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NORMAN K. DENZIN ~ University of Mlinois at Urbana-Champaigh YVONNA S. LINCOLN Texas A&M University O PLANEJAMENTO DA PESQUISA QUALITATIVA TEORIAS E ABORDAGENS 22 edigao Introdugao A disciplina e a pratica da pesquisa qualitaiva revela uma longe, noti- 1, por vezes, atribulada historia nas disci- lina hurnanas. Na sociologia,o trabalho rea- lzado pla escola de Cego" ie divas de 920 Tecate eae Tati pare oe da ida depres nea tmesitia Epocagna antropologigy 0s estudos de Boas, Mead, Benedi Basso Eva Prichard, Radel’ wn € Malinowski, que definiam a disciplina,tra- garam os contoros do método de trabalho de cam- po (Gupta e Ferguson, 1997; Stocking, 1986, 1989). A agenda era clarayo gbservasior partia para um ce- nit estrangeiro a fim de escudar os costumes € 05 hablos de outra Sociedade ou cultura] Viich ¢ Lyman, Capitulo 2; Tedlock, Volume 2,” Capitulo 6; Rosaldo, 1989, p. 25-45, em relacio 3s critica dessa tradicéo). Em pouco tempo, a pesquisa qualitativa passou a ser empregada em outras disciplinas das cigncias sociais © comportamentais, incluindo a Agradecemos a todos que colaboratam com este capital, incluinda Egon Guts pesquisa qualitativa* Norman K. Denzin @ Yvonna S. Lincoin educagdo (especialmente o trabalho de Dewey), histria, a citncia politica, os negécios, a medicina, a enfermagem, a assisténcia social e as comunica- Bes No primeiro capitulo da Parte I, Vidich e Lyman tragam muitos aspectos fandamentais dessa histéria ‘Nessa anélise agora clssica eles observam. com cer ta ironia, que a pesquisa qualitativa na sociologia € na antropologia “nasceu de uma preocupagio em entender 0 “outro”. outro exético, uma pessoa primitiva, nio-h veniente de uma cultura estrangeira considerads menos civilizada do que a culture do pesquisador £ claro que, muito antes dos antropSlogos. #2 havd colonialstas No entanto, nfo fosse por exes memes lidade investgativa que transformou a Sgura do ax- tro de pele escura no objeto do olkar do emdgrafo, no haveria uma histria colonial e.sgora mem wom. histéria pés-colonial, i Pees Label, ck Bestich © Kathetine E. Ryan, Subsrulo exraido de Guba e Ferguson (1997) “N de R Este capalo contem referee ace volumes 2¢3 do Hin Pace mais deralnes sobre esses volumes 0s leitores deve peocuraas obras risa wok of guaaie ranoit pbicado oiginaimemt pede Sage E € assim que bell hooks (1990, p. 126-128) in- rerpreta a famosa fotografia que aparece na capa de Writing Culture (Clifford e Marcus, 1986), como um cexemplo dessa mentalidade (veja também Behar, 1995, 1p 8; Gordon, 1988). A foto rerata Stephen Tyler fe- endo um trabalho de campo na india, Tyler ess sen- rado a uma cera distincia de ies pessoas de pele es cura. Una cranga aparece dentro de um cesto, s6 com a cabega para fora. Uma mulher esconde-se nas som bras de umma cabana, Um homem, com vm xale xadrez fem preto e branco enrolado nos ombros, apoiando ‘0 cotovelo no joel e o rosta sobre uma das mas, otha fixamente para Tyler. Tyler est fazendo anota~ ses em um ditrio. Tem uma tra de pano branco Emarrada aos culos, talvez para protegé-lo do sol — cam pedago de branquidade que serve Para caracteri- zar Tyler como 0 autor branco do sexo masculino ue estuda esses individuos passivos pars e negros. Na verdade,o olhar do suelto pardo communica algu- a vontade, ou algums ligacdo com ‘yet. Jéo olhar 2a mulher & totalmente encoberto pelas sombras € ‘elas letras do titulo do livro, que atravessam seu rosto ;o0ks, 1990, p.127).E, assim, essa forografiada capa do livro que talvez seja a mais influente obra da emografa da segunda metade do século XX repro- uz "duas ide que esto bem vivas na imaginacio ~acista: a nogio do individuo branco do sexo mascu- “fno como autorfautoridade (..) ¢ a idéia do homem assivo pardo(negro [e da mulher e da criana} que faz nada, apenas observa” (hooks, 1990, p. 127) Neste capitulo inrodut6rio, defniremos cam- +o da pesquisa qualitaiva © entio navegaremos na Eistéria da pesquisa qualitativa nas disciplinas hue “ranas, tragando e revisando-a, 0 que nos possbili- ‘ard situar este volume e seus conteidos dentro de seus momentos histricos, (Tsis momentos histéxi= 208 sio, de certa forma, arifciais; sio convencdes rruldas scialmente, quase-histéricase sobrepos- Entretanto, permitem uma “representagdo” das eéias em desenvolvimento fciitando também uma sensiblidade e uma sofisticagio cada vez maiores em teiagdo as armadilhas es promessas da etnografia © a pesquisa qualitativa) Apresemtaremos um esque- za conceitual para gue o ato da pesquisa qualita: va sejainterpretado como um processo multiculrue | mareade pelo nero, e entio forneceremos uma v8 iniroducio 20s capinulos seguintes. De volta 4s observagies de Vidich e Lyman, assim como 3s de hooks, conchitemos com uma breve discussie a 0 PLANEJAMENTO DA PESQUISA QUALITATIVA oe esogan Er waves ROIs CaM gacach Ela atvavessa discplinas, campos respeito da pesquisa qualitatva e da teoria critica da raga (vejaabém neste volume Ladson-Billings, Capitulo 9; € no Volume 3, Denzin, Capitulo 13), Conforme indicamos em nosso prefécto, utiizamos a metifora da ponte para estruturar 0 que vern 2 seguir. Para n6s, este volume € como uma ponte que liga momentos histéricos, métodos de pesquisa, paradigmas e comunidades de estudiosos interpre- tativos Questdes conceituais A pesquisa qualitativa é em si mesma, um cam~ ‘femas” Em: tomo do termo pesquisa quaitaea, en- contra-se uma familia interligada e compiexa de rer ‘mos, conceitos e suposigdes. Ente eles, estio as tra- AiqBes associadas 20 fundacionalismo, 20 positivism, ao pés-fundacionalismo, 20 pés-postivista, a0 pés- estruturalismo e as diversas perspectivas efou meto~ dos de pesquisa qualitative relacionados aos estudos cultura € interpretativos (os capftules da Paste IL abordam esses paradigmas)? Existem literatures in- dependentes e desalhadas sobre o grande mimero de métodos ¢ de abordagens clasificados como pesqui- sa qualitatva, tais come 0 estudo de caso, a politica e a ica, a investigagao participative, a entrevista, & ‘observagio participante, os méiodos vsuais ¢ a and- lise interpretative ‘Na América do Norte, pesquisa qualitative opera em um campo historico complexo que atravessa sete ‘momentos historicas (esses momentos serio discu- tidos deralhadamente a seguir), Esses sete momen- tos sobrepdem-se ¢ funcionam simulteneamente No Tesente? Nos 05 definimos como o tradicional (1900-1950), 0 modemista ou da era dourada (1950- 1970}, generos (esos) obscuros (1970-1980); acai seda represmntagzo (1986-1990); 0 pés-modemo, um periodo de emografias novas e expenimentais (1990— Ba nvestigacio pos-experimental (1995-2000; co futuro, que € atualidade [2000-).O futuro, séti- mo momento, trata do discurso moral, com o desen- volvimento das textuslidates sagradas.O sétimo mo~ mento pede que as ciéncia sociais eas humanidades tomemn-seterrenos para converses crticas em torno da democraca, da raca, do género, da classe, dos Es- tados-nagées, da globalizagao, da Liberdade « da co- rmunidade Intoducas, © momento pés-modemo fol definido, em par- te, por um interesse pelos topos rtGrceseliteraros « pela vitada narrative, pela marzacio de historias, or novos processos de composicao de ctnograf {Ells e Bochner, 1996). Laurel Richardson (1997) observe que esse momento foi influenciado por uma nova sensibilidade, pela diva, pela recuse em privi- Jegiar qualquer método ou teoris (p.173)-Porém ago- '3, no inicio do século XI, ocorreua vrada narrati- ‘a, Sio muitos os que aprenderam a eserever de um modo diferente, e também z situar-se em seus textos. Nossa ita hoje éno sentido de relaionar a pesquisa