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A Observação Participante enquanto metodologia de investigação


qualitativa
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Lisete S. Mónico , Valentim R. Alferes2, Paulo A. Castro , Pedro M. Parreira4

1
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, Portugal. lisete.monico@fpce.uc.pt
1
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, Portugal. valferes@fpce.uc.pt
3
Departamento de Física; Universidade Federal de Goiás – Regional Catalão, Brasil. padecastro@gmail.com
4
Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, parreira@esenfc.pt

Resumo. Enquanto método de investigação qualitativa, a Observação Participante possibilita obter uma
perspetiva holística e natural das matérias a serem estudadas. No presente artigo descrevem-se e discutem-
se alguns aspetos inerentes a esta técnica. Após a fundamentação metodológica, sumariam-se as diversas
práticas de Observação Participante, distinguindo-se o papel do observador participante do mero
observador. Após discussão das vantagens e limites, sugere-se complementar esta metodologia de
investigação com outras, no sentido de se apurar o entendimento da problemática em análise sob diversas
perspetivas.
Palavras-chave: Observação participante; Metodologia de investigação; Investigação qualitativa

Participant Observation as a qualitative research methodology


Abstract. As a qualitative research method, the Participant Observation allows to obtain a holistic and
natural perspective of the issues to be studied. In this article are described and discussed some aspects
inherent to this technique. After the methodological foundation, the various practices of Participant
Observation are summarized, distinguishing the role of the participant observer from the mere observer.
After discussing the strengths and limits, it is suggested to complement this research methodology with
others, in order to ascertain the understanding of the problematic under analysis in different perspectives.
Keywords: Participant observation; Research methodology; Qualitative research

1 Introdução
O presente artigo debruça-se sobre a “observação em campo”, mais precisamente, sobre a técnica
de investigação designada por Observação Participante. Inserida no conjunto das metodologias
denominadas de qualitativas e, frequentemente, etnográficas, encontramos este método ou técnica.
Em consonância com Evertson e Green (1986), reconhecemos que toda a observação – científica vs.
quotidiana ou direta vs. indireta – possibilita, por parte de quem observa (para além da aquisição e
clarificação de informações sobre uma dada realidade), a identificação de problemas, o
entendimento de conceitos, bem como a análise de relações e aplicações de esquemas de
diferenciação dos mesmos. Toda a informação recolhida convergirá num entendimento abrangente
do tipo de relações conceptuais entre os problemas e, eventualmente, na indiciação de novos
problemas (Mónico, 2010).

2 Das origens à técnica


A observação participante inscreve-se numa abordagem de observação etnográfica no qual o
observador participa ativamente nas atividades de recolha de dados, sendo requerida a
capacidade do investigador se adaptar à situação (Pawlowski, Andersen, Troelsen, &
Schipperijn, 2016).

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É um método que nos permite aceder a situações e eventos comuns, sendo difícil de captar através
de entrevistas ou através de instrumentos de auto-avaliação (Atkinson & Hammersley, 2005;
Silverman, 2006; Strand, Olin, & Tidefors, 2015). Segundo Vogt (1999), a Observação Participante é
um tipo de investigação no qual
(…) a researcher participates as a member of the group that he or she is
studying. Sometimes the researcher informs the group that he or she is
an observer as well as a participant, and sometimes the researcher
pretends to be an ordinary member. (Vogt, 1999, p. 208)
Enquanto técnica de pesquisa, remonta as suas origens à Antropologia Cultural, sendo efetuada em
contextos e grupos distintos e, progressivamente extrapolada para as Ciências Sociais e Humanas, na
sua generalidade e, na sua especificidade, às organizações e a outros grupos psicossociais (Emilsson,
2013; Lessard-Hébert, Goyette, & Boutin, 1999; Strand, Olin, & Tidefors, 2015). Para refletir os
valores da etnografia, os proponentes da observação participante apelam à imersão do investigador
na vida da comunidade ou cultura (Dominguez, Beaulieu, Estalella, Gomez, & Schnettler, 2007; Poole,
Smith, & Simpson, 2015; Schielein, Dobmeier, & Spiessl, 2008; Simpson, Barnes, Griffiths, Hood,
Cohen, & Craddock, 2009).
Enquanto métodos de observação direta, destacam-se a participante, a não participante e a
geográfica ou exploração psicossociológica no terreno (Deshaies, 1997). Os investigadores são
levados a partilhar papéis e hábitos dos grupos observados, estando assim em condições favoráveis
para observar - factos, situações e comportamentos - que não ocorreriam, ou que seriam alterados,
na presença de estranhos (Brandão, 1984; Marshall & Rossman, 1995).
A Observação Participante é realizada em contacto direto, frequente e
prolongado do investigador, com os atores sociais, nos seus contextos
culturais, sendo o próprio investigador instrumento de pesquisa. Requer
a necessidade de eliminar deformações subjetivas para que possa haver
a compreensão de factos e de interações entre sujeitos em observação,
no seu contexto. É por isso desejável que o investigador possa ter
adquirido treino nas suas habilidades e capacidades para utilizar a
técnica. (Correia, 1999, p. 31)
Inserida no conjunto das metodologias denominadas de qualitativas, a Observação Participante é
utilizada em estudos ditos exploratórios, descritivos, etnográficos ou, ainda, estudos que visam a
generalização de teorias interpretativas. Foi Malinowski (1978) quem sistematizou as regras
metodológicas para a pesquisa antropológica: a ideia que caracterizava o método era a de que
apenas através da imersão no quotidiano de uma outra cultura o antropólogo poderia chegar a
compreendê-la.
Enquanto técnica de pesquisa e recolha de dados (Marshall & Rossman, 1995), a Observação
Participante é um exemplo de observação natural ou uma forma especial de observação – que se
distingue da investigação de tipo relacional (Becker & Geer, 1960) – encarada, do ponto de vista do
Positivismo, como um método de investigação “não específico”. Referia-se ser simplesmente uma
forma especial de observação, um método único de recolha de dados, mas nem por isso viável para
uma teorização final. Comummente percecionada como sendo uma técnica única de recolha de
dados, útil na fase preliminar dos estudos científicos, responde a propósitos de exploração e de
descrição. As grandes discussões acerca da Observação Participante encontram-se nos trabalhos
clássicos de Pelto e Pelto (1978) e Spradley (1980), bem como em trabalhos posteriores, em que
destacamos os de Jorgensen (1989) e Van Manen (1990).
Na generalidade, a Observação Participante tem sido conceptualizada fundamentalmente como
diferente da metodologia das ciências físicas, como uma metodologia especial, adaptada unicamente
para as diferentes faces da existência humana.

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Não menos “científico” do que os outros métodos de investigação, a Observação Participante


constitui uma metodologia humanista, uma adaptação necessária da ciência às diferentes matérias
dos estudos sobre o Homem (Mónico, 2010). Nem sempre foi, contudo, inteiramente claro nem
preciso o que a Observação Participante envolvia na metodologia humanista. E há pelo menos duas
razões para esta situação: 1) os praticantes da Observação Participante resistiram a formular
procedimentos e técnicas definitivas. A sua prática era vista como artificial e inapropriada para
qualquer tipo de apresentação linear e mecânica. Para muitos, a Observação Participante era uma
forma de arte, uma forma de vida constituída como uma tradição oral; 2) mesmo quando a
Observação Participante foi discutida explicitamente e apresentada em livros, uma série de
divergências foram enfatizadas. Dimensões como o mundo dos significados, o ambiente do dia-a-dia,
o desenvolvimento de relações, a participação, a observação, e outras formas de obter informações,
a lógica da descoberta e da indução, as teorias de interpretação, receberam um tratamento diferente
e seletivo (Hammersley & Atkinson, 1983; Spradley, 1980).

3 Fundamentação metodológica
A opção metodológica pela observação de tipo participante responde ao objetivo de proceder,
dentro das realidades observadas, a uma adequada participação dos investigadores, de forma “não
intrusiva”, e de modo a reduzir a variabilidade residual, nomeadamente a repressão de emoções
extravasadas ou comportamentos efetuados, bem como a artificialidade dos mesmos. Os
observadores, sendo levados a partilhar papéis e hábitos dos grupos observados, encontram-se,
assim, em condições favoráveis para observar – situações, factos e comportamentos – que
dificilmente ocorreriam, ou que seriam reprimidos ou mesmo adulterados, na presença de estranhos
(Brandão, 1984; Marshall & Rossman, 1995). A nota de campo surge como ferramenta importante na
observação participante evidenciando a documentação escrita produzida por parte do observador
(Bogdan & Taylor, 1998).
O método da Observação Participante é especialmente apropriado para estudos exploratórios,
estudos descritivos e estudos que visam a generalização de teorias interpretativas. Habitualmente
recorre-se à Observação Participante com o propósito de elaborar, após cada sessão de observação,
descrições “qualitativas”, de tipo “narrativo” (i.e., sem recorrer a grelhas de observação
estandardizadas), que permitem obter informação relevante para a investigação em causa
(exemplificando, formulação de hipóteses de investigação, auxílio à elaboração ou adaptação de
teorias explanatórias, conceção de escalas de medida dos constructos em análise).
Na designação das Ciências Sociais, o investigador procura tornar-se membro de um grupo,
organização ou eventualmente ficar sob estudo. Por estar imerso na progressão dos eventos, o
investigador espera encontrar-se numa posição privilegiado para obter muito mais informações, e
um conhecimento profundo do que aquele que seria possível se estive a observar de fora (Vinten,
1994). Este mundo entra em contraste com os ambientes criados e manipulados pelos
investigadores, sendo que os indivíduos também tendem a reagir de forma diferente quando sabem
que estão a ser estudados – sobretudo se o investigador for o manipulador do meio.
A literatura mais consensual adota a perspetiva de que os conceitos, generalizações e interpretações,
inspirados através da Observação Participante, são úteis na orientação do trabalho posterior, bem
como na tomada de decisões (Lofland & Lofland, 1984). Junkers (1960) sugere que existe um
contínuo entre a participação e observação, com os dois pontos intermédios do participante como
observador e do observador como participante.

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Com esta metodologia o investigador foca-se, essencialmente, na atribuição de significados às


práticas e vivências humanas, encaradas sob a perspetiva de “insiders” (Spradley, 1980). O
investigador procura descobrir e tornar acessíveis (no sentido de revelar) realidades e significados,
que as pessoas utilizam para nortear ou atribuir sentido às suas vidas. Trata-se de fundamentar, em
termos empíricos, as teorias psicossociais sobre a existência e práticas humanas (Jorgenson, 1989).
Na aplicação da técnica utilizada, o investigador procura atender a um dos pressupostos
fundamentais da Observação Participante, a saber: a convivência do investigador com a pessoa ou
grupo em estudo proporciona condições privilegiadas para que o processo de observação seja
conduzido de modo a possibilitar um entendimento genuíno dos factos, que de outra forma não nos
seria possível. Admite-se, ainda, que a experiência direta do observador com o grupo em observação
seja capaz de revelar a significação, a um nível mais profundo, de episódios, comportamentos e
atitudes que, apenas investigados de um ponto de vista exterior (entenda-se “não-participante”),
poderiam permanecer obscurecidos ou até mesmo inatingíveis, caso o investigador (enquanto
“suposto” partidário e participante de uma dada identidade grupal) não viesse a estabelecer
condições de análise da complexidade das relações sociais ou de padrões de interação, que apenas
poderiam ser quantificados ou antecipados mediante Observação Participante (Brandão, 1984;
Warnick & Lininger, 1975). "O observador participa da vida diária das pessoas em estudo, tanto
abertamente no papel de pesquisador, como assumindo papéis disfarçados, observando factos que
acontecem, escutando o que é dito e questionando as pessoas ao longo de um período de tempo."
(Becker & Geer, 1960; Trauth & O'Connor, 2000).
A Observação Participante é uma metodologia muito adequada para o investigador apreender,
compreender e intervir nos diversos contextos em que se move. A observação toma parte no meio
aonde as pessoas se envolvem. Por um lado, esta metodologia proporciona uma aproximação ao
quotidiano dos indivíduos e das suas representações sociais, da sua dimensão histórica, sócio-
cultural, dos seus processos. Por outro lado, permite-lhe intervir nesse mesmo quotidiano, e nele
trabalhar ao nível das representações sociais, e propiciar a emergência de novas necessidades para
os indivíduos que ali desenvolvem as suas atividades (Martins, 1996). Para Ezpeleta e Rockwell
(1986), trata-se de "documentar a realidade não documentada" (p. 15). Porém,
A Observação enquanto técnica exige treino disciplinado, preparação
cuidada e conjuga alguns atributos indispensáveis ao observador-
investigador, tais como atenção, sensibilidade e paciência. Tem por
referência o(s) objetivo(s), favorecendo uma abordagem indutiva, com
natural redução de “pré-conceções”. A possibilidade de vir a clarificar
aspetos observados e anotados em posterior entrevista e em
observações mais focalizadas, constitui um ganho excecional face a
outras técnicas de investigação. (Correia, 2009, p. 35)
É uma abordagem utilizada quando o investigador está interessado na dinâmica de um grupo no seu
meio natural, e não simplesmente na recolha de respostas individuais às questões. Para prover uma
perspetiva holística e natural das matérias a serem estudadas, este método de investigação permite
aos investigadores um bom caminho de observação. Contudo, os investigadores não devem
permanecer só nesta, apesar de toda a utilidade que ela tem. É conveniente complementar este tipo
de investigação com entrevistas ou grupos de controlo. Estas interações mais focalizadas
providenciam uma oportunidade para o investigador verificar o seu entendimento das coisas, em
comparação com a interpretação daqueles que estiveram a ser observados, e para obter informação
adicional e relevante para o estudo (Smith & Denton, 2001). Um cientista que entra numa
determinada comunidade para registar o comportamento de um determinado grupo pode registar
comportamentos e ter acesso a informações em primeira-mão, percecionando emoções e
comportamentos de indivíduos com uma determinada identidade grupal, de uma forma que não
seria possível obter a partir de um mero questionário (Mónico, 2010, 2011).

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De facto,
A heterogeneidade e a individualidade do quotidiano exigem outras
dimensões ordenadoras. Impõem forçosamente o reconhecimento de
sujeitos que incorporam e objetivam, a seu modo, práticas e saberes dos
quais se apropriaram em diferentes momentos e contextos de vida,
depositários que são [de uma] história acumulada durante séculos.
(Ezpeleta & Rockwell, 1986, p. 28)

4 Da técnica às práticas de Observação Participante


Um observador é considerado participante quando se integra num grupo e na vida do mesmo. Um
importante contraste neste processo é o grau de envolvimento, com as pessoas e nas atividades que
se observam. Este método de recolha de dados tem provocado uma discussão sobre o papel ou a
posição do investigador enquanto observador participante. O que se reitera é que, num estádio
inicial, é conveniente elaborar um plano sobre qual a natureza da participação que se pretende, o
que é que vai ser revelado acerca do estudo às pessoas do local, qual a intensidade da participação e
o enfoque da mesma (Marshall & Rossman, 1995).
Foram distinguidas múltiplas formas de envolvimento e tipo de participação: alto (completo, ativo,
moderado), baixo (passivo) e sem envolvimento (não participação) (Spradley, 1980). A designação de
Participação completa pressupõe o mais alto nível de envolvimento do observador enquanto mero
participante nas situações. Contudo, é preciso ter em atenção que quanto mais se sabe de uma
situação, mais difícil é estudá-la; quanto menos familiarizados estivermos com as situações, mais
facilmente conseguimos percecionar as regras culturais que se encontram em jogo. Na participação
ativa procura-se fazer o que as outras pessoas fazem (começa com observação e, depois de conhecer
o que os outros fazem, tenta aprender o mesmo comportamento), não somente para se ser aceite,
mas principalmente para aprender mais sobre as regras culturais do seu comportamento. Apesar da
participação ativa ser uma técnica muito útil, nem todas as situações oferecem a oportunidade de a
desenvolver (Spradley, 1980). Acresce que nela o observador tem um papel efetivo, suscetível de
modificar radicalmente certos aspetos da vida do grupo (Mucchielli, 1974).
A Participação moderada ocorre quando o investigador tenta oscilar entre o ser insider e outsider ou,
dito de outro modo, entre participar e observar (Spradley, 1980).
Como Observação Participante passiva entende-se que o observador participante insere-se na
realidade a observar, observa, mas não mexe em nada… Ele debruça-se sobre a análise dos
comportamentos nos quais ele se envolve, até aos mais ínfimos pormenores, e faz o propósito de os
deixar intactos, considerando o encadeamento desta via como um feito precioso para a ciência
(Mead, 1966).
Quando falamos de não participação, o observador não tem qualquer envolvimento com as pessoas
ou as atividades em estudo. É possível recolher dados através da observação pura. Há situações
muito particulares que não permitem o envolvimento do observador, apesar de poderem ser
investigadas (Spradley, 1980).
Um caso especial de observação participante reporta-se à observação participante virtual, que é
considerada por Mann e Stewart (2000) e Dominguez et al. (2017) como uma forma adaptável para
se estudar comunidades online e as suas culturas. A "observação participante virtual" também é
referida como "etnografia online", "netnografia" ou "etnografia virtual", sendo cada vez mais
utilizada em sociologia, filosofia, psicologia e economia (Williams, 2007; Dominguez et al. 2007).

5. Do mero observador ao observador participante

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Todas as pessoas atuam como meros participantes em diversas situações da vida social. Uma vez
aprendidas as regras culturais, estas tornam-se tácitas. Um observador participante, por sua vez,
estudando as situações sociais comuns, parecerá, para toda a aparência externa, como um mero
participante (Spradley, 1980). Então, o que distingue um mero observador de um observador
participante? Existem algumas diferenças que se fazem notar, sistematizadas por Spradley em 1980:
A) Duplo propósito – o observador participante vai para uma situação social com dois propósitos: 1)
empenhar-se em atividades apropriadas para a situação e 2) observar as atividades (ver e registar
tudo aquilo que acontece), pessoas (descrever todos os atores presentes) e aspetos físicos da
situação (tomar nota de todos os aspetos do meio). Os participantes habituais vão para a mesma
situação com um só propósito: empenhar-se nas atividades proporcionadas.
B) Atenção explícita – se todos os seres humanos ativos tentassem lembrar-se e catalogar todas as
atividades, todos os objetos, todas as informações que pudessem perceber, e se o fizessem sempre,
iriam experimentar o que comummente se designa de “sobrecarga” (overload). Todos procuram
adaptar-se ao meio, prestando menos atenção a determinada informação de que não precisam ou
não querem; de facto, a complexidade dos ambientes sociais exige que o participante habitual exclua
muito da sua consciência. O observador participante, pelo contrário, procura explicar tudo aquilo
que habitualmente o “homem comum” rejeita ou não presta atenção.
C) Lente de ângulo aberto (Wide-angle lens) – todos os indivíduos usam a sua destreza percetiva para
obter informações acerca das diversas situações sociais. Todos são observadores, mesmo quando
atuam como meros participantes. Porém, o que observam e escutam permanece no imediato,
permitindo o desenvolvimento de uma determinada atividade. O observador participante, por seu
lado, procura desenvolver um alto senso de consciência, bem como uma aproximação à vida social
com uma “lente aberta”, tendo um espectro mais alargado de informação.
D) A experiência de insider e outsider – o mero participante de uma situação social, normalmente,
experimenta algo no imediato, de uma maneira subjetiva; vê uma parte daquilo que está à sua volta;
experimenta os seus próprios movimentos e move-se numa sequência de atividades; numa palavra, é
insider. A experiência deste participar numa situação social toma significado e coerência pelo facto
de o indivíduo estar inserido na situação, fazer parte dela. O observador participante, por seu lado,
experimenta ser insider e outsider, o seja, espectador e ator de uma determinada situação.
E) Introspeção – nas situações diárias os indivíduos, habitualmente, não fazem introspeção dos seus
atos; contudo, se algo de mais grave acontecer, são conduzidos a isso. Como observador
participante, é necessário fazer alguma introspeção. Esta pode não parecer objetiva, mas é um
instrumento que todos os indivíduos utilizam para compreender novas situações, ganhar
competências e/ou seguir as regras culturais.
F) Anotações – o observador participante vai recolher, ao mesmo tempo, dados objetivos e
sentimentos subjetivos. Este registo pode ser feito imediatamente; mas há outras vezes em que o
registo tem de ser feito mais tarde, quando se deixar a situação social. O papel do observador
participante varia de situação para situação, sendo que cada investigador tem de definir o grau e
condições de envolvimento na situação. À medida que o seu papel se desenvolve, é preciso manter
um duplo propósito: querer participar e ver-se a si próprio e aos outros ao mesmo tempo; registar o
que se vê e o que se experimenta.

5 Vantagens e limites da técnica de Observação Participante


A Observação Participante, enquanto método de recolha de dados, em que o investigador procura
tornar-se membro de um grupo ou organização sob estudo, requer prática, conhecimento e
compreensão por parte do observador (Jorgenson, 1989; Yin, 1994).

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“Sublinham-se as vantagens da observação em relação às técnicas mais «intrusivas» ou «reativas» e


insiste-se nas potencialidades e nos limites da observação participante” (Alferes, 1997, p. 40).
Por estar imerso na progressão dos eventos, espera-se que o observador se encontre numa posição
privilegiada para obter conhecimentos aprofundados e, portanto, muito mais informação do que
aquela que seria possível adquirir por outras vias (Vinten, 1994). Por isso mesmo, enquanto técnica
de investigação, a observação em ambientes naturais apresenta um sem número de vantagens, entre
as quais se evidenciam: a) a espontaneidade dos comportamentos dos participantes (Kenrick,
Neuberg, & Cialdini, 1999); b) o facto de ser possível observar os eventos do mundo real à medida
que ocorrem (o que envolve uma boa visão das motivações e comportamentos interpessoais); c) o
acesso a eventos ou grupos que seriam inacessíveis à pesquisa por outras vias; d) a perceção da
realidade do ponto de vista interno ao ambiente em estudo, o que possibilita a obtenção de um
retrato mais fiel da situação e uma menor probabilidade de produzir variabilidade residual ou mesmo
de manipular os eventos (Everston & Green, 1986).
Há muitos autores, contudo, que advogam como limitativo o método da Observação Participante,
sendo “válido para hipóteses gerais acerca das causas do comportamento social, mas uma técnica
menos boa para testar hipóteses causais” (Aronson, Wilson, & Brewer, 1998, p. 101). Um dos
principais problemas que se coloca com a utilização desta técnica de recolha de dados consiste na
relação entre o “quanto se observa” e o “quanto se participa”, quando o investigador se encontra em
campo. Brandão (1984) aponta uma certa orientação para a abordagem das relações que aí se
estabelecem:
É necessário que o cientista e sua ciência sejam, primeiro, um momento
de compromisso e participação com o trabalho histórico e os projectos
de luta do outro, a quem, mais do que conhecer para explicar, a pesquisa
pretende compreender para servir. (p. 12)

André (1992), aplicou esta metodologia durante dez anos em contexto escolar, tendo apurado que

O que se verifica (...) é que a grande maioria [das observações] envolve


dados de campo, sistematizados em forma de descrições, que
acrescentam muito pouco ao que se sabe ou conhece ao nível do senso
comum. É o empírico pelo empírico. O investigador parece satisfazer-se
com o facto de recolher uma grande quantidade de dados, e parece
esperar que esses dados, por si, produzam alguma teoria. Mas é
evidente que sem um referencial de apoio que oriente o processo de
reconstrução desses dados não há avanço teórico – fica-se na
constatação do óbvio, na mesmice, na reprodução do senso comum. (pp.
31-32)
Enquanto observadores participantes, diversos relatam a dificuldade em manter um rigor absoluto
nos procedimentos de investigação adotados (Mónico, 2010). Primeiro, porque não se adequa parar
no meio de uma observação ou de um diálogo com os interlocutores da realidade que se observa
para tomar notas, ou então gravar tudo o que vai ocorrendo: é necessário alguma seletividade
naquilo que se pretendeu registar. Segundo, porque os critérios de seleção dos eventos a observar
muitas das vezes não são tão óbvios quanto se deseja, tendo o investigador dificuldade em avaliar a
adequação dos critérios usados. Aponta-se, assim, o problema da seletividade/cobertura limitada
(Kenrick, et al., 1999).

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Em termos de desvantagens ou problemas que a Observação Participante pode apresentar, surge


ainda o problema de a mera presença dos observadores participantes poder afetar as ações dos
indivíduos observados (ex., agirem com menos naturalidade). Vinten (1994) refere que a presença do
observador pode ser comparada ao impacte que uma câmara de filmar provoca no comportamento
das pessoas. Kenrick e colaboradores (1999) designam este problema por reflexividade, na medida
em que o evento pode ocorrer de forma diferente porque está a ser observado. Yin (1994)
acrescenta o problema do tempo insuficiente para tomar notas e fazer perguntas sobre eventos, em
diferentes perspetivas, como qualquer bom observador deveria fazer. No que toca aos custos,
salientamos o facto de este tipo de observação implica diversas deslocações aos locais a observar,
bem como a morosidade; podemos referir que é uma técnica que consome muito tempo. Além das
limitações anteriormente referidas, Vinten (1994) refere a possibilidade de não se conseguir observar
certos comportamentos que, devido à sua raridade, seria interessante observar.
Como problema final da Observação Participante, refira-se que, apesar de ser conduzida
sistematicamente, as expectativas pré-concebidas pelos investigadores/observadores poderão
conduzir a ignorar certas influências nos comportamentos observados e a exagerar outras. Este
problema – apelidado de enviesamento do observador (Kenrick et al., 1999) – reside na possibilidade
do investigador intuir ou adivinhar acerca do que espera encontrar, indo, assim, ao encontro das
hipóteses que formulou.

5. Observação Participante: Considerações finais

Enquanto método de investigação, a Observação Participante possibilita obter uma perspetiva


holística e natural das matérias a serem estudadas. Contudo, os investigadores não devem cingir-se
apenas a este tipo de observação, apesar de toda a utilidade que apresenta (Smith & Denton, 2001).
Daí De Ketele (1983) afirmar que não podemos aceitar ou rejeitar, a priori, o método de Observação
Participante. Trata-se de, agora e sempre, uma questão de adequação aos objetivos formulados, em
função das diversas contingências.
A indiciação de novos problemas ocorre se se verificarem dois tipos de circunstâncias, isto é, se a
aplicação da referida observação puder ser renovada, provocando assim a ilusão de estabilidade e,
quando esta altera as suas formas, então, dir-se-á que tudo se conjuga para a construção de uma
nova realidade. Porém, esta construção implica o respeito por matrizes teóricas consistentes e por
esquemas metodológicos de investigação, adaptados ao novo quadro conceptual (Evertson & Green,
1986). É, portanto, conveniente complementar esta metodologia de investigação com outras, no
sentido de se apurar o entendimento da problemática em análise sob diversas perspetivas.

Referências

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