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TERCEIRO ESTUDO

UMA SEMÂNTICA DA AÇÃO SEM AGENTE

Os dois estudos que seguem são dedicados à teoria da


ação, no sentido limitativo que esse termo recebeu nas obras
de língua inglesa arroladas sob essa denominação. Tais estu­
dos mantêm uma relação de grande complexidade com os an­
teriores. Por um lado, a filosofia da linguagem que acabamos
de expor desempenha o papel de órganon relativamente à teoria
da ação, um a vez que, na descrição que faz das frases de ação,
essa teoria aplica as análises já clássicas da referência identifi­
cadora e dos atos de discurso. Por óutro lado, as ações são en­
tidades tão notáveis, e o elo entre a ação e seu agente constitui
uma relação tão original, que a teoria da ação tornou-se algo
bem diferente da simples aplicação da análise linguística es­
boçada acima. Além do mais, áo conquistar a autonomia de dis­
ciplina distinta, a teoria da ação provocou o surgimento, como
que por contrachoque, dos novos recursos da linguagem, tan­
to em sua dimensão pragmática quanto em sua dimensão se­
mântica. Ao mesmo tempo, as dificuldades, os paradoxos e as
aporias em que os estudos anteriores redundaram assumem
proporções novas no novo âmbito da teoria da ação.
Essa complexidade da relação entre teoria da linguagem e
teoria da ação será posta à prova, de início ao longo deste estu­
do na linha da semântica filosófica, depois ao longo do estudo
seguinte na linha da pragmática da linguagem. A cada vez será
sondado o enigma da relação entre a ação e seu agente, mas
com recursos diferentes, considerando-se a distinção inicial en-
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tre semântica e pragmática. O que a ação ensina sobre seu agen­ ção teleológica, segundo o bom, e deontológica, segundo o jus­
te? - perguntarem os. E em que m edida esse eventual ensina­ to. Essa segunda limitação é perfeitam ente legítima, um a vez
m ento contribui para esclarecer a diferença entre ipse e idem? que a sem ântica da ação se lim ita por princípio a descrever e
D uas observações prelim inares se fazem necessárias an ­ analisar os discursos nos quais o hom em diz o seu fazer, com
tes de começarmos este estudo. Em primeiro lugar deve-se en­ exclusão de qualquer atitude prescritiva, em term os de perm i­
tender que, num a semântica da ação, é possível tratar do agente tido e proibido. Nessa medida, o agente da ação estará longe de
da ação, do mesmo m odo que, na análise dos particulares bá­ poder igualar-se a um si-mesmo, responsável por suas palavras
sicos de nosso prim eiro estudo, a pessoa de quem se fala pôde e sua ação. Portanto, não será de espantar se o próprio autor da
ser designada como a entidade à qual são atribuídos predica­
ação aparecer como um agente eticamente neutro, subtraído
dos de ordens diferentes. Mas o recurso explícito à reflexividade ao louvor e à reprovação.
da enunciação por meio da qual o próprio sujeito do discurso
se designa não é da alçada de um a sem ântica centrada na re­
ferência identificadora. Essa prim eira limitação deverá ser reco­
1. O esquema conceituai da ação e a pergunta quem?
nhecida já de início, se não quiserm os ser frustrados pela rela­
tiva pobreza dos resultados da teoria da ação, que, no entanto,
À prim eira vista, a investigação parece promissora quanto
é tão rica em análises rigorosas, no ponto preciso da determ i­
à referência da ação a seu agente. Ação e agente pertencem a
nação conceituai do agente da ação. Na verdade, só no fim do
próximo estudo será possível entrecruzar a via da referência um m esm o esquem a conceituai, que contém noções como cir­
identificadora com a da autodesignação do sujeito falante e, as­ cunstâncias, intenções, motivos, deliberação, impulso volun­
sim, tem atizar de m odo explícito a autorreferência de um su­ tário ou involuntário, passividade, coerção, resultados desejados
jeito agente. etc. O caráter aberto dessa enum eração é, aqui, m enos im por­
A segunda limitação desta investigação diz respeito à es­ tante que sua organização em rede. O que im porta ao teor de
treiteza do campo de exemplos abrangidos pelo conceito de sentido de cada um desses term os é o fato de pertencerem à
ação. Por certo tratarem os de cadeias de ações, principalm ente m esm a rede dos outros; relações de intersignificação regem,
na análise do raciocínio prático, m as porem os entre parênte­ assim, seus respectivos sentidos, de tal m odo que saber usar um
ses o princípio unificador que faz dessas cadeias de ações as odeies é saber usar de m aneira significante e apropriada a rede
unidades práticas de categoria superior que num estudo ulterior inteira. Trata-se de um jogo coerente de linguagem, no qual as
chamarem os de práticas. Ora, essa segunda limitação tem con­ regras que governam o emprego de um term o form am sistema
sequências im portantes: ao não falarm os de práticas dignas com as que governam o emprego de outro termo. Nesse sentido,
desse nom e - técnicas, ofícios, artes, jogos - , tampouco levare­ a rede nocional da ação com partilha o mesmo estatuto tran s­
mos em conta os procedim entos de hierarquização entre prá­ cendental do quadro conceituai dos particulares básicos. Dife­
ticas que autorizem a falar da unidade narrativa de um a vida. rentem ente dos conceitos empíricos elaborados pelas ciências
Ora, pôr entre parênteses todo e qualquer princípio unificador hum anas, da biologia à sociologia, a rede inteira tem a função
interno às práticas e toda e qualquer hierarquização entre prá­ de determ inar o que "conta como" ação, por exemplo nas ciên­
ticas encadeia, por sua vez, a abstração dos predicados éticos cias psicológicas do com portam ento e nas ciências sociais da
da família do bom ou do justo; com efeito, apenas as unidades conduta. O que nos im porta agora é a especificidade dessa rede
práticas de categoria superior assum em de m odo explícito, além em relação à determ inação geral do conceito de pessoa, obtida
do encadeam ento lógico de que se falará aqui, um a significa­ no prim eiro estudo.
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Uma maneira eficiente de proceder à determinação mútua tes desta análise e só encontrará lugar muito adiante, quando
das noções pertencentes a essa rede da ação é identificar a passarmos da ação em sentido estrito à prática no sentido lato
cadeia das indagações que podem ser feitas a respeito da ação: anunciado acima.
quem faz ou fez o quê, em vista de quê, como, em quais circuns­ De fato, a contribuição da teoria da ação à pergunta quem?
tâncias, com que meios e que resultados? O sentido das no- é consideravelmente mais modesta. Por razões que expore­
ções-chave da rede da ação provém da natureza específica das mos, ela muitas vezes representa até um recuo em relação à
respostas dadas a indagações específicas que, por sua vez, se problemática de Strawson, uma vez que esta propunha fran­
intersignificam: quem? o quê? por quê? como? onde? quando?. camente a questão da atribuição dos predicados característicos
Percebe-se em que sentido esse método de análise parece da pessoa a um "alguém", considerado como uma "mesma
promissor: um acesso privilegiado ao conceito de agente nos é coisa". Ora, é essa questão da atribuição que tende a ficar mar­
dado pelas respostas que damos à pergunta quem? O que Straw- ginalizada, em benefício de uma questão que se tornou muito
son chamava de "mesma coisa" à qual são atribuídos predica­ mais importante. Qual? Para dizer em poucas palavras, aqui, a
dos psíquicos e predicados físicos torna-se agora um alguém relação entre as perguntas o quê? e por quê? prevalece à relação
em resposta à pergunta quem?. Ora, essa questão revela uma entre o par de perguntas o quê-por quê? e à pergunta quem?. É
afinidade indubitável com a problemática do si-mesmo, tal como primeiramente como desafio a uma determinação do quem?
a delimitamos na introdução. Em Heidegger, a investigação do heideggeriano que se apresenta a teoria da ação. Nosso pro­
quem?1 pertence à mesma circunscrição ontológica da investi- blema, no fim deste estudo, será tirar vantagem desse desafio,
gação do si-mesmo (Selbstheit). Hannah Arendt2, secundando-o, transformando a investigação sobre o quê-por quê? da ação no
vincula a pergunta quem? a uma especificação própria à do con­ grande desafio ao fim do qual a pergunta quem? voltará a ga­
ceito de ação, por ela oposta ao de trabalho e ao de obra. En­ nhar força, enriquecida por todas as mediações que a investi­
quanto o trabalho se exterioriza inteiramente na coisa fabrica­ gação do o quê-por quê? tiver atravessado.
da, e enquanto a obra modifica a cultura ao se encarnar em O que explica o efeito de ocultação da pergunta quem? pela
documentos, monumentos e instituições no espaço de divul­ análise das respostas às perguntas o quê? e por quê?. Não basta
gação aberto pela política, a ação é aquele aspecto do fazer dizer que, numa perspectiva semântica, amplamente domina­
humano que incita à narrativa. Por sua vez, é função da nar­ da pela maneira como o discurso remete a um algo, não se pode
rativa determinar o "quem da ação". Apesar dessas afinidades ter grande expectativa de encontrar para a pergunta quem?
manifestas entre a teoria da ação e a fenomenologia hermenêu­ respostas capazes de escapar à determinação de um algo en­
tica, seria errôneo acreditar que a primeira pode levar tão lon­ tendido como um componente do mundo dito real. Sem dúvida,
ge. Em Heidegger, é a dependência da problemática do Selbst a problemática do acontecimento que mencionaremos em bre­
em relação ao existencial Dasein que arrasta o "quem" para o ve confirmará amplamente essa captura do quem? pelo "algo".
mesmo espaço ontológico de gravitação. Quanto ao "quem" de Essa explicação não basta, porém, uma vez que nada impede
H. Arendt, é mediado por uma teoria da ação que sai dos limi­ que, no âmbito referencial do algo em geral, a pergunta quem?
conserve alguma autonomia em relação às perguntas o quê-por
1. Ser e tempo, § 25, § 64; trad, fr., Être et Temps, de E. Martineau, Authentica, quê? Como já dissemos a propósito de Strawson, as respostas
1985, pp. 114 ss. e 316 ss.; trad. fr. de F. Vezin, Paris, Gallimard, 1986, pp. 156 ss. específicas à pergunta quem? apresentam considerável interes­
e 376 ss.
2. Hannah Arendt, The Human Condition, 1958, trad. fr. de G. Fradier, La se, não apesar da limitação da investigação feita no âmbito da
Condition de l'homme moderne, prefácio de Paul Ricceur, Paris, Calmann-Lévy, referência identificadora, mas graças a ela. À pergunta "quem
1961, reed., 1983, reproduzido por Agora, Paris, Presses Pocket, 1988, cap. V. fez isso?" pode-se responder com a menção de um nome pró­
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prio, ou com o uso de um pronome ou demonstrativo (ele, ela, vale - no sentido de "o que conta" - como ação entre os aconte­
este, aquela), ou fazendo uma descrição definida (tal e tal). Es­ cimentos do mundo. É em relação à noção de algo que acontece que
sas respostas fazem do algo em geral um alguém. Isso não é há o empenho de determinar o estatuto descritivo da ação. É essa
pouca coisa, ainda que a essa identificação da pessoa como orientação dada à pergunta o quê?, em relação à noção de acon­
alguém que faz (ou sofre) falte a designação por si mesma à tecimento do mundo, que contém em potência o apagamento e
qual apenas a abordagem pragmática dará acesso, ao fazer até a ocultação da pergunta quem?, apesar da resistência obsti­
emergir o par "eu-tu" da situação de interlocução. Mas a abor­ nada que as respostas a essa pergunta opõem a seu alinhamen­
dagem referencial do agente da ação, embora não possa trans­ to com a noção eminentemente impessoal de acontecimento.
por esse limiar, pelo menos tem a vantagem de manter bem Com efeito, as respostas à pergunta o quê?, aplicadas à ação, ten­
aberto o leque dos pronomes pessoais (eu, tu, ele/ela etc.) e dem a dissociar-se das respostas exigidas pela pergunta quem?,
assim harmonizar o estatuto conceituai da pessoa à terceira a partir do momento em que as respostas à pergunta o quê? (que
pessoa gramatical. No nível da simples semântica da ação, a ação foi realizada?) são submetidas a uma categoria ontológica
pergunta quem? admite todas as respostas introduzidas por excludente por princípio da categoria da ipseidade, a saber, o
qualquer pronome pessoal: eu faço, tu fazes, ele faz3. Essa aco­ acontecimento em geral, o "algo que ocorre"4.
lhida sem discriminação das três pessoas gramaticais, no sin­ Essa dissociação entre o o quê? e o quem?, graças à qual a
gular e no plural, continua sendo a grande força da análise problemática da ação oscila para o lado de uma ontologia do
referencial. acontecimento anônimo, foi, por sua vez, possibilitada por uma
Portanto, não é a abordagem referencial como tal que im ­ coalizão em sentido contrário entre a pergunta o quê? e a pergun­
pede de desenvolver os recursos contidos nas respostas à per­ ta por quê?: a fim de determinar o que vale como ação (per­
gunta quem? no campo da ação humana. Por isso, no próximo gunta o quê?), procurou-se no modo de explicação da ação
estudo, tentaremos dar prosseguimento ao exame iniciado (pergunta por quê?) o critério daquilo que merece ser descrito
neste instante e, com os recursos da análise das respostas às como ação. O uso do "porque" na explicação da ação tornou-
perguntas o quê-por que?f retomar o problema que ficou pen­ -se, assim, o árbitro da descrição daquilo que conta como ação.
dente no fim deste estudo, a saber, o da atribuição da ação a
seu agente.
A ocultação da pergunta quem? deve ser imputada, na m i­ 2. Dois universos de discurso: ação contra
nha opinião, à orientação que a filosofia analítica impôs ao tra­ acontecimento, motivo contra causa
tamento da pergunta o quê?, pondo-a em relação exclusiva com
a pergunta por Apesar das enormes diferenças que apa­ Para efeito didático, distinguirei três graus (2,3 e 4) nessa
recerão progressivamente entre diversas variedades de filoso­ captura do o quê? pelo por quê? e finalmente do par o quê-por
fias analíticas da ação, pode-se dizer que todas elas têm em quê? por uma ontologia do acontecimento impessoal. Não me
comum a focalização da discussão na questão de saber o que interesso aqui pela cronologia do debate, ainda que as posi­
ções que vou mencionar estejam mais ou menos escalonadas
3. Caberá à pragmática organizar a lista dos pronomes pessoais em fun­ no tempo, segundo a ordem em que as mostrarei. Meus refe­
ção de atos de discurso diferenciados por sua força ilocutória: então se poderá renciais, porém, continuam sendo mais teóricos que históricos.
dizer na confissão ou na reivindicação: sou eu que...; no agradecimento ou na
acusação: és tu que...; na acusação ou^r descrição narrativa: é ele que... Mas
essas determinações pragmáticas diferenciadas se enxertam todas no alguém . 4. Retomamos aqui uma discussão iniciada acima sobre o estatuto episte-
mológico e ontológico do acontecimento. Cf. segundo estudo, p. 33.
da análise referencial.
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Caracterizo o prim eiro grau com dois argum entos princi­ conhecer como acontecimento interno a produção, por nós,
pais: o primeiro refere-se ao quê da ação em sua especificidade; dos m ovim entos voluntários; é o que ocorre tam bém com as
o segundo, à relação, tam bém considerada específica, entre o pretensas sensações afetivas, que nos fariam conhecer nossos
o quê? e o por quê?. desejos tam bém como acontecimentos internos. O vício lógico
consiste em que a observação interna, aqui alegada, é cons­
1. No que se refere ao prim eiro ponto, o notável é que a truída com base no modelo da observação externa; esse pre­
teoria da ação acreditou preservar a especificidade do agir h u ­ conceito sustenta sub-repticiam ente a procura inútil de al­
m ano tom ando já como term o de referência a noção de acon­ gum acontecimento interior; pode-se falar aqui de preconceito
tecimento. Sem dúvida isso foi feito em prim eiro lugar para "contemplativo", que incita a fazer a seguinte pergunta: "Como
opor ação a acontecimento. Veremos adiante graças a qual re­ você sabe que faz o que faz?" A resposta é: "Sabe fazendo."
viravolta a oposição se tornou inclusão. Mas, antes, o que pre­ A distinção entre fazer ocorrer e ocorrer eu poria em pa­
valeceu foi a oposição. O acontecimento, cham ado de argu­ ralelo com a distinção feita por E. Anscombe entre saber-como
mento, sim plesm ente ocorre; a ação, em contrapartida, é o que e saber-que6. O saber-como tem relação com acontecimentos
faz ocorrer. Entre ocorrer e fazer ocorrer há um fosso lógico, que, segundo Anscombe, são "conhecidos sem observação";
como confirm a'a relação dos dois term os da oposição com a essa noção, por sua vez, justifica falar deles como "conheci­
ideia de verdade: o que ocorre é o objeto de um a observação, m ento prático". Ora, antes de ser aplicada à noção de intenção
portanto de um enunciado constativo que pode ser verdadeiro de que falaremos adiante, a noção de acontecimentos conhe­
ou falso; o que se faz ocorrer não é verdadeiro nem falso, m as cidos sem observação se aplica a expressões tão primitivas
torna verdadeira ou falsa a asserção de certa ocorrência, a sa­ quanto a posição de m eu corpo e de m eus membros, a produ­
ber, a ação cumprida. Como expresso pelo francês: a ação feita ção de m eus gestos. O saber do gesto está no gesto: "Esse
torna-se fato; m as torná-lo verdadeiro é obra do fazer. Dessa conhecimento do que é feito é o conhecim ento prático"; "Al­
oposição resulta que a "força lógica de um a ação" não pode ser guém que sabe como fazer coisas tem um conhecim ento prá­
derivada de nenhum conjunto de constatações referentes a tico sobre elas" (ibid., p. 48).
acontecimentos e às suas propriedades5. Esses argum entos sem dúvida são muito fortes, à prim ei­
Não subestim o os m éritos dessa abordagem do problem a ra vista. O defeito deles, porém - defeito por omissão, se é que
da ação. Entre eles, incluo de bom grado a elim inação de al­ se pode dizer -, consiste em concentrar-se no "quê" da ação,
guns preconceitos resultantes dá construção ruim , feita por sem tem atizar sua relação com o quem? Ao mesmo tempo, eles
vários autores, do conceito de ação; é o que ocorre com pseu- se m ostram muito vulneráveis a um a crítica que term inará por
doconceitos como o de sensações cinestésicas, que nos fariam fazer da ação um a espécie do gênero acontecimento, em vez
de um termo alternativo. A ironia é que foi a oposição entre
5. Encontra-se uma exposição detalhada desse argum ento em A. I. Mel- ação e acontecimento que abriu cam inho para a absorção do
den, Free Action, Londres, Routledge and Kegan Paul, 1961, e em S. T. H am pshi­ prim eiro term o no segundo.
re, Thought and Action, N ova York e Notre-Dam e (Ind.), Notre Dam e University
Press, 1983. Argum ento comparável é desenvolvido por A. Danto em Analytical
Philosophy of Action, Cambridge, 1973. Contudo, a tônica principal é posta pelo
autor no isom orfism o que permanece entre as duas séries de enunciados: por 6. E. Anscom be, Intention, Basil Blackwell, 1979. N ão me deterei aqui nes­
um lado, m conhece s através da evidência e; por outro lado, m faz a ocorrer fa­ se argumento; ele terá lugar em outro quadro conceituai, centrado na noção de
zendo b. Entre ser verdadeiro que s e tomar verdadeiro que a ocorre, subsiste intenção, no qual vejo o segundo grau da ocultação da problemática do si em
certa hom ogeneidade. benefício da problemática do acontecimento.
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ção com aquilo para o que ela tende, ou seja, a própria ação;
2. A mesm a inversão paradoxal ocorrerá na segunda fren­
ter vontade-de é ter-vontade-de-fazer (to do), de obter (to get).
te aberta pela teoria da ação. O "quê" da ação é especificado
A vontade - continua o argum ento - pode ser im pedida, proi­
de m odo decisivo por sua relação com o por quê? Dizer o que é
bida, recalcada; mas, m esm o então, não pode ser entendida
um a ação é dizer por que ela é executada. Im põe-se a seguin­
com nenhum a independência lógica em relação ao fazer. Em
te relação de um a pergunta com a outra: dificilmente se pode
todos os casos, há implicação lógica (logical involvement) entre
inform ar a outrem o que foi feito sem lhe dizer ao m esmo
desejar e fazer; ter vontade de algum a coisa implica logicamen­
tem po por que foi feito; descrever é começar a explicar; e ex­
te obtê-la. Logicamente significa que, em nossa linguagem , ter
plicar m ais é descrever melhor. É assim que se abre um novo
vontade e fazer pertencem -se m utuam ente; é segundo um a ca­
abismo lógico, dessa vez entre motivo e causa. Cabe observar
deia lógica de implicação que se passa de "ter vontade" a "ter
que motivo é, enquanto tal, motivo de agir. Ele está logica­
vontade-de-fazer", a "tentar (trying) -fazer" e finalm ente a "fa­
m ente implicado na noção da ação executada ou por executar,
zer" (doing).
no sentido de que não se pode m encionar o motivo sem m en­
Essa gram ática da vontade-de confirma a crítica feita aci­
cionar a ação de que ele é motivo. A noção de causa, pelo m e­
m a à noção "contemplativa" de acontecimento interior, obser­
nos no sentido hum íano, geralm ente tomado como term o de
vável por um olho interno. A vontade-de não é um a tensão que
comparação, implica, ao contrário, um a heterogeneidade lógica
algum a im pressão interior faça sentir; um a gram ática ruim da
entre causa e efeito, um a vez que posso m encionar um a sem
palavra "vontade", tratada como substantivo, é responsável
mencionar o outro (por exemplo, o fósforo por um lado e o in ­
por essa interpretação do desejo como acontecim ento interior,
cêndio por outro). O nexo interno - necessário e, nesse sentido,
logicamente distinto da ação m encionada na linguagem públi­
lógico -, característico da motivação, é excludente do nexo ex­
ca. A eliminação das entidades interiores, iniciada no plano do
trínseco - contingente e, nesse sentido, empírico - da causali­
prim eiro argum ento que opõe ação a acontecimento, prosse­
dade. Como se vê, o argum ento tem a pretensão de ser lógico,
gue assim no plano do segundo argum ento que opõe motivo
e não psicológico, no sentido de que a força lógica do nexo mo-
a causa.
tivacional é o que im pede de classificar o motivo como causa;
Uma variante do mesmo argum ento merece ser citada:
o motivo é m ais bem interpretado como razão-de...; não que
aludir à razão de um a ação é pedir que se situe a ação num
toda motivação seja racional, o que poderia excluir o desejo;
contexto m ais amplo, em geral feito de regras de interpretação
todo motivo é razão-de, no sentido de que o nexo entre m oti­
e de norm as de execução, supostam ente comuns ao agente e à
vo-de e ação é um a relação de implicação m útua. Segundo
com unidade de interação; assim, peço que considerem m eu
essa escola de pensam ento, isso é confirmado pela gram ática
gesto, por exemplo, de levantar a m ão como um a saudação,
própria da palavra wanting, cujo emprego é mais amplo que o
um a prece, o cham ado de um táxi etc. Esse tipo de argum ento,
term o "desejo", e que em francês corresponde m ais ou menos
embora só se desenvolva plenam ente no âmbito de um a a n á­
ao que se cham aria de "envie de..." [vontade de...], que se ex­
lise aplicada à força ilocutória das enunciações (saudar, orar,
prim e em geral como "o que se gostaria de fazer ou o que se
cham ar etc.) e, portanto, diga respeito à pragm ática da ação,
quereria fazer (ser ou ter)", ou "o que se teria gosto em fazer,
confere m ais força à oposição entre dois esquem as de explica­
o que se teria vontade de fazer", reservando-se para o term o
ção, um a vez que um único pode ser tratado como forma de in­
"desejo" um campo mais restrito, no sentido alim entar ou se­
terpretação. Ao m esm o tem po, revela-se certa proxim idade
xual, principalm ente. Seja como for, no que se refere ao ter­
entre essa análise conceituai da ação e a tradição herm enêuti­
mo e à sua tradução apropriada, a gramática própria do termo
ca, quando esta opõe compreender a explicar, e faz da inter­
wanting exige que a vontade-de só possa ser expressa em liga­
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pretação um desenvolvimento da compreensão. Conforme se Mas direm os antes por que a abordagem dicotômica esta­
lê em Ser e tempo, interpretar é desenvolver a compreensão di­ va condenada a ser alvo de m uitas ressalvas, antes de ser fran­
zendo como o quê (ais was) entendem os algum a coisa7. Esse camente rejeitada.
parentesco não é surpreendente, um a vez que a ação pode ser Direi, para começar, que, fenomenologicamente falando,
tratada como um texto, e a interpretação pelos motivos como a oposição entre motivo e causa não se im põe (veremos adian­
um a leitura8. Vincular um a ação a um conjunto de motivos é te que ela é contestável no plano lógico em que é afirmada).
como interpretar um texto ou um a parte de um texto em fu n ­ Parece m ais que a categoria do desejo, que tomo aqui no sen­
ção de seu contexto. tido do wanting inglês, se propõe como um a categoria m ista
cuja pertinência é obliterada, a partir do m om ento em que, por
3. Percebe-se bem o parentesco entre esse segundo tipo razões lógicas, se puxa o motivo para o lado da razão de agir.
de argum ento e o primeiro: a oposição entre motivo e causa é A inda que com isso só se queira ressaltar a originalidade do
rigorosam ente hom ogênea em relação à oposição entre ação m odo de implicação entre motivo e ação, continua havendo o
e acontecimento. A explicação da ação em term os de motivos perigo de a razão-de ser tom ada no sentido de racionalização
até mesmo reforça a descrição da ação como um "fazer-ocorrer". de tipo tecnológico, estratégico ou ideológico, ficando oculta­
Ação e motivo estão do mesmo lado, assim como acontecimen­ do o que constitui a própria estranheza do desejo, a saber, que
to e causa estão do outro, tal como a tradição hum iana nos ele se dá tanto como um sentido que pode ser expresso no re­
prepara para admitir. Nesse sentido, segundo W ittgenstein, gistro da justificação quanto como um a força que pode ser
pode-se dizer que a ação e seus motivos, por um lado, o acon­ transcrita, de m aneira mais ou menos analógica, no registro
tecim ento e sua causa, por outro lado, pertencem a dois "jogos da energia física; esse caráter m isto do desejo - cuja sem ântica
de linguagem", que é im portante não confundir; a filosofia da tentei outrora traçar em m eu livro sobre Freud - encontra re­
ação assum iu como tarefa, pelo m enos na prim eira fase, resti­ flexo no plano no qual se situa estritam ente a teoria da ação, a
tuir a respectiva coerência e a independência m útua a esses saber, o da linguagem ordinária. Não se perguntará "O que
dois jogos de linguagem . Contudo, essa franca dissociação te levou â fazer isto ou aquilo?" Até se diz em inglês "O que 'te
de dois universos de discurso não resistiria aos assaltos de causou' agir assim ?"
um a análise conceituai m ais atenta às variações de sentido Vejo três situações-tipo em que essa espécie de pergunta
de term os supostam ente pertencentes a dois jogos de lingua­ é justificada por um a resposta de tipo causal. A prim eira é
gem nitidam ente distintos, variações que fazem que esses ter­ aquela em que à pergunta: "O que levou você a fazer isto ou
mos não parem de interpenetrar-se, a ponto de tornar proble­ aquilo?" se dá um a resposta que não enuncia um antecedente
mático o próprio princípio de sua dissociação. É nesse estágio no sentido da causa hum iana, nem um a razão-de no sentido
da interpenetração de dois universos de discurso que nos situa­ racional, m as um im pulso incidente, ou, como se diz em psi­
remos, antes de chegarm os ao estágio em que o jogo de lin­ canálise, um a pulsão (al.: Trieb; ingl.: drive). Segunda situa­
guagem da ação e de suas razões de agir é engolido pelo do ção-tipo: aquela em que, à pergunta "O que leva você habi­
acontecim ento e da causalidade. tualm ente a com portar-se assim?", a resposta menciona um a
disposição, um a tendência duradoura ou mesmo perm anente.
Terceira situação-tipo: se, à pergunta "O que fez você se so­
7. H eidegger, Ser e tempo, § 32.
8. P. Ricœur, "Le m odèle du texte: l'action sensée considérée com m e un
bressaltar?" a resposta for "Um cachorro me assustou", em
texte"[0 m odelo do texto: a ação sensata considerada como um texto], in Du que não se une, como anteriorm ente, o como ao porquê, mas
texte à l'action, op. cit., pp. 183-211. o objeto à causa; é característica específica da emoção, do pon­
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to de vista de sua expressão linguística, que seu objeto seja sua mas sobrepostos, segundo a relação que prevalece entre o con­
causa e vice-versa. ceito de pessoa e o de corpo, e que obriga a dizer que as pes­
Esses três contextos podem ser aproximados sob o título soas tam bém são corpos. Portanto, é a análise conceituai da
genérico de afeto ou paixão; no sentido antigo do termo. Nesses noção de pessoa no plano ontológico das entidades últim as que
três contextos, verifica-se que certa passividade é correlativa exerce aí um a injunção prelim inar sobre a sem ântica da ação;
da ação de fazer. A mediação dessa passividade parece essen­ em contrapartida, desta se espera que satisfaça às exigências
cial à relação desejar-agir, que não poderia ser reduzida à jus­ do âmbito conceituai que determ ina nosso emprego sensato e
tificação que um agente puram ente racional daria para sua apropriado do term o pessoa.
ação; essa ação seria precisam ente sem desejo! Essa fenome- A fragilidade da teoria dicotômica da ação que acabamos
nologia do desejo, ampliada para a do afeto, obriga a dizer que, de expor é explicada, a'm eu ver, por seu caráter fenomenolo-
m esm o no caso da motivação racional, os motivos não seriam gicamente pouco plausível e por sua falta de consideração para
motivos da ação se tam bém não fossem suas causas. com as injunções adjacentes à teoria dos particulares básicos.
Essa justificação fenomenológica conferirá plausibilidade A partir daí, não será de espantar que um a inversão completa
indubitável à tese causalista. A questão será então saber se não da relação entre ação e acontecimento no nível do o quê? e da
é necessário outro modelo causal que não o de Hume, parale­ relação entre motivo e causa no nível do por quê? esteja ligada
lam ente à reformulação da ideia de motivo reduzida à de ra- ao esquecimento m ais completo ainda das injunções ontológi­
zão-de. Essa só poderá ser discutida no fim do itinerário que cas de que acabamos de falar, esquecim ento que será selado
tiver levado a absorver a ideia de motivo na de causa. pela substituição da ontologia regional da pessoa por um a on­
Finalmente, não só no plano fenomenológico a dicotomia tologia geral do acontecimento. Mas essa dupla inversão, no
entre dois universos de discurso é criticável e foi criticada no plano da análise do discurso e no das entidades básicas, não
sentido de que falaremos adiante, m as no plano ontológico. O será atingida diretam ente. Antes de levar em consideração a
term o ausente de toda a discussão, que logo se tornará term o confusão dos universos de discurso em benefício do aconteci­
excluído, é, curiosamente, o term o agente. Ora, é a referência m ento e da causa, é bom deter-se no estágio intermediário, o
ao agente que nos impede de ir até o fim da dupla oposição da interpenetração m útua.
entre fazer ocorrer e ocorrer, e entre motivo e causa. A oposi­
ção é plausível no nível do par o quê-por quê? No vocabulário
de Strawson, que usam os no prim eiro estudo, ela equivale a 3. Análise conceituai da intenção
opor os predicados psíquicos aos predicados físicos, com a res­
salva de se dar algum lugar ao caso misto do desejo com sua É notável o fato de a análise conceituai da noção de inten­
dupla valência de força e de sentido. Mas de um a análise par­ ção, que de propósito deixamos de lado até agora, ter .dado
cialmente correta é extraída um a conclusão errônea. O que se lugar à espécie de análise cheia de nuances e dégradés, herdada
perdeu de vista foi a atribuição à m esm a coisa - dizemos ago­ do W ittgenstein das Investigações filosóficas, que, antes de qual­
ra ao m esm o agente - das duas séries de predicados. Dessa quer ataque frontal, contribuiu para o desgaste das polaridades
atribuição única resulta que a ação é ao m esm o tem po certa excessivamente sim étricas9. O livro Intention, de E. Anscombe,
configuração de movimentos físicos e um a operação passível
de ser interpretada em função das razões de agir que a expli­
9. J.-L Petit m ostra em sua obra inédita La Semantique de l'action (Univer­
cam. Somente a relação com um mesmo particular básico jus­ sidade Paris I - Sorbonne, 1988) que a chamada escola de Oxford recorre essen­
tifica que os dois jogos de linguagem não fiquem justapostos, cialm ente à tradicional filosofia do senso com um para preencher o vazio aber-
54 0 SI-MESMO COMO OUTRO
UMA SEMÂNTICA DA AÇÃO SEM AGENTE 55

nesse aspecto é o testem unho mais eloquente daquilo que passado, em compensação, é a m ais frequente no caso da ação
chamarei, sem intenção pejorativa, de im pressionism o concei­ realizada intencionalmente. Mas, sobretudo, apenas o terceiro
tuai, para distingui-lo da incisividade de algum m odo cubista emprego só incide na análise no nível de sua declaração. Os
da teoria de D. Davidson, à qual dedicarem os a próxima aná­ outros dois empregos são qualificações secundárias de um a ação
lise. Seria de esperar que um a análise conceituai da intenção observável por todos. Portanto, começaremos pelo uso adver­
levasse do par o quê-por quê? à pergunta quem?. Acaso a inten­ bial do term o "intenção" (cujo equivalente adjetival é "ação in­
ção, fenomenologicamente falando, não é a visada de um a tencional"). Esse emprego não obriga a nenhum a violação das
consciência em direção a algum a coisa por fazer? É curioso regras da descrição.
que a análise conceituai dá deliberadam ente as costas à feno- Esse ataque do problema, fragm ento após fragm ento (pie-
menologia: para ela, a intenção não é a intencionalidade no cemeàí), é muito notável para nossa própria investigação: to ­
sentido de Husserl. Não é testem unho da transcendência para m ando como eixo da análise o uso adverbial da intenção, pri­
si m esm a de um a consciência. Seguindo W ittgenstein nisso, vilegia-se tam bém o uso que m anifesta da m aneira menos
E. Anscombe não quer tom ar conhecimento de fenômenos que explícita a relação entre a intenção e o agente. Ao mesmo tempo
sejam acessíveis apenas à intuição privada, portanto passíveis que parece estreito o elo entre a intenção-de e aquele a quem
somente de um a descrição ostensiva privada. Ora, esse seria o ela pertence, a qualificação intencional da ação vai poder ser
caso se a intenção fosse tom ada no sentido de intenção-de... feita independentem ente de qualquer consideração da relação
Essa espécie de intenção voltada para o futuro, e não verifica­ de posse que vincula a ação ao agente. Com efeito, o critério
da pela própria ação, é por princípio acessível somente ao pró­ do intencional - portanto, do o quê? da ação - é a forma assu­
prio agente que a declara. Para um a análise conceituai que só m ida por algum as respostas dadas à pergunta por quê? Nesse
adm ita um critério linguístico público, a intenção-de vale ape­ sentido, é o por quê? que governa o o quê? e, nessa medida,
nas a título de declaração de intenção. A intenção não declara­ afasta da interrogação sobre o quem?.
da não se sabe o que é. Ora, a gramática de superfície da decla­ A tese central é enunciada nos seguintes termos: "O que
ração de intenção é incerta: nada distingue o futuro da intenção distingue as ações intencionais das que não o são? A resposta
(vou passear) do futuro da avaliação do futuro (vou ficar do­ que sugiro é que são as ações às quais se aplica certo sentido
ente) e do futuro do comando (você vai me obedecer). Para da pergunta por quê?; esse sentido, evidentemente, é aquele
além da gramática de superfície, o que faz falta é o critério de segundo o qual a resposta, se positiva, apresenta um a razão de
verdade da declaração de intenção, se a intuição da significa­ agir"10. Ao se pôr à prova esse critério m anifesta-se o espírito
ção "tenho a intenção-de" for considerada irredutível. de fineza de um a análise que pulverizará as dicotomias incisi­
Q uer isso dizer que é impossível a análise conceituai da vas da análise anterior e, paradoxalmente, abrirá cam inho
intenção? O obstáculo poderá ser vencido se, seguindo nisso o para o espírito de geom etria de um a teoria da ação diam etral­
uso comum da língua, distinguirm os três empregos do term o m ente oposta à anterior. Na verdade, em vez de o critério da
"intenção": ter feito ou fazer algum a coisa intencionalmente; pergunta por quê? encerrar a questão, sua aplicação dá acesso a
agir com certa intenção; ter a intenção-de. Só o terceiro em ­ um campo extraordinariam ente variado de exemplos m istos e
prego contém referência explícita ao futuro. A referência ao de contraexemplos, quando não faz penetrar num labirinto de
análises nas quais o leitor se sente um pouco perdido. Essa
to pelas Investigações filosóficas (§§ 611-660) entre o nível sem ântico da lingua­ preocupação com distinções finas se expressa de início na in­
gem e a experiência efetiva do agir. Os paradoxos das Investigações ocupam a
partir daí posição estratégica na filosofia analítica da ação.
10. L. E. Anscom be, Intention, op. cit., p. 9 [trad, do autor].
56 0 SI-MESMO COMO OUTRO UMA SEMÂNTICA DA AÇÃO SEM AGENTE 57

vestigação dos casos em que a pergunta por quê? não tem apli­ que sabia que estava fazendo isto ou aquilo porque o observa­
cação. Era já a precaução tom ada por Aristóteles em sua aná­ ra. É fazendo que sabemos que fazemos o que fazemos e por
lise da prohaíresis (escolha preferencial): caso de ignorância, que fazemos. Essa noção de conhecim ento sem observação, de
caso de coerção. Anscom be refina: tudo depende da descrição que já falamos acima, tam bém cham ada de conhecimento prá­
da ação segundo a qual o agente não estava a par (aware) do tico (saber-como, e não saber-que), aproxima incontestavel­
que fazia (ele não sabia que estava fazendo barulho enquanto m ente a posição de E. Anscom be da posição dos partidários da
serrava um a tábua). Mas a principal vítim a é a oposição inci­ dualidade dos jogos de linguagem .
siva entre razão de agir e causa. O que se tem é um espectro de M as não se deve acreditar que a noção de conhecim ento
casos em que a oposição só vale para os casos extremos. N es­ prático convida a levar em conta a relação entre a ação e seu
se aspecto, os exemplos m istos são os m ais interessantes. Por agente, ainda que, em todos os casos examinados, o verbo de
isso - avalia Anscom be - é toda a problemática da causalidade ação seja antecedido de um pronom e pessoal. O critério pela
que se encontra num estado de excessiva confusão; portanto, pergunta por quê? e pelas respostas aceitáveis a essa pergunta
devemos nos lim itar a dizer que, em algum as das respostas privilegia o lado objetivo da ação, a saber, o resultado obtido,
aceitáveis à pergunta por quê?, em pregam os de m odo signifi­ que, por sua vez, é um acontecimento. Como diz Anscom be de
cativo o term o causa. Como dissem os acima, costum a-se falar modo quase paradoxal: eu faço o que acontece. A obliteração
legitim am ente daquilo que levou alguém a agir. Mesmo a n o ­ do agente da ação é tam bém reforçada pela ênfase do lado
ção de causa m ental tem lugar legítimo em certas descrições objetivo da razão de agir. Retom ando a análise da vontade-de,
da ação intencional (a m úsica m ilitar me entusiasm a; por isso, iniciada acima, a autora leva sistematicamente em conta a for­
m archo em cadência). Os casos mais frequentes em que razão m a do gerúndio inglês (wanting) sem nunca considerar a expres­
de agir e causa tendem a confundir-se são aqueles em que os são "tenho vontade-de" (I want); assim, ela escreveu: o sentido
motivos olham para trás (backioard-looking motives) (caso da primitivo de ter vontade-de é tentar atingir (trying to get - o
vingança ou da gratidão, por exemplo); em compensação, os gerúndio gram atical perm ite essa elisão do sujeito do verbo
motivos prospectivos 'correspondem mais à noção de inten­ expresso em tem pos verbais). Q uanto à espécie mais frequen­
ção-com que se age. Disso falaremos adiante. Percebe-se como tem ente denom inada vontade, a saber, o desejo, o que conta
é indefinida a fronteira entre razão de agir, motivo prospecti­ para a análise conceituai não é a carência e a tensão sentidas
vo, causa m ental e causa pura e simples ("Uma careta me deu por um sujeito assim afetado, m as o "caráter de desejabilida-
um susto"). Portanto, é constante o critério da pergunta por de", ou seja, aquilo pelo que algo é desejável. Por que essa
quê?, e sua aplicação é espantosam ente flexível. ênfase no lado objetivo do desejo? Por duas razões. A prim ei­
Que dizer da oposição entre ação e acontecimento, que, ra é a preocupação de deixar clara a dim ensão de avaliação
na análise acima, pusem os antes da oposição entre motivo e inseparável da dim ensão descritiva, m as sem introduzir con­
causa? Também neste caso a posição de E. Anscom be é cheia siderações m orais na análise conceituai. A segunda é a preo­
de nuances. Por um lado, sustenta que a ação intencional é ob­ cupação de criar um a transição inteligível entre ação intencio­
jeto de descrição; o lugar ocupado pela noção de ação sob tal nal (no sentido de "executada intencionalmente") e ação com
descrição é testem unho disso; nesse sentido, o "quê" do ato a intenção-de.
diz respeito a um conhecimento que pode ser verdadeiro ou fal­ Esse segundo emprego da palavra "intenção" abrange aqui­
so. Adiante voltaremos a essa insistência na descrição em filo­ lo que cham am os acima de "motivo prospectivo". M as deve
sofia analítica. Por outro lado, as ações intencionais constituem ficar bem claro que com isso não se reintroduz nenhum a en ­
um a subclasse das coisas conhecidas sem observação: não digo tidade interior, acessível apenas ao agente. A ação está lá, e,
58 0 SI-MESMO COMO OUTRO UMA SEMÂNTICA DA AÇÃO SEM AGENTE 59

para descrevê-la, alguém a explica. Ora, explicá-la visando um A ironia da situação é ter sido precisam ente essa implica­
resultado ulterior é sim plesm ente proceder a um raciocínio ção m útua entre a pergunta o quê? e a pergunta por quê? que
prático que confere complexidade discursiva à razão de agir ao contribuiu para obliterar a pergunta quem? Explico do seguin­
m esm o tem pò que se apresenta um caráter de desejabilidade te m odo esse fenômeno à prim eira vista surpreendente. Em
em posição de premissa. Estamos aí em terreno seguro, de­ m inha opinião, foi a preocupação exclusiva com a verdade da
m arcado outrora por Aristóteles com o título de silogismo prá­ descrição que tendeu a desfazer o interesse pela atribuição da
tico, ainda que seja preciso corrigir as interpretações m oder­ ação a seu agente. Ora, a atribuição da ação ao agente cria um
nas ou mesmo as do próprio Aristóteles (um a vez que este põe problema de veracidade, e não mais de verdade, no sentido des­
sua análise a serviço da m oral e, sobretudo, porque não fica critivo do termo. É esse problema que encontrarem os adiante
claro que a conclusão do silogismo prático é um a ação). O erro com a análise da declaração de intenção que sistematicamente
- diz E. Anscom be - é fazer do silogismo prático um raciocínio deixamos de lado. Isso tam bém é m ostrado pelos casos de ale­
que prova, ao passo que é um raciocínio que conduz à ação. gação m entirosa feita aos outros ou a si mesmo, as confusões
Com efeito, a virtude do raciocínio prático é m ostrar um esta­ do autor da ação quanto às suas próprias intenções, ou sim ­
do de coisas futuro como estágio ulterior de um processo cujo plesmente as hesitações, os embates interiores apresentados
estágio anterior é a ação considerada. N a expressão: eu faço por Aristóteles com o título de deliberação. Nesse aspecto, a
isto em vista daquilo, a tônica não está em "eu", m as em "em relação meio-fim e a lógica a ela vinculada não esgotam a sig­
vista de", ou seja, na relação de dependência entre dois estados nificação da intenção com a qual se age. Esta, parece-me, im ­
de coisas, um anterior, outro ulterior. plica, além disso, o puro ato de tencionar {act ofintending) que
É aqui que a implicação m útua entre a pergunta o quê? e a foi desalojado do prim eiro lugar. Sugiro aqui dizer que a ques­
pergunta por quê? vale plenam ente e nos dois sentidos: da des­ tão de veracidade, distinta da de verdade, diz respeito a um a
problemática mais geral da atestação, por sua vez apropriada à
crição para a explicação, m as tam bém , ao inverso, da explica­
questão da ipseidade: m entira, trapaça, confusão e ilusão se­
ção para a descrição, um a vez que a ordem introduzida entre
riam do âmbito desse registro. Talvez seja próprio do estilo da
um a série de razões de agir pelo raciocínio prático repercute
sobre a própria descrição da ação11.
sobe e desce. Certos m úsculos, cujos nom es latinos os m édicos conhecem , se
contraem e relaxam. Em certas fibras nervosas são produzidas determ inadas
11. Lembro o exem plo que tom ou famosa a análise de E. Anscombe: Um substâncias cuja formação durante o m ovim ento voluntário diz respeito aos
hom em puxa água com bomba para uma cisterna que abastece uma casa de fisiologistas. O braço, m exendo-se, projeta uma sombra sobre um rochedo,
água potável. A lguém descobriu o m eio de contaminar sistem aticam ente a nas­ onde faz aparecer um rosto cujo olhar parece sair do rochedo. Além disso, a
cente com um veneno lento, cujos efeitos se fazem sentir quando é tarde dem ais bomba em ite uma série de chiados que produzem um ritmo conhecido. A per­
para tratá-los. A casa é regularmente habitada por um pequeno grupo de agi­ gunta formulada por esse exem plo é a seguinte: o que o hom em está fazendo?
tadores que agem em nom e de líderes políticos que dirigem um grande Estado. Qual é a descrição de sua ação? Resposta: a pergunta adm ite tantas respostas
Eles estão incum bidos de exterminar os judeus e talvez preparem uma guerra quantas são permitidas pela hierarquia dos "em vista de..."; todas as descrições
m undial. O hom em que contam inou a nascente calculou que, se aquela gente são igualm ente válidas. Em particular, pode-se também designar a ação em
for destruída, os chefes dele tomarão o poder e governarão bem , estabelecendo virtude da primeira coisa feita ou do últim o resultado em vista. O fato de o
até m esm o o reino dos céus na terra e garantindo vida feliz a todo o povo. E ele agente ser m encionado em cada pergunta e em cada resposta não importa ao
com unicou seu cálculo e a natureza do veneno ao hom em que faz a bomba encadeam ento das razões de agir pautado pelo encadeam ento dos resultados
funcionar. A morte dos habitantes da casa, evidentem ente, terá todas as espé­ em vista. Ora, som ente esse encadeam ento das razões de agir é que possibilita
cies de outros efeitos; por exem plo, certo núm ero de pessoas desconhecidas responder se há quatro ações ou quatro descrições de uma m esm a ação: operar
para aqueles hom ens receberão heranças cuja origem não conhecerão. Acres­ a bomba, alimentar a cisterna, envenenar os habitantes, desencadear a guerra.
cente-se, para complicar o exemplo: o braço do hom em que opera a bom ba Cf. Intention, op. cit., §§ 23 ss.
60 O SI-MESMO COMO OUTRO 61
UMA SEMÂNTICA DA AÇÃO SEM AGENTE

filosofia analítica e de sua preocupação quase exclusiva com a o critério da pergunta por quê? e das respostas apropriadas
descrição e com os critérios de verdade apropriados à descri­ vale tam bém para a intenção de um a ação proposta. É o m es­
ção ocultar os problemas referentes à atestação. Se a possibili­ mo que dizer que a m arca do futuro, com partilhada pela in­
dade de desconfiar da veracidade de um a declaração de inten­ tenção com a predição ou com a avaliação do futuro (isto vai
ção depõe contra seu caráter de descrição e contra a pretensão acontecer), não é discrim inante, m as apenas explicação por
à verdade vinculada às descrições, essa m esm a possibilidade meio de razões; desse ponto de vista, não im porta que a inten­
de desconfiar prova por si só que o problema form ulado é do ção seja cum prida ou não, ou que a explicação se limite a um
âmbito de um a fenomenologia da atestação que não se deixa lacônico: porque eu tinha vontade e ponto final. Simplesmente
reduzir a um a criteriologia apropriada à descrição. Os testes se elim inou o que cham arei de intenção da intenção, ou seja,
de sinceridade, como se dirá com m ais vagar no contexto do o im pulso específico em direção ao futuro em que a coisa por
estudo dedicado à identidade narrativa, não são verificações, fazer está por fazer por mim, o m esmo {ipse) que disse que
m as provas que term inam enfim num ato de confiança, num fará13. Em outras palavras, é elim inado aquilo que põe a inten­
últim o testem unho, sejam quais forem os episódios interm e­ ção no cam inho da promessa, ainda que falte à firme intenção
diários de suspeição. H á um momento, como reconhece a pró­ o contexto convencional e público da prom essa explícita.
pria Anscombe, em que um único hom em pode dizer qual é Em conclusão, a intenção-de, relegada ao terceiro lugar
sua intenção. Mas esse dizer é da ordem da confissão: expres­ pela análise conceituai, volta ao primeiro num a perspectiva
são do testem unho interior comunicado, a confissão ê aceita fenomenológica. Restará por dizer em que sentido a atestação
ou não. Mas nunca é o equivalente de um a descrição pública; da intenção-de é ao m esm o tem po atestação do si.
é um a confissão compartilhada. O que Anscom be cham a de
conhecim ento sem observação, a m eu ver e contrariando a au­
tora, é da alçada desse registro da atestação. Concordo que a 4 . Semântica da ação e ontologia do acontecimento
atestação da visada intencional não é obra de "nenhum olho
estranho a olhar em meio ao agir" (§ 32 [trad. do autor]). P re­ O terceiro grau da captura do o quê? no por quê?, com seu
cisamente, a atestação escapa à visão, se a visão se expressar corolário - a elisão quase completa da pergunta quem?-, é atin­
em proposições passíveis de serem consideradas verdadeiras gido num a teoria da ação em que o par das perguntas o quê? e
ou falsas; veracidade não é verdade, no sentido de adequação por quê? é aspirado por um a ontologia do acontecimento impes­
do conhecim ento ao objeto12. soal que faz da ação um a subclasse de acontecimentos. Essa
Na falta de poder tem atizar essa atestação, a análise con­ dupla redução, lógica e ontológica, é realizada com notável vi­
ceituai de E. Anscombe é incapaz de esclarecer com detalhes gor por Donald Davidson na série de artigos coligidos em vo­
o terceiro emprego do term o intenção: a intenção-de... Todos lume com o título significativo Actions and Events14.
lem bram com que argum entos esse uso, im portante do ponto
de vista fenomenológico, fora desalojado do prim eiro lugar no
13. Encontra-se na própria Anscom be o vestígio desse problema; ela defi­
início da investigação e relegado ao terceiro. Voltando a esse ne assim a expressão dá intenção: "É a descrição de algo futuro em que o locu­
emprego no fim de seu percurso, a autora lim ita-se a dizer que tor é uma espécie de agente, descrição que ele justifica (se de fato a justificar)
com razões de agir, a saber, razões pelas quais seria útil ou atraente que a des­
crição se revelasse verdadeira, e não pela prova material [evidence] de que é
12. A questão da atestação (e a questão conexa da veracidade) irá abrindo
verdadeira" (i b i d p. 6 [trad. do autor]).
cam inho lentam ente de estudo em estudo, antes de ser abordada de frente no
14. D. Davidson, Essays on Actions and Events, Oxford, Clarendon Press,
décim o estudo.
1980.
62 UMA SEMÂNTICA DA AÇÃO SEM AGENTE 63
O SI-MESMO COMO OUTRO

se é tentado a associar à descrição da ação em term os de in­


A teoria se inicia com um paradoxo aparente. Isto porque,,
embora comece ressaltando o caráter teleológico que faz a dis­ tenção, à explicação causal. De fato, o interesse despertado
tinção entre a ação e todos os outros acontecimentos, esse tra­ pela teoria de Davidson e, até certo ponto, seu caráter parado­
ço descritivo é rapidam ente subordinado a um a concepção xal, consiste no fato de que ela começa reconhecendo o caráter
causal da explicação. É nessa subordinação que reside a inter­ teleológico da ação no plano descritivo. O que distingue a ação
venção decisiva dessa teoria da ação, tam bém m al-acabada, de todos os outros acontecim entos é precisam ente a intenção.
tão retilínea, ouso dizer, quanto pareceram im pressionistas as As ações sem dúvida são acontecimentos, desde que sua des­
análises de E. Anscombe. Por sua vez, na estratégia de David- crição designe algo que acontece, como sugere a gram ática dos
verbos, m as nenhum a gram ática perm ite fazer a distinção ní­
son a explicação causal serve para inserir as ações num a onto­
logia, não oculta, m as declarada, que faz da noção de aconte­ tida entre verbos que não designam ações, tais como "trope­
cimento, no sentido de ocorrência incidente, um a classe de çar", e verbos que designam ações, tais como "bater", "matar".
entidades irredutíveis que deve ser posta em pé de igualdade Nesse sentido, a distinção entre fazer-ocorrer e ocorrer, na qual
com as substâncias no sentido de objetos fixos. É essa ontolo­ os autores anteriores tanto insistiram , incide no âmbito da cir­
cunscrição dos acontecimentos. É a intenção que constitui o cri­
gia do acontecimento, por natureza impessoal, que, a m eu ver,
estrutura o espaço inteiro de gravitação da teoria da ação e im ­ tério distintivo da ação entre todos os outros acontecimentos.
Mas em que sentido se deve tom ar a palavra "intenção"?
pede um tratam ento temático explícito da relação ação-agente,
Em sua apresentação, D. Davidson adota a distinção proposta
que, porém, a análise está o tempo todo tangenciando. Vejo nes­
se fracasso do retorno da ação para o agente um a incitação, de por E. Anscom be entre vários usos linguísticos do term o "in­
tenção": intenção-com -a-qual..., intencionalm ente, intenção-
algum modo à revelia, a buscar num a outra espécie de onto­
~de... A estratégia adotada em 1963 consiste em privilegiar
logia, m ais consoante com a investigação do si, o verdadeiro
lugar de articulação entre a ação e seu agente. nele tam bém o uso adverbial da intenção (X fez A intencional­
mente) e a subordinar-lhe o uso substantivo (A tem a intenção
de fazer X nas circunstâncias Y), considerando-se a intenção-
1. Procedendo em ordem, realizarei a análise nos limites
-com -a-qual simples extensão discursiva do advérbio "inten­
do grupo de ensaios dedicados à relação entre intenção e ação,
tom ando como guia o prim eiro desses ensaios: "Actions, Rea- cionalmente". Várias razões justificam essa estratégia. Em pri­
sons and Causes" (1963)15. Esse ensaio, que foi ao mesmo tem ­ meiro lugar, tratando a intenção como um advérbio de ação, é
possível subordiná-la à descrição da ação como acontecimento
po um pontapé inicial e um a jogada de mestre, provocou o
realinham ento de toda a filosofia da ação, obrigada a tom ar ido; é de notar que, na m aioria dos exemplos canônicos su b ­
posição em relação ã essa nova situação. Esse prim eiro ensaio m etidos à análise lógica das expressões de ação, os verbos são
- que, como se dirá adiante, foi submetido a im portante revi­ enunciados num dos tem pos verbais do passado: Brutus m a­
são cerca de quinze anos depois, no últim o ensaio do grupo, tou César etc.; essa será um a fonte de dificuldade na análise
intitulado "Intending" (1978)16 - não trata tem aticam ente do da intenção-de, em que a orientação para o futuro é fortem en­
fundam ento ontológico da teoria da ação num a ontologia do te marcada, enquanto é pouco m arcada na form a passada da
ação-acontecimento. O utro argum ento: Davidson tem em co­
acontecimento, m as a pressupõe a cada página; o ensaio limi-
m um com toda a filosofia analítica um a extrema desconfiança
ta-se a reduzir implacavelmente a explicação teleológica, que
em relação a essas entidades misteriosas que seriam as voli­
ções, embora não rejeite a noção de acontecimento mental, pois
15. In Essays on Actions and Events, op. cit., pp. 3-19.
16. Ibid., pp. 83-102. desejos e crenças, que em breve serão colocados na posição de
64 0 SI-MESMO COMO OUTRO 65
UMA SEMÂNTICA DA AÇÃO SEM AGENTE

antecedente causal, são realm ente acontecim entos mentais. segundo a qual a explicação por meio de razões é um a espécie
Mas esses acontecimentos m entais são tais que não se m os­ de explicação causal. Em prim eiro lugar, para ele é um a tese
tram incompatíveis com um a versão fisicalista, de que não fa­ de senso comum: acaso não se pergunta o que levou, conduziu
larei aqui. Portanto, não é a noção de acontecimento m ental (e em inglês caused) alguém a fazer o que fez? Além disso, é
que dificulta, m as a espécie de acontecimento que não se deixa um a tese hom ogênea com toda a ontologia do acontecimento.
incluir no esquem a da causalidade antecedente que se desen­ O que é causalidade, senão um a relação entre acontecimentos
volverá adiante. Finalmente, é a tendência a entrar num esque­ singulares, discretos? Ora, contrariando o argum ento citado
m a causalista que leva a privilegiar o uso adverbial do term o no parágrafo anterior, razão e ação são realm ente aconteci­
"intenção". É essa inclusão da teleologia do plano descritivo na m entos, por seu caráter de incidência (uma disposição se torna
causalidade do plano explicativo que agora vamos estabelecer. razão de agir só por um acesso instantâneo), e, além disso, são
A bem da verdade, com a intenção tomada no sentido ad­
acontecim entos distintos que podem ser nom eados e descritos
verbial, descrição equivale a explicação. Descrever um a ação
separadam ente, portanto candidatos sérios aos papéis de cau­
como tendo sido executada intencionalmente é explicá-la pela
sa e efeito; nesse aspecto, o acontecim ento m ental, conside­
razão que o agente teve para fazer o que fez. Em outras pala­
rado do ângulo da incidência, é totalm ente paralelo à fissura
vras, é dar um a explicação em forma de racionalização; é dizer
súbita que transform a em acontecimento causador da catástro­
que a razão alegada "racionaliza" a ação. A partir daí, a tese de
fe um defeito na construção de um a ponte.
Davidson desenvolve-se em dois tempos: primeiro explicitar o
Acrescentemos tam bém - e esse ponto é mais delicado -
que significa racionalizar; depois m ostrar que a racionalização é
que teoria causal não deve ser confundida com teoria nomoló-
um a espécie de explicação causal. Pode-se dizer que alguém
gica: não é necessário conhecer um a lei para afirm ar um nexo
teve um a razão para fazer algo, se, por um lado, tiver certa "pro-
causal que, como se disse, rege acontecimentos particulares.
-attitude" ~ digamos: um a atitude favorável, um a inclinação -
Essa dissociação entre explicação causal e explicação nomoló-
em relação a ações de certa espécie, entendendo-se por inclina­
gica perm ite vencer o principal obstáculo oposto em filosofia
ção algo mais amplo que o desejo e a vontade (wanting), visto
que a atitude favorável inclui as obrigações e todos os objetivos analítica à interpretação causal da explicação da ação por meio
privados ou públicos do agente; por outro lado, se houver um a de razões. Ora, é um a iniciativa no m ínim o plausível18. Eu
crença (conhecimento, percepção, observação, lembrança) de
que a ação do agente pertence a essa categoria de ações. (Pode- 18. D avidson adm ite que essa é uma versão fraca da definição humiana
da causalidade. Esta, sem dúvida, leva em conta acontecim entos singulares,
-se observar que o agente aqui é mencionado, m as será temati- pois só invoca a sem elhança entre o que chama de "objetos"; mas, além disso,
zado como tal?) Em suma, um a ação intencional é um a ação considera a regularidade na repetição; assim, pod e ser observado um elo causal
executada "por um a razão". Será possível cham ar de "razão pri­ sem que a lei subjacente seja conhecida. P. Strawson, num dos ensaios dedica­
mária" o conjunto constituído pela atitude favorável e pela cren­ dos à obra de D avidson ("Causation and explanation", in B. Vermazen e M. B.
Hintikka (eds.), Essays on D avidson Actions and Events, Oxford, Clarendon
ça: "conhecer a razão prim ária pela qual alguém agiu como agiu
Press, 1985, pp. 115-36), dá à tese de D avidson um reforço que, na verdade,
é conhecer a intenção com a qual a ação foi executada"17. poderia acabar por enfraquecê-la: ele observa que no nível da sim ples observa­
É com base nessa equação entre razão de fazer e intenção ção ordinária, o fenôm eno de produção (o "fazer-ocorrer", tão discutido em
com a qual se faz que Davidson estabelece sua tese principal, filosofia analítica) presta-se a uma tipificação da qual em ergem regularidades
que, por sua vez, em outro nível de discurso explicativo, se valem de verdadei­
ras leis; assim , vê-se o trator puxar ou empurrar, tal com o podem os puxar ou
17. "To know a primary reason why someone acted as he did is to know an inten­ empurrar com a força de nossos braços. É o caso de todas as "transações m ecâ­
tion with which the action was done" (ibid., p. 7). nicas", segundo expressão de Strawson. A tese que incorpora a teleologia à
66 0 Sl-MESMO COMO OUTRO UMA SEMÂNTICA DA AÇÃO SEM AGENTE 67

mesm o defendi em Tempo e narrativa I a noção de explicação sição, à qual Ryle devolveu prestígio em The Concept ofM ind19.
causal singular no plano do conhecim ento histórico, na esteira Por outro lado, sem dúvida se pode arguir que a ideia de efi­
de M ax W eber e Raym ond Aron. Além disso, expressei um ciência, alijada da física pela revolução galileana, sim plesm en­
pouco acima m inhas próprias dúvidas a respeito de um trata­ te recuperou seu lugar de origem, sua terra natal, na experiên­
m ento puram ente dicotômico do par conceituai motivo-causa. cia do desejo; m as não poderíam os nos satisfazer com um a
M as limiteí-me então a um simples inventário das situações análise que se lim itasse a restabelecer um significado arcaico
linguísticas nas quais parece legítimo tratar os motivos como de causa para aquiescer com experiências nas quais o motivo
é efetivam ente vivenciado como causa. É a própria gram ática
causas. Gostaria de levar o argum ento m ais longe e propor
das noções de pulsão, disposição e emoção, enfim a gramática do
um a interpretação da motivação que ao m esm o tem po satisfa­
conceito de afeto, que exige que o caráter intencional da ação
ça à intuição fenomenológica e ofereça um a alternativa à teo ­ se articule com um tipo de explicação causal que lhe seja h o ­
ria causalista de Davidson, que perm anece fundam entalm en­ m ogêneo. Esta só pode ser a explicação teleológica20.
te hum iana. Se a fenomenologia da vontade-de exige um a O que é um a explicação teleológica? É um a explicação na
reformulação da ideia de motivação que, como dizíamos, leve qual a ordem é, enquanto tal, um fator de sua produção, é um a
em conta a dim ensão de passividade que parece correlativa da ordem self-imposeã. Dizer que um acontecim ento ocorre por­
ação de fazer, tem -se a impressão de que é imprescindível um a que é visado como fim não é recorrer a um a entidade oculta,
reformulação paralela da ideia de causa que a dissocie do m o­ virtus dormitiva ou outra, m as descrever um sistem a e um a lei
delo humiano. Por um lado, parece que o prestígio desse m ode­ de sistema, tais que nesse sistema um acontecimento ocorre
lo foi o que im pediu de levar em conta os casos em que motivo porque as condições que o produziram são as necessárias para
e causa são indiscerníveis, a saber, todos aqueles em que se produzir esse fim, ou, citando Charles Taylor: "A condição de
exprime a velha ideia de eficiência ou m esm o a ideia de dispo - aparecim ento de um acontecimento é que se realize um estado
de coisas tal que acarrete o fim em questão, ou tal que esse acon­
tecim ento seja necessário para esse fim." Assim, dizer que um
causalidade entre acontecim entos particulares corre então o risco de perder o
caráter não só paradoxal com o tam bém discrim inativo. A ssim com o outros au­
anim al espreita a presa é dizer que a espécie de ação descrita
tores ressaltaram sobejamente, a noção de causa m ostra tal polissem ia que já como espreita é aquela que, em seu repertório de com porta­
não se sabe se em virtude de um antropom orfism o não notado é que acredita­ m entos disponíveis, se faz necessária para satisfazer sua fome.
m os ver o buldôzer empurrar, tal com o empurram os um a pedra com esforço Portanto, não se postula nenhum a entidade anterior ou inte­
físico, ou se é por transferência das coisas a n ós m esm os que aplicam os à nossa rior; diz-se apenas que o fato de um acontecimento ser neces­
própria ação um m odelo mecânico. M esmo porque Strawson retira todo e qual­
quer interesse dessa questão de prioridade, um a vez que, para ele, a ruptura
sário a dado fim é um a condição do aparecim ento desse acon­
im portante não está entre causalidade hum ana (seja no esforço, seja na ponde­ tecimento. É perfeitam ente observável o fato de o estado de
ração dos m otivos) e causalidade material, m as entre o caráter natural da rela­ sistem a e seu am biente serem tais que exijam dado aconteci­
ção causai entre acontecim entos e circunstâncias particulares e o caráter não m ento (certo com portam ento: no caso, a espreita) para que
natural da relação explicativa que interliga não os próprios acontecimentos, ocorra certo resultado; tam bém observável é o fato de essa
m as o fato de eles ocorrerem. Ora, segundo Strawson, os fatos designam estados
de coisas, que não ocorrem propriamente, m as são apenas exem plificados pelas
ocorrências singulares. N ão me deixarei aqui arrastar para a polêm ica inaugu­ 19. G. Ryle, The Concept ofM ind, Londres, N ova York, H utchinson's Uni­
rada por Strawson sobre a relação entre estados de coisas (intemporais) e acon­ versity Library, 1949; trad. fr. d e S. Stem-Gillet, La notion d'esprit, Paris, Payot,
tecim entos (efêmeros). D avidson lhe dedica dois ensaios: "Events as Particu­ 1978.
lars" (1970) e "Eternal vs. Ephemeral Events" (1971), reproduzidos na segunda 20. D evo a anälise que segue a Charles Taylor em The Explanation of Beha­
seção de Actions and Events, op. cit., pp. 181-203. viour, Londres, Routledge and Kegan Paul, 1954.
68 0 SI-MESMO COMO OUTRO UMA SEMÂNTICA DA AÇÃO SEM AGENTE 69

condição antecedente poder ser estabelecida independente­ 2. O verdadeiro problem a formulado pela análise da ação
mente da prova material produzida pelo próprio acontecimento. em Davidson, a m eu ver, não é saber se são ou não causas as
A partir daí, é tarefa da sem ântica da ação estabelecer a razões de agir, no caso em que a intenção é tom ada adver­
correlação entre a forma de lei própria à explicação teleológica bialm ente, m as se há justificativa para se considerar que o uso
e os traços descritivos que nos levaram a dizer que um motivo substantivo da intenção - intenção-de - é derivado de seu uso
só cum prirá sua função se tam bém for um a causa. Entre lin­ adverbial.
guagem ordinária e explicação teleológica, surge então um a Já se notou que em filosofia analítica a expressão "inten­
correlação interessante que vale nas duas direções. Segundo a ção com a qual" um a ação é executada assum e de preferência
prim eira direção, a form a de explicação teleológica é o sentido um a das formas do passado dos tem pos verbais. Isso não é
implícito da explicação da ação por disposições; pode-se falar surpreendente, um a vez que o acontecimento-ação é visto como
nesse caso em dedução transcendental da explicação teleoló­ transcorrido; o que surpreende, em compensação, é o tempo
gica a partir do caráter do discurso ordinário que essa explica­ verbal não ser objeto de nenhum a análise distinta; isso não
ção possibilita. Classificar um a ação como intencional é decidir poderá deixar de ser feito com a intenção-de, cuja direção para
que tipo de lei deve explicá-la e, ao mesmo tempo, excluir (to rule o futuro, como se verá adiante, é fortemente marcada. Pode-se
out) certo tipo de explicação; em outras palavras, é decidir a então perguntar se a dim ensão temporal não deve ser levada
form a de lei que rege a ação e, ao m esm o tempo, excluir que se em conta na análise da intenção, e se a intenção-com -a-qual,
trate de um a lei mecânica; aqui, descrever e explicar coinci­ cujo caráter passado não ficou marcado, não é, nesse aspecto,
dem; a classe descritiva é a m esm a coisa que o estilo de expli­ um a form a atenuada, se não mutilada, da intenção-de, para a
cação: a pergunta o quê? se efetiva na pergunta por quê?: um qual o prazo entre intenção e ação é essencial. Ora, um prazo
enunciado pelo objetivo vale como descrição; a explicação é nulo não é um não prazo, mas um a espécie de acom panham en­
um a redescrição pelo objetivo em vista do qual. A epistemolo- to simultâneo. Se perguntarm os, posteriormente, a alguém por
gia da causalidade teleológica vem legitim ar o caráter insupe­ que fez isto ou aquilo de forma intencional, este responderá
rável da linguagem ordinária. Mas, na direção inversa, se a ex­
elevando a intenção-com -a-qual agiu ao nível de intenção-de:
plicação teleológica explicita a form a implícita à descrição do
a razão de sua ação é a intenção-de, que ele teria formulado se
discurso ordinário (disposição para...), este, em contrapartida,
tivesse refletido, se tivesse tido tem po de deliberar.
acrescenta à form a de explicação a referência a um caráter fe-
Ora, essa primeira atenuação, a da dimensão temporal, não
nomenológico da experiência da ação, caráter que não está con­
deixa de ter relação com um a segunda atenuação, a da referên­
tido nessa forma (que, enquanto tal, se reduz à lei de um siste­
cia ao agente na formulação da ação-acontecimento e de sua
ma); por isso há m ais na descrição fenomenológica do que na
razão-causa; apesar de não ser ignorada, a atribuição da ação
explicação teleológica; à noção geral de explicação por um ob­
jetivo, a experiência hum ana acrescenta a noção de orientação e de suas razões a seu agente nunca é tem atizada; ela tam bém
consciente por u m agente capaz de se reconhecer como sujeito perm anece não m arcada21. Chega a estar ausente da fórmula
de seus atos; aqui a experiência não é apenas a aplicação da lei;
ela a especifica, designando o núcleo intencional de um a ação 21. O agente é nom eado por D avidson na proposição C l: "R será uma
conscientem ente orientada. razão primária pela qual um agente executou a ação A sob a descrição d som en­
te se R consistir num a pró-atitude d o agente em relação a ações dotadas de
A interpretação alternativa das relações entre causalidade certa propriedade e na crença do agente de que A, sob a descrição d, contém
e motivação, que aqui proponho, não abrange apenas, a m eu essa propriedade" {Essays on Actions and Evenls, op. cit., p. 5 [trad. do autor]).
ver, o uso adverbial da noção de intenção, m as descortina novos Pode-se perceber o m om ento da atenuação da referência ao agente na seguinte
horizontes para a de intenção-de. declaração: "conhecer uma razão primária pela qual alguém agiu com o agiu é
70 O SI-MESMO COMO OUTRO UMA SEMÂNTICA DA AÇÃO SEM AGENTE 71

que todo o ensaio comenta, C2: "A razão prim ária de um a ação adverbial: "I was wrong" [eu estava errado], adm ite Davidson
é sua causa" (Davidson, ibid., p. 12)22. A partir daí, um efeito na introdução de sua coletânea de ensaios (ibid., p. XIII). De
perverso causado pelo alinham ento com a ontologia subjacen­ fato, não escapou ao autor que a intenção-de apresenta traços
te do acontecim ento acaso não estaria em ocultar a atribuição originais, precisam ente a orientação para o futuro, o prazo na
da ação a seu agente, visto não ser pertinente para a noção de execução, ou m esm o a ausência de execução, e, pelo m enos em
acontecimento que ele seja suscitado, provocado (brought àbout) surdina, a implicação do agente. No entanto, a nova tese é que
por pessoas ou por coisas?
esses traços não exigem nenhum a revisão fundam ental da ex­
Essa desconfiança é confirmada no tratam ento dado à "in­
plicação causal em term os de atitude favorável e de crença,
tenção pura", ou seja, não acom panhada de ação - "intending",
m as apenas a adjunção de um fator suplem entar incorporado
segundo o título do ensaio que lhe é dedicado em 1978, por­
tanto quinze anos depois de "Actions, Reasons and Causes"23. à noção bem estabelecida de razão de agir. Desse fator suple­
Segundo a estratégia adotada no primeiro ensaio, todos os usos m entar se exige que não reintroduza fraudulentam ente algum
da noção de intenção deveriam poder ser derivados do uso ato m isterioso de tipo volitivo. Com extremo cuidado, vários
candidatos são interrogados: não será possível tratar o proces­
conhecer um a intenção com a qual a ação foi executada" (ibid., p. 7). O s silogis­
so de formação da intenção como ação? É plausível: m as o que
m os práticos construídos sobre essa base só m encionam o "caráter de desejabi- é um a ação não observável? Caberá equiparar a intenção a
lidade" da atitude favorável, retom ando a feliz expressão de E. Anscom be em algum ato de discurso do tipo da prom essa (ou do comando)?
Intention.
Também é plausível: m as à intenção faltam o aparato de con­
22. Encontra-se uma confirmação dessa atenuação da referência ao agen­
te no ensaio dedicado ao conceito d e "agency" (ibid., pp. 43-61), que traduzo por venções, o caráter de obrigação pelo qual o agente se conside­
"potência de agir". Seria de esperar, com esse título, uma análise do poder- rasse vinculado e o caráter público de um a declaração, carac­
-fazer do agente. N ão é o que ocorre: trata-se apenas do critério distintivo das
terísticas estas que distinguem a prom essa enquanto ato de
ações propriamente ditas (deeds and doings) em relação aos acontecim entos que
não passem de sim ples ocorrências (happenings), quando parece faltar o caráter discurso. Caberá reduzir a intenção à crença de que se quer
intencional. O principal contraexem plo aqui considerado é o d o s equívocos. Cer­ fazer efetivamente, ou de que se fará se certas condições forem
to almirante afunda de fato o Bismarck quando queria afundar o Tirpitz; Hamlet satisfeitas, ou de que se poderia fazer caso se quisesse? Com
mata Polonius acreditando transpassar um desconhecido atrás da cortina. A
propriedade de constituir um a ação e não um a ocorrência qualquer - a que,
isso certam ente se está m ais perto do objetivo: mas, na m elhor
nesse contexto, equivale o termo agency - é problemática, um a vez que nin­ das hipóteses, a análise só vale para intenções condicionais,
guém p õe em dúvida que o acontecim ento considerado - afundar um navio, em que as condições invocadas são da ordem das circunstân­
matar um hom em - seja vima ação, ao passo que, à primeira vista, falta o cará­ cias exteriores. Resta a solução que consiste em retom ar desde
ter intencional. Pode haver agency sem intenção? - pergunta-se. O argumento,
sutilíssim o, consiste em mostrar, com sim ples análise lógica da forma das frases o início a análise da atitude favorável na forma de análise ca­
de ação, que o critério da ação continua sendo intencional: "Um hom em será o nônica da vontade (wanting).
agente d e um ato, se o que ele fizer puder ser descrito sob um aspecto que o A análise anterior de fato negligenciou o componente
torne intencional" (ibid., p. 46). Caberá falar da intenção do agente? Não. Tudo
está na distância entre, por um lado, a razão da atitude favorável e a crença que
avaliativo, portanto o papel do juízo, na formação da vontade.
a acom panha e, por outro lado, a realidade d o efeito advindo. N o entanto, é Ora, "formar um a intenção" é tam bém "chegar a um juízo".
notável que D avidson não consiga evitar, nesse contexto, a distinção entre event M as h á duas espécies de juízo: por um lado, o juízo que pode
causality e agent causàlity para explicar a substituição considerada. Mas, ao m e­
ser cham ado de prima facie corresponde ao desejo, por exem­
nos pelo que sei, ele não desenvolve em lugar algum essa distinção, tom ada,
aliás, a I. Thalberg (ibid., p. 52). plo, de comer algum a coisa doce e nada mais é que a conside­
23. In Essays on Actions and Events, op. cif., pp. 83-102. ração de um caráter de desejabilidade, para retom ar de novo o
72
O SI-MESMO COMO OUTRO UMA SEMÂNTICA DA AÇÃO SEM AGENTE 73

vocabulário de A nscom be24; por outro lado, o juízo incondicio­


que eu possa executar sem prever um pouco sua continuação,
nal (all-out judgement), que pode concluir um raciocínio práti­
sua conclusão, sua interrupção? O próprio Davidson considera
co. Trata-se de um juízo suplementar, segundo o qual o caráter
o caso em que, escrevendo um a palavra, prevejo a ação de
desejável basta para reger a ação. Portanto, um a coisa é o juízo
escrever a carta seguinte enquanto escrevo a carta presente.
que apenas depõe a favor de um a ação; outra, aquele que im ­
Como não mencionar, nessa oportunidade, o famoso exemplo
plica a ação e lhe basta. A formação de um a intenção nada mais
da declamação do poem a nas Confissões de A gostinho? Toda a
é que esse juízo incondicional A vantagem da teoria é ficar nos
dialética da intentio e da distentio, constitutiva da própria tem ­
limites da análise anterior da razão de agir, ao m esm o tem po
poralidade, está lá resum ida: eu viso ao poem a por inteiro en­
que respeita a distinção entre intenção e simples vontade. Isso
quanto declam o verso após verso, sílaba após sílaba, e o fu tu ­
é possibilitado pela introdução do juízo incondicional a título
ro previsto transita através do presente em direção ao passado
de elem ento novo na análise da ação intencional. Assim, "m-
transcorrido.
tending e wanting pertencem ao m esm o gênero de pró-atitude
N o que se refere ao caráter projetivo que afeta o próprio
expressa porjuizos.de valor" (ibid., p. 102). Dito isto, está salva
a explicação causal da intenção. agente, é tam bém a intenção-de que constitui o uso básico da
noção de intenção. Em seu uso adverbial, a intenção aparece
A meu ver, Davidson subestim ou a transform ação que
como simples modificação da ação, que pode ser tratada como
essa adjunção dõ juízo incondicional im põe à análise anterior.
um a subclasse de acontecim entos impessoais. Não é o que
Toda a problemática m antida até então de lado, a saber, o sen­
ocorre com a intenção-de que rem ete diretam ente ao agente a
tido que deve ser dado ao componente tem poral do prazo e à
quem ela pertence. Ao m esm o tempo, a questão de prioridade,
referência ao agente que tem a intenção, ganha nova força sob
no plano fenomenológico, entre os múltiplos usos da noção de
a cobertura do juízo incondicional. Assim, lê-se na últim a fra­
intenção remete ao problema ontológico subjacente, que é de
se do ensaio: "Os intendings puros constituem um a subclasse
saber se um a ontologia do acontecim ento está apta a levar em
dos all-out judgments, a saber, os que são dirigidos para as
conta o pertencim ento da intenção - e, através desta, da pró­
ações futuras do agente e são formados à luz dessas crenças"
pria ação - a pessoas.
(ibid,). Ora, com esse prazo, descobre-se não só o caráter de
previsão, de visada, de intenção, como dizem os num a p ers­
3. Essa implicação ontológica é tratada pelos ensaios de
pectiva husserliana, m as tam bém o caráter projetivo da pró­
Davidson que, com o subtítulo "Event and Cause", compõem
pria condição de agente, como dizem os num a perspectiva hei-
a segunda série de Actions and Events. O peso da argum enta­
deggeriana. N o que se refere ao caráter de previsão da intenção,
ção visa justificar a tese de que os acontecim entos e, entre
o que constitui o uso básico do conceito de intenção é a inten­
eles, as ações merecem o título de entidades primitivas, tanto
ção-de, e não sua form a adverbial. No caso da ação executada
quanto as substâncias, se forem chamadas de entidades as rea­
intencionalmente, a dim ensão tem poral da intenção é apenas
lidades que conferem valor de verdade às proposições a elas
atenuada e como que recoberta pela execução quase sim ultâ­
referentes. Esse critério fregiano de atribuição de existência é
nea. Mas, a partir do m om ento que se consideram ações que,
comum a várias escolas de filosofia analítica. Estas diferem
como se diz, levam tempo, a previsão atua, de algum modo,
apenas na m aneira como o critério é aplicado, ou seja, essen­
ao longo da ação. Haverá algum gesto um pouco prolongado
cialmente em função da análise lógica das frases ou das propo­
sições que sejam suporte da exigência de verdade (truth-claim).
24. "Chamaremos o s juízos segundo os quais as ações sao desejáveis, des­ Nesse aspecto, é do m aior interesse a comparação entre a tese
de que eles tenham certo atributo, de juízos prima facie" (Davidson, ibid., p . 98).
de Strawson em Individuais, que tom am os por guia em nosso
74 0 SI-MESMO COMO OUTRO UMA SEMÂNTICA DA AÇÃO SEM AGENTE 75

prim eiro estudo, e a de Davidson em Actions and Events. Ela entre "razões prim itivas" (atitudes favoráveis e crenças) a
concerne diretam ente ao estatuto do agente da ação no plano acontecim entos m entais faz que a noção de pessoa se des­
ontológico. Em Individuais, a distinção entre as duas espécies m em bre entre acontecimento e substância, sem nunca ser per­
de particulares básicos - corpos e pessoas ~ é feita em virtude tinente; de fato, quando a tônica recai no portador de aconte­
da atribuição a cada lado de séries diferentes de predicados, os cimentos, a pessoa é substância sem privilégio; m as quando
predicados psíquicos e os predicados físicos. Assim, o agente recai n a noção de acontecim entos m entais pertencentes à p e s­
da ação é reconhecido como um particular último, ainda que soa, esta tende a fundir-se na m assa dos acontecimentos, ou
a esse título o agente não seja um si-mesmo, no sentido forte seja, de tudo o que ocorre.
que dam os a esse termo, m as apenas um a das "coisas" de que Q uanto ao fato de os acontecimentos deverem ser trata­
se fala. Com Davidson, o corte im posto pela "forma lógica das dos em pé de igualdade com as substâncias, as razões aduzi­
frases de ação" - é o título do prim eiro ensaio da série consi­ das por Davidson m erecem ser levadas em consideração, so­
derada - passa entre as substâncias, ou seja, as entidades fixas, bretudo se tivermos em conta a prudência e a m odéstia com
e os acontecimentos, ou seja, as entidades transitórias. Ora, esse que a tese é exposta. A form a lógica das frases de ação exerce
corte - essa é m inha principal preocupação - não só não per­ aqui um a injunção pouco discutível. Se a explicação da ação
m ite fazer avançar a ontologia do agente, como contribui de por razões é um a espécie de explicação causal, e se a causali­
certo m odo para ocultá-la. Isto porque as pessoas, no sentido dade atua entre acontecimentos particulares, é preciso que as
dado por Strawson, estão mais do lado das substâncias, um a ações sejam acontecimentos, e que esses acontecimentos exis­
vez que a elas ocorrem as ações-acontecimentos. Em David­ tam , para se garantir valor de verdade às proposições que a
son, por outro lado, na análise lógica da frase: "Pedro assestou eles se referem. Essa tese vigorosa é reforçada pelos num ero­
um golpe", o que im porta é que o verbo assestar seja dito de sos paralelismos que a análise da forma lógica das frases de
Pedro e do golpe. O golpe está na posição de acontecimento ação descobre entre as substâncias e os acontecimentos. Como,
particular. Pedro está na de substância, não como pessoa dis­ por exemplo, seria possível dizer que certa ação é passível de
tinta das coisas m ateriais (dos corpos, no vocabulário de Stra­ várias descrições (encontram os diversas vezes a expressão: tal
wson), m as como portador do acontecimento. O que im porta ação sob um a descrição d) se ela não constituísse um a entida­
aqui é que o acontecimento tenha a m esm a dignidade ontoló­ de particular? Nesse aspecto, a análise das desculpas, inaugu­
gica da substância, seja esta coisa ou pessoa25. Para concluir a rada por Austin, e a dos equívocos, esboçada acima, levam por
ocultação da problemática específica do agente, a equiparação outras vias à noção de pluralidade de descrições de certa ação
executada. O mesmo corre com a "poliadicidade variável"26 (A.
25. N ão tratarei da discussão de D avidson em tom o da tese de Strawson, Kenny), em virtude da qual sempre é possível acrescentar ao
segundo a qual os acontecim entos são conceitualm ente dependentes dos obje­ enunciado da ação a menção do recipiendário, do lugar, do
tos; a análise do exem plo citado hã pouco convida a concluir que "nem a cate­
goria de substância nem a categoria de m udança são concebíveis à parte uma
tempo, do meio e das outras circunstâncias, sem que seja alte­
da outra" (Davidson, op, cit., p. 175). Também deixo de lado a discussão de uma rado o valor de verdade da referência a tal ação executada. De
tese hostil à ontologia dos acontecim entos, a saber, a de R. Chisholm (in "Events m odo mais impressionante, acaso seria possível falar da identi­
and propositions", Noüs, na 5,197 1, pp. 179-89), segundo a qual os aconteci­ dade numérica de um a mesm a ação ou da identidade qualitati­
m entos seriam apenas a exem plificação de estados de coisas (states of ajfairs)
va entre duas ações? A questão de identidade é tão im portante
que seriam as verdadeiras entidades em causa: essas duas discussões, às quais
foram dedicados dois ensaios pertencentes à m esm a série, desenrolam -se den­
tro de um m esm o perím etro definido pelo reconhecimento das condições de 26. A. Kenny, Action, Emotion and Will, Londres, Routledge and Kegan
verdade ligadas à "forma lógica das frases de ação". Paul. 1963.
76 UMA SEMÂNTICA DA AÇÃO SEM AGENTE 77
O SI-MESMO COMO OUTRO

na defesa de um a ontologia do acontecim ento que fornece o A m eu ver, essa ocultação da questão do agente é o resultado
principal argum ento ao ensaio intitulado "The individuation acumulado de um a série de escolhas estratégicas que podem
of events" (Davidson, op. cit., pp. 163 ss.). Este começa assim: ser questionadas.
"Q uando são idênticos e quando distintos os acontecimentos? Prim eiram ente, a prioridade dada à intenção-com~a-qual
Que critério existe para decidir num sentido ou noutro nos sobre a intenção-de possibilitou atenuar, sem conseguir abolir
casos particulares?" (ibid., p. 163). A resposta é que os critérios totalm ente, a dim ensão tem poral de previsão que acom panha
de identidade são os m esm os para os acontecim entos e para os a projeção do agente à frente de si mesmo. É tarefa de um a
objetos-substâncias. Acaso seria possível dizer que um a ação fenomenologia explícita do projeto, como a que esbocei no iní­
ocorre várias vezes (recorrência de um a ocorrência), seria pos­ cio de Voluntário e involuntário, levar à linguagem o não-dito
sível quantificar a denom inação de um a ação (uma, algum as, dessa escolha inicial.
todas), se as ações não fossem acontecimentos sobre os quais Em segundo lugar, a inclusão da explicação teleológica com
se pudesse dizer que existem da m esm a m aneira que os obje­ razões na explicação causal consagrou o apagam ento do sujei­
tos m ateriais e - seria o caso de acrescentar - da m esm a m a­ to em benefício da relação entre acontecimentos impessoais.
neira que as pessoas em posição de substância? Tudo contribui Cabe a um a análise de caráter epistemológico restabelecer os
para sustentar a tese de que os acontecim entos são individua- direitos da causalidade teleológica e m ostrar sua afinidade com
dos tanto quanto as substâncias singulares. A partir daí é plau­ o m om ento fenomenológico da intencionalidade, previam ente
sível concluir: "A individuação dos acontecim entos não repre­ depreendido. Foi o que começamos a fazer acima.
senta, em princípio, nenhum problem a m ais grave do que os Por fim, é im portante perguntar se a incapacidade de um a
apresentados pela individuação dos objetos m ateriais. H á boas ontologia do acontecimento de explicar a imputação da ação a
razões para se acreditar que os acontecimentos existem" (ibid., seu agente não resulta da m aneira como essa ontologia é intro­
p. 180). duzida. É como se a procura de um a sim etria entre a incidên­
O desaparecim ento da referência às pessoas, na últim a cia do acontecimento e a perm anência da substância im pedis­
asserção citada, não é fortuito e deveria cham ar nossa atenção. se de dar prosseguim ento à confrontação iniciada por Strawson
A pergunta feita é a seguinte: um a ontologia dos aconteci­ em Individuais entre esses particulares básicos, que são as pes­
mentos, baseada n a espécie de análise lógica das frases de soas e as coisas. A questão do agente torna-se não pertinente
ação, realizada com o rigor e a sutileza de que devemos credi­ nessa procura de sim etria entre acontecimento e substância.
tar Davidson, não estará condenada a ocultar a problemática Para responder a esse desafio, no plano ontológico em que ele
do agente enquanto possuidor de sua ação? Um indício desse é posto, seria preciso introduzir a questão do modo de ser do
efeito de ocultação é dado pela própria discussão à qual se agente em outra base, que não a análise da forma lógica das
aludiu, referente à identidade entre acontecimentos. Do início
ao fim, trata-se apenas da identidade no sentido de iâem, e não
individuation of events": "Quine arriscou-se a dizer: não há entidade sem identi­
da identidade no sentido de ipse, que seria a de um si-mesmo27. dade, em apoio à tese fregiana segundo a qual só tem os o direito de afirmar
entidades se estiverm os dispostos a dar um sentido às frases que afirmam ou
27. Cf. a definição: "Os acontecimentos são idênticos se e som ente se têm negam a identidade dessas entidades. Mas então se afirma com m ais evidência
exatam ente as m esm as [same] causas e os m esm os efeitos" (Davidson, op. cit., a fórmula: não há identidade sem uma entidade, sem esquecer sua contrapartida
p. 179). Sejam quais sejam os outros critérios d e m esm idade (m esm o lugar, linguística: não há enunciado de identidade sem termo singular" (ibid., p. 164). Per­
m esm o tem po), a m esm idade das relações causais é a única condição sem pre m anecem os firmem ente no terreno delim itado por Frege, a saber, todas as fra­
suficiente para estabelecer a m esm idade dos acontecimentos. Entre esses crité­ ses sem elhantes quanto ao valor d e verdade denom inam a m esm a coisa (m es­
rios de identidade e a posição de entidade, é estreita a relação; lê-se em "The m o n o sentido d e idem).
78 O SI-MESMO COMO OUTRO

frases de ação, sem recusar de modo algum a validade dessa


abordagem típica da filosofia analítica em seu próprio terreno.
Em nossa opinião, tratar-se-ia de uma ontologia outra, em con­
sonância com a fenomenologia da intenção e com a epistemo-
logia da causalidade teleológica mencionada há pouco. Essa
ontologia outra seria a de um ser em projeto, ao qual perten­
ceria por direito a problemática da ipseidade, como pertence
de direito à ontologia do acontecimento a problemática da
mesmidade.
Competirá ao próximo estudo explorar os recursos da no­
ção de adscrição da ação ao agente, que ficou pendente no fim
do primeiro estudo, na perspectiva dessa ontologia outra28. Po­
de-se esperar também que o papel epistemológico da atesta­
ção, várias vezes flanqueado, passe para o primeiro plano com
a análise da adscrição. Nem a adscrição nem sua atestação
poderiam encontrar lugar numa semântica da ação cuja estra­
tégia a condene a permanecer como semântica da ação sem
agente.

28. Essas duas ontologias se excluem mutuamente? Não acredito; em mi­


nha opinião, são apenas outras em razão da diferença entre seus pontos de
partida, incomparáveis. Davidson acaso seria tão receptivo a essa ontologia
outra quanto eu sou em relação à dele? Não sei: contudo, aduzo a modéstia de
suas palavras, expressa no seguinte texto, que traduzo na íntegra; “Aprende­
mos a desconfiar [...] do que a superfície da linguagem sugere, especialmente
no tocante à ontologia. Afinal de contas, os acontecimentos enquanto particu­
lares poderiam não estar na base de nossa compreensão do mundo. Mas como
decidir? Estaríamos em posição melhor para julgar, se dispuséssemos de uma
concepção coerente e abrangente das condições nas quais são verdadeiras nos­
sas crenças comuns (ou as frases que consideramos verdadeiras). Se dispusés­
semos de tal teoria e se essa teoria exigisse um campo de acontecimentos par­
ticulares, enquanto não encontrássemos nenhuma teoria que funcionasse tão
bem sem acontecimentos, a despeito de todos os nossos esforços, teríamos to­
das as razões imagináveis para dizer que os acontecimentos existem. O próprio
início de tal teoria abrangente ainda nos falta; disso sabemos; mas podemos
aprender tentando" (ib id pp. 181-2).