ansiedade e uma dade, porém com partes mais coerentes do eu. Isto
supressão das emoções. Mas falha em outro sentido implica que o ego não se expõe a um enfraquecimento
porque resulta num sentimento semelhante à morte fatal pela dispersão e por esse motivo se mostra mais
— porque a isso é que correspondem a desintegração capaz de repetidamente desfazer a divisão e
e o sentimento de caos concomitantes. Acredito que çar a integração e a síntese em sua relação com os
os sofrimentos do esquizofrénico não sejam suficien- objetos.
temente valorizados porque êle parece destituído de Inversamente, o seio incorporado com ódio, e
emoções. por conseguinte vivenciado como destrutivo, torna-
se o protótipo de todos os objetos internos maus, im-
Desejo aqui estender~me além do meu artigo pele o ego a ulterior divisão e se torna o representan-
sobre mecanismos esquizóides. Gostaria de sugerir te do instinto de morte dentro.
que um objeto bom firmemente estabelecido, impli-
Já mencionei que simultaneamente com a inter-
cando um amor solidamente manifesto por êle, em-
nalização do seio bom, a mãe externa também é in-
presta ao ego um sentimento de riqueza e abundância
vestida com a libido. Em vários sentidos Freud des-
que favorece um extravazamento de libido e a pro-
creveu esse processo e algumas de suas implicações:
jeção de partes boas do eu sobre o mundo externo,
por exemplo, referindo-se à idealização numa rela-
sem que se origine uma sensação de esvaziamento.
ção amorosa, afirma8 que "o objeto está sendo trata-
O ego pode então também sentir que é capaz de
do da mesma maneira que o nosso ego, de modo que
reintrojetar o amor que dedicou, bem como receber
quando estamos amando, uma quantidade considerá-
a bondade de outras fontes, e assim se enriquecer
vel de libido narcísica se extravasa para o objeto.. .
por todo o processo. Em outras palavras, em tais ca-
nós o amamos em função das perfeições que somos
sos há um equilíbrio entre o dar e o receber, entre
impelidos a alcançar para o nosso ego.. ." 9
a projeção e a introjeção.
A meu ver, os processos que Freud descreve im-
Além disso, sempre que há a incorporação do plicam que o objeto amado é vivido como contendo
seio não danificado, em estados de gratificação e a parte expelida, amada e valorizada do eu, que des-
amor, isto afeta as maneiras pelas quais o ego divi- ta forma continua sua existência dentro do objeto.
de e projeta. Conforme sugeri, há uma grande varie- Torna-se êle, portanto, uma extensão do eu10.
dade de processos de divisão (sobre os quais ainda
temos muito a descobrir) e sua natureza é de grande 8
(1921) Group Psychology and the Analysis of the Ego (S. E.
importância para o desenvolvimento do ego. O sen- XVIII), pág. 112.
9
Anua Freud descreveu outro aspecto da projeção sobre um
timento de conter o mamilo e seio não danificados objeto amado e da identificação com êle no conceito que cha-
— embora coexistindo com as fantasias de um seio mou "renúncia altruísta". The Ego anã the Mechanismos of
Defence, London, 1937, Cap. X (trad. brasil).
devorado e, portanto espedaçado tem o efeito de que 10
Ao reler recentemente Group Psychology and the Analysis
a divisão e a projeção não se relacionam predominan- of the Ego, (Psicologia de Grupo e a Análise do Ego), de Freud,
temente com as partes fragmentadas da personali- afigurou-se-me que êle estava cônscio do processo de identifi-

81
zo
O exposto acima constitui um breve resumo de consequência de sua vida dissoluta. A queixa e a re-
minhas opiniões apresentadas em "Notas sobre Al- belião pronunciadas de Fabian contra o destino se
guns Mecanismos Esquizóides"11. Não me limitei, ligam a seu ressentimento contra o pai, cuja irres-
contudo, aos pontos aí examinados, mas acrescentei ponsabilidade privara-o de melhor educação e mais
certas outras sugestões e ampliei algumas que esta- amplas perspectivas. Tais sentimentos, segundo pa-
vam implícitas mas não explicitamente mencionadas rece, contribuem para o desejo insaciável de Fabian
naquele artigo. Proponho-me agora exemplificar al- de riqueza e êxito, e para sua inveja e ódio intensos
guns desses achados procedendo a uma análise de daqueles que possuem mais.
uma história do romancista francês Julian Green12. O núcleo da história é o poder mágico de trans-
formar-se em outras pessoas que é conferido a Fabian
por um pacto com o demónio, que o seduz com falsas
UM ROMANCE QUE ILUSTRA A promessas de felicidade a aceitar esta dádiva sinis-
IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA tra; êle ensina a Fabian uma fórmula secreta pela
qual a transformação em outra pessoa se pode efe-
O herói, um jovem amanuense Fabian Especel, tuar. Semelhante fórmula inclui seu nome Fabian,
infeliz e insatisfeito consigo, em particular com sua e é de grande importância que êle consiga — acon-
aparência, sua falta de êxito com as mulheres, sua teça o que acontecer — lembra-se da fórmula e do
pobreza, e com o trabalho inferior a que se sente nome. A primeira escolha de Fabian é o garçom que
condenado. Acha suas convicções religiosas, que atri- lhe traz uma xícara de café, que é apenas o que êle
bui às exigências da mãe, muito maçantes, embora pode conseguir para o seu café da manhã. Esta ten-
não possa libertar-se delas. O pai, que morreu quan- tativa de projeção resulta em nada porque nesse pon-
do Fabian ainda frequentava a escola, esbanjara to- to êle ainda considera os sentimentos de suas vítimas
do o dinheiro no jogo, levara uma vida "alegre" com em potencial, e o garçom, ao ser solicitado por Fa-
mulheres e morrera de colapso cardíaco, atribuído à bian se gostaria de trocar de lugar com êle, se recusa.
A escolha seguinte de Fabian recai sobre seu patrão
cação por projeção, embora não o diferenciasse por meio de um Poujars. Êle tem muita inveja desse homem que é
termo especial do processo de identificação por introjeção com rico, pode — conforme julga Fabian — gozar a vida
que êle principalmente se preocupava. Elliott Jaques, em "So-
cial Systems as a defence against Persecutory and Depressive plenamente, e tem poder sobre outras pessoas, e em
Anxiety" (Cap. 20) New Direetions in Psycho-Analysis (Lon- especial sobre Fabian. O autor descreve a inveja que
don, 1955, trad. brasil.) cita alguns trechos da Group Psycho-
logy como se referindo implicitamente à identificação por pro- Fabian tem de Poujars com estas palavras: ("Ah! o
jeção. sol. Amiúde lhe parecia que o senhor Poujars tinha-o
11
Cf. também "Some Theoretical Conclusions Regarding the
Emotional Life of the Infant" em Developments in Psycho- escondido no bolso.") Fabian também se mostra mui-
Analysis (London, 1952), págs. 202-3, trad. brasil.).
12
to ressentido contra o patrão por sentir-se humilhado
// I VSere You (tradução do francês por J. H. P. McEwen), por êle e preso em seu escritório.
London, 1950).

82 83
Antes de sussurrar a fórmula no ouvido de Pou- Ao deixar o escritório com a carteira de Poujars
jars, Fabian se dirige a êle da mesma maneira despre- em seu poder, gradativamente percebe que se colo-
zível e humilhante que Poujars utilizava com êle. A cou numa situação de extrema gravidade. É que não
transformação tem o efeito de fazer que a vítima en- somente aborrece a personalidade, a aparência, e as
tre para o eorpo de Fabian e desmaie; Fabian (agora lembranças desagradáveis que adquiriu, como tam-
no corpo de Poujars) emite vultoso cheque em favor bém muito se preocupa com a falta de força de von-
de Fabian. Êle encontra no bolso de Fabian seu ende- tade e de iniciativa inerentes à idade de Poujars. A
reço que anota cuidadosamente. (Este pedaço de pa- ideia de que não pudesse mobilizar a energia para
pel com o nome e endereço de Fabian êle o conserva se transformar em outra pessoa horroriza-o. Decide
consigo em suas duas transformações seguintes.) Pro- que para seu objeto seguinte deve escolher alguém
videncia também para que Fabian, em cujo bolso pôs jovem e sadio. Quando vê num café um jovem atlé-
o cheque, seja levado para casa, onde seria cuidado tico e de rosto feio, de aspecto arrogante e brigão,
pela mãe. O destino do corpo de Fabian continua sen- mas revelando no seu todo autoconfiança, vigor e
do uma preocupação da mente de Fabian-Poujars de saúde, Fabian-Poujars — sentindo-se cada vez mais
temeroso de nunca poder se livrar de Poujars — re-
vez que êle sente poder um dia desejar retornar ao
solve aproximar-se do jovem, embora esteja com mui-
seu antigo eu; portanto, não quer ver Fabian recupe- to medo dele. Oferece-lhe um maço de notas que
rar a consciência porque teme que os olhos assusta- Fabian-Poujars deseja ter depois da transformação
dos de Poujars (com quem trocou de lugar), o con- e, enquanto assim distrai a atenção do homem, con-
templem de sua face anterior. Êle imagina, olhando segue sussurrar-lhe a fórmula ao ouvido e lhe coloca
para Fabian, que ainda está inconsciente, se alguém no bolso o pedaço de papel com o nome e endereço
jamais o teria amado e se sente alegre de ter-se livra- de Fabian. Em poucos minutos Poujars, cuja pessoa
do daquela aparência desagradável e daquelas roupas Fabian acaba de abandonar, desmaia, e Fabian se
miseráveis. transforma no jovem Paul Esménard. Está tomado
Fabian-Poujars logo descobre certas desvanta- de grande alegria por se sentir jovem, sadio e forte.
gens em semelhante transformação. Sente-se opri- Perde muito mais do que na primeira transformação,
mido na sua nova corpulência; perde o apetite e se o seu eu original e se converte numa nova personali-
dá conta do distúrbio renal de que sofre Poujars. dade; surpreende-se de encontrar um maço de notas
Descobre com aborrecimento de que não só ficou com na mão e no bolso um pedaço de papel, com o nome
as feições de Poujars como também com sua perso- e o endereço de Fabian. Logo pensa em Berthe, a
nalidade. Já se distanciara de seu antigo eu e pouco moça cujos favores Paul Esménard vem tentando
conquistar, até então sem êxito. Entre outras coisas
se lembrava da vida de Fabian e suas circunstâncias.
desagradáveis, Berthe lhe disse que ele tem cara de
Decide que não continuará um minuto mais que o ne- assassino e que ela tem medo dele. O dinheiro no
cessário na pele de Poujars.
84 85
bolso lhe dá confiança e êle vai direío a casa dela, a murmurar a fórmula no ouvido de Fruges, e a
determinado a fazê-la ceder aos seus desejos. transformação se efetua. Tão logo Fabian entra no
Conquanto Fabian se tenha submergido em Paul corpo e na personalidade de Fruges, recobra sua ca-
Esménard, êle se sente cada vez mais atónito sobre pacidade de pensar. Imagina qual o destino de sua
o nome Fabian lido na tira de papel. "Tal nome per- última vítima e se preocupa um pouco com Fruges
manece de algum modo no âmago de seu ser." Um (agora no corpo de Esménard) que será condenado
sentimento de estar aprisionado num corpo desco- pelo crime de Fabian-Esménard. Sente-se em parte
nhecido e submetido por mãos imensas e um cérebro responsável pelo crime porque, conforme o Diabo lhe
embotado se apodera dele. Não soluciona o enigma mostra, as mãos que cometeram o homicídio lhe per-
esforçando-se em vão contra a sua estupidez; imagi- tenciam até a alguns minutos atrás. Antes de se se-
na qual seria o significado de seu desejo de se liber- parar do Demónio, indaga ainda a respeito do Fabian
tar. Tudo isso lhe passa pela mente à medida que se original e de Poujars. Se bem que recobrando algu-
encaminha para a casa de Berthe. Entra à força em mas lembranças de seus eus anteriores, percebe que
seu quarto, embora ela tente trancar-lhe a porta na se está transformando cada vez mais em Fruges e
cara. Berthe grita, êle a silencia tapando-lhe a boca adquirindo sua personalidade. Ao mesmo tempo, se
com a mão e na luta que se segue êle a estrangula. dá conta de que suas experiências aumentaram
Só gradualmente se dá conta do que havia feito; apa- seu entendimento das outras pessoas, de vez que ago-
vora-se e não ousa deixar o apartamento de Berthe, ra compreende mais o que ocorria na mente de Pou-
porque ouve passos de pessoas que se movimentam jars, de Paul Esménard e de Fruges. Também expe-
pela De súbito escuta uma pancada na porta, rimenta simpatia, emoção que nunca antes conhece-
ra e volta uma vez mais a ver o que Fruges — no
abre-a e defronta o Diabo a quem êle não reconhece.
corpo de Paul Esménard — está fazendo. Contudo,
O Demónio retira-o dali, ensina-lhe de novo a fór-
muito o alegra a ideia não só de sua fuga como tam-
mula que Fabian-Esménard esquecera e ajuda-o a
bém a de que sua vítima vai sofrer em seu lugar.
lembrar-se de algo sobre o seu eu original. Adverte-o
também que, para o futuro, não deve passar-se para O escritor nos diz que certos elementos da na-
pessoa tão estúpida ao utilizar a fórmula e, portanto, tureza original de Fabian entram mais nesta trans-
incapaz de efetuar ulteriores transformações. formação do que em qualquer outra das anteriores.
O demónio leva-o a um salão de leitura em bus- Em especial, o aspecto inquisitivo do caráter de Fa-
ca de pessoa em quem Fabian-Esménard possa se bian influencia Fabian-Fruges a descobrir cada vez
transformar e escolhe Emmanuel Fruges; Fruges e mais elementos da personalidade de Fruges. Entre
o demónio se reconhecem imediatamente, de vez que outras coisas, descobre sua predileção por cartões
Fruges vem sempre lutando contra o diabo, que "tan- obscenos que adquire de uma velha numa pequena
tas vezes e tão pacientemente gira em torno daquela papelaria onde os postais ficam ocultos por trás de
alma inquieta". O Demónio instrui Fabian-Esménard outros artigos. Fabian se desgosta com esse ângulo

86 87
de sua nova natureza; não suporta o ruído feito pela te, consegue transformar-se num elegante e sadio jo-
estante giratória dos postais, na qual estes se encon- vem de vinte anos chamado Camilie. Neste ponto,
tram, e sente que tal ruído o perseguirá para sempre. o escritor nos introduz pela primeira vez num círculo
Decide livrar-se de Fruges a quem pode agora, em familiar, que se compõe da esposa de Camilie, Ste-
certa medida, julgar com os olhos de Fabian.
phanie, sua prima Elise, o próprio Camilie, seu irmão
A seguir um menino de cerca de seis anos entra mais moço e o velho tio que os adotara a todos quan-
na papelaria. George é a imagem "da inocência nas do eram crianças.
maçãs do rosto" e Fabian-Fruges se sente imediata-
Ao entrar na casa, Fabian-Camille parece estar
mente muito atraído por êle. George o faz lembrar
procurando algo. Sobe as escadas, investigando os
de si naquela idade, e experimenta grande ternura
pela criança. Fabian-Fruges segue George ao sair da vários quartos, até que chega aos aposentos de Elise.
loja, e o observa com grande interesse. Subitamente, Quando se vê refletido no espelho fica muito conten-
sente-se tentado a transformar-se no menino. Com- te de verificar que é elegante e forte, mas um instan-
bate essa tentação como nunca, pensa êle, combatera te depois descobre que na verdade se transformara
outra antes, pois acredita que seria criminoso roubar numa pessoa infeliz, fraca e inútil e decide livrar-se
a personalidade e a vida dessa criança. Não obstan- de Camilie. Ao mesmo tempo, percebe o amor apai-
te, decide transformar-se em George, ajoelha-se ao xonado e não correspondido de Elise por Camilie.
lado dele e sussura-lhe a fórmula ao ouvido, num es- Elise entra, e êle lhe diz que a ama e que êle devia
tado de grande emoção e remorso. Mas nada acon- ter-se casado com ela ao invés de com sua prima Ste-
tece, e Fabian-Fruges percebe que a mágica não atin- phanie. Elise, atónita e assustada, visto que Camilie
ge a criança porque o Demónio não tem poder so- nunca lhe dera sinal de lhe retribuir seu amor, foge.
bre ela. Sozinho no quarto de Elise, Fabian-Camille pensa
Fabian-Fruges se horroriza com a ideia de não com simpatia nos sofrimentos da moça e que poderia
poder-se livrar de Fruges, com quem se desgosta fazê-la feliz, amando-a. Pensa, então, subitamente
cada vez mais. Sente-se prisioneiro de Fruges e luta que a ser assim êle poderia ser feliz transformando-se
por manter vivo seu aspecto de Fabian, pois se dá em Elise. Afugenta, no entanto, semelhante hipóte-
conta de que a Fruges falta a iniciativa para ajudá-lo se, de vez que não pode estar seguro de que Camilie,
a escapar. Faz várias tentativas de se aproximar das caso Fabian se transformasse em Elise, iria amá-la.
pessoas, mas fracassa e, logo se desespera, temendo Nem mesmo tem certeza se êle próprio — Fabian —
que o corpo de Fruges seja seu túmulo, que êle tenha ama Elise. Enquanto imagina isso, ocorre-lhe que o
de permanecer ali até sua morte. "Tinha sempre a que êle ama em Elise são os olhos, que lhe são de
impressão de estar sendo lenta mas inexoravelmente algum modo familiares.
emparedado; de que uma porta que estivera aberta,
agora gradualmente se fechava sobre êle." Finalmen- Antes de deixar a casa, Fabian-Camille vinga-se
do tio, que é hipócrita e tirano, por todo o dano feito
88
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à família. Êle também principalmente vinga Elise, talmente se movimenta cada vez mais na direção em
punindo e humilhando sua rival Stephanie. Fabian- que Fabian pode ser encontrado, pois, como êle o diz,
Camille, tendo insultado o velho, deixa-o num estado "eu quero ser eu mesmo de novo". Vagando pelas
de fúria impotente e vai-se embora, sabendo que lhe ruas, diz em voz alta esse nome que encarna sua
seria impossível jamais voltar àquela casa na pessoa maior aspiração e espera obter uma resposta. A fór-
de Camille. Mas antes de partir insiste que Elise, mula que havia esquecido lhe ocorre e espera que
ainda assustada com êle, o ouça mais uma vez. também venha a se recordar do sobrenome de Fa-
Êle lhe diz que realmente não a ama e que ela deve bian. A caminho de casa, os edifícios, as pedras e ár-
abandonar sua desventurada paixão por Camille, ou vores têm um sentido especial; sente que estão "car-
ela será sempre infeliz. regados de uma mensagem para êle" e prossegue,
Como antes, Fabian experimenta ressentimento impelido por um impulso. É assim que entra na loja
contra a pessoa na qual se transformou, porque des- da velha que fora tão familiar a Fruges. Sente que
cobre que ficou um inútil; imagina, portanto com de- olhando em torno dessa loja sombria também está
leite como Camille, quando Fabian o deixar, será re- "explorando um secreto ângulo de sua memória, re-
cebido em casa pelo tio e pela esposa. A única pes- buscando na sua mente, por assim dizer" e se enche
soa que lamenta perder é Elise; e subitamente lhe de uma "depressão profunda". Quando impele a es-
ocorre com quem ela se parece. Seus olhos trazem tante giratória com seus cartões, o ruído gritante o
"em si toda a tragédia de um anseio que nunca pode- atinge de modo estranho. Abandona precipitada-
rá ser satisfeito"; e imediatamente êle percebe que
mente a loja. A etapa seguinte é o salão de leitura
são os olhos de Fabian. Assim que esse nome, intei-
onde, com a ajuda do Diabo, Fabian-Esménard se
ramente esquecido por êle, lhe volta e êle o pronun-
transforma em Fruges. Êle grita "Fabian" mas não
cia em voz alta, seu eco lhe lembra vagamente "um
país distante" apenas conhecido no passado em so- obtém resposta. A seguir, passa pela casa em que
nhos . É que sua lembrança concreta de Fabian tinha Fabian-Esménard assassinou Berthe e se sente impe-
desaparecido completamente e na sua pressa de esca- lido a entrar e descobrir o que aconteceu atrás da ja-
par de Fruges e de transf ormar-se em Camille não le- nela para que algumas pessoas apontam; imagina se
vara consigo nem o nome nem o endereço de Fabian ali seria talvez o quarto onde Fabian mora, mas en-
nem o dinheiro. Desse momento em diante, o anseio che-se de temor e escapa sorrateiramente ao ouvir as
por Fabian apodera-se dele e luta por recuperar suas pessoas falarem sobre o assassinato cometido há três
antigas lembranças. É uma criança quem o auxilia dias; o assassino ainda não tinha sido encontrado. À
a reconhecer que êle é Fabian, pois quando ela lhe medida que caminha, as casas e as lojas se lhe tor-
pergunta qual é o seu nome, êle sem hesitar, respon- nam cada vez mais familiares e profundamente se
de "Fabian". Agora, Fabian-Camille física e men- comove ao alcançar o local onde o Demónio pela pri-

90 91
meira vez tentou convencer Fabian. Chega por fim INTERPRETAÇÕES
à casa onde mora Fabian e a porteira deixa entrar
Fabian-Camille. Quando começa a subir as escadas, I
uma dor súbita lhe aperta o coração.
Durante os três dias em que todos esses aconte-
O autor dessa história revela uma profunda
cimentos ocorreram Fabian estivera inconsciente, no compreensão (insighí) da mente inconsciente; isto se
leito, sob os cuidados da mãe. Começa a voltar a si pode verificar tanto na forma pela qual retrata os
e a ficar inquieto assim que Fabian-Camille se apro- acontecimentos e as personagens e — o que é de par-
xima da casa e sobe as escadas. Fabian ouve Fabian- ticular interesse aqui — na escolha das pessoas so-
Camille chamar seu nome do outro lado da porta, bre quem Fabian se projeta. Meu interesse pela per-
levanta-se da cama e vai até a porta, mas não conse- sonalidade e pelas aventuras de Fabian, que ilustram,
gue abri-la. Através da fenda da fechadura Fabian- como o fazem, alguns dos problemas complexos e
Camille diz a fórmula e então vai embora. A mãe en- mesmo obscuros da identificação projetiva, induzi-
contra Fabian inconsciente no chão junto da porta, ram-me a tentar uma análise deste rico material
mas êle logo recupera os sentidos e recobra certa quase como se fosse um paciente.
energia. Desesperadamente deseja descobrir o que Antes de analisar a identificação projetiva, que
se passou durante os dias em que esteve inconsciente é para mim o tema principal deste livro, pretendo
e em particular a respeito do encontro com Fabian- considerar a interação entre os processos introjeti-
Camille, mas asseguram-lhe que ninguém apareceu e vos, e projetivos que são, a meu ver, também ilustra-
que êle permaneceu em estado de coma durante três dos no romance. Por exemplo, o escritor descreve o
dias desde que desmaiara no escritório. Tendo a mãe anseio do desditado Fabian de contemplar as estrelas.
sentada ao lado do leito, sente-se invadido pelo an- "Sempre que êle as olhava assim dentro da noite que
seio de ser amado por ela e de poder expressar-lhe a tudo envolvia, experimentava a sensação de estar
seu amor. Deseja tocar-lhe a mão, atirar-se-lhe nos sendo insensivelmente levado acima do m u n d o . . .
braços, mas sente que ela não corresponderia. A Era quase como se o simples esforço de perscrutar o
despeito disso, percebe que se seu amor por ela ti- espaço, estivesse abrindo em si uma espécie de abis-
vesse sido mais forte, ela o teria amado mais. A in- mo, que correspondia às vertiginosas profundezas,
tensa afeição que experimenta por ela subitamente dentro das quais mergulhava a imaginação." Isto, me
se estende a toda a humanidade e êle se sente inva- parece, significa que Fabian olhava simultaneamen-
dido por uma felicidade inefável. A mãe lembra que te a distância e a si; incorporando o céu e as estrelas
êle devia rezar, mas êle só se lembra das palavras bem como projetando no céu e nas estrelas seus obje-
'Tai Nosso". Em seguida é de novo dominado por es- tos internos amados e as partes boas do seu eu. Eu
ta felicidade misteriosa, e morre. interpretaria também sua persistente contemplação

92 93
das estrelas como uma tentativa de reaver seus obje- tamente moral e ordeira da mãe, contrasta com âs
tos bons que êle temia estarem perdidos ou mui dis- paixões do pai e sua vida "alegre", de que o tique-
tantes. taque do relógio também lembra a Fabian. Êle se
Outros aspectos das identificações introjetivas identifica com esse ângulo frívolo, igualmente, como
de Fabian esclarecem seus processos projetivos. Cer- se vê do seu dedicar tanta atenção às conquistas de
ta ocasião, quando sozinho em seu quarto, à noite, mulheres — embora tais êxitos não lhe proporcionem
sente, como tantas vezes, que anseia "ouvir sinais de grande satisfação.
vida provindos de outros habitantes do edifício ao Outro aspecto do pai internalizado, no entanto,
seu redor". Fabian põe sobre a mesa o relógio de ouro surge sob a forma do Demónio, pois lemos que quan-
do pai; experimenta grande afeição por êle e princi- do o Diabo está a caminho dele Fabian ouve passos
palmente o aprecia por causa "de sua opulência e bri- ressoando nas escadas: "êle começou a sentir aque-
lho e dos números nitidamente gravados no mostra- las pisadas sombrias como uma pulsação latejando
dor". De maneira vaga, este relógio também lhe em suas têmporas." Um pouco depois, quando face
transmite um sentimento de confiança. Quando está a face com o Demónio, parece-lhe que "a figura dian-
sobre a mesa entre seus papéis, sente que todo o quar- te dele continuaria crescendo e crescendo até esten-
to adquire um ar de mais ordem e seriedade, talvez der-se como treva invadindo todo o quarto". Isto,
por causa do "ruído apressado e no entanto tranqui- a meu ver, expressa a internalização do Demónio (o
lizador do seu tique-taque reconfortante no meio da pai mau), indicando a escuridão também o terror que
quietude envolvente". Olhando o relógio e ouvindo sente por haver incorporado um objeto tão sinistro.
o seu tique-taque, fica a meditar sobre as horas de Numa passagem ulterior, quando Fabian viaja de
alegria e de tristeza da vida do pai que o relógio mar- carruagem com o Demónio, adormece e sonha "que
cou e este lhe parece vivo e independente do antigo seu companheiro empurrou o assento para junto de-
proprietário falecido. Num trecho anterior diz o no- le" e que sua voz "parecia envolvê-lo, paralisando-
velista que desde a infância Fabian "fora perseguido Ihe os braços e sufocando-o com o seu fluxo oleoso".
por um sentimento de certa presença interna que, Vejo nisso o medo de Fabian do objeto mau introdu-
numa maneira que êle não poderia ter descrito, sem- zindo-se nele. Em minhas "Notas Sobre Alguns Me-
pre estivera fora do alcance de sua consciência..." canismos Esquizóides", descrevi tais temores como
Eu concluiria que o relógio apresentava determina- consequência do impulso de se introduzir em outra
das características da natureza paternal, tais como pessoa, isto é, da identificação projetiva. O objeto ex-
a ordem e a seriedade, que comunica ao quarto e, terno que se introduz dentro do eu e o objeto mau
num sentido mais profundo, ao próprio Fabian; em que foi introjetado têm muito em comum; essas duas
outras palavras, o relógio representa o pai bom inter- ansiedades se mostram intimamente ligadas e capa-
nalizado a quem êle deseja sentir sempre presente. zes de se reforçarem mutuamente. Essa relação com o
Esse aspecto do superego, que se liga à atitude estri- Demónio, repete, a meu ver, os sentimentos primiti-
94
95
vos de Fabian a respeito de um aspecto de seu pai —• Certa noite, quando Fabian perambulava sem
o pai sedutor vivenciado como mau. Por outro lado, rumo pelas ruas, a ideia de voltar a seus aposentos
pode-se ver o componente moral de seus objetos in- enche-o de horror. Êle sabe que aí só vai encontrar
ternalizados no desprezo ascético do Demónio pelos a si; nem pode refugiar-se num novo caso amoroso,
"desejos da carne". 13 Esse aspecto foi influenciado pois compreende que novamente, como de costume,
pela identificação de Fabian com a mãe moral e ascé- logo se cansaria dele. Imagina por que seria tão di-
tica, representando assim o Demónio simultaneamen- fícil de se contentar e recorda que alguém lhe havia
te ambos os pais. dito que o que êle desejava era uma "estátua de mar-
Indiquei alguns aspectos do pai que Fabian tinha fim e ouro"; pensa que esse excesso de fastio poderia
internalizado. A incompatibilidade de tais aspectos ser uma herança do pai (o tema de Don Juan). Anseia
escapar de si, mesmo por uma hora, para livrar-se
constituia uma fonte de interminável conflito nele,
das "contradições intermináveis" que se desenrolam
acrescida pelo verdadeiro conflito entre seus pais e
dentro dele. Poderia parecer que seus objetos inter-
que se perpetuara por sua internalização dos genito-
nalizados lhe faziam exigências incompatíveis e que
res em seu infeliz relacionamento mútuo. As várias
estas eram "as contradições intermináveis" pelas
maneiras pelas quais êle se identificou com a mãe não
quais êle se sentia tão perseguido.15
foram menos complexas, como espero demonstrar.
A perseguição e a depressão oriundas dessas relações Êle não só odeia seus perseguidores internos
internas muito contribuíram para a solidão de Fa- como também se sente inútil porque contém tais ob-
jetos maus. Isto é um corolário do sentimento de cul-
bian, seus estados de espírito irrequietos e seu an-
pa; é que êle percebe que seus impulsos e fantasias
seio de escapar do seu odiado eu". O escritor cita em agressivos transformaram os pais em perseguidores
seu prefácio os versos de Milton "Tu te tornaste sim retaliatórios ou os destruíram. Assim, o ódio de si,
(ó pior das prisões) o Cárcere de ti mesmo". embora dirigido contra os objetos maus internaliza-
13 dos, em última análise concentra-se sobre os impul-
As características várias e contraditórias — tanto as ideais
como as más — de que o pai e a mãe dotados, constituem um
traço familiar do desenvolvimento das relações de objeto da is Em The Ego anã the lã (1923) S. E. XIX, escreve Freud
criança. De modo semelhante, tais atitudes conflitivas tam- (pág. 30): "Se elas (as identificações de objetos) alcançarem
bém se atribuem às figuras internalizadas, das quais algumas a superioridade e se tornarem excessivamente numerosas, mui-
formam o superego. to intensas e incompatíveis umas com as outras, não estará
14
Já tive ocasião de sugerir ("Notes on Some Schizoid Me- longe um desfecho patológico. Isto poderá resultar numa rup-
chanisms") que a identificação projetiva surge durante a po- tura do ego em consequência de ficarem separadas as várias
sição esquizoparanóide que se caracteriza pelos processos de identificações pelas resistências: talvez o segredo dos casos do
divisão. Ressaltei acima que a depressão de Fabian e seu sen- que se descreve como "personalidade múltipla" seja que as vá-
timento de inutilidade deram um ímpeto a mais a sua neces- rias identificações se apoderem, por sua vez, da consciência.
sidade de escapar de seu eu. A voracidade e a negação intensi- Mesmo quando as coisas não chegam até a esse extremo, per-
ficadas que caracterizam as defesas maníacas contra a depres- manece a questão de conflitos entre as várias identificações
são constituem, juntamente com a inveja, também importante nas quais o ego se divide, conflitos que não podem, afinal/ser
fator nas identificações projetivas. descritos como inteiramente patológicos".

96 97
sos do indivíduo que os vivência como tendo sido e influência delas sobre a vida do adulto. Nas últimas
ainda vão ser destruidores e perigosos para o ego e páginas abordei algumas das emoções, ansiedades,
seus objetos bons. introjeções e projeções infantis que tomei como sub-
A voracidade, a inveja, e o ódio, os agentes mo- jacentes ao caráter e experiências de Fabian quando
tores das fantasias agressivas, são traços dominan- adulto.
tes do caráter de Fabian, e o escritor nos mostra que Fundamentarei tais hipóteses lembrando alguns
essas emoções forçam Fabian a se apoderar dos bens outros episódios que não mencionei no relato do ro-
de outras pessoas, tanto materiais como espirituais; mance. Ao reunir os vários incidentes por esse ângu-
eles o impelem irresistivelmente para o que descrevi lo particular, não seguirei a ordem cronológica nem
como identificações projetivas. Em certa passagem, do livro nem do desenvolvimento de Fabian. Estou
quando Fabian já tinha feito o pacto com o Demó- antes considerando-os como a expressão de certos
aspectos do desenvolvimento infantil, e temos que
nio e estava prestes a experimentar seu novo poder,
nos lembrar que principalmente na infância, as ex-
exclama: "Humanidade, a grande taça da qual bre-
periências emocionais não são apenas consecutivas
vemente beberei!" Isto sugere o desejo voraz de be-
mas, em grande escala, simultâneas.
ber de um seio inexaurível. Podemos supor que essas
emoções e as identificações vorazes pela introjeção Há um interlúdio no romance que me parece de
e projeção foram primeiro experimentadas nas rela- importância fundamental para a compreensão do
ções de Fabian com seus objetos primitivos, a mãe desenvolvimento primitivo de Fabian. Fabian-Fru-
e o pai. Minha experiência analítica demonstra-me ges foi dormir muito deprimido com sua pobreza,
que os processos de introjeção e projeção na vida sua incapacidade e cheio de temor de que não pu-
ulterior repetem em certa medida o modelo das in- desse transformar-se em ninguém mais. Ao despertar,
trojeções e projeções mais primitivas; o mundo ex- vê que a manhã está brilhante e ensolarada. Veste-
terno é cada vez mais incorporado e expelido — re- se com mais apuro do que de costume, sai e sentado
introjetado e reprojetado. A voracidade de Fabian, ao sol fica num estado de exaltação. Todos os rostos
como se pode depreender da história, é reforçada a sua volta lhe parecem belos. Também pensa que
pelo ódio de si mesmo e o anseio de escapar à sua nessa admiração da beleza não existe qualquer "co-
personalidade. biça lúbrica tão propenso a contaminar mesmo seus
momentos de contemplação realmente séria; ao con-
trário, simplesmente admirava com um toque de res-
II peito quase religioso". Contudo, logo sente fome por-
que não tomara o café da manhã e a isto atribui li-
Minha interpretação do romance implica que o geira tontura que experimenta junto com a esperan-
ça e exaltação. Compreende, todavia, que este esta-
escritor apresentou aspectos fundamentais da vida
do de felicidade é também perigoso de vez que deve
emocional em dois planos; as experiências do bebé e
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incitá-lo à ação a fim de transformá-lo em outrem; ganta, como uma pedra. Sente-se angustiado. "Algo
mas antes êle é impelido pela fome a procurar ali- batia e palpitava como um segundo coração logo aci-
mento.16 Vai a uma padaria para comprar um pão. ma do estômago, mas algo volumoso e pesado." Ao
O próprio cheiro da farinha e do pão quente sempre pensar novamente na mulher conclui com amargura
faz Fruges recordar-se das férias de sua infância no que nunca tinha sido amado. Todos os seus casos com
interior, numa casa cheia de crianças. Acredito que moças tinham sido sórdidos e êle nunca encontrara
toda a loja transforma-se em sua mente na mãe nutri- numa mulher "aquela plenitude de seios nos quais
ria. Êle fica absorto ao contemplar a grande cesta só em pensar agora o torturava com sua imagem per-
de pães frescos e estende a mão em direção a eles sistente". Decide retornar à loja para pelo menos
quando ouve a voz de uma mulher perguntando-lhe olhá-la outra vez, pois seus desejos lhe parecem
o que deseja. Nisto se sobressalta "como um sonâm- "queimá-lo". Êle a considera ainda mais desejável e
bulo que subitamente tivesse sido despertado". Ela sente que olhá-la é como se fosse tocá-la. Vê então
também tem um odor muito bom — "como um trigal" um homem conversando com ela, com a mão afetuo-
— e deseja tocá-la, e êle se surpreende de temer fa- samente em seu braço "branco como leite". A mu-
zê-lo. Encanta-se com sua beleza e sente que por cau- lher sorri para o homem, e eles discutem planos para
sa dela, poderia renunciar a todas as suas convicções a noite. Fabian-Fruges está certo de que jamais es-
e esperanças. Acompanhando deliciado todos os seus quecerá esta cena, "estando todos os detalhes impreg-
movimentos quando ela lhe entrega o pão, detem-se nados de trágica importância". As palavras que o
sobre seus seios, cujos contornos êle vislumbra sob homem dissera a ela ainda lhe ressoam nos ouvidos.
a roupa. A brancura de sua pele embriaga-o e êle se E não pode "sufocar o som daquela voz que ainda
enche de um irresistível desejo de envolvê-la em seus continua a falar dentro dele." Desesperado cobre os
braços. Tão logo deixa a loja êle é invadido pela tris- olhos com as mãos. Não consegue recordar ocasião
teza. Subitamente experimenta forte impulso de lan- alguma em que tenha sofrido ardentemente tais de-
çar o pão ao solo e pisá-lo com "seus negros sapatos sejos.
reluzentes... de maneira a insultar a natureza sa- Vejo nos pormenores desse episódio o desejo po-
grada do pão". A seguir recorda-se de que a mulher derosamente revivido de Fabian pelo seio da mãe,
tocou-o e "numa paixão de desejo frustrado morde com a frustração e ódio resultantes; seu desejo de
furiosamente a parte mais grossa do pão". Ataca pisar o pão com os sapatos pretos expressa seus ata-
mesmo seus restos, esmagando-os no bolso, e ao mes- ques sádico-anais e seu morder furiosamente o pão,
mo tempo sente uma migalha arranhando-lhe a gar- o seu canibalismo e seus impulsos sádico-orais. Toda
a situação parece internalizada e todas as suas emo-
16
Esse estado de exaltação, a meu ver, compara-se à aluci- ções, com o desapontamento e ataques resultantes,
nação da realização de desejos (Freud), que a criança sob a também se aplicam à mãe internalizada. Isso é de-
pressão da realidade, em particular da fome, não podem man-
ter por muito tempo. monstrado por Fabian-Fruges ao esmagar furiosa-
100 101
mente os resíduos do pão no bolso, e pelo seu senti- e acusações se voltam contra Deus. Por que Êle o
mento de que aquela migalha arranhava como uma criara "tão doente e imundo como um rato envene-
pedra sua garganta e (logo depois) que um segundo nado?" Em seguida, recorda-se de um velho livro
coração mais volumoso palpitava dentro dele, sobre sobre as inúmeras almas que poderiam ter chegado
seu estômago. Nesse mesmo episódio a frustração a viver mas que não nasceram. Isso foi assim uma
experimentada ao seio e na relação mais primitiva questão de escolha de Deus, e tal pensamento o con-
com a mãe parece intimamente ligada à rivalidade forta. Torna-se mesmo exaltado porque está vivo e
com o pai. Isto representa uma situação muito pri- "coloca as mãos sobre o peito para se assegurar de
mitiva em que o bebé, privado do seio da mãe, sente que seu coração ainda pulsa." A seguir, pensa que
que alguém mais, principalmente o pai, levou-o para essas são ideias infantis, mas conclui que "a própria
si e o desfruta — uma situação de inveja e ciúme que verdade" é "a concepção de uma criança". Logo de-
me parece parte dos estágios mais primitivos do com- pois acende velas votivas em todos os pontos vagos
plexo de Édipo. Também aqui o arrebatado ciúme do altar. Uma voz interna tenta-o novamente, dizen-
de Fabian-Fruges pelo homem que êle acredita pos- do o quanto seria belo ver a mulher da loja à luz de
suir à noite a mulher da loja se refere também a todas aquelas pequenas velas.
uma situação interna; pois sente poder ouvir dentro Minha conclusão é que sua culpa e desespero se
de si a voz do homem falando com a mulher. Eu relacionam com a destruição fantasiada da mãe ex-
concluiria que o incidente que êle presenciou sob tão terna e interna e seus seios, e a rivalidade assassina
intensas emoções representa a cena primária que com o pai, isto é, com o sentimento de que seus obje-
internalizou no passado. Quando, nesse estado emo- tos bons internos e externos foram destruídos por
cional, cobre os olhos com as mãos êle, a meu ver, êle. Essa ansiedade depressiva ligava-se a uma perse-
revive o desejo da criancinha de nunca ter visto e cutória. É que Deus, representando o pai, fora acusa-
nem incorporado a cena primária. do de tê-lo feito uma criatura má e envenenada. Êle
A parte seguinte desse capítulo trata do senti- oscila entre essa acusação e um sentimento de satis-
mento de culpa de Fabian-Fruges quanto a seus de- fação por ter sido criado de preferência às almas não
sejos que êle teme venham destruir "como o fogo nascidas e por estar vivo. Sugiro que as almas que
consome o lixo." Entra numa igreja e apenas verifica nunca nasceram representam os irmãos e irmãs não
que não há água benta na pia, que está "inteira- nascidos de Fabian. O fato de êle ser filho único foi
mente seca", e fica bastante indignado quanto a se- causa tanto de culpa — visto que foi escolhido para
melhante negligência dos deveres religiosos. Ajoe- nascer, enquanto os outros não o foram — como de
Iha-se num estado de depressão e pensa que seria satisfação e gratidão para com o pai. A ideia religio-
necessário um milagre para aliviar-lhe a culpa e a sa de que a verdade é "a concepção de uma criança"
tristeza e solucionar seus conflitos quanto à religião assume assim outro significado. O maior ato da cria-
que ressurgiram nesse momento. Logo suas queixas ção é criar uma criança, pois isto significa perpetuar

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a vida. Julgo que quando Fabian-Fruges põe velas III
em todos os pontos vazios do altar e as acende, isto
significa engravidar a mãe e dar vida aos bebés não É significativo que o primeiro encontro de Fa-
nascidos. O desejo de ver a mulher da loja à luz bian com o demónio ocorra quando se sente intensa-
das velas expressaria assim o desejo de vê-la grávida mente frustrado porque a mãe, que insistiu para
com todos os filhos que êle lhe daria. Aqui encon- que êle comungasse no dia seguinte, o havia assim
tramos o desejo incestuoso "pecaminoso" pela mãe impedido de ter um novo caso amoroso naquela noi-
bem como a tendência para a reparação devolvendo- te; e quando Fabian se rebela e realmente vai en-
Ihe todos os bebés que êle tinha destruído. Nesse contrar-se com a moça, ela não aparece. Naquele mo-
sentido, sua indignação a respeito da pia "inteira- mento entra o Demónio; êle representa nesse con-
mente seca" não tem apenas uma base religiosa. Ve- texto, a meu ver, os impulsos perigosos que são es-
jo nela a ansiedade da criança a respeito da mãe timulados na criancinha quando a mãe a frustra.
frustrada e abandonada pelo pai, ao invés de ser ama- Nesse sentido, o Demónio é a personificação dos im-
pulsos destrutivos do bebé.
da e engravidada por êle. Tal ansiedade é particular-
Isto, contudo, apenas aborda um aspecto da re-
mente intensa nas crianças muito pequenas e que são lação complexa com a mãe, um aspecto ilustrado
filhos únicos, porque a realidade de que nenhuma por Fabian tentando projetar-se dentro do garçom
outra criança nascera parece confirmar o sentimento que lhe traz o frugal café da manhã (no romance,
de culpa de que impediram as relações sexuais dos sua primeira tentativa de assumir a personalidade
pais, a gravidez da mãe e a chegada de outros bebés de outro homem). Os processos projetivos dominados
pelo ódio e pelo ciúme e por ataques ao corpo da pela voracidade fazem, como repetidamente tenho
mãe.17 Uma vez que suponho que Fabian-Fruges ex- observado, parte da relação do bebé com a mãe, mas
pressara sua destruição do seio da mãe ao atacar o são particularmente intensos quando a frustração é
pão que a mulher da loja lhe vendeu, concluo que a frequente. 18 A frustração reforça tanto o desejo vo-
pia "inteiramente seca" também representa o seio raz de gratificação ilimitada como os desejos de es-
esvaziado e destruído pela sua voracidade infantil vaziar o seio e de entrar no corpo da mãe de maneira
a obter à força a gratificação que ela retém. Vimos
na relação com a mulher da loja os desejos impe-
1T
Abordo aqui uma das causas essenciais para a culpa e a in- tuosos de Fabian-Fruges pelo seio e o ódio que a frus-
felicidade da mente infantil. A criança em idade muito tenra tração despertou nele. O todo do caráter de Fabian e
sente que seus impulsos e fantasias sádicos são onipotentes e
por conseguinte, tiveram, têm e terão consequências. Ela se seus fortes sentimentos de ressentimento e privação
sente de modo semelhante quanto a seus desejos e fantasias
de reparação, mas aparece que com frequência a convicção de is Conforme ressaltei em várias conexões, a necessidade da
seus poderes de destruição ultrapassa de muito a confiança em identificação projetiva provém não só da voracidade como de
sua capacidade construtiva. várias causas.
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sustentam a hipótese de que ele se sentira muito jos. Não obstante, às vezes ela representa a mãe ideal
frustrado na sua relação alimentar mais primitiva. que não devia ter vida sexual.
Tais sentimentos seriam revividos em relação ao gar- Em contraste com a mãe que deve ser idolatrada
çom se êle representar um aspecto da mãe — a mãe como a Madona, há outro aspecto dela. Considero a
que o alimentou mas realmente não o satisfez. A transformação no assassino Esménard como uma ex-
tentativa de Fabian de transformar-se no garçom re- pressão dos impulsos infantis de assassinar a mãe,
presentaria assim um reviver do desejo de se intro- cuja relação sexual com o pai não só vivida como
duzir na mãe de maneira a roubá-la e por conseguin- uma traição ao amor do bebe por ela, mas inteira-
te obter mais alimento e satisfação. É também signi- mente sentida como má e indigna. Esse sentimento
ficativo que o garçom — o primeiro objeto em quem está subjacente à equivalência inconsciente entre a
Fabian pretendia transformar-se — seja a única pes- mãe e a prostituta, característica da adolescência.
soa cuja permissão êle solicita (permissão que o Berthe, que é evidentemente considerada uma mu-
garçom recusa). Isto implicaria que a culpa tão niti- lher promíscua, aproxima-se na mente de Fabian-
damente expressa na relação com a mulher da loja Esménard do tipo da prostituta. Outro exemplo da
está ainda presente na relação com o garçom.19 mãe como uma figura sexual má é a velha da loja
No episódio com a mulher da loja, Fabian-Fruges sombria, que vende cartões postais obscenos ocultos
experimenta toda a gama de emoções em relação à por trás de outros artigos. Fabian-Fruges experi-
mãe, isto é, desejos orais, frustração,, ansiedades, menta repulsa e prazer ao contemplar quadros obs-
culpa e a necessidade de reparar; êle também revive cenos, e também se sente perseguido pelo ruído da
o desenvolvimento do seu complexo de Édipo. A com- estante giratória. Creio que isto expressa o desejo
binação de desejos físicos apaixonados, de afeição e do bebé de vigiar e ouvir a cena primária assim como
de admiração indica que houve época em que a mãe sua repulsa contra tais desejos. A culpa ligada a tais
de Fabian representou para êle tanto a mãe em re- observações concretas ou fantasiadas, nas quais os
lação a quem êle experimenta desejos orais e geni- sons ouvidos frequentemente desempenham um pa-
tais quanto a mãe ideal, a mulher que seria vista à pel, deriva-se de impulsos sádicos contra os pais nes-
luz das velas votivas, isto é, seria venerada. É ver- sa situação e também se relaciona com a masturba-
dade que êle não consegue êxito nesse culto na igre- ção que amiúde acompanha tais fantasias sádicas.
ja, de vez que percebe não poder refrear seus dese- Outra figura que representa a mãe má é a em-
19
pregada da casa de Camille, que é uma velha hipócri-
Ao formular essa interpretação, me dou conta de que esta
não é a única linha em que esse episódio poderia ser explicado. ta, tramando com o tio mau contra os jovens. A pró-
O garçom também poderia ser encarado como o pai que não pria mãe de Fabian é vista sob uma luz semelhante
satisfazia suas expectativas orais; e o episódio da mulher da
loja significaria assim mais um passo atrás na direção do re- quando insiste em que êle vá se confessar. É que Fa-
lacionamento materno com todos os seus desejos e desaponta- bian mostra-se hostil ao padre confessor e odeia con-
mentos .

106 107
fessar-lhe os pecados. A exigência da mãe está, por- sos.20 Pareceria por conseguinte que em Fabian um
tanto, fadada a representar para êle uma conspiração impulso no sentido de provocar a morte estava em
entre os pais, aliada contra os desejos agressivos e conflito com uma necessidade voraz de prolongar a
sexuais da criança. A relação de Fabian com a mãe, vida e, portanto, a vida do pai internalizado, pene-
representada por essas várias figuras, mostra tanto a trando em outras pessoas e concretamente rouban-
desvalorização e o ódio, quanto a idealização. do-lhes as vidas. Esta luta interior entre a busca da
morte e o combate a ela fazia parte do seu estado
mental instável e irrequieto.
IV A relação de Fabian com o pai internalizado con-
centrava-se, como acabamos de ver, na necessidade
Há apenas alguns indícios acerca da relação pri- de prolongar a vida do pai e na de revivê-lo. Dese-
mitiva de Fabian com o pai, mas são significativos. jo mencionar outro aspecto do pai interno morto. A
culpa que se relaciona com a morte do pai — resul-
Ao falar das identificações introjetivas de Fabian, su-
tante dos desejos de morte contra êle tende a trans-
geri que seu intenso apego ao relógio do pai e os formar o pai morto internalizado num perseguidor.
pensamentos que nele despertava quanto à vida do Há um episódio no romance de Green que mostra a
pai e seu fim prematuro demonstravam amor e sim- relação de Fabian com a morte e com os mortos. An-
patia pelo pai e tristeza pela sua morte. Quanto às tes de Fabian fazer o pacto, o Demónio leva-o à noi-
observações do escritor de que Fabian desde a in- te numa excursão a uma casa sinistra, onde se acha
fância "fora perseguido pelo sentimento de certa pre- reunido estranho grupo. Fabian verifica ser o centro
sença interior..." concluí que essa presença interior de intensa atenção e inveja. O que invejam nele é
representava o pai internalizado. indicado pelos murmúrios, "É pelo d o m . . . " O
Acredito que o anseio de compensar a morte pre- "dom", como sabemos, é a fórmula mágica do de-
matura do pai e, em certo sentido, conservá-lo vivo, mónio que dará a Fabian o poder de transformar-se
muito contribuiu para o desejo impetuoso e voraz de em outras pessoas e, como lhe parece, prolongar-lhe
Fabian de viver a vida plenamente. Diria que êle a vida indefinidamente. Fabian é bem acolhido pelo
"subalterno" do Diabo, um aspecto muito sedutor
também foi voraz por amor ao pai. Por outro lado,
do Demónio, sucumbe ao seu encanto e se deixa per-
em sua busca incansável de mulheres e desprezo pela
suadir a aceitar o "dom". Parece que as pessoas reu-
saúde, Fabian também reviveu o destino do pai que nidas visam representar os espíritos dos mortos que
se presumia ter morrido prematuramente como re- não receberam o "dom" ou deixaram de utilizá-lo
sultado de sua vida dissoluta. Tal identificação foi bem. O "subalterno" do Demónio refere-se a elas
reforçada pela saúde precária de Fabian, pois êle
tinha a mesma doença cardíaca de que o pai sofrera 20
Isto constitui um exemplo da influência mútua dos fatôres
e muitas vezes fora advertido a não praticar exces- físicos (possivelmente herdados) e dos emocionais.

108 109
com desprezo, dando a impressão de que foram in- dade persecutória e a depressiva tê-lo-iam obrigado
capazes de viver plenamente suas vidas; talvez as a recuar de uma expressão tão ostensiva de seus de-
menospreze porque se venderam ao Demónio, e em sejos edipianos. Já descrevi suas atitudes conflitivas
vão. A conclusão provável é que essas pessoas insa- em relação à mãe — de novo um conflito entre o
tisfeitas e invejosas também representam o pai mor- amor e o ódio — que contribuíram para o seu afastar-
to de Fabian, porque Fabian teria atribuído ao pai se dela como objeto de amor e para reprimir seus
— que de fato desperdiçara a vida — tais sentimentos sentimentos edipianos.
de inveja e voracidade. Sua ansiedade corresponden- As dificuldades de Fabian em relação ao pai têm
te, temendo que o pai internalizado desejasse exaurir- que ser consideradas em conexão com sua voracida-
lhe a vida, somou-se tanto à necessidade de Fabian de, sua inveja e seu ciúme. O seu transformar-se em
de escapar ao seu eu e quanto ao seu desejo voraz
Poujars é motivado por voracidade, inveja e ódio
(numa identificação com o pai) de roubar as vidas
de outras pessoas. violento, tal como a criança os experimenta em re-
A perda prematura do pai muito contribuiu para lação ao pai que é adulto e potente e que, na fanta-
sua depressão, mas as raízes dessas ansiedades po- sia da criança, possui tudo porque possui a mãe.
dem ser encontradas novamente em sua infância, pois Referi-me à descrição que o escritor faz da inveja
se presumirmos que a intensa emoção de Fabian em de Fabian por Poujars nestas palavras: "Ah! o sol.
relação ao amante da mulher da loja é a repetição Amiúde lhe parecia que o senhor Poujars o conserva-
de seus primeiros sentimentos edipianos, chegaríamos va oculto no bolso."21
à conclusão de que êle experimentou fortes desejos A inveja e o ciúme, reforçados pelas frustrações,
de morte contra o pai. Como sabemos, os desejos de contribuem para a sensação de mágoa e de ressenti-
morte e o ódio contra o pai como um rival conduzem mento do bebé contra os pais e estimulam o desejo
não somente à ansiedade persecutória como também de inverter os papéis e despojar a eles. Da atitude
— porque entram em conflito com o amor e a com- de Fabian, quando trocou de lugar com Poujars e
paixão — a graves sentimentos de culpa e depressão contempla com um misto de desprezo e piedade a seu
na criancinha. É significativo que Fabian, que possui antigo eu antipático, deduzimos o quanto se alegra
o poder de transformar-se em qualquer pessoa que
de ter invertido os papéis. Outra situação na qual
êle deseje, nunca pensou sequer em transformar-se
no invejado amante da mulher que êle admira. Pare- Fabian castiga uma figura de pai mau surge quando
ce que se houvesse efetivado semelhante transfor- 2Í
Um dos significados do sol no bolso pode ser a mãe boa a
mação, teria sentido que usurpava o lugar do pai e quem o pai carrega dentro de si. É que a criancinha, con-
dava livre curso a seu ódio assassino em relação a forme acentuei anteriormente, sente que quando se acha pri-
vada do seio da mãe é o pai que o recebe. O sentimento de
êle. Tanto o temor ao pai como o conflito entre o que o pai contém a mãe boa, roubando-a assim do bebé, suscita
amor e o ódio, isto é, do mesmo modo que a ansie- a inveja e a voracidade e também constitui importante estí-
mulo à homossexualidade.
110 111
é Fabian-Camille: ele insulta e enraivece o velho tio parecia capaz de verdadeiro amor por uma mulher.
de Camille antes de abandonar a casa. Interpretei o encontro com a mulher da loja como
Na relação de Fabian com o pai, como na rela- um reviver de seus sentimentos edipianos primitivos.
ção com a mãe, podemos perceber o processo de idea- A elaboração infeliz desses sentimentos e ansiedades
lização e seu corolário, o medo dos objetos persecutó- explica seu desenvolvimento sexual ulterior. Sem
rios. Isto se torna claro quando Fabian se transfor- tornar-se impotente, desenvolvera a divisão em duas
mou em Fruges cuja luta interior entre seu amor a tendências, descrita por Freud como "amor sagrado
Deus e a atração pelo Demónio é muito aguda; Deus e profano (ou animal)". 22
e o Diabo nitidamente representam o pai ideal e o pai Mesmo esse processo de divisão deixou de alcan-
inteiramente mau. A atitude ambivalente em relação çar seus objetivos, pois na realidade êle jamais en-
ao pai também se demonstra quando Fabian-Fruges controu uma mulher a quem pudesse idealizar mas
acusa Deus (o pai) de tê-lo criado como um ser tão que semelhante pessoa existia em sua mente se vê
mal dotado: contudo, experimenta gratidão por lhe de seu perguntar-se se a única mulher que pudesse
haver Êle lhe dado a vida. Dessas indicações con- plenamente satisfazê-lo seria "uma estátua de marfim
cluo que Fabian sempre esteve em busca do pai ideal e ouro." Como vimos no papel de Fabian-Fruges, ex-
e que isto constituiu um forte estímulo para suas perimentou êle uma admiração apaixonada vizinha
identificações projetivas. Mas em sua busca do pai da idealização pela mulher da loja. Estava, eu diria,
ideal êle falha: está destinado a falhar porque é im- inconscientemente buscando a vida inteira a mãe
pelido pela voracidade e pela inveja. Todos os ho- ideal que havia perdido.
mens nos quais se transforma passam a ser desprezí- Os episódios nos quais Fabian se transforma no
veis e fracos. Fabian os odeia por desapontá-lo e rico Poujars ou no Esménard fisicamente poderoso,
exulta com a desgraça de suas vítimas. ou finalmente no homem casado (Camille, que possui
uma bela esposa), sugerem uma identificação com o
pai, baseada no seu desejo de ser como êle e de
V tomar-lhe o lugar como homem. No romance não há
nenhum indício de que Fabian seja homossexual.
Sugeri que algumas das experiências emocionais Encontra-se, contudo, uma indicação de homossexua-
que ocorrem durante as transformações de Fabian es- lidade em sua forte atração física pelo "subalterno"
clarecem seu desenvolvimento mais primitivo. Obte- do Demónio — um homem jovem e elegante cuja
mos uma imagem de sua vida sexual adulta pelo pe- persuasão sobrepuja as dúvidas e ansiedades de Fa-
ríodo precedente a seu encontro com o Demónio, isto
22
é, quando êle é ainda o Fabian original. Já mencionei "Sobre a Tendência Universal à Depreciação na Esfera do
que os relacionamentos sexuais de Fabian eram efé- Amor (Contribuições à Psicologia do Amor I I ) " (1912) trad.
bras. da S. E. XI da Imago Editora Ltda. Rio de Janeiro 1970,
meros e terminavam em desapontamento. Êle não pág. 159.

112 113
bian em fazer um pacto com o Demónio. Já me re- cionei que o caráter de Fabian, a natureza de sua
feri ao temor de Fabian do que imagina ser as pro- voracidade, sua inveja e ressentimento, indicam que
postas sexuais do Demónio em relação a êle. Mas o suas necessidades orais tinham sido muito grandes
desejo homossexual de ser amante de seu pai mani- e nunca foram superadas. Podemos supor que tais
festa-se mais diretamente em relação a Elise. Sentir- sentimentos de frustração se estenderam ao pai; é
se atraído por Elise — pelos seus olhos amorosos — que nas fantasias da criancinha, o pai é o segundo
traduzia, como assinala o escritor, uma identificação objeto de quem se esperam gratificações orais. Em
com ela. Por um momento êle é tentado a transfor- outras palavras, o lado positivo da homossexuali-
mar-se nela, se apenas pudesse ter a certeza de que dade de Fabian também foi perturbado na sua ori-
o elegante Camille a amaria. Mas êle compreende gem.
que isto não poderia acontecer e decide não se trans-
O fracasso em modificar os desejos e ansiedades
formar em Elise.
orais fundamentais tem muitas consequências. Em
Nesse contexto o amor não correspondido de última análise, significa que a posição esquizopara-
Elise parece expressar a situação edipiana invertida nóide não foi elaborada com êxito. Julgo que isto
de Fabian. Colocar-se no papel de uma mulher ama- se aplicava a Fabian e portanto êle não lidara ade-
da pelo pai significaria deslocar ou destruir a mãe quadamente também com a posição depressiva. Por
e provocaria intensa culpa; de fato, na história Elise essas razões, sua capacidade de reparar fora preju-
tem como rival odiada a desagradável mas bela es- dicada e êle não pôde lidar ulteriormente com seus
posa de Camille — outra figura materna, a meu ver. sentimentos de perseguição e de depressão. Em con-
É interessante que somente perto do fim Fabian che- sequência, suas relações com os pais e com as pes-
ga a experimentar o desejo de transformar-se em soas em geral eram muito insatisfatórias. Tudo isso
mulher. Isto poderia estar relacionado ao apareci- implica, conforme minha experiência tem demons-
mento de desejos e anseios reprimidos, e portanto trado, que êle era incapaz de estabelecer com segu-
com uma diminuição das intensas defesas contra seus rança o seio bom, a mãe boa, em seu mundo interno 23
primitivos impulsos femininos e passivo-homos- — uma falha inicial que por sua vez o impediu de
sexuais. desenvolver intensa identificação com o pai bom. A
Desse material podem se deduzir algumas con- excessiva voracidade de Fabian, até certo ponto
clusões sobre as graves deficiências de que sofre
oriunda de sua insegurança em relação a seus obje-
Fabian. Sua relação com a mãe esteve fundamental-
tos internos bons, influenciou tanto seus processos
mente perturbada. Ela é segundo sabemos, descrita
introjetivos como projetivos e — de vez que estamos
como mãe zelosa, voltada sobretudo para o bem-estar
físico e moral do filho, mas incapaz de afeição e ter- 23
A internalização segura da mãe boa — um processo de im-
nura. Parece provável que tenha tido com êle a mes- portância fundamental —• varia em grau, e nunca é tão com-
ma atitude que quando êle era criancinha. Já men- pleta que não possa ser abalada por ansiedades oriundas de
fontes internas ou externas.

114 115
também examinando o Fabian adulto — os processos patrão depois de ter-se comportado mal ali, foi leva-
de reintrojeção e reprojeção. Todas essas dificulda- do para casa e permanecera inconsciente desde então.
des contribuíram para sua incapacidade de estabele- Quando êle se refere à visita de Camille, ela pensa
cer uma relação amorosa com uma mulher, ou seja, que êle estivera delirando. Acaso pretenderia o autor
para a perturbação do seu desenvolvimento sexual. fazer-nos pensar que toda a história represente as
A meu ver, êle oscilava entre uma homossexualida- fantasias de Fabian durante a moléstia que precedeu
de intensamente reprimida e uma heterossexualida- sua morte? Isso implicaria em que todas as perso-
de instável. nagens fossem figuras de seu mundo interno e mais
Já mencionei grande número de fatôres externos uma vez confirma que a introjeção e a projeção atua-
que desempenharam importante papel no desenvol- vam nele na mais íntima interação.
vimento infeliz de Fabian, tais como a morte prema-
tura do pai, a falta de afeto da mãe, sua pobreza, a
natureza insatisfatória de seu trabalho, seu conflito VI
com a mãe sobre religião e — ponto muito importante
— sua doença física. Desses fatos podemos deduzir Os processos subjacentes à identificação proje-
algumas outras conclusões. O casamento dos pais tiva são retratados bem concretamente pelo autor.
de Fabian obviamente foi infeliz, conforme é indica- Uma parte de Fabian literalmente abandona seu eu
do pelo pai ao procurar prazeres alhures. A mãe não e penetra em sua vítima, acontecimento que em am-
era apenas incapaz de demonstrar calor de senti- bas as partes se acompanha de intensas sensações fí-
mento mas também, como podemos presumir, era sicas. Sabemos que a parte expelida de Fabian sub-
uma mulher infeliz que procurava consolo na reli- merge em graus variáveis dentro de seus objetos e
gião. Fabian era filho único e sem dúvida solitário. perde as lembranças e características pertencentes ao
O pai morreu quando Fabian ainda estava na escola Fabian original. Devemos, portanto, concluir (acom-
e isso privou-o de sua ulterior educação e das pers- panhando a concepção muito concreta do processo
pectivas de uma carreira bem sucedida; também projetivo do escritor), que as lembranças de Fabian
exerceu o efeito de estimular seus sentimentos de e os demais aspectos de sua personalidade são deixa-
perseguição e depressão. dos no Fabian rejeitado que deve ter retido boa par-
Sabemos que todos os acontecimentos desde sua te de seu ego quando ocorreu a divisão. Essa parte
primeira transformação até sua volta a casa devem de Fabian, adormecida até que os aspectos expeli-
ter acontecido em três dias. Durante esses três dias, dos de sua personalidade retornem, representa, a meu
como soubemos no final quando Fabian-Camille rein- ver, aquele componente do ego que os pacientes in-
corpora-se ao seu eu anterior, Fabian estivera de conscientemente sentem que retiveram enquanto ou-
cama, inconsciente, sob os cuidados da mãe. Confor- tras partes são projetadas no mundo externo e per-
me ela lhe diz, êle desmaiara no escritório de seu didas.

116 117
Os termos espacial e temporal com os quais o partes expelidas e projetadas de sua personalidade
romancista descreve esses acontecimentos são na com aquelas que êle deixou para trás; (2.°) os moti-
realidade aqueles em que nossos pacientes experi- vos subjacentes à escolha de objetos dentro dos
mentam tais processos. O sentimento de um paciente quais se projeta; e (3.°) até que ponto nesses proces-
de que não mais comanda partes do seu eu, de que sos a parte projetada do seu eu se submerge no obje-
estão distantes ou que desapareceram de todo é na- to ou o controla.
turalmente uma fantasia inerente aos processos de l.°) A ansiedade de Fabian de que êle irá ten-
divisão. Mas tais fantasias têm consequências de tar aliviar seu ego expelindo partes e projetando-as
grande alcance e influenciam de modo vital a estru- dentro de outras pessoas se expressa, antes que inicie
tura do ego. Têm o efeito de que as partes do seu eu suas transformações, pela maneira com que olha suas
das quais êle se sente alienado, amiúde incluindo roupas amontoadas sem ordem sobre uma cadeira:
suas emoções, não são na época aecessíveis nem ao "Êle tinha ao olhá-las, uma horrível sensação de que
analista, nem ao paciente 24 . O sentimento de que não se via, mas a um eu assassinado, ou de alguma ma-
sabe para onde foram suas partes que êle dispersou neira destruído. As mangas vazias do paletó tinham,
pelo mundo externo constitui fonte de grande ansie- pendendo inertes acima do chão, um ar desalentado
dade e insegurança. 25 de tragédia."
Considerarei a seguir as identificações projeti- Também sabemos que Fabian, quando se trans-
vas de Fabian de três ângulos: (1.°) a relação das formou em Poujars (isto é, quando os processos de
divisão e de projeção acabavam de ocorrer), está mui-
24
Há outro lado de tais experiências. Como descreve Paula to preocupado com sua pessoa anterior. Pensa que
Heimann em "A Contribution to the re-evaluation of the poderia desejar voltar ao seu eu original, e estando,
Oedipus complex —• The early stages" (New Directions in
Psycho-Analysis) Londres, (1955) pág. 240, os sentimentos cons- por conseguinte, ansioso de que Fabian deve ser le-
cientes de um paciente também podem expressar seus proces- vado para casa, preenche um cheque em seu favor.
sos de divisão.
23
Sugeri em "Mecanismos Ksquizóides" que o temor de ficar A importância ligada ao nome de Fabian tam-
aprisionado dentro da mãe como consequência da identifica- bém indica que sua identidade estava ligada àque-
ção projetiva está subjacente a várias situações de ansiedade las partes suas que foram deixadas para trás e que
e entre elas a claustrofobia. Acrescentaria agora que a iden-
tificação projetiva pode resultar no temor de que a parte per- elas representavam o núcleo de sua personalidade;
dida do eu jamais seja recuperada porque está enterrada den- o nome era parte essencial da fórmula mágica e é
tro do objeto. Na história, Fabian sente — tanto depois de sua
transformação em Poujars como em Fruges — que se encontra significativo que a primeira coisa que lhe ocorre,
sepultado e nunca mais poderá escapar. Isso implica que êle quando, sob a influência de Elise, experimenta o an-
morrerá dentro de seus objetos. Há outro ponto que desejo
mencionar aqui: ao lado do temor de ser aprisionado dentro da seio de readquirir seu antigo eu, é o nome "Fabian".
mãe, verifiquei que outro fator que contribui para a claustro-
fobia é o medo relacionado ao interior do próprio corpo e aos Penso que os sentimentos de culpa por ter abando-
rjerigos que ali o ameaçam. Citando novamente os versos de nado e desertado um componente precioso de sua per-
Milton: "Tu te tornaste sim (ó pior das prisões) o Cárcere de
ti mesmo". sonalidade contribuíram para o anseio de Fabian de

118 119
ser êle próprio novamente — um anseio que irresis- Édipo de Fabian e a intensa rivalidade com o pai.
tivelmente o impeliu para casa no fim do romance. Essa sua parte potencialmente homicida foi perso-
2.°) A escolha de sua primeira próxima vítima, nificada por Esménard. Transformando-se Fabian
o garçom, torna-se facilmente compreensível se pre- em Esménard, projetou assim dentro de outra pes-
sumirmos, conforme sugeri acima, que êle represen- soa e viveu de novo algumas de suas próprias ten-
tava a mãe de Fabian; é que a mãe constitui o pri- dências destrutivas. A cumplicidade de Fabian no
meiro objeto de identificação da criancinha tanto pela assassinato é ressaltada pelo Demónio, que lhe re-
introjeção como pela projeção. lembra, após sua transformação em Fruges, serem
Alguns dos motivos que impeliram Fabian a pro- as mãos que estrangularam Berthe apenas, alguns
jetar-se em Poujars já foram ventilados; sugeri que minutos antes, as suas próprias.
êle desejava transformar-se no pai rico e poderoso, Chegamos agora à escolha de Fruges. Fabian
roubando-o assim de todas as suas posses e punindo-o. tem muito em comum com Fruges, em quem, con-
Ao fazê-lo, estava também estimulado por um moti- tudo, tais características são muito mais pronuncia-
vo que nesse contexto desejo ressaltar. Julgo que das. Fabian se inclina a negar o domínio que a re-
os impulsos e fantasias sádicos de Fabian (expressos ligião (e que também significa Deus — o pai) exer-
no desejo de controlar e punir o pai) eram algo que ce sobre êle, e atribui seus conflitos religiosos à in-
êle sentia possuir em comum com Poujars. A cruel- fluência da mãe. Os conflitos de Fruges sobre reli-
dade de Poujars, conforme Fabian o julgava, tam- gião são agudos, e conforme descreve o autor, êle es-
bém representava a própria crueldade e a ânsia de tá plenamente consciente de que a luta entre Deus
poder de Fabian. e o Demónio domina sua vida. Fruges constantemente
O contraste entre Poujars (que afinal se re- luta contra seus desejos de luxúria e de riqueza; sua
velou doentio e infeliz) e o viril jovem Esménard foi consciência o impele à extrema austeridade. Em Fa-
apenas um fator que contribuiu para a escolha de bian o desejo de ser tão rico quanto as pessoas que
Fabian do segundo como objeto de identificação. êle inveja é também muito pronunciado, mas êle não
Creio que a causa principal da decisão de Fabian de tenta restringi-lo. Os dois também têm em comum
transformar-se em Esménard, embora êle fosse anti- suas buscas intelectuais e uma curiosidade intelectual
pático e repelente, era que Esménard representava muito acentuada.
uma parte do eu de Fabian, e que o ódio homicida Essas características comuns predisporiam Fa-
que impele Fabian-Esménard a assassinar Berthe é
bian a escolher Fruges para a identificação projetiva.
uma repetição das emoções que Fabian experimentou
Penso, contudo, que outro motivo entra nessa esco-
na infância em relação à mãe quando esta o frustrou,
lha. O Demónio, desempenhando aqui o papel de
conforme êle julgava, oral e genitalmente. O ciúme
um superego orientador, ajudou Fabian a deixar Es-
de Esménard de qualquer homem a quem Berthe fa-
ménard e advertiu-o de que evitasse de entrar numa
vorecia renova de forma extrema o complexo de
pessoa em quem êle submergisse tanto que nunca
120 121
escaparia de novo. Fabian se apavora por ter-se trans- pacidade para amar, Fabian pode identificar-se com
formado num assassino, que, a meu ver, significa ter a infeliz paixão de Elise por Camille; a meu ver êle
sucumbido a sua parte mais perigosa — aos seus im- também torna-se capaz de experimentar amor e de-
pulsos destrutivos; ele portanto escapa trocando os sejos pelo pai. Concluiria que Elise veio representar
papéis com alguém completamente diferente de sua uma parte boa do seu eu.
escolha anterior. Minha experiência tem demonstra- Além disso, eu sugeriria que Elise também re-
do que a luta contra uma identificação esmagadora presenta uma irmã imaginária. É bem sabido que
— seja por introjeção, seja por projeção, muitas as crianças têm companheiros imaginários. Eles re-
vezes impele as pessoas a identificações com objetos presentam, principalmente na vida de fantasia do
que revelam características opostas. (Outra conse- filho único, irmãos ou irmãs mais velhos ou mais
quência de tal luta é uma fuga indiscriminada para jovens, ou um gémeo, que nunca nasceram. Pode-se
dentro de uma multiplicidade de outras identifica- admitir que Fabian, que era filho único, muito teria
ções e flutuações entre elas. Tais conflitos e ansie- ganho com a companhia de urna irmã. Tal relação
dades amiúde se perpetuam, e enfraquecem ainda também o teria ajudado mais a elaborar o seu com-
mais o ego.) plexo de Édipo e a adquirir mais independência da
mãe. Na família de Camille, tal relação realmente
A escolha seguinte de Fabian, Camille, dificil-
existe entre Elise e o irmão mais moço de Camille.
mente teria algo em comum com êle. Mas através
de Camille, assim parece, Fabian identifica-se com Devemos lembrar aqui que os esmagadores sen-
Elise, a moça que está perdidamente apaixonada por timentos de culpa de Fabian-Fruges, na igreja, pa-
Camille. Como observamos, Elise representava o la- reciam relacionar-se a ter sido êle escolhido, em lu-
do feminino de Fabian e os sentimentos dela por gar de outras almas que nunca chegaram a viver.
Camille seu amor homossexual irrealizado pelo pai. Interpretei o seu acender velas votivas e seu ima-
Ao mesmo tempo, Elise também representava a par- ginar a mulher da loja por elas rodeada como uma
te boa de seu eu que era capaz de ter anseios e amar. idealização dela (a mãe como santa) e uma expressão
A meu ver, o amor infantil de Fabian pelo pai, vin- do seu desejo de reparar trazendo à vida os irmãos
culado como estava aos seus desejos homossexuais e e irmãs não nascidos. Principalmente os filhos mais
a sua posição feminina, tinha sido perturbado na novos e os filhos únicos amiúde experimentam inten-
base. Também frisei que êle era incapaz de transfor- so sentimento de culpa por sentirem que seus impul-
mar-se numa mulher porque isto teria representado sos de ciúme e de agressão impediram a mãe de dar
uma realização dos desejos femininos profundamente à luz nenhum outro filho. Tal sentimento também
reprimidos na relação edipiana invertida com o pai. se liga a temores de retaliação e perseguição. Tenho
(Não estou tratando neste contexto de outros fatô- repetidamente verificado que o temor e a suspeita
res que impedem a identificação feminina, principal- de colegas de escola ou de outras crianças ligavam-
mente o medo da castração.) Com o despertar da ca- se a fantasias que os irmãos e irmãs não nascidos ti-

122 123
nham afinal nascido e eram representados por quais- cupa com o destino delas. Isto implicaria que êle in-
quer crianças que pareciam ser hostis. O anseio por trojeta seus objetos bem como se projeta neles —
irmãos e irmãs amistosos é acentuadamente influen- conclusão que está em harmonia com o meu ponto de
ciado por semelhantes ansiedades. vista reafirmado na introdução a este capítulo de
Até aqui não discuti por que Fabian escolheu, que a projeção e a introjeção interatuam desde o iní-
em primeiro lugar, identificar-se com o Demónio — cio da vida.
fato sobre o qual se baseia o enredo. Frisei anterior- Ao isolar um motivo importante para a escolha
mente que o Demónio representava o pai sedutor e de objetos para a identificação descrevi, com a fi-
perigoso; êle também representava partes da mente nalidade de apresentação, que isto ocorre em duas fa-
de Fabian, o superego e tanto quanto o id. No ro- ses: (a) há certa base comum, (b) ocorre a identifica-
mance, o Demónio não sente preocupação pelas suas ção. Mas o processo, como o examinamos em nosso
vítimas; extremamente voraz e implacável, êle pa- trabalho analítico, não é tão dividido, de ver que o
rece o protótipo de identificações projetivas hostis e indivíduo, para sentir que êle tem muito em comum
más que, no romance, se descrevem como intrusões com outra pessoa, contribui com projetar-se naquela
violentas nas pessoas. Diria que êle mostra de forma pessoa (e o mesmo se aplica ao introjetá-la). Esses
extremada aquele componente da vida emocional processos variam em intensidade e duração e de tais
infantil que é dominada pela onipotência, peia vora- variações dependem o vigor e a importância de se-
cidade e pelo sadismo, e são essas as características melhantes identificações e suas vicissitudes. Nesse
que Fabian e o Demónio têm em comum. Portanto, sentido, desejo chamar a atenção para b fato de que,
Fabian identifica-se com o Demónio e executa todas enquanto os processos que descrevi muitas vezes pa-
as suas ordens. recem operar de modo simultâneo, temos que consi-
É significativo — e penso expressar um aspecto derar cuidadosamente em cada estado ou situação
importante da identificação — que ao transformar-se se, por exemplo, a identificação projetiva predomina
sobre os processos introjetivos ou vice-versa.26
numa nova pessoa Fabian, em certa medida, conserva
suas identificações projetivas anteriores. Isso se de- Sugeri em minhas "Notas Sobre Alguns Meca-
monstra pelo forte interesse — um interesse mescla- nismos Esquizóides" que o processo de reintrojetar
do de desprezo — que Fabian-Fruges manifesta pelo uma parte projetada do eu inclui uma internalização
destino de suas antigas vítimas, e também em seu de uma parte do objeto no qual a projeção se verifi-
sentimento de que, afinal de contas, êle é responsá- 2
3 Isso é de grande importância na técnica. É que sempre te-
vel pelo assassinato que perpetrou como Esménard. mos que escolher para interpretação o material que seja mais
Isso se revela com o máximo de clareza no final da urgente no momento; e nesse contexto diria que há trechos de
análise durante os quais alguns pacientes parecem inteiramen-
historia, pois suas experiências na pele das persona- te dominados pela projeção ou pela introjeção. Por outro lado,
gens em quem êle se transformou estão todas pre- é essencial lembrar que o processo oposto permanece sempre, até
certo ponto, operante e, portanto, entra, mais cedo ou mais
sentes em sua mente antes de morrer e êle se preo- tarde, novamente no quadro como fator predominante.

125
124
cou, parte que o paciente pode sentir como hostil, A situação com Fruges é diferente: nessa trans-
perigoso e muitíssimo indesejável de reintrojetar. formação o Fabian original permanece muito mais
Além disso de vez que a projeção de uma parte do ativo. Fabian critica muito Fruges e é essa maior
eu inclui a projeção de objetos internos, estes tam- capacidade de manter algo de seu eu original vivo
bém são reintrojetados. Tudo isso diz respeito até dentro de Fruges que lhe torna possível gradual-
que ponto na mente do indivíduo as partes projeta- mente reencontrar seu ego empobrecido e voltar a
das do eu são capazes de conservar sua força dentro ser êle mesmo de novo. Em linhas gerais, sustento
do objeto no qual foram introduzidas. Farei agora que a extensão em que o indivíduo sente seu ego
algumas sugestões sobre esse aspecto do problema, submergir nos objetos com quem êle se identifica
o que me leva ao meu terceiro ponto. pela introjeção ou pela projeção é da máxima im-
3.°) No romance, conforme frisei anteriormen- portância para o desenvolvimento das relações de
te, Fabian sucumbe ao Demónio e se identifica com objeto e também determina a força ou a fraqueza
ele. Embora Fabian parecesse deficiente quanto à do ego.
capacidade de amar e à solicitude mesmo antes dis- Fabian recupera partes de sua personalidade
so, tão logo segue a orientação do Diabo fica inteira- após sua transformação em Fruges e ao mesmo tem-
mente dominado pela implacabilidade. Isso implica po acontece algo mui importante. Fabian-Fruges
que, ao identificar-se com o Demónio, Fabian su- observa que suas experiências lhe proporcionaram
cumbe totalmente à parte voraz, onipotente e destru- melhor compreensão de Poujars, de Esménard e mes-
tiva do seu eu. Quando Fabian se transformou em mo de Fruges, e que êle agora é capaz de experimen-
Poujars, conservou algumas de suas próprias atitu- tar simpatia por suas vítimas. Também através de
des, e particularmente uma opinião crítica da pes- Fruges, que gosta de crianças, desperta a afeição
soa em quem penetrou. Teme perder-se inteiramente de Fabian pelo pequeno George. George, como des-
dentro de Poujars, e é somente porque retém algo creve o autor, é uma criança inocente, encantada
da iniciativa de Fabian que é capaz de provocar a com a mãe e ansiosa por voltar para ela. Êle desperta
transformação seguinte. Contudo, quase perde intei- em Fabian-Fruges a recordação da infância de Fru-
ramente seu antigo eu quando se transforma no as- ges, e surge o desejo impetuoso de transformar-se em
sassino Esménard. De vez que no entanto o De-
George. Creio que êle está ansioso por recuperar a
mónio, que supomos ser também parte de Fabian —
capacidade de amar, em outras palavras, um eu in-
aqui o seu superego — o adverte e ajuda a escapar
fantil ideal.
do assassino, devemos concluir que Fabian não se
submergiu inteiramente em Esménard. 27 quanto perturbado —• mesmo na raiz — é, em certa medida,
inerente ao ego. Isso está de acordo com o meu ponto de vista
27 Diria que por mais intensamente que operem a divisão e a de que nenhuma criancinha poderia sobreviver sem possuir em
projeção, a desintegração do ego nunca é completa enquanto perto grau um objeto bom. São esse fatos que tornam possível
existir vida. É que creio que o anseio peia integração, con- à análise conseguir certa medida de integração, às vezes mes-
mo em casos muito graves.
126
127
Esse ressurgir de sentimentos de amor revela-se eram um complemento de seu ódio contra si, outro
de várias formas. Êle experimenta sentimentos apai- fator que o impele a entrar à força em outras pes-
xonados pela mulher da loja, que, a meu ver, signi- soas. A busca do eu ideal29 perdido, que constitui
ficava uma repetição de sua vida amorosa primitiva. importante característica da vida mental, inevita-
Outro passo nesse sentido é a sua transformação num velmente abrange a busca dos objetos ideais perdi-
homem casado e, portanto, sua entrada num círculo dos; é que o eu bom constitue aquela parte da per-
familiar. Mas a única pessoa que Fabian acha atraen- sonalidade vivenciada como estando numa relação
te e por quem se enamora é Elise. Já descrevi os vá- amorosa com os seus objetos bons. O protótipo de tal
rios significados que Elise tem para êle. Em parti- relação é o vínculo entre o bebé e a mãe. De fato,
cular, descobriu nela aquela parte dele que é capaz quando Fabian se reúne ao seu eu perdido, também
de amar, e se sente profundamente atraído por esse recupera o amor pela mãe.
lado de sua própria personalidade; isto é, êle também
descobriu algum amor por si mesmo. Física e mental- Com Fabian notamos que êle parecia incapaz de
mente, voltando sobre os passos que deu em suas uma identificação com um objeto bom ou admira-
transformações, é impelido para trás com urgência do. Várias razões teriam que ser discutidas nesse
crescente mais e mais para seu lar e para o Fabian contexto, mas desejo ater-me apenas a uma, como
enfermo que êle abandonara e que agora passa a re- explicação possível. Já frisei que a fim de identificar.
presentar a parte boa de sua personalidade. Vimos se intensamente com outra pessoa, é essencial sentir
que a simpatia por suas vítimas, a ternura por Geor- que há dentro do eu bastante base comum com aque-
ge, a solicitude por Elise e a identificação com sua le objeto. De vez que Fabian perdeu — assim pare-
paixão frustrada por Camille, bem como o desejo de ce — seu eu bom, êle não sentiu que havia bondade
uma irmã — todos esses passos são um desdobra- suficiente dentro dele para a identificação com um
mento de sua capacidade para amar. Sugiro que esse objeto verdadeiramente bom. Também poderia ter
desenvolvimento foi uma condição prévia para a ne- havido ansiedade, característica de tais estados men-
cessidade desesperada de Fabian de encontrar de no- tais, de medo de que o objeto admirado pudesse en-
vo o seu antigo eu, isto é, para a integração. Mesmo trar num mundo interno que é demasiadamente des-
antes de ocorrerem suas transformações, o anseio provido de bondade. O objeto bom é então conserva-
de recuperar a melhor parte de sua personalidade — do fora (com Fabian, a meu ver, as estrelas distan-
que, por ter sido perdida, afigurou-se ideal — tinha, tes). Mas quando êle redescobriu o seu eu bom, en-
como sugeri, contribuído para sua solidão e inquie-
tude; dera ímpeto a suas identificações projetivas 28 e 29 O conceito de Freud do ego ideal foi, como sabemos, o
precursor do seu conceito do superego. Mas existem algumas
28
características do ego ideal que não foram integralmente in-
O sentimento de haver dispersado a bondade e as partes corporadas ao seu conceito de superego. Minha descrição do
boas do eu pelo mundo externo aumenta a sensação de perda eu ideal que Fabian vem tentando recuperar aproxima-se, a
e de inveja dos outros que lhe parecem conter a bondade per- meu ver, muito mais dos pontos de vista originais de Freud
dida. sobre o ego ideal do que seus conceitos sobre o superego.

128 129
controu então também seus objetos bons e pôde iden- No fim, Fabian recupera o amor pela mãe e faz
tificar-se com eles. as pazes com ela. É significativo que êle reconhece
No romance, conforme observamos, a parte exau- sua falta de ternura, mas sente que ela teria sido me-
rida de Fabian também anseia por se reunir com as lhor se êle fosse um filho melhor. Atende aos apelos
partes projetadas áo seu eu. Quanto mais Fabian- da mãe para rezar e parece ter recuperado, após to-
Camille se aproxima de casa, mais inquieto se torna das as suas lutas, a crença e fé em Deus. As últimas
Fabian no seu leito de enfêrno. Recupera a cons- palavras de Fabian são "Pai Nosso", e pareceria que
ciência e caminha até a porta através da qual sua naquele momento, em que está pleno de amor pela
outra metade, Fabian-Camille, pronuncia a fórmula humanidade, retorna seu amor pelo pai. Aquelas an-
mágica. De acordo com a descrição do escritor, as siedades persecutórias e depressivas fadadas a se mo-
duas metades de Fabian anseiam por se reunirem. bilizarem pela aproximação da morte seriam em cer-
Isso significa que Fabian ansiava por integrar seu ta medida contrabalançadas pela idealização e pela
eu. Como vimos, esse anseio ligava-se a uma capaci- exaltação.
dade crescente de amar. Isso corresponde à teoria de Como já observamos, Fabian-Camille é impelido
síntese de Freud como uma função da libido — em para o lar por um impulso irresistível. Parece pro-
última análise, do Instinto de Vida. vável que seu sentido de morte iminente impele sua
Sugeri anteriormente que embora Fabian esti- necessidade de se reunir à parte abandonada de seu
vesse à procura de um pai bom, foi incapaz de en- eu. Pois admito que o medo da morte que êle havia
contrá-lo porque a inveja e a voracidade, aumenta- negado, embora soubesse de sua grave doença, sur-
das pela perda e pelo ódio, determinaram sua escolha giu em plena força. Talvez êle tivesse negado esse
de figuras paternas. Quando êle se torna menos res- medo porque sua natureza era tão intensamente per-
sentido e mais tolerante, seus objetos lhe surgem sob secutória. Sabemos quão cheio de mágoa êle estava
uma luz melhor, mas aí êle também se mostra me- contra o destino e contra os pais; o quão perseguido
nos exigente do que fora no passado. Parece não se sentia por sua personalidade insatisfatória. Em
mais reclamar que seus pais devam ser ideais e, por- minha experiência, o medo da morte é muito mais
tanto, pode perdoá-los pelas suas limitações. À sua intensificado se a morte é vivida como um ataque
maior capacidade para amar corresponde uma dimi- por objetos internos e externos hostis ou se êle sus-
nuição do ódio, e isso por sua vez resulta numa di- cita ansiedade depressiva por temor de que os obje-
minuição dos sentimentos de perseguição — tudo tos bons sejam destruídos por aquelas figuras hostis.
que se relaciona com a redução da voracidade e da (Essas fantasias persecutórias e depressivas podem
inveja. O ódio contra si foi um dos traços predomi- naturalmente coexistir). As ansiedades de natureza
nantes do seu caráter; junto com a maior capaci- psicótica são a causa desse medo excessivo de morte,
dade de amar e de tolerância com os outros, surgi- de que sofrem muitos indivíduos durante suas vidas;
ram a maior tolerância e o amor pelo seu eu. e os intensos sofrimentos mentais que, como algumas

130 131
observações me têm demonstrado, certas pessoas ex-
perimentam em seu leito de morte, se devem, a meu
ver, ao retorno de ansiedades psicóticas infantis.
Considerando que o romancista descreve Fabian
como uma pessoa inquieta e infeliz, cheio de mágoas,
seria de se esperar que sua morte fosse penosa e mo-
bilizasse as ansiedades persecutórias que acabo de Capítulo Quarto
mencionar. Contudo, não é isto o que ocorre na his-
tória, pois Fabian morre feliz e em paz. Qualquer SOBRE O SENTIMENTO DE SOLIDÃO
explicação para esse final inesperado não passa de
uma hipótese. Do ponto de vista artístico, foi pro-
vavelmente a melhor solução do romancista. Mas Tentar-se-á, no presente artigo, investigar a fon-
mantendo-me dentro da minha concepção das expe- te do sentimento de solidão. Por sentimento de so-
riências de Fabian que formulei nesse capítulo, in- lidão não desejo me referir à situação objetiva de
clino-me a explicar o final inesperado por nos apre- estar privado de companhia externa. Refiro-me ao
sentar a história as duas faces de Fabian. Até o pon- sentimento íntimo de solidão — o sentimento de
to em que as transformações começam, é o Fabian estar só independentemente de circunstâncias exter-
adulto, a quem conhecemos. No curso de suas trans- nas, de sentir-se solitário mesmo quando entre ami-
formações, encontramos as emoções, as ansiedades gos ou recebendo amor. Esse estado de solidão inter-
persecutórias e depressivas que caracterizaram, como na, eu acredito, resulta do anseio onipresente de um
acredito, seu desenvolvimento primitivo. Mas en-
estado interno perfeito inatingível. Tal solidão, ex-
quanto que na infância êle não fora capaz de supe-
rar essas ansiedades e alcançar a integração, nos três perimentada até certo ponto por todos, brota de an-
dias que o romance abrange, êle transpõe com êxito siedades paranóides e depressivas provenientes das
um mundo de experiências emocionais que a meu ansiedades psicóticas da criancinha. Essas ansieda-
ver conduz a uma elaboração das posições esquizo- des existem em certa medida em todo indivíduo em-
paranóide e depressiva. Em consequência da supera- bora sejam excessivamente intensas na doença; por-
ção das ansiedades psicóticas fundamentais da infân- tanto, a solidão também faz parte da doença, tanto
cia, a necessidade intrínseca de integração surge com na de natureza esquizofrênica como na depressiva.
plena força. Êle alcança a integração ao mesmo tem- De maneira a compreender como o sentimento de
po que reestabelece as relações com o objeto bom solidão se origina, temos que — como para outras ati-
e desse modo repara o que de mal havia feito na tudes e emoções — reportar-nos à primeira infância
vida.
e reconhecer sua influência sobre os estágios ulte-
riores da vida. Como tenho frequentemente descrito,
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o ego existe e atua desde o nascimento. A princípio na vida ulterior, pensamentos e sentimentos a uma
êle é extremamente falho na sua coesão e dominado pessoa afim, parece perdurar um anseio insatisfeito
pelos mecanismos de divisão. O perigo de ser destruí- por uma compreensão sem palavras — fundamental-
do pelo instinto de morte dirigido contra o eu con- mente pela relação mais primitiva com a mãe. Se-
tribue para a cisão dos impulsos em bons e maus; co- melhante anseio contribui para o sentimento de so-
mo resultado da projeção desses impulsos sobre o lidão e se origina da sensação depressiva de uma per-
objeto primário, também este se afigura dividido em da irreparável.
bom e mau. Como consequência, nos estágios, mais Mesmo na melhor hipótese, de uma maneira ou
primitivos, a parte boa do ego e o objeto bom são de outra, a relação feliz com a mãe e o seio nunca
em certa medida protegidos, uma vez que a agressão deixa de ser perturbada, uma vez que a ansiedade
é dirigida para longe deles. Esses são os processos persecutória vai sempre surgir. A ansiedade perse-
peculiares de divisão que descrevi como a base de cutória chega ao seu clímax durante os três primei-
segurança relativa da criancinha pequena, na medi- ros meses de vida — o período da posição esquizo-
da em que segurança nesse estágio pode ser alcan- paranóide; ela aparece desde o começo da vida como
çada; enquanto que outros processos de divisão, tais resultado do conflito entre os instintos de vida e
como aqueles que conduzem à fragmentação, são pre- de morte e a experiência do nascimento contribue
judiciais ao ego e a sua força. para ela. Toda vez que os impulsos de destruição
Juntamente com a ânsia para dividir, há desde surgem com muita intensidade, a criancinha, graças
o início da vida um impulso no sentido da integração, à projeção, sente a mãe e o seio como persecutórios,
que aumenta com o crescimento do ego. Esse pro- e experimenta, por conseguinte, inevitavelmente cer-
cesso de integração baseia-se na introjeção do obje- ta insegurança; essa insegurança paranóide é uma
to bom, primariamente um objeto parcial — o seio das raízes da solidão.
da mãe, embora outros aspectos da mãe também se Quando a posição depressiva se manifesta — ge-
incluam mesmo na relação mais primitiva. Se o obje- ralmente na metade inicial dó primeiro ano de vida
to interno bom se instalou com relativa segurança, — o ego já está mais integrado. Isto se expressa num
êle constitue o núcleo do desenvolvimento do ego. sentido mais determinado de totalidade, de maneira
Uma relação primitiva satisfatória com a mãe que a criancinha apresenta uma capacidade maior
(não necessariamente baseada na amamentação ao para relacionar-se com a mãe, (e ulteriormente com
seio, de vez que a mamadeira também pode simboli- outras pessoas), já como pessoa total. Então a ansie-
camente representá-lo) implica em contato íntimo dade paranóide, como um elemento da solidão, ce-
do inconsciente da m ã e c õ m o dá criança. Isso é o de gradativamente lugar à ansiedade depressiva. O
fundamento para a experiência mais completa de próprio processo de integração, no entanto, traz em
compreensão e essencialmente se vincula ao estágio si novos problemas, e examinarei alguns deles e sua
pré-verbal. Por mais gratificante que seja expressar, relação com a solidão.

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Um dos fatôres que estimulam a integração é isso continua assim durante toda a vida. A integra-
que os processos de divisão pelos quais o ego primi- ção plena e permanente nunca é possível, de vez que,
tivo busca neutralizar a insegurança só são eficazes certa polaridade entre os instintos de vida e de mor-
temporariamente, e o ego se vê compelido a tentar te sempre persiste e se mantém como a fonte mais
chegar a bons termos com os impulsos destrutivos. profunda de conflito. É que integração plena jamais
Essa exigência conduz a uma necessidade de integra- se alcança, o completo entendimento e aceitação de
ção. É que a integração, quando alcançada, apresen- nossas emoções, fantasias e ansiedades não é pos-
taria o efeito de mitigar o ódio através do amor e tor- sível e isto perdura como fator importante na soli-
nar desse modo os impulsos destrutivos menos inten- dão. O anseio de se compreender também se liga à
sos. O ego iria então se sentir mais seguro não só necessidade de ser compreendido pelo objeto bom
quanto à sua sobrevivência como também quanto internalizado. Uma expressão desse anseio é a fan-
à preservação do seu objeto bom. Esse é um dos mo- tasia universal de ter um gémeo — fantasia para a
tivos por que a falta de integração é extremamente qual Bion chamou a atenção em artigo inédito. 1 Essa
penosa. figura gémea, conforme acredita êle, representa
A integração, todavia, é difícil de aceitar. A aquelas partes não-compreendidas e expelidas que o
aproximação dos impulsos de destruição e dos amo- indivíduo anseia por recuperar, na esperança de al-
rosos, e dos aspectos bom e mau do objeto desperta cançar sua totalidade e completo entendimento; cer-
a ansiedade de que os sentimentos de destruição ve- tas vezes, o indivíduo sente que elas seriam suas par-
nham a sobrepujar os sentimentos amorosos e a com- tes ideais. Em outras ocasiões, o gémeo também re-
prometer o objeto bom. Há, assim conflito entre o presenta, de fato, um objeto interno idealizado, dig-
buscar a integração como salvaguarda contra os im- no de toda a confiança.
pulsos destrutivos e o temer a integração por receio
de que os impulsos de destruição comprometam o Há uma outra conexão entre a solidão e o pro-
objeto bom e as partes boas do eu, e tenho ouvido blema da integração que precisa ser considerado nes-
pacientes expressarem a dificuldade de integração se ponto. Geralmente se supõe que a solidão pode
em termos de se sentirem solitários e abandonados, originar-se da convicção de que não há pessoa ou
por estarem inteiramente sós com o que, para eles, grupo a que se pertença. Pode-se considerar esse não
constituía a parte má do e u / E o processo se torna pertencer, como apresentando um significado bem
muito mais penoso quando um superego rígido de- mais profundo. Por muito que a integração prossiga,
senvolveu uma repressão muito intensa dos impulsos ela não chega a eliminar a sensação de que certos
de destruição e tenta mantê-la. componentes do eu não sejam utilizáveis, porque eles
É apenas passo a passo que a integração pode i Em seu "Seconã Thoughts" (Heineman; e próxima tradu-
ocorrer e a segurança que ela alcança pode ser per- ção da Imago Editora), 'W. R. Bion (1967) insere o aludido tra-
balho, além de enriquecê-lo com numerosos comentários. (No-
turbada tanto por pressão interna como externa; e ta do tradutor).

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são expelidos e não podem ser recuperados. Algumas outras pessoas; em primeiro lugar, a mãe ou o seio.
dessas partes expelidas, como irei mostrar mais Essa projeção se origina dos impulsos orais-anais-
adiante, com maior detalhe, são projetadas sobre ou- uretrais, sendo as partes do eu onipotentemente ex-
tras pessoas, contribuindo para a sensação de não se pelidas nas substâncias corporais sobre a mãe de
estar na plena posse de seu eu, de que não se per- maneira a controlá-la e tomar posse dela. Ela não
tence inteiramente a si nem, por conseguinte, a nin- é então percebida como uma individualidade separa-
guém mais. Além disso, a sensação é de que as par- da mas como um aspecto do eu. Se tais excreções
tes perdidas estão solitárias. são expelidas com ódio, a sensação é de que a mãe
Já sugeri que as ansiedades paranóides e as de- é perigosa e hostil. Não são porém expelidas e proje-
pressivas nunca são inteiramente vencidas mesmo tadas apenas as partes más, mas também as partes
pelas pessoas que não estão enfermas e constituem boas. Comum ente como expus, à medida que o ego
a base de certa sensação de solidão. Há diferenças se desenvolve, diminuem a divisão e a projeção, e o
individuais consideráveis na maneira pela qual se ex- ego se torna mais integrado. Se, no entanto, o ego
perimenta a solidão. Quando a ansiedade paranóide fôr muito fraco, o que considero uma característica
é relativamente forte, embora ainda dentro da faixa inata, e se houve dificuldades no nascimento e no
da normalidade, a relação com o objeto interno bom início da vida, a capacidade de integração •— de reu-
pode ser perturbada e prejudicada a confiança na nir as partes expelidas do ego — é também fraca e
parte boa do e u / E m consequência, surge um au- há, além disso, uma tendência maior para a divisão
mento da projeção dos sentimentos paranóides e sus- de maneira a evitar a ansiedade suscitada pelos im-
peitas sobre os outros, com uma sensação resultante pulsos destruidores dirigidos contra o eu e o mundo
de solidão. externo. Essa incapacidade de suportar a ansiedade
Na doença esquizofrênica estabelecida, esses fa- é assim de uma importância extrema. Ela não só au-
tôres estão necessariamente presentes, embora bas- menta a necessidade de dividir o ego e o objeto ma-
tante exacerbados; a falta de integração que até aqui ciçamente, que pode conduzir a um estado de frag-
tenho examinado dentro do limite da normalidade mentação, como também impossibilita a elaboração
é agora encarada sob sua forma patológica — em das ansiedades primitivas.
verdade, todas as características da posição esquizo- Vemos no esquizofrénico o resultado desses pro-
paranóide estão presentes de modo maciço. cessos não resolvidos. O esquizofrénico se sente ina-
Antes de passarmos à apreciação da solidão no pelàvelmente em fragmentos e teme que jamais re-
esquizofrénico, é importante considerar com maior cupere a posse do seu eu. O simples fato de se sentir
detalhe, alguns dos processos da posição esquizo- tão fragmentado redunda na sua incapacidade de in-
paranóide, principalmente a divisão e a identifica- ternalizar adequadamente seu objeto primário (a
ção projetiva. A identificação projetiva se baseia na mãe) como objeto bom e, por conseguinte, no lhe
divisão do ego e na projeção de partes do eu sobre faltar a base da estabilidade; êle não pode confiar
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num objeto bom nem externo nem interno, nem po- certo otimismo quanto ao resultado. Esse otimismo
de confiar no seu eu. Este fator se liga à solidão, se baseia sobre o fato de que há uma tendência para
de vez que êle aumenta a sensação do esquizofrénico a integração, mesmo nessas pessoas doentes, e uma
de estar sozinho, por assim dizer, com a sua des- relação, embora não desenvolvida, entre o objeto bom
graça. A sensação de estar rodeado de um mundo hos- e o eu bom.
til, característica do aspecto paranóide da doença es- Desejo agora tratar da solidão característica de
quizofrênica, não só aumenta todas as suas ansieda- uma predominância da ansiedade depresiva, primei-
des como influencia de modo essencial, seus senti- ramente dentro do âmbito da normalidade. Tenho
mentos de solidão. amiúde me referido ao fato de que a vida emocional
Outro fator que contribui para a solidão do es- primitiva se caracteriza pelas experiências repetidas
quizofrénico é a confusão. Ela resulta de uma série de perda e de reaquisição. Sempre que a mãe não es-
de fatôres, principalmente a fragmentação do ego, tá presente, a criança sente que a perdeu, seja por-
e do uso maciço de identificação projetiva, de modo que a danificou, seja porque ela se transformou em
que êle se sente constantemente não só reduzido a perseguidor. A sensação de tê-la perdido equivale ao
fragmentos, corno confundido com outras pessoas. medo de que ela tenha morrido. Em razão da intro-
Mostra-se então incapaz de distinguir as partes boas jeção, a morte da mãe externa significa igualmente
das más do eu, o objeto bom do objeto mau, e a rea- a perda do objeto interno bom, e isto reforça na
lidade externa da interna. O esquizofrénico, assim, criança o temor de sua própria morte. Tais ansie-
não pode se compreender nem confiar em si. Tais fa- dades e emoções se incrementam na fase da posição
tôres, aliados a sua desconfiança paranóide dos ou- depressiva, embora, através da existência, o temor
tros, resultam num estado de retraimento que des- da morte constitua parte da solidão.
trói sua capacidade para estabelecer relações de obje-
to e retirar delas o reasseguramento e o prazer que Já sugeri que o sofrimento que acompanha os
podem contrabalançar a solidão ao fortalecer o ego. processos de integração também contribuem para a
Anseia ser capaz de estabelecer relações com as pes- solidão. É que isto significa defrontar-se com seus
soas, mas não o consegue. impulsos destruidores e partes odiadas do eu, que
É importante não subestimar a pena e o sofri- às vezes parecem incontroláveis e que, por conse-
mento do esquizofrénico. Aqueles não são tão fáceis guinte põem em risco o objeto bom. Com a integração
de descobrir por causa do seu uso defensivo cons- e um sentimento crescente de realidade, a onipotên-
tante do retraimento e da separação de suas emo- cia está fadada a diminuir, e isto de novo contribui
ções. Não obstante, eu e alguns de meus colegas, de para dificultar a integração, de vez que implica numa
que apenas menciono o Dr. Davidson, o Dr. Rosen- diminuição da capacidade para ter esperança. Con-
feld e a Dra. Hanna Segai, que temos tratado ou quanto haja outras fontes para ter esperança que
estamos tratando de esquizofrénico, conservamos se derivam da força do ego e da confiança em si e

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nos outros, um componente de onipotência sempre não progrediram suficientemente. Na medida em
faz parte do mesmo. que, em sua relação com o objeto bom, ainda há uma
A integração também significa a perda de um grande quantidade de ódio e, portanto, de temor, êle
pouco da idealização — tanto do objeto como de uma se sente incapaz de reparar adequadamente o objeto,
parte do eu — que desde o início coloria a relação donde sua relação com êle não lhe trazer nenhum alí-
com o objeto bom. A percepção de que o objeto bom vio mas apenas um sentimento de não ser amado e
nunca poderia se aproximar da perfeição que se es- ser odiado, e sentir de contínuo que o objeto está
perava do objeto ideal redunda na desidealização: ameaçado por seus impulsos destruidores. O anseio
e mais penoso ainda é o preceber de que em verdade, por chegar a vencer todas essas dificuldades em re-
não existe nenhuma parte ideal do eu. Em minha lação ao objeto bom constitue parte do sentimento
experiência, nunca se abandona completamente a de solidão. Nos casos extremos isso se expressa na
necessidade da idealização, ainda que no desenvolvi- tendência para o suicídio.
mento normal o defrontar a realidade interna e a Nas relações externas estão em ação processos
externa tenda a diminuí-la. Como me disse um pa- similares. O maníaco-depressivo pode apenas às ve-
ciente, embora admitindo o alívio obtido por algu- zes, e muito temporariamente, obter alívio de uma
mas medidas na integração, "o encanto se desfez". relação com uma pessoa bem intencionada, de vez
A análise revelou que o encanto que se desfez fora que, como logo projeta seu ódio, ressentimento, in-
a idealização do eu e do objeto, e a perda dele con- veja e medo, êle está constantemente cheio de des-
duziu aos sentimentos de solidão. confiança. Em outras palavras, suas ansiedades para-
Alguns desses fatôres entram num grau maior nóides ainda são muito intensas. O sentimento de so-
nos processos mentais característicos da doença ma- lidão do maníaco-depressivo se centra, por conse-
níaco-depressiva. O paciente maníaco-depressivo já guinte, mais sobre sua incapacidade de manter uma
deu alguns passos em direção à posição depressiva, convivência interna e externa com um objeto bom
ou seja, êle experimenta o objeto mais como um to- do que com a sua condição de estar em fragmentos.
do, e seus sentimentos de culpa, embora ainda pre- Examinarei algumas outras dificuldades da in-
sos a mecanismos paranóides, são mais fortes e me- tegração e tratarei especialmente do conflito entre
nos fugazes. Êle, por conseguinte, experimenta mais os componentes masculinos e femininos de ambos os
do que o esquizofrénico, o anseio de ter o objeto sexos. Sabemos que há um fator biológico na bis-
bom seguramente instalado dentro para preservá-lo sexualidade, mas aqui me interessa o aspecto psico-
e protegê-lo. Sente-se, todavia, incapaz de conseguir lógico. Nas mulheres existe universalmente o dese-
isto, de vez que, ao mesmo tempo, êle não elaborou jo de ser homem, expresso talvez com a maior clare-
suficientemente a posição depressiva, de modo que za em termos de inveja do pênis; de modo similar,
sua capacidade para a reparação, para a síntese do encontram-se nos homens a posição feminina, o an-
objeto bom e para alcançar a integração do ego seio de ter seios e de dar à luz filhos. Tais desejos

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se ligam a uma identificação com ambos os genitores te dar-se conta de que, estando em competição com
e se acompanham de sentimentos de competição e de a minha feminilidade, precisava destruir-me, e no
inveja, bem como de admiração pelos dotes cobiça- passado, sua mãe. Tal reconhecimento de que uma
dos. Tais identificações variam de intensidade e tam- parte sua precisava matar a leoa amada — a analista
bém de qualidade, dependendo de se é mais acentua- — que assim privá-lo-ia de seu objeto bom, condu-
da a admiração ou a inveja. Parte do desejo de inte- ziu-o a um sentimento não só de infelicidade e de
gração na criança de tenra idade é o anseio por in- culpa, mas também de solidão na transferência. Foi-
tegrar esses diferentes aspectos da personalidade. lhe ainda bastante desalentador reconhecer que a
Além disso, o superego impõe a exigência conflitiva competição com o pai forçou-o a destruir a potência
de se identificar com ambos os genitores, premido e o pênis do pai, representados pela serpente.
pela necessidade de reparar os desejos primitivos de Esse material levou a um trabalho ulterior e
roubá-los e de expressar o desejo de mantê-los vivos bastante penoso acerca da integração. O sonho da
internamente. Se o elemento de culpa fôr predomi- leoa, que acabo de mencionar, foi precedido de ou-
nante, êle prejudicará a integração de tais identifica- tro em que uma mulher se suicidava, atirando-se
ções. Se, no entanto, essas identificações se alcan- de um edifício muito alto e o paciente, contraria-
çam satisfatoriamente, elas se tornam uma fonte de mente a sua atitude habitual, não sentiu horror al-
enriquecimento e base para o desenvolvimento de vá- gum. A análise que, por aquela ocasião, se ocupava
rios dons e capacidades. bastante com sua dificuldade quanto à posição fe-
De maneira a ilustrar as dificuldades desse as- minina, que então se encontrava em seu clímax,
pecto particular da integração e sua relação com a mostra que a mulher representava sua parte femi-
solidão, citarei o sonho de um paciente. Uma menina- nina e que êle realmente ansiava que ela fosse des-
zinha estava brincando com uma leoa e segurava um truída. Êle sentiu que isto não só prejudicaria seu
arco para que ela pulasse através dele, mas do ou- relacionamento com as mulheres, como também com-
tro lado havia um precipício. A leoa obedece e mor- prometeria sua masculinidade e todas as suas ten-
re ao fazê-lo. Ao mesmo tempo, um menino matava dências construtivas, inclusive a reparação da mãe,
uma serpente. O paciente reconhece, uma vez que que se tornou clara em relação a mim. Semelhante
material semelhante havia surgido anteriormente, atitude de colocar toda sua inveja e competição em
que a meninazinha representava sua parte feminina sua parte feminina revelou-se uma maneira de divi-
e o garotinho sua parte masculina. A leoa apresenta- dir, e ao mesmo tempo parecia ofuscar sua verdadei-
va pronunciados vínculos comigo, na transferência, ra admiração e apreço pela feminilidade. Além disso,
dos quais apenas darei um exemplo. A meninazi- ficou evidente que, conquanto lhe parecesse que a
nha tinha consigo um gato, e isso levou a associa- agressão masculina era relativamente franca e, por
ções com o meu gato, que amiúde representava a mi- conseguinte, mais honesta, êle atribuía ao lado fe-
nha pessoa. Foi extremamente penoso para o pacien- minino a inveja e a decepção, e de vez que muito

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lhe desagradava toda insinceridade e desonestidade, amar a natureza êle tinha na verdade, conforme o
isso contribuía para suas dificuldades de integração. disse, "aceito dentro um objeto integrado".
A análise de tais atitudes, remontando a seus De maneira a compreender o quanto o paciente
sentimentos mais primitivos de inveja da mãe con- havia superado a sua solidão no tocante ao campo,
duziu a uma integração bem melhor das partes fe- conquanto ainda a experimentasse em relação à ci-
mininas e masculinas de sua personalidade e a uma dade, temos que acompanhar algumas de suas asso-
diminuição da inveja tanto do papel masculino, co- ciações relativas tanto à sua infância como à nature-
mo feminino. Isto lhe aumenta a capacidade para seus za. Êle me referiu que deve ter sido um bebé feliz,
relacionamentos e ajuda assim a combater a sensação bem alimentado pela mãe, e muito do seu material
de solidão. — principalmente na situação de transferência —
Darei agora outro exemplo, da análise de um confirmava semelhante suposição. Logo êle se deu
paciente, homem que não era infeliz nem doente, e conta de suas preocupações quanto à saúde de sua
bem sucedido no trabalho e em seus relacionamentos. mãe, e também de seu ressentimento acerca da ati-
Êle se dava conta de que sempre se sentira solitário tude dela algo rigorosa. A despeito disso, sua relação
em criança e que este sentimento de solidão nunca com ela era, de uma maneira geral, feliz, e êle con-
desaparecera inteiramente. O amor pela natureza ti- tinuou gostanto dela; mas sentia-se tolhido no lar
nha sido um traço significativo das sublimações de e se dava conta de um premente anseio de estar fora
tal paciente. Mesmo desde a tenra infância encontra- de casa. Parecia ter desenvolvido uma admiração
va bem-estar e satisfação quando ao ar livre. Numa demasiado precoce pelas belezas da natureza; e tão
sessão descreveu sua alegria por uma viagem que logo podia conseguir mais liberdade para estar fora
fêz pelo interior montanhoso e a seguir a repulsa de casa, isto se tornara seu maior prazer. Descrevia
que experimentou ao retornar à cidade. Interpretei, como, em companhia de outros meninos, costumava
como já o havia feito anteriormente, que para êle a gastar suas horas de liberdade vagando pelos bos-
natureza representava não apenas a beleza, mas tam- ques e campinas. Reconheceu certa agressividade sua?
bém a bondade, ou seja, o objeto bom que êle insta- contra a natureza, como o roubar ninhos e danificar
lara dentro. Respondeu, após uma pausa, que isto sebes. Ao mesmo tempo, estava convencido de que-
lhe parecia a verdade, porém que a natureza era semelhantes ataques não seriam perduráveis porque
não somente boa porque sempre havia nela muita a natureza sempre se refazia. A natureza, êle consi-
agressividade. Do mesmo modo, acrescentou êle, sua derava rica e invulnerável, em flagrante contraste
relação com o campe também não era inteiramente com sua atitude em relação à mãe. Seu relaciona-
boa, exemplificando o quanto, quando menino, cos- mento com a natureza parecia relativamente isento
tumava roubar ninhos, conquanto ao mesmo tempo de culpa, enquanto que, em sua relação com a mãe,
sempre tivesse desejado criar algo. Afirmou que, ao de cuja fragilidade êle se sentia responsável por
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motivos inconscientes, havia uma grande quantida- Noutra sessão, o paciente referiu, com um sen-
de de culpa. timento de culpa, que numa viagem ao campo, apa-
De seu material pude concluir que êle tinha, de nhara um rato silvestre e o pôs dentro de uma caixa,
algum modo, introjetado a mãe como um objeto bom no porta-malas do carro, como presente para seu
e fora capaz de alcançar certa síntese de seus senti- filho pequeno que, pensou êle, gostaria de tê-lo co-
mentos amorosos e hostis em relação a ela. Conseguiu mo animal de estimação. O paciente esqueceu-se do
também um bom nível de integração, mas este foi rato, só se lembrando dele no dia seguinte. Fêz es-
perturbado pela ansiedade persecutória e depressiva forços infrutíferos para encontrá-lo, de vez que o
relativa aos pais. Sua relação com o pai tinha sido animal roera a caixa e se escondeu no ângulo mais
muito importante para seu desenvolvimento, mas distante do porta-malas, onde ficava fora de alcan-
não cabe neste ponto específico do material. ce. Afinal, após repetidos esforços para apanhá-lo,
Referi-me à necessidade compulsiva desse pa- verificou que êle estava morto. A culpa do paciente
ciente de ficar fora de e semelhante fato se por ter se esquecido do rato silvestre, e assim lhe
vincula a sua claustrofobia. A claustrofobia como su- causado a morte, levou-o, no curso das sessões sub-
sequentes, a associações com pessoas falecidas, de
geri alhures, provém de duas fontes principais: da
cuja morte êle se sentia até certo ponto responsável,
identificação projetiva sobre a mãe, que origina uma
embora sem motivações racionais.
ansiedade de permanecer aprisionado dentro dela;
e da reíntrojeção cujo resultado é um sentimento de Nas sessões subsequentes houve uma riqueza de
que, dentro, se está prisioneiro de objetos internos associações com o rato silvestre, que parecia desem-
rancorosos. No que se refere a este paciente, acredi- penhar múltiplos papéis; representou uma parte que
tei que sua fuga para a natureza representava uma o paciente expelia, solitária e esvaziada. Por identi-
defesa contra ambas essas situações de ansiedade. ficação com o filho sentia-se além disso, privado de
Em certo sentido, seu amor pela natureza foi extraí- um companheiro potencial. Inúmeras associações re-
velaram que através de sua infância o paciente an-
do de sua relação com a mãe; a desidealização desta
siara por um companheiro de brinquedos de sua ida-
conduziu-o a transferir para a natureza a idealização.
de — anseio que ultrapassou a necessidade concreta
Com relação ao lar e à mãe, sentia-se muito solitário, de companheiros externos e resultava da sensação de
e foi este sentimento de solidão que se encontrou na que certas partes expelidas do seu eu não poderiam
base de sua repulsa pela cidade. Á liberdade e o ser reconquistadas. O rato silvestre também estava
deleite que a natureza lhe proporcionava consti- no lugar de um objeto bom seu, que êle encerrava
tuíam não só iima fonte de prazer, oriundo de um em seu interior — representado pelo carro — e em
intenso sentimento de beleza e ligado a seu senso ar- relação a que se sentia culpado e também temia que
tístico, mas também, um meio de contrabalançar a se tornasse retaliador. Uma de suas outras associa-
solidão fundamental que nunca o havia abandonado. ções, referente ao esquecimento, foi a de que o rato
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silvestre também representasse uma mulher aban- entre os impulsos destrutivos e seus efeitos; a agres-
donada . Tal associação surgiu após um feriado e im- sividade e o ódio, por conseguinte, parecem menos pe-
plicava em que não somente êle tinha sido abando- rigosos. Essa maior adaptação à realidade conduz a
nado pela analista mas que a analista fora deixada uma aceitação das próprias limitações e, em conse-
abandonada e solitária. A vinculção com sentimen- quência, alivia o ressentimento pelas frustrações pas-
tos similares em relação à mãe tornou-se clara no sadas . Ela abre também fontes de prazer provenien-
material, bem como a conclusão de que o paciente tes do mundo externo, e constitui assim outro fator
continha dentro um objeto morto ou solitário, que que diminui a solidão.
aumentava a sua solidão. Uma relação feliz com o primeiro objeto e uma
O material desse paciente apoia minha afirma- internalização satisfatória dele significa poder dar e
ção da existência de um vínculo entre a solidão e a receber amor. Em consequência, a criancinha pode
incapacidade para integrar suficientemente o objeto experimentar prazer não só quando é alimentada
bom, bem como aquelas partes do eu que a êle lhe como também como resposta à presença e ao afeto
pareciam inacessíveis. da mãe. As recordações de tais experiências felizes
Passarei agora a examinar de modo mais por- constituem um suporte para a criança de tenra ida-
menorizado os fatôres que normalmente mitigam a de quando se sente frustrada, de vez que aquelas se
solidão. A internalização relativamente estável do vinculam à esperança de tempos felizes vindouros.
seio bom é característica de certa força inata do ego. Além disso, há uma ligação íntima entre o prazer e o
Um ego forte está menos sujeito à fragmentação e é, sentimento de compreender e de ser compreendida.
por conseguinte, mais capaz de alcançar um grau de No momento do prazer, a ansiedade se alivia e a pro-
integração e uma boa relação primitiva com o obje- ximidade com a mãe e a confiança nela são o que
to primário. Além disso, uma internalização satis- mais importa. A identificação introjetiva e a proje-
fatória do objeto bom constitui a base da identifica- tiva, quando não excessivas, desempenham um papel
ção com êle que vai fortalecer o sentimento de bon- importante nesse sentimento de proximidade, pois
dade e a confiança tanto no objeto como no eu. Essa elas constituem o fundamento da capacidade para
identificação com o objeto bom mitiga os impulsos compreender e contribuem para a experiência de ser
de destruição e, desse modo, diminui também a se- compreendida.
veridade do superego. Um superego mais propício O prazer está sempre vinculado à gratidão; se
não faz exigências tão rigorosas ao ego; isto leva à esta gratidão é experimentada profundamente, ela
tolerância e à capacidade de suportar as limitações inclui o desejo de retribuir a bondade recebida e re-
dos objetos amados sem deteriorar a relação com eles. presenta assim a base para a generosidade. Há sem-
Uma diminuição da onipotência, que surge com pre uma conexão íntima entre o conseguir aceitar e
o progresso da integração e acarreta certa perda de dar, e ambos fazem parte da relação com o objeto
esperança, torna possível, no entanto, uma distinção bom e, por conseguinte, contrabalançam a solidão.
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Além disso, o sentimento de generosidade é o funda- o fugir para o objeto interno, que se pode expressar
mento da criatividade, e isto se aplica tanto às ativi- na tenra infância pela gratificação alucinatória, é
dades construtivas mais primitivas da criancinha amiúde empregada defensivamente como uma tenta-
quanto à criatividade do adulto. tiva de contrabalançar a dependência em relação ao
A capacidade para o prazer inclui também a pre- objeto externo. Em certos adultos, essa atitude re-
condição de certo grau de resignação que concorda dunda numa rejeição de qualquer companheirismo
em gozar do que se tem ao alcance sem demasiada que, nos casos extremos, constitui um sintoma de
voracidade por gratificações- inaccessíveis e sem ex- doença.
cessivo ressentimento diante da frustração. Seme- O anseio pela independência, que faz parte do
lhante adaptação já se pode observar em determina- amadurecimento, pode ser usado de modo defensivo
das criancinhas de baixa idade. A resignação se liga com a finalidade de sobrepujar a solidão. Uma dimi-
à tolerância e ao sentimento de que os impulsos des- nuição da dependência pelo objeto torna o indivíduo
trutivos não vão sobrepujar o amor, e que, por con- menos vulnerável e contrabalança também sua ne-
seguinte, a bondade e a vida serão preservadas. cessidade de uma proximidade interna e externa ex-
Uma criança que, a despeito de certa inveja e cessiva das pessoas amadas.
ciúme, chega a se identificar com os prazeres das gra- Outra defesa, principalmente na velhice, é a
tificações dos componentes de seu círculo familiar, preocupação com o passado de maneira a evitar as
irá consegui-lo também em relação a outras pessoas frustrações do presente. Certa idealização do passa-
na vida ulterior. Na velhice, poderá então lograr in- do penetra inevitavelmente nessas lembranças e se
verter a situação primitiva e identificar-se com as coloca a serviço da defesa. Nos jovens, a idealização
satisfações da juventude. Isso só poderá acontecer, do futuro se presta a um propósito semelhante. Cer-
se houve gratidão pelos prazeres passados, sem ex- to grau de idealização das pessoas e das motivações
cessivo ressentimento, de vez que aqueles não po- é uma defesa normal e constitui parte da busca dos
dem mais ser alcançados. objetos internos idealizados projetados sobre o mun-
Todos os fatôres do desenvolvimento sobre que do externo.
me detive, conquanto mitiguem o sentimento de so- A valorização dos outros e do êxito — origina-
lidão, nunca o eliminam por completo; podem, por riamente a necessidade infantil de ser valorizada
conseguinte, ser utilizados como defesas. Quando pela mãe — podem se utilizar como uma defesa con-
tais defesas são muito intensas e se reforçam mutua- tra a solidão. Tal método se revela, porém, muito
mente, a solidão amiúde não chega a ser experimen- ineficaz, quando utilizado em excesso, de vez que a
tada conscientemente. Certas criancinhas se utili- confiança em si não se estabelece então suficiente-
zam da extrema dependência da mãe como uma de- mente. Outra defesa, ligada à onipotência e que faz
fesa contra a solidão, e a necessidade de dependência parte da defesa maníaca, está numa utilização espe-
continua um modelo através da vida. Por outro lado, cífica da capacidade de esperar pelo que se deseja;

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isto pode conduzir a um otimismo exagerado e a uma trojeção, este quadro do mundo externo afeta o mun-
falta de iniciativa e pode se ligar a um sentido defi- do interno. Não são, no entanto, apenas os sentimen-
ciente da realidade. tos da criancinha acerca do mundo externo que se
A negação da solidão que, com frequência, se modificam pela projeção, mas a relação concreta da
usa como defesa, provavelmente interfere nas rela- mãe com o filho que, de maneiras indiretas e sutis,
ções com o objeto bom, em contraste com uma atitu- se influenciam pela resposta da criancinha a ela. Um
de em que se dá uma experiência concreta de soli- bebé satisfeito que suga com prazer, afugenta a an-
dão e ela se torna um estímulo para as relações de siedade da mãe; e a felicidade dela se expressa na
objeto. maneira de cuidar e de alimentar o bebé, diminuindo
Por fim, desejo indicar por que é tão difícil ava- assim a ansiedade persecutória deste e influenciando
liar a importância das influências internas e exter- sua capacidade de internalizar o seio bom. Ao con-
nas no aparecimento da solidão. Até agora neste es- trário, um bebe que apresenta dificuldades de se ali-
crito cuidei principalmente dos aspectos internos — mentar costuma despertar ansiedade e culpa na mãe,
mas estes não existem no vazio. Há uma interação e, desse modo, influenciar desfavoravelmente a rela-
constante entre os fatôres internos e externos da vida ção dela com êle. Nessas maneiras variáveis, há uma
mental, baseada nos processos de projeção e introje- interação constante entre o mundo interno e o exter-
ção que dão início às relações de objeto. no que perdura através da vida.
O primeiro impacto poderoso do mundo externo A interação dos fatôres externos e internos re-
sobre a criança de tenra idade é o desconforto de vá- vela um grande alcance sobre o aumento ou a dimi-
rias espécies ligado ao nascimento e que ela atribui a nuição da solidão. A internalização do seio bom, que
forças persecutórias hostis. Essas ansiedades para- só pode ocorrer de uma interação positiva entre os
nóides fazem parte de sua situação interna. Os fatô- elementos internos e externos, constitui um funda-
res internos também atuam desde o início; o conflito mento para a integração que mencionei como um
entre os instintos de vida e de morte ocasiona a defle- dos fatôres mais importantes na diminuição do sen-
xão do instinto de morte para fora e isto, segundo timento de solidão. Além disso, sabe-se bem que, no
Freud, desencadeia a projeção de impulsos destruti- desenvolvimento normal, quando se experimentam
vos. Acredito, no entanto, que ao mesmo tempo, a intensos sentimentos de solidão, há uma grande ne-
necessidade que o instinto de vida tem de encontrar cessidade de se buscarem os objetos externos, de vez
um objeto bom no mundo externo conduz igualmen- que a solidão parcialmente se afugenta pelos relacio-
te à projeção de impulsos amorosos. Dessa maneira, namentos externos. As influências externas, mor-
o quadro do mundo externo — representado, primei- mente a atitude de pessoas significativas para o in-
ro, pela mãe, e principalmente pelo seio, e baseado divíduo, podem, de outras maneiras, minorar a soli-
nas experiências concretas boas e más em relação a dão. Por exemplo, uma relação fundamentalmente
ela — é modificada pelos fatôres internos. Pela in- boa com os genitores torna mais suportáveis a perda

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da idealização e a diminuição do sentimento de oni-
potência. Os pais, aceitando a existência dos impul-
sos destrutivos da criança e deixando perceber que
são capazes de se proteger contra a agressividade
dela, conseguem diminuir-lhe a ansiedade quanto aos
efeitos de seus desejos hostis. Em consequência, ela
sente que o objeto interno é menos vulnerável e seu
eu menos destruidor.
Aqui apenas posso mencionar a importância do
superego em relação a todos esses processos. De um
superego rígido nunca se pode esperar indulgência
para os impulsos destrutivos; em verdade, sua exi-
gência é que eles não existissem. Embora o superego
se estruture sobretudo daquela parte que o ego ex-
pulsou e sobre a qual projetou os impulsos, êle tam-
bém se deixa inevitavelmente influenciar pela intro-
jeção das personalidades dos pais concretos e de sua
ESTA OBRA FOI EXECUTADA NA
relação com a criança. Quanto mais rígido o supe- C O M P A N H I A G R Á F I C A LUX,
rego, maior o sentimento de solidão, porque suas ri- ESTRADA DO GABINAL, 1521
JACAREPAGUÁ — GUANABARA
gorosas exigências aumentam as ansiedades depres-
sivas e paranóides.
Em conclusão, desejo reformular minha hipóte-
se de que conquanto o sentimento de solidão possa
diminuir ou aumentar pelas influências externas, êle
nunca pode ser completamente eliminado, porque a
tendência para a integração, assim como o pesar ex-
perimentado nesse mesmo processo, brotam de fon-
tes internas que continuam operantes pela vida
a fora.

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