Você está na página 1de 9

EVASÃO NA EJA E SUA INFLUÊNCIA NO PROCESSO DE APROPRIAÇÃO DA LEITURA E DA ESCRITA

FERNANDA DE SOUZA THEODORO DIAS (FAP- FACULDADE DE APUCARANA).

Resumo As mudanças Sociais trouxeram novas exigências de formação, ampliando o espaço de educação formal. Reflexo disso é o número elevado de pessoas jovens e adultas que estavam fora da Educação Básica, voltam aos bancos escolares e aos programas de EJA. Acredita–se que a não conclusão das etapas de escolarização estejam ligadas a vários fatores de diferentes naturezas: sociais, culturais, políticas, econômicas, pedagógicas consideradas determinantes para a não democratização da educação. Estudiosos como Gadotti(2000) destacam que dentre as consequências desse fatores, a evasão escolar é “a vilã”. Estatísticas revelam que é elevada nessa modalidade. Nesse sentido, o presente estudo objetiva fazer uma análise das possíveis causas dessa evasão a partir de um referencial teórico que possa dar subsidio para essa análise, partindo dos fundamentos legais,

confrontando o que está neles expresso, principalmente em relação ao direito a Educação como garantia de cidadania e, o que acontece na efetivação desse direito.

O estudo parte de algumas indagações entre essas: como a sociedade brasileira

produziu historicamente esse número de analfabetos ou desescolarizados, interferindo na não democratização da educação e na preparação do trabalhador para atuação pessoal e profissional, nessa sociedade? Por que os jovens e adultos que têm, atualmente, oportunidade de voltar a estudar, vão á escola e nela não

permanecem, tendo como consequência mais evidente a apropriação, não eficaz dos códigos da leitura e da escrita? Esse estudo se justifica considerando que, ao fazer o curso de Pedagogia na FAP, realizei parte da Prática Profissional (obrigatória no CEEBJA – Centro de educação de jovens e adultos). Senti necessidade de investigar como está ocorrendo a apropriação da leitura e da escrita, por aqueles que permanecem nessa escola. Como a sociedade evolui em seu processo educativo formal é necessário que todos nele permaneçam, tendo acesso a leitura e

a escrita para que não sejam mais excluído desse benefício social que o mundo letrado produziu, por não dominá–la.

Palavras-chave:

educação, analfabetos , evasão.

INTRODUÇÃO

As mudanças Sociais trouxeram novas exigências de formação, ampliando o espaço de educação formal. Reflexo disso é o número elevado de pessoas jovens e adultas, que estavam fora da Educação Básica, que voltam aos bancos escolares e aos programas de EJA. Acredita-se que a não conclusão das etapas de escolarização estejam ligadas há vários fatores de diferentes naturezas: sociais, culturais, políticas, econômicas, pedagógicas, consideradas determinantes para a não democratização da educação.

Estudiosos como Gadotti (2000) destacam que dentre as consequências desses fatores, a evasão escolar é "a vilã". Estatísticas revelam que é elevada nessa modalidade. Nesse sentido, o presente estudo objetiva fazer uma análise das possíveis causas dessa evasão a partir de um referencial teórico que subsidie essa análise, a partir dos fundamentos legais, confrontando o que está neles expresso, principalmente em relação ao direito à Educação como garantia de cidadania e o que acontece na efetivação desse direito.

O estudo parte de algumas indagações entre essas: Como a sociedade brasileira produziu historicamente esse número de analfabetos/desescolarizados, interferindo na não democratização da educação e na preparação do trabalhador, nessa sociedade? Por que os jovens e adultos que têm, atualmente, oportunidade de voltar a estudar, voltam a escola e nela não permanecem, tendo como consequência mais evidente a apropriação, não eficaz, dos códigos da leitura e da escrita?

Esse estudo se justifica, considerando que ao fazer o curso de Pedagogia na FAP, foi realizada parte da Prática Profissional, obrigatória, no CEEBJA - Centro de educação de jovens e adultos, despertando a necessidade de investigar como está ocorrendo a apropriação da leitura e da escrita, por aqueles que permanecem na EJA.

O método utilizado para o trabalho foi o método histórico que consistiu em

investigar os acontecimentos e processos de instituições do passado para a verificação de suas influências na sociedade atual e também o método exploratório que envolveu levantamento bibliográfico se desenvolvendo a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos de periódicos.

O Percurso

De acordo com Paiva (1983), os sistemas educacionais e os movimentos educativos

têm caráter histórico e refletem as condições sociais, econômicas e políticas da sociedade a que servem, voltando-se, portanto, ao atendimento de interesses, necessidades e ideais de diversos grupos. Interesses esses que comungam em alguns momentos, coexistem ou lutam entre si em outros, mas que sobrevivem e influenciam os movimentos educativos até hoje, contribuindo para sedimentar ou para romper com o poder político, através da educação, considerando assim seus limites e possibilidades como instrumento de conservação ou de mudança social.

Os movimentos em prol da educação sempre receberam influência da ideologia do sistema que se encarregou de mostrar aos seus militantes o que deveria ser difundido, mascarando os seus reais interesses. Nesse sentido, a formação cultural precária da elite brasileira contribuiu consideravelmente, uma vez que esta, historicamente decidiu acerca da criação de programas educativos paralelos aos sistemas comuns de ensino. Segundo Wagner (1998 p. 18), a história da alfabetização corre paralela a muitas mudanças sociais, como a religião, à escola pública, estabelecimento da democracia e até mesmo as revoluções sociais. A alfabetização foi muito freqüentemente transmitida e praticada à margem do que hoje chamamos de educação formal."

Segundo Paiva (1987), a educação dos adultos nasceu no Brasil juntamente com a educação elementar comum. Os jesuítas buscavam atingir os pais, por meio das crianças. Pela catequese direta dos indígenas adultos, a alfabetização e a transmissão do idioma português serviam como instrumento de cristianização e aculturação dos nativos.

De acordo com Vieira (1999), o Brasil e o mundo atravessam uma transformação social que implantou um novo modelo para a economia, que passou a exigir trabalhadores mais qualificados e preparados, para compreender e atuar nesse processo. Nesse aspecto, a expansão e universalização da educação básica se tornaram fator determinante, e para a sua efetivação e acompanhamento de resultados foram criados vários mecanismos de ordem estrutural e pedagógico.

Segundo Luck (2001, p.22), foi a pedagogia de Paulo Freire que inspirou os principais programas de alfabetização e educação popular do ensino dos anos 60. Diversos grupos de educadores foram se articulando e passaram a pressionar o governo federal para que os apoiasse e estabelecesse uma coordenação nacional das iniciativas, sendo aprovado ao Plano Nacional de Alfabetização em janeiro de 1964, que previa difundir por todo o Brasil a proposta de Paulo Freire nos programas de alfabetização.

Os anos noventa foram marcados por vários acordos internacionais e uma redescoberta na educação onde se combinam três variáveis.

A primeira definiu uma agenda nacional para educação, materializada em diversos

eventos, a Conferência Mundial de Educação para todos, Jotien, Tailândia (1990); a Conferência de Nova Delhi (1993); e as reuniões do Projeto Principal de educação na América Latina e do Caribe, que contemplam pautas de interesses comuns

discutidos por Ministros de Educação da Região, a exemplo da Conferência de Kingston, Jamaica (1996). Nesses eventos foram elaboradas declarações de

intenções e recomendações com as quais os países signatários se comprometeram.

A segunda se traduz em propostas firmadas no contexto da retomada de uma visão

que articula a educação ao desenvolvimento, em moldes semelhantes à teoria do

capital humana (

Na terceira variável diz respeito à

da chamada revolução do conhecimento (

esta tendência se firma também a partir do desenvolvimento

)

)

presença de organizações internacionais nos países voltados para o desenvolvimento de projetos na área de educação. (LUCK, 2001).

Ainda no final dos anos 90, a UNESCO enfatiza a necessidade de que as políticas educativas promovam a inclusão dos excluídos, não mais por meio de medidas compensatórias como ocorria no passado, mas introduzindo modificações no sistema educativo comum que permitam ajustar o ensino às diferenças individuais, sociais e culturais. Ao mesmo tempo, destaca a importância de fortalecer a função do Estado para assegurar a igualdade de oportunidades.

Segundo Cury (2000), a LDB 9394/96 impulsionou o surgimento de novas escolas nessa modalidade em todo o país e o aumento de matrículas de pessoas Jovens e Adultos no sistema regular de ensino. A EJA passou a ser dever do estado que deverá mantê-la, para as pessoas que não tiveram acesso ou deram continuidade em idade apropriada, devendo ser garantida a esses sua efetivação.

A educação hoje é a base para um mundo melhor, portanto, a EJA é um dos fatores

prioritários para os adultos não-alfabetizados. O Brasil ainda tem uma taxa de analfabetismo elevada, com mais de 15 milhões de pessoas (INEP, março 2006) que não sabem ler ou escrever um bilhete, podendo ser considerados "analfabetos funcionais" Esse número varia de acordo com diferenças regionais, que influenciam no analfabetismo do País.

A autora enfatiza que a democratização da educação brasileira passa: primeiro

pelos investimentos financeiros; por um projeto pedagógico adequado às especificidades de seus alunos; pela formação de professores que sejam capazes de realizar uma educação voltada aos interesses e às necessidades dessa população, envolvendo aí o relacionamento entre professor e aluno (um dos fatores "chaves", para um melhor desenvolvimento no ensino da EJA) e pelo interesse dos adultos

em querer voltar à escola para iniciar ou retomar seu processo de educação.

Freire (1987) destaca que o analfabetismo no Brasil já foi considerado como fator de marginalidade e causa de pobreza, hoje visto como efeito da situação da pobreza, gerado pela diferença social. No entanto, mesmo que várias medidas

tivessem sido tomadas ao longo do seu desenvolvimento histórico, com projetos voltados para o ensino da leitura e da escrita para jovens e adultos como: Mobral, Ação Integrada, Projeto Educar, alfabetização Solidária, ligados às propostas do Governo Federal das décadas de 70 a 90, chegou-se nesse novo milênio com alto índice de analfabetismo e desescolarização.

Nos anos 90, com a extinção da Fundação Educar, ficou um grande vazio político para a educação de adultos. Essa fundação fornecia recursos para manter o ensino e, mediante esta extinção, parou de funcionar em alguns municípios por falta de recursos. Algumas entidades da sociedade civil assumiram programas de alfabetização, mas ficou longe de alcançar e satisfazer a demanda de adultos existente. Com a aprovação da LDB 9394/96, ficou sob responsabilidade do governo das três instâncias administrativas, do sistema, manter essa modalidade educativa tornando mais viável sua efetivação, destaca que esta deve fazer com que o homem seja capaz de refletir e agir segundo o bem comum.

De acordo com dados do MEC/INEP (2009), em 2003 o MEC instituiu o Programa Brasil Alfabetizado (PBA), voltado à alfabetização de jovens, adultos e idosos que, segundo esse órgão, constitui-se "uma porta de acesso à cidadania e o despertar do interesse pela elevação da escolaridade". É desenvolvido em todo o território nacional, com o atendimento prioritário a 1.928 municípios que apresentam taxa de analfabetismo igual ou superior a 25%. Desse total, 90% localiza-se na região Nordeste.

Essa forma de programa tem levado os sujeitos à apropriação da leitura e da escrita em fase inicial, na verdade, mais no âmbito da codificação e decodificação das palavras; no entanto, os municípios recebem apoio técnico na implementação das ações do programa, para que possa garantir a continuidade dos estudos aos alfabetizandos e isso tem acontecido, visto que, no Paraná, desde que o programa iniciou mais de 20 mil dos 65mil que iniciaram o processo de alfabetização (dos 577 mil de analfabetos do estado) ingressaram na EJA (parte desses já concluíram o Ensino Fundamental) e outros estão em fase de conclusão.

A Proposta de EJA na atualidade e seus resultados

A lei modificou o conceito de EJA e os objetivos que a ela foram sendo destinados na sociedade. Na Proposta Pedagógica do EJA, foram retomadas as concepções de Paulo Freire, nos aspectos sócio-políticos e culturais, para que ela tivesse um significado para o aluno. De educação compensatória e supletiva passa a ter uma dimensão mais abrangente - equalizadora e qualificadora - dimensões que transcendem os marcos escolares, vinculando-as ao desenvolvimento humano em todas as esferas da vida. Mas, infelizmente, observa-se que ainda há indícios fortes, em relação à evasão escolar na Educação Básica de Jovens e Adultos, e a desescolarização.

De acordo com Luck (1998), um grande desafio que se apresenta para a escola nos dias atuais, é a garantia da permanência das pessoas jovens e adultas no sistema formal de educação e a conclusão da educação básica. Esta tem início no processo de alfabetização cujo objetivo é a construção contínua para o desenvolvimento de uma aprendizagem consciente, a fim de viabilizar e manter alunos que não tiveram oportunidade de frequentar uma escola quando em idade própria.

No entanto, segundo Magda Soares (2000), o que se pode constatar é que os programas desenvolvidos na alfabetização geralmente trabalham mais a mecânica da leitura e da escrita no sentido da codificação / decodificação da língua escrita, do que no sentido acima destacado. Essa pode ser uma das razões que levam os

jovens e adultos a se desmotivar pela continuidade no processo de aprendizagem e evadirem da escola, ou ainda, mesmo embora alfabetizada a população, não domina as habilidades de leitura e de escrita necessárias para uma participação efetiva e competente nas práticas sociais e profissionais que envolvem a língua escrita.

A evasão inviabiliza a concretização de qualquer iniciativa no sentido da

universalização da aprendizagem da leitura e da escrita, em qualquer programa que

as diferentes instâncias administrativas venham a oferecer. Exemplo disso são os

dados apresentados pelo IBGE (2006), que revelam a existência de tantos analfabetos, embora já tenha ocorrido uma diminuição considerável de 1997 para cá, quando foram implantados os programas específicos de alfabetização envolvendo Universidades e órgãos governamentais.

Todavia, a persistência do não domínio da leitura e da escrita, por tantos, a compreender que as ações governamentais não têm sido suficientes para alterar, qualitativamente, a atuação educacional. Acredita-se que essa deve ser uma luta de todos. Para a efetivação da Proposta Pedagógica da EJA, na escola pública devem se envolver todos os agentes do processo educativo, uma vez que por meio deste, poderá concretizar algumas políticas educacionais, que possam promover a educação para todos com a elevação da qualidade de ensino, tão almejada. Isso passa pelo redimensionamento de processos administrativos e pedagógicos, por ações participativas e democráticas de gestão, que possam promover mudanças positivas e significativas na educação que se oferece na instituição escolar para que diminua ou acabe com a evasão escolar em EJA uma vez que nela os índices são elevados.

Os autores consultados na elaboração desse artigo destacam que a administração

das organizações e seu funcionamento cotidiano repousam cada vez mais em modelos de gestão democrática. Veiga (2000, p. 14) aponta "para a construção da Proposta Pedagógica que passe pela relativa autonomia da escola, de sua capacidade de delinear sua própria identidade. Isso significa resgatar a escola como espaço público, lugar de debate, de diálogo, fundado na reflexão coletiva" e no atendimento dos educandos de todas as modalidades.

De acordo com a Proposta Pedagógica do Paraná para EJA (2001), a caracterização

dos cursos pode ser dada de forma semipresencial, que visa criar situações de ensino aprendizagem desenvolvidas em momentos presenciais e não presenciais, combinando educação a distância e forma presencial. A proposta se assenta em princípios éticos, estéticos e políticos e o seu currículo busca o seu desenvolvimento em formas interdisciplinares e contextualizadas. Os conteúdos da proposta se baseiam nos Parâmetros Curriculares Nacionais para todas as disciplinas do Ensino Fundamental e Médio tendo como objetivo "o pleno desenvolvimento do educando, sua capacitação para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho" (Constituição de 1988) isso através do desenvolvimento de competências e habilidades que os alunos jovens e adultos devem ter.

O processo de aprendizagem da leitura e da escrita na EJA

Diante do quadro de desafios colocados à educação de jovens e adultos não há mais espaço para soluções paliativas ou pontuais, para a população, anteriormente excluída dos processos escolares, no qual ler, escrever, realizar cálculos adequadamente, são habilidades essenciais tanto para o viver cotidiano, como para a manutenção das atividades que desenvolvem. Não garantir uma política educativa aos jovens e adultos reforça a situação de exclusão por eles vivenciada. "Saber e poder ler e escrever é uma condição tão básica de participação na vida econômica,

cultural e política que a escola se tornou um direito fundamental do ser humano, assim como a saúde, moradia e emprego" (CURY, 2000, p. 7).

Os resultados de enquetes de hábitos de leitura, por sua vez, mostram que é senso comum falar que ler é importante e que as pessoas têm o desejo de poder ler, porém muitos dos que leem não conseguem interpretar o texto lido.

Concordamos com Freire, ao defender a idéia de que não existe transformação social sem a contribuição da educação: "O importante do ponto de vista de uma educação libertadora, e não ‘bancária', é que, em qualquer dos casos, os homens se sintam sujeitos de seu pensar, discutindo o seu pensar, sua própria visão do mundo, manifestada implícita ou explicitamente, nas suas sugestões e nas de seus companheiros." (FREIRE, 1987, p. 120).

Assim, acredita-se que seja necessário elaborar um projeto de alfabetização que compreenda a leitura enquanto processo de ressignificação do objeto lido, que pode ser um livro, uma obra de arte, um texto, entre outras coisas, que amplie a noção de leitura e a visão de mundo, de tal modo que se possa compreender o homem como um ser histórico e social.

Para Rossini (2001), os professores por já atuarem na educação das crianças, muitas vezes utilizam métodos que tendem a infantilizar os adultos, não trabalhando os conteúdos de forma clara e eficaz, partindo do que eles já dominam, usando os recursos para ensinar a leitura e a escrita que sejam do mundo dos jovens e adultos. Também quando os utilizam nem sempre são diferenciados

Segundo a autora, é preciso que no processo de ensino da leitura e escrita considere que o potencial humano para aprender deve estar condicionado ao significado que isto tem para cada um e de se sentir membro de um grupo que tem identidade pessoal e cultural própria. Assim, o trabalho na EJA depende muito da forma como está inserida no Projeto Político Pedagógico da escola, pois influencia na aprendizagem do aluno. O professor tem de se colocar não mais como objeto transmissor e o aluno como sujeito ignorante de saberes, mas como mediador na elaboração do conhecimento. (PAIVA, 1987)

Sendo assim, é necessário que o professor leve em consideração no trabalho educativo que esses alunos aprendem e utilizam as formas de ação, valores e crenças com os quais convivem diariamente. Os padrões de interação são definidos pela prática cultural e pelo exercício da cidadania que se tem como proposta; o conhecimento é continuamente alterado por transformações sucessivas diante dos avanços tecnológicos e das próprias experiências vividas. É importante destacar essas questões considerando que existe um descompasso entre o que se objetiva com a EJA e o que se pratica. Nesse sentido, o próprio sistema acaba criando mecanismos de adestramento pedagógico quando coloca para ensinar adultos, alguém sem preparo adequado para tal.

De acordo com Canário (1999), a abordagem psicossocial-histórica identifica a potencialidade do homem para se apropriar das produções culturas e de sistemas de significação, por meio de processos interativos, como os linguísticos. Uma boa maneira de iniciar a aula, segundo Rossini (2001), são atividades nas quais os alunos adultos se envolvam e possam se sentir seguros e aceitos no novo grupo de trabalho.

Causas da Evasão Na EJA

Segundo Gadotti (2000), acredita-se que várias são as causas da evasão em EJA:

causas sociais, políticas, culturais e pedagógicas. Entre as pedagógicas, pode-se destacar a falta de uma proposta pedagógica em que as disciplinas sejam integradas - já que no mundo elas não estão separadas e, o adulto, por carregar um conjunto de saberes que produziu na prática social, precisa de se "encontrar" nos conteúdos propostos para cada disciplina.

Geralmente quando o adulto volta para a escola sente-se um pouco retraído, vê-se como uma pessoa já velha, que não teve oportunidades. Cabe ao professor estimulá-lo a fim de que ele possa participar de todas as atividades propostas e que possa se sentir bem com o seu grupo de estudos.

Tornar as turmas de EJA parte da comunidade escolar é fundamental para o sucesso da aprendizagem e para evitar a evasão. O aluno não pode sentir que aquele espaço é apenas emprestado. "Não são raros os casos de escolas que trancam a biblioteca, a sala de informática e até alguns banheiros à noite, no período em que os adultos estão lá", afirma Vera Simões (aluna da EJA, Pr, 2009). Além disso, muitas vezes eles são excluídos das festas e feiras culturais, do jornal interno e dos eventos da escola.

Cabe à escola ampliar os horizontes culturais dos estudantes com diferentes encaminhamentos dos conteúdos. Pode apresentar o mundo cultural aos alunos a partir da exploração de um bairro, de uma cidade que oferece tantas opções. Pode criar projetos a partir de uma música, de uma obra de arte, de um texto etc., saindo da rotina das cartilhas e dos livros didáticos, devendo os conteúdos aprendidos em sala se relacionar com as manifestações culturais do grupo, da cidade etc. Os professores podem organizar visitas a exposições de arte, teatros, cinemas e museus e programarem o recebimento de autores, de artistas, de profissionais de várias áreas na escola, que expõem seus trabalhos e suas ideias e ampliem a dos alunos.

É necessário reforçar a importância de integrar os alunos na vida escolar e usar a experiência deles em sala. Essas são algumas das chaves para abrir as portas da escola àqueles que demoraram tanto para chegar até ela, pois tiveram: pais analfabetos ou machistas; necessidade de trabalhar; inexistência de escolas próximas; paternidade e maternidade precoces; e ainda, a falta de dinheiro, de transporte, de comida e oportunidade que são algumas causas sociais para a evasão escolar que acompanham os alunos da EJA.

No entanto, ao atuar com turmas de EJA no período do estágio pôde-se constatar que os alunos, na sua maioria, vão à escola em busca de instrumentos para viver no mundo da informação e elaborar pensamentos e ações de forma crítica, elementos fundamentais para seu sucesso educacional. "Disso depende a auto- estima, a identidade e até a possibilidade de conseguir um emprego" (aluna da EJA, Pr, 2009).

Quem tem uma turma de EJA sabe das dificuldades: de manter o interesse dos alunos que chegam cansados do trabalho; de planejar aulas que tenham relação com a vida deles e que não sejam uma versão empobrecida do que é dado a crianças e adolescentes. Mas já há inúmeras escolas trabalhando a EJA com sucesso, oportunizando jovens e adultos a se tornarem cidadãos autônomos e a transformar a escola na porta de entrada de um mundo a ser descoberto.

Acredita-se que a evasão de jovens e adultos pode ser evitada se algumas medidas forem tomadas, segundo a diretora do Centro de Educação de Jovens e Adultos, Profa Elenir da Costa, a qual destaca que: "quem se matricula em uma sala de EJA

tem a autoestima geralmente baixa, sentido vergonha de nunca ter estudado, ou de ter parado de estudar há muitos anos, e medo do ridículo e do desconhecido. Sem contar o cansaço e as preocupações que só os adultos têm, como pagar as contas ou educar os filhos. Mas algumas ações podem ser tomadas para evitar que tudo isso afaste os alunos da escola:

• Fazer com que perceba que a atitude de voltar a estudar não deve ser motivo de vergonha, mas de orgulho;

• Ajudar o aluno a identificar o valor e a utilidade do estudo em sua vida por meio de atividades ligadas ao seu cotidiano;

• Elaborar aulas dinâmicas e estimulantes (é tentador ir para casa dormir, assistir TV ou ficar com a família depois de um dia inteiro de trabalho);

• Ser receptivo para conversar, pois muitos vão à escola preocupados com problemas pessoais ou profissionais;

• Mostrar que a aula

professor não é mais importante.

é um momento de troca entre

CONCLUSÃO

todos

e

que o saber

do

Com a elaboração desse estudo foi possível constatar que a EJA é um campo fértil para estudo e pesquisa, pois é grande o contingente populacional que ainda não concluiu a educação básica. Como esta se atrela aos interesses sociais ao mudar as demandas do trabalho, muda o perfil do emprego, há solicitação de um trabalhador que dê conta de acompanhar as mudanças. Quaisquer que sejam suas áreas de atuação, para todos os trabalhadores rege a exigência de adquirir a capacidade de adaptação às mudanças, de compreender os novos processos técnicos decorrentes das novas tecnologias, de saber comunicar-se de forma eficiente e de adquirir conhecimentos profissionais de base e essas capacidades podem ser desenvolvidas por meio da educação básica.

No entanto, pode-se dizer que para haver a democratização da educação não basta apenas a existência de Leis, é preciso que haja comprometimento dos órgãos públicos, responsáveis diretos pela sua efetivação.

Pode-se destacar que a evasão em EJA é um fator determinante que inviabiliza sua concretização e com isso o domínio da leitura e da escrita fica comprometido. Na verdade, os processos de aquisição dos códigos linguísticos passam pelo envolvimento do sujeito e do seu comprometimento e isso tem ligação com a forma como está organizado o Projeto Pedagógico da escola, que tem essa perspectiva de ensino e organiza seus métodos para que a apropriação da escrita e da leitura se dê de maneira crítica e participativa. Assim, antes de o aluno iniciar-se em sua escrita, o professor deve ter como proposta fazer com que ele seja sujeito, que vai a busca do conhecimento, ultrapassando uma compreensão mágica da realidade, desfazendo a cultura letrada, na qual o educando estará se iniciando.

Referências

BRASIL. Lei n. 9394/96 de 20 de dezembro de 1996. Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: Imprensa Oficial, 1996.

CANÁRIO, Rui. Educação de Adultos - Um campo e uma Problemática. 1.ed. Lisboa, Portugal, Educa,1999

CURY, Carlos Roberto J. Educação e contradição: elementos metodológicos para uma teoria crítica do fenômeno educativo. 3.ed. São Paulo: Cortez, 2000.

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

GADOTTI, Moacir. Perspectivas Atuais do Educador. Porto Alegre, Artes Médicas

Sul.2000.

LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da escola pública: pedagogia crítico- social dos conteúdos. São Paulo: Loyola. 1985

Lück, Heloísa. A evolução da gestão educacional, a partir de mudanças paradigmáticas. Artigo Progest, p. 3-21, 26 de maio 2001.

et. al. A escola participativa: o trabalho do gestor escolar. Rio de Janeiro: DP&A, 1998.

ROSSINI, Maria Augusta Sanches. Pedagogia Afetiva. 6.ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2001.

SOARES, Magda Becker, (1998). Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica. 1999.

SOARES, Magda Autêntica. 2000.

Becker,

MACIEL,

Francisca, Alfabetização. Belo

Horizonte:

VEIGA, Ilma Passos A. Projeto Político Pedagógico da Escola, Uma Construção Possível. Campinas, SP, 2000.