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Waldemar Zusman

O pensamento de Bion, expres-


so em seus trabalhos conceituais e
técnicos, exemplificado em seus es-
tudos clínicos e metodológicos e
nas múltiplas supervisões registra-
das e publicadas ao longo de sua
vida, aprofundou e ampliou inúme-
ros conceitos e regras técnicas da
Psicanálise, para além dos limites
em que foram originalmente criados
e definidos.
Quando o pensamento de Bion
chegou ao campo psicanalítico, a
metodologia e o acervo conceitual
da ciência criada por Freud já esta-
vam enriquecidos pelas “contribui-
ções afinadas”1 de muitos outros
Waldemar Zusman
1. Tomo emprestada a expressão de Carlos
Doin, utilizada em seu trabalho “Psicanálise e
as neurociências” (2000).
autores, dentre os quais destaco especialmente Melanie Klein, pelo volume
e profundidade de suas contribuições.
Como qualquer outro ramo do conhecimento humano, a Psicanálise
se organiza em torno de alguns conceitos básicos e originais, que lhe con-
ferem uma identidade própria. Alguns são centrais, como o Complexo de
Édipo, a Transferência, o Inconsciente Dinâmico e as Séries Complemen-
tares. Tomados em sua totalidade, a soma destes conceitos centrais e a de
outros periféricos terminam por se constituir numa Concepção de Mundo2,
cujos pilares essenciais, ou Princípios Ordenadores, como prefiro chamá-
los, são esses mesmos conceitos.
A operacionalização da Psicanálise como recurso terapêutico depen-
deu, essencialmente, das regras criadas por Freud: a “livre associação de
idéias”, a “atenção flutuante”, a “neutralidade e abstinência”. Entre elas,
talvez, nenhuma tem maior significação do que a “atenção flutuante” (re-
gra do analista), que funciona como par complementar da “livre associação
de idéias”, recomendada ao paciente.
Esses dois recursos, que tanto o analista quanto o paciente devem
cumprir, desorganizam, no paciente, o discurso lógico e, no analista, a bus-
ca direcionada, essencial ao processo secundário. Se as regras se cumprem,
a livre associação de idéias fica mais próxima do processo onírico do que
aquele tipo de relato metódico e constante que muitos pacientes adotam
para falar de seus males, contando histórias selecionadas, defendidas. A
“atenção flutuante”, por sua vez, instala na mente do analista um estado de
percepção que não escolhe alvos definidos, como ocorre ao sonhador, en-
quanto sonha. Assim, o campo mental resultante ganha mais similitude
com um rebaixamento de consciência capaz de conduzir a um “sonho de
vigília”, ainda que não necessariamente ao sono3 .

2. Emprego este conceito (Weltanschauung) com um sentido diferente que o fez Freud em seu
artigo The question of a Weltanschauung (1933, p.158-182). Prefiro o conceito de Money Kyrle,
em Man’s picture of the world (1961). Entendo que a Psicanálise tem uma Imagem de Homem
peculiar, e isto gera uma Concepção de Mundo própria, mais intuitiva do que racional.
3. Em um trabalho meu, intitulado “Transferência como mecanismo de defesa” (1974), chamei de
Estado Transferencial a este estado de consciência.
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Após esses achados de Freud, nada de mais significativo foi acresci-
do, ao longo do tempo, aos recursos metodológicos, facilitadores do fluxo
transferencial. A esses elementos metodológicos do processo psicanalítico
que acabo de referir, Bion acrescentou contribuições de extraordinária sig-
nificação, que decorrem da qualidade original de suas investigações.
Bion é essencialmente um psicanalista epistemólogo, profundamente
interessado na elucidação dos processos do conhecimento da vida mental
do analista, dentro e fora das sessões. Sua Grade, como se sabe, é um exer-
cício de após sessão, e a Capacidade Negativa da Mente, um estado a ser
alcançado e utilizado dentro e fora do consultório, uma tolerância com o
não saber. Em Attention and interpretation (1970), Bion, tendo amadureci-
do e ampliado seu conceito de “memória e desejo”, enfatizou uma reco-
mendação técnica que otimiza a postura do analista perante seu paciente. O
analista, diz Bion, deve se submeter a uma disciplina de abstenção de me-
mória e desejo, até mesmo do desejo de compreender o paciente e de curá-lo.
Alguns analistas não compreenderam a extensão e a profundidade da
sugestão de Bion, embora ela, na verdade, pouco difira do que Freud reco-
mendava, ao falar “atenção flutuante” e seu par correlato, a “livre associa-
ção de idéias”. A disciplina de abster-se de desejo e memória, no entanto,
representa um ângulo de abordagem e reconhecimento da relação do ana-
lista com os elementos de que se compõe o seu estado mental dentro do
consultório, enquanto ouve o paciente.
É um conceito que estende e desdobra a recomendação de Freud, o
preceito de “atenção flutuante” ou igualmente suspensa. Ao ouvir o pa-
ciente, com a mente saturada pelas lembranças da sessão da véspera ou
pelas teorias com as quais pretende captar o sentido das comunicações, ou
ainda, movido por qualquer tipo de desejo de compreender ou curar, a es-
cuta analítica fica opacificada.
A abstenção de memória e desejo, como condição da boa escuta psica-
nalítica, procede da assertiva de que o objeto psicanalítico que se pode
captar nas sessões não deriva de impressões sensoriais e de seus equivalen-
tes mnêmicos.
A intuição que capta o objeto psicanalítico só se revela capaz de fazê-
lo quando, no analista, o exercício de supressão de memória e desejo teve
êxito. Não se pode duvidar de que Freud e Bion captaram o aspecto essen-
cial do acesso ao funcionamento da mente, por distintos caminhos. O de
Freud (atenção flutuante) levou-o a ter que criar o conceito complementar
de “neutralidade”, mal compreendido e mal utilizado ao longo dos tempos.
O de Bion (sem memória e sem desejo) trazia já implícito o tema da “neu-
tralidade”.
Na recomendação metodológica de Bion se inclui, ainda, uma forma
de o analista lidar com a sua própria transferência frente ao paciente, na
sessão, já que memória e desejo definem formalmente a substância dos
conteúdos transferenciais. A disciplina de abster-se de memória e desejo
que libera simultaneamente, no analista, a capacidade intuitiva e neutrali-
dade, possibilita a interpretação que transita de O para C e de C para O.
Ainda que Bion tenha iluminado, com notável perspicácia, muitos
outros campos da personalidade humana, creio que nada excede sua teoria
do pensamento, uma área da Psicanálise que carecia de uma investigação
em profundidade. O passo inicial e mais importante dentro deste emara-
nhado território do pensamento coube a Freud, como assinala Zimerman,
ao descrever o “processo primário” e o “processo secundário”, com suas
perturbações derivadas do interjogo entre o “princípio do prazer” e o “prin-
cípio da realidade”.
Bion não se afasta da concepção freudiana que toma a frustração por
móvel principal da criação de recursos alternativos no plano da mente.
Coerente, também, com os pontos de vista kleinianos, que tomam a relação
com o seio como a fonte primária da gratificação e da frustração, ele for-
mula um de seus magníficos trocadilhos aforismáticos e causalistas: no
thing, therefore a thought. A esta expressão retornaremos mais adiante.
Sua teoria do pensamento se sustenta em dois modelos. Um deles, de
todos sabido, é o do aparelho digestivo. O pensamento deve criar um siste-
ma capaz de pensá-lo, ou, por fidelidade ao modelo, digerí-lo. Esta é a
tarefa de que se incumbe a função , responsável pela produção dos ele-
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mentos , que, uma vez digeridos, se prestam ao exercício do sonhar e do
pensar. Já os elementos , indigeríveis, para nada mais servem, senão para
serem evacuados.
Ainda no terreno de sua teoria do pensamento, inscreve-se seu contro-
vertido conceito de “pensamento sem pensador”, de mais difícil assimila-
ção. Instado a esclarecer esse conceito, Bion afirma, na 4ª Conferência de
New York (1980), que existem pensamentos errantes em busca de quem os
queira alojar, tal como os seis personagens de Pirandelo, que andavam em
busca de um autor. A metáfora utilizada na resposta tem qualidades estéti-
cas inegáveis, mas o modelo utilizado, nesse momento, é o das ondas ele-
tromagnéticas que estão presentes à nossa volta, mas só podem ser capta-
das por instrumentos sensíveis, adequados a esse fim. Freud, em seu tem-
po, tomou a transmissão telefônica por modelo adequado para tornar inte-
ligíveis os fenômenos telepáticos, hoje mais bem entendidos como “identi-
ficação projetiva”.
Castro (1999) entende que o “pensamento sem pensador” ganha me-
lhor entendimento à luz do conceito de geistzeit, o “espírito da época”, que
abriga idéias latentes até que alguém seja capaz de formulá-las, como ocor-
reu com Mendel e Darwin, Bion e Krishnamurti; algumas dessas descober-
tas foram feitas, simultaneamente, por autores que nem se conheciam.
O “pensamento sem pensador” continua sendo matéria de muitas re-
flexões. No momento presente, eu o considero como algo que surge em
nossa mente e nos surpreende porque não estávamos direcionados por ne-
nhuma busca pessoal, tendo a considerá-lo como descoberta que procede
de uma área da mente não obstruída por memórias, desejos, juízos e julga-
mentos.
Num trabalho anterior (1985), chamei esta área da mente de “área do
análogo”, para dar expressão topográfica ao fenômeno de paciência e se-
gurança a que Bion se refere, quando diz que as interpretações psicanalíti-
cas fazem na mente do analista um percurso semelhante ao percurso de PS
para D.
Só depois de evoluir da fase de paciência para a de segurança é que a
interpretação deve ser comunicada ao paciente.
O conteúdo das posições esquizo-paranóide e depressiva circula pela
área do Id, do Ego e do Superego, uma representação topográfica da mente
que os analistas costumam chamar de segunda tópica. Para distinguí-la da
“área do análogo”, proponho chamá-la de “área egóica”.
Dentre as muitas funções que o Ego desempenha em nossa personali-
dade, uma facilmente reconhecida é a tendência de apropriação e o senti-
mento de autoria, algo que se anuncia neste fácil trânsito do eu para o meu.
O “pensamento sem pensador”, em sua própria enunciação, já se defi-
ne como um pensamento que escapou da apropriação egóica. Ele emerge
da “área do análogo” e se mantém, por algum tempo, desapropriado, sem
dono (como os personagens de Pirandelo), até que alguém o tolera e acolhe.
Só a abstenção de memória e desejo abre espaço para que a interpreta-
ção evolua de O para K, ou que aí, nesse mesmo espaço, um “pensamento
sem pensador” se apresente, disponível para a apropriação de quem a aco-
lha.
A teoria do pensamento de Bion, a meu ver, de notável repercussão na
comunidade psicanalítica, modificou o equilíbrio temático da maioria dos
meetings científicos e das revistas de Psicanálise. O pólo pulsional da ima-
gem de homem lançada por Freud cedeu lugar ao pólo cognitivo, sem que
isso implicasse reduzir a importância do inconsciente, cuja investigação o
pensamento de Bion realiza mais amplamente. Dizer que isto se resume à
introdução do vínculo K para uma coexistência mais constante com H e L
é demasiadamente conciso. Outro passo na mesma direção da ampliação
cognitiva foi o giro dado por Bion à interpretação do Complexo de Édipo,
que pôs entre parênteses a trama sexual e, sem negá-la, iluminou os fenô-
menos de arrogância, estupidez e curiosidade, uma conjunção constante
que permite suspeitar de um desastre ocorrido na área pulsional, que, em
maior ou menor grau, perturbou o processo evolutivo e distorceu a Con-
cepção de Mundo e a Imagem de Homem numa incidência maior que o que
suspeitava.
A Grade (Bion, 1977) é também uma peça de substancial importância
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na aumentada ênfase do interesse pelos processos cognitivos, embora o seu
uso recomendado a situe fora das sessões. Não creio que um estudioso de
Bion tenha se furtado a alguns exercícios, ainda que só para testá-la e tes-
tar-se. Ela funciona como uma dessas pedras de afiar lâminas e agudiza a
percepção dos elementos que se busca categorizar.
A trajetória que assinalei acima, de que a Psicanálise caminhou do
pulsional para o cognitivo, não me parece um extravio. Começando pelo
destino das pulsões em Freud, a Psicanálise mergulhou na apreensão dos
objetos internos e externos impregnados pela vida afetiva das posições
depressiva e esquizo-paranóide, definidas por Klein, e chegou, com Bion,
aos elementos da Psicanálise e à teoria do pensamento. O caminho percor-
rido cumpre a direção marcada pelo já consagrado aforismo de Freud: “o
que era Id, terá de ser Ego”.

O famoso trocadilho de Bion dá por assentado que o pensamento se


origina em decorrência da frustração (suportada) imposta pelo seio ausente.
A meu ver, o que ocorre neste encontro entre o bebê e o seio ausente
(no thing) não chega a ser um pensamento, é antes uma representação
imagética do seio, ou uma alucinação, que cumpre as funções de uma equa-
ção simbólica, como descreveu Segal (1957). Daí, desses momentos ini-
ciais da existência até que adquira a capacidade simbólica plena, o bebê
terá que fazer múltiplas evoluções da posição esquizo-paranóide para a
posição depressiva, até que a representação simbólica, que se traduz pelo
pensamento verbal, ganhe maior força de abstração e perca a concretude
sensorial, imagética.
A brincadeira do Fort/Da, observada por Freud em seu próprio neto de
18 meses, assinala Isaacs (1952), acompanhava-se de sons expressivos,
aos quais Freud, corretamente atribuiu o sentido de “foram-se embora”.
Para Freud e sua filha (a criança dizia “o o o oh”) esses sons significavam
algo, mas é certo que ainda não eram palavras, eram sons expressivos, in-
terjeições, eram signos.
Havia um carretel amarrado a um cordel. O bebê podia jogar o carretel
para fora do berço e puxá-lo de volta. Ao completar a operação, emitia o
som da. O controle que o bebê tinha sobre o carretel e a distância rigida-
mente garantida entre o carretel presente e, em seguida, ausente talvez pos-
sa ser considerado a primeira evidência de uma “equação simbólica”, como
descreveu mais tarde Hanna Segal (1957).
A rígida conexão de proximidade entre o representante e o representa-
do é o que define a ‘equação simbólica’, ao tempo em que a distingue da
‘representação simbólica’, que supõe a ausência do representado, quando o
bebê já suporta a ausência do objeto, por já ter alcançado com maior estabi-
lidade a posição depressiva.
Para o bebê; em lugar do seio ausente, o que se apresenta é uma ima-
gem do seio, de caráter mnêmico ou alucinatório, com o que a criança se
tranqüiliza por algum tempo, durante o qual ela sente ou crê que controla o
seio. A brincadeira do Fort/Da do neto de Freud, uma “equação simbóli-
ca”, equivale à sucção do polegar ou de outros dedos, ou da ponta do len-
çol, o que Winnicott definiu, mais tarde, como objeto transicional.
Dos momentos iniciais da existência, até que adquira a capacidade
simbólica plena, o bebê terá de percorrer muitos ciclos ps d até que a
representação simbólica, expressa no pensamento verbal, perca a
concretude da equação e ganhe progressivas qualidades de abstração.
Transcorre um longo período, variável para cada criança. O neto de Freud,
de 18 meses, já estava bem mais próximo do seu ingresso na capacidade de
simbolização do que um bebê, nascido há pouco tempo. Sua linguagem
podia conter alguns elementos simbólicos, mas o contingente sígnico,
interjeicional era mais forte.
Langer (1989), discípula de Cassirer (1964), situa esse período de in-
gresso no campo do simbólico ao redor dos dois anos de idade, quando
começa a fase da “lalação”, época em que a linguagem é onomatopéica e
interjeicional, numa palavra: expressiva, denotadora4.

4. Depois de instalada a capacidade simbólica, imagens e gestos também podem ser usados como
símbolos, quando o representante está ausente.
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Até que se dê o ingresso no mundo dos símbolos verbais, a representa-
ção mental é imagética e bem mais dotada de concretude sensorial do que a
palavra.
Os termos mais freqüentemente usados por todos os psicanalistas,
quando querem se referir à vida mental do bebê dotada de sentido, são
fantasias ou idéias. Ambas as expressões têm vínculos definidos com a
imagem. Eidos (em grego, significa forma, figura) se traduz comumente
por idéia, mas, no uso corrente, termina por se confundir com pensamento.
O que se apreende na vida mental infantil é traduzido, por nós, em pensa-
mento verbal, como Freud o fez com seu neto de 18 meses, e Melanie
Klein, com os desenhos de seus pacientes mais jovens. Com o termo fanta-
sia passa-se o mesmo, porque fantasia tem nítidos compromissos com a
imagem e claras ligações com a percepção visual. A vida mental do bebê é
essencialmente imagética, imagens de todos os órgãos sensoriais. Pode ser
captada por inferências empáticas e intuições, mas não é pensada no nível
simbólico. Mesmo a vida mental do adulto tem dominância imagética
quando estamos sós, mas ganha o campo da expressão verbal no ato da
fala, quando se torna linguagem, comunicação.
O que o bebê faz na hora da fome e da angústia pela ausência do seio
tem certa semelhança com o hábito adulto de guardar e emoldurar retratos
de quem se ausenta, recurso tipo “equação simbólica”, que atenua a saudade.
Por todos esses fatos assinalados a expressão mais próxima do que
ocorre na mente do bebê seria: No thing therefore an image5. A representa-
ção imagética tem mais concretude que a representação verbal6.
A vida mental transcorre no campo das representações. A representa-

5. No relato bíblico, o povo judeu, aos pés do monte Sinai, já não suportava mais esperar pela
volta de Moisés, que subira o monte para receber as Tábuas da Lei, e reinstalou o culto da ima-
gem, proibido pelo monoteísmo.
6. No Brasil, circula uma expressão, freqüentemente dita de forma jocosa, por pessoas de baixa
instrução. A frase é usada em abordagens eróticas, nos programas humorísticos, quando a mulher
não cede aos primeiros galanteios, e o homem quer introduzir uma pressão maior na demanda. Diz
ele: “não tem tu, vai tu mesmo”. Lida no seu aspecto lógico, a expressão não (continua na p.498)
ção simbólica é uma aquisição recente do ponto de vista filogenético e
marca um salto que distingue a espécie humana de todas as que a prece-
dem. A aquisição da linguagem verbal se inscreve no processo evolutivo,
que os antropólogos qualificam como Hominização, ao lado da
bipedestação, da oponência do polegar, do coito face a face, do aumento da
capacidade craniana e da redução do maciço facial.
A Psicanálise costuma se referir aos fenômenos que precedem à insta-
lação da fala de forma englobada como período pré-verbal.
A expressão faz crer que a cesura, que separa o verbal do pré-verbal,
tem plenas justificativas. Aqui também, no terreno das representações e da
linguagem, há mais continuidade entre o que precede e o que vem depois,
do que se quer crer.
A capacidade simbólica inaugura na comunicação humana uma forma
de representar, na mente, alguma coisa que não necessita estar fisicamente
presente.
A vida mental é provida de significados desde os seus primeiros mo-
mentos, já o sabemos por Freud. Os estímulos pulsionais, sensoriais ou
cinestésicos fazem uma trajetória, do inconsciente ao consciente, deixando
uma memória visual, olfativa, auditiva, gustativa ou sonora, ou, ainda, uma
combinação de várias. Se não são toleráveis (por excesso de intensidade), a
criança os expele por todos os meios à sua disposição: movimentos de toda
ordem, secreções de todos os tipos, expressões como choro, grito ou qual-
quer outro ruído. Evacua. Se a estimulação é fraca ou insuficiente, o bebê
os representa por evocação imagética, re-atualizando estímulos ou produ-
zindo alucinações no plano da “equação simbólica”, o plano sígnico.
Na vida do bebê tudo deve ser imediato, de rápida resolução. O repre-
sentante e o representado devem ter proximidade máxima. A representação
se confunde com a apresentação. É o campo do pré-verbal. Langer (1989)
prefere chamá-lo de mundo sígnico. Um exemplo de representação sígnica

(continuação da p.497) faz sentido. Tomo-a como expressiva da necessidade de que a nova con-
quista não se distinga da primeira, que fracassara. A mulher terá que se submeter, tanto quanto o
seio alucinado está submetido pelo bebê, ao se estabelecer a primeira “equação simbólica”.
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é o provérbio “onde há fumaça, há fogo”. No mundo animal rege a repre-
sentação sígnica. Se se diz o nome do dono, o cão se volta de imediato para
localizá-lo no espaço à sua volta. E o bebê, até que adquira capacidade
simbólica, vive totalmente no plano sígnico. O salto para o simbólico cos-
tuma ser exemplificado com a vivência de Helen Keller, que era cega, sur-
da e muda. Sua relação com as coisas era no nível de suas necessidades
fisiológicas (sígnicas). Quando aprendeu que o que matava sua sede se
chamava água, percebeu, num só golpe, que tudo no mundo tinha nome. E
mais, uma só palavra podia se referir a todas as águas do mundo: sujas ou
limpas, internas ou externas.
Os animais não alcançam este tipo de representação simbólica. A re-
presentação sígnica é singular, carece de abstração, tende para o concreto.
A comunicação do bebê com a mãe é sígnica, expressiva, como a dos
animais. A linguagem humana, no nível simbólico, é proposicional.
O trânsito entre a representação sígnica e a simbólica é uma oscilação
constante no adulto e corresponde ao que Bion assinalou, ao sinalizar a
oscilação constante entre as posições esquizo-paranóide e depressiva. No
consultório, no trabalho analítico, nossa comunicação com os pacientes se
dá nos dois níveis. Toda comunicação humana transmite o conteúdo verbal
(simbólico) lastreado na melodia da voz (sígnico). A música transmite ao
corpo o ritmo dos movimentos e das melodias, fenômeno sígnico, de ob-
servação cotidiana.
Na teoria do pensamento de Bion, os elementos , que são as repre-
sentações sensoriais e as emoções brutas ou pressões instintivas,
correspondem aos elementos sígnicos que aguardam por uma transforma-
ção em elementos , que, em última análise, já se introduzem no plano
simbólico para uma gradual aquisição de abstração e generalização. O ca-
minho se faz pela progressiva transformação da “equação simbólica” em
símbolo, do concreto (imagético) para o abstrato (verbal), do interjeicional
para o proposicional. Parafraseando Freud, poder-se-ia dizer que tudo que
era sígnico terá de ser simbólico.
A direção desta transformação do sígnico ao simbólico se harmoniza
com o salto para o simbólico, um outro mysterious leap que se inscreve no
processo hominizador.
Nesta perspectiva, a Psicanálise, ao definir seus vínculos com o pro-
cesso hominizador, ganharia o necessário distanciamento da Medicina,
como Bion o sugere. O que se nomeia como enfermidade, na terminologia
médica, nada mais é que um desvio do processo hominizador, como ocorre
nas esquizofrenias, que resultam numa destruição dos vínculos e da capa-
cidade simbólica, até uma regressão final, que extingue essa capacidade
simbólica por completo.
Creio que a influência de Bion sobre o método psicanalítico resulta da
maior pressão epistemológica (pólo cognitivo) sobre o pensamento dos
psicanalistas sem minimizar os demais vínculos. A exploração do incons-
ciente para além dos domínios investigados por Freud (o inconsciente di-
nâmico) abre um campo de pesquisa de extraordinária riqueza, que permite
compreender algumas dimensões psicológicas da experiência mística, pas-
síveis de serem percebidas na relação do analista com o seu paciente, sem
o temor de que esse reconhecimento implique uma conversão religiosa.

O autor passa em revista alguns dos conceitos psicanalíticos clássicos que


sofreram influências e tiveram seus significados ampliados e aprofundados pelas
investigações originais de Bion. Para além da Grade e do Conceito de Capacidade
Negativa da Mente o artigo destaca a recomendação técnica de abstenção de me-
mória e desejo, que, embora mal compreendida por alguns analistas, nada mais é
que uma versão mais aguda e penetrante, daquilo que Freud chamou de Atenção
Flutuante. O controvertido conceito de Pensamento sem Pensador ganha nova
formulação após um exame crítico das hipóteses que o situam no mundo externo.
É a partir da Área do Análogo (por oposição à Área Egóica) que a noção de
Pensamento sem Pensador ganha origem e circunstância. O já famoso aforismo
de Bion, No thing therefore a thought, passa por um inevitável confronto. Uma
vez que a ausência do seio usualmente ocorre quando o pensamento ainda não é
simbólico (verbal), o mais correto seria dizer No thing therefore an image. O
artigo aborda, por último, num exame crítico, as categorias do signo, da equação
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simbólica e do símbolo, para nomear alguns aspectos fundamentais do funciona-
mento da mente, fazendo um paralelo entre estas categorias citadas e aquelas que,
em Bion, se designam como funções alfa e beta.

Some classic psychoanalytic concepts have been touched, deepened and


amplified by Bion’s original investigations. Beyond The Grid and the Mind’s
Negative Capability the article stresses the importance of Bion’s recommendation
on the abstention discipline of memory and desire. Although some psychoanalysts
couldn’t understand the real meaning of it, the mentioned discipline is rather a
new and deeper version of Freud’s technical recommendation, the evenly suspended
attention. Bion’s controversial concept on Thought without a Thinker is given a
new understanding, more related do the internal world than to the external one,
like the current explanations. The famous aphorism No thing therefore a thought
is also examined and confronted with the time of its firsts occurrences. As the
baby still doesn’t think thoughts are not available yet. That is why No thing therefore
an image would sound more appropriate. The article also deals with the parallel
meaning of Sign, Symbolic Equation, and Symbol to alpha and beta elements
inherent to Bion’s thought theories.

El autor revisa algunos conceptos psicanalíticos clásicos que sufrieron in-


fluencias y tuvieran sus significados ampliados y profundizados por las originales
investigaciones de Bion. Más allá de la “Grid” y de la “Mind’s Negative Capability”,
el artículo destaca la recomendación técnica de abstención de memoria y deseo
que, pese a ser mal compreendida por algunos analistas, no es más que una versión
más aguda y penetrante de lo que Freud denominó Atención Fluctuante. El con-
trovertido concepto de Thought Without a Thinker gana nueva formulación, más
ligada al mundo interno que ao mundo externo. El famoso aforisma No thing
therefore a thought es también examinado y confrontado: cuando el bebê todavia
no tiene pensamento simbólico disponible, lo más adecuado seria decir No thing
therefore an image. El presente trabajo también muestra las categorias de signo,
equación simbólica y símbolo.
Memória e desejo; Pensamento sem pensador; No thing therefore a thought;
Signo; Equação Simbólica; Símbolo.

Memory and desire; Thoughts without a thinker; No thing therefore a thought;


Sign; Symbolic Equation; Symbol.

Memória y deseo; Pensamiento sin Pensador; No thing therefore a Thought;


Signo; Ecuación Simbólica; Símbolo.

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