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COLEÇÃO NOVOS UMBRAIS

Conselho Diretor

Afonso Celso Pastore


Nelson Gomes Teixeira
Pedro Tuccori
Nelson Rosamilha
Samuel Pfromm Netto
Oliveiros S. Ferreira
Paulo Edmur de Souza Queiróz

CIP-Braall. Catalogaçio-na-Publlcaçio
Clmara Braallelra do Livro, SP

Kastenbaum, Robert, 1932-


K3lp Psicologia da morte/ Robert Kastenbaum, Ruth
Aisenberg; tradução de Adelaide Petters Lessa.
-- Ed. concisa. -- são Paulo : Pioneira : Ed. da
Universidade de são Paulo, 1983.
(Coleção novos umbrais)
1. Morte - Aspectos psicológicos I. Aisenberg,
Ruth, 1929- II. T!tulo.

17. CDD-155.93
83-0443 18. -155.937
lndlcaa para catálogo alatamétlco:
1. Morte : Aspectos psicológicos 155.93 (17.)
155.937 (18.)
2. Morte : Atitudes comportamentais : Psicologia
155.93 (17.) 155.937 (18.)
3. Morte : Influências psicológicas 155 ■ 93 (17.)
155.937 (18.)
5
O CONTEXTO CULTURAL DA MORTE
1: ONTEM

Dizem-nos que é futilidade pensar na morte. Aconselham-nos a


"não tomar conhecimento" dela pois refletir sobre a morte é pôr doentes
o coração e a mente, sem qualquer proveito. E nos dizem que a ·única
maneira correta de levar a vida é considerar diariamente, se não hora
após hora, o inevitável momento para o qual toda carne se dirige.
Dizem-nos que a morte é um fato biológico, não mais importante
que a pontuação ao fim de uma sentença. E nos dizem que a morte é
o acontecimento supremo de nossa existência, o fato que dá significação
a tudo o mais em nossas vidas.
Dizem-nos que a morte nega ou destrói todos os valores que desen­
volvemos no decurso de nossas vidas. E nos dizem que a morte transfi­
gura nossos valores, alçando-os a um nível mais alto do ser.
Dizem-nos que o medo de morrer é instintivo, profundamente enrai­
zado na natureza humana. E nos dizem que nas profundezas de nossa
psique nenhum de nós pode verdadeiramente acei�ar ou mesmo entender
a afirmativa de que somos mortais.
Pessoas sadias que refletem sobre a morre fazem-no com um riso
nervoso, ou com serenidade, ou com negação, resignação, intensidade,
indiferença, dúvida, certeza. Doentes crítkos e outros enfermos que se
defrontam com a morte iminente mantêm silêncio. Trata-se, às vezes,
de um silêncio aflito - outras, de um estóico, tranqüilo ou enigmá­
tico silêncio. Ou ainda, encaram a morte com manobras desesperadas,
expectativa ansiosa, terror, apatia, ou sentimentos mistos.

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Assim têm sido interpretados, em nosso contexto cultural, o pros­
pecto, e o evento, da morte. Quase todas estas interpretações, se não.
todas, constituem parte da herança que as gerações anteriores, as antigas
culturas, nos legaram. Contudo, nosso próprio zeitgeist prepondera. Ten­
demos a aceitar certas alternativas e não outras, e nosso ambiente
cultural pode estar gerando novas e significativas variantes de velhos
temas, talvez novos temas também.
Neste capítulo, exploramos alguns dos fatores culturais que contri­
buem para a orientação do indivíduo em relação à morte. Por "orientação
quanto à morte" queremos significar a amplitude total de pensamento,
sentimento e comportamento direta ou indiretamente relacionada com
a morte. Isto inclui concepções de morte, atitudes para com moribundos,
práticas funerárias, e comportamentos que resultam em abreviar ou
estender a duração da vida de um indivíduo. Discutimos muitos destes
tópicos com mais detalhes em outras seções deste livro. Aqui, estamos
interessados principalmente em desenvolver uma perspectiva geral sobre
a relação entre contexto cultural e orientação quanto à morte.

MORTE E CONDIÇÕES DE VIDA


Comecemos pela consideração de algumas características do contexto
cultural que parecem particularmente importantes na modelagem de
nossas interpret�ções sobre a morte. A situação hoje predominante nos
Estados Unidos será comparada e constrastada com condições que impe­
raram em outros tempos e lugares. Esta apresentação será necessaria­
mente breve e seletiva.
Há grandes diferenças a observar nas várias sociedades focalizadas.
Entretanto, certas condições básicas de existência prevaleceram na
maioria das sociedades, desde épocas .remotas até pelo menos os primór­
dios de nossa era. Propomos quatro condições, mencionadas a seguir,
que contribuíram significativamente para o contexto da vida do qual
emergiram as interpretações sobre a morte.
Talvez a condição mais óbvia fosse a expectativa de vida, bastante
limitada, com que o homem se defrontou ao longo de quase toda a sua
história. Relativamente poucas pessoas sobreviviam além dos primeiros
anos de maturidade. Tão altos eram os índices de mortalidade infantil
que os recenseadores geralmente não se davam ao trabalho de incluí-los
em seus cálculos. Mortes associadas a parto incluíam não só as mulheres
que morreram ao dar à luz, ou o fizeram logo depois, mas também
aquelas cuja saúde era arruinada por múltiplas gestações, das quais uma
alta proporção seria de natimortos. À duração da vida, caracteristica­
mente limitada de muitas sociedades anteriores à nossa, associava-se a
relativa falta de importância conferida à adolescência e à velhice. Não

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sobrava muito tempo para desperdiçá-lo transitando da infância para as
responsabilidades do adulto, dado o prospecto de que os anos de maturi­
dade seriam limitados em número (1). Um número diminuto de pessoas
morria de velhice, embora quem sobrevivesse até idade avançada, conser­
vando seu vigor físico e mental, viesse a exercer considerávçl influência
social (2).
A segunda condição era ver-se em presença da morte, isto é, assis­
tir ao desenlace de alguém ou deparar com pessoas já mortas, bem
como animais. A pessoa comum dispunha de relativamente pouco isola­
mento para não testemunhar a morte.
A terceira condição era o senso de possuir reduzido controle sobre
as forças da natureza. O mundo era uma residência suspeita, às vezes
segura e confortável, mas, em outras, opressiva, devastadora, desenrai­
zando seus habitantes. E por que motivo, com que fim? Os caminhos
do mundo eram misteriosos, difíceis de se compreender. Se o homem
antigo sentia-se relativamente impotente no mundo, devido ao que hoje
chamaríamos de sua falta de conhecimento científico substancial, então
é porque ele não tinha confiança renovada em sua tecnologia.
A estas condições ambientais devemos agora acrescentar pelo menos
um elemento psicossocial: o status do indivíduo.
Filósofos e historiadores sociais expressaram a opinião de que o
conceito de individualismo teve reduzido desenvolvimento no mundo
antigo (3, 4). A pessoa era primordialmente um componente da socie­
dade, uma unidade que preenchia suas expectativas de papel social
dentro dos ditames do costume. Sua linhagem e posição na vida eram
os dados importantes. A família de membros numerosos, o clã, a tribo
ou a cidade proporcionavam a força e a continuidade necessárias. O
bem-estar do indivíduo era relevante primeiramente para seu desempenho
de obrigações no grupo.
Nem todas as condições ora mencionadas tinham igual predomínio
em dada sociedade em um momento particular de sua história. Mas
parece que estes fatores propiciaram importante parte do contexto para
as primeiras interpretações da morte. Cometeríamos um engano se consi­
derássemos os mitos e outras concepções de morte isolados destas
condições fundamentais da vida.

O SISTEMA MORTUÁRIO
Sugerimos que palavras e ações concernentes à morte sejam consi­
deradas como constituindo, juntas, um sistema. Todas as sociedades de­
senvolveram um 01,1 mais sistemas fúnebres pelos quais podiam se
entender com a morte em seus aspectos pessoais e sociais. Vejamos alguns
desses sistemas desenvolvi�os nas condições de vida que acabamos de
delinear.

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Os eg1pc1os da antiguidade desenvolveram um sistema bastante
explícito e detalhado. Seu Livro dos Mortos (5), à semelhança de seu
equivalente tibetano com o mesmo título (6), traçava as linhas mestras
de um amplo sistema mortuário, embora quase sempre sob a forma
de prescrições para as práticas fúnebres. Este sistema ensinava - ou
pelo menos destinava-se a ensinar - uma abordagem relativamente
integrada que permitiria aos membros individuais pensar, sentir e agir
em relação à morte de maneira considerada apropriada e eficiente. O
sistema egípcio oferecia uma visão explícita do mundo, patrocinada
pelas autoridades governamentais, partilhada pela comunidade, e vincula­
da ao comportamento individual em termos específicos. Dentro deste
sistema, a crença do indivíduo era a crença da sociedade. Ele não estava
sozinho. E ele tinha ações de relevo a desempenhar na situação fúnebre
total, desde o processo agônico até aos cuidados com o morto.
Estas ações tinham importância de dois pontos de vista. Do ponto
de vista do indivíduo, suas ações pesavam porque, através dos sacrifí­
cios e rituais, ele realmente produzia um efeito na seqüência total de
eventos entre o processo de morrer e o pleno status na comunidade
dos espíritos. Do ponto de vista de um observador psicologicamente
orientado, as ações pesavam, não porque tivessem qualquer efeito real
no destino do morto ou nas futuras relações entre morto e sobrevivente,
mas porque correspondiam a funções vitais ao indivíduo e à sua socie­
dade. Talvez a função mais importante fosse a prescrição de conduta
que dava ao indivíduo algo a fazer de modo que ele não se sentisse
extremamente inútil. A crença no controle mágico sobre as poderosas
forças da morte e sobre a pós-vida estimulou ainda mais os egípcios
a pensarem na morte como uma ocorrência bem demro de sua esfera
de ação.
O sistema mortuário egípcio surgiu em uma sociedade que havia
atingido um nível relativamente alto de desenvolvimento intelectual e
tecnológico. Mas há muito o que aprender dos sistemas fúnebres em
numerosas sociedades menos adiantadas, que existiram antes e depois
dos antigos egípcios. Observações antropológicas são abundantes (7, 8, 9).
Focalizaremos um exemplo, o dos homens das tribos malaias descritos
por Robert Hertz (10).
O sistema mortuário malaio assemelha-se a outros muitos encontra­
dos em sociedades "primitivas" ou pré-letradas. A morte não era um
evento imediato e final - ou seja, a cessação do que chamaríamos vida
ou funções vitais em um ser humano constituía apenas uma fase de
um processo gradual. Trata-se de um processo de transis:ão análogo a
outros acontecimentos transitivos como o nascimento, o desmame, a
puberdade, o casamento. O processo fúnebre começava antes do faleci­
mento físico, nas mentes e ações da comunidade (pressupondo que a
morte não fosse inesperada e repentina). A cessação física introduzia

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uma fase intermediária durante a qual dava-se ao corpo um enterro
provisório. A alma permanecia próxima de seu prévio habitat enquanto
os sobreviventes realizavam o necessário trabalho de lamentação. Os
rituais <le desolação pela perda continuavam até o cadáver atingir 0
estado de putrefação em que obviamente a alma o abandonava por
completo, ganhando acesso ao mundo espiritual. Neste momento, efetua­
va-se o enterro definitivo e punha-se um término aos rituais.
Diversos pontos devem ser aqui ponderados como relevantes:
1. O sistema malaio, à semelhança do egípcio, girava em torno de
práticas fúnebres.
2. Estas práticas, eram decididamente comunitárias; as reações indi­
viduais ficavam relegadas a plano secundário.
3. Atenuava-se a distinção entre vida e morte, em vez de acentuá-la.
Isto se obtinha a) concebendo-se a morte como um processo em lugar
de um evento instantâneo; b) encarando-se o processo como uma transi­
ção a mais dentro da organização social; c) dando-se aos sobreviventes
um senso de participação ou de interação com o morto.
4. O padrão completo dos ritos fúnebres tinha a função não só de
aliviar a ansiedade ou o pesar dos indivíduos, mas também a de afirmar
a força e a viabilidade da comunidade. O sistema mortuário era o meio
que a sociedade encontrava de reconstituir sua integridade após a perda
de um de seus membros.
Este último ponto merece ampliação. Hertz escreve:

A morte não termina apenas com a vida corporal do indivíduo;


também destrói o ser social enxertado no indivíduo físico e a quem
a sociedade atribuía grande dignidade e relevo. Sua destruição
equivale a sacrilégio, implicando em intervenção de poderes com
a mesma magnitude dos poderes da comunidade mas de natureza
negativa. Assim, quando um homem morre, a sociedade perde com
ele muito mais que uma unidade; ela é golpeada no próprio
princípio que lhe fundamenta a existência, na fé que tem em si
mesma (11).

A partir deste argumento, esperaríamos que a resposta do grupo à


morte fosse proporcional à significância atribuída ao indivíduo em parti­
cular e ao tipo de morte. As descrições de Hertz corroboram estas duas
hipóteses. A fé do grupo em sua magia vital parecia mais ameaçada
quando uma pessoa jovem, vigorosa, sofria morte súbita. Intensificavam­
se os rituais nestas circunstâncias. O grupo procurava superar a magia
mortal de forças estranhas. Por isso, mais cedo ou mais tarde, o poder
do grupo triunfaria sobre a morte.
Hertz sugere que a morte é, simultaneamente, um teste crítico para
a integridade do grupo e u,ma ocasião para fortalecer esta integridade

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(se o sistema mortuário acha-se, digamos assim, em bom estado de con­
servação). Resta ainda a implicação de que cada sociedade pode desen­
volver uma idéia característica do que a morte é, baseando-se em sua
combinação particular de condições de vida (como índice de mortalida­
de, nível de tecnologia, etc.) e em sua resposta às circunstâncias da
morte (o próprio sistema). Por isso, não nos deveria surpreender a
descoberta de que nossos sentimentos e definições familiares referentes
à morte são destituídos de universalidade.

Em nossa própria sociedade, é opinião geralmente aceita de que


a morte ocorre em um instante. O único propósito dos dois ou
três dias de demora entre o falecimento e o enterro é permitir que
se façam os preparativos materiais e se convoquem os parentes e
amigos. Nenhum intervalo separa a vida no além da vida que se
findou; assim que se exala o último suspiro, a alma comparece
ante seu juiz e prepara-se para receber a recompensa por suas boas
ações ou para expiar seus pecados. Depois desta súbita catástrofe,
um período mais ou menos longo de luto começa. Em certas datas,
especialmente no "primeiro aniversário" da morte, realizam-se ceri­
mônias comemorativas em honra do extinto. Esta concepção de
morte, e seu padrão particular de eventos da agonia ao luto, nos
são tão familiares que dificilmente podemos imaginá-los desneces­
sários. Contudo, os eventos em sociedades menos adiantadas que a
nossa não se ajustam ao nosso molde. . . Esta diferença de costu­
mes não é, pois, mero acidente; põe em relevo o fato de que a
morte não foi sempre representada e sentida como o é em nossa
sociedade (12).

A MORTE NEGRA E SUA ÉPOCA

A experiência e representação · da morte nem sempre se cont6,m


dentro de estruturas sociais existentes. Uma sociedade pode vergàr quan­
do assaltada por intenso e difuso encontro com a morte - especial­
mente quando é uma sociedade já afetada por graves perturbações
econômicas, sociais e psicológicas. Sob tensão maciça e prolongada é
possível que o próprio sistema mortuário contribua para o caos, talvez
da mesma forma que um organismo pode ser ameaçado por seus próprios
mecanismos de ajustamento à tensão (13). Os últimos séculos da Idade
Média nos dão um vívido exemplo de uma sociedade atormentada não
só pela morte repulsiva e incontrolável, mas também por seu sistema
mortuário desequilibrado. O século catorze pode ser tido · como o auge
deste período e merece nossa cuidadosa atenção.
As condições de expectativa de curto prazo de vida, presença . a
cenas de agonia e morte, e desamparo em meio à catástrofe nunca
estiveram em maior evidência. Gowen, por exemplo, escreve:

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No século catorze . . . acumularam-se mais péstes e epidemias sin­
gulares do que em qualquer outro período. Sem contar a fome
que, na segunda década do século, juncou de mortos os caminhos
e induziu ladrões prisioneiros a se devorarem uns aos outros nem
os inclementes flagelos de algumas das doenças mais comuns 'como
sarampo e varíola, vinte vezes provavelmente a peste assolou várias
regiões da Europa; além disso, a bruxaria reinava soberana, e a
loucura dos Fl�gelantes era quase universal; a coréia, de uma forma
ou de outra, infestou diversos países europeus - a dança de s.
Vito e a dança de S. João no norte da Europa, e o tarantismo
na Itália; e a mais terrível de todas as doenças (embora a menos
difundida), o fogo de Santo Antonio (erisipela), grassou particular­
mente na França e na Inglaterra. Verdadeiramente, este foi um
século de doenças malignas pútridas (15).

E esta horda de "doenças malignas pútridas" assolava uma socieda­


de que sacrificara gerações de crianças .e de jovens em uma sucessão
de cruzadas - aventuras que, entre outros efeitos, devem ter servido
para reintroduzir a peste bubônica. Além disso, este foi também um
século de operações bélicas nas quais a brutalidade era o lugar comum.
A guerra e a peste matavam ao mesmo tempo, como sucedeu aos tárta­
ros, mortos aos milhares - de doença - todos os dias enquanto sitia­
vam Teodosia. Cadáveres com a doença eram arrojados à cidade,
espalhando a peste entre os defensores que, depois, a levaram por toda
a Europa em sua fuga desesperada (e inútil) (16). O povo enfraquecido
apresentava pequena resistência aos incêndios, terremotos e outras des­
graças. Sobretudo, foi durante estes mesmos anos de sofrimento e vulne­
rabilidade intensificados que a Inquisição começou a usar ·a tortura e a
morte como instrumentos oficiais de política administrativa (17).
Mesmo dentro desta configuração de pesadelo, havia um terror
especial associado à peste bubônica. Embora este tópico seja extrema­
mente desagradável, não podemos passar por alto o fenômeno específico
da peste se quisermos avaliar as circunstâncias com que se defrontou
o europeu do século catorze. Hoje, de uma perspectiva segura, podemos
descrever a peste em seus aspectos etiológicos, clínicos e estatísticos:
• Um microrganismo em forma de bastonete, Pastuerella pestis, deslo­
cando-se em um ciclo rato-pulga-homem; altamente contagioso.
• Dor de cabeça, tontura e febre, seguidas de hemorragia pelo nariz
ou escarros de sangue, entumecimento dos glânglios linfáticos nas axilas,
virilhas ou pescoço, grave inflamação dos pulmões e da garganta, sede
intensa, violentas dores no peito, delírio, e manchas escuras na pele
que deram à doença seu nome familiar de Morte Negra.
• Provavelmente fatal a, pelo menos, 90% dos indivíduos que sofreram
o contágio; provavelmente destruiu, pelo menos, um quarto da popula­
ção terrestre, inclusive comunidades inteiras (18). -

155
E:t -.ita ã e' fat : pen - dá � a g eia re
do indivíduo. Ele só poderia ver a f lone e:preitando a
terreno. Medicina, religião e magia tinham pouco ou nenhum efeito,
embora todas se lançassem ao combate. Tanto as crianças quanto os
adultos estavam perfeitamente conscientes de que a morte os aguardava a
um passo - os que ainda não sofriam de peste bubônica já estavam
padecendo pelas escassez de alimentos e pela agitação social generalizada
que. acompanhavam a aniquilação em massa. A mente do indivíduo tinha
de absorver a vista e o prospecto da morte de forma particularmente
perturbadora - a morte chegando prematura, a morte agarrando com
mão invisível, a morte infligindo tormento insuportável, a morte fazendo
do homem um objeto repugnante para si mesmo e para os outros até o
delírio final. O leitor que imagine as mais estarrecedoras situações em
hospitais, navios e prisões, o tipo mais cru de práticas funerárias, as
combinações mais desesperadoras de doença, fome e ignorância, e estará
muito próximo da realidade. Talvez não seja necessário entrar em mais
detalhes.
A peste bubônica e o terror a ela associado tiveram enorme impacto
em toda a estrutura social. As coisas nunca foram as mesmas mais tarde.
Seria um empreendimento fascinante e significativo explorar o impacto
total da morte nos últimos anos da Idade Média sobre as gerações
seguintes - inclusive a nossa. Mas esta empresa está além do escopo
deste livro e da competência de seus autores. Aqui, o que principalmente
nos interessa é a resposta psicológica e social a esta arrasadora forma
de morte.
O sistema mortuário medieval não podia oferecer uma defesa
tecnológica eficiente. A maioria dos procedimentos médicos e quase-mé­
dicos eram completamente inúteis; não abrangiam os necessários métodos
de higiene e saneamento público. Controles e ajustamentos sociais não
tornavam muito mais leve a carga do indivíduo. As autoridades se viam
excessivamente assediadas, até para dirigir o recolhimento e a destinação
dos cadáveres, e o regime de urgência não lhes permitia dar consolo
aos vivos. Temos, pois, de concluir que era o indivíduo - preparado
ou não - quem tinha de arcar com a fúria da Morte Negra, suportar
sua arremetida com os recursos emocionais e intelectuais que pudesse
reunir. Voltemo-nos agora para o componente psicológico do sistema
mortuário medieval. Como o homem do século catorze procurava aliviar
sua ansiedade? Ele foi bem sucedido? Que lições podemos tirar de tudo
isso?
Muitas interpretações da morte haviam surgido em épocas anteriores
à baixa Idade Média. Um estudo de epitáfios gregos e latinos, por
exemplo, revela que a morte despertava uma ampla variedade de emoções
e atitudes, apesar de geralmente ser encarada como uma desgraça, um
mal (19). O europeu do século catorze via a morte não só com seus

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próprios olhos, mas também pelo ângulo de visão da doutrina teológica
que continuava a fermentar e mudar através dos séculos. Choron assina­
lava que o Velho Testamento não oferecia escapatória à morte, nenhuma
promessa de gloriosa imortalidade. Como, então, superar a ansiedade e
a depressão? "A fé no único e onipotente Criador trazia consolo em
face da morte. Jamais seremos capazes de sondar a intensidade desta
fé, e a completa confiança na vontade de Deus, e o absoluto abandono
em Suas mãos" (20). Crédito ilimitado era a resposta.
Esta resposta não servia a todos. Os fariseus agarravam-se, firmes,
à crença na ressurreição dos mortos, e os romanos ocupavam-se com
rituais para assegurar a imortalidade (há quem pense que eles possuíam
uma pílula para isso). Segundo Choron, havia chegado a hora de uma
resposta nova e mais afirmativa. "O Novo Testamento proclama a
vitória sobre a morte . . . O maior e derradeiro inimigo. . . já está venci­
do" (21). A mensagem de S. Paulo, apresentando a ressurreição de
Cristo como prova, empolgou. A nascente teologia cristã oferecia o pros­
pecto da ressurreição na carne e no espírito, uma audaciosa promessa.
Os que desenvolveram seus sistemas mortuários em torno desta crença
central tinham motivos para rejubilar-se.
Chegados 'ao século catorze, contudo, pouco desse júbilo restava. A
vitória sobre a morte já não era tão certa, enquanto visões de eterna
tortura gradualmente se impunham:

O além tornou-se, graças aos esforços da Igreja, uma fonte de


terror e não de consolação. Em vez de recompensa, muita gente
só podia esperar castigo. A fim de garantir uma existência beatí­
fica no outro mundo, e não ser condenado eternamente às torturas
incríveis pintadas em cores vivas por Hieronymus Bosch e outros,
era necessário levar neste mundo uma vida que a maioria das
pessoas não podia suportar, exceto alguns ascetas ultradevotos. Ao
mesmo tempo, em conseqüência da atividade dos padres e das
ordens monásticas, uma aguda consciência da morte veio a difun­
dir-se amplamente. Expressava-se melhor pela sentença, Media in
vita in morte sumus (em meio à vida, estamos à morte) (22).

Dissabores após a morte constituíam apenas uma parte na negra


perspectiva. O evento da morte - o momento do último suspiro -
adquiria uma nova e proibitiva significação. Agora, a morte era consi­
derada o castigo de Deus para o homem. Não bastava a desdita de saber
que ele morria. Para completar a estória, a morte revelava suas culpas
e indignidades, à medida em que o transportava de uma crise pavorosa
· para a mortificação e o tormento intermináveis. Ao que parece, estas
idéias se desenvolveram como um tema verdadeiramente original. Spencer
nos recorda que "desprezar a vida humana, ruminar sobre a morte e

157
pensar no outro mundo não foram, é claro, doutrinas inventadas pela
ldade Média." Ele continua:

A filosofia de Platão, ensinando que a verdadeira realidade situa­


va-se além das sombras do mundo dos sentidos; a hierarquia metafí­
sica dos neoplatônico, identificando virtualmente o mal com a
matéria; o ensmamento dos estóicos, obrigados a enfrentar os males
do mundo que eles se esforçavam por negar; as visões dos ascetas
do Oriente Próximo que se esmeraram com crescente fervor de
detalhes em descrever as torturas e delícias do outro mundo -
tudo isto levou os homens a pensarem antecipadamente na morte,
e preparou o caminho para o desdém às habilidades naturais do
homem e para a ênfase no mundo do além - única atitude satis­
fatória que deveria manter as mentes sérias. Mas o cristianismo
acrescentou uma doutrina singular que a desilusão pagã e a filo­
sofia transcendental nunca mencionaram. Ensinou que a morte era
o castigo para o pecado do homem (23).

Além disso, o homem ainda sofre a dor de relembrar toda a sua


vida passada - atento, enquanto os demônios recitam todas as suas
más ações com grande deleite. E, se ele ainda retém a capacidade de
imaginar mais aflições, o momento da morte também separa o espírito
pecador ou despreparado do reino de Deus. O homerri está completa­
mente abandonado. "ó morte, onde está o teu ferrão? ó túmulo
onde está a tua vitória? Graças sejam dadas a Deus que nos dá a
vitória por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo" (24). O triunfo que S.
Paulo proclamou parecia menos garantido que às gerações passadas.
Em retrospecto, dificilmente nos surpreendemos ao saber que o
choque entre a Peste Negra e a teologia medieval levou ao desenvolvi­
mento de uma reação psicológica intensa e bizarra. Infelizmente, algumas
das mais úteis descrições desta reação psicológica omitiram a conside­
ração do contexto total. Mostram a resposta, mas não o estímulo. Temos
a esperança de que o contexto físico e intelectual aqui esboçado seja
suficiente para nos permitir encarar a reação psicológica à morte no
século catorze como mais do que uma fase curiosa de psicopatologia
social.
Geralmente se concorda que o tema da morte era central, difuso,
vívido, intenso - em suma, era o tema de interesse do homem do
século catorze. Spencer conclui que:

Mais do que qualquer outro período da história, a baixa Idade


Média preocupou-se com o pensamento da morte. Na Europa do
norte, durante duzentos anos - da metade do século catorze à
metade do dezesseis - a morte foi o tópico favorito de pregado­
res e escritores moralistas, e um dos temas mais comuns da arte
popular; e se um homem daquele tempo adotasse a doutrina

158
predominante nenhum objeto estaria tão freqüentemente, tão vivi­
damente, em sua mente quanto o esqueleto em que, um dia, ele
se tornaria (25).

A crescente preocupação com a morte como um terror físico e


teológico achou sua expressão no que poderíamos chamar de arte "pop"
do século catorze. Certamente, a morte tornara-se um objeto de percepção
e de pensamento tão familiar quanto os enlatados dos supermercados e
outros objetos a alguns artistas de anos recentes. Representações da
morte eram populares no sentido de que estavam em tudo - estátuas,
jóias, pinturas, gravuras em madeira, poemas, todos os meios para comu­
nicar uma visão artística do mundo dedicaram-se aos temas mortuários
(26). A morte tornou-se a moeda das comunicações _interpessoais; de
fato, memento mori apareceu em moedas, prendas, medalhas, roupas, e
todas as espécies de artigos do comércio humano.
Que orientação psicológica para com a morte expressava-se através
destes meios diversos? Huizinga afirma:

Ao findar a Idade Média, toda a visão da morte podia resumir-se


na palavra macabro, em seu sentido moderno. Este sentido, natu­
ralmente, é o resultado de um longo processo. Mas o sentimento
que ele incorpora, de algo repulsivo e funesto, é precisamente a
r;çmcepção de morte que surgiu nos últimos séculos da Idade Média.
Esta palavra bizarra apareceu em francês no século catorze. . . Por
volta de 1400, a concepção da morte na arte e na literatura assu­
miu uma forma fantástica e espectral. Um novo e vívido arrepio foi
adicionado ao grande horror primitivo da morte. A visão macabra
imergiu de profundas camadas psicológicas de medo; o pensamento
religioso imediatamente a reduziu a um meio de exortação moral.
Como instrumento ético foi uma grande idéia cultural, até que, por
sua vez, tornou-se obsoleta, persistindo em epitáfios e símbolos nos
cemitérios de vilarejo (27).

A arte, como expressão do sistema mortuário, neste caso, ao que


parece, representou e talvez intensificou o senso de ansiedade, em vez
de oferecer consolação. É difícil encontrar algo de reconfortante nos
assustadores e fantásticos exemplos de arte e literatura medievais refe­
rentes à morte (28, 29, 30). Durante estas décadas, floresceram sob
todas as formas artísticas a Dança da Morte, o Triunfo da Morte, A Arte
de Morrer (Ars Moriendi) e o Encontro dos Três Vivos com os Três
Mortos. A Dança da Morte originou-se talvez do costume popular de
dançar nos prados do vilarejo, transfigurado pela Peste Negra em um
medonho rodopio do qual a própria Morte participava. De fato, nada
era mais comum nas produções artísticas que representar a Morte como
uma pessoa. A Dança da Morte também era representada como uma

159
peça teatral, de forma direca. ou levemente disfa ada _ b ;orma urle>
ca, cuja comédia era uma fusão de sexo e morte.
O tema do Triunfo da Morte, segundo o historiador de arte Gottlieb,
"já não mostra a morte como delegada de Deus, mas como Sua substitu­
ta. Revolta contra as injustiças da sorte, horror ao desconhecido, abdica­
ção de Deus em favor da Morte - estas são as idéias motrizes dos
temas dos séculos catorze e quinze" (31). O tema da Ars Moriendi na
literatura e na arte, · girava em torno do momento da morte com t�dos
os seus riscos e dores concomitantes. O indivíduo era instigado a viver
com o pensamento da morte predominando em sua mente, especialmente
a morte interpretada como um evento, um ato:

Justamente quando era mais importante, uma coisa em particular


devia ser evitada, a morte súbita; morrer repentinamente era ficar
privado de todos os ritos da Igreja. Sem o viático religioso, aqueles
diabos negros que pairavam sobre todo leito de morte ganhariam o
jogo, e a mísera alma seria arrojada ao inferno; logo, o medo à
morte súbita era lugar comum (32).

A reação psicológica à morte não se limitava aos meios artísticos.


Brinquedos infantis, alguns dos quais sobreviveram até nossos dias, eram
comumente representações ritualísticas dos eventos que as crianças obser­
vavam a seu redor. "Cinzas, cinzas, todos caem" tinha sentido para a
criança do século catorze, e provavelmente nenhum para a de hoje. O
jogo de esconde-esconde, ao que parece, realizado de modo complexo,
com cantos e outros acompanhamentos quase-litúrgicos, sugere que as
crianças sabiam exatamente do que elas se escondiam (33). O pensa­
mento mágico floresceu entre adultos e crianças. Nenhuma cura ou
profilaxia proposta para a Morte Negra era demasiado secreta, repulsiva
ou tola para achar pronto mercado.
Houve reações comportamentais dentre as mais bizarras já desen­
volvidas pela espécie humana - o que já é dizer muito! Flagelação e
perseguição aos Flagelados, disseminação da peste e perseguição aos
disseminadores da peste, manias dançantes, misturas de sexo e morte
sob a forma mais extrema, e· a renovada influência de feiticeiras, lobi­
somens e vampiros contavam-se entre os comportamentos que se nos
afiguram mais relacionados com o sistema mortuário onerado (34).
Este esboço, ainda que breve, da reação psicológica à morte
acabrunhante não seria completo se não acrescentássemos que alguns
indivíduos e instituições sociais tiraram proveito destes fenômenos. Um
dos exemplos mais flagrantes foi a perseguição aos jud,eus visando ganho
monetário com base no boato de que eles eram responsáveis pela peste.
"Os massacres de judeus no século catorze são tão profundamente revol­
tantes porque as classes dirigentes, bem como o clero e as classes cultas

160
da época, tinham perfeita consciência da falta de base nas acusações
do povo contra os judeus; mas, com medo da plebe, e sobretudo por
ganância de lucro material, não só se calavam como, da forma mais
cruel, participavam do morticínio de vítimas inocentes ... " (35).

AVALIAÇÃO DO SISTEMA MORTUÁRIO MEDIEVAL


Qual a eficiência do sistema mortuário desenvolvido durante o século
catorze, particularmente em seus aspectos psicológicos? A análise seguinte
- bastante especulativa, é claro - talv�z proporcione base útil a inter­
pretações posteriores de nosso próprio contexto cultural.
A esta altura, já não é segredo que o sistema mortuário medieval
apresentava elementos negativos. Deveria um sistema mortuário aliviar
os medos relativos à morte? Se deveria, então o sistema medieval foi
um patente fracasso. As apreensões realistas de uma plebe vulnerável fo­
ram intensificadas pelas sinistras interpretações teológicas do momento
do óbito e de suas conseqüências. Deveria um sistema mortuário atender
à morte com naturalidade suficiente para que o povo pudesse tratar de
seus outros interesses relativamente livre de preocupações fúnebres? Se
deveria, o sistema medieval fracassou outra vez - ele teve, de fato,
o efeito oposto. E deveria um sistema de morte talvez contribuir para
a redução real da morte prematura, repelente, ou desnecessária? Fracasso
novamente - e, novamente, a evidência circunstancial indica que a
reação psicológica intensificou em vez de minimizar a aflição. Gowen,
por exemplo, cita diversos autores para concluir que o medo, o pânico
e a imaginação febril aumentaram a letalidade da Morte Negra e de
outras pestilências da época (36).
"Negativo", sem dúvida, é um julgamento de valor efetuado segun­
do nossa própria perspectiva. Em certo sentido, é injusto aplicar um
conjunto de critérios que ocorrem a psicólogos não participantes do
contexto cultural em consideração. Atividades que nos trazem conheci­
mentos, por exemplo, são valores mais positivos e salientes para nós do
que o foram para o homem do século catorze. Mas não podemos pre­
tender ser independentes da cultura; antes, simplesmente esperamos tor­
nar nosso viés razoavelmente explícito para que possa ser levado em
conta. O sistema mortuário medieval com certeza não foi julgado tão
duramente em sua própria época, mas é difícil escapar à conclusão de
que muitas pessoas em verdade sofreram devido a seus excessos e
distorções.
Passamos agora a explorar os aspectos positivos do sistema mortuá­
rio medieval. Já admitimos que a reação psicológica foi funesta, macabra
e indutora de tensão. Mas custa-nos acreditar que a interpretação da
morte não tivesse qualquer valor adaptativo. Talvez, de fato, houvesse

161
algumas estratégias psicológicas de certo modo sutis. Levantemos as se­
guintes hipóteses:
l. O esmagado:r: impacto emocional da Morte Negra e os terrores
a ela associados tinham de ser enfrentados em seus próprios termos, como
um contra-ataque de intensa emocionalidade.
·
2. Um contra-ataque emocional requer um objeto. Não se pode com­
bater facilmente uma abstração ou uma tecnicidade. O fato bruto da
morte era relativamente inútil sem um inimigo. Mas a Morte podia ser
esculpida de forma mais palpável, convertida em um objeto digno de
resposta emocional. E que objeto estava mais à mão ou era mais apro­
priado que o corpo humano? O homem medieval, enfão, personificou a
morte. Agora, se.us sentimentos e pensamentos não precisavam mais ser
difusos - ali estava a Morte, de fato o mais formidável dos oponentes,
mas, pelo menos, um oponente que se podia configurar na mente, com
quem se poçlia interagir. Isto representava uma "poupança" na economia
psicológica, proporcionando um ponto focal. Além disso, impedia o indi­
víduo de asfixiar-se em suas ansiedades inexprimíveis e difusas. Confor­
me salientamos em outros pontos deste livro (Capítulos 4 e 11), o
encontro com uma viciosa, depravada Morte não era necessariamente a
pior alternativa. Pode-se encontrar uma Morte automatizada cuja presen­
ça torna estranhamente irrelevantes todas as reações emocionais. Signifi­
cações terríveis podem ser preferíveis à ausência de significação.
3. A personificação pode ter advindo de uma espécie de "hombri­
·dade superior" à da Morte. O poderoso conquistador era pintado como
um espécime de aparência horrorosa, miserabilíssima. O artista parecia
dizer: "Você é a morte revoltante que você traz. Você é tão desgraçada
quanto nos faz sentir. Beleza e glória lhe negamos. Concedemos a você
vida simbólica mas meramente como uma caricatura, uma coisa maca­
bra." Assim, a Morte era menosprezada e escarnecida no exato momento
de seu triunfo. "Você não é melhor do que aquilo que você nos faz!"
4. Os que tinham um estratégia defensiva contrafóbica podiam
disfarçar-se com a personificação da Morte. Identificação com a Morte,
a Agressora, podia ser alcançada representando seu papel em entreteni­
mentos populares ou usando seu emblema no próprio corpo. Pelo menos
uma ordem religiosa adotou a caveira e os ossos cruzados como sua
insígnia .oficial, e muitas prostitutas usavam nos dedos anéis com a
cabeça da morte. Em termos de teoria-de-campo, estas ações poderiam
ser interpretadas como tentativas de diminuir o impacto da morte pela
diferenciação das barreiras entre a Morte e o indivíduo.
5. O próprio fato de que representações da morte foram produzidas
em toda parte e muito disseminadas sugere que certa espécie de contro­
le foi estabelecido. A morte não podia ser controlada pelo sistema tecno- ·
lógico, nem pelo pensamento racional. Mas o artista, o poeta e o ator

162
queriam agir sobre a morte e disso eram capazes. Quase tudo o que
tornava a morte tão apavorante como fato físico ou crise espiritual
também a tornava matéria admirável para a arte. Garantia espectadores
fascinados. A morte que devia sua forma, seus traços, sua fala no palco,
a um escultor, um pintor, um autor, ou ator era uma Morte que não
conduzia seu espetáculo completamente a seu gosto. O artista medieval
. teve indiscutível sucesso ao transformar a morte em material para mani­
pulação criativa. Grande parte de nossas atuais imagens de morte deriva
deste legado.
6. A Morte Negra foi explorada por algumas pessoas visando o
lucro, conforme já indicamos. Mas teve também o efeito de propiciar ao
homem comum um de seus primeiros vislumbres da possibilidade de
igualar-se com os nobres e privilegiados. A Morte era retratada como "a
grande niveladora" das diferenças econômicas e sociais, muito antes que
a plebe como um todo alcançasse acesso e poder político significativo.
7. É claro que se pode olhar intencionalmente para o mesmo objeto
por longo tempo - até que um efeito de saciedade se registre. A sacie­
dade pode levar a uma busca de variação, e mesmo ao divertimento. A
medida que transcorriam os anos, as representações da morte em todos
os meios de comunicação começaram a perder algo de seu impacto.
Logo, a própria morte-transformada-em-arte passou a ser o objeto da
arte. As representações tornaram-se mais inteligentes e sutis, o humor e
a perspectiva começaram a intrometer-se na visão macabra original. A
saciedade psicológica, então, pode ter sido uma das conseqüências da
reação intensiva, inicial, às formas de morte no século catorze. Tendo
vivido a experiência de ver e imaginar o pior, os sobreviventes podiam
mover-se com certa confiança em direção à maior flexibilidade e
naturalidade.
8. A intensa preocupação do indivíduo com a morte não o isolou
da sociedade. A preocupação com a morte existia em todos os setores
da sociedade; era a norma. Embora o sistema mortuário possa não ter
funcionado tão adequadamente a este respeito como ocorreu em algumas
outras sociedades (como as dos egípcios e malaios citados anteriormente),
não obstante havia o sentimento de que "estamos todos no mesmo
barco". Se tivessem feito da morte ttm tópico socialmente proibido, então
a carga colocada sobre o indivíduo teria sido esmagadora. Como não o
fizeram, a tensão psicológica deve ter sido enorme, mas o indivíduo podia
olhar à sua volta e calcular que todos tinham o mesmo interesse e
aproximadamente a mesma interpretação da situação.
9. Finalmente, a dramatização da cena do leito de morte e seus
horrores reais ou supostos não deveriam ser classificados como uma
desgraça psicológica total. No mínimo, encarava-se o processo de morrer
como importante, a natureza da pessoa continuava sendo de interesse

163
crucial até o último suspiro, e esforços definidos foram feitos _para espe­
cificar e realizar o que chamaríamos de "papel durante o morrer".
Existe a possibilidade de que discordem do que dissemos sobre o
contexto cultural da morte em tempos passados. O exame foi altamente
seletivo e imbuído de nossas próprias especulações e prevenções. Contu­
do, talvez as vias de pensamento aqui ilustradas sejam de valor para
outros ao considerarem não apenas as relações históricas mas também
as contemporâneas entre o contexto cultural e o relacionamento
individual com a morte. No capítulo seguinte, descortinamos a cena
contemporânea.

164
6
O CONTEXTO CULTURAL DA MORTE
2: HOJE

Morte : Transferida para a Velhice; Insulada no Ambiente;


sob Controle Tecnológico; e Descontextualizada

A orientação dos Estados Unidos da América para com a morte


tem impressionado certo número de observadores pela sua peculiaridade.
Consideraremos suas opiniões mais tarde. No momento, estamos interes­
sados em alguns amplos fatores muito freqüentemente descurados quando
se emite julgamento sobre o sistema mortuário de nossa cultura. Foi
também a natureza das condições de vida que fomentou nosso estilo de
resposta. Diferimos notavelmente das mais antigas culturas quanto às
quatro condições de vida identificadas no capítulo anterior como tendo
extrema influência na fqrmulação de nossas interpretações da morte.
Pelos padrões atuais, eram espantosamente limitadas as probabili­
dades de vida individual em eras passadas. A morte era uma ameaça
constante no início da vida, uma ameaça à mãe e a seu filho recém­
nascido. A sobrevivência continuava em sério perigo durante toda a
meninice. A expectativa de vida hoje nos Estados Unidos é duas vezes
maior que a da maioria de nossos ancestrais neste planeta. Não devería­
mos perder de vista ·o fato de que há considerável variabilidade dentro
de nossa própria sociedade. Indivíduos vivendo nos níveis socioeconô­
micos mais baixos e nossa população parecem muito mais vulneráveis à
morte prematura que os membros mais ricos da comunidade. Documen­
tou-se claramente, por exemplo, que os índices de mortalidade por gripe

165
e pneumonia são mais altos para os que se situam nos níveis socioeconô­
micos mais baixos (1).
Todavia, ainda é oportuno nos lembrarmos que carregamos o ônus
relativamente leve de um risco de mortalidade prematura, se comparado
com o ônus tradicional da humanidade. Esta condição provavelmente
contribui muito para nossa interpretação geral da morte. A morte conser­
va-se a uma distância reconfortante ou a "uma boa distância" dos jovens
e dos adultos de meia-idade. Quem morre? Os velhos (nós, não). A
crescente associação estatística entre mortalidade e idade avançada nos
encoraja, assim, a transferir a morte, de uma ameaça imediata e perpétua
para um prospecto distante, remoto.
Esta linha de raciocínio mostra, é claro, um forte viés em relação
à juventude. Como uma pessoa idosa encara a morte é um tópico que
receberá atenção à parte, mais tarde. Relevante aqui é a observação
freqüentemente enunciada de que somos uma sociedade orientada para
a juventude. Poder e glória pertencem aos moços. Cada vez mais, então,
a morte se torna desligada e transferida do núcleo valioso da sociedade,
a juventude. Poderíamos dizer, em certo sentido, que a morte está se
tornando obsoleta. Trata-se de um acontecimento que sucede apenas
àquelas pessoas que já se tornaram obsoletas, por isso a própria Morte
foi dispensada de seu emprego. Aposentou-se de sua perseguição em tem­
po integral, conferido-lhe agora o trabalhinho secundário de recolher
aquelas almas que ainda persistem em sobreviver mais um dia sob o sol.
Um ponto deveria ser ressaltado aqui. Estivemos considerando, antes
de tudo, o que passa por morte "natural". Não é mais natural morrer
jovem. Mortes "não-naturais" continuam a ser associadas com a juven­
tude, um tópico explorado em diversos contextos ao longo deste livro.
Vivemos insulados da percepção da morte. A insulação não é
perfeita; a morte tem seu jeitinho de intrometer-se nos ambientes mais
cuidadosamente patrulhados. Apesar disso, estamos resguardados de pôr
os olhos em agonizantes e cadáveres em uma proporção que dificilmente
poderia ser imaginada em muitas das culturas anteriores. O cidadão
comum no mundo de ontem (e muitos dos que vivem hoje em nações
em luta) estava exposto repetidamente ao impacto visual da morte. Em
contraste, agonizantes e cadáveres em nossa própria cultura são, cada
vez mais, desviados para os especialistas. Médicos, agentes funerários,
coveiros, são os· peritos licenciados. Eles cumprem suas funções em
ambientes especiais, convidando-nos a participar somente em certas fases
permitidas do processo. Nossa participaçãço é periférica. Podemos, de
fato, decidir, se quisermos, cair fora da seqüência agonizante-cadáver.
Doença-e-morte, assim como doença-e-convalescença, é uma seqüên­
cia . que vem sendo removida do controle doméstico. Nós morremos ou
nos recuperamos nos frios lençóis brancos de uma cama institucional.
Temos, realmente, liberdade de escolher em que termos comunicaremos

166
a morte às crianças, ou se não o faremos. Não faz muitos anos, rara­
mente tínhamos essa escolha - as crianças assistiam ao que estava
acontecendo, tão diretamente quanto nós.
Dentro mesmo das paredes de um hospital há regras e escolhas
implícitas. Não se espera que o paciente hospitalizado morra em qualquer
lugar a qualquer hora. Considera-se importante que ele não exponha os
sobreviventes (outros pacientes, o pessoal médico, os visitantes) ao fenô­
meno da morte. exceto em circunstâncias cuidadosamente especificadas.
O obsequioso paciente terminal proporcionará primeiramente evidência
clara, por meio de exames de laboratório ou por sintomas clínicos, de
que suas condições estão piorando. Isto permite, no processo médico­
administrativo, que seu nome seja incluído na LP (lista de perigo). A
seguir, ele dará sinais claros· de deterioração avançada ou de risco de
vida, a exigir ou início de tratamentos especiais em sua atual enfermaria
ou, preferivelmente, transferência para uma unidade de tratamento inten­
sivo. Aqui, ele acabará dando indíéios de morte iminente. Agora, ele
pode ser removido para um quarto vizinho particular. A morte se apro­
xima. A seqüência aprovada está chegando à curva final. O capelão e
outros constituintes não-médicos do sistema podem desempenhar seus
papéis da maneira habitual.
Há uma sensação de desconforto, às vezes mesmo uma explosão de
raiva quando um paciente morre no lugar errado no momento errado.
Prezamos muito, ao que parece, a insulação, que nossa cultura nos
oferece, do impacto perceptual da morte. Até os especialistas da morte
aos quais delegamos a realização de responsabilidades que antes eram
nossas, até estes especialistas gozam de certa insulação.
Os aspectos simbólicos da morte também ocupam lugar relativamen­
te pequeno em nossa vida diária. Nossos olhos raramente deparam com
o memento mori que preponderou no passado; nossos ouvidos já não
captam os velhos sermões sobre enxofre e fogo do inferno. Visões do
além, beatíficas ou aterrorizantes, gozam de pequeno crédito nos meios
de comunicação de massa. Admitindo que há algumas exceções interes­
santes aqui e ali, nossa cultura não solicita nossa constante atenção para
os prospectas de agonia e morte.
Tanto a morte física como seu retrato e elaboração simbólicos
estão quase fora de nossa vista. . . Fora de nossa mente também?
As condições já mencionadas deixam implícito que nós somos tão
extremados em nossa relação com a morte quanto o foi o europeu do
século catorze. Se a morte constituía para o homens dos fins da Idade
Média o fato milis opressivo da vida, para muitos de nós ela parece
menos que irrelevante. Talvez mais que qualquer outra sociedade que
o mundo tenha conhecido, nós conseguimos relegar a morte a um canto
pequeno, periférico, de nossa vida mental consciente. A morte acontece
aos velhos, que, em todo caso, são semi-invisíveis em nosso mundo

167
fenomenológico; e a morte é um negócio de especialistas cujo trabalho,
em larga medida, não é visto por nossos olhos.
Esta situação geral também se relaciona com nossa atitude para
com o universo físico. O progresso científico, com suas aplicações tecno­
lógicas visíveis, aumentou grandemente nossos poderes de reformar o
mundo. Fez mais que isso, porém - levou-nos a esperar de nós mesmos
a capacidade de controle, de domínio. "A Ciência" potencialmente pode
resolver qualquer problema· em que nos dermos o trabalho de investir
suficiente tempo e recursos. O dinheiro transforma o mundo.
Da mesma forma, espera-se que o médico e seus colegas nas ciências
da vida persistam em sua pesquisa de vanguarda contra a doença. A
ciência médica venceu tantas refregas com a morte nas últimas décadas
que deve ser apenas uma questão de tempo (e de isenção de taxas) a
vitória completa sobre a morte (ou, pelo menos, sua relegação a um
papel gerontofágico). Estamos exagerando o caso para dar-lhe relevo
especial. Mas é claro que nosso ambiente cultural continua a encorajar
expectativas e fantasias sobre o controle, virtualmente ilimitado, do mun­
do, dentro do âmbito de nossos conhecimentos técnicos. Não é fácil,
realmente, traçar a linha de demarcação entre expectativa realista e
fantasia inútil.
O ponto mais relevante, porém, não é a que distância podemos
varrer a morte diariamente; antes, é a expectativa, culturalmente sancio­
nada, de que respostas tecnológicas podem ser encontradas para todos
os problemas, a expectativa de que o homem pode remover ou transfor­
mar tudo quanto se levanta no caminho de seus desejos - sem excluir
a morte ..
Finalmente, não participamos mais de uma sociedade dominada pela
tradição, pela linhagem, pelo dogma consagrado. Os velhos sistemas de
controle social dentro de nossa cultura perderam muito de sua habili­
dade em moldar nosso comportamento e dar-nos apoio em tempos de
crise. Seria difícil sustentar que estes sistemas foram adequadamente
substituídos.
Esta situação, nós a experimentamos como liberdade, como respon­
sabilidade, como ansiedade. Agora, o indivíduo é a unidade primeira.
Ele é livre para buscar sua auto-realização. Mas ele também conhece
mais dúvida e ansiedade que seu ancestral, crescido em um ambiente de
idéias e de práticas firmemente entrinheiradas, enquanto se referia à
vida e à morte. Cada vez mais, o indivíduo é considerado responsável
por suas próprias idéias e ações. Decisões que outrora eram quase
automáticas devem ser refeitas a cada dia.
Estas decisões são particularmente evidentes na área da morte. A
atitude da pessoa sadia ante o prospecto de sua própria morte, a atitude
de quem está morrendo, a atitude para com as práticas fúnebres, estas
são algumas das situações que agora requerem decisões individuais. A

168
morte, neste sentido, tornou-se desprovida de contexto. Já não existe a
estrutura social fortemente reforçada, segura, que permitia ao antigo
egípcio, por exemplo, saber que ele estava fazendo o que era correto
de modo correto. A necessidade de formular decisões pessoais multipli­
ca-se para aqueles que têm repetidos encontros com a morte no desem­
penho de seus papéis profissionais. É uma carga também para as pessoas
que, em diversas condições sociais, ocasionalmente se encontram em
situações de vida-e-morte. Decisões e respm1sabilidades, portanto, são
características de nosso relacionamento com a morte no presente contexto
cultural - o que não quer dizer que todos aceitem a responsabilidade
de tomar suas próprias decisões e assumir as conseqüências.

OS PROFISSIONAIS EM NOSSOS NECRO-SISTEMAS

Deixamos implícito que não possuímos um necro-sistema consensualmente


validado, integrado. Os participantes da situaç<io fúnebre, seja qual for o
seu papel, geralmente não possuem respostas efetivas nem podem dar
apoio emocional. Em vez disso, estivemos elaborando um sistema cultural
que despersonaliza, neutraliza, especializa e fragmenta o assunto. Já
exploramos algumas das condições de vida que estimulam semelhante
abordagem.
Como se lida com a situação mortuária dentro deste contexto?
Começaremos considerando os profissionais entre nós - os peritos a
quem pedimos auxílio. Um destes peritos é o agente funerário. Outro,
o médico. A enfermeira desempenha um papel vital e merece ser ouvida.
O profissional em saúde mental, como especialista em .morte, é também
candidato à consideração. Talvez o especialista mais tradicional seja o
sacerdote. Procuremos retratar estes peritos e seu modo de agir na
atualidade. Faremos uso de dados empíricos sempre que possível, mas
outras fontes de observação serão também utilizadas para completar o
quadro.

O Agente Funerário

Não faz muito tempo, o agente funerário foi colocado em evidên­


cia de um modo que não lhe resultou muito agradável. O livro de
Jessica Mitford, O Modo Americano de Morrer (2), e o de Ruth Mulvey
Harmer, O Alto Preço da Morte (3) surgiram, ambos, em 1963. Estas
publicações constituíram severas críticas ao estilo de agir do agente fune­
rário. A resposta do público norte-americano a este tópico ficou demons­
trada pelo enorme volume de vendas de ambos os livros e por uma
qnda de discursos formais e informais.
Mitford e Harmer desafiaram o agente funerário em relação a dois
pontos básicos: Têm os funerais de ser realmente tão dispendiosos? Está

169
o agente funerário se comportando de modo empedernido e inescrupulo­
so? Não há necessidade de repetir aqui os fatos e opiniões reunidos
nestes dois livros, ainda encontráveis no mercado. A questão econômica
é importante, conforme foi colocada, e· tem certas implicações psicoló­
gicas. Entretanto, focalizaremos a alegação de que os agentes funerários
estão violando a confiança pública que neles investiu. Em vez de contri­
buir para uma experiência autêntica e relevante, diz-se que o agente
funerário impõe uma cerimônia artifical, vazia. Harmer, por exemplo,
reconhece que:

... um funeral pode ter seu valor; proporciona, durante um perío­


do crítico, um conjunto de costumes e rituais que minimizam o
efeito traumático da experiência e oferece a outros membros do
grupo uma oportunidade de comunhão mundana e espiritual. . . Os
funerais podem contribuir para aliviar a dor dos indivíduos enlu­
tados, estabelecendo uma série de ações que devem ser realizadas
e oferecendo o consolo de que a tristeza é partilhada por
outros (4).

É evidente que Harmer discute aqui a espécie de apoio que os


costumes fúnebres proporcionaram em muitas sociedades anteriores à
nossa (conforme exemplos citados no capítulo precedente). Mas ela
acrescenta:

Infelizmente, as práticas fúnebres atuais não servem a estes fins,


pelo contrário, são a negação deles. Elas estimulam respostas irra­
cionais ao intensificar o sentimento de irrealidade que os sobrevi­
ventes muitas vezes experimentam quando a morte ocorre. Forçando
pessoas desoladas a desempenhar publicamente o papel de princi­
pais acompanhantes do enterro, durante a primeira onda de terrível
pesar, os funerais intensificam seu choque emocional e seu deslo­
camento. O valor social também foi minimizado porque os agentes
funerários apropriaram-se dos papéis tradicionais dos membros
do grupo e usurparam suas funções. Ainda que diversos parentes
enlutados se apresentem sombriamente vestidos para a cerimônia,
eles cederam à floricultura a expressão de seus pensamentos e
sentimentos, e ao empresário das pompas fúnebres a expressão de
seus gestos ritualísticos. A ocasião, pois, meramente os isola e
aliena de outros membros do grupo (5).

Tendemos a concordar com as observações de Harmer, embora di­


versos comentários seus, a nosso ver, ultrapassem o presente estágio de
nosso conhecimento empírico. Por exemplo, não temos nenhuma pesqui­
sa substancial para documentar a afirmativa de que que as práticas
fúnebres atuais intensificam "o sentimento de irrealidade que os sobrevi­
ventes muitas vezes experimentam quando a morte ocorre". Testar esta

170
proposição resultaria informativo e constituiria para um pesquisador uma
tarefa desafiadora.
Mitford admite que os agentes funerários:

... estão sempre lembrando uns aos outros a importância da ética


(não qualquer velha ética, mas 'a ética suprema') . . . Exortam-se
mutuamente a serem sinceros, amigáveis, decorosos, pontuais, corte­
ses ... e, nem é preciso dizer, a se comportarem de modo a evitar
escândalo e difamação. Em suma, eles anseiam ser dignos da mais
alta consideração, ser apreciados e compreendidos, um anseio mui­
to humano. Contudo, quando estamos começando a pensar que
amores eles realmente são - nosso olhar cai sobre esta espécie de
coisa no Gerência Mortuária: "Você deve começar, do momento
da morte ao momento do enterro, a tratar do funeral de uma
criança como uma 'oportunidade de ouro' para formar uma fregue­
sia e defender-se do sentimento, sem o que não teríamos indústria
de qualquer espécie." Ou então isto no Jornal do Serviço Funerário
Nacional: "Os hábitos de compra são grandemente influenciados
pela inveja e pelo meio. Nunca feche os olhos à importância destes
dois fatores ao avaliar as possibilidades de compra ou o poten­
cial de qualquer família . . . É a idéia de "não ficar por baixo" da
família de Fulano de Tal . . . Às vezes, basta dizer, aqui 'está um
esquife semelhante ao que a família de Fulano de Tal escolheu
para garantir uma escolha dentro de uma categoria substancialmen­
te lucrativa." (6).

Práticas comerciais astutas aumentariam, é claro, o custo dos serviços


funerários, o que Mitford e outros consideram tão censurável. Mas o
que Mitford considera mais censurável aqui é a atitude do agente fune­
rário. Ele pode assumir a pose do profissional dedicado, e até imaginar­
se um "terapeuta da dor enlutada" - mas os seus motivos são os da
caixa registradora. Na medida em que estas acusações são bem funda­
mentadas, o freguês arrisca-se a uma amarga desilusão. A perícia do
especialista está na venda da mercadoria e não na morte. Então, no
momento da perda de um ser querido, uma pessoa pode sentir-se ainda
mais alienada da sociedade, tendo sido iludida por um funcionário qua­
lificado do necro-sistema.
Vale a pena persistir um pouco mais em nossa focalização do agente
funerário . como um dos constituintes de nosso necro-sistema cultural.
Consideremos o ponto de vista de um sociólogo profissional que fez de
O Funeral Norte-Americano (7) um objeto de estudo intensivo. Embora
o livro de LeRoy Bowman sobre este tópico tenha sido publicado vários
anos antes das obras de Mitford e Harmer, não atingiu o público de
forma tão dramática. Poder-se-ia creditar a Bowman a prioridade na
identificação de muitos dos pontos subseqüentemente divulgados por
outros.

171
Embora Bowman não seja menos crítico que os autores leigos
quanto a alegadas deficiências nas práticas funerárias, ele dispõe de
uma perspectiva mais ampla. Não é inteiramente justo culpar o agente
funerário por tudo que saiu errado: "O que atrapalha, basicamente, é o
fracasso da cultura em sustentar normas ou ideais claros e autoritários.
e\ necessidade que os indivíduos têm deles é a mesma que em gerações
passadas, e provavelmente será a mesma no futuro" (8).
Ele concorda com os autores deste livro ao observar "Esta é uma era
de febril esforço para compreender as incessantes maravilhas da ciência
e da tecnologia. Acompanhando este esforço há uma displicente confian­
ça na preservação automática dos valores mais profundos. A cultura não
possui um centro unificador e, portanto, nenhum lugar ou ocasião em
que respostas convincentes e inquestionáveis às necessidades culturais
possam ser enunciadas ... " (9).
Em outras palavras, o agente funerário não criou um necro-sistema
falho, mas é, meramente, um de seus herdeiros. Deste ponto de vista,
eria temerário acumular acusações contra aqueles dentre nós que aceita­
ram as reponsabilidades funerárias. Nós não sabemos o que fazer de
nossas vidas em geral - como podemos esperar que o agente funerário
faça surgir como por encanto símbolos garantidos e convincentes para a
morte? Caímos, aqui, no extremo· oposto. O agente funerário não é
passivo. Ele contribui para a presente situação e tem seu quinhão espe­
cial de responsabilidade. Não obstante, queremos enfatizar o ponto de
vista de Bowman de que as inadequações derivam de problemas mais
amplos de nossa cultura, e não simplesmente de manobras de determi­
nado grupo profissional.
Bowman propõe um conjunto de condições ideais em cuja direção
ele acredita que as práticas funerárias deveriam mover-se. Ele sugere
persuadirmos ou forçarmos o empresário fúnebre a participar do plane­
jamento de funerais com outros elementos da comunidade. Este planeja­
mento não deveria ficar sob o domínio virtual de um grupo, e muito
menos de um grupo comercialmente orientado. Aspectos materiais e
técnicos do funeral deveriam subordinar-se às necessidades psicológicas,
sociais e espirituais do público. Menos ênfase deveria ser colocada na
adorno e exibição do cadáver,. e métodos mais sensatos empregados para
o desaparecimento dos restos mortais. Dever-se-ia reduzir substancialmen­
te o custo do funeral. A família deveria receber alguma forma de apoio
da ação coletiva ou institucional na hora de negociar com o sistema
funerário. Bowman também insiste em que os procedimentos subseqüen­
tes a um óbito "sejam engrenados com as operações da comunidade
funcional e recambiados do status tangencial, umbroso, que agora
ocupam" (10).
Não sendo abertamente otimista quanto ao sucesso na introdução
de tais mudanças, Bowman, contudo, nos recorda que estas não são, de

] 2
forma nenhuma, inovações extravagantes. Todas foram postas em práti­
ca em vários tempos e lugares - e todas são cem por cento necessárias
em nosso próprio tempo e lugar.
Um estudo de Geoffrey Gorer, por meio de questionários, vigorosa­
mente sugere que muitas das observações acima também se aplicariam a
Grã-Bretanha (11). O custo dos funerais, ao que parece, não importava
muito para os respondentes de Gorer, provavelmente devido à tradição
do direito consuetudinário relativa ao enterro em cemitério de igreja e
às prescrições do Seguro Nacional. Impressionou-o, porém, o número de
respondentes que pareciam precisar de mais assistência do que a ofere­
cida a eles durante e após o funeral. Os rituais, e o sistema cultur'al
mais amplo que os abrangia, não serviam para ajudar a pessoa enlutada
a reorganizar-se e retornar à sua própria vida de maneira integrada.
E que dizer do próprio agente funerário? Em contraste com toda
a justa atenção dada ao empresário fúnebre, do ponto de vista econô­
mico, social e antropológico, quase nenhuma atenção ele mereceu do
ponto de vista psicológico. Dispomos de um estudo. Não é certamente
extenso, nem intensivo bastante, para permitir vastas generalizações, mas
não podemos nos dar ao luxo de escolher demais nesta hora.
Kastenbaum e Goldsmith aproveitaram a oportunidade para estudar
47 agentes funerários que participavam de um congresso regional, e 150
estudantes matriculados em uma escola superior de ciências mortuárias.
Os procedimentos empregados incluíram um teste de complemento
de sentenças, um questionário, situações hipotéticas, e redações breves.
Adicionalmente, no caso dos estudantes, dispúnhamos de dados demográ­
ficos e relativos a seu desempenho intelectual. Alguns resultados foram
publicados em O Diretor de Funeral Americano (12).
Descobriu-se que muitas das pessoas que planejavam uma carreira
nesta área (na medida em que a população da amostra era representa­
tiva) tinham um nível bastante baixo de interesse e rendimento inte-
- lectual. Pouca indicação havia de que desafios intelectuais seriam bem
recebidos. O estudante típico esperava absorver certos fatos necessários
ou conhecimentos técnicos durante seus trabalhos escolares, mas não
demonstrava gosto por conhecimento ou investigação mais avançados.
Não se considerava um pensador nem supunha que o sucesso no desem­
penho de seu papel de agente funerário exigiria uma mente disciplinada
e informada. Isto não significa necessariamente que o estudante típico
de um curso de ciências mortuárias seja absolutamente incapaz de pensa­
mento produtivo - apenas este não lhe ocorre com facilidade nem lhe
parece de bastante importância para ser cultivado.
Semelhante indisposição à abertura mental deve seguramente limitar
a compreensão do estudante sobre questões complexas que logo começa­
rão a enxamear à sua volta, inclusive as significações éticas, filosóficas,

173
sociais, e psicológicas da morte e do enterro. Problemas associados à
morte nem sempre podem ser apresentados de forma tão simples que
permita a sua compreensão sem esforço intelectual verdadeiro.
A passividade intelectual estava intimamente ligada à passividade
em termos emocionais e motivacionais. Os objetivos existenciais da
maioria dos estudantes eram poucos e estereotipados. Eles esperavam
que as coisas boas da vida lhes caíssem do céu mais dia menos dia, sem
exigir grande esforço ou comportamento arriscado. Suas redações e res­
postas ao teste de completação de sentenças sugeriam, em conjunto, um
estilo de patinar na superfície da vida emocional, com ocasionais explo­
sões de desagrado quando submetidos a exigências significativas.
Pode-se imaginar que pessoas, que não distinguem nem pelo entu­
siasmo intelectual nem pela maturidade emocional, desenvolvam, não
obstante, atitudes firmes para com a morte. Esta possibilidade, contudo,
não encontrou apoio nos dados disponíveis. Nesta amostra, o estudante
típico mostrava uma atitude insegura e constrangida para com a morte.
O desconforto tornou-se evidente assim que se enunciou, na sala de aula,
a primeira pergunta sobre a morte. Imediatamente a sala se encheu de
cigarros que pareciam fogos queimando para sinalizar situações exigindo
socorro; moços e moças começaram a se crispar como se suas cadeiras,
naquele instante, tivessem sido ligadas à rede elétrica; e houve risinhos
esparsos e comentários obscenos. Esta foi decididamente a mais forte
reação jamais encontrada por ambos os pesquisadores ao introduzirem
o tópico da morte em situação de sala de aula - e os estudantes seriam
os agentes funerários de amanhã!
Questionários e testes completados confirmaram a ansiedade que
fora evidente no comportamento do grupo. As respostas eram geralmente
constritas e estereotipadas, e incluíam muito mais recusas francas e frases
inacabadas do que nós costumávamos prever. O mal-estar que a morte
provocava restringia-se aos aspectos humanos ou psicossociais. A morte
como fenômeno biológico não os arrepiava. Surgiram também muitas
expressões de insegurança quanto a seus futuros papéis como peritos
em morte. Os estudantes estavam muito cônscios de que outras pessoas
os olhariam como modelos de como deve alguém se comportar em um
funeral. Preocupavam-se com sua habilidade "em dar a impressão corre­
ta". Em geral, não se encontrou evidência de que a escolha de carreira
tivesse se baseado em um compromisso pessoal com os problemas da
perda de um ser querido, ou com a exploração e solução dos significa­
dos da morte em suas próprias vidas.
A investigação de atitudes e pensamentos sobre a morte, eviden­
ciados por agentes funerários já estabelecidos, não contribuiu para me­
lhorar o quadro. Nenhuma evidência veio alimentar a esperança de que
agentes funerários experientes, como grupo, possuíssem uma perspectiva

174
sobre a morte que pudesse ser caracterizada com invulgarmente profunda
ou amadurecida.
É provável que nossas próprias expectativas em relação a um agente
funerário aumentem suas dificuldades. Podemos estar esperando dele
um tipo de proficiência ou de quase-sagrada mística que está fora de
seu alcance. E podemos também, conforme Robert Fulton sugere, estar
contando com seu atendimento a exigências conflitantes: "Por um lado,
incentivamos o agente funerário a mitigar a realidade da morte para os
sobreviventes que não mais recebem o apoio emocional outrora oferecido
pela teologia para aver-se com ela; por outro lado, o impelimos a dar
atenção aos serviços especiais que veio desempenhar. E se deve justificar
seu papel como importante funcionário por ocasião da morte, ele precisa
focalizar sua atenção no cadáver. Ao fazê-lo, porém, ele atrai a raiva e
a hostilidade de uma sociedade que experimenta crescente necessidade
de esconder a morte" (13).
Fulton, um sociólogo, recentemente efetuou um estudo das atitudes
do público norte-americano para com a morte, os funerais e os agentes
funerários. Ele tinha interesse, sobretudo, em determinar se "as críticas
ao programa funerário nos Estados Unidos refletiam as opiniões de uma
minoria articulada e ativa ou se refletiam, de fato, uma preocupação
coletiva ou uma mudança básica de atitude na maioria do povo norte­
americano para com os procedimentos funerários contemporâneos e os
ritos de pesar" (14). Por meio de questionários, ele obteve dados de
1248 respondentes, escolhidos por acaso em listas telefônicas de grandes
centros urbanos e 450 membros de 11 associações in memoriam. Em
acréscimo, Fulton e seu grupo de auxiliares realizaram 315 entrevistas
pessoais.· Descobriram que membros das associações in memoriam (dedi­
cados ao movimento de reforma funerária) tendiam, mais que o público
em geral, a considerar a morte como a cessação derradeira da identidade
individual. Expressões de convicção religiosa na salvação, na vida eterna,
etc., eram três vezes mais freqüentes entre os respondentes em geral que
entre os membros das associações in memoriam. Os dois grupos tinham
idéias bastante similares quanto às principais funções de um funeral;
contudo, os adeptos da reforma funerária eram os que mais punham em
dúvida a eficiência real dos funerais no preenchimento dessas funções.
As críticas mais comuns foram de que o funeral hoje em dia é "muito
formal", "muito impessoal", "demasiado longo" e "excessivamente
emocionante".
Os dois grupos também diferiram um pouco em sua avaliação do
agente funerário. Membros das associações in memoriam tendiam a vê-lo
primordialmente como um homem de negócios que deveria cuidar dos
aspectos físicos e administrativos do funeral. O grupo do público em
geral também enfatizou a função físico-administrativa do agente mas,

175
achou que, além disso, ele deveria ser uma fonte de conforto emocional
para as pessoas desoladas pela perda sofrida. Os dados de Fulton tam­
bém indicaram que muitos dos respondentes, com atitudes negativas para
com o funeral ou o agente funerário, na verdade tinham pouca informa­
ção direta sobre as práticas fúnebres, inclusive seus aspectos econômicos.
Na opinião de Fulton, parte da hostilidade dirigida ao agente fune­
rário teria menos a ver com o homem em si e seu trabalho específico
do que com o papel por ele desempenhado. "A culpa gerada pelo desejo
das pessoas enlutadas de verem-se rapidamente .livres do cadáver é da
própria morte, a possível confusão e ansiedade na escolha do ataúde
correto, e a atitude do agente funerário como constante memento e sócio
da morte, dispunham o público a malhá-lo" (15).
Acreditamos que esta posição merece ser encarada com seriedade.
O agente funerário pode ser tido como responsável pela morte da mesma
forma como o meteorologista, por pilhéria, é censurado pelo mau tempo.
Não é provável que adultos sofisticados falem abertamente do agente
funerário como do homem que traz a morte - mas, sem sombra de
dúvida, ele é o homem que traz a morte à nossa mente. A diferença
entre uma relação mental e uma física é, às vezes, confundida em nosso
pensamento, especialmente sobre um tópico que quase nunca é
ventilado.
Em suma, parece-nos razoável e justo afirmar que o agente funerá­
rio nem criou o sistema mortuário de nossa cultura nem o recebe passi­
vamente. O sistema opera através dele. Ele é chamado a desempenhar
uma função significativa sujeita tanto a críticas racionais quanto às inspi­
radas pela emoção. Mas ele não conta com uma tradição cultural ou
com características pessoais especiais para desempenhar suas obrigações.
Há pressão - e provavelmente uma pressão em aumento - para que
ele altere suas praxes. Seria interessante, para todos nós, recordar que
os problemas não são só dele. Nós fugimos de nossas responsabilidades
e negamos nosso próprio envolvimento com a morte ao censurar o agente
funerário por tudo o que está saindo mal.
Talvez nos devêssemos recordar de que uma das funções históricas
do agente funerário está sendo agora desempenhada com tanta eficiência
que tendemos a esquecer calamidades passadas. Procedimentos impró­
prios ao enterrar cadáveres podem ser perigosos para a saúde pública,
além de ofenderem nossa sensibilidade. Em gerações passadas, registra­
ram-se frequentes relatos de doenças debilitadoras e às vezes fatais
procedentes de terrenos de sepultamento. Coveiros e suas famílias corriam
sério perigo de vida. Evitaremos citar estes relatos: eles são impressio­
nantes. Todavia, publicações como o ataque de G. A. Walker às práticas
de sepultamento em Londres (1830), Furúnculos dos Cemitérios (16),
muito fizeram para incitar o movimento de reforma dos enterros, do qual
somos beneficiários até hoje.

176
O Médico

Como se pode esperar, depois de tudo o que foi dito sobre o


sistema mortuário em nossa cultura, o médico freqüentemente está "sob
a mira". Há expectativas conflitantes sobre quase todos os aspectos de
seu desempenho. Ele deveria ser objetivo e científico. Ele deveria ser
afetuoso e pessoal. Ele precisa esforçar-se com igual tenacidade para
salvar todas as vidas. Ele é livre para escolher entre vidas "menos valio­
sas" e "mais valiosas", favorecendo estas. Ele só é responsável perante
si mesmo e seu código profissional de ética. Ele é responsável perante
a comunidade. Ele é responsável perante o paciente. Ele é um sábio e
uma autoridade completa sobre a vida. Ele é um técnico, o homem dos
consertos.
Figura-pivô no sistema mortuário de nossa cultura, o médico exerce
grande influência no clima geral de sentimento e pensamento e sobre
o funcionamento específico de outros no sistema - inclusive do paciente
e de sua família. O médico é um alvo ainda mais saliente que o agente
funerário para todos os pensamentos e sentimentos que desejamos exter­
nar sobre a morte. Mas porque o médico goza de um lugar especial­
mente honroso em nossa sociedade, ele é menos sujeito a ataques abertos
e diretos. Não obstante, a maioria dos médicos tem plena consciência de
que seus pacientes estão emitindo fortes sinais de emoção com endereço
certo. Estes sentimentos variam da devoção à raiva e ao desespero -
e podem se substituir um ao outro rapidamente ou até coexistirem. Que­
remos deixar claro que o médico não tem a liberdade de engajar-se em
sua profissão como um perito insulado, embora alguns médicos se imagi­
nem neste papel. Ao contrário, o médico é marcantemente influenciado
pelo sistema mortuário a que serve.
Sugere-se, de vez em quando, que muitos médicos foram motivados
a escolher sua ocupação porque a morte era um problema pessoal singu­
larmente agudo para eles. A linha de frente de nosso sistema mortuário
seria, assim, preenchida por voluntários mais intimidados com o inimigo
do que muitos dos civis na retaguarda, Em outras palavras, propõe-se
uma ação antifóbica para explicar a entrada na profissão médica. Talvez
o sentimento inexpresso seja "Estou protegendo outras pessoas da morte,
portanto, eu mesmo devo ser invulnerável."
Herman Feifel e seus colegas recentemente exploraram esta possi­
bilidade em um estudo empírico ( 17). Psiquiatras e psicólogos clínicos
experientes realizaram entrevistas em profundidade com 81 médicos.
Estes vieram de três especialidades: internos, cirurgiões e psiquiatras.
Para terem uma base de comparação, os pesquisadores também estuda­
ram outros três grupos de pessoas: 38 estudantes de medicina, 92 pacien­
tes terminais ou doentes graves, e 95 indivíduos normais aparentemente
sadios.

177
Questões abertas foram propostas aos sujeitos, como "O que a
morte significa para você, pessoalmente?" "O que pensa que lhe sucede­
rá depois da morte?" Solicitou-se ainda que respondessem a questões
dentro de várias escalas como "Com que freqüência você acha que .
pensa na morte? Nunca, raramente, às vezes, freqüentemente, sempre?"
As respostas eram classificadas por dois membros do grupo de pesquisa,
com alta concordância no interjulgamento.
Feifel interpretou seus resultados como basilares para o argumento
de que médicos (e estudantes de medicina) tendem a apresentar um
medo da morte, acima da média. Ele encontrou "a implicação de que
certo número de médicos utiliza a profis.são médica, por meio da qual
se garante domínio de mestre sobre a doença, a fim de ajudá-los no
controle de preocupações pessoais com a morte" (18).
Especificamente, Feifel e seus colegas descobriram que os médicos,
mais que os outros sujeitos, tendiam a dar respostas introvertidas à
morte de outra pessoa. Enquanto a maioria dos outros sujeitos "sentia-se
mal" ao saber de uma morte, os médicos inclinavam-se a "refletir sobre
minha própria mortalidade". É interessante notar que os médicos reve­
laram mais imagens verbais negativas referentes à morte e bloqueios
mais frequentes a perguntas sobre a morte, em comparação com outros
sujeitos.
M�s a que ponto a profissão médica protege seus praticantes de
seu próprio desconforto ao pensar na morte? Quase dois terços dos
médicos afirmaram que, agora, eles temiam a morte menos do que no
passado. Esta afirmação na primeira pessoa poderia apoiar o argumento
de que o fato de ser médico realmente lhe dá uma couraça contra
problemas pessoais nesta área. Entretanto, melhores controles seriam ne­
cessários antes de aceitarmos completamente esta conclusão. Não nos
devemos esquecer de que os medos expressos dos médicos permanece­
ram relativamente altos, a despeito de sua. diminuição ao longo dos anos.
Feifel acredita que o médico continua vulnerável a ferroadas do medo
à morte, a ponto até de alterar seu comportamento para com os pacien­
tes. "Nestes casos, quando o narcisismo profissional do médico é ataca­
do - particularmente em encontros com os enfermos terminais -'- suas
ansiedades sobre a morte, redespertadas, podem levá-lo de modo incons­
ciente a deserdar psicologicamente seu enfermo ao mesmo tempo em
que intepsifica sua atenção às necessidades fisiológicas dele" (19).
Em suma, ao que se afigura, o médico, especialmente o cirurgião,
tem a felicidade de poder escudar-se contra a angústia pessoal em rela­
ção à morte por meio dos próprios mecanismos que lhe trazem o respeito
cortês de uma população que evita a morte. Mas alguns observadores
criticam abertamente os resultados desta orientação. August M. Kasper,
um psiquiatra, propõe que "o médico deveria conhecer, mais que qual­
quer outro homem, o morrer e a morte. A maior parte de sua vida é

178
e tada à gente que considera a morte - ou seu arauto, a dor -
remente bastante para buscar auxílio médico." O que sabe realmente
médico sobre a morte? Kasper declara:

ão me impressionam nem o volume nem a profundidade do pen­


samento médico sobre a morte ou os moribundos. Tudo se passa
como se esta única certeza da vida devesse ser evitada, não só
por vigorosos pensamentos e ações positivos, mas também confe­
rindo-lhe, enquanto evento, não mais atenção do que se dá a um
ponto final no fim de uma novela emocionante, comovente (20).

Kasper acredita que o treinamento médico freqüentemente estimu­


la uma atitude de bravata antifóbica, uma dessensibilização para com a
morte. A ênfase em "objetividade científica" não é sempre benéfica. "Há
algumas semelhanças muito úteis entre ciência e medicina, mas enquan­
um cientista está interessado na morte, um médico é contra ela" (21).
Ele sustenta vigorosamente que o médico deve aver-se com a morte em
seu pleno sentido emocional e social. O fracasso em fazê-lo só pode
trazer consequências funestas à relação entre o médico e seu paciente em
fase terminal.
Livros recentes de autoria de Barney Glaser e Anselm Strauss
(22, 23), David Sudnow (24), e Adrian Verwoerdt (25) vieram contri­
buir para nosso conhecimento do que sucede durante e em torno da
situação de morte. Todos estes autores sugerem que há muita possibi­
lidade de melhoramento da parte do médico, embora, de forma nenhu­
ma, ela seja a única pessoa que deveria reexaminar seu papel.
Feifel (27) e Gorer (26) situam-se entre os que · assinalam que os
médicos tendem a encarar os pacientes como sendo bem diferentes deles
próprios quanto à doença terminal. O médico, com freqüência, insiste
em conhecer a verdade: raramente ele acha que deve dizer a verdade
a seus pacientes terminais. Até mesmo um homem como Sigmuri<l Freud,
sem dúvida um persistente explorador da "realidade" em suas formas
mais ameaçadoras, preocupava-se porque seu médico talvez não lhe desse
informações precisas. Charles D. Aring, médico, professor e administra­
dor de larga experiência, acha a disparidade entre as orientações de
médicos e não-médicos para com a morte "Uma estatística fascinante
e, se for verdadeira, é provável que reflita a perturbação e confusão
do médico em uma situação reputada natural. A necessidade de
cuidar do moribundo implica em comportamentos de que o médico é
inconsciente?" (28).
Respondendo à sua própria pergunta em um sumário, Aring acredi­
ta que "ser amável entre moribundos exige do médico que se torne
consciente de seus próprios sentimentos para com a morte. Com energias
neuroticamente oneradas, o uso amável de si mesmo é improvável. A

179
morte pode ser natural se assim a fizermos. não é um tabu cercado de
desaprovação e de vergonha" (29). Aring incita "cada um a reexaminar
sua posição continuamente".
Recentemente, um médico, um psiquiatra, um ministro religioso, e
um psicólogo social manifestaram quatro reações independentes a uma
história-de-caso em tratamento terminal. Todos concordaram que, na si­
tuação mortuária, hoje:
1. Tendemos a impor isolamento emocional ao moribundo.
2. Tendemos a tratá-lo de maneira rotineira.
3. Tendemos a tratá-lo como se fosse uma criança irresponsável,
incapaz de enfrentar a situação em nível adulto.
4. Entre as pessoas intimamente implicadas no bem-estar do pacien­
te, os padrões de comunicação são inadequados e discutíveis. Isto se
estende desde o que o médico diz ao paciente e de que forma o faz,
até os inúmeros jeitinhos pelos quais todo o mundo retém informação
significativa ou a interpreta mal.
5. Da parte de todas as pessoas envolvidas, há uma falha em reco­
nhecer e preencher seu quinhão da responsabilidade total.
Claro está que o médico tem um quinhão particularmente grande
da responsabilidade total. Claro está que a maneira de cumprir (ou de
evitar) suas responsabilidades é inseparável do tipo de pessoa que ele
é - especialmente do tipo de arranjo que ele fez com suas próprias
insinuações de mortalidade. E claro está que seu desempenho é muito
afetado pelas expectativas, ideologias, recursos, e insensibilidades que
caracterizam nossa cultura em geral. O que teremos de aprender ainda
talvez seja como utilizar estes desenvolvimentos em benefício da pessoa
total e dos que a cercam à medida que ela se move do risco de vida
· para a certeza da morte.
Além disso, nos tempos de hoje, não podemos facilmente perder de
vista as extensas mudanças que estão ocorrendo em todos os aspectos
da prática médica. Os "heróicos procedimentos" de ontem, tentados ape­
nas em casos raros e selecionados, agora são rotina na prática médica
esclarecida. (Lembram-se de quando a agulha intravenosa era uma inven­
ção avançadíssima?) Transplantes de órgãos deslocam-se rapidamente da
categoria do extraordinário para a do esperado - e, quem sabe, para
a categoria do comum. A idéia peculiar e perturbadora de uma "enfer­
maria de peças avulsas" - de corpos conservados vivos para cederem
órgãos intactos, transplantáveis - também se desloca para o domínio do
real. O médico não só tem de se pôr em pé de igualdade com os aspectos
técnicos destes progressos mas também com seus desafios pois tangem
sua psicologia pessoal e sua ética profissional.
Contudo, pode ser que o médico esteja enfrentando uma série de
mudanças de outra fonte, ainda rr.ais desconcertantes. Economia e estilo

180
da prática médica, dois fatores intimamente relacionados, têm mudado
muito em anos recentes e continuam a mudar. Não nos deveríamos sur­
preender ao encontrar mudanças correspondentes no médico, em seu
senso de quem ele é e quais são· suas responsabilidades fundamentais.
Em especial, não nos deveríamos surpreender se às ;ezes o encontramo:;
tão confuso quanto nós mesmos em face de novos progressos cuja confi­
guração final é um ponto de interrogação para todos, e uma conjectura
para cada um.
O lugar do médico no sistema mortuário de nossa cultura é muito
mais complexo que o do agente funerário, e não seria útil alongar as
analogias entre ambos. Não obstante, estivemos observando, ao que tudo
indica, dois conjuntos de "profissionais da morte" que têm lutas íntimas
significativas a empreender neste terreno, enquanto simultaneamente pro­
curam enfrentar uma variedade de poderosas pressões culturais. Con­
tudo, nem o agente funerário nem o médico, ao contrário do que sucede
a muitas enfermeiras, encontram-se nas situações de morte como se fos­
sem capturados em uma armadilha.

A Enfermeira

Um dos autores recorda-se de uma sene de conversas com enfer­


meiras designadas para determinada enfermaria em um hospital geriá­
trico. Um dos médicos do hospital lhe pedira que o assistisse no trata­
mento completo de uma paciente recentemente admitida. Aos 67 anos
de idade, esta mulher era "jovem" se comparada ao paciente comum
neste hospital (idade média: 83 anos). Mas a maioria dos pacientes lhe
sobreviveria, pois a Sra. F. tinha câncer; era terminal; a evolução seria
rápida.
O médico do hospital tinha sido invulgarmente direto. "Olhe aqui,
Kastenbaum, eu não quero falar cóm essa mulher. Fico terrivelmente
contrafeito. Acho que é um caso para você." Ele explicou que, tanto
quanto sabia, ninguém revelara à mulher a prognose de seu caso.• Além
disso, seu ex-médico na cidade expressara a opinião dé que ela não de­
veria saber. O médico do hospital preferia não optar por nenhuma alter­
nativa. Não gostava de dizer aos doentes que eles iriam morrer logo. Em
particular, não gostava de transmitir-lhes esta informação quando um
colega pedira especificamente que não o fizesse. Não gostava de mentir
e negar os fatos. Não gostava de continuar vendo uma pessoa com quem
não podia manter uma comunicação honesta. E não gostava de abando­
nar um paciente por causa de uma relutância. O único aspecto notável
desta discussão preliminar foi a franqueza do médico ao expressar seus
pensamentos e sentimentos. Naquele momento, para aquehi. paciente.
Ele não se sentia capaz de fazer o trabalho sozinho. Era bastante seguro

181
de si para admitir seus sentimentos e pedir a mais alguém para "rachar"
a responsabilidade.
Concordamos em que o médico convidado faria "o que lhe pare­
cesse melhor" quando se colocasse na situação. Um de seus objetivos
era formar uma opinião sobre o que deveria dizer à paciente, em caso
de dizer algo, e, se lhe parecesse adequado, revelar a verdade. Outro
objetivo era proporcionar certo grau de conforto a uma paciente ·que o
pessoal estava achando inacessível. Outro objetivo ainda (apesar de
tácito) era conseguir que o pessoal se comportasse para com a paciente
de modo mais natural e eficiente.
Onde as enfermeiras se enquadravam nesta situação? As duas en­
fermeiras nesta enfermaria, registradas, eram profissionais competentes
e seres humanos àfetuosos. Mas elas estavam semiparalisadas pelas de­
mandas conflitantes e ambíguas em seu trabalho. Quando o médico convi­
dado revelou seu interesse pela primeira vez pela Sra. F., as enfermeiras
se retesaram, apreensivas, e na defensiva. Havia o forte sentimento de
que a Sra. F. precisava delas mais que qualquer• outra paciente, mas que
elas realmente não podiam abordá-la. O problema não estava tanto na
Sra. F., embora ela parecesse uma pessoa reservada, introvertida. É que
as enfermeiras tinham sido capturadas em um evidente - que nome
lhe dar? - "vácuo de responsabilidade". Elas não sabiam o que fora
dito à paciente, se é que algo fora dito. Elas não sabiam o que a paciente
sabia ou suspeitava. Elas mesmas não sabiam o que deviam dizer e o
que deviam evitar. "Acho duro me aproximar dela. Que resposta dar,
se ela começa a fazer perguntas? Não quero dizer nada de errado." Para
a enfermeira, "errado" seria tanto um comentário que afetasse prejudi­
cialmente a doente, quanto um comentário que não fosse de sua alçada,
independentemente de seu efeito.
Este dilema não é invulgar para uma enfermeira. Em muitas situa­
ções, a enfermeira é a pessoa que mais toca com suas mãos a pessoa
moribunda. Ela é que assume a responsabilidade mais próxima, hor�
após hora. É mais difícil para ela simplesmente evitar uma situação de­
licada desaparecendo "devido a trabalho urgente em outro lugar" (em­
bora esta tática não seja inteiramente desconhecida na profissão de enfer­
magem). Apesar disto, existem restrições substanciais a seu comporta­
mento na seqüência agonia-morte. Conforme já sugerimos, uma fonte
importante de restrição deriva de seu papel subordinado no sistema de
status profissional. Ao médico cabem as decisões cruciais. A enfermeira
é obrigada a pôr em prática e implantar estas decisões, independente­
mente de suas opiniões e preferências. Às vezes, ela pode sentir que
conhece o paciente melhor do que o médico o faz. Em outras ocasiões,
ela pode preocupar-se não tanto com o que o médico escreveu em suas
instruções mas com o que ficou sem ser dito. Quando um vácuo de res-

182
ponsabilidade existe em uma situação de morte, a enfermeira pode sen­
tir-se "azarada se eu fizer - azarada se eu não fizer".
Na situação particular acima descrita, resultou muito fácil reduzir
o nível de ansiedade que inibia o comportamento natural das enfermei­
ras para com a Sra. F. O médico convidado apenas indicou (com per­
missão do médico do hospital) que ele assumiria a responsabilidade
quanto à questão "dizer ou não dizer". Ele não tinha qualquer concepção
prévia sobre o melhor rumo a tomar, mas tentaria formar qualquer tipo
de relacionamento que a paciente desejasse e permitisse. Ele sugeriu que
todas as pessoas envolvidas (as enfermeiras, o médico do hospital e o
médico convidado) discutissem o assunto sempre que um deles sentisse
necessidade. As enfermeiras relaxaram sua tensão perceptivelmente.
Desse ponto em diante, elas e seu corpo auxiliar de enfermeiras práticas
licenciadas e de ajudantes circularam em torno do leito da Sra. F. de
modo mais livre e natural. É claro, a paciente sentiu a diferença. Sentiu­
se um pouco mais em casa no ambiente do hospital, um pouco mais
segura. Menos ansiosas sobre a Sra. F., as enfermeiras e suas auxiliares
tornaram-se mais aberta13 e espontâneas em suas t!ansações com as outras
pacientes também.
A Sra. F. morreu mais ou menos "no prazo previsto". O pessoal de
enfermagem aceitou sua morte com certa tranqüilidade. Seritiram, justi­
ficadamente, que haviam feito por ela tudo o que podiam. Ademais, era
"sorte dela estar livre de todo aquele sofrimento". Em outra situação,
nós observamos tensão, defesa, e recriminações após uma ''morte feia".
Esta teria sido mais uma dessas situações se as enfermeiras tivessem
ficado com o sentimento constrangido de que abandonaram a paciente
enquanto ela estava viva.
Talvez seja interessante mencionar que nunca foi necessário infor­
mar a Sra. F. de seu prognóstico, nem foi necessário· negar ou nublar
a questão. Ela mostrou que fazia uso sensível do que o dr. Avery D.
Welsman chamou de "conhecimento intermediário". Weisman observou:

Muitos moribundos têm consciência de que eles não se recuperarão,


mas vacilam entre saber e não saber. Chamamos de "conhecimento
intermediário" a esta condição de certeza incerta. Define-se como
aquela porção do significado total que se tem da doença e que o
paciente é capaz de admitir. A amplitude do conhecimento inter­
mediário é, às vezes, bastante estreito, mas, em outras, é quase
equivalente à plena aceitação da morte (31).

Durante a segunda entrevista, a Sra. F. comentou espontaneamente,


"Às vezes, duvido de que ficarei boa. Até os médicos não parecem saber
o que está errado." Duas semanas mais tarde (5.ª entrevista), houve um
longo silêncio enquanto a paciente e o psicólogo olhavam pela janela

183
para as primeiras flores verde-amarelas em uma pequena árvore. "Se
me dissessem que eu iria morrer logo, eu me desintegraria." Esta afir­
mação da Sra. F. não fazia parte de um contexto verbal, mas deu a
impressão de inteiramente adequada e compreensível. Também confir­
mou a impressão de seu ex-médico de que ela não deveria ser infor­
mada de que sua condição era terminal. Ela podia aceitar o prospecto
da morte mas em seus próprios termos, aumentando gradualmente a
amplitude de seu "conhecimento intermediário". Esta mulher, que sem­
pre fora uma espécie de pessoa solitária e introvertida, morreu sozinha,
mantendo a morte sob seu controle emocional.
Parcialmente livres da "armadilha" neste caso particular, as enfer­
meiras desempenharam sua tarefa com eficiência e humanidade. Mas
poderia uma enfermeira ter ido além do esperado? Poderia ter oferecido
o tipo de relacionamento que a Sra. F. parecia precisar? Poderiam a,s
enfermeiras em geral oferecer muito do apoio que um enfermo terminal
precisa independentemente da idade? Acreditamos que seriam positivas
as respostas a estas perguntas. A enfermeira que fosse uma adulta ama­
durecida teria também os predicados para verdadeiramente confortar um
moribundo. Sendo uma funcionária importante do sistema mortuário de
nossa cultura e uma das poucas pessoas que permanecem na vizinhança
do moribundo, a enfermeira estaria em melhor posição para oferecer esse
conforto.
Certas observações, porém, sugerem que a enfermeira freqüente­
mente é capturada em mais do que um vácuo de responsabilidade. Ela
cai na armadilha de "sua própria gente" e de si mesma.
Consideremos, primeiro, algumas observações sobre o comportamento
verbal e não-verbal de enfermeiras quando a morte predomina nessa
situação.
Lawrence LeShan, um psicólogo que trabalhou com muitos mori­
bundos, encontrou uma via direta e desimpedida para estudar a resposta
de enfermeiras a seus doentes terminais (32). Ele simplesmente crono­
metrou o intervalo entre o ressoar de uma campainha à beira do leito e
a resposta da enfermeira. As enfermeiras levaram mais tempo para
atender a chamados de pacientes com prognóstico terminal do que de
enfermos menos graves. As enfermeiras não tinham consciência de que
seu atendimento variava conforme a condição do paciente. (Em conse­
qüência, algumas tentaram responder com mais rapidez a chamados de
pacientes terminais, mas este esforço desapareceu gradualmente em breve
período de tempo) (33).
Há muitas pequeninas coisas que este estudo não nos diz. Demons­
tra, porém, diferenças de comportamento real em resposta a pacientes
terminais e não-terminais - e a falta de consciência das enfermeiras de
que seu comportamento não estava sendo "democrático". Relembramos

184
os comentários anteriores a respeito do médico, sobre a possível falta de
consciência de seus próprios comportamentos na mesma situação.
O comportamento verbal também reflete mal-estar em casos de ago­
nia e morte. O que dizem as enfermeiras a um paciente quando este
traz à baila o assunto de sua própria morte, como "Acho que vou morrer
logo" ou "Gostaria que tudo isto acabasse". Kastenbaum pediu a 200
atendentes e enfermeiras práticas licenciadas, em um hospital geriátrico,
esclarecessem seus motivos (34). Evidenciaram-se cinco categorias gerais
que descrevessem suas reações habituais a esse tipo de comentário e
de resposta:
Reconforto. "Você vai indo tão ôem. Não precisa pensar assim".
"Você logo vai sentir-se melhor, e não pensará mais assim. Você vai
voltar a ser o que era."
Negação. "Você não acredita nisso." "Você não vai morrer. Vai
chegar aos 100 anos."
Mudança de assunto. "Vamos pensar em algo mais alegre." "Você
não deveria dizer isso; há coisas melhores em que pensar."
Fatalismo. "Todos nós vamos morrer um dia e é uma boa coisa não
saber quando." "Quando Deus nos quiser, Ele nos levará. É pecado
alguém dizer que quer morrer."
Discussão. "Por que está dizendo isso hoje? Aconteceu alguma coi­
sa, alguém o andou aborrecendo?" "Pode me dizer por quê? Gostaria
de saber."
Fatalismo, negação e mudança de assunto foram as respostas mais
populares. Apenas 18% de todo o grupo indicou que discutiriam os
pensamentos e sentimentos do paciente (As enfermeiras práticas licen­
ciadas tendiam mais a preferir a discussão que as atendentes.) Em ou­
tras palavras, eram ínfimas as probabilidades de um paciente achar uma
funcionária da enfermaria que procurasse saber por que ele tinha a
morte em seu pensamento. Nenhuma disposição se notava de transferir
o recado para os superiores na hierarquia médica ou de enfermagem.
A tendência clara era a de "desligar" o paciente tão rápida e habilmente
quanto fosse possível.
As que tendiam a "desligar" o paciente costumavam explicar que
não gostavam de ver seu trabalho parecer tão lúgubre. Mencionar a
morte equivalia a um estado de medo e rendição - estados de espírito
inaceitáveis para o pessoal de enfermagem. Os pacientes deveriam querer
viver e esperar viver. Por isso, era correto desviar o pensamento fúnebre
da paciente. Algumas respondentes foram francas bastante para dizer:
' Conversa de morte me estraga o dia." Em geral, silenciar um paciente
que falava de morte parecia derivar de um ponto de vista humanístico
(Gosto de , er as pacientes felizes) e autoprotetor (Falar de morte me
faz tremer . Quando o fato_ eram demasiado óbvios para permitir uma

1 5
negativa fácil, a resposta fatalista surgia naturalmente, segundo muitas
das atendentes "porque acredito nisto".
As que tendiam a responder aos comentários fúnebres da paciente
com uma discussão aberta pareciam ter pendor para a solução de pro­
blemas. "As pacientes revelam emoção e pedem assistência psicológica.
Quero ver se talvez uma resposta possa ser achada para o seu problema
- ou alguma espécie de ajuda." Este tipo de resposta é "boa demais",
sugerindo talvez um. desejo de dizer o que se acredita que os psicólogos
gostam de ouvir. Mas .. havia, sem dúvida, um grupo minoritário inte­
ressado em descobrir o que a paciente realmente tinha em mente, de
modo a tomar alguma providência construtiva.
Uma amostra mais extensa de experiências e atitudes para com a
morte havia sido colhida no mesmo hospital três anos antes do estudo
mencionado acima (35). Do questionário de 60 perguntas então usado,
diversas questões são de interesse aqui. Os respondentes foram 221
membros do pessoal representando a maioria dos serviços do hospital.
Esta amostra incluiu 28 enfermeiras registradas, 37 enfermeiras práticas
licenciadas e 119 atendentes.
Como era de se esperar, a maioria do pessoal de enfermagem havia
tido repetidas experiências com a morte. Como se sentiam a respeito des­
tas mortes, e o que faziam em resposta a seus próprios sentimentos?
Um item de múltipla escolha propunha: "Na primeira vez em que estive
com paciente moribundo, eu (não tive sentimentos especiais) (tive senti­
mentos mas procurei não revelá-los) (tive sentimentos e deixei que apa­
recessem)". Dos respondentes, 90% indicaram que realmente sentiram,
mas procuraram não revelar seus sentimentos. Para outro item, com este
relacionado, "Quando estou com um paciente moribundo eu geralmente
(as mesmas alternativas já mencjonadas), teve resposta ainda mais pró­
xima da unanimidade: 94% indicaram a alternativa "procurei não re­
velar meus sentimentos".
Outro item aqui relevante: "Quando um paciente começa a "descer
ladeira abaixo", meus sentimentos para com ele costumam (tornar-se
mais fracos) (permanecer os mesmos) (tornar-se mais fortes)." Raras
vezes as enfermeiras indicaram uma diminuição de afeto (3%). A reação
mais freqüente foi sentir com mais intensidade (57%), e a reação comum
conservar os sentimentos no mesmo nível de sempre (40%).
Estas auto-avaliações, ao que parece, reforçam nossas observações,
feitas enquanto trabalhávamos lado a lado com enfermeiras no conjunto
hospitalar de doentes crônicos. A enfermeira tende a ser uma pessoa
que sente compaixão, média ou acima da média freqüentemente, pelos
que sofrem ou estão doentes. Enquanto algumas enfermeiras, a exemplo
de alguns médicos, procuram insular-se das implicações emocionais de
seu trabalho, é mais típicp da enfermeira preocupar-se com o que seus
pacientes estão sofrendo. Todavia, também é típico da enfermeira acre-

186
ditar que não deve "entregar-se" a seus sentimentos, a ponto de exibi-los
aos outros. Poder-se-ia dizer que ela é prisioneira da imagem de seu
próprio papel. As outras enfermeiras não fariam bom juízo dela e, con­
seqüentemente, ela não faria bom juízo de si mesma se desse vazão a
seus sentimentos.
A maioria das enfermeiras acredita que está praticando "benigno
igualitarismo à distância" (36). Os que observam o verdadeiro compor­
tamento de uma enfermeira (inclusive o cronômetro de LeShan) podem
ter dúvidas sobre seu sucesso em praticar uma impecável política de não­
discriminação. Bem ou mal sucedida, a enfermeira parece desempenhar
seu papel na situação agonia-morte com a intenção de emular o médico
"último modelo" - objetivo, científico. É inteiramente possível que ela
até supere o médico a este respeito, provando que pode ser tão eficiente
e objetiva quanto o mais refinado produto de nossas escolas médicas.
O modelo médico de cuidado eficiente mas essencialmente impes­
soal exerce sua influência não apenas sobre o médico, mas também
sobre a enfermeira e, crescentemente, sobre o próprio paciente. O que
mais diretamente nos interessa aqui, porém, é o dilema da enfermeira.
Ela começa com fortes sentimentos para com seu paciente; continua com
os mesmos fortes sentimentos; à medida que o processo "ladeira abaixo"
se acelera, seus sentimentos tornam-se ainda mais fortes - contudo, ela
se vê impelida a "não deixar os lábios tremerem, até o fim", a mostrar
fortaleza de ânimo.
Vale a pena analisar respostas específicas a este questionário dentro
do contexto das orientações gerais da enfermeira relativas à vida e à
morte. Um consenso definido (entre 81 a 93%) foi,encontrado quanto
a uma constelação de itens. A enfermeira típica neste estudo considera­
va-se a si mesma uma pessoa devota com forte crença em alguma forma
de vida após a morte. Isto incluía a convicção de prestar contas a Deus,
pessoalmente, após a morte. Poucas enfermeiras concordaram em que "a
vida de uma pessoa lhe pertence para fazer dela o que bem entender,
desde que não prejudique outras pessoas; se ela sente que deve dar cabo
da vida, ninguém tem nada com isso." Poucas relataram já ter desejado
que alguém morresse; poucas foram a favor da "morte por misericórdia"
em quaisquer circunstâncias. Interessante (para pessoas que estão pro­
curando salvar vidas) é que muitas das enfermeiras concordaram em que
"a duração da vida de uma pessoa está praticamente decidida quando
ela nasce. Faça o que fizer, quando chegar sua ho,ra, ela bate as botas."
Esta constelação de atitudes e crenças (que não foram exaustiva­
mente relatadas aqui) é visivelmente diversa da apresentada pelos fun­
cionários do mesmo hospital com antecedentes educacionais e ocupacio­
nais diferentes. É bom lembrar que os antecedentes sócio-econômicos,
étnicos e religiosos de uma mulher afetam seu pensamento e comporta­
mento mesmo quando ela veste o uniforme de enfermeira. Não se pode

187
dizer ao certo, no presente, quanto do papel da enfermeira na situação
mortuária sofre influência de seus antecedentes gerais e quanto sofre a
influência de seu treinamento ocupacional e das expectativas no desem­
penho de seu papel. É provável que os antecedentes pessoais e o estilo
ocupacional se associem em certas conjunturas para enfatizar determi­
nado comportamedto.
As dificuldades da enfermeira ao enfrentar as necessidades afetivas
dos pacientes terminais devem-se à falta de treinamento adequado. Ela
deve remontar a diretrizes formuladas em outras fontes: as atitudes para
com a vida e a morte aprendidas durante sua formação em seu meio
étnico e sócio-econômico particular; a pressão das colegas para confor­
mar-se à definição do que é uma boa enfermeira segundo o grupo; suas
próprias experiências pessoais e agudeza de espírito. Presume-se que
todas estas influências seriam menos poderosas se a enfermeira tivesse
recebido as vantagens de treinamento inteligente e de supervisão nesta
área.
Uma das defensoras principais do treinamento aperfeiçoado para
cuidar de doentes terminais é Jeanne C. Quint, enfermeira e cientista
social. Em seu recente livro (37) e em outras numerosas publicações,
ela chamou a atenção para a carga de cuidados que pesa sobre os ombros
da enfermeira:

Os programas educacionais de enfermagem não têm, em geral, pro­


porcionado ambientes nos quais as estudantes desenvolvam a ca­
pacidade de agir eficientemente em situações que são ameaçadoras,
seja pessoal, seja profissionalmente. Nem os instrutores de enfer­
magem têm sempre reconhecido o impacto emocional associado a
certos tipos de serviços prestados a pacientes. Esta herança educa­
cional nada tem de surpreendente quando se considera que a enfer­
magem nos Estados Unidos é, por tradição, algo autoritária, com
um prêmio vinculado ao autocontrole e à dedicação (38, 39).

Quint acha que o cuidado ao enfermo terminal é uma das situações


mais tensas e exigentes a que estão sujeitas muitas enfermeiras. "Con­
servar o paciente limpo, alimentado e confortável até que ele morra, ou
trabalhar com famílias vivendo sob a tensão de uma morte iminente, nem
sempre é fácil ou agradável." Acrescente-se a estas dificuldades a res­
ponsabilidade de tomar decisões que implicam em conservar a vida ou
dar lugar à morte.
Segundo Quint, o preparo da enfermeira para trabalhar com enfer­
mos terminais é unilateral. Preparam-na para que se preocupe demais
com o cometer erros. Em conseqüência, a aprendiz de enfermagem de­
fende-se, investindo em rituais e rotinas que tendem a aliená-la dos
pacientes específicos a quem está servindo. Descura considerações de
conduta, éticas e legais - inclusive o direito do paciente de ser infor-

188
mado de sua condição. Além disso, a enorme atenção concedida às téc­
nicas de prolongar a vida e às tênues esperanças de recuperação não
encontra equivalência na atenção em proporcionar conforto àqueles que
vão morrer. É difícil lutar para manter o paciente vivo a todo custo e
simultaneamente ajudá-lo a morrer de forma digna e confortado. Estes
dois objetivos conflitantes tornam-se mais difíceis de atingir pela "rela­
tiva irrelevância conferida à conversação como elemento valioso na prá­
tica de enfermagem profissional. Programas pedagógicos de enfermagem
geralmente .proporcionam instrução explícita sobre aspectos técnicos do
tratamento aos enfermos mas pouca orientação especializada sobre o em­
prego da conversação em benefício deles. Em parte, este estado de coisas
tem sua origem nas históricas associações da enfermagem com a medi­
cina, e no papel de serva subordinada à posição de autoridade do mé­
dico. Reflete ainda o atual estado elementar do conhecimento no conjunto
das ciências do comportamento enquanto relevante para a prática de
enfermagem" ( 40). Quint oferece uma série de recomendações para me­
lhorar o preparo da enfermeira visando enfrentar a situação mortuária,
recomendações dignas de séria atenção por parte daqueles em posição
de implementá-la.
Está visto que as observações de Quint são consistentes com as·
experiências e descobertas acima relatadas. Chegamos a uma visão da
enfermeira como pessoa que deve fazer face aos desafios diários e às
demandas da situação de morte - embora desprovida do nível de auto­
ridade do médico, desprovida do treino relevante para sua própria pro­
fissão, desprovida da atmosfera profissional que lhe daria apoio em
momentos de aflição pessoal ou durante seus esforços mais perigosos
e comprometedores. Não é de se admirar que ela se arrime em atitudes
e valores culturais não examinados. Nem deveríamos nos apressar a
pedir-lhe que abandone os rituais protetores que lhe permitem trabalhar
junto aos pacientes terminais. À semelhança do agente funerário e do
médico, nós mandamos a enfermeira em frente com ordens conflitantes
ressoando em seus ouvidos. Não temos certeza do que desejamos exata­
mente que ela faça com a morte, salvo, de algum modo, conservá-la
longe de vista.

O Representante da Religião

Morte e religião. Estes dois conceitos andam juntos há longo tempo.


É familiar o argumento de que as raízes de todas as religiões têm início
no encontro do homem com a morte, sua necessidade de enfeitar e inter­
pretar o desnudo fato da mortalidade. Como quer que se encare este
argumento, é difícil, todavia, negar as fortes influências mútuas entre
nossas atitudes para com a morte e para com a divindade. O sacerdote,
ou o ministro religioso, representa talvez nosso recurso mais antigo e

189
tradicional no sistema mortuário. Presume-se que seu papel deveria ser
menos afetado pela passagem do tempo que o dos outros "profissionais
da morte" já considerados. Os outros precisam acompanhar o ritmo das
rápidas inovações técnicas e das demandas cambiantes da cultura. O
religioso pode agarrar-se, firme, à fé e aos dogmas consagrados pelo
tempo - ou não pode?
Há motivos para acreditar que o religioso tem sido abandonado ao
sabor das ondas para nadar como melhor puder no redemoinho do pro­
gresso· moderno. Ele pode ter suas dúvidas sobre certas tradições reli­
giosas. Provavelmente ele se preocupa com seu papel geral na sociedade
e com seu papel específico no necro-sistema. Ele não é necessariamente
imune às noções estereotipadas e às ansiedades sobre a morte que flo­
rescem no meio social. Os sistemas religiosos encontram-se tumultuados
devido a uma série de questões relevantes ao ministério da morte, inclu­
sive o controle de nascimentos e a eutanásia. Há cada vez menos lugares
de refúgio para a pessoa que deseja basear a orientação de sua vida
inteiramente na religião. Até os conventos de freiras começaram a ajus­
tar-se aos tempos.
Enfrentar um homem as dúvidas em sua mente e as transformações
que estão ocorrendo à sua volta é uma coisa. Outra coisa é esperar que
esse homem enfrente o mundo como se tivesse perfeita confiança em
seus pontos de vista - especialmente se lhe pedirmos para demonstrar
seu controle total e tranqüilizador em situações que tendem a despertar
sentimentos de angústia e impotência em muitos de nós. Em suma, espe­
ra-se que o religioso diga e faça exatamente o que é correto em uma
situação de morte porque ele realmente "domina o assunto". Vários
religiosos nos disseram quanto esta tarefa é pesada. Em um livro recente,
o reverendo Carl G. Carlozzi reconheceu a "situação paradoxalmente
complicada _(do pastor) na qual ele é o representante de Deus para o
homem e, como tal, deve falar com convicçã.o autoritária; e, contudo,
ele é um homem e, junto ao Deus que ele serve, não goza de nenhuma
posição privilegiada ... " (41).
Apanhado entre seu papel público e suas dúvidas privadas, o sacer­
dote ou pastor pode desenvolver um estilo defensivo de agir. Margaretta
K. Bowers, médica, e três colegas representando pontos de vista psicoló­
gicos e pastorais observaram cinco "máscaras" a que o clérigo recorre
ao entrar na situação de morte (42):
1. Separatividade. "O ato da ordenação marca um homem como
custódio dos mistérios sagrados, como se ele soubesse a verdade mais
que os outros, e concede-lhe poderes reservados aos que têm uma virtude
especial."
2. Ação ritualizada. "O emprego de preces formalizadas e de pro­
cedimentos tradicionais possibilita entrar em um relacionamento humano

190
protegido do pleno encontro com a pessoa, porque a comunicação é antes
geral que específica ... "
3. Linguagem especial. "Expressões como 'graça da salvação' e 'po­
der de redimir' podem associar-se familiarmente com atos de culto pú­
blico, mas pouco ou nada podem significar para o paciente, pois nunca
fez uso pleno da substância mais profunda das palavras. Elas podem
significar algo para o pastor ou podem ser frases confortadoras ditas
com a segurança de que seu significado mais profundo nunca será
questionado."
4. Vestuário especial. O vestuário especial do clérigo diz ao pa­
ciente que "Eu sou diferente de você" em um momento em que é impor­
tante dizer "Nesta hora, partilho com você os pensamentos e sentimentos
que repassam sua solidão."
5. Negócio. Alguns pastores cuidadosamente cultivam a idéia de
que estão "terrivelmente ocupados com uma série de tarefas importantes
e que eles interrompem suas numerosas obrigações para fazer ao mori­
bundo o rápido favor de uma breve visita . .. "
Tanto Bowvers e colegas quanto Carlozzi chamaram a atenção para
estas manobras defensivas na tentativa de possibilitarem aos ministros
religiosos a compreensão de seu próprio comportamento e com a espe­
rança de que eles viriam a relacionar-se mais abertamente com o mori:
bundo. O leitor facilmente recoçhecerá que outras pessoas, devendo en­
trar em contato com o moribundo por dever de ofício, desenvolvem suas
próprias variantes das "máscaras" acima mencionadas.
O reverendo Robert E. Buxbaum, um experiente capelão de hospital,
comparou dois tipos de abordagem religiosa que não satisfazem as ne­
cessidades do paciente. Uma abordagem é exemplificada pelo "ministro
que entrou no quarto hospitalar de minha esposa durante a sua conva­
lescença de uma grave cirurgia. Com um sorriso, ele perguntou-lhe
como se sentia. Antes que ela pudesse começar a responder, ele pôs-se a
comentar o tempo. Disse que estava compilando uma lista de pessoas
que desejavam receber a Santa Comunhão na manhã seguinte. Quando
ela começava a formular sua resposta nos lábios secos, ele já estava
comentando sobre as flores ao pé do leito e desapareceu pela porta a
fim de se impor sofrivelmente ao maior número de sofredores possível."
O outro extremo é representado pelo "clérigo que entra no quarto do
doente com a Bíblia ou o livro de preces apertado em sua mão. Ele já
decidiu que versículo vai ler, que reza vai fazer, que perguntas vai for­
mular, e que áreas de interesse vai evitar. Como o Escoteiro, ele está
preparado! Mas seu nível de ansiedade, que o obrigou a preparar-se
desse jeito, é tão alto que ele precisa concentrar-se nos artifícios que
escolheu, esquecendo o ser humano deitado à sua frente. O ritual que
o protege de sua própria ansiedade muitas vezes o cerra para a possibi-

191
lidade de uma relação dinâmica de ajuda sintonizada com as necessi­
dades humanas reais do paciente" (43).
Em anos recentes, os religiosos que tornaram públicos os seus pon­
tos de vista parecem concordar em que devem, para serem úteis na situa­
ção mortuária, funcionar como uma pessoa sensível e amadurecida, além
de símbolo vivo de Deus e da igreja. Todavia, outras questões persistem.
O que um religioso realmente faz quando está com uma pessoa que vai
morrer ou com alguém que a pranteia? O que deveria fazer? Há lugar
para uma presença não-médica, não-técnica, não-instrumental em nossa
cultura atual? Talvez o sacerdote ou o pastor já não possa "mostrar o
caminho". Talvez ele até esteja a .caminho.
A nosso ver, o ministro religioso conserva um lugar significativo no
necro-sistema porque ele não tem funções médicas ou tecnológicas a
desempenhar. Tendemos a concordar com o reverendo Buxbaum quando
ele observa:

No mais significativo dos níveis, o ministro (adequado) nada faz


no quarto do doente. Ele não veio ver o paciente. Ele não veio
tratar o paciente. Ele não veio realizar nenhum rito mágico. Ele
veio para estar com o paciente. Só isso. Mas não é tão simples
assim! A rotina do hospital, com seu pessoal sempre atarefado,
implica em saídas e entradas do quarto do paciente durante o dia
inteiro. Eles vêm para saber, para ali estar, para fornecer, para
levar embora, para tratar, para examinar, para aconselhar, e assim
ad infinitum. A tarefa do pastor, o que o torna um recurso tão
valioso para o atarefado pessoal hospitalar, é estar ali sem outra
razão que simplesmente a de estar com o paciente! (44).

Acrescentaríamos as seguintes considerações:


1. Em nossa cultura móvel e orientada para a realização, tendemos
a desaprovar ou suspeitar ou sentir constrangimento com uma pessoa
que "não está fazendo nada". Até o tempo de lazer é encarado por muita
gente como uma demanda para a recreação ativa. Gostamos de ter evi­
dência palpável de que as pessoas estão fazendo algo. Como produto
desta cultura, o religioso norte-americano pode sentir que os outros
esperam que ele faça algo de visível e, de preferência, "especial". Um
alto grau de autoconfiança e de íntima tranqüilidade pode ser neces­
sário ao religioso para simplesmente estar com o enfermo.
2. Mais que qualquer outra pessoa em nossa sociedade, o ministro
religioso representa uma tradição que tentou, ao longo dos séculos, dar
uma organização integradora à experiência total da vida humana. Nem
todo indivíduo se inclina a pensar maduradamente sobre a relação entre
sua própria vida pessoal no momento, e tudo o que ocorreu antes de si
e tudo o que ainda virá. O sacerdote, ou o pastor, não precisa oferecer
uma longa série de conferências em teologia à pessoa que ele procura .

192
..onfortar. Ele pode encontrar seu próprio modo de comunicar e reforçar
o senso de relação do indivíduo com valores duradouros.
3. O "atarefado pessoal do hospital" também precisa de uma ori­
entação no sentido oposto. Se os capelães fogem às suas responsabilidades
pelas vias já descritas, então os especialistas técnicos no necro-sistema
provavelmente se sentirão mais isolados e sob pressão maior. Os profis­
sionais tendem a sentir-se aflitos quando nada há de palpável a fazer.
A presença positiva do clérigo pode reduzir a insegurança e a culpa do
pessoal hospitalar. Alguém mais está por ali para partilhar a responsa­
bilidade. O religioso capaz de comunicar-se significativamente com o
paciente e sua família pode ter um efeito médico favorável, se bem que
indireto. O corpo médico e paramédico sentir-se-á menos inclinado a
sujeitar o doente ao aborrecimento de métodos de "cura" que não têm
probabilidade de melhorar sua condição. E, é claro, o contato do reli­
gioso com o moribundo pode melhorar a vida interpessoal deste último:
a) demonstrando ao pessoal e aos visitantes que alguém ainda considera
o enfermo uma pessoa merecedora de toda a atenção, e b) permitindo-lhe
aceitar melhor sua situação e tornando-se, por isso, mais "atraente" ao
pessoal em serviço.
Quase tudo o que se disse aqui sobre a relação do religioso com
a morte deriva de experiências e observações feitas com o clero protes­
tante. Temos a impressão de que o "ministério da morte" tem sido su­
jeito a mais discussão e reavaliação pelo clero protestante do que pelo
clero de- quaisquer outras crenças. De qualquer modo, uma vez que
nossa exploração aqui deve ser limitada, decidimos nos concentrar na
abordagem protestante. Mas é importante recordar que diferenças pon­
deráveis continuam a existir entre as várias religiões, embora todos os
sistemas religiosos tenham sido soprados pelos ventos da mudança.
Consideremos, por exemplo, as diferenças entre protestantes e cató­
licos quanto ao funeral. O sociólogo Robert L. Fulton enviou questio­
nários a cerca de 1800 clérigos em todos os Estados do país. Pouco mais
de um terço dos questionários foram preenchidos e devolvidos. Embora
Fulton esperasse obter números adequados de devoluções do clero he­
braico e do protestante negro, houve retorno tão pequeno que não se
justificava a análise estatística. Estes foram os dados referentes ao clero
protestante branco e ao clero católico quanto ao funeral (45):
1. Os sacerdotes encaram o funeral como um veículo para a prece
e a salvação da alma. Dá-se ênfase às honras prestadas à memória e ao
corpo do falecido.
2. O clero protestante acha válido o funeral pela paz e compreensão
que proporciona aos sobreviventes. O funeral existe primordialmente
para confortar os que se sentem órfãos ou privados de um ser querido.
Reforça também a esperança de uma vida futura.
3. A maioria dos padres nesta amostra encaram o funeral de hoje

193
como adequado às suas finalidades. Enquanto a maioria do clero protes­
tante desta amostra compartilhava deste ponto de vista, houve uma mi­
noria discordante (35% ). Estes ministros, críticos do funeral da atuali­
dade, vituperaram as exibições ostentosas, o· esquife aberto, a ênfase em
aspectos sociais do funeral, e o excessivo controle que achavam estar
sendo exercido pelos agentes funerários.
4. Sem que fosse surpreendente, em vista do que se apontou acima,
quase todos os sacerdotes católicos acharam que não havia necessidade
urgente de alterar as práticas tunerárias - mas a maioria dos ministros
·
protestantes achou que devia se proceder à mudança.
Ambos, os sacerdotes católicos e os ministros protestantes, en,r,a­
raram o funeral como um de seus rituais mais significativos. Ambos se
preocupavam com os sobreviventes tanto quanto com o falecido. Em
geral, porém, os sacerdotes enfatizavam mais a realização de um culto
apropriado aos mortos, enquanto eis ministros enfatizavam seu papel
como amigo-consolador-conselheiw dos parentes enlutados.
Analisemos por um momento a fricção que freqüentemente existe
entre ministros (mas não padres) e agentes funerários. Nós a tomamos
como um exemplo da influência de fatores psicológicos e sociais sob,re
as funções do profissional no necro-sistema, inclusive suas dificuldades
de relacionamento com outros profissionais. Fulton sugere que a amea­
çadora perda de status é uma das mais fortes condições a influir para
que o ministro se sinta antagônico aos agentes funerários e ao funeral
da atualidade. Ele se refere à "mudança relativa de status que os· clé­
rigos, e particularmente os protestantes, experimentaram durante as
últimas décadas. Há menos de um século, o padre ou o pastor local
gozava de prestígio igual ou maior na comunidade norte-americana que
seus colegas profissionais, ou seja, o médico, o advogado, ou o dentista.
Ele sozinho era autoridade quanto ao funeral. Quando solicitados, o
marcineiro ou o sacristão-coveiro da igreja amortalhavam o cadáver.

Hoje, os clérigos observam o recém-descoberto prestígio gozado por


médicos, advogados e outros profissionais na comunidade e têm
consciência também da remuneração material que estas profissões
oferecem. Em relação a estas profissões, muitos clérigos sentem a
perda de status pois, falando de outro modo, estas profissões pro-
grediram mais rapidamente que o clero. Mas, acrescente-se, os clé­
rigos descobriram que o marcineiro, que ontem os assistia na reali­
zação do funeral, hoje não só se oferece para encarregar-se do
funeral completo mas também está preparado para realizá-lo em
sua própria "capela". Para muitos clérigos, isto é não só irritante
pessoalmente, mas também contrário aos princípios de sua fé (46).

Fulton acredita que a perigosa perda de status não é tão severa para
os sacerdotes. A Igreja Católica tem insistido em conservar o serviço

194
fúnebre dentro da igreja e, em geral, dá ao sacerdote a oportunidade de
exercer maior grau de controle sobre seus paroquianos. É o ministro
protestante quem comumente deve realizar seus serviços em uma "ca­
pela" do agente funerário. Ele sente embaraço e contrariedade a respeito
de seus honorários, bastante desfavoráveis se comparados à taxa recebida
pelo agente funerário. Não é que o ministro esteja ansioso para tirar
lucro de um funeral (muitos recusam honorários dos membros de sua
igreja). Mas não pode deixar de observar que o valor de seus serviços
(expresso na linguagem do dinheiro) é tido como muito inferior ao de
seu colega mercantilista, o agente funerário.
Existe agora um crescente corpo de conhecimentos relativos à con­
duta e às atitudes de ministros, adquirido por ministros que se deram
ao trabalho de aprender as necessárias normas de pesquisa. Em uma
recente tese de doutoramento, por exemplo, o reverendo Rutherford E.
Everest apresentou uma intensiva pesquisa sobre os serviços do clero
protestante às pessoas desoladas pela perda de um ser querido (47). Seu
trabalho constitui uma contribuição não só ao ministro, pelo entendi­
mento que ele pode ganhar de seu próprio modo de agir, mas também
à psicologia social da morte, em geral. Ele descobriu, por exemplo, que
a natureza da ênfase do ministro antes, durante e após o funeral rela­
cionava-se com sua idade, experiência e treinamento - e não com sua
seita particular. Além disso, os clérigos que preferiam a abordagem
"integradora-significativa" (ajuda aos que perderam alguém para inte­
grar o evento da morte em uma estrutura cognitivamente significativa)
tiveram, durante sua juventude, uma exposição significativamente maior
à morte que o clero em geral. Estas são apenas algumas das descobertas
do reverendo Everest. Obviamente, é possível aos ministros selecionarem
e aplicarem técnicas úteis dentre os recursos científicos de nossa cultura
sem ter de abdicar de seus próprios valores e propósitos.

O Especialista em Saúde Mental

"Notável pela sua ausência" é uma avaliação bastante exata do


papel do perito em saúde mental no necro-sistema de nossa cultura.
Pelo menos, esta afirmação estaria muito próxima da verdade até poucos
anos atrás. Freud e algumas grandes figuras da psiquiatria disseram algo
sobre a psicodinâmica da morte. Mas não se poderia dizer que o movi­
mento psiquiátrico em geral teve qualquer envolvimento com o morrer,
a morte, a desolação pela perda de um ser querido, ou a promoção da
longevidade. Houve um mero arranhão especulativo e relatos clínicos
episódicos, e apenas um estudo isolado ocasional. A pesquisa pioneira
:obre a desolação pela perda de um parente, feita pelo sociólogo Thomas
D. Eliot, era muito avançada para o seu tempo ( 48). Seus colegas não
compreendiam por que ele desperdiçava seus esforços nesse assunto.

195
Mesmo o aparecimento de um genuíno "clássico" não garantiu o
vigoroso movimento de todos em favor da causa da higiene mental. O
trabalho de Émile Durkheim sobre o suicídio (49) foi original e provo­
cante. Contudo, muito tempo decorreu antes que se fizessem esforços
intensivos e sistemáticos para investigar e prevenir o suicídio. Brilhantes
jornalistas denunciadores de corrupções administrativas (um termo hon­
roso) repetidamente mostraram como práticas egoístas e empedernidas
colocavam em perigo vidas humanas, e diversas novelas escritas dentro
desta tradição alcançaram grande popularidade (como a de Upton Sin­
clair, A Selva (50). Algumas pessoas foram despertadas por estas reve­
lações, e eventualmente procederam a reformas. Mas a psicologia acadê­
mica e os praticantes da psiquiatria não viram, ao que parece, nenhuma
correlação entre perigos à vida culturalmente produzidos e a dedicação
a seus próprios interesses científicos e profissionais.
O rápido progresso do movimento de higiene mental nos Estados
Unidos não foi acompanhado por um aumento paralelo de atenção à
morte e tópicos correlatos. Mesmo hoje, a dimensão da "morte" é escas­
samente abordada em sala de aula universitária, de onde sairão os pes­
quisadores e clínicos de amanhã. Um curso de um ano sobre psicologia
do desenvolvimento - ou melhor, um programa de graduação de quatro
anos - quase nada inclui sobre a íntima relação entre crescimento e
morte. O futuro psicólogo clínico deve dominar, espera-se, um espan­
toso volume de matéria; mas raramente se inclui a psicodinâmica da
morte.
A situação está mudando. O progresso parece bastante substancial
quando visto à luz deste prévio fundamento de inatividade. Mas ainda
existe tão pouco em matéria de pesquisa e prática relativas à morte que
os colegas persistem em erguer as sobrancelhas quando cruzam com um
"homem da morte" esporadicamente (51). Muitas perguntas surgem.

Por que a Presença de Especialistas em Saúde Mental não se


fez Evidente no Sistema Mortuário?

1. Porque eles podiam evitar a confrontação com a morte. O agente


funerário, o médico, a enfermeira, o clérigo, escolheram atividades pro­
fissionais que os expõem à agonia, à morte e à desolação pela perda
de um ente querido. Uma vez dentro da situação, eles podem evitar ou
minimizar um profundo envolvimento, recorrendo a uma variedade de
defesas psicológicas e sociais (como as "máscaras" do ministro anterior­
mente mencionadas). Mas o psicólogo, ou o psiquiatra, não precisa su­
jeitar seus sentimentos a esses riscos, evidentemente. Nem sua profissão,
nem ninguém mais, o define como um agente responsável nas situações
de morte.

196
2. Porque a escola superior era acadêmica. A psicologia não va­
==-eava muito longe da sala de aula e do laboratório experimental. A
"li 'ersidade não se reputava a si mesma um meio de satisfazer neces­
: dades da comunidade (ou de intrometer-se nelas). Embora houvesse
rte interesse por processos básicos (isto é, percepção, sentimento e
ç,ensamento), este interesse cingia-se principalmente a hipóteses e inves­
igações em dimensões de laboratório.
3. Porque os psiquiatras classificavam-se como "orgânicos" ou mé•
i os do sistema nervoso. O novo quadro de psiquiatras psicanalíticos
provocou grande impacto neste campo. Os que ficaram fora do movi­
mento muito aprenderam e avaliaram. Gradualmente, a influência da
eoria psicanalítica impregnou boa. parte da psiquiatria e atraiu recrutas
a psicologia, da assistência social, e de campos afins. Mais relevante
para nosso presente tópico é o ponto de vista caracteristicamente psica-
nalítico de que a dinâmica intrapsíquica guardava a chave para com­
preender e modificar o comportamento. Isto foi especialmente verdadeiro
"los primeiros tempos da psicanálise. Os problemas da "realidade", como
eram chamados, despertavam menor interesse. Descobertas e introvisões
excitantes estavam sendo feitas principalmente no domínio do intrapsí­
.uico. Teóricos e clínicos psicanalíticos, ao que tudo indica, confiavam
em que virtualmente todos os problemas humanos podiam ser compre­
endidos pela análise profunda do indivíduo. E, com isto, onde ficava a
morte? De fora. Só de modo indireto e pálido, a morte podia ser tradu­
zida em matéria puramente intrapsíquica. A preocupação com a morte,
u o medo dela, poderiam ser interpretados como parte de uma cons­
elação neurótica. Todavia, a morte comó fator "de realidade" ou "ob­
etivo" situava-se além do alcance da psiquiatria psicanalítica em seus
primeiros anos de pujança.
Nesse ínterim, aqueles clínicos não persuadidos a engrossar as filei­
ras psicanalíticas preferiam explicações orgânicas para os distúrbios de
pensamento e comportamento. A ênfase em componentes orgânicos,
demonstrados ou suspeitos, das desordens comportamentais acompanha­
Ya-se de clara falta de ênfase em componentes psicossociais. Não se
deveria, por exemplo, dar séria atenção às influências sócio-econômicas
no suicídio, ou às atitudes dos pais e à estabilidade emocional como
determinantes da probabilidade de sobrevivência da criança. Recorda­
mos também que a psiquiatria de orientação orgânica, de que estamos
falando, interessava-se mais por pessoas severamente perturbadas. O
psiquiatra típico não tinha grande · oportunidade, dentro de seu papel
profissional, de explorar as relações múltiplas e sutis que uma pessoa
·'normal" desenvolve a respeito de sua própria morte.
4. Porque nossa nação permaneceu relativamente livre da morte em
massa que ocorre em períodos de guerra, fome e epidemias. Morte vio-

197
lenta, desnutrição e doenças ameaçadoras realmente existem nos Estados
Unidos faz muitos anos. Chacinas em territórios de quadrilhas, vítimas
da seca em regiões assoladas por tempestades de areia, e difteria - são
alguns dos rótulos pelos quais temos conhecido condições letais. Consi­
derando, entretanto, o grau ger�l de vulnerabilidade e sofrimento hu­
mano, tão grande no decurso dos séculos e ainda hoje persistente, nossa
nação tem sido bem favorecida se comparada com muitas outras. O
jovem·norte-americano que, um dia, seria um psiquiatra ou um psicólogo,
não estaria condicionado desde o nascimento pelos receios e símbolos
da morte. Se tivesse nascido no México, na 1ndia, ou em vários outros
lugares, ele talvez tivesse organizado sua personalidade em torno da
realidade e do prospecto da morte.
5. Porque o progresso material e o otimismo social ainda eram
grandes. Nós nos havíamos tornado uma cultura orientada para a reali­
zação e estávamos, de fato, realizando. Se as fronteiras geográficas gra­ de um povo cuja \
dualmente dimi11uíam, havia, não obstante, uma notável sucessão de diminuta manifestaçã -
novas fronteiras tecnológicas esperando identificação e exploração. Não são: Como o clero
havia clima emocional e mental para que alguém se preocupasse com imaginação de seus p
a morte. Sentimentos mórbidos não correspondiam ao novo espírito. outras deixaram de a� -
6. A morte era improdutiva e indicadora de fracasso. Do ponto de religioso tradicional _ :;
vista - tecnológico-materialista, crescentemente predominante, não se jus­
tificava associar-se aos que logo iriam morrer. E não havia "grande
coisa" para o profissional que se acercasse de um moribundo. Tudo que serviam. Além dis. , _
ele podia esperar dali era o desconforto e o vexame por seu derradeiro compensatório do se
fracasso, pois "em termos de mercado, não é realmente um bom negócio homens são irmãos''
investir em empresa transitória e condenada". .entíssemos
Um clínico ponderou: "Que índices quantitativos deveriam ser esta­ respeito.
belecidos para guiar o psicoterapeuta? Deveria tratar alguém que tem
probabilidade de viver 20 anos, mas não alguém cuja expectativa de
vida é de 10 anos? Ou, talv\!Z se possa reduzir aqueles 20 para 10?
Sim! 5 anos, não! Ou talvez se· pudesse elaborar uma medida mais refi­
nada: tantas horas de sessão psicoterápica efetuada à tais e tais níveis
quantitativos de esforço seriam dedicadas a pessoas cuja probabilidade
·
de viver fosse estimada em tais e· tais algarismos. Quanto mais levamos
a sério a transformação da vida humana em números, mais absurdos
nos sentimos.
tornou-se uma possi
7. Porque quem morre são pessoas sem importância. Já salienta­ desenvolvimento m
mos que, hoje, para muita gente, a morte ocorre mais tarde na vida, loca face a face com
um fato incomum ao longo da história. Há mais forte tendência a encarar
idade avançada e morte como intimamente ligadas. Há mais forte ten­
dência também a desvalorizar homens e mulheres idosos ("O que você
fez por mim nestes últimos anos?") O resultado final desta combinação
é que um evento desvalorizado (a morte) sucede a uma pessoa desvalo-

198
rizada (idosa). Na proporção em que psiquiatras e psicólogos evitaram
o contato com gente idosa - nessa proporção eles se insularam ainda
mais do contato com o necro-sistema.
Outros fatores ainda poderiam ser mencionados. É verdade, os
"higienistas mentais" tinham liberdade para evitar as situações de morte.
Mas por que tinham tanta liberdade? Em outras palavras, por que mé­
dicos e ministros religiosos não lhes exigiam nad�? Acaso os "profis­
sionais da morte" fecharam a porta aos novatos ein psicologia, psiquia­
tria e assistência social? Em outra dimensão: a orientação independente­
isolacionista de nossa nação nos insulou do sentimento e do conheci­
mento de flagelos letais em outras partes do mundo? Estariam fatores
internos operando em nossa cultura e permitindo que erigíssemos e
mantivéssemos um muro psicológico? Referimo-nos ao muro que se ergue
entre nós e os que têm sido extraordinariamente vulneráveis à degradação
e à morte. Podemos mencionar os índios norte-americanos como exemplo
de um povo cuja vulnerabilidade foi sistematizada e perpetuada com
diminuta manifestação de clamor público. Ou, ainda em outra dimen­
são: Como o clero norte-americano perdeu o controle das emoções e da
imaginação de seus paroquianos? Alguma coisa deve ter acontecido (e
outras deixaram de acontecer) para nos termos afastado tanto do foco
religioso tradicional sobre a morte.
Os primeiros "higienistas mentais" devem ter crescido em um clima
social onde os homens severos e influentes no velório (o clero) não mais
serviam. Além disso, a este mesmo clima faltava o desenvolvimento
compensatório do sentimento de justiça social. A advertência "Todos os
homens são irmãos" não fora suficiente para criar um contexto onde
sentíssemos que a vida e a morte de nosso irmão intimamente nos dizia
respeito.

Por que Existe Agora uma Onda de Interesse na Morte?

1. Porque enfrentamos o prospecto da morte em massa. Talvez mui­


tos de nós tivéssemos absorvido o imenso impacto da 2.ª Grande Guerra
da mesma forma que uma geração anterior procurou continuar a viver
como se a 1.ª Grande Guerra nunca tivesse acontecido. Mas, no fim da
2.ª, houve (e ainda há) A BOMBA. Aniquilação em massa aqui, e ali,
tomou-se uma possibilidade que pinça qualquer nervo. Além disso, o
desenvolvimento multilateral das capacidades de "supermatar" nos co­
loca face a face com o prospecto que tem poucos ou nenhum precedente
histórico: o prospecto de que em um rápido cataclisma perderemos não
só nossas vidas, mas toda a posteridade. (Desta vez, Noé e sua Arca
não se vêem no horizonte, e existe muita gente que toma o boato "Deus
está morto" mais concretamente do que os boateiros pretendiam.)

199
Para muita gente que pensa, este prospecto fez mais do que servir
apenas como outra ameaça às suas vidas. Levou-os a questionar de novo
a significação da vida. De que é feita esta vida que pode ser calcinada
e desaparecer da terra em um piscar de olhos? De que é feito este
homem que se fez tão próximo da conflagração total? Uma nova face
da Morte virou-se para nós. B o semblante da morte que dá cabo de
todas as mortes porque dá cabo de toda a vida (a vida que conhecemos).
2. Porque estamos menos isolados da morte violenta. Neste capítulo
já mencionamos o pendor norte-americano a insular-se da morte. Somos
peritos em nos proteger da exposição à morte e à chamada morte "na­
tural". Morte violenta ou inesperada é outra coisa. B mais difícil nos
insularmos da exposição à morte não programada. Esta dificuldade au­
menta agudamente com a agravante influência dos meios de comuni­
cação de massa. Televisão, por exemplo. Aquela janelinha em nossa sala
abre para um mundo de faz-de-conta comercial típico de nosso tempo.
Mas ali há ocasiões mais freqüentes em que uma mudança de canal nos
leva a um mundo de pesadelo e, não obstante, real. Sofrimento e morte
em uma região fisicamente remota da terra ingressam instantaneamente
em nosso ambiente doméstico. "Eles não deveriam mostrar um horror
desses", reclamaram alguns espectadores sobre a cobertura televisiva da
guerra no Vietnã. Outros sofrem tal choque e perturbação que devotam
grande parte de suas vidas à ação social e ao ativismo político.
3. Porque temos agora mais higienistas mentais traquejados, expe­
rientes. A$ áreas de psiquiatria e psicologia já existiram o bastante para
ter formado largos escalões de profissionais amadurecidos. Em outras
palavras, há mais psiquiatras e psicólogos envelhecidos agora do que
em épocas passadas. Eles experienciaram a morte de seres queridos, e
sua própria mortalidade se avizinha como um pros·pecto difícil de inter­
pretar segundo as fórmulas psicodinâmicas que eles aprenderam décadas
atrás. E há maior número de higienistas mentais que passaram pessoal­
mente pelas mais excruciantes experiências de nosso século, inclusive
batalhas, prisão militar e campos de concentração.
4. Porque mera fé no progresso material está em declínio. Nós nos
tornamos conscientes de que a tecnologia não resolve necessariamente
os problemas sociais ou humanos. De fato, nosso avanço tecnológico
(como técnicas agrícolas aperfeiçoadas, automação, progresso na explo­
ração espacial) parece provocar uma reação igual e contrária. Mesmo
o desenvolvimento e a aplicação de técnicas prolongadoras da vida são
freqüentemente atacadas como indesejáveis e antieconômicas. Em suma,
poucos dentre nós, hoje, nos dispomos a confiar nos benefícios automá­
ticos derivados do progresso material. Tipos e níveis de sofrimento ina­
ceitáveis e mortes desnecessariamente prematuras não desapareceram e
mostram pouca tendência a fazê-lo.

200
5. Porque suspeitamos que nosso próprio estilo de vida tem com­
ponentes letais. Quem polui o ar que respiramos? Quem subverte a eco­
logia a tal ponto que sucessivas espécies de vida animal estão chegando
à beira da extinção? Quem nos mata nas estradas à alta velocidade?
Quem infiltra álcool e drogas em nossos corpos? Quem nos aponta esse
revólver? Quem escreve esse bilhete de suicida para nós? Quem mal­
trata nossas crianças? Quem faz a guerra?
Há razões absolutamente justas, objetivas, para que estas questões
nos interessem (conforme documentamos nos capítulos de 7 a 11, que
tratam da longevidade). Levou-nos algum tempo para desenvolver a
necessária sensibilidade social que transformaria estas questões em preo­
cupações públicas abertas. É possível, entretanto, que haja importantes
razões subjetivas. Podemos nos sentir responsáveis pela morte dos ou­
tros em uma guerra claramente impopular. Temos memória de nossos
ataques nucleares ao Japão. Podemos até estar começando a sentir algu­
ma responsabilidade pelas miseráveis condições de vida (que conduzem
à morte) de alguns de nossos concidadãos. Também começamos a sentir
apreensão pelas ameaças que nossa tecnologia e desenvolvimento agrário
colocam à vida animal. Em outras _palavras: culpa.
Alguns dos fatores aqui mencionados enquadram-se, sem sombra
de dúvida, na área da saúde mental (por exemplo, o suicídio); outros,
são fronteiriços (como os acidentes); ainda outros, ao que parece, dis­
tanciam-se das definições convencionais do que interessa à higiene men­
tal (como poluição das águas). Mas o senso de envolvimento intrínseco
com circunstâncias letais enquadra-se obviamente dentro dos limites da
psicologia e da psiquiatria. Na medida em que estamos começando a
suspeitar de que nosso modo de pensar, sentir e agir pode ser relevante
ao onde e ao como nós (e outros)" morremos, nessa medida estamos con­
vidando os higienistas mentais a abordarem o morrer e a morte.

O que os Especialistas em Higiene Mental estão Fazendo em


Relação à Morte?

1. Tentando evitar o suicídio. Autodestruição é, reconhecidamente,


um problema de higiene mental (mais exatamente, alguns dos aspectos
deste problema enquadram-se na área de saúde mental). Trataremos
extensamente do tópico do suicídio no capítulo 7. Aqui, apenas deseja­
mos salientar que a prevenção do suicídio tornou-se a mais visível ati­
vidade da psicologia clínica e da psiquiatria dentro da área geral da
morte. Centros de prevenção do suicídio funcionam em muitas de nos­
sas cidades. Desenvolvem-se cursos de preparo e treinamento a fim de
melhorar nossa identificação dos suicidas em potencial e aperfeiçoar
contramedidas eficientes.

201
1. Tentando identificar componentes psicossociais em outros tipos
de morte. Os psiquiatras Avery D. Weisman e Thomas P. Hackétt, por
exemplo, observaram que certas atitudes ou predisposições da parte do
paciente associam-se, ao que parece, com o fracasso em recuperar-se de
uma cirurgia (52). O sociólogo Irving K. Zola deu sua contribuição a
nosso conhecimento da relação entre pertencer a uma classe sócio-eco­
nômica e tender a retardar ou procurar o tratamento de uma doença
(53). Os psicólogos Frank Kirkner e Joseph Gingerelli apresentaram
material sugerindo que fatores de personalidade podem estar relacio­
nados com a defesa orgânica contra o câncer (54). O sociólogo August
B. Hollingshead e o pediatra Raymond S. Duff trouxeram mais luz à
relação entre fatores humanos inerentes ao enfermo e ao médico e a
qualidade áo tratamento prestado pelo hospital (55). Estes são alguns
dos muitos exemplos possíveis. Existe agora um crescente corpo de co­
nhecimentos sobre o papel de fatores psicossociais nos vários atalhos
para a morte: doenças, acidentes, assassínio e suicídio. Alguns destes
estudos trazem implicações abrangendo a prevenção e a intervenção.
3. Tentando melhorar o cuidado ao paciente terminal. Nos últimos
anos, alguns especialistas em saúde mental focalizaram sua atenção sobre
a pessoa que vai morrer - como é tratado o morituro enquanto pessoa"?
Como deveria ser tratado? Muita gente achou extremamente estranho
quando o psiquiatra kw:t Eissler devotou um livro a O Psiquiatra e o
Paciente Moribundo (58) não faz muito tempo. Agora uma variedade de
livros e artigos estão aparecendo regularmente. Alguns, escritos por pro­
fissionais em saúde mental, e outros por enfermeiras, clérigos e médicos
que adotaram um ponto de vista psicossocial.
4. Tentando descontaminar o tópico da morte. Há mais de uma dé­
cada, o psicólogo Herman Feifel mostrou que a morte estava sendo tra­
tada como um tópico-tabu em nossa sociedade (57). O vigoroso trabalho
de Feifel, gradualmente acompanhado por outros, começa a produzir
impacto. Ele reconheceu que realmente não poderia haver utilidade em
uma psicologia da morte até que as pessoas (inclusive seus próprios co­
legas) estivessem dispostas a aceitar este tópico como relevante e legí­
timo. Feifel encontrou muita resistência a seu interesse pela morte. A
atitude de resistência tornou-se, assim, óbvia e imediatamente, um tema
de pesquisa.
5. Tentando integrar a dimensão da morte nos programas educacio­
nais e de treinamento. Futuros psicólogos, psiquiatras, sociólogos e as­
sistentes sociais deveriam, a nosso ver, ter a oportunidade de refletir
sobre a morte, já que é relevante ao trabalho que desempenharão na
vida. (Em termos práticos, isto também exige alguma atenção às signi­
ficações pessoais que a morte têm para eles.) Diga-se o mesmo de enfer­
meiras, médicos, clérigos, policiais, etc. Ainda não se fez muito neste

202
sentido. Têm havido alguns cursos universitários sobre os aspectos psi­
cológicos da morte. Simpósios e séries de palestras já não são excentri­
cidades. Mas, em psicologia, ainda existe pouca consciência de que a
mor.te poderia entretecer-se com o conteúdo de cursos sobre uma varie­
dade de assuntos: personalidade, aprendizagem, cognição, desenvolvi­
mento, saúde mental comunitária, para citar alguns.

COMO OBSERVADORES PERITOS ENCARAM


NOSSO SISTEMA MORTUÁRIO

Estivemos examinando as atividades de vanos profissionais dentro de


nosso necro-sistema. Existem ainda, entre nós, alguns observadores peri­
tos que procuram, colocados a certa distância, com melhor perspectiva,
julgar todo o sistema. A fim de reduzir a repetição, focalizaremos aque­
les pontos de vista que acrescentam novas facetas ao que foi discutido
neste capítulo e no anterior.

O que Nosso Sistema fez com os Mortos?

Os mortos foram expelidos. Eles já não têm importância para a


estrutura social em geral nem para o sistema mortuário em particular
(Capítulo 7). Esta observação foi feita pelo sociólogo Robert Blauner
(58). Ele concorda com a opinião atual dos autores deste livro de que
hoje existe uma "diminuída visibilidade da morte". Ele vai mais longe,
porém, e sugere que a relativa invisibilidade da morte em nossa socie­
dade tecnológica fez os mortos nos parecerem menos reais e poderosos.
Blauner nos recorda que "nosso conceito da vida interior dos espíritos
é muito fantasmagórico. Em sociedades primitivas, um vasto elenco de
atitudes e sentimentos lhes é imputado, ao passo que uma cultura cien­
tífica esvaziou de conteúdo emocional e mental específico sua vaga ima­
gem da vida do espírito." Em termos gerais, não sentimos que os mortos
exercem influência sobre nós enquanto prosseguimos em nossa rotina
diária. Talvez o ponto mais importante aqui seja que não precisamos
mais dos mortos. Que significa isto? Nossos ancestrais "precisavam" dos
mortos; como podemos nós julgá-los dispensáveis?
Tentando explicar a falta de importância dos mortos, Blauner re­
fere-se à nossa relativa falta de afinidade pela tradição e pela autoridade
- ambas freqüentemente associadas, é claro, às pessoas idosas. Blauner
acha que "os mortos e seus interesses simplesmente não são relevantes
para a vida em uma sociedade que se sente liberada da autoridade do
passado e orienta suas energias para as preocupações imediatas e as pos­
sibilidades futuras" (59).
Estas observações levam a duas implicações mais:

203
1. Nossa distância social para com os mortos está aumentando.
Blauner refere-se à "distância social" que se alonga entre vivos e mortos
em nossa própria sociedade. Esta é uma fascinante extensão do conhe­
cido conceito de distância social. A argumentação de . Blauner implica
em que a distância social entre vivos e mortos pode ter o valor de uma
variável na p�quisa transcultural e de subculturas. Poder-se-ia, por exem­
plo, testar sua própria hipótese de que, com o crescente desenvolvi­
mento científico e industrial, a sociedade alarga a brecha entre vivos e
mortos. O senso de estar relacionado com os mortos pode variar com
o nível àe desenvolvimento do indivíduo, suas experiências de aprendi­
zagem social e a organização de sua personalidade.
2. Nossas atitudes para com os mortos, como índices de estrutura
social e de mudança, estão se alterando. Neste capítulo, interessa-nos
principalmente o que podemos aprender sobre o contexto cultural que
nos permita compreender melhor a nossa relação com a morte. Todavia,
é possível também mover-se em outra direção: Como pode nossa com­
preensão da psico-sociologia da morte refletir-se em nossa compreensão
da estrutura social?

Onde está a Morte?

Não aqui!.
Já assinalamos que o ato de morrer foi 'deslocado para comparti­
mentos isolados em nossa sociedade. Nós nos insulamos do encontro
perceptivo direto com a mortalidade de nossa espécie. A morte ceifa em
algum outro lugar (e a vítima, é claro, é outra pessoa). Embora já abor­
dássemos este fenômeno de diferentes ângulos, ainda há o que dizer.
Vamos descobrir o que pode ser acrescentado à nossa compreensão por
um observador perito em estatísticas de mortalidade. Murray Projector,
escrivão de uma empresa de seguros, integrou suas observações pessoais
sobre nosso sistema mortuário à massa de dados estatísticos de que
dispunha.
Projector argumenta que nós, os norte-americanos, estamos literal­
mente obcecados com a ocorrência de mortes acidentais (60). Ao desen­
volver s�u tema, ele focaliza os seguintes pontos:
1. Mortes acidentais (especialmente em automóvel, navio, e incên­
dio) recebem cobertura destacada em nossos meios de comunicação de
massa. Concentramos nossa atenção em vívidos detalhes do caso parti­
cular em vez de ressaltar o quadro geral ou as causas subjacentes.
2. Nós nos habituamos a acreditar que óbitos acidentais correspon­
dem a uma grande proporção do índice de mortalidade total. Ei:n outras
palavras, a morte está "lá fora", esperando por nós nas estradas de alta
velocidade ou em nutras situações casuais e perigosas.

204
3. Mas: "a estatística significante é de que apenas 5% de todas
as mortes nos Estados Unidos são causadas por acidentes. Em termos
positivos, ou negativos, 95% de todas as mortes ocorrem por causas
naturais" (61).
4. Também nos acostumamos a acreditar que a morte acidental é
uma ocorrência mais freqüente hoje que em épocas pretéritas mais sim­
ples. Novamente, a tendência desta crença é fortalecer nosso sentimento
de que a morte externa e inesperada é o inimigo público n.º 1. Projector
nega a validade desta afirmação:

No tempo dos cavalos e carruagens, havia acidentes com cavalos


e carruagens bem como desastres ferroviários, naufrágios de na­
vios a vapor, explosões; desmoronamento de prédios. Os passagei­
ros de trem, naqueles tempos, eram mais arrojados (desafiantes
do diabo) que, hoje, os passageiros de avião. O império ferroviário
compreendia manutenção precária, indiferença pela segurança, e
indisposição dos empregados para o trabalho, de modo que as
mortes em viagens de trem eram inesperadamente altas. A canção
folclórica sobre Casey Jones tem, como ambiente, um tipo, então
comum, de acidente ferroviário.
A viagem a vapor não era mais segura que a de trem. O comércio
preocupava-se com a rapidez e a tonelagem dos navios, não com
a segurança. Explosões de caldeiras e incêndios, às vezes ambos,
eram os grandes perigos no transporte por rios e lagos. O vapor
Sultana explodiu no rio Mississippi em 1865 matando mais de
1.500 pessoas. O vapor General Slocum incendiou-se no porto da
cidade de Nova York em 1904, causando a morte de mais de 1000
pessoas.
Os incêndios constituíam ameaças constantes. O equipamento dos
bombeiros era primitivo, os materiais mais combustíveis. . . O
perigo do cavalo desembestado não foi espetacular em termos de
morte por acidente, mas alcançou consideráveis totais. Quando
pensamos nos totais de óbitos por ano, devidos a cavalos desem­
bestados, acidentes ferroviários, explosões de barcos a vapor, in­
cêndios, desmoronamento de prédios, acidentes na indústria, afoga­
mentos, etc., concluímos que os Estados Unidos pré-automobilístico
foram, em verdade, a terra da morte súbita (62) (Grifo nosso)

5. Por que prevalece tal crença exagerada em acidentes fatais?


Projector extrai sua resposta de uma das mais fundamentais afirmações
seja em psicologia folclórica, seja em psicologia técnica: Acreditamos
porque queremos acreditar. Mas ele dá um passo além, e então seu ponto
de vista torna-se particularmente interessante quanto ao contexto cul­
tural da morte.
"Por que estaríamos tão enamorados da morte acidental?. . . A
preocupação excessiva com a morte acidental deve equivaler à preocupa­
ção insuficiente com a morte natural. . . Na inevitabilidade da morte

205
encontra-se a raiz de nosso comportamento. O homem não deseja ver,
nem pensar, nem reconhecer que sua própria morte é inevitável. Que
meio mais simples de reprimir a consciência de sua própria mortalidade
que concentrar-se nos que morrem em 'infortunados' acidentes em si-
tuações evitáveis?" ,1
A excessiva ênfase em óbitos acidentais é um meio de reforçar
nossa crença de que a morte está em algum outro lugar. Mais particular­
mente, a morte não está dentro de nós. É uma ação externa que pode
nos afetar. Queremos acrescentar as seguintes considerações:
1. A noção de que a morte é acidental pode ser interpretada como
uma tendência a permanecer dentro do universo infantil de causalidade.
Já vimos (capítulo 2) que as crianças tendem a encarar ameaças de
morte como estreitamente ligadas a circunstâncias concretas. Evite estas
circunstâncias e evitará a morte.
2. Em um segundo sentido também negamos que a morte está den­
tro de nós. Na mente de muitas pessoas, classificar uma morte de "aci­
dental" equivale a dizer que realmente não se podia impedir sua ocor­
rência. Esta atitude tem influência letal e será desafiada nos capítulos
seguintes. Por ora, basta recordar que Projector indicou com precisão
certo número de causas evitáveis de morte acidental ("indiferença pela
segurança, indisposição do empregado para o trabalho", etc). Talvez
tenhamos um secreto interesse em contínuas mortes "acidentais" a fim
de sustentar este fenômeno como um desvio do interesse pela morte ine­
vitável que tem raízes dentro de nós.
3. Nosso contexto cultural da morte começa agora a parecer-se aos
das sociedades pré-industriais em, pelo menos, um a�pecto: Nós também
nos esquivamos de enfrentar a morte "natural" ou inevitável. Antropó­
logos e outros observadores transculturais têm, às vezes, "desculpado"
as sociedades primitivas por sua alegada dificuldade em lidar com con­
ceitos abstratos. Mas nós lidamos com abstrações. o tempo todo. Pode
ter sido habitual em sociedades primitivas interpretar a morte inesperada
como um ato hostil da parte de algum poder humano ou sobre-humano.
É uma espécie compreensível de lógica, aplicada quando não se endossa
uma visão científica do mundo. Mas como nos avaliarmos quando ex­
cessivamente antevemos a morte acidental, e desprezamos as probabili­
dades muito maiores de uma extinção natural? Entre as possibilidades
que nos acodem à mente: a) Em nossos corações, acreditamos que ser
ceifado pela doença ou pela idade é uma espécie de "acidente" (63); b)
nós realmente não endossamos a visão científica do mundo, apesar de
sua pronta disponibilidade; c) nós invalidamos nosso apoio à concepção
científica quando questões pessoais estão em jogo; d) temos uma extra­
ordinária capacidade de mudar de níveis de pensamento sofisticado para
níveis primitivo-regressivos e vice-versa. Possivelmente, mais de um des­
ses fatores se combinem.

206
não deseja ver, Por que Morremos?
rte é inevitável. Quç
própria mortalidade Porque merecemos morrer.
lmmados' acidentes em si- Porque não existe nenhuma boa razão para que devêssemos so­
breviver.
um meio de reforçar Esta pergunta e as duas respostas acima devem ser interpretadas
lugar '-.1ais particular­ dentro do contexto da crescente secularização de nossa sociedade. No
-o externa que pode capítulo anterior, comentamos o papel saliente da religião nos sistemas
......nsiderações: mortuários sociais do passado. Neste capítulo, mencionamos o declínio
e ser interpretada como da influência religiosa como um dos fatores que contribuíram para a
__ infantil de causalidade. fragmentação de nosso próprio sistema mortuário. O sociólogo Robert
a encarar ameaças de Fulton acrescenta ainda: "A morte ... em uma sociedade mundanamente
..ias concretas. Evite estas orientada como a nossa não é mais a recompensa do pecado; a medicina
insinua que é a recompensa pela maneira irracional de viver. O medo
s que a morte está den­ de morrer não é mais o medo do julgamento final mas, psiquiatrica­
r uma morte de "aci­ mente, a expressão de uma personalidade neurótica. A moderna nação
ia impedir sua ocor­ norte-americana com sua ênfase em juventude, saúde, carros esportivos,
esafiada nos capítulos férias longas, e longevidade encara a morte como uma violação ao di­
r indicou com precisão reito de viver e de alcançar a felicidade" (64).
ntal (''indiferença pela Acrescentamos os seguintes comentários:
trabalho", etc). Talvez 1. Esta visão da morte não pode ser separada de certa visão da
es "acidentais" a fim vida, isto é, de que estamos aqui para ter "uma vida de gozo" na terra.
interesse pela morte ine- Além disso, vivemos sob considerável pressão a fim de concretizar essa
"vida de gozo" tal como a imaginamos. Não se tira nenhuma vantagem
..�a agora a parecer-se aos de aprender a adaptar-se ao sofrimento, à privação, à frustração. Estas
um a�pecto: Nós também experiências são "indignas" em si mesmas, e não nos conferem pontos
" ou inevitável. Antropó­ no marcador-de-contagem celestjal.
às vezes, "desculpado" 2. Segue-se a implicação de que desperdiçamos nossas vidas se
.....Idade em lidar com can­ não nos aplicamos à conquista da felicidade. Entretanto, a conquista de
ções o tempo todo. Pode certas formas de "felicidade", paradoxalmente, pode ser interpretada
,.,1>retar a morte inesperada como "vida de gozo" irracional. Vejamos alguns exemplos óbvios. Um
mano ou sobre-humano. indivíduo, imperturbado pela censura tradicional em matéria de morali­
quando não se endossa dade sexual, sai à caça da felicidade dos sentidos "até o fundo da taça".
s avaliarmos quando ex­ Essa conquista também vem acompanhada da doença venérea. Outro
desprezamos as probabili­ indivíduo encontra sua marca-registrada de felicidade na garrafa. Doen­
? Entre as possibilidades ças do fígado e outros males acompanham a embriaguez, além da com­
_ões, acreditamos que ser pleta deterioração de sua vida profissional e social. Estes indivíduos
L•e de "acidente" (63); b) tinham, obviamente, a "idéia certa" - a conquista da felicidade. Mas
a do mundo, apesar de tiveram a "falta de sorte" de serem "apanhados". Vejamos um exemplo
nosso apoio à concepção um pouco menos óbvio. Eu tenho o "direito" de fumar, e tanto quanto
"' ; d: temos uma extra­ eu quiser. Tirar baforadas de um cigarro ou me dá uma satisfação posi­
.. nsamcnto sofisticado para tiva ou mascara as frustrações e desapontamentos que venho encontrando
ente mais de um des- em minha própria caça à felicidade. E se "acontece" de meus pulmões
se arruinarem, ora, acho que mereço morrer. Eu "tirei minha sorte" em

207
uma variante da caça ao prazer. A "vida de gozo" que escolhi acabou
sendo minha ruína, isso é tudo. Eu não fui mau. Minha vida não foi
avaliada e se descobriu carente. Apenas eu fui tolo ou não tive sorte
e acabei caçado.
3. A mesma lógica básica pode prevalecer quando alguém toma
uma atitude diferente para com a prolongação da vida. Continuemos
com o exemplo do cigarro. Você desaprova a morte prematura ou evi­
tável. Talvez você trabalha para a Delegacia do Imposto de Renda e não
queria perder um contribuinte antes da hora. Ou talvez você seja um
desses inveterados bisbilhoteiros, sempre compelido a intrometer-se na
vida de quem parece estar desperdiçando a própria. Seja como for, você
toma uma posição moral relativa a meu hábito de fumar. Encher meus
pulmões de alcatrão, resinas e gases é errado (Idem para minha omissão
de usar cintos de segurança em carros e aviões, e idem para outros com­
portamentos que desafiam a morte). Sua atitude, é claro, contrasta com
a minha. Contudo, você concorda comigo em um ponto básico: é a "vida
de gozo" irracional que causa a morte. Eu estou pronto para correr o
risco; você pensa que eu sou um deformado moral por agir assim. Quan­
do ambos recebemos a notícia de que alguém morreu, tendemos a res­
ponder com os mesmos reflexos mentais: Supomos que ele foi "embru­
lhado" pela "vida de gozo".
Mas havia uma segunda resposta para nossa pergunta: Porque não
existe nenhuma boa razão para que devêssemos sobreviver. Outros in­
divíduos, antes, chegaram a esta mesma conclusão. O que nos interessa
aqui é a possibilidade de que hoje existam disposições socialmente nor­
mativas no sentido de aceitar a morte como uma alternativa "que não
faz diferença". Não estamos dizendo que esta seja a orientação predo­
minante hoje, mas que esta é uma orientação discernível e que deve ser
considerada em termos individuais e sociais.
Uma orientação já recebeu a aprovação implícita de nossa socie­
dade. Estamos pensando na pessoa idosa que acaba por sentir que as
perspectivas de sua vida presente e futura são tão mortiças que não
parece haver muita diferença entre esta forma de existência e o estado
de não-existência. Pode-se continuar. Ou, tanto faz, pode-se dizer adeus.
Este ou aquele caminho, não faz diferença. (Como veremos, o suicídio
e outros comportamentos autodestrutivos ocorrem com alta freqüência
entre nossos velhos, um testemunho indireto mas poderoso da realidade
desta orientação.) De fato, uma influente teoria sobre a velhice sus­
tenta que é normal estas pessoas se desprenderem da rede de relações
sociais e de obrigações que previamente lhes dava identidade e satis­
fações (65).
Existe outra orientação ainda, menos especificamente relacionada
com determinado grupo etário. Exige, ao que parece, uma grande soma
de experiência da vida, mas esta experiência pode ser intensiva, ou exten-

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Esta atitude tem uma série de variantes. O tema comum é que a
em si, não possui um significado tão profundo e intrínseco que a
preferível à morte. O filósofo Jacques Choron declara que "quem
eceu e refletiu sobre o destino da fina flor da virilidade européia
ericana e sobre as mortes de civis e militares em duas Grandes
as não pode fechar os olhos ao absurdo destas mortes, e em sã
"""'ciência suprimir a questão do significado da vida que termina prema­
e horrivelmente (66).
bsurdo. Esta é a palavra de que precisamos aqui. Entre nós, hoje,
muitos que tiveram dolorosos encontros com o desperdício e a
-ição de vidas humanas. Alguns deles sentem, como ficou dito por
-.:.ion, que a vida é um fenômeno absurdo se podt ser levado a tão
_urdas contorções e conclusões. Outros, talvez ainda mais introspec­
sentem que é absurdo ser membro de uma espécie que mostrou
gênio para a brutalidade e a destruição sem sentido. Outros ainda
s iovens - preferem a perspectiva de um limiar. Eles não experi-
m os absurdos que outros encontraram diretamente. Mas podem
Í:' as distorções do sistema para o qual hão de entrar, espera-se, como
icipantes maduros. O universitário passa por uma área de favela a
-nho da escola e pensa: "Amor fraterno: cuspo em tua casa. Como
e um ser humano surgir de um lugar destes?" O rótulo adesivo,
ra familiar, no pára-choque, nos aconselha "Faça Carinho - Não
erra!"! Talvez o sentimento básico nisto é o de que estamos funcio-
o dentro de um sistema que torna absurda a vida. Hipocrisia, ex­
ação, e indiferença pelos sofrimentos alheios desmentem nossas vir­
_..,..:s proclamadas em escala nacional. O jovem que tem a experiência
e sua sociedade à esta luz talvez também sinta que a morte não pode
mais absurda que a vida - de fato, pode ser preferível a vender-se,
·r-se. B uma coincidência que o suicídio e o comportamento de desa­
a morte surja agudamente nos anos adolescentes, assim como na

� ..mce ?.
A noção de que a morte e a vida sejam absurdas coloca um desafio
remo à nossa cultura. O ponto de vista, em si, é desafiador, assim
o o fato de que entre seus adeptos contem-se algumas das pessoas
.uem habitualmente se esperariam importantes contribuições sociais.
ão sabemos quantas pessoas sustentam este ponto de vista. Seu número
e ainda ser pequeno em proporção à população total. Mas, para
�--da pessoa que experiencia a vida e a morte como absurdos, deve ha­
r um círculo muito mais amplo que sente que "Eu sei o que ele quer
izer, embora eu não sinta o mesmo- habitualmente." Em suma, desde
e se tornou reconhecível, esta não é uma orientação que uma sociedade
perturbada possa desprezar com uma sanção negativa.

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