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ALUNOS: LEGISLAÇÃO ESPECIAL PENAL

ANDERSON HENRIQUES GOUVÊA


DANIEL BARBOSA SANDOVAL MARQUES PROFESSORA: MARIA DAS GRAÇAS
JÚLIA FRANCO GUIMARÃES

LAVAGEM DE DINHEIRO (LEI Nº 9.613/98)

A expressão lavagem teve origem na América do Norte, na década de 20, quando a


máfia criou várias lavanderias, utilizando-se desse comércio formalmente legalizado para
ocultar a origem criminosa de todo o dinheiro por ela auferido ilicitamente, dando-lhe aparência
de lícito. Em alguns países, como Portugal, França e Espanha, o delito de lavagem de dinheiro
é denominado Branqueamento de Capitais. No Brasil o legislador justificou a adoção da
nomenclatura Lavagem de Dinheiro no fato de tal expressão já estar consagrada na linguagem
popular.

A lavagem de dinheiro consiste na atividade revestida de objeto lícito, que tem por
finalidade a transformação de recursos financeiros obtidos de forma ilícita em lícitos, operada
por meio de fases/etapas para que seja ocultada aquela origem ilícita.

A doutrina majoritária identifica como bem jurídico do delito de lavagem de


dinheiro a ordem econômica, ordem tributária, sistema financeiro nacional, administração da
justiça, paz pública e toda a ordem socioeconômica em geral.

São três as etapas em que pode se dar a lavagem de dinheiro: a) colocação: é a


inserção do capital no sistema econômico, o que normalmente ocorre em países cujas regras de
movimentação financeira são mais flexíveis (ex.: o agente recebeu dinheiro proveniente de
corrupção e o deposita em conta bancária localizada em país que não impõe formalidades
quanto à demonstração de origem); b) ocultação (dissimulação): nesta etapa, o agente atua para
dificultar ou impedir o rastreamento dos recursos ilícitos para obstar que, em eventual
investigação, seja identificada sua origem (ex.: o depósito referido no item anterior é dividido
em diversas contas anônimas); c) integração: neste caso, os recursos são formalmente
incorporados ao sistema econômico regular (ex.: o agente recebe dinheiro proveniente de
corrupção e investe em uma sociedade comercial ou adquire bens).

Para a caracterização do crime, não é necessário que se passe por cada uma destas
etapas, embora seja comum que isso ocorra, até mesmo de forma simultânea. Ex.: ao mesmo
tempo em que há a colocação no sistema financeiro, busca-se a ocultação e a integração por
meio do fracionamento do dinheiro em diversas contas bancárias e da aquisição de bens.

O delito de lavagem de dinheiro é crime acessório, que depende da prática de uma


infração penal antecedente, podendo tal infração penal consistir em crime ou em contravenção
penal. Essa natureza acessória está descrita no art. lº e no art. 2°, § lº da lei. Não há relação de
prejudicialidade entre a infração penal e o delito de lavagem de dinheiro, ou seja, não em que
se falar em absorção da infração antecedente pela lavagem de dinheiro, em razão da sua
autonomia e sobretudo, porque não há uma relação de dependência entre elas.

Embora o delito de Lavagem de Dinheiro seja um crime acessório, ele não configura
post factum impunível em relação à infração penal antecedente, havendo concurso de crimes1.

1
STJ. (_) Por definição legal, a lavagem de dinheiro constitui crime acessório e derivado, mas autônomo em relação ao crime
antecedente, não constituindo post factum impunível, nem dependendo da comprovação da participação do agente no crime
antecedente para restar caracterizado(... ). REsp 134271 0/PR, Rei. Min. Maria Tereza de Assis Moura, julgado em 22/04/2014.
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O delito de lavagem de dinheiro é delito autônomo, que é atribuído ao acusado em concurso


material com a infração penal antecedente.

No que tange o sujeito ativo, pode ser ele qualquer pessoa, inclusive o autor ou
coautor da infração penal antecedente. Não é necessário que o autor do delito de lavagem tenha
concorrido para a infração penal antecedente, bastando que tenha conhecimento da origem
criminosa dos valores2. A prática das duas condutas descritas no tipo (ocultar e dissimular) não
gera concurso de crimes, respondendo o agente por apenas um delito.

A Lei nº 9.613/98, na redação original do art. 1°, elencava taxativamente os crimes


que poderiam ser antecedentes à lavagem de dinheiro. Com a entrada em vigor da Lei nº
12.683/12, o caput do art. 1º passou a punir as condutas de ocultar ou dissimular a natureza,
origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores
provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal, sem especificação, revogando-se
todos os incisos que se referiam às Infrações antecedentes.

Percebe-se, portanto, que a Lei 12.683/2012 ampliou a incidência da lei de lavagem


de dinheiro, configurando, dessa forma, verdadeira novatio legis in pejus, que, de acordo com
o princípio constitucional da irretroatividade da lei penal mais severa, não pode retroagir.
Assim, se a lavagem de dinheiro foi praticada antes do advento da Lei 12.683/2012, esse crime
somente existirá se a infração penal antecedente figurasse no revogado rol taxativo do art. lº no
momento da conduta do agente. Caso contrário, a conduta será atípica.

A respeito da lavagem de dinheiro, de acordo com a doutrina, embora a modificação


introduzida na Lei nº 9.613/98, quanto aos crimes antecedentes à lavagem, seja positiva por
permitir que a ocultação, dissimulação ou integração de bens, direitos ou valores ocorra sobre
o objeto de qualquer infração penal, há de se evitar a aplicação da lei sobre fatos antecedentes
considerados de bagatela, sob pena de desvirtuar o propósito do legislador. A respeito, pontua
Luiz Flávio Gomes: "Não é qualquer ofensa que constitui o delito de lavagem de dinheiro. Os
órgãos encarregados da investigação e processamento da lavagem de dinheiro não podem
bagatelarizar a lei, admitindo sua incidência em qualquer caso. Da lei não constou nenhum
critério objetivo para definir o que é relevante e o que não é. Como linha de princípio,
pensamos que o mesmo critério reinante do princípio da insignificância e vigente para os
crimes tributários deve valer para a lavagem”3.

O art. 1º, § 4º, da Lei nº 9.613/98 estabelece causa de aumento de um a dois terços
da pena se os crimes relativos à lavagem forem cometidos de forma reiterada ou por intermédio
de organização criminosa (neste último caso, à luz do conceito estabelecido na Lei nº
12.850/13).

Por outro lado, a pena poderá ser reduzida de um a dois terços e ser cumprida em
regime aberto ou semiaberto, facultando-se ao juiz deixar de aplicá-la ou substituí-la, a qualquer
tempo, por pena restritiva de direitos, se o autor, coautor ou partícipe colaborar

2STJ. O crime de lavagem de dinheiro não exige que o réu seja autor do crime antecedente. Precedentes desta Corte. RHC
39470. Rei. Min. NEFI CORDEIRO, julgado em 10/06/2014.
3
Disponível em http://www.institutoavantebrasil.com.br/artigos-do-prof-lfg/pela-nao-bagatelarizacao-da-lavagem-de-
dinheiro-sujo/
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espontaneamente com as autoridades, prestando esclarecimentos que conduzam à apuração das


infrações penais, à identificação dos autores, coautores e partícipes, ou à localização dos bens,
direitos ou valores objeto do crime.

O art. 2°, inciso I, da Lei nº 9.613/98 dispõe que o processo e o julgamento dos
crimes de lavagem independem do processo e julgamento das infrações penais antecedentes,
ainda que praticados em outro país, cabendo ao juiz competente para os crimes previstos nesta
Lei a decisão sobre a unidade de processo e julgamento. A denúncia deve ser instruída com
indicias suficientes da existência da infração penal antecedente, e a lavagem é punida ainda que
desconhecido ou isento de pena o autor, ou extinta a punibilidade da Infração penal antecedente.

O art. 2º, § 2º, da Lei nº 9.613/98 estabelece que no processo por crime de lavagem
não se aplica o disposto no art. 366 do Código de Processo Penal, devendo o acusado que não
comparecer nem constituir advogado ser citado por edital, prosseguindo o feito até o
julgamento, com a nomeação de defensor dativo. Há quem sustente que, em homenagem à
ampla defesa, o art. 366 deva prevalecer sobre a disposição da lei especial. Neste sentido,
Renato Brasileiro: "Em que pese o teor do citado dispositivo [art. 2º, § 2º], a nosso juízo,
afigura-se possível a aplicação do art. 366 do CPP aos processos pelo delito de lavagem de
capitais. Isso em virtude da verdadeira inconstitucionalidade de que padece o dispositivo do
art. 2º, § 2º, da Lei nº 9.613/98. De fato, em prol de uma maior efetividade no combate à
lavagem de capitais, não se pode desprezar a aplicação do preceito do art. 366, consectário
lógico da garantia da ampla defesa (art. 5º, LV, da CF/88), como visto alhures. Trata-se, assim,
o art. 2º, § 2º, da Lei nº 9.613/98, de mais um exemplo de norma que ganhou vigência com sua
publicação, mas que não possui validez.” (Legislação Criminal Especial, 2009, p. 594).

O art. 7º da Lei nº 9.613/98 impõe como efeitos da condenação, além dos previstos
no Código Penal (que não conflitem com os efeitos de que trata esta lei especial): a) a perda,
em favor da União – e dos Estados, nos casos de competência da Justiça Estadual-, de todos os
bens, direitos e valores relacionados, direta ou Indiretamente, à prática dos crimes relativos à
lavagem, inclusive daqueles utilizados para prestar a fiança, ressalvado o direito do lesado ou
de terceiro de boa-fé; b) a Interdição do exercido de cargo ou função pública de qualquer
natureza e de diretor, de membro de conselho de administração ou de gerência das pessoas
jurídicas referidas no art. 9º, pelo dobro do tempo da pena privativa de liberdade aplicada. Este
segundo efeito encontra semelhança com aquele descrito no art. 92, inciso I, do Código Penal,
mas, ao contrário do que ocorre naquele diploma, na lei especial é automático, ou seja,
independe de motivação.

Recentemente o STF firmou posicionamento de que inexiste a aplicação do


princípio da consunção quando ocorrem simultaneamente os crimes de lavagem de dinheiro e
evasão de divisas. Neste sentido:

"PROCESSO PENAL EMBARGOS INFRINGENTES.


CONSUNÇÂO- EVASÃO DE DIVISAS E LAVAGEM DE
DINHEIRO. INOCORRÊNCIA. 1. Há consunção quando as ações
desenvolvem-se dentro de única linha causal para o intento final (o fator
final, conforme Zaffaroni), nele esgotando seu potencial ofensivo. 2. A
circulação, em contas bancárias de titularidade de 'laranjas' no Brasil,
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de recursos provenientes do clandestino desempenho de atividade de


instituição financeira consubstancia, por si só, ocultação de dinheiro
proveniente de anterior crime contra a Sistema Financeiro Nacional,
sem que necessariamente inserida em sua linha causal a evasão ilícita
da moeda. 3. Mesmo na ocultação de valores no exterior, não se pode
falar na consunção do delito de evasão de divisas pelo de lavagem de
dinheiro, pois autônoma a ofensa ao equilíbrio financeiro, às reservas
cambiais nacionais e à própria higidez de todo o Sistema Financeiro
Nacional – bens que são protegidos pela Lei nº 7.492/86 –, além de
evidente o intento de remessa e manutenção no estrangeiro de
expressivos recursos financeiros à margem da fiscalização e controle
pelo órgãos oficiais." (STF- 1ª Turma- AI 858531 Ag RED/SC- Relator
Ministro Luiz Fux – julgamento 27/10/2015 – OJE 228 – divulgação
12/11/2015 e publicação 13/11/2015).

No dia 13 de janeiro de 2016 foi publicada Lei nº 13.254, que institui o “Regime
Especial de Regularização Cambial e Tributária (RERCT) de recursos, bens ou direitos de
origem licita, não declarados ou declarados incorretamente, remetidos, mantidos no exterior ou
repatriados por residentes ou domiciliados no País”.

A Lei 13.254/2016 estatuiu o Regime Especial de Regularização Cambial e


Tributária (RERCT) e positivou no art. 5º, § 1º, uma causa de extinção da punibilidade em
relação ao delito de Lavagem de Dinheiro. Esse Regime Especial consiste na regularização por
meio da declaração voluntária de recursos, bens ou direitos de origem lícita, não declarados ou
declarados com omissão ou incorreção em relação a dados essenciais, remetidos ou mantidos
no exterior, ou repatriados por residentes ou domiciliados no país, conforme a legislação
cambial ou tributária. Segundo o art. 2°, II, dessa lei, consideram-se recursos ou patrimônio de
origem lícita: os bens e os direitos adquiridos com recursos oriundos de atividades permitidas
ou não proibidas pela lei, bem como o objeto, o produto ou o proveito dos crimes previstos no
§ 1°, do art. 5°, da mesma lei.

A adesão ao RERCT dá-se por meio da apresentação, pela pessoa física ou jurídica,
à Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) e, em cópia para fins de registro, ao Banco
Central do Brasil da declaração única de regularização especifica contendo a descrição
pormenorizada dos recursos, bens e direitos de qualquer natureza de que seja titular em 31 de
dezembro de 2014 a serem regularizados, com o respectivo valor em real, ou, no caso de
inexistência de saldo ou título de propriedade em 31 de dezembro de 2014, a descrição das
condutas praticadas pelo declarante que se enquadrem nos crimes previstos no § lº, do art. 5°,
da lei e dos respectivos bens e recursos que possuiu (art. 4° da Lei 13.254/2016).

Em relação ao rol de crimes contidos no art. 5°, § 1°, duas observações merecem
ser feitas: a Lei n° 4.729/1965 está tacitamente revogada pela Lei nº 8.137/1990; em relação ao
art. 1º da Lei n° 9.613/1998 (Lavagem de Dinheiro), o rol de incisos foi suprimido pela Lei nº
12.683/2012, não existindo mais. Como é possível perceber, conforme a redação do art. 5°, §
1º, da Lei nº 13.254/2016, a adesão ao RERCT nos moldes preconizados no art. 4° da mesma
lei tem o condão de extinguir a punibilidade do agente.
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JÚLIA FRANCO GUIMARÃES

INFORMATIVOS APLICÁVEIS

• Prescrição. Crime antecedente. Lavagem de dinheiro. A extinção da


punibilidade pela prescrição quanto aos crimes antecedentes não implica o reconhecimento da
atipicidade do delito de lavagem de dinheiro (art. 1º da lei 9.613/98) Imputado ao paciente. Nos
termos do art. 2º, II, § 1º da lei mencionada, para a configuração do delito de lavagem de
dinheiro não há necessidade de prova cabal do crime anterior, mas apenas a demonstração de
indícios suficientes de sua existência. Assim sendo, o crime de lavagem de dinheiro é delito
autônomo, independente de condenação ou da existência de processo por crime antecedente.
HC 207.936, rei. Min. Jorge Mussi, j.27.3.12. 5ª T. (INFO 494).

• Lavagem. Dinheiro. Evasão. Divisas. Crime tributário. Habeas corpus


impetrado visando ao trancamento da ação penal em relação aos delitos de "lavagem" de
dinheiro e evasão de divisas, sob o fundamento de que o delito tributário, seu antecedente
lógico, tivera trancada a ação penal respectiva, por falta de condição de punibilidade.
Autonomia concreta entre os três delitos. Descabe o trancamento da ação penal que tem por
objeto os delitos de evasão de divisas, lavagem de dinheiro. HC 133.274, Rei. Min. Celso
Limongi (des. conv. TJ-SP), j.15.4.10. 6ª T. (INFO 430).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Cunha, Rogério Sanches. Neto, Ricardo Ferracini. REVISAÇO LEGISLAÇÃO PENAL


ESPECIAL – 2ª. ed. rev., ampl. e atual. – Salvador/BA: Ed. Juspodivm, 2016.

Leis Penais Especiais volume único: atualizado com os Informativos e Acórdãos do STF e do
STJ de 2015 I coordenador Leonardo de Medeiros Garcia – 8. ed. rev., atual. e ampl. – Salvador:
Juspodivm, 2016.