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A chegada: um ensaio sobre o filme

[ALERTA DE SPOILERS]

“A chegada”: um ensaio

Prelúdio

Eu quase não vinha para Fortaleza. É natal e meus pais e irmão insistiram para que eu viajasse
para cá. Acabei vindo porque minha mãe usou um argumento infalível: o de que a cada ano que
passa é um ano a menos que temos juntos. É interessante isto porque o raciocínio dela é
invertido. Não seria um ano a mais cada ano que passamos juntos? Não. É um ano a menos
diante da morte. Esta impossibilidade de todas as possibilidades, como dizia um filósofo alemão
– que falarei dele mais a seguir. Eu vim para ter mais tempo. Para ganhar mais um ano. Eu não
sei como será o ano que vem, tampouco se estaremos juntos ou mesmo se eu estarei aqui.

Eu perdi as sessões do filme “A chegada” em Belém. Ele ficou muito brevemente em cartaz. O
meu amigo, Adilon Koury, insistiu para que eu fosse ver. Ele disse que este filme já poderia ser
considerado um clássico sci-fi. Eu cheguei a ir ao Cinépolis do Boulevard Shopping, em Belém,
mas ao chegar lá, na hora da sessão, conforme o site dizia, o filme fora trocado por um outro.
Não sei o motivo. Sei que fiquei sem assisti-lo. Então aproveitei esta minha visita a minha
família de Fortaleza, no natal deste ano, para assistir filme caso estivesse passando. E estava.

A sessão de “A Chegada” era no Cinépolis do Shopping Iguatemi. Eu estava na Livraria Leitura,


do Shopping RioMar e saí muito apressado para não perder a sessão. Os shoppings são
próximos, mas são muito grandes, é natal, e fiquei com muito medo de perder não chegar a
tempo. Achava que faltavam apenas dez minutos para começar. Mas no táxi para o Iguatemi,
percebi que eu estava uma hora adiantado. Como não durmo muito bem, às vezes tenho estas
confusões sobre o tempo. Normal. Ao menos fiquei feliz por não estar atrasado. Comumente
sempre me falta tempo. Eu tento não o obedecer.

Cheguei no Iguatemi. Subi o primeiro lance de escadas. Logo diante de mim, tive a forte
impressão que tinha visto minha amiga, Juliana Diniz, com sacolas nas mãos, vestindo rosa. Só
poderia ser ela. Cabelo curto. Magra. De andar tão elegante. Mas, acho que não. Seria uma
coincidência muito interessante se fosse. Uma pena. Parei para tomar um café na Copenhagen
enquanto não iniciava o filme. Subi e peguei uma fila enorme. Consegui comprar e corri para a
sala 7. Pude respirar fundo. Estava sentado. Finalmente iria assistir ao filme.
1. “O português é uma língua diferente das demais de origem românicas”

O filme começa com as cenas da Dra. Louise Banks com a sua filha. Do nascimento, passando
pelas cenas com a filha criança, brincando de xerife, até de sua morte, provavelmente por
câncer. Parece uma espécie de introdução, prelúdio para a estória central. Logo mais Louise
aparece em uma universidade. Ela é professora de Linguística. A cena de sua aula se dá com
Louise iniciando uma explicação sobre a língua portuguesa, uma língua que, segundo ela,
diferencia-se das demais línguas de origem românica. Não se fala muito sobre, apenas que teria
o português se iniciado na Idade Média, na região da Galícia. O comentário mais interessante
dela é o de que naquela época, a língua seria vista como uma expressão artística. Uma sugestão
interessante de Louise, ao colocar o português como uma língua diferente das demais pela sua
expressão artística.

Não sei ao certo o que Louise quis dizer. É possível lembrar que, com traços castelhanos, mas
especialmente galegos, o português surge como uma língua musical, “cantigada”, falando de
amor. A aula logo é interrompida pelos toques de celular dos alunos. Eles estão atônitos com as
notícias. Parecendo bem alheia a tudo, Louise pergunta então o que se passa. E sabe pela TV
instalada na sala de aula que 12 naves chegaram à Terra. 12 “conchas”, como passaram a ser
chamadas pelos americanos. E em lugares diferentes do globo.

“A chegada” é mesmo o filme que tem se dito sobre. É um clássico comparável a outros do
mesmo gênero (“Contatos imediatos de terceiro grau”, Interestellar”, “2001: uma odisseia no
espaço”, “Contato”, “Missão Marte”, “Prometheus”, “A esfera”, etc). Mas tem algo nele que me
chama muito a atenção: não é um filme só para físicos, biólogos, astrônomos ou religiosos.
Ainda bem que temos aqui um filme sobre linguagem. Aliás, sobre linguagem e sobre tempo. É
um filme que avança sobre o “cientificismo fantástico” de Hollywood. A questão filosófica sobre
Ser, Logos e Tempo, finalmente chega ao sci-fi. Que bom ver um filme de sci-fi que consegue se
aprofundar nos grandes temas das Humanidades.

“Eu sou humana”. Isto é o que tenta dizer a Dra. Louise Banks para os alienígenas de sete patas.
Eles são muito parecidos com polvos. E parecem lançar uma espécie de tinta preta na tela que os
divide com os seres humanos. Louise desiste das tentativas fracassadas de traduzir as
mensagens de voz pelos visitantes extraterrenos. Isto seria óbvio. Se eles possuem constituição
muito distinta dos nossos corpos, provavelmente porque são de um mundo com pressão,
natureza da atmosfera e gravidade diferentes, seus sons propagados no nosso ar terrenos seriam
distorcidos, sem contar o mais elementar: quais sons, enquanto linguagem, símbolos, eles
estariam transmitindo?

“Eu sou humana” é uma frase que resume bem quem somos. Aristóteles tem uma definição que
foi legada à tradição sobre quem somos: “Zoon logon echon” ou, traduzido, “O homem é um
animal racional”. Heidegger alertava já para a tradução de “logon”. Teria sido Leibniz aquele que
traduzira “legon” por racional, no sentido de dotado de “razão”, raciocínio calculativo, lógico-
matematizante. Mas, originariamente, a palavra grega teria muito mais a ver com “légein”, como
o verbo “falar”. O homem não seria, então, o animal racional, mas aquele dotado de linguagem,
aquele que fala.

A definição de “homem”, “ser humano”, está posta. E com isto temos duas heranças aqui: 1) a do
esquecimento da nossa relação íntima com o “lógos” enquanto linguagem; 2) e a da definição,
essencialização do que é ser “humano”. Isto é a chave para descriptografarmos a questão
filosófica central do filme e para entendermos a minha hipótese aqui: a de que Heidegger e seu
pensamento sobre a ontologia tradicional, a metafísica do ente enquanto ente, e sua tarefa de
“destruição” das sedimentações encrostadas sobre a questão fundamental acerca do Ser mais
originário, o “Seer” (Seyn) de que falava, tratam-se da melhor via para entendermos que são
quatro o número de temas centrais de “A chegada”.

Os quatro fundam outros temas, como, por exemplo, quem nós somos e de que modo lidamos
com as coisas, nossos instrumentos (armas) e com os outros, com as outras nações e povos. Os
quatro temas centrais são: o ser, a linguagem, tempo e a tarefa da compreensão. Em resumo, o
que Louise consegue perceber a tempo é que a linguagem não-falada dos “heptapods” (nome
dado numa certa altura do filme para os alienígenas, que possuem “sete patas”) se expressam
por símbolos. Assim, a tarefa da compreensão exige outro entendimento de tempo. Isto é
importante e exige de nós um esforço hermenêutico mais dedicado. Aliás, “hermenêutica”, ou
simplesmente “tarefa da compreensão”, também é central no filme, como elenquei.

Demorei muito para entender a questão da hermenêutica. Só com Dilthey fui entender que lidar
com o desafio de se saber o que quer dizer um texto é uma tarefa de se tentar compreender o
outro, de se sair de si, do Eu que somos, para alcançarmos o Tu. O maior desafio, portanto, é o
de nos colocarmos no lugar do outro. De estarmos na sua dor, em-dor, in-dor, na-dor, no
pathos, na paixão, no sentimento do outro. A tarefa maior é o de entender a “visão de mundo”
(Weltanschauung) do Tu diante de nós, do ser que está conosco (mit-sein). E isto nos leva para
uma questão. A questão ética com o outro. Com o modo como podemos compreende-lo e
também como podemos compreender o mundo no qual estamos vivendo e interagindo,
enquanto ser-no-mundo (In-der-Welt-sein).

2. A Hipótese de Sapir-Whorf e a filha de Louise

Assim, Louise passa a ser a prova viva da chamada Hipótese de Sapir-Whorf. Esta “hipótese” é
mencionada pelo personagem Donnolley. Ele é o físico que trabalha com Louise. É interessante
registrar novamente aqui a observação de que este filme, “A chegada”, é um dos raros filmes sci-
fi em que Hollywood se lembra das Ciências Humanas, Filosofia da Linguagem. É um dos raros
momentos em que o seu “cientificismo fantástico” é deixando em segundo plano e dialoga com
brilhantismo com as Humanidades. Bem, destacado isto, voltamos à Hipótese de Sapir-Whorf.
Donnolley questiona Louise se ela não tem percebido que, com o passar do tempo, trabalhando
incansavelmente com os “hepapods”, ensinando-os e aprendendo com eles nossos vocabulários,
traduzindo-interpretando nossos modos de comunicação, ela já não estava começando a pensar
diferente.

Fundamentados nos estudos mais primordiais de Humboldt sobre linguagem, a partir do


conceito muito germânico de “visão de mundo” (Weltanschauung), a Hipótese de Sapir-Whorf
tem este nome porque foi desenvolvida pelos linguistas Spair e Whorf e diz, basicamente, que
quando aprendemos uma língua nós alteramos nosso modo de pensar, passando a pensar
segundo a estrutura desta outra língua. Assim, deixamos, ou, ao menos, “fundimos os
horizontes” (Gadamer), desde o nosso próprio modo de pensar, de acordo com a nossa chamada
língua-mãe, com uma nova forma de vida. Isto é muito importante para se entender o
desenrolar da trama. Louise sofre mesmo com uma mudança de pensamento. Só não imaginava
– tampouco nós, no cinema – que esta mudança de pensamento seria tão profunda, que
alteraria sua estadia no “mundo” e também no tempo-espaço.

O filme todo é feito com os sonhos de Louise com sua filha morta, mass somente com a
descoberta de que a resposta para a pergunta que o exército americano queria, “Qual é o
propósito de vocês na Terra?”, é que entendemos que eles queriam nos dar um presente. Uma
arma. Mas não uma arma de guerra, e sim um utensílio. E o utensílio era a linguagem deles.
Uma linguagem que nos dá ciência do tempo futuro. Foi com esta linguagem que se pôde
descobrir, com isto, que os sonhos de Louise não eram com o passado, mas com o futuro. Mas,
por quê tal língua seria tão poderos, podendo, inclusive, ser vista muito além do que mero
utensílio?
A resposta está no fato de que nós entendemos a linguagem como um instrumento, um
“organom”, como diz Gadamer em Verdade e Método. Só que a linguagem não é um
instrumento. A linguagem é o nosso próprio mundo. O nosso “médium”, nosso meio de habitar
no mundo (Heidegger) e de interagir com ele, entendo a linguagem para além da noção do mero
uso ostensivo, como dizia Wittgenstein em “Investigações filosóficas”. O modelo de
compreensão de que a língua é um objeto de representação entre nossa alma e o mundo das
coisas não é definitivo. Nem é o melhor meio de entender a linguagem e o modo como lidamos
come ela e com as coisas.

Wittgenstein, mesmo no prefácio das “Investigações”, já dizia que tinha superado o modo de
compreender a linguagem do seu “Tractatus-logico-philosophicus”. A linguagem se dá pelos
jogos em que interagimos com outros falantes, jogadores. A língua como instrumento de
representação é só um dos modos de se lidar com ela. Mas o que os alienígenas tinham a nos
ensinar era algo maior. Algo que só podemos entender se associarmos Wittgenstein com
Heidegger e Gadamer.

O grande segredo não era exatamente o de que o presente que eles queriam nos dar era somente
a língua. Mas, com ela, uma nova forma de ver o mundo... O espaço e o tempo. Com a língua dos
“heptapods”, poderíamos, agora, a ter o futuro e o passados no campo da nossa compreensão.
Assim, os sonhos de Louise com sua filha morta não eram com o passado. E sim com o futuro.
Com a filha que Louise ainda iria ter ainda. Mas como isto seria possível? Como uma língua
poderia alterar toda a nossa compreensão de tempo-espaço?

3. O Ser “no” Tempo e o Ser que pode ser compreendido é Linguagem

Gadamer tem uma frase famosa: “O ser que pode ser compreendido é linguagem”. Esta frase
pode estar nos querendo dizer que o nosso único acesso ao Ser, a esta instância misteriosa, pela
qual a Filosofia como Metafísica, como Ontologia, tem buscando saber “o que é”, seria por meio
da linguagem, do “logos”. Então o nosso acesso ao Ser somente pode ser feito por meio do
mundo no qual estamos inseridos. Este mundo, que não é a Terra. Este mundo, que é o da
linguagem. Muito além do que a linguagem escrita, este mundo é o dos símbolos por meio dos
quais os significados das coisas, dos instrumentos, dos entes e das palavras abstratas, abrem-se
para nós, seres que estamos já lançados “aí”, entre os demais entes, via linguagem, nós, o
Dasein, o ser-aí.

Dito isto, resta saber como podemos ter acesso, estarmos abertos de modo mais autêntico e
original ao Ser. Heidegger tem uma intuição genial. A tradição respondeu à pergunta “o que é o
Ser?”. E, ao fazê-lo, a tradição invoca uma resposta atemporal. Diz que o Ser é uma forma pura
(Platão), eterna e imutável, ou uma substância (Aristóteles), que subsiste, mesmo como o devir
do tempo sobre a natureza, ou mesmo um ente pensante (Descartes), estável como a substância,
ou, ainda, um Espírito (Hegel) que finalmente integram o Eu e o Outro, a forma e a matéria, a
cultura e a natureza, o passado e o futuro, findando a história. Heidegger refaz a pergunta pelo
Ser e nos diz que a resposta dada não foi a esta pergunta. Pois o Ser, respondido pela tradição da
Filosofia, que fazemos na Terra, retirou o Ser do Tempo, do devir.

Nós, seres humanos, procuramos pelo estável. Pelo o que subsiste no Tempo. Nós reduzimos a
realidade. Fatiamos o real, generalizamos, esquematizando-o, tornando um “tipo”, uma ideia,
um conceito redutor da complexidade do tempo e do espaço, da physis que brota e nos rodeia.
Assim, os “heptapods” estão nos oferecendo um outro mundo de compreender a realidade, o
Ser. Um modo diferente da nossa linguagem comum estabilizadora, por meio da qual nos
expressamos, pondo o substantivo como categoria estável, idêntica, fora do tempo deveniente,
predicando-o com categorias contigenciais ou essenciais. Um modo de perceber as coisas, as
pessoas, o espaço, o tempo, o espaço-tempo para além do reducionismo de colocar o Ser como
substância fora da temporalidade originária do nosso ser-aí e dentro de uma linha temporal
linear, a do passado, que foi, do presente, que vai sendo e se tornado passado, quase que como
se não existisse, e o futuro, o das nossas expectativas de infinitas possibilidades no limite da
morte.

E oferecer-nos um novo modo de falar é nos oferecer não só um novo modo de pensar, mas
também um novo modo de agir, de ser, de usar e de estar no tempo. É um novo modo de
manusear o real, o Ser. E é interessante notar como os “heptapods” parecem mãos gigantes, este
nosso meio de acessar as coisas que estão disponíveis a nós como instrumentos ou como
conceitos abstratos. Uma nova linguagem que não tem mais o conceito de conceito, a ideia de
ideia, o substantivo, o predicado, a cópula, aquilo que nos faz saber que em “o raio é luminoso” o
“raio” é o que subsiste no tempo, enquanto substantivo”, e o “luminoso” é o que se predica de
modo essencial, mas que poderia ser também contingencial como o “azul” de o “triângulo é
azul”.

Considerações finais

A nova linguagem a ser aprendida por nós tem outra noção de verbo. O tempo da ação está em
aberto. A ação pode ser vista desde o ponto de vista do futuro e desde o ponto de vista do
passado. É o presente dos deuses. Vemos agora o tempo porque falamos com eles. Ele ainda nos
engole e devora. É o que o poeta Max Martins chama de Hera. O tempo-desgaste. Mas agora
podemos “linguisticizá-lo”, ele pode ser compreendido na linguagem e elevado (ou rebaixado?) a
nossa consciência.

É claro que é ficção científica. Heidegger sabia da nossa finitude e que nossa temporalidade,
fundante até do tempo histórico, é limitada pelo fim-do-tempo de cada Dasein (ser-aí) que
“somos”, enquanto único ente ek-siste como projeto de vida aberto e sem ciência do que
acontecerá com as nossas antecipações do futuro. Mas o original deste filme é percebermos a
intrínseca relação entre linguagem, tempo e ser.

E a vantagem seria que talvez num outro futuro eu poderia encontrar Juliana, talvez ciente do
meu destino eu poderia aproveitar melhor cada tempo no presente com a minha família, e o
passado já não mais seria motivos de saudade, pois seria um eterno presente. Mas, do mesmo
modo, a ciência do futuro via outra gramática poderia ser insuportável. Se o excesso de memória
do passado já seria prejudicial (Nietzsche), imagine isto somado à memória do futuro.
Donnolley, que se tornará/é/tornou-se pai da filha de Louise, não suportou. Ele não quis este
dom dos Deuses.

Afinal, deve ser insuportável saber do nosso destino, perder nossa “abertura ontológica”, nossa
liberdade fundante de sermos “infinitas possibilidades”, pela ciência do futuro e ao mesmo
tempo ainda sermos mortais.

Ricardo Evandro Santos Martins

Fortaleza-CE, 27 de dezembro de 2016