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4 de Setembro de 2018

O Ágio interno e os reflexos fiscais na interpretação do
Pronunciamento Técnico CPC 15

1. Identificação da problemática em tela.

Como fator negocial relevante, o ágio relativo à aquisição de empresas é
objeto de constantes questões sobre sua legalidade na incorporação de
empresas sob controle comum, também denominado ágil interno.
Destarte, emerge a problemática acerca dos reflexos do Pronunciamento
Técnico CPC 15 e a aplicação do Princípio Contábil da Essência sobre a
Forma na possibilidade de reconhecimento do goodwill[1] nessas
operações.

Tais critérios contábeis vêm ao encontro da novel lei no 12.973/14, de 13
de maio de 2014, especialmente ao tratar do aspecto fiscal da amortização
do goodwill como despesa dedutível na apuração do Imposto de Renda
de Pessoa Jurídica – IRPJ e Contribuição sobre o Lucro Líquido ­ CSLL.

No entanto, antes da edição da Lei 12.973/14, diversas empresas
reconheceram o ágil interno e realizaram sua amortização e dedução para
fins fiscais, nos moldes do Decreto­lei no 1.598/77, de 26 de dezembro de
1977.

A problemática repousa no seguinte ponto: antes da Lei no12.973/14, a
interpretação prevista no Pronunciamento Contábil CPC 15 (R1) –
Combinação de Negócio e no Princípio Contábil da Essência sobre a
Forma referendavam a vedação ao benefício fiscal da amortização do ágil
interno?
2. Contextualização teórica

2.1. Conceito de ágil.

Diversas empresas e indivíduos realizam a aquisição de negócios no
Brasil na perspectiva de investirem em uma nova atividade comercial.

É sabidamente mais oneroso adquirir um negócio “pronto” do que apenas
adquirir ativos e criar uma nova empresa. Questiona­se, então, qual é a
motivação de um adquirente realizar a aquisição de um negócio? A
aquisição de um negócio envolve não apenas ativos tangíveis (ex.
Máquinas e equipamentos), mas ativos intangíveis com alto valor
negocial e, muitas vezes, difíceis de avaliar seu preço de mercado, como,
por exemplo, a clientela, marcas e know how.

Assim, essa fonte de geração de caixa já é estruturada e possui atividade
negocial ativa, sendo que seu conjunto de ativos combinados possuem um
valor comercial muito maior do que separados. De certo, se o adquirente
do negócio pretendesse estruturar toda a atividade empresarial e
atingisse o estágio empresarial da companhia adquirida até a data do
fechamento do negócio, certamente despenderia muito tempo e dinheiro.

Diante desse cenário, é muito difícil avaliar o valor de mercado de um
negócio, podendo ser avaliado por um critério subjetivo pelo vendedor de
quanto ele acredita que vale seu negócio ou, ainda, objetivo, como, por
exemplo, por meio de valuation realizada por consultoria especializada.

No entanto, ao se adquirir um negócio, o valor despendido pelo
adquirente não se resume apenas aos ativos tangíveis e intangíveis, mas
sim no incremento no lucro pela combinação entre os negócios (negócio
presente e o negócio adquirido), potencializando seus lucros ao longo dos
anos.

A empresa alvo da aquisição poderá incrementar a atividade da empresa
adquirente, seja por oferecer sinergia em seus produtos ou serviços
ofertados, seja por expor a adquirente às novas tecnologias da empresa
adquirida, dentre outras razões que não são imediatamente identificáveis
para fins de atribuição de preço de aquisição do negócio.

Deveras, o ágil pago por expectativa de rentabilidade futura, sinônimo de
goodwill, pode ser definido como esse incremento no lucro da adquirente
ao longo dos anos, sendo representado pela diferença entre o excedente
dos ativos avaliados a mercado até o valor do preço do negócio adquirido.

A definição de ágil revela­se um ponto de discussão entre diversos
estudiosos:

“Um dos pontos mais relevantes no processo de aquisição do
investimento é o da forma de contabilização do ágio ou do deságio na
aquisição dos investimentos. Ao se interpretar financeiramente a
aquisição de um investimento, há certa polêmica entre as perspectivas de
muitos contabilistas sobre o ágio. Para uns, ele é o fundo de comércio,
outros o chamam de goodwill, de tempo de amortização, de teste de
recuperabilidade ou dão outras denominações (...) conceituaremos o
valor do ágio ou deságio simplesmente como a diferença entre valor
líquido contábil e o montante negociado na transação.” (COSTA, 2012. P.
61)

Assim, o CPC 15 define ágil por expectativa de rentabilidade futura[2]:

“(...) como um ativo que representa benefícios econômicos futuros
resultantes de outros ativos adquiridos em uma combinação de negócios,
os quais não são individualmente identificados e separadamente
reconhecidos”. (CFC; 2006)

Neste sentido, tem­se que o ágil corresponde ao seguinte: uma empresa
realiza a aquisição de outra empresa ao valor de R$ 2.000,00, mas possui
o patrimônio líquido com valor justo de R$ 1.000,00, o ágil corresponde
a R$ 1.000,00. Assim, a empresa adquirente deverá separar o valor do
ágil do valor do investimento calculado pelo percentual do capital social
aplicado sobre o patrimônio líquido determinado a valor justo da
empresa adquirida.
Esse valor inicial de reconhecimento do ágil sobre expectativa de
rentabilidade futura é fixado com base em um fundamento econômico
que determine a expectativa de resultados projetados em exercícios
futuros. Caso esta contabilização esteja incompleta no período, este valor
deverá ser ajustado no período de mensuração (até um ano) e alinhado
por teste de impairment (valor recuperável de ativos – CPC 01)[3],
retroagindo à data da aquisição.

Para fins contábeis, o CPC 15 impõe alteração relevante acerca do ágio
por expectativa de rentabilidade futura, refutando sua amortização, já
que deverá compor a subconta dos investimentos em coligadas ou
controladas (inclusive controladas em conjunto) até́ a baixa do
investimento por perda do controle, alienação ou ajustes pelo
impairment[4]:

“A partir da adoção de normas contábeis brasileiras convergentes com as
normas internacionais, o ágio por expectativa de rentabilidade futura –
goodwill – não pode mais ser amortizado, devendo simplesmente
permanecer como subconta dos investimentos em coligadas ou
controladas (inclusive controladas em conjunto) até́ a baixa do
investimento por perda do controle ou da influência, como quando da
alienação total ou parcial do investimento, ou ainda pelo reconhecimento
de perdas por impairment. Vale lembrar que, na perspectiva das
demonstrações individuais do investidor, o que está sujeito ao teste de
recuperabilidade é o investimento como um todo (no caso das coligadas e
controladas em conjunto) e não o valor específico do goodwill (apesar de
que, em havendo perdas, a subconta do goodwill é que será
primeiramente baixada). Já no caso de goodwill por investimento em
controlada, ele tambémnão é mais amortizado, mas o teste de
impairment é feito de maneira isolada, sobre ele especificamente. Para
isso consultar o capítulo sobre Recuperabilidade de Ativos. Lembrar que
o goodwill, nos balanços individuais da controladora, também é
apresentado dentro de Investimentos, e não no Ativo Intangível. Afinal, o
goodwill é da investida, da controlada, e não da controladora. Para esta,
trata‐se de um investimento. A subdivisão na sua conta de Investimentos
é tão somente para controle interno”. (CFC, 2006)
O efeito do ágil para fins fiscais é a sua amortização ao longo do tempo,
sendo condicionadas à elaboração e tempestivo protocolo do laudo de
avaliação dos ativos e limitadas à sua fundamentação econômica[5]:

“Segundo o mesmo artigo, a pessoa jurídica que absorver o patrimônio da
outra “poderá́ amortizar o valor do ágio fundamentado por expectativa
de rentabilidade futura nos balanços correspondentes à apuração do
lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à
razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de
apuração’’ (inciso III). (...) Lembre que essa amortização não é permitida
para fins contábeis (o goodwill não é amortizável, mas é sujeito à redução
pelo reconhecimento de perdas por redução do investimento ao seu valor
recuperável, e o ganho por compra vantajosa é reconhecido
imediatamente no resultado).

Para fins fiscais, o “ágio” que tiver sido fundamentado por fundo de
comércio, intangíveis ou outra razão econômica continua não sujeito a
amortização (inciso II), mas ele pode ser baixado como perda no
encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a
inexistência do fundo de comércio ou intangível que lhe deu causa (§ 3o,
II); a não ser e em situações especiais como as discutidas no Capítulo
sobre Consolidação. Mas é bom atentar que essa disposição fiscal não faz
o mínimo sentido, já que não existem essas situações: fundo de comércio,
se entendido como goodwill, tem seu tratamento próprio já discutido, e se
entendido como fundo empresarial, tem seus ativos já computados na
mais ou menos valia; os intangíveis já estão abrangidos na figura da mais
ou menos valia; finalmente, “outra razão econômica” é figura de ficção, já
que só́ há duas razões para pagamento de valor maior do que o
patrimonial contábil: mais‐valia de ativos líquidos ou expectativa de
rentabilidade futura (no caso de pagamento por valor menor: menos valia
de ativos líquidos ou compra vantajosa).”(Martins et al., 2012)

2.2. A amortização do ágil por expectativa de rentabilidade
futura para fins fiscais.
Em um cenário de incentivo à aquisição de empresas em razão de
privatizações, o Governo Federal buscou promover o interesse de
empresas pela aquisição de novos negócios. Assim, surgiu a perspectiva
de criar a possibilidade de deduzir do lucro tributável pelo Imposto de
Renda de Pessoas Jurídicas e Contribuição sobre o Lucro Líquido a
amortização do ágil, com fundamento no art. 20 do Decreto­lei no
1.598/77 combinado com o art. 7º da lei no9.532/97, a seguir transcritos
em sua redação original:

“Art 20 ­ O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada
ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da
aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em:

I ­ valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de
acordo com o disposto no artigo 21; e

II ­ ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de
aquisição do investimento e o valor de que trata o número I.

(...)

§ 2º ­ O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os
seguintes, seu fundamento econômico:

a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior
ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade;

b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em
previsão dos resultados nos exercícios futuros;

c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas.

§ 3º ­ O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do
§ 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará
como comprovante da escrituração”. (Brasil, 1977)
“Art. 7º A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude
de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária
adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do
Decreto­Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977:

(...)

III ­ poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata
a alínea b do § 2º do art. 20 do Decreto­lei nº 1.598, de 1977, nos
balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados
posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta
avos, no máximo, para cada mês do período de apuração;“ (Brasil, 1997)

O instituto do ágio, não obstante sua definição contábil como sendo uma
parcela do custo de aquisição do investimento decorrente de valores
existentes no patrimônio da investida não contabilizados, possui um
conceito próprio trazido pela legislação tributária através do artigo 20 do
Decreto­Lei nº 1.598/77 (reproduzido no artigo 385 do Decreto nº
3.000/99, denominado Regulamento do Imposto de Renda), que o define
como sendo a diferença entre o custo de aquisição de investimento
realizado em sociedade coligada ou controlada[6], avaliado pelo método
da equivalência patrimonial, e o valor do patrimônio líquido contábil da
investida.

Vale destacar que, em que pese o dispositivo mencionar investimentos
em empresas coligadas ou controladas, não há nenhuma restrição, na
legislação do imposto de renda, a que uma pessoa jurídica adquira
participação societária em outra pessoa jurídica com pagamento de ágio
por rentabilidade futura, sendo sua utilização condicionada à norma
tributária.

Conforme mencionado acima, a própria legislação tributária pretérita
definiu um conceito para o ágio, adicionalmente a isso, também
disciplinou o seu tratamento, que, em regra, consiste na demonstração do
ágio com base no desdobramento do custo de aquisição do investimento
(artigo 385 do RIR/99) em:
i) valor de patrimônio líquido na época da aquisição determinado de
acordo com o disposto no artigo 387 do RIR/99, ou seja, com base em
balanço patrimonial ou balancete de verificação levantado na mesma data
do balanço; e

ii) ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de
aquisição do investimento e o valor do patrimônio líquido.

Outro aspecto a se avaliar consiste no fato de que o ágio deve ser
registrado com base no fundamento econômico de sua origem, que,
conforme disposto no § 2º do artigo 385 do RIR/99, pode decorrer de
três fatores:

i) valor de mercado de bens do ativo, superior ou inferior do valor
registrado na contabilidade;

ii) valor da rentabilidade com base na previsão de resultados futuros;

iii) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas.

Com isso, a empresa que adquiriu outra empresa mediante o pagamento
de ágio, deveria segregar o seu custo de aquisição com base no valor do
patrimônio líquido da investida e o ágio conforme seu fundamento
econômico que deve estar devidamente respaldado em laudo de
avaliação.

Importante lembrar que pelas denominadas novas regras contábeis
brasileiras, determinadas pela Lei 11.638/07, baseadas nas normas do
International Financial Reporting Standards ­ IFRS, o ágio deve ser
calculado de forma diferente. Segundo o CPC 15, o excesso do valor pago
pela aquisição em relação ao Patrimônio Líquido da adquirida deverá ser
atribuído inicialmente aos ativos identificáveis adquiridos e passivos
assumidos.

Ademais, segundo o novo regramento contábil, o ágio calculado na forma
acima deverá estar sujeito ao teste de impairment. No entanto, as regras
acima não eram aplicáveis ao cálculo do Imposto de Renda até o advento
da Lei 12.973/14. Desde 2008, nos termos da Lei 11.941/09, vigorava o
Regime Tributário Transitório (RTT) que obrigava o contribuinte a não se
utilizar das novas regras contábeis para o cálculo do IRPJ e CSLL.

Considerando a alteração da legislação fiscal para vir ao encontro das
normas contábeis internacionais referendadas pelo Comitê de
Pronunciamentos Contábeis, a regra prevista no Decreto­lei no 1.598/77
sofreu importante alteração pela lei no 12.973/2014, alinhando o conceito
de goodwill ao disciplinamento normativo do CPC 15, como se segue:

“Art. 20. O contribuinte que avaliar investimento pelo valor de
patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação,
desdobrar o custo de aquisição em:

I ­ valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de
acordo com o disposto no artigo 21; e

II ­ mais ou menos­valia, que corresponde à diferença entre o valor justo
dos ativos líquidos da investida, na proporção da porcentagem da
participação adquirida, e o valor de que trata o inciso I do caput; e

III ­ ágio por rentabilidade futura (goodwill), que corresponde à
diferença entre o custo de aquisição do investimento e o somatório dos
valores de que tratam os incisos I e II do caput.

§ 1o Os valores de que tratam os incisos I a III do caput serão registrados
em subcontas distintas.

§ 3o O valor de que trata o inciso II do caput deverá ser baseado em laudo
elaborado por perito independente que deverá ser protocolado na
Secretaria da Receita Federal do Brasil ou cujo sumário deverá ser
registrado em Cartório de Registro de Títulos e Documentos, até o último
dia útil do 13o (décimo terceiro) mês subsequente ao da aquisição da
participação.”(Brasil, 2014)
Sendo assim, para fins fiscais, antes da edição da lei no12.973/14, as
operações efetivadas até então de amortização de ágio interno poderiam
ser atribuídas à rentabilidade futura sem considerar os ativos
identificáveis e passivos assumidos.

A amortização do ágil deverá ocorrer no prazo, extensão e proporção dos
resultados projetados, ou pela alienação ou perecimento do investimento,
conforme disciplina a Instrução CVM 247/96, alterada pela 285/98,
artigo 14, § 2º, alínea a. Em regra, o ágio é amortizado quando da
realização do investimento através de incorporação, fusão ou cisão.

Neste sentido, é o artigo 386 do RIR/99, in verbis:

Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude
de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária
adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo
anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10):

I ­ deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de
que trata o inciso I do § 2º do artigo anterior, em contrapartida à conta
que registre o bem ou direito que lhe deu causa;

II ­ deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o
inciso III do § 2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo
permanente, não sujeita a amortização;

III ­ poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata
o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à
apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão
ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do
período de apuração;

IV ­ deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que
trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes
à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anos­calendário
subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos,
no mínimo, para cada mês do período de apuração. (Brasil, 1999)
Assim, fica muito claro que a regra mais ampla da redação original do
Decreto­lei no1.598/77 possibilitava uma maior abrangência de ágil para
fins de amortização e redução da tributação.

Utilizando­se do exemplo do item 4.3.1, segue uma comparação entre a
regra anterior (Decreto­lei) e a regra nova (Lei no12.973/14 e CPC 15):

Regra Antiga

Regra nova

Preço de aquisição

R$ 2.000,00

R$ 2.000,00

Patrimônio líquido

R$ 500,00

R$ 500,00

Mais valia dos ativos

R$ 500,00

Goodwill

R$ 1.500,0

R$ 1.000,00
No entanto, essa alteração não é a única veiculada pela Lei no12.973/14
que impactou significativamente na amortização do ágil para fins fiscais.

Muito se discutiu acerca da possibilidade de amortização do goodwill em
caso de empresas do mesmo grupo econômico, as quais incorporavam
empresas relacionadas e se valiam do benefício fiscal acima. Tal embate
repousou na questão da ausência de substrato econômico na operação, ou
seja, a operação apenas ocorria para que se pudesse utilizar a benesse
fiscal descrita no art. 7º da Lei no9.532/97, sem que houvesse qualquer
justificativa econômica na operação a não ser a fruição do benefício fiscal.

O ágio interno, também conhecido como “ágio em si mesmo”, é aquele
que decorre de operações entre empresas do mesmo grupo econômico
(grupo de empresas sob controle comum ou partes relacionadas).

Configura­se, por exemplo, quando uma empresa, depois de passar por
reorganizações societárias passa a amortizar o ágio que foi pago em
virtude de sua própria aquisição. Para melhor ilustrar tal instituto,
apresenta­se típica operação de ágio gerado internamente:

1. Situação que envolve três polos: acionistas A, empresa B e empresa C;

2. Os acionistas A controlam a empresa B e resolvem constituir a empresa

3. Em operação de aumento de capital, os acionistas A subscrevem
participação na empresa C com ações da empresa B, sendo que, em razão
de tal subscrição, houve contabilização de ágio em C.

4. A empresa C é incorporada pela empresa B, operacional, levando o ágio
para a empresa B.

Nesses casos, não existe uma aquisição de empresa estranha ao grupo
econômico, mas sim a geração de ágil “artificial”.
Diversas foram as manifestações fazendárias no sentido de vedar a
fruição do benefício fiscal nessas condições[7], mas tangenciavam em um
difícil argumento em favor dos contribuintes: o Decreto­lei
no1.598/77[8], em nenhum momento, restringiu a fruição do benefício às
empresas que possuíam controle comum.

No entanto, o Pronunciamento Contábil CPC 15 já indicava que a posição
dos contribuintes não era legítima acerca da possibilidade de reconhecer
o goodwill na combinação de negócios sob o mesmo controle, o qual será
melhor analisado no item seguinte.

A fim de pacificar a questão, lei no12.973/14 alterou o Decreto­lei
no1.598/77 no sentido de vedar expressamente a fruição do benefício
entre aquisição de partes dependentes:

“Art. 20. Nos casos de incorporação, fusão ou cisão, o saldo existente na
contabilidade, na data da aquisição da participação societária, referente à
mais­valia de que trata o inciso II do caput do art. 20 do Decreto­Lei no
1.598, de 26 de dezembro de 1977, decorrente da aquisição de
participação societária entre partes não dependentes, poderá ser
considerado como integrante do custo do bem ou direito que lhe deu
causa, para efeito de determinação de ganho ou perda de capital e do
cômputo da depreciação, amortização ou exaustão.

§ 1o Se o bem ou direito que deu causa ao valor de que trata o caput não
houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da
sucessora, esta poderá, para efeitos de apuração do lucro real, deduzir a
referida importância em quotas fixas mensais e no prazo mínimo de 5
(cinco) anos contados da data do evento.

Art. 25. Para fins do disposto nos arts. 20 e 22, consideram­se partes
dependentes quando:

I ­ o adquirente e o alienante são controlados, direta ou
indiretamente, pela mesma parte ou partes;

II ­ existir relação de controle entre o adquirente e o alienante;
III ­ o alienante for sócio, titular, conselheiro ou administrador
da pessoa jurídica adquirente;

IV ­ o alienante for parente ou afim até o terceiro grau, cônjuge
ou companheiro das pessoas relacionadas no inciso III; ou

V ­ em decorrência de outras relações não descritas nos incisos
I a IV, em que fique comprovada a dependência societária.

Parágrafo único. No caso de participação societária adquirida em
estágios, a relação de dependência entre o (s) alienante (s) e o (s)
adquirente (s) de que trata este artigo deve ser verificada no ato da
primeira aquisição, desde que as condições do negócio estejam previstas
no instrumento negocial.

Art. 37. No caso de aquisição de controle de outra empresa na qual se
detinha participação societária anterior, o contribuinte deve observar as
seguintes disposições:

(...)

§ 3o Deverão ser contabilizadas em subcontas distintas:

I ­ a mais ou menos­valia e o ágio por rentabilidade futura (goodwill)
relativos à participação societária anterior, existente antes da aquisição
do controle; e

Art. 38. Na hipótese tratada no art. 37, caso ocorra incorporação, fusão
ou cisão:

(...)

III ­ não poderá ser excluída na apuração do lucro real a variação do ágio
por rentabilidade futura (goodwill) de que trata o inciso II do § 3o do art.
37.
Parágrafo único. Excetuadas as hipóteses previstas nos incisos II e III do
caput, aplica­se ao saldo existente na contabilidade, na data da aquisição
da participação societária, referente a mais ou menos­valia e ao ágio por
rentabilidade futura (goodwill) de que tratam os incisos II e III do caput
do art. 20 do Decreto­Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, o disposto
nos arts. 20 a 22 da presente Lei”. (negrito não presente no original)
(Brasil, 2014)

Considerando o referido benefício fiscal, em uma combinação de negócios
sob o mesmo controle, anterior à lei no12.973/14, surge a questão central
do presente estudo. Como será abaixo indicado, os efeitos da amortização
para fins fiscais também era vedada pelo disciplinamento normativo
vigente.

2.3. O Pronunciamento CPC 15 e o Princípio da Essência sobre
a Forma.

A Lei no9.532/97 define a possibilidade de fruição do benefício fiscal
decorre da possibilidade de incorporação de uma empresa por outra que
foi adquirida com ágil:

“Art. 7º A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude
de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária
adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do
Decreto­Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977:

(...)

III ­ poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata
a alínea b do § 2º do art. 20 do Decreto­lei nº 1.598, de 1977, nos
balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados
posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta
avos, no máximo, para cada mês do período de apuração;“ (grifo não
consta no original) (Brasil, 1997)
O conceito de absorção de uma empresa pela outra empresa deve ser
perseguido para aplicação do dispositivo retro com fundamento nos
conceitos disponíveis aos contribuintes. Nesse sentido, faz­se necessário
entender como é definida a combinação de negócios pela normações
disponíveis antes da lei no12.963/14.

O Pronunciamento Técnico CPC 15, pela definição de combinação de
negócios, apresenta a ideia de troca em que se faz jus o pagamento ou
retribuição para a aquisição do negócio: “Combinação de negócio é uma
operação ou outro evento por meio do qual um adquirente obtém o
controle de um ou mais negócios.”

Para reconhecimento da combinação de negócios, mister se faz identificar
os seguintes requisitos:

“(a) identificação do adquirente; (b) determinação da data de aquisição;
(c) reconhecimento e mensuração dos ativos identificáveis adquiridos,
dos passivos assumidos e das participações societárias de não
controladores na adquirida; e (d) reconhecimento e mensuração do ágio
por expectativa de rentabilidade futura (goodwill) ou do ganho
proveniente de compra vantajosa”. (CFC, 2009)

Deteve­se maior análise, no presente estudo, nos itens c e d acima.
Porém, primeiramente, necessário se faz contextualizar o que vem a ser
negócios para incluir o ágil nesta problemática acima exposta.

A CPC 15 define que a combinação de negócios é a aquisição de controle
de um ou mais negócios mediante o pagamento em dinheiro, assunção de
passivos ou emissão de ações ou contrato independente. Destarte,
determina que a combinação de negócios ocorre apenas na hipótese de
aquisição de um negócio e não de simples ativos.

O CPC 15 determina que o adquirente deve identificar e reconhecer os
ativos identificáveis adquiridos individualmente, incluindo aqueles que
atendam à definição de ativo intangível e o critério para seu
reconhecimento de acordo com o Pronunciamento Técnico CPC 04 –
Ativo Intangível, e os passivos assumidos. O custo do grupo deve ser
alocado individualmente aos ativos identificáveis e aos passivos que o
compõem com base em seus respectivos valores justos na data da
compra. Como fator relevante ao presente estudo, as operações e eventos
desse tipo não geram ágio por expectativa de rentabilidade futura[9].

Para se entender como negócio objeto desta normação, o CPC 15 assim
delimita:

“(...) conjunto integrado de atividades e ativos capaz de ser conduzido e
gerenciado para gerar retorno, na forma de dividendos, redução de custos
ou outros benefícios econômicos, diretamente a seus investidores ou
outros proprietários, membros ou participantes” (CFC, 2009).

Nesse sentido, a definição indicada não limita ao conceito corrente de
empresa, já que não exige a formalização como uma entidade, mas
unidade de negócio capaz de gerar caixa.

Para tanto, não é necessário apenas analisar a mudança de controle
(aquisição), mas também que este negócio seja realizado entre partes
independentes:

“Este Pronunciamento é aplicável às operações ou a outros eventos que
atendam à definição de combinação de negócios. Este Pronunciamento
não se aplica:

(...)

(c) em combinação de entidades ou negócios sob controle comum (os
itens B1 a B4 contêm orientações adicionais)”. (grifo não consta no
original)

Para normatizar a questão, o Apêndice B – Guia de Aplicação do
Pronunciamento bem delimita a questão do controle comum:

“B1. Este Pronunciamento não se aplica a combinação de negócios de
entidades ou negócios sob controle comum. A combinação de negócios
envolvendo entidades ou negócios sob controle comum é uma
combinação de negócios em que todas as entidades ou negócios da
combinação são controlados pela mesma parte ou partes, antes e depois
da combinação de negócios, e esse controle não é transitório.

B2. Um grupo de indivíduos deve ser considerado como controlador de
uma entidade quando, pelo resultado de acordo contratual, eles
coletivamente têm o poder para governar suas políticas financeiras e
operacionais de forma a obter os benefícios de suas atividades. Portanto,
uma combinação de negócios está fora do alcance deste Pronunciamento
quando o mesmo grupo de indivíduos tem, pelo resultado de acordo
contratual, o poder coletivo final para governar as políticas financeiras e
operacionais de cada uma das entidades da combinação de forma a obter
os benefícios de suas atividades, e esse poder coletivo final não é
transitório.

B3. A entidade pode ser controlada por um indivíduo ou grupo de
indivíduos agindo em conjunto sob acordo contratual e esse indivíduo ou
grupo de indivíduos pode não estar obrigado às exigências de divulgação
de demonstrações contábeis nos padrões do CPC. Portanto, nesse caso,
não é necessário que as entidades da combinação sejam incluídas no
mesmo conjunto de demonstrações contábeis consolidadas para uma
combinação de negócios ser considerada como envolvendo entidades sob
controle comum.

B4. A extensão da participação de não controladores em cada entidade da
combinação, antes ou depois da combinação de negócios, não é relevante
para determinar se a combinação envolve entidades sob controle comum.
Da mesma forma, não é relevante para determinar se uma combinação
envolve entidades sob controle comum o fato de uma das entidades da
combinação ser uma controlada e ter sido excluída das demonstrações
contábeis consolidadas.”

Veja que tal comando é repetido em outros pontos do Pronunciamento,
conforme a seguir indicado: “Neste Pronunciamento, o termo abrange
também as fusões que se dão entre partes independentes (inclusive as
conhecidas por true mergers ou merger of equals)”.
Não há dúvida que é elemento vital para a combinação de negócios que as
partes sejam independentes entre si, sendo que o controle desempenhado
pelas partes não imponha as condições negociais para concretização da
operação.

No Manual de Contabilidade Societária de Martins, Gelbcke, Santos e
Iudícibus, 2012, a essência econômica sobre a operação entre grupos
econômicos é levada em conta para que não ocorra distorções, inclusive
na consolidação das demonstrações contábeis:

“Considerando a essência econômica da operação, em verdade, a
mudança na base de avaliação dos ativos e passivos da entidade
combinada só́ se justifica cabalmente quando da alteração do bloco de
controle acionário (alteração do controlador), envolvendo arranjos
negociados entre partes independentes. Tal constatação é facilmente
percebida pela análise de demonstrações contábeis consolidadas.
Incorporar, fundir ou cindir formalmente sociedades cujo controle antes
e depois da operação permanece com a mesma entidade e não promove
alteração nas demonstrações contábeis consolidadas".

Se o controle é o “poder coletivo final para governar as políticas
financeiras e operacionais de cada uma das entidades da combinação de
forma a obter os benefícios de suas atividades”, fica evidente que um
grupo econômico formado por empresas controladas por uma mesma
empresa ou, inclusive, grupo familiar (“indivíduo ou grupo de indivíduos
agindo em conjunto sob acordo contratual”) não estaria contemplada no
arcabouço da combinação de negócios e seus efeitos perante o
reconhecimento do ágil.

A definição de controle é próxima daquela prevista na Lei no 6.404/1976,
como se observa abaixo:

“Art. 243. O relatório anual da administração deve relacionar os
investimentos da companhia em sociedades coligadas e controladas e
mencionar as modificações ocorridas durante o exercício.
§ 1º São coligadas as sociedades quando uma participa, com 10% (dez por
cento) ou mais, do capital da outra, sem controlá­la.

§ 1o São coligadas as sociedades nas quais a investidora tenha influência
significativa.

§ 1o São coligadas as sociedades nas quais a investidora tenha influência
significativa. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009)

§ 2º Considera­se controlada a sociedade na qual a controladora,
diretamente ou através de outras controladas, é titular de direitos de
sócio que lhe assegurem, de modo permanente, preponderância nas
deliberações sociais e o poder de eleger a maioria dos administradores.

(...)

§ 5o É presumida influência significativa quando a investidora for titular
de vinte por cento ou mais do capital votante da investida, sem controlá­
la. (Incluído pela Medida Provisória nº 449, de 2008)

§ 4º Considera­se que há influência significativa quando a investidora
detém ou exerce o poder de participar nas decisões das políticas
financeira ou operacional da investida, sem controlá­la. (Incluído pela Lei
nº 11.941, de 2009)

§ 5o É presumida influência significativa quando a investidora for titular
de 20% (vinte por cento) ou mais do capital votante da investida, sem
controlá­la”. (Brasil, 1976)

Embora não aplicável ao caso, mas possui importante conceito de
controle, o CPC 36 também reputa a influência do controle na seguinte
hipótese: “controla a investida quando está exposto a, ou tem direito
sobre, retornos variáveis decorrentes de seu envolvimento com a
investida e tem a capacidade de afetar esses retornos por meio de seu
poder sobre a investida”.
Após definir que as partes são independentes na operação de aquisição,
bem como a operação seja efetivamente a aquisição de um negócio e o
conceito de combinação de negócios é atendido ao caso concreto, o CPC
15 possibilita o reconhecimento do ágio por expectativa de rentabilidade
futura (goodwill).

Por outro lado, a criação de instrumentos societários para o simples fim
de criar o ágil interno também fere o Princípio da Essência sobre a forma.
Isso porque é expediente de alguns contribuintes a criação de atos
societários com o simples fim de gerar um ágil que efetivamente não
possui substrato econômico, com dispêndio de recursos e previsão de
ganho.

O Princípio da Essência sobre a Forma propõe valorizar a essência de
cada operação ao invés do que está formalizado em contratos e
documentos fiscais.

Não é outro senão o entendimento de Martins, Gelbcke, Santos e
Iudícibus no “Manual de Contabilidade Societária”, os quais defendem
que o profissional contábil a análise da situação econômica efetiva e
busca pela demonstração fidedigna da operação, não se restringindo à
sua formalização:

“São baseadas na Prevalência da Essência sobre a Forma: isso significa
que, antes de qualquer procedimento, o profissional que contabiliza, bem
como o que audita, devem, antes de mais nada, conhecer muito bem a
operação a ser contabilizada e as circunstâncias que a cercam. Assim, não
basta simplesmente contabilizar o que está́ escrito. É necessário ter
certeza de que o documento formal represente, de fato, a essência
econômica dos fatos sendo registrados. Assim, se a empresa está
vendendo um imóvel para alguém, comprometendo‐se a alugá‐lo e
recomprá‐lo daqui a quatro anos, quando o empréstimo estiver pago, é
necessário analisar e verificar se, ao invés de uma venda, um contrato de
aluguel e uma recompra, o que está́ ocorrendo, na verdade, não é uma
operação de empréstimo em que o imóvel esteja sendo dado como
garantia. Com isso, o registro contábil deverá seguir a essência, e não a
forma, se esta não representar bem a realidade da operação. No Brasil
tínhamos, praticamente, antes dessa mudança legislativa, uma única
situação em que isso era de fato praticado. (...) A consolidação de
balanços é também uma forma de prevalência da essência sobre a forma,
provavelmente a experiência mais antiga da Contabilidade: juntam‐se os
balanços e produz‐se uma informação como se as várias entidades,
controladora e controladas, fossem uma só́; representa‐se a entidade
econômica, e não a entidade jurídica. E é tão relevante essa informação (a
consolidada) que somente ela é, basicamente, a utilizada no mercado
financeiro mundial hoje em dia. No caso dos norte‐americanos, é a única
informação disponibilizada publicamente. (...) Esse conceito fundamental
tem, é claro, seus problemas, porque exige do profissional conhecimentos
de gestão, de economia, de direito, de negócios em geral, da empresa, das
transações que ela pratica, da terminologia envolvida etc. Por isso precisa
ele estar sempre atualizado e cercando‐se de cuida‐ dos para obter todo o
conhecimento necessário. E exige dele também julgamento, bom senso, e
coragem de representar a realidade, o que é sua obrigação mais
importante, por sinal. Essência sobre a forma não significa arbitrariedade
a qualquer gosto, disponibilidade para fazer o que se acha deva ser feito
etc. É preciso muito cautela, julgamento e bom senso, mas também é
preciso que se registre, e bem claramente, todas as razões pelas quais
chegou‐se à conclusão de que a essência não está́ bem representada
formalmente”.

Portanto, se a operação não está representada fidedignamente, o
interprete daquele dado não poderá estar adstrito ao documento
societário ou laudo de avaliação para registrar o ágil sobre rentabilidade
futura.

O que é mister ao reconhecimento do fato perante as demonstrações
financeiras é relativizar a forma, como, por exemplo, os efeitos da
incorporação de pessoa jurídica que já possuiu mesmo controle
societário, a fim de se buscar a essência da operação (inexistência de
fundamento econômico que demonstre a regularidade do ágil sobre
rentabilidade futura).

Ademais, como será visto abaixo, a utilização de “empresa veículos” e
“incorporações sem justificativa econômica ou negocial” não podem ser
analisadas apenas pela forma de suas operações, mas sim se efetivamente
atendem ao disciplinamento normativo vigente à época da operação para
fins de atendimento do benefício fiscal.

Deveras, numa primeira análise, é possível sustentar que há possibilidade
de aproveitamento do ágio interno em razão da incorporação apenas com
fundamento na legislação fiscal, mas todo o arcabouço normativo do CPC
15 e o princípio em referência vedam tal interpretação.

Assim, a Receita Federal do Brasil, ao perceber que muitos contribuintes
começaram a se valer de operações societárias sem justificativa
econômica visando exclusivamente economia tributária através da
geração de ágio, começou a ser mais rigorosa em suas fiscalizações,
glosando a despesa de ágio sobre diversos argumentos.

2.4. O entendimento do Conselho Administrativo de Recursos
Fiscais sobre o tema.

O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais ­ CARF[10] não tem sido
unânime em seus julgados sobre o assunto, ora reconhecendo os
argumentos dos agentes fiscais da Receita Federal, ora os argumentos dos
Contribuintes.

A legislação tributária brasileira vigente à época dos fatos não veda a
dedutibilidade de despesas com amortização de ágio interno. No entanto,
as autoridades fiscais não admitem esse tipo de operação, negando­lhe os
efeitos fiscais (a dedutibilidade dos valores correspondentes à
amortização do ágio fundamentado em rentabilidade futura).

A questão da possibilidade de dedutibilidade de despesas de amortização
de ágio criado internamente entre empresas do mesmo grupo econômico
foi analisada em julgamento do CARF, do ano de 2012 (Processo
11065.002149/2009­31).

Na oportunidade, o colegiado entendeu ser indevida a dedutibilidade de
despesas com amortização de ágio interno decorrente de operação de
incorporação entre empresas do mesmo grupo econômico. O tribunal
administrativo concluiu que a “criação de ágio por meio de reorganização
societária entre empresas do mesmo grupo econômico, pautada em fortes
indícios, além de prova direta da ocorrência de simulação revela­se
artificial e não gera direito à dedução das respectivas despesas de
amortização”.

No caso, a fiscalização desconsiderou as operações societárias realizadas
pelo contribuinte, alegando tratar­se de operações simuladas e realizadas
com o único intuito de reduzir os valores de IRPJ e CSLL a pagar.

Segundo este julgado, a vontade real das duas empresas envolvidas na
operação era a fusão, que poderia ter sido feita por meio de um único ato
societário, mas que, ao invés disso, por vislumbrar a possibilidade de
“gerar” internamente ágio e, posteriormente, utilizar a amortização deste
“ágio” para reduzir o seu resultado fiscal, a forma jurídica utilizada foi
outra, criando­se diversos eventos societários distintos. Nesse sentido:

“Antes de iniciar sua atividade operacional, a CAIMI & LIASON
“incorpora” a CAIMI BRASIL e a LIAISON, passando a desenvolver as
atividades que anteriormente eram desenvolvidas por estas, evidenciado
que o resultado pretendido sempre foi a fusão destas duas empresas. (...)
Esta foi, portanto, a vontade aparente, materializada por intermédio dos
eventos societários acima explicitados. Economicamente existiu uma
única operação: a fusão das duas empresas. Mas, por vislumbrar
vantagem fiscal, foram utilizadas formas jurídicas desconexas da
realidade econômica com o propósito de alcançar a vantagem fiscal
pretendida: a amortização do “ágio”. (CARF, 2009)

Em seu voto, a conselheira relatora destacou como fundamento o item 50
da Orientação técnica CPC nº 02/2008 do Comitê de Pronunciamentos
Contábeis (CPC) segundo o qual:

(...) só pode ser reconhecido o ativo intangível ágio por expectativa de
rentabilidade futura se adquirido de terceiros, nunca o gerado pela
própria entidade (ou mesmo conjunto de empresas sob controle comum).
E o adquirido de terceiros só pode ser reconhecido, no Brasil, pelo custo,
vedada completamente sua reavaliação.(CARF, 2009)
E, ainda, ressaltou:

“a necessidade de uma aquisição onerosa de terceiros para formação do
ágio deve ser considerada no exame das operações de reorganização
societária, para fins de incidência tributária, já que tais operações podem
ser utilizadas como instrumento de planejamento tributário, desde que
demonstrem os fundamentos econômicos da operação (benefícios
operacionais), o que não ocorre quando se adquire de partes interligadas.
Por lhe faltar fundamentação econômica, a reestruturação entre
empresas do mesmo grupo econômico, engendrada com o objetivo de
reduzir a tributação, não pode ser oponível ao Fisco, como é o caso dos
autos”.(CARF, 2009)

De forma diferente decidiu o tribunal administrativo no processo
11080.723702/2010­19 (Caso Gerdau) que autorizou a dedutibilidade de
despesas com amortização de ágio gerado internamente.

No caso, a fiscalização considerou indedutíveis os valores
correspondentes a ágio decorrente de operações de reorganização
societária (subscrição de capital, incorporação e cisão) entre empresas do
mesmo grupo econômico. Dentre os fundamentos para o posicionamento
adotado pela fiscalização destacam­se:

a) O ágio foi questionado no sentido de que somente pode ser aproveitado
para fins fiscais se decorrer de operações entre pessoas independentes e
em casos em que há efetivo pagamento pela aquisição do investimento.
Nesse sentido argumentou a fiscalização:

“Para a caracterização do ágio é necessário que haja dispêndio para obter
algo de terceiros. A operação surge da vontade das partes independentes,
que, no interesse comum, estabelecem um preço que reflita o valor real
do investimento, baseado em fundamentos econômicos que demonstrem
não estar plenamente representado na contabilidade da investida o seu
valor justo. (...) Na geração do ágio amortizado pela fiscalizada não há
partes independentes, mas somente pessoas jurídicas pertencentes ao
mesmo grupo econômico, sob controle comum. A operação não redundou
em ingresso de novos recursos, porque não teve origem em pagamento
algum efetuado pela expectativa de resultado futuro.” (CARF, 2010)

b) Argumentou­se, ainda, que, do ponto de vista contábil, o ágio somente
poderia existir na seguinte hipótese:

“(...) quando estiverem envolvidas partes independentes não
relacionadas, ou seja, quando o ágio for resultado de um processo de
barganha negocial não viciado, que concorra para a formação de um
preço justo dos ativos líquidos em apreço. (...) à luz da teoria da
contabilidade é inadmissível o surgimento de ágio em uma operação
realizada dentro de um mesmo grupo econômico”.(CARF, 2010)

c) Utilizou­se como fundamento o Ofício Circular CVM SNC/SEP nº
01/2007 segundo o qual é inadmissível o reconhecimento de ágio
interno:

“Em nosso entendimento, ainda que essas operações atendam
integralmente os requisitos societários, do ponto de vista econômico­
contábil é preciso esclarecer que o ágio surge, única e exclusivamente,
quando o preço (custo) pago pela aquisição ou subscrição de um
investimento a ser avaliado pelo método da equivalência patrimonial,
supera o valor patrimonial desse investimento. E mais, preço ou custo de
aquisição somente surge quando há dispêndio para se obter algo de
terceiros. Assim, não há, do ponto de vista econômico, geração de riqueza
decorrente de transação consigo mesmo. Qualquer argumento que não se
fundamente nessas assertivas econômicas configura sofisma formal, e
portanto, inadmissível. Não é concebível, econômica e contabilmente, o
reconhecimento de acréscimo de riqueza em decorrência de uma
transação dos acionistas com eles próprios”.(CARF, 2010)

Apesar dos argumentos da fiscalização, o CARF decidiu que as
determinações existentes na esfera contábil quanto ao ágio interno não se
aplicam para se determinar seus efeitos fiscais. Nesse sentido:
“Como visto, é a legislação tributária que define os efeitos tributários. No
caso do ágio, é a legislação tributária (e não orientações de cunho
contábil) que define os efeitos da subscrição e integralização que A faz em
C com as ações que tem de B, que do ponto de vista de C significa a
aquisição das ações de"B. (...) Vale destacar que não existe nenhuma
restrição na legislação fiscal operações dentro do grupo, de sorte que a
alegação de que operações dentro do grupo não tem fundamento
econômico viola a lei.”(CARF, 2010)

Segue, abaixo, a ementa do processo analisado:

“ÁGIO. REQUISITOS DO ÁGIO. O art. 20 do Decreto­Lei nº 1.598, de
1997, retratado no art. 385 do RIR/1999, estabelece a definição de ágio e
os requisitos do ágio, para fins fiscais. O ágio é a diferença entre o custo
de aquisição do investimento e o valor patrimonial das ações adquiridas.
Os requisitos são a aquisição de participação societária e o fundamento
econômico do valor de aquisição. Fundamento econômico do ágio é a
razão de ser da mais valia sobre o valor patrimonial. A legislação fiscal
prevê as formas como este fundamento econômico pode ser expresso
(valor de mercado, rentabilidade futura, e outras razões) e como deve ser
determinado e documentado. ÁGIO INTERNO. A circunstancia da
operação ser praticada por empresas do mesmo grupo econômico não
descaracteriza o ágio, cujos efeitos fiscais decorrem da legislação fiscal. A
distinção entre ágio surgido em operação entre empresas do grupo
(denominado de ágio interno) e aquele surgido em operações entre
empresas sem vinculo, não é relevante para fins fiscais. ÁGIO INTERNO.
INCORPORAÇÃO REVERSA. AMORTIZAÇÃO. Para fins fiscais, o ágio
decorrente de operações com empresas do mesmo grupo (dito ágio
interno), não difere em nada do ágio que surge em operações entre
empresas sem vinculo. Ocorrendo a incorporação reversa, o ágio poderá
ser amortizado nos termos previstos nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de
1997. (...) ART. 109 CTN. ÁGIO. ÁGIO INTERNO. É a legislação
tributária que define os efeitos fiscais. As distinções de natureza contábil
(feitas apenas para fins contábeis) não produzem efeitos fiscais. O fato de
não ser considerado adequada a contabilização de ágio, surgido em
operação com empresas do mesmo grupo, não afeta o registro do ágio
para fins fiscais. DIREITO TRIBUTÁRIO. ABUSO DE DIREITO.
LANÇAMENTO. Não há base no sistema jurídico brasileiro para o Fisco
afastar a incidência legal, sob a alegação de entender estar havendo abuso
de direito. O conceito de abuso de direito é louvável e aplicado pela
Justiça para solução de alguns litígios. Não existe previsão do Fisco
utilizar tal conceito para efetuar lançamentos de oficio, ao menos até os
dias atuais. O lançamento é vinculado a lei, que não pode ser afastada sob
alegações subjetivas de abuso de direito. PLANEJAMENTO
TRIBUTÁRIO. ELISÃO. EVASÃO. Em direito tributário não existe o
menor problema em a pessoa agir para reduzir sua carga tributária, desde
que atue por meios lícitos (elisão). A grande infração em tributação é agir
intencionalmente para esconder do credor os fatos tributáveis
(sonegação). ELISÃO. Desde que o contribuinte atue conforme a lei, ele
pode fazer seu planejamento tributário para reduzir sua carga tributária.
O fato de sua conduta ser intencional (artificial), não traz qualquer vicio.
Estranho seria supor que as pessoas só pudessem buscar economia
tributária licita se agissem de modo casual, ou que o efeito tributário
fosse acidental. SEGURANÇA JURÍDICA. A previsibilidade da tributação
é um dos seus aspectos fundamentais.”(CARF, 2010)

No entanto, referido posicionamento gerou muita polêmica entre
contadores e demais profissionais da área tributária, de tal sorte que
ocorreu uma investigação criminal pela Polícia Federal, denominada
Operação Zelotes.

Após a paralisação do CARF em razão da operação citada, este órgão já
julgou um caso análogo sobre ágio interno. Para a maioria dos
conselheiros, é irregular aproveitar o ágio advindo de operações entre
empresas do mesmo grupo econômico.

O processo 16643.000079/2009­90 foi analisado pela última instância
do CARF, no dia 20 de fevereiro de 2016, acerca da possibilidade de
dedução da despesa de amortização de ágil pela Johnson Controls do
Brasil Automotive. O relator considerou que o ágio, para ser aproveitado,
“deve se dar entre partes que seriam partes não relacionadas
anteriormente à operação de aquisição”[11].
Segue parte do acórdão com destaque na parte em que reputa necessário
que a operação deve se dar entre partes que seriam partes não
relacionadas anteriormente à operação de aquisição, nos termos da Lei
no9.532/97:

“No presente caso, a acusação fiscal gira, basicamente, em torno da
questão relativa aos encargos de amortização de ágio por terem sido
gerados internamente ao grupo econômico. Ou seja, a glosa foi efetuada
por ter sido considerado que a transação se deu entre empresas
pertencentes ao mesmo grupo econômico e que não houve efetivo
dispêndio financeiro, inexistindo propósito negocial e efetivo substrato
econômico. (...) Por outro lado, não se pode considerar que os requisitos
autorizadores da amortização do ágio na aquisição de participação
societária, quais sejam, o propósito negocial — compreendido como a
motivação para adquirir um investimento por valor superior ao custo
original —, e o substrato econômico — entendido como decorrente da
aquisição de negócio comutativo entre partes independentes, com
dispêndio de recursos e previsão de ganho —, além do desembolso
financeiro, possam ser buscados em negócio jurídico celebrado por
pessoas jurídicas diversas daquela que efetivamente procedeu à
amortização do ágio. (...) Adicionalmente, cumpre destacar, mas
seguindo outra linha argumentativa, que, porém, desagua na mesma
conclusão, é que o alegado ágio (construído internamente, pois quando
surge em 18/12/2003 a Hoover já controlava a JCAE e a JCBA) é
indedutível, pois a absorção patrimonial requerida pela Lei (no caso, uma
incorporação da JCAE pela JCBA), deve se dar entre partes que seriam
partes não relacionadas anteriormente à operação de aquisição (nos
termos da Lei n. 9532/1997, art. 7º caput: “A pessoa jurídica que absorver
patrimônio de outra...”). Porém, a aquisição foi consubstanciada no
aumento do capital da JCBA, mediante subscrição e integralização pela
controladora comum HOOVER das cotas da JCAE; assim, não existe no
presente caso a possibilidade da confusão (por absorção) patrimonial
requerida pela lei, pois investidora e investida já faziam parte de uma
mesma unidade econômica antes das operações que originaram o suposto
ágio (ágio de si mesmo, por “aquisição” de participação de si mesmo —,
pois nesta fase da operação não há outra pessoa jurídica envolvida, no
sentido que lhe empresta a Lei, pois ninguém adquire algo de si mesmo)
— portanto, a previsão legal que permite a aproveitamento de ágio não se
aperfeiçoou. Assim, tem­se que o suposto ágio apurado — seja no
exterior, seja no Brasil, —, não atendem às prescrições legais e, por
conseguinte, não pode ser objeto de amortização dedutível.”(CARF, 2016)

Em outra oportunidade, o CARF julgou caso que envolvia outra figura
analisada com frequência pelo tribunal administrativo em situações
envolvendo ágio interno: a existência de empresas “veículo” (Processo nº
16561.000027/2007­ 61).

As empresas “veículo” são aquelas criadas ou utilizadas, com o único
fundamento de gerar e transferir ágio internamente. Geralmente são
configuradas pelo seu curto prazo de duração, pela ausência de
funcionários e de atividades operacionais e pela ausência de propósito
negocial.

No julgado mencionado, a fiscalização glosou a amortização de ágio
efetuada pela empresa fiscalizada obtido em operação de transferência
total de ações da fiscalizada com geração de ágio para terceira empresa
que deteve seu controle por apenas cinco dias, quando foi posteriormente
cindida.

Nessa operação, o controle da fiscaliza retornou aos proprietários
originais. Dentre os argumentos utilizados pela fiscalização para a glosa
da amortização do ágio destaca­se que a terceira empresa foi utilizada
como “peão” para gerar o ágio e posteriormente transferi­lo:

“A Magenta foi a empresa usada como peão nas operações efetuadas
pelos sócios da Ache, tendo em vista a necessidade da transferência das
ações dos três sócios para uma outra empresa para que o ágio fosse
gerado e assim dar sequencia ao planejamento tributário pretendido pela
empresa. Os fatos corroboram a conclusão, pois a parte cindida da
empresa Magenta corresponde exatamente ao lançamento de reavaliação
do investimento Ache.”(CARF, 2014)

Destacam­se trechos do voto:
“O planejamento tributário engendrado pela Recorrente, que ao menos
no que tange aos seus efeitos fiscais revela o lado perverso das práticas
adotadas sob esse manto, representou, em síntese, a criação de uma
despesa que tem por base a própria mais valia do seu patrimônio, isto é, a
contribuinte, a partir de uma avaliação encomendada por ela própria, fez
refletir no seu ativo os resultados de uma suposta rentabilidade futura e,
por meio de uma reorganização societária, sem despender um único
centavo, transformou essa mais valia em uma despesa. Como salientado
pela autoridade fiscal, o ágio objeto de amortização por parte da
Recorrente, na forma como foi criado, representa a sua própria
expectativa de lucro, nascida em decorrência da avaliação solicitada à
empresa ERNST & YOUNG. O que salta aos olhos é que, como bem
ressaltou a autoridade fiscal, a intenção da Recorrente foi, paralelamente
aos interesses estritamente societários, forjar a existência de um ágio
para, a partir da consequente redução da incidência tributária, propiciar
ganhos para os seus acionistas.” (CARF, 2014)

Por outro lado, outra exigência da lei que trata da dedutibilidade fiscal é a
exigência de um Laudo de Avaliação deve ser observada, sendo seus
requisitos: data da elaboração do laudo, não podendo ser posterior ao
pagamento do ágio, identificação de relatórios internos de avaliação e
assinatura dos laudos por empresa reconhecida.

No entanto, o questionamento mais importante com relação ao Laudo,
assim como com relação ao fundamento econômico do ágio, foi analisado
em um Julgamento do CARF de 2010 (Processo nº 10882.001031/2004­
95). A fiscalização questionou fortemente o Laudo de Avaliação
principalmente quanto aos seguintes itens:

a) Questionou o critério de EBTIDA[12] para determinação do valor da
Empresa adquirida, afirmando que:

“(...) trata­se de uma forma de medir desempenho da empresa em termos
de fluxo de caixa e de auxiliar, de forma prática, no processo de avaliar a
empresa como um todo, olhando basicamente a capacidade de gerações
de recursos dos ativos da entidade. Ou seja, não se trata de uma
ferramenta destinada a avaliar a rentabilidade da empresa nos moldes da
legislação fiscal e societária.” Acórdão nº 140200.342, 4ª Câmara 2ª
Turma Ordinária, 15/12/2010, Processo nº 10882.001031/200495,
Recurso nº 146.122 De Ofício e Voluntário;(CARF, 2010)

b) Registra a fiscalização que para o fim de determinação da origem do
ágio existem, no caso, outros fundamentos que não a expectativa de
lucro. Nesse sentido, o Acórdão assim foi relatado:

“(...) a fiscalização não discute a não existência dos valores pagos a maior
quando da aquisição, mas sim, que os mesmos não se devem a
expectativa de lucros futuros e sim a uma riqueza existente à margem da
gráfica do Balanço Patrimonial. Para tal situação o ordenamento
consagra a regra especial alínea c do § 2º do art. 20 do DL 1598/77 –
fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas.” (CARF,
2010)

Assim, a fiscalização considerou que o ágio seria justificado pela
existência de fundos de comércio e intangíveis subavaliados, lembrando
que tal fundamento não permite a dedutibilidade para fins fiscais;

c) O ágio também foi questionado no sentido de que o mesmo só poderia
ser aproveitado a medida que o lucro esperado fosse sendo auferido.
Entendeu a fiscalização:

“(...) a contribuinte não estaria apta a fruir da autorização legal prevista
no inciso III do art. 7º da Lei 9.532/97, porque não teriam ocorrido os
resultados positivos.” Uma vez que os resultados não teriam sido
confirmados, “a fiscalização reportou se à Instrução CVM 247/96,
alterada pela 285/98, que em seu art. 14, § 2º, alínea a, prevê que o ágio
ou deságio decorrente de expectativa de resultado futuro deverá ser
amortizado no prazo, extensão e proporção dos resultados projetados, ou
pela baixa por alienação ou perecimento do investimento, devendo os
resultados projetados serem objeto de verificação anual, a fim de que
sejam revisados os critérios utilizados para amortização ou registrada a
baixa integral do ágio.” (CARF, 2010)
Lembrando que a redação da IN CVM 247/967 não fala em realização do
lucro, mas sim que o ágio decorrente da rentabilidade futura deve ser
amortizado no prazo e na extensão das projeções que o determinaram.

A despeito das argumentações da fiscalização, o CARF afirma que não há
“legislação fiscal que determine a metodologia de avaliação a ser adotada
e os requisitos que devem ser atendidos”, e acaba determinando que
“deve ser considerada improcedente a glosa da amortização do ágio[13]”.

Além do mais, em relação à forma de amortização do ágio o Acórdão foi
categórico no sentido de que não existe na legislação fiscal qualquer
correlação entre a amortização do ágio e a efetiva apuração dos lucros.
Segue, abaixo, parte da Ementa do referido Acórdão[14]:

“LUCRO REAL. GLOSA DE AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. CONDIÇÃO DE
EFETIVIDADE DO LUCRO. A legislação fiscal editada no contexto de
incentivo às privatizações e que permaneceu em vigor nos períodos objeto
da autuação não condicionou a dedutibilidade da amortização do ágio à
efetiva apuração de lucro, e nem estabeleceu prazo para a geração de
lucros. A Instrução CVM 247/96 alterada pela 285/98 não pode ser
aplicada para efeitos fiscais. “(CARF, 2010)

Desta forma, analisando a Jurisprudência Administrativa acima
mencionada, pode­se chegar as seguintes conclusões:

a) Não há formato do Laudo exigido pela legislação fiscal, sendo assim,
ele deve ter as devidas formalidades (data, assinatura, etc) e ser
consistente com os métodos utilizados pela ciência econômica na
avaliação de empresas;

b) A dedutibilidade do ágio não está condicionada à efetiva apuração do
lucro projetado no Laudo; da mesma forma, a amortização do ágio não
está vinculada ao prazo e extensão estipulado nos laudos;

c) O fundamento do ágio (rentabilidade futura) deve ser aquele apontado
pelo Laudo.
Em relação a toda argumentação relacionada à ausência de fundamento
da rentabilidade, ágio interno e ausência de propósito negocial não
devem prosperar para fins de dedutibilidade da amortização do ágil,
inclusive conforme indicado pelos julgamentos do CARF.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS.

Ao interprete da norma é mister investigar diversos aspectos das questões
postas em análise para amplo entendimento acerca dos reflexos fiscais de
conceitos contábeis. Nesse sentido, a convergência das normas contábeis
internacionais possibilitou a normatização de diversas questões e tornou­
se importante fonte interpretativa para diversos debates na área fiscal,
em especial sobre tributos diretos.

Assim, dentre os diversos pontos enfrentados atualmente como sensíveis
entre a dualidade entre os conceitos tributários e contábeis, o presente
trabalho buscou enfrentar a problemática acerca da possibilidade de
amortização fiscal do ágio por empresas que realizaram aquisições de
negócios no Brasil.

Em linhas gerais, dentre os aspectos relevantes observados na área
estagiada foram a possibilidade de analisar criticamente a evolução dos
conceitos fiscais em consonância com as normas contábeis
internacionais, incrementando os conceitos vigentes com as novas formas
de negócio.

Como sabido, os Pronunciamentos contábeis possuem amplos comandos
normativos e princípios que possibilitam a tutela de situações que não
precisam estar exaustivamente descritas em lei. Isso porque as normas
tributárias acabam por regular regras determinadas (ex. Deduzir ágil),
mas acabam por não terem como esgotar toda a possibilidade de atos
negociais (ex. Empresa veículo ou ágil interno).

Nesse sentido, mesmo que não tenham aplicação direta sobre as normas
contábeis, é tarefa do interprete emprestar elementos nas normas
contábeis e seus princípios para formatar juízo de valor sobre seus efeitos
fiscais.
Reportando ao ponto central da problemática em tela, pode­se observar
que o ágil interno, com fundamento sobre rentabilidade futura, não está
em consonância com o Pronunciamento CPC 15 e o Princípio da Essência
sobre a Forma, bem como o art. 7º da Lei no 9.532/97 deve ser
interpretado de forma a exigir que a benesse fiscal seja fruída apenas
quando exista partes não interdependentes.

Assim, a utilização de “empresa veículos” e “incorporações sem
justificativa econômica ou negocial” são contrárias ao disciplinamento
normativo vigente à época da operação para fins de atendimento do
benefício fiscal.

Como não há como opinar que não existe o risco de ser lavrado autos de
infração em relação ao aproveitamento do ágil interno, a empresa será
aconselhada a tomar a decisão em suspender a amortização do goodwill
para fins fiscais.

Por outro lado, deverá ser aconselhada a realizar ajustes em suas
obrigações acessórias nos anos que realizou a dedução ilegítima e efetuar
o pagamento do Imposto de Renda de Pessoa Jurídica e Contribuição
sobre o Lucro Líquido eventualmente não recolhido em razão da dedução
da despesa ou, ainda, realizar seu parcelamento, nos termos da lei
no10.522/02.

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Lei no 12.973/14. Palácio do Planalto.
http://www.planalto.gov.br /ccivil _03/_ato2011­
2014/2014/Lei/L12973. Htm, acesso em 16 de abril de 2016.

BRASIL. Decreto no 3.000/99. Palácio do Planalto.
http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/decreto/d3000. Htm, acesso em
16 de abril de 2016.

BRASIL. Lei no 6.404/76. Palácio do Planalto.
http://www.planalto.gov.br /ccivil _03/leis/L6404compilada. Htm,
acesso em 16 de abril de 2016.
BRASIL. Decreto­lei no1.598/77. Palácio do Planalto.
http://www.planalto.gov.br/

ccivil_03/decreto­lei/Del1598. Htm, acesso em 16 de abril de 2016.

BRASIL. Lei no9.532/97. Palácio do Planalto.
http://www.planalto.gov.br/ccivil

_03/leis/L9532. Htm, acesso em 16 de abril de 2016.

CARF. Processo 11065.002149/2009­31.
http://carf.fazenda.gov.br/sincon/
public/pages/ConsultarJurisprudencia/listaJurisprudencia. Jsf. Decisao
publicada em 12/04/2012. Acesso em 16 de abril de 2016.

CARF. Processo 11080.723702/2010­19.
http://carf.fazenda.gov.br/sincon/
public/pages/ConsultarJurisprudencia/listaJurisprudencia. Jsf. Decisao
publicada em 22/05/2012. Acesso em 16 de abril de 2016.

CARF. Processo 16643.000079/2009­90.
http://carf.fazenda.gov.br/sincon/
public/pages/ConsultarJurisprudencia/listaJurisprudencia. Jsf. Decisao
publicada em 20/01/2016. Acesso em 16 de abril de 2016.

CARF. Processo 16561.000027/2007­61.
http://carf.fazenda.gov.br/sincon/
public/pages/ConsultarJurisprudencia/listaJurisprudencia. Jsf. Decisao
publicada em 11/06/2014. Acesso em 16 de abril de 2016.

CARF. Processo 10882.001031/2004­95.
http://carf.fazenda.gov.br/sincon/
public/pages/ConsultarJurisprudencia/listaJurisprudencia. Jsf. Decisao
publicada em 15/12/2010. Acesso em 16 de abril de 2016.
CFC. Pronunciamento Contábil CPC 15 (R1). http://www.cpc.org.br/CPC
/Documentos­Emitidos/Pronunciamentos/Pronunciamento? Id=46.
Acesso em 16 de abril de 2016.

CFC. Pronunciamento Contábil CPC 01. http://static.cpc.mediagroup.
Com. Br/Documentos/27_CPC_01_R1_rev%2008. Pdf. Acesso em 16 de
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CFC. Orientação técnica CPC nº 02/2008. http://static.cpc.mediagroup.
Com. Br/Documentos/132_OCPC%2002_090209. Pdf. Acesso em 16 de
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COSTA, Rosenei Novochadlo da. Contabilidade Avançada: uma
abordagem direta e atualizada. Curitiba:2012. Editora Intersaberes.

GELBCKE, SANTOS E IUDÍCIBUS, Manual de Contabilidade Societária
de Martins, 2012.

[1] Parte­se do pressuposto que ágil sobre rentabilidade futura e goodwill
são sinônimos. Ao longo do trabalho, será objeto de definição o ágil, ágil
interno e demais conceitos indicados no item 4.1.

[2]Dentre os objetivos do Pronunciamento CPC 15 é estabelecer
princípios e exigências da forma como o adquirente irá reconhecer e
mensurar o ágio por expectativa de rentabilidade futura (goodwill
adquirido) advindo da combinação de negócios.

[3] Trata­se da redução do valor recuperável de um bem ativo. As
empresasdevem avaliar, periodicamente, os ativos que geram resultados
antes de contabilizá­los no balanço e ajustá­los a valor de sua realização,
caso este seja inferior ao valor contábil.

[4]Manual de Contabilidade Societária ­ Martins, Gelbcke, Santos e
Iudícibus. 2012.