Você está na página 1de 282

Retrato do

4 an 002, p2 //518 3
BR DFANaSB v3.GNC.AMA, 404433
raro rap

Agir “Wa; /

ra o
ooo &R. tempe
4 l“ it
Q Cas
o |o a
Eo e l

L a
., ".ª
a %
sM / Ano A
/
OME onto
n
L
o
5
O
4.-
N)
M
5]
Y
O
I
QO
<
<
<
O
pr.
O
e)
>
co
/)
BR DFANB
BR DFANBSB V8.GNC.AAA, 84043313NCOA, p 4

BRetratodo sª *
BR DFANBSa VB.GNC.AAA. 24042333
an 002, pô

Capa: Layout - Thais Rebello; ilustração < Nelson Mielnik


Fotos da guarda do volume: Cynthia Brito/Agência F4
- BR DFANBSB V8.GNC.AMA, 87 3393 AnCO2 y P 68

(Da Monarquia ao Estado Militar)

VOLUME II

$)

Keditora
POLÍTICA
BRDFANSSS V8.GNC.AM.RA0413313nCO02
py

p?
editora
Elifas
EuricoAndreatto
Andrade
Fernando
Flávio Morais
Andrade
Luiz Hélio
Gonzaga
Mino
Bicudo
CartaBelluzzo
Nirlando
Raimundo BeirãoPereira
Rodrigues
Raymundo Faoro
RitftoÃs 1

Diretor de Redação
Mino Carta
Editor
Raimundo Rodrigues Pereira
Redator-chefe
Duarte Pereira
Consultores
Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA),
Geraldo Mayrink (Cultura)
Vladimir Sacchetta (Fotografia)
Redação
Álvaro Caropreso, Armando Sartori, Flávio Dieguez, Guerino Zago Jr., Marcos
E. Gomes,
Renato Pompeu, Roniwalter Jatobá, José C. Ruy (editor-contribuinte);
Flávio Moreira Martins, Ricardo Buono (preparação); Henilda Amâncio (secretária)

Arquivo e Pesquisa
Maria Stella M. Gomes (chefe), Antonio Carlos B. Mattos, Georgete Medleg, Gilda Múhlen,
Ida Bismara, Jorge M. A. Soares, Paulo Tomsic, Rita Gava Ruy, Wanda Nestlehner
(SP);
Antonio Carlos Queiroz, Luciana Jaceoud, Luis Otávio T. Assumpção (Brasília).
Fotos: Nerci Ferrari, Yeda E. Abreu Deckes (SP), Paulo César Azevedo (Rio)

Arte
José Ramos Néto (editor); Edson Cruz, José Antonio Suzuki, Marcelo Leite
de Barros
Colaboradores
Agostinho Gisé, Alberto Llinares, Alcy, Antonio Carlos Fon, Antonio Pedro Tota,
Bruno Liberati,
Carlos Lorena, Chico Caruso, Cláudio Abramo, Cláudio Cavalcanti, Cláudio
Gottardi,
Cláudio Willer, Denise Cunha, Emir Sader, Ethel Leon, Eva Blay, Fábio Lucas, Flávio
Aguiar, Flávio de Carvalho,
Hélio de Almeida, Jáder de Andrade, Jean-Claude Bernardet, João Lizardo, Júlio Minervino,
Leandro Konder, Luis Maklouf Carvalho, Luis Nassif, Luzia A. Conejo Guedes Pinto,
Márcia Micheli, Márcio Bueno, Marcos de Castro, Marcos Dantas, Maria Evelyna P. N.
Caropreso,
Maria Tereza Leopardi Mello, Maringoni, Matthew Shirts, Maurício Azedo, Maurício
Kubrusly,
Murilo Carvalho, Nivaldo A. S. Rigo, Otto Filgueiras, Paulo Sérgio Pinheiro, Radha Abramo, Ricardo
Maranhão,
Ricardo Paoletti, Ricardo Ramos, Roldão Arruda, Rubem Grilo, Sérgio Pompeu,
Tamás Szmrecsânyi,
Tárik de Souza, Teodomiro Braga, Valdeci Verdelho, Ziraldo

Promoção
Paulo Barbosa (chefe), Marcos Guedes dos Santos, Ana Regina Rosa

Administração
Sonia M. M. Ferreira (chefe), Irene L. Barbosa, João Prado (contabilidade
e advocacia),
José A. Magrini, Maria Gonzalez, Thereza Dantas, Valter Martins

Circulação e Planejamento
Antonio Martins Rodrigues (chefe), Amador Vicente, José Carlos dos Santos
Brito, Maria Lúcia Vieira,
Retrato do Brasil é uma publicação de POLÍTICA EDITORA DE LIVROS, JORNAIS E REVISTAS LTDA
Redação: rua Engenheiro Aubertin, 216, CEP 05068, Lapa, São Paulo. Telefone: 832-2212.
Composição, fotolitos e impressão: oficinas gráficas do Grupo de Comunicação Três, rua William Speers, 1000,
Lapa, São Paulo.
Copyright 1984 POLÍTICA EDITORA (artigo 15 da Lei no 5.988 de 14/12/1973)
sroransss , ps

ECONOMIA/EMPREGO: as causas do desemprego e subemprego

há vagas .
Não

A partir do início dos anos 80, o desemprego assume proporções dramáticas no


País. E cresce o subemprego tanto no campo como na cidade, reflexo de uma
política recessiva e, também, de uma doença estrutural da economia brasileira

Quando a Volkswagen do Brasil de- vência para jovens e velhos operários do qual podem resultar situações igual-
cidiu cortar 15% de sua folha de paga- desempregados, parecia ser incapaz de mente novas. Nas próximas semanas
mentos, reagindo, no início de 1981, à sustentar tanta gente. Muitos desem- pode ser criado em São Bernardo um
brutal queda de vendas, cerca de seis pregados já haviam queimado a parca quadro muito tenso, próximo ao das ci-
mil metalúrgicos foram colocados na munição das indenizações, suficiente dades do sertão nordestino nos mo-
rua, quase de um dia para outro, so- para viver não mais do que dois ou três mentos de seca prolongada. Nesse ca-
mente na sua principal fábrica, em São meses. O clima era tenso. so, não está afastada a possibilidade de
Bernardo do Campo, no ABC paulista. Um jornalista, Antônio Carlos Fer- saques a armazéns e mercados."
Como a Volks, a maioria das indústrias reira, do semanário Movimento, foi ao O jornalista acertou quase na mosca.
de São Bernardo demitia aos borbo- ABC, em abril daquele ano, para des- A tensão acumulada pelo desemprego
tões. Ao todo, cerca de 10 mil desempre- crever a situação. Ele fez um prognósti- crescente explodiria dois anos depois,
gados peregrinavam de porta em porta co aterrador: "Os 10 mil metalúrgicos não exatamente no ABC, mas a poucos
de fábrica ou faziam biscates pelas desempregados que perambulam por quilômetros a oeste, na Zona Sul da ca-
ruas da cidade. Mesmo o comércio am- São Bernardo à procura de emprego pital paulista. No dia 4 de abril de 1983,
bulante, última alternativa de sobrevi- são um fato político e sociológico novo, um terremoto político-social abalaria o

BRS
265
BR DFANBSB V8.GNC.AAA, 3341 anco2 , pa

Brasil. Com epicentro no bairro de


Santo Amaro, ondas de saques ao co-
mércio de alimentos, principalmente,
se estenderiam por toda Grande São Governo Castello, amo? cem a a
Paulo durante três dias seguidos. O E, 2 Ne ag.
'a;
abalo repercutiria, por várias semanas, 1966: surge o
em ondas de saques nos bairros pobres
dos principais centros urbanos do País, FGTS, clara s

especialmente o Rio de Janeiro, vantagem patronal


A "rebelião de Santo Amaro", como
ficou conhecido o episódio, não foi sur- r

presa para aquelas pessoas que, como o di


O Fundo de Garantia por Tempo
repórter de Movimento, prestavam a
de Serviço (FGTS) foi instituído por
devida atenção a uma série de fa-
um decreto-lei do presidente Castello
tos e indicadores da economia brasilei-
Branco, em 13 de setembro de 1966,
ra que se acumulavam havia anos,
suprimindo praticamente o direito à
Quando as empresas do ABC paulis- estabilidade no emprego.
ta gomeçaram a demitir em massa, em A Consolidação das Leis do Traba-
1981, as autoridades de governo avalia- lho (CLT), promulgada em 1943, dizia
vam o fato como um "problema locali- que o empregado com mais de um
zado", "facilmente superável". Era um ano de serviço numa empresa só po-
engano, no entanto. Um simples anún- deria ser demitido sem justa causa
cio na seção de classificados dos jornais mediante uma indenização igual ao
cariocas, oferecendo 352 vagas na número de anos de serviço multiplica-
Rede Ferroviária Federal, provocou a do pela sua maior remuneração men-
corrida de uma multidão de mais de 30 sal. Ao empregado com mais de 10
mil pessoas às portas da Estação Barão anos de casa, a CLT garantia o direito
de Mauá, no dia 25 de maio daquele à estabilidade. Sua dispensa somente Um estudo do economista João Men-
ano, O fato, por si só, seria suficiente poderia ocorrer por falta grave, ava- donça da Costa Rego, publicado na
re-
para descartar a hipótese do "problema liada pela Justiça do Trabalho. vista Conjuntura, mostrou que havia
localizado". Quanto ao nível das difí- A nova lei estabeleceu a constitui- acontecido uma grande contração
nos
culdades para superar o problema, os ção de um fundo, administrado pelo investimentos na indústria de transfor-
números da economia falavam mais BNH (Banco Nacional de Habita: mação, entre 1978 e 1980, Além disso,

alto do que os discursos pedindo calma. ção), resultante dos recolhimentos a produção da indús
tria de bens de ca-

Tomando o Estado de São Paulo mensais feitos pelos empregadores de pital - máquinas e equipamentos -
como termômetro da economia brasilei- 8% das remunerações pagas aos em- também vinha dimin
uindo desde 1979,
ra, o alarme já vinha soando pelo me- "pregados. Sobre a conta de cada tra- Como este setor é exatamente aquele
nos desde 1974, quando o número de balhador seriam acrescidos juros e que possibilita a ampliação e constru-

novos empregos industriais passou a correção monetária, em contraparti- ção de novas fábricas,
seria fácil prever

crescer em ritmo cada vez mais lento. da pelo uso do fundo no financia- o aumento do dese
mprego nos anos se-

Em 1981, pela primeira vez, no período mento da construção civil, 'guintes, já que a popul
ação continuaria

pôs-"milagre econômico", as demis- Com a criação do FGTS, as demis- a crescer em ritmo mais ou menos
sões no setor industrial, superariam as sões passaram a poder acontecer a constante, a curto prazo
, e não encon-

admissões. qualquer momento e a um custo mui- traria um mercado de trabalho em ex-

A crise na indústria automobilística to baixo para os empregadores. Além pansão. A "rebelião de Santo Amaro"

de São Paulo, manifestada de maneira disso, abriu a possibilidade para o em- foi, assim, fenômeno perfeitamente

inequivoca no final de 1980, seria mais pregador burlar os reajustes salariais previsível, dispensand
o bolas de cristal.

do que suficiente para conduzir o de- decididos em dissídio coletivo. O me- O saldo dos quatro anos
de recessão

semprego urbano em direção a um canismo é muito simples: na época do em que foi jogado o País após 1980 é

agudo agravamento. Naquele ano, o se- reajuste, despedem-se os trabalhado- dramático. Entre o final
de 1980 e o ini-

tor era responsável por cerca de 500 res menos qualificados, substituindo- cio de 1984, cerca de 5 milhõ
es de bra-

mil empregos diretos e indiretos em os por outros que, por serem novatos, sileiros ingressaram no
mercado de tra-

todo o País. Seria ingenuidade acredi- não têm direito aos salários previstos balho e não encontrara
m emprego, sem

tar que as demissões em massa nas no dissídio. Assim, ao facilitar a alta contar o incalculável contingente dos

montadoras de automóveis não afeta- rotatividade de mão-de-obra, atuaria que perderam seus empr
egos no perío-

riam de modo generalizado todo o se- também como uma força extra de do, de acordo com dado
s do Ministério

tor industrial. - achatamento generalizado dos salá- do Trabalho, Dos quase 51 milhões de

Outro indicador de que o nível de rios. Um informativo do DIEESE re- brasileiros que compunham a Popula-

emprego estava num processo de que- velou como isto se deu em uma em- ção Economicamen
te Ativa, em 1983,

da de difícil e complicada reversão po- presa de ônibus de São Paulo; entre apenas pouco mais de
30 milhões esta-

deria ser encontrado nos índices de in- 1970 e 1971, a empresa substituiu 93% vam registrados regularmente em seus

vestimento industrial, também em ten- dos seus cobradores e a folha de paga- empregos. No mesmo ano, o nível de

dência decrescente: as taxas "futuras" mentos baixou 3,4%, quando deveria emprego industrial na
Grande São Pau-

de crescimento da economia e do nível aumen tar 24%, se mantidos os níveis lo estava abaixo do de
1973, de acordo

de emprego dependem muito da ex- salariais determinados pelo dissídio. com dados da Federação das Indústrias

do Estado de São Paulo


pansão "presente" dos investimentos. a (FIESP), e um
os terço da população do
Estado em con-
266
V8.GNC.AAA, 8404] 334 ancoa, pIO

Gilson Barreto/Agência JB

Juca Martins/F4
Os saques, como em Santo Amaro, SP, em 1983 (na pág. ao lado), foram consequência dos altos índices de desemprego no início
dos anos 80. Acima,filas para empregos numa universidade do Rio (à esq.) e na Volks, em S. B. do Campo

dições de trabalhar estava desemprega- tempo integral, recebe remuneração fica, fazendo com que a agricultura vá
da ou tentando viver de "bicos", segun-. inferior a um salário mínimo. Esse últi- deixando de ser a principal fonte de
do o Departamento Intersindical de Es- mo caso se manifesta, por exemplo, emprego. Mas a industrialização não
tatísticas e Estudos Sócios Econômicos quando uma pessoa recorre a trabalhos gerava empregos nas cidades na mesma
(DIEESE). transitórios, "bicos" e "biscates", para proporção em que crescia a população
Esta era a realidade que explicava os garantir sua sobrevivência. No País, es- urbana. E isso por dois motivos básicos:
vários movimentos de protesto contra a tas últimas categorias de trabalhadores 1) a industrialização apoiava-se princi-
política recessiva e o desemprego acon- sempre predominaram, em números palmente na importação de tecnologias
tecido após a explosão de Santo Ama- absolutos e relativos, sobre a dos traba- que, além de poupadoras de mão-de-
ro, como o acampamento de dezenas lhadores regulares aqueles enquadra- obra, eram - e são ainda - poupadoras
de famílias de desempregados no par- dos perfeitamente nas normas legais. de produtos primários, recursos e ma-
que do Ibirapuera, em São Paulo, no fi- A economista Helga Hoffmann, au- térias-primas abundantes no País, dimi-
nal de 1983, ou a ocupação do prédio tora de um dos mais importantes estu-. nuindo, assim, as possibilidades de ge-
do SINE (Sistema Nacional de Empre- dos sobre o tema, Desemprego e Subem- ração de empregos indiretos; 2) além
gos), em agosto de 1984, também em prego no Brasil, mostrou, em 1975, de "puxadas" pela industrialização, as
São Paulo. como o processo de urbanização acele- populações rurais eram "empurradas"
O desemprego que se manifestava rada vivido pelo Brasil nas últimas dé- para as cidades pelo secular processo
nos anos 80 não seria, no entanto, ape- cadas tornou visível esse problema. de concentração da posse e uso da ter-
nas o resultado de uma política circuns- Primeiro, "pode-se dizer que a famií- ra e pelas dificuldades, cada vez maio-
tancialmente recessiva. Tratava-se, isto lia patriarcal brasileira ocultava o sub- res, de expansão das fronteiras agrico-
sim, da manifestação aguda de um dos emprego na cidade". Hoffmann las (a que se poderia acrescentar ainda
sintomas de uma doença estrutural da lembrava que até os anos 20 era co- a substituição de lavouras por pecuá-
economia brasileira: a histórica subutili- mum encontrar na crônica da época rias e a modernização tecnológica de
zação do enorme potencial de mão-de- referências a famílias com até uma vin- setores de ponta da lavoura).
obra de que sempre dispôs o Brasil. tena de empregados domésticos, de- De acordo ainda com Hoffmann, a
pendentes e agregados, com laços fami- capacidade de absorção de mão-de-
Sempre houve mais "biscateiros" liares mais ou menos longínquos. Com obra do setor industrial brasileiro era
as transformações no estilo de vida ur- uma das mais baixas do mundo. Entre
que desempregados
bana e nos padrões familiares e sociais, 1949 e 1966, em média, menos de 10%
O subemprego ou desemprego dis- o subemprego nas cidades seria mais da População Economicamente Ativa
farçado semprefoi, no Brasil, mais im- evidente. estavam na indústria. Muito pouco,
portante do que o desemprego aberto, Segundo, até 1940 o campo era o considerando que o Brasil já tinha, nes-
aquele que se manifesta quando uma principal responsável pela absorção da se período, porcentagens do produto
pessoa perde o seu lugar no mercado maior parte dos novos contingentes da industrial no Produto Interno Bruto
formal de trabalho e continua a procu- população que ingressavam no mercado típicas dos países capitalistas desenvol-
rar um emprego equivalente. O subem- de trabalho. O desemprego e o sub- vidos. Basta dizer, que, em 1964, o pro-
prego se caracteriza quando uma pes- emprego rural ficavam, assim, ocultos duto industrial correspondia a 30% do
soa trabalha em tempo parcial, mas nas lavouras de subsistência. A partir Produto Interno Bruto brasileiro e a
gostaria de trabalhar em tempo integral; dos anos 50, entretanto, o ritmo de in- população empregada na indústria não
Ou quando, mesmo rabalhando em dustrialização e urbanização se intensi- passava de 8% da Ropulação Economi-
267
BR DFAinoso VB.GNCIAMA. 840443341 an0coAa , p 44

Em 1983, dos quase 51


milhões que compunham
a População
Economicamente Ativa,
apenas pouco mais de 30
milhões de brasileiros
estavam registrados
regularmente em seus
empregos. Um terço dos
habitantes de São Paulo
em condições de
trabalhar vivia de
subempregos. Ao lado,
o "bico" do anunciante
de empregos.
Na extrema dir., fiscais
da prefeitura apreendem
a anca de um camelô
no centro de São Paulo

Daniel Augusto Jr/


Juca Martins/F4
camente Ativa. Nos Estados Unidos, a destruira as mínimas garantias de esta- sivo de capital, mantendo a baixa capa-
relação entre essas grandezas era de bilidades no emprego, permitindo às cidade de absorção de mão-de-obra
30% para 25%, em média, no período empresas jogar com a alta rotatividade pelo setor industrial. "A disparidade
1949- 59. Na Argentina era de 34% para da mão-de-obra para comprimir os sa- entre a geração de emprego industrial e
25%, em 1964. lários. Uma pesquisa sobre o mercado o crescimento da oferta de mão-de-
Esta característica é que explica o fa- de trabalho no Brasil, realizada pelo obra nos centros urbanos redundou na
to de, entre 1950 e 1960, o produto in- Departamento de Economia, da Uni- ampliação de ocupações informais de
dustrial brasileiro ter crescido, em mé- camp, mostrou que, em 1970 - no auge baixa qualificação ligadas ao setor de
dia 9% ao ano e o crescimento dos em- do "milagre", portanto -, apenas 63% serviços. A forte migração rural-urbana
pregos industriais não ter passado dos dos empregos urbanos podiam ser con- provocou o explosivo crescimento de
2,4% ao ano, enquanto a população ur- siderados tipicamente capitalistas; 27% algumas cidades dotadas de infra-
bana crescia, em média, 5,6% ao ano. eram não tipicamente capitalistas (ou se- estrutura deficiente e reduzida capaci-
O que determinava, inclusive, uma ja, eram subempregos); e 10% eram da dade de gerar empregos industriais,
queda na participação relativa do setor construção civil. De acordo com o eco- ocasionando "déficits" habitacionais,
industrial no emprego total. Isto, justa- nomista Paulo Renato Souza, que crescimento de favelas e crises no abas-
mente, numa década em que a indus- acompanhou a pesquisa , os novos em- tecimento de água e esgotos." Cresce-
trialização foi das mais aceleradas. pregos criados durante a década de 70 ram o desemprego e o subemprego ur-
Quando as taxas de crescimento da foram apenas suficientes para manter banos, e caiu o nível de vida da popu-
economia entraram em declínio, no ini- essa mesma proporção entre emprego lação com renda mais baixa.
cio dos anos 60, o aumento conjuntural e subemprego no Brasil, inalterada des- 2) A COALBRA (Coque e Álcool de
do desemprego aberto, somando-se ao de a década de 40. Madeira S/A), empresa estatal ligada
subemprego crônico, trouxe à tona a si- ao Ministério da Agricultura, publicou,
tuação do mercado de trabalho urbano Cresceram o desemprego e em 1983, um detalhado estudo sobre o
de forma não menos dramática do que impacto da produção de álcool de
o subemprego rurais
aquela que se manifestariaem 1983, na cana-de-açúcar e de madeira sobre a
"rebelião de Santo Amaro": os subúr- Assim, o "milagre" não fez mais do geração de empregos. No capitulo des-
bios do Rio também foram sacudidos que reproduzir, em escala exacerbada, tinado a analisar a dinâmica e a moder-
por ondas de saques, em 1962. a mesma estrutura de emprego em vi- nização recente da agricultura, lêem-se
Este era o quadro herdado pelos mi- gor há décadas, tanto no meio urbano algumas conclusões fundamentais: a) a
litares ao assumirem o poder, em 1964. como no rural. As evidências em favor utilização de máquinas e equipamentos
As transformações econômicas deter- dessa avaliação não puderam ser des- agrícolas cada vez maiores, exigindo á-
minadas pelo novo Estado, nas duas prezadas nem mesmo em estudos reali- reas também cada vez maiores para
décadas seguintes, não teriam sequer o zados por órgãos ligados ao próprio go- dar-lhes rentabilidade máxima, refor-
papel de cosmético sobre o velho verno federal. Vale citar dois deles: çou a manutenção da estrutua fundiá-
problema. Ao contrário, foram acen- 1) Um estudo assinado por responsá- ria concentrada; b) a mecanização de
tuados os principais fatores que antes já veis pelo escritório do Instituto de Pla- algumas operações agrícolas tornou in-
influíam para seu agravamento. nejamento Econômico e Social (IPEA), viáveis os cultivos de gêneros de subsis-
Se, por um lado, o "milagre econô- no Rio de Janeiro, divulgado em 1978, tência (como o feijão), intercalados em
mico" dos anos 68-73 parecia atenuar assinalava que a política de subsídios e cultivos comerciais (como o café), re-
temporariamente o desemprego e o sub- incentivos fiscais posta em prática nas forçando o processo de especialização
emprego urbanos - a economia cres- décadas de 60 e 70, beneficiando as da unidade produtiva e a transforma-
cia a taxas médias em torno dos 10% ao grandes empresas em detrimento das ção de muitos pequenos produtores
ano -, de outro lado, o Regime Militar pequenas, estimulou o emprego inten- (parceiros, colonos, ocupahtes, etc.)
268
abroranBss ve.enc.aaAa, 8404133 3a cOoe, p IQ

A espera dos robôs

Quem estiver interessado em acom- significar a automação indiscrimina-


panhar os progressos da robótica da:
e da automação, no Brasil e no mun- € Estudos realizados em outros países
do, não pode deixar de ler regular- mostram que um robô pode substituir
mente o boletim mensal publicado de seis a oito trabalhadores na indús-
pelo Departamento Intersindical de tria automobilística, de acordo com
Estatísticas e Estudos Sócio- um relatório da Comissão de Estudos
Econômicos (DIEESE), de São Pau- de Automação na Manufatura, da Se-
lo. A publicação sempre traz informa- cretaria Especial de Informática.

Juca Martins/F4
ções recentes sobre o assunto. Entre- e O número de trabalhadores na
tanto, está longe de fazer a apologia indústria automobilística dos EUA
da nova era que se avizinha. poderá ser reduzido de um milhão em
Um documento publicado na edi- 1978 para cerca de 800 mil em 1990,
ção de junho de 1983, por exemplo, mesmo prevendo um modesto cresci- O processo de modernização da
explicitava que os sindicatos não po- mento de 1,8% ao ano nas vendas, se- agricultura fez crescer o número de
deriam ser contra o progresso tecno- gundo o Sindicato dos Trabalhadores assalariados temporários, os bóias-frias
lógico. Apenas queriam que os tra- desse setor nos EUA.
balhadores fossem beneficiários desse & Uma fábrica de lâmpadas na Gran- em trabalhadores assalariados; c) a me-
progresso, e não suas vítimas. O pro- de São Paulo produzia 20 mil unida- canização e o uso intensivo de fertili-
gresso técnico deveria servir, por des por turno de trabalho (8 horas) de zantes, corretivos e defensivos reduzi-
exemplo, para reduzir a jornada de 12 pessoas. Ao introduzir um proces- ram drasticamente a necessidade de
trabalho e não para aumentar o nível so de fabricação automatizada, essa mão-de-obra nas fases de preparação
de desemprego. Eis porque e DIEE- fábrica passou a produzir 25,6 mil do solo, plantio e trato das culturas; d)
SE se dedicava a divulgar, sistemati- lâmpadas por turno com apenas cinco em consequência do uso de tais "insu-
camente, estudos sobre as conseguên- trabalhadores. Portanto, 5,6 mil mos modernos", no entanto, o aumen-
cias da automação no mercado de lâmpadas a mais com sete trabalha- to da produtividade e da produção ele-
trabalho. Ao mesmo tempo, insistia dores a menos por turno, vou a exigência de mão-de-obra na fase
na necessidade de os sindicatos se & Uma siderúrgica de Minas Gerais, da colheita, a mais difícil de ser meca-
prepararém para incluir, nas pautas utilizando determinada aciaria (con- nizada. Conclusão final: o processo de
de negociações com as entidades pa- junto de equipamentos), produziu modernização da agricultura brasileira
tronais, os termos em que se deverá num ano 915 mil toneladas de aço agravou a sazonalidade da ocupação de
dar a implantação de processos e má- com o trabalho de 271 pessoas. Na mão-de-obra e induziu ao crescimen-
quinas automáticas de produção de mesma empresa, existe uma aciaria to do número de trabalhadores assala-
mercadorias ou prestação de serviços. mais automatizada, que produziu riados temporários. Traduzindo: cres-
Nada mais prudente, Bastam al- 1.620 mil toneladas ocupando apenas ceram o desemprego e o subemprego
guns exemplos extraídos do boletim 115 pessoas. Cada trabalhador dessa rurais,
do DIEESE, de junho de 1984, para aciaria produz quatro vezes mais que
percebermos a dimensão do que pode os trabalhadores da antiga aciaria. Os principais beneficiados
foram os grandes proprietários
Robôs na solda das chapas de automóveis na Ford, em São Paulo
E, para que não se conclua que tudo
foi obra do acaso, o documento da
COALBRA lembra que "esse processo
de tranformações nas formas de organi-
zação da produção agropecuária foi
acelerado pela política agrícola vigente,
cujas principais formas são o estabele-
cimento de preços mínimos e a conces-
são de crédito rural a taxas de juros
reais negativas para a compra de equi-
pamentos e insumos modernos", cujos
principais beneficiados foram os gran-
des proprietários,
E foi assim que se gerou a situação
explosiva do mercado de trabalho no
Daniel Augusto Jr/F4

começo dos anos 80: às taxas históricas


de subemprego permanente ou sazonal
de 20% a 30% da população ativa, su-
perpuseram-se, com a recessão e num
país sem mecanismo de seguro-desem-
prego, taxas de desemprego aberto
de 5% a 10% da força de trabalho.
269
2ADFAN Bus VE.GNCAMA, $40H13318nCO2 p 13

carróceiros, responsáveis pelo trans-


porte de um Rio de Janeiro que se or-
gulhava de sua condição de capital da
adolescente República, mas sem conse-
guir ocultar sua condição de paraíso da
febre amarela. Gustavo, então com 55
anos, sobreviveu pouco a seu sonho:
menos de um ano e meio depois, em se-
tembro de 1909, morreu num leito obti-
do quase de favor na Santa Casa de Mi-
sericórdia, sem chegar a fundar o retiro
dos jornalistas, uma de suas preocupa -
ções ao criar a ABI,
Gustavo de Lacerda não suspeitava
que a entidade pobre, fundada com tão
parcos recursos, cresceria e se consoli-
daria com o tempo, sobretudo a partir
dos anos 20, Nessa época, por inspira-
ção do jovem jornalista Alexandre José
Barbosa Lima Sobrinho, que viera de
Pernambuco para aCapital, as institui-
ções de imprensa se unificaram para
transformar a Associação Brasileira de
Imprensa na sua instituição de maior
representatividade. O gesto de Barbosa
Lima, que 50 anos depois, em 1978, vi-
ria a assumir novamente a presidência da
associação, abriu caminho para a elei-
ção de Herbert Moses. Este, ao longo
de 40 anos, de 1932 até ficar parcial-
mente inválido, no fim dos anos 60, do-
Arquivo ABI

tou a ABI de prestígio político e de so-


«.

lidez material. O prestígio adveio do re-


nome conquistado pela ABI com sua
Dois nomes importantes na luta da ABI pelos Direitos Humanos: Prudente de Moraes intervenção vigorosa na defesa da liber-
Neto (à esq.) e Barbosa Lima Sobrinho dade de imprensa e dos direitos indivi-
duais dos jornalistas, quaisquer que fos-
POLÍTICA/IMPRENSA: a história da Associação Brasileira de Imprensa sem as suas idéias - de Carlos Lacerda,
com suas contundentes campanhas de
direita contra o presidente Getúlio Var-
0 gas, nos anos 50, a Pedro Mota Lima,
vigor da ABI
destacando jornalista de esquerda, res:
ponsável pelos principais jornais do
Desde a sua fundação, em 1908, a mais antiga instituição de
PCB desde os anos 30.
jornalistas do País vem atuando vigorosamente na defesa da
A propriedade material fora planta-
liberdade de imprensa da na antiga esplanada do Castelo, na
rua Araújo Porto Alegre. Ali, com con-
Uma sala cedida pela caixa benefi- época de sindicatos e de previdência tribuições de jornalistas, donativos de
cente dos empregados de O Paiz -jor- social para os jornalistas, Gustavo pas- empresas privadas e empréstimos ofi-
nal do Rio de Janeiro, destruído para seara sua inquietação intelectual e polí- ciais, Moses comandou a construção
sempre pela fúria popular na revolução tica por obras de Marx e de Kropotkin, da ABI, dotando-a de uma singularida-
de 30 - acolheu os oito visionários que o teórico do anarquismo. Trabalhara de: junto com a antiga sede do Ministé-
a 7 de abril de 1908 fundaram a ABI como repórter de O Paiz e tivera uma rio da Educação e Cultura, situada uma
(Associação Brasileira de Imprensa), a atuação no tênue movimento sindical quadra adiante, o edifício que hoje tem
mais antiga instituição de jornalistas do da época. seu nome é um dos marcosda arquite-
Brasil. Em 1892, ele fundara o Centro Ope- tura contemporânea brasileira.
O animador do grupo era úm mula- rário Radical, na esperança de reunir o A partir do caso Vladimir Herzog,
to, o catarinense Gustavo Adolfo Fra- nascente proletariado urbano para a assassinado nos porões do DOI-CODI
ga, que se tornara conhecido sob o luta por reivindicações econômicas e de São Paulo, em 25 de outubro de
nome de Gustavo de Lacerda, escolhi- políticas que incluíam desde a românti- 1975, a legenda de Gustavo de Lacerda
do por ele próprio quando serviu o ca extinção dos privilégios em geral à li- e Moses juntou-se à luta de Barbosa
Exército. mitação da jornada de trabalho para os Lima Sobrinho e Prudente de Moraes
Antes de comandar a fundação da menores, então impiedosamente explo- Neto, falecido em dezembro de 1977,
ABI, da qual foi o primeiro presidente, rados. em favor dos Direitos Humanos.
com objetivos culturais e de assistência Em 1900, era Gustavo um dos esti-
social, que supriram a inexistência na muladores da greve dos cocheiros e Maurício Azedo
270
BRDFANBSBVB.GNCAAA, 84041333 3n0o6A2,p234

ORGANIZAÇÃO SOCIAL/TRABALHO: a história das centrais sindicais ma, superintendente da Polícia Federal
em São Paulo, declarou, no dia seguinte
ao encerramento do congresso de fun-
dação da CUT, que dispunha de um
Em busca de unidade arsenal de leis para bloquear a ação da
entidade a qualquer momento.
CUT e Conclat têm a mesma matriz:
Apesar das proibições, desde 1937 os trabalhadores tentam a 1a Conclat (Conferência Nacional das
organizar-se nacionalmente através de centrais sindicais, como Classes Trabalhadoras), realizada de 21
a 23 de agosto de 1981, no município de
a CUT e a Conclat nos anos 80
Praia Grande, no litoral de São Paulo,
reunindo 5.036 delegados de 1.091 enti-
dades de trabalhadores rurais e urba-
nos de 22 Estados e mais o Distrito Fe-
deral. Foi a maior reunião de trabalha-
dores que aconteceu no País depois do
golpe de 64. A conferência definiu um
"Plano de Lutas" comum para toda a
classe trabalhadora e formou a Comis-
são Nacional Pró-CUT, incumbida de
organizar um congresso de fundação da
central única. Mas a conferência da
Praia Grande não chegou ao final de
maneira unitária, como fora conduzida
inicialmente. As diversas tendências
presentes, agrupadas em dois grandes
blocos, acabaram-se confrontando exa-
tamente no momento de eleger a Co-
Juca Martins/F4
missão Pró-CUT, expondo ao plenário
suas divergências antes contidas aos
bastidores. Embora superficialmente
sejam apresentadas como simples dis-
putas partidárias, envolvendo de um
Quatro vezes, antes do golpe de 64, 0s A 1a Conclat (acima, na Praia Grande, lado o PT e de outro o PMDB, que
trabalhadores repetiram o ritual de rea- SP, agosto de 1981) foi a raiz da Central abriga o Partido Comunista Brasileiro e
lizar um congresso com participação Unica dos Trabalhadores e da Partido Comunista do Brasil, as diver-
dos setores mais representativos do Coordenação Nacional das Classes gências no fundo expressam concep-
movimento sindical e criar um organis- Trabalhadoras, entidades que reúnem ções sindicais diferentes, que resultam
mo central para dirigir suas lutas. Igual categorias diversas em métodos de ação diversos.
número de vezes, o governo decretou a
ilegalidade destes organismos e os re- Nos anos 80 foram criadas
primiu duramente. federações estaduais ou interestaduais duas centrais diferentes
O choque é compreensível. Os traba- de um determinado ramo de atividade
lhadores, quando adquirem consciên- econômica. Apesar da proibição, surgi- A corrente sindical petista, à qual se
cia de classe, sabem que, para poderem ram a CSUB (Confederação Sindical juntam os ativistas das pastorais e outros
expressar toda sua força, precisames- Unitária Brasileira), a CGTB (Confe- movimentos da Igreja Católica e mili-
tar organizados nacionalmente, sem li- deração Geral dos Trabalhadores do tantes de grupos trotskistas e anar-
mites geográficos e abrangendo todas Brasil) e o CGT (Comando Geral de quistas, combate radicalmente a estru-
as categorias profissionais. Mas, num Trabalhadores), que foram tolerados tura sindical vigente, apóia decidida-
país de tradição autoritária e marcado por algum período e posteriormente mente as oposições sindicais contra os
por acentuadas desigualdades sociais, a desmantelados pela repressão. "pelegos", admite o pluralismo sindi-
organização horizontal dos trabalhado- É dentro desse limite de tolerân- cal e sempre defendeu uma CUT cons-
res sob o comando de uma central sin- cia que funcionam hoje a CUT (Cen- truída "pela base", independente das
dical única representaria um risco mui- tral Única dos Trabalhadores) e a federações e confederações.
to grande para uma minoria apegada a Conclat (Coordenação Nacional das Ao contrário, a corrente representa-
seus privilégios. Por essa razão, todas as Classes Trabalhadoras). As duas foram da pelo PMDB e partidos comunistas
iniciativas da classe operária neste sen- criadas em congressos que a rigor con- considera indispensável a aliança com
tido foram barradas à força. frontam a legislação sindical, porque dirigentes das federações e confedera-
Com exceção da COB (Contedera- reuniram trabalhadores das mais diver- ções no processo de construção da cen-
ção Operária Brasileira), criada no 1o sas categorias e profissões, de todos os tral sindical e não exclui nem os "pele-
Congresso Operário Brasileiro, em pontos do País. A CUT, que assume o gos", embora descarte a participação
1906, as demais já nasceram com á pe- papel de central sindical - diferente da autônoma das "oposições", porque
cha de "ilegais", pois organismos dessa Conclat -, tem inclusive diretoria for- acredita ser este o caminho para a uni-
natureza são proibidos pela legislação malmente constituída e uma sede esta- dade do movimento. Unidade é a sua
sindical vigente desde 1937. A entidade belecida, num flagrante desafio à estru- palavra de ordem principal.
de mais alto grau permitida é a confede- tura sindical imposta pelo Regime Mili- A contraposição da "CUT pela ba-
tação nacional, que reúne a cúpula das tar. Tanto que o delegado Romeu Tu- se", sem "pelegos", e "unidade" inclu-
271
BRDFANBSB V8.GNC;AA
Á, 54 0441334 an
002, p 15

Iconographia

R
y No Brasil, as centrais sindicais já
nasceram ilegais, com exceção da COB
(acima, Edgard Leuenroth discursa no
congresso de 1913, O Malho,
13/9/1913). O CGT, tolerado até 1964,

Iconographia
Joi desmantelado (ao lado, manifestação
em 1962, RJ)
sive com "pelegos", aprofundou a ci- festações que evidenciam a primeira to- Em 1949, nada menos que 234 sindi-
são, inviabilizando a realização do con- mada de consciência do recente opera- catos estavam sob intervenção federal.
gresso em 1982, e culminou em 1983 riado brasileiro. No ano seguinte, 1906, mas. começo dos anos 50 os trabalha-
com a fundação da CUT, liderada pela realiza-se o Congresso Operário Brasi- dores retomaram as ações visando à or-
corrente petista, e da Conclat - ado- leiro, com 43 delegados de 28 síndica- ganização horizontal de todos os traba-
tando o mesmo nome da conferência tos, e nasce a COB, nossa primeira cen- lhadores enquanto uma classe, e não a
de 1981- , comandada por sindicalistas tral sindical, que, em 1915, foi empaste- organização vertical por corporações
dos dois partidos comunistas, indepen- lada, definitivamente pela polícia. imposta pela CLT. Greves de grandes
dentes e um setor dos "pelegos"., A segunda central brasileira surgiu proporções foram deflagradas, como a
Não se pode deixar de reconhecer, em maio de 1935, num congresso do "dos 300 mil", envolvendo metalúrgi-
porém, que a realização da conferên- qual participaram 243 delegados. Bati- cos, gráficos, têxteis e químicos de São
cia foi a consequência de um processo zada com o nome de Confederação Paulo, em 1953. Surgiram articulações
de mobilização desencadeado pelo Sindical Unitária Brasileira, esta enti- horizontais - como a PUI (Pacto de
movimento sindical de maio de 1978 dade teve curta duração. Foi desman- Unidade Intersindical), em São Paulo,
em diante. Somente no ano de 1979, a telada em novembro do mesmo ano, a CPOS (Comissão Permanente das
imprensa registrou a deflagração de em consequência da repressão que se Organizações Sindicais), no Rio de Ja-
113 greves, envolvendo 3,2 milhões de seguiu à tentativa de insurreição da neiro, e finalmente o PUA (Pacto de
' trabalhadores. Em 1980, a mobilização Aliança Nacional Libertadora, Unidade e Ação) - que tiveram partici-
se manteve, atingindo inclusive a zona A CSUB era controlada por ativistas pação decisiva na fundação do CGT
rural, onde o fato marcante foi a greve do Partido Comunista, fundado em (Comando Geral dos Trabalhadores),
de 240 mil canavieiros em Pernambu- 1922, que logo assumiu a hegemonia no durante o Congresso realizado em
co. Como o movimento estava em ple- movimento operário brasileiro, toman- agosto de 1962, reunindo 1.400 delega-
na efervescência, alastrando-se pelo do as principais iniciativas de articula- dos. Com o golpe, dois anos depois, o
País inteiro, mobilizando de médicos a ção sindical. Em 1940, conforme relato CGT foi arrasado pelos militares.
camponeses, de funcinários públicos a de Rolando Fratti, um ativista da épo-
motoristas, as lideranças começaram a ca, os militantes do PC começaram a Em 1984 CUT e Conclat
organizar a Conclat tendo em vista a articular, clandestinamente, o MUT
constituição da central sindical única. (Movimento Unificador dos Trabalha- são apenas toleradas
dores), que se tornou público em 1943,
A primeira centralfoi quando foi lançado abertamente seu A sombra do clima de liberalização
empastelada em 1915 primeiro manifesto. Uma das palavras que atravessa o País, a CUT - que já
de ordem do documento era "Por uma realizou seu primeiro congresso - e a
Este processo não difere basicamen- CGT" e em 1945 foi realizado o con- Conclat estão sendo toleradas. Garan-
te do que se verificou quando da cons- gresso, reunindo 1.752 delegados de tia plena de existência, porém, elas te-
trução da COB. Entre os anos de 1900 1.494 entidades, que fundou a CGTB rão se o País democratizar-se o suficiente
a 1903, São Paulo foi profundamente (Confederação Geral dos Trabalhado- para autorizar, e não apenas tolerar
abalada por grandes greves, principal- res do Brasil). Dois anos depois, em conforme as conveniências dos governan-
mente na fábrica de vidros Santa Mari- 1947, o governo desfechou um ataque tes, a livre organização dos trabalhadores.
na e nas tecelagens Anhaia e Penteado, maciço: interveio e cassou a diretoria
Em 1905, as greves prosseguem, com os de 144 sindicatos ligados à CGTB, que
patrões ainda atônitos diante das mani- não resistiu e acabou no final do ano. Valdeci Verdelho
272
com os cabelos puxados para cima des-
cobrindo-lhes a nuca, não muito longe
dali, no Clube Militar, jogava-se a sorte
do Segundo Império.
Naquela mesma poite, Benjamin
Constant conseguia finalmente conver-
ter Deodoro da Fonseca à causa re-
publicana, convencendo-o de que o go-
verno havia ofendido os brios do Exér-
cito ao punir dois oficiais por indiscipli-
na. Começava a ser urdido o golpe mi-
litar que, seis dias depois, a 15 de no-
vembro, derrubaria o imperador.
O baile exacerbou as animosidades.
Segundo o registro da Revista Ilustrada,
"as conversas em geral versavam sobre

Biblioteca Nacional
o custo da festa. Havia cálculos para
200 e para 300 contos, Só o bufê consta

<
que andou por uma pelga de 50 con-
tos".
A Monarquia se foi com suas manei-
Ilha Fiscal, Rio, 9 de novembro de 1889: monarquistas se divertem enquanto ali perto o ras elegantes. Deixou o exemplo de
Exército trama a queda do Império (óleo de Aurélio Figueiredo) como exibir, na sua contradança, o
fascínio social. Seus sucessores apren-
deram rápido. O casamento do presi-
COMPORTAMENTO/ALTA SOCIEDADE: as festas que marcaram época
dente Hermes da Fonseca com Nair de
Teffé, em 1910, conferiu ao já não ado-
lescente presidente da República, fran-
A ostentação do poder camente antipatizado em seu confronto
com Rui Barbosa, os primeiros sinais
de alguma indulgência popular." Nair
Do baile da Ilha Fiscal às noitadas atuais do jet-set
era bela, desinibida, avançada para os
tupiniquim, os privilegiados têm festejado, para exibicionismo padrões da época. E, no entanto, cap-
de nomes, riquezas e poderio turava um férreo general. A crônica
mundana, sempre solícita, delirou. A
classe média brasileira já tinha sua Cin-
Todo poder é transparente. Ele não no Rio, a então capital do País, em 9 de derela. Ao povo, porém, restava apenas
se exerce apenas com decretos-leis, novembro de 1889. A conspiração re- o destino histórico de consumir o so-
com medidas de emergência ou com a publicana estava no ar. Mas a corte e o nho e o encantamento dessas exibições
prisão dos adversários políticos. O po- diminuto séquito de cortesãos que ain- do poder e riqueza.
der busca sua legitimação, aos olhos da se agarravam ao manto do impera-
dos súditos, através de um imenso arse- dor, na maioria empedernidos burocra- Em nome do povo, somente
nal de dispositivos simbólicos. Festeja tas da Fazenda real, não perdiam a alguns saboreiam o banquete
seu predomínio, e o predomínio daque- ocasião de ostentar o ilusório brilho de
les que ele privilegia, por meio de uma seu poder. O baile marcaria a inaugura- Em 1930, o povo teve enfim a honra
sequência de ritos e solenidades que ção, em grande estilo, do prédio da Ilha de ser convidado, mas apenas para fa-
tenta envolver toda a coletividade. É Fiscal, inspirado convenientemente em zer a figuração. A revolução de Vargas
também através de ritos de aceitação castelos europeus do século 14 e plane- foi feita em nome do povo, Pretendiz.
generalizada que a sociedade indica o jado pelo arquiteto italiano Adolpho mostrar que nova República não igno-
nível de sua adesão ao sistema de poder Del Vecchio. rava a sua existência. Mas, novamente,
vigente. Ainda hoje, os franceses de Finalmente, chegou a grande noite. a história mostrou que só alguns pou-
província envergam a roupa plebéia Das 20h30 às 23 horas, as balsas fizeram cos favorecidos continuariam, em
dos sans-coulottes para festejar, no dia tantas viagens quantas foram necessá- nome do povo, saboreando o banquete. .
14 de julho, uma revolução que preten- rias para transportar quatro mil convi- O Estado Novo (1937-45) foi particu-
dia ser popular. A burguesia, que ga- dados, "fidalgos, fidalguetes, conselhei- larmente eficiente nesse aspecto. Con-
nhou e levou, deixa o povaréu festejar a ros de Estado, ministros, altos funcio- vocava multidões para manifestações
ilusão de sua vitória. nários e membros da alta finança, do em estádios, numa cópia subnutrida e
Do circo romano às apoteoses guer- comércio, da indústria e das artes". Se caricata das exibições do fascismo. De-
reiras nazi-facistas, cada príncipe tra- a dissipação noturna não fosse tão ame- pois da interminável xaropada de desfi-
tou de exprimir, à sua maneira, seu po- na, os convivas poderiam ter notado a les, discursos e hinos cívicos capazes de
derio. O Brasil não é a corte de Versa- inquietante circunstância de que havia encher de orgulho pátrio os peitos juve-
lhes, mas jamais dispensou o direito ali uma abundância de oficiais da Mari- nis, servia um lanchezinho e dispensava
de ensaiar seu minueto. Os privilegia- nha - arma tradicionalmente conserva- a garotada. A imagem do Estado Novo
dos têm a mania de festejar nem que dora - e pouquissimos oficiais do Exêr- estará eternamente ligada aos acenos
seja os estertores de seu próprio poder. cito. Na verdade, enquanto emperiqui- de Vargas à multidão comprimida no
Foi assim que a Monarquia brasileira tadas senhoras exibiam seus passos de estádio de São Januário, campo do
dançou sua última valsa, na Ilha Fiscal, dança e a nova moda de penteados, Vasco da Gama. Largos sorrisos, cha-
273
ar DFANBSB VB.GNCAMA, 404% 323 1 an 002, p 6
BR DFANBSB VB.GNC.AAA, 84044 4231 an COZ2
JP AR

rutos baianos e terno de linho 90, numa


bonomia tropical que contrastava com
os chefes autoritários da Europa, fero-
zes em suas camisas pretas e botas de
couro, Vargas afagava o ego nacional
com a invariável exertação de seus dis-
cursos: "Trabalhadores do Brasil . . . "
No doce acalanto do populismo, os
trabalhadores recolhiam-se cedo para
construir, com seus braços, o dia de
amanhã e o futuro da Nação. Era a
hora da burguesia vestir summer jacket,
gravata borboleta e o plastron e ir es-
banjar a prosperidade nos cassinos do
Rio.
Os anos de Vargas foram o apogeu
da jogatina, No cassino da Urca, o mais
;: eleganteúde todos, uma orquestra con-
&
tratada na América atacava um foxtro-
te, competindo com o barulho das fi-
chas e os convites animados dos cru-
piês. Após a pausa, subiria ao palco a
expressão mais brasileira de todo o
show-business: o teatro-revista. Carlos
Machado, o grande mestre-de-
cerimônia do gênero, lembrou em suas começava a inclinar-se em favor de um para o maior de todos os desfiles de sua
memórias: "O Coronel Bejo [Benjamin sentimento pan-americanista que iria, caravana de grá-finos: o casamento da
Vargas, irmão de Getúlio] era quem no futuro, determinar nossa adesão ao filha do conde Matarazzo, em 29 de se-
dava as maiores gratificações à minha lado dos aliados. Ou seja, dos Estados tembro de 1945, O jornalista Joel Silvei-
orquestra ( . . .). De qualquer ponto em Unidos. No ano seguinte, em troca des- ra, em sua reportagem "A 1002: Noite
que se encontrasse no gril! do Tênis sa aliança, o presidente Franklin Roo- da Avenida Paulista", resumia o espan-
Clube, levantava-se de sua mesa e ati- sevelt viria ao Brasil assinar o protoco- to do maior cronista social da época:
rava violentamente, em direção aos lo de ajuda à construção de Volta Re- "Jacinto de Thormes, que sabe ser co-
meus músicos, fichas de jogo de madre- donda, medido, escreveu que nunca viu uma
pérola, no valor de quinhentos mil réis Nem todos estavam dispostos, po- coisa tão impressionante."
ou de um conto de réis. Eram torpedos rém, a se encantar com essas sutilezas.
milionários que vinham acompanhados Depois da inauguração do espetáculo,
Os Matarazzo, na "1002a
de estrepitosa gargalhada." apareceu pichado no muro do Palácio
do Catete, a residência do presidente, a Noite da Avenida Paulista" -
Joaquim Rolla, dono de seguinte frase: "Basta de balangandans, Casava-se Filly Matarazzo com João
cassinos, financia "Joujoux" o que nós queremos é água." Pelo des- de Souza Lage. O casamento civil se
cuido, a guarda presidencial foi presa e deu no Palácio da Avenida Paulista. O
"Coronéis" e senadores, diplomatas o tráfego da rua interrompido até que o interventor em São Paulo, Fernando
e figuras do alto escalão do Estado Novo grafite fosse removido. Costa, teve a honra da primeira valsa,
promoviam um intenso tráfego social, Vargas, em pessoa, não era muito com a condessa Mariângela. Só com
ao qual não se furtava a primeira dama, afeito à badalação social. O mundo fogos de artifício foram gastos 300 mil
dona Darcy Vargas, uma animada pa- de sua preferência era o campo e lá cruzeiros. O conjunto de bailado de
tronesse. Foi ela quem incansavelmente ia refugiar-se frequentemente da agita- Maria Oleneva recebeu 400 mil para
anfitrionou os figurões em 24 de julho ção política e mundana. Nas comemo- duas horas de apresentação. Havia
de 1941, por ocasião de parte das co- rações de seu 58o aniversário, por duas orquestras, com 150 músicos -
memorações do quarto aniversário do exemplo, a 19 de abril de 1941, os gran- uma delas contratada especialmente no
Estado Novo. No Teatro Municipal, des salões cariocas se abriram para fes- Rio, por 200 mil cruzeiros. No dia se-
inaugurava-se a revista Joujoux e Balan- tejar. No Clube Ginástico Português, a guinte prossegue a festa: cerimônia reli-
gandans, milionária produção financia- alta sociedade dançava aos pés de um giosa na igreja do Convento do Carmo.
da por Joaquim Rolla, proprietário dos gigantesco retrato do ditador. Getúlio, Terminado o casório, dirigem-se os
cassinos da Urca, de Icaraí (Niterói), da porém, escondeu-se na fazenda do co- convidados, em comitiva, para a fazen-
Pampulha (Belo Horizonte) e de Araxá ronel João Scarpa, um amigo seu, em da do Piqueri, onde teve lugar um al-
(estância mineral de Minas). Minas Gerais. Nem assim deixou de ser moço ao ar livre para 800 convidados,
Espetáculo de encomenda, Joujoux e incomodado pela visita de 40 aviões da 300 dos quais foram escolhidos a dedo
Balangandans não escondia suas entreli- Força Aérea, que sobrevoaram o casa- no milieu mais exclusivo da sociedade
nhas políticas. Narrava a movimentada rão despejando flores. carioca.
viagem que a pitoresca família Mota O primeiro governo da redemocrati- O Rio iria superar a primazia, como
Durães realizou pelas Américas, a bor- zação prescreveu os cassinos e conferiu epicentro do torvelinho mundano,
do de um navio da "Frota da Boa Vizi- ao poder a imagem e semelhança de * quando Getúlio Vargas voltou ao po-
nhança". Nada podia ser mais claro: a seu circunspecto ocupante, o general der, em 1951, desterrando o moralismo
Segunda Grande Guerra seguia seu Eurico Gaspar Dutra. Ofrisson carioca de Dutra. E, em 1955, viria Júscelino
curso, na Europa, e o Brasil de Vargas diminuiu. E São Paulo pedia passagem Kubitschek, que os conterrâneos de
274
BR DFANBSB 24044334 an COB, P

lhões de dólares, comandou o festival


Patião - uma interminável sequência
de recepções, almoços, jantares com
que o high-society tupiniquim quis reve-
renciar a figura do rei do Bstanho boli-
viano, Antenor PatiãÃo. Em 1980,
Ibrahim celebrou seu próprio sucesso,
na forma de casamento de sua filha,
Isabel Cristina (Bebel), com César Ra-
mos Filho, de tradicional família catari-
nense. O anfitrião esmerou-se a tal
ponto nos detalhes que exigiu um Ca-
dillac 1940, pilotado pelo ex-
"cafajeste" Mariozinho de Oliveira,
para transportar os nubentes e consu-
miu 120 caixas de champanha francesa
e uísque escocês no jantar de 1.600 ta-
lheres no Jockey Club. Oito mil doci-
nhos vieram de Leopoldina, Minas Ge-
rais. Comparável ao casamento da filha

Arquivo. Nacional
de Ibrahim, só mesmo a comemoração
dos seus 30 anos de colunismo, no Co-
pacabana Palace, em 1983. A doce dis-
iaioi --- se sipação dos tempos do "milagre" tinha
cedido lugar à retração tímida decreta-
Diamantina chamavam o "pé-de- Da Monarquia ao Regime Militar, os da pela recessão econômica, mas o co-
valsa". Os aromas democráticos, reani- privilegiados ostentaram o poder e a lunista não se fez de rogado: 6 vinho
mados pela promessa juscelinista de riqueza. Em 1941, a revista "Joujoux e ainda era Beajolais e o queijo, Camem-
uma rápida industrialização, inebria- Balangandans" (acima) marcou as bert. Os convivas passaram de três mil.
ram osnarizes da burguesia. A velha comemorações do quarto ano do Estado Nos últimos anos, esses transborda-
aristocracia vai ser atropelada pela for- Novo, um regime de frequentes festas, mentos se tornaram exceção. Mas,
tuna rápida dos arrivistas. Será o apo- como a do 58o aniversário de Vargas, "enquanto a plebe rude na cidade dor-
geu do colunismo social, veículo privi- quando a elite carioca lotou os salões do me", como diz uma música do sambista
legiado para a exibição dos novos no- Clube Ginástico Português (na pag. ao Jorge Veiga, e numa época que pouco
mes e das novas riquezas. O dernier cri lado). Já em 1980, o cronista do jet-set há para comemorar, ainda existem noi-
do alpinismo social determina: em so- tupiniquim Ibrahim Sued (abaixo) festejou tes de Balangandans. Na inauguração
ciedade, tudo se exibe. Em 1954, vol- o próprio sucesso e a fortuna, no da boate Regine's em São Paulo, em 26
tando de Paris, a "locomotiva" Josefine casamento de sua filha, no Jockey Club, de março de 1981, a festa começou
Jordan declara que trouxe na bagagem no Rio com a presença da primeira dama da
32 pares de sapatos Christian Dior.
"Locomotiva", diga-se, é expressão
inventada por Ibrahim Sued, "um turco
que só comia uma vez por dia", segun-
do suas próprias palavras, e que se con-
verteu na figura mais característica des-
*a
**
se alpinismo social dos anos 50. Sua co-
luna virou o barômetro da ascensão. E,
ao fim de cada ano, com desígnios de
sumo-sacerdote do mundanismo,
Ibrahim decretava a recompensa para
o esforço dos eleitos na lista das "Dez
Mais Elegantes" e dos "Dez Mais Ele-
gantes". Ibrahim dosava suas listas com
estratégica inteligência. Entre as mu-
lheres, consagrava o trio de ouro da
movimentação noturna: Tereza Souza
Campos, Lourdes Catão e Carmen
Mayrink Veiga. Mas não se descuidava
de reiterar a elegância tradicional de
Alcyr Cavalcanti/Agência O Globo

dona Mariazinha Guinle ou da embai-


xatriz Elizinha Moreira Salles. Entre os
homens, elegia o badalado Didu Souza
Campos, sem se esquecer do sangue
azul de dom João de Orleans e Bragan-
ça.
Em 1972, Ibrahim, que confessa pos-
suir um patrimônio superior a 5 mi-
275
rou de gritar quando os "leões-de-
chácara" da boate a empurraram para
o banco traseiro de um automóvel pre-
to, que a levou dali.
Em dezembro de 1983, a CMW Vej-
culos, Comercial e Importação Ltda.,
de São Paulo, patrocinou um "almoço
de confraternização" para seus clientes
na boate Gallery. Ali, promoveu o sor-
teio de carros importados e os convida-
dos foram recebidos por um grupo de
recepcionistas. Regada a Ballantines 12
anos, a festa teve uma atração extra: o
leilão de peças íntimas de uma atriz do
cinema pornô, tendo como leiloeiro
Chiquinho Scarpa, dono de uma das
maiores fortunas do País e conhecido
«y por suas atitudes insólitas e por tentar
reviver as fantasias do famoso play

Carlos Namba/Abril Press


boy paulista dos anos 50 Baby Pignata-
ri. Segundo a Folha de S. Paulo, "pela
primeira vez que [a atriz] tirou a cami-
seta recebeu um cheque de Cr$ 250
mil, a calça jeans, que custou Cr$ 15
mil, foi arrematada por Cr$ 320 mil.
Apesar da súplicas dos presentes, resis-
tiu em ficar sem a calcinha". O playboy
não se conformou com o fim do ato e
propôs o sorteio da própria atriz. Matil-
de Mastrangi, experiente artista em
mais de 40 filmes pornôs, pegou o mi-
crofone e avisou que a "festa tinha aca-
bado".

"É o medo do Leão",


diagnostica cronista social

Os tempos de crise recomendaram


ao jet-set maior moderação na ostenta-
ção, se não nos próprios gastos. "É o
medo do Leão", diagnostica Gilberto
" Di Piero, o cronista paulistano Giba Um,
referindo-se ao Imposto de Renda. Na
verdade, há alguns anos se observa o
progressivo enclausuramento dos
Luizinho Coruja/Abril Press

sobrenomes dourados. Decididamente,


não se fazem mais festas como antiga-
mente. Veja-se o caso dos Monteiro de
Carvalho, que foram os maiores acio-
nistas particulares da Volkswagen do
Brasil e dispõem de sociedades com o
grande capital internacional. Nos últi-
Os tempos de crise recomendaram maior moderação nos anos 80. Mesmo assim,
os mos tempos, eles circulam pouco e re-
esbanjamentos são comuns, como o leilão das roupas da atriz/Matilde Mastrangi
cebem menos ainda nos seus domínios
(acima) e a inauguração da boate Regine's (no alto), que contou com
Dulce do alto da Glória, no Rio. Quando re-
Figueiredo, o ator Omar Sharif e Sílvia Maluf (à dir.)
cebiam, porém, afinesse obrigava que o
champagna fosse Moet et Chandon e
República, Dulce Figueiredo, acompa- tratado para documen
tar a inaugura- que os comensais mergulhassem
nhada pelo ator egípcio Omar Shariff. em
ção, resolveu fotografar o carnaval da cascatas de
A festa chegou ao auge quando o artis- primeira dama e acabou lagostas e camarões, como
levando vários na recepção para 5 mil pessoas que se
ta convidou dona Dulce para dançar, à safanões dos agentes
de segurança. seguiu ao casório de Lilibeth, filha do
meia-noite. As 2 da manhã, foi a vez de Teve um filme apreend
ido e foi expulso patriarca Joaquim (Baby), com Fer-
começar o show das mulatas seminuas da boate. Mas, durante
a festa, uma nando Collor de Mello, filho do sena-
de Sagentelli, que se juntaram à já en- nova confusão envolveria dona Dulce. dor biônico Arnon de Mello, do PDS
tão passista primeira dama. Foi aí que Uma dama da sociedade paulista co- alagoano, em 1975.
surgiu o primeiro incidente da noite, meçou a gritar palavrões, em francês,
Um fotógrafo da revista Manchete, con- ao casal Dulce-Shariff. A
mulher só pa- Nirlando Beirão
276
BR DFANBSB V8.GNC.AAA, 2404 12234 ô 002 249
BR DFANBSB 840434333 dn má) P 20

N, [bx a *
NóNV
[NO s

FO

POLÍTICA/RELACOES EXTERNAS: as relações Brasil-EUA

A dominação americana

No início do século, a hegemonia inglesa no Brasil começa a ser contestada


pelos americanos. A partir daí e sobretudo após a Segunda Grande Guerra, os
EUA consolidam a sua dominação sobre o País, da economia à cultura

"O BRAZIL QUEM USA EUA, na forma de tropas, munições e novo país, 0 Brasil, já nascia endivi-
SOU EEUU navios. Jefferson recusou qualquer dado.
compromisso. Mas insinuou que, efeti- Em 1824, dois anos depois da inde-
(Grafite em um muro de São Paulo)
vada a independência, os americanos pendência, o Brasil fazia seu primeiro
Para os brasileiros envolvidos em poderiam enviar apoio, se os brasileiros empréstimo, no valor de 3 milhões de
conspirações contra o poder colonial se comprometessem a comprar deles libras. Vários empréstimos se se-
português, a vitória dos Estados Unidos trigo e bacalhau. guiram e, no seu ocaso, o Império de-
na luta pela independência da Ingla- Foi na Inglaterra, porém, a maior via 30,4 milhões de libras, em sua esma-
terra, em 1776, serviu como um grande potência econômica da época, que o gadora maioria a bancos ingleses.
estímulo. Alguns deles chegaram a pen- Brasil teve de se apoiar no seu processo No plano comercial, a Inglaterra ob-
sar que a nascente nação republicana de emancipação. Os ingleses forçaram tivera de Portugal, em 1810, tratamento
estivesse disposta a apoiar a luta do Portugal a reconhecer a nossa indepen- vantajoso para suas mercadorias nos
Brasil pela sua emancipação política. dência e abriram as portas do conti- portos brasileiros. Esse privilégio se
Com essa perspectiva, o estudante nente europeu para a nova Monarquia. manteve depois de 1822 e foi ratificado
brasileiro José Joaquim da Maia conta- Em troca, uma das condições aceitas por um tratado de 1827, com duração
tou, em 1786, Thomas Jefferson, o re- pelo Brasil, para conseguir o reconhe- de 15 anos. Rapidamente a Inglaterra
dator do prelúdio da Declaração da In- cimento de Portugal à sua emancipa- superou Portugal em volume de comér-
' dependência, que representava o go- ção, foi assumir um débito de 1,4 mi- cio com o Brasil. Por todo o século 19,
verno americano na França. Expôs a si- lhão de libras que aquele país tinha os ingleses foram nossos principais par-
tuação do Brasil e solicitou ajuda dos com os ingleses. Assim, em 1822, o ceiros comerciais. Em 1842, as exporta-
277
BR DFANBSB V8.GNC.AAA, 8404122
, paa

ções da Inglaterra para o Brasil eram solidou.


mais de quatro vezes maiores que as
Em 1921, o governo federal nego-
americanas. Vinte anos depois, em
ciou o primeiro empréstimo com uma
1862, tinham dobrado, enquanto as dos casa bancária americana, no valor de
EUA permaneciam no mesmo nível.
50 milhões de dólares. Deu como ga-
Nessa década de 1860, 55% de nossas
rantia as arrecadações do imposto de
importações vinham da Inglaterra e
consumo e das alfândegas nacionais.
33% de nossas exportações iam para
Os principais empréstimos que o
aquele país.
Brasil obteve na década de 20 foram
Em meados do século 19, quando os negociados em Nova Iorque que, assim,
países capitalistas iniciaram o movi-
desbancava Londres como o principal
mento de exportação de investimentos centro financeiro para o Brasil. Já em
para todo o mundo, foram os capitais 1927, os EUA detinham cerca de 35%
britânicos que predominaram no Bra- das nossas dívidas externas. Dez anos
sil. Concentravam-se nas ferrovias e depois, em 1937, quando o País suspen-
meios de comunicação, atividades liga- deu os pagamentos da dívida e, depois,
das a seus interesses comerciais. quando renegociou seu montante, o
Em 1823, ao ser formulada a Dou- Brasil tentou explorar as diferenças de
trina Monroe -"A América para os objetivos entre a potência que expan-
ameritanos" -, que visava a impedir dia seus interesses e a que se retirava, a
tentativas de recolonização dos países Inglaterra.
americanos por parte das potências eu-

Biblioteca Nacional
ropéias, o peso político e econômico Bondes a burro: os primeiros
dos EUA era suficiente apenas para es-
tabelecer uma espécie de escudo co- investimentos dos EUA no País
brindo a região do Caribe.
Os primeiros investimentos america-
nos no Brasil foram feitos na década de
Aventureiros agem na América
Nas guerras da Independência, a 1860. O visconde de Mauá transferiu
Central, apoiados pelos EUA Marinha de Guerra nacional contou uma de suas concessões a uma firma
com oficiais ingleses, comandados americana de carros a cavalo, a Ma-
Na década de 1840, os americanos pelo almirante Lorde Cockrane (acima) nhattan's Bleecker Street, empresa que
arrebataram o Texas, o Arizona e a Ca- introduziu os bondes puxados a burro
lifórnia do país vizinho, o México. Era dívidas atrasadas daquele país com po- no Rio, em 9 de outubro de 1868.
o início da expansão dos EUA, que já tências européias. Mas foi na década de 20 do nosso sé-
eram a quinta potência manufatureira No caso brasileiro, foi através do co- culo que muitos trustes americanos ini-
do mundo. Numa espécie de messia- mércio que os americanos iniciaram ciaram suas atividades no Brasil. Entre
nismo nacional, surgiu a doutrina do sua penetração e criaram as bases para eles, a Firestone, a Armour, as Refina-
"destino manifesto" e tudo servia para o futuro domínio. Em 1870, logo após o ções de Milho Brazil, a Burroughs, a
justificar a expansão daquele país: pre- final da Guerra Civil Americana (1861- Pan-American é outros, Com a Swift e
destinação geográfica, tarefa de rege- 1865), os EUA já compravam 75% do a Wilson, a Armour controlava a pro-
neração, alargamento da área de liber- nosso café, um produto responsável dução e o mercado de carne. A Ameri-
dade, etc. Nessa.época, aventureiros, por mais da metade de nossas exporta- can & Foreign Power (Electric Bond &
apoiados pelo governo americano, co- ções. No início do século 20, os ameri- Share) detinha com a canadense Brazi-
meçam .a agir na América Central e canos eram O nosso principal cliente, lian Traction Light & Power o mono-
seus olhos cobiçosos voltam-se para a absorvendo 43% de nossas exporta- pólio da indústria de eletricidade no
Amazônia. O mais famoso deles, Wil- ções. O monopólio virtual sobre a ex- País. Oficinas para a montagem de car-
liam Walker, chegou a tornar-se "presi- portação de café, que se estendia a to- ros foram instaladas: o Brasil revelava-
dente" da Nicarágua, em 1860. das as fases da comercialização, prati- se um mercado promissor. A principal
No alvorecer do século 20, a hege- camente colocava a economia brasi- mercadoria importada dos EUA de
monia inglesa no Brasil já começa a ser leira nas mãos americanas. As grandes 1913 a 1928 foram os automóveis, Em
contestada pelos EUA. O acelerado empresas de torrefação dos EUA pro- 1927, o Brasil já era o quarto melhor
desenvolvimento capitalista deste país vocavam manobras baixistas para al- mercado do mundo para os automóveis
americano estendera seu interesse e cançar lucros fabulosos, As sucessivas dos EUA, absorvendo 10% das expor-
sua capacidade de intervenção para baixas no preço do café provocavam tações americanas de veículos.
todo o Continente. crises na economia brasileira. Por todo o século 19, a influência
Em 1904, o presidente Theodore Com ameaças de taxar a entrada do predominante na cultura brasileira foi
Roosevelt, numa declaração, delineou café nos EUA, o governo americano européia. Mesmo no começo do século
uma política que seria o corolário da arrancou dos primeiros governos repu- 20, "a atitude comum da pessoa culta é
Doutrina Monroe. Afirmava que os blicanos favores alfandegários para os de admiração pela Europa, mas de des-
EUA teriam o poder internacional de seus produtos industrializados. Mesmo prezo pelos Estados Unidos", diz o his-
polícia. Ou seja, o direito de intervir em assim, esses produtos não conseguiam toriador Nélson Werneck Sodré. Ape-
qualquer nação latino-americana, para competir com Os ingleses e alemães. sar disso, suas instituições políticas fo-
garantir a ordem., Era a política do big Porém, com a Primeira Grande Guerra ram imitadas pelos fundadores da Re-
stick (grande porrete), como ficou co- (1914-18), que impediu ou dificultou o pública brasileira. Mas foi o cinema,
nhecida. Os EUA usaram desse suposto fluxo de comércio com a Europa, foi transformado em uma indústria por
direito em 1905 na República Domini- possível aos EUA conquistar o mer- Hollywood, que propagandeou de ma-
cana, apossando-se da renda de suas al- cado brasileiro. A partir daí, a presença neira intensa o american way of life no
fândegas para garantir o pagamento de americana em nossa economia se con- País. No ano em que lançaram os pri-
278 *
BRDFANBSB V8.GNCAAA.0413234 ân0o 2, p22

meiros filmes sonoros (1928), os ameri- Já no início No


canos já detinham a supremacia no da República,
mercado brasileiro de cinema. a influência dos
O processo de crescente dominação EUA se consolida no
americana nos mais diversos setores da País: da bandeira
vida nacional foi de certa maneira de- brasileira (ao lado)
sacelerado na década de 30. Por um copiada da americana
lado, pela crise que se abateu sobre to- ao primeiro
dos os países capitalistas e, por outro, empréstimo com uma
pelas disputas entre esses países. No casa bancária de
caso da América Latina, os EUA, cuja Nova Iorque, no valor
ascensão se fazia até então em detri- de 50 milhões de
mento da influência inglesa, têm de en- dólares, em 1921
frentar a Alemanha, que voltara seus (abaixo, por J. Carlos)

Iconographia
olhos para este subcontinente. A exis-
tência de matérias-primas, um mercado
para suas mercadorias e para seus capi-
tais, e até a possibilidade de ocupar ter-
ras americanas, chamavam sua aten-
ção.
A influência alemã no Brasil era re- O emprestimo
forçada pela presença de colônias no
Sul do País, onde até um partido na-
zista foi organizado. Setores signifícati-
vos do governo surgido da revolução
de 30 inclinavam-se pelo nazismo e
para uma aproximação maior com a
Alemanha. O general Góes Monteiro
chegou a aceitar um convite de Hitler
para visitar a Alemanha e participar
como comandante de manobras de
uma divisão da Wehrmacht.
O presidente Vargas tentou utilizar a
rivalidade entre as duas potências para
levar adiante o plano de instalar a in-
dústria siderúrgica no País. Iniciou con-
tatos ao mesmo tempo com a U.S.
Steel, americana, e com a Krupp,
alemã. Esta última, aliás, foi quem for-

Biblioteca Nacional
neceu material para a construção do
Parabens, Jéca ! Que arranjo, hein ?
arsenal da Marinha na Ilha das Cobras, - Mas isso não é meu, não. Eu sou apenas o carregador.
no Rio. hp
Mas o Brasil, inclusive por sua posi-
ção geográfica, tinha importância de-
masiada no conflito, que se travaria no exportação de borracha (Banco da ram a padronizar seus armamentos

O
continente europeu e no Norte da Amazônia) e de ferro (Cia. Vale do Rio até suas fardas pelo modelo americano.
África, para conseguir manter por Doce), congelando os preços dessas A relação Brasil-EUA trazia, porém,
muito tempo sua neutralidade. Os EUA matérias-primas, que eram necessárias consequências a longo prazo. Durante
chegaram a ameaçar que tomariam as ao esforço de guerra dos aliados, Em a guerra na Europa, um oficial ameri-
bases aéreas e navais de que necessitas- troca, Vargas havia conseguido, em cano serviu de ligação entre os oficiais
sem no Nordeste, se o governo brasi- 1940, financiamento de 20 milhões de da Força Expedicionária Brasileira
leiro não as cedesse. As pressões ameri- dólares do Eximbank para a constru- (FEB) e o comando do V Exército
canas, somavam-se, internamente, as ção da siderúrgica de Volta Redonda, americano, na Itália. Era o coronel
exigências das forças democráticas e que veio a ser inaugurada em 12 de ou- Vernon Walters, que se tornou amigo
populares para que o Brasil se incorpo- tubro de 1946. de vários oficiais brasileiros, como Cas-
rasse à frente democrática mundial tello Branco e Cordeiro de Farias.
contra o Eixo nazi-fascista. Após 45, a presença americana Sempre ligado ao Brasil, esse militar te-
Os esforços feitos pelos EUA para consolida-se no País inteiro ria papel destacado na conspiração
que o Brasil rompesse a neutralidade e contra o governo Goulart, como adido
se posicionasse com os aliados no con- Os Estados Unidos emergiram da Se- militar da embaixada americana,
flito mundial em desenvolvimento se gunda Grande Guerra, em 1945, como cargo que exerceu entre 1962 e 1967.
prendiam muito pouco à questão de a mais poderosa potência capitalista, : De volta aos Estados Unidos, chegaria
tropas. Além das posições estratégicas tanto do ponto de vista econômico a vice-diretor da CIA, no governo Ni-
a serem asseguradas no litoral do Nor- quanto militar. Sua presença, influên- xon.
deste, era o fornecimento de matérias- cia e domínio estenderam-se a todos Quando a Escola Superior de
primas o que atraia os americanos, os setores da vida brasileira. In- Guerra, cuja missão seria a de formular
Os Acordos de Washington, em tensificaram-se as relações militares. uma nova doutrina de segurança e de-
1942, criaram o monopólio estatal da As Forças Armadas brasileiras chega senvolvimento nacional, começou a ser

279
sr pranBsa V8.GNC.AMA. 840453331 anda 23

"!

Agência O Globo
formada, em 1947, solicitou-se uma riam de tempo e até da ajuda de capi- de 1947, rompeu relações com a União
missão conselheira americana para aju- tais americanos para se reerguer. Por Soviética, surpreendendo os próprios
dar na organização da escola. Esta mis- outro lado, crescia na Ásia e na África americanos, Aferrado a um liberalismo
são permaneceu no Brasil de 1948 a o movimento anticolonialista, que se comercial ultrapassado, torrou as divi-
1960. voltava na época, basicamente, contra sas que O País acumulara durante a
Mas essa interação entre os militares as grandes potências européias. guerra e, além disso, elaborou um pro-
dos dois países, que era justificada no jeto de Estatuto do Petróleo que tende-
quadro da "guerra fria" como neces- Governos adotam atitudes ria a entregar a exploração dessa ri-
sária ao inevitável e próximo confronto diversas frente aos EUA queza aos trustes internacionais.
com a URSS, atingiu seu auge com a O segundo governo Vargas (1951-
assinatura do Acordo Militar Brasil- A hegemonia mundial dos Estados 54) fez diversas tentativas de enfren-
EUA, em 15 de março de 1952. Além Unidos necessariamente se refletiria tar o poderoso aliado. Seu empenho na
de se comprometer a apoiar incondi- numa presença avassaladora na constituição da Petrobrás e da Eletro-
cionalmente qualquer ação de guerra América Latina. No caso do Brasil, os brás se chocava com a posição de inte-
dos EUA, o Brasil se dispunha a forne- governos que se instalaram entre o final resses industriais americanos. Vargas
cer aos americanos matérias-primas es- do Estado Novo (1945) e o golpe militar viu-se forçado a ceder na exportação
tratégicas, necessárias à defesa do de 1964, embora sem romper nem de minerais atômicos e na permissão
"mundo livre". Manganês, urânio e ameaçar uma ligação íntima com os para o levantamento aerofotogramé-
areias monazíticas eram visados pelos EUA nos diversos campos de ativida- trico de nosso território feito pela
EUA, que não haviam até então desco- de, adotaram atitudes diversas frente à Força Aérea americana. Mas tentou
berto jazidas de urânio importantes em " grande potência. resistir, propondo ao presidente argen-
seu próprio território, Pressionados por reações nacionalis- tino, Juan D. Perón, uma aliança
O nivel da influência americana no tas crescentes, que se manifestavam no Argentina-Brasil-Chile para fortalecer
período pode ser avaliado no governo Congresso, no movimento estudantil e a posição desses três países frente a
Dutra (194651), quando se permitiu tendiam a ganhar cada vez mais res- Washington. Vargas fez, ainda, algumas
o estabelecimento de uma Comissão paldo popular, e, por outro lado, pelas tentativas de controlar a remessa de lu-
Mista Brasil-EUA, que traçou um pro- dificuldades econômicas, principal- cros dos capitais estrangeiros. Essas
grama para o desenvolvimento econô- mente comerciais, que a política de tentativas foram abandonadas no go-
mico do País, baseado na atividade dos subordinação sem limites produzia, al- verno intermediário de Café Filho,
capitais estrangeiros que atuariam nos guns desses governos (Vargas, Goulart quando Eugênio Gudin e Raul Fernan-
setores-chave da economia brasileira. e em certa medida Juscelino e Jânio) des, firmes partidários da atração de '
O representante do Brasil na comissão tomaram atitudes, seja no plano in- capitais estrangeiros e da aliança com
era o economista Octávio Gouvéia de terno, seja no campo da diplomacia e os EUA, ocuparam, respectivamente,
|
Bulhões, que, depois do golpe de 1964, das relações internacionais, que se cho- as pastas da Fazenda e de Relações Ex-
seria ministro da Fazenda do governo cavam com os ditames imediatos de teriores,
Castello Branco. Washington. O governo Juscelino enfrentou ini-
A partir do final da Segunda Grande Mas, quando Otávio Mangabeira, na cialmente uma resistência americana a
Guerra, os EUA encontram-se numa condição de ex-chanceler, prostrou-se seus planos de instalar indústrias no
situação em que a sua hegemonia sobre e beijou a mão do general Eisenhower, País, O FMI (Fundo Monetário Inter-
todo o nundo capitalista não enfren- que comandara as tropas americanas nacional) colocou-se contra o Plano de
tava concorrentes. O Japão estava sob na Europa e estava em visita ao Brasil, Metas e com isso dificultava a conces-
seu controle direto. A Alemanha des- em 1946, esse gesto transmitiu uma boa são de empréstimos americanos ao go-
truída e dividida. A França e a Itália imagem do servilismo do governo Du- verno brasileiro. Juscelino voltou-se
devastadas e a Inglaterra exaurida pelo tra em relação aos EUA. Mais realista para os capitais europeus e, para am-
esforço de guerra. Estes países precisa- que o rei, o governo Dutra, em outubro pliar suas alternativas de comércio, es-
280
BRDFANBSBVB.GNCAMA. 40413343 ano a, p24

Vernon Walters, oficial


americano e amigo de oficiais
brasileiros que estiveram na
Itália, sempre esteve ligado ao
Brasil, de intérprete na Segunda
Grande Guerra à conspiração contra
o governo Goulart, em 1964, como
adido militar da embaixada
americana no País. Na pág. ao
lado, na extr. esq.,
Walters (à esq.) com Mascarenhas
de Moraes, comandante da FEB e
Harold Alexander, comandante aliado
da área do Mediterrâneo; à esq.,
entre o gen. Eisenhower e Dutra,
em 1946; ao lado, com Castello
Branco, após o golpe; ao centro,
já como vice-diretor da CIA, com
Médici e Nixon; embaixo,
Agência JB

com Figueiredo, em 1981

tabeleceu relações comerciais com a


União Soviética. Em junho de 1959,
suspendeu os entendimentos com o
FMI. Mas o fato é que ele manteve a
abertura do País aos capitais estrangei-
tos prevista na Instrução 113 da SU-
MOC (Superintendência da Moeda e
do Crédito), oriunda do governo Café
Filho (195455), da qual os capitais
americanos também se aproveitaram.

neto -40FRdoe alhoOâ>lana


O governo Jânio (1961), no plano da

eipressao S iaea
economia interna, adotou resoluções
na direção proposta pelo FMI, mas
tentou manter no plano externo certa
independência. Anunciou que reataria
relações diplomáticas com a URSS e
enviou o vice-presidente João Goulart
à China Popular. Recusou-se a apoiar
os EUA na invasão de Cuba e marcou
mais ainda sua posição condecorando
Ernesto "Che" Guevara, ministro da
de Cuba, em passagem pelo Brasil.

Acordos MEC-USAID
reestruturam ensino superior

O presidente João Goulart (1961-64)


fez algumas tentativas de aproximar-se
de Washington, tendo até mesmo visi-
tado o novo presidente do EUA, John
Kennedy, em abril de 1962, Mas atraiu
a ira americana por sua política externa
independente. O Brasil foi acusado de
ter contribuído para evitar que os EUA
conseguissem apoio de toda a América
Latina para suas represálias contra
Cuba, na Conferência de Punta del
Este, em janeiro de 1962. No plano in-
terno, as encampações de empresas
americanas e a Lei da Remessa de Lu-
cros, regulamentada em 1964, contri-
buiram para afastar ainda mais o go-
verno americano. Os EUA passam a
apoiar diretamente, com empréstimos,
os governos estaduais que se opunham

281
BR DFANBSB V8.GNCIAAMA, SLO 413
34 an co y p25

Mas, com a recessão da economia, to-


dos esses países -- particularmente os
Estados Unidos, nosso cliente principal
- vêm fechando seus mercados com
sucessivas medidas protecionistas,
Como a instalação de indústrias no
Brasil tinha sido feita sem gerar um
mercado interno proporcional às po-
tencialidades de um país continental,
surgiu a necessidade de escoar parte
significativa dessa produção no Exte-
rior. Esta seria, portanto, a base obje-
tiva dos esforços feitos para sair de uma
relação excessivamente restrita com os
EUA

Em 1976, a URSS é o quinto


maior comprador brasileiro

A situação mundial também se alte-


rara. A hegemonia dos Estados Unidos
sobre o mundo capitalista, já questio-
nada no plano político pela França de
De Gaulle, começava a ser contestada
Ao no plano econômico pela Alemanha
Durante a guerra, o presidente Roosevelt visita Natal (RN) Ocidental e Japão. Derrotados na
com Vargas (atrás): além China, na Coréia e no Vietnã, os EUA
de matérias-primas, os EUA asseguram posições estratég
icas no litoral nordestino viram lutas de libertação nacional se
ao governo Goulart, como o de Carlos multiplicarem pelo continente africano
Se no plano cultural a presença ame- e asiático, já agora voltadas principal-
Lacerda na Guanabara, e o de Adhe- ricana
vinha crescendo depois da Se- mente contra sua influência. Um bloco
mar de Barros, em São Paulo,
gunda Grande Guerra, sob o Regime de nações do Terceiro Mundo se agru-
Depois do golpe militar de 1964, que Militar
chega ao máximo, quando os pou para defender seus interesses nos
derrubou o governo constitucional de
convênios entre o Ministério da Educa- fóruns internacionais, abalando a pola-
João Goulart, onde tiveram papel des-
ção e Cultura (MEC) e a United States rização das votações característica do
tacado tanto na fase de conspiração
Agency for International Development períod o da "guerra fria", O fortaleci-
quanto na de execução, os americanos
(USAID) - os famosos "Acordos mento da URSS também gerava um
viram instalar-se no Brasil o governo
MEC-USAID" - são estabelecidos contrapeso político e militar à influên-
Castello Branco, que, a pretexto de
para reestruturar o ensino superior no cia americana. .
"fronteiras ideológicas" e "interdepen-
País. Ou quando contratos de financia- O Brasil, tentando situar-se nesse
dência" entre as nações "livres", optou
mento e assistência técnica, firmados novo quadro, procurou intensificar
pelo alinhamento automático de nosso
com grupos americanos, ajudarão a suas relações diplomáticas e comerciais
país com as posições dos EUA, Globo a se tornar a rede de rádio e te-
Se o governo Vargas, respaldado com os países do Leste europeu e com
levisão mais poderosa do País. aquele
pela mobilização social, particular- s que se libertavam do jugo colo-
Essa política de alinhamento incon- nial, Em 1976, a URSS já era o quinto
mente estudantil, resistiu a enviar tro- dicional com os EUA iria esgotar-se e,
pas brasileiras para lutar na Coréia em comprador das exportações brasileiras.
dez anos depois, ao se iniciar o governo No reajuste diplomático, pesou tam-
1951, o governo Castello Branco (1964- Geisel, em 1974, a expressão "pragma-
67) não vacilou em enviar soldados bém a grande dependência energética
tismo responsável" surgiria para definir do Brasil em relação às importações de
brasileiros para apoiar a intervenção uma nova política externa que procu-
americana na República Dominicana, petróleo de países árabes,
rava realinhar os compromissos do Nesse contexto, uma série de atritos
em 1965. Brasil num mundo em transição.
A partir daí, toda uma série de medi- surgiu com os EUA. O acordo militar
O alinhamento com os Estados Uni- de 1951 foi denunciado pelo governo
das favorece os interesses americanos dos, da maneira que foi articulado,
no Brasil, anulando medidas de defesa brasileiro em 1977, no bojo de uma
pressupunha que o mercado americano crise nas relações entre os dois países,
da economia nacional adotadas pelos iria absorver os produtos fabricados no
governos anteriores, como a nova Lei de causada pela aplicação da política de
Brasil. Na nova divisão internacional Direitos Humanos do governo Carter.
Remessa de Lucros, o Acordo de Ga- do trabalho, instaurada depois da Se-
rantia de Investimentos, a compra da O estabelecimento do acordo ;nuclear
gunda Grande Guerra, uma certa in- com a Alemanha (1975) foi efetivado
AMFORP pelo preço pretendido pelos dustrialização ocorreu nos países peri-
proprietários. Em troca, é garantido o apesar da oposição americana.
féricos mais desenvolvidos, enquanto Mas, no fundamental, a dependência
reescalonamento da dívida externa e o as renovações tecnológicas e as indús- de nosso País
afluxo de financiamentos oriundos de frente aos EUA conti-
trias chamadas de ponta se concentra- nuava em
agências governamentais americanas 1984, e até se reforçava no
vam nas matrizes. Como complemento terreno das
ou internacionais onde o governo ame- relações comerciais e finan-
desse processo, os países capitalistas ceiras, embor
ricano tem controle decisivo, a já não fosse provável,
avançados deveriam absorver produtos por exempl
iniciando-se assim um novo ciclo de En- o, o enviotde soldados brasi-
manufaturados e semimanufaturados leiros para
dividamento. reforçar uma eventual inva-
produzidos na periferia do sistema. são americana da Nicarágua.
282
"ar DFANBSB V8.GNCIAAA. 84041334anCcO2, p26

POLÍTICA/ENTIDADES DEMOCRÁTICAS: a história da OAB A luta contra a ditadura xculminou

com a eleição de Raul Fernandes, vin-


culado à UDN, o que marcou a ruptura
definitiva com o Estado Novo. Na fase
A resistência da Ordem que se seguiu, a OAB permaneceu pró-
xima à UDN, elegendo novos presiden-
tes ligados a este partido.
Desde a sua criação, em 1930, a Ordem dos Advogados
Esta proximidade com a UDN pode
do Brasil esteve presente - do Estado Novo ao Regime explicar porque a OAB não reagiu ao
Militar - nas lutas pelas liberdades democráticas golpe de 64. A OAB, porém, se desvin-
cula do sistema com a eleição de José
Cavalcanti Neves, em 1971. "A tortura e
os métodos de brutalidade levaram os
advogados a reagir", lembra o jurista
Raymundo Faoro, presidente da Or-
dem no período 1977-79. "Mas a rea-
ção não foi política", ressalva. "Os
pressupostos da advocacia estavam
sendo feridos - os juízes não tinham as
garantias constitucionais."
De fato, Cavalcanti Neves pauta sua
gestão pela defesa intransigente do res-
tabelecimento das garantias da magis-
tratura, da plenitude do habeas-corpus,
do respeito aos preceitos da Declara-
ção Universal dos Direitos do Homem
e do respeito aos princípios do Estado
de Direito.
A gestão seguinte é menos expres-
siva. Em 1975, com a eleição de Caio
Mário da Silva Pereira, a Ordem volta
a defender o restabelecimento das ga-
rantias constitucionais dos advogados e
dos cidadãos e, em 1977, Raymundo
Faoro é eleito presidente e torna a Or-
Agêncua Estado

dem uma das entidades mais represen-


tativas da sociedade civil. Sua atuação
foi pautada pela defesa do retorno ao
Estado de Direito democrático. O novo
Durante a gestão de Raymundo Faoro (1977-79), a OAB destacou-se pela tese do presidente entendia que a Ordem de-
retorno ao Estado de Direito democrático, através de uma Assembléia Constituinte. veria limitar-se às demandas específicas
Acima, Faoro (à esq.) com o senador Petrônio Portela dos advogados. Com isto poderia aglu-
tinar os profissionais de todo o País, in-
Em 1980, a OAB (Ordem dos Advo- os advogados tiveram o mesmo posi- clusive os que militavam no partido do
gados do Brasil) comemorou com sole- cionamento contra o arbítrio. governo. Defendeu o retorno ao Es-
nidade, mas sem festas, o seu cinquen- A OAB foi criada em 18 de novem- tado de Direito como pressuposto
tenário. Durante a fase de organização bro de 1930, com o desmembramento básico do exercício da advocacia. E,
das festividades comemorativas, um do antigo Instituto da Ordem dos Ad- como forma de atingir este objetivo, a
atentado terrorista sacudiu as suas ins- vogados do Brasil, este de 1843. Obje- defesa da convocação de uma Assem-
talações e matou dona Lyda Monteiro tivo: disciplinar e selecionar os profis- bléia Nacional Constituinte, Interlocu-
da Silva, funcionária da Ordem havia sionais. Apesar das intenções corpora- tor privilegiado do senador Petrônio
mais de 40 anos. Dois dias antes de tivas de sua criação, a força da tradição Portela, presidente do Congresso, Ray-
morrer, dona Lyda prestara um depoi- do instituto impediu que a OAB se tor- mundo Faoro limitou suas reivíndica-
mento ao advogado Alberto Venâncio nasse uma entidade vinculada ao Es- ções aos pleitos específicos dos advoga-
Filho, que fazia um levantamento para tado. Até por volta de 1943 a Ordem se dos: restabelecimento da plenitude do
escrever a história da OAB. Dona Lyda manteve dentro dos limites de órgão se- habeas-corpus, das garantias da magis-
explicara que pouca coisa havia res- lecionador e disciplinador da categoria, tratura e retorno ao Estado de Direito,
tado das discussões havidas nas sessões quando então começa a reagir ao Es- através de uma Assembléia Consti-
da OAB no período do Estado Novo tado Novo. Antes, já havia a atuação tuinte. Outra questão proposta por
(1937-45), e sobretudo no período final, do advogado Heráclito Fontoura de Faoro a Portela: a alteração do Artigo
durante a campanha contra a ditadura Sobral Pinto na defesa dos comunistas 185 da Constituição, que tornava ine-
varguista. As atas da entidade eram pu- Luis Carlos Prestes e Harry Berger. In- legíveis todos os cidadãos que tivessem
blicadas no Jornal do Comércio (RJ) e dicado pela OAB, este advogado de ' tido os direitos políticos cassados. O
passaram a sofrer censura, razão pela formação católica lutou durante nove presidente da OAB alertava o senador
qual se decidiu omitir as manifestações anos para livrar seus constituintes das Portela de que a anistia viria mais cedo
decaráter público. A funcionária da Or- torturas degradantes a que eram sub- ou mais tarde e de que este artigo seria
dem fazia a ligação de duas fases (o Es- metidos, chegando a invocar em seu um entrave. O presidente do Senado
tado Novo e o Regime Militar) em que benefício a lei de proteção aos animais. argumentava que o problema era a
283
» DFANBSB V8.GNG;AAA, R4 334 an 008 ,P2Y

existência de três nomes não absorvi- Faoro, foi que a OAB passou a empu- sos comuns, à reforma do ensinojuri-
veis pelo sistema: Luís Carlos Prestes, nhar bandeiras gerais, indo além das dico e ao relacionamento internacio-
Miguel Arraes e Leonel Brizola. Ouviu demandas específicas dos advogados. nal. Durante sua gestão ocorre o aten-
então do presidente da OAB o desafio A Ordem se coloca contra a Lei de Se- tado do Riocentro. A OAB, através do
de encontrar uma fórmula legal de dei- gurança Nacional e a sobrevivência da CDDPH, reage energicamente, exi-
xar apenas os três fora de um projeto comunidade de informações. O projeto gindo um completo esclarecimento do
de liberalização. de anistia do governo também teve a episódio.
Petrônio Portela, porém, não encon- repulsa da Ordem, pelo seu caráter de No período iniciado em 1983, a
traria a fórmula e a 13 de outubro de 78 indulto e pela questão da reciproci- OAB, sob a presidência de Mário Sér-
caia o AI-5. Pela edição da Emenda dade. Participando do CDDPH (Con- gio Duarte Garcia, continua partici-
Constitucional no 11, eram restabeleci- selho de Defesa dos Direitos da Pessoa pando das lutas pelas liberdades demo-
das as prerrogativas da magistratura, o Humana), Seabra Fagundes luta contra cráticas no País, às vezes se envolvendo
habeas-corpus pleno e alterado o Artigo a imposição do sigilo e constitui uma com a truculência do Regime Militar.
185 da Constituição, caindo a inelegibi- comissão de 15 advogados para Em 24 de outubro de 1983, durante a
lidade dos cassados e abrindo-se cami- assessorá-lo. Dezenas de pessoas pas- votação do Decreto-Lei no 2.045,
nho para a anistia. sam a procurar a OAB, pedindo ajuda Brasília se encontrava sob o regime
Eduardo Seabra Fagundes assume a para questões como o esclarecimento das medidas de emergência. Mesmo as-
presidência em 1979, reconhecendo as do desaparecimento de presos políti- sim, o Conselho Seccional do Distrito
conquistas obtidas*na gestão anterior e cos. Entre estas questões figuram a ten- Federal decidiu manter a realização do
ressalvando que ainda faltava muito à tativa de reabertura do processo do de- I Encontro dos Advogados. O executor
plena restauração do Estado de Di- putado Rubens Paiva e o acompanha- das medidas, general Newton Cruz, o
reito. Começapregando a anistia am- mento da localização de uma antiga "Nini", mandou invadir e interditar as
pla, geral e irrestrita e sem gradualis- casa de torturas de presos políticos na instalações da OAB-DF, mas o presi-
mos; a convocação de uma Assembléia cidade de Petrópolis (RJ). dente do Conselho, Maurício Correa,
Constituinte que restaure as eleições resistiu à intervenção, posteriormente
diretas em todos os planos, assegure a Em 84, a OAB participa com
revogada pelo Planalto sob a alegação
liberdade de organização partidária e destaque da campanha das diretas de ter havido um mal-entendido. Ao fi-
sindical e estabeleça uma justa distri- nal do episódio, o general Cruz chegou
buição de renda. Como principal dife- O atentado contra a OAB ocorre a admitir, publicamente, que "havia
rença do presidente anterior, havia o nessa gestão. A Ordem contrata um pe- quebrado a cara".
entendimento do caráter do Estado rito independente para acompanhar as Em 1984, quando a campanha pelas
brasileiro: para Faoro, autoritário; para investigações, mas o caso permaneceu diretas-já empolgou todo o País, a
Seabra, totalitário. Foram cortadas as sem esclarecimento. Um militante de OAB, juntamente com outras entida-
negociações com o regime e es- direita, Ronald Watters, foi preso, mas des, compôs o Comitê Suprapartidário
tabeleceu-se uma linha de luta intransi - absolvido por falta de provas. Pró-Diretas e teve participação desta-
gente pela restauração da democracia,. A gestão seguinte, de José Bernardo cada de seus representantes.
Outra diferença na gestão de Seabra Cabral, caracteriza-se pela ênfase à
Fagundes, ao contrário da gestão de questão dos direitos humanos dos pre- Márcio Bueno
No I Encontro dos Advogados, a sede da OAB em Brasíliafoi invadida por ordem do gen. Newton Cruz, executor das medidas de
emergência. Abaixo, participantes do encontro protestam contra a invasão, out./83 (Maurício Correa, presidente da Seccional
do
Distrito Federal é o 5o da esq. p/ dir.)

| <p "!

#
Paula Simas
R DranBsB V8.GNCIAMA, 3404133 4ancoa , p2s

plicados pelos temas tratados.Este mo-


vimento se dissolveu por volta de 1975,
em parte porque alguns dos cineastas
que o integravam queriam partir para
outros trabalhos cinematográficos, em
parte porque os primeiros sinais da
chamada "abertura" exigiam uma res-
posta diferente: filmes mais nitida-
mente políticos, ou melhor, filmes que
refletissem de alguma forma as diferen-
ças que surgiam entre as oposições, en-
quanto o Cinema de Rua representava
algo como um consenso das oposições
na época Médici.
Em relação aos anos 60, esses filmes
ofereciam uma grande diferença: em-
bora pudessem tratar dos mesmos te-
mas (migração, construção civil), aban-
Nair Benedicto/F4

donavam o tom sociológico para se


centrar em casos muito concretos, em
que operários e moradores da periferia
pudessem identificar seus próprios pro-
blemas. Em Onibus, por exemplo, a câ-
Braços Cruzados, Máquinas Paradas, de Roberto Gervitz e Sérgio Segall mera está num ponto de ônibus num
bairro afastado do centro, no fim da
ARTES/CINEMA: as produções militantes madrugada. Passageiros são entrevista-
dos, bem como cobrador e motorista.
Após longa espera, a câmera sobe no
ônibus repleto: fica clara a insuficiência
Cineastas em ação
da condução, a insegurança das via-
gens, o atraso na chegada ao serviço
A partir da década de 70, pela primeira vez no motivado pela precariedade dos trans-
cinema brasileiro, filmes agem de forma vinculada portes, os descontos no salário advin-
dos dai.
à ação política, intervindo na realidade do País
Um dos pontos mais relevantes desse
movimento é que, em alguns casos, o
Cinema militante é, certamente, uma ciológica. Embora seus realizadores ti- filme deixa de ser uma mensagem que
expressão recente no vocabulário cine- vessem posições políticas definidas, se leva ao público para se tornar uma
matográfico usado no Brasil. Há diver- eram produções independentes e não intervenção na realidade. Cite-se ape-
gências quanto ao que seja este tipo de realizações estreitamente vinculadas a nas o exemplo de um projeto de João
cinema, mas em geral se concorda que movimentos ou instituições políticas Batista de Andradepara a televisão, o
os filmes militantes são curtos, tratam ou a situações políticas específicas. É qual, infelizmente, não foi levado a
de problemas sociais e políticos canden- bem verdade que Maioria Absoluta se cabo por problemas de produção na
tes no momento de sua realização, são enquadrava no projeto de reformas de tevê. Pelo jornal, o cineasta fica sa-
instrumentos a ser usados pela ação base do governo João Goulart. De bendo que a prefeitura pretende trans-
política e devem motivar rapidamente qualquer modo, a ditadura no pós-64 ferir favelados instalados numa avenida
os seus espectadores. impediu que estes filmes circulassem e marginal, em São Paulo, para um ter-
Em 1984, considerava-se como o principalmente atingissem as pessoas reno baldio próximo a um conjunto re-
principal movimento de cinema mili- diretamente concernidas pelos assuntos sidencial operário, e que esposas de
tante o conjunto dos filmes realizados que abordavam. operários reagiram mandando uma
no final da década de 70 por cineastas Nos anos 70, em torno de João Ba- carta à imprensa, opondo-se a esta
como Renato Tapajós, João Batista de tista de Andrade se desenvolveu em transferência: "Como poderiam educar
Andrade, Sérgio Toledo Segal ou Ro- São Paulo um movimento conhecido os filhos tendo como vizinhos margi-
berto Gervitz, em torno das greves de como Cinema de Rua, dentro de mol- nais, ladrões, assassinos?" O cineasta
metalúrgicos de São Paulo e do ABC, des de produção extremamente pre- dirige-se ao conjunto operário, filma e
Em realidade, muitos filmes de curta- cários. Um filme como Restos, por grava entrevistas com operários que ex-
metragem trataram de problemas so- exemplo, nem foi sonorizado, O pri- põem a sua posição. Dirige-se em se-
ciais, sobretudo de situações populares, meiro dessa série foi Migrantes, guida à favela, onde, pelo gravador, fa-
já nos anos 60. Por exemplo, Maioria realizado em 1972, ainda sob o governo veladas ouvem as declarações das ope-
Absoluta (1964-66), onde León Hirzman Médici. Os temas não eram direta- rárias. Elas reagem violentamente e de-
tratava da situação dos camponeses mente políticos, pois a ditadura não o fendem que seus maridos não são la-
nordestinos, do analfabetismo e do di- permitia. Abordavam temas como a si- drões nem assassinos, mas também tra-
reito de voto aos camponeses; ou tuação dos migrantes nordestinos, o balhadores. O filme termina aí. O cine-
Viramundo (1965), em que Geraldo trabalho na construção civil, acidentes asta informa operárias e faveladas da
Sarno analisava a situação do contin- de trabalho, etc. Graças a organizações hora em que o programa irá ao ar, prin-
gente nordestino da classe operária populares, cineclubes, setores da Igreja cipalmente para que as operárias to-
paulista. Mas esses filmes estavam em Católica, estes filmes conseguiram cir- mem conhecimento da resposta das fa-
geral mais voltados para a análise so- cular e atingir públicos diretamente im- veladas. O prosseguimento do projeto

285
BR DFANB ONCAA 1404
138334 ano0
2, 029

A 27 de março de 1979, a greve de


São Bernardo é suspensa, abrindo-se
uma trégua de 45 dias para discutir um
acordo entre operários, empresários e
governo. Durante esses dias, é neces-
sário manter a mobilização dos meta-
lúrgicos e o sistema de informação: foi
nessas condições que Para que nunca
mais e Greve começaram a ser exibidos,

José Lucena da Cruz/ Diário do Grande ABC


isto é, absolutamente colados à ação.
Disto decorre a necessidade de uma
produção muito ágil (os fatos não espe-
ram), um tempo mínimo de montagem
e finalização dos filmes. Se se tomasse
os dois meses que um documentário ci-
nematográfico costuma levar para ser
finalizado, os 45 dias já se teriam esgo-
tado. Provavelmente pela primeira vez
na história do cinema no Brasil, filmes
agiam de forma tão precisamente vin-
culada à ação política,
A produção de Para que nunca mais
foi iniciada pelo Sindicato dos Metalúr-
gicos de São Bernardo e retomada,
após a intervenção no sindicato, por
uma entidade cultural vinculada à co-
missão de salários. Isto também é uma
novidade, a produção de um filme por
um sindicato operário. Neste caso, o
filme tende a expressar as posições
políticas dos produtores, o que, no
filme, se manifesta pela valorização de
Luis Inácio Lula da Silva e a relativa-
mente pouca importância dada à co-
missão de salários.
Mas filme militante não é necessaria-
mente produzido por sindicato ou par-
tido político: Braços Cruzados é uma
produção independente. Seus autores
apóiam claramente as posições da cha-
pa 3, uma das concorrentes à eleição
do Sindicato dos Metalúrgicos de São
Paulo; aí, a orientação política do filme
depende da opção dos autores que tra-
balharam em estreita colaboração com
os integrantes da chapa 3.
Greve também é uma produção inde-
pendente e aí o cineasta assume um
distanciamento crítico em relação às
Ao alto, A Greve, de J. B. de Andrade. Acima, Em nome da Segurança Nacional, diversas forças políticas em jogo no
de Renato Tapajós filme.,
Como a produção de cinema mili-
teria consistido em o cineasta voltar ao versos se fazem presentes em produ- tante não constitui um movimento polí-
conjunto operário e fazer novas entre- ções realizadas principalmente em São tico em si, nem decorre da organização
vistas a fim de perceber se as operárias Paulo e no Rio de Janeiro, mas tam- política de profissionais de cinema, este
tinham mudado de opinião, ou não, em bém em outros pontos do País, tais tipo de produção retrocedeu com o re-
função da resposta das faveladas. E é como a mulher trabalhadora, ecologia, fluxo do movimento dos metálúrgicos,
evidente que a expectativa do cineasta, acidentes de trabalho, mutirões para e estes cineastas se orientaram para
ao propiciar através do filme um construção de moradias em bairros movimentos pluriclassistas ocorridos
diálogo entre os dois grupos antagôni- operários, saúde pública, etc. Mas é em nos últimos anos, Disto são testemu-
cos, era de que a opinião das operárias torno dos movimentos dos metalúrgi- nhos filmes como o Tribunal Bertha
de alguma forma se modificasse. cos que se realizam os três filmes de Lutz, de João Batista de Andrade, ou
maior repercussão. 1978, em São Em Nome da Segurança Nacional, sobre
Na greve de 1979, filmes Paulo: Braços Cruzados, Máquirias Para- o Tribunal Tiradentes,
ajudam a manter mobilização das (Segal e Gervitz); 1979, São Ber-
nardo do Campo (SP): Para que nunca
Uma nova etapa do cinema militante mais (ou Dia Nublado ou Greves de
começa por volta de 1978. Temas di- Março, Tapajós) e Greve (Batista). Jean-Claude Bernardet

286 .
"aroransss ve.enciam, 8404133) 30

N
COMPORTAMENTO/SEXO: prostituição e comércio sexual

Sexo à venda

No final dos anos 70, com a liberalização dos


costumes no governo Figueiredo, aumenta a
mercantilização do sexo, dos motéis aos sex-shops

118 - « iru,
mtO

Avani Stein/ Abril Press


Em 1978, estimava-se que metade da
prostituição de rua de São Paulo
era exercida por travestis
(acima). Nos anos 80 proliferavam

Paulo Salomão/ Abril Press


anúncios de massagistas e
acompanhantes (abaixo,
à esq., classific: dos publicados
em jornais do Rio e São Paulo) e
também os motéis (à esq.), frequentados
inclusive por namorados e mesmo
por maridos e mulheres

"DUO BALLS - 1.000 anos de pra- cados, de pessoas oferecendo-se para


zer. São as famosas esferas mágicas. Se- Mulher Por Tel.257-4429
"serviços sexuais" de todos os tipos. O
gredo milenar das fabulosas gueixas Belas mulheres.Atend.hotel,motel,resid. 24 horas.
períódico paulista, pertencente à tradi-
orientais, as verdadeiras Vênus do GAROTAS cional e conservadora família Mes-
UNIVERSITÁRIAS GAROTAS DO
Amor! Estas esferas são as únicas que LEBLON quita, também lucrava, indiretamente,
At. F.: 259.4118.
conseguem satisfazer estas deusas do Só garotas estudantes nível com as novas formas do comércio se-
TÁNIA DOMINADORA colegial ao universitàr a-
sexo. Experimente. O prazer que estas das de alto padrão intelectual e kual.
Ativa e passivo p/ visual, Atend. locais priv: alto
bolas lhe dão tem 1.000 anos de sabe- executivos e casais. luxo, hotéis e domicílio. Tel Em 31 de outubro de 1982, a Folha
258.9749. 226-41 50
doria." Anúncios insólitos como este dê S. Paulo noticiava com destaque o
eram facilmente encontráveis nas cha- provável fechamento, depois de 40
Mulher à Domic. 258.3645
madas revistas masculinas nos fins dos Ligue e terá a mulher dos seus sonhos. 24 horas. anos de funcionamento ininterrupto,
anos 70, após a liberalização dos costu- de um dos mais famosos rendez-vous do
OI! VENHA CURTIR -As deli- CASADAS, BONITAS, RO-
mes promovida pela abertura do go- cias do Amor á três. Somos MANTICAS e COMPLETAS País; a casa de dona Eni, em Bauru, no
verno Figueiredo. duas garotas Bi e muito car- - Sômente das 11 às 18
nhosas Gisa. T. 2564900 - horas. Reservas 242-3784 interior de São Paulo, reduto de deli-
"DUO BALLS" era apenas uma en- 10/19hs. Local.
cias orgiásticas de políticos e milio-
tre inúmeras opções à venda nos sex- nários. Porém, apesar de a sexagenária
shops (lojas de "complementos" se- Tá Chegando a Hora...
Eni estar fechando sua "pensão", a
xXuais) das grandes cidades brasileiras. De curtir um lugar diferente. Com mil mulheres,
homens e casais em total liberdade no Ele & Ela Club prostituição feminina não estava em
Nesses estabelecimentos se encontrava A sauna mista no 1 do Brasil. E você conhecerá ao baixa, vencida na concorrência pelas
vivo, o templo dos prazeres do Calígula. De 2a a sáb.
"de tudo", de simples pomadas lubrifi- de 15 às 3 hs. Manobristas e C.C. R. Pires da Mota, novas formas de comércio do sexo ou
cantes até produtos que prometiam de- 494 (esq. da Av. da Aclimação). F.: 279-2756.
pela celebrada "revolução" comporta-
volver a virgindade. Com fachadas e MOÇA SENSUAL BONITA E mental. -
DISCRETA - Atende damas, CAROLINA 247-9693
funcionários geralmente discretos, para cavalh. e casais local, domici- - Meninas, meninos, Estudo realizado por Délcio Mon-
lio e hotéis completo: sigilo
evitar qualquer constrangimento aos 235-5870. bonecas, hot. dome. teiro de Lima junto a urologistas dos
clientes, os sex-shops eram uma expres- E-
grandes centros do País, cuja especiali-
são da intensa mercantilização do sexo, Fantasias Eróticas dade facilita a observação de pacientes
que pretendia aproximar, em termos Moças, rapazes e casaiS. 35-6478 - 34-5879. sexualmente ativos, revelou que, na
comportamentais, as metrópoles brasi- BONECA PRISCILA, NINFETA opinião desses profissionais, o envolvi-
JUNIOR ATLETA GAY Ativa, loira, sexy, exube-
leiras dos centros do capitalismo inter- atend. 24 hs., inesque- rante, recém chegada SP. F mento de homens com prostitutas
nacional, cível F: 37.4638. 541-8093 apto. privê. "mantém-se igual" para 56%, "vem au-
Ainda um "sinal dos tempos" era a mentando" para 36%, e "vem dimi-
publicação diária nas páginas do Jornal "Xuxa" à Partir das 10Hs nuindo" para 8%. Inquérito seme-
da Tarde (SP), em sua seção de classifi- Você + Elas e Sauna. Lins Vasconcelos, 1821. lhante, feito junto a prostitutas, obteve
287
BR DFANBSB V3.GNC.AAA, 24041334 an 06 2, p 31

a resposta "é igual" de 71% das entre- sem a se prostituir nas zonas de me- mos , seviciadas e abandonadas.
vistadas, "está diminuindo" de 24%, e retrício das capitais ou cidades maio- Em abril de 1981, já durante a aber-
"está aumentando" de 5%. res. Sobrevivia também, no Norte, a tura do general Figueiredo, o Supremo
Comprova-se, com o percentual su- "zona flutuante", constituída de uma Tribunal Federal decidia que a polícia
perior a 50% para ambos os segmentos embarcação abarrotada de prostitutas, tinha amparo legal para reprimir o
pesquisados, que a prostituição manti- em geral muito jovens, que percorria os trottoir de prostitutas e travestis em to-
nha a sua importância no comércio se- rios da região satisfazendo sua clien- das as vias públicas do País. Porém, o
xual. O que mudava - e isso explica o tela, majoritariamente composta de ga- mesmo STF concederia habeas-corpus a
anunciado fechamento da "casa" de rimpeiros, Clarice da Mata e Sousa e Sônia Maria
dona Eni - era a forma de exercer a A lei brasileira não punia a prostitui- de Sousa, presas sob a acusação de es-
prostituição, que deixava progressiva- ção. Entretanto, em setembro de 1972, tarem fazendo trottoir.
mente de ser confinada ou semiconfi- A polícia, entretanto, não era a única
nada (em bordéis e zonas de meretri- dificuldade na vida das prostitutas.
cio). ELITE ESCORTS Apesar de terem uma clientela mais
Segundo estudiosos do assunto, a Estamos lhe esperando 24 específica, os prostitutos e travestis pas-
prostituição confinada ou semiconfi- horas com belas garotas e saram a ocupar as ruas e avenidas das
nada estava irremediavelmente com- rapazes. Nível classe A.
grandes cidades, não raramente deslo-
prometida à extinção no prazo de mais
Fone: 259-3903 cando as mulheres para outros "pon-
de uma década, pelo menos nos gran-
tos". A prostituição masculina, apesar
des cegitros urbarios. A estratégia, sem-
de antiga, só se tornou amplamente co-
pre respaldada em argumentos de or- for friends nhecida a partir dos anos 70. Praticada
dem moral e higiênica, de "resolver" o Bath House
problema da prostituição com o confi- em guetos, banheiros públicos, boites
Open every day a week gay, casas de massagens, saunas ou a
namento em zonas de meretrício não
ONLY FOR MEN domicílio, ela não diferia muito da fe-
resistia à pressão da especulação imobi-
Tels.: 570-9468 e 570-1887 minina: homens prestam serviços se-
liária. Também o semiconfinamento
não podia competir com os modernos xuais a outros homens.
motéis. é Quanto aos travestis, já em 1978,
O estudo já citado de Délcio Mon- SCORTS SERVICE estimava-se que pelo menos metade da
teiro de Lima revelava, por outro lado, Acompanhantes prostituição de rua da cidade de São
que, ao contrário do que se afirma fre- Paulo fosse exercida por eles. Sua
Classe, Sensualidade e Discreção clientela era constituída predominante-
quentemente, não eram os homens
mais jovens, que se estavam iniciando mente por homens maduros, de posi-
ção social elevada, muitas vezes ho-
na vida sexual, os que apresentavam
maior percentual de envolvimento com mossexuais não "assumidos".
prostitutas. De fato, ocorria exata-
Os sofisticados "templos"
mente o contrário: o percentual crescia
com a idade. Ele era de 11% na faixa sexuais do Brasil moderno
etária dos 15 aos 20 anos; 24% na faixa Em 1984, longe do brilho criado pela
dos 20 aos 30; 32%na faixa dos 30 aos imprensa em torho de Roberta Close, o
40; e 33% na faixa dos 40 ao 50. dia-a-dia dos travestis menos célebres
estava associado invariavelmente à vio-
Prostitutas eram mais Atraentes companhias onde há
lência. Não foram poucos os casos, aba-
nível e beleza não só física mas
procuradas pelos casados fados, de altos políticos e executivos
também cultural com jovens
envolvidos com travestis e vitimados
Também a procura de prostitutas universitárias, modelos e
por chantagens, extorsões e até agres-
não era um substitutivo para, a "vida se- manequins
sões físicas,
xual normal" supostamente proporcio- Atendimento rápido e
Ao lado das "casas de massagem"
nada pelo casamento, já que entre os peronalizado (inclusive casais)
para hetero e homossexuais, substitutas
Fones: 259-8282 - 255-7113
homens que se envolviam com prosti- sofisticadas dos velhos bordéis, os mo-
Atendemos a domicílio, hotéis e
tutas era maior o percentual de casados téis, frequentados também por casais
motéis.
(52%) do que de solteiros (48%). de namorados e até por maridos e mu-
A modernização acelerada do País lheres, eram os "templos" sexuais do
no pós-64, se não fez declinar a prosti- Na década de 80, anúncios Brasil modernizado. Nos anos 70,
tuição, multiplicou seu leque de moda- destacavam "acompanhantes" multiplicaram-se nos arredores de
lidades. Estudantes universitárias que universitárias (Revista Rádio Táxi L grandes cidades, e, em 1984, eles já ha-
faziam "bicos" nos fins de semana nos nov./84) viam conquistado a área urbana.
chamados "serviços noturnos" dos ho- Para os que não tinham dinheiro,
téis de luxo, acompanhantes para via- durante a feroz ditadura do general lembrava a revista carioca Ele e Ela ,
gens internacionais, trottoir motorizado Médici, o Jornal do Brasil noticiava vio- restava a opção dos drive-in , em muitos
eram, entre outras, as novas formas que lenta repressão policial às prostitutas da dos quais não era necessário sequer
adquiria a chamada "profissão mais an- cidade de São Paulo. Como os cárceres que o cliente estivesse motorizado: bas-
tiga do mundo", estivessem lotados e o secretário de tava "escolher o bom acabamento de
Fruto, porém, do desenvolvimento Segurança do Estado tivesse determi- um Simca Chambord ou o confortável
desigual do. capitalismo brasileiro, era nado que os recursos fossem concen- banco traseiro de um Aero-Willys",
comum, ainda em 1984, sobretudo nas trados "na guerra aos crimes contra o que se encontravam há anos estaciona-
regiões mais atrasadas do Nordeste, patrimônio", a tática adotada foi o es- dos em pequenos compartimentos.
que pais, inconformados com deflora- tabelecimento de pânico entre as pros-
mento de suas jovens filhas, as levas- titutas, que eram levadas para locais er- Márcia Micheli
288
BR DFANBSB VB.GNCAAMA, 041334 An AR, 3a

Yi
ARTES/TEATRO: história do teatro brasileiro

Luz/treva no palco

O confronto com o Regime Militar encerrou uma fase

brilhante e criativa do teatro brasileiro, que não teve liberdade para


continuar avançando. ""O Arena foi assassinado. O Oficina se suicidou"

"Não estamos atrás de novidades, esta- cendo. Destruída a democracia dos grande laboratório de idéias que foram
mos atrás de descobertas." palcos, nos anos seguintes também de- os palcos 20 anos antes. E, apesar do
(Oduvaldo Vianna Filho, dramaturgo ) finhariam as experiências pioneiras en- bom teatro que se fez na década de 70,
tão em pleno desenvolvimento. não surgiu daí um novo elenco à altura
O teatro brasileiro chegou a 1964 no Em 1984, o teatro brasileiro não ha- do que existia nos anos 60.
auge de um período de grande criativi- via ainda recuperado o antigo vigor. Em 1968, quando foi promulgado o
dade. A arte dessa época havia nascido Do seu grande elenco original, alguns Ato Institucional no 5, dando amplos
no final do período democrático ini- já não existiam, como Paulo Pontes poderes ao Regime Militar, Fer-
ciado em 1946 e entre os seus grupos (1940-76) e Oduvaldo Vianna Filho, o nando Peixoto, um dos artistas mais im-
mais importantes estavam o Arena e o Vianninha (1936-74). Outros, como Au- portantes dessa época, estava no Ofi-
Oficina, de São Paulo, e o núcleo tea- gusto Boal e José Celso Martinez Cor- cina, preparando uma peça do autor
tral do CPC da UNE, que formaria, rêa, haviam sido forçados ao exílio e só alemão Bertolt Brecht. Conta ele:
após o golpe, o Teatro Opinião, do Rio. retornariam após 1978. Afinal, os pou- "Dia 13 de dezembro, enquanto estáva-
Após anos de resistência à censura e à cos que continuavam em ação, como mos fazendo o ensaio geral de Galileu
violência, no entanto, estes e muitos Gianfrancesco Guarnieri e Plínio Mar- Galilei, ouvimos no rádio a decretação
outros grupos acabaram desapare- cos, não eram suficientes para recriar o do AI-5. A partir daí, o teatro foi per-
nr oranssa V8.GNCAMA 84041331 an co 2 ,p 33
dendo aquela força de reflexão, força
mais transformadora ( . . .). O Arena foi
assassinado, foi estrangulado pouco a
pouco. O Oficina se suicidou. Mas não
houve mortes naturais. São dois cami-
nhos provocados por uma violência re-
pressiva de fora."
O período tenebroso iniciado em
1968 perduraria até 1973, mas o AI-5 só
cairia em 1979. Assim, tentando impe-
dir o debate sobre os rumos que o País
estava tomando, o Regime Militar se
colocou em rota de colisão com o tea-
tro, que reivindicava liberdade para
avançar. "Exigem que não nos manifes-
temos sobre uma realidade dolorosa,
enquanto a denúncia, o debate e a dis-
cussão só podem contribuir para o en-
contro de soluções para os problemas"
(Viaggiinha, em 7968).
Acervo INACEN

A partir de 1750, surgem no


Brasil as "Casas de Ó/u'm"

O denominador comum da década


de 60, de fato, era a idéia de emancipar entre outros.
o teatro dos moldes estrangeiros. Era cano Hermilo Borba Filho (1917-76).
Profissionais competentes e experi- O primeiro grande sucesso do Arena
uma luta antiga. Até 1750, o Brasil nem mentados, esses diretores prestariam
teatros tinha. Foi por essa época que foi a montagem de Eles não Usam
diversos serviços de extrema relevância Black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri,
começaram a surgir as primeiras "Ca- para o País. Contribuiram certamente
sas da Ópera", essenciais para que as em 1958. Black-tie marcava o início de
para aprimorar a formação da nova ge- uma pesquisa teatral em nova direção,
montagens tivessem alguma regulari- ração de brasileiros que estava saindo
dade e continuidade no País. Em 1838, as condições sociais dos brasileiros,
da Escola de Arte Dramática, criada inaugurando o teatro político no País,
Gonçalves Magalhães escreveu no pro- em São Paulo também em 1948, Além
grama de sua peça Antonio José ou O O Oficina nasceu em 1958, inicial-
disso, foram importantes para atualizar mente procurando abordar temas
Poeta e a Inquisição: "Lembrarei apenas 0 Brasil com uma tendência em voga
que esta é a primeira tragédia escrita como a família. Foi o caso de A Incuba-
na Europa desde 1890: a unificação do deira, peça com que venceu o festival
por um brasileiro e a única de assunto espetáculo teatral sob a batuta do dire-
nacional." organizado em 1959 por um dos des-
tor. No Brasil, essa experiência fora rea- bravadores do . teatro nacional mo-
Menos de cem anos depois, o desen- lizada com sucesso em 1943, no Rio, derno, Paschoal Carlos Magno, criador
volvimento do País ainda avançava len- com Vestido de Noiva, peça do genial
tamente e a cultura continuava com do Teatro do Estudante do Brasil, em
Nélson Rodrigues, montada pelo dire- 1938. Mas, já em 1960, o Oficina en-
formidáveis problemas de fundo. O tea- tor polonês (depois naturalizado) Zibig- trava no repertório do Arena, discutindo
tro era em grande parte feito por ama- niew Ziembinski. Com o correr dos questões políticas como o campo.
dores e - o que era pior - para um pú- anos, essa tendência se firmaria em de-
blico pequeno e restrito. Apenas com a finitivo, A Arena e o Oficina aprendem
industrialização, de fato, em 1930, as A partir do TBC, multiplicaram-se as
mudanças se tornariam mais rápidas, para renovar o teatro no País
companhias independentes, tendo à
refletindo-se, no teatro, às vêsperas da frente futuros grandes nomes, como
Segunda Grande Guerra e logo após, Os dois grupos, além disso, iriam ab-
Sérgio Cardoso, Tônia Carrero, Paulo sorver influências semelhantes, como a
Em 1948, um industrial italiano, Autran, Fernanda Montenegro. Atra-
Franco Zampari, associou-se no Brasil do grupo realista americano Actor's
vês da Escola de Arte, revelavam-se Studio, e também os métodos de Sta-
a Francisco Matarazzo Sobrinho e Flávio Rangel, Antunes Filho, Zé
montou uma casa onde os grupos ama- nislavski, Mas não se tratava de mera
Celso, ampliando também o potencial adaptação: a idéia era aprender para
dores de São Paulo pudessem se apre- da dramaturgia brasileira. No Rio, realizar uma renovação completa do
sentar. Foi como surgiu o TBC (Teatro ainda, apareciam Millôr Fernandes,
Brasileiro de Comédia), precursor di- teatro brasileiro. Com o mesmo
Dias Gomes, Antônio Callado. espírito, passaram a recriar a obra de
reto das inovações que explodiram nos O Arena surgiria em 1953, alimen- grandes autores estrangeiros, como o
anos 60. Uma casa de espetáculos sem tado por essa grande expansão do tea-
igual no Brasil de então, confortável e francês Jean-Paul Sartre, o soviético
tro. Com esse grupo, deu-se uma gui- Valentin Katáiev, o americano Tenes-
bem equipada, o TBC foi o apogeu do nada radical nas concepções existentes see Williams e principalmente o ale-
teatro do ator - das grandes estrelas, de teatro e sua experiência seria assi- mão Bertolt Brecht.
encabeçadas certamente pela grande milada e reproduzida em vários pontos A década de 60 havia nascido do
Cacilda Becker. Mas o TBC iria além do País, do Teatro de Equipe, em TBC, mas também voltava-se contra o
disso: contou também com um exce- Porto Alegre, ao Movimento de Cul- velho esquema de fazer teatro. "O Tea-
lente conjunto de diretores, importados tura Popular de Pernambuco. Ou ao tro de Arena apareceu com outro jeito
da Europa por Zampari. Eram Adolfo Teatro Popular do Nordeste, fundado desde 0 início", afirmava Vianninha.
Celi, Ruggero Jacobbi e Gianni Ratto, pelo escritor e dramaturgo pernambu- "Mesmo sem uma linha cultural defi-
290
BRDFANBSB VB.GNC.AMA, S40O043a] ânCco2r 3 1934
%1
Vestido de Noiva (na pág. ao lado), de
Nélson Rodrigues, dirigida por
Ziembinski, Rio, em 1943, é um marco no
teatro brasileiro. Pela primeira vez,
unifica-se o espetáculo sob a batuta do
diretor. Com o surgimento do Arena, em
1953, há uma guinada radical, marcando
uma nova direção: a realidade dos
trabalhadores. O início disso é Eles não
Usam Black-Tie, de Guarnieri (ao lado L
Guarnieri e Francisco de Assis na
montagem de 1958). Fundado em 1958, o
Oficina entraria no repertório do Arena
em 1960, levando longe a discussão da
nossa realidade imediata, mesmo usando
textos estrangeiros, como Pequenos
Burgueses, de Máximo Gorki, espetáculo
dirigido por José Celso Martinez Corrêa.
Abaixo, montagem de 1963, com Raul
Cortez e Itala Nandi

Iconographia
nida, surgia mais adequado às condi-
ções econômicas e sociais. Sem poder
apoiar-se em figuras de cartaz, cenários
bem feitos, em peças estrangeiras de
sucesso comercial, mais cedo ou mais
tarde teria de apoiar-se na parcela poli-
tizada do público paulista."
Em 1956, Boal ajudaria a organizar o
novo teatro. A idéia era o aproveita-
mento máximo de recursos. Não havia
funções estanques de ator, diretor, ilu-
minador. E os artistas ainda aprendiam
e trabalhavam na área de finanças, ad-
ministração e publicidade. "A época de
mecenas acabou, agora começa a dura
realidade", afirmaria Vianninha, numa
alusão à figura de Zampari.

Iconographia
Ao contrário do TBC, que era uma
empresa média, propriedade de um
protetor das artes, os novos grupos se
mantinham por conta própria - uma
pequena empresa formada a partir de própria estréia do grupo Opinião, em gina. Foi uma mostra do quanto o novo
uma subscrição inicial de capital entre co-produção com o Arena e encenado teatro aproveitou e valorizou a música
alguns sócios: os próprios artistas, que no Rio. Era o musical Opinião, de popular.
dependiam da bilheteria para viver. vários autores, dirigido por Boal. Para Mas se o Opinião nasceu com o
Os novos grupos enfrentaram a eclo- Fernando Peixoto, era "uma forma (e golpe, o Centro Popular de Cultura, da
são do golpe militar defendendo-se fórmula) de protesto que teve sucesso UNE, desapareceu nessa época. Antes
com as forças que tinham. O primeiro imediato e grande repercussão". Já de ajudar a fundar o Opinião, no final
grande sucesso do Oficina foi Pequenos marcava o período de resistência, de 1964, junto com Paulo Pontes, De-
Burgueses, peça de 1902, de Máximo quando, segundo acreditava Vianninha, noy de Oliveira e João das Neves, Vian-
Gorki, onde Zé Celso utiliza seus re- o teatro passava a deixar na história ninha já havia passado do Arena para o
cursos extraordinários de encenador "não a obra, mas a posição". CPC. A idéia, ventilada inicialmente
para transformar um texto estrangeiro Arena Conta Zumbi veio em seguida, pelo diretor Francisco de Assis, era ten-
em um texto nacional. A peça já vista ainda em 1965, mas agora em São tar popularizar ainda mais o teatro,
por 27 mil pessoas desde o ano ante- Paulo. Boal e Guarnieri contaram a levando-o aos sindicatos e outras orga-
rior, ainda estáva em cartaz quando o história de Zumbi, negro que chefiou a nizações populares que nessa época
golpe de 64 obrigou os artistas a um resistência do Quilombo de Palmares, fervilhavam de atividade. O CPC foi
"veraneio forçado no litoral", lembra- refúgio de escravos do século 15. montado em dezembro de 1961 e apro-
ria Fernando Peixoto. Zumbi era um musical, com música de vado no Congresso da União Nacional
O teatro levou algum tempo para es- Edu Lobo. Uma de suas composições, dos Estudantes (UNE) como o seu ór-
boçar a reação ao golpe, no entanto. Upa Negrinho, Upa!, tornou-se muito gão cultural. Apesar disso, tinha auto-
Um dos primeiros contra-ataques foi a popular depois de gravada por Elis Re- nomia administrativa e financeira: ga-
291
BR DFANBSB VB8.GNC. - S4O044 33 )anco2, p 35

do teatro brasileiro apareceriam de ou-


tra forma quando o Serviço Nacional
de Teatro (SNT), um órgão do go-
verno, passou a contar com verbas re-
ais, e não fictícias, como ocorrera entre
1966 e 1974 - quando fora o "órgão
mais inútil do País", segundo o crítico
Sábato Magaldi. Seu diretor a partir daí
fora Orlando Senna, que "fazia o que
podia" para melhorar a situação do
teatro. Em 1977, no entanto, o que
Senna podia não foi suficiente para im-
pedir que uma peça premiada pelo
SNT, Rasga Coração, de Vianninha,
fosse simplesmente engavetada pelo
ministro da Justiça da época, Armando
Falcão.
Mas, afinal, nem isso impediria que o
teatro continuasse, embora precaria-

Iconographia
mente, a produzir boas peças e tomasse
iniciativas ousadas. Em 1975, Chico
Buarque produziria Gota D'Água, em
parceria com Paulo Pontes; em 1978,
Mesmo após :o golpe de 64, inúmeras peças atestaram o vigor
do novo teatro, Acima, Chico Buarque paresentaria Ópera do
cena de Morte e Vida Severina, representada em 1969,
em São Paulo Malandro, uma livre adaptação do texto
de Brecht. Trate-me Leão, em 1977,
nhava a vida como os outros grupos. blico era o mesmo que tivera o TBC, mostrou o excelente trabalho de um
Seus diversos núcleos disseminaram-se segundo observou Vianninha em 1968 novo grupo, Asdrúbal Trouxe o Trom-
principalmente através das universida- Casa de Chá Luar de Agosto, do ame- bone. Macunaíma, de Mário de An-
des do País, desenvolvendo um pro- ricano John Patrick, fora vista por 60 drade, foi uma montagem de extraordi-
grama exaustivo de trabalho que se es- mil pessoas em 1956. Um êxito seme- nária repercussão em 1978, Realizado
tendia também ao cinema, livros, revis- lhante. de 1965, a peça Liberdade, Li- por Antunes Filho, foi um espe-
tas e seminários. Em sua curta vida de berdade, de Millôr Fernandes e Flávio táculo de seishoras que envolveu seis
dois anos, visitou camponeses, favelas e Rangel, teve 50 mil espectadores. meses de ensaio do elenco,
as periferias das grandes cidades. Fauzi Arap, em 1975, concluía que o Antunes Filho realizava o seu traba-
O golpe não impediu que os outros desfecho foi uma ruptura no nível de lho, nessa época, através do Grupo
grupos continuassem a fazer sucesso. criatividade atingido em 1964. "Desde Pau Brasil, procurando aproveitar ao
Ao contrário disso, inúmeras peças 1971 não temos um grupo estável e de máximo o imenso potencial do teatro
atestaram o vigor do novo teatro. Por importância fazendo teatro no País e ainda latente no final da década de 70.
exemplo, a montagem histórica do Ofi- dando continuidade àquele trabalho." Utilizava inclusive amadores dispostos
cina de 1967, O Rei da Vela, uma mira- Daí porque a década de 70, para mui- a fazer teatro e sem encontrar Oportu-
bolante recriação do texto de Oswald tos, foi o período das grandes empresas nidade. Que esse potencial existia, nin-
de Andrade que causou impacto inter- no teatro brasileiro - uma evolução guém podia duvidar - mesmo entre os
nacional. Morte e Vida Severina, do "natural", dizia Arap, em função do artistas profissionais, onde o desem-
poeta João Cabral de Melo Neto, foi alto nível técnico atingido pelo teatro prego, em 1979, era de 80%, segundo
montada em 1966 pelo Teatro da Uni- desde o TBC. "Hoje, o esquema é o da Cláudio Mamberti, então na presidên-
versidade Católica (TUCA), de São great production (superprodução)", as- cia do Sindicato dos Artistas de São
Paulo. Com esta peça o grupo venceu o segurava em 1975 o produtor Henrique Paulo. Mas era também vigoroso o mo-
mais importante festival de teatro, o de Suster, responsável pela montagem da vimento amador, que voltou a se disse-
Nancy, na França. peça Equus. "O franco-atirador fatal- minar após a anistia, em 1978,
Apesar do sucesso, porém, o teatro mente sucumbe", concluía ele. formando-se inúmeros grupos em bair-
foi perdendo sua força. O Arena Essa evolução foi muito facilitada ros, sindicatos, escolas, no movimento
extinguiu-se em 1971. O Oficina seguiu pela ação econômica e não apenas negro e outros,
com Zé Celso para o exílio, em 1974, política da censura. O exemplo mais Nessa época, esperava-se que os au-
tentando sobreviver no Exterior, inclu- claro foi a companhia de Fernanda tores simplesmente abrissem as gavetas
sive em Portugal. O Opinião, que pro- Montenegro, que, em 1973, tentou en- e recomeçassem de onde haviam pa-
curou ampliar a resistência atraindo cenar Calabar, de Paulo Pontes e Chico rado há mais de dez anos. Mas isso só
profissionais menos comprometidos Buarque. Era a montagem mais cara aconteceria, dizia Guarnieri, em 1979,
politicamente, perdeu a equipe gra- do teatro até então: 400 mil cruzeiros à se o teatro pudesse novamente procurar
dualmente, João das Neves, solitaria- época. Mas a peça foi "avocada" pelo e ampliar o seu público. "Sem esse
mente, ainda conservava o nome do governo, que a segurou durante meses, mergulho", alertava o autor de Black-
grupo em 1983, para então vetá-la, causando imenso Tie, "ficaremos nisso: um teatro onde
O novo teatro, de fato, dera um salto prejuízo à companhia. Dois anos de- 90% da produção não são divulgados,
qualitativo no "plano cultural", no di- pois, em 1975, Fernanda Montenegro produção de pequenos grupos, de gen-
zer do diretor Fauzi Arap. Mas não receberia golpe semelhante, desta vez te que trabalha nas piores condições,
teve tempo nem condições para com Um Elefante no Caos, de Millôr mas que está realizando. Esse é o mate-
consolidar-se em termos práticos. Na Fernandes. 8 rial rico que pode dar um impulso em
verdade, a partir do golpe, o seu pú- Intromissões semelhantes na linha nosso teatro em geral".
292
A tarefa maior e mais traumákca do
novo Exército foi atacar e conquistar
Canudos, o reduto dos sertanejos agru-
pados em torno de Antônio Conse-
lheiro, no sertão da Bahia. Entre no-
vembro de 1896 e outubro do ano se-
guinte, a população do arraial enfren-
tou quatro expedições militares, que re-
uniram no total mais de 11 mil soldados
e 19 canhões. A vila só foi destruída
pela quarta expedição.
A derrota das três primeiras expedi-
ções causou um verdadeiro trauma na-
cional. E mesmo a vitória final teve um
sabor amargo, quando se revelaram as

Biblioteca Nacional
violências cometidas pelos soldados
contra os sertanejos feitos prisioneiros.
O aperfeiçoamento técnico das For-
ças Armadas se fez combatendo o ini-
migo interno. A primeira utilização da
nossa força aérea em operações de
Para esmagar Canudos, o Exército enviou quatro expedições, num total de 11 mil combate, com os aviões fazendo mis-
soldados sões de reconhecimento, foi na campa-
POLÍTICA/MILITARES: a repressão a movimentos populares nha contra o Contestado (1912 - 15),
uma rebelião de camponeses sem terra
que eclodira na fronteira entre o Pa-
raná e Santa Catarina.
0 inimigo no 1
Com o golpe, chegam ao poder
Da origem aos dias de hoje, as nossas Forças Armadas foram militares doutrinados na ESG
usadas em ações repressivas. No alvo das armas, um inimigo Se, através de toda a nossa história,
surpreendente: o povo brasileiro as Forças Armadas foram utilizadas
como milícia repressora da população,
o que caracteriza o período pós-64 é
No dia 2 de abril de 1980, cerca de 50 gadas de reprimir a Confederação do que, no nível da doutrina, essa ativi-
mil metalúrgicos em greve realizavam Equador - uma tentativa de aglutinar dade passa a ser justificada, explicada e
uma assembléia, no estádio da Vila Eu- as províncias do Nordeste numa repú- reforçada.
clides, em São Bernardo do Campo, blica federativa. Pode-se dizer que o golpe militar de
em São Paulo, quando foram surpreen- Em 1834, toda a província do Pará se 1964 significou a tomada do poder pelo
didos pelos vôos rasantes de dois heli- levantou em armas e conseguiu, no ano setor das Forças Armadas orientado
cópteros do Exército, equipados com seguinte, constituir um governo. A re- pela doutrina gerada na Escola Supe-
metralhadoras. Apesar do insólito da si- volta, conhecida como a Cabanagem, rior de Guerra (ESG). Esta se organi-
tuação, não foi a única vez durante teve um cunho nitidamente popular. A zou, em 1949, tendo como modelo o
aquela greve que os operários se viram repressão foi intensa e generalizada, National War College americano. Mas,
frente a frente com o Exército brasi- provocando cerca de 40 mil mortes desde o início, diferenciou-se de seu
leiro, que parecia ter e mesmo triste numa população que não chegava a modelo original, por estar mais voltada
destino dos demais exércitos latino- 100 mil pessoas. para os aspectos internos e menos para
americanos: o de estar mais preparado Apesar do sucesso em reprimir estas a defesa do País de um ataque externo.
para combater seu próprio povo do que e outras revoltas, o Exército perdeu a A concepção que nasceu e se desen-
inimigos externos. confiança das classes governantes, por- volveu na ESG se caracteriza por inter-
Desde sua origem, nossas Forças Ar- que parte das tropas sempre aderia às relacionar os temas da segurança e do
madas foram utilizadas em ações repres- revoltas. Assim, para sua garantia, as desenvolvimento. Só o desenvolvi-
sivas. Nosso processo de independên- oligarquias criaram, em 1831, a Guarda mento econômico do País poderia ga-
cia, tendo sido basicamente conserva- Nacional, cujos membros seriam arre- rantir a sua segurança e só um clima de
dor, gerou, para os novos dirigentes, a gimentados entre os cidadãos com alta segurança podia permitir o desenvolvi-
necessidade de combater ao mesmo renda, para se encarregar da repressão mento. Garantir esse clima de segu-
tempo as últimas resistências portugue- interna. Ao Exército, desprestigiado e rança significava minimizar as fontes de
sas e as tentativas de fazer acompanhar reduzido, restaria a tarefa de preservar cisão e desunião e seria tarefa das For-
a separação de Portugal de algum tipo o País contra agressões externas. cas Armadas.
de alteração na situação política e eco- A situação só se inverteria como Por essa concepção, as elites do País
nômica. consequência da Guerra do Paraguai são "a mola propulsora do processo de
Na tarefa de organizar suas Forças (1865-1870). Novamente fortalecido mudança" (Manual Básico da ESG,
Armadas, a nova Monarquia contou por sua conduta vitoriosa na guerra, o 1977), enquanto o movimento operário
com o apoio inglês. Lorde Cochrane, Exército voltou a ser o guardião da si- e popular se torna alvo potencial das
que participara da luta pela indepen- tuação interna, enquanto a Guarda Na- políticas de segurança. Ele passa a ser
dência, já em 1824 comandava a força cional só seria convocada em caso de visto como fator de cisão. Por um lado,
naval que deslocou as tropas encarre- ameaça externa, como força auxiliar. porque, no entender dos formuladores
293

BR DFANBSB VB.GNC.AAA, p 26
de 3
da doutrina, os trabalhadores tende
- O Exército contra o
riam a colocar suas necessidades cor-
povo: em 68, no Rio,
porativas acima dos interesses nacio
- reprime manifestações _
nais e, por outro, porque seriam sus-
estudantis (ao lado); em
cetíveis às influências da propagan
da 70, na Amazônia, em
comunista.
treinamentos
Nas palavras de um tenente-coronel
antiguerrilha (abaixo);
falando a empresários do sul do País,
em abril de 80,
em dezembro de 1964: "Nós, soldados,
helicóptero sobrevoa a
procuramos conservar a ordem, para
assembléia dos
que vocês, empresários, arriscando
, metalúrgicos, em São
criando, produzindo e multiplicando,

Iconographia
Bernardo do Campo
possam nos dar o progresso."
(SP)
Em quatro anos, o campus da
UNB foi ocupado sete vezes
As Forças Armadas, então, come-
cam a preocupar-se cada vez menos
com suas tarefagclássicas. Um exemplo
diss& pode ser encontrado na evolução
do currículo da Escola de Comando do
Estado Maior das Forças Armadas. Em
1956, ele não continha qualquer refe-
rência à guerra contra-guerrilhas, A
partir de 1961, os cursos sobre essas
questões já se faziam presentes. Em
1968, o currículo destinava 222 horas-
aula para a questão da segurança in-
terna, 129 para a guerra irregular e ape-
nas 21 eram dedicadas aos tópicos
relacionados à defesa do território,
Apoiadas na Doutrina da Segurança
Nacional, as Forças Armadas brasile
i-
ras, no período do Regime Militar,
in-
vestiram contra todos os setores
do
povo brasileiro: operários, estudantes,
camponeses e intelectuais.
Em julho de 1968, reprimindo um
surto grevista, o Exército ocupou mili-
tarmente a cidade de Osasco, em São
Paulo, e deu cobertura à invasão
da
empresa Cobrasma pela Polícia Mili-
tar, que prendeu cerca de 400 ope-
rários,
O campus da Universidade de
Brasília foi ocupado sete vezes entre
1964 e 1968. Na primeira vez, em abril
de 1964, a biblioteca central ficou inter-
ditada por 16 dias; na segunda, em
agosto de 1968, um estudante foi atin-
gido na cabeça por uma bala calibre 43.
Ricardo Malta/F4

O CRUSP (Conjunto Residencial da


Universidade de São Paulo) também
foi invadido várias vezes naque
le
período. A procura de armas, as tropas
que O ocuparam, em dezembro alimentos para os guerrilheiros. Tais
de tantos os camponeses presos que eram
1968, ali permaneceram por três meses denúncias se generalizaram depois
. das mantidos em buracos cavados no chão
As tropas do Exército que tomaram três campanhas de cerco e aniquila-
0 vale do Ribeira, em São Paulo, no e cobertos com arame,
mento que as Forças Armadas promo
primeiro semestre de 1970, na tentativa - Na ânsia de combater todas as mani-
veram na região do Araguaia, no sul do
de cercar e prender membros da orga- festações de inconformismo e protesto
Pará, entre abril de 1972 e janeiro de
nização Vanguarda Popular Revolucio- ou mesmo lutas puramente reivíndica
1975, contra guerrilheiros liderados -
nária (VPR) que tinham instalado ali tórias, os militares chegaram a voltar-se
pelo Partido Comunista do Brasil. A
uma base de treinamento, sob a lide- contra si mesmos. Os fuzileiros navais
violência foi utilizada indiscriminada-
rança do ex-capitão do Exército Carlos encarregados de reprimir a greve de
mente contra a população trabalhadora
Lamarca, foram acusadas de assassinar oficiais e soldados da Polícia Militar da
da região, pequenos comerciantes, pa-
um casal de camponeses que fornecera Bahia, em março de 1981, mataram um
dres e freiras. Em alguns períodos eram
tenente e feriram gravemente outro.
294

BR DFANBSS V3.GNC.aaA, 1041334 an co 2


, p3r
er oraness ve.encam, R40433Jânco2, p38

%1
REGIÓES/NORDESTE: a política agrícola da SUDENE
O propósito da SUDENE era reali-
zar ensaios de fertilização nestes tabu-
leiros costeiros e, no momento em que
tivesse conhecimento de como
Verso e reverso
aproveitá-los no cultivo econômico de
alimentos, iniciar o processo de desa-
No período 1960-64, a SUDENE apresentou vários projetos propriação por interesse social dessas
para os problemas da população nordestina que, em 1984, só áreas abandonadas.
Por outro lado, enquanto se realiza-
serviam a poucos privilegiados
» vam as pesquisas para saber como cor-
rigir a acidez dos solos de tabuleiros, a
SUDENE teve a oportunidade impar
No período entre 1960 e 1964, o de fazer uma experiência no campo da
plano da SUDENE (Superintendência organização econômica e social na
do Desenvolvimento do Nordeste) para zona úmida do Nordeste. Os trabalha-
a agricultura nordestina estava apoiado dores rurais de cinco engenhos da
no estudo da realidade da região e Usina Salgado, no município do Cabo,
constava dos seguintes programas prio- em Pernambuco, tinham entrado em
ritários: 1) produção. de alimentos na greve e não havia acordo. Usineiro e
zona umida do Nordeste ; 2) desenvolvi- trabalhadores procuraram a SUDENE
mento no semi-árido de uma agricultura para dar uma solução, pois já tinham
resistente aos efeitos da seca; 3) esgotado as negociações junto ao Mi-
colonização do Maranhão; 4) desenvolvi- nistério do Trabalho e outras autorida-
mento da irrigação no São Francisco. des. Nessa oportunidade, o Departa-
mento de Agricultura e Abastecimento
Produção de alimentos da SUDENE propôs ajudar os campo-
na zona úmida neses na organização de uma Coopera-
tiva de Trabalho para explorar as terras
O programa de produção de alimen- dos engenhos de Tiriri, Massangana,
tos na zona úmida, uma das poucas
Algodoais, Serraria e Jardim e
áreas existentes no Nordeste isentas do
constituir-se em fornecedora de cana
problema da seca, tinha como principal
para a Usina Salgado. Aceita a pro-
objetivo combater a fome secular que
posta, depois de um trabalho de cons-
se abate sobre aquela região do País.
cientização dos camponeses sobre or-
A produção de alimentos deveria ganização de cooperativa e trabalho
desenvolver-se com base nas terras li-
Solano Jos&/Abril Press

comunitário, foi organizada a Coopera-


beradas pela modernização do com- tiva de Tiriri e eleita a primeira direto-
plexo agroindustrial da cana-de-açúcar ria, formada integralmente de campo-
do Nordeste. A SUDENE iniciou con- neses. A cooperativa firmou um con-
tatos com usineiros no sentido de pro- trato de fornecimento de cana à Usina
por um plano de modernização da agri- Salgado, ao preço oficial; o pagamento
cultura da cana e reaparelhamento das
usinas, Os investimentos necessários se- em
riam financiados pelo governo e parte
desta inversão paga com terras libera-
das, que seriam entregues à SUDENE,
Esta proposta despertou interesse dos
usineiros mais progressistas, mas não
logrou o consenso da classe, que rejei-
tou a oferta. A oligarquia agrária da
cana-de-açúcar não era tão progressista
como a SUDENE pensava, e era muito
mais apegada à terra do que se poderia
prever. O primeiro sonho frustrou-se.
A SUDENE iniciou então um estudo
sobre os tabuleiros da região litorânea e
delimitou áreas totalizando aproxima-
damente 3 milhões de hectares, exis-
tentes entre Salvador e Fortaleza, todas
Júlio Jacosina/Abril Press

elas servidas de infra-estrutura de estra-


das pavimentadas, energia elétrica e
próximas aos principais centros consu-
midores do Nordeste. Esta vasta exten-
são de terra estava praticamente deso-
cupada, pois se tratava de solos muito
lavados, de baixa fertilidade, para os
quais não se conheciam técnicas eco- Em 1983, as terras irrigadas pelo São Francisco produziam finas uvas para exportação
nômicas de manejo. (acima), tomates para suco (ao alto) e álcool para automóveis
295
5R DFANBSB V8.GNC;AAA, 002, p 39

do arrendamento das terras seria reali- apresentam melhores condições de to- desenvolvimento da pecuária no semi-
zadoem base a 10% da produção bruta pografia para sua expansão. árido baseava-se fundamentalmente na
de cana colocada na Usina. A Coope- A região semi-árida abarca quase melhoria da alimentação do rebanho.
rativa pagava salário mínimo aos traba- dois terços da área do Nordeste, com Em grandes áreas do sertão, o gado era
lhadores por uma quantidade fixa de cerca de 1 milhão de quilômetros qua- miúdo e com visíveis características de
cana cortada e adicionais pela margem drados, e abriga uma população de raquitismo, por falta suficiente de ali-
de produção alcançada acima destes aproximadamente 20 milhões de habi- mentação. A perfuração de poços, e
níveis fixados. No fim de cada ano agri- tantes. consequente descentralização das
cola, o balanço da Cooperativa, depois Nessa região, a seca periódica dizima aguadas, permitiria melhor aproveita-
de proceder à integralização do fundo as lavouras e quebra o equilíbrio entre mento das pastagens, evitando maior
de capitalização, distribuia 50% dos lu- a população e os recursos existentes e pisoteio e destruição dos pastos.
cros entre os trabalhadores, de acordo os nordestinos se transformam em fla- A perfuração de poços foi uma ação
com o trabalho aportado por cada um gelados e retirantes. de impacto. O poço não seria mais per-
durante o ano.
furado nas fazendas dos grandes pro-
A SUDENE dava assistência técnica Agricultura resistente
prietários e chefes políticos locais,
na elaboração do plano anual de cul-
à seca no semi-árido constituindo-se em propriedade pri-
tivo e corte de cana, assim como na ges-
vada. A SUDENE estabeleceu priori-
tão da Cooperativa. Os camponeses O programa da SUDENE para esta dade para a perfuração de poços públi-
assumiram as tarefas cotidianas de im- área foi concebido para enfrentar essa cos nos povoados, não só para atender
plantação dos cultivos e administração dura realidade. Em primeiro lugar, a às necessidades da população humana
da Cooperativa. Retiraram as mulheres SUDENE concentrou os recursos fede- carente d'água, mas também como sus-
e meninos do árduo trabalho da cana. rais num plano de ação prioritário (Pri- tentação do desenvolvimento da pe-
As mulheres, com assistência da SU- meiro Plano Diretor), a fim de evitar a cuária.
DENE, organizaram um programa de atomização dos recursos em obras sem Depois de 1964, o governo apoiou-se
aprendizagem de corte e costura e pro- importância e combater o clientelismo no poder dos latifundiários do semi-
dução de roupas para os trabalhadores político institucionalizado no Nordeste. árido. Em consequência, os subprogra-
rurais de Pernambuco. Os meninos iam Assumiu também o controle do Plano mas para a região só foram implanta-
às escolas e os adultos frequentavam de Emergência contra as Secas, distri- dos nas partes que beneficiavam os
cursos noturnos de alfabetização. Tal- buindo as obras programadas com as grandes proprietários e chefes políticos
vez pela primeira vez, foi posto em prá- entidades especializadas e procedendo locais.
tica no meio rural o método de alfabeti- à fiscalização de sua execução. Por úl-
zação do professor Paulo Freire. timo, passou a distribuir os alimentos Colonização
Os problemas internos de gestão da nas frentes de trabalho. )
do Maranhão
Cooperativa eram resolvidos com certa No setor agropecuário, a SUDENE
facilidade. Contudo, aqueles derivados adotou uma estratégia no sen- A SUDENE, através de seus estudos
de contatos externos da Cooperativa, tido de desenvolver uma agricultura re- sobre o Nordeste, constatou a existên-
principalmente no que se refere à ob- sistente aos efeitos da seca. Nesse sen- cia de uma progressiva corrente migra-
tenção de crédito e compra de equipa- tido, definiu subprogramas para o semi- tória de cerca de cinco mil famílias por
mentos e insumos, se constituiram em árido, entre os quais o desenvolvimento ano do sertão de Pernambuco, Paraíba,
sérios obstáculos. A cooperativa de tra- da pecuária. Rio Grande do Norte e principalmente
balhadores era uma exceção, difícil de O subprograma da SUDENE para o do Ceará e Piauí para as áreas de Ca-
se relacionar com o sistema bancário e
com os fornecedores de insumos,
Depois de 1964, a ação foi no sentido
de descaracterizar o trabalho comuni-
tário desenvolvido pelos camponeses
de Tiriri. As terras dos engenhos foram
parceladas e vendidas a cada família
camponesa, Os camponeses sabiam
que era difícil manter cultivos de cana
em pequena escala, pois este cultivo só
é econômico quando produzido em
larga escala. Contudo, ante a alterna-
tiva de ficarem sem nada, aceitaram a
imposição do parcelamento das terras.
Entraram na Cooperativa alguns ele-
mentos estranhos, que não eram cam-
poneses. Como era de se esperar, estes
foram comprando as parcelas dos de-
mais e concentrando a propriedade da
terra. Em 1984, a Cooperativa de Tiriri
estava disvirtuada e em plena crise.
Quanto ao programa de fertilização
de tabuleiros, para produção de ali-
mentos, foi imediatamente desativado.
Em seu lugar, com o advento do Proál-
Abril Press

cool, seria intensificado o cultivo da


cana-de-açúcar nos tabuleiros que
296
BRDFANBSB V8.GNC;AAA, 041334 anõo2 , p40

Os planos da SUDENE, anteriores a meeiro na esteira do latifúndio em for- não gerou emprego, pois a criação de
1964, incluíam a perfuração de poços mação ou ganhar a estrada e abrir ou- gado extensiva requer apenas duas jor-
públicos nos povoados. Com o golpe, tro roçado mais adiante, em terra pú- nadas de trabalho por hectare ao ano:
técnicas sofisticadas foram aplicadas nas blica, que lhe renovava a ilusão de ter se bem melhorou a oferta de carne, não
grandes propriedades (pág. ao lado), um dia o seu próprio chão. contribuiu para aumentar a produção
enquanto a população carente de água O Estado do Maranhão, através de de azeite no Nordeste, assim como de
usava meios tradicionais para o lei estadual de 1961, colocou as terras outros alimentos, nem gerou exceden-
abastecimento (acima) compreendidas entre os rios Pindaré e tes exportáveis e suas consequentes di-
Turiaçu, ao longo da atual BR-316, à visas; desencadeou um processo vio-
xias, Bacabal e Pindaré-Mirim no Ma- disposição da SUDENE para o projeto mento de erosão e desequilíbrio ecolo-
ranhão, à medida que se abria a BR- de Colonização do Maranhão. gico emtoda a região compreendida en-
316, ligando o Nordeste seco à Amazô- O projeto previa a incorporação tre o Pindaré-Mirim e a fronteira do
nia. Em 1960-61, quando a SUDENE anual de umas cinco mil famílias, pois o Pará.
estudou esta corrente migratória, a po- processo migratório se estava desenca-
pulação migrante entrava pela picada deando num rito acelerado. A SU- Irrigação na região
aberta para a costrução da estrada. Os DENE, então, preparou uma estratégia da bacia do São Francisco
nordestinos forjavam com sacrifício para enfrentar os problemas de manejo
mais uma saga na história de sua sobre- dos solos; estudou as melhores formas O rio São Francisco é conhecido
vivência. de nucleação para ordenar o povoa- como o rio da integração nacional. A
A população camponesa, tangida mento da região e assessorou a organi- bacia hidrográfica do São Francisco
pela agrura das secas, ia em busca de zação de uma cooperativa central, para abarca uma área de aproximadamente
novas terras para reconstruir suas vi- garantir o abastecimento de insumos à 670.000 quilômetros quadrados. Colo-
das. Alimentava a esperança de conse- produção e comercialização das colhei- nizada desde o século 17, constituiu-se
guir um pedaço de chão. Contudo, a tas. na principal via de comunicação inte-
omissão premeditada do governo facili- Depois de 1964, a SUDENE, junto rior entre o sul do País e o Nordeste até
tava a grilagem das terras e sua reparti- com o Banco Mundial, redefíniria a os anos 40, quando, com o bloqueio
ção entre empreiteiros e políticos lo- orientação do projeto de Colonização marítimo das costas brasileiras durante
cais. Depois de formados o roçado e do Maranhão. O desenvolvimento da a Segunda Grande Guerra, iniciaram-
a plantação de arroz, aparecia o grileiro pecuária passou a ter prioridade. O se os primeiros esforços para implantar
para cobrar ao camponês a "meia" e, Banco Mundial financiou a formação uma infra-estrutura rodoviária de inte-
caso não fosse atendido, botava a polí- de pastagens e o desenvolvimento da gração do interior do Nordeste com o
cia em cima do "invasor" para obrigá- criação de gado na área. Este projeto resto do País.
lo ao pagamento do "tributo". O cam- foi danoso por vários motivos: concen- O São Francisco corta uma vasta re-
ponês tinha que optar entre ficar como trou a propriedade da terra e da renda; gião de caatingas secas dos sertões da
297
Br DranNBSB Va.GNC.AMA, 4043342002 , p44

Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. vos de mercado mais importantes de- só poderia gerar uma grande oferta de
Esta área, por suas características fa- senvolveram-se dos anos 50 em alimentos no sertão e aplacar a fome
voráveis à criação de gado, foi o centro diante, no médio São Francisco: em secular do Nordeste, como daria para
mais importante de desenvolvimento Pernambuco, com a cultura da cebola, abrigar diretamente cerca de 50 mil
da pecuária extensiva da zona seca no principalmente em Cabrobó; com o ar- famílias de pequenos produtores agri-
Brasil, desde a época colonial. oz, nas vazantes das várzeas alagadas colas, com um nível de renda elevado,
Até os anos 50, antes da construção do baixo São Francisco, em Alagoas e além de gerar mais 300 mil empregos
da Usina Hidrelétrica de Paulo Afonso Sergipe, assim como nas "lagoas de ar- indiretos (transporte, comercialização,
(1954), a irrigação no São Francisco era roz" formadas ao longo das margens agroindústrias, bancos, pesquisas e as-
incipiente. As populações ribeiri- pelo transbordamento anual do rio. sistência médica); 3) as amplas áreas da
nhas aproveitavam as vazantes para, A SUDENE estudou o São Fran- região oeste da Bahia, que vão da mar-
nas terras umedecidas e fertilizadas cisco e as primeiras conclusões foram gem esquerda do São Francisco até a
pelo húmus trazido pelo rio, estende- as seguintes: 1) o rio São Francisco ti- fronteira do Estado de Goiás, cujas ter-
rem progressivamente suas culturas de nha uma grande potencialidade de pro- ras na sua maioria eram de propriedade
arroz, jerimum, batata-doce, milho e dução de alimentos à base de irriga- do Estado, ficariam como uma grande
feijão de corda. Essas "culturas de va- ção, pois os primeiros trabalhos revela- reserva para programas futuros de co-
zantes" garantiam a subsistência da po- ram que existiam aproximadamente lonização e de produção de alimentos;
pulação, Os excedentes eram comer- 150 mil hectares de terras baixas e de 4) por último, o trabalho revelou que a
cializados nos centros urbanos dos ser- caatingas aptas para a irrigação; 2) o SUDENE não poderia contar com a
tões nordestinos entro da área de in- aproveitamento progressivo desses 150 cooperação da Comissão do Vale de
fluência do "Grande Rio". Os culti- mil hectares com culturas irrigadas não São Francisco (CVSF), pois este orga-
nismo federal especializado no aprovei-
tamento dos recursos do vale era pri-
sioneiro de poderosos políticos corrup-
tos da Bahia e Pernambuco. Com a im-
possibilidade de superar a situação
existente, a SUDENE teria que enfren-
"| 3? f tar diretamente os problemas da irriga-
ção no São Francisco.
#a
>" F/A
d Assim, foi iniciada a primeira expe-
29 riência da SUDENE em Bebedouro,
entre Juazeiro, na Bahia, e Petrolina,
3 em Pernambuco, que contou com a
* ) cooperação da FAO, organismo das
Nações Unidas.
+ | A partir de 1974, a autoridade fede-
-" "" ral encarregada dos projetos de irriga-
€ duma

ção e desenvolvimento do rio é a CO-


%

Pa 2a DEVASF (Companhia de Desenvolvi-


mento do Vale do São Francisco). A
CODEVASF, mesmo tendo conheci-
mento dos trabalhos da SUDENE so-
bre a grande subocupação existente no
Jem Nordeste e a necessidade de aumentar
a produção de alimentos a fim de mino-
rar as deficiências alimentares e garan-
tir o abastecimento da área, deu prio-
riedade ao desenvolvimento de destila-
rias do Proálcool, de usinas de açúcar e
de grandes empresas, inclusive de cria-
ção de gado.
Quando, em 1983, o autor desta ma-
téria e Estevam Strauss, ex-diretor da
SUDENE para os projetos de irrigação,
percorreram o Nordeste para a avalia-
ção dos resultados de 20 anos de ação
da SUDENE após 1964, constataram
que nas terras irrigadas do São Fran-
cisco estavam sendo produzidos álcool
para O parque automobilístico, sucos
de tomate para abastecimento dos
Agência O Globo

grandes centros urbanos e uvas de alta


qualidade a serem exportadas para Pa-
ris. Enquanto isso, milhares de flagela-
dos da seca invadiam cidades para ma-
tar a fome e dar alimentos a seus filhos
As frentes de trabalho dos flagelados da seca foram empregadas na construção de famintos,
canais de irrigação do rio São Francisco Jáder de Andrade .
298
3FANBSB VB.GNCAM, 24041334 âCO 2, p 432

ORGANIZAÇÃO SOCIAL/SINDICATOS: os metalúrgicos de SP e SBC 1959, paralelamente à implantação da


indústria automobilística no Brasil.
Nesta data foi fundada a associação
que deu origem ao sindicato. A partir
Força metalúrgica dai, Ourissom Saraiva de Castro exer-
ceu o comando como secretário-geral
até março de 1964, quando o sindicato
Desde os anos 60, os metalúrgicos estão à frente do
sofreu sua primeira intervenção. Para
movimento sindical. E os dois sindicatos mais representativos seu lugar o governo designou um ope-
são os de São Bernardo e São Paulo Tário paulista, Clemiltre Guedes da
Silva, que teve como mérito atrair dois
ativistas que se destacariam nos anos
Desde julho de 1983, os metalúrgicos seguintes.
de São Bernardo do Campo e Diadema Um deles foi Afonso Monteiro da
têm um sindicato sem memória. Pelo Cruz. Ligado ao movimento cristão da
menos aquela que depende de dados Frente Nacional do Trabalho, Afonso
de arquivo, lembranças de datas, rela- tornou-se presidente do sindicato no
tos de reuniões - isso tudo sumiu com fim da intervenção, em agosto de 1964.
a última intervenção. É na cabeça dos O outro foi Paulo Vidal Neto, que per-
seus dirigentes e dos ativistas que está o maneceu na diretoria por 11 anos, seis
registro de lutas e movimentos que de- como presidente. Paulo Vidal procurou
ram prestígio internacional a um per- dar ordem à vida jurídica e financeira
nambucano chamado Luís Inácio da do sindicato, levar a organização sindi-
Silva - o Lula. cal às bases e atrair novos ativistas -
A estréia de Lula no sindicato foi em entre eles, Lula.
1972, quando ele assumiu o cargo de Em junho de 1971, Vidal lançou o
diretor do Departamento de Previdên- jornal Tribuna Metalúrgica e, em 1972,
cia Social. Em 1975, era presidente, re- concluiu a atual sede do sindicato. Du-
eleito em 1978, Em 1979, no Congresso rante uma de suas gestões, em 1966, foi
dos Metalúrgicos de Lins, interiot de formado em São Bernardo o MIA
São Paulo, ele propõe à criação de um (Movimento Intersindical Antiarro-
partido de trabalhadores, o que acon- cho), desarticulado dois anos depois.
tece no mesmo ano, com o PT. Com o Em 1975, Lula subiu à presidência,
fim da última intervenção, Lula volta à mantendo Vidal como secretário. Em
Juca Imartins/F4

diretoria do sindicato, eleito em junho 1977, com a denúncia da fraude no cál-


de 1984, como representante na Fede- culo da inflação brasileira em 1973, o
ração dos Metalúrgicos. Muita coisa sindicato entra em evidência. A cam-
aconteceu em pouco tempo. panha que reclama as perdas de salário
O próprio sindicato é muito jovem. Em Foram os movimentos grevistas iniciados decorrentes desse erro de cálculo pro-
maio de 1984, completou 26 anos. Sua em 1978 que fortaleceram o sindicato de jeta Lula e os operários do ABC. Em
história comecou em 12 de maio de São Bernardo. Acima, a greve de 1980 maio do ano seguinte, a indústria auto-

As diferenças das bases

O número de empresas em São Paulo é 14 vezes maior do que em São Bernardo do Campo. Nessa região,
contudo, os metalúrgicos se concentram em indústrias de grande porte, o que facilita a maior mobilização

Distribuição das empresas e trabalhadores metalúrgicos em função do número de empregados, em % (março de 1982)

Fonte: DIEESE
h % / Arquivo Sind. Met. SP

Arquivo Sind. Met. SP


O Sindicato dos Metalúrgicos de São
Paulo participou da campanha das
diretas-já. Acima, Joaquinzão e Jair
Mençgheli, no 1o*de maio de 84 S LW!

mobilística parava e as grandes greves parece cansado de briga e prepara o riodicidade definida até 1980, quando
voltavam a ocupar o cenário brasileiro. seu sucessor para a batalha eleitoral de se tornou mensal. O Metalúrgico
Houve greve em 1979 e a ela se suce- 1987, o ex-pára-quedista Luís Antônio somente se calou temporariamente em
deu uma curta intervenção no sindi- de Medeiros, 1964, quando Afonso Delellis, presi-
cato. Houve greve em 1980 - uma A disputa pela legitimidade do man- dente do sindicato, foi cassado pelo Re-
greve longa, de resistência durante 41 dato vem marcando todas as diretorias gime Militar. Mas, já em novembro de
dias, sucedendo uma longa interven- que se sucederam no comando dos me- 1964, voltava para denunciar casos de
ção. Mas, desde 1979, os metalúrgicos talúrgicos desde 1965. Na última elei- corrupção da diretoria cassada,
de São Bernardo contavam com uma ção, em julho de 1984, a votação Oposi-
entidade paralela - o Fundo de Greve, cionista nas fábricas foi apenas ligeira- Um ambulatório com 89
experiência única no movimento sindi- mente inferior ao voto dos metalúrgi-
cal brasileiro, Estrategicamente situado cos aposentados. Apesar disso, uma su- médicos e dentistas
nas proximidades da sede do sindicato, cessão de greves por empresa, no
o fundo abrigou a diretoria cassada du- Foi durante os anos mais tenebros os
período de julho a outubro de 1984, do Regime Militar que "Joaquinzão"
rante os períodos de tutela do Minis- consagrou os chamados "diretores de
construiu o imenso patrimônio dos me-
tério do Trabalho. base", aproximou-os das práticas e do talúrgicos de São Paulo. A sua sede de
Em 1981, Jair Meneghelli, operário convívio com a histórica Oposição Sin- seis andares da rua do Carmo, inaugu-
da Ford, concorreu à presidência com dical Metalúrgica (que só não disputou
o apoio de Lula e venceu com folgada rada em 1954, foi agregada uma colô-
eleições em 1965 e 1975) e garantiu aos nia de férias com 60 apartamentos, na
maioria. Meneghelli não repetiu o ca-
metalúrgicos paulistanos o reajuste tri- Praia Grande, no litoral paulista, em
risma de Lula, mas sob sua gestão os mestral de salários.
metalúrgicos de São Bernardo paralisa- 1969. Em 1974, inaugurou-se o ambula-
A primeira organização dos metalúr- tório médico de sete andares que, em
ram otrabalho exigindo antecipação de
gicos da capital paulista foi fundada 1984, contava com 65 médicos, 24 den-
salário em outubro de 1982 e realiza- em 1932, no dia 27 de dezembro, pelo tistas e uma média de 40 mil consultas
ram "greves pipoca" (fábrica por fá- operário das indústrias Matarazzo Ro- mensais. Em 1975 foi comprado um si-
brica) em abril de 1983, quando conse- dolfo Mantovani. Aproveitava-se a
guiram obter ganhos salariais acima do tio de 14 alqueires no município de
onda de oficialidade oferecida por Ge- Mogi das Cruzes, na região da Grande
Decreto-Lei 2,065. Em julho desse túlio Vargas em 1931, com a edição da
São Paulo, para cursos e encontros e,
mesmo ano, os metalúrgicos de- primeira legislação sindical no País. em 1979, o Sindicato deu início à cons-
claram-se em "greve política" e o Mi- Até 1935 - ano da repressão desenca- trução de nova sede. Dos 15 andares
nistério do Trabalho decretou nova in- deada após o levante comunista - essa projetados, porém, o novo prédio não
tervenção, suspensa somente um ano organização oficial convivia com o saiu do subsolo. Lá podem acomodar-
depois. "sindicato livre" dos anarquistas. A se até 8 mil pessoas, e desde 1981 o lo-
partir de 1939, com a criação do im- cal é palco de assembléias de toda es-
O Sindicato de São Paulo e seu posto sindical, o Sindicato dos Ope- pécie.
presidente "vitalício" tários Metalúrgicos da Grande São
Essa superestrutura sindical, cobi-
Paulo ganha fôlego e pode ampliar as cada por todas as correntes partidárias
O Sindicato dos Metalúrgicos de São atividades de sua sede, compartilhada
Paulo, considerado o maior organismo com militância entre os trabalhadores,
com outras entidades no antigo edifício assinala em sua previsão orçamentária
sindical da América Latina, tem prati- Santa Helena, na praça Clóvis, centro
camente um presidente vitalício: Joa- para 1985 uma receita de Cr$ 24 bi-
de São Paulo. Após 1962, o Sindicato lhões, entre mensalidades, arrecada-
quim dos Santos Andrade, o "Joaquin- da Grande São Paulo desmembrou-se ções de imposto sindical e juros de ca-
zao . em três, dando independência a Osasco derneta de poupança - uma cifra que
Eleito em 1965, vindo de uma inter- e Guarulhos, municípios industriais da deixa para trás o orçamento da maioria
ventoria no sindicato metalúrgico de Grande São Paulo.
Guarulhos, "Joaquinzão", depois de dos municípios brasileiros.
Em 1942, é lançado o primeiro nú-
atravessar oito mandatos consecutivos, mero do jornal O Metalúrgico, sem pe-
Ricardo Paoletti
300
BR DFANRSRVA GNC.AAA, $4041334 300
2 ;p 43
442 32333
BR DFANBSB V8.GNC.AMA, 240 2 ES"

os "órgãos de proteção"
ORGANIZAÇÃO SOCIAL/POPULAÇÃO: a situação do menor e

Nossos pixotes

milhões de menores carentes e


Em 1984, o País contava com mais de 25
excludente, que gerou, em 1980, cerca de
abandonados, devido sobretudo ao modelo
ta
4 milhões de famílias na faixa da pobreza absolu

que, exceto o nome, pouca coisa mu- Mas o pior de tudo é que os mesmos
Não foi sem motivo que um dos prin-
dara na substituição do SAM pela FU- métodos violentos continuavam sendo
cipais elementos propagandísticos e de
NABEM: "Milhares de menores aban- empregados contra um número cres-
mobilização utilizado pelos conspirado-
res que preparavam o golpe militar de donados, carentes e com problemas de cente de menores. Como consequência
1964 assumiu a forma de "Marchas da conduta foram torturados e espancados da adoção de um modelo econômico
Família com Deus pela Liberdade". em celas e cubículos fechados, existen- que concentrava cada vez mais a ren-
tes nos subterrâneos do complexo para da, multiplicou-se o número de crian-
Seus ideólogos se apoiavam na crença
de que uma educação severa dada pe- menores de Quintino Bocaiúva, no Rio cas carentes (cujos pais ou responsáveis
los pais aos seus filhos ajudaria o Es- de Janeiro, pertencente à FUNA- não têm condições de suprir suas ne-
tado a assegurar a ordem pública e a li- BEM." Falava ainda de "um quadro de cessidades básicas), abandonadas (sem
berdade de iniciativa privada, garan- horror, um regime disciplinar duro, in- pais ou responsáveis) e infratoras (que
tindo a organização de um conjunto so- flexível, punitivo, voltado para o inter- cometeram atos considerados crimes
cial harmonioso e em constante cresci- nato de menores", que teria existido ou contravenções, mas não podem ser
mento material e espiritual. L sempre na entidade. processadas ou julgadas, por serem ju-
O presidente Médici, em 1970, visi-
tando a sede da Fundação Nacional do
Bem-Estar do Menor (FUNABEM),
que substituira, no final de 1964, o an-
tigo Serviço de Assistência ao Menor
(SAM), usou sua expressão predileta
para comentar o que seria o êxito do
Regime Militar nesta área do atendi-
mento social: "Nesta manhã, vejo um
milagre. Vejo o milagre da transmuta-
ção da "sucursal do inferno", da "escola
do crime", da "fábrica de monstros mo-
rais", em um centro educacional vol-
tado para o desenvolvimento integral
do menor." E prosseguia: "Esse mesmo
milagre que, hoje e aqui, proclamamos
a toda a nação brasileira, nós o deve-
mos por inteiro à Revolução de Março.
E não tenho dúvidas ao afirmar que a
contestação mais cega e mais surda,
que tudo negasse à obra revolucio-
nária, haveria, pelo menos, de bendizê-
la por apagar o sangue, a corrupção e a
vergonha do malsinado SAM, para
neste mesmo lugar erguer a FUNA-
BEM."
O general teria razão para saudar o
fim do SAM, que possuía, justífica-
damente, uma péssima fama. Além de
suas instalações serem precárias e ofe-
recerem péssimas condições de hi-
giene, os menores sofriam maus tratos
e eram explorados por diretores e fun-
cionários. Meninas internas na institui-
ção chegaram a ser emprestadas a boa-
tes, transformando-se em prostitutas.
As rebeliões eram constantes.
Mas em 1980, dez anos depois do
discurso ufanista de Médici, a profes-
sora Ecléa Guazzelli, ao demitir-se da
presidência da FUNABEM, mostrava
301
eRDraNBSB V8.GNC.AAA, $404133)InCOA , p4G,

e 74P

oe
onçnes,
ie «remeta, cê B- ce

Apósa Abolição cresce a utilização da mão-de-obra infantil . .. a tal ponto que, em 1983, cerca de sete milhões de menores
(acima, operários na Fábrica Bangu, Rio, 1893) ... integravam a força de trabalho

ridicamente irresponsáveis). Em 1975, a Tentando substituir a punição e o dade um espírito militar. O próprio Al-
CPI do Menor, instalada no Congresso controle pelo assistencialismo, a FU- tenfelder, já em 1965, registrava com
Nacional, realizou uma pesquisa junto NABEM apresentava o menor como orgulho; "Quis o destino que a minha
aos prefeitos brasileiros e, por amostra- vítima da sociedade e propunha que primeira presença como presidente da
gem, chegou a verificar a existência de toda a comunidade fosse envolvida no fundação fosse numa cerimônia de in-
cerca de 13 milhões e meio de menores seu atendimento. O médico Mário da corporação dos meninos do SAM ao 1o
carentes e mais dois milhões abandona- Silva Altenfelder, que dirigiu a FUNA- Batalhão de Carros de Combate, sob o
dos. Mas, no próprio texto do relatório, BEM desde a sua fundação até 1979, comando do coronel Calderari, ou-
os parlamentares afirmavam que "al- afirmava: "Dar-se-a ênfase ao amparo vindo a vibrante ordem do dia do gene-
guns indicadores sócio-econômicos au- da criança na própria família. A inter- ral Garcia. Com que prazer os vimos
torizam a avaliar em 25 milhões a po- nação só deverá ser admitida quando marchando e com que maior prazer
pulação de menores carenciados e a- não houver mais possibilidade de outra com eles cantamos o Hino Nacional."
bandonados". solução." E mais: "Claro que o go- Em sua denúncia, a professora Ecléa
Em 1982, o consultor regional do verno tem obrigações. Mas não é só o Guazzelli fala com bem menos entu-
Fundo das Nações Unidas para a Infân- governo. É também e principalmente a siasmo do quadro que encontrou na
cia (UNICEF), Pedro Táçon, avaliou comunidade, o agrupamento de indivi- fundação, resultante dessa tentativa de
em 20 milhões o número de menores duos e instituições (. . .). É a comuni- militarização, Afirmou que, entre 1966
carentes no Brasil. Já no ano seguinte, dade que tem que se unir, tomar cons- e 1979, a FUNABEM treinava "jovens
Libonis Siqueira, ex-presidente da As- ciência e agir. O governo deve ser cha- segundo normas disciplinares rígidas,
sociação Brasileira de Juízes de Meno- mado apenas para assistir técnica e fi- estilo militar, para posteriormente se-
res, disse que O Brasil possuia 30 mi- nanceiramente os programas, e não rem utilizados em funções disciplina-
lhões de menores nessa situação. Ce- para executar trabalho social." Era res". Chocou-se ao constatar que "me-
sare Florio La Rocca, consultor da uma conclamação às instituições bene- ninos eram obrigados a aprender mar-
UNICEF, estimou a existência de 32 ficentes religiosas e civis, como o Ro- chas militares e a cumprimentar autori-
milhões de menores carentes no Brasil. tary, Lions, etc. dades com continência. Muitos eram:
Este mesmo número é confirmado por Os homens do novo regime tinham forçados - sob pena de serem tortura-
Terezinha Saraiva, presidente da FU- os seus métodos prediletos. Porém, dos nos porões - a passar horas diante
NABEM . Portanto, segundo as várias passaram a trabalhar no sentido de in- de retratos do presidente da República,
estimativas, de 15 a 30 milhões de me- cutir nos jovens sob sua responsabili- aprendendo a fazer continência, em
nores se encontravam na situação de
carentes, abandonados ou infratores.
Uma cifra terrível,
Não se pode negar que o regime ins- Substituindo o SAM, em
talado no País com o golpe de 1964 se 1964, a FUNABEM (ao
preocupou com a questão do menor e lado, internos numa
implantou mudanças no seu trata- unidade, no Rio) chegou
mento. Criou a FUNABEM, em 1o de aos anos 80 com a
dezembro de 1964, com a Lei no 4.513, mesma triste fama do
que extinguiu o SAM. Este era ligado antigo Serviço de
ao Ministério da Justiça, revelando Assistência ao Menor.
uma visão policial sobre o problema do Com a posse de governos
menor. A nova entidade seria encarre- democráticos em vários
gada de implantar uma Política Nacio- Estados, novas tentativas
nal de Bem-Estar do Menor e foi insti- estavam surgindo em
tuída como entidade autônoma, pas- 1983-84, para resolver
sando em 1974 a vincular-se ao Minis- os problemas do menor.
tério da Previdência e Assistência So- Na pág. ao lado,
cial, então criado, internos da FEBEM (SP)
302
313hnCOA,p 46
BR DFANBSB VB.GNC.AMA, $40443
hi

peração de peças de amortecedores, mês de convalescença e, passando este,


recebendo um salário por isso. Por ou- durante um ano, não trabalhará longe
tro lado, dos 5.800 menores em todo o da cria." Quase 50 anos depois, em 28
Estado assistidos pela FEBEM, 2.500 de setembro de 1871, foi aprovada a
estão matriculados em escolas da rede chamada Lei do Ventre-Livre, que vi-
pública. As duas tentativas se consti- sava a terminar paulatinamente com a
tuem em críticas, no plano da prática, escravidão infantil.
às soluções propostas pelos militares: Com a urbanização do País, as aten-
nem as punições nem o assistencia- ções se voltam para as crianças que
lismo têm sentido, a solução estaria em começam a surgir abandonadas pelos
integrar os menores na comunidade. pais. A partir da década de 1870,
O ex-juiz de menores do Rio de Ja- fundam-se orfanatos, alguns deles com

Juca Martins F4
neiro Alyrio Cavalieri vai além. Reali- objetivos específicos, como abrigar os
O
zou um levantamento demonstrando óriãos dos imigrantes italianos vitima-
que, de cada 100 menores presos no dos pela febre amarela. A Casa dos Ex-
Rio, 84 moram em favelas e 78 são postos, criada em São Paulo em 1896,
L

oriundos de famílias com renda mensal visava a recolher crianças rejeitadas pe-
Na zona rural, 45,4% da população entre inferior a um salário mínimo. Perce- las mães e abandonadas nas portas de
dez e 17 anos já trabalhavam bendo que a causa da criminalidade do casas ou em encruzilhadas de ruas. No
menor é essencialmente social, o juiz plano institucional surge, em 1935, tam-
testes de resistência e de capacidade de mostrou que o problema de fundo é a bém em São Paulo, o Serviço Social de
obedecer a seus instrutores". - desordem na produção econômica do Assistência e Proteção de Menores, li-
Com a posse de governos democráti- País, que marginaliza milhões de gado à Secretaria da Justiça e Negócios
cos em vários Estados, novas práticas famílias. Ou seja, o problema não co- do Interior.
estavam surgindo em 1983-84. Maria meçava na família e por isso não podia Ao mesmo tempo, nascem e se de-
Cecília Zilliotto, ex-presidente da FE- ser resolvido com uma política econô- senvolvem as instituições e a legislação
BEM (Fundação Estadual do Bem- mica que garantiu a liberdade de livre de punição e controle. No Estado de
Estar do Menor, órgão do governo iniciativa aos capitais estrangeiros e à São Paulo, já em 1902, surgia o Insti-
paulista ligado à Secretaria da Promo- produção para o consumo elitista. O tuto Disciplinar para Reeducação, Ins-
ção Social, criado em 1976), propunha juiz chegava a afirmar que o problema trução Literária, Industrial e Agricola
uma alteração na estrutura de atendi- do menor só poderia ser resolvido com de Menores, hoje transformado no Ins-
mento ao menor. Era de opinião que a a reorganização econômica do País. tituto Educacional e Colônia Correcio-
FEBEM deveria fechar, sendo substi- nal da FEBEM. Em 1924, surgiu o
|1 J
L& a V/omaif
V F w
10176 p»
USO G
tuída por instituições abertas de atendi- Juizo Privativo de Menores da Co-
mento ao menor na comunidade. Assu- cada em a escraraão ar? marca da Capital e, 30 anos depois, o
mindo a presidência da entidade no ini- Recolhimento Provisório de Menores.
cio do governo Montoro, em 1983, ela Logo depois da independência poli- No nível federal, surgiu, em 1913, o
criou nove Casas da Juventude, onde o tica do Brasil, em 1822, quando o Es- Instituto Sete de Setembro, que em
atendimento assistencial incluía a pro- tado começou a preocupar-se com a 1941 transformou-se no SAM.
fissionalização do menor. criança, os dirigentes voltaram seus Enquanto isso, com a abolição da es-
Nessa mesma linha de atuação, em olhos para o menor escravo. Na Consti- cravatura e o início da industrialização,
1984, a unidade da FEBEM de Mogi- tuinte de 1823, José Bonifáfio apresen- voltava a difundir-se o trabalho infantil,
Mirim, interior paulista, onde eclodira tou um projeto onde a linguagem reve- a tal ponto que, em 1983, segundo a
violenta revolta em 1980, firmou um lava mais preocupação com a manu- PNAD (Pesquisa Nacional por Amos-
contrato de prestação de serviços com tenção da mão-de-obra do que consi- tra de Domicílios), quase sete milhões
a firma americana Monroe Auto-Peças deração com a humanidade da criança de menores estavam integrados na
S/A, que produz amortecedores na ci- escrava: "A escrava, durante a prenhez força de trabalho. Na zona rural, 45,4%
dade. Os garotos daquela unidade co- e passando o terceiro mês, só será ocu- da população entre dez e 17 anos traba-
meçaram a trabalhar na seleção e recu- pada em casa; depois do parto terá um lhavam e muitas crianças menores de
Cristina Villares/F4
Nair Benedicto/F4
sransse va.GNe.aaa, 2404123 3anco 2, p A4

Em 1980, um terço das crianças do País


comldade de sete a 14 anos não recebia
nenhum tipo de atendimento escolar. Ao
abandono se somava o abuso do trabalho
precoce, como atividades militarizadas.
Acima, guarda-mirim na periferia de SP

dez anos, certamente, também estavam 5.274, do mesmo ano, estabeleceu o sa- ticipação crescente das mulheres no
trabalhando. Assim, ao abandono se lário mínimo do menor (50% do salário mercado de trabalho, deixando a mãe
somava o abuso do trabalho precoce e mínimo regional para os menores de 16 de ser a "educadora natural dos filhos".
espoliativo. anos e 75% para os menores entre 16 e A falta de "educadora natural" era
As leis sobre o trabalho do menor 18 anos). A mesma lei obrigava as em- mais sentida ainda porque, em 1980,
buscam regular as condições em que se presas a empregar menores (mais de praticamente um terço das crianças
dá esse trabalho, fixar uma idade mi- 5% e menos de 10% do quadro de fun- brasileiras com idade de sete a 14 anos
nima para os trabalhadores e o salário cionários). Essa lei, que muito deve ter não recebiam nenhum tipo de atendi-
do menor. Surgiram inicialmente como colaborado para reforçar o arrocho sa- mento escolar.
medidas de proteção à infância e eram larial, só foi revogada em 1974, mas a O importante papel da família sem-
reivindicadas pelo movimento operário idade mínima de 12 anos se mantinha pre foi ressaltado por aqueles que se
nascente. Na sua evolução, porém, em em 1984. debruçaram sobre a questão do menor.
alguns momentos, visaram a empurrar Os participantes da X Semana de Estu-
uma massa de menores para dentro das ts condições de vida são dos consideraram a internação como o
fábricas, sancionando sua exploração. piores que a vida das ruas último recurso, argumentando que "a
A primeira lei brasileira de proteção criança internada desenvolve-se em
do trabalho dos menores é de 1891. Ela Os defensores da redução da idade condições desfavoráveis, que predis-
proibia o trabalho noturno em certos minima afirmavam que, com o estado pôem ao aparecimento de múltiplos
serviços, estabelecia a idade minima de pauperismo da população, seria im- problemas de comportamento", e, mais
em 12 anos e estipulava que a jornada portante que a criança pudesse ajudar ainda, que a "ruptura dos laços afetivos
de trabalho máxima seria de sete horas no sustento da família e que seria me- familiares arrasta a consequências de-
para as meninas de até 15 anos e para lhor para ela trabalhar que ficar va- sastrosas", porque "a privação de afeti-
os meninos de até 14. Ela ficou sem diando nas ruas. Mas o depoimento do vidade e carinho age na criança como
aplicação, assim como o Decreto no professor João Batista de Arruda Sam- se fosse castigo corporal, provo-
16.300, de 1923, que reduziu a jornada paio na X Semana de Estudos do Pro- cando reações defensivas, que podem
de trabalho para seis horas para todos blema do Menor, realizada em São se converter em agressividade contra a
os menores de 18 anos. O Código de Paulo, em 1971, revela um mundo onde sociedade".
Menores de 1927 manteve os 12 anos as condições de vida são piores que a Mesmo o dr. Altenfelder, primeiro
como idade mínima para O trabalho, vida das ruas: "Quando não se lhes presidente da FUNABEM, ao aplicar a
mas proibia o trabalho noturno e nas usam os pulmões como foles nas fábri- política assistencialista do regime para
praças públicas dos menores de 14 a- cas de vidro, são eles, esse pariazinhos o bem-estar do menor, afirmava que "a
nos. sociais, empregados em trabalhos ma- sociedade deve ser organizada de tal
Foi em 1932, com o Decreto no nuais de nenhuma significação profis- forma que a família encontre meios ca-
22.042, que a idade mínima foi elevada sional, de puro automatismo. Ao cabo pazes de ajudá-lana criação e educa-
para 14 anos. Este limite se manteve na de algum tempo, gastos, depauperados, ção dos filhos". Só não poderia explicar
Constituição de 1934, na de 1937, na sem perspectiva de um trabalho qualifi- como fazer isso com um modelo eco-
Consolidação das Leis do Trabalho de cado, ingressam, aos 18 anos, na grande nômico excludente que gerôu, em
1943 e na Constituição de 1946, que legião das massas amorfas." 1980, mais de quatro milhões de
proibiu a diferença de salário entre me- O desenvolvimento harmonioso da famílias com renda mensal per capita
nores e maiores e o trabalho noturno criança exigiria que suá socialização menor ou igual a um quarto do salário
de menores de 18 anos. fosse feita pela família e complemen- mínimo. Família cujas crianças, se não
Na Constituição de 1967, o Regime tada pela escola. Já em 1975, a CPI do forem abandonadas, certamente esta-
Militar baixou a idade mínima nova- Menor apontava como uma das causas rão sendo empurradas- para o trabalho
mente para 12 anos e eliminou a proibi- da marginalização crescente dos meno- precoce, para o desalento, para as ruas,
ção de diferenças nos salários. E, já res brasileiros a de egação familiar, enfim para o embrutecimento sob di-
dentro da nova orientação, a Lei no provocada pela urbanização e pela par- versas formas.

304
BR DFANBSB VB.GNCAMA
x;:

Pl
é
é
$
2
«
O
3
A partir dos anos 50, a capoeira (ao lado,
E
2 gravura de Rugendas) enfrentou a

3 concorrência das lutas orientais,

divulgadas pelo cinema. Acima, Bruce

Lee, famoso ator dos anos 70

CULTURA/ARTE POPULAR: a história da capoeira dos os adversários, mas imobilizá-los

para propiciar a fuga, a liberdade.

Assim, a capoeira, utilizando a

dança, o berimbau, os atabaques, como

disfarces e de certa forma parte inte-


A ginga da liberdade
grante de sua estrutura, acabou tendo

um papel fundamental, não só do

ponto de vista militar, na resistência à


Desenvolvida através da velocidade e da dança, a capoeira
escravidão, como também de união
foi uma das manifestações mais decisivas no processo de cultural entre os líderes e seus grupos.

resistência nos anos da escravidão Foi uma das armas importantes na

constituição dos quilombos, foi funda-

A opressão feroz dos senhores de en- longo dos anos de escravidão. mental para sua defesa, durante mui-

genho e a necessidade de um meca- A capoeira é uma luta. Mas uma luta tos anos. E só quando os exércitos

nismo de defesa que pudesse ser apli- que disfarça-sua violência, sua capaci- portugueses haviam adquirido arma-

cado na prática contra feitores brutais dade de destruir o adversário numa mentos mais poderosos e sofisticados,

fizeram nascer no Brasil uma das mais aparente dança ao som de cantos de como escopetas e canhões leves, foi

fortes manifestações culturais de resis- trabalho. E surgiu assim pela necessi- possível realmente arrasar e derrotar os

tência da história moderna: a capoeira. dade de esconder de feitores e policiais quilombos.

Mistura inquietante de dança e luta, sua característica verdadeira. Sem pos-

música e violência, a capoeira foi-se sibilidades de conseguirem armas e mu- Após a abolição surgem as

constituindo a partir da própria cultura nições, os negros desenvolveram um maltas de capoeiristas


do dia-a-dia dos escravos negros que sofisticado sistema de defender-se com

chegavam aos borbotões para trabalhar o próprio corpo, descobrindo que a ve- Mas, nascida como instrumento de

nos canaviais e fazendas, desde pratica- locidade e a ginga da dança - que ha- resistência e libertação, a capoeira

mente o início da colonização. viam trazido da África - poderiam ser sempre foi vista como uma prática

Membros de nações diferentes, com aliados poderosos. Misturou-se aí o co- marginal e perigosa, símbolo de crimi-

línguas diferentes, religiões, cultos e ex- nhecimento do funcionamento de seus nalidade ao longo de todo o Brasil co-

periências diversas, os negros foram instrumentos de trabalho - o martelo, a lonial e mesmo durante a República

obrigados, para se entenderem, a foice, as enxadas -, que vieram dar ori- Velha. A condenação mais dura da ca-

aprender a própria linguagem do gem a uma série de golpes que imitam poeira acabou-se dando nos anos que

branco, a adaptar-se aos seus rituais, a suas funções. Acrescente-se ainda as se seguiram à libertação dos escravos.

compreender seus mecanismos cultu- várias formas de defesa de animais: a Multidões de trabalhadores negros,

rais. Essa situação, que poderia parecer marrada, a pancada seca com o rabo, o abandonando as roças, chegaram às ci-

mais um instrumento de dominação, coice de uma mula, o estapear dos feli- dades maiores, como o Rio de Janeiro,

acabou servindo para a criação de uma nos. Criou-se então um sistema de gol- Recife e Salvador, em busca de empre-

nova cultura, muito rica, composta de pes de surpreendente eficácia, mas gos. Sem qualificações, sem nenhum

elementos fundamentais das diversas adaptado muito mais à defesa do que tipo de apoio, foram-se instalando nas

nações africanas, modificadas pelas ao próprio ataque. Uma luta rápida, periferias, vivendo de pequenos expe-
condições de trabalho e vida no novo onde se devia tocar o mínimo possível dientes, humilhados, famintos. E se
país. E a capoeira, ao lado do candom- no adversário, geralmente bem mais ar- constituiram no caldo ideal para o apa-

blê, pode-se afirmar, foi a manifestação mado e equipado. -Uma luta de bate- recimento de assaltantes e ladrões, que
aparente mais decisiva de todo o pro- pronto, própria para fugas, pois sua fi- viam nessa atividade a única saída para
cesso de resistência desencadeado ao nalidade 'principal não era derrotar to- a fome e a miséria.

305
Sem armas e munições, os escravos semimarginal por muitos anos.
criaram a capoeira, luta baseada na Transformou-se em folclore, em espe-
ginga, em que os golpes imitam asfunções táculo a que turistas podiam assistir no
dos instrumentos de trabalho, como o velho Mercado Modelo de Salvador. E
martelo e a foice, e as formas de defesa seu desenvolvimento veio dar-se, curio-
animais, como a marrada e o coice. samente, no rastro da invasão cultural
' Tinha como finalidade derrubar e americana da década de 60.
imobilizar momentaneamente o Terminada a Guerra da Coréia, em
adversário, para possibilitar a fuga 1953, e consolidada a influência ameri-
cana em boa parte do Oriente, algumas
das manifestações culturais da região
passaram a ser encaradas como curiosi-

Abril Press
dades pelos dominadores, que pode-
riam "comercializá-las" através do
mundo, destacando seu ar de mistério.
Assim, algumas artes marciais japone-
sas, chinesas e coreanas começaram a
A
! ªra

ser mostradas em programas de televi-


são por toda a América. Sua beleza e
exotismo conquistaram logo a garo-
tada, que via nelas uma saída para seus
desejos infantis de força - novos super-
heróis. A indústria cultural americana
não perdeu tempo, então. Associando-
se a capitalistas de Hong-Kong pas-
sou a produzir séries enormes de filmes
baratos, mostrando os diversos tipos de
lutas, sempre em histórias esquemáticas
e maniqueistas. Com muito dinheiro,
rapidamente todos os países pobres dos
vários continentes viram seus cinemas
invadidos por fitas de kung-fu, judô, ca-
raté e ai-ki-dô. Como consequência, pi-
pocaram por todo o País "escolas" e
"academias" de todo tipo de luta, evi-
dentemente sem muito preparo, já que
não existiam "mestres" disponíveis em
Agência O Globo

todas essas artes marciais.

.*Jhm'; |
; ihêffíªiêifd ““““)?

entre os unroersatarios

Constituiram, então, espontanea- sem, contudo, ter feito qualquer esfor- Por essa ocasião, quando cresciam
mente, as maltas de capoeiristas que usa- ço para torná-la uma atividade esporti- os movimentos estudantis e mesmo de
vam sua técnica para assaltos fulminan- va nacional. Continuava restrita a mar- trabalhadores e intelectuais contra a
tes e enfrentamentos com a polícia, ginais, a negros e brancos pobres, indig- excessiva dominação cultural que os
Além disso, eram guardas ótimos para na como a miséria que sempre repre- Estados Unidos estavam impondo aos
altos funcionários e grandes proprie- sentou. 1 países pobres, a capoeira voltou a sur-
tários, a quem alugavam seus serviços. Foi bem mais tarde que a capoeira gir, principalmente entre universitários,
O governo não teve dúvidas. Declarou retomou seu crescimento, a partir de como uma nova resistência. E foi a par-
criminosos a todos os praticantes de ca- uma formalização e organização que tir daí que retomou sua força e
poeira e, no final do século passado, mestre Bimba, um dos principais mes- transformou-se no que é hoje: prati-
quem fosse pego jogando capoeira po- tres da capoeira baiana, procurou dar à cada por milhares de jovens, em todo o
deria ser condenado ao desterro e pri- luta, através da criação do Centro de País, reconhecida como esporte, orga-
são na ilha de Fernando de Noronha. Cultura Física Regional, em Salvador. nizada para campeonatos através da
É natural que com uma repressão Mais ou menos na mesma época, outro Confederação Brasileira de Desportos
tão brutal a capoeira se tenha tornado mestre baiano, o pescador Pastinha, e crescendo continuamente com a for-
ainda mais disfarçada, incorporando montava seu grupo de lutadores, num mação de federações, associações e
mais e mais elementos de dança, para estilo ligeiramente diferente do ado- grupos. E vai aos poucos readquirindo
que pudesse sobreviver. E somente tado por mestre Bimba, com um jogo seu caráter cultural de resistência, que,
sobreviveu graças ao seu estilo solto, mais próximo ao solo, em movimentos muito mais importante do que sua efi-
sem muitas regras, que podia ser passa- mais acrobáticos, que chamou de An- cácia como luta ou defesa pessoal, é
do para os mais jovens com certa facili- gola. Mas a estrutura da luta manteve- sua maior força. Uma característica
dade, nos pequenos quintais fechados se a mesma, com a mesma dança gin- única, capaz de manté-la tão viva e
ou nas areias das praias. Essa situação gada, os mesmos toques, as mesmas forte como a própria necessidade de li-
de marginalidade durou até pratica- maneiras de encarar o adversário. berdade que a gerou nas senzalas mais
mente 1937, quando Getúlio Vargas Mesmo depois de codificada e orga- escuras e brutais. '
aboliu o caráter criminal da capoeira, nizada, a capoeira manteve seu caráter Murilo Carvalho
306
BR DFANBSB V8.GNC.AAA, , p 49
BR DFANBSB V8.GNC.AAA, 24044334 NCO A, p 50
)
A pesquisa histórica propriamente
dita no País só começaria no século 19,
POLÍTICA/HISTÓRIA: a interpretação oficial da história brasileira

mas suas obras teriam a forte marca de


uma apologética do poder. Não era
para menos: os historiadores de então
Apologia do poder
eram basicamente figurões do Império,
barões, ministros, senadores, clérigos,
ligados diretamente ao Estado e traba-
Escrita geralmente sob o ponto de vista do elitismo e do
lhando nos Institutos, do qual o pri-
reacionarismo, a história do Brasil começa, nos anos 80, a
meiro e mais importante foi o Instituto
Histórico e Geográfico, criado em
1838. Destacou-se muito entre eles o
superar a mentira e o crioulo doido

visconde de Porto Seguro, Francisco


As vítimas prediletas do impiedoso
Adolfo de Varnhagen. Adepto da cha-
reacionarismo de nossa educação his-
mada "Escola Científica Alemã", ele
tórica são as crianças. Em muitas esco-
valorizou muito a pesquisa documen-
las brasileiras, talvez a maioria, elas
tal, contribuindo com ricas fontes para
ainda aprendem que os índios de Pindo-
nossa pesquisa, particularmente
rama eram "preguiçosos" porque se re-
quando levantou documentos sobre o
cusavam à escravidão; ou que dom Pe-
Brasil na Torre do Tombo, em Portu-
dro proclamou a Independência por-
gal. Mas Varnhagen, que deu o tom
que era "romântico e arrebatado"; ou
básico para muitas décadas de nossa
que a princesa Isabel deu de presente a
historiografia, vincou a ideologia oficia-
abolição da escravatura; ou que Ge-
lista por alguns pontos essenciais: a su-
túlio Vargas "inventou" os sindicatos e
perioridade da raça branca (da qual se
os deu de presente aos trabalhadores.
extrairam inúmeras decorrências sobre
Mas a pobre criança que, ao crescer,
a "inferioridade e incapacidade" de
quiser verificar se tudo o que aprendeu
nosso povo de mestiços), a defesa da
não era mentira, terá também, dificul-
elite aristocrática, a idéia de que a Mo-
dades: se se meter à árdua tarefa dé
narquia foi uma forma superior de or-
abater as milhares de páginas da
História do Brasil de Rocha Pombo, vai ganização política.
teca Nacional
encontrar uma maçaroca imensa de fa-
tos e datas, poucas explicações e a per- O "Samba do Crioulo Doido":
sistente ideologia oficialista de que a
história se faz com um punhado de ho-
desfile de nomes e datas
mens ilustres. Nos anos 80, uma série
de historiadores e algumas editoras se O Império produziu uma elite orgã-
empenham em remover o ranço de VYarnhagen valorizou a pesquisa, mas nica de intelectuais que, através da his-
obscuridade e falseamento que marca a defendia a superioridade dos brancos toriografia, enriqueceram a ideologia
historiografia brasileira. Mas sua tradi- dominante racista e escravocrata. Mas
ção básica, de elitismo, de culto do po- a República pouco ou nada fez para
der, de apresentação de desenvolvi- “ª“, : mudar esse panorama. Nos primeiros
mento brasileiro como harmônico e tempos republicanos, a história ensi-
nada nas escolas manteve os velhos
preconceitos, acrescentando apenas
pacífico, ainda persiste fortemente no
que se escreve para o grande público e
para as crianças, um ingrediente: o patriotismo vazio e
exacerbado, de um conde Afonso Celso
U pesquisa histórica no País com o Porque me Ufano de meu País, ou
de Rocha Pombo com Nossa Pátria. De
braços dados com Olavo Bilac e Coe-
só começaria no século 19

No período colonial, não tivemos lho Neto, os historiadores patrioteiros


propriamente uma historiografia brasi- entupiram as escolas de pieguices e
leira. Isso apesar do excelente trabalho apologias em linguagem bombástica,
de frei Vicente do Salvador, História do na tarefa de fazer o povo crer que vive-
Brasil, 1500 - 1627, das interessantes ob- mos numa nação pacífica e sem confli-
servações de Aires do Casal em sua tos, bela, festeira e sempre o melhor
Corografia Brasílica e de uma série de dos mundos. Tarefa, aliás, mal reali-
relatos e crônicas de viajantes, ricas zada: a ineficiência de se fazer os infeli-
como fontes para a pesquisa atual. Mas zes educandos amarem seu país, atra-
tratavam-se de coisas escritas não para vês do arrolamento de pilhas de fatos e
a imensa massa populacional da Colô- datas heróicas, é óbvia. Basta lembrar
nia, e sim para uns pouquissimos pode- que, por um lado, os alunos fazem pia-
das e chacotas de "personagens ilus-
Iconographia

rosos das metrópoles. Algumas dessas


crônicas já tinham o indisfarçável in- tres" cuja inconsistência percebem di-
tuito de agradar aos donos da terra e do fusamente, ou inconscientemente. Não
mundo, como O Valoroso Lucideno, de
Frei Manuel Callado, sobre a luta con- Sodré organizou o grupo que produziu a
temos entre nós sequer o culto since-
História Nova do Brasil ro,exagerado e cívico que os hispano-
tra os holandeses. americanos devotam a Bolívar e San
307
,'ª «
LI
al OT
2
»

Biblioteca Nacional
*
5
S

'E
;...

| Ea
2

a
o
é
2
8
s

Oliveira Vianna produziu o primeiro trabalho de história social, Nos primeiros anos da República, destacou-se o patriotismo
embora racista e autoritário. exacerbado do Conde Afonso Celso

Martin, por exemplo. Por outro lado, a queza de seu conteúdo, Vianna (que se- historiografia marxista com a publica-
impossibilidade de compreensão de ria um dos ideólogos principais do auto- ção de sua obra História da Literatura
qualquer processo significativo de nossa ritarismo no Estado Novo) se pauta por Brasileira: seus Fundamentos Econômi-
história deixa os cidadãos à mercê de toda uma postura racista e autoritária. cos. Mais tarde, sob o impacto do clima
uma imensa confusão de nomes e fatos. Precisariamos esperar os anos 30 para de mobilização popular do início dos
Sérgio Porto, o saudoso Stanislaw ver o surgimento de três obras que An- anos 60, ele reuniu um grupo que fez
Ponte Preta, satirizou brilhantemente tonio Cândido considera essenciais uma importante tentativa de recolocar
esse caos histórico dos brasileiros no para uma nova forma de ver o Brasil o povo e a realidade social no cenário
seu Samba do Crioulo Doido: "Foi em contemporâneo, a partir da compreen- histórico: História Nova do Brasil, que
Diamantina/ Onde nasceu J.K ./ Que a são de sua realidade social. se ressente de uma ótica excessiva-
Princesa Leopoldina/ arresolveu se ca- mente programática, mas que serviu
sar/ Mas Chica da Silva/ Tinha outros Caio Prado introduziu a análise conio arma ideológica contra o oficia-
pretendentes/ E obrigou a Princesa/ a marxista do desenvolvimento lismo tradicional. Na década de 60,
se casar com Tiradentes." principalmente depois do golpe de 64,
A historiografia oficial sempre se As duas primeiras são de 1933: Casa cientistas sociais paulistas, com desta-
ocupou basicamente de nossa história Grande e Senzala, obra monumental de que para Florestan Fernandes, reforça-
política, território de "heroismos." Há Gilberto Freyre, abriu nossa história à ram a tendência de pesquisas em nossa
algumas exceções importantes, como a investigação sociológica. Evolução Poli: história social nos meios universitários,
de Capistrano de Abreu, revisor crítico tica do Brasil, aguda análise de Caio enquanto Celso Furtado criava discipu-
e sério de nossa história, que, com seu Prado Jr., introduziu entre nós a análise los com sua Formação Econômica do
magistral Capítulos de História Colonial marxista do desenvolvimento. A ter- Brasil. Em 1984, ainda temos poucos
(1907), abriu novos horizontes para a ceira, de 1936, Raízes do Brasil, com a produtos, parte deles em linguagem e
compreensão do processo brasileiro. erudição de Sérgio Buarque de Ho- em edições pouco acessíveis. Mas o nú-
Para o oficialismo dominante, era difí- landa, revelou um historiador capaz de mero de pesquisas sobre a história da
cil tratar da história social brasileira induzir à reflexão ampla sobre o ser so- classe operária brasileira e sobre movi-
sem trair a política de ocultamento sis- cial brasileiro, no quadro de uma notá- mentos sociais e lutas de minorias,
temático da vida, dos costumes e das vel preocupação com a pesquisa em atualmente em curso nas universidades,
lutas das camadas subalternas. profundidade. mostra que as crianças ainda têm al-
O primeiro trabalho especificamente Depois desses trabalhos, iniciou-se guma esperança de superar a mentira e
de história social data de 1920; Po- um lento processo de mudança, ainda o crioulo doido.
pulações Meridionais do Brasil, de Oli- em curso. A partir de 1938, Nélson
veira Vianna. Entretanto, apesar da ri- Werneck Sodré ampliou o campo da Ricardo Maranhão

308
+ pranaese va.encaaa,404433 Jan 002 , p5J
5R DFANBSB VB.GNCAMA, 294044334 , 932
. )
Gauchescos, Lendas do Sul, Casos do Ro-
mualdo), onde, pela recuperação da
fala do gaúcho sulino, o , escritor
culto recria todo um mundo fragmen-
tário e evanescente, o do "populário",
como ele mesmo dizia, renegando o
termo folclore. São obras que cristali-
zam "tipos de escrita", na literatura
brasileira moderna: uma, a grande an-
gular explicativa; outra, o ouvido dirigi-
do a registrar os falares de uma época.
Em ambas, o silêncio dos que não tive-
ram monumentos.
Neste enredo, que chega aos anos
50, o Brasil migra por inteiro, no roman-
ce social do Nordeste, como nos de Ra-
chel de Queiroz (O Quinze) e José Lins
do Rego (Fogo Morto, Menino de Enge-
nho), e também nos romances urbanos,
como em Os Ratos, de Dionélio Ma-
chado, O Triste Fim de Policarpo Qua-
, resma, de Lima Barreto, O Amanuense
Belmiro, de Cyro dos Anjos. Pois o Bra-
sil migra principalmente no tempo, da
Machado de Assis (1839-1908): um escritor deaguda ironia velha ex-colônia agrária, exportadora,
para os dramas da modernidade capita-
ARTES/LITERATURA: uma análise ,da literatura brasileira lista. Os velhos coronéis sonhavam com
café, leite, charque, borracha e cana-
de-açúcar. Mal sabiam que se engen-
dravam o sufrágio universal e o futebol.
Sambas-enredo
Nos anos 20, uma atualização
Do Império aos nossos dias, do romance de Alencar à da inteligência nacional
memorialística da repressão, a literatura brasileira nos legou
Na literatura, este é um período rico
alguns dramas da terra - os sambas-enredo em migração de idéias. O grupo moder-
nista de São Paulo, os Andrade Mário e
Uma nação é como um samba- aceito como um enredo de tipo cômi- Oswald à frente, empurram o Brasil
enredo, onde as diferentes alas apre- co, de integração nacional, no tempo do para a prosa fragmentária e a poesia do
sentam o seu número e onde um coefi- Império. Integrar a Nação, fazê-la he- verso livre, do branco verso negro e
ciente de desordem salva o conjunto de roína de uma nova aventura redentora mestiço e de todas as cores, muito lon-
repetição mecânica. Donde se segue da civilização, dar-lhe um lugar no con- ge das melódias do fim do século, numa
'que uma nação não é um samba- certo das civilizadas terras européias, atualização sem precedentes da inteli-
enredo, mas um composto, ou melhor, tal foi o núcleo central de sucessivas ge- gência nacional. Medrava, de par com
um superposto de sambas-enredo, uma rações românticas. O romance de José a tragédia do migrante, uma autêntica
memória viva e cambiante de tudo oo de Alencar e a poesia indianista de redescoberta do Brasil e uma (re)nas-
que foi e deixou de ser. Gonçalves Dias talvez sejam as realiza- cente urbanidade. A oligarquia corneli-
Ao longo da história brasileira houve ções melhor acabadas desse projeto, in- cia transformava a colônia em futuro
alguns sambas-enredo que se tornaram clusive por seu conteúdo crítico em re- cartão postal, acabando com seus res-
clássicos, e a literatura sempre foi privi- lação à mundanidade da Corte e ao quícios nas grandes cidades, abrindo
legiada em revelá-los e dar-lhes forma. projeto colonial que nos deu origem, avenidas a torto e à direita, construindo
Aqui, para melhor compreensão do te- ou pelo menos certidão de batismo e mansões e passeios públicos. Cresciam
ma, cabe tratar de uma distinção teóri- heráldica portuguesa. Machado de As- as vilas operárias e as fábricas de tijolo
ca. A tradição literária admite dois ti- sis passou esse projeto no pente fino de vermelho, enquanto o foot-ball passava
pos de enredo, isto é, de imitações das sua ironia aguda. a ser futebol mesmo, deixando os clu-
ações humanas no plano do imaginário. Com o advento da República (a dos bes de elite, de sport, migrando para os
Um é o tipo trágico, onde a ação se or- coronéis da terra) ganhou-se um novo arrabaldes e subúrbios. !
ganiza do ponto de vista de uma perso- enredo clássico, que se poderia chamar A realização maior de todo esse ciclo
nagem que se vê excluída de um corpo de a tragédia do migrante. A primeira desaguará na obra de Graciliano Ra-
social. O outro é o tipo cômico, onde a obra capital do novo enredo é Os Ser- mos, principalmente em seus três me-
ação se organiza do ponto de vista de tões, de Euclides da Cunha, onde se lhores romances - São Bernardo, An-
uma personagem que se vê incluída, narra, entre o relato jornalístico e a gustia e Vidas Secas - e em seu depoi-
ou aceita, num corpo social tido como : idéia de fazer ciência, entre documen- mento Memórias do Cárcere, sobre o
desejável. tal e épico, o massacre de Canudos.Ou- ano e meio em que esteve nas diferen-
No imaginário - vale dizer, num pla- tra obra de capital importância que tes prisões do Estado Novo. Em con-
no mais real que qualquer outro -, o inaugura esse segundo enredo é a do junto, a literatura desse tempo fixa pa-
Brasil começou predominantemente contista Simões Lopes Neto (Contos drões de leitura que perduram quase

309
BR pransss v.enc.ama, 34041931 p53

Zeka Araújo/Agência O Globo


Biblioteca Nacional
até hoje: o gosto médio por um roman- drigues, lagre acima da luta de classes, o Estado
ce descritivo, com sabor a regional e O novo ciclo que se abre é o da co- conduziria o corpo materializado da
característico, um tanto forte na lingua- média do nacional-popular. De caráter Nação à bem-aventurança do progres-
gem, de que Jorge Amado tirará gran- integrador, esse samba-enredo da nova . so. Pois bem, em nosso imaginário, fei
de proveito. Num plano mais profundo, urbanidade impõe o esforço de erguer esse herói que teve um colapso 'em
se instala em nossa visão da realidade 0 Brasil de seu anacronismo crônico e 1964 e morreu, em leito de hospital,
social e da natureza uma constante dia- fazê-lo moderno, burguês, democráti- mas de morte matada, a 13 de de-
lética entre o "velho" e o "novo", pa- co, progressista, mais nacional que po- zembro de 1958, com o Ato 5. Aquele
drão que ainda informará um movi- pular. A expressão "nacional-popular", Estado benfazejo, progressista, meio
mento recente como a Tropicália, em retirada um tanto inadequadamente doméstico, durão no Estado Novo mas
1967-68, e cujo horizonte maior conti- dos escritos de Antônio Gramsci na compreensivo com os intelectuais, todo-
nua a ser a explicação que Euclides da Itália (anti) fascista, abençoava, pela es- poderoso mas bonachão como um lati-
Cunha deu para a Guerra de Canudos, querda, uma política frentista um tanto fundiário no alpendre de sua casa-gran-
como um confronto entre o Brasil lito- carnavalesca e nacionalista que, embo- de, a tomar chimarrão em fim de tarde,
râneo, progressista, republicano, e o ra muito séria no plano das intenções, esse Estado, como o deus de Nieztsche,
Brasil do sertão, arcaico, messiânico, desembocou numa série de equivocos morreu. Em seu lugar ficou esse aí, de
sebastianista, hoje jocosos, dos quais o mais grave hoje, meio bicho-papão meio orgia tec-
A transição para o ciclo seguinte se era fazer do artista retor de política e nocrática, em todo caso incapaz de cen-
faz pelos grandes painéis da nacionali- da arte, roteiro de poder. De qualquer trar qualquer imaginário. E daí entra-
dade. Por aí vai muito da poesia maior modo, não se pode esquecer que o en- mos em novo ciclo ou samba-enredo,
de Carlos Drummond de Andrade, e redo se enquadrava num horizonte de trágico, uma espécie de canto pelos he-
de obras tão desiguais, do ponto de vis- anseios legítimos de se democratizar a róis mortos, pelo herói morto, que ainda
ta da qualidade literária, como as de É- circulação do saber, então confundido não se esgotou. Ao pensar no espaço
rico Veríssimo e de Guimarães Rosa. A com cultura. Esse esforço atingiu em entre esses dois mundos, vem à mente
obra deste último constituirá talvez o Cheio o teatro - ver, por exemplo, as Quarup, de Antônio Callado - onde a
último marco desse ciclo de migrações, peças de Gianfracesco Guarnieri, revolução social aparece já como
onde o Brasil arcaico de todas as lin- como Eles não Usam Black-Tie, toda a problema.
guagens populares se transforma no de- prática e a teoria do Arena, do CPC da
sejo de uma memória, de que a sensa- União Nacional dos Estudantes -, mui- A curiosidade sobre a repressão
ção de perda (a morte de Diadorim) é o to da poesia de engajamento social, en- Javorece a memoriatística
centro silente e irreparável. No teatro, tão na moda (dessa produção a melhor
a ótica do painel, herdeira da grande antologia é ainda Canto Melhor, de Em poesia há duas grandes balizas
angular de Euclides, constituirá, em 1969), e mesmo muito da produção nesse ciclo. Uma é a chamda "geração
parte, a obra de Jorge Andrade, cujo ci- poética e teórica da então vanguarda do mimeógrafo", Enquanto geração, é
clo, panorâmico de dez peças - Marta, (como a do grupo Concreto), que ba- a que mais diretamente se relaciona
a Arvore e o Relógio - revive a história talhava por reproduzir uma moderniza- com a paisagem redefinida pelo regime
de uma família e seus agregados do sé- ção da inteligência nacional nos moldes ditatorial, embora contra. Houve uma
culo 18, até o então presente, Ao lado modernistas. revalorização do quotidiano e do co-
desta, encontra-se o mosaico fragmen- Esse ciclo entronizou em definitivo loquial, da auto-ironia e do desencanto.
tário e irregular da família e do subur- um herói de longo curso em nossa his- A outra baliza demarcatória é a obrá
bio brasileiros na obra de Nélson Ro- tória: o Estado. Pairando meio por mi- do poeta maranhense Ferreira Gullar,
310
BR DFAanNBSB 24042331 3NCO2Z2 , póB4

FERREIRA GULLAR

João Boa- Morte

cabra marcado pra morrer

Lúcio Marreiro/Agência O Globo


Lucio Marreiro/Agência O Globo
conographia

Editõra Universitária ª

que no ciclo anterior fora de tudo -da Ao longo da história brasileira, Que é Isso, Companheiro, indiscutivel-
geração de 45, do engajamento, da van- alguns escritores revelaram e deram mente o grande bom livro da série de
guarda. A partir da experiência dura do forma a samba-enredo. Na pág. ao Fernando Gabeira, Os Carbonários, de
exílio ele encontra seu melhor "pon- lado, Graciliano Ramos (extrema esq.) Alfredo Syrkis, e muitos outros. Esse
to de linguagem", dizendo, em seus Guimarães Rosa (centro) e Antônio elan de memória foi sem dúvida insu-
poemas, do Juniverso do "homem co- Callado. Também Ferreira Gullar flado pela obra do médico Pedro Nava,
num", do nordestino recrescido no (acima, à esq., capa de seu livro João em seis livros, sob cujo olhar passa boa
Rio, das queimadas do exílio e do Boa Morte), Clarice Lispector, Pedro parte das mudanças dramáticas de que
corpo desejoso de memória. Nava (acima) e Fernando Gabeira esse mesmo artigo, de modo incom-
Na ficção narrativa, o grande fio pleto, dá conta.
condutor é o narrar da violência que, Deve-se ainda assinalar o renasci-
ao se institucionalizar, atravessa toda a mento atual de um indianismo às aves-
paisagem - assim como, por exemplo, sas, desejoso de repensar nossas ori-
a fome fora um dos grandes fios narra- gens, onde vamos encontrar de novo
tivos da década de 30. Os anos 50 e 60 Antônio Callado, com A Expedição
fixaram quatro grandes balizas para o Montaigne, e Darcy Ribeiro, com Mai-
conto brasileiro moderno; a linguagem ra, e que o desencanto certamente fa-
mítica de Guimarães Rosa, a prosa iínti- vorece uma literatura sardônica, de
ma de Clarice Lispector, o inventário leve inspiração picaresca, de que Már-
da violência de Rubem Fonseca e o cio de Souza, por vezes, como em al-
mundo da marginalidade social de João guns momentos de Galvez, O Imperador
Antônio. Entre esses marcos crescerá do Acre, tirou bom proveito literário.
toda uma geração de contistas, particu- Ainda é prematura qualquer síntese
larmente no Rio Grande do Sul e Mi- desses tempos. Pode-se dizer que ser
nas Gerais. foram certezas e ingenuidades antigas,
Depois de Quarup, Antônio Callado, e que, atravessada por um canto geral
no romance, continuará a temática re- de ausência e dispersão, a arte, a literá-
volucionária, principalmente, como ria em particular, não se crê mais teste-
não podia deixar de ser, pelo lado do munho fiel, como em 30, nem alavanca
desencanto e da derrota. Nessa esteira da história, como em 60, nem mesmo
se vão Bar Don Juan, Reflexos do Baile como criadora de um território livre,
e o mais recente Sempreviva, que re- como no século passado, mesmo se sob
trata os tortuosos caminhos da volta do o signo da ironia mais cruel, como a de
exílio. Outros romances cuja leitura se Machado. Olhar mais de desencanto,
impõe como um "retrato" dessa época embora não derrotista, ela vem-se pro-
são Zero, de Ignácio Loyola Brandão, duzindo melhor, mesmo, como o espe-
e A Festa, de Ivan Angelo, além de lho da distorsão, a surpreender a histó-
Cabeça de Papel, de Paulo Francis. ria em seus avessos.
Mais recentemente a curiosidade sobre
os anos de maior repressão favoreceu a
memoralística, por, onde entraram -O Flávio Aguiar

311
BR DFANBSB V8.GNCAAA, 8404133 1 Incor, p5S

ECONOMIA/CAPITAL ESTRANGEIRO: a dívida externa do Terceiro Mundo


- seriam repassados através dos gran-
des bancos internacionais para os pro-
jetos das empresas multinacionais em
todo o mundo e também para os países
A epidemia da dívida em desenvolvimento. Em 1975, os ban-
cos se tornariam também repassadores
de petrodólares, criados pela alta do
Os créditos "fáceis", empurrados para os países pobres na petróleo em 1973 e 1974.
década de 60, arruinaram suas economias, transformando-se Isso permitiu revalorizar o custo do
crédito excedente - que estava em
numa bomba financeira, nos anos 80
baixa por ser abundante - e estimular
as exportações dos países ricos, espe-
"O Clube de Paris" - instituição en- Na verdade, os primeiros sinais de cialmente as dos EUA. Como parte do
carregada de examinar os reescalona- desastre eram bem claros já em 1974. "truque", o preço das máquinas indus-
mentos da dívida dos países em difícul- Nesse ano, após obter superávits folga- triais vendidas ao Terceiro Mundo foi
dade financeira - "fez duas reuniões dos no princípio da década - um cres- rapidamente aumentado, acompa-
em 1978, seis em 1980, 14 em 1981 e 20 cimento de mais de 20% em suas recei- nhado de um correspondente décres-
em 1982", diria Jean-Pierre Cot, minis- tas de exportação -, os países latino- cimo do preço das matérias-primas ex-
tro da Cooperação Econômica da americanos começaram a afundar em portadas peles países subdesenvolvi-
França, comentando a preocupação déficits crônicos. Em todo o Terceiro dos. Os países desenvolvidos, assim, pu-
dos países ricos com o brutal endivida- Mundo, as transações comerciais de- deram colocar em dia suas finanças -
mento do Terceiro Mundo. tam prejuízos de 2,7 bilhões de dólares, em parte às custas das remessas de lu-
A preocupação não era sem motivo. em 1974, e de 7,6 bilhões, em 1975. eros obtidos nos países pobres, onde as
Na década de 70, a dívida externa dos Essa corrosiva e violenta inversão no multinacionais se haviam instalado, e
países pobres havia-se alastrado como desempenho econômico já era então em parte às custas dos crescentes déficits
verdadeira epidemia, deixando cerca provocada pelo endividamento, e con- comerciais no Terceiro Mundo, que
de 60 países, em 1982, à beira do caos duziria fatalmente à crise de 1980. transformariam economias inteiras
financeiro, inclusive alguns países do em simples máquinas repassadoras de
Leste europeu, como a Polônia e a Ale- Em 75, os bancos se tornam dólares.. Em 1984, 53% das magras re-
manha Oriental. De cerca de 40 bilhões ceitas de exportação da América La-
repassadores de petrodólares
de dólares, no início dos anos 70, a di-
tina estavam comprometidos com o pa-
vida saltara para 150 bilhões, em 1974, De início, porém, a situação parece gamento da dívida externa.
depois para 190 bilhões, em 1976, e 450 ter-se afigurado aos países ricos como Era natural que, em vista de tudo
bilhões, em 1980. Em 1984, havia supe- um bem arquitetado e barato truque isso, alguns países pobres sugerissem,
rado a marca dos 800 bilhões de dóla- econômico. Ocorre que no final dos em 1984, que os grandes banqueiros
res e ainda estava crescendo, Além anos 60 a economia mundial estava em deviam contentar-se com o que já ha-
disso, como o único meio de pagar os um impasse. Os déficits comerciais dos viam ganho com sua perigosa armadi-
débitos vencidos era recorrer a novos EUA com a Europa e o Japão e gastos lha financeira e cancelar a dívida pas-
empréstimos, os grandes bancos inter- militares americanos em todo o mundo sada. Assim, a crise se resolveria. No
nacionais haviam comprometido com haviam carreado para fora desse país entanto, o presidente Ronald Reagan
a dívida mundial quantias até maiores uma grande quantidade de dólares, As- insistia em manter altas taxas de juros
que o seu capital. Assim, eram real- sim, a partir de 1959, e ainda mais for- como meio de atrair capitais externos
mente sérios os riscos de uma grande temente desde 1967, resolveu-se que para cobrir os déficits orçamentários a-
bancarrota mundial. esses créditos - os célebres eurodólares mericanos.

A enxurrada dos eurodólares


A participação das instituições públicas nos créditos colocado
s à disposição do Terceiro Mundo tornou-se
cada vez menor a partir da década de 60, com a criação do eurodóla
r. Entre 1974 e 1980, o total da dívida
externa dos países pobres cresceu 200%. Mas, enquanto os
empréstimos de fontes públicas aumentaram em
153%, os conseguidos junto aos grandes bancos e instituições privadas
cresceram 281%
Composição dos créditos da dívida externa dos países do
Terceiro Mundo, em bilhões de dólares (1974 e 1980)

Fonte: Banco Mundial, Annual Report 1982


BR OFANBSBVB.GNCAAA. 840413348002, p$6

ECONOMIA/SALÁRIOS: a política salarial do regime

Cintos apertados

Após 64, o Regime Militar adota uma política de arrocho


salarial,
situação agravada nos anos 80 por exigência do FMI, mas
que diante da resistência
do movimento sindical poderá resultar na perspectiva
de negociações diretas

A fórmula de reajuste serve para simplifi- economia brasileira nas mãos. tanto, seria rejeitado pelo Congresso

car e destraumatizar a aplicação dos rea- O primeiro desses decretos, o de nú- Nacional, em 19 de outubro, a despeito

Jjustes de salários nos dissídios coletivos. mero 2.012, de 25 de janeiro de 1983, de Brasília ter sido colocada sob "Es-

Esses não são mais decididos na base de retirou de quem ganhava até três sa- tado de Emergência" e tomada pelas

pressões e greves, mas por um rápido cál- lários minimos o direito de ter reajustes tropas do general Newton Cruz.

culo matemático. com índices 10% superiores ao Índice O quarto decreto, no 2.064, vigorou

(Mário Simonsen, 1975.) Nacional de Preços ao Consumidor apenas de 20 a 26 de outubro de 1983,

(INPC), e impôs índices inferiores a Era estupidamente arrochante e veio à

No futuro, quando os historiadores este para as demais faixas. tona apenas como trunfo do governo

organizarem os fatos indicativos do es- No segundo, o Decreto-Lei no 2.024, em suas negociações com setores polí-

gotamento do Regime Militar, instau- de 25 de maio de 1983, o governo, ticos após a rejeição do Decreto no

rado no Brasil a partir de 1964, não po- diante da reação popular, recuaria um 2.045.

derão deixar de fazer referências ao pouco, estendendo para quem ganhava Fruto dessas negociações, o governo

que aconteceu, em 1983, em torno da até sete salários mínimos os reajustes deu à luz o Decreto-Lei no 2,065, em 27

política salarial: nada menos do que com base em 100% do INPC. de outubro de 1983, um pouco mais

quatro decretos-leis foram baixados, O terceiro, o Decreto-Lei no 2.045, condescendente que os anteriores so-

entraram em vigor e depois foram re- foi baixado em 13 de julho com a chan- bre os reajustes das faixas acima dos

vogados, no curto espaço entre janeiro cela do Conselho de Segurança Nacio- três salários mínimos. O decreto previa

e outubro daquele ano, Cada um deles nal. Era um recado claro de que o gover- também a reintrodução gradativa das

correspondeu a uma tentativa de fazer no não estava mais disposto a transigir: o negociações diretas entre empregado-

passar goela abaixo dos trabalhadores decreto previa violento arrocho, im- res e empregados na discussão dos rea-

uma cavalar dose de arrocho salarial pondo sobre todas as faixas salariais a justes salariais. Depois de duas décadas

exigida pelo FMI (Fundo Monetário obrigatoriedade de reajustes de apenas fixando as regras e fórmulas da política
Internacional), então com as rédeas da 80% do INPC. Este decreto, entre- salarial - postura mais própria dos Es-

"au 7
WWWÉÉIWHW
liniilll mm calma
Rol in lo

v
m

R
R »? hªl“ (V't! |
MN,
»R DFANBSB V8.GNC.AAA, 240413
34 an 002, p54

tados fascistas -, o Estado brasileiro es-


boçava assim, um primeiro e leve recuo
em direção ao modeio clássico dos re-
gimes capitalistas liberais, em que o
traço principal é a negociação direta
entre trabalhadores e empresários.
Após a aprovação do Decreto-Lei no
2.065, em 1983, nova força política do
movimento sindical se encarregaria de
revogá-lo, na prática, no dia-a-dia dos
embates entre trabalhadores e empre-
sários. O governo não tinha como ne-
gar essa realidade. A Lei 7.238, de 29

Iconographia
de outubro de 1984, a despeito de man-
ter a imposição de reajustes nunca su-
periores a 100% do INPC, já admitia,
explicitamente, a direta dos Comício pelo aumento do salário mínimo, Rio, em 54, no governo Vargas
índices de reajustes, no intervalo entre
80 e 100% do INPC, para as faixas su- O Brasil foi o 12o pais do mundo, e necessário para que se mantenham vi-
periores a três salários mínimos. A ne- um dos primeiros da América Latina, vos após cada dia de labuta.
gociação direta estava, assim, voltando a incorporar em sua Constituição um Terceiro, ao estabelecer níveis dis-
ao vocabulário na política salarial. artigo específico estabelecendo o di- tintos para o salário minimo em re-
Como acontecia no Brasil até 1965. reito de todo cidadão receber um sa- giões diferentes, a lei passava por
lário nunca inferior a certo nível. A cima de um princípio universal de jus-
Em 1963, surge o Conselho Constituição de 1934 fazia referência tiça: para trabalho igual, salário igual.
Nacional de Política Salarial ao salário mínimo em seu Artigo 121. Quarto, as Comissões de Salário
Coube à Lei no 185, de janeiro de . Mínimo realizaram levantamento em
Antes, o Estado estipulava apenas as 1936, definir seu conceito e instituir as todo o País, mas não para definir o
variações do salário mínimo, cujo valor Comissões de Salário Minimo para custo de todos os bens e serviços es-
foi decretado pela primeira vez, em realizarem os estudos com vistas à fi- senciais, na quantidade definida pela
1940, por Getúlio Vargas, e os reajustes xação do seu valor. Essa lei foi regula- lei. O que se fez, de fato, foi um le-
do funcionalismo público e dos empre- mentada pelo Decreto-Lei no 399, de vantamento geral sobre os níveis sala-
gados das autarquias, empresas estatais 30 de abril de 1938, Em seu artigo 2o, riais mais baixos pagos em todo o
e empresas concessionárias de serviços denominava-se o salário mínimo País, que foram então legalmente re-
públicos. Para coordenar os cálculos como "a remuneração mínima devida ferendados.
desses reajustes, O governo federal a todo trabalhador adulto, sem distin- Quatro décadas depois, esse rol de
criou, em 1963, o Conselho Nacional ção de sexo, por dia normal de ser- injustiças pouco mudou. É certo que
de Política Salarial (CNPS). Enquanto viço, e capaz de satisfazer, em deter- foi instituído, em 1963, o salário-
isso, o surgimento de grandes empre- minada época e região do País, as família - irrisórios 5% do salário mi-
sas, a consolidação da classe operária e suas necessidades normais de alimen- nimo para cada filho de até 14 anos. É
sua crescente organização, sobretudo tação, habitação, vestuário, higiene e certo também que o salário mínimo
nos anos 50, iam soterrando a velha transporte". Finalmente, no dia 1o de seriaunificado para todo o País, pelo
praxe dos acordos individuais de traba- maio de 1940, Getúlio Vargas fixava Decreto no 89.589, de 26 de abril de
lho - emque cada empregado nego- os primeiros níveis do salário mínimo 1984, consumando uma vitória impor-
ciava o seu salário com o patrão -, de- em todo o País, através do Decreto- tante para os trabalhadores, Em 1940
terminando a prática dos acordos Lei no 2.162. foram definidos 14 níveis distintos,
anuais coletivos de trabalho, inicial- mas eles chegaram a ser 38, em 1963.
Getúlio, entretanto, subiria ao pa-
mente nas categorias mais numerosas e A partir desse ano, por pressão do
lanque armado no campo do Vasco
aguerridas. movimento sindical, o número de ní-
da Gama, no Rio, para anunciar, na
O CNPS seria herdado, em 1964, veis foi sendo reduzido até a unifica-
verdade, quatro grandes injustiças
pelo Regime Militar e serviria de tram- ção em 1984. Entretanto, estudos do
contra essa velha aspiração dos traba-
polim para a nova política salarial em DIEESE mostraram que a nivelação
lhadores do Brasil.
gestação e cuja implantação se faria deu-se por baixo. Ou seja, arrochando
Primeiro, a lei que definia o salário
por etapas. Primeiro, ainda em 1964, o os níveis mais altos para diminuir a
mínimo referia-se às necessidades de
governo ampliaria, via CNPS, um me- distância entre estes e os mais baixos.
apenas um trabahador adulto,
canismo de reajustes sobre os salários Assim, se os trabalhadores conse-
esquecendo-se de que, em geral, vive-
do setor público. Depois, em julho de guiram um de seus objetivos históri-
se em famílias.
1965, entrou em vigor a Lei 4.725, atri- cos, um salário mínimo unificado
Segundo, ao definir como essencial nacionalmente, ainda estão longe do
buindo ao governo a responsabilidade
de cálculo dos reajustes salariais em apenas as necessidades de alimenta- outro objetivo: que este salário mi-
ção, habitação, vestuário, higiene e nimo seja real, isto é, assegure efetiva-
todos os setores da economia, através de
fórmulas matemáticas. O pressuposto transporte, a lei esquecia-sé de que, mente a sobrevivência de uma família
era o de que a negociação direta gerava como seres humanos, os trabalhado- trabalhadora. Não perdeu atualidade,
reajustes incompatíveis com os objeti- res têm também direito a educação e portanto, o desabafo de um operário-
vos antiinflacionários da política eco- a lazer, por exemplo. Prevalecia, as- salário-mínimo, já incorporado ao foi-
nômica, além de perturbar a paz social sim, a noção de que aos trabalhadores clore popular: "Cada vez sobra mais ©
com greves, também incompatíveis deve-se pagar apenas o estritamente mês no fim do salário."
com a necessidade de estimular os in- aaa
314
BROFANBSB VB.GNC.AAA, 34041â34 an002ap 5&£

vestimentos e com a política de atração daquele que vigorava 24 meses antes; além de não repor as perdas anteriores,
do capital estrangeiro. A lei estabelecia segundo, porque a inflação "porven- durou pouco. No final de 1968, veio o
que os reajustes não poderiam realizar- tura admitida na programação AI-5; em 1969, a desmobilização dos
se com espaçamento inferior a 12 me- econômico-financeira do governo" se- trabalhadores; e, a partir de 1971, o re-
ses e seriam determinados de modo a ria sempre inferior à inflação real que crudescimento da inflação, fazendo
igualar o salário médio dos últimos 24 se verificaria; terceiro, porque a deter- com que os salários reais voltassem a
meses (e não mais o salário-pico, no minação das taxas de produtividade se cair. Com a reconquista de um espaço
momento do reajuste anterior), acres- faria ao gosto do governo e, em geral, maior de liberdade a partir de 1974, era
cido de uma taxa de produtividade esti- com resultados aquém da realidade. previsível que os protestos dos traba-
mada para o ano anterior e de um per- O achatamento dos salários reais nos lhadores retornassem. E, em novembro
centual que traduzisse a inflação fu- primeiros anos da nova política não po- de 1974, com a Lei 6.147, o governo era
tura, "porventura admitida na progra- deria, é claro, deixar de gerar protestos. forçado a introduzir novas alterações
mação econômico-financeira do go- Foi importante, por exemplo, a greve em sua fórmula salarial.
verno". dos metalúrgicos de Contagem (MG), A partir daí,o salário médio, para o
Para os teóricos do governo, o cál- em 1968. Diante da greve, o governo cálculo do reajuste, passava a ser a mé-
culo dos reajustes asseguraria para os concedeu um abono de emergência de dia dos salários reais dos últimos 12 me-
assalariados uma renda estável, mas 10% para todos os assalariados e reco- ses (e não mais 24 meses), melhorando
que aumentaria na mesma proporção nheceu "distorções" na aplicação da um pouco os reajustes futuros, depois
que a produtividade e a riqueza do fórmula, prometendo acrescentar-lhe do arrocho dos anos anteriores.
País. No entanto, a prática se encarre- um novo elemento para compensar Mas a melhora era muito modesta,
garia de desmentir esses objetivos. subestimações futuras do chamado não repunha as perdas sofridas e, ao to-
Já em 1965, o primeiro ano de apli- "residuo inflacionário" (a tal inflação mar posse, em 1979, o presidente Fi-
cação da fórmula, em São Paulo, por "porventura admitida" na programa- gueiredo já ouvia o pipocar das greves
exemplo, diversas categorias tiveram ção do governo). Esta autocrítica par- anunciando o renascimento do movi-
reajustes em torno de 40%, quando o cial, no entanto, custaria um preço: a mento sindical. Mesmo sem abrir mão
custo de vida subiu 62%. O mesmo de- nova fórmula salarial, agora conside- da repressão às greves, de intervenção
sequilíbrio aconteceria em 1966 e 1967. rada perfeita com o acréscimo do "fa- em sindicatos e da prisão das lideranças
E por quê? € tor de correção" do reajuste, teria du- mais combativas - a praxe desde 1964
Primeiro, porque os reajustes coloca- ração indefinida, enquanto a Lei 4.725, -, o governo foi obrigado a fazer, pela
riam os salários no mesmo nível do valor de 1965, que a criara, previa que ela fi- primeira vez, concessões importantes.
real médio dos últimos 24 meses, um va- casse em vigor por apenas três anos. Através da Lei 6.708, de novembro de
lor evidentemente inferior ao valor real Mas o período de "afrouxo salarial", 1979, foram estabelecidos os reajustes

AH...
ESE aí
Foi O AUMENTO
DE 1971.

- Deve ser o modelo mexicano: transformar a pirâmide salarial em sombrero.

O "aperto dos cintos" e o achatamento dos salários reais durante o Regime


Militar, por Ziraldotao lado) e Chico Caruso

315
ar DFANBSB 342002 , p59

mente, nas folhas de pagamento das


empresas estatais, onde tinham peso
significativo, dando fôlego, de certo
modo, para o cumprimento dos pesa-
dos encargos financeiros que -foram
obrigadas a assumir para captar dólares
no Exterior.
Além disso, o arrocho sobre os sa-
lários mais altos poderia ser anunciado
com ares de autocrítica, já que, nos
anos anteriores, haviam-se ampliado
estupidamente as disparidades entre es-
tes e os salários mais baixos.
Em 1976, a empresa de consultoria
Morris e Morgan publicou uma pes-
quisa mostrando que o salário médio
de um gerente-geral de média e grande
empresa em São Paulo e Rio de Ja-
neiro era 65 vezes maior do que o de
um servente na construção civil, em
1969, tendo evoluído para 90 vezes, em
1975. Ainda de acordo com a mesma
pesquisa, se fossem levados em conta
os benefícios adicionais - como auto-
móvel, viagens, refeições, clubes, alu-
guêis, etc. - concedidos aos executivos,
seus salários reais médios seriam 162
vezes maiores do que o de um ser-
vente,

Entre 1980 e 1983, salários


diminuem pela metade

O pretexto de melhorar a distribui-


ção de renda, entretanto, não seria ca-
paz de esconder a realidade do arro-
cho imposto sobre a classe média. Um
Fernando Pimentel/Abril Press

documento da Ordem dos Economistas


de São Paulo, divulgado em 1984, mos-
trou que os ordenados na faixa de 20 a
30 salários mínimos tiveram seus valo-
res reais diminuídos para pouco mais
da metade, entre o final de 1980 e o ini-
cio de 1983,
O arrocho sobre a classe média, no
Em 83, por pressão do FMI, o arrocho salarial atinge todas asfaixas salariais. entanto, não foi suficiente para acalmar
Acima,
o protesto dos funcionários das empresas estatais, no Rio o FMI. Quando, no início de 1983, o
governo brasileiro acertava o primeiro
"pacote" de emergência para o finan-
semestrais e, para os salários mais bai- minuir o nível da produção, desestimu- ciamento da dívida externa, eram cla-
xos, um adicional de 10% do Índice Na- lando o consumo. Como? Contendo os ras as pressões dos banqueiros interna-
cional de Preços ao Consumidor salários, cionais para que o arrocho fosse esten-
(INPC). Em consequência, depois de Por isso, entrou em vigor, em dezem- dido a todas as faixas salariais, E foi as-
anos de achatamento, os salários reais bro de 1980, a Lei 6.886, determinando
» sim que começou a sequência dos de-
nestas faixas, cresceriam levemente, reajustes de 80% do INPC para a faixa cretos 2.012, 2.024, 2.045 e 2.064.
Mas o estouro da divida externa do de dez a 15 salários mínimos, de apenas Diante da resistência imposta pelo
País faria o governo voltar atrás. De- 50% do INPC para-a faixa de 15 a 20 sa- movimento sindical e pelos setores
pois do relativo "afrouxo" da Lei lários mínimos; e, para as faixas supe- políticos - posto que agora a política
6.708, novas doses de arrocho seriam riores a esta, os reajustes seriam nego- salarial tinha o "mérito" de desagradar
ministradas, já sob pressão dos credo- ciados. Desta vez, portanto, a lei vi- aos assalariados de todas as faixas -, o
res internacionais. Para pagar os juros nha com a pontaria calibrada para pe- governo seria obrigado a fazer uma
escorchantes da dívida externa, o go- gar em cheio a classe média.Havia uma série de manobras e contramanobras
verno embarcava de corpo e alma na lógica nisso: diante do surto grevista que acabaram resultando no Decreto-
tese da necessidade de desaquecer a que ainda ressoava em 1980, o governo Lei no 2.065 e na perspectiva de se vol-
economia. E argumentava: saldos co- evitava, prudentemente, cutucar o ves- tar, em breve, a uma política democrá-
merciais positivos somente seriam peiro dos baixos salários; por outro, o tica de aumentos salariais negociados
possíveis, de imediato, contendo as im- arrocho sobre as faixas de dez a 20 sa- livremente entre empresários e traba-
portações. Para tanto, seria preciso di- lários mínimos repercutiria, principal- lhadores,
316
2404433 J an CO&2, pé0"

POLÍTICA/ELEIÇOÓES: evolução da legislação (1964-384) um escrutinador (que podia "ler" o que


bem entendesse) e incineradas em se-
guida.
As atas de apuração também podiam
Manipulação eleitoral ser falsificadas, a "bico-de-pena", com
alterações, rasuras e emendas. E o can-
didato, uma vez eleito, podia ter sua
Do golpe até o seu esgotamento final, o Regime Militar posse impedida pela bancada majori-
promoveu drásticas mudanças nas regras eleitorais, tentando tária nas Assembléias Legislativas. Na
linguagem da época, sua candidatura
manter o predomínio de forças conservadoras
podia ser "degolada".
Uma das principais bandeiras da re-
Em outubro de 1984, o Senado apro- (ou qualificação) dos eleitores. Ele era, volução de 30, que empolgou amplos
vou a regulamentação do Colégio Elei- geralmente, controlado por um juiz setores da população, foi justamente
toral que, em janeiro do ano seguinte, municipal comprometido com as for- a moralização dos costumes eleitorais.
iria eleger o novo presidente da Repú- ças políticas dominantes no Estado. E isso, realmente, ocorreu em parte:
blica. Como um fruto típico do Regime Nas listas de eleitores organizadas por em 24 de fevereiro de 1932, era promul-
Militar, ele tinha sido construído de tal esses juízes, o contingente dos correli- gado um novo Código Eleitoral, que
maneira que o partido do governo (o gionários do partido situacionista era criava a Justiça Eleitoral, para regula-
PDS), mesmo tendo obtido nas elei- engrossado com a inclusão de pessoas mentar e fiscalizar os pleitos. Instituía o
ções de 1982 para a Câmara Federal já mortas, de menores com compro- voto secreto, estendia o direito de voto
apenas 36,5% dos votos, detinha 358 vantes falsos de idade e de analfabetos. às mulheres e diminuía o limite mínimo
(52,2%) dos 686 votos que elegeriam o E ainda restava a possibilidade de os de idade para votar de 21 para 18 anos,
futuro presidente. eleitores oposicionistas serem excluídos provocando, de imediato, um cresci-
Mas, no correr do processo suces- pura e simplesmente. , mento significativo do eleitorado. Re-
sório, houve uma profunda divisão no A fraude institucionalizada prosse- conhecia partidos estáveis, organizados
partido governamental. Muitos "dos guia, sobretudo na zona rural, com o como sociedades de direito civil, e par-
seus membros formaram a Frente Li- sistema de "currais eleitorais". Neles, tidos formados exclusivamente para
beral, que se uniu ao PMDB, o maior os eleitores "de cabresto", reunidos so- concorrer às eleições, além de permitir
partido da oposição, para constituir a bre rígido controle de "cabos eleito- candidatos avulsos, desde que apoiados
Aliança Democrática e lançar a candi- rais", recebiam cédulas já preenchidas por um certo número de eleitores.
datura do governador de Minas, Tan- e fechadas: as "marmitas".
credo Neves. Ao encerrar-se o ano de As mesas eleitorais, que recebiam os Em 1937, um golpe extinguia os
1984, tudo parecia indicar sua vitória, votos, apuravam os resultados e lavra-
partidos e suprimia eleições
que marcaria o final de um ciclo na his- vam a ata correspondente, também
tória política do País e dos "pacotes eram formadas por vereadores ou auto- Em algumas de suas medidas, como
eleitorais" e presidentes militares elei- ridades judiciárias nomeadas por inter- a relativa à organização partidária, o
tos de forma indireta. ferência do poder local. Os mesários código de 1932 foi o mais avançado que
O Regime Militar instalado em 1964 podiam, então, falsificar os livros de o País já teve, Nas legislações posterio-
promoveu drásticas mudanças nas re- presença, incluindo "assinaturas" de res, sempre foi imposto algum tipo de
gras eleitorais do País. Através de um eleitores ausentes, para os quais já ti- limitação à liberdade para a constitui-
conjunto de medidas de força, fez com nham cédulas preenchidas. As cédulas ção de partidos e apresentação de can-
que os resultados eleitorais se afastas- efetivamente recebidas eram lidas por didatos, Entretanto, esse código teria
sem ainda mais do que seria uma efe-
tiva expressão da "vontade popular". Durante a República
Agravou os mecanismos de manipula- Velha (1889-1930), as
ção das eleições que sempre existiram eleições eram um jogo
na história brasileira. Esses mecanis- de cartas marcadas,
mos, antes como depois de 1964, ti- com a inclusão de
nham uma finalidade inconfessada, votos de pessoas já
mas claríssima: assegurar o predomínio mortas, menores ou
político das forças sociais conservado- cédulas preenchidas,
ras. sempre beneficiando as
Na República Velha (1889-1930), a oligarquias. A dir., um
maioria esmagadora da população flagrante da mesa
adulta não dispunha do direito de voto. eleitoral na prefeitura
Estavam excluídos as mulheres, os carioca, no pleito de 30
analfabetos, os mendigos, os militares de janeiro de 1915, em
com patente inferior à de oficial e os que, segundo a revista
clérigos. O número de votantes era Careta, os juízes
ainda menor do que o de eleitores, já "puderam dormir por
que o voto não era obrigatório. terem trazido o trabalho
Além disso, havia um conjunto de pronto de casa"
expedientes que transformava as elei-
Biblioteca Nacional

ções num jogo de cartas marcadas em


benefício das oligarquias. Nas eleições
a nível municipal ou estadual, a mani-
pulação começava já no alistamento
or DFANBSB V8.GNC;AAA, 24044334 an CO 2,661

simpatizantes, e se transformara na
quarta força eleitoral do País. A cassa-
ção do registro do Partido Comunista,
em 7 de maio de 1947, com base no dis-
positivo citado, era a culminação de
uma série de agressões praticadas pelo -
governo Dutra contra as liberdades de-
mocráticas.
Os partidos majoritários na Assem-
bléia Constituinte de 1946 já haviam
lançado mão de outro expediente vi-
sando ao PC. Estabeleceram que os go-
vernadores de Estado poderiam no-
mear os prefeitos das capitais e de-
veriam nomear os prefeitos de cidades
ita teia 28 EIS es ave m saoR declaradas bases ou portos militares de
excepcional importância. Nas eleições
, I NARE
p &“; apare 1: gti ars vao Path oe oia > oUBA
RR a e,
:Tàçd“;
d ditas
ao 1
| | Justica e Liberd
M
ade) | 4a Dra.
4 presidenciais e legislativas de 1945, o
Juslga e Liber dade
VOTAE na Ora, PC havia vencido em capitais como
na Dra.
' Rio de Janeiro, São Paulo, Recife
(onde obteve 40% dos votos), Natal e
Aracaju, e em cidades importantes
como Santos, Campinas, Sorocaba,
Olinda, etc. A manobra se destinava a
impedir que os comunistas pudessem
ter acesso às prefeituras dessas cidades.
Em 1950, as restrições à liberdade de
organização partidária sofreriam um
agravamento ainda maior. Pelo Código
Eleitoral de 1945, os partidos - embora
devessem ser registrados no Tribunal
Superior Eleitoral - conservavam
ainda seu estatuto de sociedades civis,
regidas pelo Código Civil. A partir de
1950, porém, a lei passou a considerá-
los pessoas jurídicas de direito público.
Assim, os estatutos, os programas e a
vida dos partidos passaram a ser con-
trolados de fora. Além disso, foram au-
mentadas as dificuldades para a legali-
zação dos partidos: eles deveriam ter
no mínimo 50 mil votos, em pelo menos
Iconographia

cinco circunscrições eleitorais, eum de-


putado.
A partir da promulgação de um novo Código Eleitoral, em 24 defevereiro de 1932, o Todas essas manipulações antidemo-
direito de voto chegou às mulheres. Acima, comício realizado no Rio, em 1933, para cráticas das regras eleitorais, porém,
propaganda de Natércia da Cunha Silveira são irrelevantes quando comparadas
» com as que iriam ocorrer após o golpe
militar de 1964.
vigência curta. Em 10 de novembro de cinco Estados, com ummínimo de 500 Em julho de 1965, a nova Lei Orgã-
1937, o golpe de inspiração fascista, assinaturas por Estado. Em maio de nica dos Partidos e o novo Código Elei-
que instituiu o Estado Novo, fechava o 1946, já com o general Dutra na Presi- toral modificavam drasticamente as re-
Congresso Nacional, extinguia os parti- dência da República, a exigência foi gras políticas. Foram proibidas as alian-
dos e suprimia as eleições em todos os ampliada para 50 mil assinaturas. Além ças partidárias nas eleições majoritárias
níveis. A ditadura se prolongaria por disso, proibiu-se a existência legal de e estabelecida a vinculação entre presi-
quase oito anos. partidos considerados "antidemocráti- dente e vice nas eleições presidenciais.
Com o fim do Estado Novo, em cos", que fossem filiados a organiza- Para a legalização dos partidos, foram
1945, iniciou-se uma etapa política que ções internacionais ou que recebessem fixadas condições extremamente difí-
se estenderia até 1964 e seria conheci- dinheiro do Exterior. ceis: o partido deveria existir em pelo
da como "interregno democrático". Es- Este dispositivo legal, que foi utili- menos 11 Estados e neles estar implan-
sa democracia tinha, porém, limites bem zado uma única vez, tinha um endereço tado até o nível municipal. Apenas o
visíveis, começando já com as restri- certo: o Partido Comunista, que obti- PSD e a UDN preenchiam plenamente
ções impostas pelo Código Eleitoral, de vera a sua legalização em 1945, após 23 estas condições, enquanto o PTB, o
28 de maio de 1945, à organização par- anos de clandestinidade e perseguição PDCe o PSP tinham alguma chance de
tidária. Exigia-se que os partidos apre- policial. Principalmente porque o PC tentar.
sentassem, para obter sua legalização, crescera de maneira extraordinária, ar- Essas medidas truculentas, entre-
uma lista com as assinaturas de pelo regimentando, em fins de 1946, cerca tanto, não foram suficientes para o re-
menos dez mil eleitores, espalhados por de 200 mil militantes, sem contar os gime obter o resultado que esperava
318
BROFANBSB VB.GNC.AAA, R4 041333] ACO , pêéa

nas eleições para governadores de Es-


tado, realizadas em 3 de outubro da-
quele ano. Dois entre os 12 governado-
res eleitos, os do Rio de Janeiro e de
Minas Gerais, representavam forças de
oposição aos militares no poder.
, A resposta do regime foi fulminante.
Em 27 de outubro, era baixado o Ato
Institucional no 2, extinguindo os parti-
dos políticos e estabelecendo eleições
indiretas para presidente da República.
O Ato Complementar no 4, de 30 de no-
vembro, impunha restrições extremas
para a legalização de novos partidos,
que tinham um prazo de apenas 45 dias
para se constituir. Eles deveriam ter um
mínimo de 120 deputados e 20 senado-
res e eram proibidos de usar nomes, si-

Iconographia
glas e símbolos das agremiações extin-
tas pelo AI-2. As condições eram tão
difíceis de cumprir que ameaçavam le-
var ao partido único, forçando os estra-
tegistas do regime, que ainda queriam Em 46, o PC era a quarta força
manter certas aparências democráticas, eleitoral do País (ao lado, a sede do
a determinar que alguns de seus corre- partido, no Rio). Em maio de 47, o
ligionários aderissem ao partido de registro do Partido Comunista é cassado,
oposição, para viabilizar sua existência. assim como os mandatos de seus
Surgiram desse ato de força a Arena e representantes (acima, manifestação
o MDB. contra a cassação). Com o golpe de 64,
crescem as manipulações nas regras
iconographia

Em 1966, o AI-3 estendia eleitorais, como após a vitória


oposicionista de Negrão de Lima (abaixo,
eleições indiretas a vários cargos em comício em 65), no governo do Rio

Em 5 de fevereiro de 1966, o Ato Ins-


titucional no 3 estendia as eleições indi-
retas aos cargos de governadores e
vice-governadores de Estados e prefei-
tos das capitais e cidades consideradas
"áreas de segurança nacional". A capi-
tal federal, Brasília, continuava sem a
possibilidade de eleger prefeito, verea-
dor ou qualquer outro representante.
Em 17 de abril de 1968, 68 municípios
seriam declarados "áreas de segurança
nacional", deixando de eleger seus pre-
feitos. O AI-3 criou também as suble-
gendas nas eleições para prefeitos e se-
nadores. Era o expediente para acomo-
dar, nos limites estreitos do bipartida-
rismo artificial, as diferentes correntes
políticas e as ambições pessoais confli-
tantes.
A nova Constituição, redigida por
iniciativa do general Castello Branco e
aprovada pelo Congresso Nacional, sob
protesto do MDB, em 15 de março de
1967, incorporava em seu texto todas
as alterações na legislação eleitoral rea-
lizadas pelos militares e complementa-
res. Mesmo assim, a Constituição se-
ria praticamente revogada, no final do
governo Costa e Silva (1967-69), pelo
Ato Institucional no 5, de 13 de dezem-
bro de 1968, que dava poderes ditato-
Ágéncna O Globo

riais ao presidente da República.


A Emenda Constitucional no 1, de 17
de outubro de 1969, promulgada pela
Junta Militar que sucedeu a Costa e

319
sr oransss va.ene.aaa, 34041331 an co a p63

Silva, reformaria a Constituição de temporariamente o Congresso e bai- agremiações puderam ser formadas
1967, acabando com os resquícios libe- xava o "Pacote de Abril", criando os (PDS, PMDB, PP, PTB, PDT e PT),
rais que ela continha. senadores "biônicos" (eleitos indireta- algumas com bastante dificuldade e
Durante o governo Médici (1969- mente), que deveriam ocupar um terço provisoriamente.
74), as eleições diretas se limitavam, das cadeiras do Senado e participariam Em 13 de novembro de 1980, era
no Executivo, ao cargo de prefeito das dos Colégios Eleitorais que elegeriam aprovada Emenda Constitucional res-
cidades que não eram capitais nem os dois futuros presidentes da Repú- tabelecendo eleições diretas para go-
"áreas de segurança nacional" ou es- blica. Promovia, também, uma nova vernadores de Estado em 1982. Antes
tâncias hidrominerais. distorção na representação dos Estados que elas se realizassem, porém, o re-
Em 13 de agosto de 1973, para refor- na Câmara Federal, com a elevação do gime efetuaria novas manipulações
car ainda mais a maioria do partido si- limite mínimo de deputados por Estado eleitorais e políticas. Em 1o de janeiro
tuacionista no Congresso Nacionai e a fixação arbitrária de um limite má- de 1982, era criado o Estado de Rondô-
que, funcionando como Colégio Eleito- ximo. Com isso, aumentava as banca- nia, cujo controle pelo partido situacio-
ral, homologaria a indicação do novo das dos Estados mais atrasados (domi- nista era líquido e certo. No dia 19 do
presidente (decidida de fato nos altos nados pela situação) e diminuia as dos mesmo mês, era aprovada lei obri-
escalões das Forças Armadas), o Colé- Estados mais desenvolvidos (crescente- gando os partidos políticos a terem
gio foi modificado, acrescentando-se, mente oposicionistas). Por fim, alterava candidatos em todos os níveis, impe-
aos membros do Congresso Nacional, a composição dos colégios eleitorais es- dindo que houvesse coalizões parti-
delegados das Assembléias Legislativas taduais, que deveriam eleger indireta- dárias nas eleições para governadores e
estaduais. mente os novos governadores e os se- prefeitos (pela Reforma Partidária de
Já sob as condições um pouco me- nadores biônicos. 1979, as coligações para a Câmara Fe-
nos opressivas do governo Geisel
deral, Assembléias Legislativas e Câ-
(1974-779), o MDB, utilizando-se de Em 1979, eram extintos maras Municipais). A
relativa liberdade durante a campanha
arbitrariamente Arena e MDB Ficava claríssima a intenção dos és-
eleitoral de 1974, conquista uma vitória
trategistas do regime de neutralizar
extraordinária. Obtém quase o dobro Em parte respondendo a uma das parcialmente o previsível sucesso elei-
dos votos da Arena nas eleições para o reivindicações democráticas da socie- toral das oposições, forçando os parti-
Senado e, ao eleger mais de um terço dade brasileira - a da plena liberdade dos oposicionistas a disputarem uns
dos deputados federais, atinge o de organização partidária -, mas, so- contra os outros. A manobra, entre-
quórum que lhe permitia convocar Co- bretudo, visando a desarticular a ampla tanto, acabaria provocando a incorpo-
missões Parlamentares de Inquérito. frente oposicionista congregada ino ração do Partido Popular ao PMDB,
Tornava-se também majoritário nas MDB, que se fortalecia a cada eleição, com o fortalecimento numérico do
Assembléias Legislativas de São Paulo, o sucessor de Geisel, Figueiredo, pro- maior partido oposicionista.
Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pa- moveu a Reforma Partidária. Em 20 de Embora tenha conseguido eleger os
raná, Amazonas e Acre, o que lhe pos- dezembro de 1979, eram extintos arbi- governadores do Rio Grande do Sul,
sibilitava eleger indiretamente os go- trariamente a Arena e o MDB e esta- Estado majoritariamente oposicionista,
vernadores desses Estados no pleito de belecido um prazo de 180 dias para a e de Santa Catarina, onde se previa
1978. A oposição começava a bater o organização de novas agremiações. uma vitória da oposição, o governo não
regime mesmo sob as regras que este Para impedir que alguma delas utili- pôde impedir que as oposições eleges-
havia criado. Era preciso modificar no- zasse a denominação MDB, a lei sem dez governadores e conquistassem,
vamente essas regras. obrigou a intlusão da palavra "partido" em todo o País, a maioria dos votos po-
Em 1o de julho de 1976, a Lei Falcão em seus nomes. Também para assegu- pulares. O Regime Militar se aproxi-
praticamente acabava com a propa- rar que o MDB realmente se fragmen- mava do esgotamento.
ganda eleitoral no rádio e TV, tasse, foram abrandadas as exigências
limitando-a à apresentação do nome, para a legalização dos novos partidos, Em julho de 1976, o regime modifica
número, legenda e foto dos candidatos. mas não a ponto de permitir um pluri- novamente as regras eleitorais, com a Lei
Em 1o de abril de 1977, Geisel fechava partidarismo autêntico. Apenas seis Falcão. Abaixo, por Ziraldo

DEV
Pal
COMERCIAL

no v e A4

320
DR DFANBSB V8.GNC.AM, R4044334 ân 002 , p 64

Josef Kamuck Hr/Abril Press

Cláudio Edinger/Abril Press


POLÍTICA/HISTÓRIA : o papel dos brasilianistas na história do País
Com a segunda leva de estudiosos
americanos - the modernizers of the
60's - surgem obras importantes sobre
economia e política brasileiras, escritas
De bandidos a mocinhos por brasilianistas como Alfred Stepan
ou Robert Levine ( acima )
No final da década de 70, a inteligentsia local

reconhecia a contribuição de brasilianist
as, que nos
anos da ditadura foram duramente criticados

No final de 1981, num congresso de dos anos 60. Falou de uma época em nanciamentos generosos do Estado e
historiadores americanos, em Los An- que "os brasilianistas estavam delicio- das fundações. Bolsas foram providen-
geles, Richard Morse, figura paternal samente nas margens da academia", e ciadas para estudantes de pós-
no campo de estudos latino-americanos quando "congressos de historiadores graduação. As universidades passaram
nos EUA, foi chamado para fazer um serviam para beber e jogar pôquer, e a oferecer ótimas colocações para eco-
balanço da produção brasilianista. não, como agora, para mercado de es- nomistas, cientistas políticos, críticos li-
Apesar de ter escrito uma das primeiras cravos" (onde professores recém- terários, antropólogos e historiadores
teses de doutoramento sobre o Brasil, doutorados são negociados). A "mi- com especialização em América La-
publicada em português em 1954 com niexplosão" se deu, continuava Morse, tina. Organizaram-se cursos de gradua-
o título A Formação Histórica da Cidade pela invasão burocratizante do governo ção sobre a história do Brasil, da Ar-
de São Paulo, Morse negou que fosse e das fundações culturais (como Ford, gentina, do México, sobre a narrativa
brasilianista. Contou que tivera cinco Carnegie, Tinker) na vida universitária na América espanhola, sobre desenvol-
empregos como professor universitário, norte-americana. A revolução cubana, vimento, revolução, política externa,
um como chefe de departamento, um entre outros eventos políticos, gerou problemas agrários, para dar alguns
lecionando história do Caribe, outro um crescente interesse pelo misterioso exemplos. Acabava de ser inventado o
história da América Espanhola e dois e desconhecido pedaço do continente campo de estudos latino-americanos,
como "generalista", mas "sem ser de ao sul dos EUA. E, não mais que de re- uma área nova na tradição americana
quatro estrelas", Embora não se reco- pente, havia dinheiro para financiar os cada vez mais importante de area stu-
nheça como um brasilianista, ao longo estudantes e professores que se dispu- dies.
da carreira manteve relações profis- sessem a atender esta nova "prioridade Seria equivocado, no entanto, atri-
sionais e pessoais com o brasilianismo nacional"": estudar a América Latina, buir tanta agitação tão-somente à cu-
e o Brasil. Professores com teses já feitas sobre riosidade súbita do governo norte-
AO historiar um pouco da própria outras áreas receberam e aceitaram americano em saber o que se passava
| vida, Morse fez um corte entre o que propostas para mudar de ramo e se es- do lado de baixo do Equador. Do fim
veio antes e depois da "miniexplosão" pecializar em América Latina. Cria- dos anos 50 até meados dos anos 70,
de estudos brasilianistas em meados ram-se centros de estudos com fi- viveu-se nos meios universitários norte-

321
er pransss ve.enc.aaa, R4041 2331an CO2 , pôs

americanos a guerra do Vietnã, a inter- brasilianistas produziam trabalhos sim- tidas. Os intelectuais nacionais come-
venção na República Dominicana, as plesmente empíricos, meros catálogos, caram a reconhecer, já a esta altura, a
guerras coloniais africanas, a ascensão incapazes portanto de contribuir muito contribuição dos americanos, pelo me-
e terrível fim da Aliança Popular do para o esclarecimento dos problemas e nos ao nível de pesquisa.
Chile, os movimentos negros, a cultura questões nacionais. Eram vistos, em A geração brasilianista que iniciou a
negra, jazz, blues, rock, para não falar suma, como o braço intelectual do im- pós-graduação apartir dos anos 70 en-
no misticismo hippie. A populosa gera- períalismo, colecionadores de dados frenta, então, um contexto intelectual
ção concebida na euforia supersônica úteis aos interesses dos EUA, aliados bastante mudado. A geração anterior já
que se seguiu à Segunda Grande da ditadura. ocupa as cadeiras de um sistema uni-
Guerra, os chamados filhos do baby
Tal hostilidade começou a ceder, já versitário que não se expande mais, e
boom, passou pela universidade provo- em meados dos anos 70, a uma convi- onde muitos "terrenos" acadêmicos já
cando uma rápida expansão neste vência mais amena, devido, em parte, à estão demarcados. As relações com os
período. Viveu-se, enfim, a longa e ca- internacionalização - forçada pelo colegas brasileiros são, felizmente, bem
lorosa década chamada the sixties. E foi
exílio - da intelectualidade latino- mais fraternais do que 15 anos atrás.
assim, neste clima, que o Terceiro americana, e à hospitalidade retribuída Mas ficou uma, pelo menos uma, ques-
Mundo passou a existir para os jovens
de alguns brasilianistas que procuraram tão básica: para que serve, ou pode ser-
americanos, ajudar os exilados. Ficou claro para os vir, o brasilianismo? O relatório de mais
brasileiros que a maioria dos brasilia- uma nação, como quer Clifford Ge-
Elesspendiam mais para Kennedy
nistas era ou liberal ou de "centro- ertz? Uma fonte de saber para a forma-
do que para Jimi Hendrix esquerda", contra a ditadura, e que ção mais inteligente da opinião pública
poucos colaboravam com a CIA e cia., e da política externa americanas? Uma
É nesta conjuntura que se forma a pelo menos diretamente. Os exilados, contribuição norte-americana às lutas
segunda leva de estudiosos americanos sobretudo os teóricos da dependência, libertárias no continente? Talvez seja
interessados no Brasil, "the modernizers chegaram, inclusive, a ter grande in- Alexis de Tocqueville - adaptado por
of the 60's", no dizer de Morse. Se estes fluência nos meios universitários norte- Richard Morse - quem tem a resposta
jovens professores tinham, por um americanos, criando assim uma base mais interessante: serviria para focali-
lado, alunos curiosos e animados com a para diálogo. Posteriormente, como zar aquilo que os EUA podem apren-
luta de libertação no Terceiro Mundo, mostra José Carlos Sebe em seu livro der com o Brasil. Inverter ao nível do
sentiam, por outro, a necessidade de Introdução ao Nacionalismo Acadêmico: texto a relação "centro" versus "perife-
demarcar um terreno próprio em um os Brasilianistas, o fim da censura no ria". Uma espécie de antropofagia os-
campo acadêmico ainda mal explo- Brasil na última metade dos anos 70 waldiana às avessas. Ou, se quiserem, o
rado. A carreira universitária norte- (bem como o fim da expansão universi- avesso do avesso do avesso. Mas daí
americana dependia de publicações, e tária norte-americana) fez com que as provavelmente haveria uma mudança:
era imprescindível portanto que a pes- Obras brasilianistas passassem a ser brasilianeiro, em vez de brasilianistas.
quisa de doutoramento, frequente- apenas mais uma entre várias interpre-
mente a primeira investida do estu- tações, tirando-lhes o caráter de uma Matthew Shirts e
dioso em águas brasilienses, virasse li- das poucas palavras e pesquisas permi- Antônio Pedro Tota
vro. Os tempos visavam, quase sempre,
ou à política ou à economia neste
período. Pode-se citar como exemplo
das pesquisas mais importantes os li-
vros de Thomas Skidmore, Politics in
Brazil, 1945-1964: An Experiment in
Democracy (1968), Robert Levine, The
Vargas Regime (1968), Alfred Stepan,
The Military in Politics: Changing Pat-
terns in Brazil (1971), bem como as
análises de Joseph Love sobre o regio-
nalismo gaúcho (1971) e as de John
Wirth sobre a política do aço e do pe-
tróleo no País (1970). O programa de
pesquisa dos brasilianistas seguia basi-
camente a mesma problemática do
latino-americanismo: estudar a ausência
de democracia e desenvolvimento no
continente. Pendiam mais para John
Kennedy do que para Jimi Hendrix.
Embora bem recebidos pessoal-
mente, pela decantada hospitalidade
brasileira, os brasilianistas foram dura-
mente criticados pela inteligentsia local.
Dizia-se que gozavam de privilégios
nos difíceis caminhos para as fontes e
arquivos fechados aos pesquisadores
nacionais. Eram acusados de colaborar
com as "forças ocultas", a CIA, por
exemplo. A crítica mais dura: apesar de Thomas Skidmore, autor de Politics in Brazil, 1945-1964: An Experiment in
tanto financiamento à disposição, os Democracy, de 1968
322
sr praNnBss A, pés

ARTES/MÚSICA: a evolução do País na música popular em qualquer época, só bem recente-


mente começou a aparecer por inteiro
no repertório que as rádios tocam. É
claro que sambas como Ai que Sauda-
Espelho do País des da Amélia (1941) sempre foram
bem-vindos - e o retrato que Ataulfo
Alves e Mário Lago montaram da mu-
Desde o início do século; os autores de música popular lher (pré-feminismo) era tão acertado
refletem o País. Mas nem sempre o poder permitiu retratos que Amélia deixou de ser nome pró-
prio e virou adjetivo. E como este, de-
tão precisos, como nos anos 70 zenas de outros foram contando a his-
tória de mulher por aqui, a princípio se
O chefe da Polícia/ Pelo telefone) ginal dizia: O Bonde de São Januário! detendo mais no vaivém tirânico da
Manda me avisar! Que na Carioca tem Leva mais um sócio otário/Sou eu, que moda: Tudo à la Garçonne, de 1925
uma roleta/ Para se jogar. não vou trabalhar. O DIP exigiu que fi- (Cabelos curtos, bem aparados/Lindos
casse assim: O Bonde de São Januário! cangotes nos deixam ver), Moreninha da
Esta parceria de Donga e Mauro de Leva mais um operário/ Sou eu que vou Praia, de 33 (Que anda sem meia/ Em
Almeida, de 1917, é tida como o pri- trabalhar. plena Avenida). Ela Foi Fundada, de 57
meiro samba gravado. Portanto, a E o index das censuras não surge (Coitada está cansada/ De ficar no espe-
música popular chegou ao disco refle- apenas para temas mais diretamente li- lho/ Tapando seus buracos/ Com creme e
tindo de maneira precisa o universo ao gados com o credo dos poderosos. A pó-de-arroz). Dr. Pitangui, de 64 (Levei a
seu redor. É verdade que o chefe de mulher, um dos assuntos mais comuns Marieta ao Pitangui/ Quando voltou não a
polícia do Rio, na época, Aureliano na música popular de qualquer país e reconheci), etc. As roupas cada vez mais
Leal, comandava, com o maior estar-
dalhaço, uma campanha contra a jo-
gatina. E é claro que o jogo continuou,
como continua. E a música popular,
igualmente, persistiu na sua função de
espelho, retrato certeiro de costumes e
usos. Tanto que, 63 anos depois, um
sambão animadissimo chamado
Reunião de Bacana, uniu todo o País
num coro para entoar o seu refrão:
Se gritar pega ladrão!/ Nãofica um, meu
irmão. E a dupla Maurício Tapajós/ Al-
dir Blanc, em Sobe o Dólar, tornou
tudo ainda mais específico, na relação
cada vez mais sofisticada entre os do-
nos do poder e aquilo que a lei con-
dena: A raiz da mandioca/ Faz com que
homens se matem/ Assassino vive impunel/
Do mendigo ao do Baumgarten/E a Bras-
tel, Coroa/ Faz com que peitos infartem/
Esse regime nos condena/Aspontes de sa-
fena/ Vai passar por Cleveland/ A volta
aos quartéis/ Mas antes fuc-fuc/ No bozo
dos zé-manés.
É óbvio que nem sempre o poder
permitiu retratos tão precisos. Na dé-
cada de 70, por exemplo, os governos.
dos generais Médici e Geisel, com vio-
lência da repressão, cortaram a voz
exuberante dos melhores composito-
res. Em consequência, abriram espaço
para o ufanismo de coisas como Eu te
Amo, meu Brasil (1970) e outras peças
de igual ranço - e, de certa maneira,
essas canções se transformaram, tam-
bém, muma imagem correta daquele
tempo escuro. Na época de outra dita-
dura, a de Getúlio, tinha acontecido.
algo semelhante, com o patrulhamento
do DIP (Departamento de Imprensa e
Propaganda) e outra safra de músicos A modafeminina (acima, ilustrações de J.
Biblioteca Nacional

ufanistas. Um exemplo da minúcia Carlos)foi anotada em vários ritmos pela


mesquinha até onde pode descer a cen- música popular brasileira, como em
sura está no caso de O Bonde de São Garota Saint-Tropez, em 1962 ou
Januário, de Ataulfo Alves, A letra ori- Garota da Minissaia, em 1967
323

lismo feminino perturba demais a cen- anotada no repertório popular desde


sura, Mas o caminho é o mesmo: pri- que Tio Sam foi transformado em mo-
meiro, os indícios (o cabelo curto, delo a ser imitado. Em 32, Lamartine
"masculino", da Menina Guri, 67) e, Babo caprichou em Canção Para Inglês
mais tarde, as pessoas (como em Ver, juntando palavras sem sentido, se-
Bárbara, de Chico Buarque, que a cen- guindo apenas a trilha do som e a pre-
sura vetou em 73: a canção falava do tensão geral de "falar estrangeiro":
encontro de duas amantes, que preten- Yes, my glass/ Salada de alface/ I love
diam mergulhar no poço escuro de nós you/ Abacaxi, uísque! Of chuchu.
LÉ., duas - e a censura vetou precisamente Meio século depois, o grupo paulista
a palavra duas. É claro que o machismo Premeditando o Breque voltaria ao

Iconographia
da maioria se delicia com coisas como mesmo tema e aos mesmos recur-
; Maria Sapatão, que Chacrinha canteu sos, numa faixa preciosa chamada
em 80 (De dia é Maria/ De noite é João), Mascando Chiclê. Entre um lance e ou-
ou com o Rock das Aranhas, de Raul tro, o entreguismo cresceu tanto que,
Hitler (acima, por Belmonte) foi Seixas, do mesmo ano, onde ele sur- em 78, Paulinho Soares sintetizou tudo
debochado com irreverência preende duas mulheres botando aranha em O Patrão Mandou: O patrão mandou
pra brigar. cantar com a língua enrolada/ Everybody
sintéticas também foram anotadas em macacada/ E ainda mandou tirar nosso
vários ritmos: Garota Saint-Tropez (62), Em 1944, a saudação nazista samba da parada/ Very good, macacada!
Garota do Monoquini (65), Garota de Mi- aparece em "Abaixa o Braço" E esta síntese do universo popular
nissaia (67), Mini-Nada (70) ou Garota acaba funcionando como senha ou
Transparente (71). Fora dessa área, a liberdade sempre jingle, concentrando numa canção
Mas, aos poucos, o mundo levezinho foi um pouco maior e o repertório po- toda uma tendência, um compor-
da moda foi dividindo seu espaço com pular foi espelhando o dia-a-dia com tamento geral. Foi assim com
itens mais decisivos, como a necessi- mais rigor - e mais zombaria, também. Caminhando, de Geraldo Vandré, em
dade de evitar muitos filhos: Ela traba- O nazismo, por exemplo, foi cantado 67; com Apesar de Você, de Chico, em
lhava noite e dia/ Não encalhava mercado- com a mais debochada irreverência: o 70 - o hino proibido, enquanto os rá-
ria/ Mas a carestia está medonhal Nin- Pacto de Munique, em 38, virou Salada dios repetiam o "oficial", Eu te Amo,
guém quer nada com a cegonha (Dona Mista; o embate entre Hitler e a Ingla- meu Brasil, cada um fazendo a síntese
Cegonha, de 53). Mas, é lógico, houve terra virou Adolfito Mata-Mouros, 43; no de um ponto de vista; com O Bêbado e
reação: A solução da pilula/ Pra mim ela mesmo ano, o passo de ganso era satiri- o Equilibrista, em 1979, na campanha
é ridícula/ Ondejá se viu/ Um mundo sem zado em Que Passo é Esse, Adolfito?; a pela anistia; ou com Menestrel das Ala-
mamãe (Marcha da Pilula, de 70). Até saudação nazista apareceu em Abaixe o goas, 84, no maior movimento popular
que, em 82, Rita Lee empacou na cen- Braço, em 44, etc. E até os fuzilamentos de toda a história brasileira, a campa-
sura (sempre ela) quando decidiu dizer da vitoriosa revolução de Fidel Castro nha pelas diretas-já, Em cada caso, um
tudo claramente: Mulher é bicho esqui- entraram na Marcha do Paredão, em 62, retrato do Brasil no 3 X4 da canção,
sito/ Todo mês sangra, Essa habilidade de fazer eco preciso desde o tempo em que, pelo telefone,
Mas a tesoura da censura, no caso, para o real, a música sempre manteve, o chefe da polícia avisava que, na Cari-
até que poderia ser prevista: afinal, a A subserviência brasileira aos modismos oca, havia uma roleta para se jogar.
área do tema sexo e suas redondezas importados, por exemplo, vem sendo Maurício Kubrusly
sempre estiveram no centro do alvo de
qualquer inquisição. Em 1984, isso po-
dia sugerir um passado muito distante,
pois o travesti Roberta Close era as-
sunto de página central em revista mas-
culina de mulher nua, e o Capitão Gay
desembarcou em todas as casas de
família em 1982, através de uma can-
ção e na imagem redonda de Jô Soares.
Mas essa "liberação" não mergulha
muito além da casca e o homossexua-
lismo, que os gregos já tinham herdado
de seus antepassados, só aos poucos
pôde ser cantado. Em 1959, com Vai
Ver Que E, iniciou-se a temporada de
suspeitas: Sempre perde o lotação/ Nervo-
sinho bate o pé/ Vai ver que é., Depois, fo-
ram surgindo outros indícios: o cabelo
grande (Cabeleira do Zezé, 64), a bolsa
(Bolsinha do Valdemar, 73) e várias ou-
tras, até que, em 75, Gilberto Gil falou
Carlos Fenerich

em "porção mulher" e Agnaldo Timó-


teo louvou a galeria Alaska, no Rio,
um lugar de emoções diferentes/ muita gen-
te à procura. de gente.
Do outro lado, a repressão é ainda Menestrel das Alagoas, interpretada por Fafá de Belém (acima), marcou a campanha
muito forte, e falar do homossexua- das diretas-já, o maior movimento popular no País, em 84
324
ar DranBsa S40414384 ân coa, p6&8

CULTURA/RELIGIÃO : a evolução das relações entre Igreja e Estado sob o Regime Militar

Os caminhos da Igreja

Em 64, uma Igreja dividida saudava o golpe militar. Em pouco tempo, porém,
os bispos brasileiros viram que estavam embarcando numa canoa furada. E
. quando a Igreja conhece o mais belo período de sua história no País

"O Brasil foi, há pouco, cenário de mos a quantos concorreram para "O milagre brasileiro, despido, de um
graves acontecimentos, que modifica- libertarem-na do abismo iminente." lado, da crença popular, da devoção e
ram profundamente os rumos da situa- Esse é um trecho do documento ofi- da esperança, resulta de outro lado no
ção nacional. Atendendo à geral e an- cial com que a Comissão Central da favorecimento dos não-necessitados,
gustiosa expectativa do povo brasileiro, Conferência Nacional dos Bispos do implicando num castigo aos que foram
que via a marcha acelerada do comu- Brasil saudou o golpe de 1964 no Bra- sacrificados, maldição para aqueles que
nismo para a conquista do poder, as sil. Trata-se da "Declaração da CNBB não o pediram. No rastro do milagre
Forças Armadas acudiram em tempo, sobre a Situação Nacional", fruto de ficou o empobrecimento relativo e ab-
e evitaram se consumasse a implanta- uma reunião da Comissão Central, no soluto do povo (...). A concentração
ção do regime bolchevista em nossa Rio de Janeiro, em maio de 1964, e dis- de renda tende, portanto, a aumentar
terra. (...) Ao rendermos graças a tribuída a 2 de junho do mesmo ano. mais e mais e no seu curso fortalece a
Deus, que atendeu às orações de mi- Nove anos depois, em 1973, os bis- estrutura de classe e de poder que a faz
lhões de brasileiros e nos livrou do pe- pos brasileiros já não davam tantas gra- possível. No processo de empobreci-
rigo comunista, agradecemos aos mili- cas a Deus assim pela implantação do mento dos que são pobres para aumen-
tares que, com grave risco de suas vi- regime que "nos livrou do perigo co- tar a fortuna dos ricos, a concentração
das, se levantaram em nome dos supre- munista". Basta um exemplo para esta- de renda é a demonstração mais clara
mos interesses da Nação, e gratos so- belecer o contraste: da opressão e da injustiça de que é ca-

325
ar oranBss va.GNC.aaA, 4041334 3N00A , pós

a.

Banco de Dados/FSP
0
%-
3o[-
(al
Oo
oo
82
d)

Dois momentos da Igreja no Brasil. Logo após o golpe, o ... no fim do "milagre", em 74, as críticas ao regime. Acima,
apoio da CNBB (acima, reunião em julho de 1964, com dom da esq. p/dir.: dom Avelar Brandão, dom Aloísio Lorscheider,
Agnelo Rossi à esq.) e... pres. da CNBB, e dom Ivo Lorscheiter

paz a estrutura de propriedade privada ser, como o professor Cândido Mendes mente admirado por sua extraordinária
dos meios de produção, em que se fun- chamou com propriedade num de seus originalidade, se deve às igrejas das ir-
damenta Oo atual sistema brasileiro livros, a esquerda católica brasileira. mandades leigas, entidades mistas que
(...). A ausência de liberdade, a vio- de alguma forma conseguiam fugir ao
lência da repressão, as injustiças, o em- Aplauso ao golpe foi resultado
menos em parte da canga do Estado.
pobrecimento do povo e a alienação de um momento de medo Uma Igreja de funcionários do Estado,
dos interesses nacionais ao capital es- ou quase isso, era, já se vê, fragílima,
trangeiro não podem constituir sinal de Das entidades leigas da Igreja só sob o ponto de vista doutrinal ou pasto-
que O Brasil tenha encontrado o cami- apóiam o golpe ostensivamente - e ral. A reação contra isso está na Ques-
nho de sua afirmação histórica." portanto aplaudem aquele documento tão Religiosa, um dos três grandes as-
Esse documento, conhecido como - a Pia União das Filhas de Maria e as suntos políticos que dominaram os 67
Eu Ouvi os Clamores do meu Povo, de 6 Congregações Marianas masculinas, anos do Império do Brasil, segundo o
de maio de 1973, é encabeçado pelas ambas tão piedosas como tradicionalis- historiador Antônio Carlos Vilaça. As
assinaturas de dom Hélder Câmara e tas e conservadoras, uma visão de outras duas foram a Guerra do Para-
do bispo-auxiliar de Olinda e Recife, Igreja parada no tempo. A própria hie- guai e a Abolição da Escravatura.
dom José Lamatine Soares, seguindo- rarquia não seria tão conservadora, Na Por aí se vê a importância da Ques-
se as assinaturas de quinze outros bis- verdade, o documento de aplauso ao tão Religiosa ou Questão dos Bispos,
pos e padres representantes das quatro golpe de 64 - tudo está a indicar - foi como ficou conhecida. Mal estudada,
subdivisões regionais do Nordeste na resultado de um momento de medo. como quase tudo no Brasil, ela cos-
CNBB. Pouco depois os textos dos bis- Bons representantes da classe média tuma ser empurrada goela abaixo aos
pos iriam tornar-se ainda mais políticos brasileira, na segunda metade do sé- nossos estudantes secundários como
e até ideológicos, como mostra a culo, os bispos também viviam apavo- uma briga entre a Igreja e a maçonaria,
Comunicação Pastoral ao Povo de Deus, rados com o fantasma do comunismo, quando é na verdade uma rebeldia da
documento oficial da CNBB, Rio de permanentemente invocado pela cha- hierarquia, paradoxalmente através de
Janeiro, 25 de outubro de 1976, que mada classe conservadora (de que sua ala mais conservadora, contra a de-
trata já da impunidade de policiais cri- ideologicamente a classe média é uma pendência da Igreja ao Estado, situa-
minosos, da má distribuição de terra, parte, pois lhe vai a reboque) e pelo seu ção que os bispos mais ortodoxos não
da situação dos índios e de segurançà braço armado: os generais e coronéis, aceitavam mais: eles queriam ligar-se
nacional e segurança individual, entre Cedo eles descobriram que o perigo direta e exclusivamente ao papa e inde-
outros itens. Vale a pergunta: teria mu- para o povo brasileiro era bem outro: a pendência absoluta em relação ao Es-
dado a Igreja ou o Regime Militar? miséria e a injustiça. Agora vejamos o tado. Dom Vital, bispo de Olinda, e
Uma abordagem cuidadosa, de sentido peso da herança que carregava aquela dom Antônio de Macedo Costa, bispo
histórico, vai mostrar que a Igreja é que Igreja medrosa que redigiu o docu- do Pará, os líderes do movimento, aca-
mudou. mento divulgado a 2 de junho de 1964. baram presos, condenados a quatro
A Igreja que, através de sua hierar- Até a República, o clero e a Igreja anos. Cumprida pouco mais de uma
quia, apóia o golpe de 64 é uma Igreja no Brasil sempre estiveram atrelados quarta parte da pena, foram anistiados.
em processo de mudança, uma Igreja ao Estado, através do instituto do Pa- Deixaram a semente. O Império dura-
dividida. A Ação Católica, através da droado, pelo qual o rei de Portugal, e ria pouco. A República trouxe afinal a
qual finalmente o leigo começa a ter depois o imperador do Brasil, é que no- separação entre Igreja e Estado com
participação na Igreja, no Brasil, de- meava os bispos e páracos e fundava que eles sonharam e pela qual lutaram.
pois de séculos de silêncio, não apoiou paróquias e dioceses. Era a Coroa que Trouxe, porém, apenas a separação
o documento dos bispos. Sobretudo recolhia os dízimos e os devolvia, bem oficial. Frágil, plantinha tenra, apenas
através da JUC (Juventude Universi- mais magros, como salários dos padres expelida do útero confortável do Es-
tária Católica), estava em franco desen- ou para as obras da Igreja. A riqueza tado, a Igreja no princípio não supor-
volvimento nessa época o que viria a do barroco brasileiro, até hoje mundial- tava a luz cá fora. Vivia em permanente
326
Br pransss va.onciama, 84 0424334 8n00a,p%o

aproximação com o governo, aproxi- Separada do Estado


mação que não poucas vezes foi tam- desde a República a
bém cumplicidade e submissão. Com Igreja vivia, porém, em
características ligeiramente alteradas permanente
aqui e ali, isso durou durante toda a aproximação com os
República Velha, a revolução de 30, o sucessivos governos e
Estado Novo e o regime constitucional sem divergências sérias.
Ao lado, no alto, dom

FGV/CPDOC - Arquivo Getúlio Vargas


de 46, até Juscelino Kubitschek. Nunca
houve divergências sérias entre a Igreja Sebastião Leme,
e os governos republicanos até 1930, superarcebispo do Rio de
nunca uma denúncia. O cardeal Leme, Janeiro, e o presidente
o segundo do Brasil (o primeiro foi. Ar- Yargas (em 1938),
coverde, ambos do Rio de Janeiro), era amigos íntimos. Com o
íntimo de Getúlio. Podia até não amar governo JK, a
a ditadura, como de certo não amava, intimidade entre Igreja e
mas não tinha como combatê-la e ad- Estado atingiu seu ponto
mirava a figura bonachona e sorridente máximo. Nessa época, já
do ditador de charuto na boca. Não ha- existia a CNBB,
via ainda a CNBB e dom Leme, incar- concebida em 1952 por
dinado na arquidiocese da capital do dom Hélder Câmara, e
País, era uma espécie de superarce- começava a nascer um
bispo com quem o presidente tratava espírito de
de todo e qualquer problema de al- questionamento. A
guma forma ligado à Igreja no Brasil. amizade de dom Helder
e Juscelino (ao lado,
No governo JK a intimidade abaixo) era tanta que
chegava a prejudicar o
Igreja e governo chega ao máximo
espírito crítico do bispo
Foi assim até o governo de Juscelino,
quando a intimidade entre Igreja e go-
verno no Brasil atingiu seu ponto má- 8o
ximo. É verdade que aí já havia a 2
O
CNBB, concebida, estruturada e assen- o
ao
tada por dom Hélder Câmara em 1952, e
e começava a nascer um certo espírito 5
4
crítico, um espírito de questionamento.
Mas a intimidade pessoal entre Jusce- mudança - e portanto dividida - que o das injustiças, a encorajadora de todo
lino Kubistchek e dom Hélder Câmara golpe de 64 encontrou no Brasil. Essa um esforço de promoção humana".
era tanta que chegava a prejudicar esse Igreja que, medrosa, assustada, deu Em função dessa virada, a Igreja co-
espírito crítico. Dom Hélder, que nos uma freada no movimento de promo- nhece o mais belo período de seus
doze primeiros anos de existência da ção humana que então iniciava, já quase cinco séculos de história no Bra-
CNBB foi seu secretário-geral, já se agora com o respaldo vigoroso do Papa sil. É o período de perseguição, no qual
tornara uma das grandes figuras do João XXIII e suas encíclicas Mater et a Igreja no Brasil se encontra com a
episcopado nacional. Mais tarde, ele Magistra (1961) e Pacem in Terris Igreja primitiva, a Igreja das Catacum-
próprio reconheceria que essa intimi- (1963). Foi essa Igreja que produziu o bas, do Império Romano, perseguida
dade era "perigosa". Não no plano pes- documento de apoio ao golpe militar à do primeiro ao quarto século. É o
soal, evidentemente, que amigos ambos boliviana que derrubou o presidente período em que a Igreja no Brasil se re-
permaneceram até a morte de Jusce- constitucional João Goulart, após dime de tantos anos apagados e de me-
lino. Mas é que, como político, a figura trama sorrateira iniciada em Washing- diocridade, nos quais o heroísmo - no
humana cativante de Juscelino não re- ton, como hoje se prova com rigor do- sentido cristão da palavra - foi sempre
presentava nenhuma virada no sentido cumental. Em pouco, porém, os bispos uma exceção, embora dele sempre
de um governo popular, necessidade brasileiros viram que estavam embar- houvesse focos de grandeza, mas ape-
que a Igreja começava a sentir, com a cando numa canoa furada e saltaram nas focos, aqui e ali. Depois de 64, do
promoção dos leigos iniciada através logo que ela começou a fazer água para golpe, a partir da repressão, num grau
dos movimentos de Ação Católica, viver a fase mais expressiva dos quase até então desconhecido em nossa his-
cedo estendidos à juventude estudantil, quinhentos anos de sua história no Bra- tória, a Igreja, não é exagero dizer,
onde viriam a adquirir contornos revo- sil, atuou como um todo, o que é facil-
lucionários. Foi uma virada brusca, como lembra mente explicável.
Padres e religiosos assistentes da ju- o mesmo dom Hélder Câmara nunca Tudo no País, mas rigorosamente
ventudeda Ação Católica começaram suficientemente citado. Os militares tudo, ficou de uma forma ou de outra,
então a influenciar seus bispos; os bis- golpistas teriam motivos de sobra para mais aqui, menos ali, sob o domínio do
pos começavam a somar a riqueza de se espantar. Diante da violência da re- poder militar arbitrário. A Igreja, não.
algumas dessas experiências, reunidos pressão, de um lado, e da concentração Foi a única exceção, o último refúgio -
na CNBB. Mas era apenas o começo. de renda, de outro, que tornava agres- e isso lhe deu forças. Até porque, desli-
E, como reza a experiência, o começo siva a pobreza e insuportável e nada gada do Estado, o Estado não tinha
é sempre difícil, anda-se sempre às cristão o fosso a separar ricos muito tri- como controlá-la. O Estado era impo-
apalpadelas, qualquer tropeção maior cos e pobres cada vez mais pobres no tente, por exemplo, para tirar dom
assusta. Foi essa Igreja em processo de País, a Igreja passou a "denunciadora Paulo Evaristo Arns da arquidiocese de

327
BR DFANBSB V8.GNC.AAA 2404333 4an coa , py44

Juca Martins/F4
Sérgio Tomisaki/Banco de Dados

Pedro Martinelli/Abril Press


A repressão política e a alta concentração de renda levaram
a Igreja à denúncia e à aproximação com os pobres.
à dir., ato ecumênico pela morte de Wladimir Herzog, Acima,
em 1975, na Sé, SP; ao alto, missa para camponeses
região do Araguaia, em 1980. Com a desagregação do Regime na
Militar, em 1984, porém, surgia internamente
a polêmica em torno da Teologia da Libertação,
en volvendo frei Boff (acima, à esq.)

São Paulo, como certamente desejaria, leigos ligados à Igreja amanhã. Mas
O Estado era impotente para calar as Boff, tivesse que apresentar explica-
nunca conseguiu compreender que a ções à hierarquia da Igreja em Roma,
denúncias de dom Hélder em Paris, de- Igreja cresce no que Ivo Lesbanpin
núncias sobre as torturas, sobre os as- no segundo semestre de 1984, Essa via-
chamou admiravelmente num de seus gem de frei Boff deixou à mostra que
sassinatos, que foram tantos, sobre os livros de "a bem-aventurança da perse-
desaparecidos, O Estado era impotente existem dois blocos que se enfrentam
guição". Nem podia, porque os donos
para afastar dom Pedro Casaldáliga de na Igreja Católica.
do regime nunca tinham estudado his- Politicamente - e, formada por ho-
São Félix do Araguaia e do Brasil,
tória da Igreja. mens, a Igreja é tão política como qual-
como ardentemente desejou. Mas para
isso dependia do Papa e encontrou quer Outra instituição humana - é fácil
Na perseguição pelo regime,
sempre um firme obstáculo em Paulo definir esses dois blocos. Um tenta de-
a hora mais bela da Igreja fender a Igreja da opção preferencial
VI. O Estado era impotente para apli-
car aos dominicanos a solução pomba- pelos pobres, nascida - se se quer uma
No período de transição que o Brasil data - em Medellin, 1968, e reafirmada
lina da expulsão, como também dese- vive em 1984, a Igreja já não parece es-
jou. Assim, em determinado momento, em Puebla, em 1979. É o bloco que so-
tar tão compactamente voltada para freu sob a perseguição pós-64 no Brasil.
quando todo o País, todas as institui- um mesmo objetivo. Depois de uma
ções civis estavam esmagadas pelo ta- O outro, vencida a fase de perseguição,
crise Igreja/Estado, há a crise - durante tenta destruir esse bloco para estar bem
cão da bota, a Igreja era a única que anos encoberta pela outra - que dom
conseguia fustigar o regime autoritário. com qualquer governo que, não sendo
Pedro Casaldáliga chama com proprie- autoritário, não esteja também com-
Isso irritava o poder militar, que inves- dade de conflito Igreja/Igreja. Trata-se,
tia com fúria, mas só conseguia peque- prometido com o povo.
basicamente, da polêmica armada em
nas vitórias aparentes aqui e ali. Ex- torno da Teologia da Libertação e que
pulsava um padre estrangeiro hoje, fez com que um dos seus principais
prendia ou acuava padres, religiosos ou teóricos, o frei brasileiro Leonardo
Marcos de Castro
328
BRDFANBSB VB.GNCAMA, 849041834 An CO2, p 7a

POLÍTICA/RELAÇÓOES EXTERNAS: as relações Brasil-África em continuar de olhos fechados para os


movimentos de autodeterminação dos
povos africanos certamente teria resul-
tado na repetição do retumbante fra-
casso da investida à África esboçada
Negócios africanos
pouco antes, durante o governo do ge-
neral Garrastazu Médici (1969-74).
A partir do final da década de 70, cresce o comércio do Com o mesmo propósito de conquistar
novos mercados, o ex-chanceler Gib-
Brasil com a África, devido às mudanças na política
son Barbosa havia realizado uma piro-
externa do País técnica viagem ao continente africano
em fins de 1972. Para impressionar bem
No final de 1984, a empreiteira brasi- em Portugal, ocorrida um mês após a os africanos, ele chegou a posar mon-
leira Norberto Odebrecht assinou, em posse de Geisel no Palácio do Planalto, tado em um camelo em pleno deserto
Luanda, um fabuloso contrato de US$ em março de 1974. africano. O esforço de Gibson, porém,
650 milhões para a construção de uma foi inútil: o máximo que ele conseguiu,
enorme usina hidrelétrica sobre o rio Em poucos meses de 1974, o após visitar oito países da costa atlân-
Kwanza, no norte de Angola. A nova Itamaraty abre dez embaixadas tica da África, foi assinar um punhado
hidrelétrica terá, quando pronta, uma de acordos genéricos que nunca ti-
potência de 520 mil quilowatts e será a Assim, tentando recuperar o tempo veram qualquer consequência prática.
maior obra já realizada naquela ex- perdido, em poucos meses o Itamaraty
colônia portuguesa., abria mais de dez novas embaixadas do O Brasil foi o 94o país a
Apesar da grande divulgação dada Brasil no continente africano. Como reconhecer a Guiné-Bissau
ao acontecimento, a escolha da cons- era inevitável, as lembranças do pas-
trutora Norberto Odebrecht pelo go- sado afloraram de forma amarga por O resultado dessa tentativa de apro-
verno angolano para executar o em- ocasião do estabelecimento-de relações ximação com a África feita no governo
preendimento não é um caso isolado. com as ex-colônias portuguesas. Cau- Médici não poderia ser diferente,
Ao contrário, é cada vez maior onú- sou impacto, na época, a indagação levando-se em conta as posições retró-
mero de empresas brasileiras operando feita por um dos líderes da Frente de gradas adotadas pelo Itamaraty em re-
na África, seguindo o caminho aberto Libertação de Moçambique (FRE- lação às principais questões africanas.
ao final dos anos 70 pela construtora LIMO), Joaquim Chissano, ao respon- Até início de 1974, os delegados bra-
Mendes Júnior. No final do segundo der a uma pergunta sobre a possível co- sileiros da ONU (Organização das
semestre de 1984, a construtora An- laboração entre o Brasil e Moçambi- Nações Unidas), invariavelmente
drade Gutierrez, por exemplo, estava que independente: "Teria o Brasil tido abstinham-se de votar ou votavam con-
construindo uma estrada de 130 quilô- interesse em cooperar com a FRE- tra resoluções condenando o colonia-
metros na República Popular do LIMO para libertar Moçambique?" lismo, a discriminação racial e a polí-
Congo (ex-Congo Francês), enquanto A eventual insistência do Itamaraty tica de "desenvolvimento separado" da
perto dali outra empreiteira brasileira,
a Guarantã, dirigia as obras da nova
sede do Ministério das Finanças arge-
lino.
Esta intensificação dos negócios com
o continente africano é resultado da vi-
rada verificada durante o governo Gei-
sel (1974-79) na política externa brasi-
leira em relação à África - mais preci-
samente, em relação à África negra, já
que nada mudou no que se refere ao
criticado relacionamento do País com a
África do Sul.
Impulsionada pela necessidade de
abertura de novos mercados para as ex-
portações, a política adotada na gestão
Geisel - a chamada política externa
"pragmática" - elegeu a África como
uma das principais prioridades da ação
do Ministério das Relações Exteriores.
E a primeira iniciativa tomada pelo ex-
chanceler Azeredo da Silveira para tor-
nar possível a aproximação foi jogar no
lixo da história a anacrônica política de
alinhamento diplomático com a chan-
celaria portuguesa - política esta que
se traduzia, fundamentalmente, no
apoio brasileiro ao colonialismo de
Portugal na África. A mudança da po-
sição brasileira foi naturalmente favo- Nofinal de 1972, o ex-chanceler Gibson Barbosa (acima) chegou a posar montado em
recida pela deposição do salazarismo um camelo em pleno deserto para impressionar os africanos

329
BR DFAN 8.GNC. , $4 3 33

zido. No primeiro semestre de 1984,


todo o comércio do Brasil com o conti-
nente africano, com mais de 45 países
soberanos, somou apenas US$ 1,3 bi-
lhão, montante que corresponde a me-
nos de 10% do total do comércio exte-
rior brasileiro nesse período (US$ 19,2
bilhões). Apenas para citar alguns dos
maiores países da África negra, foram
inteiramente nulas as transações co-
merciais do Brasil em 1983 com a So-
mália, Tchad, Uganda, Costa do Mar-
fim, Etiópia, Gabão, Marrocos, Quê-
nia, Tanzânia, República Centro Afri-
cana, Gana, Camarões, Serra Leoa e
Togo. Em termos culturais, as limitadas
relações com a África podem ser facil-
mente avaliadas pelo desconhecimento
que o povo brasileiro ainda tem da exis-
tência da maioria das nações africanas.
Quantos já ouviram falar de Burundi,
Congo-Brazzavile, Ruanda, Tchad,
Alto Volta, etc.?

Ligações com regime racista

prensa - Andrade Guitierrez


causam dissabores ao Brasil

O incômodo relacionamento do Bra-


sil com o governo racista da África do
Sul, por seu lado, constitui um capítulo à
parte. Por motivos injustificados, o
Brasil inclui-se entre os poucos países
(menos de 40) que ainda têm relações
diplomáticas com a África do Sul. Mais
Assessoria de

do que isso, ignorando o boicote eco-


nômico contra o regime de Pretória de-
cretado pela ONU, o Brasil mantém
um ativo intercâmbio comercial com
A partir de 74, cresce o número de empresas brasileiras operando na África, como
aquele país. Com um volume de negó-
a Andrade Gutierrez (acima, transporte de equipamentos da construtora no rio cios que chegou a quase US$ 90 mi-
Congo), devido sobretudo à mudança parcial da política externa do país. No lhões no primeiro semestre de 1984, a
alto, da esq. p/dir.: Joaquim Chissano, ministro de Moçambique; Abilio Augusto
África do Sul é o terceiro principal par-
Monteiro Duarte, ministro de Cabo Verde; Antonio Azeredo da Silveira, ministro das ceiro 'do Brasil no continente africano.
Relações Exteriores do Brasil; Maria Amorim, embaixadora de São Tomé e Este indesejável relacionamento é ou-
Príncipe; e Victor Maria Saude, ministro da Guiné-Bissau, em 75
tra herança deixada pelo Regime Mili-
tar, pois assumiu suas atuais propor-
África do Sul (o apartheid). Na assem- A reativação do intercâmbio do Bra- ções ao longo dos últimos 20 anos: até
bléia da ONU de 1973, por exemplo, o sil com a África que se processa nos 1964 o comércio do Brasil com a África
Brasil foi um dos sete países que vota- anos 80 não se faz em desacordo com do Sul era praticamente nulo. Além de
ram contra a independência da pe- os interesses das potências ocidentais. representar um entrave ao pretendido
quena Guiné-Bissau do jugo português. Muito pelo contrário, muitas das gran- aprofundamento das relações do Brasil
Quando esta posição foi reparada, des corporações multinacionais têm com o resto do continente africano, es-
no governo Geisel, não era possível aproveitado bastante esta aproxima- sas ligações com o regime racista de
apagar a dimensão do grande equivoco ção afro-brasileira, utilizando suas sub- Pretória têm custado frequentes dissa-
do Itamaraty: o Brasil foi o 94o país a sidiárias no Brasil, de modo cada vez bores à diplomacia brasileira no ce-
reconhecer a Guiné-Bissau, fato que mais frequente, para a ampliação dos nário internacional. O maior deles
representa uma dura ironia quando se seus negócios no continente africano. ocorreu em 1969, quando a inaugura-
lembra que o obá (rei) de Benin (hoje Dois dos principais produtos "brasilei- ção de vôos semanais da Sea-South
Nigéria) e seu vassalo, o obá Ajan de ros" exportados para Angola, por África Airways (a companhia aéreá sul-
Onin (atual cidade de Lagos), foram os exemplo, são o leite condensado e a fa- africana) ligando Johannesburg a Nova
primeiros a reconher a independência rinha láctea produzidos pela filial no Iorque, com escala no Rio de Janeiro,
do Brasil. Naquela época, ressalte-se, Brasil da Nestlé, Caminhões, furgões, provocou duros protestos na ONU sob
as afinidades do Brasil com a África camionetas, ambulâncias e automóveis a alegação de que os Estados Unidos e
eram bem maiores. A presença da também são vendidos aos angolanos O Brasil estavam proporcionando uma
África na economia brasileira, então pelas subsidiárias brasileiras da Ford, nova abertura comercial para a África
significativa, diminuiu aos poucos, sob da General Motors e Volkswagen. do Sul.
o peso do colonialismo europeu no Embora crescente, o volume global
continente africano. do comércio do Brasil ainda é redu- Teodomiro Braga
330
, p 84
BR DFANBSB VB.GNCAM. S4HOA/A331Aân002

como de seus limites. Há uma estreita


relação entre a pena e a cultura que a
produz. Seria impossível que as institui-
ções políticas no Brasil estivessem du-
rante toda a sua história embebidas
pelo autoritarismo e as prisões ficassem
imunes a essa continuidade.
Lembrando a denúncia do grande
precursor dos modernos críticos da pri-
são no Brasil, Evaristo de Moraes, as
prisões jamais obedeceram aqui a qual-
quer respeito à pessoa humana. Mesmo
nos momentos mais intensos da mobili-
zação popular, os partidos políticos ja-
mais transformaram a questão peniten-
ciária numa das faces da questão de-
mocrática. Basta lembrar que ne-
nhuma constituição política brasileira

Banco de Dados/FSP
se lembrou, no capítulo dos direitos, de
se preocupar com os direitos dos pre-
sós. Paradoxalmente, será a Constitui-
ção federal de 1967, criatura do Re-
gime Militar, que chamará a atenção
para a integridade física e moral do de-
As prisões no País jamais obedeceram a qualquer respeito à pessoa humana. Acima, a tento (Art. 158 8 14). Satisfação que du-
superpopulação carcerária na capital paulista, em 1954 rou pouquissimo, pois o novo golpe de
Estado que se seguiu, em dezembro de
1968, através do Ato Institucional no 5
ORGANIZAÇÃO SOCIAL/SEGURANÇA: o sistema penitenciário no País
(AI-5), com a necessidade de assegurar
o rigor contra os presos políticos, tor-
nou inócuo esse dispositivo. A ditadura
crime impõe a necessidade de remover na
Escolas do
prática todas as garantias legais atribui-
das em tese ao encarcerado como titu-
Sobretudo nos últimos anos de autoritarismo, pelo desrespeito lar de direitos subjetivos. Agravam-se
as condições de existência nas prisões
à pessoa humana, as prisões tornaram-se escolas formadoras
em geral, severas limitações são feitas
do crime e fábricas de vinganças ao sistema de privilégios (já precariíssi-
mos) atribuídos aos detidos. Num
As prisões no Brasil sempre esti- cravos criminosos, com a obrigação su- tempo em que as garantias do cidadão
veram em crise. Não é um fenômeno plementar de que os escravos, após se- nas ruas estão suspensas, impossível as-
do presente, mas uma perversa conti- rem açoitados, fossem mantidos a fer- segurar os direitos dos condenados.
nuidade. Até quando é possível recuar ros pelo tempo que o juiz determi-
na história, os diagnósticos nessa área nasse. O saldo no Regime Militar é a
sempre constataram uma permanente Vem a República, em 1889, e abole situação de abandono do preso
falência. Nem o programa mínimo do as penas cruéis, infamantes ou "inutil-
inciso XXI, Artigo 179 da Constituição mente aflitivas". A prisão celular passa O balanço da "reforma" penitenciá-
Imperial de 1824,conseguiu-se pôr em a ser aplicada à generalidade dos cri- ria durante o autoritarismo é ambiente
prática: "As cadeiras serão seguras, mes. Em 1900, um relatório sobre a de promiscuidade, superlotação, convi-
limpas e bem arejadas, havendo diver- Casa de Correção no Rio de Janeiro vência de delinquentes de todos os
sas casas para separação dos réus, con- (que já servira para abrigar os escravos) graus, de doentes e até de menores,
forme suas circunstâncias e natureza informa que o ar é a luz não são recebi- ociosidade, brutalidade, liquidação da
dos seus crimes."' Cento e sessenta anos dos diretamente nas celas, provocando individualidade do condenado, humi-
se passaram e esses preceitos conti- anemias, dispepsias e escorbuto, No lhação. Todos os planos foram, no de-
nuam letra morta. presente,: como no passado, há um pro- polimento de vários funcionários,
Tudo neste país, nessa área das pe- fundo divórcio entre planos, resoluções pouco além da falsa indignação e da re-
nas e das prisões, é muito tardio. Aqui, e códigos e a realidade do sistema peni- tórica. O saldo desse longo percurso é a
sem se dispensar a pena de morte, um tenciário. Humilhação e aniquilação situação de abandono do preso no País
ano depois da independência política parecem ser a via privilegiada para a e a inutilidade do sistema penitenciário
em 1822, ainda vigoravam as penalida- reparação da ofensa, para a defesa da vigente. Não se investiu no sistema pe-
des do Livro V da Ordenação, onde es- segurança pública. nitenciário, abandonou-se à própria
tavam previstas mutilação das mãos, da Reforma do sistema penitenciário sorte a prisão, porque tratar os con-
língua, queimaduras com tenazes ar- brasileiro foi sempre uma dissimulação denados como subcidadãos, como se-
dentes, etc. Essas práticas sobrevivem justificadora. Naturalmente, o sistema res indignos de respeito aos direitos ci-
até o século 19, sem comedimento, de penas de toda a sociedade não é vis, corresponde a certa visão autori-
pelo menos em relação aos escravos. O qualquer coisa de isolado, mas parte in- tária do poder e da relação do poder
artigo 60 do Código Criminal de 1830 tegrante de seu inteiro sistema social, e com a sociedade. O sistema penal é o
mantinha a pena de açoite para os es- participa tanto de suas aspirações lugar onde o poder se mostra de forma
331
mais manifesta. O poder mostra como
a tirania pode ser levada até os mais
ínfimos detalhes sob altas justificativas
morais. Para o autoritarismo, o que se
passa na prisão não interessa, os que
cometeram crimes são responsáveis in-
dividualmente, a culpa precisa ser ex-
purgada através do sofrimento.
Quem perde com essa visão é a pró-
pria população. As prisões, as peniten-
ciárias, no Brasil, se transformaram em
escolas formadoras do crime. Ainda
que as pesquisas oscilem quanto aos
números precisos, seria realista dizer
que mais da metade dos condenados
egressos das prisões voltam ao crime. E
seria de espantar se assim não fosse.
Não se pode esperar que cidadãos se-

Juca Martins/F4
jam reconstruídos dentro de um espaço
de purêarbítrio, de esvaziamento de
quaisquer direitos fundamentais, os
presos submetidos às imposições dos
guardas de presídio, afinal os executan-
tes da pena. A pena dada pelo juiz nada
ou pouco tem a ver com o seu cumpri-
mento. Os prisioneiros estão ao bel dis-
por de pequenas autoridades adminis-
trativas, um tribunal interno nas peni-
tenciárias, sem regras fixas, sem defesa,
que por um sim ou por um não "con-
dena" os internos a isolamentos e a
castigos físicos. As humilhações são es-
tendidas às famílias dos criminosos,
submetidas a vexações que contribuem
para agravar o isolamento do preso, ob-
Jetivo máximo do sistema peniten-
ciário,

Desde o século 19 já existiam


comissões de presos nos EUA

A experiência realizada a partir de


1983 em São Paulo - onde medidas
nada revolucionárias foram ensaiadas
tentando interferir nessa situação de
arbítrio - suscitou enormes resistên-
cias. Porque ainda se acredita que a re- Nos 20 anos de autoritarismo, o saldo das prisões no
taliação contra os criminosos seja a me- País é o ambiente de
promiscuidade, superlotação (no alto, a Casa de Detenç
lhor forma de proteger a sociedade. As ão, SP, 1983), humilhação,
brutalidade, uma situação que às vezes levou à revolta.
comissões de presos, tão execradas, Acima, penitenciários
durante motim em prisão do Paraná, em 1984
não constituem nenhuma novidade e já
existiam nos Estados Unidos no co- mais de seis mil detentos, onde mal ca- anos de crise econômica, afirma um re-
meço do século 19. Ainda que organi- bem dois mil. latório da Comissão Teotônio Vilela
zar os condenados seja tarefa contradi- Mais do que mudanças formais, a es- para as prisões em 1984, e violência
tória e complicada, em razão das regras trutura das prisões deve ser colocada vinda do alto e perpetrada nos porões
que regem a "sociedade dos cativos" em questão, É difícil tocar nas prisões da sociedade dificultam qualquer ino-
(como dizia uma pesquisa de 1984 so- porque o sistema penitenciário é um nó vação; mas, se a população deseja o res-
bre as prisões em Minas Gerais e no no qual estão enredadas as contradi- peito aos direitos das vítimas, precisa
Rio de Janeiro), a intervenção dos con- ções básicas da sociedade: exercício do compreender a necessidade das mu-
denados em seu próprio quotidiano nas poder, controle social, repressão, au- danças nas instituições carcerárias, que
prisões parece essencial, sência de um pacto social legitimado são um cemitério de mortos-vivos para
É evidente que a exigência de es- pela democracia. Mas, sem intervir na seus internos e uma fábrica de vingan-
paço, mesmo que não mais se acredite prisão, é impossível quebrar o círculo cas sucessivas para os que delas saem e
na prisão, é prioritária para que qual- vicioso do aperfeiçoamento dos crimi-
quer intervenção possa ocorrer no sis- a elas retornam.
nosos que farão novas vítimas. Se qui-
tema penitenciário. Especialmente nas sermos defender as vítimas, ataquemos
condições de superpopulação: a Casa as prisões e enfrentemos sem disfarce a
de Detenção, em São Paulo, abriga situação dos presos. Anos de ditadura,
Paulo Sérgio Pinheiro
332
BR DFANBSB VB.GNC.AAA, RA0433125 002, p 45
sr pranBsa va.GNC.aMa, 240413342002, o 746

ORGANIZAÇÃO SOCIAL/CONDIÇOES DE VIDA: o lazer dos trabalhadores O descanso é sagrado, segundo reza
a Bíblia, mas na prática esse direito
nem sempre foi reconhecido e precisou
ser conquistado através de longa luta.
O direito ao lazer No final do século 19, de fato, esta
questão tornou-se explosiva. No
mundo inteiro, os trabalhadores agita-
Meio século após a conquista do dia de oito horas, o vam a bandeira do direito ao descanso
trabalhador ainda não dispunha de tempo para o lazer nem e se insurgiam contra essa "loucura do
amor ao trabalho", na frase do médico
tinha uma vida social saudável e político francês Paul Lafargue.
Da prisão, em 1883, Lafargue coor-
denou a edição de seu livro O Direito à
Preguiça, onde denunciava a prática en-
tão vigente de reduzir ao mínimo possi-
vel as necessidades do trabalhador -
em termos de lazer, de esportes, de cul-
tura ou de apenas gozar a vida: o dolce
far niente, dos italianos. Aceitar essa si-
tuação, dizia Lafargue, era "suprimir as
alegrias e as paixões dos trabalhado-
res", era "condená-los ao papel de má-
quina de gerar trabalho sem trégua e
sem piedade".
A luta dos trabalhadores, dessa
forma, visava a fixar a jornada de traba-
lho por lei, limitando-a a oito horas
diárias. Essa medida, segundo o movi-
mento operário da época, permitiria di-
vidir o dia em três períodos iguais, de
modo que, além da labuta cotidiana,
restassem Oito horas de sono e oito ho-
ras de tempo livre para os trabalhado-
res.

A partir de 1903, sindicatos


lutam pelo período de 8 horas

No Brasil, a bandeira das oito horas


de trabalho foi empunhada pelo grande
movimento dos trabalhadores condu-
zido, a partir de 1903, pelos primeiros
sindicatos surgidos no País. Mas os tra-
balhadores teriam uma longa luta pela
frente - em 1984, quase cem anos de-
pois, essa luta ainda não se tinha encer-
rado.
O crescimento das reivindicações
trabalhistas confluiu para uma grande
greve, em 1906, iniciada pelos empre-
gados das ferrovias de São Paulo. Os
trabalhadores exigiam melhores sa-
lários, fim do desemprego, além da jor-
nada de oito horas e a regulamentação
do trabalho da mulher e dos menores.
Essa luta demorou a dar resultados.
Em 1912, por exemplo, nas indústrias
têxteis paulistas, trabalhava-se de 12 a
13 horas diárias. Em 1920, a média da
jornada no Estado de São Paulo andava
em torno das dez horas diárias, seis dias
por semana. Mas, em 1926, a situação
começou a mudar. Os trabalhadores
conseguiram impor a jornada de seis
horas para os menores. Então, em
1932, primeiro os trabalhadores do co-
mércio e em seguida os da indústria
conquistaram a jornada de oito horas -
a partir daí transformada numa exigên-

333
SR DFANBSB VB.GNCAAA, 84043334 an oo a F 7%

cia da Constituição, no Brasil. para 30 dias. Em 1977, o Regime Mili- feira a sábado. Dito de outra forma,
O sentido da luta mudou: era pre- tar introduziria uma alteração: 30 dias cerca de 12,3 milhões de trabalhadores,
ciso, então, garantir a aplicação da lei. corridos e o trabalhador poderia "ven- de um total de 43,8 milhões, estavam à
De fato, mais de '50 anos depois, na der" (receber em dinheiro) dez dias das margem da lei.
prática, categorias inteiras permane- suas férias. Mas o tempo livre não era reduzido
ciam à margem da Constituição, como apenas pelo aumento do tempo de tra-
era o caso das empregadas domésticas, Trabalhadores são comumente balho. Os trabalhadores consumiam
que apenas em 1972 obtiveram o di- forçados a "vender" as férias seu descanso também fora do trabalho:
reito de ser registradas no Ministério por exemplo, através do transporte.
do Trabalho. Esse problema, além No entanto, como no caso das horas Era inútil fixar o tempo de trabalho, se
disso, não se restringia às domésticas, já extras, esse período de descanso anual o trabalhador, com o crescimento das
que em 1983, 29% dos trabalhadores seria extremamente ameaçado pelos cidades e da rotatividade de emprego
assalariados no Brasil não possulam salários baixos e pela má vontade de (que muitas vezes o afastava de sua resi-
carteira assinada. muitos empregadores: os trabalhadores dência). precisava gastar cada vez mais
Em segundo lugar, mesmo os traba- eram comumente forçados a "vender" tempo para chegar ao emprego - con-
lhadores formalmente incorporados ao todas as suas! férias, alienando com elas sumindo aí o seu tempo teoricamente
"mercado de trabalho" eram vítimas também o seu direito ao descanso. No- livre. Juntavam-se ainda ao transporte
frequentes de inúmeras espertezas que vamente em São Paulo, nos anos 80, outras exigências práticas e inevitáveis,
lhes rgiibavam o &ireito ao tempo livre. uma proporção espantosa de trabalha- como o tempo para o almoço, a higiene
O primeiro destes expedientes era a dores confessava ter que trabalhar du- pessoal e outros afazeres de rotina. Na
praga epidêmica das horas extras, que rante as férias: 47,7%. Essa cifra, média melhor das hipóteses - em regiões
muitas vezes invadiam o fim de semana para três setores da economia - cons- onde o transporte era mais fácil -, res-
do trabalhador. Em 1979, 10% do trução civil, metalurgia e comércio -, tavam menos de quatro horas de tempo
tempo total empatado na produção era chegava a 86,6% no caso das construto- realmente livre para o trabalhador estu-
constituído por horas extras. Aliado a ras. Em resumo, a soma do tempo livre dar, divertir-se, conviver com a família
esse expediente, também as férias aca- que restava ao trabalhador, em 1982, e amigos, fazer compras ou participar
baram tornando-se vorazes devorado- eeressaya-se nos dados divulgados de suas associações. Esse tempo foi me-
ras de tempo livre, Em 1925, o direito a pela revista Veja (14/04/82); quase um dido de modo rigoroso na periferia de
férias remuneradas, sem prejuízo do sa- terço da força de trabalho no Brasil São Paulo, através de um estudo reali-
lário, tornou-se lei, inicialmente restri- cumpria uma jornada de mais de 48 ho- zado em 1977 pela Emplasa (Empresa
tas a 15 dias por ano. Já na CLT, em ras semanais, em flagrante violação do Metropolitana de Planejamento da
1943, o período de férias foi ampliado limite de oito horas diárias de segunda- Grande São Paulo S.A.).
ª

Um dia na vida de um trabalhador

Este mora longe do trabalho. Seu tempo livre é de 1h 20m

1h 20m __

!!! Trabalho (considerou-se a jornada legal de


48 horas semanais, distribuídas em 5 dias)
Transporte (ida e volta para o trabalho)
Refeições e higiene pessoal
#! Sono
ENS Tempo livre

OBS: no item refeições e higiene pessoal foi considerado o seguinte:


15m - café da manhã
1h - almoço
30m - jantar
30m - banho. etc.

Fonte: para tempo gasto em transporte para o trabalho - Pesquisa 0-D - Emplasa 1977 vol. 4

334
BR DFANBSBVB.GNC.AMA, 1334 an002, o 57%

Reduzido a um ideal pela metade, vendo em más condições, o trabalha- para 75,2% das pessoas. Os autores da
precário e curto demais diante do que a dor passou a concentrar seu pouco pesquisa chamavam a atenção para o
lei garantia, o tempo livre do trabalha- tempo livre em opções individuais fato curioso de que 0 rádio e a tevê
dor seria ainda prejudicado pela falta igualmente precárias. Na maior parte não eram, no entanto, considerados
de opções de divertimento, O triste la- dos casos, isso significava simplesmente uma forma de lazer pelas camadas de
zer reservado aos trabalhadores, de "descansar" ou então ver televisão - baixa renda. Entre as formas mais co-
fato, seria dramaticamente ilustrado formas passivas de lazer que pouco di- muns de recreação, surgiu com fre-
por uma série de pesquisas realizadas feriam de uma simples "recuperação quência a resposta "não fazer nada": si-
em São Paulo no início dos anos 70, de forças" num ciclo interminável de tuação de até 48% das pessoas, Ou "vi-
Uma das conclusões desse trabalho as- trabalho. sitar amigos e parentes", resposta de
severava que, na periferia, "o paulis- aproximadamente 20% dos trabalhado-
tano não tem para onde fugir, sendo o Trabalhadores não tinham vida res paulistas entrevistados por Sarah
tédio o seu único caminho. O tédio, de- social, indicam pesquisas Bacal em 1978 para elaboração de sua
pois o esgotamento nervoso e por fim a tese Realidade e Uso do Tempo Livre.
loucura configuram os estágios dessa De modo geral, os trabalhadores não Dai, talvez, a grande preocupação dos
motivação neurótica". tinham vida social. Era o que indicava trabalhadores com a construção de
Não era difícil situar as condições uma pesquisa de 1971, coordenada parques e áreas livres. O futebol, ao
que levavam a essa terrível advertência. pelo economista Paul Singer e reali- contrário do que se poderia imaginar,
Com o crescimento das cidades, du- zada na periferia de São Paulo. Apenas foi citado por apenas 6,5% dos entrevis-
rante o rápido desenvolvimento do 3,1% dos entrevistados disseram per- tados como forma importante de diver-
País, principalmente após a Segunda tencer a sociedades de bairro, por exem- timento e descontração.
Grande Guerra, os trabalhadores fo- plo. Nas associações religiosas, a média Não admiraria, portanto, se o Bra-
ram cada vez mais forçados ao corre- era apenas um pouco maior: 8,4%. E, sil de cem anos atrás parecesse um lu-
corre e ao isolamento social. As formas mesmo em clubes, a participação não gar mais aprazível para se viver. Os tra-
de distração e divertimento passaram a passava de 17% - um pouco maior para balhadores, então, concentravam-se
depender em larga escala de equipa- os jovens e homens (23,5%) do que quase que exclusivamente no setor ru-
mentos coletivos - em parques ou em para as mulheres ou pessoas de meia i- ral. Estavam predestinados a uma vida
clubes, por exemplo, estes equipamen- dade. rude e simples e não tinham os direitos
tos geralmente estavam fora do alcance A "participação", na verdade, mais elementares. Mas, ainda assim, a
da grande maioria da população. restringia-se, em grande parte, a ouvir própria rotina do trabalho no campo
Arrancado do campo para a cidade rádio - hábito de 80% dos entrevista- assegurava um tempo livre aos traba-
nos anos de urbanização acelerada e vi- dos - ou ver tevê, atividade rotineira lhadores, nos longos meses entre o
km.—
W

Um dia na vida de um trabalhador

Este mora perto do trabalho. Seu tempo livre é de 3h 45m

Trabalho (considerou-se a jornada legal de

48 horas semanais, distribuídas em 5 dias)

Transporte (ida e volta para o trabalho)


Refeições e higiene pessoal

"Sono
livre

335
BR DFANBSB V8.GNCAMA, $404 2384 an gor
; P 79

plantio e a colheita. E não faltavam al- festa foi no Bosque da Saúde: "Ao balhadoras e para a fragmentação de
ternativas de lazer coletivo, como os meio-dia havia mais de mil operários sua vida social. A televisão tornou-se o
bailes ou as festas religiosas. no Bosque. Correu abundantemente a grande símbolo do chamado lazer pas-
As festas religiosas eram também o cerveja e o vinho ( . . .). Um jovem ope- sivo, penetrando mesmo no interior
ponto alto das formas de lazer nas cida- tário discursou sob muitos aplausos, através das redes de estações retrans-
des emergentes no final do século 19, concitando à solidariedade. A tarde, ao missoras, As pesquisas nos anos 80
segundo a historiadora Judith Elazari. som de três bandas, iniciou-se um baile- mostravam que a televisão era a cam-
"Passear, conversar, dançar, eis algu- monstro, com mais de 200 pares dan- peá absoluta na lista de afazeres das
mas das formas características dessa so- cando até o cair da noite." donas-de-casa, absorvendo um quinto
ciabilidade nos intervalos de ócio." A
de todo o seu dia. Estava acima das ta-
Festa de Nossa Senhora da Penha, em Somem os circos dos bairros e refas de "limpeza" (18% do tempo) e
um bairro paulistano, ocupava então
rareiam os bailes populares de "cuidados com os filhos" (15%), res-
um lugar de destaque, espalhando-se tando para o "lazer e divertimentos" da
por toda a cidade. Promovida pela O lazer coletivo começou a perder dona-de-casa apenas 4% do dia.
Igreja, a festa também se ligava profun- terreno com a industrialização e a ur- Estes números espelhavam uma si-
damente aos festejos de rua. "O povo banização e acompanhou de certa tuação muito semelhante à que levou
divertia-se com jogos de azar, bebidas", forma, a fragmentação da cultura e da ao desabafo contido numa carta do
escreveu Elazari; organização popular. Ao mesmo tempo pensador e político italiano Antonio
A Partir de 1870, começou a se ex- que o circo sumia dos bairros populares Gramsci, endereçada em 1915 a uma
pandir o carnaval de rua e, na entrada - onde era muito comum no início do de suas irmãs. Então um jovem estu-
do século 20, o 1o de Maio - a grande século -, também rareavam os bailes dante, obrigado também a trabalhar
festa dos trabalhadores - começou a se populares. Com a introdução do rádio duramente para ganhar a vida,
tornar um importante momento de di- e do cinema, escasseavam os cantado- Gramsci escreveu ao final daquele ano:
versão e lazer. O jornal Fanfulha, em res e violeiros, ainda existentes no Nor- "Acho que trabalhei demais. Trabalhei
1907, noticiou um dos piqueniques fa- deste. para viver, mas, ao mesmo tempo, para
mosos do 1o de Maio, organizado nesse Em seguida ao golpe militar de 1964, viver, eu teria que repousar, teria que
caso pelo Centro Socialista Internacio- criaram-se as condições para a esmaga- me divertir."
nal, um grupo operário da época. A dora massificação das populações tra-

Ilustração de Maringoni

336
BR DFANBSB VB.GNCAMA, 24044334 ân CO 2 , p 80

ECONOMIA/DISTRIBUIÇÃO DA RENDA: a concentração da renda e da riqueza (1960-830)

Indicadores da miséria

Nos últimos anos, a concentração da renda pessoal no País tornou-se uma das maiores
do mundo. Assim, se uma minoria podia im tar os padrões de vida das classes altas da
Europa e EUA, milhões de brasileiros se debatiam num quadro de miséria

O conteúdo das latas de lixo é um vimentista do "milagre econômico" lações mais pobres, predominavam os
bom indicador do desenvolvimento e da (1968-73), não poderiam deixar detritos orgânicos - restos de comida
riqueza de um povo e, também, um de exibir com orgulho mais aquele indi- não-sofisticada -, ao contrário da Zona
bom indicador das disparidades no usu- cador do "Brasil Potência" que se Sul, onde estão os bairros mais ricos.
fruto dessa riqueza. A quantidade de construía. A pesquisa da Columrb mos- O lixo carioca só era comparável ao das
produtos industrializados consumidos trou que 34% do peso do lixo carioca cidades dos países mais desenvolvidos
pela população reflete-se no lixo pela era composto por papel, papelão e quando analisado juntando num
presença de muito papel, papelão e plástico, número jubiloso, conside- mesmo saco a matéria desprezada por
plástico, em grande parte embalagens rando que a presença desses materiais pobres e ricos., Em outras palavras, o
que se jogam fora. Em 1977, a Divisão no lixo só ultrapassava os 50% em lixo do Rio era "desenvolvido" na mé-
de Pesquisas e Tecnologia da Columrb, países de alto grau de desenvolvimento, dia, desprezando-se asa*disparidades en-
a companhia de coleta do lixo do Rio como os Estados Unidos e a Alemanha tre o lixo dos pobres e dos ricos.
de Janeiro, pesquisou a composição Ocidental. Estava, pois, até o lixo a in- A mesma ilusão é provocada pela
físico-química do lixo do Rio e con- dicar que o Brasil ia para frente. Pura leitura de outros indicadores do desen-
cluiu que, na média, ele era parecido ilusão, no entanto. volvimento brasileiro quando se abstrai
com o de uma cidade de país desenvol- A mesma pesquisa revelou também a realidade da estratificação social.
vido. Os ufanistas, que àquela altura que no lixo. dos bairros da Zona Norte Por exemplo, o PIB (Produto Interno
ainda festejavam o boom desenvol- do Rio de Janeiro, onde vivem as popu- Bruto), a riqueza nacional produzida
Em. . sd
22

24 ",

& -
"*
É . ias
NC * e Rv. d A%
--- gab "a Coal
| ,; ”,; . € Izª.“ a

Amilton Vieira/Abril Press


h v
A- . Im: KF,
, AFA 2 "S * ? o de
- É Mi
x « * pam
imp , *e - pmpr-a #

--% p aço, S
e o * 3 7
** as a As

num ano, é uma grandeza que, de certo acordo com os critérios da pesquisa era declarantes; não incluem, portanto, a
modo, tem significado inverso ao do composta pelas famílias comrendimento renda em espécie produzida e autocon-
lixo. mensal de Cr$ 3,4 milhões, correspon- sumida por trabalhadores autônomos,
Entre 1960 e 1980, o PIB do Brasil dia a pouco menos de 8% da população como pequenos camponeses; em con-
foi multiplicado por quatro - de US$ 55 e abocanhava quase 62% de tudo o que trapartida, não registram a riqueza pa-
bilhões para US$ 228 bilhões -, estava à venda nas cidades. trimonial (como casas e automóveis),
tornando-se o décimo maior do mundo Esses dados evidenciam uma con- que geram rendas "invisíveis" para os
e o terceiro das Américas. Entretanto, centração excepcionalmente alta da ren- declarantes ricos.
na década de 80, milhões de brasileiros da e da riqueza produzidas no País. Depois de 1970, o IBGE passou a rea-
ainda se debatiam num quadro de mi- Por outro lado, ao se refletir na estru- lizar, trimestralmente, as Pesquisas
séria: não conseguiam um trabalho per- tura do consumo, essa disparidade in- Nacionais por Amostras de Domicílio
manente e não ganhavam o suficiente fluencia diretamente a estrutura de (PNADs), que incluem o levantamento
para sequer ter acesso ao padrão de ali- produção. É claro que, estando muito dos rendimentos monetários da Popu-
mentação, instrução e moradia que concentrada a renda, e sendoa produ- lação Economicamente Ativa, tor-
nossa própria sociedade já considerava ção orientada pela busca do lucro nando possível, dentro das limitações já
mínimo. Outro número grande de maior e mais garantido, são produzidos apontadas, acompanhar a evolução da
famílias não passava do nível da subsis- sobretudo os bens e serviços em que a partilha da renda pessoal entre um
tência. Contra esse pano de fundo se minoria privilegiada está interessada e censo e outro. A partir dos dados dos
desenvolveu, no Brasil, o consumo sun- pode adquirir. Assim, capitais escassos, censos de 1960, 1970 e 1980, mais as
tuário das camadas altas e a imitação recursos naturais exauríveis e horas de PNADs de 1976 e 1981, conclui-se que,
cabocla da "sociedade de consumo" trabalho valiosas são desviados para no Brasil, a distribuição pessoal da ren-
existente nos países capitalistas desen- produzir bens e serviços de utilidade da é extremamente desequilibrada e
volvidos. social discutível, como automóveis, ali- regressiva, isto é, tende a beneficiar os
A despeito do inegável surto de ex- mentos finos, etc., enquanto necessida- que já têm muito. Em 1981, 1% da po-
pansão de 1968 a 1973, estimativas le- des vitais de largas faixas da população pulação tinha uma parcelà da renda
vantadas pela empresa publicitária Lin- deixam de ser atendidas. quase igual a de 50% da população. Os
tas, em 1974, indicavam que o poten- S% mais ricos abocanhavam um terço
cial de consumo do mercado interno de toda a renda, apenas um pouco me-
estava concentrado em apenas 123 ci- nos do que dispunha 80% da população
dades dos quatro mil municípios brasi- mais pobre.
leiros, abrangendo cerca de um terço A fonte mais importante de dados Desde a instalação do Regime Mili-
da população na época. Outra pes- sobre a distribuição pessoal da renda tar, a concentração de renda agravou-
quisa, feita pela RBP Pesquisas de no Brasil são os censos demográficos se, A participação dos 50% mais pobres
Mercado, em 1973, apurou que 6% da realizados pelo IBGE de dez em dez na renda, que já era de somente 17,4%
população eram responsáveis pelo con- anos. Desde 1960, além dos dados po- em 1960, caiu para 14,9% em 1970 e es-
sumo de 28,5% dos produtos industria- pulacionais, o IBGE recolhe, por amos- tava em 12,2% em 1983, A fatia dos in-
lizados existentes no mercado. Em ou- tragem, informações sobre os rendi- termediários também caiu de 27,8%, em
tubro de 1984, a revista Veja publicou mentos da População Economica- 1960, para 23,2% em 1983. Já a quota
um resumo do trabalho realizado pela mente Ativa. São dados sujeitos a limi- dos 20% mais ricos se elevou (de 54,8%
Target, uma empresa de serviços es- tações, no entanto. Baseiam-se em de- da renda, em 1960, para 69,6% em
tatísticos, que compilou o comporta- clarações das pessoas recenseadas, o 1983). E aumentou sobretudo a parcela
mento do consumo nas áreas urbanas que sempre conduz a subestimativas das dos muito ricos e riquissimos.
de 1.023 municípios de todos os Esta- rendas mais altas. Limitam-se aos ren- O próprio ex-ministro da Fazenda
dos. A chamada "classe A", que de dimentos monetários recebidos pelos Mário Simonsen, em seu livro Brasil

338
BR DFANBSB 84043334 àn 0a , p 81
BR DFANBSB V8.GNC.AAA, 404/32 P [del

deputado federal Eduardo Matarazzo


Suplicy (PT-SP) tem feito esforços
nesse sentido. Outros economistas in-
vestigaram a distribuição funcional da
renda em setores específicos. É o caso
das pesquisas pioneiras de Roberto
Macedo e Walter Barelli sobre a indús-
tria de transformação e os bancos co-
merciais, respectivamente.
Os estudos desses economistas leva-
ram em conta dados até o ano de 1975.
A despeito de não haver estudos mais
recentes, fica claro que também na dis-
tribuição funcional da renda a regressi-
vidade piorou ao longo do tempo. Os
salários, que ficavam com 29% da ren-
da gerada nas indústrias de transfor-
mação em 1961, passaram a receber
apenas 23% dessa renda em 1973. Em
consequência, a fatia dos lucros na in-
dústria de transformação subia de 71%

Alex Soletto
para 77% da renda nesse mesmo
período. E provável que a disparidade
fosse ainda maior na indústria da cons-
gág.
Na década de 80, milhares de brasileiros se debatiam num quadro de miséria (na trução civil ou na de extração mineral,
ao lado), enquanto se desenvolvia o consumo suntuoso das camadas altas (acima, o onde tradicionalmente os salários são
Shopping Center Eldorado, na capital de São Paulo) os mais baixos.
Os dados sobre a distribuição funcio-
2002, reconheceu essa tendência para a ção. Também não esclarecem a natu- nai da renda nos bancos comerciais são
"reconcentração da renda". Segundo reza da renda auferida, ou seja, se foi também muito reveladores. A fatia do
ele, a distribuição da renda pessoal, que obtida pelo próprio trabalho ou pela capital subiu de 59,8% no período 1968-
já era regressiva em 1960, se tornou exploração de trabalho alheio. Inse- 70 para 65,4% no período 1971-73, su-
ainda mais regressiva em 1970. A pro- rindo esse critério, o quaro da dispari- bindo novamente para 73,5% no período
porção de aumento da renda média en- dade se torna ainda mais clamoroso, 1974-75. Aí está uma indicação segura
tre 1960 e 1970, foi de 8,4% para os 80% pois reflete no fundo o grau de espolia- de que os banqueiros foram uma das
mais pobres e intermediários da popu- ção de uma maioria esmagadora de mi- frações do grande capital melhor con-
lação, de 55,4% para os 20% ricos, de seráveis, pobres e remediados, por uma templadas pelo Regime Militar. Outro
77,6% para os 5% muito ricos e de minoria de ricos. traço a destacar: a distribuição funcio-
103,2% para o privilegiado grupo dos nal dos rendimentos criados nos bancos
1% riquíssimos. Em outras palavras, a comerciais continuou a se concentrar
riqueza nova criada entre 1960 e 1970 ] pessoal
da J ] e funcional
av 71 em favor do capital mesmo depois de
foi absorvida sobretudo pelos mais ri- 1974, quando o governo Geisel (1974-
cos. A despeito de ter-se observado Para ter uma visão aproximada da 79) começou a declamar o propósito de
uma leve tendência a inverter essa par- partilha da renda por esse ângulo, é adotar medidas corretivas da extrema
tilha tão desigual da renda, entre 1970 e preciso estudar sua distribuição funcio- desigualdade na distribuição da renda.
1980, esse quadropermaneceu no essen- nal. A distribuição pessoal da renda Os dados coligidos sobre a distribui-
cial o mesmo. mostra a divisão da renda entre pessoas ção da renda interna urbana aponta-
Observe-se ainda que as faixas de ren- ou faixas da população, independente- vam, à primeira vista, uma divisão mais
da mínima e máxima são abertas. Isto mente de sua condição pessoal ou da favorável à remuneração do trabalho.
significa que a faixa mínima de renda natureza de sua renda. Já a distribuição É preciso levar em conta, porém, que
inclui, por exemplo, uma parcela signi- funcional da renda procura justamente os dados abrangem setores econômicos
ficativa de pessoas, principalmente mu- levar em conta a distinção entre onde é menor a presença de empresas
lheres e crianças, que trabalham sem rendas-trabalho e rendas-propriedade, monopolistas, com suas elevadas taxas
receber nenhuma remuneração. E a ou seja, entre as rendas obtidas com o de lucros; e incluem os trabalhadores
faixa máxima engloba um núcleo de próprio trabalho e rendas obtidas atra- autônomos e os trabalhadores nos ser-
pessoas muito ricas que têm rendas vês da exploração de trabalho alheio. viços públicos e privados, o que amplia
bastante superiores e já elevada renda Em outras palavras, a distribuição fun- o peso da remuneração do trabalho.
média de sua faixa. cional da renda mostra a divisão da ren- Ainda assim, a remuneração do traba-
Mas as estatísticas sobre a repartição da entre a remuneração das diferentes lho declina ao longo do tempo e é pe-
da renda pessoal, por mais chocantes formas de trabalho, por um lado, e a re- quena se comparada à de outros países.
que sejam, não contam ainda toda a muneração das diferentes formas de Nos Estados Unidos, por exemplo, se-
história. Registram apenas os fluxos de capital e de propriedade imobiliária, gundo famoso levantamento do econo-
renda num ano; não incluem o patri- por outro. mista Simon Kusnetz, a parte da remu-
mônio de uso pessoal acumulado e O cálculo rigoroso da distribuição neração do trabalho na distribuição
muito menos a propriedade e controle funcional da renda é muito mais difícil. funcional da renda chegava a 72,6% no
dos meios de produção. Se isso fosse Mas os dados dos Censos Econômicos período de 1948 a 1957. Dados compi-
feito, se agravaria significativamente a do IBGE permitem formar estimativas lados por Eduardo Suplicy indicam
disparidade entre as faixas da popula- globais e aproximadas. O economista e que, no Brasil, as taxas médias anuais
339
». FANBSB VB.GNCAM, 2340431333 ân 002, p 83

Abril Press

São Paulo, bairro do Morumbi, anos 80. A verdadeira face do Brasil: de um lado,
a opulência; de outro, a situação de grande
parte da população que não consegue, satisfazer necessidades vitais, como alimentaçã
o e moradia.

de crescimento dos salários reais foram soal ocupado na produção cresceu


dos que ganham acima de 20 salários
sempre inferiores às da produtividade 5,1%. Portanto, a distribuição da ren- mínimos; entre eles, uma minoria re-
média na indústria de transformação da salarial se tornou mais regressiva,
cebe muito mais do que isso.
entre 1949 e 1974. De 1949 a 1959, a Vários fatores concorreram para esse Para uma visão de conjunto da má
produtividade média aumentou 4% e o resultado. Com o desenvolvimento do distribuição, tanto da pobreza quanto
salário médio total, 3%; de 1959 a 1970, capitalismo no País, aumentou o nú- da riqueza, o mais interessante é reter a
a produtividade média subiu 4,9% e o mero de diretores, executivos e geren- participação média das diferentes cate-
salário médio total, 2,2%; de 1970 a tes profissionais, tanto nas empresas gorias: em 1983, 32,4% da População
1974, a produtividade média cresceu públicas e estrangeiras quanto nas Economicamente Ativa recebiam uma
9,1% e o salário médio total, 7,4%. Isto grandes e médias empresas privadas
renda de até um salário mínimo; 22,1%
significa exploração mais intensa da força nacionais. Aumentou também a par- recebiam apenas de um a dois salários
de trabalho, taxas mais altas de lucro, cela de lucros, transferida sob a forma mínimos; só 10,9% da PEA obtinham
maior concentração de renda pessoal. dissimulada de salários diretos e indire- uma renda superior a cinco salários
No entanto, é indiscutível que, ao tos de executivos. Cresceu igualmente mínimos; destes, é claro, alguns con-
lado do mecanismo básico de concen- a demanda por técnicos universitários e seguiam muito mais do que isso.
tração da renda, que consistiu no acrés- de nível médio e por operários especia- A má distribuição da renda pessoal é
cimo dos ganhos de capital e da renda da lizados, valorizando-se de forma rela- reforçada ainda por uma carga de im-
terra em comparação com a remunera- tiva e temporária, os seus salários. Em postos também regressiva, que penaliza
ção das diferentes formas de paga- contrapartida, ampliou-se o exército de sobretudo os que ganham menos; e por
mento do trabalho, houve um meca- reserva de trabalhadores desempre
ga- oferta de serviços públicos bastante
nismo complementar, centrado na dife- dos, subempregados e
mal-remu- desigual. Enquanto os bairros ricos são
renciação crescente entre os salários. nerados, cortados por redes de esgoto, ilumina-
Os dados reunidos por Suplicy mos- ção pública ou de comunicação telefô-
tram que também este processo vem de Cresce a concentração da renda e nicas, e ruas dos centros das grandes ci-
longe. Entre 1949 e 1959, se o salário caem os salários do trabalhador dades são pavimentadas e repavimenta-
médio total aumentou 3,0%, o salário das várias vezes,os bairros periféricos e
médio do pessoal ocupado na adminis- As informações contidas nos rela- as cidades mais pobres do Interior ve-
tração aumentou 4,5% e o salário mé- tórios RAIS (Relação
Anual de Infor- getam à minguade serviços públicos.
dio ocupado pelo pessoal da produção mações Sociais) mostram que a divisão De todos esses indicadores e fatos
aumentou 2,2%. Entre 1959 e 1970, o do bolo salarial também é claramente emerge a verdadeira face do Brasil:
salário médio total subiu 2,2%, o salário desigual: em 1983, 82% dos emprega- uma sociedade dilacerada por profun-
médio do pessoal ocupado na adminis- dos, que ganhavam menos de cinco sa- das desigualdades. Se uma minoria pode
tração subiu 2,6% e o salário médio do lários mínimos, ficavam com 48% do imitar o padrão de vida de classes mais
pessoal ocupado na produção subiu bolo, pouco menos da metade,
por- altas da Europa e dos EUA, grande
2,2%. Entre 1970 e 1974, o salário mé- tanto. Os restantes 18% dos emprega- parte da população não consegue se-
dio total cresceu 7,4%, o salário médio dos ficavam côm 52% do bolo. Note-se
quer satisfazer necessidades vitais,como
do pessoal ocupado na administração também que a última, faixa salarial é garantir alimentação suficiente e mora-
cresceu 10% e o salário médio do pes- aberta, para incluir todos os emprega-
dia adequada.
340
BR DFANBSB VE.GNCAMA, 8404 12 24 ânCO2, 084

POLÍTICA/CAMPANHAS POPULARES: lutas nacionalistas e democráticas A maior manifestação política


da história brasileira

, 0 povo nas ruas São Paulo, 16 de abril de 1984. No


vale do Anhangabaú, uma multidão es-
timada em 1,7 milhão de pessoas parali-
Da campanha pela abolição da escravatura às diretas-já, o
sou o centro da cidade e concentrou as
povo brasileiro tem saído às ruas, às praças do País, para atenções de todo o País para o comício
marcar sua presença e exigir mudanças que se constituiria no auge da campa-
nha pelas eleições diretas para presi-
dente da República.
No dia seguinte, os jornais utiliza-
riam, pela terceira vez naquele ano, a
expressão "a maior manifestação polí-
tica que o Brasil já viu". E não era exa-
gero. Ela foi utilizada pela primeira vez
referindo-se ao comício realizado na
Praça da Sé, em São Paulo, no dia 25
de janeiro, quando ali se concentraram
mais de 200 mil pessoas que nem
mesmo uma chuva insistente conseguiu
dispersar. Quando o marco de um mi-
lhão de pessoas foi ultrapassado, no
comício da Candelária, no Rio de Ja-
neiro, em 10 de abril, a expressão es-
tava novamente justificada.
Uma característica da campanha pe-
las diretas-já no País era o crescimento
constante. Ela começou com uma con-
centração de dez mil pessoas na praça
Charles Múller, em frente ao estádio
Pacaembu, São Paulo, em 27 de no-
vembro de 1983. Era organizada pelo
Partido dos Trabalhadores (PT), que,
dessa maneira, trazia para as ruas a
campanha que visava a alterar a forma
de escolha do presidente da República
a ser eleito em 1985. Completados 20
anos do golpe militar de 1964, parecia
inaceitável à população que o novo
presidente, com um mandato previsto
de seis anos, fosse escolhido por um
Colégio Eleitoral que, todos sabiam,
fora construído para referendar um
nome já previamente apontado pelos
governantes.
A campanha, em menos de seis me-
ses, espalhou-se pelo País: comícios,
concentrações e passeatas foram reali-
zados nas capitais dos Estados, nas
grandes cidades e também em inúme-
ras pequenas cidades de todo o País.
Levantamentos feitos na imprensa indi-
caram que mais de seis milhões de pes-
soas tinham ido às ruas antes do dia 25
de abril, quando foi votada a emenda
constitucional que, se tivesse sido apro-
vada, restabeleceria as eleições diretas
para presidente da República.
O fato de que, na véspera da votação
da emenda Dante de Oliveira, como
Iconographia

ela ficou conhecida, tivessem ocorrido,


nas principais cidades brasileiras, "pa-
nelaços" - barulho provocado pela po-
pulação batendo panelas vazias - indi-
: Campanha pelas diretas-já para presidente da República. Vale do Anhangab
au, cava, de maneira simbólica, que a cam-
SP, em 16/4/1984 panha brasileira se integrava de alguma

341
sroransss v.enc.aaa, 249041334 an 002 , - 85

forma nas demais lutas do povo latino- País defendiam a causa do governo, Rio pelaxeimo 1884
americano pela redemocratização de uma das principais atividades das Asso-
seus países. Afinal, os "panelaços" ti- elaçoes e Sociedades pró-Abohçao que
nham marcado manlfestaçoes no Chile, surglam foi a criação de ]omals
j aboli-
na Argentina e no Uruguai pelo fim dos cionistas. Pouco a pouco, a opinião pú-
governos militares daqueles países, que blica se apaixona pelo tema. A campa-
tinham sido gerados em processos nha se concentra nas grandes cidades,
muito semelhantes ao brasileiro. onde os clubes abolicionistas promo-
Quando o País se coloriu de amarelo vem quermesses, festas beneficentes, M
unucm"l
ªnu- “A
AGOBTImL.
um nar dirigidas sa
- a cor da campanha pelas diretas-já - conferências e, com o crescimento da
à Rua or humus Dina, o 96.1Ansas. Armas

vimos novamente o fenômeno da opi- campanha, comícios em praças públi-


nião pública brasileira polarizada por cas.
uma idéia. Nessas ocasiões, toda popu- Na fase fmal da campanha, o 80-
lação parece centralizar num objetivo verno tentou apelar para a repressão
todas as suas esperanças. E, portanto, para conter os manifestantes. Em
um tema concentra a possibilidade de agosto de 1887, proibiu as reuniões pú-
solução para uma série imensa de pro- blicas. E, a partir de então, utilizou
blemas. No início de 1984, o que tor- vários expedientes, alguns violentos,
nava tão inaceitáWel a elelçao pelo Co- para dissolver comícios e conferências
légio Eleitoral é que ela representava abolicionistas.
para milhões de brasileiros a continui- Mas a libertação dos escravos pare-
dade de uma situação que se tornara cia inevitável. Em 1884, as províncias
insuportável. A crise econômica, como do Amazonas e do Ceará já haviam li-
sempre, atingira principalmente as ca- bertado os seus escravos e entre os abo-
madas mais pobres da população. O licionistas havia até fazendeiros.
desemprego, o arrocho salarial e a ca- Quando o projeto de lei que abolia a
restia de vida continuavam a atormen- escravidão entrou na Câmara, em 8 de
tar a família operária e começavam maio, o público acompanhou sua tra- +,
Mascim
ci pide a árafr dos dx yranisois da
agora a atingir também a classe média. mitação passo a passo até o dia 13,
Eleger o novo presidente com elei- quando aconteceu a sua aprovação Não confiando no Exército, que
ções livres parecia ser a única forma de pela Câmara, pelo Senado e rápida san- cada vez mais parecia contaminado
mudar a situação do País. O grito de : ção pela Princesa Isabel. pelo germe republicano, as autoridades
diretas-já pelas multidões deveria ser imperiais preferiam utilizar a Guarda
entendido como grito de mudanças-já. Mesmo reprimida, à rdeia Nacional na repressão às manifesta-
Mesmo se levarmos em conta o cres- ções. O clima nas Forças Armadas é
cimento da população, a urbanização republicana percorre o País ilustrado com o episódio do cadete Eu-
do País, e o avanço no sistema de co- Clides da Cunha, da Escola Militar,
municações, poucas campanhas ti- Rio de Janeiro, julho de 1888. O saindo da coluna e atirando seu sabre
veram tal alcance e penetração. Mas chefe de polícia da capital publicou um ao solo depois de tentar vergá-lo, du-
houve outras oportunidades em que o severo edital: "Faz saber a todos os que rante uma visita do ministro da Guerra,
povo brasileiro empolgou-se por uma o presente edital virem ou dele tiverem conselheiro Tomás Coelho de Al-
campanha e marcou sua presença. notícia, que serão processados pelo meida.
crime do artigo 90 do Código Criminal
Nas ruas, as comemorações pelto os indivíduos que, nas praças, ruas ou ) repúdio ao nazismo e a luta
outros lugares públicos ou em presença
fim da escravidão de autoridades derem vivas à Repú- pela democratização

blica, morras à Monarquia, vivas ao


Rio de Janeiro, 17 de maio de 1888. partido republicano ou proferirem gri- Principais cidades do País, 18 de
Por toda a então capital federal têm ini- tos e frases igualmente sediciosas. Fi- agosto de 1942. Milhares de pessoas se
cio as comemorações do final da escra- nalmente, serão dissolvidos, pela forma manifestaram em diversos centros ur-
vidão negra no País, culminadas num legal, os ajuntamentos e reuniões em banos exigindo represálias do governo
domingo, quatro dias depois. Cerca de lugares públicos . . ." contra a Alemanha, que tinha provo-
cem mil tomam as ruas da cidade e a O edital constituía uma tentativa de cado uma nova onda de afundamentos
população tinha conquistado o direito impedir as manifestações crescentes de navios brasileiros. As embarcações
de participar da festa pela sua atuação pela República. A idéia republicana, começaram a ser afundadas por sub-
na luta por aquele resultado. desde a época da independência, em marinos nazistas em fevereiro daquele
O Brasil foi um dos últimos países do 1822, carregava consigo as esperanças ano, quando o Brasil começa a pender
mundo a acabar com a escravidão e de todos aqueles que pretendiam asso- para o lado aliado no conflito mundial.
isso o deixava isolado no plano interna- ciar à autonomia política do País for- Até 1944, 36 navios seriam afundados,
cional. Quando a Lei do Ventre-Livre mas democráticas de governo. Presente provocando a morte de cerca de mil
foi-aprovada, em 1871, a instituição da a todos os movimentos e insurreições pessoas.
escravatura começava a desmoronar e que marcaram o período imperial no A UNE (União Nacional dos Estu-
se tornava objeto de um grande debate Brasil, ela materializou-se em 237 clu- dantes) liderou uma passeata de milha-
nacional que só cresceria nos anos se- bes republicanos e 74 jornais em todo o res de pessoas no Rio de Janeiro em 4
guintes. Os defensores da abolição co- País, sendo que alguns deles, como o A de julho de 1943, onde carros alegóri-
meçavam a reunir cada vez mais pes- República, do Rio de Janeiro, chegou a cos simbolizavam o repúdio ao nazismo
soas em suas conferências e reuniões vender oito mil exemplares diários, na e o apoio aos aliados. A campanha pela -
públicas. Como os principais jornais do década de 1870. entrada do País na guerra ao lado dos

342
BRDFANBSB V8.GNC.AMA. 54041331 anOCO a, p &

sentantes presos ou no exílio. Foi no fi-


nal de 1944 que a campanha ganhou
amplitude e se espraiou pelo País, che-
gando às ruas no ano seguinte. Uma Se-
mana Nacional Pró-Anistia ocorreu si-
multaneamente no Rio e em São
Paulo, em abril de 1945, gerando mani-
festações e comícios. Dia 15, ao seu fi-
nal, numa grande manifestação no
Largo da Carioca, no centro do Rio,
sob chuvas de papel picado, o povo
aplaudiu os nomes de oposicionistas
que se beneficiariam com a anistia que
veio a ser decretada em 18 do mesmo
mês.
Conquistada a anistia, inicia-se a
campanha pela Assembléia Nacional
Constituinte, que teve sua eleição con-
vocada para o dia 2 de dezembro de
1945,

- Rio de Janeiro, julho de 1952. Nesse

Iconographia
mês, realiza-se a Terceira Convenção
Nacional de Defesa do Petróleo, reu-
nindo delegados de 18 Estados. O pro-
jeto em pauta no Congresso sobre a
aliados, que gerava organizações como Muitas campanhas mobilizaram a questão é violentamente atacado. A
a Sociedade dos Amigos da América e opinião pública brasileira. Acima, campanha sob o slogan de "O Petróleo
ressuscitava outras como a Liga de De- protesto contra o afundamento de navios é Nosso" chegava ao seu auge.
fesa Nacional, misturava o repúdio ao brasileiros, agosto de 1942. Abaixo,
Quando fora promulgada a Consti-
nazismo com a luta pela democratiza- concentração pró-anistia, na praça da Sé,
tuição de 1946, em 18 de maio, já ocor-
ção do País. em 3/3/45. Na pág. ao lado, Francisco do
reram protestos contra os dispositivos
Por proposta do Sindicato dos Tece- Nascimento - o "Dragão do Mar" -, que tornavam possível a participação
lões do Rio de Janeiro, realizou-se, em que, à frente dos jangadeiros do Ceará,
do capital estrangeiro na exploração de
maio de 1943, uma Semana Antifas- liderou a luta contra o tráfico de escravos
nossas riquezas minerais. Mas foi no
cista, organizada pela UNE e demais para o Sul do País (ilustração de Angelo
ano seguinte, a partir dos debates que
entidades que participavam da campa- Agostini, Revista Ilustrada, 1884)
ocorreram no Clube Militar, que o
nha. tema do petróleo e da defesa do mono-
Quando o governo brasileiro decla- pólio estatal para sua exploração come-
tou guerra à Alemanha, em 31 de
caram a empolgar o País. Surge o Cen-
agosto de 1942, cem mil pessoas sauda-
tro de Estudo e Defesa do Petróleo. em
ram a decisão nas ruas do Rio.

Lumi? e

TENPO

»::“anan ta
DO
muLpAoPárte
Rio de Janeiro, 3 de outubro de Port as , ENGANAR a
ER-SE-p
1945. Mais de 150 mil pessoas 3 MESMOENGANAR
concentraram-se para ouvir oradores
defenderem a convocação de uma As-
sembléia Constituinte. O comício foi
transmitido para todo o País por várias
emissoras de rádio. Delegações de
vários Estados estavam na Capital Fe-
deral.
Com o final da Segunda Grande
Guerra e a derrota do nazi-fascismo, o
Estado Novo torna-se rapidamente
anacrônico e as manifestações pela de-
mocratização do País se sucedem.
Depois que o Brasil entrou na
Guerra, foi a anistia que passou a preo-
conographie

cupar as oposições e, depois, mobilizar


a população. Todas as correntes políti-
cas foram reprimidas e tinham repre-

343
Devido às características dos gover-

nos do período populista, o movimento

sindical acompanhava de perto os mo-

vimentos políticos e do Congresso em

particular. Quando este vetou


a nomea-

ção de San Tiago Dantas para pri-

meiro-ministro, a Confederação Na-

Amiucuci Gallo/Abril Press


cional dos Trabalhadores na
Indústria e

o Pacto da Unidade e Ação (PUA) con-

vocaram uma greve geral para o dia 5

de julho de 1962, exigindo um gabinete

nacionalista e a antecipação do plebis-

Ex=
cito, que acabou se realizando em ja-

2
neiro de 1963.

.
No Regime Militar, milhares de

pessoas reclamam a anistia

Rio de Janeiro, 14 de agosto de 1979.

Cerca de 20 mil pessoas realizaram dois

comícios e uma extensa passeata na


ci-

dade, reclamando a Anistia Ampla


Ge-

ral e Irrestrita. A data teve o sabor de

um retorno das massas às ruas da an-

tiga capital da República. Foi a maior

manifestação realizada naquela cidade

desde a passeata dos 100 mil, de junho

de 1968, auge dos protestos pela morte

do estudante Edson Luís de Lima

Souto, num confronto com a polícia


no

restaurante estudantil conhecido como

Calabouço.

O tema da anistia surgiu logo depois

do golpe militar de 1964, mas foi no


Iconographia

ano de 1977 que ele se tornou a princi-

pal bandeira das manifestações estu-

dantis e passou a atrair cada vez mais

camadas da população. Depois que di-

Em várias oportunidades, o povo brasileiro empolgou-se por versas e significativas


uma campanha, saiu entidades se ma-

as ruas e praças, marcou sua presença e exigiu mudanças. nifestam a favor


No alto, comício pela da anistia, forma-se,

anistia, centro do Rio, em 1979. Acima, comício das em fevereiro de


reformas de base, Central 1978, o Comitê Brasi-
do

Brasil (RJ), 13/3/64


leiro pela Anistia que, a seguir, cria co-

mitês em todos os Estados.

abril de 1947, que visava a influir na A partir da renúncia do presidente


O ano de 1979 assiste o pipocar de
opinião pública através de artigos, con-
Jânio Quadros, em 25 de agosto de manifestações pela anistia em todo o
ferências, debates e comícios.
1961, o País mergulhou num dos perío-
País e, em 28 de agosto, o presidente

O Centro espalhou pelo País comis-


dos mais conturbados da sua história. A
Figueiredo assina o decreto da anistia,
sões de defesa do petróleo, que nas tentativa de impedir a posse do vice-
embora com algumas restrições e não
suas atividades começam a atrair pla- presidente Goulart, segue-se a campa-
tão ampla quanto era desejada.
téias cada vez maiores. Na época, nha pela legalidade e a posse é nego- Embora, através de sua história, o
considerava-se que as concentrações
ciada em troca da instituição do parla- povo brasileiro se tenha posicionado
promovidas pelo Centro e suas sucur- mentarismo no Brasil.
em campanhas que visavam a atingir
sais pelo País eram as maiores da his- No governo Goulart (1961-64) duas
metas ligadas à independência do País
tória do Brasil. Resultado: em 3 de ou- grandes campanhas centralizavam a
e a sua democratização, esses sucessi-

tubro de 1953 foi sancionada a Lei atenção da população. Inicialmente, a vos movimentos de massas, por suas
2.004, que criou a Petrobrás. campanha para antecipar a data do ple- próprias características, não deixaram

biscito que iria aprovar ou não o ato


um saldo realmente positivo. Sobre-
Vo governo Goulart, os temas
adicional que havia instituído o parla- tudo não significaram um avanço de

são plebiscito e reformas de base mentarismo e que estava marcado para caráter organizativo para esse mesmo

1966. E, depois, a campanha pelas re- povo.

Rio de Janeiro, 13 de março de 1964.


formas de base. As duas se relaciona-
Conquistada, total ou parcialmente,
Um público calculado em 200 mil pes-
vam intimamente, pois ambas se volta- a reivindicação que movia cada cam-
soas, convocado pelos sindicatos,
vam contra o Congresso, que era consi-
panha, a população volta a se encon-
acorre à Central do Brasil para um
derado o baluarte das forças conserva- trar atomizada e enfrentando os mes-
comício em defesa das reformas de
doras e que impedia as reformas pre- mos problemas que pareciam ser resol-
base. O presidente João Goulart foi o
tendidas pelo governo, principalmente
vidos ou teriam sua resolução encami-
último orador.
a reforma agrária.
nhada por aquela campanha.

344

BR DFANBSB VB.GNC.AAA, HO41239 ancoa, p 34


sr oranBSB 40413348 00a, p&8

trialização moderna, tanto na Europa


como no Brasil. Tradicional rota dos
bandeirantes no passado (depois de
1930), o Tietê passou a servir de cloaca
industrial e urbana de uma região onde
viviam mais de dez milhões de pessoas
e funcionavam cerca de 30 mil fábricas,
nos anos 80. Da cidade de São Paulo,
apenas, ele recebia a cada segundo 15,6
milhões de litros de esgotos. Além
disso, graças a uma sugestão infeliz do
o então prefeito Adhemar de Barros -
a,
que em 1955 interligou toda a rede de
ATT escoamento de São Paulo - os dejetos
de toda a indústria paulista passaram a
terminar no Tietê, viessem de onde
viessem.
Em 1950 já se faziam planos para sal-
var o Tietê, mas todos fracassaram. O

Banco de Dados/FSP
principal problema era conciliar os in-
teresses da Light - para quem o rio de-
veria servir antes de mais nada à gera-
ção de energia elétrica - com medidas
despoluidoras que constavam dos pla-
nos Greeley-Hansen, de 1953, Hazen-
Sawyer e Hibrace, de meados dos anos
Os peixes voltaram ao limpo rio Tâmisa, Londres, em 1983
60 Mesmo tentativas de soluções mais
ORGANIZAÇÃO SOCIAL/AMBIENTE: a poluição dos rios recentes permaneciam num impasse: a
"Solução Integrada", de 1974, e a sua
alternativa, o faraônico projeto Sane-
tan gran (Saneamento da Grande São
ça
dos Paulo).
rio
s
Assim, também um caso exemplar -
mas às avessas -, o Tietê dava a me-
A partir das últimas décadas, os rios das regiões mais dida dos problemas de poluição de
desenvolvidas do País vêm lentamente morrendo, resultado da águas no Brasil. De fato, esses proble-
mas eram mais graves nas grandes
desenfreada poluição das suas águas áreas metropolitanas brasileiras, das
quais a Grande São Paulo era a mais
A lição veio do velho continente eu- lização, transformando o Tâmisa em importante. Vinham em seguida pela
ropeu, em 1983, e foi ministrada com caso exemplar, verdadeira imagem de ordem, os outros grandes centros me-
ajuda apenas de um pequeno barco e uma comunidade urbana harmônica tropolitanos: o Rio, Porto Alegre, Re-
um caniço de pesca. A questão: era onde o rio era também local de lazer, cife, Salvador e Belo Horizonte. A par-
possível recuperar e manter limpo um recreação e beleza. tir daí, a deterioração dos rios
rio que atravessava o coração de um irradiava-se para as grandes regiões
grande centro industrial moderno? A As águas do Tietê, cobertas de desenvolvidas, a começar pelo interior
resposta - positiva - acabou trans- ,
rjfy'u eram 13191 399 rida +rr he do Estado de São Paulo.
um mundo morto
formando-se em um caso exemplar, O próprio Tietê, após deixar a me-
quando o mecânico londrino Rus- Essa era uma imagem totalmente trópole e tornar-se mais volumoso, de-
sell Doig tirou das águas do Tâmisa, o oposta, no entanto, à dos rios brasilei- purava em parte a poluição paulistana.
mais importante rio da Inglaterra, um ros, a começar pelo rio Tietê, Seme- Mas a sua situação voltava a piorar,
salmão de quase três quilos, sendo por lhante ao Tâmisa, mas atravessando a desta vez em seu curso médio, após re-
isso premiado com uma taça e 300 mil cidade de São Paulo, o Tietê em 1983 ceber a carga poluente de grandes
cruzeiros em dinheiro. era um rio imundo e malcheiroso. Suas afluentes do interior: os rios Jundiaí, Pi-
Um dos peixes mais exigentes em águas já sem transparência nenhuma e racicaba, Sorocaba e Capivari. O
matéria de limpeza, o salmão sumira do permanentemente cobertas por uma mesmo ocorria no interior do Paraná,
Tâmisa há exatamente um século, e o película oleosa, eram um mundo onde as cidades médias passavam a
seu retorno em 1983 era um atestado morto, a não ser pela grande variedade contribuir pesadamente para a polui-
fiel de que a poluição havia sido eficaz- de microorganismos perigosos que pro- ção de rios como o Iguaçu, próximo a
mente banida do rio inglês. O estigma liferavam nesse meio. Em vez de um Curitiba, ou o Tibagi, na região de Lon-
da poluição lhe deixara marcas profun- leito rochoso ou arenoso, o Tietê corria drina. E, mais além, no Rio Grande do
das, particularmente quando, em 1861, sobre uma imensa placa de dejetos se- Sul, também se agravavam as condi-
o marido da rainha Vitória - o príncipe dimentados, cujo peso era avaliado em ções das sub-bacias do rio Guaiba, com
Alberto - morreu de febre tifóide de- dois milhões de toneladas. destaque para os rios Gravatai, Sinos,
vido à insalubridade das águas do Tá- Mas o Tietê - assim como o Tâmisa, Taquari e Cai.
misa. No entanto, a partir de 1960, o rio antes da recuperação - era o resul- Nessas regiões se expandiam as con-
foi inteiramente recuperado através de tado da desorganização e da irrespon- tradições criadas entre o desenvolvi-
uma bem estruturada terapia de revita- sabilidade que acompanharam a indus- mento e o aproveitamento real dos rios.

345
ER. pranNBSB VB.GNC.AAA, 84041334 an 002 , p 83

(através da navegação) e ainda a re-


creação. Como acomodar tudo isso à
poluição desenfreada a que se relegou
nossos rios a partir de meados da dé-
cada de 60 principalmente?
Sem controle, sem fiscalização e sem
uma política de aproveitamento siste-
mático dos recursos naturais, os rios
transformaram-se em simples depósitos
de "lixo" industrial e de matéria orgã-
nica, principalmente resíduos de enge-
nhos e usinas de álcool. Assim, os rios
perdiam rapidamente o precioso oxigê-
nio dissolvido em suas águas, levando
os peixes à morte.
Os resíduos de cana ameaçavam 28
rios do Nordeste, em 1980, inclusive o
Capibaribe, que banha Recife. Além
disso, um dos maiores desastres ecoló-

Banco de Dados/FSP
gicos do São Francisco ocorreu em
1984, quando dezenas de toneladas de
peixes morreram perto dos municípios
de Curaçá (BA) e Santa Maria (PE). Os
suspeitos de responsabilidade eram a
Usina de Mandacaru e a Caraíba Me-
tais. Houve ainda o caso do rio Subaé,
perto de Salvador, onde 173 crianças
foram intoxicadas, nessa época, levan-
tando suspeita contra o cádmio, o zinco
e o cobre eliminados pela Companhia
Brasileira de Chumbo, da região.

xr, 05, anos filiª-i, ;;!k IXeS “liv :“ É?


a ] o Anaia DMedanrh.
CMculavam pelo Piracicaba
U

Os fatores que mais pesavam na

carga de poluição dos rios brasileiros

talvez pudessem ser identificados nas

medidas feitas no rio Guaíba, onde


Christiano Diehl Neto/F4

25% dos dejetos vinham do esgoto ur-

bano, 28% das indústrias alimentícias,

18% das metalúrgicas, 17% das fábricas

têxteis e 12% das fábricas de papel.

De qualquer forma, uma coisa é

certa: a longo prazo a poluição com-

promete os resultados da economia. É

o que se vê no caso do rio Piracicaba.


Depósitos de "lixo" industrial e resíduos de cana-de-açúcar, nossos rios morriam,
como Na década de 60, encontravam-se ali
o Tietê (no alto) e o Piracicaba, ambos no Estado de São Paulo
peixes de até 15 quilos, Em 1983, o pro-

fessor Enéas Salati, da Escola Superior


Caso típico era o Paraíba do Sul: com dos com urgência pelo recém-criado
de Agricultura Luiz de Queiroz, afir-
1.050 quilômetros, entre São Paulo e
Comitê Especial de Estudos Integrados mava: "Esse rio não passa de um es-
Rio, servindo a uma população de 3,5 de Bacias Hidrográficas (CEIBH). A goto a céu aberto, e recursos enormes
milhões de habitantes e para o qual se
idéia era planejar melhor o desenvolvi- terão que ser aplicados para implantar-
previa que abastecesse as indústrias e a mento do País - aproveitando os rios se um sistema de saneamento." Com a
população da cidade do Rio de Ja-
brasileiros, mas sem comprometer o es- degradação de seus dois últimos rios de
neiro. Apenas 14% das cidades em suas sencial, a qualidade de suas águas. Os porte, nos anos 80 - o Jaú e o Jacaré -,
margens tinham serviço de tratamento
estudos do São Francisco, posteriores
de esgotos e 114 indústrias despejavam em São Paulo deixou de haver pesca
aos trabalhos iniciais da CEIBH com o em escala comercial. A própria Secre-
sobre ele cargas acima do perigoso pa- Paraíba do Sul, só deveriam dar resul- taria da Agricultura do Estado desistiu
tamar de 100 toneladas diárias de polui- tados depois de 20 anos. de usar os rios como sistema de produ-
ção, comprometendo o abastecimento.
Apesar das diferenças entre si, os ção de peixes, preferindo recorrer às
Problemas semelhantes estendiam-se problemas de nossos rios concen-
fazendas piscicultoras, onde os investi-
também aos rios mais distantes, poluí- travam-se nas mesmas questões bási- mentos necessários eram muito maio-
dos por regiões menos desenvolvidas cas, entre as quais estavam o abaste-
res do que exigia a pesca nos rios. As-
do País, como era o caso do São Fran- cimento de água e de energia elé-
sim, enquanto no Tâmisa se premia a
cisco. Este último, em 1980, foi incluído trica, a produção de alimentos (peixes), pesca, entre nós se desperdiçam recur-
em uma lista de rios a serem examina- a irrigação agrícola, os transportes sos naturais originalmente abundantes.
346
BRDFANBSBVB.GNC.AAA, 8404138345 0a, pB0

Fernando Pimentel/Abril Press

Nos últimos 20 anos, o conto apontou ... dominavam o cenário da história ... indicavam uma grande vitalidade,
uma ampla diversidade na literatura do curta, como Mário de Andrade (à dir.), exemplificadas pela literatura de Rubem
País. Se no passado poucas figuras . .. nos anos 60 as correntes do conto . .. Fonseca (à esq.) e Lygia Fagundes Telles

ARTES/LITERATURA: a evolução doconto sob o Regime Militar Fausto Cunha, Hélio Pólvora, Renard
Perez. As últimas estréias, não casual-
mente, nos haviam trazido escritores
do porte de José J. Veiga, Rubem Fon-
seca e Nélida Pifion, Caio Porfírio Car-
neiro, Julieta de Godoy Ladeira e João
Antônio.
Nos últimos 20 anos, o conto não apenas resistiu Essas eram as linhas gerais do conto
brasileiro em 64. Fundas, nítidas, im-
ao autoritarismo, mas soube enfrentá-lo criticamente,
pressivas. Nunca antes nós tínhamos
- compondo assim um amplo mosaico da vida brasileira visto uma tamanha cota de valores tão
indiscutíveis. Contra eles, contra a flo-
Quando foi deflagrado o movimento Nem evitar alguma cronologia na en- ração em curso, e tentando apagá-la,
de 64, o conto brasileiro já se encon- trada em cena dos contistas, pelo me- extingui-la, varrê-la, se armaram os
trava em plena ascensão. Até esta fase nos útil para localizá-los. Olhando mais processos diluidores de um sistema re-
mais contemporânea, nós nos havia- a sua multiplicidade, a exposição de gressivo. Como foi que atuaram?
mos habituado, e desde o tempo dos tantos desenhos e cores e relevos, pro- É inegável o clima de antiintelectua-
nossos precursores (século e meio curemos reconstituir a extensa galeria lismo destes últimos 20 anos. Ele se es-
atrás), a ver sempre uma grande figura que tinhamos então. tabeleceu numa sombria nuvem geral,
dominando isolada o cenário da his- planejadamente recusando tudo o que
tória curta. Assim acontecera com Jus- significasse a visão humanística da so-
tiniano da Rocha, Machado de Assis e ciedade, e assim fechado, e incivil, caiu
Simões Lopes Neto, com Lima Barreto tempestuoso sobre a produção literá-
ou Adelino Magalhães, e na melhor das As contribuições mais sedimentadas, ria. Isolando-a, pressionando-a,
hipóteses, pelas alturas 'do Moder- e que também se mostravam como intimidando-a. Tal política de contra-
nismo, com as presenças simultâneas aberturas sucessivas, eram personaliza- cultura se exerceu em diferentes senti-
de Mário de Andrade, João Alphonsus das em um Origenes Lessa, um Ber- dos.
e Marques Rebelo. Em começos dos nardo Ellis, um Moreira Campos. A
1
anos 60, entretanto, as correntes cruza- Geração de 45 se mantinha no seu forte
das do conto indicavam uma extraordi- núcleo central, com Breno Accioly, tu
nária vitalidade. O gênero compunha José Condé, Lygia Fagundes Telles e
um extenso e vivo painel, feito de obras Murilo Rurião. A renovação de Gui- A censura foi o principal instru-
sem dúvida importantes. marães Rosa, Clarice Lispector e Dal- mento do sistema militar, para o seu
Seria esquemático buscar o alimento ton Trevisan, as construções pessoais objetivo de tornar a literatura uma ex-
desses escritores, querer ordená-los por de Leonardo Arroyo, Helena Silveira e pressão dócil, amaciada ou inócua,.
tendências e mesmo inflexões. A tônica Almeida Fischer. Os destacados Os- Tem-se discutido o papel que ela de-
da nossa época, ao que aponta, é a di- man Lins, Samuel Rawet, Otto Lara sempenhou, em termos comparativos,
versidade. E esses perfis tão vários nos Rezende, em contraponto com os tam- desejando mostrá-la mais opressiva em
permitem apenas enumerar, ainda que bém excelentes Autran Dourado, Leo outros setores das artes, por exemplo o
não se possa fugir às aproximações. Godoy Otero, Edilberto Coutinho, ou teatro e a música popular. Entretanto,
347
BR DFANBSB VB.GNC.AAA. 84041333 In COR pã]

houve a censura de livros publicados, Nos últimos anos, uma característica


suas edições recolhidas das livrarias.
importantefoi o alargamento da temática.
Houve a censura de livros que não che-
Surgiu o conto da nova mulher, com
' garam a ser editados, vítimas do veto
Marina Colasanti (ào lado) e Tânia
difuso das forças da situação. E houve,
Faillace (centro), que, junto à ficção de
decerto, à censura que desencorajava a
João Antônio, por exemplo, comporia um
criação literária fora dos esquemas do-
grande painel da via brasileira
minantes, altamente limitativa, imobili-
zante e castradora Nomes do valor de Luís Vilela, Moacyr
Outra modificação dessa política rei-
Scliar, Ivan Angelo, ou de Domingos
nante no período, e que se patenteou
Pellegrini Jr., Sérgio Sant'Anna, Sílvio
de forma lenta e progressiva, foi o fe- Fiorani. A representação feminina se
chamento dos canais de veiculação de adensou, com Sônia Coutinho, Edia
literatura além do livro. Em 64, tinha- Van Steen, Ana Maria Martins, ou
mos diversas revistas literárias, seis su-
Hilda Hilst, Dinorath do Valle, Márcia

Luiz Paulo Machado, Abril Press


plementos especializados em São
Denser. Os grupos regionais se ativa-
Paulo, igual número no Rio, existiam ram, com os mineiros Roberto Drum-
esses cadernos em quase todas as nos- mond, Orlando Bastos e Wander Pi-
sas capitais. Neles, os escritores jovens tolli, Duílio Gomes e Garcia de Paiva,
pediam publitar poemas, contos, en-
os recentes gaúchos Sérgio Faraco, Al-
: saios, após algum tempo chegar ao li-
dyr Schlee e Renato Modernell. Mais
vro normalmente. Mas pouco a pouco
que simples continuidade, houve aber-
as revistas e os suplementos foram de- tura de horizontes. Quantitativos, é ver-
saparecendo (em 1982 cessou o último dade, com o boom editorial dos anos
em Porto Alegre), e no início de 1985
70. Mas também qualitativos, pois hoje
temos quando muito suplementos cul-
se escreve mais e melhor.
turais, onde a literatura divide espaço
com as ciências e a tecnologia.
as imikimi/(a traçam o pamel
à a
de uma fªgmf'n'

Uma característica importante da


fase atual é o alargamento da temática.
Enfim, por se julgar duradouro, o au-
Surgiu o conto da vida operária, com
toritarismo visou a universidade. A mé-
Roniwalter Jatobá e Domingos Pelle-
dio e longo prazos, exerceu sobre ela
grini Jr. Surgiu o conto das profissões
uma ação vigilante, que resultou extre-
emergentes, dos executivos diversos,
mamente negativa. Demitindo, cons-
com Roberto Drummond, lãgácio de
trangendo, ameaçando, tornou-a uma
Loyola Brandão e Otto Lara Rezende.
instituição formalista. Isso, que logo se
Surgiu o conto da nova mulher, com
Walter Firmo/Abril Press

refletiu no ensino, alcançou também a


Marina Colasanti, Márcia Denser e Tô-
crítica universitária como um tom de
nia Faillace. Muito naturalmente, a so-
época. Em que pesem as previsíveis re-
ciedade de consumo, o erotismo, as
sistências e exceções, tivemos o pri-
m Pra".

mado do esteticismo, com a abstração


magias contemporâneas entraram na
ordem do dia. Ancorando esses vôos,
de literatura em curso, o retorno a per-
surgiu o conto da repressão, do cala-
3

didos escritores do passado, as teses so-


bouço, da tortura, a nossa variante ne-
bre linguagens e mundos interiores,
gra. Matérias vivas, registro e memória,
Não por acaso, vivemos, todos estes
trânsito em outras direções. E assim es-
anos, a apoteose do estruturalismo.
pelho deste nosso tempo, e nas suas di-
Qual o prejuízo que a chamada "re-
mensões de peças isol"das bem estimá-
volução de 64" nos trouxe? Impossível
veis, traçaram o paint! de uma Época.
delimitar, mas é claro foi grande e defi-
flagrante a predominância do
nitivo. No entanto, muito curiosa-
conto, em nossos dias, como gênero li-
mente, nós não os sentimos. Porque, no
terário. Se antes poesia, se até
conto, aquele panorama de 20 anos
há pouco llamos romance, agora lemos
atrás, já tão surpreendente, só fez
mais conto. As razões dessa preferên-
ampliar-se. Com a evolução ou maturi-
cia são de natureza vária, A multiplici-
dade dos escritores, que nos deram,
dade de bons autores, a sua diversidade
mesmo no caso de desaparecidos (Cla-
e abrangência, a capacidade que mos-
rice Lispector e Osman Lins), o me-
tra o conto de apreender os tantos as-
lhor de sua obra, essa quadra adversa
pectos da nossa realidade. Agilmente,
coincidiu com a consagração de Lygia
Pedro Martinell/Abril Press

ele compõe o grande mosaico da vida


Fagundes Telles, Murilo Rubião e Ru-
brasileira. Pode-se dizer que rão ape-
bem Fonseca, José J. Veiga, Nélida
nas sobreviveu ou resistiu aos nossos
Piion e João Antônio. Todos, aliás,
anos de luto, mas soube enfrentá-los
cresceram em suas personalidades de
criticamente, e na visão participante se
autor, sem dúvida apreciáveis,
renovou agigantado.
E tivemos os novos aportamentos.
Ricardo Ramos
348
Br DFANBSBVB.GNCAAA, 2404433 4an coa, o 93

CULTURA/CIENCIA: a pesquisa científica e dependência tecnológica

De costas para a pesquisa

O modelo científico promovido pelo Regime Militar


levou a um enfraquecimento geral da pesquisa, acentuando a dependência
tecnológica que persegue o País desde o período colonial

"A única finalidade da ciência está qualquer lugar, independentemente com o desenvolvimento científico
em aliviar as canseiras da vida hu- das fronteiras políticas e dos sistemas como também perseguiu ativamente os
mana." (Galileu Galilei, físico italiano econômicos. Mas é totalmente falso que, em Portugal e suas colônias, se
do século 16 e um dos fundadores da que o esforço que foi preciso desenvol- aventuraram nessa atividade por conta
ciência moderna.) ver para se chegar a estas leis universais própria. O Brasil sofreu as consequên-
Quando dom João VI decidiu fundar tenha sido o mesmo em qualquer país. cias «disso desde a sua descoberta e
o Museu Real, no Rio de Janeiro, em D. João VI precisou comprar o acervo ainda não se havia livrado delas no final
1818, dando início, com grande atraso, de um cientista alemão porque, com do século 20.
à moderna investigação científica no exceção de alguns casos isolados, não A vinda do rei de Portugal para o
Brasil, foi preciso resgatar em dinheiro se fazia pesquisa no Brasil, até então. Brasil modificou um pouco a situação
o pequeno conhecimento existente so- As dificuldades estavam relacionadas da colônia. Revelando a preocupação
bre a realidade nacional. O patrimônio com o papel de Portugal na coloniza- de não deixar o conhecimento da reali-
inicial do museu, de fato, foi adquirido ção do País. Embora tivesse absorvido dade nacional nas mãos de estrangei-
ao mineralogista alemão Abraham e cultivado a brilhante ciência surgida ros, a criação do Museu Real - depois
Werner, um dos fundadores dessa ciên- na Europa durante o Renascimento, a Museu Nacional - permitiu que a pes-
cia e também professor do futuro "pa- atrasada metrópole portuguesa caiu quisa científica fosse, pela primeira vez,
triarca da independência", José Boni- logo em seguida sob o domínio intelec- realizada de forma organizada no País.
fácio de Andrada. tual da contra-reforma religiosa. A par- Com poucos recursos e espirito de pes-
As leis da ciência são válidas em tir daí, não só deixou de preocupar-se quisa incipiente, mesmo então o museu

| é .
r-R

á
RCN
SS
BR DFANBSB 4041323 , pq3

avançou pouco, tendo por grandes no-


mes ainda os estrangeiros como Emílio
Goeldi (suíço) e Henry Gorceix (fran-
cês, organizador também da célebre
Escola de Minas de Ouro Preto).
A questão do desenvolvimento
científico independente do País era,
portanto, um problema antigo e com-
plexo. Sob o Regime Militar - que in-
dubitavelmente expandiu a economia
brasileira, a ponto de levar o País do
26o para o sétimo PIB (Produto Interno - g
Bruto) do mundo -, o que aconteceu? à$
Evoluiu a pesquisa científica? De que
3
forma ela se ligou à meta de promover 82
um desenvolvimento autônomo e a EE!
%
auto-sustentado no País? 9
2
Com a ascensão do Regime Militar,
vi O8
os pegquisadoressbrasileiros tornaram-
se uma comunidade em rápido cresci- O biólogo Luís Hildebrando: exilado O sociólogo Florestan: perseguido
mento, fato que se verifica com facili-
dade. Um exemplo: a Universidade de
São Paulo tinha três mil estudantes em Cientistas punidos
1935, ano de sua fundação, e em 1960
ainda contava com apenas 9,5 mil alu- "Nós fomos proibidos de ensinar, que inclusive inocentava das acusa-
nos. Em 1980, o quadro discente da no Brasil, proibidos de fazer pesquisa ções de "atividade subversiva". boa
maior universidade brasileira havia e estigmatizados como elementos in- parte dos demitidos -, os cientistas te-
mais que triplicado, saltando para desejáveis do ponto de vista político riam que enfrentam o AI-5, já então no
30.934 alunos. Ainda mais impressio- (.. .). Nós tentamos enfrentar o regi- período de 1967 a 1969. Uma lista par-
nante havia sido a progressão dos pós- me, que nos puniu usando o arbítrio cial dos cassados até 1971 incluía 91
graduandos: eram apenas dois em 1935, de que dispunha." Este depoimento intelectuais de todo o País. Alguns
110 em 1965 e cinco mil em 1970, Além foi feito em 1978 pelo professor Flo- dos cientistas atingidos foram Josué
disso, o orçamento do Estado passou a restan Fernandes, um dos pioneiros de Castro (médico), Jaime Tiommo
contar com uma parcela cada vez da Sociologia no Brasil e autor de um (físico), José Leite Lopes (físico), Al-
maior destinada à ciência e à tecnolo- dos mais importantes trabalhos sobre berto Carvalho (pesquisador), Luís
gia. as culturas indígenas brasileiras. Ex- Hildebrando da Silva (biólogo), Aluí-
professor titular da Universidade de sio Pimenta (químico), Maria Nilde
Os números cresciam, mas os São Paulo (USP), foi preso em 1964 e Mascellani (educadora), Paulo Duar-
estímulos se foram reduzindo "aposentado compulsoriamente" em te (professor).
1969, com base no Ato Institucional A repressão teve efeitos danosos
No entanto, embora fosse extrema- no 3. para a pesquisa devido à perda de ho-
mente difícil medir com precisão o vo- Dezenas de outros tiveram o mes- mens experientes, indispensáveis na
lume da produção científica de um mo destino. Logo após o golpe, uma formação de novos quadros no Brasil.
país, os cientistas brasileiros afirma- comissão de inquérito secreta, instau- Anos de trabalho foram desperdiça-
vam, na década de 80, que a nossa ciên- rada pelo então reitor da USP, Gama dos, O professor Florestan Fernandes
cia permanecia extremamente atrasada e Silva, sugeriu a suspensão dos direi- era de opinião que a repressão aos
em relação aos grandes centros inter- tos políticos de 52 professores, alunos cientistas teve uma importância se-
nacionais. Em 1975, embora o Brasil e funcionários; entre eles, o professor cundária, diante de outros setores
fosse o quinto país em população, nú- Mário Schemberg, físico respeitado também atingidos, mais relevantes
meros divulgados pela Sociedade Bra- no mundo inteiro, que seria preso - politicamente. Mas não perdoava o
sileira para o Progresso da Ciência em verdadeiro ato de vandalismo - reitor Gama e Silva, por colaborar
(SBPC) mostravam que o País não pas- por policiais que invadiram sua casa e com o regime: "Foi uma coisa extre-
sava da 29a colocação em número de depredaram sua biblioteca e obras de mamente vergonhosa na história da
trabalhos científicos publicados; nesse arte. : educação no Brasil."
ano, O Brasil produziria um trabalho Encerrado o inquérito de 1964 -
por cem mil habitantes, enquanto nos
EUA a proporção era de um por 1,5
mil habitantes; na Argentina, um por
24 mil; e no Chile um por 36 mil. A leiro", declarou o professor Juarez Lo- uma criação individual"; concluindo
conclusão que acompanhava esses nú- pes, do Centro Brasileiro de Análise e ainda que "não há como se distinguir o
meros era a de que nos países mais de- Planejamento (CEBRAP), "não esti- saber científico da sociedade onde ele
senvolvidos a ciência avançava forte- mulam a demanda de tecnologia e pes- vive".
mente amparada pelo Estado e estreita- quisa científica". Tornava-se claro, Por aí se vê, em retrospectiva, que os
mente ligada à economia, enquanto no dessa forma, o que queria dizer o enge- planos do Regime Militar para a ciên-
Brasil as pesquisas já chegavam pron- nheiro Milton Vargas quando, em uma cia continham duas idéias desastrosas:
tas, através das filiais das grandes em- palestra proferida em 1984, afirmou: primeiro, a de que os cientistas não de-
presas multinacionais sediadas entre "Uma das características mais notáveis viam meter-se na política, mas dedicar- '
nós. "Essas filiais e o governo brasi- da ciência moderna é a de ela não ser se candidamente à ciência por si
360"
bBroranssB v.enNciaaa, AnCO2a, p 34

mesma, como uma coisa desligada do


top poesia
Hrstorpa Na-: pTv rorRAS
gccomer: O No século 17, a ciência no Brasil era
BR A si %. ALC. a estrangeira: ao lado, a "História Natural
. mundo real; segundo, a concepção de
A 485Mípicio et Ber
1. M aVRIT : 24 do Brasil", do holandês Marcgreve. Só
que o pesquisador brasileiro não de-
neste século é que nossa ciência passou a
veria ter a pretensão de "reinventar a
obra de brasileiros: ao centro, o
roda", mas ganhar tempo absorvendo a
pesquisador médico Carlos Chagas e,
ciência e a tecnologia já prontas, cria-
embaixo, o sanitarista Oswaldo Cruz,
das pelos países desenvolvidos, Ou,
pioneiros da saúde.
como disse, em 1977, um dos grandes
cientistas brasileiros, o geneticista gen. As empresas nacionais realmente
Newton Freire-Maia, limitar-se a "re- eram carentes de tecnologia, mas não
solver tarefas menores", dentro da podiam dar-se ao luxo de comprar tec-
ciência mundial. nologia externa, um dos mais caros e
monopolizados produtos comerciais
O Brasil não podia fazer nem existentes. Já as multinacionais adqui-
mesmo uma ciência bem [mln'f' riam tecnologia de suas matrizes, fa-
zendo remessas para o Exterior a título
Na realidade, nem o papel de uma de "assistência técnica" - um item que
ciência pobre - preocupada apenas englobava 68% dos gastos totais do
com a adaptação de conhecimentos Brasil com importação de tecnologia
básicos desenvolvidos por outros - es- (aqui é preciso cuidado: segundo de-

Bibliotecas Nacional
távamos em condições de desempe- núncias frequentes, este item era tam-
nhar. O físico José Goldemberg, em bém inflacionado por remessas "esca-
1975, embora ressaltando a enorme im- moteadas" de lucros não relacionados
portância das verbas destinadas à ciên- i L #! necessariamente com importação de
ª "r_AFITII'Gbªnl,

cia no Brasil, afirmou que estávamos &?“ Lad sá tecnologia).


ainda muito longe de nossas necessida-
des reais. Nossa verba de 1974, segundo A meta sempre era absorver os
Goldemberg, era de 400 milhões de conhecimentos vindos de fora
dólares: quatro dólares por habitante,
uma ninharia face à taxa de um grande Enfim, além de insuficientes, as ver-
país como os EUA (110 dólares per bas para a ciência eram mal distribui-
capita) e ainda menor que a metade da das - ou melhor, eram distribuídas de
taxa de uma nação média como a Itália modo a privilegiar os objetivos econô-
(nove dólares per capita). Pior do que micos, dentro do modelo dependente
isso, afirmava o físico brasileiro, era o implantado pelo Regime Militar. Uma
fato de que a importação de tecnologia análise criteriosa dos dois primeiros
estrangeira estava ascendendo a um pa- grandes Planos Básicos de Desenvolvi-
tamar muito acima do orçamento mento Científico e Tecnológico
científico, com gastos de 800 milhões (PRODCTs, editados a partir de 1973)
de dólares em 1973 e perto de três bi- mostrava que suas áreas prioritárias de
lhões em 1974. pesquisa coincidiam com os setores de
Esse problema se revelava ainda ponta da economia internacional: ener-
mais perverso quando examinado com gia nuclear, computadores, indústrias
maior detalhe. Assim, verifica-se que o aeroespacial e petroquímica: Certa-
grosso de nossos gastos com tecnologia mente não era uma tentativa de con-
externa, entre 1965 e 1970, não era se- correr, nesses setores, com um país
quer realizado por empresas nacionais como os EUA - onde a verba para a
carentes de ciência própria, como se ciência em 74 era de 25 bilhões de dóla-
poderia pensar. Nesse período, 73% das res -, mas de persistir na idéia de ficar
importações foram feitas por grandes para sempre como um país absorvedor
empresas estrangeiras, fossem elas in- de conhecimentos alheios. Além disso,
dependentes, em menor proporção, ou notavam-se clareiras importantes na
filiais de multinacionais, principal- distribuição de recursos no que con-
mente. Apenas 27% das importações cerne, por exemplo, às ciências huma-
corriam por conta de empresas brasilei- nas, aí compreendidas áreas nobres
ras. Era possível até mesmo conhecer como a Antropologia, a Política, o Di-
estas grandes firmas estrangeiras, já reito, a Educação, a História e a Eco-
que 40% dos gastos se originavam no nomia.
setor de transportes, mais específica- Não se pode esquecer, ainda, o atre-
mente no râmo de veículos (32% do to- lamento da pesquisa ao problema do
tal das importações). Nada mais natu- endividamento externo: programas
ral, portanto, do que identificar como como os de melhoramentos genéticos
principais países exportadores da tec- avançaram substancialmente a partir
Biblioteca Nacional

nologia que comprávamos a Alemanha da década de 70, devido ao problema


(33% do total) e os EUA (30%). Eram de se montarem gigantescas culturas
desses países as maiores empresas de homogêneas, compostas de uma só
veículos instaladas no Brasil, como a planta, como a soja ou a cana-de-
Ford, a General Motors e a Volkswa- açúcar. A agronomia mostra que plan-

351
BR DFANBSB V8.GNC.AMA, $4041B3an
002, p 95

tações desse tipo - imensas fontes de quezas, entre outros temas. Assim, a re-
alimentos - transformam-se em verda- ligadas à ciência.
união de 1977, marcada inicialmente
deiros imãs de pragas, a ponto de O fato é que o Regime Militar insti-
para Fortaleza, foi transferida para São
ameaçar torná-las inviáveis economica- tucionalizou a ciência de modo autori-
Paulo, onde contou com a ajuda de di-
mente, se não se aprimorassem varie- tário, centralizando absurdamente seus
versos setores da oposição. A arquidio-
dades geneticamente mais resistentes. órgãos principais. O comando geral da
cese paulistana, através da Pontifícia
Ocorre que o Regime Militar tinha in- política científica atuava sob o Minis-
Universidade Católica (PUC), cedeu
teresse na soja - produto muito bem tério do Planejamento, que interligava
suas instalações para o encontro.
pago no mercado internacional - como ações do CNPq e outras entidades
O recuo do regime desencadeou rea- como a FINESP (Financiadora de Es-
forma de obter divisas externas. Assim ções diferentes entre os cientistas e, em
se explicavam os gordos recursos da tudos e Projetos) e o BNDES (Banco
1978, Rocha e Silva revelou-se contra
EMBRAPA (Empresa Brasileira de Nacional de Desenvolvimento Econô-
uma tentativa de aproximação entre a mico e Social). A política científica,
Pesquisa Agrícola), comprometida com SBPC e o governo. As diretrizes poste-
estudos importantes para diversos pro- além disso, foi organizada a partir de
riores da SBPC mostraram que a co-
dutos de exportação. Ela recebeu, no diretrizes estipuladas, em 1964, com
munidade científica tendia a despoliti-
orçamento de ciência e tecnologia de participação do próprio Conselho de
zar gradualmente a entidade, uma vez
1981, recursos maiores que o próprio Segurança Nacional. Na verdade,
encerrado o ciclo mais terrorista dos
CNPq (Conselho Nacional de Desen- desde a Segunda Grande Guerra, o pla-
governos do Regime Militar.
volvimento Científico e Tecnológico), nejamento da ciência era uma necessi-
o principal órgão governamental para o dade cada vez mais premente das gran-
As multinacionais precisavam no
planejamento científico no Brasil, A des empresas internacionais. Para
EMBRAPA nesse ano recebeu 18% do País só de técnicas simples implantar-se nos países subdesenvolvi-
Orçamento para a ciência, contra 14o% dos, as multinacionais precisavam de
No entanto, as dificuldades políticas técnicos locais que conhecessem e sou-
destinados ao CNPq, com o governo prosseguiriam, como se bessem lidar com as novas tecnologias
via por um documento da SBPC, de em surgimento: radares, foguetes, com-
Após 64, a SBPC denuncia o
1983, dirigido ao Ministério do Planeja- putadores, produtos químicos deriva-
fechamento político mento, pedindo reformas nos mecanis- dos de moléculas complexas, etc. Exa-
mos de decisão e de fomento da polí- tamente como estava nos planos do
Em vista de todos esses fatos, os pla- tica científica,
nos do Regime Militar acabaram, ironi- Regime Militar.
O jornal O Estado de S. Paulo O CNPq era de 1951, criado por Ge-
camente, forçando os cientistas a sair comentou em editorial o documento, túlio Vargas com atribuições muito li-
dos laboratórios e vir para as ruas dis- afirmando que ele representava uma
mitadas (desenvolver a energia nu-
cutir política. E em nenhum lugar isso manifestação de "cansaço, impaciência clear). No mesmo ano foi criado um
se revelou melhor dos que nas famosas e desconfiança" por parte dos cientis-
reuniões anuais da SBPC, Após o golpe órgão-chave para a formação de pes-
tas. Afirmava ainda que estes últimos quisadores, a CAPES (Campanha de
de 1964, sob a presidência de seu fun- não se consideravam representados nos
Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino
dador, fisiologista Maurício da Rocha e órgãos de decisão, "atribuindo a condi- Superior). Ambos passaram por diver-
Silva, a entidade máxima da comuni- ção de usurpadores" aos então ocupan- sas reformulações sob o Regime Mili-
dade científica denunciou o fecha- tes do comando das entidades oficiais
tar, até cair sob o comando do Minis-
mento político e se recusou a negociar
com os governos dos generais, Nesse
período, até 1969, perdurou um clima
de expectativa em que ainda se articu-
Modelo americano
lavam os novos planos para a ciência
nacional, As reuniões da SBPC se tor-
Nos EUA, a estrutura de planeja- contra apenas 22% em 1921.
nariam cada vez mais importantes en-
mento e gastos científicos privilegia as Outro aspecto importante. Essa oli-
tre 1969 e 1973, a etapa mais dura da
grandes empresas e a pesquisa em ar- garquia privilegiada se distribuía pra-
repressão política, quando os cientistas
mamentos, em detrimento das univer- ticamente por apenas cinco grupos de
seriam perseguidos, presos, cassados e
sidades e da busca do conhecimento indústrias, nessa ordem: aeroespacial,
demitidos às dezenas. da natureza em benefício dos ho-
Foi então que o regime impôs o seu eletro-eletrônica, metalúrgica-
mens. Segundo uma análise feita em mecânica, química pesada e instru-
esquema institucional de pesquisa. Mas
1962, quando se gastou 15 bilhões de mentação. Monopolizados pelas mui-
também abriu seus flancos políticos: a
dólares com ciência e tecnologia nos tinacionais, nesses grupos se instalava
partir de 1974, em plena "distensão" do
EUA, a maior parte dos recursos dis- a poderosa indústria militar ameri-
presidente Geisel, os cientistas tiveram
poníveis (65%) saia do bolso do Es- cana. Dados posteriores confirma-
o seu período de maior agitação oposi-
tado, sendo o restante investimentos riam a força da indústria bélica: em
cionista, só arrefecendo seus ataques
privados. No entanto, menos de 26% 1982, ela era responsável por 75% dos
após a "abertura" do general Figuei-
desses gastos eram feitos nos institu- gastos com pesquisa nos EUA, Nesse
redo, em 1978, tos federais ou nas universidades.
Os encontros mais concorridos da ano, apenas 3,6% desses investimen
Computadas apenas as 400 maiores -
SBPC, de fato, começaram em 1974, tos, segundo os analistas, tinham rela-
empresas (com mais de cinco mil em- ção com a busca de conhecimentos
em Recife, passando depois por Belo
pregados), verifica-se que elas. captu- básicos. Um ano depois, a parcela da
Horizonte, Brasília e São Paulo. Neste
ravam 62%, do total de gastos. Assim, indústria bélica subiria para 76,6%,
último, de 1977, não contou com ver-
não surpreende constatar que, em enquanto a busca do conhecimento -
bas oficiais, um revide do governo às
1957, estas empresas detivessem 60% mero subproduto das artes de matar
denúncias corajosas, levantadas nos de-
das patentes registradas nos EUA, - cairia para 3,5%.
bates e assembléias anteriores, contra a
tortura e a distribuição desigual das ri-

352
BR DFANBSB V8.GNC.AAA. 24044 32 ANCO2D qo 96

Agencia Estado
Sílvio Ferreira/mpril Press

Paulo Barvosa

Crodowaldo Pavan (à esq.), presidente da SBPC


numa fase de vigorosa militância (à dir., o congresso
de 1977, em São Paulo) e o fisiologista Rocha e Silva
(ao centro): a luta pela liberdade e pela ciência
tornou-se uma so p

tério do Planejamento, em 1974. menor que o dos holandeses nas pri- tes da criação da SBPC, episódio em
Assim, embora tenha sido útil para o meiras manifestações científicas no que Rocha e Silva teve um papel desta-
regime, a política econômica teve um Brasil. E de um holandês, Georg Marc- cado. Uma personalidade marcante,
efeito limitado para a ciência brasileira, grave, o livro História Natural do Brasil, tido como briguento e brilhante, o físio-
pouco mais que uma reedição de seus de 1648, onde aparecem as primeiras logista havia tido uma carreira comum
pequenos avanços em certos períodos descrições sistemáticas da flora nordes- a muitos outros dos nossos grandes
do passado. Era interessante constatar tina. Continha também um capítulo so- cientistas deste século. Filho de médico
que alguns desses períodos de avanço bre medicina no Brasil que o tornou e neto de um pequeno comerciante
ocorreram quando nossos cientistas pu- um dos livros sobre o assunto mais im- português emigrado, Rocha e Silva
deram dedicar-se aos problemas rela- portantes do século 17. teve sua iniciação à pesquisa, na dé-
cionados com a realidade nacional. Os Isso não significava, de forma al- cada de 30, com os célebres irmãos
cientistas dos institutos biológicos, na guma, que os cientistas brasileiros pre- Osório de Almeida, conhecidos por te-
virada do século, voltados para o pro- tendessem fechar os olhos às áreas de rem formado várias gerações de fisiolo-
blema das doenças tropicais, foram ca- vanguarda da ciência internacional. Ao gistas em um laboratório montado em
pazes de fazer a caracterização de contrário, denunciavam a ciência utili- sua própria residência, no Rio.
patologias ainda desconhecidas, tarista promovida pelo Regime Militar, Em 1948, ele estava no Butantã -
como a febre tifóide, em São Paulo. alertando que, quando a pesquisa fun- que então passava por um período de
Desenvolveram-se, nesses institutos, damental foi deixada de lado, houve restauração de seu antigo prestígio - e
grandes cientistas, como Vital Brasil, um enfraquecimento geral da pesquisa participou do episódio que deu origem
descobridor do soro antiofídico, tam- no País. à SBPC.
bém trabalhando em uma área pouco O incidente detonador foi a designa-
conhecida pelos europeus. Outro A SBPC já surgiu para combater ção de Eduardo Vaz para a direção do
exemplo é o de Oswaldo Cruz, que de- arbitrariedades obscurantistas Instituto - um ato arbitrário do gover-
senvolveu métodos pioneiros de saúde nador de São Paulo à época, Adhemar
pública. O mesmo se pode dizer de Mas, certamente, não foi por acaso de Barros. Mais ligado à indústria far-
Carlos Chagas, o primeiro a descrever que uma das maiores descobertas da macêutica que à pesquisa, Vaz decidiu
a terrível doença que leva seu nome. ciência no Brasil, destacando seu des- fechar seções importantes de pesquisa
Ao mesmo tempo, Santos Dumont cobridor numa das áreas mais ativas da no Butantã, como o Hospital Endocri-
tornou-se o inventor do avião apenas pesquisa mundial, tenha sido feita nológico. Também demitiu pesquisado-
porque teve acesso à tecnologia fran- num instituto biológico. Seu autor foi o res por motivos políticos, como Gastão
cesa, em 1906. falecido professor Maurício Rocha e Rosenfeld. O resultado, um ano depois,
Os portugueses, em 1711, apreende- Silva, (1910-83), que em 1984 identifi- seria o reconhecimento, por parte dos
ram um livro denunciando o descaso cou a bradicinina, uma molécula natu- cientistas, de que precisavam de uma
com que tratavam o desenvolvimento e ral dos tecidos vivos que mais tarde se entidade representativa - a SBPC.
o ensino das técnicas empregadas no demonstrou ter papel importante em Através dela, pretendiam veicular suas
fabrico do açúcar, então a principal ati- diversos mecanismos fundamentais dos idéias e suas posições, voltando-se,
vidade econômica do País: Cultura e organismos, como a pressão arterial, a como afirma já sob o Regime Militar
Opulência no Brasil por suas Drogas e coagulação sanguinea e as defesas or- um cientista, "contra a desastrosa in-
Minas, de André Antonil. Por atitudes gânicas. tromissão dos governos na vida das
como essa, acabaram tendo um papel Essa descoberta foi feita um ano an- instituições de pesquisa".
353
BR DFANBSB VB.GNC.AAA. 4041334300 2,09%

COMPORTAMENTO/FEMINISMO: as mulheres na política


méstico para reivindicar, ao nível do es-
paço público, a garantia da sobrevivên-
cia do grupo familiar.
A desigualdade gerada pela distribui-
A mulher na rua ção de renda aliou-se ao arrocho sala-
rial. Na segunda metade da década de
60 desponta o Movimento do Custo de
Desde o século 19; a mulher vem desenvolvendo marcan
te Vida, liderado por donas-de-casa. Num
trajetória política. Uma história que, como a dos esforço extraordinário, em 1978 esse
negros e
pobres, muitas vezes tem sido ocultada movimento colheu mais de um milhão
de assinaturas contra a "carestia" e
essa lista de nomes foi entregue em
Sempre que se fala em atuação da política diversificada em várias corren- Brasília, em 1978. Nas eleições desse
mulher, seja no trabalho, seja na polí- tes. A "Marcha da Família, com Deus, ano, o movimento, com o apoio da
tica, ouve-se dizer que agora ela mudou, pela Liberdade" ficou conhecida como Igreja Católica, elegeu uma mulher,
que somente agora a mulher moderna um movimento liderado pelas mulheres Irma Passoni, deputada estadual.
tende a trabalhar fora de casa e co- das camadas dominantes contra o go-
meça finalmente;a se interessar por verno constitucionalmente eleito e Em 1975, é fundado
o
política: A verdade é que, assim como como detonador do golpe militar de 31 Movimento Feminino pela
para o negro ou as classes pobres, tam- de março. É claro que este movimento Anistia
bém a história da mulher tem sido integrava-se a todo um conjunto de for- A partir de 1975, com as comemora-
ocultada. Ao procurar nossa trajetória, ças que visava a romper a ordem insti- ções do Ano Internacional da Mulher e
vemos, por exemplo, que na segunda tucional e sua vitória representou a im- com os Congressos da Mulher Paulista,
metade do século 19 existiam pelo me- plantação da censura à imprensa e às expande-se o movimento de luta por
nos seis jornais feministas em circula- artes, um cerceamento maior às ativi- creches como um direito da mulher lu-
ção no Rio de Janeiro (em 1984 existia dades dos sindicatos, aos partidos polí- tar pela guarda de seus filhos.
um, apenas em São Paulo), nos quais ticos e às liberdades individuais. Além O resultado desses movimentos foi a
matérias sobre política, direitos e litera- disso, arrocharam-se os salários e a implementação de alguns programas
tura podiam ser encontradas. classe trabalhadora perdeu suas condi- de vendas de produtos alimentícios di-
Em cada período da história brasi- ções mínimas de reprodução. Por retamente ao consumidor e o início da
leira, a mulher, através de grupos de li- exemplo, no ano de 1973, no auge do construção de creches públicas, espe-
derança, tem participado nos movi- milagre econômico, na região da cialmente em São Paulo. Em fevereiro
mentos contemporâneos, embora fre- Grande São Paulo, o índice de mortali- de 1975 é fundado o Movimento Femi-
quentemente sua presença seja omi dade infantil era superior a cem em nino Pela Anistia, pelas mães e filhas de
tida. cada mil crianças nascidas vivas. presos políticos, exilados e banidos
A partir de 1964, a presença femi- Donas-de-casa ou trabalhadoras se pelo Regime Militar. Em 1979, ano de
nina desenvolveu marcante trajetória viram, assim, emergindo do espaço do- aprovação da lei de anistia, essa ban-
Agência O Globo

Nos últimos 20 anos, a mulher desenvolve uma diversificada trajetória política


no País.
Dasfolclóricas "marchadeiras" que comemoraram o golpe, no Rio, em 2/4/64 (acima),
à forte oposição ao regime: na votação do projeto de anistia, no Congresso, agosto
de
1979 (ao lado): e na manifestação pelas eleições presidenciais diretas,
em Brasília,
1984 (pág. ao ado)
354 "
BR DFANBSB VB.GNCIAAA. $4 p93&

deira já havia ganho âmbito nacional questão da sexualidade, da saúde, de sendo eleitas, mas elegeu-se uma vice-
com a fundação do Movimento Brasi- conscientização até a atuação política. governadora (no Estado do Acre) en-
leiro pela Anistia. Todos eles foram importantes, fosse tre sete candidatas. E, das que disputa-
Essa forma de exercer a cidadania se para a organização de mulheres, fosse ram o cargo de prefeita, 81 tiveram é-
somou à ideologia do movimento femi- para romper o debate público. Nesse xito.
nista, que preconizava justamente a sentido foi significativa a Frente de
plenitude da igualdade de direitos. Não Mulheres Feministas de São Paulo, que Nos anos 80 a muiher participa
se tratava, como muitos tentaram misti- produziu em 1980 e 1981 uma série de mais na vida política do País
ficar, de abandonar a casa ou a família, debates públicos sobre a questão da
mas de ter direito de lutar por ela, se mulher, procedimento este que poste- Na década de 80, aliás, observava-se
este fosse 0 caso, no espaço político. riormente foi seguido por outras enti- uma maior participação quantitativa e
Tratava-se de levar para a arena as dades. Nesta série, o primeiro debate qualitativa da mulher na vida política
questões do espaço supostamente pri- realizado no Teatro Ruth Escobar, dis- brasileira. A partir de 83 esse movi-
vado. cutia com todos os partidos suas pro- mento apresentou algumas inovações,
A repercussão destas posições se fez postas para com a mulher. Como se dentre as quais cabe destacar a criação,
sentir também ao nível dos sindicatos, pode imaginar, a maioria não tinha pro- a nível de Estado, de dois conselhos
que, conquanto tenham em seus qua- postas, exetuando-se o PMDB, que de Condição Feminina, o de São Paulo
dros poucas mulheres, passaram a trouxe um pré-projeto de criação de e o de Minas Gerais. A característica
incorporá-las em maior número. um Departamento Feminino. As elei- destes Conselhos é a de, ao abrir um es-
E este novo quadro permitiu que os ções de 1982 marcaram algumas inova- paço para a atuação da mulher na es-
grupos feministas do Brasil todo ini- ções. O eleitorado feminino represen- trutura do Estado, tentar também abrir
ciassem um projeto de transformação tava então 45% dos votos. As mulheres 'um espaço para que os movimen-
do Código Civil no sentido de equipa- se candidataram a todas as instâncias, tos femininos e feministas tenham um
rar as condições jurídicas da mulher e mas não em todos os Estados. Pôde-se canal que veícule suas reivindicações
do homem. A proposta foi encami- observar que houve uma elevação no dentro do mecanismo do Estado. No
nhada e aprovada pela Câmara de De- número de candidatas e de eleitas, ca- conselho de São Paulo, por exemplo,
putados em 1984 e aguardava a ratifica- racterizando uma tendência de que 60% das conselheiras são mulheres da
ção do Senado. mais mulheres entraram na disputa sociedade civil e 40% são funcionárias
eleitoral. Candidataram-se duas mu- de secretarias de Estado. Com isto se
Em 82, o eleitorado feminino lheres para o Senado, 58 para a Câmara procura preservar a autonomia dos gru-
representava 45% dos votos dos Deputados. Nenhuma mulher foi pos organizados, que têm sua atuação
eleita para o Senado, mas para a Câ- absolutamente autônoma e específica,
A ação dos grupos feministas mara dos Deputados oito se elegeram. mas se abre um espaço onde a partici-
diferencia-se e multiplica-se pelos Para as Assembléias Legislativas pação se faz presente.
vários Estados brasileiros. Formaram- candidataram-se 134, elegendo-se 28
se grupos com as mais diversas preocu- mulheres no Brasil todo. Duas
pações: desde aqueles dedicados à candidataram-se a governador, não Eva Blo

Rev Ca
N L # y ,, A

&gªqªª Ytk Ima


ane Ba ta0a
Not, e,

a € J'? te Vt zl

A (Aa

& AP y (Pa Q . ,
UML Q
Press

M- - falo MP, P

t & a &. M é ©
Namba/Abril
Agência O Globo

r < à

3 6 $ | 4
Carlos
BR DFANBSB V8.GNCIAAMA, 84043334 an Coa ,p39

Mas a mesma autora acrescenta, en-


tretanto, que em alguns casos esse mo-
delo está desaparecendo ou já desapa-
receu. É que, apesar de todas as difícul-
dades, a participação popular, inicial-
mente nas grandes cidades e depois
também no interior, foi abrindo cami-
nhos, contribuindo para a elevação da
consciência política.
Para revigorar o modelo antigo,
atualizá-lo, adaptando-o às modifica-
ções ocorridas no País, a tendência dos
governos militares pós-64 foi a de res-
tringir a participação popular, a auto-
nomia dos Estados e municípios e os
poderes das Câmaras de deputados e
vereadores. A ordem institucional colo-
cada em vigor permitiu "decretar o re-
cesso das Câmaras de vereadores" ou
"cassar mandatos eletivos municipais"
ou "suspender os direitos políticos" de
prefeitos e vereadores. Também as
constituições de 1967 e 1969 determi-

Dados/FSP
naram que os prefeitos das capitais pas-
sariam a ser nomeados e não mais elei-
tos; aumentou-se, além disso, o número
de municípios classificados como "es-
tâncias hidrominerais" ou "áreas de se-
gurança nacional", cujos prefeitos tam-
A partir de 1982, após a vitória da oposição em vários Estados, a insatisfação dos bém não eram eleitos, mas nomeados
prefeitos leva-os, sob a liderança de Orestes Quércia (ao centro), a formar a Frente (no final de 1984, quando o Regime
Municipalista Militar já parecia exaurido, foi devol-
vida a autonomia para 74 desses mu-
POLÍTICA/MUNICIPALISMO: a perda de autonomia dos municípios nicípios).

As prefeituras tinham direito a


tão somente dois impostos
Poder de baixo
Da mesma forma, foi restringida a
autonomia financeira dos municípios.
Após 64, a tendência do regime foi restringir a autonomia
Segundo as constituições de 1967 e
dos municípios, voltando a uma tendência centralizadora 1969, os municípios, além de taxas e
característica dos anos 30 contribuições de melhorias, só podem
cobrar dois impostos: sobre proprie-
dade territorial e urbana e sobre servi-
Segundo a tradição constitucional Ao se reunir a Constituinte de 1946, ços de qualquer natureza, não com-
brasileira, os municípios deveriam go- os setores que defendiam os interesses preendidos na competência tributária
zar, embora com restrições, de autono- populares ainda eram fracos. Quando a da União ou dos Estados. Como são
mia política, financeira e administra- autonomia municipal foi reafirmada e justamente os impostos de menor im-
tiva. Mas até que ponto os 4.130 mu- ampliada pela nova Carta, os maiores portância, representavam apenas 3% e
nicípios brasileiros dispõem, de fato, beneficiários acabaram sendo as cor- 1%, respectivamente, da receita da
dessa tríplice autonomia? Ao examinar rentes liberais conservadoras. Estudos maioria dos municípios interioranos,
a história do Brasil, fica visível a cone- sobre a realidade política dos munici- que ficavam assim na completa depen-
xão entre o tipo de desenvolvimento pios, realizados na década de 50, identi- dência das cotas do ICM (Imposto so-
econômico-social e a efetiva autono- ficaram algumas constantes. De acordo bre Circulação de Mercadorias) a se-
mia das menores unidades administrati- com a pesquisadora Ana Maria Brasi- rem transferidos pelos Estados e das
vas do Estado. leiro, em seu trabalho O município como contribuições do Fundo de Participa-
O desenvolvimento do capitalismo, sistema político, "em primeiro lugar, ção dos Municípios, controlado pelo
nas primeiras décadas do século 20, famílias e parentelas exercem um papel governo federal. E, como essas transfe-
criou a necessidade de uma integração básico em todas as comunidades estu- rências não eram automáticas, repre-
maior da vida política e econômica do dadas. Em muitos casos, a estrutura de sentavam novas fontes de dificuldades
País e de um fortalecimento do apare- poder é realmente monolítica e pirami- financeiras e de aumento das possibili-
lho administrativo central. Com a revo- dal. A elite possui riqueza, status e po- dades de pressões políticas sobre os
lução de 30, a tendência centralizadora der. Riqueza é geralmente represen- municípios. Também a autonomia ad-
passou a dominar e, salvo o curto tada pela posse das terras; status, pela ministrativa dos municípios sofreu mo-
período de vigência da Constituição de condição de família tradicional; e po- dificações: as prefeituras perderam até
1934, a autonomia dos Estados e mu- der, pelo controle de postos e empre- mesmo o poder de combater a polui-
nicípios foi praticamente revogada. gos públicos e de votos". ção através do fechamento de fábricas.
356
BROFANBSBVB.GNCAAA. 2S4O04J33329n00a, £09

ECONOMIA/INDÚSTRIA: o setor de material bélico lança-chamas, mísseis e foguetes, ca-


nhões, fuzis, metralhadoras e pistolas
automáticas, além de muitos outros
produtos.
A guerra é nossa Embora o Brasil produzisse arma-
mentos desde a chegada de dom João
VI (1808), foi depois da proclamação da
Em 1984, o Brasil era o maior exportador de armas do República (1889), com a crescente im-
portância que os militares passaram a
Terceiro Mundo, tornando-se uma ameaça à paz e um ter na vida política, que a preocupação
reforço às ditaduras do subcontinente americano com o preparo e o equipamento das
tropas se conseguiu impor.
Em 1964, analistas europeus, sempre
atentos à evolução do armamento Vargas queria siderúrgicas
mundial, afirmavam que as Forças Ar- para modernizar Forças Armadas
madas brasileiras, equipadas com ma-
terial obsoleto, estavam sendo supera- O movimento tenentista, nos anos 20,
das pelas da Argentina, que estavam sempre associou a questão da moderni-
adquirindo material europeu moderno. zação do aparelho militar com a neces-
Naquela época, todo o material bélico sidade de um desenvolvimento indus-
utilizado por nossas Forças Armadas trial autônomo para o País. Essa idéia
era americano, com exceção de armas orientaria todos os esforços do governo
leves e munições que eram fabricadas Vargas (1930-45), onde a influência te-
em pequenas empresas isoladas. nentista era decrescente, mas ainda
Em 1984, depois de 20 anos de Re- presente, para conseguir créditos ame-
gime Militar, o Brasil tornou-se o ricanos e instalar a siderurgia no Brasil.
maior exportador de armas de todo o No início da Segunda Grande
Terceiro Mundo e o sexto produtor e Guerra, a indústria brasileira já produ-
exportador no ranking mundial. E havia zia revólveres, fuzis, uniformes e toda a
montado um complexo militar, indus- munição leve de que o Exército neces-
trial e institucional capaz de produzir sitava. Mas, depois do final do conflito,
Agência O Globo

um veículo blindado a cada 18 horas, em 1945, o Brasil foi inundado por ar-
um avião a cada 20 horas e mil armas li- mas e equipamentos bélicos cedidos
geiras e médias por semana. pelos americanos.
Esse complexo era composto por Terminada a guerra, uma nova reali-
mais de 350 empresas estatais e priva- dade internacional surgia. Os Estados
das (nacionais e estrangeiras), das O Regime Militar alçou o País ao sexto Unidos passam a ter um papel determi-
quais 50 produziam material bélico di- lugar no ranking mundial dos nante em todo o mundo capitalista e
retamente. Empregava mais de 200 mil exportadores de armamentos. uma tensão surge entre a nação ameri-
pessoas e movimentava algo em torno Acima, Silvio Frota, então ministro do cana e a URSS. Com a justificativa de
de dez bilhões de dólares por ano, o Exército, examina carros Cascavel, em defender seus aliados, os Estados Uni-
que representava 5% do PNB (Produto set./75; abaixo, o lança-foguetes Astros dos criaram o Programa de Assistência
Nacional Bruto). II, produzido pela Avibrás Militar (MAP), visando a fornecer ar-
Segundo estimativas, o País, na dé-
cada de 80, conseguia exportar por ano
mais de dois bilhões de dólares e as ar-
mas passaram a ocupar o terceiro lugar
entre nossos produtos de exportação,
competindo com o tradicional café,
Tornavam assim, em plena recessão
mundial, uma esperança de manter em
pé o modelo de desenvolvimento brasi-
leiro, atolado numa dívida externa que
chegava a 100 bilhões de dólares em
1984.
Nossos clientes, mais de 30 nações
'por todo o mundo, cobriam todo o
continente latino-americano, espa-
lhavam-se pela Africa Negra e Ori-
ente Médio, reunindo num mesmo
conjunto países como o Qatar, um pe-
queno emirado árabe, e a República
Popular da China. Eles podiam esco-
lher entre aviões (para transporte de
tropas, de patrulha, de treinamento
avançado, de ataque), tanques e carros
blindados de combate e reconheci-
mento, navios, lanchas de patrulha,

357
ar va.Gnc.aaa, 84044334 ancoõap 204

mamentos, créditos e treinamento para estrategistas, que sonhavam em tornar trial, nos moldes daquele. Nesse

as forças armadas latino-americanas. o Brasil uma grande potência. Um mesmo ano, era instalada a Comissão

Na verdade, aproveitando-se de sua aliado se apresentou de imediato: a ini- de Mobilização Industrial de nível

hegemonia econômica e política na re- ciativa privada. nacional, na Confederação Nacional

gião, os Estados Unidos garantiam um Os militares agora no poder eram li- da Indústria.

mercado para suas armas, em geral já gados a vários empresários paulistas Tendo decidido basear no mercado
utilizadas na Segunda Grande Guerra que, arregimentados pelo IPES (Insti- interno o seu reequipamento, as Forças
ou na guerra da Coréia, na década de tuto de Pesquisas e Estudos Sociais), ti- Armadas puseram a serviço da indús-
50, afastando concorrentes europeus. E, nham participado da conspiração con- tria privada os seus centros de pesquisa
assumindo a responsabilidade de trei- tra o governo Goulart. Estes formaram, e desenvolvimento, como o Centro
nar os militares latinos no seu manejo, em 1965, em São Paulo, o Grupo Per- Tecnológico Aeroespacial, o Instituto
o Departamento de Defesa americano manente de Mobilização Industrial de Engenharia Militar e o Centro de
criava vários mecanismos para influir (GPML). A iniciativa partiu de empre- Pesquisa da Marinha.
diretamente naquelas forças armadas. sários organizados na Federação das As encomendas feitas pelas três Ar-
Para ter acesso àquele armamento, Indústrias do Estado de São Paulo mas, nos anos que se seguiram ao
nosso país assinou um acordo militar (FIESP) e principalmente dos setores golpe, representaram um mercado ga-
com os EUA, em 1952, Ele não impli- ligados à indústria automobilística. rantido numa época de recessão e mui-
cavá" na transferência de tecnologia e, tas indústrias começaram primeiro a
Empresário, líder do IPES, define
quando o Brasil o denunciou, em 1977, fornecer a elas equipamento militar,
era considerado um entrave ao desen- os objetivos do grupo depois a prestar serviços técnicos e, por
volvimento, de nossa indústria bélica. último, absorvendo tecnologia, des-

Ao se iniciar a década de 1960, já ti- O empresário Vitório Ferraz, líder locando-se para a produção direta de
nha ficado claro aos militares brasilei- do IPES e primeiro presidente do produtos bélicos.

ros o preço de uma vinculação unilate- GPM, definiu os objetivos do grupo Foi o caso da Bernardini S.A. Indús-
ral e sem limites com uma grande po- no seu lançamento: "Tentará alcan- tria e Comércio e da Biseli Viaturas e
tência. O material bélico se tornava ra- car a adequação dos padrões indus- Equipamentos Industriais Ltda., anti-
pidamente obsoleto e era cada vez mais triais às necessidades das Forças Ar- gas fabricantes paulistas de cofres-
difícil conseguir peças de reposição. madas. Dará incentivo à pesquisa in- fortes e de caminhões blindados para
Surgiu uma defasagem entre o arma- dustrial no campo militar. Ajustará a transporte de valores. Com a experiên-
mento que era enviado ao nosso país e fabricação de equipamentos, máqui- cia adquirida ao modernizarem, com a
o que estava sendo fabricado nas gran- nas e acessórios para as Forças Ar- assessoria de técnicos do Exército, os
des potências, e as necessidades de ma- madas. Indicará as firmas que esti- velhos tanques Stuart M-3AL, proje-
nutenção esbarravam sempre nas nos- verem melhor adaptadas à execução taram o Carcará, um carro de combate
sas dificuldades cambiais. do serviço ou fabricação de equipa- moderno e ágil, que passaram a forne-
Para complicar ainda mais, com o mentos militares." cer ao próprio Exército e a exportar.
envolvimento crescente dos Estados Uma prova de que esse relaciona- A empresa que se tornou o carro-
Unidos na guerra do Vietnã, aquele mento prosperou e uma indicação de chefe da indústria bélica no Exterior foi
país se viu frente a necessidades gigan- que a indústria bélica se espalhou a Engesa (Engenheiros Especializados
tescas de material e munições e passou pelo País podem ser vistas no fato de S.A.). Organizada no início dos anos
a restringir a transferência de equipa- que, em 1984, as federações indus- 60, em São Paulo, ela adaptava tração
mentos para a América Latina. triais de 18 Estados tinham criado de- total em caminhões civis e militares.
Por outro lado, os americanos come- partamentos de mobilização indus- Criou um sistema inédito de tração.
cavam a se mover num novo parâmetro
estratégico. Não se tratava mais de ar-
mar seus aliados para que se defendes-
sem de um inimigo externo, mas prepa-
rar e armar os exércitos para missões
de contra-insurgência. O MAP é gra-
dualmente esvaziado de suas verbas em
prol de um novo programa - o Security
Assistance,
Em busca do armamento que não
era fornecido pelos EUA, o subconti-
nente latino-americano retornou ao
tradicional mercado europeu de armas. Abs um e ”!"/'.
No período compreendido entre 1967 e sia, --SRA É. vt. a

1972, enquanto os EUA vendiam 230


milhões de dólares em armas na
América Latina, os países europeus
venderam 1,2 bilhão,
Embora tenham tido, por todo o sé-
culo, uma presença marcante na vida
política brasileira, foi com o golpe mili-
João Bittar/Abril Press

tar de 1964 que os militares tomaram


para si o controle total do Estado brasi-
leiro. Reuniram assim as condições ne-
cessárias para reequipar as Forças Ar-
madas de acordo com as idéias de seus

358
nentes de antanho, o Brasil não cons-

truiu sua indústria de armamentos ba-

seada no desenvolvimento industrial

autônomo do País. Para substituir o

fornecimento americano, os militares

brasileiros tiveram que aceitar todo

tipo de associação com as multinacio-

nais, detentoras do capital e do conhe-

cimento tecnológico.

No período 1967-73, foram estabele-

cidas no País mais de 100 joint-ventures,

associações com capitais europeus,

principalmente, que incluíam transfe-

rência de linha de montagem para fa-

bricar armas. Além disso, firmas euro-

péias instalaram filiais aqui, como as

alemãs Krauss-Maffei (tanques), NAK

(tanques leves) e Zeiss (miras e preci-

são) -e a italiana Oto Melara (equipa-

mentos marítimos).

Além da mão-de-obra barata, da

abundância de matéria-prima, e da le-

gislação favorável, o que atraia esses

Capitais era a possibilidade de, através

do Brasil, penetrar nos promissores

mercados do Terceiro Mundo sem os

controles políticos geralmente impos-

tos por seus países de origem.

Entre as iniciativas governamentais

visando a viabilizar o complexo bélico

destacam-se a criação da IMBEL (Em-

presa Brasileira de Material Bélico), os

incentivos fiscais e os financiamentos

oriundos do BNDES (Banco Nacional

de Desenvolvimento Econômico e So-

cial) e da Finep (Financiadora de Estu-


Orlando Brito/Abril Fress

dos e Projetos).

A EMBEL, proposta pelo Ministério

do Exército e criada em 1975, é uma

holding estatal que inicialmente reuniu

as esparsas fábricas do Exército,

associou-se a empresas privadas e assu-


miu a coordenação de todo o setor,

Nos anos 80, o Brasil já amealhava entre capacitando-o para a exportação. To-

seus compradores de equipamento militar dos os negócios com o Exterior são fei-

mais de 30 nações. Em outubro de 84, o tos de governo a governo e toda a

País recebia a visita do príncipe Sultan, da venda de equipamentos deve ser apro-

Arábia Saudita (acima, com Whitaker vada pelo Conselho de Segurança Na-

Ribeiro, da Engesa, inspecionando o cional, que coordena o Programa Na-

tanque Osório), que conheceria as cional de Exportação de Material e

instalações da Embraer (pág. ao lado, Equipamento Militar.

linha de montagem do avião Tucano),

onde até mesmo as fichas de apresentação O mercado principal do País

do produto estavam redigidas em árabe


encontra-se no Terceiro Mundo

que mais tarde aplicaria nos carros As exportações são vitais para essa

blindados desenvolvidos com o auxílio indústria que supre 75% das necessida-

do Instituto de Pesquisas e Desenvolvi- des das Forças Armadas brasileiras

mento do Exército (Cascavel, Urutu, com apenas 5% de sua produção. Seu

Jararaca, Sucuri). Em 1984, ela detinha mercado principal encontra-se no Ter-

ceiro Mundo, onde o produto brasi-


a metade do mercado mundial de car-
a ros de combate leves e apresentava ao leiro é bem recebido por ser de boa
9
pls bi qualidade, barato e, mesmo incorpo-
Exército o projeto do tanque Osório,
glam "9" o 3 er Ramo 1) a as ca df sa e
rando alguns avanços tecnológicos, ter
de 35 toneladas e equipado com tecno-
Esl. / (JSEÁX z ar
PRECO
Jr R3
54
E)
logia que inclui o computador e o laser, um manejo simples, não representando
As 15 1 (ze E
e
(lua com o qual pretendia penetrar no mer- problema para soldados inexperientes
axe 9 © End H $
- cado de tanques pesados. com baixo nível de instrução.
ab f.,-9130“ » gmadt ik 5
asit o Ao contrário do que sonhavam os te- A venda de suas armas sem cláusula
s Y
gate Ia MH ão AAA * e + las! , Liss licumo .. lote bão E 359

BR DFANBSB VB.GNC.AMA, 240413331 300a , p10A


8R DFANBSB V8.GNCAMA, 340441 233 an oo 2 , pJOs

O sigilo que cerca estas atividades


em todo o mundo causa inquietação
em nosso país, com escassa ou inexis-
tente tradição democrática e de con-
trole social sobre as atividades do Es-
tado.
O exemplo mais potencialmente trá-
gico é o projeto Sonda (desenvolvido
pela CTA e Avibrás). O aperfeiçoa-
mento de foguetes de sondagem para
lançar instrumentos científicos sempre
andou de mãos dadas com o desenvol-
vimento de foguetes para uso militar. O
Sonda IV, lançado em 1984, foi o ul-
timo estágio do programa para se atin-
gir o VIS (Veículo Lançador de Sa-
télite). O jornal O Estado de S.Paulo,
em 26 de maio de 1982, revelou que
dele derivarià o primeiro MRBM
(Medial Range Balistic Missile) brasi-
leiro. Um gigante de 25 metros, com
dez toneladas, guiado por sofisticado
computador e capaz de levar uma
carga a até três mil quilômetros de dis-
tância.
Se o acordo nuclear com a Alema-
nha, como se suspeita, vier a viabilizar
uma arma atômica, veremos nosso
país, sem qualquer discussão ou con-

Iconographia
trole por parte da comunidade, cami-
nhar a passos largos para a produção
de mísseis balísticos com cargas nuclea-
res. Produtos inúteis - pois não resol-
A partir da Segunda Grande Guerra, o País foi inundado pelo equipamento bélico veriam qualquer dos principais proble-
americano. Acima, soldados da FEB, em campanha na Itália, utilizando material mas nacionais - e perigosos.
de combate fabricado nos EUA
A exportação bélica transformou o
de uso final (não impor limitações ao mas faz lembrar que elas não são um Brasil numa ameaça à paz
destino que o comprador dará a elas) e produto neutro. Mais que simples mer-
a grande integração entre fornecedores cadorias, as armas são instrumentos de A necessidade de exportar a qual-
e clientes são fatores extras que expli- destruição e seu aumento desenfreado quer custo levou o País a se tornar, no
cam o êxito brasileiro nesse mercado. ameaça os precários equilíbrios regio- subcontinente americano, uma ameaça,
O Iraque, nosso principal cliente e o nais onde se apóia a paz mundial. E o para a paz e um reforço para regimes
segundo maior comprador de armas do Brasil, sendo responsável por 40% das rendenados em todo o mundo. A
mundo, fez 220 sugestões para modifi- exportações de armas do Terceiro venda de aviões Tucano da Embraer
car o protótipo original do Cascavel e Mundo, contribui para fomentar ou no para Honduras, em 1984, foi conde-
muitas delas foram incorporadas ao mínimo viabilizar, essas guerras entre nada pelo Grupo de Contadora -
modelo. Também financiou a constru- miseráveis, países empenhados na procura de uma
ção dos Astros II, um complexo sis- Especialistas de todo o mundo, liga- saída pacífica para os conflitos da
tema de lançadores múltiplos de fogue- dos aos organismos e entidades defen- América Central.
tes apontados eletronicamente. O item soras do desarmamento, há anos se Em 1979, durante a vigência da polí-
mais vistoso na prateleira bélica brasi- preocupam com o fato de que de um tica de defesa dos Direitos Humanos
leira foi desenvolvido pela Avibrás, terço à metade dos recursos mundiais do governo Carter, o Brasil substituiu
que, tendo sido criada em 1961 por en- empregados em ciência e tecnologia es- os Estados Unidos no fornecimento de
genheiros oriundos do ITA (Instituto tão a serviço da indústria armamentista armas a uma das mais sanguinárias di-
de Tecnologia da Aeronáutica), come- e de que nela se concentram 40% dos taduras da América Latina - o Chile.
çou produzindo foguetes meteorológi- quadros técnicos e científicos mais qua- José Luiz Whitaker Ribeiro, presidente
cos e passou, com sucesso, aos artefa- lificados. Alertam que recursos escas- da Engesa que em 1982 assumiria a pre-
tos bélicos, sos que poderiam ser empregados na sidência da IMBEL, articulador do ne-
Se levarmos em conta que, desde saúde e na agricultura são desviados gócio, passou a gozar de tanto prestígio
1945, 9%, dos conflitos armados aconte- para essa atividade. Esse quadro só se naquele país que chegou a ser convi-
ceram em países de economia sub- agrava no continente latino-americano. dado para um jantar íntimo no palácio
desenvolvida - a guerra entre as gran- O Instituto Internacional de Pesquisa presidencial. Compareceu, ergueu
des potências manteve-se relativa- sobre a Paz, de Estocolmo, estima que brindes aos anfitriões e presenteou a
mente sob controle -, veremos que o 25% da divida externa da América La- primeira dama com uma água-marinha.
Brasil está atuando no filé mignon do tina, que monta a 350 bilhões de dóla- Afinal, era aniversário de casamento
mercado mundial de armas. res, derivam da compra de armas no do casal Pinochet.
Essa proximidade entre pobreza e ar- Exterior.
360
BR DFANBSB VB.GNCAMA, 84044331 an 002, o IO4

ORGANIZAÇÃO SOCIAL/EDUCAÇÃO: a evolução do sistema educacional brasileiro (1964-84)

A crise da educação

Com o Regime Militar, aumentou o número de alunos, em


todos os níveis, mas o funil educacional mantinha-se como um
sério problema, associado à má qualidade de ensino

A primeira vista, o Regime Militar de universitários no País, número dez colar (atual primeira série do primeiro
instalado no País em 1964 podia apre- vezes maior que em 1964, e os alunos grau), 4,7 estudantes concluíam a uni-
sentar, depois de 20 anos, números que de pós-graduação tinham multiplicado versidade; em 1980, esse número já
indicassem resultados auspiciosos no por 15 o seu número, chegando a 29 chegava a 34. E esta melhora era geral.
campo da educação,. mil no mesmo ano. Sempre tomando aquelas mil matricu-
A taxa de 'analfabetismo caira de Entre 1960 e 1980, triplicou o corpo las como referência, em 1960, 24,6 alu-
46,8% em 1960 para 32% em 1980 e a docente do primeiro grau e quintupli- nos terminavam o ginásio (equivale a
população em idade pré-escolar, prati- cou o número de professores no se- concluir a oitava série do atual pri-
camente desassistida na década de 60, gundo grau e nas universidades. meiro grau) e 127 conseguiam isso em
viu as matrículas da pré-escola mais Na formação de pesquisadores de 1980. E quase quadruplicou (22,2 para
que quintuplicarem depois de 1970. alto nível, no biênio 1970-71, 2.683 alu- 81) o número daqueles que concluíam
Enquanto a população aumentou nos concluiam o mestrado e apenas 87 o segundo grau (o antigo colegial). En-
cerca de 70%, entre 1960 e 1980, as terminavam o doutoramento. No início tretanto, como a estrutura educacional
matrículas do primeiro grau passaram da década seguinte esses números ti- atendia às necessidades de um determi-
de 8,4 milhões para 22,6 milhões - um nham aumentado para 20.744 e 1.697, nado tipo de industrialização e desen-
aumento de 170%. As matrículas do se- respectivamente - formavam-se 20 ve- volvimento, atrelados ao capital estran-
gundo grau decuplicaram no mesmo zes mais doutores, geiro e que excluiam dos seus benefi-
período, chegando a 2,8 milhões. Em 1960, para cada mil alunos matri- cios parcelas significativas da popula-
Em 1980, havia mais de 1,3 milhão culados no primeiro ano do grupo es- ção, essa estrutura de educação refletia

, 361
va DFANBSB V8.GNC;AAA, 4 2232 - an (DQ/. p 1O5

as contradições e limites do "modelo"


1982, 37% das crianças atendidas provi-
de desenvolvimento.
. Um exemplo marcante é o caso das
nham de famílias com renda mensal su-
creches e instituições pré-escolares,
perior a cinco salários mínimos. Essas
que deveriam servir basicamente aos fi-
famílias, que em grande parte, a rigor,
lhos das classes populares. Isso porque
não precisariam desse atendimento,
foram pensadas para compensar defi-
constituíam nesse mesmo ano de 1982
ciências nutricionais e educacionais
um total de apenas 24,1% das famílias
do País.
que prejudicariam o rendimento das
crianças pobres nos primeiros anos de O Mobral, "orgulho" do
sua vida escolar.
Desde os anos 20, o movimento ope-
regime, tornou-se um fracasso
rário brasileiro inclui entre suas reivin-
No campo do combate ao analfabe-
dicações a instalação de creches para
tismo, o MOBRAL (Movimento Brasi-
os filhos das mulheres que trabalham.
leito de Alfabetização), criado em
A Consolidação das Leis do Trabalho
1970, foi por muitos anos ostentado
(1943) prevê a instalação de berçários
como um dos orgulhos do Regime Mi-
nas empresas com mais de 30 mulheres
litar. O MOBRAL pretendeu erradicar
empregadas, mas é notório o descum- O analfabetismo adulto no País, mas,
priMento dessa determinação. contrariando essas expectativas, o nú-
Pressionadas pelos movimentos de mero de analfabetos com mais de 15
mulheres, organizadas em comunida- anos aumentou, passando de 15,6 mi-
des de base e associações de bairros, lhões, em 1976, para 16,9 em 1981, Os
que brotaram na década de 70, as pre- 27,6 milhões de analfabetos que o Bra-
feityras das grandes cidades brasileiras sil possuía em 1960 se tinham tornado
se viram forçadas a voltar suas aten-
32,8 milhões em 1980,
ções para esse problema até então es-
No plano internacional, as taxas de
quecido. Em 1970, o município de São
alfabetização do Brasil (74,5 adultos al-
Paulo tinha apenas três creches manti- fabetizados em cada grupo de 100) o
das pelo poder público e entre 1979 e
Nair Benedicto/F4
colocavam ao lado de países como a
1982 construiu 120, República Dominicana (74). Sendo su-
Nesse mesmo período se multiplica- perado por países próximos como Ar-
ram programas oficiais voltados para a gentina (95,5) e Uruguai (95), o Brasil
pré-escola e organizações encarregadas ficava muito distante dos países desen-
de implantá-la - mas havia deficiências volvidos: Estados Unidos (99) e União
graves: em 1983, a Fundação Carlos A reivindicação por creches é tão antiga Soviética (98,5).
Chagas registrou a existência, só no quanto os movimentos de trabalhadores
município de São Paulo, de 13 órgãos
Para o professor Alceu Ferrari, mes-
no Brasil. E foi a partir dessa
tre em Sociologia da Educação da Uni-
governamentais, federais, estaduais e reivindicação popular, na década de 70 versidade. Federal do Rio Grande do
municipais, aplicando 25 programas di- (acima) que a necessidade da pré-escola Sul, o MOBRAL não pode resolver o
ferentes e desarticulados entre si. Com surgiu. Embora crescente, a educação prê- problema do analfabetismo e a solução
tudo isso, no início da década de 80,
menos de 6% das crianças brasileiras na
escolar nas décadas de 80 (abaixo à esa. ) surgirá "com melhor distribuição de ren-
era de pequeno alcance e não privilegiava da, crescimento da urbanização e da
faixa de zero a seis anos recebiam al- a população mais carente dela. E das produção interna. A aceleração do pro-
gum tipo de atendimento pré-escolar. E crianças que ingressavam no primeiro cesso de alfabetização acompanhou,
mais: segundo a Pesquisa Nacional por grau, metade não chegava ao 2o ano em linhas gerais, a concentração do
Amostragem de Domicílio (PNAD) de (abaixo à dir.) desenvolvimento industrial".

3 ht tarda É,
I 9
2 Clem Lívia Re, aCM1
Ia
a ra
&

ao$ 4s 4s 2 © à #p
E €. (»,
2 2

ç /a
&

"a

L & go
4 ªr::A e
WL
]
s
9
3

5 % af
tenda: " E Amai...

362
BR DFANBSB V8.GNCAMA, 24043 333 n pÃ

araras En

Repressão

nas escolas

Aqueles professores e alunos que


pretenderam discutir politicamente o
que estava acontecendo com a educa-
ção brasileira e, criticando os cami-
nhos adotados, quiseram propor solu-
ções diferentes foram duramente re-
primidos pelo Regime Militar.
O incêndio do prédio da União Na-
cional dos Estudantes (UNE), logo
após o golpe militar de 1964, e a de-
missão em massa de professores da
Universidade de Brasília, naquele
mesmo ano, foram os marcos iniciais
de um período negro para os

Banco dt Dados, SH
membros da universidade.
Um indicador da violência com
que o regime se empenhou em com- Convota ça“? f
bater a organização e participação
política dos estudantes brasileiros é
fornecido pelo destino dos nove presi-
E xce de nt e
dentes da UNE que tiveram suas ges- O movimento dos excedentes - aprovados nos vestibulares que não tinham vagas nas
tões na década de 1960: Quatro foram
universidades - teve grandeforça nos anos 60. Vinte anos depois, o regime tinha a sua
presos, dois exilados, dois banidos e
um deles - Honestino Guimarães -
solução: ampliou as vagas, apoiado sobretudo em universidades particulares
desapareceu em 1972. Os dados do Censo de 1980 confir- cio da década de 1980, ainda tinha um
A primeira tentativa de destruir as mam essa visão, pois embora o índice perfil altamente excludente. Pratica-
entidades autônomas dos estudantes de analfabetismo no Brasil estivesse na mente a metade das crianças que entra-
veio com a Lei Suplicy de Lacerda casa dos 32%, ele era de 18% nos Esta- vam na primeira série do primeiro grau
(4.464/64), de 9 de novembro de 1964, dos de São Paulo e Rio de Janeiro e de não chegavam à série seguinte. A
que criava o Diretório Nacional dos 17,3%no Rio Grande do Sul. Por outro UNESCO considera desastrosa a situa-
Estudantes para substituir a UNE, os lado, Estados como Pernambuco ção daqueles países onde entre cada
diretórios estaduais para o lugar das (50,2%) e Piaui (56,7%) tinham índices mil crianças menos de quinhentas con-
uniões estaduais (UEEs) e os diretó- comparáveis aos que o Estado de São cluem o primeiro grau. No Brasil, esse
rios acadêmicos, que fariam as vezes Paulo ostentava na década de 30. número não chegava a 140.
dos centros acadêmicos e grêmios. Talvez o dado mais preocupante
A UNE e as UEEs foram tornadas fosse constatar que, em 1981, sete mi- Metade dos alunos abandona a
ilegais pelo Decreto-Lei no 228, de 28 lhões de crianças em idade escolar escola já na primeira série
de fevereiro de 1967, mas foi o Decre- obrigatória (sete a 14 anos) eram anal-
to-Lei no 477 (26 de fevereiro de fabetas.
1969), diretamente derivado do AI-5, O Censo de 1980 já revelara que 7,5 E se atentássemos para a qualidade
que marcou todo um período de re- milhões de crianças naquela faixa de do ensino oferecido nas escolas brasi-
pressão e controle sobre a vida acadê- idade estavam fora da escola. E os edu- leiras, veríamos que ele se ressentia da
mica. cadores paulistas, que avaliavam a si- brutal queda no poder aquisitivo dos
Esse Decreto-Lei no 477, previa tuação do Estado em 1984, ao terem professores brasileiros ao longo daque-
como punição o afastamento da uni- encontrado 500 mil crianças de sete a les 20 anos. Um estudo realizado pela
14 anos analfabetas no Estado mais rico APEOESP (Associação dos Professo-
da Federação e tendo constatado que res do Ensino Oficial do Estado de São
versidade, de três a cinco anos, de

10% dos alunos matriculados anual» Paulo) e pelo DIEESE (Departamento


qualquer professor ou estudante que

mente na primeira série da rede escolar Intersindical de Estudos Econômicos e


"incite ou colabore para a paralisação
de aulas; organize comícios, passeatas
abandonavam a escola antes de com- Sociais) mostrou que os professores do
pletarem o processo de alfabetização, segundo grau do Estado de São Paulo
ou desfiles não autorizados ou deles
participe."
concluíam pelo fracasso do atual sis- tiveram seus salários reais reduzidos a
tema educacional. Percebiam que a es- praticamente um terço no período
Entre 1969 e 1973, foram punidas

cola fazia uma "seleção" social dos alu- 1964-83 - o que explica o processo rei-
diretamente com esse Decreto-Lei no
477 um total de 263 pessoas, mas o
nos por estar adaptada às necessidades vindicatório iniciado em 1978 e que
mais importante é que ele foi sendo
da classe média e por ministrar um en- culminou com a grande e vitoriosa
|-3
incorporado aos regimentos universi-
sino que nada tinha a ver com a reali- greve dos professores paulistas no pri-
tários, que se tornaram instrumentos
dade das camadas populares. meiro semestre de 1984.
antidemocráticos e repressivos.
Apesar das melhorias registradas, o O professor Hermes Zanetti, presi-
"funil" da educação brasileira, no ini- dente da Confederação dos Professores
363
sr DFANBSB VB.GNCAAA, 840443
34 3002, pYp5

meiro grau em todo o Brasil, embora


retivessem apenas 2% dos recursos re-
colhidos através de impostos.

O ensino profissional foi mai


s
um passo em falso

Contraditoriamente, enquanto redu-


zia as verbas destinadas à educação, o
Regime Militar tentou uma abrangente
e ousada reforma em todo o segundo
grau. Em agosto de 1971, em pleno
"milagre econômico", durante o go-
verno do general Médici, foi votada
pelo Congresso Nacional, em regime
de urgência (40 dias), com ameaça de o
Executivo aprová-la pelo decurso de
prazo, a Lei no 5-692/71, conhecida
como Lei de Diretrizes e Bases da Edu-
cação Nacional. Sem consultar os
maiores: interessados (alunos, professo-
res e pais), a reforma pretendia estabe-
lecer a "profissionalização universal e

Banco de Dados/FSP
compulsória" em todo o segundo grau.
Esperava que todo o sistema educacio-
nal assumisse a função de preparar
mão-de-obra para suprir as necessida-
des decorrentes do processo então ace-
lerado de crescimento econômico. Ao
do Brasil, em depoimento na CPI da mesmo tempo, pretendia desviar da
Apesar de o presidente Médici ter
Câmara Federal que investigava os universidade um público ' crescente,
Jestejado o Mobral (acima), o número de
efeitos da reforma do ensino, em 1981, que ela não podia atender, na Suposi-
analfabetos aumentou no País após a
denunciou que 35% dos professores de Jundação do órgão. Enquanto isso, o ção de que muitos jovens se dirigiam à
primeiro e segundo graus em todo o salário de Hélio Pereira (abaixo), universidade por não haverem adqui-
Brasil trabalhavam sem nenhum vin- professor em São Paulo, não dava para o rido habilitação profissional no se-
culo empregatício.. Registrou ainda ônibus, o que levou os mestres paulistas à gundo grau.
que, no Rio Grande do Norte e no greve em 1984 (pág. ao lado) Mas a lei foi implantada sem que as
Piauí, havia professores recebendo sa- escolas contassem com recursos huma-
lários equivalentes a 10% do salário mi-
nimo.,
Banco de Dados/FSP

Ocorria que, apesar de a ONU reco-


mendar que os países em desenvolvi-
mento dedicassem 25% de seu orça-
mento para a educação, a participação
t

do Ministério da Educação e Cultura


(MEC) no orçamento da União caiu de
10,6% em 1965 para 4,8% em 1981.
Uma pequena melhora elevou esse
índice para 6,1% em 1983.
No final desse mesmo ano de 1983
foi aprovada uma emenda constitucio-
nal de autoria do senador João Calmon
(PDS-ES), garantindo 13% do orça-
mento da União e 25% da receita orça-
mentária dos Estados e Municípios
para a educação. Mas as autoridades
econômico-financeiras do governo fe-
5

deral tentavam manobrar, conside-


rando gastos com educação aqueles
consumidos com a educação militar
oferecida pelos ministérios ligados às
Forças Armadas, como a verba da Es-
cola Superior de Guerra (ESG),
Em seu depoimento, Hermes Zanetti
lembrava que as prefeituras eram res-
ponsáveis por 65% das escolas de pri-

364 .
oo apI 08
BR DFanNBSB Va.onNcaMA, 24041334 an

nos especializados, instalações apro- Outra decisão que acarretou pre- Num país que em 1984 se estimava ha-
priadas, equipamentos e laboratórios juízo para a qualidade do ensino médio ver mais dé 80 milhões de desnutridos,
necessários à formação profissional dos foi a de unificar os exames vestibulares, cerca de 65% da população, só 2,3%
alunos. Calculou-se que, se tudo isso em 1971, quando eles passaram a ser dos universitários matriculados em
viesse a ser implantado, haveria um au- regidos por normas federais. Até então, 1982 faziam cursos ligados à área
mento de cerca de 60% do custo por cada escola fazia seu exame de acordo agrária e, dos 410 doutores que apre-
aluno de um curso secundário, num com suas próprias características. Com sentaram sua tese em 1979, só 24 (5,8%)
momento em que a participação das esse vestibular unificado, na base de estavam ligados a essa área.
verbas do MEC no orçamento federal testes de múltipla escolha e que até

caia ano a ano. Impossibilitadas de 1977 não incluia redação, todo o ensino Orgão do MEC traça perfil do

cumprir a lei, as escolas passaram a ficou condicionado a preparar os estu- universitário brasileiro
adotar apenas formalmente as novas di- dantes para aquele tipo de prova.
retrizes. Quanto ao ensino superior, o que se Ao final dos 20 anos do Regime Mili-
Em vista disso, o governo tentou so- pôde observar é que o crescimento do tar, uma nova tendência parecia estar
luções conciliatórias, como a do pare- número de vagas pareceu mais um se consolidando. Um levantamento pa-
cer 76 de 1975 do Conselho Federal de inchaço com componentes doentios do trocinado pela Coordenação de Aper-
Educação, que criou a possibilidade de que um desenvolvimento harmônico. feiçoamento do Pessoal de Nível Supe-
as escolas oferecerem o que se cha- rior (CAPES), órgão subordinado ao
mou de profissionalização parcial. Na Dois terços dos universitários MEC, feito em 44 instituições no ano
prática, isso passou a significar que as de 1983, traçou um surpreendente per-
escolas apenas distribuíam as matérias estão em escolas particulares
fil do universitário brasileiro.
do currículo tradicional com cargas ho- Esse universitário "médio" tem
rárias diferentes, adaptadas às áreas de Em 1960, do total de universitários, cerca de 30 anos, já está integrado ao
profissionalização, além de algumas ou- 44,3% estudavam em escolas particula- mercado de trabalho e chega ao cam-
tras que supostamente orientariam o res; essa porcentagem passou para pus para "adquirir cultura geral" ou
aluno na escolha de uma profissão. Em 66,5% em 1982. Isso quer dizer que o com a "expectativa de crescimento
1982, a Lei no 5.692 foi extinta, num re- crescimento do número de vagas no pessoal".
conhecimento tácito do fracasso da ini- ensino superior, que permitiu a grande Se esse perfil for verdadeiro, todo o
ciativa. melhora do "funil" da educação brasi- dispendioso aparato institucional con-
Um subproduto dessa lei foi a insti- leira, se deveu em grande parte à priva- centrado no conjunto das universida-
tuição da licenciatura curta, para for- tização do ensino. E se sabe que o en- des brasileiras estaria sendo colocado a
mar professores polivalentes em cursos sino privado se dá majoritariamente em serviço do esforço individual para a su-
de três a quatro semestres, a pretexto escolas que dispõem de poucos recur- peração das grandes deficiências do en-
de suprir deficiências locais e regionais sos, não desenvolvem pesquisas e são sino médio. Como o daquela candidata
de ensino. Proliferaram as faculdades administradas autoritariamente por ao vestibular de 1984 que, fazendo um
de fim de semana, que jogaram no mer- seus proprietários, balanço dos resultados positivos de seu
cado de trabalho profissionais despre- Por outro lado, os cursos que mais se sacrifício em frequentar o "cursinho"
parados, que muito contribuiram para desenvolveram não estavam associados preparatório, afirmou: "Agora eu já sei
rebaixar mais ainda o nível do ensino. às principais necessidades do Brasil. onde fica o Oriente Médio."

ara mimatt

.o
2
"”! &
«
*
Va
*a

a
*

.
Cla A
N

So

Agência Estado
74
7S
» R DFANBSB VB.GNC.AAA, 84 044834 an co2,p 409

ARTES/LITERATURA: a evolução da poesia

A poesia em progresso

Desde os anos 60, tem havido cada vez mais poetas e tem
surgido grande número de bons poemas - mas o círculo
de leitores tem continuado restrito

Quem tiver acompanhado o que an- coisas. Tais manifestações, por sua vez,
dou acontecendo no campo da poesia têm alguma conexão com a contracul-
brasileira a partir dos anos 60 certa- tura e o tipo de inquietação e interesse
mente concordará que, vinte anos de- pelo novo que caracterizam os anos 60
pois, muita coisa mudou para melhor. em escala mundial.
Há muito mais gente escrevendo, inclu- Há ainda outras coisas boas a serem
sive há#mais texto8 de boa qualidade li- assinaladas a propósito da moderna
terária. Percebe-se uma abertura maior poesia brasileira. Por exemplo, o apare-
para o novo, um interesse maior por cimento, de meados dos anos 70 para
textos que sejam originais e incorpo- cá, de uma nova poesia feminina, cor-
rem as conquistas dos movimentos de respondendo a um novo tipo de cons-
vanguarda do século 20. O panorama é ciência da mulher, do seu posiciona-
mais pluralista e quase acabou total- mento na sociedade e da sua relação
mente o sectarismo do começo dos com a linguagem. Podem ser citadas
anos 60, dos grupos fechados como o como exemplo dessa tendência, mar-

Agência O Globo
movimento concreto, a poesia-práxis, a cada por um texto informal, espontá-
vertente engajada ligada ao PCB, o neo e desinibido, autoras tão diferentes
poema-processo, etc. A quantidade de entre si, sob outros aspectos, como Ana
textos teóricos que esses movimentos Cristina César e Leila Miccolis.
produziram, justificando suas posições
e pontos de vista, foi, num dado mo- Uma produção poética menos blicados são edições de autor, que não
mento, maior que sua produção de acadêmica e mais coloquial Chegam às livrarias; ou, quando che-
obras especificamente poéticas. gam, ficam um tempo na estante do
Deve ser registrada, a constribuição De modo geral - e essa poesia de fundo, em consignação, antes de serem
do Tropicalismo nesse processo de mulheres talvez seja um aspecto parti- devolvidos. O saldo da noite de autó-
abertura e ventilação do ambiente e, cular de um fenômeno mais geral - te- grafos acaba sendo distribuído para os
dentro do Tropicalismo, a marcante mos hoje uma produção mais atenta amigos do autor, críticos (que normal-
presença do Torquato Neto, legítimo para a linguagem falada, menos acadê- mente não tomam conhecimento) e
poeta maldito, neo-romântico, que se mica e mais informal e coloquial. E um eventuais leitores qualificados. E isto
matou em 1972, na época do maior su- equivoco, todavia, atribuir isso a um re- vale, inclusive, para textos da melhor
foco político e também cultural. Tor- flexo do tipo de criação literária feita qualidade.
quato deixou uma obra pequena, in- no campo das letras musicais, ou então A busca de circuitos alternativos tem
conclusa, porém na qual se percebe o afirmar que os modernos poetas são os algo de transitório, e o vôo das edições
brilho de um imenso talento. letristas como Antonio Carlos de Brito "marginais" e independentes foi mais
Apesar de sua breve duração, de (Cacaso), Vilhena, Geraldo Carneiro e curto do que seria de esperar, embora
apenas um ano, interrompida que foi outros. Acontece apenas que a letra de alguns autores - como Ulisses Tavares
pela prisão e exílio de Caetano Veloso, música, uma vez veiculada em disco, e Nicolas Behr - possam gabar-se de
Gilberto Gil, a Tropicália deixou sua tem uma circulação muito maior, atin- ter vendido tiragens de até 30 mil
marca, abalando os alicerces de um de- gindo muito mais gente. E, dos letristas exemplares dos seus poemas irreveren-
terminado tipo de hiperintelectualismo que também se aventuraram à edição tes, em versos curtos ou epigramas,
e também as concepções demasiado em livro, alguns provaram ser poetas numa linguagem atualizada, buscando
simplistas do que venha a ser uma refle- genuínos (Geraldo Carneiro, por exem- a comunicação imediata com um pú-
xão sobre a realidade brasileira. plo); outros, meros equivocos. blico mais amplo.
Convém ressaltar que esta contribui- Mas, com tudo isso, com todos esses Mas o ciclo da produção entrou em
ção do Tropicalismo faz parte de um avanços, a poesia brasileira continua recesso e seus melhores representantes
contexto mais amplo, de um processo existindo mais como assunto, como ingressaram no mercado editorial con-
de modernização cultural brasileira que pretexto para discussões literárias, do vencional: Ulisses, Touchê, Chacal (do
durou dos meados dos arios 60 até o co- que como presença no mercado edito- grupo Nuvem Cigana do Rio de Ja-
meço. da década de 70, e que inclui a rial. A verdade é que livro de poesia neiro), todos editados pela Editora Bra-
vanguarda nas artes plásticas (Hélio Oi- vende pouco - e não só no Brasil, mas siliense, de São Paulo.
tícica, Rubens Guerchman, etc.), o ci- no mundo todo. Acontece que, dada a O elenco de poetas contemporâneos
nema underground e experimental anormal pequenez do nosso mercado brasileiros lançados por essa editora, a
(principalmente Rogério Sganzerla e editorial, aqui o vender pouco corres- partir de 1982, é considerável, contri-
4

Júlio Bressane), espetáculos multimídia ponde ao ostracismo, a ficar estocado buindo para projetar nacionalmente
como os de Agripino de Paula, a atua- depois de livrar-se do risco de ficar en- nomes como Paulo Leminski, Fran- '
ção do Teatro Oficina e muitas outras gavetado. A maior parte dos títulos pu- cisco Alvim e Ana Cristina César. Esta,
366 '
BRDFANBSB VB.GNC.AAA, 240443393 anco2, p 433Q

«Nani Gois/Abril Press


sos...

Agência O Globo

morta prematuramente em 1983 ção da geração de 45, mas que a


(suicidou-se), é de fato inovadora da transcende (principalmente em Da Morte
nossa poesia, com seus fragmentos inti- - Odes Mínimas e A Obscena Senhora D.).
mistas em prosa e versos cujo tom in- A propósito de Hilda Hilst e de Piva,
formal não escondem uma alta cultura cabe mencionar a tese, levantada re-
literária na coletânea A Teus Pés. centemente, sobre a existência de uma
geração 60, ou seja, de um movimento
Editora carioca contribuiu para de poetas com características próprias
divulgação da poesia surgido nesse período, A tese é discuti-
vel, pois implicaria juntar na mesma
Outra grande editora que contribuiu vertente autores com propostas tão dis-
para a divulgação da poesia foi a Nova tintas como os já citados Piva e Hilda
Fronteira, do Rio de Janeiro, com sua Hilst, o carismático Lindo!f Bell (que
coleção Poiesis, dedicada só a este gê- lançou o excelente O Código das Aguas,
nero, onde se destacaram Carlos Nejar, pela ed. Global, sem a mesma reper-
R Neide Archanjo (Escavações), o carioca cussão da sua obra juvenil) ou então o
V egresso do movimento praxista Ar- texto apolíneo e contido de Renata Pal-
mando Freitas Filho e, principalmente, lotini, o hiper-romantismo de Álvaro
a mineira Adélia Prado, com seus poe- Alves de Faria, o intimismo de Eunice
mas e fragmentos em prosa combi- Arruda, o texto mais engajado de
nando de modo original a captação do Eduardo Alves da Costa, e outros. Da
cotidiano (da sua cidade, Divinópolis), mesma maneira, a discussão - susci-
a religiosidade tradicional brasileira, o tada principalmente pela pesquisadora
misticismo e a sensualidade. Heloisa Buarque de Hollanda - sobre
Kl Mesmo sem alcançarem esta divul- uma possível geração 70 também deve
E
O gação em âmbito nacional, há autores ser vista com restrições. Na verdade, a
o que, nesse período, conseguiram o partir dos anos 60, iniciou-se um pro-
t
£oé justo reconhecimento, por parte da cri- cesso contínuo, marcado pela plurali-
€ dade de propostas e pela coexistência
« tica e da parcela mais esclarecida do
público leitor. É o càso de Roberto da continuação da tradição e da rup-
A produção da poesia brasileira, após 64, Piva, certamente o mais consistente tura e inovação. Em meados da década
foi ampla e generosa:de Torquato Neto inovador da nossa poesia (Paranóia, de 80, faltava um maior apoio institu-
(na pág. ao lado), a Ana Cristina César Piazzas, Vinte Poemas com Brócoli, cional, com mais revistas e suplemen-
(no alto), passando por Paulo Leminski Quizumba, entre outros), marginalizado tos literários, para que toda essa rica
(no alto à dir.) e Chacal! ( acima, à esq. ) por um bom tempo. E, sem dúvida, produção conquistasse seu público.
do grupo Nuvem Cigana Hilda Hilst, poetisa ligada à tradi- Cláudio Willer
367
BR DFANBSB V8.GNGAAA, 84044331 ancoa, p 111

s a RESIDÉN—c'

Miguel Chikaoka/F4
"|" “ª,“ A
" ney CON
CA
-Ra

Carlos Namba/Abril Press

O general Venturini (à esq.), principal dirigente do GETAT, entregou títulos a posseiros do Araguaia. A militarização da questão
agrária, no entanto,não satisfez os homens do campo. A dir., o protesto numa igreja no ano de 1979

ORGANIZAÇÃO SOCIAL/DISTRIBUIÇÃO DE
TERRAS: os conflitos da posse eles em sua base a luta desesperada
pela sobrevivência daqueles que neces-
sitavam da terra para produzir e eram
excluídos do direito de possuí-la.
Mapa de sangue
Esses conflitos pela posse' da terra
intensificaram-se através dos tempos e
A história da propriedade da terra no Brasil é uma a partir dos anos 80 deste século atingi-
sucessão
de brutalidades contra as massas que trabalham no campo ram 0 climax. Para esse agravamento
, da concorreram vários fatores, como a
extorsão ao homicídio abertura de novas áreas do País, a atra-
ção que essa abertura exerceu sobre os
O processo de formação da proprie- apenas quisessem a propriedade para pequenos lavradores sem terra - e tam-
dade da terra no Brasil foi marcado explorar o trabalho alheio. bém sobre capitalistas - e a invasão do
pela violência, pela imprecisão dos li- Essa propriedade da terra, formada campo agrícola pelo capital.
mites dos lotes; consequentemente, pela violência, precisava ser mantida: o A abertura de novas estradas, como
pela falta de garantia. A violência con- registro das propriedades, inicialmente a Beléêm-Brasília, a Transamazônica e a
tra o índio, o primeiro dono da terra, feito nas igrejas, passou para os car- Perimetral Norte, atraiu, mesmo
foi o passo inicial para essa formação. tórios, Mas estes apenas registram pa- quando as estradas não passaram de
Alguns autores - ignorando os índios - péis - na maioria das vezes sem ne- simples tentativas fracassadas como a
consideram que a terra no Brasil era nhuma ligação com a realidade da Perimetral, grande número de peque-
obrigatoriamente propriedade da Co- terra, sem preocupação com a identifi- nos lavradores sem terras, esperanço-
roa Portuguesa, com base no Tratado cação das glebas "registradas" -, em sos de se verem livres da exploração.
de Tordesilhas . . . grande número de casos falsificados, Além de antigos pioneiros, novos lavra-
Somente entre 1822, pouco antes da dores surgiram, apossando-se de áreas
Independência, e 1850, tendo sido ex- A força é a única garantia do de terra para seu trabalho. E essas pos-
tinta a aplicação da Lei de Sesmarias e
direito à propriedade no campo ses, pela Constituição de 1891 e por to-
não havendo outra lei sobre o assunto,
das as demais constituições que o País
houve alguma formação de proprie- Com essa formação e com esses re- teve, davam aos posseiros o direito de
dade pelo trabalho da terra - a terra gistros, não há a menor garantia para o registrá-las até 30 hectares (aumenta-
para quem nela trabalha. Mas, a partir direito de propriedade; apenas a força dos para até cem hectares pela Emenda
de 1850, com a Lei de Terras do sena- garante tal "direito", e dele apenas os Constitucional no 10, de novembro de
dor: Vergueiro, dispondo que as terras grandes e poderosos podem usufruir. É 1964), como propriedade. Mas nunca
públicas só poderiam ser cedidas de natural, portanto, o surgimento de con- foi dada, a tais pequenos lavradores,
forma onerosa e em hasta pública, fi- flitos pela posse de terra. qualquer oportunidade de conseguir tal
cou afastada a possibilidade de o verda- Fatos históricos, como as rebeliões
Emis

registro, sendo intransponíveis as difi-


deiro lavrador, aquele que trabalha a de Canudos e do Contestado, são culdades levantadas em seu caminho
terra e a faz produzir, tornar-se seu pro- exemplos frisantes desses conflitos. pela burocracia.
prietário, Só os ricos e poderosos, em Descritos, muitas vezes, como resul- Atrás desses desbravadores, vinham
condições de oferecer melhores lances tado apenas do fanatismo religioso, ou os grandes capitalistas nacionais e, o
em leilão, poderiam tornar-se proprie- como reação de monarquistas contra a que é pior, internacionais, apoiados em '
tários, ainda que nada produzissem e República, na realidade tiveram todos seu dinheiro, nas falhas da lei, na falta
368 '
BR DFANBSB VB.GNCAAA, R404 4334 An COA, pI1R2

de registros das propriedades legitima- grande campeã a região Norte, com


mente constituídas pelo trabalho, «e 514, seguida do Centro-Sul (Centro-
ainda mais nas "autoridades" sempre Oeste, Centro-Leste e Sul), com 192, e
dispostas a apoiar o mais forte. E con- As novas do Nordeste, com 190.
seguiam expulsar antigos posseiros, uns Evidencia-se o aumento dos confli-
mais recentes, de alguns anos de posse, tos nas regiões de fronteira de ocupa-
violências
outros antigos, com famílias vivendo ção. Nas demais áreas também aumen-
até mais de um século nas terras. tam, mas é no Norte que esse aumento
Era natural que os conflitos se inten- 1981 a 1984 é mais violento.
sificassem. Além desses fatores citados, Os Estados com maiores números de
havia a absoluta falta de áreas livres "Junto com o crescimento dos con-
conflitos, em 1981, foram o Pará (185
para onde os lavradores pudessem flitos em torno da terra e dos conflitos
conflitos) e Maranhão (134), na Ama-
deslocar-se, uma vez que, onde quer trabalhistas no campo, crescem as
zônia; Bahia (97), no Nordeste; e Rio
que fossem, logo que desbravassem a violências contra os trabalhadores.
de Janeiro (60), no Centro-Sul.
terra, apareciam os inevitáveis "donos" Em 1981, o Movimento Sindicalista
Houve grande concentração de con-
a expulsá-los, Essa falta de áreas livres Trabalhadores Rurais denunciou 26
flitos em alguns municípios, como Con-
forçava os posseiros a resistirem às ex- casos de violência e, em 1982, 41. Em
ceição do Araguaia, no Pará, com 46;
pulsões recentes com mais energia do 1983, eles subiram para 134. Os assas- Santa Luzia, no Maranhão, com 28; Vi-
que faziam antes. Os modernos meios sinatos de dirigentes sindicais, asses- zeu, Oeiras e Marabá, todos no Pará,
de comunicação, penetrando em todo sores e trabalhadores em luta pelos com 15 cada um, no ano de 1981.
o território nacional, também serviriam seus direitos, que foram dez em 1980,
para de algum modo conscientizar o 15 em 1981, 16 em 1982, foram 46 em Empresas, bancos e órgãos
pequeno posseiro, que antes aceitava 1983, dos quais 17 só no Estado da ofitiais envolvidos nos conflitos
passivamente a expulsão, mas que Bahia.
agora sabia que tinha direitos sobre a "Nos seis primeiros meses de 1984 Nos anos de 1980-81, esses conflitos
terra e não devia abandoná-la sem luta. já tivemos mais assassinatos do que afetaram quase 1,2 milhão de pessoas,
durante todo o ano de 1980, 1981 e pertencentes a 365 mil famílias, e
1982. Entre janeiro e junho de 1984, abrangeram pouco mais de 40 milhões
Da prisão à morte, todo tipo de
foram assassinados no Brasil 21 traba- de hectares de terras. Nesse mesmo
violência contra os lavradores lhadores rurais e líderes sindicais." ano foram registrados 518 feridos,
(Trecho do documento "A Estru- sendo 297 no Mato Grosso, 73 no Pará,
O desenvolvimento do sindicalismo tura Agrária e a Violência no seguindo-se Maranhão e Paraíba, com
rural, pela criação de novos sindicatos Campo", apresentado por ocasião do 28 cada um. A ABRA aponta também
e pela conscientização dos trabalhado- lançamento da Campanha Nacional 87 empresas, 27 órgãos oficiais e sete
res, estimulado pela Confederação Na- pela Reforma Agrária, em 3 de abril bancos envolvidos nos conflitos.
cional dos Trabalhadores Agrícolas de 1984, e atualizado pela Confedera- Em resposta a essa situação de vio-
(CONTAG) e apoiado por instituições ção Nacional dos Trabalhadores na lência, o Regime Militar tentou toda
ligadas à Igreja Católica, como as Co- Agricultura, em junho de 1984). sorte de desvios - desde que não impli-
missões Pastorais de Terra (CPIs), tam- cassem na solução real: a verdadeira
bém contribuiu para que essa resistên- reforma agrária.
cia fosse fortalecida.
Prisões de posseiros, assassinatos, ex-
Juca Martins/F4

pulsões de padres, toda espécie de vio-


lência foi adotada para impedir que pe-
quenos lavradores tomassem conheci-
mento do simples fato de que são cida-
dãos brasileiros com direitos em sua
terra.
Com o aumento da resistência, de
um lado, e da violência, de outro, os
conflitos se intensificaram.
Procurando conhecer e registrar a
extensão desses conflitos pela terra, a
Associação Brasileira de Reforma
Agrária (ABRA) iniciou, desde 1970,
um levantamento dos conflitos surgidos
no País. Nos anos de 1980 e 1981, esses
levantamentos foram sistematizados e
intensificados pelo Projeto Jurídico da
Associação.
Em 1971 foram localizados 109 con-
flitos sendo mais numerosos na região
Nordeste (45), seguida pelo Centro-Sul
(34) e pelo Norte (30); já em 1976, eram
126 conflitos, sendo 85 no Norte (Ama-
zônia), 21 no Centro-Sul e 20 no Nor- Em Conceição do Araguaia, um ato público em homenagem a Gringo, líder dos !
" deste. Em 1981, foram registrados nada trabalhadores rurais assassinado em 1981. Mais um capítulo de sangue na luta já
menos que 896 conflitos, sendo a secular e sempre mortal para dar a terra a quem nela trabalha

369
BR DFANBSB VB.GNC.AAA, 8404333 an 002, p 413

Dentre os desvios, sobressai a propa-


ganda sobre a entrega de terras pelo
Instituto Nacional de Colonização e Os mortos pela posse da terra
Reforma Agrária (INCRA), que vai das
notícias de televisão até os discursos do Municípios onde ocorreram mortes em conflitos pela posse da terra (1980-81)
presidente da República.
De acordo com os relatórios do ge-
neral Figueiredo, durante o ano de
1984 foram entregues um milhão de ti-
tulos de terras pelo Regime Militar,
através do INCRA. Esse milhão de ti-
tulos tão festejado, no entanto, não re-
presenta um milhão de novos lavrado-
res assentados na terra, nem mesmo
aproximadamente.

A legitimação das posses não se


confunde com reforma agrária

Nesse total estão incluidas simples li-


cenças de ocupação, anuências para a
tomada de crédito rural, licitações de
Em 1980-81,
grandes glebas para capitalistas, além morreram em conflitos pela
das autorizações a títulos concedidos a posse da terra, 72 pessoas no Pará,
posseiros. Na realidade, esses docu- 46 no Maranhão, 22 em Rondônia
mentos não criam novos lavradores, e 21 no Mato Grosso. Por categoria, as
vítimas classificavam-se:
pois os posseiros já se encontravam na
POBSBMOS S cio ease eita oo o aa cos i 107
terra com ânimo de proprietários. Jagunços e pistoleiros .................... 38
A legitimação das posses, Trabalhadores rurais não-posseiros .. 20
transformando-as em propriedades, é fndios ia avi a vedes avia 13
uma medida justa, mas não se con- Dirigentes sindicais ............. 1.1
funde com a reforma agrária, pois não Advogados , .... v...... .3
cria novos lavradores; apenas confirma Policiais ...... sa
Capatazes ..... RW
aqueles que já se encontravam nessas O ese ese o erre ea 2
condições, Além disso, como se veri- : Tratonstar, .... iii.... 1
fica na farta documentação publicada Grifeirg , oi ea aia Aa diva 1
pelo boletim Reforma Agrária, editado
pela ABRA, números 3 e 4 de 1984, os
posseiros tiveram sistematicamente
suas posses reduzidas, em favor da ocu-
pação das terras por grandes empresas.
Os cem hectares garantidos pela
Emenda Constitucional no 100, ao Como se pode notar pelo gráfico abaixo, o acirramento dos conflitos
pela posse da terra - assim como a veiculação desses fatos na imprensa
tempo do marechal Castello Branco, fi- - se dá principalmente no período de preparo da terra e plantio; ou seja:
cam reduzidos a áreas muito menores, quando a mão-de-obra não está ocupada na atividade de colheita.
às vezes de menos de dez hectares, Ao
assinarem a contraprova dos documen-
tos, os posseiros, em sua ingenuidade, Distribuição do noticiário sobre conflitos pela posse da terra (1980-81)
estão renunciando à maior parte das 24
terras a que teriam direito. E mais: nos
documentos, reconhecem no INCRA 22
ou outro órgão, o Grupo Executivo 20
de Terras do Araguaia-Tocantins (GE- 18
TAT), o direito de alterar a qualquer
momento suas divisas e de transferi-los 16
para outras glebas; ficando assim, sem 14
qualquer garantia, espoliados do direito
121%
constitucional a uma área suficiente
para sobreviverem. 10
Essa redução da área "titulada" dos
posseiros tem duas finalidades princi-
pais: uma, deixar mais terras à disposi-
ção das grandes empresas, principal-
mente das múltis; outra, a criação de
mão-de-obra barata para o trabalho nas
grandes propriedades e nas multinacio- Yan. Fev.. "Mar.. "Abr.. Mai. Jun. Jul.. Ago. Set Out Noy, Der
nais. Em cem hectares, a família teria Fonte: Associação Brasileira de Reforma Agrária - ABRA
condições de absorver toda a sua mão-
370
r A
rarÃo ANDAMS SoOMETIDA ,
TERRA PR
t v
de-obra por duas ou três gerações; em
cinco, dez ou 20 hectares, com o cresci-
mento dos filhos, em pouco tempo a
propriedade já não absorverá toda a
mão-de-obra, que, para não morrer de
fome, irá trabalhar para os grandes pro-
prietários vizinhos.
Outra resposta do governo, cercada
de grande propaganda, foi a Lei de
Usucapião Especial, ou de Usucapião

Miguel Chikaoka *
Pro-Labore. Permitindo o usucapião
sobre terras públicas, não existente an-
teriormente, e reduzindo o prazo para a
conquista desse direito, essa lei criou
condições aparentemente positivas
para que se realizasse a conquista da
propriedade pelo trabalho; mas são
tantas as limitações a este direito inclui-

2a %
das na própria lei que raramente ela

A
poderá ser usufruída. Por outro lado,
nada foi feito para facilitar ao posseiro
o requerimento desse direito, nem para
prover as comarcas onde existem gran-
des áreas de terras devolutas de meios
para processar e encaminhar tais re-
querimentos. O emperramento buro-
crático impedirá, praticamente, o fun-
cionamento deste dispositivo legal.
Como válvula de escape, em alguns
casos em que a pressão social se torna
perigosa, o governo tem desapropriado
algumas áreas de terra, entregando-as a
verdadeiros lavradores. Mas tais desa-
propriações têm sido pequenas, insigni-
ficantes para influir sobre a viciada es-
trutura agrária do País. Servem, apenas,
para desmobilizar grupos mais decidi-
dos de pequenos lavradores.
Ainda simulando querer intervir na
estrutura agrária, o Regime Militar al-
terou os artigos do Estatuto da Terra
que dispunham sobre o Imposto Terri-
torial Rural (ITR), tornando-o muito:
mais rigososo quanto à progressividade
em função do tamanho da propriedade.
A Lei no 6.746, de 10 de dezembro de
1979, elevou essa progressividade a
ponto de ter, teoricamente, a maior ali-
quota do imposto (14%), 700 vezes
maior que a alíquota mínima (0,02%),
enquanto no Estatuto da Terra essa va-
riação era de 144 vezes. Só em relação
ao tamanho da propriedade, sem consi-
derar outros fatores, o Estatuto da
Terra permitia uma variação de quatro,
cinco vezes e a nova legislação, de 175
vezes. É uma lei muito boa; melhor
mesmo, só se fosse aplicada.
Alcebiades Silva

Mas essa lei ultra-rigorosa, da


mesma maneira que os artigos 59 e 60
do Estatuto da Terra, ficou no tinteiro.
Os grandes proprietários simplesmente
não pagam o ITR (em 1976, último ano
A luta pela terra semprefoi marcada por manifestações populares. No alto, lavradores em que foram publicados os dados do
do Pará realizam ato no dia do trabalhador rural. Ao centro e acima, no Ceará: INCRA, antes da militarização do as-
Caminhada Pela Libertação ( Cratéus; 1954) e ato pela aplicação do Estatuto da Terra sunto, apenas 7% das guias de ITR emi-
(Quixeramobim, anos 70). tidas para propriedades de mais de cem
371

BR DFANBSB V8.GNC.AMA, 24041331&3OD2, p 414


*"aNBSB VB.GNC.AAMA, 84
044 3313nC0 2, p 15

mil hectares tiveram o imposto reco- veram sua atenção voltada para aquela blicas transferidos para o governo fede-
Ihido). De maneira que não há a menor área e se interessaram por seus proble- ral,
diferença entre um imposto 144 vezes mas, Além disso, as enormes riquezas Os órgãos militares (GETAT, Grupo
maior e outro 700 vezes maior. E não se minerais reveladas pelo Projeto Radar Executivo para a Região do Baixo
tem notícia de qualquer ação, seja judi- da Amazônia (RADAM) na região em Amazonas - GEBAM - e MEAF) têm
cial seja militar, visando a forçar esse torno da Serra dos Carajás despertaram "reconhecido", de forma totalmente
pagamento. a cobiça de outros países, Para permitir ilegal, supostos direitos de grandes pro-
Finalmente, entre as medidas do go- sua exploração pelas multinacionais, prietários e de empresas multinacionais
verno visando a solucionar os proble- era preciso "limpar" a área. sobre áreas que tentam "limpar" de
mas agrários, tivemos a militarização A ação, além do aspecto propria- posseiros. Aliás, isso tem acontecido,
do assunto, com a interferência do mente militar contra a guerrilha, procu- também, em áreas marginais ao São
Conselho de Segurança Nacional e a rou envolver a população local, através Francisco, junto às barragens, mesmo
criação de órgãos como o GETAT, de uma operação de assistência social. sem a militarização direta; os pequenos
GEBAN e, finalmente, do Ministério Daí à extrapolação política dessa ação, são expulsos pela construção das barra-
Especial de Assuntos Fundiários foi um passo. gens e as terras nas margens das repre-
(MEAF), A ação paternalista, ao lado das sas se tornam, misteriosamente, pro-
Como tudo no Brasil do Regime Mili- pressões, além do atendimento de pe- priedades de grandes empresas, inclu-
tar, a alavanca para essa militarização quena percentagem de posseiros (e em sive multinacionais. Nota-se aí clara-
foi agegurança acional. . . Parece que áreas minúsculas, como já se obser- mente a transformação do poder pú-
os pequenos posseiros e proprietários vou), representa tentativa de desmobili- blico em mera extensão do poder de
do Araguaia-Tocantis representavam zação dos posseiros organizados. particulares bem-colocados.
séria ameaça à segurança nacional; Todos esses fatos, levando à concen-
essa segurança ficou melhor assegu- Os órgãos militares têm dado tração cada vez maior da posse da terra
rada com a entrega de enormes áreas a e à expulsão cada vez mais numerosa
apoio aos grandes proprietários
empresas americanas, japonesas, ale- dos lavradores, explicam a multiplica-
mãs, etc. Esta militarização teve também ca- ção e o agravamento dos conflitos so-
A guerrilha do Araguaia, entre 1972 racterística de verdadeira invasão do bre terras.
e 1975, foi talvez um dos fatores que in- governo federal em áreas de autonomia
fluiram para essa militarização. No dos Estados. O Estado do Pará teve Carlos Lorena e
combate à guerrilha, os militares ti- mais de 75% de sua área de terras pú- Maria Tereza Leopardi Mello

<Júca Martins/F4

No Araguaia, como em outras regiões do Brasil, asfamílias de posseiros estão


permanentemente armadas para defenderem suas
terras, sempre ameaçadas pelo "direito" dos grandes às violências

372
BR DFANBSB V8.GNCAAA 043313002, pJI6

POLÍTICA/PARTIDOS: a evolução dos partidos e da legislação partidária no Brasil

Os grilhões partidários

Até os anos 80, a ampla liberdade de organização partidária -


inexistente ou de pouca duração desde a República Velha - ainda era, para
o povo brasileiro, apenas uma esperança

As elites políticas brasileiras jamais reito de organizar-se livremente. da decretação do estado de sítio. Em
foram capazes de desenvolver um sis- Mesmo na Espanha, que não podia ser 1927, findo o estado de sítio, o PC vol-
tema democrático de partidos políticos, tomada como um modelo liberal, du- tou à legalidade, mas por apenas sete
no qual todas as correntes tivessem o rante a abertura controlada do meses, Em agosto daquele ano, a "Lei
direito de se organizar livremente. primeiro-ministro Adolfo Suárez, após Celerada" tornou-o novamente ilegal.
Também jamais conseguiram formar a morte de Francisco Franco, em 1975, Após a revolução de 1930, a legisla-
partidos nacionais sólidos, constituídos existiram nada menos que 160 partidos. ção partidária tornou-se mais liberal;
com base em programas e princípios Essa liberdade, se já existiu no Brasil, reconhecia os partidos estáveis, organi-
duradouros; e o medo de uma partici- na letra das leis, ou sofreu limitações zados como sociedades civis, e os parti-
pação popular efetiva e crescente fez práticas ou durou pouco. dos organizados apenas para concorrer
com que os partidos que se permitiram Na República Velha (1889-1930), a uma eleição, sendo dissolvidos em se-
formalizar fossem usados somente em prevaleceram os partidos regionais, ex- guida. Permitia também a apresentação
épocas eleitorais. E foi durante o Re- pressões das oligarquias dos Estados: de candidatos avulsos, desde que
gime Militar (1964-84) que esses vícios eram os "PRs", em que se encastela- apoiados por certo número de eleito-
e restrições à vida dos partidos se tor- vam os clãs locais. Era, assim, um sis- res. Em 1937, no entanto, esse sistema
naram mais agudos. tema partidário compatível com o fede- foi interrompido com o golpe que im-
Numa democracia liberal autêntica ralismo estruturado no poder das oli- plantou o Estado Novo: os partidos fo-
não deveriam teoricamente existir res- garquias, O Partido Comunista (PC), ram fechados e sua reorganização proi-
trições para a organização partidária. fundado em março de 1922, foi consi- bida.
Todos os grupos políticos teriam o di- derado ilegal três meses depois, quando Os partidos só reapareceram na vida
379
brasileira em 1945, com o fim da dita-
dura de Vargas; e logo encontraram as
primeirdàs restrições a sua organização.
O código eleitoral daquele ano exigia
que, para legalização, os partidos apre-
sentassem assinaturas de dez mil eleito-
res, espalhados por cinco Estados, com
um mínimo de 500 por Estado. Em
maio de 1946, o presidente Dutra am-
pliou a exigência para 50 mil assinatu-
ras. A lei vetava ainda a formação de
partidos considerados "antidemocráti-

Iconograplia
cos", que fossem filiados a organiza-
ções internacionais e que recebessem
dinheiro do Exterior. Esse dispositivo
foi usado somente uma vez, em 1947,
para cassar o registro do PC (no ano se-
guinte, todos os parlamentares - de
vergêedor a sen&dor - eleitos pela sigla
do PC foram cassados). No entanto, o
Partido Integralista, de Plínio Salgado,
de tendência reconhecidamente fas-
cista, continuou funcionando normal-
mente, com o nome de Partido de Re-
presentação Popular. Pode-se dizer,
portanto, que essas regras visavam a
bloquear os comunistas. As eleições
para a Constituinte de 1945 haviam
mostrado aos conservadores as grandes
possibilidades eleitorais dos comunis-
tas. ledo Fiuza, candidato do PC à Pre-

Iconograplia
sidência da República, lançado apenas
15 dias antes da eleição, obteve quase
10o, dos votos (569.818, em 5,8 mi-
lhões). O PC elegeu ainda um senador
- Luis Carlos Prestes - e 14 deputados quenos agrupamentos nascidos de riva- fechou esse leque de 13 partidos. Eles
à Assembléia Constituinte e fez maioria lidades locais. Outro partido pequeno, foram relegados a um plano secundário
de vereadores em diversas cidades im- caracterizado por uma conotação ideo- na vida política e tiveram sua represen-
portantes do País. lógica mais definida, era o Partido So- tatividade reduzida, principalmente
'cialista Brasileiro. pela cassação dos membros mais nacio-
Constatação de enfraquecimento O golpe de 1964 encontrou 13 parti- nalistas e dos mais identificados com as
leva a direita ao golpe de 64 dos registrados na Justiça Eleitoral. O causas populares. Em 1965, o Regime
PSD e a UDN - dois entre os mais con- Militar ainda realizou eleições com o
Com a cassação do PC, o quadro servadores - dominavam amplamente quadro partidário vigente antes do
partidário legal ficou com apenas três o quadro político desde 1945, mas vi- golpe, depois de cassar 31 deputados
grandes partidos nacionais: o Partido nham perdendo terreno. A constatação do PTB e mais dez parlamentares pro-
Social Democrático (PSD) e a União desse declínio pelos estrategistas da di- gressistas de outros partidos. A grande
Democrática Nacional (UDN), dos reita foi, sem dúvida, um dos fatores derrota sofrida pelo novo regime - es-
grandes empresários e fazendeiros; e o que determinaram a decisão pelo aban- pecialmente a perda das eleições para
Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), dono da via eleitoral para chegar ao po- governador em Minas Gerais e na
dos empresários médios e da burocra- der. Em 1962, esses dois partidos esti- Guanabara - indicava a perspectiva de
cia sindical. Com força em alguns Esta- veram a um passo de tornar-se minori- uma rearticulação dos setores banidos.
dos, havia ainda o Partido Social Pro- tários: tinham juntos 54% dos deputa- Diante disso, o presidente Castello
gressista (PSP), de Adhemar de Barros dos federais, quando em 1945 tinham Branco expediu o Ato Institucional no
e Chagas Freitas, e o Partido Demo- cerca de 75%, dos votos e mais de 80% 2, de 27 de outubro de 1965, extin-
crata Cristão (PDC), que abrigava cor- da representação parlamentar. Nem guindo os partidos registrados. Foram
rentes distintas, desde a ligada a Ney mesmo o PTB, partido reformista que também criadas regras de difícil atendi-
Braga, no Paraná - que após 1964 iria Getúlio Vargas imaginou para contra- mento para forçar o sistema a tornar-se
para a Aliança Renovadora Nacional por à influência do PC, tinha seu futuro bipartidário e os parlamentares eleitos
(Arena) e depois para o Partido Demo- assegurado. Ao contrário, estagnara foram obrigados a se reagrupar em
crático Social (PDS) -, passando pela em torno dos 14% dos votos, após um duas coligações: a Arena e o MDB,
de Franco Montoro, eleito governador de crescimento a partir de 8% em 1945. As próprias circunstâncias da forma-
São Paulo, em 1982, pelo Partido do Por outro lado, cresciam as alianças e ção desses agrupamentos atestavam
Movimento Democrático Brasileiro coligações; em especial aquelas mais à não se tratar de partidos políticos nor-
(PMDB), até Plínio de Arruda Sam- esquerda, de caráter nacionalista e po- mais. O MDB estava condenado a re-
paio, candidato a deputado federal, em pular, que engrossavam a Frente Parla- presentar O papel de oposição; a
1982 pelo Partido dos Trabalhadores mentar Nacionalista. Arena, embora apoiasse o governdó,
(PT). Os partidos restantes eram pe- De início, o movimento de 1964 não não exercia de fato o poder. A vida
374
BR DFANBSB VB.GNCAAA, 24041334 an
0o a ; o 133
BRDFANBSB VE.GNCAM. SHO41334ân co 2, p 4418

Em 64, havia 13 partidos vembro de 1965, esclareceria os reais


registrados na Justiça objetivos do novo sistema partidário:
FOLHA DE S. PAULO
I'm jornal a serviço do Brasil * NOVO ATO VALIDO Eleitoral. O PSD (na "O problema do governo é constituir,
msm a-ve ATÉ MARÇO DE 67 unida e coesa, uma base parlamentar, a
pág. ao lado,a
NOVO ATO DÁPLENOS PODERES AO GºVERNO convenção do partido em mais ampla possível, que lhe dê segu-
Junho de 45, em São rança na tramitação da matéria legisla-
Paulo) e a UDN (na tiva e política de interesse governamen-
Partidos extintos, tal" (citado por Kinzo).
pág. ao lado, embaixo,
convenção simultânea do De fato, a inicial fraqueza eleitoral
garantias suspensas PRP e da UDN, em do MDB parecia confirmar o êxito da
agosto de 50) tática do Regime. Mas, o arranjo bipar-
dominavam amplamente tidário começou a entrar em pane após
e eleição indirela o desastre da Arena no pleito de 1974.
ssnmerms&s» o quadro político desde
1 -tamaI Abe Ilo, 45, mas vinham Até então, o MDB vinha perdendo sis-
2- Rala de ParInline; tematicamente para a Arena porque,
3 Musi # tis ri sta perdendo terreno. Esse
«4 mesmins, declínio foi, sem dúvida, por sua postura excessivamente pru-
um dos fatores que, dente e conciliadora - adesista em cer-
determinaram os tas ocasiões -, não conseguia atrair boa
estrategistas da direita a parte do protesto oposicionista canali-
“'I—ª.“— de =

seu « «= « decidir pelo abandono da


zada para os votos brancos e nulos e
para as abstenções. Contudo, a partir
via eleitoral para .chegar
de 1970, com a aprovação do seu pro-
Mstets ao poder, Nas primeiras
grama e a constituição do "grupo au-
-A do Podar Joao eleiçoes apos o golpe, em
re para aunia as dais da Comando
PAA
+ 1;
65, o Regime Militar
têntico" - parlamentares que se pauta-
10 - O dino de e pré, ! ' vam por uma postura mais combativa
sofreu uma grande
na oposição ao Regime Militar e que
n Ende, derrota. Assim, em 26 de
atuavam em bloco -, o MDB começou
outubro de 65, o governo
R- [“i—— a se aproximar das camadas populares
-aenaormeada |- a EXÚNÇÃO dos
e de outras correntes oposicionistas.
Banco de Dados/t SH

Juraci falou com o Bám « "=** U) partidos, pelo Al-2


NAS FORÇAS ARMADAS*presidente do STF Estas, por sua vez, enfrentando grandes
e

Nossa: opinião - dificuldades de atuação, não podiam


desperdiçar qualquer possibilidade le-
£. plasfs pa 10 ao, pelo proto
asacio do manda e files gal de difundir suas teses, de elevar o
d tala. nível de consciência e organização po-
pular e de unir os mais amplos setores
política real passou a correr, portanto, das dificuldades para a formalização de sociais e políticos numa frente demo-
por fora dos canais estreitos desse bi- novos partidos, basta lembrar os esfor- crática de oposição. Essa confluência
partidarismo forçado, tanto do ponto ços de Pedro Aleixo - vice-presidente de fatores embaralhou, de repente, a
de vista das forças de oposição como de Costa e Silva, impedido de tomar rotina eleitoral. Mantidas as regras da
das de situação. posse quando da morte deste, em 1969 disputa política, inclusive o bipartida-
- e, depois de seu filho, Maurício, rismo, surgia a possibilidade de o MDB
Com o AI-2, o governo impõe para obter o registro do seu Partido conquistar maioria no Congresso, em
a extinção dos partidos
Democrático Republicano: entre 1971 várias assembléias e câmaras de verea-
e 1977, foram feitas sete tentativas, to- dores e mesmo de eleger governadores
,A mudança para o bipartidarismo se das frustradas diante do rigor da legisla- e prefeitos em alguns dos Estados e
deu em duas etapas. Primeiro, ção. municípios mais importantes do País. O
determinou-se que qualquer partido Em sua Mensagem Presidencial à bipartidarismo se voltava, assim, contra
deveria ter 3% dos votos nas eleições Câmara dos Deputados, em 1966, Cas- o regime que o criara.
leglslallvas em 11 Estados, e no mi- tello Branco argumentou em favor da Essa tendência, entretanto, só seria
nimo 2% por Estado; eleger 12 deputa- extinção dos antigos partidos alegando percebida pelo governo após a derrota
dos federais, distribuídos por sete Esta- que sua multiplicação contribuira para da Arena, em 1974. Antes, o governo
dos; ter pelos menos 11 diretórios re- tumultuar e deformar a fisionomia polí- até se preocupava com o fraco desem-
gionais, organizados obrigatoriamente tica do País, "É o passo inícial para penho que o MDB vinha apresentando
em diretórios municipais, que por sua uma sadia vida partidária", afirmava - um entrave para a política de "dis-
vez só poderiam ser organizados se o ele. Mas era de Juracy Magalhães, mi- tensão" do presidente Geisel -, já que
partido tivesse um minimo de eleitores nistro da Justiça de Castello, a defesa seus ideólogos julgavam inconveniente
por município. Nessas condições, so- mais fervorosa do bipartidarismo, "pro- um esforço que levasse, na prática, ao
mente a UDN e o PSD poderiam so- vavelmente partindo da suposição de partido único. Por isso, Geisel permitiu
breviver. O PTB, o PSP e o PDC não que esse sistema, praticado nos Estados a aplicação da lei de propaganda eleito-
tinham nenhuma chance. A extinção Unidos e na Inglaterra, produziria a es- ral gratuita no rádio e TV para