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FICHA TÉCNICA: EDIÇÃO: Juliana Correia DESIGN: Juliana Correia REVISÃO: Juliana Correia e Josinaldo Firmino
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FICHA TÉCNICA:

EDIÇÃO: Juliana Correia

DESIGN: Juliana Correia

REVISÃO: Juliana Correia e Josinaldo Firmino

FOTOGRAFIA: Juliana Correia e Clara Zamith

Josinaldo Firmino FOTOGRAFIA: Juliana Correia e Clara Zamith PRODUÇÃO: Juliana Correia, Josinaldo Firmino, Ricardo
Josinaldo Firmino FOTOGRAFIA: Juliana Correia e Clara Zamith PRODUÇÃO: Juliana Correia, Josinaldo Firmino, Ricardo
Josinaldo Firmino FOTOGRAFIA: Juliana Correia e Clara Zamith PRODUÇÃO: Juliana Correia, Josinaldo Firmino, Ricardo
Josinaldo Firmino FOTOGRAFIA: Juliana Correia e Clara Zamith PRODUÇÃO: Juliana Correia, Josinaldo Firmino, Ricardo
Josinaldo Firmino FOTOGRAFIA: Juliana Correia e Clara Zamith PRODUÇÃO: Juliana Correia, Josinaldo Firmino, Ricardo
Josinaldo Firmino FOTOGRAFIA: Juliana Correia e Clara Zamith PRODUÇÃO: Juliana Correia, Josinaldo Firmino, Ricardo
Josinaldo Firmino FOTOGRAFIA: Juliana Correia e Clara Zamith PRODUÇÃO: Juliana Correia, Josinaldo Firmino, Ricardo

PRODUÇÃO: Juliana Correia, Josinaldo Firmino, Ricardo Costa, Amanda Cuesta e Vanessa LimaJosinaldo Firmino FOTOGRAFIA: Juliana Correia e Clara Zamith REPORTAGEM: Josinaldo Firmino, Juliana Correia

Firmino, Ricardo Costa, Amanda Cuesta e Vanessa Lima REPORTAGEM: Josinaldo Firmino, Juliana Correia

REPORTAGEM: Josinaldo Firmino, Juliana Correia

ENTREVISTADOS: Gabriel dos Santos e Flavio Antônio da Silva Nascimento

ARTES: Paola Ribeiro e Moisés Patrício

Referências Bibliográficas:

FREIRE, Paulo (2007) Pedagogia do Oprimido DAVIS, Angela (2016) Mulher, raça e Classe Jesus, Carolina Maria de (1961) Quarto de despejo Hooks, Bell (2007) Ensinando a transgredir Fanon, Frantz (2008) Pele Negra, Máscaras Brancas

de (1961) Quarto de despejo Hooks, Bell (2007) Ensinando a transgredir Fanon, Frantz (2008) Pele Negra,
de (1961) Quarto de despejo Hooks, Bell (2007) Ensinando a transgredir Fanon, Frantz (2008) Pele Negra,
de (1961) Quarto de despejo Hooks, Bell (2007) Ensinando a transgredir Fanon, Frantz (2008) Pele Negra,
CARTA AO LEITOR
CARTA AO LEITOR

Iniciar a apresentação da primeira edição

da revista do projeto de pesquisa Diálogos Étnico-Raciais é mais difícil do que pensei, afinal, sinto-me como se tivesse que descrever qual a sensação ao ter algo sob minha responsabilidade. O modo mais prático, singelo e respeitoso - com você, caro leitor - que encontrei, é o da franquza: dizer de onde veio minha a ansiedade de partilhar tudo que tenho aprendido sobre o tema, a preciosidade que tem cada conversa e cada experiência dividida, é o mecanismo mais apropriado de aproximação

e afeto entre nós: leitor e colaboradores. Afeto: é essa palavra que alicercia cada página desse material. Ao escrever um artigo; apresentar uma obra de arte; dividir questionamentos com os entrevistados, todos os colaboradores foram convidados a falar de suas próprias sensações - como é a essência do ser no espaço em que ocupa, onde ocupa e o por quê é importante ocupar - ou seja, foram convidados a partilhar histórias de forma à construir um novo formato da História de nossa ancestralidade que já foi contada por povos que não os nossos. O afeto é o primeiro passo para a desconstrução

e aceitação, é um dos mecanismos necessários na educação para falar sobre particularidades e nada melhor que usar a linguagem escrita

em primeira pessoa, do singular ou do plural. Abrindo nossa primeira edição, temos Ricardo Costa e Josinaldo Firmino falando de suas experiências em espaços educativos: o primeiro nas dificuldades sociais enfrentadas nos cursinhos populares, enquanto o outro, no espaço que esbanja refinamento, requinte e falta pecepção às particularidades do próximo, um olhar crítico ao que muitos gostariam de dizer. No meio das experiências, apresentaremos um pouco de poesia e arte plástica de artistas e

artistas-educadores que se movimentam em favor de uma igualdade cada vez menos teórica e muito mais existente, ou seja, provam - não só no discurso, mas muito mais na prática - que ocupar é uma ação cotidiana que concatena amor pelo que se faz com a necessidade de tomar conta deaquilo que também é nosso: o direito de ser o que quisermos. Ao recolher todos os dados pertinentes para

o desenvolvimento desse material, pude perceber

a imensidão do que ainda precisamos aprender sobre nós mesmos, nossa cultura e principalmente

do que é o racismo, pois, é justamente o medo de

falar sobre esse último que nos impede de chegar

no outros temas e ensinar outras pessoas, também.

Afinal, a proposta não é segregar mais para o outro lado e sim que não haja mais segregação. Para

isso, o diálogo e as parcerias são fundamentais

e

isso ultrapassa qualquer elemento racial. Para concluir essa etapa de boas-vindas, faço

o

convite de folear essas páginas como se fosse a

carta de um amigo querido destinada à você. Dessa forma, tudo que apresentamos fará mais sentido:

o sentido de atingir afetos, criar laços e costurar uma nova “colcha” com retalhos de experiências.

Agradecimento especial:

SUMÁRIO
SUMÁRIO
SUMÁRIO 3 6 A posição de elementos entre a hegemonia branca e a resistência negra EDUCADOR:

3

6

A posição de elementos entre a hegemonia branca e a resistência negra

EDUCADOR: Combatendo o racismo:

outra educação é (indis)sociável

Combatendo o racismo: outra educação é (indis)sociável ARTE - EDUCADOR: Aproximações às questões
Combatendo o racismo: outra educação é (indis)sociável ARTE - EDUCADOR: Aproximações às questões

ARTE - EDUCADOR: Aproximações às questões étnico-raciais em espaços culturais

9

12

12

CAPA: Aceita que o outro seja visível em todos os espaços?

TROCANDO IDEIA: Temos voz no sistema de educação privado?

TROCANDO IDEIA: Temos voz no sistema de educação privado? ESPECIAL: Flávio Antônio da Silva Nascimento: A
ESPECIAL: Flávio Antônio da Silva Nascimento: A educação reescrevendo a história 17 ENTRETENIMENTO: Livros e
ESPECIAL: Flávio Antônio da
Silva Nascimento: A educação
reescrevendo a história
17
ENTRETENIMENTO:
Livros e filmes que falam
sobre racismo
26
ACERVO [Im]pressão
29
Agradecimentos
31

15

wCombatendo o racismo: A posição de elementos entre a outra educação é hegemonia branca e
wCombatendo
o racismo:
A posição de
elementos entre a
outra educação é
hegemonia branca e
a resistência
(indis)sociável.
negra

Existem muitos termos para falar sobre o racismo no Brasil e entender suas ferramentas. Alguns são conhecidos já na luta negra como branqueamento, embranquecimento do negro e branquitude, mas detenho-me aqui pra tentar abrir dois temas já conhecidos mas pouco abordados que são a branquice e brancura. Por que todos esses termos? Ao longo dos anos os pesquisadores sobre a questão racial desenvolveram esses termos para melhor entender as formas como o racismo age socialmente, afetando diretamente o negro.* Branquice e brancura são termos que se confundem em algumas análises, mas de forma genérica são responsáveis respectivamente pela ridicularização e preconceito e, a inferiorização do negro. Tais práticas afetam o ambiente macro da identidade negra (negridade), pois se passa pela busca constante em diminuir a ancestralidade africana e indígena.

e a

eliminação de elementos negros de grupos e/ou espaços sociais

As práticas ancestrais que sobreviveram ao branqueamento (eliminação do elemento negro) cultural e social no Brasil, foram ao longo dos anos folclorizadas – em um sentido de diminuição e ridicularização - em sua representatividade e são até hoje elementos de resistência na cultura afro- brasileira. Podendo ser exemplificadas aqui muitos bem as religiões de matriz africana que são até hoje tabus para a moral judaico-cristã e tratadas como motivo de escárnio social, mas que ao mesmo tempo estão fortemente ligadas à constituição do próprio cristianismo no país e isso perpassa desde o catolicismo até o neopentecostalismo, que utilizam-se de ritos afro-brasileiros em suas cerimonias, mas para perpetuação da branquice, ou seja, para ridicularizar e aumentar o preconceito frente à matriz africana presente na sociedade.

B

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:

Ao explorar ainda mais a prática da branquice, encontra-se a brancura que apresenta-se ainda em uma segunda etapa e está mais no micro da sociedade. Esta por sua vez atinge o sujeito negro mais diretamente, porque a brancura realiza-se diariamente com a inferiorização do elemento negro e consequentemente das negras e dos negros. Geralmente acontecem no momento em que a negra ou o negro assumem sua negridade e são diminuídos por isso. Por exemplo quando assumem aspectos estéticos e culturais de crítica à hegemonia culturaleurocêntricaqueseapresentamnocabelo,nas roupas, no linguajar, nos hábitos, na música, nas artes.

roupas, no linguajar, nos hábitos, na música, nas artes. Era Carnaval, mas o bloco Cacique de

Era Carnaval, mas o bloco Cacique de Ramos teve espaço para manifestação (Crédito: Carlos Vergara)

Toda essa discussão tem em seu centro uma demanda histórica do movimento negro, que é a representatividade, mas uma representatividade real que chegue nas instituições de poder. Uma representatividade que esteja na escola, na TV, na família, na política. É incrível como até hoje o número de negras e negras em instituições de poder sejam tão ínfimos frente à sua proporção na sociedade brasileira, que é um país de maioria negra. Para além disso em boa parte das vezes, as negras e os negros que chegam à tais lugares de poder, precisam se despir de sua ancestralidade acontecendo o que é chamado de embraquecimento do negro. P o i s , mesmo sendo negra e ou negro este individuo precisa ter aspectos “domesticação” por uma cultura hegemônica, que é a européia caucasiana.

As negras e os negros que chegam à tais lugares de poder, precisam se despir de sua ancestralidade acontecendo o que é chamado de embraquecimento do negro.

É preciso fazer o enfrentamento da branquitude que foi-nos imposta e desmistificar a ideia por ela colocada de “democracia racial”, porque estamos longe disso e estaremos enquanto forem mantidas as estruturas sociais, políticas e econômicas atualmente exercidas nos países negros mundiais, que partilham historicamente de uma outra construção de sociedade que foi eliminada pelos colonizadores destas terras.

que foi eliminada pelos colonizadores destas terras. Al Jolson em “O Cantor de Jazz”: O Primeiro

Al Jolson em “O Cantor de Jazz”: O Primeiro filme falado dá voz ao preconceito.

Claro que não podemos fugir do dado de que o Brasil é um país em houve uma grande miscigenação (não mestiçagem), mas é importante lembrar que boa parte desta misgenação provém do estupro, da animalização de africanos e indígenas e mais da tentativa de branqueamento social, tentando de forma biológica eliminar o elemento negro da sociedade.

Éprecisofazeroenfrentamentoda

branquitudequefoi-nosimpostae

desmistificaraideiaporela

colocadade“democraciaracial”

A luta não para, ela está no dia- a-dia, cada vez que um negro assume qualquer posição de poder é resistência e cada vez que um negro vê outro exercendo algumas posição de poder ainda assim é representatividade, só precisamos nos cuidar quanto à folclorização destes momentos tão importantes para pensar uma nova sociedade.

momentos tão importantes para pensar uma nova sociedade. Indios Bororo , coleção Gilberto Ferrez Inseriu-se

Indios Bororo , coleção Gilberto Ferrez Inseriu-se elementos brancos-europeus através dos objetos e vestimentas

brancos-europeus através dos objetos e vestimentas A atriz Butterfly McQueen: A representante negra em “E o

A atriz Butterfly McQueen: A representante negra em “E o vento levou” - o negro, pela primeira vez, não sendo representado por blackface

Agradecimento especial à Flávio Antônio da Silva Nascimento, um dos pesquisadores mais respeitados na temática e meu eterno professor, que tem em seu livro O beabá do racismo contra o negro brasileiro, um fomento incrível pra essa discussão.

Ricardo Costa Santos Professor em Cursinhos populares, pesquisador e graduando em História – Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP – Guarulhos)

Cursinhos populares, pesquisador e graduando em História – Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP – Guarulhos)
formada em Artes Visuais pela Belas Artes. Carrega sua arte tanto musical quanto visual pelos

formada em Artes Visuais

pela Belas Artes. Carrega sua arte tanto musical quanto visual pelos espaços educativos onde atua como educadora

Paola Ribeiro

é

Carrega sua arte tanto musical quanto visual pelos espaços educativos onde atua como educadora Paola Ribeiro
w Combatendo o racismo: é outra educação (indis)sociável.
w
Combatendo
o racismo:
é
outra educação
(indis)sociável.

Estranho! Dar aula é estranho. Não existe

naturalidade pra mim, nunca houve. Nunca me

vi como professor, por que veria? A imagem de

professor como alguém dono do conhecimento, alguém iluminado - e sem dinheiro - dificilmente passa pela cabeça de um jovem para se seguir como profissão (sim, profissão! Porque não existe a história de dom ou de “professora Helena”).

Nunca me vi como professor, por que veria?

Na periferia, infelizmente, você precisa pensar na sobrevivência e em alguns momentos melhorar de vida, tentar uma ascensão social e, “dar aos filhos o que não se teve”, é um raciocínio incrível. Problematizável? Sim. Mas incrível e que guia o imaginário de absolutamente todas as mães e pais que não tiveram em sua infância grandes condições financeiras. “Quando eu crescer, quero ser jogador de futebol”:

99 entre cada 100 garotos da periferia pensam e sonham com isso, e não é ruim. Tal afirmação denuncia como o sistema coopta e destrói

Tal afirmação denuncia como o sistema coopta e destrói Foto: Arquivo Pé de Meia - Mais

Foto: Arquivo Pé de Meia - Mais em: http://www.unicos.cc/foco-no-fute- bol-de-varzea/#.WIvcdFMrLcf

as estruturas psicológicas dos jovens negros periféricos, pois a porcentagem de jogadores

que saem da periferia; recebem proposta e viram jogador profissional é ínfima e inversamente proporcional aos que recebem e entram para

o crime, em suas múltiplas formas e facetas¹. Essa denuncia não acaba aí: também mostra, por exemplo, a obsolescência da educação. Ser educadora/educador hoje não é uma das profissões mais concorridas, certamente.

A escola como uma das instituições

de poder do estado, mostra toda sua eficácia quando inferioriza e domestica as crianças –

desculpa²” - um fato necessário

a ser dito é que grande parte das crianças/

adolescentes que frequenta a escola pública

é NEGRA (pretas, pardas e indígenas, pois

quando falamos de negro falamos de uma raça histórica) que sofrem com esse sistema. Se as crianças/adolescentes não gostam da escola, o futebol (ou o crime, sei lá) é um caminho muito bem alinhado a um plano B que lhe é apresentado. A figura do educador como um ser

“cof

lhe é apresentado. A figura do educador como um ser “cof Foto: Pedro Ribeiro l Flickr

Foto: Pedro Ribeiro l Flickr Creative Commons

iluminado que foi construída há séculos é revivida nesse contexto, apaga-se as luzes (negras) dos estudantes e se acende uma só luz,

a do educador - que não necessariamente educa,

preferiria chamar de carrasco – esse, por sua vez,

é responsável por vigiar e punir³ os estudantes,

por usar todo o poder que foi lhe dado para construir e garantir uma “ordem para o progresso”. Na contramão disso tudo, vem a educação

libertadora como ferramenta para uma redução

e quebra dessas relações de poder: o mesmo

educador que assume um papel autoritário na escola (lembrando que esta é uma instituição de poder do estado) pode ser um indivíduo abrangente

e didático quando exerce a função de educador

fora da escola. O exercício de poder muda e é transformado pela práxis. Segundo Paulo Freire,

“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor4”, é o que acontece com as nossas professoras e os nossos professores que, submersos em um ambiente opressor, muitas vezes reproduzem isso em sala e acaba acirrando

a questão do poder nesse espaço, pois as relações

de poder ficam mais visíveis em suas extremidades.

“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”

É nesse contexto que existe a chamada “educação informal” talvez porque não forme

ninguém, e sim, liberte dessa inferiorização

e domesticação, em uma construção

continua de todos que estão envolvidos. Até aqui tentei mostrar porque pra mim é estranho dar aula ainda hoje, mesmo que poucas

dessas aulas tenham sido ministradas na escola (como instituição). A educação se apresenta como

algo que pode ir além e transformar a sociedade,

mas eu não aprendi isso na escola. Aprendi na luta,

no movimento estudantil, na militância política.

A militância mudou (ou será que moldou?) o destino alguns jovens que são de periferia, isso inclui drasticamente o movimento negro dos

anos 70/80, mas não só nesse período e ainda é

contemporâneo. A militância em movimentos que denunciam as contradições sociais desenha alguns “pontos fora da curva” da estatística da periferia, dentre esses pontos, talvez, eu.

Uma busca imensa por encontrar um lugar

na sociedade deu-me a percepção que talvez a

educação fosse o meu “front” de batalha. Em

uma

aula de história é indissociável, não fazer

uma

analogia com o presente, sem isso a história

fica imóvel e longe, ela precisa ser ressignificada

para que ela seja prazerosa para todos que estão

na construção da aula (educadores e educandos).

Uma busca

imensa

por

encontrar um

lugar

na sociedade deu-me a percepção que talvez a educação fosse o meu “front” de batalha.

Ao dar aula em um cursinho popular ou em uma escola pública, em que a maioria dos estudantes são negros, é impossível não falar de escravidão e de racismo, pois está presente em

TODA a História do Brasil, por exemplo. São quase

V séculos de história(s) de milhões de pessoas

que tiveram seus corpos (e alma) assassinados, até porque ninguém nunca ligou pra morte de um corpo preto (sendo ele vindo da África ou nativo da terra). São algumas coisas que precisam ser expostas para que consigamos enfrentar as instituições e

culturas hegemônicas que inferiorizam e domesticam

o povo. O problema só pode ser enfrentado

se ele for escancarado, não se pode lutar contra o que não se vê (ou pelo menos é tampado, velado). Como educador de cursinhos popular há três anos (em SP e MT) acredito na revolução social, e vejo uma revolução toda vez que uma ou um estudante pobre, periférica (o) e negra (o), ingressa em uma universidade pública (que historicamente é branca, e não estou falando das paredes), porque esses que passam são pontos fora da curva e é a partir de alguns pontos fora da curva que podemos construir uma nova estrada.

pontos fora da curva que podemos construir uma nova estrada. Foto: Arquivo pessoal - Ricardo Costa

Foto: Arquivo pessoal - Ricardo Costa

Sem esquecer que aqueles que não passam constituem uma estatística brutal, mas que mesmo assim também fazem sua revolução no dia-a-dia. Até porque, um diploma universitário não salva ninguém, inclusive, pode ser tóxico, pois pode diminuir a consciência de classe.

Vejo uma revolução toda vez queumaouumestudantepobre, periférica (o) e negra (o), ingressa em uma universidade pública

é uma instituição

iluminada,aeducaçãosómudaráquandoelaescurecer.

Por

fim,

se

a escola

Ricardo Costa Santos Professor em Cursinhos populares, pesquisador e graduando em História – Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP – Guarulhos)

Foto: Arquivo pessoal - Ricardo Costa
Foto: Arquivo pessoal - Ricardo Costa
TRINDADE POESIA [IM]PRESSA: SOLANO Tem gente com fome Trem sujo da Leopoldina correndo correndo parece
TRINDADE
POESIA [IM]PRESSA: SOLANO
Tem
gente
com
fome
Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Piiiiii
Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu
Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
Solano Trindade é um dos maiores poetas brasileiros,
nasceu em Recife/PE em 1908 e faleceu no Rio de
Janeiro em 1974. Fez o curso propedêutico da Academia
de Comércio do Recife. Foi operário, funcionário
público federal, pintor, poeta, ator e teatrólogo. Junto
com sua esposa Margarida da Trindade, terapeuta
ocupacional, e Edson Carneiro, sociólogo, fundou o
Teatro Popular Brasileiro. Publicou: Poemas de uma
vida simples, 1944; Seis tempos de poesia, 1958;
Cantares ao meu povo, 1961, dentre outras obras
(Fonte: SANTOS, L.C; GALAS, M.; TAVARES,
U. (org). Antologia da poesia negra brasileira: o
negro em versos. São Paulo : Moderna, 2005).
Aproximações Étni- às questões co-raciais em espaços culturais
Aproximações
Étni-
às questões
co-raciais em espaços culturais

Participar de encontros semanais com Juliana

Correia para conversar sobre questões ligadas à etnia e à raça em espaços culturais e na educação não formal foi, para mim, uma tentativa de aproximação mais aprofundada a esse universo que me inquieta como afrodescendente, mas também como educador e pesquisador. Desde o princípio, ficou claro que se tratava de uma questão delicada e polêmica, mas necessária

e urgente, de certo modo, para nosso ofício. Evidentemente, tivemos que rever nossas

experiências relacionadas à temática, e logo notei uma falta enorme de repertório teórico

e discurso mais pessoal a respeito disso, em

função talvez de minha formação muito imbuída

e construída sobre alicerces eurocêntricos.

Desde o princípio, ficou claro que se tratava de uma questão delicada e polêmica, mas necessária e urgente, de certo modo, para nosso ofício.

 

A

questão

principal

era:

como

se

posicionar

neste

contexto?

o problemática étnico-racial

Como

educador

pode

em

abordar

seu

a

trabalho,

sem

provocar

imposições?

Isto

é,

diante

da necessidade

de

tratar

de

tal

tema,

como

provocando

deslocamentos de perspectivas e pensamentos?

conservar

a

ética

nesse

trabalho,

e pensamentos? conservar a ética nesse trabalho, A Cura, Dalton Paula - Diálogos Ausentes ITAÚ CULTURAL

A Cura, Dalton Paula - Diálogos Ausentes ITAÚ CULTURAL

Ao longo da exposição Sempre algo entre nós, parte do projeto curatorial Estou Cá, a pesquisa de mediação de Juliana Correia, denominada Diálogos étnico-raciais, recebeu a contribuição de outras pessoas, que a enriqueceram, dando- lhe formatos variados. Eu, enquanto colaborador estive no lugar da escuta ativa, trocando ideias sobre o mundo da arte e ausência desse debate no circuito, assim como dividindo reflexões pessoais.

Como o educador pode abordar a problemática étnico-racial emseutrabalho,semprovocar imposições?

De forma geral, os espaços culturais são majoritariamente frequentados por pessoas de classes sociais favorecidas e, por consequência, seu público é formado por pessoas de pele branca. Isso em um país cuja população é composta por cerca de 50% de pessoas declaradas negras, de acordo com o último censo do IBGE (2010). Como lidar com esse fato? Ou seja, constatada a falta de diversidade étnica nesses locais, como gerar reflexões sobre isso e rever o trabalho que se faz cotidianamente como educador?

e rever o trabalho que se faz cotidianamente como educador? Aceita ser visível?, Clara Zamith /

Aceita ser visível?, Clara Zamith / Juliana Correia - BOLETIM PUBLICO

Como lidar com esse fato? Ou seja, constatada a falta de diversidade étnica nesses locais, como gerar reflexões sobreissoereverotrabalho que se faz cotidianamente como educador?

Sem dúvidas, nosso trabalho não mudará de uma hora para outra esse fenômeno. Por outro lado, ao alterarmos nosso modo de pensar os

públicos, podemos suscitar debates que ensejarão,

a longo prazo, a geração de políticas públicas e a

produção de novas mentalidades sobre o assunto. Desde as visitas agendadas e espontâneas, quando for pertinente abordar a discussão, até a produção de textos, jogos e atividades relacionados a esse contexto, as ações educativas podem se tornar politicamente mais ativas e éticas, Neste sentido, o educador tem à sua disposição uma gama de parceiros com quem pode trocar experiências e produzir pensamentos, tornando sua atividade mais diversificada, provocadora e consciente. Ao mesmo tempo, é importante salientar que esse trabalho se dá na micro dimensão das coisas, mas que pode, com o empenho institucional, se tornar maior e atingir a sociedade como um todo.

comogerarreflexõessobreisso e rever o trabalho que se faz cotidianamentecomoeducador?

A princípio, o projeto de mediação Diálogos étnico-raciais buscou analisar três pontos de vista a respeito dessa questão: a do artista, a da instituição e a do educador. Primeiramente, fizemos um questionário para os educadores da equipe que buscava colher informações sobre sua relação com a temática ora apresentada. Chegamos

à conclusão de que o artista afrodescendente

é visto, em geral, como aquele que se assujeita

à sua própria condição, como se não pudesse

tratar de outros assuntos em seu trabalho. Quanto à instituição, em geral, são poucas as que trabalham a questão, ou o fazem de forma insuficiente. É notório, por exemplo, a ausência de trabalhos de artistas afrodescendentes em muitas coleções de importantes museus brasileiros.

em muitas coleções de importantes museus brasileiros. PERFORMANCE_PRESENÇA_NEGRA_REPRODUÇÃO Folha de São

PERFORMANCE_PRESENÇA_NEGRA_REPRODUÇÃO Folha de São Paulo, 2016

Chegamos à conclusão de que o artista afrodescendente é visto, em geral, como aquele queseassujeitaàsuaprópria condição, como se não pudesse tratar de outros assuntos em seutrabalho.

Ao longo dos encontros que tive com Juliana Correia, a questão sobre a identidade e o questionamento à própria condição social e política do educador se colocava cada vez mais presente. Daí passamos a pesquisar bibliografias e conteúdos que pudessem alimentar aqueles pensamentos historicamente e na atualidade. Discutimos sobre nossa prática e, sobretudo, o que se poderia fazer para, de algumamaneira,introduzirnelaprovocaçõesereflexões. Como dito anteriormente, o projeto modificou- se, por um lado, na medida em que se produziu um jogo com base nele, e, por outro, recebeu a colaboração de um educador (professor), que o associo à sua prática em sala de aula – educação formal. Na continuidade desse processo, durante a ocupação Boletim Público, a ideia de dialogar a questão étni co-racial e seus desdobramentos permanecerá sendo reavivada, no intuito de ampliar os seus horizontes.

sendo reavivada, no intuito de ampliar os seus horizontes.

REPRODUÇÃO_OSVALDO_FAUSTINO_E_MOISÉS_PATRÍCIO_EM_PRIMEIRO_ PLANO_DURANTE_A_AÇÃO_PRESENÇA_NEGRA_NA_GALERIA_MILAN Folha de São Paulo, 2016

Josinaldo Firmino dos Santos Educador, Graduado em Arte: História, Crítica e Curadoria, PUC-SP

de São Paulo, 2016 Josinaldo Firmino dos Santos Educador, Graduado em Arte: História, Crítica e Curadoria,
Moisés Patrício é artista plástico que aponta as problemazações do racismo através de suas obras.

Moisés Patrício é artista plástico que aponta as problemazações do racismo através de suas obras. “Aceita” é sua obra que utiliza-se das mãos e de objetos para essa ação

do racismo através de suas obras. “Aceita” é sua obra que utiliza-se das mãos e de
trocando de ideia; sistema voz no educação Temos privado?
trocando de ideia;
sistema
voz no
educação
Temos privado?

No TROCANDO IDEIAS, a revista [IM]PRESSÕES apresenta em forma de entrevista rápida: perguntas precisas com respostas diretas, uma forma de problematizar a permanência dos pretos e das pretas dentro dos espaços educativos. Será que somos recebidos com igualdade em qualquer espaço? As instituições particulares, estão preparadas para receber mais alunos e alunas da periferia, por consequência, pretos(as) cada vez mais frequente após o ProUni: “Programa Universidade para todos - um programa que promove a acessibilidade à educação para quem tembaixarenda.Pormeiodele,épossívelconseguir bolsas integrais ou parciais para universidades ou falcudades particulares cadastradas no programa em todo país” (fonte: Site MEC)

Na primeira edição do trocando ideia,

conversamos com o aluno de Letras na Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), Gabriel dos Santos. Ingressante graças ao seu envolvimento com o cursinho popular, o jovem que sempre estudou em escolas públicas da periferia Sul de São Paulo, agarrou a oportunidade e ocupou

o espaço da sala de aula, até então - ou que

ainda é - elitizado. Sabendo de seu potencial e

da necessidade de colaborar om outros alunos como ele, Gabriel, atualmente, é professor coordenador no meso cursinho popular que o abraçou: Carolina Maria de Jesus, localizado no bairro Valho Velho, Zona sul de São Paulo.

[IMPRESSÕES: Gabriel, conte-nos mais sobre você: Qual sua trajetória até o ingresso na Universidade:

GABRIEL: Estudante de escola pública

sempre, desde o fundamental ao médio, e por toda defasagem que existe no ensino público, quando

o conclui busquei um cursinho que entrasse

no orçamento da minha família, no caso, algo gratuito. Foi quando conheci o Cursinho Popular Carolina de Jesus, onde hoje sou professor- coordenador. Com o cursinho, melhorei meu resultado no Enem seguinte (2014) e consegui bolsa integral na FMU no curso de Letras.

[IM]PRESSÕES:Você sentiu alguma diferença, em específico, algum tipo de discriminação racial dentro do sistema de ensino que integra?

GABRIEL: Sim, é uma violência não direta estar lá todos os dias e ser o único negro na sala. É ser silenciado quando suas pautas fogem da realidade da burguesia branca e são pouquíssimas pessoas negras e/ou periféricas no espaço.

[IM]PRESSÕES:

Os

professores

de

sua

universidade

incentivam

o

debate

sobre

igualdade social?

GABRIEL: Nunca! Estou no terceiro ano,

e apena uma vez debatemos cotas, e mesmo assim

foi uma tristeza, óbvio. Os discursos reacionários não mudam. É um misto de tudo. O capitalismo não comtempla os meus (os preto, as pretas, xs pobres), então a gente ocupa algo que não é nosso, mas deveria.

[IM]PRESSÕES: Como professor de cursinho popular: Qual mecanismo de incentivo utiliza com seus alunos?

GABRIEL: O incentivo delas e deles acaba por ser minha história, como a de todxs que constroem o espaço, são pessoas pobres também, com dificuldades em comum, sofrimentos em comum. No mais, nas aulas eu parto da nossa realidade para o conteúdo e não ao contrário como é feito no ensino público e privado.

[IM]PRESSÕES:Você acredita que a cultura e a arte são ferramentas importantes para falar sobre ancestralidade?

GABRIEL:Sim, é de suma importância falar dos nossos, de onde viemos e o tanto que

construímos, ainda que tentem nos apagar. E a arte,

a cultura são meios que estão sendo cada vez mais

sendo utilizados pra falar de nós mesmos. São meios de fácil comunicação, entendimento, é a porta, é a chave.

(O “X” substititui as letras A ou O, neutralizando o gênero:

Gabriel dos Santos

Professor

Coordenador no Cursinho Popular Carolina Maria de Jesus. Graduando em Letras na FMU

e

referênciando a qualquer um)
referênciando a qualquer um)
POESIA [IM]PRESSA: Carolina Maria de Jesus 20 de julho de 1955 Deixei o leito as
POESIA [IM]PRESSA: Carolina Maria de
Jesus
20 de julho de 1955
Deixei o leito as 4 horas para escrever.
Abri a porta e contemplei o céu estrelado. Quando
o astro-rei começou despontar eu fui buscar água.
Tive sorte! As mulheres não estavam na torneira.
Enchi minha lata e zarpei. (
)
Fui no Arnaldo
buscar o leite e o pão. Quando retornava encontrei
o senhor Ismael com uma faca de 30 centimetros
dinheiro. Mas o juiz foi severo. Castigou
impiedosamente.
Fui no rio lavar as roupas e encontrei D.
Mariana. Uma mulher agradavel e decente. Tem 9
filhos e um lar modelo. Ela e o espôso tratam-se
com iducação. Visam apenas viver em paz. E criar
filhos. Ela tambem ia lavar roupas. Ela disse-me
que o Binidito da D. Geralda todos os dias ia prêso.
Que a Radio Patrulha cançou de vir buscá-
mais ou menos. Disse-me que estava a espera do
Binidito e do Miguel para matá-los, que êles lhe
expancaram quando êle estava embriagado.
Lhe aconselhei a não brigar, que o crime
não trás vantagens a ninguem, apenas deturpa
lo. Arranjou serviço para êle na cadêia. Achei graça.
Dei risada!
Estendi as roupas rapidamente e fui
a vida. Senti o cheiro do alcool, disisti. Sei que
os ébrios não atende. O senhor Ismael quando
não está alcoolizado demonstra sua sapiencia.
Já foi telegrafista. E do Circulo Exoterico. Tem
conhecimentos bíblicos, gosta de dar conselhos.
Mas não tem valor. Deixou o alcool lhe dominar,
embora seus conselho seja util para os que gostam
de levar vida decente.
Preparei a refeição matinal. Cada filho
prefere uma coisa. A Vera, mingau de farinha
de trigo torrada. O João José, café puro. O José
Carlos, leite branco. E eu, mingau de aveia.
Já que não posso dar aos meus filhos uma
casa decente para residir, procuro lhe dar uma
refeição condigna.
Terminaram a refeição. Lavei os utensílios.
Depois fui lavar roupas. Eu não tenho homem em
casa. É só eu e meus filhos. Mas eu não pretendo
relaxar. O meu sonho era andar bem limpinha, usar
roupas de alto preço, residir numa casa confortável,
mas não é possivel. Eu não estou descontente com
a profissão que exerço. Já habituei-me andar suja.
Já faz oito anos que cato papel. O desgosto que
tenho é residir em favela.
Durante o dia, os jovens de 15 e 18 anos sentam
na grama e falam de roubo. E já tentaram assaltar o
empório do senhor Raymundo Guello. E um ficou
carimbado com uma bala. O assalto teve inicio as
4 horas. Quando o dia clareou as crianças catava
dinheiro na rua e no capinzal. Teve criança que
catou vinte cruzeiros em moeda. E sorria exibindo
catar papel. Que suplicio catar papel atualmente!
Tenho que levar a minha filha Vera Eunice. Ela
está com dois anos, e não gosta de ficar em casa.
Eu ponho o saco na cabeça e levo-a nos braços.
Suporto o pêso do saco na cabeça e suporto o pêso
da Vera Eunice nos braços. Tem hora que revolto-
me. Depois domino-me. Ela não tem culpa de estar
no mundo.
Refleti: preciso ser tolerante com os meus
filhos. Êles não tem ninguem no mundo a não
ser eu. Como é pungente a condição de mulher
sozinha sem um homem no lar.
Aqui, todas impricam comigo. Dizem que
falo muito bem. Que sei atrair os homens. ( )
Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro
escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal
e escrevo.
ESPECIAL A educação reescrevendo Flávio Antônio da Silva Nascimento: a história
ESPECIAL
A educação
reescrevendo
Flávio Antônio da
Silva Nascimento:
a história

Flávio Antônio da Silva Nascimento, nasceu em São Paulo em 1952. Graduou-se em História e Filosofia na Universidade Federal de São Paulo na década de 80 e especializou- se em Filosofia pela Universidade Federal de Mato Grosso - 1988. Doutor em História Social por sua universidade de origem (USP), pós- doutor em 2005 e Livre Docente desde 2013.

“Em Rondonópolis, teve ampla atuação política, a exemplo dos “80 Domingos Negros” (2006-2013), grupos sobre a mulher negra (2002), grupos de discussão sobre a homoafetividade negra (2013), grupos de estudo sobre as doenças falciformes (2012), grupo de formação socialista (2012), grupo de formação de consciência negra (2009), grupo de formação de história econômica e economia política (2005).”

(Fonte: A Tribuna Mato Grosso Digital. Disponível em: http://www.

atribunamt.com.br/2013/09/camara-fara-homenagem-a-flavio-nascimento

O Professor Flávio acolheu Juliana Correia e Josinaldo Firmino em sua casa em São Paulo - SP, onde reside desde sua aposentadoria. Em uma conversa amigável e acolhedora, o Historiador e Filósofo contou um pouco de sua trajetória, os valores que carrega em sua militância e deu um exemplo valioso de como a educação é transformadora e essencial ferrament no movimento negro. Iniciamos o diálogo explicando à ele o que era o Projeto Diálogos Étnico-Raciais e o objetivo de somar arte e educação na luta do ensino da ancestralidade. Assim, sem dúvidas, o Professor Flávio tornou-se um importante aliado na proposta, sendo modelo e grande mestre.

[Im]pressões: Sobre ancestralidades, é papel o educador ensinar ao jovem, à criança, em cursinhos populares? Qual é nosso papel nessa área? Na revista [Im]pressões, conversamos com educadores para falar sobre como podemos atuar nos espaços onde nos encontramos: Conte- nos um pouco de sua trajetória como professor:

Professor Flávio: Eu sou professor aposentado. Lecionava História e Filosofia. Mas eu acho que a escola, não é que ela não esteja preparada, isso é muito capcioso. Acho que ela precisa de mais investimento, ampliar as vagas, reformar a educação. Porque senão eu acredito que nós vamos ficar nesse faz de contas. Você tem a lei, mas a lei [lei 10.639/03] não funciona… Em Assis, eu percebi uma experiência interessante. Eu percebi que a prefeitura de lá, nos anos 1980, antes da experiência do PT, portanto, muito antes, tinha um cursinho para gente negra. Achei estranho. Era um dos lugares mais reacionários do estado de São Paulo, da região. Eu vi as pessoas se empenhando. Eu fiquei tocado por essa experiência. Eu achei tão simples de fazer. E não entendia por que não era feito. Por que o movimento negro não toma a dianteira isso? Depois eu vi a experiência do Frei Damião aqui, que conheci por alto. Quando eu voltei para Rondonópolis, eu pensei nisso. Teve aquela marcha dos zumbis dos Palmares. E aí eu falei não - sendo pedagogo, pensa que tudo se resolve pela educação –, acho que vou fazer isso: vou criar um cursinho para habilitar negro e branco pobre. Na verdade, a intenção era para que eles entrassem na questão racial - serem capacitados -, a entendessem e passassem a militar por ela. Porque eu achava o nível de consciência dos negros, em geral, muito baixo, baixíssimo. Assim, eles poderiam, pelo menos, tomar pé na situação. Quer dizer, eu daria uma contribuição, assim como o pessoal de Assis fazia. Lá eles faziam por motivo político-eleitoreiro, para o prefeito ganhar voto na eleição, só. Em outros lugares em que eu vi coisas parecidas, também.

E aí eu comecei. O ponto inicial foi esse:

levar essa experiência para Rondonópolis, mas fazendo com negros, por negros, de negros para negros. Por que lá em Assis era o pessoal da prefeitura, burocratizado e tal. Mas não tinha

outra finalidade senão a ajuda cristã. Eu cheguei

a Rondonópolis, comecei a equacionar como que

seria se seria pertinente. Aí eu achei que sim. [Im]: O racismo impede nossa identificação. De onde o senhor acredita que isso venha? É uma questão familiar, social? P.F: É histórica, é abrangente. Claro que vai se refletir em cada uma dessas partes que você falou. Mas chega até o nível pessoal, individual. Começa com a história. Tem um pacto social aqui no Brasil, pouca gente fala nisso. Tem uma psicóloga da USP que escreveu sobre o racismo na perspectiva psicológica. E ela disse que, no século XIX, na abolição e na pós-abolição, foi engendrado um pacto, como que subliminar não declarado, foi posto, que é o negro não falar do racismo e o branco não falar também. Parece – para isso teria que voltar à sociedade da época – que eles estavam achando que estavam realizando alguma coisa, abolindo a escravidão. Quando, na verdade, eles estavam começando a ter um grande problema. Mas é que o negro entrou com uma noção de dádiva, de ter recebido a abolição como uma dádiva, como uma benfeitoria, um presente. E o branco assim como tendo realizado uma grande coisa, o que é uma tolice. Na realidade, não era nem, talvez fosse o pensamento majoritário, mas não eram os únicos pensamentos que existiam. Tinha o pensamento reformista. E parece que se incorporou como tradição cultural – a Filosofia não gosta muito disso, gosta mais das ideias. Sabe quando uma coisa que fica aferrada? Nós quase que temos vergonha de discutir

o racismo. Não somos apenas nós, os negros, os brancos também. Eles têm uma – na minha opinião, isso se dá por formação cristã -, como que uma percepção de que é uma coisa muito feia, malvada. Sabe uma coisa criminosa? E o negro como se fosse muito rebaixado com o racismo. E de fato foi. No entanto, ele também renúncia. Eu acho que vem de certo complexo, um duplo complexo, eu diria. [Im]: Sim. Uma coisa que o senhor falou que eu achei interessante foi essa questão de não querer falar. E, atualmente, nas conversas que tive com Josinaldo e o Ricardo, concluímos que falar sobre ancestralidade racismo e virou “cult”.

P.F: Está na moda. [Im]: Aproveitamos que está na moda e filtra, ou não, é uma fala só nossa? Porque tem até aquela coisa que vira briga de coletivo, que é o lugar de fala. P.F: Não sei. Eu acho que tem que aproveitar logo antes que passe. Daqui a pouco a moda é o fascismo. Tem que aproveitar. Não falo de ser oportunista. Não é isso. Usar com responsabilidade, com compromisso. Mas e sim. Eles põem cada coisa em evidência. Esse negócio da fala que você está dizendo seria uma temática dos anos 1980. Está retornando. Quem que é o sujeito que está falando? Quem que tem, como se diz, quem é gabaritado, não mal representa o outro? Não distorce representação. Já passamos por isso. Eu acho que não resolveu naquela época, parece que não vai resolver hoje, de uma vez. Porque, para mim, é um contrassenso. É um contrassenso. Você é uma intelectual negra. Está gabaritada, você tem histórico de vida, tem a experiência acadêmica, tem a participação na problemática e tem o negro propriamente dito. Ele não tem direito à expressão, à livre manifestação? [Im]: Quando falamos de ocupar espaços, prcebemos que o negro ainda não se sente pertencente, por exemplo, a espaços de “arte erudita”, “academicista”. Sobre o espaço da educação, isso ainda acontece? E, dentro de um cursinho para negros, eles estarem lá já é uma iniciativa? P.F: É uma iniciativa boa, importante, e, claro, lá a recepção é diferente. Porque já se tem uma expectativa de que o negro vai falar. É o cursinho do negro. Já se pensa nisso. Por exemplo, nós fizemos como lá [em Rondonópolis]? Como a gente arranja professores sem dinheiro? Como se implanta um cursinho do nada? Nós fomos à universidade [UFMT (Universidade Federal do Mato Grosso)] e pedimos uma reunião com o DCE, com os CAs. Todos os

cursos têm negros, mal ou bem, mais inserido, menos inserido. E, claro, lógico, todos se prontificaram a apresentar trabalho voluntário, e nosso cursinho na época tinha uma inovação - hoje isso já é comum

-, tinha História da África, antes do Lula, nós já

tínhamos essa ideia. Então isso atraía muita gente.

E a gente contava com o estudante do primeiro,

terceiro ano, que ainda é rebelde até o terceiro, quarto ano, depois ele começa a ficar conservador. Então eles se prontificaram, participaram muito. Então a aceitação foi grande, grandiosa.

E como não tinha nota, era livre o debate, era

acalorado, aberto. Isso criou atraiu muita gente. Criou um engajamento muito grande, participação muito ampla. Então, minimamente, apareciam mulheres também, mulheres organizadas, começam

a dar aula no cursinho. Então, eu acho que isso foi

muito importante, foi bom. Foi um espaço que a gente conseguiu manter nosso. Nós que planejávamos, debatíamos. E não tinha remuneração para ninguém. [Im]: Em que ano o cursinho foi criado? P.F: Ele está no décimo ano. Foi em 2005,

2006.

[Im]: E o formato das aulas, essa estrutura diferente, num formato caloroso, horizontal, em roda. Ele conta também nessa identificação? P.F A gente sabe que aquele é um espaço aberto. Mas o que legitima, em última instância, o cursinho - e outros congêneres assim - é aprovação no vestibular. Porque tudo bem, se eu tenho uma autorização na sociedade para funcionar, é até o

ponto em que ele tem eficiência. Sem eficiência nenhuma, ele vai ser recusado. E ele teve eficiência porque, no último turno, em 2016, entraram 50 na universidade federal de lá. Você tem que ter esse cuidado, mas também contemplar o interesse mais amplo. Por exemplo, em Biologia, a gente tanto ensinava currículo quanto levava os alunos para viagem de campo. Eles ficam dois três dias, viam

a soja, uma pequena propriedade. Já entrelaça, vai

discutir pequena produção, outras coisas correlatas. Então soubemos minimamente conciliar o currículo

com a liberdade de ensino, com liberdade de interesse. Ainda conseguimos por gente para dentro assim, nessa perspectiva. O Ricardo acho que pegou uma época que podia, não chegava a ser um curso, mas uma sequência de filmes. Então havia um cinema, que já entrelaçava com a língua portuguesa.

um cinema, que já entrelaçava com a língua portuguesa. Foto: Juliama Correia Porque eu acho que,

Foto: Juliama Correia

Porque eu acho que, dessa maneira, você contempla também, você torna o curso mais leve. Não discute só burocraticamente o currículo, embora você tenha que discutir também, você tem uma meta, não pode pensar que a experiência não vai ter duração plena se não houver nenhuma eficiência. Eficiência é ingresso pelo vestibular. Nós lá felizmente tivemos. Na última turma que nós tivemos agora de 140 nós pusemos 50. [Im]: Esses alunos que passaram pelo cursinho, de algum modo, eles chegam à universidade mais conscientes do seu papel, da sua identidade? E há alguma diferença com um aluno negro que não passou pelo cursinho, mas que entrou na universidade? P.F: Eles chegam com um pouquinho a mais.

Mas, não sei se você concorda com a minha opinião,

o negro, muitas vezes, é muito afastado de si, tem

baixa consciência muito forte. Então aqui ele já é. Agora num centro pequeno, ele é mais ainda. Então,

ele é presa fácil de certas ideologias que distorcem

a negritude dele. Em linhas gerais, ele chega um

pouco melhor. Eu lembro de um caso que não foi excepcional. Fomos em uma das piores favelas da cidade. Nós resgatamos, tiramos de lá do fundo do poço uma menina negra que estava para desistir do ensino. Estava próxima da criminalidade. Ela

fez o nosso cursinho e entrou em sete faculdades. Uma coisa assim impressionante. Quer dizer, a consciência, ela foi lá se prontificar a continuar a experiência dela. Agora, não sei em que medida que você fala da consciência. Eu também abuso dessa palavra porque é muito complexa, por causa do racismo brasileiro, a consciência. Porque quando

a gente fala de consciência a gente não explicita

que consciência é o que a gente está querendo, está falando. Minimamente mais consciente em termos de auto-afirmação. [Im]: Na universidade, por exemplo, numa instituição privada, a maioria dos alunos é branca. Haverá aí um enfrentamento, muitas vezes explícito, às vezes com o professor. O racismo também é, por outro lado, silencioso, disfarçado. Os alunos do cursinho tem uma reação mais consciente, que possa enfrentar o racismo e promover uma mudança? P.F: No mínimo, ele fica mais respondão.

É

um contraditório tudo isso, entende? Realmente

o

cara saí mais consciente, mas aí você aposta que

ele vai fazer muitas grandes coisas, mas um monte vão ser cooptados mais adiante. É como aqui.

Já pensou em um lugar para ver os amigos, se divertir, aproveitar as culturais, tudo
Já pensou em um lugar
para ver os
amigos,
se divertir,
aproveitar as
culturais,
tudo isso
melhores atrações
em
“uma tacada só?”
tudo isso melhores atrações em “uma tacada só?” Todo penúltimo sábado do mês, na Casa Balaio!

Todo penúltimo sábado do mês, na Casa Balaio! Pertinho da estação Jardim Ro- mano da linha 12 Safira (CPTM)

Casa Balaio: Rua Adobe, 47, Jardim Romano São Paulo - S.P

Realização:

Jardim Ro- mano da linha 12 Safira (CPTM) Casa Balaio: Rua Adobe, 47, Jardim Romano São

Não tem necessariamente uma trajetória sempre

ascendente. Tem gente que estaciona, tem família. Tem que gente que vai assessorar deputado. Nós perdemos muita gente assim. Foi assessorar vereador, deputado, e ficou por lá. Fica fazendo trabalho de gabinete. Agora teve uns que, pelo contrário, fizeram a diferença. Mas é a minoria. [Im]: Percebemos, muitas vezes, que é muito mais falado sobre racismo com quem já tem uma certa consciência do que com quem nunca ouviu falar e não se sente pertencente ao espaço. Como agir?

Posso ter uma visão

exagerada. Eu acho que a gente tem que ensinar para as pessoas o que é racismo. Desculpe, não estou falando, não estou querendo subestimar ninguém. Eu acho que as pessoas não sabem o que é racismo. Assim, claro, se eu pegar um dicionário, aí eu olho lá a definição, mas não é isso. Aprender o

que racismo é delicado, é difícil, é você percorrer sua vida, ir apreciando as experiências. Porque, eu ouso dizer isso, eu acho, posso ser muita pretensão da minha parte, que eu aprendi quatro formas principais de racismo, penso eu. Posso não ter realmente razão nisso, nem certeza. E são essas principais formas que nos envolvem, entende? Porque, sabe aquele negócio do pacto que eu falei no começo da nossa fala? Enquanto as pessoas tiverem, de certa forma, essa visão de que o racismo é uma maldade ou uma fraqueza, nós temos poucas condições de aprofundar a questão racial. De relevá-la, debatê-la

e, quem sabe, superá-la. Mas então é isso que falta.

Quem é militante precisa admitir que o racismo é em 90% inconsciente. Ele é inconsciente. Ele não é uma ação deliberada. Há uma ação, sem dúvida. A pessoa não é consciente de que efetivamente isso é um traço, de que isso significativamente é um traço da estrutura de raça

e de classe. O cara não pega isso. Demora anos

para você pegar isso, para você sedimentar na sua cabeça. Entende? Eu acho que é isso. A gente dá uma palestra aqui e não finca raízes. Porque ou você já está preocupado, já num processo de esclarecimento, ou você não consegue ter a dimensão de que – vou

falar uma coisa simples, boba – a África não é um país. A maioria pensa que a África é um país, e só vê um povo de lá. Só tem um negro, um tipo de negro.

E ela não sabe que

Você já observou a Umbanda?

Já participou? Aquilo é uma complexidade

Candomblé

Então, agora, uma pessoa comum

de classe média aí, um branco de classe média

do bem,

ele não alcança essa

Acho que é complexo.

bonzinho, do bem, ele não alcança essa

P.F: Não sei se eu

Acho que precisa ensinar mesmo, sabe?

O movimento negro devia de se preocupar com

isso também, não só isso, tem que militar, é claro.

Mas tem que levar esse entendimento. O racismo é caro, é difícil, e precisa saber o que é, para superar mesmo. Porque a primeira discussão, quer

dizer, sempre coloca “eu não sou racista, não sou”.

É a questão da culpa cristã. A culpa do espectro.

Eu sou pecador. Eu não sou pecador. É difícil. Essas coisas estão associadas na mentalidade. [Im]: Sobre espaços de arte: como é que esses lugares da representação cultural podem ser instrumentos ou plataformas, meios, para se disseminar essa discussão racial? De um lado, tem uma valorização da estética negra, por exemplo, do Black Power. Como é que se equilibra isso? P.F: Você compreende o que é Black Power, historicamente, certo? Você sabe que é Angela Devis. Mas uma pessoa comum não sabe disso. Ela não sabe essa coisa de negro. Se tiver na moda ela usa também. Ela vai dançar, ela vai pular. Mas o que quero frisar é – você tem razão – que nós que temos alguma instrução a gente cobra o direito de representação nos meios de comunicação de massa.

Agora, se vincular, se continuar, se persistir assim, acho que vai se formar uma negridade. Agora, desculpe te decepcionar, mas nós não somos isso. Nós não somos a Angela Devis. Nós brasileiros, nós não somos. Nós também não somos o Olodum. Nós somos negros que somos maioria. Não podemos reagir como minoria. Nós reagimos como minoria. Nós pedimos conta de 20%. Nós somos a maioria da população. A gente quer uma representação na Globo com percentual de atores negros na novela, mas a gente não quer escrever a novela. O racismo ainda vai persistir em quem escrever a novela, na estrutura da novela, mesmo que tenha lá um negro dançando, para contentar a pressão do movimento negro. Eu falo que a gente não sabe, não percebe, no geral, o que é um negro e o que é racismo. A população como um todo não identifica como racismo não ter uma repórter negra

no Jornal Nacional. Ela não vê isso como racismo.

“A gente quer uma representação na Globo com percentual de atores negros na novela, mas a gente não quer escrever a novela.”

A Maria Júlia Coutinho, a Majú, eles não estão pensando que estão dando a parte mais vulgar do jornal para ela. Não alcança esse nível de reflexão, sabe? Porque, na minha opinião,

volto à velha tecla, precisa saber o que é racismo, saber o que é raça, se existe raça biológica, se não existe, se existe raça histórica. Como é que é? Para entender que quando fazem um desfile militar, que ali está cheio de racismo, porque não tem nenhuma representação de quem mais morreu nas guerras, na Guerra do Paraguai; de quem era enviado na frente como resistência primeira, ataque primeiro. Se a gente tivesse uma percepção maior do racismo, a gente não aceitava esse desfile. Mas onde que está minha representação? [Im]: O senhor estava falando da questão dos 20% das cotas, eu me questionei que nos espaços centrais de arte contemporânea, nos contentamos com tão pouco P.F: Você tocou numa questão importante.

A maioria da população paulistana é negra, mas

não se aceita como tal. Ela não quer ser negra, ela sempre dá um jeitinho de disfarçar. Mas em setores ilustrados, esclarecidos, sim, há uma demanda por negritude, na realidade. Mas muitos, no comum, em geral, eles acham que não, que só o preto que tinha que entender, já que não sou preto. Isso cria problemas, não só de identificação, mas do próprio reconhecimento do que é importante, do que é valor do que fizemos e continuamos fazendo, de projeções que a gente tem. Eu acho que, volto à grande questão: você tem que ensinar o que é negro. Se você vai ensinar

o que é racismo, você tem que ensinar o que é negro também. Mas partindo desse suposto. O racismo

é inconsciente, inclusive, para o próprio negro é inconsciente. [Im]: Nos espaços teatrais e cinematográficos, sempre e ainda nos deparamos com as problemáticas do black face. P.F: Isso devia ser proibido porque não tem

sentido. No passado já se justificava que não havia artistas negros. Então, eu acho que, eu estou falando

às vezes mais como pedagogo, porque a experiência

que eu tive na universidade foi essa. Porque eu tive

a experiência no cursinho, na universidade vi os

negros não querendo ser negros, se incomodando em ser negro. Precisa conceituar o que é negro,

para a academia. Agora, quando a gente vai falar com a massa, então, a gente tem outro jeito, talvez mais vivo, não sei, mais fácil, para que ele entenda

o que é negro e que não é desdém. Tem gente

que pensa que negro é sinônimo de coisa ruim.

Na maldição de Cã propriamente dita, no mito, tem o Gênesis, né? Porque Cã* era identificado na Antiguidade como negro. E Deus teria os filhos negros. O povo de Cã era o Egito, o Antigo Egito. Eu acho que isso ainda está indiretamente na nossa cabeça. Não está com todas as partes constitutivas, mas está minimamente. Você vê um menino que rejeita a menina negra para namorar. É a cor, né? A primeira coisa a que ele se opõe. Não sei se me entende, tudo vai se aproximando daquela ideia que eu falei no começo de que precisa ensinar o que é racismo. Eu acho que tem que ensinar sim. Desculpe minha teimosia. Explicar mesmo. Ter cartilha, ter coisas. Assim eles fazem com a História, com o passar do tempo eles vão distorcendo a História. Eles fazem livro didático. Mastiga. Acho que a gente devia fazer o mesmo. O movimento negro se ocupa muito com os negros que estão com algum nível de informação, de entendimento. Acho que deixa no segundo plano a grande massa. Acho que o movimento negro tinha que investir nos professores. Questão pedagógica.

“A maioria da população paulistana é negra, mas não se aceita como tal. Ela não quer ser negra, ela sempre dá um jeitinho de disfarçar.”

[Im]: Existe a lei da implantação do ensino da História africana. Mas, muitas vezes, o professor não tem o ímpeto de ir lá e enfrentar, de algum modo, todo o sistema, e reconhecer que é necessário falar disso. P.F: Mas essa é a História. Quer dizer, não tem como ficar fora da História, faz parte da História. Se eu vou falar da colonização brasileira, por exemplo, a História do Brasil, de onde vieram os africanos? Como que eu não vou contar qual era a África? Mas, quando o próprio professor tem um bloqueio na cabeça e acha que os negros estão atrasados, são incapazes, ele não vai fazer isso bem feito. Antes a gente podia falar: “não tinha livro”, na verdade não tinha mesmo, tinha poucos. Mas hoje tem bastante. Embora seja um impedimento legal.

Os professores não vão contra esse impedimento legal. Tem a lei, mas não tem espaço na escola para dar aula de História. Eu falo isso porque eu passei dias difíceis, um confronto com um pessoal em Pedra Preta, uma cidade do interior do Mato grosso. Eu estava pedindo a colaboração dos professores e dos diretores para que inserissem África Negra paralelamente junto com o currículo. Eles não queriam. Eu ficava assim: “mas por quê?”, “será porque são conservadores?” Mas não é. Sabe o

que o diretor fazia? Dizia: “pode inserir, mas só se vocês vierem trabalhar a mais”. Sem remuneração. Entende? Precisa aumentar a carga horária de escola para inserir História da África. [Im]: História da África, em algumas universidades, é eletiva. Deveria ser obrigatória, não deveria? P.F: No curso que eu dava aula de História, eu coloquei como obrigatória. Para acabar com isso aí. A gente mobilizou os alunos contra os professores, e deu certo, foi bom. [Im]: Falando sobre os educadores. Que educadores devem ensinar sobre ancestralidade? Há essa divisão? P.F: A própria lei já explica isso. Dentro da lei está se dizendo que a manifestação de História

da África tem que ser usada em todas as disciplinas,

em História da Arte também, História Africana da Arte. Mas para encaminhar eu sempre pensei num

colegiado na escola, com planejamento. Aí divide-

se as tarefas. Não é só o professor de História que

vai dar História da África. Tem que se equacionar o problema. A primeira problemática é a insuficiência

de carga horária. Não tem carga horária para dar aula de História da África e do Império Romano, História da Ásia. Não tem. De alguma maneira, tem que equacionar como você vai fazer, o que

vai priorizar. Isso é uma questão docente. Agora, depois disso, na minha opinião, tem que se ver

a capacitação docente da escola. Reciclagem,

educação contínua. A escola tem que discutir se ela

tem capacitação para darAntigo Egito.Ainda vamos promover um curso de professores de Antigo Egito. [Im]: Então, o senhor acredita que essa capacitação tem que serdada a todos os docentes? P.F: Não. A estabilidade do ensino Hoje eles estão num escola, amanhã já não estão mais. E agora com essas leis trabalhistas aí, essa flexibilização que eles estão criando. Vai haver garantia como? A permanência na escola por mais de um ano, por exemplo?

[Im]: Sobre arte-educação: Se numa exposição de arte tiver também artistas negros e também um pouco da História, negros e também um pouco da História, esse material ajuda a falar da negritude e ancestralidade e ao mesmo tempo de literatura, de artes, temas que se atravessam, Filosofia? P.F: Sim, vantajoso sempre é, mas, na minha opinião, eu acho que você tem que levar o aluno comum, porque eu acho que o sistema de ensino é uma conquista burguesa, é para todo mundo. Não vou ter uma escola de negros, uma escola de brancos. Posso ter isso? Não posso. Quer dizer,

até posso se fizer uma mudança social. Mas se não, você vai ter que convencer o outro que o conteúdo que é ensinado com ênfase por um professor negro

é para todos. Eu acho que não pode ter situação em

que, na escola, a professora é negra assumida, dá aula

– e isso tem muito em escola por aí –, no colegial,

para um grupinho. O grupinho chega, fica batendo papo, conversando. Eu fico me perguntando para que isso aí? Aí você tem um grupinho de negros ali. Vigora ali um pacto. Ela não incomoda os meninos que vão para fumar maconha, deixa os caras lá, e eles também não interferem na didática dela. Você

quer isso, sinceramente, como educador? Eu não quero, porque isso tem pé de barro. Isso pode te dar um sucesso aparente. Eu acho que a gente tem que ter raízes sólidas. Tem que ter a solidariedade do branco pobre, não do branco de classe média. Mas

o branco pobre vem da gente também. Muitas vezes

ele é descendente da nossa gente. E se ele for seu

aliado ali, se ele entender o que está se passado, ele vai participar de alguma coisa posterior. Agora, se ele for também um cara que olha para a atuação da docente negra isolada como uma coisa seccionada

e se a secretaria do ensino vai questionar qualquer

coisa ele vai falar: “só tem aula para gueto”, como nós vamos fazer? Nós não somos americanos. Nós temos que assumir que somos brasileiros. Agora o que é brasileiro é outra discussão. Porque nos Estados Unidos faz sentido. Tem outra História. surgiu na África. Eu preciso saber isso, falar para as pessoas, explicar como foi, que tipo de democracia que era, senão eu não vou acabar nunca essa falácia de que a democracia surgiu na Grécia. Você conhece. Agora, eu acho que a gente tem que ensinar essas coisas. Isso não te exime de fazer o movimento negro. Acho que isso é um aspecto do movimento negro, sabe? Você tem que lutar pela segunda abolição. Todas essas coisas são pertinentes, mas eu não consigo entender como que um espaço público vai ficar seccionado.

Tenho dificuldades de entender, porque eu acho que a gente precisa enfrentar essa questão do racismo, superar essa questão em que ele parou de que eu discuto com minha turma, eles discutem lá com os deles. Vocês assistiram “Amistad”? Esse filme

é esplendoroso, mostra uma história real. Tem

hora que um navio negro, de tráfico de escravos, rebelado - começa ali um motim, eles estavam precisando voltar para a África -, cruza com um navio da elite europeia. Eles estavam tocando Bach, Strauss. Então, um navio cruza o outro como fossem mundos separados, mas a ironia do diretor desse filme é bem essa. Pedi para a população fazer silêncio para eles não acordarem do pesadelo em que eles estão. Não existe a burguesia europeia finesse sem o outro. É o outro que possibilita a

riqueza. Então a gente precisa ensina para eles isso que ela falou de passagem aqui. Onde começou mesmo a democracia? Onde que começaram as principais religiões? Onde surgiu o homem? Isso daí é conhecimento universal para todo mundo. Agora, a escola continua com aquele conteúdo absurdamente seccionado, mas a gente não entra de chofre no racismo. O racismo é sobretudo ignorância, má fé, manipulação. [Im]: Como o senhor vê nas artes, especificamente, a representação do negro hoje? P.F Em parte, eu vejo uma sub- representação. Em geral, os meios de comunicação não propiciam uma expressão na dimensão possível, verdadeira. Mas a gente precisa tomar uma precaução de não folclorizarmos nós mesmos. Ocarnaval,porexemplo,agentereclama:“ocarnaval

é um espaço negro, foi englobado pelos brancos,

a figura do carnavalesco”; se perdeu tudo. Hoje é

uma indústria famosa. Eu acho que é verdade, mas acontece que nós não queremos lutar pela verdadeira original manifestação do carnaval. Eu posso falar como Historiador. Eu sei contra o que as escolas de samba se contrapunham na época. Aquele carnaval elitizado, europeizado, de só desfile de fantasia, de salão que seccionava

a população, poder aquisitivo elevado. Agora, o

carnaval tinha uma proposição mais abrangente. Isso foi perdido na História. A gente não quer recuperar isso. Vocês já assistiram os bailes de carnaval da Globo? Às vezes, eles chamam vários negros para ficar comentando aquelas pataquadas lá. Vocês já viram a nova MPB? Eles usam muitas palavras em ioruba, mas, santo Deus, não tem sentido, é desarticulado. É só para aproveitar o centenário do samba.

[Im]: Arriscado dizer que é oportunismo? P.F: Oportunismo. Por isso que, se a gente ensinasse o que é, esses tipos também não fariam o que fazem. O Amilton Costa deu uma contribuição relevante, mas agora ele só enfeita. A Glória Pires não entende nada de samba. Agora, não é que eu estou defendendo que só o especialista tenha que fazer. Estou defendendo um compromisso com a nossa tradição. Iansã não bate com o feminismo de classe média. É África. Claro a gente pode fazer as adaptações necessárias ao Brasil que a gente quiser. A gente é livre para isso. Mas eu não posso forçar certas coisas que não tem correspondência. Eu acho que está uma usurpação.Adiferença [entre Iansã e o feminismo de classe média] é nítida. E acha que apropriação cultural existe e é

legítima. Mas ela tem limites, senão descaracteriza. [Im]: E as mulheres negras periféricas, já que citou o feminismo, precisam dee um recorte específico dentro do movimento? P.F: Uma boa parte das nossas mulheres porque tem traços físicos amenizados em relação à negridade elas até são aceitas, mas são raras, são excluídas. Tem aquele livro que fala das negras tidas como bonitas, da Gislaine Morero - fala das cinderelas negras. Então, veja bem, a questão não é ter Barbie preta. É não ter Barbie que é a questão.A gente tem que lutar por maior representação na mídia. Acho perfeito. Na Literatura. Tudo bem. E acho que de fato é

o racismo que impede isso. O racismo de forma

geral, não é o diretor de produção que é racista. O

racismo, no geral, chega à cabeça dele.

Então ele precisaria ter uma formação diferente da que ele tem para não ser racista. Agora, desculpe, eu insisto que nós não somos americanos, porque nos Estados Unidos o que o negro passou é uma coisa inaudível. Ele tem essa noção de teoria do mal às avessas, de teoria da conspiração, mas tem nuances, tem diferenças. É diferente. Então,

a gente mesmo não pode folclorizar, contribuir

para a folclorização. Como a flor do Exu, tem

que explicar. Agora, tem que explicar Exu mergulhando na História. Você vai falar que é um sucedâneo do diabo? Por favor! Tem que explicar

a noção africana de machismo. Exu é sobretudo a

força da afirmação do machismo nessa religião.

No Pierre Verger tem cidades no Norte da África que tem monumentos.Ali mostra a autocracia do macho.

É isso que, em grande parte, era Exu, mas tem que

ver o contexto lá, porque senão você não aprende. Senão você fica com o estereótipo na cabeça.