Você está na página 1de 64

Maria Stella Martins Bresciani

LONDRES E PARIS
NO SeCULO XIX
O espetáculo da pobreza

editora brasiliense
I
Copyright © by Maria Stella Martins Bresciani

Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada,


armazenada em sistemas eletrônicos, fotocopiada,
reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer
sem autorização prévia do editor.

ISBN: 85-11-02052-7
Primeira edição, 1982
10ª reimpresão, 2004

Revisão: Newton T. L. Sodré e Júlio D. Gaspar


Capa: 123 (antigo 27) Artistas Gráficos

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Uvro, Sp, Brasil) lNDICE
Bresciani, Maria Stella Martins
Londres e Paris no sécilo XIX: o espetáculo da pobreza /
Maria Stella Martins Bresciani. - São Paulo: Brasiliense, 2004.
- (Tudo é história, 52)
Introdução _ _. _ _.. __ 7
10ª reimpr. da 1. ed. de 1982.
A rua e seus personagens _ . 10
Bibliografia.
ISBN 85-11-02052-7 A descida aos infernos . 22
A colmeia popular _ __ .. 49
1. Londres - Condições sociais - Século 19
2. Londres - História - Século 19 3. Londres - Usos e
O homem pobre e o vagabundo _ . 78
costumes - Século 19 4. Paris - Consições sociais - Classes pobres, classes perigosas _ _ . 109
Século 19 5. Paris - Usos e costumes - Século 19
I. Título. fi. Série
Indicações para leitura .. _ __ _.. 123

04-1133 CDD-942.06

índices para catálogo sistemático:


1. Londres: Século 19 : Condições sociais 942.06
2. Paris: Século 19 : Condições sociais 942.06

editora brasiliense Soa.


Rua Airi, 22 - Tatuapé - CEP 03310-010 - São Paulo - SP
Fone/Fax: (Oxx11) 6198-1488
E-mail: brasilienseedit@uol.com.br
www.editorabrasiliense.com.br

livraria brasiliense s.a.


Rua Emília Marengo. 216' Tatuapé - CEP 03336-000 - São Paulo - SP
FoneIFax (0",,11) 6675-0188
INTRODUÇÃO

Foule sans nom! chaos! de voix, des yeux, des pas.


Ceux qu'on n'ajamais vus, ceux qu'on ne connait pas.
Tous les vivants! - citês bourdonnantes aux orreilles
Plus qu'un bois d'Arnêrique ou une ruche d'abeilles.

Victor Hugo (Feuilles d'Automne)*

Nenhuma questão se apresenta mais carregada


de compromissos para os literatos do século XIX do
que a multidão. Num momento em que o hábito de
leitura se espalhava por todas as classes sociais, esse
público em formação fazia uma exigência: encontrar
sua imagem nos romances que lia. Entre outros,
Victor Hugo, Baudelaire, Zola e Eugêne Sue, na

* Multidão sem nome! Caos! Vozes, olhos, passos.


Para Adriano e Renato. Aqueles que jamais se viram, aqueles que não se conhecem.
Todos os vivos! - cidades atordoantes para os ouvidos
A colaboração de Edgar e o estímulo Muito mais do que um bosque da América ou' uma-colmeia de abelhas.
dos alunos de pós-graduação da turma (tradução literal)
de 1981 tornaram uma idéia viável.
.8 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 9

França, e Charles Dickens e Edgar Alan Poe, na revolução. O espetáculo das massas humanas, a ex-
Inglaterra, preencheram essa expectativa oferecendo trema novidade dos pobres nas ruas de Paris nos
à sociedade o espetáculo de sua própria vida. Ultra- . anos revolucionários, exibindo suas necessidades e
passando os limites dos ambientes privados, da casa falando a linguagem da política, configura para a
familiar, esses autores se colocaram na posição de Autora a magnitude de um movimento que modi-
observadores das cenas de rua. E, nas ruas, a mul- fica de ponta a ponta o significado do termo revo-
tidão é uma presença. Seja na sua dimensão anô- lução.
nima, mecânica de massa amoría, seja na apreensão Na trilha de Hannah e de Benjamin procurei
de detalhes seus exploráveis até certo ponto, o movi- fazer dessas multidões um tema de estudo. Uma
mento de milhares de pessoas deslocando-se por en- primeira incursão às múltiplas imagens da sociedade
tre o emaranhado de edifícios da grande cidade com- elaboradas pelos homens do século XIX. Nessa ativi-
põe uma representação estética da sociedade. As po- dade exploratória de textos de literatos, investiga-
pulações de Londres e de Paris encontram-se com dores sociais, médicos e administradores, uma grande
sua própria modemidade através dessa exterioriza- surpresa: o espanto e a geral preocupação ante a
ção: admiração e temor diante de algo extremamente pobreza que a multidão nas ruas revela de maneira
novo. O ímpeto para esquadrinhar e tornar legível insofismável. Espanto, indignação, fascínio, medo:
esse fluir constante tem muito a ver com uma inten- são reações diferenciadas apontando para estratégias
ção de conhecimento que implica a prévia experiên- de identificação bastante solidárias a uma intenção
cia do olhar que divide e agrupa, que localiza e de controle dessa presença desconcertante. O im-
designa a identidade das pessoas por seus sinais apa- pacto desse acontecimento está nas páginas deste
rentes. livro.
A esse acontecimento do século XIX o filósofo
Walter Benjamin foi sensível, e seu trabalho A Paris
do Segundo Império em Baudelaire nos propõe um
caminho sedutor para uma incursão historiográfica
menos comprometida com os tradicionais temas
maiores da história. No lugar de um fato e sua data,
uma presença que instaura seu tempo próprio. Preo-
cupação semelhante com as multidões que irrompem
nas ruas, inaugurando uma nova ordem no mundo,
encontramos na obra de Hannah Arendt, Sobre a
Londres e Paris no Século XIX 11

momento no cruzar de olhares que dificilmente vol-


tarão a se encontrar. Permanecer incógnito, dissol-
vido no movimento ondulante desse viver coletivo; ter
suspensa a identidade individual, substituída pela
condição de habitante de um grande aglomerado
urbano; ser parte de uma potência indiscernível e
temida; perder, enfim, parcela dos atributos huma-
nos e assemelhar-se a espectros: tais foram as marcas
assinaladas aos componentes da multidão por lite-
A RUA E SEUS PERSONAGENS ratos e analistas sociais do século passado.
Walter Benjamin, que fez da multidão na lite-
ratura do século XIX um tema de estudo, confere ao
olhar uma importância decisiva para quem vive nas
o homen da multidão não é um f1âneur. Nele o grandes cidades. O estar submetido a longos trajetos
hábito tranqüilo cedeu lugar a um toque maníaco ... pelas ruas, a pé ou dentro de meios de transporte
Walter Benjamin
coletivos, impõe aos olhos a atividade de observar
coisas e pessoas; a vida cotidiana assume a dimensão
A multidão, sua presença nas ruas de Londres e de um permanente espetáculo. Esse olhar pode se
Paris do século XIX, foi considerada pelos contem- resumir a um relance. Baudelaire fixa poeticamente
porâneos como um acontecimento inquietante. Mi- o seu furtivo encontro com uma mulher como um
lhares de pessoas deslocando-se para o desempenho parêntese próprio da situação de rua. A figura da
do ato cotidiano da vida nas grandes cidades com- mulher que passa suspende o tempo e o barulho
põem um espetáculo que, na época, incitou ao fascí- ensurdecedor ao seu redor; por um instante o olhar
nio e ao terror. Gestos automáticos e reações instin- se detém nas minúcias dessa figura feminina. O
tivas em obediência a um poder invisível modelam o olhar retribuído, ainda que num relance, vai além e
fervilhante desfile de homens e mulheres e conferem define a cumplicidade possível entre estranhos que se
à paisagem urbana uma imagem freqüentemente as- particularizam: eles sabem da fugidia possibilidade
sociada às idéias de caos, de turbilhão, de ondas, de um reencontro; eles sabem o que deixaram de
metáforas inspiradas nas forças incontroláveis da na- ganhar ao se submeterem ao acaso (Les fleurs du
tureza. Figuras fugidias, indecifráveis para além de mal).
sua forma exterior, só se deixam surpreender por um O acaso é um determinante fundamental dos
13
12 Maria Stella Martins Bresciani ÚJndres ~ Paris no Século XIX

sua cúmplice. Ê bem verdade que a chegada da


.encontros nas grandes cidades. "Nas dobras sinuosas
noite, da "amável noite", também se faz desejada
das velhas capitais, onde tudo, mesmo o horror, se
pelos que trabalharam; nessa hora o operário cur-
torna encantamento", Baudelaire encontra "as velhi-
vado pelo cansaço retorna ao leito. Esse configura,
nhas" e as observa refletindo sobre a condição da
porém, um movimento de recolhimento, da intimi-
velhice, de antigas mulheres que ainda caminham
dade circunscrita ao interior das casas. Os combates
"estôicas e sem queixas através do caos das cidades
do dia se interrompem, os soldados do trabalho re-
viventes". Ainda o acaso o faz observar o velho que se
pousam, os demônios despertam e preenchem o es-
desdobra em sete velhos, tantas as solicitações sofri-
paço urbano. A multidão é outra. O formigar das
das em meio à "cidade formigante, cidade plena de
prostitutas, os escroques atentos junto às mesas de
sonhos, onde os espectros agarram, em pleno dia,
jogo, os ladrões na sua labuta silenciosa: tais são seus
aqueles que passam". Onde "os mistérios resvalam
componentes. Também o barulho da noite se faz com
por todos os lugares, tal como a seiva dos canais".
outros sons: o assobio das cozinhas, a algazarra dos
A incerteza quanto ao que se vai encontrar é
teatros, o troar das orquestras, o ruído áspero e tenso
compensada pelo encontro certo, cotidianamente
confirmado, com o fluxo formigante, caótico, da das mesas de jogo.
Nessas horas escuras e densas, o acaso se trans-
multidão. Nela, Baudelaire cultiva sua solidão a
figura em temeridade. Janin é menos complacente do
condição de "flâneur". Dela, Baudelaire faz in~pi-
que Baudelaire: "A Paris da noite, afirma, é assus-
ração necessária. Não pretende decifrá-Ia em seus
tadora; é o momento em que a nação noturna se põe
mistérios e seus perigos, aceita-a como caos. Sua
em marcha". Em meio às trevas que tudo dominam,
renúncia não o impede, contudo, de assinalar os as-
clarões de luz indicam a presença dos catadores de
pectos alarmantes e ameaçadores da vida urbana.
lixo com suas lanternas e suas vidas às expensas das
Paris da metade do século configura um espetá-
imundícies, gritos interrompidos denunciam os la-
culo diurno, por completo diverso daquele que a noite.
drões em plena ação, passos abafados dão conta do
encena. De manhã cedo, ainda madrugada, "o Sena
vai e vem das prostitutas ... Enfim, "o terror é gran-
se encontra deserto e Paris, como os velhos trabalha-
de, terrível, imenso. E o ouvido reconhece o ruído
dores, esfrega os olhos enquanto empurra suas ferra-
surdo da patrulha cinza que começa sua caçada de-
mentas: é a hora em que o trabalho desperta". A
sesperada. Esta é a população fervilhante e .fu~tiva
cena urbana se vê ocupada pela multidão dos traba-
que Paris deixa viver nos becos pavorosos, dissímu-
lhadores. Os personagens da noite são outros. "A
lando-a bem atrás dos museus e dos palácios; popu-
noite encantadora" é amiga do criminoso· até no
lação que usa o linguajar das prisões para se entreter
movimento lento e silencioso do passo do lobo se faz
Londres e Paris no Século XIX IS
14 Maria Stella Martins Bresciani

com seus temas favoritos - assassínios, roubos, exe-


cuções. É uma verruga virulenta sobre a face dessa
grande cidade", completa Janin (Un hiver a Paris,
1845).
A atividade do olhar se torna mais difícil quan-
do ao cair da noite a multidão se adensa tornando-se
insondável. Quanto mais numerosos os homens,
mais profunda se torna a sombra. Nessas regiões
escuras, a multidão realiza o cotidianamente reno-
vado espetáculo da promiscuidade, da agressão; em
suma, todo o perigo pressuposto como presença em
repouso, durante o dia, põe-se de tocaia em cada
reentrância da rua, em todos os becos mal ilumi-
nados. Para os contemporâneos, na noite, sob a luz
dos lampiões, a multidão assume a imagem acabada
de alguma coisa obscura e inextricável. São apenas
perceptíveis vozes, sussurros, vultos, olhares, passos.
Em Victor Hugo, a imagem do caos de uma
multidão sem nome é encarregada da representação
do movimento não domado de uma massa humana
cujos componentes se subtraem a qualquer regula-
ridade visível imediata. As metáforas da selva virgem
e das pradarias americanas compõem a figuração
estética do perigo velado e iminente. Nas ruas de
Paris, o assalto dos ladrões se assemelha ao ataque de
índios; o ruído da cidade lembra o irritante, incon-
trolável e ininterrupto zunir de uma colmeia de
abelhas.
Imagens como as do oceano, de floresta, de
formigueiro, do inferno, de doença, foram recursos Rua de um bairro operário londrino. (In: E. J. Hobsbawn,
. The Age of Capital, 1848-1875.)
necessários à literatura, para dar conta de um tema
1 16 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 17

novo. Identificando elementos comuns do viver em tempo que os separa do momento do início do tra-
multidão com o estar à mercê das vagas irregulares balho. "Os das nove e meia corriam pressurosos,
do oceano ou dos habitantes selvagens da floresta, ou enquanto os das dez recaíam num passo de uma lenti-
ainda com o estar sujeito às presumidas condições de tidão aristocrática." Mas não só os empregados de
estadia no inferno, os autores do século XIX foram escritórios participam dessa cena matinal. Perma-
compondo uma representação estética do universo necendo em seu posto de observação, o sr. Pickwick
das cidades. O espetáculo das ruas torna-se visível anota ainda que "a todas as janelas, como por ma-
nos textos. gia, surgiam cabeças; os carregadores tomavam seus
Viver numa grande cidade implica o reconhe- postos para o trabalho do dia; as lavadeiras preci-
cimento de múltiplos sinais. Trata-se de uma. ativi- pitavam-se para fora, de sapatos acalcanhados; o
dade do olhar, de uma identificação visual, de um carteiro corria de casa em casa", afinal, conclui,
saber adquirido, portanto. Se o olhar do transeunte "todo o enxame do trabalho andava em grande azá-
que fixa fortuitamente uma mulher bonita e viúva ou fama" (As aventuras do sr. Pickwick).
um grupo de moças voltando do trabalho, pressupõe Aqui, a atividade do olhar dá conta por inteiro
um conhecimento da cor do luto e das vestimentas da composição da cena de rua. Mas a referência a
operárias, também o olhar do assaltante ou o do um movimento intermitente e ritmado de homens
policial, buscando ambos a sua presa, implica um nas suas ocupações diárias, compondo o tecido social
conhecimento específico da cidade. Os meninos la- da grande cidade, desvenda o tempo útil do trabalho
drões que acolhem Olivier Twist quando de sua che- como parâmetro necessário à atividade do olhar. E
gada a Londres sabem divisar na multidão suas pos- ele o ordenador imperativo, a potência disciplina-
síveis vítimas e só se lançam ao ataque, bem avaliado dora invisível de todas as atividades. Essa força cons-
o movimento circundante. trangedora do tempo também aparece nas obser-
Aliás, os personagens de Dickens são sempre vações do sr. Pickwick: "O relógio deu dez horas e os
argutos observadores do que transcorre nas ruas. O escreventes jorravam cada vez com mais pressa, cada
olhar casual do sr. Pickwick divisa uma cena de rua qual transpirando mais que seu predecessor" .
em Londres: a aproximação repentina de inúmeros Com certeza, nessa primeira metade do século,
empregados de escritório numa praça central da ci- as atividades urbanas haviam perdido qualquer vín-
dade, entre as nove e meia e dez horas da manhã. Não culo com o tempo da natureza; de há muito se encon-
lhe causa surpresa o caminhar solitário e apressado tram subordinadas ao tempo abstrato, ao dia impla-
de homens que olham para o relógio da torre, regu- cavelmente dividido em 24 horas. A introjeção dessa
lando o ritmo de seus passos em resposta ao lapso de específica noção de tempo é, como afirma Thompson
18 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 19

(Tiempo, disciplina de trabajo y capitalismo indus- mica", ele agora revela um conhecimento preciso dos
trial) , indispensável para a constituição da socie- elementos que compõem essa maré humana. A pecu-
dade. Ela arranca o homem da lógica da natureza, liaridade das figuras permite-lhe agrupá-Ias e ao
dos dias de duração variada de acordo com as tarefas mesmo tempo hierarquizar os grupos.
a cumprir no decorrer das diversas estações do ano, "Em alto grau, o maior número daqueles que
e o introduz ao tempo útil do patrão, o tempo abs- passavam tinham um porte convencido de gente ata-
trato e produtivo, o único concebido como capaz de refada e parecia estar pensando apenas em abrir
gerar abundância e riqueza, e, mais importante ain- caminho pela multidão. Outros, classe ainda nume-
da, o único capaz de constituir a sociedade disci- rosa, mostravam-se inquietos em seus movimentos.
plinada de ponta a ponta. Em obediência ao seu Nada havia de muito peculiar nessas duas grandes
contínuo e irreversível fluxo, à repetição diária dos classes. Suas roupas se incluíam na categoria que
mesmos percursos em direção às mesmas tarefas em exatamente se define: decente. Eram sem dúvida
momentos previsíveis desse evolver linear, a socie- nobres, mercadores, advogados, lojistas, agiotas, os
dade do trabalho se institui e elabora sua própria Eupátridas e o lugar-comum da sociedade, homens
imagem. de lazer e homens ativamente empenhados em negó-
A multidão londrina, no seu movimento inin- cios sob sua exclusiva responsabilidade."
terrupto de conteúdo variável em função do tempo, Em seguida nosso observador se detém na "tribo
foi minuciosamente anotada por Edgar A. Poe no dos escreventes, inconfundível em duas notáveis divi-
ano de 1840(0 homem das multidões). Colocando-se sões: os pequenos escreventes das casas baratas, os
na posição de observador casual fascinado pela intensa jovens cavalheiros de roupas justas, sapatos brilhan-
movimentação de uma das ruas centrais da cidade, o tes, cabelos abrilhantinados e lábios insolentes, usa-
Autor relata: "ao escurecer, a multidão de momento vam os restos da classe alta e isso envolve a melhor
a momento aumentava e, ao tempo em que as luzes descrição de sua classe, e os escreventes principais
foram acesas, duas densas e contínuas marés de povo das firmas sólidas ou sujeitos de confiança, conhe-
passavam apressadas". O fascínio de uma "emoção cidos pelos paletós e calças pretos ou marrons coníor-
nova" leva-o a se deixar absorver completamente fortáveis, cabeça levemente calva, orelha direita aca-
pela "contemplação da cena daquele tumultuoso banada, chapéu e relógio preso por corrente de ouro
mar de cabeças humanas". Suas observações, de de modelo grosso e antigo, afetavam responsabili-
início genéricas, passam aos detalhes; ele examina dade".
"com minudente interesse as inúmeras variedades de Um outro tipo, ainda muito numeroso, de "indi-
figura, roupas, ar, andar, rosto e expressão fisionô- víduos de aparência vivaz" foi identificado "como
20 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 21

pertencente à raça dos elegantes batedores de car- vivacidade desordenada e barulhenta que atormen-
teira, de que todas as grandes cidades andam infes- tava os ouvidos e levava aos olhos uma sensação
tadas, cuja enormidade do punho de suas camisas dolorosa" .
deveria traí-Ios imediatamente". Logo depois, recor- "Ã proporção que a noite se adensava," conti-
ta na multidão "os jogadores profissionais, em quan- nua ele, "mais profundo se tornava para mim o
tidade não pequena, facilmente identificáveis. Usa- interesse da cena, pois não somente o caráter geral
vam roupas de todas as espécies, desde a vestimenta da multidão materialmente se alterava (apagando-se
berrante e audaciosa, até as vestes do clérigo escru- suas feições mais nobres, com a gradativa retirada da
pulosamente desornado. Eram todos, contudo, facil- parte mais ordeira do povo e pondo-se em maior
mente distinguidos pela coloração amorenada e oleo- relevo os mais grosseiros, quando a hora avançada
sa, um vaporoso escurecimento dos olhos, o palor e a retirava todas as espécies de infâmia de seu antro) e
compressão dos lábios, pela tonalidade da voz e pelo os raios do lampião a gás lançavam sobre todas as
polegar em ângulo com os demais dedos". Ao lado coisas um clarão espasmódico e lustroso. Tudo era
deles, "homens algo diferente, porém ainda pássaros negro, mas esplêndido." Agora, somente as figuras
da mesma plumagem, cavalheiros que vivem da sua são discerníveis, e o olhar deve se deter em cada rosto
habilidade e rapinam o público em dois batalhões: o que o lampião ilumina para que possa "ler, mesmo
dos jogadores e o do gênero militar" . naquele breve intervalo de um olhar, a história de
Enfim, nosso observador penetra "nas camadas longos anos". Nessa atividade mais detida, ele vis-
mais baixas da multidão onde encontra temas de lumbra uma figura que, por sua singularidade, o
meditação mais negros e mais profundos. Vi reven- impele a abandonar a posição de observador analítico
dedores judeus com olhos de gavião; atrevidos men- da multidão e a misturar-se a ela numa perseguição
digos de rua, profissionais; fracos e lívidos inválidos inútil pelas ruas repletas de Londres, na tentativa de
andando de viés e cambaleando por entre a multi- atingir o conhecimento da individualidade de al-
dão, fitando a todos suplicantemente; mocinhas hu- guém, para além da mera classificação. Ou, nas
míldes, de volta de um trabalho longo e tardio, para palavras de W alter Benjamin, ao referir-se a essa
um lar sem alegria; prostitutas de todas as espécies; descrição de Poe: esta é "a multidão inabarcável
ébrios inumeráveis e indescritíveis; além desses, ven- onde ninguém se desvenda todo para o outro e onde
dedores de empadas, tocadores de realejo, exibidores ninguém é para o outro inteiramente impenetrável".
de macacos, vendedores de modinha, os que vendiam
com os que cantavam, artífices esfarrapados e ope-
rários exaustos de toda a casta e todos cheios de uma
-
Londres e Paris no Século XIX 23

ao afirmar que o assustador contraste entre a opu-


lência material e a degradação do homem fazia de
Londres uma singularidade absoluta. Engels, em via-
gem pela Inglaterra na década de 1840, diz não
conhecer nada mais imponente do que o espetáculo
proporcionado pela subida do Tâmisa em direção à
Ponte de Londres. "O amontoado das casas, os esta-
leiros navais de ambos os lados, os inumeráveis na-
vios alinhados ao longo das duas margens, estrei-
A DESCIDA AOS INFERNOS tamente unidos uns aos outros, e que, no meio do rio,
deixam apenas um estreito canal onde centenas de
barcos a vapor se cruzam a toda velocidade, tudo isto
A mob will be no less a mob if it is well fed, well
c1othed, well housed, and well disciplined.
é tão grandioso, tão enorme, que se fica atônito e
estupefato com a grandeza da Inglaterra, mesmo
T. S. Eliat* antes de se pisar solo inglês" (A condição da classe
trabalhadora na Inglaterra).
O tom otimista desaparece em seguida, ao ser
Nessa Londres da metade do século com dois
. . '
e meto milhões de habitantes, projetam-se com total
avaliado o custo social do crescimento econômico.
Poucos dias de permanência na cidade bastam para
nitidez a promiscuidade, a diversidade, a agressão,
que identifique "os efeitos devastadores da aglome-
em suma, os vários perigos presentes na vida urbana. ração urbana". Percorrendo as ruas principais da
Para além do fascínio se faz sentir o medo. Na ex-
I pressão de Shelley: "o inferno é uma cidade seme-
metrópole, Engels se vê constrangido a abrir passa-
gem através da multidão e das intermináveis filas de
lhante a Londres, uma cidade esfumaçada e popu-
carruagens e carroças, constrangimento esse que au-
losa. Existe aí todo tipo de pessoas arruinadas e menta quando ele chega aos bairros ruins e conclui
pouca diversão, ?u melhor, nenhuma, e muito pouca que os londrinos se viam obrigados a sacrificar a
justiça e menos ainda compaixão".
melhor parcela de sua qualidade de homens na tarefa
Os observadores contemporâneos são unânimes de atingir todos os milagres da civilização. Ao con-
trário de Poe, Engels não se sente atraído pela mul-
* l!ma turba n~o será mais uma turba se for bem alimentada, bem ves- tidão das ruas londrinas, que, para ele, "tem em si
tida, bem alojada e bem disciplinada. qualquer coisa de repugnante que revolta a natureza
=
24 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 25

humana". Fica assustado e indignado por ver "cen- Street, de Trafalgar Square e do Strand, uma massa
tenas de milhares de pessoas se comprimindo e se de casas de três a quatro andares, construídas sem
acotovelando, parecendo nada ter em comum, obe- planejamento, em ruas estreitas, sinuosas e sujas,
decendo somente a um acordo tácito de manter a sua abriga parte da população operária. Nas ruas a ani-
direita, de modo a permitir o cruzamento contínuo e mação é intensa, um mercado de legumes e frutas de
sem obstáculo de ambas as filas da multidão. A má qualidade se espalha, reduzindo o espaço para os
indiferença brutal e o isolamento insensível de cada passantes. O cheiro é nauseante. A cena torna-se
um voltado para os seus interesses, impedem até um mais espantosa no interior das moradias, nos pátios e
olhar de relance para o outro". "Esses homens", nas ruelas transversais: "não há um único vidro
continua, "parecem esquecidos de que possuem as de janela intacto, os muros são leprosos, os ba-
mesmas qualidades e capacidades humanas e, mais' tentes das portas e janelas estão quebrados, e as
ainda, de que partilham o mesmo interesse na busca portas, quando existem, são feitas de pranchas pre-
da felicidade." Sua sentença não deixa lugar a dú- gadas". Nas casas até os porões são usados como lugar
vidas: "E mesmo sabendo que este isolamento do de morar e em toda parte acumulam-se detritos e
indivíduo, este egoísmo tacanho, são em toda parte o água suja. "Aí moram os mais pobres dentre os
princípio fundamental da sociedade atual, em parte pobres, os trabalhadores mal pagos misturados aos
alguma eles se manifestam com uma independência e ladrões, aos escroques e às vítimas da prostituição."
segurança tão totais como aqui, precisamente na Nesse centro de Londres, numerosas ruelas de casas
multidão da grande cidade. A desagregação da hu- miseráveis entrecruzam-se com as ruas largas das
manidade em mônadas, onde cada um possui um grandes mansões e os belos parques públicos; essas
princípio e uma finalidade de vida particulares, esta ruelas lotadas de casas abrigam crianças doentias e
atomização do mundo, foi aqui levada ao extremo. mulheres andrajosas e semimortas de fome.
Resulta disso que a guerra social, a guerra de todos As péssimas condições de moradia e a superpo-
contra todos, aqui está abertamente declarada". pulação são duas anotações constantes sobre os bair-
Engels percorre e descreve detalhadamente os ros operários londrinos. Mesmo áreas ricas como
bairros ruins de Londres, bairros em que se con- Westminster têm paróquias onde, segundo o Journal
centra a classe operária. A célebre Rockery (ninho of Statistical Society de 1840, moram 5366 famílias
de corvos) St, Giles fica em pleno centro da cidade, de operários em 5294 habitações, num total de
área populosa e cercada de ruas largas e bem ilumi- 26830 indivíduos, dispondo 3/4 dessas famílias so-
nadas, freqüentadas pela alta sociedade londrina. mente de uma peça para viver. Idêntica situação na
Dessa maneira, ao lado de Oxford Street, de Regente aristocrática St. George, com 1465 famílias num
27
26 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX

total de cerca de 6000 pessoas. Nessas circunstân-


cias, o que esperar das condições de vida no grande
bairro operário à leste da Torre de Londres, White
Chapel e Bethnal Green, conhecido nas décadas fi-
nais do século pelo termo East End? Conhecido de
nome, já que os londrinos estranhos a ele não se
aventuravam por suas ruas, considerando-o um mun-
do desconhecido, diferente e à parte, embora dentro
da mesma cidade. A descrição do East End feita por
Arthur Morrison (Tales of mean street) na década de
oitenta não difere muito do relato de Engels em 1844:
"Um lugar chocante, um diabólico emaranhado de
cortiços que abrigam coisas humanas arrepiantes,
onde homens e mulheres imundos vivem de dois tos-
tões de aguardente, onde colarinhos e camisas lim-
pas são decências desconhecidas, onde todo cidadão
carrega no próprio corpo as marcas da violência e
ondejamais alguém penteia seus cabelos".
Na década de quarenta, o pároco de St. Philip,
1I em Bethnal Green, diz ser essa parte da cidade tão
mal conhecida pelos londrinos como o eram os sel-
11
vagens da Austrália ou das ilhas dos mares do sul.
Convida seus concidadãos a tomar conhecimento dos
"sofrimentos desses infelizes", com suas magras re-
feições, curvados pelas doenças e pelo desemprego,
afirmando mesmo que "uma tal soma de aflição e
miséria numa nação como a nossa deveria ser motivo
de vergonha". Também por volta de 1840, um de-
poente ao Select Committee on the Health of Towns
afirma que, excetuando-se os médicos e os párocos,
se sabe tanto dos habitantes do East End e de suas
28
Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 29

condições de vida, quanto se sabe das populações lantropos e administradores na década de quarenta:
selvagens das longínquas regiões africanas. A mesma "Os fatos demonstram a importância política e mo-
opinião é. expressa pela London Diocesan Building ral dessas considerações, ou seja, que as condições
Society, vmte anos depois, ao considerar o East End físicas ambientais malsãs deterioram a saúde e o
"uma vasta região tão inexplorada como o Timbuc- estado físico da população, que elas agem, da mesma
tu". Comparações como essas, em que os distritos maneira, como obstáculos à educação e ao desen-
pobres são considerados terra incógnita e seus habi- volvimento moral; que, diminuindo a expectativa de
tant~s selvagens, desconhecidos, repetem-se durante vida da população operária adulta, impedem o cres-
as decadas de 1880 e 1890; o cientistaT. H. Huxley cimento das capacidades produtivas e diminuem o
chega
"
mesmoo.
a afirmar
••
que o selvagem polinésio , capital social e moral da comunidade; que substi-
na sua. mais primitiva condição, não possui nem a tuem uma população que acumula e conserva a ins-
metade da selvageria e da irrecuperabilidade do ha- trução. que se aperfeiçoa constantemente por uma
bitante dos cortiços do East End" (Asa Briggs população jovem, .ignorante, crédula, apaixonada e
314-15). '
perigosa pelo fato constatado de sua tendência per-
Nas décadas finais do século, a opinião corrente manente à degradação física e moral" (Report to her
a~entua a d~terioração substancial das condições de magesty's ... , 1842). Também as pesquisas das auto-
vida nos bairros pobres de Londres e a teoria da ridades administrativas dessa década, transcritas nos
. ~egene.raç~o urbana ganha adeptos entre empresá- famosos Blue Books, são enfáticas no relato das pés-
nos, cientistas e administradores. "O filho do ho- simas condições de vida dos operários: "mais imun-
mem da cidade cresce muito magro, é quase uma dície, piores sofrimentos físicos e desordens morais do
paródia de si mesmo, precocemente excitável e doen- que os descritos por Howard em relação aos detentos
tio na infância, neurótico, melancólico, pálido e mir- das prisões, são encontrados entre os trabalhadores
rado quando adulto, e isso no caso de atingir esse que habitam os porões nas cidades de Liverpool,
estágio da vida ... Afirma-se com alto grau de certeza Manchester, Leads e extensas áreas de Londres" (Re-
que um londrino puro da quarta geração não tem port on the sanitary condition of the labouring peo-
capacidade para se manter vivo", sentencia em 1890 pie, 1842).
o médico J. P. Freeman (The effects of town life in As implicações econômicas da degradação física
the general health).
e moral dos trabalhadores urbanos são constante-
.Essa constatação, aliás, nada mais fazia do que mente lembradas por esses sanitaristas que consi-
confirmar a "Idéia Sanitária" que, desenvolvida por deram os custos das medidas preventivas - melhores
Chadwick, inspirou poetas, moralistas, artistas, fi- condições de moradia, sistema de distribuição de
30 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 31

água e sistema de esgotos - menores do que os thegeneral health, 1890) (S. Jones, 127).
custos da doença - interrupção do trabalho e perda O preconceito em relação ao trabalhador nas-
de salário -, para não falar dos altos custos da cido e criado em Londres, já corrente no final do
contenção das sucessivas epidemias que tomam con- século XVIII, está amplamente difundido entre os
ta dos bairros pobres de Londres até a década de empregadores na segunda metade do século seguin-
sessenta. A degradação física e moral do trabalhador te. Os empresários da região norte do país chegam a
urbano, preocupação maior nessa primeira metade explicitar serem indesejáveis os trabalhadores da Me-
do século, transmuta-se, nas décadas seguintes na trópole, "onde as constituições físicas estão quebra-
teoria da degeneração urbana do homem pobre.' Em das e os homens enfraquecidos por dissipações e
torno de 1860, os filhos dos tecelões de seda de excessos de todos os tipos". Até mesmo um cervejeiro
Londres, indústria em declínio desde a década de da cidade afirma: "nós nunca empregamos um ho-
trinta, espalhavam-se pelas esquinas das ruas da ci- mem londrino. Se um trabalhador adoece e precisa
dade em grupos de rapazes de 16 a 20 anos, magros, deixar seu emprego junto a nós, preenchemos seu
pálidos, improdutivos e furiosos, dizendo não terem lugar com alguém do campo" (S. Jones, 129-30). Na
emprego e terem suas tentativas de obtê-lo sido frus- década de 1880, o darwinismo social proporcionou a
tradas até no exército, dada sua compleição física cobertura biológica para a teoria da degeneração
débil e a pouca altura (S. Jones, Outcast London urbana hereditária, reforçando a posição privile-
102). ' giada do imigrante para as tarefas especializadas e
Ao custo econômico soma-se a ameaça social de responsabilidade. Entre as possibilidades de tra-
. ' balho, bastante diminuídas pelo dec1ínio da indús-
pOISnão se considera a "extinção do londrino" um
processo pacífico: a consciência de sua situação for- tria londrina, restava ao homem da cidade o emprego
ça-o ao protesto e isso redunda, no mínimo, "peri- casual, principalmente nas docas (S. Jones, 20-21).
goso e dispendioso para a nação". Competindo no Essa especificidade de Londres é explicada pelo
mercado de trabalho em condições desvantajosas historiador S. Jones pelo espantoso crescimento po-
com o imigrante, ele percorre vários estágios antes de pulacional da cidade (1873 676 habitantes em 1841 e
ser fisicamente eliminado: "trabalho irregular, bis- 4232118 em 1891) (A. Briggs, 59) não ter sido acom-
cates, pocilgas, prostituição, caridade, desordem, panhado por um crescimento equivalente das opor-
protestos públicos e tumultos; eis algumas das lutas tunidades de trabalho. Segundo ele, a Revolução
desse moribundo londrino até que pague sua dívida à Industrial representou um desafio crítico para as
natureza, cujas leis não têm capacidade para obe- antigas indústrias londrinas que demonstraram ser
decer" (Freeman -Williams, The effect of town life on incapazes de se estruturar no sistema de fábrica. No
32
30 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 33

primeiro quartel do século, Londres era conhecida


"indústria de construção naval do East London nos
pela produção têxtil (seda), pela construção naval e
anos de 1866-8. Somente os canteiros de Poplar ha-
pela engenharia civil e mecânica pesada; nos anos
viam aumentado seu número de trabalhadores de
setenta, comparativamente a outras áreas indus-
triais, a produção da cidade tornara-se deficiente
13000 em 1861 para 27000 em 1865; em janeiro de
quanto aos têxteis, à engenharia pesada, à cons-
1867 esse estaleiro despedia 30000 pessoas lev~ndo.~
um ponto critico o pânico nesse b~irro londrmo, J.a
trução naval e, de maneira mais geral, quanto a todo
flagelado no outono do ano ante no r por uma e~l-
tipo de matéria-prima e produtos semimanufatura-
demia de cólera que matara 3909 pessoas. A cnse
dos. Permaneceram em Londres os estabelecimentos
financeira de 1866 atinge ainda a construção civil e a
de produtos manufaturados artesanais e sofisticados
construção de ferrovias (S. Jones, 102-~). .
que encontravam rápida colocação no mercado ur-
bano (S. Iones, 20-1). Um quadro amplo da população industrial lon-
drina por volta de 1860 mostra-a, excetuando-s~ os
As proporções desse dec1ínio vertiginoso podem
empregados na construção civil, ,~ivi~a e~ cmco
ser avaliadas pela indústria da seda que em 1824
grandes ramos de produção: vestuário (mc1ulI~do.sa-
empregava aproximadamente 50000 pessoas e nos
patos), madeira e móveis, metais e engenharia, Im-
momentos piores de crise dos anos trinta chegou a ser
pressão e papelaria e, finalmente, manufatura de
responsável por 30000 desempregados. Embora mui-
precisão (metais preciosos, relógios, instrumet;ttos
tos desses tecelões sem emprego tenham imigrado
científicos, instrumentos cirúrgicos etc.). No fmal
para outras regiões industriais, um grande contin-
dos anos sessenta, mesmo a produção de roupas e
gente permaneceu em Londres subordinando-se às
sapatos sofria uma competição significativ~ das. ou-
condições impostas pelo trabalho casual nas docas
tras regiões industriais, restringindo-se, aSSIm, am~a
(que chegaram na época a ser consideradas verda-
mais a produção em oficina e ampliando a produção
deiras colônias de tecelões desempregados). Mesmo.
a domicílio. Em parte, também a externa instabi-
aqueles que permaneceram ligados sazonalmente à
lidade do mercado urbano sujeito às arbitrariedades
produção da seda na esperança de tempos melhores
da moda dificulta a produção em grande escala e
tiveram suas expectativas frustradas em definitivo
torna altamente atraente para os empresários o recuo
pelo tratado Cobden de comércio livre com a França
para o velho sistema de produção doméstica que,
em 1860. Nesse ano o número de trabalhadores da
muito flexível, se expandia e se retraía quando
seda decrescera para 9500 pessoas, e vinte anos de-
necessário (S. Jones, 23-4). Nesses ramos da pro-
pois seu número reduzia-se a 3 300 (S. Jones, 101). O
dução onde é dispendioso o uso da máquina, a
desamparo dos tecelões foi tragado pelo colapso da
produtividade se faz garantir pela superexploração
34 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 35

do trabalhador ("sweting sistem"). com que mesmo nos anos mais prósperos dessas in-
Essa estratégia de recuo para um sistema de dústrias (década de setenta) um grande número de
grande exploração de trabalho permite, no momento alfaiates e sapateiros se vissem constrangidos a recor-
de declínio agudo das indústrias de construção naval rer à caridade (S. Jones, 109).
e da 'seda, e com liberação de grande contingente de Também as transformações no sistema portuá-
mão-de-obra, a rápida expansão e a transformação rio de Londres contribuíram para tornar ocasional
do sistema de produção de roupas, sapatos e móveis. o mercado de trabalho da cidade. Tanto a West
Tratava-se de produtos baratos, fabricados em gran- India Dock como a London Docks, fundadas em
de quantidade para um mercado pouco exigente; não 1802 e 1805, respectivamente, tinham como propósito
competiam com os manufaturados de luxo da City ou formar uma força de trabalho permanente, sóbria e
do West End, mas sim com a produção fabril barata responsável, de maneira a que atuasse ainda como
de outras regiões inglesas. Daí ser necessário subdi- grupo de proteção dos bens das companhias. As duas
vidir sua produção no maior número possível de tare- preocuparam-se com ocupar seus empregados em
fas não especializadas e entregá-Ias à mão-de-obra serviços alternativos quando o específico trabalho
não especializada e barata. Paradoxalmente, esse nas docas era interrompido. O esforço para evitar a
sistema de superexploração do trabalhador expande- sazonalidade do emprego nessas companhias durou
se de forma insuspeitada com o avanço tecnológico até os anos trinta. Ainda em 1828, os regulamentos
efetivado nas máquinas de costura e de cortar tecido morais da St. Katherine's Dock Company prescre-
(indústria do vestuário e de sapatos) e nas serras viam "honestidade e sobriedade como qualificações
movidas a vapor (mobiliário). Tanto a indústria de indispensáveis" para seus trabalhadores que "ao me-
sapatos como a de móveis, expandiram-se nas áreas nor desvio deviam ser dispensados imediata e irre-
pobres de Bethnal Green, antigo centro de produção vogavelmente" .
da seda. Também as áreas próximas aos estaleiros e Entretanto, no decorrer das décadas de 1830, 40
às docas, proporcionaram mão-de-obra masculina e 50, o porto de Londres foi aberto à total concor-
disposta ao subemprego ocasional e mão-de-obra fe- rência, extinguindo-se assim o sistema de monopólio
minina barata. Como resultado geral, o sistema de que beneficiara as antigas companhias. A força de
superexploração do trabalho acentuou a predomi- trabalho permanente foi reduzida ao mínimo, e o
nância do trabalho não especializado sobre o espe- emprego casual nas docas, que já era uma lei da
cializado. Para o mercado de trabalho masculino natureza, tornou-se também uma lei econômica. A
especializado o impacto foi tremendo: a concorrên- segunda metade do século foi um período de crise
cia do trabalhador não qualificado e do menor fez para o porto de Londres, deteriorando-se significa-
36 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 37

tivamente as condições de emprego nas docas, em venta, as dificuldades existentes para a produção
particular nas áreas mais antigas incapazes de com- londrina são acrescidas com regulamentações para a
petir com os sistemas mecanizados das docas mais construção e a inspeção obrigatória das instalações
modernas (Victoria e Millwall), estabelecidos nas dé- I fabris. Essas medidas tornam intransponíveis as bar-
I cadas de 50 e 60. Para as áreas ribeirinhas de White-
chapel, St. George's, Limehouse e Poplar, todas no
reiras para a produção em larga escala na cidade de
Londres, para ramos da indústria como o gráfico, a
East End, essa concorrência implicou um corte de encadernação, o mobiliário e certos tipos de ves-
um terço de seus efetivos. Em 1881, a Charity Orga- tuário (26).
II nization Society dizia ser já crônica e universal a A instabilidade do mercado de trabalho acentua
queixa de falta de emprego na região, manifestando a extrema exploração do trabalhador e força-o a
sua apreensão pela transferência das atividades por- residir no centro da cidade, próximo aos lugares onde
tuárias para outras partes do rio (5. Jones, 111-23). sua busca de emprego ocasional se faz possível a cada
O emprego casual e a superexploração do trabalho manhã. Nessas áreas, a superpopulação acelera e
tornaram-se regra aí também. I piora as condições sanitárias das moradias. Toda a
Contudo, essa regressão não era aplicável a ou- ! política de demolição e deslocamento de bairros con-
tros ramos da indústria londrina que, a partir dos siderados infectos e perigosos, desenvolvida entre
anos cinqüenta, inicia seu êxodo para outras áreas 1850 e 1880, resulta, na ausência de um sistema de
industriais inglesas. Isto ocorre principalmente com transporte barato e eficiente, numa agudização do
a construção naval, com a indústria da seda e com a congestionamento dos bairros centrais de Londres. É
engenharia pesada, onde o declínio foi mais lento, na região central da cidade que o problema se mani-
mas igualmente acentuado. A construção naval de festa de forma mais aguda; seu excesso populacional
Poplar, por exemplo, sustentara seu crescimento no transborda, entretanto, para os bairros próximos, até
início da década de sessenta, no entender de Jones, atingir o perímetro industrial ainda interno à área
em bases precárias, tais como o uso crescente de urbana (lnner London). Alarmado com o que viu, o
ferro de alta qualidade na construção de navios, o médico Hunter afirma, em 1865, num relatório ao
alto nível salarial dos trabalhadores londrinos e uma Privy Council que "existem cerca de 20 grandes colô-
estrutura sindical ("trade union") forte o bastante nias em Londres com 10 ()()()pessoas cada uma, colô-
para manter em uso métodos tradicionais de tra- nias cujas condições miseráveis excedem qualquer
balho. Esses elementos mantinham a indústria numa coisa jamais vista na Inglaterra, sendo isso resultado
situação de dependência dos favores governamentais quase exclusivo das más condições de suas moradias,
e das encomendas do exterior (102). Nos anos no- acrescidas com a superpopulação e a dilapidação das
38 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 39

casas que são muito piores do que eram há vinte anos propriedade. Estima-se em 20 ()()() os criminosos es-
atrás" (S. Jones, 173-5). palhados pela cidade de Londres. Junto ao crime vem
Esses relatos alarmantes parecem preocupar os a mendicância: uma verdadeira "praga de mendi-
londrinos em geral apenas nos momentos em que gos" flagela a cidade. Dizia-se que "nenhum dos
essa população dos bairros ruins expressa seu des- habitantes dos subúrbios podia deixar de se sentir
contentamento em violentas manifestações de rua. vivendo circunstâncias de grande perigo". Também
No rigoroso inverno de 1860, uma série de movi- se afirmava que "em cada esquina um moleque mal-
mentos de revolta (riots) pelo preço do pão sacode trapilho arrasta uma vassoura suja na nossa frente e
vários distritos do East End; no verão de 1866 o alegremente nos impõe uma taxa; em intervalos pe-
desafio à ordem assume uma forma política mais quenos e regulares, encontramos o lamento ininter-
tangível com os distúrbios provocados pela inva- rupto do robusto irlandês sempre morrendo de fome
são do Hyde Park pela multidão revoltada - a ou a odiosa menina que está sempre invocando o
mob -; no inverno também rigoroso de 1867, so- nome de Deus em vão. Se entramos numa casa de
mam-se à depressão comercial o colapso da indústria lanches para uma refeição modesta de biscoitos ou
naval do Tâmisa, a epidemia de cólera e a má co- bolo, toda uma família de enraivecidos vagabundos
lheita, e o ano começa com riots de pão no East End, se põe a olhar para cada bocado que introduzimos na
num momento em que o desemprego atinge níveis boca. Antes que tenhamos chegado à metade do
sem precedentes; em maio desse mesmo ano, uma passeio teremos sofrido 'a punição de ser passado
segunda invasão do Hyde Park, sob o mesmo pre- pelas varas' de todas as formas de pretensas misé-
texto de arrancar os trilhos da ferrovia, reúne mais rias" (Dr. Guy, The curse of beggars).
de 100 ()()()pessoas, fazendo com que o Parlamento se O incômodo causado pelos mendigos e pelos
apressasse em tomar medidas que afastassem a amea- vagabundos isoladamente só se vê suplantado pelo
ça de uma incipiente aliança entre "o trabalhador ca- medo deles em multidão. "O que pode fazer uma
sual, o residuum, e a classe trabalhadora respei- força policial de 8 ()()()ou 9 ()()()homens contra 150 ()()()
tável"; no início dos anos setenta, o alto nível de indivíduos violentos e rufiões, os quais, numa situa-
. desemprego persiste e os desempregados organizados ção de excitação suficiente, podem ser vistos na Me-
na Liga da Terra e do Trabalho continuam a oca- trópole investindo-se contra a lei e a ordem?", per-
sionar tumultos e ansiedade no East End (S. Jones, gunta o reverendo Henry Solly em 1868. E prossegue
241-2). lembrando seus ouvintes na reunião da Society of
Os escritores manifestam seus temores pela cres- Arts "quão diferente é a multidão (mob) londrina do
cente onda de crimes e pelos possíveis ataques à dócil campesinato ou dos ordeiros operários do Lan-
40 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 41

cashire". A multidão londrina, esse povo comple- lização". Com o declínio. do cartismo no final dos
tamente anônimo, mereceu o cognome de "popu- anos quarenta, livre da ameaça do movimento ope-
laça, este vasto residuum, que se desloca para onde rário, a cidade se erige em modelo exaltado pelos
quer, que se reúne onde deseja, vociferando o que contemporâneos entuasiasmados com suas institui-
deseja, quebrando aquilo que quer" (Mathew Ar- ções de ajuda mútua, com a sobriedade e com a
nold, Culture and anarchy , 1869). religiosidade da sua classe operária. São as cidades
"Essas extensas, miseráveis e incontroláveis mas- do Lancashire e do West Riding de Yorkshire, pri-
sas de pessoas submersas no East End, esse meio meira região da Inglaterra onde o sistema de fábrica
milhão de pessoas convertidas por uma legislação se desenvolve extensivamente, que servem de inspi-
adversa e pela caridade, ao pauperismo, assustavam ração para escritores e políticos desejosos de relatar
os contemporâneos por terem um vínculo irregular elogiosamente o cada vez maior progresso da classe
com o trabalho, por conseguirem sobreviver às ex- operária. Credita-se à rigorosa disciplina imposta aos
pensas do roubo e do jogo, por' escaparem às possi- habitantes das cidades industriais, regulados pelo
bilidades classificatórias do pobre trabalhador res- tempo e pelo ritmo do trabalho fabril, a rígida e
peitável. Assustavam ainda mais por não serem ní- cerrada organização da vida nesses centros urbanos,
tidos, na-prática, os limites entre o trabalhador e o organização essa que torna impossível a existência da
resíduo; mesmo entre as pessoas que ganhavam sua figura do desempregado crônico ou ocasional. Não só
vida trabalhando (e a definição inglesa para homem os apologistas do sistema de fábrica nelas se inspi-
pobre dizia ser aquele que precisa trabalhar com ram; também os críticos mais amargos dessa nova
suas mãos para se manter a si e a sua família), cidade descarnada buscam nelas um modelo do que
algumas tinham uma situação indefinida dada a má uma cidade não deveria ser. Em seu Tempos difíceis,
fama de suas ocupações, embora elas fossem vitais Dickens descreve uma cidade - Coketown - onde o
para a vida cotidiana da cidade: os construtores de império do tempo útil não deixa espaço algum aos
ferrovias (land navigators ou simplesmente navies), devaneios, onde as pessoas não vinculadas à pro-
os vendedores ambulantes e os limpadores de cha- dução estão, sempre ou de passagem, como figuras
miné estavam entre esses indesejáveis do mundo civi- marginais, como Sear1y, o dono do circo, e sua trou-
lizado" (Kellow Chesney, The victorian underworld, pe, ou são expulsas, como Blackpool, o operário
1970). despedido por indisciplina.
Aliás, já a partir da década de quarenta, a ci- Em visita a uma região industrial, Beatrice Pot-
dade industrial, Manchester, torna-se o símbolo das ter anota estar vendo o avesso do processo de atração
esperanças e das apreensões da "era da industria- dos maus trabalhadores e dos maus-caracteres para a
-
Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 43
42

grande cidade. Aqui, diz ela, "se um homem não ,,-...


trabalha regularmente, ele simplesmente não tra- o
.~
.o
balha. Portanto, um mau-caráter é um enjeitado" ~
•...
(5. Jones, 12). Sem lugar nessas cidades industriais,
esse rejeitado da civilização dirige-se quase obriga-
toriamente para Londres, onde a riqueza e as inú-
-
E-<
-e
-;
~
•...
meras instituições de caridade atuam como atrativo. ~
Londres vai se tornando, dessa maneira, o outro lado
I

~=
C!)
da moeda, o símbolo das más conseqüências da vida ~
·C
urbana e da industrialização. Nela podem se aco- .•..o
<11
modar os dissolutos, os preguiçosos, os mendigos, os ::E
turbulentos e os esbanjadores de dinheiro. Vê-se,
portanto, reputada como o grande desaguadouro da-
queles despidos das qualidades necessárias para in-
-i:l
'-"
~
c
0\
tegrar as fileiras do operariado fabril. A alternativa •....•
do emprego casual ou de formas menos honestas de ...;
sobrevivência, fazem da cidade de Londres o símbolo ~
"1::1

do resíduo social, aqueles homens que se encontram .s


J::

fora da sociedade. Nas palavras do redator da Quar- ...;


terly review , em 1855: "A mais notável feição da vida l:
<J

londrina se constitui por uma classe decididamente J::


#"!!
inferior ao trabalhador na escala social e muito am- ~
....:
pla em termos numéricos, a despeito de não estar ~
~
relacionada oficialmente entre os habitantes do reino <11
;::I
e de retirar seus meios de subsistência das ruas ... Na o
:;l•...
sua maior parte conseguem com esforço extremo se
manter num estado crônico de inanição; muitos deles .~ o

têm, além de suas reconhecidas vocações, outra mais .g


recôndita em franca violação do oitavo mandamento; ~
J::
assim, por gradações que vão imperceptivelmente es- d
curecendo à medida que avançamos, chegamos às
., -
44 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 4S

classes que estão em guerra aberta contra a socie- como estímulo à busca de emprego. Trata-se, por-
dade, que declaradamente vivem do produto da de- tanto, de uma instituição destinada a introduzir (ou
predação ou do salário da infâmia" (S. Jones, 12). a reintroduzir) seres não moralizados à sociedade do
Pessoas que estão fora da sociedade, pessoas trabalho.
que não pautam suas existências pelos valores cons- Também o programa de atendimento ao pobre
titutivos da vida social - o trabalho, a propriedade e pela caridade organizada da Charity Organization
a razão -, têm como único meio de sobrevivência Society (cujo nome completo é significativo: Society
atacar essa organização exterior a elas. Nesse racio- for Organizing Cheritable Relief and Repressing
cínio, a miséria sem esperança de recuperação não Mendicity), se mais brando nos métodos, configura
tem lugar. Se a probreza fora aceita pela sociedade, contudo uma estratégia mais insidiosa, pois ia em
mesmo representando um ônus, era porque ela figu- busca dos fora da sociedade, lá mesmo onde se escon-
rava bolsões de resistência ainda não absorvidos pelo diam, em seus bairros sujos, organizando um con-
mundo do trabalho, mas passíveis de a ele serem trole cerrado de cada caso. A intenção explícita da
introduzidos. Esses pobres não se encaixavam na Sociedade, no momento de sua fundação (1869), é
figura de maus elementos, eram antes considerados acabar com a caridade particular e indiscriminada
pessoas que por suas fraquezas físicas e sobretudo das pessoas ricas. Considera-se que o efeito morali-
morais não haviam ainda respondido ao chama- zador da esmola se perdera com a separação espacial
mento do trabalho. Deles cuidava a caridade pública entre ricos e pobres. Não mais os pobres podiam se
e privada, que também acudia à privação causada mirar no modelo de vida dos ricos como objetivo que,
pelo desemprego temporário do trabalhador. É bem embora inatingível, servia de estímulo e exemplo. Os
verdade que os métodos de persuasão estavam muito distúrbios dos anos anteriores à fundação da Socie-
longe de qualquer suavidade: as Casas de Trabalho dade haviam demonstrado claramente a urgência da
("Workhouses") deviam ser lugares pouco atraentes incorporação dos desocupados ao mundo do traba-
para que seus ocupantes procurassem sair de lá o lho, pois a linha divisória entre desempregados cir-
mais rápido possível. Não deviam se sentir confor- cunstanciais e desocupados permanentes borrara-se
tados em suas instalações, a vida em família e a boa com rapidez, impedindo os ingleses bem nascidos de
refeição representavam privilégios, a merecida re- identificarem corretamente a ameaça social.
compensa aos que ocupam seus dias com o trabalho Tanto a aliança ocasional entre esses homens
produtivo. Mesmo a disciplina e a intensidade do diferentes, para finalidades censuráveis como os riots
trabalho lá dentro, deveriam ser sensivelmente mais de fome, quanto o contato contínuo de homens de-
rigorosas do que nas fábricas, de forma a atuarem gradados com as verdadeiras classes trabalhadoras
•....
46 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 47

demonstravam a real dimensão do perigo que amea- a miséria mais seriamente do que fizemos até agora,
çava a sociedade. As opiniões se tornam mais defi- aproxima-se a hora em que essa massa humana em
nitivas em relação aos incapazes de regular suas vi- plena ebulição sacudirá todo o edifício sociaL.. O
das pela disciplina do trabalho: a proposta de elimi- proletariado pode nos estrangular se não ensinarmos
nação física desse resíduo, que deve ser abandonado a ele as virtudes que souberam elevar as outras clas-
a si e compelido a não procriar, traduz a certeza de ses da sociedade", afirma o filantropo Samuel Smith
que são considerados homens sem esperança de recu- em 1855 (Jones, 291).
peração, degenerados física e moralmente. E mais, o Coincidentemente, os homens que agitam Lon-
resíduo passa a ser visto como um elemento deslan- dres em fevereiro de 1886 e tentam de início resolver
chador de crises. Em 1885, uma comissão da prefei- o problema do desemprego num inverno rigoroso
tura de Londres (Mansion House) assim se define em através das vias legais, pedindo trabalhos públicos e
relação ao resíduo: "Esta classe é um peso morto auxílio-desemprego, são trabalhadores. Em Trafal-
sobre o mercado de trabalho, ela interfere nos inte- gar Square, a assembléia que dá início ao movimento
resses dos trabalhadores de mérito e de boa vontade, compõe-se de 20000 homens desempregados das do-
sobre os quais ainda exerce uma influência de efeitos cas e da construção. Contudo, bastaram algumas
. profundos e degradantes" (S. Jones, 290). provocações para que a marcha pacífica em direção
Movimentos de desempregados provocam, na ao Hyde Park se transformasse num ataque a todas
década de 1880, o temor e o espanto entre os lon- as formas de propriedade, riqueza e privilégio: jane-
drinos, trazendo de volta o velho espectro da mob, a las e vitrinas foram quebradas, carruagens foram
multidão amotinada que nos anos posteriores às tombadas e seus ocupantes assaltados; em suma, na
guerras napoleônicas havia promovido desordens observação do The times, "o West End (bairro rico
consideráveis em Londres e Manchester. A manifes- de Londres) esteve por algumas horas nas mãos da
tação de apoio às medidas reformistas do governo, em multidão". O pânico tomou conta da cidade; notícias
1884, reúne novamente no Hyde Park 120000 pes- desencontradas sobre multidões avançando em dire-
soas, e foi considerada na época "a maior demons- ção à City ou ao West End e destruindo tudo no seu
tração Reformista de todos os tempos". Os violentos avanço mantêm os proprietários, o governo e as tro-
distúrbios dos anos de 1886 e 1887 confirmam não só pas em prontidão durante mais dois dias que, nas
o temor do resíduo, mas também inoculam o descré- palavras do historiador S. Jones, se assemelharam ao
dito na incorporação total e permanente da classe Grande Medo ("Grand Peur") da Revolução Fran-
operária aos padrões da sociedade burguesa. "Estou cesa(291-5).
profundamente convencido de que se não atacarmos No outono de 1887, a tensão atinge seu ponto
I I
48 Maria Stella Martins Bresciani

culminante. O espetáculo de centenas de homens


pernoitando nas praças públicas próximas ao West
End voltou a alarmar os proprietários londrinos. Ã
observação: "o lugar mais bonito da Europa está
transformado num sórdido acampamento de vaga-
bundos", os desempregados sob a liderança de SDF
(Federação Social Democrática) respondem com o
slogan: "não à caridade, sim ao trabalho". Quando,
no final de outubro, milhares de desempregados e
famintos invadem as praças, os parques e as ruas dos A COLMEIA POPULAR
bairros ricos e elegantes da cidade, os proprietários
chegam a afirmar que se a política não desse conta de
"limpar as ruas" eles empregariam bandos armados C'est toujours dans les faubourgs, insistons-y, que Ia
race parisienne apparait; là est le pur sang; là est Ia
para fazê-lo. O East' End deixara de delimitar o vrais physionomie; là ce peuple travaille et souffre, et
espaço da pobreza, e a sociedade se defende com Ia souffrance et le travail sont les deux figures de
uma feroz repressão ao movimento dos desempre- I'homme.
gados no dia 13 de novembro - Domingo Sangrento Victor Hugo (Les Miserables)*
("Bloody Sunday") -, expressando seu temor e sua
força.
Nesse final de século, a dimensão física dos bair-
ros operários e da população trabalhadora de Lon-
dres constitui argumento suficiente para tornar o
inglês bem-nascido apreensivo em relação às áreas
proletárias do South London e do East End. Deste
último bairro, os contemporâneos dizem ser a popu-
lação tão grande quanto a de Berlim, Viena, São

• É sempre nos subúrbios, insistamos, que a raça parisiense aparece;


lá está o sangue puro; lá está a fisionomia verdadeira; lá este povo
trabalha e sofre, e o sofrimento e o trabalho são as duas imagens do
homem.
50 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 51

Petersburgo ou Filadélfia, de ser um lugar onde se- então atributos de velhos e doentes, dos incapaci-
nhoras não transitam, nem veículos particulares, de tados em geral.
ser, enfim, um lugar onde tudo está marcado pelo selo Não causa estranheza, portanto, Fourier, no iní-
da classe operária, onde, apesar de ter uma popu- cio do século, ir buscar na experiência inglesa as
lação de dois milhões de pessoas, não existem hotéis, conseqüências da vida em cidade e do novo sistema
ou seja, um lugar que ninguém visita. de produção. Com os olhos voltados para o traba-
A população de Londres em geral crescera limi- lhador inglês, ele designa a degradação que conduz
to - duplicara entre 1821 e 1851 e novamente dobra- necessariamente ao crime como "a desgraça dos pro-
ra nos cinqüenta anos seguintes -, fazendo com que o letários". "Em Londres", diz ele, "existem 117 mil
espetáculo de suas ruas adquirisse proporções, em si, pobres conhecidos a cargo das paróquias; 115 mil
assustadoras. O movimento da cidade difere muito pobres abandonados, mendigos, gatunos e vagabun-
daquele que inspirara Dickens e Poe nos anos trinta e dos, dentre os quais destacam-se: 3 mil receptadores,
quarenta. O mundo do trabalho londrino, composto sendo um deles tão rico a ponto de possuir 20 mi-
por artesãos prósperos e trabalhadores casuais po- lhões; 3 mil judeus distribuidores de moeda falsa que
bres, deslocava-se através de um espaço físico e de também incitam os empregados a roubar seus pa-
uma estrutura de produção muito semelhante à do trões e os filhos a roubar seus pais; ou seja, 232 mil
século XVIII (S. Jones, 159). Toda a agitação ano- pobres na cidade que é o grande centro da indús-
tada pelos contemporâneos se compõe com milhares tria." Preocupado com essas criaturas do novo mun-
de homens e mulheres no trânsito cotidiano de suas do industrial, ele afirma que também "a França
casas para seus empregos, resultado evidente do de- caminha para esta miséria: Paris tem 86 mil pobres
clínio do sistema doméstico de produção. Impelidos conhecidos e talvez outro tanto de desconhecidos. Os
para o mercado de trabalho, vêem-se na contingência trabalhadores franceses são tão miseráveis que nas
de se deslocarem a pé por ruas estreitas e irregulares, províncias onde a indústria é maior, os homens nas
impróprias para a passagem de pedestres. Num ce- suas cabanas de terra não possuem nem mesmo um
nário de cerca de duas milhas de extensão, a grande leito" (L. Chevalier, Classes laborieuses et classes
, I
novidade é a exteriorização da atividade do trabalho. dangereuses, 232).
Ê a amplitude dessa exposição pública das atividades Parao francês da época, praticamente inexiste
do trabalho o que choca os contemporâneos. Nessa diferença entre homem trabalhador, pobre e crimi-
I exteriorização, que produz a' identidade social do noso. Na verdade, constituem níveis de uma mesma
trabalhador, o que mais espanta é estar esse homem degradada condição humana, a do trabalhador dos
I coberto com os sinais da miséria, considerados até grandes centros urbanos. A exposição pública do
I [
.1
'ia
52 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 53

trabalho e da pobreza compõe no social uma dimen- cidade, pobreza e criminalidade. No final da década
são assustadora da realidade. Nas palavras de Consi- de 1830, Gerando, embora considere os centros ur-
derant, é o espetáculo de "legiões de operários vi- banos lugares privilegiados, tanto para o equilíbrio
vendo o dia-a-dia com um salário inseguro, cons- entre as classes rica e pobre, dada a existência de
trangidos,além disso, pela dureza de um trabalho uma classe média, quanto para a proteção institu-
repugnante" (Chevalier, 235). Também Louis Blanc cional dos fracos, reconhece ser nas cidades também
é pessimista quanto às incertezas do mercado de o lugar onde a miséria mais abundante e hedionda
trabalho regido pela concorrência, que considera um encontra ambiente favorável para se desenvolver. Às
regime de extermínio do povo. A certeza de se estar perguntas: "não é o veneno corruptor das cidades
vivendoúm tempo particular, determinado por trans- que por sua ação deletéria apaga entre milhares de
formações de alcance total inprevisível, está presente d~sgraçados as forças físicas e morais? E não é lá que
nesse conselho de um contemporâneo: "Olhe Paris remam afrontosamente a prostituição e o jogo?", ele
como observador e meça a lama deste esgoto do responde com as evidências londrinas. "Vejam essa
mundo, as raças selvagens entre essa população tão Londres, com se~s 118000 gatunos e receptadores,
ativa, tão espiritual, tão bem vestida, tão polida, e o suas 75000 prostitutas, seus 16000 mendigos seus
assombro tomará conta de você" (Chevalier, 235). 20000 indivíduos sem meios de subsistência ... ,,'( Che-
Tal preocupação parece ter mesmo feito de médicos, valier, 250).
administradores, escritores, vale dizer, o homem cul- Por essa mesma época, Flora Tristan não hesita
tivado, habitante da grande cidade, observadores em trocar o título do seu livro de Passeio a Londres
atentos da cena urbana. Como resultado dessa ativi- por A cidade monstro, e Buret, participando do con-
dade explicitamente estimulada pelas freqüentes in- curso da Academia de Ciências Morais sobre o tema
cursões violentas da multidão de homens pobres nas d.a pobreza, vai mais longe e associa, de forma explí-
ruas de Paris durante a primeira metade do século, cita, aos centros comerciais e industriais, a miséria a
tem-se uma abundante produção de relatórios esta- barbárie e o crime, mas também os perigos políticos.
tísticos e descrições literárias. Os contornos do mundo urbano, habilmente dese-
I Ê sempre a apreciação crítica da pobreza prole- ~hados por ele, se apresentam saturados por múl-
târia londrina e de suas más conseqüências para a tIplos sinais negativos: "Na Inglaterra e na França
II vida da cidade o argumento mais utilizado pelos encontram-se, lado a lado, a extrema opulência e a
franceses quando elaboram em projeção as futuras ~xtrema privação. Populações inteiras, como a da
I rlanda, reduzidas à agonia da fome; no centro mes-
condições de vida em Paris. O argumento central
consiste em se estabelecer um vínculo solidário entre . rno dos núcleos mais ativos da indústria e do comér-
,11 1I
54 .Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 55

cio se vêem milhares de seres humanos levados pelo ameaça política; enquanto entre os ingleses se com-
vício e pela miséria ao estado de barbárie". Com ele, puta o custo econômico da miséria nos seus mais
a figura literária dos bárbaros da civilização se des- variados aspectos (doença, desemprego, desmorali-
faz. A barbárie não comporta nenhum traço de sim- zação, representam gastos para a sociedade), entre
patia complacente. Trata-se de uma ameaça social: os franceses a preocupação maior fica com os custos
"A humanidade se vê afligida desse mal que ela políticos da ameaça da miséria às instituições. Ob-
apenas entrevê, pois estamos longe de conhecê-lo em . servações plausíveis para um crítico da "civilização
toda a sua extensão; os governos se inquietam com industrial" como Louis Blanc, quando em 1839 ele vê
razão; eles temem que, no seio dessas populações Paris tomada de emoção, com grupos de trabalha-
degradadas e corrompidas, explodam um dia perigos dores reunidos em diversas partes da cidade, contro-
inabarcáveis" . lados de perto por destacamentos de cavalaria -
Essa imagem pessimista se impõe, porque, co- "que esperamos? Será que a epopéia da indústria
mo muitos dos seus contemporâneos, Buret estabe- moderna ainda tem mais algum lúgubre episódio
lece uma diferença fundamental entre a pobreza, que para nos apresentar?" -, constituem também pre-
só atinge o homem fisicamente, e a miséria, que sença marcante nos textos literários. Balzac se in-
atinge também sua alma. Sendo um "fenômeno de daga sobre a atitude possível de homens aos quais a
civilização", a miséria "supõe no homem o despertar sociedade nega a satisfação de suas necessidades pri-
e mesmo um desenvolvimento avançado da cons- márias', e pergunta: "Terá a política previsto que, no
ciência". Por ser parte componente do mundo civi- dia em que a massa dos miseráveis estiver mais forte
lizado, sua tendência é crescer. E na expansão radica do que aquela dos ricos, a sociedade será organizada
sua ameaça maior, pois, no seu entender, "a medida de uma maneira totalmente diferente? A Inglaterra,
que atinge as partes esclarecidas da classe traba- neste momento, encontra-se ameaçada por uma re-
lhadora, esta se torna mais inquieta e menos resig- volução desse tipo". Quando prossegue em suas colo-
nada: já raciocina e persegue suas causas através de cações, fica evidente o caráter projetivo do seu alar-
uma investigação apaixonada. As classes pobres, ad- ma, pois a revolução iminente na Inglaterra substan-
verte ele, já têm seus teóricos que pretendem ter tiva-se numa "taxa dos pobres exorbitante" e na
encontrado nas instituições políticas a causa dos so- Possibilidade futura de o número dos miseráveis ul-
frimentos do povo: que os governos se ponham em trapassar qualquer forma de controle repressivo (Che-
guarda!" (Chevalier, 257). valier, 139).
Nesse sentido, aquilo que aparece na Inglaterra Essa mesma forma d~ solidarizar o trabalho, a
miséria, o crime e a ameaça política encontra-se em
como contágio moral tem na França a qualidade de
.-
56 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 57

La ruche populaire, jornal operário. Durante os me-


ses do outono e inverno de 1840-41, aparece em suas
páginas o seguinte comentário: "A classe operária
está em fermentação. A miséria é cada vez maior".
A imagem de um exército de miseráveis composto
por pobres e criminosos aos gritos de "Tenho fome!
Tenho frio!", avançando como uma miríade de fan-
tasmas pelas ruas, é solidária à representação bas-
tante negativa da rede de instituições encarregada de
acolhê-los. "O hospital-asilo, a prisão e o túmulo, eis
a parte que toca ao pobre e ao liberado das prisões! E
não quereis que tanto os menos como os mais cora-
josos desses homens, aqueles que querem viver, se
insurjam contra a sociedade!" (Chevalier, 653). A
imprensa popular oferece dessa maneira aos traba-
lhadores um imagem refletida nos padrões da socie-
dade burguesa. Na correspondência de um dos auto-
res mais apreciados pela população trabalhadora pa-
risiense, Eugêne Sue, encontram-se vários registros
dessa identificação com os personagens de seus li-
vros.
Bárbara e selvagem constitui a condição das
classes pobres e viciosas; ameaça social indica o sen-
tido da deterioração de suas condições de vida. "Que
outra alternativa sobra a esse homem, levado pela
miséria ao extremo grau de degradação, afastado por
completo das leis da vida civilizada, praticamente
reconduzido ao estado de barbárie?", indaga Buret.
E propõe aos senhores da economia política o estudo
da miséria, acusando-os de indiferença em relação a
um fenômeno que menosprezam por considerâ-lo
58 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 59

revolução. que embrutecidos pela miséria se igualam aos selva-


Buret vai ao cerne da questão atacando o pres- gens da África e da América na sua paixão pela
suposto da economia política, que postula a auto- bebedeira e pelas orgias de sangue e de ferimentos".
regulação das relações econômicas. Tal como Louis Não se pode esquecer, conclui, que "os operários se
Blanc, já mencionado, imputa à concorrência no consideram tão isentos de deveres em relação aos
mercado de trabalho o nomadismo do trabalhador e seus patrões quanto estes o estão em relação a eles;
a insegurança quanto à sua subsistência. Nesse ponto que eles os consideram homens de uma classe dife-
o trabalhador se iguala ao selvagem, pois tem sua rente, oposta e mesmo inimiga. Isolados da nação,
vida subordinada às oportunidades do jogo do mer- postos fora da comunidade social e política, isolados
cado e aos caprichos do acaso: "hoje boa caça e com suas necessidades e suas misérias, eles se movi-
salário; amanhã, caçada mal-sucedida e desempre- mentam para sair dessa solidão pavorosa e, como
go; hoje a abundância, amanhã a fome". Ainda co- bárbaros aos quais são comparados, pode ser que
mo o selvagem, o proletário da indústria se encontra cogitem até de uma invasão" (Chevalier, 258-9,
sujeito ao nomadismo desde a infância, quando se 594-5) .
. une aos bandos de crianças que vagabundeiam pelas No final do século, persiste a imagem negativa
ruas, até a idade adulta, quando passa então a com- desse novo mundo industrial, acusado por Leon Say
por "a população flutuante das grandes cidades, essa de ser a causa de uma doença social nova, o paupe-
massa de homens que a indústria atrai e mantém em rismo, estado crônico de privação das coisas essen-
torno dela, a qual não ocupa constantemente, mas ciais à vida. Sua origem, diz ele, "deve-se à organi-
mantém como reserva às suas ordens". zação industrial de nossa época; está na maneira .de
Nessa extensa fileira de homens em expectativa ser e de viver dos operários das manufaturas". E tal
é fácil ao pauperismo recrutar seus efetivos. Por isso como Engels fizera ao visitar a Inglaterra, o médico
Buret convida seus leitores a conhecerem a miséria Lachaise se indaga: "a que preço compramos as
de perto, a penetrarem o seu reduto, os bairros mal- vantagens da vida social; a quantos milhares de indi-
ditos, os velhos bairros de ruas estreitas e populosas víduos o mais simples de nossos deleites custa coti-
onde a cada passo se repõe a visão de "homens e dianamente a vida? Vendo a maioria dos operários
mulheres murchos pelo vício e pela miséria, de crian- de certos ramos da indústria perfazer somente a me-
ças seminuas apodrecendo na sujeira, sufocadas em tade do período normal da vida, não parece que o
antros sem luz e sem ar". Ao verificarem com os destino do homem seja encontrar sua destruição nas
próprios olhos o quadro desolador da indigência ur- próprias causas de sua existência?" (Chevalier, 632).
bana, " homens, nossos compatriotas e nossos irmãos, Mesmo o historiador Michelet, pouco compla-

Ili
60 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 61

cente com os homens letrados de seu tempo, aos desenha com traços fortes a imagem de homens espo-
quais critica de tirarem conclusões errôneas de suas liados de parte substancial de sua humanidade, re-
observações do homem do povo francês, confirma em duzidos à mera reprodução física. .
seu livro La peuple a imagem corrente de degradação Todo o percurso que rebaixa a condição hu-
da condição humana no operário das manufaturas. mana nos operários fabris, degradando-os física e
Num relato minucioso, onde se mesclam grande luci- mentalmente, é construído por Michelet. Homens
dez em relação aos problemas da época e extrema que se tornam máquinas porque submetidos a elas.
simpatia pela classe operária, de onde diz provir, Tal como Dickens em Tempos difíceis, a repetição
Michelet elabora uma imagem nítida do universo do continuada das mesmas tarefas impostas pela má-
trabalho, penetrando seu núcleo, a fábrica. Da pró- quina leva o trabalhador superexplorado por um jor-
pria atividade cotidiana do operário, ele deriva as nada de trabalho muito longa a viver sob o imperativo
conseqüências inevitáveispara o homem submetido a de determinações exteriores a ele. Afastado de qual-
"um trabalho que não demanda nem força, nem quer atividade do pensamento, esses homens perdem
habilidade, que jamais solicita o pensamento". exatamente aquilo que os diferencia dos seres irracio-
. Dividido como Engels entre o fascínio pelo pro- nais. No fim do percurso, encontramos homens redu-
gresso e o constrangimento do seu custo humano, zidos a meros seres instintivos; sua parcela de huma-
não tem, como aquele, em seu horizonte, uma teoria nidade se localiza nos sentimentos e não na razão.
da proletarização do homem como etapa necessária Tudo na fábrica ("atelier méchanique") con-
no difícil acesso ao reino da liberdade. Para ele, o tribui para essa mutação, dado ser aí "o reino da
sistema de fábrica veio para ficar, embora demande necessidade da fatalidade", onde a única coisa viva
mudanças substanciais que ponham fim à guerra se reduz à severidade do contramestre. A novidade
entre patrão e operário. Daí oscilar entre o elogio à da máquina fascina e choca-o: "A cabeça gira e o
introdução da máquina, que proporciona "a vulga- coração se contrai quando pela primeira vez percor-
rização dos produtos industriais pelo rebaixamento remos essas casas encantadas, onde o ferro e o cobre
do preço e coloca assim ao alcance dos pobres uma deslumbrantes parecem se movimentar sozinhos, pa-
grande quantidade de objetos", e o pessimismo ante recem pensar e desejar, enquanto o homem frágil e
a humilhação do homem transformado em servo da pálido se faz o humilde servidor desses gigantes de
máquina. Ao mesmo tempo que define a máquina aço". O que esperar de seres submetidos ao poder do
como "poderoso agente do progresso democrático, maquinismo, presos durante longas horas à máquina
um progresso do povo na sua exterioridade e na em movimento? Michelet responde dizendo ser im-
aparência, ou, por assim dizer, a igualdade visível", possível evitar nos homens rostos lastimáveis, nas
62 Maria Ste/la Martins Bresciani L01ldres e Paris no Século XIX 63

moças a juventude murcha,nas crianças a defor-


mação e o inchaço, enfim, uma "aparência física
profundamente corrompida". Porém, segundo ele, a
máquina é muito mais cruel, ela não se contenta com
o domínio do corpo, ela ambiciona dominar também
a mente dos trabalhadores; ela não permite nenhum
devaneio, nenhuma distração: "poucos instantes após
ter-se empurrado o infatigável carro de cem escovas,
ele retorna às suas mãos".
A preocupação com o que considera o amâgo do
novo mundo industrial contrasta Michelet entre mui-
tos dos pesquisadores sociais de seu tempo que, como
Buret, se limitam a observar tão-somente o espetá-
culo dos trabalhadores nas ruas. Ele vai buscar na
-fábrica as razões do comportamento do operário.
Assim, abandona a genérica associação entre miséria
(privação dos bens necessários à vida) e degradação,
e assinala a dependência múltipla do operário diante
da máquina, do patrão e do emprego incerto como
causa de sua atitude turbulenta e irracional. A inse-
gurança, este o móvel que impele o operário à busca
do amor violento e volúvel, da bebida em excesso e da
algazarra grosseira na saída da fábrica; é uma com-
pensação ao frio do metal, à insensibilidade da má-
quina e à mudez imposta pelo barulho ator do ante do
monstro metálico.
A degradação do trabalhador não se deve a algo
inerente ao homem pobre, uma moralização defi-
ciente como para os ingleses, mas às contingências
do seu cotidiano, que os fazem deslizar com rapidez
da fraqueza física à impotência moral. Afinal, trata-
64 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 65

mas seu contrário, a sociedade trabalhando ativa- são quando imputa à "revolução industrial, que em
mente para se tornar anti-social". 30 anos fez de Paris a primeira cidade manufatureira
Seja a imagem de uma razão mecânica antina- da França, o ter jogado para dentro dos muros da
tural, portanto violentadora dos homens, seja a ima- cidade um pOVQnovo de trabalhadores que nem sem-
gem da miséria permitida corroendo as bases da pre está empregado e o ter incitado aos gozos mate-
sociedade, é sempre a imagem de algo que gera e riais uma multidão cada vez mais inflamada pela
alimenta os germes de sua destruição. Uma socie- sorrateira doença democrática da inveja" -(Souve-
dade se constituindo sob o domínio da produção nirs).
industrial, alicerçada nos princípios do laissez-faire, Michelet explica essa progressão do medo como
que, além de gerar novos fenômenos, potencializa fruto da insegurança que caracteriza a nova burgue-
velhos problemas. De uns e dos outros não se tinha sia (industrial), contrastando-a com a segurança da
alcance, para os dois não se dispunha de solução. antiga burguesia de origem militar. "Que três ho-
É curioso observar como, reiteradamente, os mens estejam na rua a falar de salários, que eles
pensadores franceses localizam a ameaça no campo peçam ao empresário enriquecido com o trabalho
politico. Por volta da metade do século, após o movi- deles um centavo de aumento, e o burguês se assusta
mento de 1848, são inúmeras as declarações que grita e usaa força. Ao contrário da antiga burguesia:
exprimem o temor causado pela existência de um extasiada com seus privilégios que desejava estender,
contingente populacional novo e temível pelas suas a nova olha para a multidão que sobe atrás dela, tal
proporções. Frases como "não há sociedade pari- como ela um dia subiu, e se assusta e recua, prote-
siense, não há parisienses, Paris é tão-somente um gendo-se junto ao poder. Liberal em seus princípios,
acampamento de nômades" e "a burguesia, ou me- egoísta na prática, ela não sabe o que quer." Pros-
lhor, o povo elevado à riqueza pela ordem e pelo segue dizendo que a maioria dos governantes tem
trabalho está fadado a ser a vítima desses bárbaros ... especulado sobre esse medo da burguesia, assustan-
Embriagada pela desordem e pela carnificina, esta do-a em relação ao povo, através da associação povo-
populaça, que o povo repele de si, sitia o poder" terror-comunismo. Ou seja, o povo usado como
indicam a dificuldade em delimitar um campo espe- ameaça política tem uma imagem cristalizada no
cífico para a pobreza fora da política. Tocqueville, passado - o Terror - e uma projeção no futuro - o
que na introdução do seu livro A Democracia na Comunismo.
América considera a França o país onde a grande Parece evidente que, a despeito das divergências
revolução social, a revolução democrática, fez pro- quanto à magnitude da relação entre trabalho, po-
gressos mais rápidos, manifesta também sua apreen- breza, crime, perigo social e ameaça política e quan-
66 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 67

to às origens de cada termo da relação, essas várias


vertentes do pensamento francês do século XIX se
formam em torno de uma mesma imagem: a expo-
sição pública do mundo do trabalho com suas misé- .,j

.
1
rias, a imensa massa anônima dos trabalhadores em 'C
i:
' •...o
multidão impondo através dessa presença a definição ,
:E'"
1

de um espaço social onde exige ter sua identidade .s


reconhecida. s::
CI)
Diferentemente da Inglaterra, a elaboração de "O
uma figura específica do trabalhador, diferenciada .€.•...
do genérico povo e contrastada com o vagabundo e o -a
criminoso, se processa com dificuldade na França do :E
tIS
século XIX. Se, para o dicionário da Academia Fran- ....:I
cesa, a palavra proletário era de origem romana e ~;:s
definia os que só serviam à República pelos filhos Q::;
que geravam, dado não terem rendas e estarem isen- ~
tos de impostos, para Frégier o conteúdo era moral, ~
o
pois designava homens que, em vez de atenuarem a ~
miséria pela poupança, se degradavam na ambição
de se assemelharem aos ricos (L. Chevalier, 602).
Também a relação entre trabalho e salário, e
-s::
'-'

~
•....•
entre salário e roubo, são bastante imprecisas. Thiers
declara, em 1850, existirem vagabundos com salários .g
consideráveis e vagabundos que por meios ilícitos 'C::I
I::
ganham muito. Para ele, "são estes os homens que .~
u
formam não o fundo, mas a parte perigosa das gran- ~ .2!
1 o
;:..
des aglomerações populacionais; são estes os homens ~ ~
que merecem este título, um dos mais degradados da i ·t

história, o título de multidão. A vil multidão que rt;o
~
perdeu todas as Repúblicas". Ê o movimento da ~t
~~
multidão o que mais o assusta, a impossibilidade de
Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 69
68

localizá-Ia. E seu recurso para excluí-Ia, para isolá-Ia germina o povo francês no que tem de mais autên-
do povo, é a lei (L. Chevalier, 603). Também a tico, germina também a revolução, constitui mesmo
Haussmann assusta o movimento constante da mul- um ponto de referência para a avaliação da tempe-
tidão, considerada por ele "uma turba de nômades ratura política e insurrecional da cidade. Aliás, Mi-
que, na melhor das hipóteses, buscá a grande cidade chelet atribui ao excesso de zelo desses senhores das
para encontrar um trabalho mais ou menos regular, letras a péssima imagem que se tinha do homem do
com a única intenção de voltar o mais rápido possível povo francês. "Os nobres escritores de gênio aristo-
ao lugar de origem". Esse prefeito de Paris, respon- crático, que sempre haviam pintado os costumes das
sável pelas grandes reformas na cidade durante o classes altas," diz ele, "um dia se lembraram do povo
Segundo Império, afirma mesmo que "Paris per- e em sua benévola intenção se propuseram a pôr o
tence à França e não aos parisienses de nascimento povo na moda. Saíram dos seus salões, desceram à
ou de escolha que a habitam, sobretudo a população rua e perguntaram aos transeuntes onde o povo mo-
flutuante das casas de aluguel". A solução de Hauss- rava. Indicaram-lhe as instituições de trabalhos for-
mann - atuar sobre as coisas, sobre a dimensão çados, as prisões, os lugares ruins. Deste mal-enten-
-física da cidade, já que os homens compunham uma dido resultou o oposto do que buscavam: queriam
realidade intangível - é vitoriosa na França, sendo nos interessar pelo povo e conseguiram nos assustar e
também aplaudida pelos reformadores sociais de to- nos afastar. "
Contudo, na sua intenção de desfazer equívocos
da a Europa.
Até certo ponto, a imprecisão terminológica que Michelet nos desconcerta. Primeiro diz que os crimi-
prevalece ainda no final do século, momento em que nalistas, os economistas e os pintores de costumes se
a noção de pauperismo predomina entre os franceses ocuparam equivocadamente só desse povo excepcio-
letrados, parece expressar a difícil elaboração de nal; em seguida, reconhece ser dele, da multidão das
uma identidade social para o trabalho. E isso apesar cidades, da classe industrial, que saem os perigosos
de a presença do trabalhador nas ruas, nos seus heróis dessa outra sociedade; para finalizar dizendo
ofícios, nos lugares de diversão e nas barricadas ser que a confusão reinante na errônea designação do
minuciosamente anotada por pintores, desenhistas, povo é fruto do trabalho dos criminalistas, que por
escritores, pesquisadores e reformadores sociais. Vic- tratatem com "a parte excepcional do povo, esta
tor Hugo é um deles. Em Os miseráveis, o mundo do multidão corrompida das grandes cidades, domina-
trabalho, da vagabundagem e do crime se misturam ram a opinião pública e por inspiração sua os econo-
por trás das barricadas; nas ruas do mais famoso mistas estudaram o que esses criminalistas denomi-
bairro operário de Paris, o faubourg Santo Antônio, navam povo: o trabalhador e muito especialmente o
70 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 71

trabalhador das manufaturas". Se com esse expli- dústria francesa mostrando a estreita relação entre a
cação, Michelet logra desfazer a má imagem do povo introdução da máquina e a participação política do
francês, que para ele é composto da quase totalidade operário: a impressora mecânica, por exemplo, tem
dos habitantes do país (camponeses, operários das sua entrada nas empresas gráficas parisienses inti-
mais diversas categorias, empresários, comerciantes, mamente relacionada à resistência do trabalhador a
funcionários e burgueses compõem seu amplo painel fazer mais do que três dias de jornada por semana e à
classificatório do homem francês), com ela também sua presença nas legiões revolucionárias de 1830.
faz o retorno à velha associação trabalho-pobreza- Assim, a afirmação de Michelet da particularidade
crime. da França é confirmada por historiadores atuais que,
No entanto, seu intuito principal é conseguir como Phillippe Ãriês, indicam o predomínio das ati-
demonstrar o perigoso erro dos que consideram bur- vidades rurais no decurso do século. Enquanto a
guesia e povo classes antagônicas; demonstrar que só Inglaterra de 1850 tem 50% da sua população nas
após superada a idéia de duas nações dentro da cidades, na França 75% da população encontra-se
nação poderia a burguesia livrar-se do seu medo no campo dedicando-se à agricultura. Essa propor-
paralisante; demonstrar que a nação, algo que trans- ção, que na Inglaterra se altera significativamente
cende os homens, é o que importa para um país rural para 35% no campo em 1871, na França só logra
como a França. Nesse momento, a imagem do traba- baixar para 69% (P. Ãriês, Populations anglaise et
lhador subjugado à máquina se reduz a uma pe- française du XVII/e au XXe siêcles), Também a
quena parcela da população francesa, e a oposição urbanização se desenvolve mais lentamente na Fran-
burguesia/povo só teria sentido num país como a ça; em 1911, ela corresponde a algo menos do que já
Inglaterra, onde "a população industrial perfaz 2/3 existia na Inglaterra em 1860.
do total". Reaparece a referência inglesa e, a partir Os altos salários e as reivindicações dos operá-
dela, se define a peculiaridade da França; é a partir rios urbanos, "turbulentos e preguiçosos", fazem
dela que também se desenha estrategicamente uma com que muitas manufaturas se instalem na área
projeção futura passível de ser evitada. rural. Paris sobretudo sofre ~entre 1815 e 1820 um
Na verdade, a França se industrializa lenta- êxodo das sua fábricas maiores. As indústrias de
mente durante todo o século XIX. Michelle Perrot bens de produção, as fundições, as fábricas de tecido
afirma mesmo que o patrão francês pouco se inte- e as usinas de açúcar, que haviam se instalado nas
ressou por máquinas enquanto foi possível contar suas proximidades, afastam-se durante o Primeiro
com mão-de-obra barata e passiva. Em seu artigo Império em virtude da especulação imobiliária, em
Ouvriers et machines au X/Xe siêcle, mapeia a in- busca de terrenos baratos e próximos à matéria-
72 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 73

prima, às fontes de energia, às vias de comunicação e pessoas, respectivamente, ocupando assim 22% de
à mão-de-obra abundante no campo. Em menor toda a população industrial. Este grupo se desen-
grau, a cidade de Lião também perde suas indús- volve principalmente sob a Monarquia de Julho
trias, principalmente no período imediatamente pos- (1830-1848), correspondendo a uma expansão das
terior às insurreições de 1832 e 1834. Instaura-se, construções consecutiva ao grande aumento demográ-
dessa maneira, uma divisão de trabalho entre as fico. Os marceneiros ("ébénistes") constituem a aris-
cidades e os centros secundários; as grandes cidades tocracia desse grupo: somente 22% moram em casas
conservam as indústrias altamente especializadas de aluguel. Entre eles há muitos estrangeiros, parti-
(M. Perrot). cularmente alemães. Os pesquisadores anotam tam-
Ãriês analisa as atividades industriais em Paris bém os conflitos resultantes dessa imigração de nú-
usando uma pesquisa efetuada pela Câmara de Co- mero bastante considerável em 1848, o que obriga os
mércio num momento de crise econômica, os anos de patrões a comporem suas oficinas com trabalhadores
1847 e 1848; agrupa-as em cinco especializações de uma só nacionalidade. Os pedreiros, tanto como
mostr-ando serem elas quase todas indústrias de con- os carpinteiros, são trabalhadores não qual1ficados,
sumo de caráter artesanal. Mostra também que os na sua maioria provenientes das áreas rurais. Moram
pesquisadores iam, em suas preocupações, muito quase todos em casas alugadas das ruelas estreitas da
além da mera contagem do operariado parisiense. velha Paris, amontoados em 2 ou 3 num mesmo leito,
A indústria do vestuário concentra a maior parte com 4 ou S camas em cada quarto. São rústicos, mais
da população industrial: 90000 operários e 30000 de 1/3 é analfabeto, e permanecem só por alguns anos
artesãos (patrões). Os operários desse ramo, mais os em Paris.
chapeleiros, os artesãos que trabalham o bronze e os Os "artigos de Paris" vêm em quarto lugar, ocu-
impressores (considerados a elite do operariado pari- pando 42000 pessoas. É um .grupo constituído por
siense) formam o contigente mais avançado; são ins- artesãos e operários que fabricam flores artificiais,
truídos, reivindicativos, e têm organizações sindicais. mesas de jogo, estojos de costura, objetos de osso,
A maioria é proprietária de sua moradia, somente cabos de guarda-chuva, leques, luvas e relógios. T~a-
30% habita em casas de aluguel. "Os alfaiates", ta-se de indústrias de artigos de luxo, atividade tradi-
completa o pesquisador, "estiveram implicados em cional já antes da Revolução de 1789. O quinto grupo
processos políticos num número que ultrapassa os está também vinculado a uma indústria de caráter
implicados de todas as outras categorias reunidas." artesanal: passamanarias, acabamentos para vestuá-
Em segundo e terceiro lugares vêm as indústrias rio em geral, lavanderia, especialistas em produtos
da construção e do mobiliário, com 4S 000 e 42000 de luxo ou semiluxo, enfim. A última parte da popu-
-
74 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 75

lação industrial se reparte entre a quinquilharia (com urbano da cidade permanecido inalterado. Embora
o expressivo número de 28000 pessoas), as indústrias tenha o velho centro sido abandonado pela burgue-
alimentares, químicas e cerâmica, os trabalhos em sia, que se transfere aos poucos para o lado oeste,
cobre e metais preciosos, a impressão e a produção este deslocamento foi unicamente de residência, pois
de carroçarias. a velha Paris medieval continuou a abrigar em seus
Em 1906, a ordem das indústrias, classificadas bairros os negócios desses homens.
segundo o grupo de operários, permanece a mesma Na metade do século, após uma epidemia de
de 1847-48. O ramo do vestuário se mantém na dian- cólera, vários documentos administrativos munici-
teira com 25000 pessoas, seguido ainda pela cons- pais são unânimes ao considerar o crescimento des-
trução civil e pelas indústrias da madeira; depois vêm mesurado e caótico da cidade e de sua população
os fios e tecidos (160000 pessoas na indústria têxtil, como causa das péssimas condições de moradia na
de rendas, de bordados, de lingerie e de roupa bran- parte antiga de Paris. Um observador em 1849 assim
ca). Os famosos "artigos de Paris", entretanto, estão descreve a cidade vista do alto de Montmartre: "um
quase sendo ultrapassados pela indústria de máqui- amontoado de casas desalinhadas encimado por um
nas,.indicando assim uma modificação importante, o céu sempre nebuloso, mesmo nos dias mais belos.
crescimento das indústrias de bens de produção. No Somos tomados de um medo súbito, hesitamos em
conjunto, porém, a ordem das indústrias não se mo- penetrar neste vasto dédalo onde já se acotovelam
difica nesse meio século, e é ainda a fabricação de mais de um milhão de homens, onde o ar viciado de
bens de consumo o que ocupa a maioria dos traba- exalações insalubres eleva-se, formando uma nuvem
lhadores parisienses, artesãos em muito semelhantes infecta que basta para obscurecer o sol quase por
aos que participam da Comuna de 1871. completo. A maioria das ruas desta maravilhosa Pa-
A estrutura industrial de Paris permanece a ris são na verdade tão-somente condutos sujos e sem-
mesma no decorrer do século em que a Inglaterra se pre úmidos de água pestilenta. Fechadas entre duas
transforma por completo. Ainda assim, os 'franceses fileiras de casas, o sol jamais desce até elas. Uma
se assustam diante do crescimento populacional da multidão pálida e doentia transita continuamente
cidade. De menos de 600000 habitantes na época da por elas, os pés nas águas que escorrem, o nariz no ar
Revolução de 1789 e 714596 habitantes no final do infecto e os olhos atingidos a cada esquina pela mais
Primeiro Império, Paris atinge 1 226980 habitantes repulsiva sujeira. Nessas ruas moram os trabalha-
em 1851, e quinze anos depois tem uma população dores mais abastados. Também existem ruelas que
de 1823000 habitantes. Aumento expressivo e alar- não permitem a passagem de dois homens juntos,
mante se for levado em conta ter até 1850 o desenho verdadeiras cloacas de imundícies e de lama onde
76 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 77

uma população enfraqueci da respira cotidianamente deira que Paris foi chamada de inferno" (Chevalier,
a morte. São elas as ruas ainda intactas da antiga 631).
Paris. A cólera flagelou-as bastante em sua passa-
gem ... " (Chevalier, 279).
Opiniões semelhantes expõem as más condições
da cidade, considerada por uns "uma imensa fábrica
de putrefação, onde nem as plantas sobrevivem";
outros se detêm nos bairros operários "sombrios e
isolados, desconhecidos até de nome pelos habitantes
dos bairros ricos, onde os ladrões germinam", e ad-
vertem que os últimos, "instigados pelo sucesso de
suas investidas, aproximam-se cada vez mais dos
nossos bairros" (Chevalier, 612).
Como em Londres, os homens se deterioram
nesses bairros ruins de Paris, sofrendo mesmo, no
entender dos contemporâneos, um processo de dege-
neração biológica que atinge sua população nointer-
valo de duas ou três gerações. Até certo ponto, para
alguns observadores, essa deterioração parece exten-
siva a todos os habitantes da cidade. Essa é, por
exemplo,a opinião de Balzac: "Um dos espetáculos
mais assustadores que existem é certamente aquele
oferecido pelo aspecto geral da população parisiense,
povo horrível de se ver, macilento, amarelo, curtido.
Umas poucas observações sobre a alma de Paris bas-
tam para explicar as causas de sua fisionomia cada-
vérica que só tem duas idades: ou a juventude baça e
sem cor, ou a velhice dissimulada na intenção de
parecer jovem. Poucas palavras serão suficientes pa-
rajustificar fisiologicamente a cor quase infernal, das
figuras parisienses, pois não êsomente por brinca-
Londres e Paris no Século XIX 79

cretizava em momentos excepcionais e por proble-


mas específicos, sendo quase sempre reprimida com
rapidez pela força, as grandes concentrações huma-
nas "dasfábricas e das cidades configuram uma reali-
dade permanente e em constante expansão.
Embora se admita a efetividade da indústria
moderna, essa aceitação está muito longede ser tran-
qüila. Cooke Taylor, um entusiasta do sistema indus-
trial, afirma que "quando um estranho passa através
das massas de seres humanos que se acumulam em
o HOMEM POBRE E O VAGABUNDO redor das fábricas (nas populosas áreas industriais
do norte do país) é de todo impossível que veja esses
enormes enxames de gente sem sentimentos de an-
As leis que provêm o socorro dos pobres tendem a siedade e de apreensão que podem levá-lo até quase
destruir a harmonia e a beleza, a ordem e a simetria ao desmaio. A população cresce a olhos vistos, tanto
desse sistema que Deus e a natureza estabeleceram em extensão quanto em força. Trata-se de um agre-
no mundo.
gado de massas e,a nosso ver, elas expressam algo
Rev. J. Townsend portentoso e apavorante" (Briggs, (1).
As apreensões motivadas pela existência incon-
tornável das multidões deixam, no decorrer do sé-
Na Inglaterra, o antigo medo da multidão amo- culo, de se referir com exclusividade a Londres, em-
tinada - da mob - ganha uma dimensão total- bora esta cidade mantenha a imagem do perigo
mente nova no século XIX. Mesmo os apologistas do maior. Para o inglês, orgulhoso de seu progresso e do
sistema industrial, defensores das grandes cidades, crescimento econômico do vasto Império Britânico,
das grandes fábricas e das grandes escolas, não con- divisar por entre "as grandezas de sua civilização" a
seguem deixar de expressar sua apreensão ante essas ameaça latente dos bolsões de miséria que resistem ao
concentrações humanas, e chegam mesmo a prog- apelo moralizador do trabalho constitui o diagnós-
nosticar, não muito otimisticamente, que "as mas- tico de um "tumor", algo a ser arrancado do corpo
sas, tal como a lenta e gradual expansão do oceano, da sociedade. Por contágio, essa doença ameaçava
deverão arrastar consigo toda a sociedade". Contras- espalhar-se com uma rapidez tanto maior quanto
tando com a antiga mob, cuja existência só se con- menos tivessem as pessoas absorvido os padrões de
-
80 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 81

vida considerados civilizados. ção da vida, se efetiva através da apropriação das


Esta é uma sociedade que se institui sobre o coisas necessárias à própria sobrevivência, donde,
pressuposto dapositividade do trabalho. Afinal, são como afirma Hannah Arendt, "não existir atividade
John Locke e Adam Smith que desfazem a imagem mais imediatamente ligada à vida do que o trabalho"
negativa do trabalho como patrimônio da pobre~a, (La condiciôn humana, capo 3).
como fardo exclusivo dos que não possuem propne- Se a satisfação das necessidades físicas imedia-
dade, e o definem como fonte de toda a atividade 'tas se põe de forma imperativa aos homens, o que
criadora e da riqueza. Daí, os que se recusam a fazer com aqueles que se negam a obedecer a essa lei
participar dessa comunidade de trabalhadores apa- da natureza através do trabalho?
recerem como figuras exteriores a ela, como estra- Nos textos ingleses do século XIX, a diferen-
nhos ao pacto constitutivo do social e da sua história. ciação entre os que têm direito à sobrevivência por-
A metáfora dos selvagens que agridem a sociedade que trabalham e os que são simplesmente mantidos
recobre homens que, embora disponham dos atri- vivos por condescendência da sociedade é muito ní-
butos essenciais ao trabalho, permanecem fora dela tida. A classe trabalhadora se localiza dentro dos
por se negarem a ir ao mercado dispor, trocar ou limites da sociedade, conquanto esteja ainda num
alienar por um salário a única mercadoria que pos- nível de moralidade bem abaixo daquele das classes
suem, o próprio corpo. altas; os vagabundos estão fora dela por se recusarem
Entretanto, em uma sociedade que se autoco- ao trabalho. A questão é como trazê-los para dentro,
cebe como uma rede de relações mercantis, o que como fazê-Ios ingressar no social. Ou, no extremo
assegura o direito à vida aos homens que, não sendo oposto, como se livrar deles quando sua absorção se
incapazes físicos ou mentais, nem muito crianças, só torna impossível. Nos dois casos o problema é o
dispõem do próprio corpo como mercadoria, além da mesmo: quais as estratégias eficazes para eliminar os
caridade? Esses homens só podem representar um bolsões de miséria incrustados no social? Outro é o
ônus econômico, pois seja por doação, seja pelo rou- problema posto pela multidão amotinada. Essa mul-
bo, é sempre a apropriação do trabalho de outros tidão assusta por nela se confundirem classe traba-
homens o que lhes permite ter a vida assegurada. E, lhadora e vagabundos, unidos numa atitude de fran-
mais ainda, eles configuram um ônus vital, à medida ca agressão à sociedade. Como explicar essa descon-
que seu descaso para com a atividade do trabalho, certante aliança?
base da própria vida, representa uma ameaça poten- Do problema dos que não trabalham ou dos que
cial de extinção da sociedade, pois interrompe o pro- estão circunstancialmente sem trabalhar, os ingleses
I cesso de reprodução biológica. A fertilidade, a cria- vêm tratando desde o século XVI, através de disposi-

J
Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 83
82

tivos legais denominados por Marx a leg~slaç~osan- da "Bristol Corporation for the Poor" de John Cary e
guinária contra os expropriados. Essa, leglslaça?, que na proposta dos "CoUeges of Industry" de John Bel-
cresce em severidade no decorrer do sec~lo, defme ~e lers, ambas formuladas ainda no século XVIII (A
forma clara os incapacitados, aos quais se permite grande transformação, capo 9).
viver da caridade, e os vagabundos; estes, apos sofre- A mesma intenção se encontra no sistema de
rem duras punições físicas, deveriam encontrar ~m imposto do trabalho, proposto por Locke em 1966,
trabalho. Em outras palavras, a fundação da SOCIe- no qual se obrigava os pobres de uma localidade a se
dade exige também a definição de suas normas regu- submeterem aos contribuintes de forma a trabalha-
ladoras, o direito. ., rem proporcionalmente ao imposto pago por eles. A
Entretanto , é necessário esclarecer desde
. ja que clara determinação de tornar o pobre um homem pro-
essas normas dispostas em leis não constituem preo- dutivo passa em Locke pelos diretores de asilos, que
cupação exclusiva do poder político inglês ~em u.ma deveriam transformar seus estabelecimentos em ma-
imposição despótica sua. A idéi~ ?a nece.ss~dade im- nufaturas, e pelas autoridades locais (juizes de paz),
positiva do trabalho e de dispOSItIvos penais p.ara os incitadas a criar estabelecímentos de trabalho for-
que não se submetessem a ela percorre a sociedade çado nas suas paróquias, atingindo até as crianças de
de ponta a ponta. Mesmo grupos contestadores como mais de três anos, filhos de desempregados, que deve-
os "quakers" tinham idéias definidas sobre como riam trabalhar para prover o seu sustento, a fim de
acabar com a pobreza desempregada, chegando a não serem "uma carga para a nação" (Macpherson, A
propor em 1660 uma Bolsa de Trabalho, muito seme- teoria política do individualismo possessivo, capo 5).,
lhante à moderna agência de empregos. Segundo Essa intenção una - constranger ao trabalho -
Karl Polanyi, essa proposta expressa no "Apelo ~o parte de um pressuposto básico: "Os homens, uma
Parlamento relativo aos pobres, para que nao haja vez nascidos, têm direito à sua conservação e, con-
mendigos na Inglaterra", era mais avançada, no sen- seqüentemente, a comer e a. beber e a outras coisas
tido da formação de um mercado de trabalho a~sa- semelhantes que a natureza lhes dá para a sua sub-
lariado, do que o dispositivo govername~tal da LeI ~e sistência". O preceito, ditado pela razão e pelas Es-
Fixação (Act of Settlement) de 1662, pOIS ao contra- crituras Divinas, de que a terra e seus frutos foram
rio da Lei não fixava o desempregado ao seu local de originariamente dados em comum à espécie humana
origem. A inteção de fazer os pobres trabalharem o e daí todos terem direito à vida, constitui argumento
suficiente para que retirado o seu sustento restasse Poderoso para os que, como Locke e seus contem-
ainda um quantum para a comunidade, ou seia, ?e porâneos ingleses, consideram a sociedade como pro-
, tornar a pobreza rentável, é explícita na orgamzaçao

J
- dutora de vida.
84 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX
8S

A urnao de homens que se submetem a um constitui qualquer homem em sociedade tenha ele
governo para salvaguardar sua propriedade, ou seja, bens além de sua pessoa ou não, é a sua p~rticipação
a vida, a liberdade e a riqueza de que desfrutam já no no mercado.
estado de natureza, por uma lei natural, refere-se Fica dessa maneira muito claro em Locke que o
justamente à atividade de apropriação necessária à acordo para entrar na sociedade civil não cria direi-
preservação da vida. Decorre disso o direito de cada tos novos, simplesmente os homens cedem à autori-
homem conservar sua vida por meio da apropriação dade civil os poderes que trazem do estado de natu-
dos produtos naturais da terra e ser a atividade de r~za, para que esses direitos naturais sejam prote-
apropriação, o trabalho, considerado a fonte da pro- gidos. ~aí o gove~no estar limitado a fazer cumprir
priedade, da riqueza, de todos os valores e, princi- os direitos naturais e ser compreensível os homens
palmente, da própria humanidade. E, dado que o entrarem para a sociedade com propriedades desi-
homem tem a propriedade de sua própria pessoa, a guais, dado serem o fruto da apropriação individual.
labuta de seu corpo e o trabalho de suas mãos são Por meio desse artifício, a apropriação indivi-
propriamente seus; são necessários para a reprodu- dual de bens, Locke explica a constituição da socie-
çãode sua própria vida. dade por partes desiguais. Dessa sociedade, a classe
Assim, a partir de dois postulados - que os trabalhadora - os pobres - é uma parte específica e
homens têm direito à vida e que o trabalho de um necessária. Em sua fileiras estão incluídos tanto os
homem é propriedade sua -, justifica Locke a apro- P?bres trabalhadores como os pobres vadios, quer
priação individual do produto da terra, doada por dIz~r, todos os que dependem de um emprego, da
Deus para a humanidade em comum. E mais, como candade ou do asilo para viver, por carecerem de
todo homem tem a propriedade de sua própria pes- outra propriedade além do seu corpo. Por só possuí-
soa, que ninguém mais tem direito a ela, o trabalho rem a propriedade do seu corpo, todos os homens
que seu corpo executa é também propriedade sua. É dessa classe estão obrigados a trabalhar; a vadiagem
exatamente aqui, na concepção burguesa da pro- e o d~seI?pregonão têm, nessa sociedade, justificativa
priedade, que se torna possível o trabalho assala- economIca, mas se deve à degradação moral, em
riado: ao homem é dado o direito de usufruir e de outras palavras, ao relaxamento da disciplina e à
usar seu próprio corpo, mas também lhe é dado, por corrupção dos costumes.
essaconcepção ampla depropriedade, o direito de dele Os assalariados, Locke os considera uma classe
dispor, trocar ou alienar. Em suma, sendo o trabalho norm~l e mensurável dentro da nação: pessoas que
de um homem propriedade sua, pode ele vendê-lo por nao terem nenhuma propriedade além do corpo,
livremente em troca de salários. Portanto, o que dependem completamente do salário e se acham, por
""---
86 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 87

decorrência, no nível da mera subsistência. Desse cional, não se encontra em condições de tomar a
novo artifício - ser o quinhão do trabalhador rara- decisão racional que leva à revolução.
mente superior ao necessário para se manter vivo - Aqui o raciocínio se completa, e fica esclarecido
o pensador inglês deduz ser impossível que dentre como os membros da classe trabalhadora, apesar de
essa classe exista um grupo de homens que disponha fazerem parte da sociedade, não participam do seu
de tempo e de oportunidade para elevar seus pensa- corpo político, nem têm título algum para tanto.
mentos ou então para lutar junto aos ricos por seus Nesse contexto, a situação dos vadios sem emprego é
interesses, salvo quando uma calamidade os une, muito pior: não são membros livres da sociedade e
fazendo-os esquecer o respeito que devem à socie- nem participam da comunidade política, o que de
dade e pondo-os a perseguir o que desejam até pelo forma alguma os dispensa de estarem submetidos ao
uso da força. Essas situações são, contudo, conside- poder político do Estado, que por sua vez está ple-
radas excepcionais, ocorrendo com mais freqüência namente autorizado a constrangê-Ios ao trabalho, pe-
quando o governo é negligente e descuidado. la simples e definitiva razão de não pautarem suas
O uso da força é compreensível, dado que os . vidas segundo os critérios morais exigidos dos ho-
homens dessa classe têm um nível mental baixo; por mens racionais. Quanto à plena racionalidade ser um
fazerem pouco uso do pensamento, são incapazes de privilégio de uma minoria, Locke não deixa lugar
pensar ou atuar politicamente, atividade que exige para dúvidas. Considera mesmo a maior parte do gê-
uma vida plenamente racional. Nas palavras de nero humano destinada a trabalhar e a comerciar, não
Locke: "quando a mão se emprega no manejo do lhe sobrando assim tempo para o estudo e para o enca-
arado e da enxada, a cabeça raramente se eleva para deamento lógico do pensamento; por viverem agar-
idéias sublimes ou se exercita em raciocínios miste- rados às necessidades vitais do dia-a-dia, são inca-
riosos". Daí não ser difícil concluir ser a classe tra- pazes. de qualquer antevisão, de qualquer previsão.
balhadora incapaz de seguir uma ética racionalista. Sua reiterada ênfase na necessidade de indu-
til Por isso, o único tipo de ação política que empreende zir a classe trabalhadora à obediência mediante
fica restrito à insurreição armada; o direito à revo- prêmios e castigos divinos desfaz qualquer possibi-
I lução é nele a única prova efetiva de cidadania, pois lidade de alocá-Ia entre os seres capazes de viver uma
não consegue imaginar nenhum outro método para vida racional. Na verdade, um leve matiz a diferencia
derrubar um governo não desejado. Locke afasta dos pobres folgazãos; estes são depravados e como tal
ainda essa ameaça. Ou seja, a insurreição armada na escolhem não trabalhar. Para formular essas consi-
prática está fora de cogitação, pois, não sendo a derações Locke se apóia nos pressupostos do indivi-
classe trabalhadora capaz de uma ação política ra- dualismo puritano, que considerava a pobreza uma
88 Maria Stella Martins Bresciani , Londres e Paris no Século XIX 89

demonstração de deficiência moral; os pobres mere- governo e, decorrentemente, de ter qualquer parti-
ciam ajuda, mas essa era dada de uma posição moral cipação política. Nas palavras de Macpherson, "a
superior. Objeto de solicitude, de piedade e de escár- visão do Estado em Locke, constituído como uma
nio, às vezes até de temor, os pobres não estão em sociedade anônima cujos acionistas são os proprie-
condições de pertencer como membros de pleno di- tários, teve bastante aceitação". Possibilitou dife-
reito de uma comunidade moral, o que, vale a pena renciar a propriedade do corpo das outras formas de
lembrar, não os livra de estarem submetidos a ela e propriedade e localizar o trabalhador dentro da so-
às suas leis. Estão na sociedade moral, civil, mas dela ciedade mas fora da comunidade política. Essa loca-
só participam-com o ··trabalho. A doutrina puritana lização do trabalho. constitui elemento indispensável
dos eleitos - "muitos serão os chamados, mas pou- para a organização do espaço público na Inglaterra.
cos serão os escolhidos" -' suporta tal concepção. A imagem pública do trabalho relaciona-se especi-
Os tratadistas da economia política, posteriores ficamente com o mercado, não vem colada à imagem
à RevoluçãoGloriosa de 1688, aceitaram a concepção do cidadão politicamente ativo.
puritana dos pobres. O envilecimento moral da clas- Mais problemática é a situação daqueles que
se trabalhadora é em seus escritos um tema cons- transgridem a lei natural - não trabalham para
tante. Os membros da classe trabalhadora não são prover sua própria subsistência, não têm, portanto,
considerados cidadãos, mas sim um conjunto de lugar no mercado -, estando dessa maneira fora da
força de trabalho potencial ou real, disponível para os sociedade racional. Sobre eles o julgamento de Locke
objetivos da nação. Eles admitem serem os trabalha- é explícito: são perigosos para a humanidade. Um
dores pobres, em última instância, a fonte de riqueza homem que transgride a lei natural, nas suas pala-
de toda a nação, mas disso eles deduzem a necessi- vras, "se torna degenerado, se declara afastado dos
dade de incitâ-los e obrigâ-los a trabalhar conti- princípios da natureza humana e se converte numa
nuamente. criatura daninha". Esta é a imagem do estado de
. Assim, os homens que, na sociedade inglesa dos guerra, que no limite se efetiva no movimento da
séculos XVII, XVIII e XIX, vivem do trabalho de seu mob e no perigo da revolução. Para a sociedade
corpo são considerados membros. diferenciados e in- constituída, o estado de guerra significa todos os que
feriores dela; estão obrigados ao trabalho, mas se em rebelião querem a dissolução do governo.
encontram apartados da política. Sua racionalidade À concepção da sociedade mercantil do trabalho
incompleta e sua incapacidade de obter renda supe- do século XVII, onde todos estão obrigados a traba-
rior às suas necessidades vitais impedem-nos de estar lhar para sua própria subsistência, devendo ainda
em condições de ser contribuintes, de sustentar o produzir algo mais para a comunidade, Adam Smith
90 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 91

acrescenta que a sociedade se organiza sob a deter- no qual o trabalho perde todas e quaisquer caracte-
minação de um sistema de trabalho. O princípio da rísticas individuais. A organização coletiva do tra-
divisão do trabalho se institui como núcleo de uma balho passa a ser o imperativo constrangedor para
preocupação com o crescimento da riqueza, ou seja, toda a sociedade. O deslocamento efetuado por
da produtividade do trabalho. As imagens diferen- Smith na noção de trabalho vai de uma responsa-
ciadas da sociedade primitiva e da sociedade mais bilidade de cada um, individual portanto, para uma
evoluída se fundam sobre esse princípio: a maior responsabilidade de todos, coletiva. De Locke a
produtividade pressupõe a especialização do traba- Smith ocorre não só uma confirmação da positivi-
lho, e a especialização exige a divisão entre vários dade do trabalho, mas também a afirmação da posi-
homens daquilo que anteriormente fora produzido tividade da concentração do trabalho.
por um só. Essa especialização, que tem seus come- Assim, desde o século XVIII é possível distin-
ços na separação entre trabalho agrícola e trabalho guir o ajuntamento de homens numa multidão - a
industrial, dissemina-se depois entre os ramos da mob - e a concentração organizada de homens no
produção industrial em particular e chega, no seu sistema de produção. Para além da disciplinarização
estágio mais avançado, a ordenar a atividade geral da e da moralização dos homens submetidos ao trabalho
sociedade. A. Smith sobrepõe à imagem de Locke, da no sistema de fábrica, o aspecto coletivo do trabalho
sociedade como uma rede de relações mercantis, a organizado potencializa o poder produtivo da socie-
imagem de uma sociedade tecida por inúmeros tra- dade. Nesse momento, na Inglaterra já existe uma
balhos diferenciados. clara diferença entre a multidão organizada e a mul-
Se a divisão do trabalho é o marco organizador tidão desorganizada, e esse divisor de águas - ho-
de todas as atividades produtivas na sociedade, a mens no trabalho e homens fora do trabalho -
expressão dela acaba sendo uma interação de trocas constitui o cerne daquilo que se nomeia o social.
substanciais entre vários subconjuntos de trabalhos Nesse contexto a crença desmesurada no trabalho
especializados. Aquilo que em Locke se encontra organizado faz com que a presença da mob seja vista
disperso, o próprio trabalho, em Smith está concen- de forma incidental, a tal ponto que a pobreza dentro
trado; a própria noção de sistema induz à idéia de dos princípios do laissez-faire se transforma num
concentração do trabalho. Portanto, a novidade de obstáculo a ser superado pela absorção dos pobres ao
Smith radica na certeza de que a criação da riqueza mundo do trabalho. Prevalece ainda, em pleno início
está indissociavelmente ligada ao processo de con- do século XIX, a concepção da excepcionalidade da
centração. Daí a manufatura ser a expressão defini- resistência ao trabalho. Daí ser o grande problema
tiva do desencadeamento de um processo irreversível, da sociedade inglesa desse período a avaliação dos
91 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 93

custos humanos da experiência do sistema de fá-


brica.
A questão inglesa (The condition of England
Question) é formulada num contexto fortemente pe-
netrado pela concepção de progresso identificado a
um movimento em direção a um estágio estacionário
e pela teoria da população de Malthus. Os relatórios
sobre o crescimento econômico e financeiro da Grã-
Bretanha foram elaborados com base na crença da
neutralidade e objetividade dos números, ou seja,
com "bem autenticados fatos". Nesses relatórios
pouco espaço era dedicado ao que se denominava
progresso moral. Em 1847, um estatístico da Câmara
de Comércio (George Richardson Porter) reedita seu
livro Progress of the nation, onde demonstra através
de cifras o crescimento sem precedentes do Império
nos primeiros quarenta anos do século. O predomí-
nio dessa avaliação otimista só se viu ameaçado pela
depressão dos anos de 1837 a 1842, considerado o
pior momento do século. A fome .dos anos quarenta
- "The Hungry Forties", como ficou conhecida -
foi marcada pelo término do crescimento acelerado
das ferrovias, pela estagnação das indústrias ingle-
sas, pelo nível de desemprego muito alto e pelo alto
preço dos produtos de subsistência. A Great Exhi-
bition de 1851 (Grande Exposição), momento em
que a burguesia inglesa inaugura a idéia de propa-
ganda da indústria, assinala também a volta da cren-
ça no progresso material extensível a todos os habi-
tantes do país (Harrison, Early Victorian Britain,
1832-1851).
94 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 9S

Contudo, se a superação dos Hungry Forties as novas fábricas têxteis de grandes dimensões tem
confirmava as crises como períodos de desequilíbrio ainda um conteúdo conservador: "Todo o vale está
temporário, portanto, superáveis, o grande número alterado com o repicar do sino, com o ruído das
de pessoas desenraizadas, deslocando-se para novos máquinas; só se fala de traição e de sistemas iguali-
lugares, iniciando-se num trabalho diferente, subme- tários; a rebelião pode estar próxima. O povo, é
tidas a períodos de desemprego, e também o número verdade, encontra-se empregado, porém essas pes-
inusitado de pessoas envolvidas em movimentos de soas se deixaram levar pelos vícios que decorrem do
protesto fizeram com que os contemporâneos se preo- amontoamento" (Thompson, La formaciôn histórica
cupassem com algo que consideraram permanente - de Ia clase obrera, vol. 2, 9).
o problema social. Relacionado diretamente ao que O mesmo viés apreensivo, contudo, persiste
denominavam "estágio industrial", o problema so- quase meio século depois em avaliações que consi-
cial, ou a questão inglesa, colocava indagações rela- deram .0 sistema de fábrica "um fait accompli", algo
tivas à natureza das transformações inerentes à in- que existe e deve continuar existindo, algo que não
dustrialização. pode ser eliminado porque milhões de seres humanos
Os vários diagnósticos da questão inglesa, inde- dependem dele para o pão de cada dia: "quando um
pendentemente de desembocarem numa avaliação estranho passa entre as massas de seres humanos que
otimista ou pessimista, definem a concentração po- se concentram em torno das fábricas, não pode con-
pulacional,' as grandes cidades, o sistema de fábrica e templar essas colmeias agitadas sem sentir ansiedade
a Lei dos Pobres como elementos constitutivos do e apreensão. A população, tal como o sistema a que
"novo mundo industrial". Em todos os debates, a pertence, é nova e aumenta constantemente; é un:
visível concentração humana nas cidades e nas fábri- agregado de massas potente e temível. Nessas massas
cas suporta a opinião predominante sobre o poder dormem energias poderosas ... A população das ma-
multiplicador das multidões, confirmando dessa ma- nufaturas não é nova só em sua formação; é nova
neira Smith. Engels, em 1844, também expressa de também em seus costumes e hábitos de pensamento e
forma cabal essa opinião: "Esse enorme aglomerado ação, formados pelas circunstâncias de sua condição,
de população num único lugar multiplicou por cem o com pouca instrução e menos ainda orientação"
poder econômico dos dois e meio milhões de habi- (idem, 10/11).
tantes aqui (Londres) concentrados". As dimensões da novidade são em si assusta-
O aspecto negativo ou ameaçador dessa concen- doras: "O sistema de fábrica é uma criação mo-
tração é que começa a ser avaliado. Em observações derna; a história não pode lançar luz sobre sua natu-
feitas no final do século XVIII, a hostilidade perante .reza, dado que apenas começa a reconhecer sua exis-
96 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 97

tência; a filosofia das escolas poucos subsídios ofe- máquina estiver em funcionamento, as pessoas de-
rece para a avaliação de seus resultados, porque o vem trabalhar - homens, mulheres e crianças amar-
poder inovador de força tão imensa nunca poderia radas ao ferro .e ao vapor. A máquina animal está
ter sido antevisto" (Harrison, Early victorian Britain, presa por cadeias à máquina de ferro, a qual não
39-40). conhece o sofrimento nem a fadiga" (idem, 41).
Ao desconhecimento soma-se a apreensão que As condições de trabalho na fábrica, exausti-
vai desde o medo ante o poder imprevisível das con- vamente descritas por Marx quando analisa a grande
centrações de homens até as conseqüências igual- indústria inglesa, são extraídas de relatórios de auto-
mente temíveis para a própria condição humana do ridades públicas que, a partir de 1845, inspecionam
trabalhador. Nas palavras de um observador em vi- periodicamente as fábricas. São também das décadas
sita a Leeds em 1841, "as várias marcas que tornam de 1830 e 1840 as numerosas investigações sobre as
reconhecidas uma cidade industrial são: a miserável, condições de vida e de trabalho do homem pobre
a atrofiada, a decrépita e freqüentemente mutilada empreendidas por pessoas da mais variada condição.
aparência dos trabalhadores cansados, que podem Elas expressam de maneira muito explícita a resso-
ser vistos em ruas geralmente sujas e desagradáveis; nância da afirmação do historiador inglês Carlyle,
o enxame de mulheres e crianças pobremente ves- em 1839: "a condição e a disposição das classes
tidaseas moradias dos pobres, imundas e cheias de trabalhadoras é atualmente um assunto bastante
fumaça, com um aspecto miserável" (idem, 40). agourento; alguma coisa deve ser dita, algo deve ser
As avaliações dessas concentrações populacio- feito" .
nais não se detiveram unicamente no aspecto externo O movimento cartista e as reações à Nova Lei
da vida dos operários das fábricas. O espetáculo de dos Pobres (1834) dramatizam de tal modo os temo-
centenas e de milhares de seres humanos diante das res dos ingleses bem nascidos que comissões espe-
máquinas incitou a considerações diferenciadas; pa- ciais, comissões reais, sociedades estatísticas, grupos
ra uns tratava-se da aplicação do princípio da divisão de autoridades locais e amadores interessados se pu-
do trabalho de A. Smith, para outros constituía um seram em campo na intenção de definir um conjunto
sistema que levava à imoralidade, ao desemprego do de fenômenos que vieram a constituir a chamada
adulto e à escravização das crianças. A visão do questão inglesa.
trabalhador subjugado ao maquinismo expõe até às As descrições dos bairros operários e das casas
últimas conseqüências a evidente degradação do ho- miseráveis em que vivem são feitas com base no
mem nivelado às coisas; Nivelação essa extrema- pressuposto vitoriano "As the homes, so the people";
mente desvantajosa para o ser humano: "enquanto a e subsidiam as propostas dos reformistas que consi-
c

I~
98 Maria Ste/la Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 99

deravam uma necessidade inadiável fazer drásticas subsistência desse homem, da qual.se ocupavam ins-
modificações nas casas do pobre e em seus bairros. tituições supervisionadas pelos contribuintes ingle-
Londres, como sempre, merece considerações espe- ses.
ciais pelo grau de deterioração dos prédios e das A diferenciação entre o homem pobre que tra-
áreas da cidade onde os homens pobres se amon- balha e está portanto dentro da sociedade e o homem
toavam. A relação entre as más condições de habi- pobre sem trabalho é sempre nítida. Mesmo em caso
tação e as doenças foi uma descoberta dos médicos e de desemprego temporário, esse homem vê-se redu-
investigadores sociais dessas décadas. O relatório zido à condição de sem emprego, partilhando, em-
Chadwick não dá lugar para dúvidas ao mostrar que bora temporariamente, a numerosa classe dos vaga-
os focos de epidemias, que periodicamente assola- bundos. E, desses, as Leis dos Pobres cuidavam,
vam as cidades inglesas, mantinham-se em estado como já foi visto, desde os tempos elisabetanos.
larval nas áreas sujas onde viviam os homens pobres. No início do século XIX, a quantia necessária
A alimentação, dieta operária e seus hábitos de be- para a manutenção dos pobres girava em torno de 4
bida, está também entre as preocupações dos refor- milhões de libras; em 1831 ela chega perto de 7
madores sociais, que a associaram à debilitação fí- milhões e p-rovocaprotestos tão veementes dos contri-
sica e mental do homem pobre. Ainda, a situação da buintes que logram sensibilizar os franceses, também
família do pobre merece comentários adversos. Des- às voltas com a miséria em expansão. Bem no início
membrada pelo sistema de fábrica, que degrada a da década de 30, o Speenhamland System , o acordo
mulher arrancando-a de sua casa, que subtrai a fi- entre proprietários que desde 1795 assegurava a com-
gura da autoridade paterna, que incita a irregulari- plementação do salário para cada família cobrir suas
dades e a excessos sexuais, a família operária foi necessidades de sobrevivência, é abolido, a despeito
contrastada com a imagem idílica do antigo sistema das resistências dos trabalhadores e do partido con-
de produção doméstica e suas relações harmoniosas e servador Tory. No outono de 1830, os movimentos de
estáveis. trabalhadores rurais, os Swing's Riots, severamente
Embora a questão inglesa fosse decididamente reprimidos, contribuem para confirmar a necessi-
considerada um assunto estranho à área da ação dade de alterar a legislação sobre a pobreza.
governamental, sempre que a família do homem po- A Nova Lei dos Pobres de 1834 mantém o prin-
bre se via atingida pelo desemprego ou pela doença cípio de auxílio aos sem trabalho, mas modifica dras-
tornava-se problema regulado pelas Leis do Pobres. ticamente as condições em que é oferecido. Todos os
Mesmo nesses casos extremos, a intervenção do Es- requerentes do auxílio público deveriam entrar nas
tado limitava-se à prescrição das formas de atender à Casas de Trabalho (Workhouses), cujo sistema de
Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 101
100

organização também é modificado. São suprimidas em 1819, reeditavam, com as Villages of Unions, os
as Casas de Trabalho locais, e as localidades (paró- planos dos Colleges of Industry de Bellers.
quias) agrupadas em associações ("unions") passa- A despeito dos críticos que, como Car1yle, divi-
vam a ter uma única e grande Casa de Trabalho sam uma intenção exterminadora do homem pobre
supervisionada por um conselho de comissários, eleito na Nova Lei e da forte resistência dos trabalhadores
pelos contribuintes da região abrangida pela Poor desempregados em entrar nas Casas de Trabalho, em
Law Union, especial aqueles das cidades industriais do norte do
Solidária às doutrinas da economia política or- país, em 1840 a Lei está em vigor em toda a Ingla-
todoxa, a Nova Lei dos Pobres é contrária a qualquer terra. Essas Casas, chamadas pelo homem pobre de
interferência nas leis naturais; considerava o auxílio Bastilha, configuravam uma verdadeira prisão. Seus
financeiro ao pobre tão pernicioso quanto os sindi- altos muros e a disciplina carcerária, que previa a
catos e os regulamentos fabris. Edwin Chadwick, separação dos membros da família, trabalho pesado
relator do estudo que deu origem à Nova Lei dos para os homens, refeições magras e em silêncio, a
Pobres, chega quase a realizar as propostas de seu proibição de fumar, as visitas raras sob observação e
mestre Jeremias Bentham, que formulou os projetos pouquíssimo conforto, contribuíram para formar es-
de usar indigentes, em substituição ao vapor, para sa imagem. Se alguma dúvida perdurava quanto a
movimentar uma fábrica de seu irmão e de trazer os uma nítida separação entre pobres no trabalho e
pobres assistidos pela Lei dos Pobres para povoarem pobres fora do trabalho, a Nova Lei dos Pobres cui-
as suas Casas da Indústria. Esse último configurava dou de eliminar. Com a Nova Lei, o princípio da
um projeto bastante ambicioso de âmbito nacional. auto-ajuda ("self-help") passa a predominar sobre
As Casas da Indústria seriam prédios de cinco anda- qualquer outra concepção de vida.
res com doze setores capazes de abrigar 500 000 in- Os estudiosos da questão inglesa pesquisaram
ternos. Em número de 250, teriam sua administração em detalhes as condições de trabalho e de moradia
organizada nos moldes da do Banco da Inglaterra e do homem pobre, fizeram um levantamento minu-
entregue a uma comissão central eleita por todos os cioso das doenças e deformações provocadas pelas
membros dessa National Charity Company, possui- longas jornadas na fábrica, pela higiene precária de
dores de ações no valor de 5 ou 10 libras. Esse plano suas moradias, pela dieta insuficiente e pela promis-
objetivava explicitamente tornar a pobreza rentável, cuidade em que viviam. Também sua desatenção
eliminando assim o ônus financeiro da caridade. E para com os assuntos religiosos preocuparam os que
bom lembrar que Bentham e Chadwick não foram os acreditavam~star assistindo a um processo acelerado
únicos a perseguir esse objetivo: os planos de Owen, de degradação de parte da população inglesa. Porém,
102 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 103

parece ter estado longe de seus horizontes qualquer


preocupação com a forma pela qual o homem pobre
trabalhador era mantido fora da comunidade polí-
tica.
Contudo, por mais que as condições materiais
da vida do homem pobre tenham polarizado as aten-
ções, o movimento cartista levantou o problema da
participação política do trabalhador e obrigou os
pensadores liberais a constatarem o grau de instru-
ção e a difusão de jornais entre os operários, sua
capacidade de organizar-se em sindicatos profissio-
nais e em sociedades de benefícios mútuos. Ainda na
década de 1840, John Stuart Mill exprime em dois
trabalhos (Political economy , 1848 e The claims of
labour, 1845) sua desconfiança em relação à propa-
lada incapacidade política do trabalhador (Macpher-
son, A democracia liberal. Origens e evolução).
Vendo no cartismo "a revolta de quase todos os
talentos dinâmicos e de uma grande parte da força
física das classes trabalhadoras contra a sociedade
toda", ou seja, "a primeira diferença declarada de
interesses, sentimento e opinião entre o segmento
trabalhador da nação e todos acima dele", achou
compreensível terem "os espíritos conscienciosos e
solidários entre as classes governantes se impressio-
nado profundamente". Para ele, a intenção do traba-
lhador de participar da política tinha se explicitado
desde 1832, ocasião em que uma multidão mani-
festou em público seu apoio e com isso assegurou a
vitória no Parlamento de uma proposta de ampliação
das franquias políticas.
104 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 105

moral e religiosa, sem levar em conta que o tempo de lizada passa a ser o objetivo maior. Quando,nos
dar-lhes essa educação havia já passado. Porém uma anos 70 e 80, a pobreza torna-se tema de estudo
grande diferença se impunha em relação aos pensa- específico, a imagem do homem pobre trabalhador
dores do início do século, que como Bentham, viam os se conturba, desfazendo em parte a imagem de um
trabalhadores inevitavelmente condenados à quase universo prenhe de aperfeiçoamento moral e material,
indigência. Em J. S. Mill havia uma aposta na possi- fruto da força civilizadora do sistema de fábrica.
bilidade futura de os trabalhadores tornarem-se ple- Londres, mais uma vez, é o lugar onde o pro-
namente racionais de forma a compreenderem e acei- blema se coloca em sua dimensão maior; é aí que o
tarem as leis da economia política (Macpherson, A sistema de fábrica despeja sua escória humana. A
democracia liberal, c. 111). agitação dos anos de crise da década de 1860 deixa
Essa mudança de opinião entre os ingleses letra- entrever o problema da miséria crônica na vida da
dos quanto à condição política do trabalhador, acen- grande cidade, sendo suficiente para pôr em questão
tua ainda mais a distância que separa esse membro o pressuposto básico do pensamento liberal - o
da sociedade dos fora-da-lei, os pobres sem trabalho. individualismo. A má consciência do homem rico dá
A nova entrada da pobreza indigente entre as lugar ao medo ao homem pobre, degradado pelas
grandes preocupações dos ingleses bem-nascidos será condições de vida na cidade. Cai por terra também a
não mais como fenômeno temporário do desem- explicação da pobreza indigente como produto da
prego ou como resistência ao trabalho dos pobres não escolha pessoal apoiada pela caridade inconseqüente
moralizados, mas como criatura da própria socie- dos ricos. A diferença entre pobres trabalhadores e
dade industrial, como resíduo que, produzido por os sem mérito foi nesse período reinterpretada. Ta-
ela, nela não tem lugar. Será também um fenômeno manho foi o impacto do resíduo que evitar o seu
específico da cidade de Londres. contato com as classes trabalhadoras tornou-se es-
Nosanos de 1860 e 1870, momento em que a tratégia proposta tanto pela conservadora Sociedade
utopia liberal parece ser quase uma realidade efetiva, para a Organização da Caridade (COS) como pela
o medo do assalto da multidão à sociedade volta Federação Social Democrática (SDF) de Londres, de
transformado. A sociedade vitoriana, cidadela da inspiração socialista.
virtude e da racionalidade econômica, sente-se ame a- Nos anos de 1886 e 1887, a mob londrina, em
çada por algo que ela mesma produz. Diante desse meio à profunda crise da indústria local, preenche
perigo que não mais tangencia a sociedade, mas se todos os requisitos para dar ao medo projetivo a
constitui em parte-produto dela, o pensamento libe- dimensão de realidade estarrecedora. A multidão
ral vai se tornar recessivo. Defender a sociedade civi- amotinada pelas ruas de Londres constitui um dos
106 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 107

elementos de um quadro de apreensões mais amplo, destino". Em meio a sermões e a demonstrações de


onde a ansiedade ante o declínio da supremacia in- conduta irrepreensível, esses trabalhadores das do-
dustrial da Grã-Bretanha e a incerteza apreensiva cas, que segundo o jornal The times haviam sido
ante a participação política crescente da classe ope- considerados o rebotalho da sociedade por políticos,
rária, têm lugar de destaque. Mais uma vez ques- economistas e reformadores sociais, "em doze dias
tiona-se o pensamento liberal em um dos seus pres- mostraram ao país que pretendiam ocupar seu lugar
supostos básicos - o laissez-faire, nas fileiras dos homens trabalhadores" (Jones, 314-5).
Embora a repercussão política desse questio- Nem por isso os adeptos de uma solução estatal
namento não tenha sido suficiente para derrotar no para o resíduo deixam de formular e defender suas
Parlamento os liberais ortodoxos, as propostas ela- propostas. Uns avançam pouco na direção do Estado
boradas por esse pensamento crítico acenam para a e só pedem ao governo leis severas de controle da
necessidade da intervenção do Estado, para uma superpopulação e medidas no sentido de se exportar
política governamental, no controle do resíduo. Até o resíduo para as colônias; outros vão mais longe e
certo ponto, a grande greve nas docas de Londres, propõem colônias de trabalho que reúnam tanto o
em 1889, veio em apoio dos que acreditavam nos resíduo como os desempregados em geral; mesmo
princípios do liberalismo. Durante toda a greve os antigos membros da liberal COS chegam a formular
trabalhadores das docas demonstraram o alto nível a hipótese de colônias de trabalho, organizadas pelo
de moralização da classe operária. governo, para recolher a pobreza residual; os que
Como disse um observador contemporâneo: pedem maior intervenção do Estado são os adeptos
"Quando se soube que os milhares de grevistas ha- de uma solução imperial, que consideram necessária,
viam desfilado através da City sem que nenhum bolso para além de medidas assistenciais do Estado, a
fosse roubado e nenhuma janela quebrada, e que na solução radical de colônias de trabalho capazes de
frente da procissão estava um homem cuja posição transformar o resíduo em trabalhadores que seriam
pública era uma garantia de que a mob tinha um alocados através do vasto Império Britânico. Essas
líder responsável, o cidadão inglês sentiu que podia soluções, que previam a adoção de uma política de
retornar para suas moradias suburbanas com a cer- "higiene nacional" de forma a exterminar o resíduo,
teza de que seus negócios não seriam saqueados du- vão constituir o terreno sobre o qual se levantará o
rante a noite e que poderiam permitir-se deixar levar edifício do Estado Providência na Inglaterra do sé-
por suas inclinações naturais, emprestando apoio culo XX (Wellfare State) (Jones, 16).
moral aos pobres diabos que estavam lutando com A triunfante sociedade inglesa, que sempre se
coragem, bom humor e ordem contra o seu opressivo sentira capaz de contornar a miséria que esteve à sua
•...
108 Maria Stel/a Martins Bresciani

volta, espanta-se ao descobrir que o homem pobre


nasce de suas próprias entranhas. O espetáculo da
pobreza produzida pela própria sociedade do tra-
balho é insuportável.

CLASSES POBRES,
CLASSES PERIGOSAS
Les malhereux sont Ia puissance de Ia terre.

Saint-Just=

A questão da multidão amotinada se coloca de


maneira bastante diversa na França do século XIX.
Aqui, os parisienses, orgulhosos de sua civilização,
temem as depredações e o constrangimento do espe-
táculo das multidões famintas, mas temem, sobre-
tudo, as jornadas revolucionárias. Seu temor se fixa
numa imagem de grandeza assustadora: aquela de
homens fazendo valer suas exigências através do con-
trole das instituições políticas; pondo, portanto, na
ordem do dia, o assédio e a ocupação das praças e dos
edifícios públicos. O espectro das multidões incon-
troláveis dos anos revolucionários faz-se presente a
cada momento da vida cotidiana, como força em re-
pouso de uma sociedade que se autoconcebe consti-
• Os infelizes são a potência da terra.
110 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 111

tuída sobre o marco do acolhimento da pobreza no conflagração subjacente. Alguma coisa terrível se ge-
campo da política. rava. Entrevia-se os delineamentos pouco definidos
Não é a pobreza indigente, sem trabalho, o prin- e mal iluminados de uma revolução possível. A Fran-
cipal interesse do francês ao observar a multidão; sua ça olhava Paris; Paris olhava o faubourg Santo Antô-
atividade exploratória das cenas de rua está sempre nio". Não por acaso as atenções se voltavam para o
atenta aos sinais de uma irrupção das forças subter- bairro operário; lá, mais do que em qualquer outro
râneas da sociedade. A metáfora da faísca elétrica lugar, se tornava sensível o frêmito revolucionário. E,
prenunciadora das grandes tempestades é usada por nesse momento, "o velho faubourg, tão populoso
Victor Hugo para descrever a ansiedade social ante- como um formigueiro, trabalhador, corajoso e colé-
rior às jornadas de 1832. É a asfixia ocasionada pelo rico como uma colmeia, estremecia na expectativa e
ar muito carregado que introduz o leitor à certeza de no desejo de uma comoção". Com traços rápidos,
que um movimento incontrolável está para acon- Hugo esboça os contornos do bairro: os telhados de
tecer; só depois de montado esse clima de tensão, o suas mansardas escondiam terríveis misérias, mas
Autor afirma que "somente vinte meses haviam de- também inteligências ardentes e excepcionais; além
corrido desde a revolução de julho (1830) e o ano de disso também recebia os contra-golpes das crises co-
1832 tinha começado com um aspecto de iminência e merciais, das falências, das greves e dos desempregos
de ameaça.,; a doença política e a doença social inerentes aos grandes abalos políticos.
declarando-se ao mesmo tempo nas duas capitais do O reconhecimento da ameaça contida na mul-
reino; uma, a cidade do pensamento, outra, a cidade tidão exigia, na França, a familiaridade com a expe-
do trabalho; em Paris, a guerra civil, em Lião, a riência da Revolução de 1789. Considerada como
guerra servil; nas duas cidades o mesmo clarão de momento de fundação da sociedade francesa, figu-
fornalha, uma púrpura de cratera na fronte do povo rava com seus elementos constituintes o marco a
(Les misérables, 11). partir do qual todos se norteavam. Entre esses ele-
Esses prenúncios agourentos não acontecem de mentos, a imprevisibilidade da movimentação do po-
forma indeterminada: eles são visíveis em lugares vo no período mais radical dos anos revolucionários
específicos, no rosto de pessoas específicas. Victor definiu uma imagem de retorno ao estado de- natu-
Hugo prossegue seu relato afirmando que "lá pelo reza, de volta a um estágio primitivo onde tudo se
fim de abril, tudo tinha se agravado. A fermentação tornava possível porque tudo o que existira antes
tornava-se borbulhante. Desde 1830 aconteciam, cá e encontrava-se arrasado: a estrutura política do país e
lá, pequenas revoltas parciais, rapidamente reprimi- os vínculos que uniam seus habitantes numa hie-
das, mas sempre renascentes, sinal de uma grande rarquia de privilégios.
112 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 113

1I Muito significativas desse medo à perda do con- pelos contemporâneos como uma restauração do po-
trole da multidão são as imagens elaboradas pelo der monárquico à sua glória e virtude originais (Han-
inglês Carlyle, na primeira metade do século XIX, do nah Arendt, Sobre Ia revolución, capo 1).
período da Revolução Francesa: "Este enorme movi- Para apreender essa nova dimensão do termo,
mento insurrecional, que nós comparamos a um nada mais instrutivo do que as próprias palavras de
transbordamento do Tofet e do Abismo, varreu a Hannah comentando o diálogo entre Liancourt e
realeza a aristocracia e a vida de um rei. A questão Luís XVI, quando este, informado da tomada da
é, agora, o que fará a seguir; como se formará daqui Bastilha, lhe indaga: "Mas trata-se de uma revol-
em diante? Firmar-se-á num reinado de lei e liber- ta?", e obtém como resposta: "Não, sire, é uma
dade, de acordo com os hábitos, as persuasões e os revolução". "Por trás de suas palavras, podemos ver
esforços que a classe respeitável, a classe educada e e ouvir a multidão em marcha irrompendo nas ruas
endinheirada, prescreve? Isto é: o fluxo da lava vul- de Paris, que então era não só a capital da França,
cânica, que brotou da maneira descrita, explodirá e mas de todo o mundo civilizado: a insurreição do
correrá de acordo com a fórmula girondina e o sis- populacho da grande cidade inextricavelmente unido
tema preestabelecido pela filosofia? No entretanto, ao levantamento do povo em nome da liberdade,
não será melhor profetizar que como não resta ne- irresistível, ambos pela força de seu número. Esta
nhuma força externa, real ou outra, que possa dirigir multidão dos pobres e oprimidos, a qual os séculos
este movimento, seguirá um curso próprio; prova- anteriores haviam mantido na obscuridade e na igno-
velmente um curso muito original?" (História da mínia. O que desde então se mostrou irreversível,
revolução francesa). reconhecido imediatamente pelos agentes e espec-
Neste trecho do livro de Carlyle, a palavra revo- tadores da revolução, foi que a esfera do público,
lução já se encontra completamente deslocada do seu reservada desde tempos imemoriais aos que eram
sentido primitivo de termo astronômico que desig- livres, quer dizer, livres das mazelas que a necessi-
nava o movimento regular, submetido a leis, e rota- dade impõe, devia dar espaço e luz para essa imensa
tório dos astros, que,' embora estivesse fora do al- maioria que não é livre porque está sujeita às neces-
cance de qualquer controle do homem, não possuía sidades cotidianas."
nenhuma conotação de novidade ou de violência. Ou É nítida, já nas palavras de Robespierre: "Re-
melhor, designava mesmo um movimento recorrente pública? Monarquia? Eu só conheço a questão so-
e ciclíco, confirmado em seu significado quando foi cial". A mudança radical nos rumos de um movi-
trazido para o campo político pelos participantes da mento que se propunha alcançar a liberdade, nos
Revolução Gloriosa de 1688 na Inglaterra, concebida termos propostos pelos pensadores da burguesia, no
114 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 115

limite, uma república respeitável para ela, dado esta-


esse acontecimento e a admissão da pobreza no cam-
rem demolidas todas as aristocracias. No século XIX,
po político? Como os homens que fizeram a Revo-
a idéia de revolução francesa como necessidade histó-
IuçãoFrancesa transformaram o espetáculo da mul-
rica encontra-se definida. À concepção de alguma
tidão de miseráveis num pressuposto da ação política
coisa imprevisível que procede de ,a~ém e de a~aixo
e da legitimidade de qualquer governo? O que tinha
da região da ordem, de algo caótico destrutivo e
permitido no calor da Revolução essa solidariedade
autodestrutivo, Carlyle associa imediatame?te_ o en-
inquebrantável entre alguns dos seus agentes e o
tendimento particular que vinte e cinco milhões de
homem pobre? Que espírito da tradição política
franceses oprimidos pela fome e pela falta de roup.a
francesa impregnava e movia esses revolucionários a
têm das palavras Liberdade, Igualda~e e F:aterm-
tal ponto que o seu dever político plenamente racio-
dade. Numa descrição minuciosa do dia-a-dia revo-
nal se expressa na solidariedade em relação ao pró-
lucionário do ano de 1793, ele mostra a pobreza
ximo? A compaixão, experiência exclusivamente pes-
invadindo o campo da política, a Convenção solici-
soal, totalmente privada, é lançada como móvel da
tada para resolver o problema da ~al~a de 'pão, de política.
sabão, de açúcar, as necessidades vitais enfim alça-
Ê bem verdade que a indiferença em relação à
das à condição de assunto da política. ~s praças e ~s
pobreza havia desaparecido no século XVIII, e com
ruas ocupadas pela multidão que acredita que o re~-
Rousseau, a repugnância inata ante o sofrimento
no da felicidade estava prestes a se converter em reah-
alheio fora arrancada dos recônditos da intimidade
dade.
pessoal. Esse sentimento novo, a compaixão, é a
À essa guinada do movimento, provocada pela
chave para se compreender a mudança na própria
multidão dos pobres sob o império de suas necessi-
concepção de povo no decorrer da Revolução Fran-
dades vitais, Hannah diz corresponder ~. alteração
cesa: não mais só os cidadãos, mas eles somados aos
nos objetivos mesmo da revolução: sacrificava-se a
Pobres. A teoria política de Rousseau já havia trans-
liberação dos homens de seus semelhant~s, ab~ndo-
formado a compaixão num dever político plenamente
nava-se a fundação da liberdade, pela hberaçao do
racional, e os revolucionários foram capazes de trans-
processo vital da sociedade- das cadeias d~ es~asse_z.
formar esse dever numa solidariedade fundada na
O objetivo da revolução era agora aabundância, nao
comunhão de interesses com os oprimidos e explo-
a liberdade.
rados. Nesse sentido, a política passa a ser um com-
. Esse deslocamento encontra sua explicação num
promisso com o povo, sujeito único de sua legitimi-
acontecimento radicalmente novo - o povo com seu
dade. Retira-se da política a idéia de confronto de
cortejo de pobreza nas ruas. Como se articula porém
opiniões, donde provém o consentimento, e em seu
"'""---
.•.....
116 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 117

lugar passa a prevalecer a idéia de vontade geral.


É o esforço de solidariedade que se constitui nas
palavras de Robespierre, a virtude capaz de identi-
ficar a vontade de um com a vontade de um povo. E
todos os esforços, a partir de então, deveriam ser
dirigidos essencialmente em direção à felicidade da
maioria. Em plena revolução francesa, a felicidade,
em vez da liberdade, se tornou a nova idéia na Eu-
ropa. Assim, aqueles elementos que Rousseau intro-
duz na teoria política, Robespierre leva para as pra-
ças públicas.
Esse artifício atira a multidão para o centro da
cena política e, ainda nas palavras de Robespierre, a
política é inteiramente ocupada pela questão social:
"é necessário uma vontade única, seja ela republi-
cana ou monárquica".
Para a França revolucionária não se trata mais
de confrontar formas políticas de governo capazes de
assegurar a liberdade, mas tornar realizável a poli-
uca da felicidade e da abundância geral. Esse ideal
transformou-se numa das imagens mais fortes da
Revolução, convertendo a multidão dos miseráveis
em paradigma para todos os franceses. Há uma ima-
gem que fica definitivamente marcada e orienta todo
o pensamento francês no século XIX: a multidão
revolucionária, o populacho trazido para as ruas de
Paris, transformando a cidade num palco onde se
encena o espetáculo de uma revolução 'permanente.
Essa imagem de uma força da natureza que
transcende o homem, de uma necessidade histórica
que exige esforços desmesurados e que em sua vora-
118 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 119

cidade traga os seus próprios agentes, faz da multi- imprimir-lhe formas de realização visíveis em vários
dão revolucionária uma presença saturada de posi- projetos utópicos. Marx, como nenhum outro, desde
tividade. Estar dentro da história significa perceber Robespierre, visualiza nas revoluções do século XIX
no movimento das massas humanas os sinais da nova a realização da felicidade geral, a fundação da socie-
ordem do século. dade plenamente humanizada. Com ele, a imagem
Em Victor Hugo, "as massas sociais, as bases de 1789 não se encerra no próprio acontecimento,
mesmo da civilização", têm uma solidez que lhes mas se projeta nas ruas de Paris no decorrer de todo
garante a permanência através das convulsões dos o século, como uma revolução permanente em busca
sistemas, das paixões e das teorias, e são seus suces- dos seus próprios desígnios. Em suas palavras: "As
sivos momentos de irrupção nessas tempestades que revoluções anteriores tiveram que lançar mão de re-
iluminam a verdade. Nesse sentido, "os abalos revo- cordações da história antiga para se iludirem quanto
lucionários permitem que a soberania popular flua, ao próprio conteúdo. A fim de alcançar seu próprio
ainda que aos trancos e barrancos, que ela se forme conteúdo, a revolução do século XIX deve deixar que
entre os extremos do entusiasmo e do fanatismo em os mortos enterrem seus mortos" (O 18 Brumário de
busca de seus objetivos: o fim das opressões, o fim Luís Bonaparte).
das tiranias, o fim da força, o trabalho para o ho- Nelas radica uma exigência incontornável: a ne-
mem, a instrução para a criança, a doçura social cessidade de a classe revolucionária se desfazer de
para a mulher, a liberdade, a igualdade, a frater- seus falsos profetas, de homens que, como Victor
nidade, o pão para todos, o paraíso na terra. Pro- Hugo, enxergam o presente com os olhos voltados
gresso, esta coisa santa, boa e doce". para o passado. Para Marx deve-se desfazer o equí-
Ainda segundo esse Autor, os imperativos dessa voco: nas entranhas da multidão dos desesperados,
necessidade histórica são apresentados por Deus duas ondas revolucionárias se agitam. Uma delas, de
num texto obscuro e numa língua misteriosa: en- efeitos dramáticos e fulgurantes, tem contudo vida
quanto uns se dedicam de corpo e alma a fazer o curta, dado que ao atingir seu alvo de sucesso em
deciframento dos textos, a multidão exercita suas sucesso entra numa longa modorra; a outra, "as
várias traduções em plena praça pública. Enquanto revolllções proletárias, como as do século XIX, se
outros cuidavam dos velhos partidos políticos, fora criticam constantemente a si próprias, interrompem
desses partidos os homens se ocupavam com a ques- continuamente seu curso, voltam para o que pare-
tão da felicidade. cia resolvido para recomeçá-lo outra vez, escarnecem
O pensamento socialista na França incorpora a com impiedosa consciência as deficiências, fraquezas
noção de necessidade histórica e se dedica à tarefa de e misérias de seus primeiros esforços, parecem der-
120 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 121

rubar seu adversário apenas para que este possa mília do pobre se transforma numa realidade social
retirar da terra novas forças e erguer-se novamente passível de ser estudada cientificamente.
agigantado, diante delas, recuam constantemente Essa Paris do século XIX, reformada em seus
ante a magnitude infinita de seus próprios objetivos, hábitos, em seus costumes e em seus espaços, na qual
até que se cria uma situação que torna impossível a multidão dos pobres perde suas próprias raízes, foi
qualquer retrocesso e na qual as próprias condições capaz de abrigar ainda por um momento a eferves-
gritam: Aqui está Rodes, salta aqui!" (idem). cência revolucionária. O desfecho da política de dis-
A mesma imagem da multidão revolucionária ciplinarização da vida do pobre, objeto de atenção da
como força da natureza está subjacente nas intenções administração do Segundo Império (1852-70), dá-se
daqueles que procuram exorcizar o perigo de convul- com a insurreição popular que instalou a Com una de
são que ronda a sociedade. Para esses, trata-se de Paris. Em seu programa os Communards definem
precisar a dimensão da ameaça. Trata-se de vascu- uma linha de atuação política que supera em muito a
lhar minuciosamente o terreno onde germina o ini- genérica busca da abundância e da felicidade. A
migo, a cidade de Paris. Ã ação repressiva explícita questão social encontrou momentaneamente sua ror-
nos momentos de agitação sobrepõe-se toda uma ma política - a república formada pela livre asso-
política insidiosa de um olhar constante que detalha, ciação das Comunas federadas.
esquadrinha, classifica a vida cotidiana dessa col- A multidão dos pobres por um momento dis-
meia popular. Do recôndito do lar do homem pobre pensa todos os olhares recolhidos nas páginas deste
ao seu lugar de trabalho, todo o percurso pelos espa- livro, alcança a praça pública e proclama o direito
ços públicos torna-se objeto permanente de investi- dos citadinos à sua cidade:
gações. Desde chefes de polícia até prefeitos de Paris, " ... A Comuna tem o dever de afirmar e deter-
um imenso exército de funcionários sai às ruas dia- minar as aspirações e os votos da população de Paris:
riamente perscrutando os sinais menos visíveis dessas A autonomia absoluta da Comuna estendida a
c/asses perigosas. A tarefa de demolir uma revo- todas as localidades da França, assegurando a cada
lução, na Paris do século XIX, foi entregue a equipes uma a integralidade de seus direitos, e a todo francês
de técnicos que formularam soluções pontuais permi- o pleno exercício de suas faculdades e de suas apti-
tindo devassar toda a vida das classes pobres. As dões como homem, cidadão e trabalhador.
portas de suas casas foram abertas, seus interiores Os direitos inerentes à Comuna são: o voto do
vasculhados, sua conduta avaliada, seus valores mo- orçamento comunal, receitas e despesas; a fixação e
rais aquilatados. O arsenal de informações colhidas e a distribuição do imposto; a direção dos serviços
sistematizadas fornece as bases sobre as quais a fa- locais; a organização da sua magistratura, da polícia
-
122 Maria Stella Martins Bresciani

e do ensino; a administração dos bens da Comuna.


A escolha por eleição ou concurso, com a res-
ponsabilidade e o direito permanente de controle e de
revogação dos magistrados ou funcionários comunais
de todos os tipos. A garantia absoluta da liberdade
individual, da liberdade de consciência e da liber-
dade de trabalho. A intervenção permanente dos
cidadãos nos assuntos comunais pela livre manifes-
tação de suas idéias. A organização da defesa urbana
e da Guarda Nacional que elege seus chefes e vigia a INDICAÇOES PARA LEITURA
manutenção da ordem na cidade.

A unidade, tal como nos foi imposta até hoje


pelo império, pela monarquia e pelo parlamenta-
rismo, é uma centralização despótica, arbitrária e Hannah ARENDT. La Condición Humana: trata-se
onerosa. de uma das reflexões mais estimulantes sobre as
A unidade política, tal como a quer Paris, con- origens da sociedade do trabalho e sobre a for-
siste na associação voluntária de todas as iniciativas mação do pensamento liberal inglês, que trans-
locais. forma radicalmente a própria noção de tra-
........................................... . balho .
Ê o fim do velho mundo governamental e cle- Hannah ARENDT. Sobre Ia Revolución: nesse tra-
rical, do militarismo, do funcionalismo, da explo- balho a Autora faz uma profunda viagem inte-
ração, da agiotagem, dos monopólios e dos privi- lectual em torno das Revoluções Americana e
légios aos quais o proletariado deve sua servidão, a Francesa para desvendar o momento em que as
Pátria suas infelicidades e seus desastres." multidões de pobres são incorporadas ao pensa-
mento político.
Walter BENJAMIN. Iluminaciones lI. Baudelaire:
analisando temas da poesia de Baudelaire, o
Autor cria um túnel da memória que nos coloca
diante dos enigmas de uma grande metrópole
européia do século XIX. Os mistérios de Paris

124 Maria Stella Martins Bresciani Londres e Paris no Século XIX 125

vão aparecendo nos inúmeros personagens que Inglaterra: estudo clássico sobre a classe ope-
compõem a multidão descoberta por Benjamin rária inglesa no século, XIX. O inventário de
na literatura francesa da época. problemas das cidades industriais inglesas ela-
George RUDE. La Multitud en Ia Historia: leitura borado pelo Autor nos introduz a uma preocu-
obrigatória para o estudo dos movimentos de pação comum aos seus contemporâneos, cho-
revolta urbanos e rurais na Inglaterra e na Fran- cados com as condições de vida e de trabalho
ça do século XVIII e primeira metade do sé- das populações urbanas.
culo XIX. Trata-se de uma incursão através das K. MARX. O Capital: em quatro capítulos do-pri-
revoltas de fome pré-industriais nesses dois paí- meiro volume ("A Jornada de Trabalho", "Di-
ses. A composição social desses movimentos, visão do Trabalho e Manufatura", "Maquinaria
suas reivindicações e formas de atuação são e Grande Indústria" e "Acumulação Primi-
detalhadamente analisadas. Em língua portu- tiva") Marx trata detalhadamente das origens
guesa acaba de ser editado seu livro Ideologia e da concentração industrial e das condições de
Protesto Popular (Zahar, 1982) que, em linhas vida e de trabalho do operariado inglês. O pro-
gerais, acompanha seu trabalho anterior. blema do pauperismo engendrado pela própria
E. P. THOMPSON. "La Economia 'Moral' de Ia industrialização foi objeto de tratamento especí-
Multitud en Ia Inglaterra del Siglo XVIII" in fico quando o Autor aborda a formação do exér-
Tradiciôn, Revuelta y Consciencia de Clase: este cito industrial de reserva.
seu estudo sobre as multidões revoltadas ingle- Gareth STEDMAN JONES. Outcast London: livro
sas do século XVIII propõe uma linha de inter- que há muito tempo deveria ter merecido uma""
pretação bastante interessante, na medida em tradução para o português. Trata-se do trabalho
que relaciona esses movimentos com a difícil mais completo sobre o surgimento do pobre na
formação de um mercado de consumo liberado cidade de Londres a partir da particular estru-
das travas do paternalismo rural. tura do mercado de trabalho dessa metrópole. O
Edgar S. de DECCA. O Nascimento das Fábricas Autor, ao mesmo tempo que apresenta os qua-
(Brasiliense, Col. Tudo é História, 1982): nesse dros assustadores da pobreza de Londres, traz
seu estudo, o Autor propõe uma reinterpretação ao nosso conhecimento as visões dos contempo-
do que se denomina comumente sistema de fábri- râneos ante o espetáculo cotidiano da fome, da
ca, desfazendo uma imagem clássica que o redu- doença e de todos os medos perante as ameaças
ziu a um acontecimento tecnológico. crescentes de rebeliões populares.
F. ENGELS. A Situação da Classe Trabalhadora na L. CHEV ALIER. Classes Laborieuses et Classes
Londres e Paris no Século XIX 127
126 Maria Stella Martins Bresciani

ENGELS, Friedrich. A Situação da Classe Trabalhadora, Porto, Edi-


Dangereuses à Paris: seu livro é o único estudo torial Presença-livr. Martins Fontes, 1975. .
razoavelmente acessível sobre a condição da po- BRIGGS. Asa. Yictorian Cities, Grã-Bretanha, Penguin Books, 1977.
breza na França do século XIX. O Autor nos STEDMAN-JONES, Gareth. Outcast London. A Study in The Rela-
tionship Between Classes in Victorian Society, Grã-Bretanha,
conduz através dos relatos de literatos, admi- Penguin Books, 1971. .
nistradores, médicos e pensadores franceses con- CHESNEY. Kellow. The Victorian Underworld, Grã-Bretanha, Penquin
temporâneos que se preocuparam com o pro- Books, 1970.
DlCKENS Charles. Hard Times, Grã-Bretanha, Penguin Books, 1979;
blema do homem pobre. Com eles, elabora a CHEV ALlER, Louis. Classes Laborieuses et Clas,ses Da~ger~use~ .a
figura da pobreza, onde o trabalhador, o desem- Paris, pendant la premiêre moitié du XIXe siecle, Pans, Librairie
pregado e o vadio se confundem numa mesma Générale Française, 1978.
MICHE.ET, Jules. Le Peuple, Paris, Flammarion, 1974.
imagem ameaçadora para a sociedade. Também HUGO, Victor. Les Misérables, Paris, Librairie Générale Française,
para esse livro reivindicamos uma tradução ur- 1972.
gente. Em língua portuguesa, há uma única tra- PERROT. Michelle. "Les ouvriers et les machines en France dans Ia
prerniêre inoitié du XIXe siêcle" in Le Soldat du Travail. Guerre,
dução confiável e completa da obra de Victor fascisme et taylorismo (org. Lion Nurard e Patrick Zylberman)
Hugo (Círculo do Livro) Os Miseráveis, que de RECHERCHES 32/33, Paris, 1978. .
Jlma forma literária nos conduz através de todos ARIEs, Phillipe. Histoire des populations françaises, Poitiers, Ed. Seuil,
1976.
os espaços da cidade de Paris por onde o homem ARENDT, Hannah. La Condiciôn Humana, Barcelona, Edit. Seix Bar-
pobre transita. ral, 1974.
POLANYI, Karl. A Grande Transformação, Rio de Janeiro, Ed. Cam-
pus, 1980.
MACPHERSON, C. B. La Teoria Politica dei Individualismo Posesivo,
Hobbes a Locke, Barcelona, Ed. Fontanella, 1970.
BmLIOGRAFIA CITADA: HARRISON, J. F. C. Early Victorian Britain, 1832-1851, Grã-Bre-
tanha, Fontana/Collins, 1979.
BENJAMIN, Walter. Iluminaciones lI. Baudelaire. Un poeta en el es· THOMPSON Edward La Formación Hist6rica de Ia Clase Obrera,
plendor dei capitalismo, Madri, Taurus Ediciones, 1972. lnglat~rra: 1780:1832, Barcelona, Editorial Laia, 1977.
ARENDT, Hannah. Sobre Ia Revotuciôn, Madri, Ed. Revista de Occi- MACPHERSON, C. B. A Democracia Liberal. Origens e Evolução, Rio
dente, 1967. de Janeiro, Zahar, 1978.
BAUDELAIRE, Charles. Les Fleurs du Mal, Paris, Librairie Générale CARLYLE, Thomas, História da Revolução Francesa, São Paulo, Me-
Française, 1972. lhoramentos, 1962.
DICKENS, Charles. As Aventuras do sr. Pickwick, São Paulo, Abril MARX, Karl. 018 Brumário de Luís Bonaparte, Os Pensadores, Abril
Cultural, 1979. Cultural.
THOMPSON, E. P. Tradición, Revuelta y Consciencia de Clase. Estu-
dios sobre Ia crisis de Ia sociedad preindustrial, Barcelona, Ed.
Critica, 1979.
POE, Edgar Allan. "O Homem das Multidões", in Poesia e Prosa, vol. 2,
Ed. Livraria do Globo, Porto Alegre, 1944. •....
12\

Sobre a Autora

A autora formou-se em História na FFLCH da USP (1970) onde


obteve também o título de doutor (1976) com uma tese sobre a formação
do mercado de trabalho e a criação do Estado liberal republicano no
Brasil. Publicou artigos relacionados a questões do liberalismo, do auto-
ritarismo e da democracia. Organizou exposição iconográfica sobre o
trabalho escravo e a formação do mercado de trabalho no Brasil para a
Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo (1978). e
professora de
História na Unicamp desde 1974, tendo participado da criação do De-
partamento e do Mestrado em História dessa Universidade. Participa
atualmente como consultor científico da pesquisa História da Industria-
lização no Brasil em convênio do Departamento de História (Unicamp)
comaFINEP.

Interesses relacionados