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O Poço

da
Morte

Mário Rui Carneiro


O Poço Da Morte
Índice Geral:

0 – Introdução
0.1 – Osório e Bartolomeu, a grande dupla!...
I – Como, quando e onde tudo começou…
II – O piquenique
III – A tempestade
IV – Memórias…
V – O assalto
VI – O dono da “Fica-lhe Bem!”
VII – Sábado 14
VIII – O aniversário de Osório
IX – Os pais de Osório
X – O jardineiro
XI – Os M. D. P. D. M.
XII – A entrada secreta
XIII – A Vingança

0- Introdução
Por entre aqueles preenchidos arbustos e aquelas árvores
gigantescas da floresta, havia um poço. Nunca alguém que fosse
visto a ir ao poço era também visto a voltar. Por esse motivo, os
aldeãos puseram-lhe o nome de “O Poço Da Morte”.

0.1. Osório e Bartolomeu, uma grande dupla!...

Osório era um rapaz de 11 anos. Este tinha uma vida


preenchidíssima: tinha 10 horas diárias de aulas; a sua tia (que
ficara com ele, pois segundo algumas informações, os pais de
Osório morreram num tiroteio pela disputa de um peru muito
tenro) inscrevera-o em várias actividades, o que ocupava mais 2
horas diárias da sua vida. Apenas sobrava 1 hora e meia para
jantar e fazer os trabalhos de casa, antes de ir para a cama.
Mas nem por isso Osório era infeliz. Ele tinha alguém com
quem podia partilhar as suas brincadeiras: Bartolomeu, o seu
melhor amigo. Juntos, tiveram as mais variadas aventuras, desde
fugir do Sr. Rebeldino, o padeiro da aldeia, por roubarem pão, até
falsificar bilhetes de identidade só para ir a Espanha num instante
comprar guloseimas.
Apesar de já terem experimentado tudo (ou quase), a sua
maior aventura estaria por vir. E é desta história verídica que este
livro se trata.

I- Como, quando e onde tudo começou…Porquê, também.


Tudo começou em 1997, num dia chuvoso de Inverno, onde
todos os alunos ficaram em casa devido ao nevão da noite
anterior.
Eram dez da manhã. Osório estava ainda a desfrutar do seu
sono quando alguém bate à porta. Assim que a tia Valíqua abre a
porta, Bartolomeu salta para o quarto do seu amigo e,
consequentemente, para cima dele, fazendo-lhe um questionário:
-Vais-te levantar? Não queres fazer alguma coisa? Podíamos
ir roubar pão. Vens? Porque é que não respondes? Vamos fazer
algo diferente?
-Fogo meu, estava eu a sonhar com a Arlinda e tu vens-me
fazer um interrogatório!...
-Xi, só eu é que não sonho com ela! – E completa, acenando
com a cabeça – mas ela é bem gira!...
-Chama-lhe gira! Ela é mas é bem boa!
-Acredita! … Mas levantas-te ou não?
-Eu até me levantava, se saísses de cima de mim!
-Caramba, que picuinhas! Mas pronto, eu saio. Então, o que
queres fazer hoje? Ouvi dizer que não vai chover nas próximas 7
horas! Podemos pegar em alguma comida e fazer um piquenique
com a tua tia. O que achas?
-Por mim, bastava que saísses de cima de mim!! Apesar de
achar o piquenique uma boa ideia!
-Então vamos perguntar à tua tia!
-Opá, sai de cima de mim!
-Mas eu já saí!
-Ah, desculpa, é do vício.
E lá vão os dois pequenos à procura da tia, mas ela não está
nem na cozinha, nem na sala, nem na casa de banho. Como é uma
casa pequena, apenas poderia estar no seu quarto, algo pouco
habitual.
-Lá está ela – afirmou Bartolomeu.
-Tia, você está bem?
-Nem por isso. Quando acordei, senti-me muito quente.
Depois, quando tocaste à porta vi o Osório a dormir como nunca.
Então, fui abrir a porta, e quando voltei para a cama ainda me
senti mais quente. Por isso, pus o termómetro e estou com 39
graus e meio.
-Oh, que pena! Nós íamos convidá-la para um piquenique
connosco… Mas também não a queremos pôr pior.
-Ide sozinhos! Afinal, juntos já podem com uma pessoa até
21 anos! O que me lembra, não se metam com pessoas de 22
anos.
-Podemos mesmo?! Obrigado tia! Mas pode-nos ajudar a
preparar a comida?
-Com todo o gosto!
Então, o piquenique aproximava-se à medida que os três iam
pondo a comida no rústico cesto castanho-escuro, o mesmo cesto
onde Osório fora deixado e entregue à sua tia, que o encontrou
então à porta da sua casa, dez anos atrás, com um papel que
enunciava: “Ele é teu agora, e não podes passar a quem te
passou.” Valíqua sempre fora seguidora de regras, e como tal, não
o devolveu.

II- O piquenique

-Tenham muito cuidado! – Exclamou a tia, já à porta de casa


– Há para aí muitos ladrões e formigas cabeçudas!
-Está bem, tia. Adeus!
E lá foram eles, pelo meio das poças de água envoltas pela
neve, progressivamente mais excitados com a sua brilhante ideia.
Começaram então a pensar no lugar ideal para ir:
-Que tal naquele monte no centro da aldeia? Podíamos
almoçar lá no topo e depois fazíamos corridas ou jogávamos à
bola!
-Eh… Tem calma. Vamos andar por aí e ver o sítio ideal.
-Ok!
E entre as reclamadas ideias de Bartolomeu, houve uma que
bateu os recordes da estupidez:
-E se fôssemos para a frente da padaria para gozarmos com
o Rebeldino?
-Oh pá, mas tu és parvo ou quê?! O gajo ainda nos pendura
numa vara no topo da igreja! E isso na melhor das hipóteses!
Provavelmente, ainda nos agarra pela fruta e faz pão de uva!
-Está bem, mas olha que com a tua fruta não dava pra fazer
mais que um pã…
-Está mas é calado! Agora vamos pensar num sítio
agradável e mais tarde eu agrido-te e bem.
Foram por todas as ruas existentes na aldeia, mas
continuaram a andar. Mais uns quilómetros e nenhum local
parecia ser ideal para a realização do seu piquenique. Então
pensaram: se nada dentro da aldeia lhes agradava, porque não
haveriam de ir para fora da aldeia?!
-Olha, Osório, aquele narrador irritante é capaz de ter razão
desta vez!
-É capaz, é!
Eu sou irritante?! Vocês estão nos anos 90, onde as pessoas
“fixes” ouvem Spice Girls e idolatram o João Vieira Pinto!
Também não podem ser normais!! Principalmente, o Bartolomeu,
olha-me só para aquela cara de cornamenteiro! Mas bem,
continuemos!...
Aqueles dois palhaços ouviram a minha fantástica sugestão
e abandonaram a vila de Dobadeira. Passaram por mais de vinte
lugares propícios à realização do seu exigente piquenique, e agora
o problema era outro: com tantos lugares bons, como haviam de
decidir?!
-Porque é que não sorteamos? Era mais fácil…
-Está bem. Dá-me o teu chapéu – pediu o rapaz que me
roubou a ideia e me chamou irritante – e tira também aquele rolo
de cozinha que a tua tia te pôs aí para o caso de indisposição
intestinal…
-Só faltava pedires um mosquete!
-Para que é que eu quereria um mosquete?
-Para que é que tu NÃO quererias um mosquete?
-Não, a sério, para que é que eu quereria um mosquete?
-Olha, podias matar pessoas que não te fizessem uma vénia
quando passasses pela rua; para assustar os monstros que
estivessem numa festa de pijama debaixo da tua cama mas que
devido àqueles que se quisessem fazer passar por amigos quando
na verdade eram cobradores de impostos, fizessem muito barulho
e não te deixassem dormir! Tu gostavas de estourar os seus
miolos e enfiar uma bala num sítio onde o Sol não brilha e…
-Epá, estás-te a emocionar muito!... Pára lá um bocado e
vamos voltar ao sorteio, a não ser que me dês esse mosquete.
-Que mosquete?
-Ah, esquece! Vamos lá sortear!
E o lugar escolhido foi o nº… 9! Mas, qual é o lugar nº9?
-Qual é o lugar nº9? – Pergunta o Bartolomeu, e aproveito
para anunciar desde já que vou abrir um processo de plágio contra
aquele anãozinho irritante com um nome que mais parece o de um
electrodoméstico.
-Acho que é aquele com as árvores em bico!
-Não é!
-Não?
-Não.
-Então vamos a esse na mesma, que eu gostei da paisagem.
-Ok!
E pronto, lá foram, mas morreram pelo caminho. Eu disse
“morreram pelo caminho”. Hã, leitores, aguardem um pouco, por
favor. Oh Bartolomeu, porque é que não me roubas o pensamento
agora?! Anda lá! Por favor? Ah, vai apanhar um ligeiro choque,
não demasiado grave, mas moderadamente causador de um certo
incómodo!
-Osório, ouviste uma voz?
-Não, deve ser o vento. Olha, por falar em coisas sem
importância, já chegámos!
-Bom, vamos lá desmontar tudo. Ajudas-me?
Depois de assaparem na comida pela sua fomeca,
encostaram-se a uma árvore e fizeram uma soneca.

Agora aqui entre nós que acabou o capítulo, não são todos
os narradores famosos que acabam um capítulo em rima, hã? Eu
sou mesmo bom! Eheheh!

III – A Tempestade
A tia estava em casa, como suposto, de cama, mas não
parava de pensar nos rapazes. No entanto, mesmo apesar de
estarem reunidas todas as condições (estar na cama, obsessão de
pensamento por rapazes), de uma forma não sexual.
-Se lhes acontecer algo, a responsabilidade será toda minha!
Vou ligar o rádio a ver se apanho notícias do tempo.
E não poderia ter mais pontaria. Assim que ligou, ouviu:
- “Habitantes da vila de Dobadeira, não podia haver dia
melhor para não haver aulas! Aproxima-se rapidamente o
furacão Tininha. Resguardem-se com bastante roupa em casa e,
se ainda não se encontrar nesta, aconselhava-o a despachar-se e
correr pela sua vida!”
- Ai Meu Deus! Vou ter que avisar os meninos! Mas vou ter
que me agasalhar bem…
E então saiu de casa, com 8 camisolas e 5 cachecóis, um
deles de nome Walter, à procura o mais depressa possível de
Osório e Bartolomeu.

-Ah! Que sono tão bom!


-Por acaso! Raramente durmo à beira de uma árvore…
-Tão bem! – Completou Bartolomeu.
-Eu só ia dizer que raramente durmo à beira de uma árvore.
-Vamos para casa? Parece que vai chover.
-Oh, mas eu queria ir queimar formigas com uma lupa…
-Trouxeste lupa?
-Para que é que eu havia de querer uma lupa, pá?!
-Então não trouxeste.
-Não…
-Então queres queimar formigas com uma lupa mas não tens
lupa. Muito útil!
-Bom ponto de vista. Vamos embora, então.
-Já agora, sabes o caminho?
-Não. Tu disseste que sabias!
-Sabia até à fronteira! A partir daí, sei tanto como tu
Álgebra!
-Bom, acho que estamos perdidos! Vamos andar por aí a ver
se alguém nos dá indicações…
Seguiram caminho, mas assim que andaram um pouco
depararam-se com um bosque imenso onde a única coisa avistada
a olho nu eram os arbustos, algumas árvores e uma porção de
sebes.

A tia já tinha percorrido toda a aldeia, mas nem sinal deles.


Decidiu então perguntar a pessoas que eles conhecessem.
Começou pelo senhor Rebeldino:
-Não, não os vi. Se tivesse, já estavam a correr para o outro
lado do mundo! E com todo o meu pão! Desgraçados…
-O senhor disse “outro lado do mundo”?!
-Sim, mas era em sentido figurado. Não me parece que
tenham chegado à China em tão pouco tempo…
-Sim, claro, mas provavelmente estão tão fartos de ver
sempre esta aldeia que foram para a nossa cidade rival,
Dobadada! Talvez o furacão nem passe por lá…
-Furacão?! Ai Meu Deus, vamos morrer todos não vamos?!
Agora que o meu negócio estava a correr tão bem… Oh Cristo,
porquê?! Que é que eu fiz de mal?! Vou entregar todos os meus
bens ao padre Isabelino para me preparar para uma réstia de vida
de dor, agonia, sofrimento e…
-Calma lá, Sr. Rebeldino. Escusa de ficar assim. Basta que
se refugie na sua casa, e amanhã quando acordar nem vai reparar
que houve um furacão.
-Pois, talvez. Que os Anjos estejam com a senhora, assim
como os Deuses, e que a senhora seja idolatrada na nossa humilde
aldeia como a Padroeira de Dobadeira. E boa sorte para encontrar
os meninos e que eles estejam também com os Anjos e…
-Sim, eles estarão, eheh, não se preocupe – interrompeu
Valíqua, e depois murmurou, afastando-se – que homem mais
religioso!
Valíqua foi procurando por Dobadada, afastando-se cada
vez mais de Dobadeira.

Entretanto, os jovens rapazes andavam ainda perdidos pelos


bosques. E foi aí que, de repente, um ruído estridente surge do
meio do nada, parecendo-se com um grito feminino de desespero.
-Rápido, Osório, acho que o grito veio dali!
E seguindo o grito, depararam-se com um poço. Um poço
muito comprido e escuro onde a única coisa que se avistava bem
no fundo eram ratos a devorar um corpo caído.
-Vamos sair rápido daqui!
Desataram a correr e, por sorte, depararam-se com uma
cabine policial. Pediram orientações para casa e perguntaram-lhes
se sabiam alguma coisa sobre o poço. A única resposta obtida foi
por um homem delgado e baixo, que lhes respondeu:
-Aquele é o “Poço Da Morte”! As crianças não deviam
andar por aí a esta hora! E, se querem saber, acho que tiveram
sorte em sobreviver! Agora, ide para casa que vem aí um furacão!
Querem boleia?
-Sim, por favor – responderam os dois pequenos em
simultaneidade.
Chegaram então a casa.
-Tia, chegámos! Tia?
Procuraram mais uma vez por toda a casa, mas desta vez
nem no quarto estava. Encontraram apenas o rádio ligado.
-Olha, Bartolomeu, será que a Tia saiu à nossa procura por
ter ouvido a notícia do furacão?
-Chiu, deixa ouvir o rádio!
-“Interrompemos as informações meteorológicas para dizer
que houve mais uma vítima recente às mãos do “Poço da
Morte”.
-Será que foi a que nós vimos?
-“Era uma mulher, com cerca de 35 anos, alta, entroncada
e com uma invulgar pulseira de um camaleão de ouro. A sua
identidade está ainda por apurar, mas podemos desde já
confirmar que o seu número de B.I. é qualquer um, menos o 7.
Esse é o meu.”
-TIA!! Eu não acredito! Ela morreu!
-Eu não acredito! Podes ficar em minha casa por uns
tempos, se quiseres…
-Não, eu prefiro ficar por cá… Preciso de ficar sozinho... –
afirma Osório, afundado num mar de tristeza devastadora.
Ele bem que queria, mas não tinha tempo para pensar. O dia
seguinte já era dia de aulas.
IV – Memórias

Era um dia novo em Dobadeira, e Osório e Bartolomeu


encontram-se no caminho para a escola:
-Então, estás melhor?
-Não. Ainda não acredito no que aconteceu. E o pior é que
sei que se nós não tivéssemos feito o piquenique, nada disto tinha
acontecido. Porquê?!
-Anda lá. Ainda vamos chegar atrasados.
Durante as aulas, nada era interessante o suficiente para
merecer a atenção de Osório. Tudo o que ele conseguia pensar era
mesmo na tia. Ele nunca iria esquecer aquele sorriso quando
jogavam juntos. Ou quando estava doente, a tia tinha sempre uma
sopa preparada para ser levada à sua cama. E até por vezes
quando tinha problemas nos trabalhos de casa a sua adorada tia
estava sempre pronta para ajudar, nem que o seu palpite fosse
mais estúpido que pôr rodas num tomate. Afinal, todos os
professores deviam contar a criatividade de cada aluno e não
apenas as respostas correctas.
-E hoje vamos dar a hipermoleculação exotérmica
estivacular. A não ser, claro, que já tenham dado em anos
anteriores. Osório – exclamou a professora – já deram essa
matéria em anos passados?
-Desculpe?
-Eu perguntei se já tinham dado esta matéria no passado?
-Ah, passado… O passado foi ontem…
-Pode responder à minha pergunta, por favor?!
-Ah, perguntas… A minha tia fazia perguntas…
-Está bem, e que é que quer que eu faça?!
-Ah, fazer… A minha fazia coisas…
-Pare com isso!
-Ah, parar… a minha tia parava todas as coisas que fazia
para ver a novela das 7…
-Vá pra fora da sala imediatamente!
-Ah, ir para fora da sala… - murmurava o rapaz, à medida
que se afastava da sala de aula – ai, desta maneira nunca vou
esquecer a minha tia.
-Olá, Osório.
-Bartolomeu? Também foste expulso?!
-Fui. Repeti demasiadas vezes a palavra “concordâncias”
propositadamente só para te fazer companhia.
-Ah, meu mano! Não era qualquer um que faria isso por um
amigo!...
-Agora que estamos os dois, podemos ir roubar pão! Vens?
-Opá, não pensas noutra coisa sem ser pão? E aliás, não sei
se ainda não reparaste, mas ainda não ultrapassei a morte da
minha tia… tenho de ir para casa e ficar um bocado sozinho
enquanto que ponho um canelloni no forno. Hum…Canelloni.
Queres vir provar?
-Não gosto de queijo, mas obrigado na mesma! Xau!
-Adeus! Já agora, rouba-me uma bica, tostadinha, por favor!
Assim sendo, Osório chegou a casa, e foi reflectir para o
cadeirão da sua tia. Ia-se lembrando de tantas coisas que ficaram
marcadas na sua vida… Como por exemplo:
“Era a Noite das Bruxas. A festa decorria-se na sua casa. A
uma dada altura, as luzes vão abaixo. A primeira reacção foi um
grande grito. A segunda reacção foi um pequeno grito. E a
terceira reacção foi um arroto e um espirro. Mas, no meio de isto
tudo, todos estavam apavorados, incluindo o próprio Osório.
Então, começa-se a ver ao longe uma vaga luz amarela. Todos a
seguem e, do nada, surge um esqueleto. Mas não um qualquer.
Era um “esqueleto dançarino” com um traje adequado e tudo. E é
claro que o susto ainda foi maior, mas apenas para os rapazes, que
saíram a correr contra uma parede, por sua vez ignorada devido à
escuridão. E qual não foi o seu espanto ao ver que o esqueleto
dançarino era apenas a sua tia com um disfarce e um prato de bolo
enfiado na cintura?”
Houve também uma história engraçada num dia chuvoso:
“O dia estava a ser o tédio em pessoa. Então, a tia lembrou-
se de…”
-Hey, Osório, ouvi dizer que a padaria do Rebeldino foi
assaltada! – Interrompe Bartolomeu, entrando a correr em casa.
-Fogo, não voltes a interromper os meus pensamentos! Mas
foste tu que a roubaste?!
-Achas? Quando eu cheguei, estava a ouvir o Rebeldino a
queixar-se! E o pior é que, como ele não viu quem foi e eu estava
por perto, pode acusar-me!
-Eu não disse para dares um descanso ao pão? Agora, estás
metido em sarilhos e eu, sendo o teu melhor amigo, com certeza
vou entrar no caso também! Mas pode ser que, no fundo, o Sr.
Rebeldino seja uma pessoa simpática, e que não atire as culpas
para duas crianças, principalmente sem prov…
-Ahá! Bem me parecia que estavam aqui! – Exclama o Sr.
Rebeldino, olhando pela janela – Os pequenos ladrões vêm agora
comigo até a esquadra, não é?! Desgraçados!
-Mas nós não fizemos nada!
-Então porque é que encontrei o teu amiguinho em frente à
padaria?! Responde-me a esta, anda lá!
-Vamos por outro caminho: o Sr. Rebeldino vê algum pão
aqui?
-Bem… Não sei como é que vocês não rebentaram depois
de comer esse pão todo em tão pouco tempo! Mas agora, à minha
frente, rápido!
E então, sem qualquer hipótese de se escaparem ao poderoso
padeiro, lá foram eles para a esquadra.

V – O Assalto

-Então, o que temos aqui, hã? – Questionou um polícia, o


mesmo polícia que levara os dois pequenos a casa no dia da morte
da tia de Osório.
-Estes dois rapazes assaltaram a minha padaria!
-Eu conheço-vos de algum lado… Ah, pois claro! Os que
estavam perdidos pelo poço… E agora são pequenos patifes…
Porque é que toda a gente a quem eu dou boleia transforma-se em
ladrão?! Até a minha mãe!... Mas força, Sr. Padeiro, conte lá
como foi…
-Bem, estava eu a pôr pão no armazém quando…
-É suficiente. Estes dois rapazes são bandidos sem dúvida
alguma. Agora vão ter que viver por esta zona para podermos
estar sobre vosso controlo 24 horas por semana.
-Por dia, quer você dizer.
-Não, não, por semana. Também tenho de ter um pouco de
descanso, não?
-E onde é que o Sr. quer que nós fiquemos? – Pergunta
Osório, com cara de quem tem algum truque na manga – pode ser
pelos bosques? Acho que era um bom castigo para ladrões como
nós…
-Ele está tolo! – Participa, finalmente, Bartolomeu na
conversa – por favor Sr. Guarda, tudo menos aquele bosque outra
vez! Por favor!...
-Olha que não era má ideia! Mas ficam na zona com nossa
supervisionalização! Não quero ter que sujar as minhas mãos
outra vez para ir buscar mais dois corpos ao poço, ouviram?
-Sim, Sr. Guarda – respondeu Osório, continuando com a
cara de matreiro.
-Sim, Sr. Guarda – respondeu também Bartolomeu, com
uma cara de desilusão.
-Que assim seja. Ficarão no bosque durante 3 dias, nós
levamo-vos apenas almoço e jantar por dia e, de resto,
desenrascam-se vocês. Agora ide para saírem mais cedo, eheh!
E tal como um rolo de carne com fiambre, os miúdos
ficaram numa bela embrulhada.
Logo após ao guarda os abandonar, Bartolomeu, com uma
cara de javali sedento e zangado acabado de sair de um deserto
após um período de estadia de 10 ou mais dias, perguntou
raivosamente:
-Tu és estúpido ou burro?! Queres-nos meter no mesmo sítio
onde a tua tia morreu, onde encontrámos o seu corpo a ser roído
por ratos, onde…
-Epá, cala-te que eu tenho um plano!
-Só podia! Mas para nos metermos neste labirinto pelo teu
plano, é natural que fique com medo!
-Posso contar o meu plano?
-Eu só quero o meu ursinho Termogrino… Só ele para me
consolar nestas alturas…
-Bem…nós viemos aqui parar para saber o verdadeiro
segredo por trás daquele poço esquisito… E podemos também
ocupar o nosso tempo a contar histórias sobre duendes voadores
de classe média-alta que vivem nos nossos guarda-chuvas!...
-Sim… que divertido (bocejo) …
-Então, vamos explorar?
-Bem, a minha vida já não podia estar pior… Está bem!
Pelo meio de todo aquele mato com um odor bastante
estranho, mas curiosamente agradável, encontraram, envolto
numa névoa ofegante, um poço. Mas não se parecia de todo com
aquele que tinham avistado naquele dia que lhes ficara marcado.
Este tinha um ar de ter sido remodelado recentemente, todo bem
pintado, em excelentes condições. Os rapazes aproximaram-se e
repararam que aquilo não era um poço, mas sim uma espécie de
entrada para um túnel subterrâneo. Eles iam entrar, quando ouvem
um ruído de cortar a tensão:
-Afastem-se se querem viver!!
Eles viram-se e instantaneamente é apontada uma luz de
lanterna direita às suas caras. Houve um grito mútuo, mas depois
viram que era apenas o guarda.
-Afastem-se, já disse! Já sabem o que acontece se vocês se
aproximam!
Os dois jovens podiam estar assustados, mas quase que
podiam garantir que a primeira voz ouvida vinha de dentro
daquela caverna húmida e sombria. Então, Osório apontou:
-Isto não é o poço! É uma caverna e parece-me muito
suspeito!
-Ah, crianças… – riposta o guarda, com um tom de humor –
agora parem de imaginar coisas e voltem para casa…quer dizer…
mata… oh, esqueçam! Podem dormir esta noite no gabinete
policial.
-Obrigado… Acho eu… – sussurra Bartolomeu, de tal
maneira baixo que tornara-se quase impossível de ouvir.
Com toda aquela vontade de explorar e a produção de
adrenalina ligeiramente superior ao habitual, os rapazes não
conseguiam esperar mais… mas “amanhã é outro dia”, pensou
Osório, caindo num sono tão pesado como os seus lanches
“dietéticos”. Mas teriam mesmo uma hipótese tão boa como esta
para explorar o sítio?
VI- O Dono Da “Fica-lhe Bem!”

Os rapazes dormiram como duas pedras, mas, de alguma


maneira, não lhes pareceu suficiente. Foram acordados pelo
Guarda, que tinha notícias para eles:
-Acordem que está aqui um sujeito para falar com vocês. – e
depois apresentou-o – Rapazes, este é o senhor Frepantélio, o
dono da loja “Fica-lhe Bem!”, um pronto-a-vestir ali em baixo da
rua. A loja foi inaugurada em 1945, por um texugo nadador que…
-E o que é que isso nos interessa?! – Respondeu Osório,
parecendo desesperado por tanta porcaria que saíra da boca do
guarda em tão pouco tempo.
-Pronto, eu deixo-vos sozinhos por um bocado – disse,
então, o guarda.
-Eu vim cá porque sou amigo do Senhor Rebeldino. Aliás, já
fomos companheiros de escova de dentes no liceu, até que ele
cuspiu nela por afirmar que tinha piolhos. Ainda hoje não percebi
o que ele queria dizer com isso… mas enfim, o que eu quero dizer
é que posso falar com ele e vocês não têm de ficar no bosque
durante mais tempo.
-Não sei, não…eu até estou a gostar de ficar por aqui. –
Interrompe Osório.
- Não ligue ao meu amigo… POR FAVOR! TIRE-NOS
DAQUI! Mas não precisa de ter pressa… Daqui a 5 minutos
chega!
- Está bem… eheh… Mas têm de me prometer uma coisa!
Vocês nunca mas nunca mais vão entrar naquele bosque e
procurar o poço… É perigoso e podem morrer – e depois
sussurrou – O que não era mau…
-O que é que você disse?!
-Hã…“Puk Num Lera Chau”. É um provérbio chinês que
representa o perigo de 2 rapazes de 11 anos andarem à procura de
um poço no ano de 1997. Curiosamente, assemelha-se muito ao
vosso caso…
-É…já reparei… – Osório murmura, parecendo muito
desconfiado.
-Pronto. Só vos queria dizer isto. Ide para casa jogar
Flippers agora. Se não tiverem, eu posso emprestar-vos os
meus…
-Por mim, tudo bem. Adoro Flippers!
-Vocês não sabem que contém um gás venenoso…
-O quê?!
-Hã… “ Bokes Nium Sabiot Quiconté Nu Cás Venoso”. É
um provérbio checoslovaco do séc. XV.
-Fogo… você é muito culto.
-Pensas tu…
-Desculpe?
-“Pentum Tun” é um…
-Deixe-me adivinhar – interrompe, outra vez, Osório – é um
provérbio Vaticânico inventado pelo Papa Quim Tal VI?
-Precisamente. Agora vão-se embora e eu levo-vos os
Flippers.
Quando já iam a caminho, Osório começou a discutir a ideia
de ter uns Flippers de um homem praticamente desconhecido em
casa:
-Sinceramente, não confio muito nele. Desculpa lá, mas o
Papa Quim Tal VI nem sequer existiu! Só chegou até ao quinto…
-Ele parece um homem sadio e simpático. Mas tirando essas
partes más, parece bonzinho…
-Ser simpático e sadio é mau?
-Claro. Olha para mim. Eu sou as duas e aprecio ver
esquilos a serem degolados com uma tenaz… Chuif! Sou um
monstro! Buáááááááá!
-Sim, és um monstro. Mas isso não é para aqui chamado
agora. Vamos mas é para casa esperar a nossa encomenda.
Chegaram, surpreendentemente, depois dos Flippers. Estes
encontravam-se à porta. Levaram-nos lá para dentro e a primeira
coisa que repararam foi que eles tinham um tubo com um papel
colado a dizer:
-“Saída do gás”.
-Cá para mim – diz Bartolomeu – é uma password.
-Ou então é onde sai o gás! – Riposta Osório, com algum
sarcasmo – tu és mesmo burro. Então não ouviste o gajo da
“Assenta-lhe favorecedoramente” ou lá o que é a falar sobre um
tal de gás venenoso?!
-Também, tu estás sempre a duvidar das pessoas. Que vício!
Ele está a tentar ser simpático a dar-nos um jogo e tu ainda ficas
mal-humorado?!
-Está bem. Se queres morrer, morre sozinho. Eu só venho cá
quando ouvir uns gemidos de dor ou de intoxicação parecidos
com os de uma Barbie Mãe Solteira após uma directa a tomar
conta do filho produzido pelo Ken que apenas 23 minutos depois
de a engravidar a deixou. Xau! Morre bem e não te apresses. Faz
as coisas com calma, está bem?!
Então, Osório abandona a sua casa zangado com o seu
melhor amigo, aquele que esteve sempre ao seu lado quando ele
precisou. Mas, iria ele voltar?

VII – Sábado 14

Assim que Osório sai pela porta fora, ouve o gemido atrás
referido de dentro da casa.
-Quem é que estou a enganar? – Diz – Ele é o meu melhor
amigo e a coisa mais perto de família que eu tenho!... Espera,
Bartolomeu, já te vou salvar!
Assustou-se então quando se deparou com uma imagem
horrorífica: Bartolomeu transformou-se num MACACO! Ou não?
Ah, afinal não, ele é que é mesmo feio.
-Então meu, que aconteceu?
-Não consigo ganhar!! Já estou farto desta porcaria! Ajuda-
me a deitá-los ao lixo, anda.
-Se o gás não se soltou, qual foi o grito que eu ouvi?
-Ah, quando eu me enervo com uma coisa, começo a gritar
como se estivesse envenenado… É um vício que tenho. Agora
anda ajudar-me com isto.
-Gostava de aparecer à frente do senhor da loja estúpida que
eu nunca ouvi falar só para lhe dizer que não morri envenenado.
Mas gostava também de saber o que ele ganharia com a nossa
morte… Se calhar… Já sei! Só pode ser…
-Olha, hoje não é sábado 14? – Interrompe, estupidamente,
Bartolomeu.
-Voltas a interromper-me quando eu estou a tirar conclusões
importantíssimas e faço lombinhos com a tua carne!
-Epá, desculpa. Que é que ias dizer então?
-Hum… Já não me lembro…Que maçada! Mas já agora,
também acho que hoje é sábado 14. Ou isso ou quinta-feira 25,
mas não tenho a certeza.
-Eu…acho que vou seguir o meu instinto… Agora vamos
para a rua perguntar aos idosos se gostam mais de marmelada ou
de chouriço!
-Porque não? Parece divertido!
Ditas essas palavras, os rapazes saíram disparados pela
porta. Mas a primeira coisa que encontraram não foi um idoso.
Foi um gato.
-Olha um gato!
-Que giro! E ainda por cima é preto. Eheheh… AH! Um
gato preto num sábado 14! Isso é mau!...
-Que supersticioso! Era muito pior se fosse um espelho
partido!
-C-c-c-c-como aquele?
-Sim, como aquel… AH! Estamos condenados!
CONDENADOS!
-Isso sei eu. Mas relaxa. Agora já não pode piorar.
Ou poderia?
-Ah!, passei por baixo de um escadote!
-Também eu!
-Ah!, vi outro espelho partido!
-Eu vi o mesmo de há bocado, mas “Ah!” na mesma!
-Ah!, uma mão a sair do chão!!
-Eu quero a minha mãe!
-Ah!, um esquilo gordo!
-Oh não, um… Espera… um esquilo gordo? Isso não mete
medo!
-A ti, não. Quando eu tinha 3 anos, sofri de uma conspiração
de esquilos, que não gostavam de mim só porque eu fazia nós nas
caudas deles. Eles comeram-me o pequeno-almoço durante 4
semanas consecutivas! Eu fiquei magro e eles gordos!
-Tu és estúpido!
-AHHHHHH! Pois sou! Não é justo!
-Claro que é! Mas deixa lá. Nós já estávamos ocupados a
fugir de coisas tenebrosas! Queres continuar ou vamos para casa?
-Continuemos. Eu até estava a gostar.
-Ok.
Bartolomeu afasta-se um bocado e Osório ouve outro grito
estridente. Sem ver o amigo, começou a pensar que esse grito se
tornara muito familiar… Mas, de qualquer maneira, foi a correr
pelo caminho da voz ouvida.
-Que é que se passa?
-Este idoso está a tentar ensinar-me Francês!!
-Que desnecessário! Foge!
-Hey – diz o idoso – ainda não vos ensinei a falar com
miúdas francesas com o objectivo de conseguir uma empada de
salpicão! Podem começar por: “Mon jambon est gai…” e
depois…
-Foge, rápido!
-Nem digas duas vezes!
-Porquê? Não gostas da minha voz? Provoca-te otites, é? É
boa demais para ti?
-Eu respondo-te quando chegarmos a casa! Agora
despacha--te!
Quando conseguiram fugir ao Francês, encontraram o amigo
do idoso, também ele velho, a fazer triste humor matemático.
-O que... eheh... o que diz um matemático para outra
matemática? “Rezei 1/3 para arranjar 1/2 de te levar para um 1/4 e
dizer-te: “20 comer, 100 piedade! 70res fugir, levas uma chapada
do 14 que faz um 31 da tua cara!”
-Que estupidez! Isso nem me dá vontade de soltar uma
gargalhada amena!
Finalmente, quando chegaram a casa, Osório lembrou-se:
-Espera! Eu faço anos no dia 14! E o meu aniversário é
amanhã!!
-Então porque tivemos tanto azar hoje? Hoje é só sexta-feira
13! Não dá azar nenhum!
-Se calhar, só dizem que o sábado 14 dá azar porque quando
as pessoas chegam a esse dia, ainda estão sob o efeito do pior: a
sexta 13!
E há quem diga que foi assim que nasceu o mito da sexta-
feira 13. Há também quem diga que a enxertia de determinadas
plantas não é assim tão rentável se for realizada sob condições
dificilmente propícias ao seu desenvolvimento, mas eu com essas
pessoas só uso um contra-argumento incrivelmente eficaz, que é
cuspir-lhes na cara. Não demasiado, mas também convém fazer-
se sentir. Assim do tamanho de um kiwi, digamos, e de cor
semelhante. Por dentro, o castanho só seria desagradável. Enfim,
o sábado 14 não é temido, mas sim a…quinta-feira 12, porque é
antes da sexta-feira 13.

VIII – O Aniversário de Osório

-Iupitidu! - Exclama Osório logo ao levantar-se, como se


fosse um peixe sem fôlego – Hoje é o meu aniversário! Parabéns
para mim… Parabéns para mim… Parabéns para miiiiiiim…
Parabéns para mim!
De súbito, alguém bate à porta.
-Aposto que é um bêbedo drogado com um pote de bronze
na cabeça.
-Olá, Osório. Parabéns!
-Ah, Bartolomeu… Vou considerar isto um triunfo.
-O quê?
-Nada. O que é que me compraste?
-Sei lá. Porquê?
-Não me vais dar uma prenda?
-Ah, isso. Tenho aqui, não te preocupes…eheh…
-Não tens, pois não?
-Não. Desculpa. Mas deixa-me só ver o que tenho nos
bolsos. Ahá! Queres uma chiclet?
-E se fosse alguma coisa de jeito?!
-Já sei! O papel da chiclet que tenho aqui!
-Sai da minha casa e não voltes até daqui a 2 segundos e
sem uma prenda!
-Olá, posso entrar?
-Depende. Tens uma prenda?
-Tenho.
-O quê?!
-Uma chiclet!
-Oh, deixa lá. Dá-me a chiclet que eu estou com fome.
-Não quero.
-Caramba, assim não tens de me dar uma prenda de jeito!
-E uma chiclet não é de jeito?!
-Não!!
-Ah, então toma. Agora que queres fazer?
-Vamos organizar-me uma festa de anos! Tu preparas uma
festa “surpresa” e eu vou distribuir panfletos a anunciá-la!
-Achas que alguém vai aparecer?
-Pelo menos, o Sr. Rebeldino é capaz de, no fundo, mas no
fundo mesmo, ter uma mínima vontade de pôr a hipótese de
talvez visitar a minha festa, isso, se as condições atmosféricas
forem de seu agrado. Já os outros aldeãos, não me parece… Mas
pronto, por isso é que a festa vai ser surpresa! Eu não sei quem
vem! Anda lá! Trata da festa e logo se vê!
-Está bem, mas vais ficar decepcionado…
-Com a festa ou com as pessoas presentes?
-Com as três!
-Eu só referi duas hipóteses.
-Mas de certeza que eu vou conseguir desiludir-te de mais
alguma forma ainda, não subestimes essa minha capacidade. Vai
lá distribuir os folhetos então, e depois vai dar um passeio, vai!
Osório sai de casa e encontra uma pessoa desconhecida.
Esta começa a olhar para ele com um ar curioso, mas Osório
segue caminho. Então, quando já de costas voltadas, ouve:
-Osório?
-Desculpe, quem é você?
-Ah, Osório! Há quanto tempo que eu não te via! Eras um
piolho da última vez que te vi!
-Quem é você? – Repete Osório.
-Sou a tua irmã mais velha, Cornélia!
-A... minha irmã?! Mas eu não tenho irmãs! Ou tenho?
-Claro que tens! Mas já não te lembras, eras tão jovem
quando te deixamos!
-A sério? Oh, não imagina o que já me aconteceu! Estava a
viver com a minha tia…quer dizer…a NOSSA tia e… Hey!
Espere um bocado! Onde vive agora?
-Eh eh… já sabia que ias perguntar isso! Mas gostava que
fosses tu a descobrir para ser mais interessante.
-Vive com o padre da freguesia?
-Não!
-Desisto. Diga-me!
-Tem calma. Olha, reparei que estás com esses folhetos
todos na mão. Isso é para quê?
-Ah, é verdade! É a minha festa de aniversário! Por favor,
senhora, venha à minha festa!...
-É claro que vou! Dá-me um panfleto para saber onde moras
e eu trago um convidado muito especial. Dois, aliás!
-Quem?!
-Quando chegar a altura, vais saber… Agora vai para casa
esperar que nós depois aparecemos!
-Acho que não consigo esperar…mas vou tentar. Até logo!
-Adeus!
Osório imaginava como seria se as duas pessoas mais
importantes na sua vida aparecessem na sua festa. Será que
Chitãozinho e Xororó iriam mesmo dar-se ao trabalho de passar
por lá? Quem sabe... Assim que chegou a casa, tentou
imediatamente falar com Bartolomeu e nem sequer se lembrou
que este lhe estava a preparar uma festa.
-Bartolomeu!
-Ah!, não entres! Ainda não acabei!
-Não é isso! Só te quero dizer que encontrei a minha irmã
que nem sequer sabia que tinha!
-A sério?! Mas tu não tens irmãs!
-Foi o que eu lhe disse, mas ela disse que tinha, e pareceu-
me bastante convincente! E também garantiu que ia trazer dois
convidados muito especiais, provavelmente com quem vive! Por
isso vê se preparas aí uma festa com muita pinta! Ahm… A ideia
era bonita.
-Estou a tentar! Mas está assim tão má?
-Má não está! Está é simples, austera, talvez… Acho que
uma festa deve ter mais do que apenas um balão, não?
-Talvez, mas é um balão de qualidade! Até tem 3 cores
diferentes…
-A cor do pó não conta. Esquece lá os preparativos.
Encomenda o bolo que já chega.
-Mas eu não tenho dinheiro!
-Nem eu! Ah bom, esta festa vai ser boa… Sem decoração,
sem bolo, só faltava não ter convidados…

Mais tarde, alguém toca à campainha. Osório, impaciente,


vai a correr até à porta e abre-a. Vê a sua irmã, como suposto, e
um casal.
-Boa tarde – diz Osório – e vocês são…
-AH, MEU FILHO, QUE SAUDADES! – Diz a senhora do
casal, bastante emocionada.
-“F-f-f-filho”...? – pensa Osório, como se o mundo tivesse
subitamente parado. Então, num momento de clique mental, grita:
-MÃE, PAI?!

IX – Os Pais de Osório

-Eu não acredito que vocês estão mesmo aqui!! – Exclama


Osório, chorando de alegria.
-Nem eu, Osório! Nem eu! – Profere a sua mãe, num misto
de alegria e dilúvios nasais. Completa – Onde está a tua tia?
-Porque é que me abandonaram? Pensei que tinham
morrido!
-Morrido?! Nós?! Quem te disse isso?
-A tia!
-Onde está ela?
-(Chuif!) Ela morreu… No Poço da Morte!
-MORREU?!
-E desde que ela morreu, vives sozinho?! – Participa
finalmente o pai de Osório na conversa, que aparentava ser um
pouco menos sentimental.
-Sim… Mas como é que sabem isso tudo?!
-Fomos nós que te demos à tua tia, e como ela era solteira, o
mais natural era ficares sozinho depois da sua morte…
-E porque é que me abandonaste?!
-És capaz de não compreender, mas tu corrias grande perigo
na altura!
-Eu conseguia sobreviver a um tiroteio pela disputa de um
peru tenro, não achas?!
-O QUÊ?! Que estás para aí a dizer?!
-Isso também é mentira?
-Bem, parcialmente. Houve um tiroteio, mas não foi pela
disputa de um peru tenro! Isso é um ultraje!
-Ah… Eu também achei que era muito ridículo! Que alívio!
-Claro que é ridículo! Primeiro, foi pela disputa de um
lombo de porco. E segundo, não, não era nada tenrinho! Se nós
soubéssemos, nem tínhamos feito parte daquela briga… Mas, de
qualquer maneira, o ambiente era perigoso para ti, por isso
mandámos-te pelo correio para a tua tia e dissemos-lhe para te
nunca contar sobre nós porque podias tentar encontrar-nos… mas
parece que não resultou. Sabes a marca que tens na coxa? È de
um carimbo, não tínhamos dinheiro para te pôr um selo…
-Não resultou porque vocês vieram cá, ora! E porque não
queriam que eu não vos encontrasse? Não gostam de mim? Ou
será que fui um acidente resultante de uma noite de muita
bebedeira e um preservativo antigo?!
-Não! Nós adoramos-te! Só estávamos com medo que
reagisses assim, como estás a reagir agora.
-Então porque é que vieram à minha festa?
-Porque não conseguíamos resistir! Precisávamos de te
ver!... Mas, por favor, desculpa-nos. Como recompensa, vens
viver connosco!
-Mau era! Vivo sozinho num T1 + 1!...
-Pois… Mas vais passar de um T1 + 1 para um T13 + 7,
piscina incluída, já que a nossa casa pode-se também chamar de
mansão!
-O quê?! Tenho pais ricos?! Já vos disse que vos adoro?
-Ah, o dinheiro faz milagres!... Queres vir ver a casa?
-Claro!
-Ok! Mas só uma coisa: esse rapaz está encostado ao canto
desde que nós chegámos. Ele é teu amigo?
-Ah, já me esquecia! Mãe, pai, Cornélia, este é o
Bartolomeu. Ele é O meu amigo.
-Bartolomeu? Que nome esquisito… – sussurra a mãe de
Osório, e depois dá uma gargalhada em tom de gozo.
-Realmente, mãe – diz Cornélia – qual é o teu nome, que já
me esqueci?
-Ah, isso não é para aqui chamado…Eh…Eh…
-Não, já agora – incentiva também Osório – gostava de
saber ao menos o teu nome…
-Oh, está bem. Bartolomeu, prazer em conhecer-te. Eu sou a
Bonso Vaco. As minhas amigas – que conspiravam contra mim –
chamam-me Desodorizante… Acho que já descobriram porquê!...
-Não se preocupe, Sra. Bonso. – diz Bartolomeu – eu não
me vou rir…muito! Ah! Ah! Ah!
-Está bem, é um nome horrível, eu sei! Mas se queres
contestar, vai contestar com os teus avós! O teu avô era Japonês, e
fez questão de me passar a sua cultura, daí o nome “Bonso”. Já a
tua avó, essa era tola indiana admiradora de vacas. Um dia
questionou-se, “e se houvesse uma vaca macho, mas exactamente
igual à fêmea?”. Como não tinha mais nada para fazer, concedeu-
me o segundo nome de “Vaco”, em homenagem à Vaca-pai. É
uma pena que a conjugação dos dois nomes tenha resultado tão
mal para mim... É preciso muita coincidência mesmo, se alguém
estivesse por ventura a relatar a minha história sentir-se-ia
realmente abençoado por poder ter este nome ao dispor! Mas
bem, mudemos de assunto. Vamos lá ver a casa.
Osório nem pensou duas vezes e foi logo enfiar-se no
Porsche do seu pai. Mas estava indeciso entre o Porsche e o
Ferrari da mãe. “Bem”, pensou, “são os dois descapotáveis, por
isso tanto faz!”.

Este narrador só gostava de acrescentar que a cena descrita


atrás não foi feita apenas para, digamos, “meter nojo” ao leitor. Já
foi referido na introdução do livro que esta é uma história
verídica. Por isso, se o leitor quiser espancar alguém – e eu acho
que muita gente deve querer – construa uma máquina do tempo e
volte atrás no tempo para espancar Osório no momento em que
ele disse isso. E já agora, o Bartolomeu, que eu não gosto dele. E
depois deixe-me usar essa máquina, que eu tive problemas com
um gajo em 1954 e isso custou-me a minha liberdade hoje em dia.
Com tantos miúdos com quem eu me podia meter, tinha de me
meter com o futuro Presidente da República! Mas enfim, vocês
não têm nada a ver com o meu azar. Aquele Aníbal Ranhoso!...
Continuemos com a história.

Quando chegaram ao “castelo”, Osório e Bartolomeu


admiraram-se com a vista. A casa tinha tudo, excepto um
telescópio gigante com 17 metros. Bem, acho que isso também
não era necessário, pois tinha um de 16 metros. Osório foi
disparado para a cozinha. Ninguém percebera a sua atitude.
Quando lhe perguntaram o porquê disso, ele apenas respondeu:
-Foi o instinto. E também estava com uma larica! Tens
bolachas?
-Não, temos apenas peixe.
Houve um desmaio. Sim, do Osório. Mas acabou por
acordar, depois de lhe borrifarem com uma mangueira portátil. E
então explicaram-lhe que era uma brincadeira. Osório desmaiou
novamente. Desta vez, ninguém percebeu. Quando acordou,
explicou que tinha percebido que era verdade e não brincadeira.
Então, depois de tudo explicado, pensou: “Nada pode correr mal a
partir de hoje nesta casa!”. Realmente, seria de pensar assim mas,
iria essa afirmação ser verdadeira?
-Sim, iria! – Exclama Osório.
Será que sim?...
-Olha que eu acho mesmo que sim! – Insiste Osório.
Mas quem sabe, possa acontecer algo...
-Oh, não me parece que vá acontecer! – Diz Osório, e dito
isso acho que volta a desmaiar. Ah… Sim, confere. Benditos
poderes do narrador!
Agora sim, será que tudo iria correr bem a partir daquele
dia?...

(Por amor de Deus, Osório é nome de ovelha!)


X- O Jardineiro

Era um novo dia na vila de Dobadeira. Osório desfrutara ao


máximo a sua estadia naquele “hotel privado”. Agora que estava
bem acordado, decidiu conhecer melhor a casa, mas para isso,
precisava do seu velho compincha… Bartolomeu! Cumprimentou
os recém-encontrados pais, foi chamá-lo e juntos começaram a
explorar a casa como se tratasse de um mundo desaparecido
subaquático.
-Vamos começar pelo 1º corredor que virmos, está bem? –
Bartolomeu sugere, de uma forma algo entediante.
-Claro! Temos de explorar tudo desde o início. Por acaso
não tens aí pão, pois não?
-Não. Porquê? Queres ir ao Rebeldino? – Bartolomeu diz,
revelando a sua parvoíce.
-Não! Já me chega os sarilhos em que me meti com ele! Só
queria o pão para pormos no chão e segui-lo, no caso de nos
perdermos, tal como aquele conto que foi transformado em filme
em 2002, ou seja, daqui a 5 anos!
-Ah! Não te preocupes com isso! Eu tenho um excelente
sentido de orientação! – Bartolomeu gaba-se descaradamente.
-Tens? Então pronto. Não precisamos do pão. Já agora,
enquanto que estávamos a falar, onde é que entramos?
-Sei lá! Pensei que soubesses!
-Mas tu é que tens um grande sentido de orientação!
-Ah, isso! Não, isso é tudo mentira!
-Então porque é que o disseste?!
-Caramba, Osório, sou eu! Tu acreditas em qualquer coisa
que eu disser?!
-Agora já não!
-Quer dizer que tu acreditavas mesmo em mim?! Isso nunca
me aconteceu! E agora desperdicei-o! Eu sou uma besta!! Pronto,
agora que já me lamentei, vamos sair deste sítio escuro e sombrio,
sim?
-Embora!
-“Embora”? Que esquisito. – Bartolomeu apontava,
estupidamente chocado. Ai, que rapaz parvo!...
Eles depararam-se com uma divisão que tinha quatro
entradas. Elas tinham um papel colado em cada uma das portas:
1ª Porta – “Nem penses em entrar aqui!”;
2ª Porta – “Podes pensar um bocadinho em entrar aqui, mas
não to recomendo!”;
3ª Porta – “Se quiseres viver... faz por isso! E já agora
também não entres nesta porta!”;
4ª Porta – “Não estás à espera que eu te fale sobre esta porta,
pois não? Acho que já sabes que não é lá muito benéfica! Ah, mas
oferecem-se bolachas a quem conseguir chegar ao fim. Por isso,
pensa bem!”
-Olha, podíamos entrar em cada uma e ver qual é que
gostamos mais! Se não gostarmos, voltamos atrás! Que achas,
Bartolomeu?
-Eu prefiro a das bolachas. Estou com fome! Nham nham.
-Cala-te! Vamos à primeira porta.
Eles entraram e viram uma imagem aterrorizante: uma
mangueira! Ah! Saíram a correr e entraram na porta a seguir e
encontraram outra figura de cortar a tensão: um pedaço de relva…
castanha! Decidiram então rapidamente ir para a 3ª porta onde
havia mais uma figura horrível: uma folha de papel que dizia
“jardim”! Permanece um objecto aterrador! E toda esta fuga de
uma cambada de elementos parvos que já terá acontecido uns
capítulos atrás dá a ideia que toda a originalidade e criatividade se
está a esgotar neste história, apesar de ser tão improvável.
Continuando, iam entrar na última porta, quando Osório
finalmente concluiu:
-Espera aí! Isto é muito estranho! Uma porta com uma
mangueira, outra com relva podre e outra com o “jardim”. Só
pode significar uma coisa! Alguém está a tentar fazer...
douradinhos... a partir de água... e com... recheio de relva
castanha que vai buscar ao jardim! Muahahahahahah!
-Sim! Ou então isto pertence a um jardineiro!
-Tens a mania de simplificar tudo. Ainda te vais dar mal na
vida por causa disso.
O 4º caminho era o único em que ambos os rapazes cabiam,
sem apelar para posições de frente/trás homossexuais. Era um
túnel estreito e escuro. Tinha ao longo das paredes vários papéis
que não davam para ler devido à escuridão. Sensatamente,
Bartolomeu acendeu a lamparina de álcool que tem sempre no
bolso para emergências. Isso sempre pareceu estúpido até este dia.
Claro é que aquela anta não conseguia acendê-la sem queimar um
ou dezoito papéis dos colados à parede. Por sorte, eram papéis
que não interessavam, como a lista negra do escritor e as pessoas
a quem ele jurara vingança, e também o guião desta história, com
as deixas que eles deveriam dizer. É o que falta a esta juventude,
memória!... O resto era menos importante. Depois de acesa a
lamparina, Osório começou a ler.
-Olha, Bartolo, é o guarda que nos levou à esquadra! Aqui
diz que ele faz parte de uma tal organização: os M.D.P.D.M. O
que será isso?
-Desculpa, tu chamaste-me “Bartolo”?
-Sim, Bartolo, chamei. É mais curto que Bartolomeu.
-Não me chames “Bartolo”!
-Está bem, Bartolo. Desculpa!
-Pára de me chamar “Bartolo”!
-Fogo! Queres que te chame “Bar”?
-Ainda é pior!
-Então vou-te chamar “B”!
-Hum… “B” … Está bem. O que estavas a dizer antes desta
parvoíce?
-Estava a dizer que está aqui o guarda que nos deu boleia até
casa! E também se refere aqui a um tal jardineiro! Ele trabalha
aqui nesta casa! Será que os meus pais sabem disto?
-Porque não haveriam de saber? Pode ser uma organização
com destino à caridade! Por exemplo… Manipuladores Da…
Procrastinação Da…Menopausa!
-Eu já vi as iniciais P, D e M em algum lado… Já sei! Foi no
Poço Da Morte! É isso! Poço Da Morte! Manipuladores Do Poço
Da Morte!! Isso é mau! Não me parece que os meus pais
pertençam a isto…
-Olha, Osório! “Próxima reunião dos M.D.P.D.M.: 27\11\97
às 3:15 da tarde! Tragam os vossos próprios biscoitos, porque
senão ninguém vos vai ceder!”
-Eheh… Essa reunião vai ter dois convidados muito
especiais…
-É… E eles vão levar os seus biscoitos! Eh eh!
-Não, não vão!
-Pois não… eheh…

O capítulo já acabou. Mas este velho narrador sente


necessidade de desabafar. Também, só estou aqui a contar o que
lhes aconteceu, por aí fora, e ninguém me faz uma pergunta sobre
a minha vida! Eu tenho mulher! Os meus filhos andam na
faculdade, ambos os três! Sorte deles que são filhos únicos. Sou
um ser humano, com tanto direito a dialogar como qualquer um
de vós, leitores! Mas o problema é que quanto mais o faço, mais
vocês não o fazem, pois com certeza que estão a dedicar total
concentração à leitura deste livro, e a perder tempo precioso de
vida que nunca será recuperado. Nesse sentido posso dizer que
tenho pena de vós. Pobres almas, agrilhoadas a um conjunto de
letras, que numa situação normal, aquando da sua junção fariam
sentido, mas neste livro nem por isso. É como eu costumo dizer à
Marlene quando eu chego a casa: “Hoje foi mais um dia difícil!
Mas sinceramente, não há dias fáceis.” É uma piada entre nós,
vocês não compreendem. Tem muita piada, principalmente
porque ela já sabe que eu a vou dizer, só não sabe é quando.
Normalmente é quando chego a casa, mas de vez em quando não
sou tão instantâneo. Só para criar um pouco de suspense, sabem?
Ela fica a olhar para mim com um sorriso antecipado, quase a
fazer força com os olhos para que eu diga a frase. E eu, do nada,
pumba! Lá digo, e ela desata às gargalhadas. Os meus gémeos
começam a vibrar e acabam por cair ao chão. Os meus filhos,
também. Por gémeos, estava-me a referir aos músculos da perna.
Tenho problemas, já fui ao médico, ele disse-me para fazer
exercício diário, mas eu não posso com os joanetes. Tanto é que
no outro dia, estava a dar um passeio pelo parque municipal da
Cidade do Bairro – nem é aí que eu moro, é só onde passo as
férias, tenho casa aí e no Algarve – e, de um momento para o
outro, caí. Uma criança ficou a apontar para mim e a rir-se. Mas
eu enfiei-lhe uma lamparina e ela piou logo fino. Bem, tudo isto
para dizer que gosto de um ocasional cafuné! E insisto, Osório é
nome de bode. Osório e Dolly, sentados numa árvore… Primeiro
vem o amor, depois vem o… Oh, vocês perceberam.
XI – Os M.D.P.D.M.

-Então, B, estás pronto para a reunião logo à tarde?


-Estou, mas olha uma coisa: lembras-te quando eu disse que
me podias chamar “B”?
-Sim.
-É… Mas não me chames, porque senão terei todo o gosto
em grelhar o teu fígado juntamente com outros objectos pendentes
no teu “entre-pernas” e com eles dar de comer ao meu gato, ok?
-Ok, desculpa, B. Artolomeu!
-Que é que disseste?
-Bartolomeu! Bartolomeu!
-Ah. É bonito. Agora: que é que vamos levar para a reunião
logo?
-Bem, podemos começar por criar uma identidade nova!
-É isso! Eu posso ser o Francisco, um homem com um
espírito nele reencarnado de um trem de cozinha maléfico!
-Pois… eu trato da parte das identidades. Tu podes arranjar
um microfone para pôr sob escuta quando eles estiverem a falar.
-O pá, mas isso nem foi inventado ainda!
-Então inventa tu…
-Está bem!
-… Desde que não envolva pegar numa caixa de fósforos e
colar-lhe um auricular! Isso é estúpido!
-Então é impossível. Mas vou tentar não usar o auricular, se
tanto o queres…
-Perfeição.
-Bem, até logo!
-Até logo!
A hora da reunião aproximava-se, à medida que Osório
preparava as identidades e o Bartolomeu colava objectos
alternativos na caixa de fósforos que lhe pudessem dar, no
mínimo, um belo efeito decorativo.

A hora chegara. Eles ficaram de aparecer no parque, para


depois seguirem rumo à reunião. Mas por alguma razão
encontraram-se num sítio totalmente diferente.
-Olá, Osório! Então, já preparaste as identidades?
-Já! Eu serei Gonzalez, um fulano racista e destemido que
ouviu falar dos M.D.P.D.M. no México e que se quer juntar!
-Fixe! E eu?
-Tu serás… as pernas de Gonzalez, porque eu sou pequeno
demais para me fazer passar por adulto.
-Fixe! As pernas de Gonzalez… Até poderia ser um filme de
Hollywood com muito sucesso! Imagina: “um indivíduo… duas
pernas… um bigode de meio metro… unidos com o propósito de
acabar com o tráfico de cores em Los Angeles!”
-Cala-te! Agora, por favor, diz-me que conseguiste arranjar
o tal microfone!
-Claro que sim!
-Não conseguiste, pois não?
-Não. Mas estive mesmo muito perto de conseguir! Juntei à
caixa de fósforos vários materiais, e aquele candeeiro quase que
funcionava! Ele ouvia o que eu dizia, mas não havia nenhum
botão que o fizesse gravar para depois reproduzir. Mesmo assim,
ele é um dos meus amigos mais próximos… Chuif!
-Ok, ao menos agora temos mesmo provas que és uma besta,
e nem tu podes negar. O que vale é que eu encontrei um gravador
ali na loja da Sra. Ana!
-Ana … Que nome horrível!
-Eu sei! Nem me fales… Vamos?
-Vamos!
Quando chegaram ao sítio, alguém lhes disse antes de abrir a
porta:
-Palavra-passe?
-Sei lá… “Biscoitinhos”?
-Pode entrar.
-Boa tarde. Yo soi Sr. Gonzalez, un fulano… qualquer.
Queria juntar-me à los M.D.P.D.M. Lo puede ser?
-Claro que sim. Qualquer assassino sanguinário é bem-vindo
nas nossas reuniões!
-Ah, se eu soubesse…-sussurra Osório para baixo.
-Você é invulgarmente alto! Deve ter-se alimentado bem em
criança! Por falar em alimentar, trouxe os seus biscoitos?
-Não. – Aponta secamente Osório, que parece estar a perder
o seu sotaque latino, como se não quisesse estar a dar trabalho ao
narrador.
-Então não come!
-OH! – Exclama Bartolomeu, que supostamente devia estar
escondido.
-Que gemido foi esse?!
-Foi… só a minha barriga! Sim, exacto, a minha barriga, a
dizer “oh”, simplesmente isso.
-É, deve mesmo estar com fome. Mas olhe: regras são
regras! Não trouxe biscoitos, não come biscoitos!
-É… vou tentar dizer isso ao Bartolomeu!
-Bartolomeu? – estranhou o anfitrião.
-Sim… é… um rapaz… que está a servir das minhas pernas.
-Que metáfora esquisita para explicar a sua invulgar altura.
Finalmente, quando Bartolomeu pôde parar de carregar
Osório às costas assim que se sentaram, aperceberam-se de quem
estava também na reunião:
-Olha, Osório! É o guarda que nos deu boleia!
-É! E um gajo com calças de jardineiro! Deve ser o da casa
dos meus pais!
-Olha! O Sr. Rebeldino!
-Mas ele só está aqui porque encomendaram pão!
-Ah… Mas mesmo assim, ele está cá!
-A sério? - Sussurra Osório, com ironia.
-…E é isto que eu acho da economia doméstica. Sr.
Gonzalez – diz o indivíduo que lhes abriu a porta – partilhe
connosco a sua opinião.
-Eu? …Penso que… é cara!
-Também é um ponto de vista, acho que digno de ser
discutido durante mais 3 horas!
A conversa estava a ser bastante aborrecida, até o guarda
começar a falar:
-Vamos então escolher a pessoa para vigiar o Poço da Morte
esta semana. Vou escrever os nomes das pessoas presentes nesta
sala nestes papéis. Vai ser sorteado alguém, e esse alguém será o
vigilante. Ok?
-Força! – Diziam as pessoas em coro.
-Então pronto. Vou tirar um papel… e é….Sr. Gay Salas!
-Não há nenhum Gay Salas aqui!
-Então não há? Como se chama aquele mexicano novo?
-Gonzalez!
-Ah, é quase igual!
-Sr. Gonzalez, vai ficar de vigia durante uma semana. Tem
aqui o mapa dos bosques, visto que não os conhece. É bom que
uma identidade tão secreta como a nossa deposite total confiança
numa cara recentíssima e estrangeiríssima como a sua, por
alguma razão que passa despercebida até a nós! Agora está na
altura do lanche!
Como Osório e Bartolomeu não tinham biscoitos, foram-se
embora antes que os gozassem, esperando pelo dia seguinte para
explorar bem aquele poço que destruiu tantas vidas… O Poço da
Morte.

XII- A entrada secreta

Quando o Sol nasceu de novo em Dobadeira, “Sr. Gonzalez


e extensão” foram instintivamente para os bosques à procura da
entrada secreta, na qual tanto ansiavam entrar. Ao passar por esta
zona, repararam numa grande agitação. Então, encontraram por
perto umas câmaras da TBI. O Poço estava a ser alvo de uma
reportagem, mas a questão era, porquê?
-Que é que se passa aqui?!
-Calma, miúdo, não podes estar aqui! Estamos a fazer uma
reportagem! Tens de ficar atrás daquelas fitas, vês?
-Opá, isso não me interessa! Tens de nos deixar passar!
Descobrimos algo importante!
-Primeiro: não me trates por “tu”. Tenho para aí o quádruplo
da tua idade, “pá”! E segundo: o que é que descobriste que não
pode esperar?
-Foi… hã… nada. Desculpe, senhor.
-É assim mesmo. Respeitinho. Bem me parecia que nada
poderia ser mais estrondoso do que a entrada secreta que nós
encontramos!…
-ENTRADA SECRETA?!
-Sim, e escusas de gritar! Eu sei que é chocante!
-E como!
-É… agora pira-te que temos muito que fazer!
Então, Osório e Bartolomeu deixaram os bosques com uma
cara de desânimo total. Assim, Osório lembrou-se:
-Espera aí… eu já vi a cara daquele jornalista em algum
lado! Ele foi o homem que nos abriu a porta na reunião dos
M.D.P.D.M.!
-Pois foi! Estou mesmo a imaginá-lo a dizer: “e os
biscoitos?”.
-Tive uma ideia! Passamos por ele com o disfarce do
Gonzalez e dizemos que vamos guardar a entrada secreta!
E lá foram eles outra vez para a floresta, mas desta vez a
conversa foi diferente:
-Olé… Yo soi Sr. Gonzalez, e queria guardar a entrada…
-Palavra-passe?
-Outra vez? Biscoitinhos.
-Essa foi a de ontem!
-Ah… então… sei lá… Bolachinhas?
-Pode passar.
-Será que estes gajos não pensam em nada para além de
comida? – Sussurra Osório para as pernas.
E então, depois de passar pelo “jornalista”, finalmente
encontraram a entrada secreta, seguidos pelo mapa. A entrada
estava muito bem escondida, pois estava no meio dos arbustos
mais altos e à entrada tinha uma placa que dizia “sessão de
autógrafos do Toy”. O silêncio que se sentia estava explicado.
Quanto mais entravam, mais escuro ficava, até que Bartolomeu
usou mais uma vez a sua lamparina de álcool, desta vez sem
queimar um único papel, pois não existia nenhum nas paredes.
-Acreditas que estamos prestes a desvendar o mistério do
Poço Da Morte?!
-Não. Iuhu… que emoção… Iupi.
-Que é que tens? Isto é muito excitante!
-Epá… aonde queres chegar?!
-Não te preocupes, não te vou violar.
-Ah, que alívio!
-É… Mas porque é que estás tão desanimado?
-Já viste se alguém nos descobre? Estamos condenados! E
ainda por cima, estamos enterrados num sítio que já matou várias
pessoas, incluindo a tua tia!
-Eu sei… E é por isso que eu estou a fazer isto. Só tenho
vingança em mente!... E conto contigo para me ajudares a vingar
a morte da pessoa que cuidou de mim praticamente toda a minha
vida… que me amou… que me ensinou a andar, a ler e mais
importante ainda… a amar! Então, ajudas-me?
-Chuif… Essas tuas tretas sentimentais puseram-me a
chorar! Claro que te ajudo! Tens jeito para enganar pessoas!
Devias ir para político.
-Já pensei nisso… Mas depois fui à casa de banho e aquilo
com a descarga foi tudo abaixo. Vá, agora temos muito que
explorar! Vens?
-Não.
-Não vens comigo?
-Ah, vou! Pensei que estavas a perguntar-me se eu queria
participar no próximo filme do Steven Spielberg sobre depressões
económicas!
-Então vamos lá! Vamos dar cabo desses M.D.P.D.M.!!
-Vamos!
E foram…foram…foram…foram… foram…foram… e …
continuaram a ir… foram…foram….foram… e foram…
recuaram quando viram uma abóbora que lhes pareceu um pedaço
de queijo falante repulsivo… e depois foram. Quando chegaram
ao fim de toda esta ida, encontraram mais uma vez vários túneis:
o “ Sala de Execução”, o “ Corredor da Fama” e o “ Armazém dos
Biscoitos”. Entraram em primeiro lugar no “Armazém dos
Biscoitos”. Era bom. 2 horas mais tarde, entraram no “Corredor
da Fama”. Era uma sala de cerca de dois metros de comprimento
e tinha apenas uma fotografia com uma mensagem: “este homem
foi muito importante para os M.D.P.D.M., pois criou-os.” Havia
também outra mensagem, mas sem fotografia: “ este
homem/mulher foi ainda mais importante para os M.D.P.D.M.
porque criou a hora do lanche nas reuniões. É pena ninguém se
lembrar da cara dele… Mas eu acho que foi um tal de
Rebeldino…” E depois de visitarem o “tão concorrido” Corredor
da Fama, entraram na “Sala de Execução”. Finalmente iriam
descobrir todos os segredos guardados sobre o Poço. Estava tudo
atrás daquela porta. Ou não?
-Estás preparado, Bartolomeu? É agora. Vou abrir a porta…
Já está! O que é que diz aqui? “ Sala de Execução – 500 metros à
frente”?! Chiça! Já estou farto de andar!
E então percorreram os últimos 500 metros, pois agora
poderiam ter a certeza que a sala de execução estaria perto
deles…
Lá chegaram. Desta vez, era mesmo a Sala de Execução. E
aí toda a informação histórica do Poço se encontrava escrita ou
gravada. Tinham até a lista de mortes: “Sra. Valíqua”.
-O quê?! A única vítima do Poço foi a minha tia?! Então e
os outros que foram anunciados na televisão?
-Todos esses nomes estão nesta lista.
-E qual é o título?
-Hã… “Os M.D.P.D.M.”! Então foi tudo uma farsa! Eles até
controlaram a televisão!...
-Mas porquê a minha tia? Porquê?!
-Aqui diz: “A senhora Valíqua possuía um grande fascínio
sobre a nossa criação, e tenho a certeza que poderia vir a tornar-se
um grande obstáculo ao nosso plano.”
-Mas se antes da minha tia não tinham matado ninguém,
então qual a necessidade de criar um organismo secreto como este
só com o objectivo de meter medo às pessoas?!
-Aqui diz: “A necessidade de criar um organismo secreto
como este só com o objectivo de meter medo às pessoas era
precisamente para que estas ficassem bem longe do bosque, já que
é onde fazemos grande parte da plantação ilegal de marijuana.”
-Mas como terá a minha tia descoberto sobre isto?!
-Aqui diz: “A senhora Valíqua era uma das nossas melhores
clientes nas lojas fora da cidade, mas sempre teve curiosidade de
conhecer a fonte.” Hum, isso explica os ataques que ela tinha, a
constante necessidade de abrir ao máximo os olhos ou a vontade
de me lamber.
-Mas aí está a informação toda do mundo?! Vê se diz porque
é que este ano o Salgueiros não venceu a Taça Intercontinental de
Cricket!
-Hum... ah, aqui diz: “Salgueiros perdeu a Taça
Intercontinental de Cricket para uma equipa japonesa, pois os
jogadores sentiam-se intimidados pelo dialecto utilizado pela
formação opositora. Não sei porque é que temos esta informação
exposta, mas quem sabe possa dar jeito àqueles que não tiverem
conhecimento deste facto e por acaso passarem por aqui.”
-Desisto. Só quero perceber qual é o real mecanismo deles!
-Olha, Osório… Está aqui tudo… Foi assim que eles o
fizeram! …
-Que engenhoso! Eu bem que suspeitava! Agora, eles vão
pagar por tudo que fizeram! E já sei como!

XIII – A Vingança

Era um novo dia na pacata aldeia de Dobadeira. O sol nascia


ao seu ritmo normal, ao contrário da raiva acumulada por Osório,
pois essa sim, aumentava mais do que as taxas de juro em
Portugal ou noutro país qualquer acabado em “al”, como Senegal.
Osório passara a noite toda com Bartolomeu a engendrar o
plano mais fantástico desde que o seu amigo Carlos justificou as
suas faltas, metendo um par de tangerinas nas calças e afirmando
ter elefantíase escrotal.
E para manter a rima no fim dos parágrafos, tenho de
afirmar que sofro do hemorroidal.
Eram 10 da manhã, Osório acordava e tomava o pequeno
almoço na sua nova e luxuosa casa. Tomou um leite numa caneca
do Snoopy, pois a do Garfield mete-lhe um certo medo. Comeu
também um pacote de bolachas da marca “Ai, que essa doeu!”,
nome esse que surgiu quando o seu criador chegou a provar a
bolacha. E, por fim, via-se confrontado com o dia mais importante
para si a seguir àquele em que teve o primeiro beijo, beijo esse
partilhado com um candeeiro, com quem teve 3 filhos iluminados,
um de nome Ruben.
Bartolomeu toca à sua porta. Parece contente, para não dizer
extasiado. Pronto, extasiado.
-Osório, é hoje!
-Pois é!
-Pronto, só queria avisar.
-Obrigado.
Como se pode averiguar ao longo de todo este episódio real,
as conversas entre estes 2 rapazes são como que estúpidas, já que
nenhum deles possui um “parlapié” sofisticado aqui como o caro
narrador.
Ambos puseram as mochilas às costas. Pareciam ansiosos
por realizar tudo o que pensavam realizar neste lindo dia de céu
cinzento.
Entretanto, circulava ainda na televisão a entrevista ao
sujeito porteiro das reuniões dos M.D.P.D.M., entrevista essa
inventada por estes de forma a pôr um fim a toda esta história,
pois corriam o risco de lhes descobrirem a careca, principalmente
esse mesmo porteiro, porque esse é mesmo careca. Como tal,
pensaram em fazer uma investigação pública para ver o que
estava por trás deste poço misterioso mas, para não levantar
suspeitas, esta entrevista era realizada por outra entrada secreta,
uma que poria todas as culpas das mortes sinistras num guaxinim
de 3 orelhas. Como fazer isso, só eles sabiam…
Ao sair de casa, Osório ouve na televisão:
-“Bem, e vamos agora penetrar a entrada secreta, que
decerto nos revelará todo este mistério que o Poço da Morte já
nos causou! Estamos simplesmente aguardando que um dos
rapazes que nos acompanharão vá a casa telefonar para o seu
dentista, para cancelar a sua consulta de sexta-feira à qual não
poderá ir devido ao facto de se ir encontrar doente nesta mesma
próxima sexta.”
Ao ouvir isto, Osório vira-se para Bartolomeu e diz:
-Bamos lá para ver se conseguimos fazer tudo antes de eles
aparecerem!
-Ok, mas “bamos”? Não queres dizer “vamos”?
-A culpa não é minha, é do narrador, sabes como é, nos
teclados o “v” e o “b” ficam mesmo ao lado um do outro, por isso
às vezes confunde-se…
-Ok, encontras-te perdoado então.
E após mais um diálogo interessantíssimo, seguiram um
célere rumo em direcção ao bosque, onde poriam em prática todos
os passos do seu plano.
-Chegamos, Osório – profere Bartolomeu, obviamente, visto
que só estavam os dois e um deles se refere ao outro como
“Osório” – que fazemos agora?
-Agora, temos de entrar pela passagem secreta real, não a
que eles inventaram!
E assim foi. A equipa televisiva já se encontrava dentro do
túnel que iria dar ao dito guaxinim. Ao aproximar do final deste
túnel, ouvem-se as palavras do M.D.P.D.M. careca:
-Estamos a poucos segundos de descobrir o segredo por trás
deste local de chacina! Preparem-se para ver o verdadeiro cérebro
deste massacre! É um… guaxinim! Ali está ele! Onde está ele?!
-Que guaxinim, homem?! Este túnel ainda tem muito para
percorrer!
-Sim, claro! Que esquisito… podia jurar que acabava
mesmo aqui…
-Bem, mas continuemos na mesma, pelos vistos não acaba.
E o mais interessante é que este túnel tem ar de ter sido criado
muito recentemente!
-Sim… muito interessante… - diz o careca, entre dentes.
Após muitos mais metros do que seria de esperar por parte
do calvo, e para espanto de muitos, esta equipa encontra-se num
lugar com 3 portas, portas essas que diziam: “Armazém dos
Biscoitos”, “Corredor da Fama” e “Sala de Execução”. Ao ver
isto, o homem depilado a nível capilar profere:
-Não é possível!! Isto não era suposto estar aqui!
-Isso quer dizer que sabe o que isto é, caro Sr. Careca?!
-O meu nome é Jerestrulino!
-Já não é mais. O que é isto?!
-Não sei… Não faço ideia…
-Bom, então vamos à “Sala de execução”, que penso que é a
que intriga mais pessoas, logo a seguir ao “Armazém dos
Biscoitos”…
Assim que abrem a porta, deparam-se com uma série de
monitores que mostram individualmente as várias acções
criminosas dos M.D.P.D.M, às quais o planície cabeçuda não era
excepção. O director da TBI exige uma explicação:
-Sr. Careca, exijo uma explicação!
Hey, isso foi o que eu disse!
-Ah, peço desculpa, senhor narrador. Sr. Careca, que vem a
ser isto?!
-Hã… eu posso explicar!
-Pode?!
-Não.
-Então porque é que disse que podia?!
-Para enquanto que perdemos este tempo a discutir eu já me
ter posto ao fresco! – diz o careca, já bem longe da equipa
jornalista. Gostaria de realçar a ironia do recurso ao termo
“fresco”, já que deve ser a sensação que este tem na cabeça
precisamente enquanto foge correndo, como que uma corrente de
ar solta em toda a sua ausência de capilaridade.
Subitamente, aparecem Osório e Bartolomeu na Sala de
Execução, e falam com o director:
-Não se preocupe, este patife não vai ter um final feliz!...
E ao dizer isto, ambos primem uma série de botões, aos
quais a resposta imediata é um grito audível em toda a estrutura
subterrânea. Um grito de desespero, mas também algo maricas.
Esse grito… era o Sr. Careca… a cair… no Poço da Morte.
Como, perguntam vocês?
-Eu respondo a esta, oh narrador – diz aquela coisa chata a
quem foi concebido o nome de Bartolomeu. – Como se pode ver,
nós já sabíamos da existência de um organismo por trás das
mortes aqui neste poço, mas não queríamos expor-nos
publicamente, já que poderia vir a ser perigoso. Então, entramos
neste túnel e pedimos a uma toupeira nossa amiga, conheci-a na
festa de anos de uma iguana, que escavasse um grande buraco até
o outro lado do túnel, onde todos vocês se encontravam, e onde o
careca morto ali vos queria levar para que acreditassem que era
mesmo um guaxinim por trás desta história. Feito este túnel, foi
só escondermo-nos no “Corredor da Fama”, pois sabíamos que
ninguém ia entrar aí, principalmente com um armazém de
biscoitos mesmo ao lado. E o resto, já vocês sabem.
Relativamente a sabermos como é que estes patifes manipulam o
Poço da Morte, descobrimos que este trabalha através da atracção
magnética e que eles punham uns micro-ímanes nas costas das
pessoas com um poder tão forte que seria capaz de as atrair para o
poço, apesar da vontade de algumas pessoas não ser essa. E
pronto, também nós pusemos uma grande quantidade de ímanes
nas costas deste careca, e activamos o poço aqui nesta sala.
Quanto a todos os outros M.D.P.D.M.’s, enviamos cartas
ameaçadoras em nome do Mike Tyson, apelando a que todos eles
emigrassem para as Canárias, se quisessem sobreviver.
-Bravo, garotos! Vocês foram uns heróis, e esta sim, é uma
história digna de se passar na televisão! Como recompensa de
apanharem uns bandidos perigosíssimos, evitar a morte de muita
mais gente e salvar o país de uma grande mentira, acho que é
totalmente justo se vos dermos como oferta da Agência Abreu, 2
rebuçados!
-Está a brincar, não?
-Não, são mesmo vossos!
-A sério?! Obrigado! Eu sabia que valia a pena todo o
esforço!
E assim foi o dia destes bravos heróis de Dobadeira.
Osório… e Bartolomeu. A partir de então, foi só farras e festas
todas as noites, até Bartolomeu morrer de coma alcoólico na festa
dos 13 anos de Osório e este, do seu funeral em diante, se
transformar num assassino imparável cujos alvos eram as pessoas
com as gravatas mais engraçadas que se podem encontrar na
actualidade. Uma, até tinha mesmo uma fila de próstatas. História
verídica.