EMENDAS CONSTITUCIONAIS É intrínseco a qualquer ordenamento a necessidade de mudanças de tempos em tempos a fim de que se adeque às mutações sociais internas

e externas. Essas mudanças podem simplesmente ter como origem os costumes, as tradições, as alterações sociológicas ou empíricas ou, até mesmo, o posicionamento adotado pela Corte Suprema do país a respeito de um determinado assunto (portanto, sendo caracterizadas por serem não-formais), e se manifestam por meio de métodos interpretativos, tais como a interpretação conforme a Constituição e a interpretação sem redução do texto constitucional, além da própria estrutura do sistema legal vigente no Estado que baliza o entendimento que se deve dar a um dispositivo. A doutrina é unânime ao analisar a natureza de nossas constituições republicanas dizendo que quase a totalidade delas foi rígida. Falamos em “quase a totalidade”, pois a Carta de 1937 dispunha processo de alteração diverso caso o projeto tivesse origem por parte do Presidente da República. O Chefe do Executivo poderia propor emendas à Constituição e essas seriam aprovadas com quórum e votação simplificados, ao passo que os projetos de iniciativa da Câmara poderia dos Deputados necessitavam mais flexível de ou aprovação mais mais dificultosa. Assim, ao mesmo tempo tínhamos uma Constituição que, para ser modificada, ter procedimento agravado, dependendo de quem partisse a proposta de emenda. Isso, àquele tempo, se justificava porque estávamos passando por um período ditatorial, no qual grande parte dos poderes estava arraigado ao Chefe do Executivo, vale dizer, ao Presidente da República. O procedimento agravado se justifica, pois o texto constitucional deve manter uma relação de dependência entre seus dispositivos de modo a não desconfigurar a idéia do Constituinte Originário (poder que tem como característica ser inicial – não se funda em nenhum outro poder, ilimitado materialmente – pode reescrever uma Constituição mudando completamente seus fundamentos e incondicionado sob a ótica formal). Se toda mudança, obrigatoriamente, deve respeitar os fundamentos da República Federativa do Brasil (dispostos no art. 1º, da Constituição Federal), bem como os objetivos dela (art. 3º), não se admite que por meio de emendas

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passando então a ser preceito constitucional. até mesmo porque a própria sociedade deseja tal fato. 60. a partir da análise do respeito aos parâmetros fixados no art. O fundamento da manutenção do espectro da Constituição é importante para a mantença da sua própria supremacia. devendo ser compatibilizada com as demais normas originárias. pois a emenda à constituição é produzida segundo uma forma e versando sobre conteúdo previamente limitado pelo legislador constituinte originário. a modificação deverá romper com o ordenamento vigente à época. A substituição de uma constituição por outra exige uma renovação do poder constituinte e esta não pode ter lugar. naturalmente. enquanto proposta. razão pela qual não há que se falar em manter a unidade Constitucional. pois é certo que a possibilidade de alterabilidade constitucional. a emenda constitucional ingressará no ordenamento jurídico com status constitucional. se houver respeito aos preceitos fixados pelo art. sem uma ruptura constitucional. a emenda constitucional será inconstitucional. se qualquer das limitações impostas pelo citado artigo for desrespeitada.(RTJ 136/25) Tal fato é possível. quando a população buscava uma restauração das liberdades políticas e do federalismo). não autoriza o inaceitável poder de violar o sistema essencial de valores da constituição. de mesma hierarquia das normas constitucionais originárias. Dessa maneira. a fim de verificar-se sua constitucionalidade ou não. possível seja a incidência do controle de constitucionalidade concentrado) sobre emendas constitucionais. é considerada um ato infraconstitucional sem qualquer normatividade. por inobservarem as limitações jurídicas estabelecidas na Carta Magna. por exemplo. permitida ao Congresso Nacional. Caso estejamos falando de uma revolução constitucional para a mudança do ordenamento por força da sociedade (como. devendo ser retirada do ordenamento jurídico através das regras de controle de constitucionalidade. é plenamente (seja difuso. ocorreu na redemocratização do país após a Ditadura nas décadas de 60 a 80. A emenda à Constituição Federal.se desnature seu perfil. da Constituição Federal 2 . 60. por óbvio. Porém. da Constituição Federal. Desta forma. só ingressando no ordenamento jurídico após sua aprovação.

LIMITAÇÕES EXPRESSAS Conforme o próprio nome aduz. uma vez que. O controle feito pelo Judiciário também poderá ocorrer nas propostas à emendas. se é necessário ou não a deliberação executiva (sanção ou veto) e assim por diante. os limites implícitos do poder de reforma são os que derivam dos limites expressos e se dividem em dois grupos: as normas sobre o titular do poder constituinte reformador e as disposições relativas à eventual supressão das limitações expressas. os quóruns para a aprovação do projeto de lei (lei em sentido amplo. acompanhado por muitos da doutrina (apesar da constante mudança no tocante às denominações ofertadas aos limites. estamos referindo especificamente neste trabalho ao procedimento de elaboração da espécie normativa emenda constitucional e não ao eventual conflito de normas no tempo e espaço (o que ensejaria a inconstitucionalidade por vício material). invariavelmente estaremos diante de uma norma inconstitucional por violar o processo legislativo (inconstitucionalidade inconstitucionalidade formal). 60 e seus incisos e parágrafos. circunstancias e procedimentais ou formais.(que delimita as alterações constitucionais). Anteriormente já mencionamos quais são as subespécies 3 . da Constituição Federal. Por sua vez. Tendo como base as lições de Alexandre de Moraes. compreendendo todas as espécies normativas). Esses limites podem ser conceituados como o guia que o Legislador deve ter em mente para a elaboração do tipo normativo. material Não da há que pois se confundir nos com a norma. contudo mantendo o mesmo cerne à respeito dos conceitos centrais). e de subdividem em três subespécies: materiais. se não respeitado o disposto no art. assim. respeitando-se. As primeiras estão previstas no texto constitucional. Inquestionável a existência de limites ao procedimento de elaboração de emendas constitucionais. quem é legitimado a deflagrar o processo legislativo. a Constituição Federal traz duas grandes espécies de limitações ao Poder de emendá-las: as limitações expressas e as limitações implícitas. são aquelas previstas textualmente pela Constituição Federal.

na qual não se procederia reforma da Constituição na vigência do Estado de Sítio. do Estado de Defesa ou de Intervenção Federal. As limitações circunstanciais não se confundem com as chamadas limitações temporais. § 4º. 2º. há que se dar interpretação à constituição no sentido de que a República é cláusula pétrea implícita após o plebiscito realizado em 1993 (por força do art. o voto direto. ao dispor que. vale sempre relembrar: materiais. Contudo. da Constituição Federal). Tais matérias formam o núcleo intangível da Constituição Federal. Porém. estas referem-se às disposições especiais. caso seja necessário. não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir a forma federativa de Estado. circunstanciais e procedimentais ou formais. Também não há previsão no nosso ordenamento de revisão do texto magno obrigatoriamente de tempos em tempos. Importante ressaltar que o regime republicano não é tido como cláusula pétrea expressa (por não integrar o rol previsto no artigo citado). A Constituição de 1988 aumentou as hipóteses de que não se realizará emendas ao seu texto. ela passa por uma análise para emendas de seus dispositivos. denominado tradicionalmente por “cláusulas pétreas” (art. Indo adiante. Com relação à limitação procedimental ou formal. como há na Constituição Portuguesa. que o legislador constituinte estabeleceu para permitir a alteração da Constituição 4 . no tocante aos limites circunstanciais. Essa limitação foi instituída a partir da Constituição de 1934. os direitos e garantias individuais. durante a vigência do Estado de Sítio. universal e periódico. do ADCT). 60. Pela limitação material. secreto. em relação ao processo legislativo ordinário. elas são limitações que pretendem evitar modificações na constituição em certas ocasiões anormais e excepcionais do país. não haverá possibilidade de alteração constitucional. na qual a cada cinco anos. a fim de evitar-se perturbação na liberdade e independência dos órgãos incumbidos da reforma. bem como a mudança precipitada em face de estados calamitosos ou de emergência. não consagradas por nossa Constituição Federal e que consiste na vedação. por determinado lapso temporal. de alterabilidade das normas constitucionais.decorrentes das limitações em tela. a separação dos Poderes. quando ficou definido como forma de governo a republicana.

do Senado Federal ou do Congresso Nacional. I. Isto porque. Contudo. mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação. 60. Por óbvio. Desta forma. 60. considerando-se aprovada se 5 . manifestando-se. sobre qualquer parlamentar o privilégio de não necessitar de composição ou poder de cooperação para apresentar a sua emenda. pela maioria relativa de seus membros (art. tendo. II e III. ainda. da Constituição Federal). exige-se apenas que um membro ou uma comissão da Câmara dos Deputados. cada uma delas. de transferência da própria convicção para seu par. 61. em dois turnos. A proposta de emenda constitucional será discutida e votada em cada Casa do Congresso Nacional. do art. necessário será uma precisa articulação no Congresso Nacional. a fim de que aqueles que estejam dispostos a apoiá-la venham a assinar a proposição. o Supremo Tribunal Federal. Como poderá ser observado. os Tribunais Superiores. ou que o Presidente da República. Isso difere da hipótese prevista no inc. e os cidadãos deflagrem o processo legislativo. demonstrado está a maior dificuldade para a deflagração do processamento de emendas constitucionais do que de leis ordinárias ou complementares. para a deflagração do processo o Presidente parte com vantagem em face dos Parlamentares. até mesmo porque o objeto que se estará elaborando diz respeito à Constituição da República e não a uma simples lei ordinária ou complementar. incs. da Constituição Federal. Já para a elaboração de uma emenda faz-se necessário o início do processo pelo Presidente da República. A iniciativa para apresentação de uma proposta de emenda constitucional é mais restrita do que a existente no processo legislativo ordinário. da parte do parlamentar que a deseja propor. II. na qual o Chefe do Executivo é o único com a faculdade de iniciativa que apenas depende de si próprio. trata-se de procedimento mais gravoso do que para as demais espécies normativas serem produzidas. para a feitura de uma lei ordinária ou complementar. em tese. ao teor do art. I.Federal. o Procurador-Geral da República. exige-se. A respeito da iniciativa disposta no inc. intenso trabalho de articulação. para a aprovação de sua proposta. claro está que. ou por um terço dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal. ou.

da Constituição Federal). até porque a principal característica das normas transitórias da Constituição está no seu exaurimento após o uso. ressalte-se ainda como limitação formal ou procedimental o § 5º. inadmissível. que iniciar-se-ia após cinco anos. do ADCT. não podendo mais serem invocadas. pelas Mesas do Senado Federal e da Câmara dos Deputados. § 2º. em do Dessa forma. o texto constitucional silencia. 6 .obtiver. 60. da Constituição Brasileira). A promulgação será realizada. não haverá necessidade de sanção ou veto. 60. utilização procedimento de revisão. em sessão unicameral. para promulgação e publicação (art. LIMITAÇÕES IMPLÍCITAS Controvertido o tema de existir ou não limites implícitos no texto constitucional brasileiro ou. caput.06. bem como a necessidade de dupla votação em cada Casa Legislativa. contados da promulgação do Texto Magno. pelo voto da maioria absoluta dos membros do Congresso Nacional. Não existe participação do Presidente da República na fase constitutiva do processo legislativo de uma emenda constitucional. três quintos dos votos dos respectivos membros (art. Por fim. 3º. ressalte-se o quórum diferenciado para aprovação. 57. devendo-se entender. do art. com o respectivo número de ordem ao texto promulgado a 5 de outubro. das seis emendas constitucionais de revisão a (ECR). novamente. à fase complementar. Assim. através de revisão. A emenda constitucional aprovada pelas duas Casas do Congresso Nacional seguirá. conjuntamente. § 3º. entretanto. implícito ao próprio sistema constitucional vigente defendido pelos doutrinadores. 60.1994. que essa competência é do Congresso Nacional. uma vez que o titular do poder constituinte derivado reformador é o Poder Legislativo. previa um procedimento diferenciado para alteração da constituição. mesmo que não disposto no texto magno. Por sessão legislativa deve-se entender o período anual compreendido entre 15 de fevereiro a 30 de junho e entre 1º de agosto e 15 de dezembro (ao teor do art. em ambos. da Constituição Federal). O art. da Constituição Federal. diretamente. que expressamente veda a possibilidade de matéria constante de proposta de emenda rejeitada ou havida por prejudicada ser objeto de nova proposta na mesma sessão legislativa. A revisão encerrou-se com a promulgação 07. Dessa forma. Sobre a publicação.

vinculativa da ordem constitucional concreta”(Canotilho. da Constituição Federal. 7 . defendem a imutabilidade do dispositivo que garante o núcleo intangível da Constituição (art. as emendas constitucionais. J. infringindo a Separação dos Poderes da República consagrada no art. a proibição expressa poderia desaparecer. p. em especial. igualmente. Falamos isso porque. reconhecida por Pontes de Miranda e Pinto Ferreira. poderia ser transferido a outro poder. Gomes. CONCLUSÃO Esperamos com este trabalho ter dado uma breve visão referente ao processo legislativo previsto no texto magno. J. que em média são renovadas por volta de vinte em vinte anos). o instituto da mudança do texto supremo foi invocado quarenta e cinco vezes (sendo trinta e nove decorrentes do procedimento corriqueiro de alteração e seis como conseqüência da revisão constitucional esculpida no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias). se diferente fosse. mas entende-se que há limites não articulados ou tácitos. às vezes. só posteriormente. entre outros doutrinadores. e limites tácitos imanentes numa ordem de valores pré-positiva. para. Se tomarmos em conta o diminuto tempo de sua existência (não para as Constituições nacionais. se não protegido. espécie normativa um pouco banalizada no nosso sistema jurídico.) A existência de limitação explícita e implícita que controla o Poder Constituinte derivado-reformador é. 2º. ser alterada as cláusulas pétreas. § 4º. deduzidos do próprio texto constitucional. que. em quinze anos de vigência da atual Constituição brasileira. 1135. chegaremos inexoravelmente a um excesso de mudanças do texto previsto pelo Poder Constituinte Originário. e. 60. Direito Constitucional. “as Constituições não contêm quaisquer preceitos limitativos do Poder de revisão. pois. Esses limites podem ainda desdobrar-se em limites textuais implícitos. que. vinculativos do poder de revisão. Outra limitação implícita defendida pela doutrina estaria na titularidade do Poder Constituinte Derivado Reformador.Canotilho refere-se a certas garantias que pretendem assegurar a efetividade das cláusulas pétreas como limites tácitos para aduzir que. da Constituição Federal).

depararemos com um paradigma em relação à Constituição americana. as Constituições deveriam ser sintéticas (tendo como o maior exemplo a americana). o que exigiria que o texto magno apenas contivesse princípios delineadores. ainda. com exigência de estabilidade maior do que a legislação infraconstitucional e. que.Tendo como dogma que o direito constitucional é o ramo da ciência jurídica do qual emana todo o sistema jurídico do País. em mais de dois séculos de vigência. o que se dá por meio de mudanças no seu texto original. O diminuto lapso temporal de vigência está relacionado com a necessidade de adequação às novas realidades conjunturais e sociais do país. questões infraconstitucionais – caso ao qual a Constituição brasileira de 1988 está inserida) é comumente conhecido como analítica. ser disciplinados pelo legislador infraconstitucional. pouco mais de vinte e cinco vezes foi reformada. isto em face de que a duzentos anos atrás os Estados Unidos da América eram uma nação agrícola e hoje são a maior potência mundial. sem maiores delongas. para evitarmos constantes modificações. Sabemos que não há Constituição permanente. que tem como elemento diferenciador das demais a duração efêmera. os quais deram força constitucional a preceitos que poderiam. de modo a não sofrer deterioração reflexa das mudanças de pensamento e política no transcorrer dos anos. Diferentemente do que é plasmado pelo Direito Constitucional Moderno quase que de maneira unânime (seja em âmbito nacional. parece-nos que não tem sido esta a preferência dos constituintes. melhor teria sido a adoção de um texto que englobasse apenas matérias precipuamente constitucionais. que abarca além de dispositivos fundamentais para a caracterização do Estado. tendo unicamente como escopo dar contornos gerais ao ordenamento jurídico e ao modo de desenvolvimento político-administrativo no qual deveria ser emprego ao país (isto para não perder perenidade). que o processo de elaboração de emendas é mais dificultoso do que o de feitura de leis ordinárias. Esse tipo de Constituição (vale dizer. Contudo. seja no estrangeiro). 8 . Por fim.

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