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ANÁLISE

Reforma Laboral

por Fernanda Ló

A importância do BRINCAR
Cada vez mais os pais delegam nas instituições o “educar os filhos” e acham que
brincar é supérfluo. Será talvez o preço a pagar pela elevada exigência das suas
vidas profissionais. Não significa que não queiram o melhor para as suas crianças e
sobrecarregam-nas com outras actividades. É a natação, a equitação, a música, uma
infindável lista que, muitas vezes, apela mais ao estatutário do que ao pedagógico.
Mas é um erro cujas consequências, mais tarde ou mais cedo, se irão revelar.

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E spero que a banalidade do título não vos faça passar à frente


estas folhas. Todos sabemos (será que sabemos mesmo?) que brin-
excelente trabalho. Depois chegamos e levamo-los à natação, ao Inglês,
à explicação de Matemática, ao hip-hop, ao piano… em seguida che-
car é a actividade mais importante para um desenvolvimento global gam a casa e alguns (os sortudos) vão para o quarto brincar, se ainda
harmonioso da criança. Temos acesso constante e interesse renova- não for hora do banho, e os outros vão fazer os trabalhos de casa.
do pelas pedagogias, psicologias, além dos media nos bombardearem Jantar e dormir serão as próximas actividades.
com teorias e conversas sobre “o brincar”. Pais atentos e socialmente Agora encaixem aqui o brincar (apesar de sabermos como é im-
correctos, passamos então a dizer: “deixa-o mas é brincar”. Dizemos portante brincar). Ao fim-de-semana, respondem uns; na escola, res-
mas não deixamos de os privar de brincar, e é só neste ponto que vou pondem outros. Não, na escola não brincam e no jardim-de-infância
tentar que este artigo não seja banal. também brincam pouco… Admirados? Não… é um facto. Outro dia
Somos pais atentos mas quase sempre ausentes da vida dos nossos perguntei ao meu filho se gostava da Carla (a educadora que substitui
filhos, sejam eles crianças ou mesmo adolescentes… Explico esta afir- a educadora que está doente). Ele respondeu-me que sim, porque “ela
mação tão crua: a escola/o colégio encarrega-se de lhes proporcionar brinca comigo”. Que feliz fiquei. O meu filho vai crescer de uma forma
tempos para brincar (pensamos), pois o nosso dia começa às sete e harmoniosa porque brinca e tem o privilégio de a educadora brincar
termina às sete (para os que têm sorte). Nessas 12 horas os nossos com ele. Esta sua afirmação tem-me perseguido e andei a aborrecer a
filhos estão entregues aos outros, que nós desejamos que façam um minha sobrinha, que tem a mesma idade, e perguntei-lhe se a Eduarda

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(a educadora) brincava com ela. A minha sobrinha sorriu, olhou para ças tiverem muito Inglês, muita natação, muita Informática…Não
mim como se eu fosse um allien e disse: “Oh tia, claro que não, ela não pretendo ser extremista mas serão necessárias estas actividades
pode, está a escrever e a dizer coisas.” Mesmo assim insisti: “E quando todas? Se, por outro lado, o colégio não oferecer diversidade de ac-
estás na área da casinha, ou nas construções?” “Não tia, a Eduarda não tividades, é classificado com o “não presta” apesar de eventualmente
tem tempo, ela também é crescida”. Mesmo assim não fiquei conven- ter um projecto educativo fantástico. As mães e os pais actuais gos-
cida: “E gostavas que a Eduarda brincasse contigo?” “Claro tia, eu tam- tam de sujeitar os filhos ao stress a que eles estão sujeitos… não
bém gosto de brincar com os crescidos!” Afinal é importante brincar, de propósito, é claro, mas porque os amigos também o fazem e os
mas quem brinca com quem? O adulto com a criança ou as crianças filhos dos amigos devem ser iguais aos nossos filhos. Em Lisboa, por
entre si? Eduardo Sá respondia-me: “As duas [formas de brincar] são exemplo, criança que ande no 1º ciclo e se preze deve sair do co-
muito importantes.” légio e frequentar a equitação. E não estou a falar de meios econó-
micos altos, o target é a criança do colégio particular médio. Apesar
Pensamentos partilhados de muitas que frequentam a escola oficial irem à equitação.
Não consigo deixar de partilhar algo que foi dito por Mário Cor- A maioria dos pensadores e educadores que trabalham com
deiro numa conferência no passado mês de Julho: “O facto de che- este tema ressalta a importância de brincar no processo de
garmos a casa e não nos disponibilizarmos para os nossos filhos faz aprendizagem e socialização. Infelizmente observa-se que a
com que eles entrem numa espiral negativa de sentimentos, impa- brincadeira não faz parte do projecto pedagógico da escola e
ciência e birras. Uma criança que anseia o dia todo por ver os pais e da acção do professor.
quando estes chegam não estão disponíveis para os filhos, faz com Abusando dos ensinamentos de Eduardo Sá, acrescento aqui um
que as crianças fatalmente chamem a atenção da pior forma: dez pedido deste psicólogo, mais ou menos assim: “[…] no horário do
minutos da atenção dos pais são suficientes para os saciar […].” vosso filho, que está preso no frigorífico lá de casa, onde diz Inglês,
Retiramos daqui que os nossos filhos gostam e devem brincar con- ou música, ou natação, risquem e coloquem a palavra BRINCAR…
nosco, sozinhos e em grupo. Mas, a importância que socialmente vão ter com certeza filhos mais responsáveis e, acima de tudo, mais
damos às actividades extracurriculares (e muitas vezes às curricu- felizes […]”
lares) põe de lado o brincar. Os colégios só são bons se as crian- Em jeito de conclusão poderei dizer que, afinal, brincar é coisa séria.

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