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JAN-FEV DE 2016

Uma revista para pastores e líderes de igreja


Exemplar avulso: R$ 13,80

DE OLHO
NO FUTURO
O desafio de pastorear
a juventude do século 21

O DESAFIO DA O PÚLPITO DAS


MOBILIZAÇÃO NOVAS GERAÇÕES
EDITORIAL

Grandes desafios,

William de Moraes
grandes possibilidades

N
o fim de 2014, o Fundo de População das Na- de crescimento e engajamento espiritual, de tal manei-
ções Unidas (UNFPA) publicou um amplo re- ra que elas cresçam imersas em um ambiente altamen-
latório populacional intitulado The Power of te identificado com a cosmovisão cristã.
1.8 Billion: Adolescents, Youth and the Transformation Outro ponto importante nesse processo está relacio-
of the Future. Esse estudo constatou que, na ocasião, nado à proximidade. Conforme o tempo avança, é natu-
existiam no mundo 1,8 bilhão de jovens entre 10 e 24 ral que haja certa distância entre as gerações. Contudo,
anos, número nunca antes alcançado na história da hu- precisamos nos manter próximos das crianças, dos ado-
manidade. No Brasil, por exemplo, estima-se que haja lescentes e jovens da igreja, por meio de atividades agra-


51 milhões de jovens em nossos dias, cerca de 25% da dáveis, edificantes e intencionais. Nas ocasiões informais,
população nacional. abre-se a oportunidade de se construir pontes que li-
Estatísticas referentes a essa faixa etária na Igreja guem o coração dos pastores ao coração dos jovens, com
Adventista do Sétimo Dia na América do Sul também o intuito de conhecer as necessidades juvenis e aten-
apresentam números expressivos. De acordo com a se- dê-las de modo condizente com a fé que professamos.
cretaria da sede sul-americana, em seu território, cerca Além disso, precisamos ser sensíveis às lutas vividas
de 55% (1,2 milhão) dos membros batizados são com- pela juventude de nosso século. Em cada geração, os
postos por pessoas com menos de 35 anos. Assim, os Como pastores, jovens se depararam com diversos desafios, mas o que
números mundiais e denominacionais apontam para a precisamos temos visto em nossos dias é algo realmente assusta-
mesma direção: vivemos em um cenário no qual a ju- viver à altura dor. As implicações do relativismo e as transformações
ventude tende a assumir um papel de destaque em to- do chamado que o universo virtual tem provocado não apenas no
dos os aspectos. e da vocação conteúdo, mas também na estrutura do pensamen-
Essa realidade deve ser considerada no contexto ad- ministerial, a fim to, potencializam a batalha que os jovens enfrentam
ventista com um misto de alegria e preocupação. Por de ter acesso para se manterem fiéis. Com sensibilidade cristã, preci-
um lado, numericamente a igreja conta com um grande ao coração de samos ser sábios para acolher, aconselhar e direcionar
grupo de jovens capazes de se envolver na missão. Por nossos jovens. nossa juventude a um relacionamento dinâmico e pro-
outro, o relatório denominacional sul-americano tam- A coerência abre fundo com o Salvador.
bém indica que 68% do total de pessoas que deixam a espaço para o Por último, devemos manter inabalável nosso com-
igreja fazem isso nessa faixa etária. discipulado nos promisso com a doutrina e a ética demonstradas nas Es-
Diante desse quadro preocupante e desafiador, o que caminhos de crituras Sagradas. A juventude tem sido cada vez mais
podemos fazer para discipular os jovens a fim de que Jesus.” crítica quanto às incoerências de líderes e comunida-
cresçam em seu compromisso com Deus, estejam en- des cristãs. Como pastores, precisamos viver à altura
volvidos na missão e se preparem para a vinda de Cristo? do chamado e da vocação ministerial, a fim de ter aces-
Em primeiro lugar, quanto mais cedo começarmos o so ao coração de nossos jovens. A coerência abre espaço
processo de discipulado, melhor. Não podemos subesti- para o diálogo e ao discipulado nos caminhos de Jesus.
mar o interesse das crianças nos assuntos relacionados Embora o desafio seja grande, as possibilidades são
ao reino do Céu. Como pastores, devemos aproveitar to- ainda maiores. Ellen White foi contundente ao dizer que
das as oportunidades formais e informais que envolvem “o Senhor designou os jovens para que sejam Sua mão
a vida da igreja para desenvolver na mente dos peque- auxiliadora”. Sobre nós, recai a responsabilidade de pre-
ninos o amor a Deus, a Seu povo e Sua missão. Para que pará-los para isso.
isso ocorra, é necessário pensar de maneira estratégi- Wellington Barbosa
ca como proporcionaremos às crianças oportunidades Editor

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SUMÁRIO

2 Editorial
10 As crianças e a missão
L inda Koh
Não subestime o que elas podem fazer no contexto
4 Palavra do leitor
missionário 5 Panorama
6 Entrelinhas

14 O púlpito das novas gerações


 dailson Fonseca
O
Dicas práticas para preparar sermões que alcancem o
7 Entrevista
30 Além das fronteiras
coração dos jovens
32 Dia a dia

16 O desafio da mobilização
 oberto Giordana
R
Como engajar a juventude da igreja na missão
34 Recursos
35 Ponto final

18 Oportunidades
Erton Köhler
Saiba o que a Igreja Adventista está planejando para
superar os desafios de 2016
CASA
PUBLICADORA

20  issão adventista: do
M
Uma publicação da Igreja Adventista do BRASILEIRA
Sétimo Dia Editora da Igreja Adventista do Sétimo Dia

despertamento ao engajamento
Ano 88 – Número 522 – Jan/Fev 2016 Rodovia SP 127 – km 106 – Caixa Postal 34
Periódico Bimestral – ISSN 2236-7071 18270-970 – Tatuí, SP

Diretor-Geral
 agner Kuhn e Marcelo Dias
W Editores
Wellington Barbosa e Zinaldo A. Santos José Carlos de Lima
Reflexões a respeito das tendências das missões Editor Associado Diretor Financeiro
Márcio Nastrini Edson Erthal de Medeiros
adventistas Assistente de Editoria Redator-Chefe
Lenice F. Santos Marcos De Benedicto
Redator-Chefe Associado

24 Ppensamento
articularidades do
Projeto Gráfico Vanderlei Dorneles
Levi Gruber Chefe de Arte

hebraico Capa Marcelo de Souza


William de Moraes
SERVIÇO DE ATENDIMENTO AO CLIENTE
 duardo Rueda
E Colaboradores Especiais
Carlos Hein; Herbert Boger; Jerry Page; Ligue Grátis: 0800 979 06 06
Compreenda as principais características da Derek Morris Segunda a quinta, das 8h às 20h
Sexta, das 7h30 às 15h45
cosmovisão hebraica existentes no texto bíblico Colaboradores Domingo, das 8h30 às 14h
Antônio Moreira; Cícero Gama; Cláudio Leal; Site: www.cpb.com.br
Edilson Valiante; Edinson Vasquez; Eliezer E-mail: sac@cpb.com.br

28 a homossexualidade
Júnior; Enzo Chaves; Eufracio Quispe; Fabian

Os cristãos e
Marcos; Geovane Souza; Horácio Cayrus; Assinatura: R$ 67,00
Jair Garcia Góis; Mitchel Urbano; Nelson Exemplar Avulso: R$ 13,80
Filho; Pablo C. Garcia; Waldony Fiúza
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Princípios do Antigo Testamento para orientar Redação: ministerio@cpb.com.br do autor e da Editora.
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PALAVRA DO LEITOR

EDITORIAL poucos. Ele está concluindo sua trajetó-


Meus olhos se encheram de lágrimas, não tenho ria ministerial institucional com excelên-
vergonha de dizer. Longe disso! Sinto um “orgulho san- cia e integridade.
to” ao me referir a um dos pastores com paixão que Mitchel Urbano
têm servido a Deus e ao próximo com amor. Secretário Ministerial da União Norte-
Brasileira da Igreja Adventista do Sétimo Dia
Não sei se é porque trabalhamos na região ama-

William de Moraes
___________________________________________________________________________
zônica, somos amigos ou o admiro. A verdade é que,
quando li as palavras “o ocaso do meu ministério ins-
Zinaldo Santos é um pastor que inspi-
titucional”, meu coração bateu mais forte.
ra por sua simplicidade e maneira sábia de
Segui lendo, e estas palavras me animaram: “Minha
agir quando se necessita de sabedoria.
missão institucional está cumprida, mas não posso prever a data em que terminará
a missão vocacional. [...] Enquanto em mim houver uma centelha de vida consciente, Edinson Vásquez
Secretário Ministerial da União Peruana do
‘eu de boa vontade me gastarei e ainda me deixarei gastar’ pelo Mestre”. Somente Sul da Igreja Adventista do Sétimo Dia
um pastor com paixão, que serviu a igreja por 40 anos e ainda mantém a chama viva ___________________________________________________________________________

no coração poderia escrever isso.


Não são 23 dias, nem 23 semanas. São 23 anos de serviço fiel como editor da re- Ao longo dos anos, a influência do pas-
vista Ministério. tor Zinaldo foi vista em toda a América do
Adeus? Não! Até logo? Poderia ser. Todavia, quero dizer obrigado, muitíssimo obri- Sul por meio de suas mensagens claras, nas
gado, pastor Zinaldo Santos. Lembre-se de que seguiremos precisando de sua entre- quais a Palavra de Deus sempre foi o ponto
ga, paixão e experiência. Juntos seguiremos dizendo: “Amém! Vem, Senhor Jesus!” principal. A União Equatoriana agradece-
Carlos Hein lhe seu ministério relevante e deseja que
Secretário Ministerial da Divisão Sul-Americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia Deus o abençoe nessa nova etapa.
Leonel Lozano
Secretário Ministerial da União Equatoriana
Obrigado, pastor Zinaldo, por ser um Trabalhei com o pastor Zinaldo na re- da Igreja Adventista do Sétimo Dia
pastor comprometido e sempre disposto vista Vida e Saúde e admiro seus princípios ___________________________________________________________________________

a servir com dedicação! de pontualidade, seriedade e compromis-


Herbert Boger Jr. so editorial. Estimado pastor Zinaldo, quem vive um
Lider do Departamento de Mordomia Cristã
da Divisão Sul-Americana da Igreja Adventista Vanderlei Dorneles ministério enquanto escreve, escreve
do Sétimo Dia Redator-chefe Associado da Casa Publicadora um ministério enquanto vive. O escritor
Brasileira
___________________________________________________________________________ é um comprador de imaginação e um ven-
___________________________________________________________________________
dedor de ideias. É um colecionador de le-
Voz grave e pausada, amante de frases
tras e um decorador de sentimentos. É um
bem construídas e de palavras bem entona- O pastor Zinaldo tem preparado alimen-
engenheiro de crenças e um construtor de
das, evangelista de sucesso, sempre exaltan- to espiritual e intelectual a gerações de pas-
sonhos. Quem usa o ministério para escre-
do a graça de Cristo, o pastor Zinaldo Santos tores. Após haver trabalhado vários anos
ver oferece um legado que não se aposen-
foi chamado para a Casa Publicadora em com ele como editor da versão em espa-
ta. Obrigado por seu ministério. Aceite o
1990, assumiu o papel de editor e teve uma nhol da revista Ministério, posso atestar sua
abraço e a gratidão de todos os pastores
carreira abençoada à frente da revista Mi- erudição, humildade e disposição de servir.
da União Centro-Oeste Brasileira.
nistério e de outras publicações. Nos muitos Marcos Blanco
anos de companheirismo com ele na Reda- Gerente de Redação da Asociación Casa Jair Góis
Editora Sudamericana Secretário Ministerial da União Centro-Oeste
ção, aprendi a valorizar a amizade de um Brasileira da Igreja Adventista do Sétimo Dia
___________________________________________________________________________
colega sincero e a postura ética de um profis-
Expresse sua opinião. Escreva para
sional dedicado e discreto. Em nome de nos- ministerio@cpb.com.br ou envie sua
Minhas palavras de apreço e gratidão carta para Ministério, Caixa Postal 34,
sa equipe, quero agradecer ao pastor Zinaldo
ao pastor Zinaldo por todos os seus anos CEP 18270-970, Tatuí, SP.
e à sua esposa, Lenice, a dedicação e desejar As cartas publicadas não representam
de serviço no ministério adventista. Na necessariamente o pensamento da revista e
que Deus os guie em seus novos caminhos.
vida, a maioria das pessoas começa bem podem ser editadas por questão de clareza
Marcos De Benedicto ou espaço.
Redator-chefe da Casa Publicadora Brasileira algum projeto; mas terminar bem é para

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PANORAMA

Ministério adventista
na América do Sul
Diante do desafio de conduzir um rebanho composto por mais com um grupo comprometido de ministros que trabalham direta-
de 2,3 milhões de fiéis na América do Sul, a Igreja Adventista conta mente nas igrejas locais. Nesta edição, Ministério apresenta o nú-
mero de pastores distritais existentes na Divisão Sul-Americana,
um dos 13 escritórios regionais da Associação Geral, sede mundial
dos adventistas, localizada nos Estados Unidos.
79

424 2176
124
Número de pastores distritais

28 Brasil 2176
Peru 424
Argentina 175
Chile 173
Bolívia 124
22 Equador 79
Paraguai 28

175 Uruguai 22

Total de ministros ordenados 2176

173 Total de pastores licenciados (não ordenados) 1025


Total de pastores distritais na América do Sul 3201

• A Associação Paulistana, sediada em São Paulo,


tem o maior número de ministros ordenados: 59.
Infográfico com imagens do Fotolia

• A Missão Boliviana Ocidental, localizada em La Paz,


conta com o maior número de pastores licenciados: 27.

• Até novembro, a Associação Norte do Pará, estabelecida


em Marituba, possuía o maior grupo de pastores distritais: 75.
O território foi dividido para a criação da Missão Pará-Amapá.

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ENTRELINHAS

Gentileza DSA
Sonhos, ideais e metas

C
omo tem você iniciado este ano, querido colega? alguma criança, ou semeadas para gerar novas plantas.


Acaso tem elevados ideais para os novos 365 dias Contudo, nada disso aconteceu.
que o Senhor colocou diante de nós? Você pode estar se perguntando por que estou escre-
Apreciei bastante o artigo escrito pelo pastor Erton vendo sobre juventude e dons. A resposta é muito sim-
Köhler (p. 18), desafiando-nos a não focalizar a crise, mas ples. Neste novo quinquênio, a Divisão Sul-Americana se
as oportunidades. Em certa ocasião, o pastor Arnaldo propôs continuar enfatizando em seu plano de trabalho o
Cruz escreveu: “Às vezes, pedimos que Deus nos mude tema “discipulado”, por meio da Comunhão, do Relaciona-
de situação; sem saber que Ele nos colocou na referida mento e da Missão. Todavia, será dado destaque especial
situação para que possamos ser transformados. O que Não é a quatro aspectos: (1) novas gerações; (2) dons espirituais;
hoje é sua provação, amanhã, será seu testemunho.” suficiente (3) comunicação; (4) formação teológica ou preparo de
Ao se dirigir a um jovem pastor, Paulo escreveu: “Nin- ser um bom pastores à altura das exigências dos tempos atuais.
guém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te pastor ou Caríssimo colega, você e eu podemos fazer muito
padrão dos fiéis [...]” (1Tm 4:12). O apóstolo não sufocou o obreiro. Mais nesses quatro aspectos. Quero animá-lo a cuidar com
zelo juvenil, mas o estimulou para que se tornasse me- importante é esmero das novas gerações e a não desconsiderá-las.
recedor do respeito dos mais experientes. Paulo tam- que sejamos A você, meu incentivo para que desenvolva os dons exis-
bém falou aos adultos, advertindo-os a não alimentar exemplos para tentes em suas congregações. Encorajo você a usar com
pouca consideração pelos jovens que se esforçam em os fiéis” sabedoria os meios de comunicação e as redes sociais, a
busca de superação. fim de compartilhar o evangelho. Finalmente, exorto-o
A carta escrita há 2 mil anos continua dizendo: “Não a buscar entre crianças, adolescentes e jovens aqueles
te faças negligente para com o dom que há em ti” (v. 14). que serão os futuros pastores que guiarão o rebanho
Todos nós fomos agraciados por Deus com dons ou ta- nos momentos finais da história deste mundo.
lentos. Alguns têm recebido cinco talentos; outros, dois; Lembre-se: Não é suficiente ser um bom pastor ou
outros, um talento apenas. Alguns talentos são herda- obreiro. Mais importante é que você e eu sejamos exem-
dos e outros são adquiridos. Alguns são naturais; outros, plos “para os fiéis”. Convido você a seguir, no transcorrer
espirituais. Alguns são conferidos diretamente median- deste ano, o conselho transmitido por Charles Spurgeon:
te o recebimento do Espírito Santo. Outros são simples- “Não manche seus dedos que logo tocarão as cordas ce-
mente ativados por esse Agente divino. lestiais. Não permita que seus olhos, que em breve verão
Lembro-me de ter lido, anos atrás, em um livro de o Rei, cheguem a ser janelas da concupiscência. Não deixe
Meditações Diárias, que no Novo México, em um acam- que seus pés, que em breve andarão pelas ruas de ouro,
pamento indígena, foram descobertas 100 sementes de sujem-se em lugares lamacentos. Não permita que seu co-
cereais. De acordo com o arqueólogo que as encontrou, ração, que dentro em breve se encherá do Céu e transbor-
elas tinham milhares de anos. Durante todo esse tem- dará júbilo, encha-se de orgulho e amargura.”
po, elas permaneceram como que dormindo, sem cum-
prir o propósito para o qual foram criadas pelo Senhor. Carlos Hein
Poderiam ter servido de alimento para saciar a fome de Secretário ministerial da Divisão Sul-Americana

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ENTREVISTA – JIWAN MOON

Mentoreamento
de jovens

Gentileza do entrevistado
“O ministério para jovens não é, e não deve ser,
orientado por eventos, mas por processos. Isso
significa inserir os jovens em um processo no qual
eles aprendam a não ter medo de dar tudo, inclusive
a vida, por Jesus.”

por Walter Steger e Wellington Barbosa

A nota tônica do ministério de Jiwan Moon pode ser definida com as seguintes Você trabalhou com jovens de dife-
palavras: mentoreamento de jovens. Filho de pastor, Moon nasceu na Coreia do Sul rentes culturas. O que há em comum
e cresceu no campo missionário. Após ter se graduado em Teologia na Universida- entre eles? O que há de diferente?
de Adventista das Filipinas, iniciou seu ministério como pastor de jovens em uma Após trabalhar em vários países, desco-
Igreja Adventista coreana na Califórnia. Ele trabalhou nos Estados Unidos e no Ca- bri que os jovens demonstram as mesmas
nadá e, durante esse período, obteve seu mestrado e doutorado em Ministério Jo- características essenciais, independente-
vem, ambos na Universidade Andrews. Casado desde 2006 com Jessica, o casal tem mente da cultura a que pertençam. Eles es-
três filhas: Hannah, Rebecca e Isabella. Atualmente, Jiwan Moon é diretor associado tão em busca de sua verdadeira identidade,
do Ministério de Capelania Adventista da Associação Geral, responsável por promo- muitas vezes fazendo a pergunta: “Qual é o
ver e apoiar as iniciativas destinadas a atender as necessidades espirituais, intelec- propósito da vida?” Além disso, necessitam
tuais e sociais dos estudantes adventistas nos campi de instituições não adventistas de um modelo/mentor, não apenas para
e públicas de ensino. instruí-los, mas para inspirá-los e transfor-
má-los por meio de um autêntico estilo de
Você tem mestrado e doutorado em ministério para jovens. O que você pesqui- vida cristão. Por outro lado, percebi como
sou e quais foram suas principais conclusões? diferença que algumas culturas são mais
Pesquisei sobre os estágios de desenvolvimento dos jovens e como isso os afeta. Os restritivas, fazendo escolhas pelos jovens,
resultados de meus estudos mostram que, se eles receberem orientação intencional e ao passo que outras desafiam seus jovens
forem discipulados, serão capazes de se tornar cristãos proativos, automotivados e dis- a fazer as próprias escolhas.
postos a servir a Deus e a viver para a missão. Descobri também que a orientação e o
modelo de discipulado que Jesus escolheu começou a partir de um círculo interno de um, Que papel os jovens estão desempe-
depois três, 12, 70 e 120 pessoas. Ele desenvolveu uma relação de mestre e aprendiz com nhando e vão desempenhar nos even-
jovens que foram chamados a segui-Lo e a ser como Ele. tos finais e na pregação do evangelho

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a todo o mundo? É importante para a pontos de vista contrários às Escrituras. É a graça divina com eles. Em outras pala-
igreja, tanto em nível mundial quan- dever dos pais, líderes da igreja, pastores e vras, nossa igreja precisa ser conhecida
to local, levar isso em consideração? mentores ajudá-los a saber o que é verda- como um lugar em que os jovens podem
Por quê? de e o que não é, e isso exige tempo, pre- experimentar amor incondicional, graça e
Tenho testemunhado uma juventude sença, orientação intencional e discipulado. aceitação de Deus. Assim eles poderão ser
em chamas para Cristo em vários países. desafiados a ser verdadeiros seguidores de
Vejo jovens espiritualmente engajados que Quais são os principais desafios en- Cristo, tornando-se missionários e embai-
estão inspirando os mais velhos. Eles são frentados pela igreja para alcançar o xadores dele.
uma luz em suas universidades, ministran- coração da juventude?
do uns aos outros e evangelizando os co- Conheço muitos jovens que frequen- Há alguns anos tem-se observado um
legas de maneira poderosa. Descobri que tavam a igreja, mas que hoje não mais a aumento no número de jovens sem re-
eles desempenham um papel importante frequentam. Quando questionados sobre ligião ou sem igreja. Quais são as ra-
em grandes movimentos mundiais. Os jo- isso, muitos respondem dizendo que não zões desse fenômeno e o que a igre-
vens têm um sentido muito apurado ja local pode fazer para contê-lo?
de justiça social, energia e paixão Infelizmente, muitos jovens creem
para fazer o que acreditam ser a coi- que a religião não mais seja relevan-
sa certa. O adventismo também é te. Eles julgam que as vantagens que
um movimento liderado por jovens. Nossa igreja precisa ser podem obter na igreja, podem conse-
Nós os vemos mudando o mundo à guir em outro lugar, e isso inclui ami-
medida que são transformados pelo
conhecida como um lugar zades, inspiração para viver de forma
espírito de Cristo, participando de di- em que os jovens podem altruísta, e até mesmo um senso de
versos projetos missionários, como valor que acreditam poder obter além
Missão Calebe, Um Ano em Missão, experimentar amor de sua identidade como cristãos. No
etc. Os discípulos de Jesus foram ca- entanto, creio que uma das coisas
pazes de abalar o mundo por meio da incondicional, graça e mais importantes que esteja faltan-
orientação que receberam do Mestre. do na vida da igreja é a afirmação de
aceitação de Deus.
Acredito que antes da vinda de Cris- que eles não podem se considerar
to, conforme os jovens forem orien- cristãos a menos que estejam pron-
tados a se tornar cristãos proativos, tos para viver a vida de Jesus, ou seja,
que ministram em suas universidades a vida de autossacrifício. Chamo isso
e seus arredores, eles apressarão a vinda tiveram alguém a quem poderiam consi- de espírito missionário. Na verdade, o mi-
do Senhor. Haverá um verdadeiro reaviva- derar como mentor. Muitas vezes eles se nistério jovem era conhecido como Mis-
mento da piedade entre o povo de Deus, sentiram julgados e criticados, como se as sionários Voluntários (MV), conforme Ellen
liderado por jovens. pessoas apenas estivessem dispostas a G. White o chamou, prevendo que ele se-
apontar os erros deles, em vez apoiá-los e ria um movimento no qual nossos jovens
De que forma o mundo pós-moderno, ampará-los. Contudo, a necessidade que se tornariam missionários voluntários para
com seu fluxo constante de novas tec- sentiam era de encontrar relacionamen- Jesus. Contudo, com a mudança de nome
nologias e de informações, afeta a ma- tos autênticos e afetuosos com pessoas para Sociedade dos Jovens Adventistas e,
neira pela qual os jovens se relacionam dispostas a sofrer com eles e a permitir que agora, Ministério Jovem Adventista, não
com a religião e a igreja? experimentassem a graça de Deus. existe uma identidade clara no próprio
O relativismo pós-moderno criou a no- Reconheço que, por vezes, os jovens nome que mostre que esse é um minis-
ção de que não há verdade absoluta; tudo usam isso como desculpa para sua deci- tério que visa inspirar, educar, equipar e
é relativo. Atualmente, observo que exis- são de deixar a igreja. No entanto, estudos capacitar nossa juventude a se tornar mis-
tem muitas pessoas contrariando essa cos- apontam que congregações que possuem sionária. Tive o privilégio de servir a uma
movisão, dizendo que, de fato, a verdade uma cultura de acolhimento e orientação igreja por mais de 11 anos. Lançamos ali um
não é subjetiva, mas objetiva. O conceito têm uma forte representação da juventu- projeto chamado ROCMM (Reach-out &
de verdade relativa, como retratado nas de. Nossos jovens precisam saber que não Care Missionary Movement). A partir dos
mídias sociais, desafia os jovens na medi- há nada que possam fazer para que a igre- 13 anos, nossos jovens eram encorajados
da em que eles são bombardeados com ja pare de cuidar deles e de compartilhar a doar duas semanas de suas férias para

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o trabalho missionário. Após oito anos de abordagens litúrgicas para alcançar estilo de vida missionário. O pastor tam-
missões bem-sucedidas da ROCMM, a igre- os jovens? bém pode envolver os jovens na igreja lo-
ja foi recompensada com mais de 90% de Como eu disse, a verdadeira identidade cal, capacitando-os a se tornarem diáconos
taxa de retenção entre jovens. Creio que cristã está relacionada com o exemplo de e diaconisas juniores, e até mesmo per-
isso se deve ao incentivo ao zelo e à vivên- vida autossacrificial de Jesus. A ideia bíbli- mitindo-lhes assumir responsabilidades
cia missionária. ca de adoração é muito maior e mais ampla como líderes. Além disso, pode lançar um
do que pensamos. No Antigo Testamento, a projeto missionário simples e sustentável,
Com a intenção de atrair mais jovens, palavra hebraica avodah é comumente usa- estabelecer parcerias com outras igrejas e
alguns pastores seguem certas me- da e, muitas vezes traduzida, como “adora- fazer uma viagem missionária anual que
todologias duvidosas para ser bem- ção”. Isso não se refere estritamente àquilo não exija muitos recursos financeiros. Os
sucedidos. Esse é o melhor caminho? que comumente consideramos adoração jovens podem estabelecer parcerias com a
Certa vez ouvi de um dos meus mento- como, por exemplo, cantar em um conjunto prefeitura local e prestar serviços voluntá-
reados que temos muitos animadores e lí- ou adotar determinado estilo de adoração. rios para a comunidade. Ao fazer isso, eles
deres que querem se autopromover não só terão orgulho de sua identi-
em nossas igrejas. Eu não concordo dade como missionários, mas tam-
com essa afirmação. No entanto, bém terão bom relacionamento com
tenho que admitir que algumas pes- a comunidade na qual testemunha-
soas envolvidas em ministérios volta- O que mantém os jovens rão posteriormente. A ideia é tirá-los
dos para jovens fazem programações da zona de conforto e torná-los proa-
para atraí-los, por exemplo, escolhen-
na igreja não são assentos tivos, permitindo-lhes viver de ma-
do certos estilos diferentes de ado- neira altruísta.
confortáveis nem oradores
ração, introduzindo sofás e cadeiras
confortáveis, iluminação, e progra- eloquentes, mas o ensino De que forma o mentoreamen-
mas sociais em suas igrejas. Podemos to de jovens contribui para o
atrair alguns jovens por meio desses de que seguir Jesus não fortalecimento e o engajamento
métodos; porém, o que os mantém deles em relação às questões
significa receber, e sim doar.
na igreja não são assentos confortá- espirituais? Como o pastor local
veis nem oradores eloquentes, mas o pode desenvolver uma estraté-
ensino de que seguir Jesus não signi- gia de mentoreamento eficaz?
fica receber, e sim doar. O ministério O ministério para jovens é de pre-
para jovens não é, e não deve ser, orienta- O termo demonstra um forte senso de sença. Na verdade, todos os ministérios
do por eventos, mas por processos. Isso serviço. Em outras palavras, adoramos o são assim. Você não pode influenciar os ou-
significa inserir os jovens em um proces- que servimos e servimos o que adoramos. tros se não estiver presente. Gosto de uma
so no qual eles aprendam a não ter medo A adoração não é uma experiência na qual citação sobre o ministério de Jesus extraí-
de dar tudo, inclusive a vida, por Jesus. Eles exclusivamente recebemos, mas uma expe- da de Atos dos Apóstolos (p. 10) que se re-
precisam saber que seguir a Cristo não é riência que nos dá oportunidade de servir a laciona com essa realidade: “Por três anos
sempre uma experiência agradável. Às Deus e aos outros. Quando vemos a adora- e meio, os discípulos estiveram sob a dire-
vezes, pode ser algo incômodo e desafia- ção sob esse ângulo, entendemos a ques- ção do maior Professor que o mundo já co-
dor. Temos que analisar seriamente nossa tão de outra maneira. nheceu. Por associação e contato pessoal,
metodologia para ter certeza de que não Cristo os preparou para Seu serviço.” Se o
queremos fazê-los se sentirem confortá- Quais medidas o pastor local pode pastor local estiver presente fisicamente,
veis, mas capacitá-los a brilhar em situa- adotar para motivar os jovens a um emocionalmente e espiritualmente, sen-
ções desafiadoras, semelhantes àquelas compromisso pleno com Cristo? do um modelo positivo, estendendo gra-
vividas por Daniel e seus amigos. Isso não Envolver os jovens na missão. Eles não ça aos jovens quando falham, expressando
é entretenimento, mas a experiência de se precisam ir a outro país, mas podem ter encorajamento quando experimentam o
tornar uma testemunha (martyr) de Cristo. uma experiência missionária em sua pró- sucesso, e compartilhando com eles suas
pria região, ou até mesmo dentro de sua próprias experiências espirituais, ele cria-
Qual é o limite entre a manutenção da comunidade. Ao incentivá-los na práti- rá uma estratégia de mentoreamento efi-
identidade cristã e a adoção de novas ca do serviço cristão, eles incorporarão o caz para sua juventude.

JAN-FEV • 2016 | 9
CAPA Linda Mei Lin Koh
Diretora do Ministério da Criança na
Associação Geral da Igreja Adventista

Gentileza do autor
do Sétimo Dia, Estados Unidos

As crianças e a missão
Há espaço para o envolvimento delas no serviço cristão

Q
uando Jesus nos deu a grande co- em seu bem-estar espiritual. Consequen- no reino dos céus. E quem receber uma
missão em Mateus 28:19, 20, para temente, necessitamos ser intencionais na criança, tal como essa, em meu nome, a
levar o evangelho a todas as pes- inclusão das crianças em nossas atividades mim me recebe. Qualquer, porém, que fi-
soas do mundo, acredito que Ele também missionárias. zer tropeçar a um destes pequeninos que
estivesse incluindo as crianças. Ao evange- creem em mim, melhor lhe fora que se lhe
lizarmos adultos, não devemos nos esque- Missão às crianças pendurasse ao pescoço uma grande pedra
cer de que as crianças também necessitam Por que devemos ministrar às crianças? de moinho, e fosse afogado na profunde-
do Senhor. De fato, milhões delas, espe- Aqui estão algumas razões pelas quais ne- za do mar’” (Mt 18:1-6).
cialmente na Janela 10/40, nunca ouviram cessitamos estar envolvidos nessa tarefa: Temos nós verdadeiramente ouvi-
o nome de Jesus. Nós queremos levá-las Jesus valoriza as crianças. Cristo re- do o ensino de Jesus a respeito do lugar
a Cristo e prepará-las para encontrá-lo conheceu a importância de crianças e jo- das crianças no reino de Deus? As crianças
quando Ele vier. vens. Em certa ocasião, Ele foi indagado servem como modelo de fé e discipulado,
Wess Stafford, presidente emérito da pelos discípulos: “Quem é o maior no rei- mostrando-nos como humildemente po-
Compassion International, defende que no do Céu?” demos nos arrepender e confiar no Deus
haja uma mudança de paradigma em nos- Em resposta, “Jesus, chamando uma da salvação. Quando as acolhemos, esta-
so pensamento como igreja. Ele acredita criança, colocou-a no meio deles. E dis- mos aceitando-as e respeitando-as como
que as crianças são muito importantes e se: ‘Em verdade vos digo que, se não vos Cristo fez. Notemos que Ele deixou muito
amadas por Deus, para que sejam ignora- converterdes e não vos tornardes como claro que, se negligenciarmos as crianças,
das ou deixadas sem oportunidades. Elas crianças, de modo algum entrareis no rei- abusarmos delas ou as afastarmos da fé
pertencem a todos nós; somos motivados no dos céus. Portanto aquele que se hu- nele, enfrentaremos o julgamento severo
Lightstock

a intervir em favor delas.1 Devemos investir milhar como esta criança, esse é o maior do próprio Deus.

10 | JAN-FEV • 2016
são hispanas – embora os his- ministrada à criança em seus primeiros
População infantil com idade panos representem apenas 15% anos. As lições que a criança aprende du-
de 5 a 14 anos por país (2010)3 da população geral. Conforme o rante os primeiros sete anos de vida têm
OS DEZ PRIMEIROS mapa indica, em países da África mais que ver com a formação do seu ca-
e do Oriente Médio, como Afe- ráter que tudo que ela aprender em anos
Índia 248.253.120
ganistão, Paquistão e outros, posteriores.”8
China 180.084.594
40% a 50% da população tem Em outra ocasião, ela afirmou que
Indonésia 42.716.276 menos de 15 anos.2 “é ainda verdade que as crianças são as
Nigéria 42.716.276 A Janela 10/40 é o lar de 65% pessoas mais suscetíveis aos ensinos do
da população do mundo e tem evangelho; seu coração se acha aberto às
Estados Unidos 41.819.347
o maior número de pessoas não influências divinas, e forte para reter as li-
Paquistão 38.118.459 alcançadas (86%). Elas nunca ções recebidas”.9
Bangladesh 36.068.928 ouviram falar de Jesus, não têm Uma pesquisa feita por George Barna
Brasil 35.263.734 a Bíblia e têm poucos amigos e indica que 32% das pessoas que aceitam
vizinhos cristãos. A maioria dos Jesus como Salvador são crianças entre
Etiópia 23.990.943
budistas, hindus, taoístas e mu- 4 e 14 anos. Ele adverte no sentido de que,
México 20.855.453 çulmanos de todo o mundo vive se as pessoas não aceitam Cristo antes dos
Total (dos dez primeiros) 709.595.962 na Janela 10/40. Nessa área há 13 anos, são menores as chances de fazer
muitas crianças que necessitam isso em uma época posterior.10
Total (outros) 508.921.404
conhecer o Salvador e ser prepa- As crianças podem ser missionárias.
Total global 1.218.517.366 radas para a vinda dele.4 Do ponto de vista da missão, nosso inte-
As crianças são mais re- resse no grupo dos 4 aos 14 anos não é
Nas Escrituras, podemos ver exem- ceptivas. Os principais teóricos do de- apenas porque sejam crianças receptivas,
plos de como o Senhor usou crianças para senvolvimento infantil, tais como Erik mas também porque elas podem ser agen-
transformar o mundo de seu tempo. Lem- Erikson, Jean Piaget e Lawrence Kohl- tes efetivos para levar avante a comissão
bra-se de Samuel que, embora sendo ape- berg, afirmam que há períodos críticos ou evangélica. Quando você fala a uma crian-
nas um juvenil, foi usado por Deus para períodos suscetíveis durante os primeiros ça, ela diz ao mundo. Elas são nossos me-
entregar uma mensagem difícil, mas ne- anos da infância, quando valores, morali- lhores evangelistas!
cessária, ao sumo-sacerdote Eli (1Sm 3)? Jo- dade, pensamento cognitivo, cosmovisões Clifferson Araújo dos Santos, residente
sias foi um menino-rei a quem Deus usou e perspectivas de vida são modelados po- em Manaus, AM, dirige um pequeno grupo
para reformar o estado religioso de Judá e sitiva ou negativamente.5 para cerca de 28 crianças em sua vizinhan-
levar o povo de volta ao Senhor (2Rs 22). Wess Stafford reflete a mesma crença, ça, muitas das quais são pobres ou têm os
Deus usou crianças e jovens como instru- de que o espírito de uma criancinha é mui- pais na prisão. Ele lhes mostra um vídeo
mentos especiais em um tempo especial. to parecido com cimento molhado. Quan- com histórias bíblicas e as leva a estudar
Eles são valiosos na obra do Senhor. Pode- do ela é jovem, não é preciso muito esforço a narrativa sagrada. Cada criança recebe
mos nós fazer menos do que isso? para causar uma impressão que dure toda uma Bíblia, e elas, com muito entusias-
Muitas crianças vivem na Janela a vida.6 mo, sublinham os versos bíblicos enquan-
10/40. O estudo de Luís Bush sobre o al- Na Nutbrown Review, periódico britâ- to discutem as lições. Com apenas 11 anos,
cance e evangelização de crianças na Jane- nico voltado para a educação infantil, Cath Clifferson é um verdadeiro missionário na
la 10/40 revela retratos fascinantes desse Nutbrown afirma que o amor da família é obra de pregar o evangelho.
grupo, com idade entre 4 e 14 anos. No fundamental para o crescimento e desen- Ellen G. White nos lembra que “exérci-
topo da tabela está a Índia. Com 20% me- volvimento saudável da criança. “Os pais tos inteiros de crianças podem se pôr sob a
nos habitantes que a China, o país tem 30% influenciam os valores, comportamento bandeira de Cristo como missionários, mes-
a mais de crianças e jovens. Nigéria e In- e ambições da criança, e lançam os funda- mo nos dias de sua infância. Nunca recusem
donésia, com metade da população dos mentos de quem ela será e no que pode o desejo das crianças de fazer alguma coisa
Estados Unidos, atualmente têm mais se tornar.”7 por Jesus. Não lhes extingam o ardor para
crianças e adolescentes em números abso- Ellen G. White mantinha visão seme- trabalhar de alguma forma pelo Mestre”.11
lutos. Nos Estados Unidos, 25% das quase lhante quando escreveu: “Nunca será de- Necessitamos alcançar crianças nas
42 milhões de crianças em idade escolar mais acentuar a importância da educação cidades. Embora tenhamos visto que

JAN-FEV • 2016 | 11
População mundial com menos de 15 anos

muitas crianças com menos de 15 anos vi- A igreja necessita ser intencional e séria abnegação e sacrifício pelo bem de outros
vem na Janela 10/40, mesmo dentro des- ao planejar sua missão às crianças, na igre- e o progresso na causa de Cristo, para que
sa área, muitas estão em grandes centros. ja e na comunidade. Planos estratégicos possam ser colaboradores de Deus.”14
As cidades do mundo apresentam à Igre- para evangelizá-las devem ser incluídos Em seguida, apresentamos alguns be-
ja Adventista do Sétimo Dia um desafio em seus projetos de evangelismo – Esco- nefícios do envolvimento das crianças na
formidável para o evangelismo, enquanto la Cristã de Férias, exposições de saúde, missão:
muitas pessoas mudam das comunidades campanhas evangelísticas, acampamen- A vida das crianças é transformada.
rurais para os grandes municípios, onde há tos bíblicos, entre outros – projetos que Crianças e adolescentes que têm participa-
trabalho disponível. alcancem crianças da comunidade com o do na missão ou em serviços comunitários
Estatísticas da revista Christianity To- evangelho do amor. têm respostas positivas. Elas voltam para
day nos informam que, em 2008, pela casa entusiasmadas e inspiradas a renovar
primeira vez a população mundial foi Crianças em missão o compromisso de fazer o melhor para os
igualmente dividida entre áreas urbanas Quando as crianças aceitam Jesus como menos afortunados e para Deus.
e rurais. Menos de 30% dos 2,5 bilhões seu Amigo especial, elas são inspiradas a Chris, estudante da sétima série em
de pessoas do planeta em 1950 viviam compartilhá-lo com os amigos. Por isso, ne- uma escola em Spencerville, Maryland,
em cidades. Por volta de 2050, quase cessitamos envolvê-las na missão dentro e participou de um projeto na América Cen-
70% dos previstos 10 bilhões de habitan- fora do ambiente delas. Podemos começar tral para ajudar a construir uma igreja e
tes do mundo seguirão esse caminho, de treinando-as para ser testemunhas de Cris- realizar programas infantis. Depois, ele tes-
acordo com as Nações Unidas.12 Na ver- to e para servir generosamente a outros. temunhou: “As viagens missionárias têm
dade, Ellen G. White defendeu enfatica- Ellen G. White aconselhou: “Por pre- mudado minha perspectiva de vida. Elas
mente esse trabalho: “Não há mudança ceito e exemplo os pais devem ensinar me ajudam a pensar mais nos outros e me-
nas mensagens que Deus enviou no pas- seus filhos a trabalhar pelos inconversos. nos em mim. Missão é para mim.”
sado. O trabalho nas cidades é a obra As crianças devem ser tão educadas que Crianças desenvolvem compaixão. As
essencial para este tempo. Quando as ci- simpatizem com os idosos e aflitos e pro- crianças precisam ter oportunidade para
dades forem trabalhadas como Deus de- curem aliviar os sofrimentos dos pobres e responder às necessidades do mundo. En-
seja, o resultado será pôr-se em operação angustiados. Devem ser ensinadas a ser di- volvê-las na ajuda em um asilo, estimulá-las
um poderoso movimento como nunca foi ligentes no trabalho missionário; e já nos a orar pelos doentes e distribuir dinheiro e
testemunhado.”13 seus mais tenros anos devem aprender a brinquedos às vítimas de inundações são

12 | JAN-FEV • 2016
atitudes que ajudam a desenvolver a com- para projetos missionários do que muitos em favor da verdade, o qual será dado de
paixão delas pelos menos favorecidos. Dar adultos. modo simples; no entanto, com espírito e
e servir ajudam as crianças a crescer no cui- Quando levamos nossos dois filhos para poder. Foi-lhes ensinado o temor do Se-
dado para com os adultos. ajudar a distribuir cestas de alimento a fa- nhor, e o coração se lhes abrandou por um
Depois de se mudarem para os Estados mílias pobres e auxiliar menores abando- estudo da Bíblia cuidadoso e acompanha-
Unidos, os irmãos Owino, Brian, Calvin e Da- nados, notamos que, quando voltaram do de oração. No futuro próximo, muitas
vid, foram informados de que alguém na vi- para casa, eles pegaram mais alguns li- crianças serão revestidas do Espírito San-
zinhança havia morrido de aids. Assim, eles vros, roupas e brinquedos para doar às to, e farão na proclamação da verdade ao
lançaram o projeto BCD Can, um plano para crianças pobres. mundo uma obra que, naquela ocasião, não
arrecadar fundos a fim de ajudar crianças Crianças aprendem a confiar em pode bem ser feita pelos membros mais
com aids, em Malela, Quênia. Todos os dias, Deus. Depois de participar em proje- idosos das igrejas.”16
eles coletavam latas de refrigerantes de- tos missionários, as crianças aprendem a Necessitamos lançar as sementes do
pois das aulas. Em seguida, vendiam-nas e confiar no Senhor crendo que Ele pode interesse missionário em nossas crianças,
enviavam o dinheiro para órfãos víti- desde cedo, se esperamos colher mis-
mas de aids na África. Em quatro anos, sionários e fortes apoiadores da mis-
conseguiram arrecadar 33 mil dólares são nos anos seguintes. O tempo é
e ajudaram mais de 400 crianças. curto. Jesus está vindo. Envolvamos
As crianças aprendem a com- É imperativo que nós nossas crianças agora!
partilhar Jesus. Quando elas são
vejamos crianças e jovens Referências
treinadas e inspiradas a comparti-
 ess Stafford, Too Small to Ignore: Why
W
como uma força estratégica
1
lhar o evangelho com seus amigos e
the Least of These Matters Most (Colorado
colegas de escola, experimentam ale- Springs, CO: Waterbook Press, 2007).
gria em ver outros aceitando Jesus. fundamental, que pode ajudar 2
L uis Bush, “Raising up a New Generation From
Quando tinha 8 anos, o brasileiro Ma- the 4/14 Window to Transform the World”,

teus Soares começou a compartilhar


a concluir a tarefa que o Movimento Janela 4/14, www.4to14window.
com.
Cristo. Ele visitava os vizinhos para Senhor nos confiou. 3
Ibid., População da Indonésia e Nigéria [sic]
orar com eles. Então, convidava-os 4
Ibid.
para estudar a Bíblia. Depois de al- 5
 ngela Oswalt, “Sensitive Periods in Child
A
gum tempo, ele conduziu 25 pessoas Development”, MentalHelp.net, atualizado
em 17/01/2008.
ao batismo.
Diz Ellen G. White: “Nos seus tenros ajudá-las em qualquer situação. Em cer-
6
Wess Stafford, Op. Cit., p. 248, 249.

anos as crianças devem ser úteis na obra ta ocasião, um grupo de pré-adolescen-


7
 athy Nutbrown, Foundations for Quality: The
C
Independent Review of Early Education and
de Deus [...] [Ele] deseja que sejam seus pe- tes estava ajudando a construir uma igreja Childcare Qualifications, Final Report , junho de
quenos missionários, negando suas pró- na Guatemala. Quando a chuva ameaçou 2012; www.gov.uk

prias inclinações e desejos de prazeres destruir o telhado, eles oraram fervorosa- 8


Ellen G. White, Orientação da Criança, p. 193.

egoístas para prestar serviço para Ele; e mente para que Deus contivesse a tem- 9
___________, O Desejado de Todas as Nações, p. 515.

esse serviço é tão aceitável a Deus quan- pestade até que o trabalho acabasse. O 10
George Barna, Transforming Children into Special
Champions (Ventura, CA: Regal Books, 2003).
to o dos de mais idade.”15 Senhor respondeu àquelas orações, e esse
11
Ellen G. White, Para Conhecê-Lo [MM 1965], p. 42.
Crianças aprendem generosidade. episódio fortaleceu a fé e a confiança da-
12
 ara Eekholf Zylstra, “Urban Urgency:
S
Pais cujas crianças têm sido envolvidas quelas crianças em Deus.
Missionaries Follow Migration to City Centers”,
em planos ou viagens missionárias teste- Sim, é imperativo que nós vejamos Christianity Today, 16/08/2010; www.
munham que seus filhos se tornam mais crianças e jovens como uma força estraté- christianitytoday.com.

sensíveis às necessidades dos menos favo- gica fundamental, que pode ajudar a con-
13
Ellen G. White, Medicina e Salvação, p. 304.

recidos, e passam a ser mais generosos em cluir a tarefa que o Senhor nos confiou.
14
___________ , O Lar Adventista, p. 487.

doar seu próprio dinheiro para ajudá-los. “Nas cenas finais da história deste mun-
15
Ibid., p. 486, 487.

Realmente, as crianças têm sido mais entu- do, muitas das crianças e jovens encherão 16
 llen G. White, Conselhos aos Pais, Professores e
E
Estudantes, p. 166.
siasmadas e dedicadas em levantar fundos de admiração o povo pelo seu testemunho

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JAN-FEV • 2016 | 13
CAPA Odailson Fonseca
Diretor de Comunicação
da Igreja Adventista para o
Estado de São Paulo

Daniel Oliveira
O púlpito das
novas gerações
Como pregar para alcançar o coração dos jovens
bíblica não é o problema. Ao contrário, em
tempos de efemeridade, em que o inédi-
to fica obsoleto em segundos, a verdade
divina desponta feito rochedo imbatível
nas areias movediças da tecnologia des-
cartável. Não subestime a soberania de um
produto só por causa da embalagem desa-
tualizada. A juventude continua sendo solo
fértil para o aprendizado bíblico que revo-
luciona o mundo. Contudo, assim como “o
semeador saiu para semear” (Mt 13:3), cabe
a nós sair da zona de conforto tradicional
e lançar as sementes da maneira certa. Os

E
les são inquietos e curiosos. Com de- eles? Sentar-se em um banco de igreja e frutos certamente virão.
dos viciados em superfícies touch- prestar atenção ao sermão por meia hora.
screen, têm os olhos adaptados às Para eles, impensável! Para nós, uma ta- Interaja com eles. Os últimos bancos
multitelas. Não suportam esperar, muito refa de “ressurreição do interesse” seme- da galeria são a maior ameaça de um ora-
menos parar. São nativos digitais, conec- lhante à ressurreição dos ossos secos de dor. Ainda me lembro quando eu ficava lá!
tados desde o berço. Tendo acesso ao co- Ezequiel 37. Podemos deletá-los? Não dá! Eles se rege-
nhecimento universal em um smartphone O interessante é que Joel 2:28 afirma neram desafiando cruelmente, mesmo que
como extensão do próprio corpo, desfi- que, no tempo do fim, os jovens teriam vi- inocentemente, nossa altivez retórica. Por-
lam cabisbaixos mergulhados no mundo sões; ou seja, o Céu espera muito deles aqui tanto, em vez de interpretá-los como opo-
virtual. Teclam alucinadamente, comparti- na Terra. E quanto a nós? Em meio a essa nentes dentro do octógono de um UFC da
lham tudo, viralizam absurdos, colapsam se revolução digital, estamos na mesma co- autoridade, que tal vê-los como aliados do
expostos ao bullying na “nuvem” e, como nexão que eles ou tentamos convencê-los bem que se comunicam de maneira dife-
Esaú, vendem até a primogenitura por um de que as fitas-cassetes são mais interes- rente? A pregação é uma conversa since-
prato de senha wi-fi. santes do que o MP3? Ainda insistimos que ra entre o pregador e o público. A interação
Quem são eles? Os millennials. Nasci- o projetor de slides é melhor do que o You- constante faz parte da cultura das novas ge-
dos na era pós-web, eles são dependen- Tube? Enfim, como pregar para alcançar o rações. Se eles querem opinar, sugerir e di-
tes da internet (em qualquer dispositivo) coração das novas gerações? zer o que pensam, por que não provocá-los?
como nós dependemos da luz elétrica – Elabore perguntas intrigantes e desafiadoras,
onipresente e indispensável – em nosso #Diretoaoponto capazes de acender a centelha da curiosidade.
cotidiano. Pensam rápido, distraem-se Seja bíblico. Nada, nem ninguém,
Ptnphotof / Fotolia

instantaneamente e, com apetite voraz, substituirá o poder da Palavra de Deus. O Atualize-se. É impossível conquistar
devoram informação à velocidade de tera- Sola Scriptura não pode, jamais, deixar de as novas gerações com o arsenal de refe-
bytes por segundo. O grande desafio para ser o alicerce da pregação. A mensagem rências das velhas gerações. O Orkut não

14 | JAN-FEV • 2016
existe mais, o CD já se dissolveu na “nu- humana. Quando descemos do púlpito, ga- dos que eles frequentam na maior parte
vem”, os filmes perderam espaço para os nhamos seu respeito. Não mascare, não se do tempo.
seriados, a TV de ontem é o streaming de exalte com exemplos impossíveis. Mostre
hoje (YouTube, Netflix, GloboPlay, Lives- que as lutas deles um dia já foram suas (ou Provoque o engajamento. As ações
tream, etc.), enfim, uma boa informação ainda são), e olhe nos olhos da juventude sociais nunca estiveram tão na moda como
atualizada é isca certa para cativar o inte- com lágrimas de sinceridade mais do que temos visto atualmente. Joshua Wong, de
resse dos “habitantes da galeria”. Fazendo atrás das lentes da infalibilidade. Quando apenas 17 anos, parou a China por 77 dias
uma aplicação homilética, Romanos 12:2 sentirem que o pregador é de carne e osso ao levar 200 mil jovens às ruas de Hong
deve ser a regra-áurea para os pregadores e está baixando sua própria guarda, ofe- Kong por um ideal democrático. Sua
modernos; afinal, não nos conformar com recerão sutilmente seu maior tesouro: a “funda e cinco pedras”? Um smartphone
este século, mas nos transformar pela re- atenção. envolvendo toda uma geração de incon-
novação da mente é também um chama- formados. Percebe? Vivemos em tempos
do urgente à inovação e atualização dos Storytelling. Essa é a palavra moderna colaborativos, nos quais tudo o que é com-
métodos de apresentação da relevância mais usada atualmente no universo da co- partilhado mobiliza multidões. De taxis-
do reino de Deus perante a ciberjuventude. municação, isto é, “conte histórias”. Nada tas descontentes a panelaços nacionais,
novo! Desde tempos remotos as crianças as manifestações públicas se agigantaram
Pesque-os nas redes sociais. Você amam ouvir boas histórias antes de dormir, no anonimato pulverizador da internet. To-
sabe onde está a maior audiência das gran- e ainda hoje somos deliciosamente emba- dos podem ser o start de uma revolução.
des emissoras de TV em nossos dias? No lados por elas. Quem não gosta de uma Por que não provocar as novas gerações da
Twitter e no Facebook. Verdadeiras for- narrativa bem contada? Os jovens muito igreja a se engajarem em algo bom, con-
tunas são investidas no monitoramen- mais. Obviamente, assim como a casa não sistente e verdadeiro? “Deus espera mui-
to das mídias sociais, porque a juventude pode ter mais janelas do que paredes, o to da juventude que vive nesta geração
gosta de comentar, questionar, avaliar e, bom sermão não se sustenta só com his- de luz”.1 Se a criatividade pulsante deles
até mesmo, interferir no que está sendo tórias, mas isso não impede que elas cati- for canalizada para o bem com suas pró-
transmitido. A comunicação é uma via de vem a atenção em momentos estratégicos prias ferramentas – acredite – os resul-
mão dupla e, para os millennials, isso virou da preleção. Você sabe quem foi o mais im- tados serão extraordinários. Desafie-os e
questão de sobrevivência. Eles ouvem se portante contador de histórias do univer- surpreenda-se!
são ouvidos. Por que não desafiá-los a usar so, não é? Jesus estabeleceu o reino de Finalmente, e como sempre foi através
suas redes sociais como instrumentos do Deus mais com ações do que com pala- dos séculos, os jovens servem de alerta
bem? Atualmente, um adolescente checa vras. Entretanto, quando usou as palavras, constante à nossa propensão natural de
sua “vida social digital” em média 150 ve- sempre as coloriu com histórias, parábolas querer falar do jeito que gostamos de ouvir.
zes (ou mais) durante um único dia! Então, e casos do cotidiano. Por que deveríamos No entanto, o grande desafio é pregar de
que tal abrir um canal de conversa após o ignorar tamanho potencial influenciador? maneira que eles ouçam. Essa é a gran-
culto através do WhatsApp, e-mail e até de carência no hiato entre púlpitos e gale-
do pré-histórico SMS? Ou provocar a virali- Invista nos sentidos. Não é tão sim- rias: apresentar a verdade que não muda
zação de imagens positivas sobre o assun- ples utilizar o olfato e o paladar durante mudando a forma de apresentar a verda-
to apresentado no Instagram e Snapchat? um sermão, eu sei. Entretanto, a visão, o de. Por isso, na missão temos que ser a
Lembre-se de que se eles publicam quem toque e a audição podem ser explorados vanguarda; nos princípios, a retaguarda;
são na web, poderíamos incentivá-los a para cativar o público jovem. Elementos vi- e, na dúvida, abraçarmos o bom-senso. Se
publicar quem deveriam ser. suais atraentes, projeções de imagens de pedirmos a Deus sabedoria e idoneidade
reforço, aplicações lúdicas, contextualiza- para alcançar as novas gerações, não te-
Seja autêntico e pessoal. Foi-se o ção prática e real, além de outros disposi- nho dúvida de que ainda veremos realiza-
tempo em que os jovens absorviam gra- tivos de envolvimento, podem auxiliar no do o maior dos sonhos: Jesus voltando em
tuitamente o que lhes era apresentado. processo para chamar a atenção. Tudo isso nossa geração.
Atualmente eles conferem no Google o sem abrir mão da reverência e do cuida-
Referência
que é dito e desconfiam severamente dos do com os extremos. Afinal, os jovens sa-
1
Ellen White, Mensagem aos Jovens, p. 199
discursos enlatados de autopromoção bem que a igreja é um ambiente diferente

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JAN-FEV • 2016 | 15
CAPA Roberto Giordana
Pastor da igreja da Universidad
Adventista del Plata, Argentina

Gentileza do autor
O desafio da
mobilização
Como envolver os jovens na dinâmica da igreja

C
ercado por tantas mudanças decor- conosco as motivações para fazer e o trei- alcançar as grandes massas. Sem dúvida,
rentes da velocidade da informação, namento teórico de nossa formação mi- não se pode adotar uma estratégia evan-
e vivendo nesta época de constan- nisterial. Entretanto, muitas vezes, o que gelística simplesmente fazendo uso de di-
te transformação, em que muitas vezes se fazemos intuitivamente não é acompanha- ferentes alternativas e comparando seus
torna difícil entender comportamentos ou do por um fundamento bíblico, mas feito a resultados. O pragmatismo ideológico não
atitudes que emergem procurando impor partir de uma formação pragmática. pode ser o fator motivador a reger nossas
significado, está cada vez mais complica- Agindo dessa forma, na tentativa de igrejas. Não podemos pensar no evangelis-
da a tarefa de pastorear. alcançar bons resultados, corremos o ris- mo como um produto desenvolvido para o
Fomos treinados para ministrar em um co de realizar um trabalho infrutífero que comércio, preparado para satisfação e con-
mundo que quase desapareceu, que mu- gire sempre ao redor da mesmice, des- sumo do cliente.2
dou, está mudando e continuará a mudar perdiçando não só o tempo e os recursos, Embora não possamos monopolizar as
para além do pensamento ou das expec- mas também não suprindo as necessida- ações frente a este mundo cada vez mais
tativas. Ficamos surpresos em possuir uma des das pessoas. Assim, estamos sujeitos cheio de conceitos pluralistas, e mesmo
formação acadêmica que se confronta a ser influenciados pelas práticas de mui- que constantemente devamos nos abrir
cada vez mais com uma clara e demarca- tas igrejas e congregações cristãs que, de- às múltiplas possibilidades para não cair
da linha fronteiriça, que separa drastica- sejando interagir significativamente com na estagnação, jamais devemos perder a
mente a linearidade previsível do ontem a sociedade, aplicam estratégias popula- centralidade de nossa missão. Em outras
com o presente desafiador de um mun- res em vez de fazê-lo do ponto de vista palavras, não devemos ter uma estrutura
do em constante formação. Nele, os pa- da teologia da missão. eclesiástica operacional homogênea, com
drões de identidade herdados da cultura Com a finalidade de motivar os mem- as mesmas propostas segmentadas do
eclesial passada não mais são valorizados bros e ser relevantes na comunidade, algu- passado; mas algo mais flexível, no qual
pela geração seguinte, e os princípios bíbli- mas igrejas têm desenvolvido diferentes possamos discernir e promover planos
cos estão cada vez mais vulneráveis a ser estratégias de mobilização. Por exem- contemporâneos e de relevância espiritual.
banidos pelas emergentes ondas sociocul- plo, uma delas está relacionada aos cultos Toda estrutura eclesiástica deveria ser
turais do presente. sensíveis ao adorador. Uma programa- elaborada com uma finalidade missionária
Diante desse quadro, ainda que nos sin- ção extremamente cativante, com músi- transformadora, em que as múltiplas ações
tamos incapazes ou inexperientes por ter- cas contemporâneas, encenações criativas, realizadas visam um propósito evangelísti-
mos uma formação adequada a outros tempo especial para confraternização e co. Desse modo, não diluiria nem perderia a
contextos, não somos impedidos de distin- múltiplas alternativas, como se fosse um centralidade do conteúdo salvífico da men-
guir as contrastantes diferenças culturais menu à la carte, fazendo da religião um sagem, porque sem ele não haveria efetivi-
que exigem a cada dia novas formas de ação. consumo prazeroso e acessível a todos.1 dade. Além disso, é necessário considerar
Para responder aos desafios da so- São muitas as propostas que saem das que a ação permaneceria incompleta e li-
ciedade com a qual interagimos, temos estruturas eclesiásticas com o objetivo de mitada sem a pluralidade das constantes

16 | JAN-FEV • 2016
e novas dinâmicas emergentes que dão lu- divino pronunciado por intermédio de Je- Tradicionalmente, muitos deles adotam
gar à heterogeneidade. tro, de organizar o povo de Israel em pe- o modelo linear, e são necessários para o
quenos grupos “de milhares, centenas, funcionamento da estrutura organizadora
O princípio organizador cinquenta e dez”, foi dirigido à comuni- da igreja. Outros, se enquadram no mode-
Reconhecendo a importância dos con- dade de Israel que contava com mais de lo de ação fragmentada, não contínua, que
ceitos expostos, e conscientes de que 600 mil homens de “vinte anos para cima” permite realizar trabalhos de curto prazo,
atualmente a abordagem da mente pós- (Êx 38:26). No Novo Testamento também específicos, com propósitos e resultados
moderna não se dá do centro para a perife- encontramos esse princípio na organiza- imediatos, muito bem aceitos pela cultura
ria, mas na direção inversa, somos de certa ção da igreja apostólica, quando um pe- “very fast ” dos jovens.
forma forçados a desenvolver nosso mi- queno grupo de diáconos foi formado para Ambas as ações combinam a parti-
nistério dentro do princípio dos pequenos servir às mesas e atender as necessidades cipação e a mobilização voluntária. Elas
grupos. Dessa maneira, nossos esforços das viúvas (At 6:1-7). permitem não somente direcionar as fun-
eclesiásticos estarão contextualizados no O princípio de pequenos grupos como ções básicas e importantes de qualquer
mundo presente, repleto de compromis- base de ação está presente em toda a es- empreendimento para o funcionamento
sos e experiências passageiras, encontros trutura denominacional, difundido nas vital da igreja, mas também abrem no-
fugazes e relações transitórias. Uma so- dezenas de departamentos e nos milha- vos espaços, dando lugar à criatividade
ciedade na qual o contínuo, linear e per- res de esforços realizados para trabalhar e valorizando as iniciativas. Assim, essas
manente não é bem recebido. não somente com os membros da igreja, iniciativas não somente apresentarão a
“Em nossas igrejas, formem-se grupos mas também com os não cristãos. Esse teoria da mensagem, mas também se-
para o trabalho. [...] A formação de peque- princípio que deve reger toda ação não rão sensíveis a todos os aspectos inte-
nos grupos, como uma base de esforço restringe, limita nem monopoliza a atua- grais do ser humano.
cristão, é um plano que tem sido apresen- ção da igreja. Na diversidade dos dons, Sem cair em uma modalidade que mo-
tado diante de mim por Aquele que não na diversidade dos serviços, e na diver- nopolize ou busque normatizar os es-
pode errar. Se houver grande número na sidade das realizações é concedida a ma- forços ou iniciativas de integração com a
igreja, os membros devem ser divididos nifestação do Espírito para o que é útil comunidade interna ou externa da igreja,
em pequenos grupos, a fim de trabalha- (1Co 12:4-7). devemos procurar, com a ajuda de Deus,
rem não somente pelos outros membros, Não impor centralidade e homoge- experimentar múltiplas alternativas de pe-
mas também pelos descrentes.”3 neidade, mas dar lugar para que a força quenos grupos que direcionem a diversi-
A Bíblia apresenta esse princípio re- da ação esteja descentralizada e permi- dade de dons, ministérios e operações para
velado como base organizadora da ação. ta a heterogeneidade, faz com que a es- proveito da igreja.
Nos pequenos e grandes movimentos da trutura tradicional e necessária da igreja
Referências
história bíblica, ele aparece de diversas seja acompanhada do refrigério das no-
formas para promover uma obra especí- vas manifestações do Espírito “visan-
1
Eddie Gibbs, La Iglesia del Futuro (Buenos Aires:
Editorial Peniel, 2005), p. 34-35.
fica. Um dos textos do Antigo Testamen- do a um fim proveitoso” (v. 7). Manter 2
Ibid., p. 51
to que registra esse critério organizador esse princípio para canalizar todo esfor- 3
Ellen G. White, Evangelismo, p. 115
se encontra em Êxodo 18:13-27. O conselho ço é a chave do êxito dos grupos de ação.

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JAN-FEV • 2016 | 17
IGREJA Erton Köhler
Presidente da Igreja Adventista
do Sétimo Dia para a América
do Sul

Divulgação DSA
Oportunidades
É tempo de ver além das circunstâncias

C
rise é a palavra do momento em vá- Meus olhos brilharam quando li uma que sua maior esperança está na religião,
rios países da América do Sul, e ela pesquisa de opinião realizada no Bra- ou nas igrejas. A crise está potencializando
pode ser sentida nas mais diferentes sil entre os dias 12 e 16 de julho de 2015. essa oportunidade e abrindo portas para
áreas, como por exemplo, na política, eco- Ela envolveu 2.002 pessoas, em 25 esta- que possamos chegar aos corações caren-
nomia e moralidade. Governantes e líderes dos, 137 cidades, abrangendo as cinco re- tes e sinceros. O que estamos fazendo para
tentam, mas não conseguem encontrar saí- giões do país. O material, encomendado que isso aconteça? Estamos aproveitando
da para situações que parecem maiores do pela Confederação Nacional dos Transpor- esse momento com urgência, conscientes
que eles. Em momentos assim, Deus mul- tes, apresentou resultados interessantes. de que não teremos muito tempo? Ou con-
tiplica as oportunidades e surpreende Seu O objetivo era conhecer melhor a visão do tinuamos em nossa rotina, gastando tem-
povo. Afinal, tempos difíceis nos ajudam a brasileiro sobre diversos temas que agitam po com coisas irrelevantes e deixando-o
purificar a vida espiritual, fortalecer a fé e o país, mas uma das questões me chamou passar? Grandes e rápidas oportunidades
aumentar nossa dependência dele. O Se- a atenção de maneira especial. precisam ser aproveitadas com foco claro
nhor utiliza essas oportunidades para tirar Perguntados sobre a instituição na qual e ação integrada.
a distração do meio de Seu povo e trazê-lo os entrevistados mais confiam, as respos- Quando fortalecemos o foco, as forças se
de volta ao foco da consagração e missão. tas foram as seguintes: concentram no que é essencial, importante
As crises também fortalecem a igreja. e relevante. Se não agirmos dessa manei-
Precisamos estar prontos para aprovei- Igreja 53,5% ra, mas deixarmos as coisas acontecerem
tar cada uma dessas oportunidades sem de forma natural, no “piloto automático”,
Forças Armadas 15,5%
ser dominados pelo medo ou pela inse- as energias serão consumidas com o que é
gurança. Nosso chamado é para avançar Justiça 10,1% secundário, vazio e irrelevante. A pressão
com responsabilidade e ousadia, pois só Polícia 5,0% do excesso de atividades, do secularismo e
assim vamos refletir a visão de Deus para da mídia em todas as suas formas traz um
Imprensa 4,8%
esses momentos. enorme risco de distração. Não podemos
A responsabilidade nos leva a reavaliar Governo 1,1% nos deixar distrair e perder a oportunidade
nossa maneira de gastar nossos recursos e Congresso Nacional 0,8% preciosa que Deus está colocando diante de
realizar nossas atividades. Toda aresta pre- Partidos Políticos 0,1% nós. Nosso foco deve estar no discipulado.
cisa ser aparada para que avancemos com o Ele é a essência e a base de tudo.
Não sabe ou não respondeu 9,1%
foco na missão. Por sua vez, a ousadia nos É preciso envolver cada membro na
Fonte: (http://t.co/5UCpBXSota)
dá a oportunidade de realizar os sonhos de comunhão, no relacionamento e na mis-
Deus e estar prontos para entrar pelas por- Observe que, enquanto tudo está des- são. Nosso tempo principal, planejamen-
tas que Ele abrir. O Senhor não é guiado por moronando e as pessoas não têm em que to de nossas atividades, uso de nossos
crises, mas movido por milagres. confiar, elas assumem de forma destacada recursos, foco de nossos talentos, tudo

18 | JAN-FEV • 2016
deve levar cada um de nós a buscar Deus unidade. Se não agirmos de maneira inte- de agosto, vamos celebrar o crescimento
na primeira hora do dia, a fazer parte de grada seremos uma igreja de muitos pe- e a multiplicação dos pequenos grupos.
um pequeno grupo e a usar nossos dons quenos movimentos, mas desconhecida, Teremos mais missão se cada mem-
para levar pelo menos uma pessoa a Jesus. irrelevante, ineficaz e incapaz de cumprir bro da igreja, pela graça de Cristo e pelo
Priorizando essa visão teremos uma igre- a missão e aproveitar as oportunidades. poder do Espírito, se dispuser a preparar
ja mais saudável, um exército mais envol- Entretanto, se atuarmos unidos, seremos uma pessoa para o batismo por meio dos
vido, pessoas mais integradas, discípulos relevantes na igreja e, especialmente, na seus dons espirituais. Como igreja, quere-
mais maduros e oportunidades mais bem comunidade, onde estão os corações que mos atuar integrados em quatro grandes
aproveitadas. clamam por socorro e esperança. movimentos em 2016: Semana Santa, de
Para potencializar o alcance e os resul- Em 2016 vamos compartilhar essa Es- 19 a 27 de março; Impacto Esperança, nos
tados dessa visão, agora buscamos mais. perança Viva, que o inimigo não conseguiu dias 14 e 15 de maio; Batismo da Primavera,
Diante das grandes oportunidades, preci- abalar desde o surgimento do movimento de 17 a 24 de setembro; e Evangelismo Pú-
samos sonhar além do que pudemos rea- adventista. Essa esperança não é apenas blico de Colheita, de 19 a 26 de novembro.
lizar até aqui, levando a igreja a ter mais uma teoria, mas tem efeito real na vida da- Conto com você para avançarmos jun-
comunhão, mais relacionamento e mais quele que a aceita. Vamos atuar juntos com tos com paixão e foco na missão. Afinal,
missão. Não é tempo de se acomodar nem paixão, dedicação e foco no discipulado. “será que um marinheiro ficaria parado se
retroceder. É hora de avançar para não dei- Em busca de mais comunhão, vamos ouvisse o clamor de um náufrago? Será
xar passar as oportunidades que os últi- incentivar nossos irmãos a ter sua lição da que um médico permaneceria sentado
mos dias estão colocando diante de nós. Escola Sabatina e também motivar a igre- confortavelmente deixando seus pacien-
Quando é claro o objetivo a ser alcan- ja para o programa “10 Dias de Oração e tes morrerem? Será que um bombeiro, ao
çado, as atividades precisam ser alinhadas 10 Horas de Jejum”, que ocorrerá nos dias saber que alguém está perecendo em meio
e integradas para então ser potencializa- 18 a 27 de fevereiro. às chamas, ficaria parado e não prestaria
das. Essa é a razão pela qual a cada ano te- Vamos trabalhar para aumentar a parti- socorro? E você conseguiria ficar tranqui-
mos um projeto unificado que nos move cipação da igreja nos pequenos grupos a fim lo vendo o desespero do mundo ao seu re-
como um exército para realizar ações mais de desfrutarmos mais relacionamento, dor?” (Leonard Ravenhill).
relevantes. É fundamental atuarmos jun- aumentando a integração com as unida- Não desperdicemos as oportunidades
tos para consolidar o foco e fortalecer a des de ação da Escola Sabatina. No dia 6 que Deus nos dá!

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A causa de Deus requer homens de visão A mais leve inclinação do peso na balança

Decisão e
rápida, capazes de agir pronta e energica- deve ser notada, decidindo imediatamente
mente no momento oportuno. Se esperais a questão. Muita delonga fatiga os anjos. É

Prontidão
para medir cada dificuldade e pesar cada mesmo mais desculpável tomar uma deci-
perplexidade que encontrardes, bem pou- são errada, às vezes, do que ficar sempre
co haveis de realizar. Encontrareis dificulda- a vacilar, hesitando ora para uma, ora para
des e obstáculos a cada passo, e deveis, com outra direção. Maior perplexidade e mal re-
propósito firme, decidir vencê-los, ou do sultam de hesitar e duvidar assim, do que
contrário sereis por eles vencidos. de agir às vezes muito apressadamente.
Vezes há em que vários meios e fins, Tem-me sido mostrado que as mais assi-
métodos diversos de operação quanto à naladas vitórias e as mais terríveis derrotas
obra de Deus equivalem-se mais ou me- se têm decidido em minutos. Deus requer
nos em nosso espírito; é exatamente en- ação pronta. Demoras, dúvidas, hesitações
tão que se faz mister o melhor critério. e indecisão dão muitas vezes toda vanta-
E se alguma coisa se faz para esse fim, gem ao inimigo (Ellen G. White, Obreiros
deve ser feita no momento oportuno. Evangélicos, p. 133, 134).

JAN-FEV • 2016 | 19
MISSIOLOGIA Marcelo Dias Wagner Kuhn
Professor de missiologia Professor e diretor
na Faculdade de do programa de

Gentileza do autor

Gentileza do autor
Teologia do Unasp, missiologia no
Engenheiro Coelho, SP Seminário Teológico da
Universidade Andrews,
Estados Unidos

Missão adventista
do despertamento
ao engajamento
Um convite ao foco e à unidade em torno da razão
de ser de todo adventista do sétimo dia

P
assaram-se mais de 140 anos desde geográfica, (da presença exclusivamente
que J. N. Andrews partiu dos Estados nos Estados Unidos para 80% dos mem-
Unidos para a Europa como primei- bros vivendo em outros países); (3) a di-
ro missionário oficial adventista do sétimo versidade étnica dos missionários (apesar
dia. A decisão tomada pela comissão dire- da inexatidão dos números, supunha-se
tiva da Associação Geral, disponibilizando que 60% deles não fossem provenien-
“o homem mais capaz em nossas fileiras”,1 tes da América do Norte); (4) o imenso e
unida à paixão de Andrews e sua disposi- contínuo crescimento do movimento ad-
ção para enfrentar os desafios ameaça- ventista ao redor do mundo (aproximada-
dores a fim de levar a outros continentes mente 5,7% ao ano); (5) o grande número
a mensagem profética, marcou a consoli- de instituições, hospitais e clínicas, colé-
dação de uma inspirada convicção e esta- gios e faculdades, escolas fundamentais,
beleceu um paradigma para a identidade editoras, orfanatos, asilos e indústrias ali-
missionária do movimento adventista. mentícias, somando 70 mil empregados; e
Hoje, enquanto celebramos o passado e (6) a elevada doação per capita (161,31 dó-
somos desafiados pelo futuro, é tempo de lares por ano).
refletir sobre a razão da presença adven- Entretanto, o que surpreendeu Oos-
tista do sétimo dia no mundo. terwal não foi essa informação, por mais
impressionante que tenha sido. O aspec-
Depois de 100 anos to mais notável da missão adventista
Em setembro de 1974, a revista Ministry 40 anos atrás era sua unidade. “Depois de
publicou um artigo de Gottfried Ooster- cem anos, a missão adventista do sétimo
wal, sob o título “Missão adventista: depois dia”, diz o artigo, “ainda está proclamando,
de cem anos”. Sua avaliação do primeiro mundialmente, a mesma mensagem que
século de missão oficial da denominação também moveu seus pioneiros e fundado-
Madpixblue / Fotolia

notou algumas tendências que incluíam: res – isto é, Cristo, o Redentor de todos os
(1) crescimento do número de membros, homens e o Senhor deste mundo, iniciou
de 6 mil para 2,4 milhões; (2) a expansão a última fase de sua missão, o juízo, para

20 | JAN-FEV • 2016
efetuar a restauração do reino de Deus em movimento missionário além-mar como Hoje
toda a sua glória.”2 um programa intraigreja, com sua falta de Um olhar cuidadoso nos relatórios es-
divulgação evangelística a todos os po- tatísticos anuais da Associação Geral, e
Mais de 40 anos atrás vos da Terra. A outra é o conceito de que outras informações atuais, pode ajudar
Em 1974, a alteração mais significativa missionários deveriam retornar ao res- a descrever a missão adventista depois
na natureza da missão adventista havia pectivo país tão logo houvesse obreiros de 140 anos. O adventismo está presen-
sido a mudança do evangelismo pioneiro e líderes locais preparados, capacitados te em 208 dos 232 países reconhecidos
e o plantio de igrejas para os ministérios ou desejosos em assumir os ministérios pela Organização das Nações Unidas. Dos
especializados em educação, obra hospi- especializados”.3 mais de 7 bilhões de pessoas que vivem
talar, assistência técnica e administração. Quaisquer que fossem os desafios depois no mundo, aproximadamente 155 mi-
Menos que 2% de todos os missionários de 100 anos de missão, a avaliação geral foi lhões vivem em países sem nenhum tra-
foram chamados a trabalhar diretamen- otimista devido ao fato de que a diversida- balho adventista estabelecido.5 No fim de
te no campo. A grande maioria fazia parte de da igreja não havia afetado sua unidade. 2013, a denominação tinha mais de 18 mi-
do ministério no âmbito institucional. Em Os escritos de Ellen G. White foram citados lhões de membros6 (18.143.745), enquanto
muitos lugares na América Latina, África e como uma das causas porque eles tinham um número estimado entre 25 e 30 mi-
Ásia, isso era o resultado natural de uma dado “à igreja não apenas uma autoridade lhões de homens, mulheres e crianças fre-
igreja em crescimento, que havia desenvol- comum, mas também um princípio comum quentavam semanalmente os cultos em
vido então um sistema de apoio por meio de hermenêutica sobre quase todo aspec- 76.364 igrejas e 68.845 grupos ao redor
de suas instituições. to da vida e da teologia da igreja”.4 Sistema do mundo.7
Ao lado da necessidade de uma con- comum de governo, teologia e fraternidade O número de membros da Escola Sa-
tínua alimentação da verdadeira natu- foram outros elementos importantes da di- batina continua sendo maior do que o de
reza e missão da igreja, bem como uma nâmica que manteve a unidade eclesiástica. membros da igreja.8 Os últimos 40 anos
clara teologia para guiar esse empreen- Apesar dos desafios, certamente um aspec- testemunharam um aumento de 659%
dimento, foram listadas como limitações to estava evidente em 1974: a era missioná- no número de membros,9 com uma mé-
duas tendências da metade dos anos 1970: ria não havia terminado. dia anual de crescimento de 4,76%.10 Nos
“uma é a ênfase todo-exclusiva de nosso últimos dez anos, mais de um milhão de
pessoas se uniram à igreja cada ano.11 Ve-
rifica-se que a Igreja Adventista do Séti-
mo Dia é a denominação de mais rápido

JAN-FEV • 2016 | 21
crescimento em países como Austrália e Missões. Consequentemente, o número permanecem ainda desafios externos e in-
Estados Unidos.12 de empregados gerais e institucionais mais ternos. Internamente, a questão da retenção
Um estudo da realidade da igreja hoje que duplicou desde 1980.19 de membros, que ultimamente tem rece-
evidencia tendências interessantes. Nas Uma leitura mais missiológica dos rela- bido atenção, tem levado a denominação
últimas quatro décadas, tem havido uma tórios pode dar pistas sobre a abordagem a enfatizar o estudo e a implementação do
clara mudança da presença adventista evangelística que a Igreja Adventista tem processo intencional do discipulado, bem
no mundo. Seguindo a trajetória geral do empregado como denominação mundial. como a encorajar programas globais de au-
cristianismo do Norte Global para o Sul 1. O grupo tradicional de colportores ditoria. Em 2013, o crescimento de mem-
Global, a maioria dos membros da deno- evangelistas parece ter estabilizado, de bros (262.254) foi menor que o número
minação hoje vive naquelas que uma vez 2008 a 2011, em aproximadamente 7 mil dos que deixaram a igreja (foram batiza-
foram áreas recebedoras de missionários: (credenciados e licenciados) ao redor do das 1.091.222 pessoas).21 Alguns têm apon-
6,6 milhões na África, 5,8 milhões na Amé- mundo. Em 2012, havia 13.543 colportores tado que o processo de institucionalização
rica Latina, e 3,4 milhões na Ásia.13 de tempo integral. não tem sido eficientemente conectado
Esse número tem aumentado tam- 2. Ministérios de mídia também conti- com o propósito da igreja, tornando ainda
bém na “Janela 10/40”.14 Acompanhando nuam a ser parte da estratégia evange- mais difícil cumprir a missão adventista.
o crescimento numérico de fiéis, os dízi- lística, seguindo as tendências gerais da Outros têm se preocupado com o compro-
mos e ofertas também têm aumentado sociedade. Em comparação com 1980, a metimento leigo com a missão. Embora
nos últimos 40 anos. Em 2012, um relató- igreja tinha e operava cerca de 15% das as ofertas missionárias tenham alcança-
rio indicou um total de 3.276.600.259 de emissoras de rádio em relação a 2012, do o número recorde em 2012 (85.254.154
dólares em recursos financeiros: 70,6% em e mais que duplicou as emissoras de dólares), a baixa porcentagem de dízimos
dízimos, 4,1% da missão mundial (incluin- televisão. e ofertas também foi recorde – 2,6% em
do Escola Sabatina e outros fundos arre- 3. A criação dos Ministérios da Mulher 2011 (comparada a 8,67% em 1980).22 O
cadados pela Associação Geral) e 25,3% (nos anos 1990) tem ajudado as igrejas número de estudos bíblicos também tem
de fundos intradivisão e de igrejas locais.15 locais a atender as necessidades e os in- diminuído: 6.759.370 em 2012, em compa-
Em 2010, enquanto o Norte (aproxima- teresses desse segmento particular da po- ração com 9.184.988 em 1980. Finalmente,
damente 8,5% dos membros) contribuiu pulação. Em 2012, foram relatadas 129.320 o número de missionários tem oscilado: fo-
com 56,5% dos dízimos da denominação, pessoas batizadas como resultado direto ram recebidos cerca de 1.700 novos missio-
os membros do Sul Global foram respon- do ministério feminino, 63.180 membros nários (incluindo empregados interdivisão,
sáveis por 885 milhões de dólares (43,5%).16 resgatados e 100.933 mulheres não ad- Serviço Voluntário Adventista e pioneiros
Isso mostra que essa área do mundo têm ventistas passaram a frequentar a igreja. de Missão Global). Em 2012, havia 2.260
contribuído de maneira mais significativa 4. O Ministério da Criança é outro exem- missionários em atividade (empregados in-
nos anos recentes. plo de evangelismo segmentado. Em 2012, terdivisão e pioneiros de Missão Global).23
Outra tendência, nas últimas décadas, é as crianças realizaram 138.630 programas Essa realidade parece ter sido refletida
o aumento do número de instituições ad- evangelísticos ao redor do mundo. na média mais baixa de crescimento anual
ventistas. Por volta de 2012, a denominação 5. A principal força da igreja, entretan- observada nos últimos dez anos (3,3%).
tinha mais que duplicado a quantidade de to, permanece no nível local, por meio do Áreas adventistas tradicionais estão es-
escolas fundamentais e secundárias, alcan- envolvimento leigo em escolas bíblicas. Em tagnadas,24 incluindo o sul da Alemanha,
çando o número de 2.128 instituições. Or- 2012, foram realizados 716.162 batismos Polônia, Japão, Hungria, Suíça, Nova Ze-
fanatos, asilos e casas de repouso também (comparados a 193.783, em 1980) como lândia, Áustria, Portugal e Austrália. Três
mais que duplicaram desde 1980.17 Quan- resultado direto desse trabalho. Curiosa- Uniões na América do Norte também fa-
do são incluídos hospitais, indústrias de mente, as inscrições em escolas bíblicas zem parte dessa lista: União do Pacífico,
alimentos, clínicas e editoras, o número têm decrescido. Em 2012, apenas 545.374 dos Lagos, e Norte do Pacífico.
de instituições vai a 2.841 (ao lado de 5.714 matrículas (em 1980, foram 700.777) foram Entretanto, as 15 Uniões com declínio
escolas primárias). Os 14 centros de mídia realizadas, além de 1.198.968 campanhas e mais rápido estão nas Divisões Euro-Ásiá-
representam uma nova categoria criada seminários leigos, um número incomum, tica, Transeuropeia e Intereuropeia.25 De
desde os anos 1980.18 A mesma tendência se comparado a 251.691 em 2010, e 52.877 acordo com o pastor G. T. Ng, secretário da
é identificada em termos de organizações em 1980.20 Associação Geral, “o número de membros
administrativas. Em 2012, havia uma quan- Embora a igreja se alegre com o pro- tem aumentado em função do número de
tidade recorde de Uniões, Associações e gresso conquistado em muitas frentes, batismos, em vez de simplesmente fatores

22 | JAN-FEV • 2016
demográficos. Em 1960, os batismos no modo que mais missionários trabalhem na Janela 10/40 cresceu de 250 mil em 1992, para
Norte Global representavam 31%, e no Sul em áreas não alcançadas (Janela 10/40 e mais de 2,5 milhões em 2012, mas a proporção
em relação à população tem crescimento
Global, equivaliam a 69%. Em 2010, os ba- outras)? Como a igreja alcançará as mas-
insignificante, não seguindo o que acontece em
tismos no Sul Global cresceram três vezes sas urbanas, sem negligenciar as elites? outras partes do mundo. 2013 Annual Statistical
mais, alcançando a extraordinária marca Como podemos criar mais oportunida- Report , 2, 4, e 2014 Annual Statistical Report , 80.

de 96,2% naquele ano”.26 des de serviço num plano contínuo en-


15
 or exemplo, em 1980, os dízimos representavam
P
62,1%, ofertas missionárias 11,2%, recursos locais
Essas realidades dissonantes também tre empregados interdivisão e voluntários e intradivisão 27,1% do total de entradas (2014
são confirmadas pelas diferentes preo- adventistas? Essas questões serão abor- Annual Statistical Report , 4). Uma observação
importante é que os membros dão mais dízimos
cupações levantadas nas duas regiões: dadas na segunda parte deste artigo. do que ofertas missionárias.
enquanto o Norte Global discutia ativa- 16
 m comparação a 1960, esse foi um crescimento
E
mente a ordenação de mulheres, o Sul Referências de 1.171% em termos reais, em contraste a 131%
Global parece ter descartado isso, prefe- 1
 llen G. White, Carta 2a, 1878 (To “Dear Brethren
E do Norte Global. G. T. Ng, Journal of Adventist
in Switzerland”), 29/8/1878, Manuscript Releases, Mission Studies, v. 8, nº 2, p. 43.
rindo manter o foco na missão. Analisan- v. 5, p. 436. 17
 umário de Instituições (tabela 7), 2014 Annual
S
do esse panorama, David Trim, diretor do 2
 ottfried Oosterwal, Ministry, setembro de 1974,
G Statistical Report , 4.
Departamento de Arquivos, Estatísticas p. 24-27. 18
 scolas secundárias e superiores mais que
E
e Pesquisas Adventistas, comentou: “Nós 3
Ibid. duplicaram desde 1980: 882 escolas; 80 orfanatos
em 1980 e 170 em 2012. Total de instituições em
estamos entusiasmados com esse cresci- 4
Ibid.
1980: 1.451. 2014 Annual Statistical Report , 4-6.
mento num tempo em que, globalmente, 5
“ Trabalho estabelecido” é definido oficialmente 19
 niões: 124, um crescimento de 55% em relação
U
muitos grupos religiosos não estão cres- como país ou área do mundo em que um ou mais
às 80 existentes em 1980. Associações e Missões:
dos seguintes critérios tenham sido cumpridos: (1)
De 377 em 1980 para 601 em 2012. Empregados
cendo. Agradecemos a Deus pelo fato de uma igreja organizada que se reúna regularmente;
gerais e institucionais: em 2012 havia 255.982
que, em face dos desafios tais como opres- (2) um posto missionário, posto de saúde ou escola
empregados ativos, em comparação a 85.839 em
funcionando regularmente; ou (3) um empregado
são política, perseguição religiosa e cres- 1980 (2014 Annual Statistical Report , 4, 5).
regular, de tempo integral, estabelecido no país
cente materialismo e secularismo, esse ou área, empenhado em atividades evangelísticas
20
 número de colportores era 7.073 em 1980
O
para conquista de pessoas, por meio de Escola e 5.315 em 2012. Também em 2012, havia 455
movimento, que enfatiza esperança e ple- emissoras de rádio, menor que o número de
Sabatina, um grupo organizado ou uma escola de
nitude, continua crescendo.”27 idiomas. 1980 – 3.328. Por outro lado, as emissoras de
TV somavam 918 em 2012, e 343 em 1980,
6
Mark A. Kellner, Adventist Review, 17/12/2013,
com um pico de 2.252 em 2004. Em termos
Amanhã <www.adventistreview.org>.
de Ministérios da Criança, a assistência por
As oportunidades e desafios nos úl-
7
2 014 Annual Statistical Report , 27.<documents. adventistas e não adventistas às Escolas Cristãs
adventistarchives.org/Statistics/ASR2014.pdf> de Férias teve um pico em 2005 (2014 Annual
timos 40 anos e, especialmente, no co- Statistical Report , 5-7).
8
 m 2011, representava 107% em comparação a
E
meço do século 21, têm levado a missão 119.07% em 1980. 2014 Annual Statistical Report , 21
2 014 Annual Statistical Report , 27.
adventista a aprender, enfatizar e desen- revisado em agosto de 2014, 7, <documents. 22
3 4.564.983 dólares em ofertas missionárias,
adventistarchives.org/Statistics/ASR/ASR2014.
volver dinâmicas missionárias específicas. divididos por 398.880.407 dólares em dízimos
pdf>
(2014 Annual Statistical Report , 88).
À medida que a denominação enfrenta 9
 o fim de 1973, havia 2.390,124 membros. Os
N 23
 número de empregados interdivisão caiu de
O
o futuro, algumas questões antigas per- números usados para calcular porcentagens são
1.497 em 1980, para 92 em 2012. Empregados
manecem, e outras novas passam tam- do 111th Annual Statistical Report of Seventh-day
interdivisão ativos também diminuíram de 1.388
Adventists 1973, <documents.adventistarchives.
bém a exigir uma resposta: Como a igreja em 1980, para 839 em 2012. Tem havido uma
org/Statiscs/ASR/ASR1973.pdf> e 2014 Annual
tendência de declínio geral, desde os anos 1980
cumprirá a quase impossível tarefa de al- Statistical Report.
(David Trim, 2012 Annual Statistical Report ,
cançar o mundo com o evangelho? O que 10
 índice da média anual de crescimento teve
O <documents.adventistiarchives.org/Statistics/
por base uma tabela encontrada no site <www. Other/ACRep2012.pdf>.
mais pode ser feito (e de melhores for-
adventiststatistics.org>. 24
“ Estagnação” é definida pelo fato de o número de
mas) para cumprir essa meta abrangente? membros ter crescido a uma taxa menor que 12%
11
 ndrew McChesney, Adventist Review, 12/10/2014,
A
Como a igreja poderia canalizar sua imen- < www.adventistreview.org>. em um período de dez anos.
sa “energia missionária”, especialmente 12
Edwin Manuel Garcia, Adventist News Network , 25
 razão dada é a perda de população em nações
A
<news.adventist.org>; G. Jeffrey MacDonald, USA do leste europeu, que tem retrocedido em
com os jovens? Como a igreja pode pro-
Today, 17/03/2011, <wsatoday30.usatoday.com > virtude de uma grande crise econômica e do
videnciar oportunidades para pessoas alto desemprego na antiga União Soviética e
13
Edwin Manuel Garcia, Op. Cit.
que desejam servir em campos missio- adjacências.
14
 o fim de 2011, menos de 2 milhões de membros
N
nários? Como podem ser criadas novas viviam no Norte Global. Os números do Oriente
26
G. T. Ng, Op. Cit., p. 38.

estruturas e plataformas de missão, de Médio têm sido auditados. O número de membros 27


Mark A. Kellner, Op. Cit.

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JAN-FEV • 2016 | 23
FILOSOFIA Eduardo Rueda
Editor associado na Casa
Publicadora Brasileira

Gentileza do autor
O pensamento hebraico
Compreender a
cosmovisão dos
autores bíblicos ajuda
a interpretar melhor
a Palavra de Deus

É
preciso admitir que os gregos dei- hebreus eram bem diferentes em sua ma- a cultura, a religião e as tradições são he-
xaram uma herança muito rica para neira de enxergar o mundo. braicas, e os conceitos são hebraicos”.2 Em
o Ocidente, nas artes, na ciência e Podemos afirmar que a Bíblia é essen- sua grande parte, a Palavra de Deus foi
na cultura. Sem eles, não seríamos o que cialmente hebraica.1 Apesar de o Novo “pensada por mentes hebraicas, mesmo
somos hoje. No entanto, se atualmen- Testamento ter sido escrito em grego e quando os lábios falaram e as mãos es-
Akimenkoanton / Fotolia

te temos tanta dificuldade para entender haver influência grega em seu estilo, seu creveram em grego”.3 Daí a importância
a Bíblia, em grande parte isso se deve à “pano de fundo é [...] hebraico. Os escrito- de se entender mais a fundo a mentali-
nossa mente “helenizada”, afinal, gregos e res [com exceção de Lucas] são hebreus, dade hebraica antiga.

24 | JAN-FEV • 2016
A seguir, relacionamos de modo sucin- frequentemente a ordem é inversa: “Obe- mesmo lápis de forma bem mais simples e
to algumas das principais nuances do pen- deceu Antônio a seu pai.” “Esse tipo de ên- objetiva: “Eu escrevo palavras com isso.”7
samento hebraico, confrontando-as com fase no verbo sugere que os hebreus eram Na cosmovisão hebraica, a função, a fina-
o pensamento grego, que, geralmente, um povo centrado na ação.”4 lidade e a utilidade dos objetos eram mais
é também o pensamento ocidental. Vale Até substantivos que, para nós, não importantes do que a forma ou a aparência.
lembrar que nem todos os gregos e he- implicam necessariamente uma ação, na Talvez por isso, os elogios de Salomão a
breus pensavam de maneira idêntica. Ha- língua hebraica antiga envolviam algum sua amada no livro de Cantares soem tão
via, dentro de cada cultura, diferentes movimento. A palavra “presente” (ou estranhos aos nossos ouvidos. Por exem-
ramificações quanto à religião e à filosofia. “bênção”), berakah (Gn 33:11), por exem- plo, dizer a uma mulher: “O teu ventre é
As características seguintes representam plo, vem da raiz brk (“abençoar” ou “ajoe- [um] monte de trigo” (Ct 7:2) pode ser ofen-
cada cosmovisão de forma geral, sem levar lhar”) e pode significar “aquilo que se dá sivo hoje em dia! Entretanto, na cultura da
em consideração as diferentes vertentes. com o joelho dobrado”, uma possível re- época, a imagem do trigo trazia a ideia de
ferência ao costume de inclinar o corpo ao fertilidade, sustento, abundância e sacie-
Concretismo presentear alguém.5 dade. Assim, o elogio de Salomão é mais
No idioma hebraico antigo (língua pre- Para a mente hebraica, a ação precedia funcional do que visual.
dominante do Antigo Testamento), ao con- o pensamento, e não o contrário. “Em vez Outro exemplo é a descrição feita da
trário do grego, as ideias eram muito mais de pensar da causa para o efeito, como o arca de Noé e do tabernáculo do deserto
concretas do que abstratas. Até concei- pensamento ocidental moderno tende a (Gn 6:14-16; Êx 25-28). Qualquer um que lê
tos abstratos, como os sentimentos, cos- fazer, os antigos hebreus raciocinavam do o que a Bíblia diz a respeito dessas cons-
tumavam ser associados a algo concreto. efeito para a causa [...]. De fato, o meca- truções nota que há muito mais detalhes
Em hebraico, a palavra “ira” ou “raiva”, nismo do pensamento hebraico é opos- sobre a estrutura e os materiais empre-
por exemplo, é ’af (Êx 4:14), a mesma que to ao cogito cartesiano, sendo este último gados na confecção do que com relação
é usada para “nariz” ou “narinas” (Jó 40:24). o pressuposto básico na metodologia oci- à aparência.
Geralmente, quem fica com raiva respira de dental. Em vez de afirmar: ‘Penso, logo “Quando queremos falar a respeito [de
modo acelerado, e as narinas se dilatam. É existo [sou]’, o pensamento hebraico de- um objeto] e descrevê-lo, tentamos repro-
possível que esse seja o motivo concreto clara: ‘Existo [sou], logo penso’.”6 duzir em nossos ouvintes, por meio das
por trás da relação entre as duas palavras. Para os hebreus, havia uma íntima re- palavras, a mesma imagem [que está em
Outro exemplo desse concretismo he- lação entre o que se fala e o que se faz. nossa mente]. Os gregos faziam isso tam-
braico é a palavra “fé”, ’emunah (Hc 2:4), Entendia-se que a palavra de um homem bém. Os [hebreus], por outro lado, não ti-
que, em vez de significar apenas crença ou devia corresponder às suas ações. Aliás, nham interesse na aparência ‘fotográfica’
aceitação mental – como no idioma grego –, “palavra”, dabar em hebraico, pode signi- das coisas ou pessoas. [Eles] nos dão suas
expressa também qualidades como firme- ficar também “coisa” ou “atos”. Logo, na impressões do objeto percebido” (itálico
za, fidelidade e estabilidade, como uma es- mentalidade hebraica, dizer algo e não agir acrescentado).8
taca fincada no chão (em Is 22:23, a palavra de acordo implicava mentira, falsidade. Além de funcional, o estilo de descri-
“firme” vem do verbo ’aman, a mesma raiz ção dos hebreus era também pessoal – o
de ’emunah). Portanto, crer, do ponto de Descrição funcional objeto era descrito de acordo com a rela-
vista bíblico-hebraico, tem que ver muito e pessoal ção dele com a pessoa. Ao descrever um
mais com uma atitude de fidelidade para Geralmente, os gregos descreviam os dia ensolarado, em vez de afirmar: “O dia
com Deus do que com mero assentimen- objetos com ênfase na aparência, o que nós, está lindo”, um hebreu talvez dissesse: “O
to mental. ocidentais, também fazemos. Os hebreus, sol aquece meu rosto!” Isso ajuda a explicar
ao contrário, consideravam mais a função a declaração de Davi: “O Senhor é o meu
Dinamismo e o objetivo das coisas. Se nos mostrassem pastor” (Sl 23:1).9
Os hebreus eram um povo extrema- um lápis e nos pedissem para descrevê-lo,
mente dinâmico e seu idioma refletia provavelmente, diríamos: “O lápis é azul”, Conhecimento prático
isso. No português, como em outras lín- ou “é amarelo”; “tem ponta fina”, ou não; Para os gregos, sabedoria era o resulta-
guas, o nome ou sujeito vem em primei- “é cilíndrico”, ou “é retangular”; “é curto”, ou do, sobretudo, do estudo, da contempla-
ro lugar na frase, e o verbo geralmente é “é comprido”; etc. Note que em todas es- ção e do raciocínio. O conhecimento era
colocado logo em seguida. Exemplo: “An- sas características a ênfase está na aparên- basicamente teórico, limitado ao mundo
tônio obedeceu a seu pai.” Em hebraico, cia. Um semita antigo talvez descrevesse o das ideias. Para os hebreus, no entanto, o

JAN-FEV • 2016 | 25
conhecimento era essencialmente prático. da nossa. Para os hebreus, é possível que com que ela prossiga para um fim, um clí-
Conhecer era, principalmente, experimen- o passado (tempo completo) fosse vis- max, o chamado “Dia do Senhor” (yom
tar, envolver-se com o objeto de estudo. to como estando à frente – a palavra qe- Yahweh), tempo em que Ele intervirá na
“A palavra hebraica yada‘, que expressa a dem, “antiguidade” (Sl 77:11), também tem história humana para salvar os fiéis e cas-
ideia de conhecimento, é utilizada também o sentido de “frente” – e o futuro (tem- tigar os rebeldes (Sf 1:7, 14; Jl 2:1; 2Pe 3:10).
para expressar a dinâmica do relaciona- po incompleto), como estando atrás – Todavia, essa descontinuidade da história
mento conjugal [...] (Gn 4:1, 17; 19:8) e até, de mahar, “amanhã” (Êx 13:14) ou “no futuro” é vista apenas como o começo da eterni-
forma figurativa, [o relacionamento] entre (Dt 6:20), vem da raiz ’ahar, que significa, dade (‘olam; Dn 12:2).
Deus e os seres humanos (Sl 16:11; Jr 9:23, entre outras acepções, “ficar atrás”. “Acredita-se que os gregos viam a his-
24; Os 8:2). [Na mentalidade hebraica] co- É possível que essa maneira de enxer- tória como um ciclo interminável de repe-
nhecer significa ‘conviver com’. O conhe- gar o tempo fosse em virtude do pensa- tições sem rumo. [...] [para eles] a história
cimento não consiste em observar e andava em círculos, repetindo-se
analisar o objeto; ele é o resultado da sem nenhum destino em vista. Os
experiência, de uma caminhada com hebreus, por outro lado, viam a his-
alguém (Sl 95:10), e implica um com- tória humana como se dirigindo a um
promisso pessoal com o objeto ou a Se queremos que nossa ponto. Ela teve um começo definido
pessoa a ser conhecido(a).”10 e apontava para uma meta definida,
Os hebreus consideravam a inteli- interpretação das culminando com o reino messiânico
gência não apenas como capacidade Escrituras se aproxime do Redentor de Israel. [Os hebreus]
intelectual, mas também como a ha- tinham um conceito de história em
bilidade de ouvir, de receber conhe- do sentido original do linha reta, avançando para a frente,
cimento externo. Na mentalidade como uma flecha para o alvo.”15
hebraica, os ouvidos estavam espe-
texto, é fundamental que
cialmente relacionados à sabedoria estejamos familiarizados Teocentrismo
(Is 50:5; Jó 12:11; Ne 8:3 e Jr 6:10).11 Se, e integralidade
para os gregos, o conhecimento era com as principais nuances do Os hebreus não dividiam a vida,
subjetivo, inerente ao homem (o que como nós fazemos, em sagrada e se-
pensamento hebraico.
se percebe pela inscrição “Conhece- cular. “Para a mente hebraica, tudo é
te a ti mesmo”, do oráculo de Delfos, teológico. Tudo está sob o domínio
na Grécia), para os hebreus, o conhe- de Deus. [...] [Os hebreus] viam todos
cimento era objetivo e, em última os aspectos da vida como uma uni-
análise, era o resultado da revelação divina. mento concreto e funcional dos antigos dade. [...] todas as circunstâncias da vida –
Na cosmovisão bíblico-hebraica, “temer semitas, mencionado anteriormente. A ló- os momentos bons e os difíceis – ocorrem,
a Deus” é o primeiro passo para se obter gica seria esta: O passado foi completado, não por acaso, mas sob o controle sobera-
sabedoria (Sl 111:10; Pv 1:7). “A epistemo- por isso podemos olhar para ele como se no do Deus todo-poderoso.”16
logia grega ensinava que a verdade últi- estivesse diante dos nossos olhos. O futu- Até mesmo as tarefas do cotidiano
ma é adquirida pelo exclusivo exercício da ro, porém, ainda está indefinido, incomple- eram consideradas, de certa forma, sa-
razão que a descobre. Por sua vez, a epis- to, por isso ainda é desconhecido e é como gradas. A palavra hebraica ‘atsab, no
temologia hebraica entendia que a verda- se estivéssemos de costas para ele. É se- grau Piel, significa tanto “fazer”, no sen-
de última é um mistério que só se conhece melhante a um homem remando um barco: tido de “fabricar”, quanto “adorar”, as-
caso Deus a revele. O papel da razão se re- ele vê à sua frente o que passou, enquanto sim como o verbo ‘abad (“trabalhar” ou
sume a assentir ao que Deus revelou de Si o destino está às suas costas.13 “servir”) muitas vezes aparece no contex-
mesmo [...]. Verdades simples podem ser Embora o tempo na visão hebraica as- to de adoração (Js 24:15; Sl 100:2).17 Na la-
apreendidas pela razão; verdades teoló- sumisse uma forma rítmica – termo prefe- voura, na escola ou no templo, a vida era
gicas, pela Revelação.”12 rível a “cíclica”14 – (com os períodos do dia, vista como um constante ato de adoração
o sábado semanal, as luas novas, as esta- (1Co 10:31). Para o povo hebreu, a adoração
Noção de tempo e história ções, as festas anuais e o ano jubileu), a no- era mais do que um evento: era um esti-
Na mentalidade semita antiga, a per- ção de história era linear. Deus foi quem lo de vida; e a religião permeava cada as-
cepção do tempo também era diferente iniciou a história (Gn 1:1) e é Ele quem faz pecto da rotina.

26 | JAN-FEV • 2016
O filósofo grego Platão difundiu uma Para a cosmovisão hebraica, porém, das Escrituras se aproxime do sentido ori-
interpretação dualista da realidade. Ele o corpo foi criado por Deus, e por isso é ginal do texto, é fundamental que este-
acreditava que havia dois mundos: o das considerado sagrado. As Escrituras afir- jamos familiarizados com as principais
ideias (ou do espírito) e o mundo real. mam que “do Senhor é a Terra” (Sl 24:1). E, nuances do pensamento hebraico.
De acordo com essa visão, o ser huma- enquanto criava o mundo, Deus viu que
Referências
no era formado por duas partes: espírito este “era bom” (Gn 1:10, 12, 18, 21) – e não
1
 avid Bivin; Roy Blizzard Jr., Understanding the
D
(ou alma) e corpo. O corpo e os elementos mau, como afirmava o pensamento pla-
Difficult Words of Jesus (Shippensburg: Destiny
materiais eram considerados ruins, e ape- tônico. Na compreensão bíblico-hebraica, Image, 1984), p. 4
nas o “espírito” e as coisas do “além” eram Deus fez o mundo (as coisas materiais), e 2
Ibid.
vistos como algo bom. Assim, a morte, na deu ao homem a responsabilidade de cui- 3
 laude Tresmontant, A Study of Hebrew Thought
C
verdade, seria a libertação da alma, que, dar dele. “A civilização helênica tinha uma (Nova York: Desclée, 1960), p. 5.

enquanto estivesse no corpo, estaria pre- concepção antropológica que se funda- 4


 erdinand O. Regalado, “Hebrew thought: its
F
implications for adventist education” (Silang:
sa ao mundo material. mentava no somatório de duas partes: Universidade Adventista das Filipinas, 2000).
Por sua vez, os hebreus tinham uma o corpo e a alma. A civilização semítica, 5
Jeff A. Benner, “Ancient hebrew thought”,
visão integral da vida. Para eles, o ser particularmente a hebraica, não dicoto- disponível em: <http://www.ancient-hebrew.
org/12_thought.html>; Daniel Lopez (professor
humano era completo, indivisível. Na mizava. O corpo era concebido como o ser
de Filosofia da Educação na Universidade Federal
mentalidade hebraica, alma se refere ao humano na sua totalidade. [...] [A] visão di- do Rio de Janeiro), “O pensamento hebraico”,
indivíduo como um todo (corpo, mente e cotômica valorizava, acentuadamente, a entrevista concedida por e-mail.

emoções). Ao contrário dos gregos, que alma em detrimento do corpo, o seu cár- 6
Jacques B. Doukhan, Hebrew for Theologians
(Lanham: University Press of America, 1993), p. 193.
criam na imortalidade do espírito, os anti- cere. Do outro lado, na intelecção semíti-
7
Jeff A. Benner, Op. Cit.; Holean Costa, “A
gos hebreus – que ainda não haviam sido ca, o modelo não conhecia uma alma sem mentalidade semita de nossos pais – parte 3”,
influenciados pelo helenismo – acredita- corpo. Corpo significava o ser humano na disponível em: <http://kedem.kol-hatorah.org/a-
mentalidade-semita-de-nossos-pais-parte-3/>.
vam na mortalidade da alma e na ressur- sua totalidade. Na verdade, o israelita não
8
 horleif Boman, Hebrew Thought Compared with
T
reição (Ez 18:4; Dn 12:1, 2). “A visão de uma falava em criação do corpo, mas do ser
Greek (Nova York: Norton, 1970), p. 74.
dicotomia – corpo e alma – era estranha à humano.” 19 9
Holean Costa, Op. Cit.
mentalidade hebraica. A morte para os he- Para os hebreus, portanto, espiritua- 10
Jacques B. Doukhan, Op. Cit., p. 193, 194.
breus era entendida como uma cessação lidade tinha que ver, sim, com esta vida. 11
Ibid.
real e total da vida. No Antigo Testamento, Embora os judeus dos tempos bíblicos 12
 odrigo P. Silva, Filosofia e Teologia: Anotações de
R
um falecido era tido como uma alma morta tivessem seus olhos no Céu, seus pés Classe (Engenheiro Coelho: Unasp, 2009), p. 51.
(Nm 6:6; Lv 21:11). O ser humano não tinha estavam bem firmados na Terra.20 Na cos- 13
 . Laird Harris; Gleanson L. Archer, Jr.; Bruce K.
R
uma alma, mas era uma alma.”18 movisão bíblica, não é preciso entrar num Waltke, Dicionário Internacional de Teologia do
Antigo Testamento (Vida Nova: 1998), p. 1318.
estado de transe para alcançar “o mundo
Espiritualidade concreta Jacques B. Doukhan, Op. Cit., p. 202.
14
superior”. Conforme as Escrituras, é pos-
15
Christian Overman, Assumptions that Affect Our
Para a mente greco-romana, espiritua- sível, e necessário, ser santo e desenvolver
Lives (Bellevue: Ablaze, 2006).
lidade era algo místico. Ser espiritual signi- a espiritualidade no dia a dia, nas situações 16
Marvin R. Wilson, Our Father Abraham (Grand
ficava desprezar totalmente a matéria e se comuns da vida e no trato diário com as Rapids: Eerdmans, 1989), p. 156.
conectar ao “outro mundo”. Esse despre- pessoas (Lv 20:7; 1Pe 1:16). 17
 . Laird Harris; Gleanson L. Archer, Jr.; Bruce K.
R
zo dos elementos materiais variava entre Waltke, Op. Cit., p. 1065, 1066, 1155.

dois extremos. Alguns, por exemplo, re- Mudança de perspectiva 18


 láudio Antônio Hirle Lima, “Valores da educação
C
hebraica na educação adventista”, Kerygma, Eng.
nunciavam completamente os prazeres fí- Ao estudar a Bíblia, precisamos reco- Coelho, v. 7, n. 1, 2011, p. 25.
sicos, tais como a alimentação e o sexo, a nhecer que os autores inspirados não pen- 19
Joel Antônio Ferreira, “A corporeidade em 1
ponto de mutilar seus órgãos genitais. Ou- savam como nós pensamos. Seu padrão Coríntios: o embate entre as culturas semítica
e helênica”, revista Interações – Cultura e
tros se entregavam a todo tipo de sensua- mental, sua cosmovisão não tinha as mes-
Comunidade (PUC – Minas Gerais), v. 3, n. 3, 2008,
lidade e orgia. Ambos os comportamentos mas características da nossa maneira de p. 46.
tinham como base a ideia de que o corpo ver e entender o mundo, grandemente 20
 arvin R. Wilson, “Hebrew thought in the life of
M
é mau, e que, no fim das contas, o que im- influenciada pelo pensamento grego. Por the church”, em Morris Inch; Ronald Youngblood
(orgs.), The Living and Active Word of God
porta mesmo é a “alma”. isso, se queremos que nossa interpretação (Winona Lake: Eisenbrauns, 1983), p. 129.

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JAN-FEV • 2016 | 27
ÉTICA Roy E. Gane
Professor de Hebraico e Línguas
do Antigo Oriente Médio,

Gentileza do autor
no Seminário Teológico da
Universidade Andrews,
Estados Unidos

Os cristãos e a
homossexualidade
Princípios do Antigo Testamento para orientar
a conduta da igreja quanto aos homossexuais

E
sta primeira das três partes que ideal da criação para o casamento e a se- o casamento entre parentes chegados
compõem este artigo busca identifi- xualidade. Primeira, o macho tende a ser (Gn 4:26; cf. v. 17), mas proibindo-o poste-
car princípios no Antigo Testamento dominante (v. 16). Segunda, o casamento riormente, conforme a raça se degenerava
para orientar o relacionamento entre a co- já não é eterno, porque esposo e esposa (Lv 18; 20), e reprovando todas as formas
munidade cristã e as pessoas engajadas em morrem (v. 19, 22-24). Terceira, um homem de atividade sexual fora do casamento
algumas formas de atividade sexual fora do pode se tornar insatisfeito com a esposa (Lv 18; 20). Assim, Ele misericordiosamen-
casamento heterossexual. Meu foco pri- e se divorciar dela (Dt 24:1).3 Quarta, para te acomodou de alguma forma as fraque-
mário será sobre a atividade homoerótica contrair matrimônio, seres humanos pe- zas humanas, mas não mudou o princípio
consensual, conforme praticada por pes- caminosos seguem seus desejos, que nem da atividade sexual restrita ao casamento,
soas identificadas com o movimento lés- sempre estão de acordo com a vontade de definido como relacionamento de alian-
bico, gay, bissexual e transgênero (LGBT).1 Deus (Gn 4:19 – bigamia; 6:1-3). Quinta, as ça entre um homem e uma mulher. Esse
pessoas atendem seus próprios desejos, ideal sobreviveu à queda e consequente
O impacto da queda no ideal para se envolver em vários tipos de ati- depreciação da imagem de Deus nos se-
da criação vidade sexual fora do casamento.4 Sexta, res humanos.
Gênesis 2 descreve o ideal da criação devido a vários fatores, algumas pessoas O fato de que o Senhor limita a legítima
para as relações sexuais humanas: um ho- são inférteis (Gn 11:30; 25:21), ou incapaci- prática sexual ao casamento exclui a possi-
mem e uma mulher sendo unidos como tadas para o desempenho sexual (Is 56:3 bilidade de que Sua comunidade de crentes
“uma só carne” em um relacionamento – eunucos). plenamente e regularmente estabelecida
monogâmico, imitando a sagrada união Deus respondeu à condição do ho- possa incluir aqueles que transgridem Sua
da Trindade. Por meio do casamento, dois mem caído, permitindo e até mesmo vontade, ao engajar-se em atividade sexual
seres humanos feitos à imagem de Deus abençoando o novo casamento depois da fora do casamento como Ele define (Lv 18; 20).
como opostos sexualmente complemen- morte do cônjuge (Rt 1:4, 5; 4:10-17), ad- Desde a queda, esse permanente princí-
tares devem continuar a criação, por meio mitindo por meio de regulamentação o pio deve ser aplicado à condição huma-
da procriação.2 divórcio sob certas condições (Dt 24:2-4), na que tem se tornado um tanto confusa.
O Antigo Testamento mostra como a tolerando e desencorajando a poligamia Por um lado, as distinções entre os gêne-
queda (Gn 3) afetou de muitas maneiras o (Êx 21:10, 11; Lv 18:18; Dt 21:15-17),5 permitindo ros nem sempre são tão claras na Bíblia,

28 | JAN-FEV • 2016
como eram antes da queda. As Escrituras que tinham pouco ou nenhum conheci- do amor altruísta (Mt 22:37-40; Lc 10:27-37;
definem identidade sexual, seja macho ou mento dele, para um relacionamento com cf. Lv 19:18, 34; Dt 6:5). Continua na próxi-
fêmea, somente em termos de órgãos re- sua comunidade de fé, a fim de cumprir par- ma edição.
produtores, mas algumas pessoas podem cialmente seu propósito de fazer dos des-
Referências:
ter características de ambos os sexos. cendentes de Abraão um canal de bênçãos
1
 ma forma anterior deste estudo foi apresentada
U
para todas as pessoas (Gn 12:3; 22:18).
em 18 de março de 2014, sob o título “À imagem
Crescimento em graça Basicamente, a mesma abordagem di- de Deus: Escritura, Sexualidade e Sociedade”, em
Outra complicação surge porque todos vina se aplica ao Israel espiritual de hoje um encontro organizado pela Associação Geral
dos Adventistas, na Cidade do Cabo, África do Sul.
os tipos de pessoas vão a Deus por meio (Gl 3:26-29), com a ressalva de que somos Para mais discussões sobre esse assunto, ver Roy
de Cristo para que sejam salvas (Mt 9:10; uma comunidade de crentes, em vez de E. Gane, Nicholas P. Miller e H. Peter Swanson, eds.,
Homosexuality, Marriage and the Church: Biblical,
Jo 12:32; Lc 14:21-23) e sua transformação uma nação teocrática pertencente a um
Counseling and Religious Liberty Issues (Berrien
envolve uma linha de aprendizado, en- certo grupo étnico. Em harmonia com o Spring, MI: Andrews University Press, 2012); que
quanto elas progressivamente compreen- exemplo de Cristo (Mt 9:10, 11; Lc 15:1, 2), inclui Richard M. Davidson, “Homosexuality in
the Old Testament”; Robert A. J. Gagnon, “The
dem e seguem os princípios divinos. Nem devemos permitir que pessoas faltosas Scriptural Case for a Male-Female Prerequisite for
todas as questões entre elas e Deus so- (assim como nós) cheguem a Deus e se- Sexual Relations: A Critique of the Arguments of
Two Adventist Scholars”, p. 53-161; e Roy E. Gane,
mem instantaneamente, no momento jam fortalecidas em seu relacionamento “Some Attempted Alternatives to Timeless Biblical
em que essas pessoas iniciam a caminha- com Ele, garantindo-lhes acesso à frater- Condemnation of Homosexual Acts”, p. 163-174.
da para Ele; contudo, o Senhor nutre sua nidade e à adoração conosco, sem com- 2
James V. Brownson argumenta que “a linguagem
de ‘uma só carne’ em Gênesis 2:24 não se refere
resposta positiva. Por exemplo, Ele or- prometimento de princípios pelos quais
à complementariedade física do gênero, mas ao
denou que os israelitas amassem os es- somos responsáveis perante o Senhor, de elo comum de afinidade compartilhada. Portanto,
trangeiros entre eles e os tratassem bem modo que a influência transcorra somente é simplesmente enganoso dizer que os atos
eróticos do mesmo sexo descritos em Romanos
(Êx 22:21; 23:9; Lv 19:10, 33, 34). Esses foras- em uma direção positiva. Quando os fari- 1:26, 27 sejam “contrários à natureza” porque
teiros não eram cidadãos com plenos direi- seus questionaram o evangelismo inclusi- eles transgridem a complementariedade física
dos gêneros descrita na união ‘uma só carne’ de
tos como os nativos israelitas, nem eram vo de Jesus, Ele respondeu: “Os sãos não Gênesis 2:24” (Bible, Gender, Sexuality: Reforming
responsáveis pela observância de todas as precisam de médico, e sim os doentes. Ide, the Church’s Debate on Same-Sex Relationships
instruções religiosas aplicadas aos israelitas, porém, e aprendei o que significa: Miseri- [Grand Rapids, MI, Eerdmans, 2013], p. 35). É
verdade que Gênesis 2:24 enfatiza a unidade,
como os requerimentos para observância córdia quero e não holocaustos; pois não mas outras partes do relato da criação revelam
das festas anuais, devolução dos dízimos vim chamar justos e sim pecadores [ao ar- complementariedade. Por exemplo, em Gênesis
1:27, 28, Deus criou homem e mulher e abençoou
e doação de ofertas dos primeiros frutos rependimento]” (Mt 9:12, 13). sua procriação. Em 2:18, Deus disse a Adão: “Não
(Êx 23:16, 19; Lv 23:4-44; 27:30, 32; Nm 18). é bom que o homem esteja só. Farei para ele

Entretanto, eles eram responsáveis pela Nossa resposta uma auxiliadora que lhe seja idônea”. As palavras
“auxiliadora que lhe seja idônea” derivam do
obediência ao Deus do concerto (Êx 12:19; Deus não torna uma pessoa responsá- hebraico kenegdo (cf. v. 20), em que neged se
Lv 16:29), submissão às Suas instruções vel pela luz que ela não tenha recebido ou refere ao “que é oposto, que corresponde” (Ludwig
Koehler e Walter Baumgarten, The Hebrew and
básicas sobre comportamento sexual não tenha compreendido (Tg 4:17). Assim, Aramaic Lexicon of the Old Testament , ed. M. E. J.
(Lv 17:10, 12, 13; 18:26; 20:2; 24:16, 22), estaríamos cometendo um crime sério, se Richardson (Leiden: Brill, 2001, 1:666). Isso indica
diferença, bem como semelhança (cf. Brownson,
e a purificação da impureza ritual físi- fechássemos nosso coração e as portas da Op. Cit., 30, esp. n. 27).
ca, em alguns casos (Lv 17:15; Nm 19:10). igreja às pessoas em busca de Deus com 3
 o Novo Testamento, Jesus também se referiu à
N
Era-lhes permitido o envolvimento nos ri- problemas, incluindo sexuais, que são mo- possibilidade de que uma esposa se divorciasse do
marido (Mc 10:12).
tos de culto com os israelitas, bem como ralmente imaturas, as quais Ele está atrain-
era providenciado para que eles seguissem do para si (Mt 19:14). Se elas são habilitadas,
4
Isso inclui sexo pré-conjugal (Êx 22:16), estupro
(Gn 34:2), adultério, incesto, relação homossexual
os regulamentos aplicáveis (Êx 12:48, 49; ou não, para se unir oficialmente e perma- e bestialidade (Lv 18, 20). O Antigo Testamento
Lv 17:8; 22:18; Nm 9:14; 15:14-16). Deles tam- necer na comunidade de fé, isso depende de não menciona masturbação. O pecado de Onã foi
o “coito interrompido” adotado para impedir o
bém era requerida expiação pela transgres- aceitarem os princípios “inegociáveis” pelos propósito do levirato no casamento (Gn 38:9).
são dos mandamentos divinos, isso feito quais Deus torna responsável Sua comuni- 5
 obre Levítico 18:18, que alguns intérpretes
S
por meio de ofertas de purificação (“ofer- dade. De acordo com Jesus, o princípio mais consideram uma compreensiva proibição de toda
poligamia, ver Roy E. Gane, Leviticus, Numbers,
tas pelo pecado”; Nm 15: 26, 29). Desse inegociável descrito no Antigo Testamen-
NIV Application Commentary (Grand Rapids, MI:
modo, Deus buscava atrair estrangeiros to é o evidente, eterno e redentor princípio Zondervan, 2004), p. 319, 320.

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JAN-FEV • 2016 | 29
ALÉM DAS FRONTEIRAS

Portas fechadas
O desafio de levar os membros à missão
de principiante. Preconceito. Descobri que
eram muçulmanos curiosos em saber mais
sobre nossa fé e identidade. Aos poucos fui
perdendo o medo e gostando da ideia de re-
ceber essas visitas. Com o tempo, comecei
a interagir e dialogar com cada uma delas.
Certa ocasião, percebi que três jovens
eu afivelava o cinto de segu- muçulmanas trajando burca espreitavam
rança e o avião se preparava pela porta a nave da igreja. Rapidamente
para decolar, peguei-me ques- me aproximei, abri a porta e cordialmen-
tionando de Deus sobre o lu- te as convidei para entrar. Ao terminar o
gar para onde estava levando culto, pedi a uma irmã que fosse conver-
minha família. sar com elas. O diálogo entre um homem
Foi ali que comecei a re- e uma mulher não é visto com bons olhos
Gentilaza do autor

pensar meu ministério. Tinha por aqui. “Falar com elas? Pastor, elas são
certeza de que o Senhor ha- muçulmanas!” O questionamento daquela
via dirigido todas as nossas jovem senhora (isso mesmo, jovem), reve-

E
m março, nossa família completará transferências. Estava certo de que não lou qual seria meu maior desafio no Orien-
um ano servindo a Deus no campo seria naquele momento, em que mais pre- te Médio: os cristãos.
missionário. Trocamos as dunas das cisaríamos de Deus, que Ele nos abandona- De forma geral, os cristãos veem os mu-
praias do Nordeste pelas areias do Deser- ria. Assim, mais uma vez, entreguei minha çulmanos como um grupo sem salvação. Por
to da Árábia, na Jordânia. Embora esteja há família nas mãos dele, e deixamos o mun- mais de uma vez vi atitudes semelhantes
pouco tempo neste país, gostaria de com- do ocidental. ocorrendo no contexto de nossa comuni-
partilhar algumas impressões que estão Desde o princípio, eu soube que deve- dade. Naquele dia voltei para casa chatea-
sendo valiosas para meu ministério e que, ria pastorear duas congregações: a comu- do. Além dos desafios relacionados com a
talvez, sirvam para sua reflexão. Confesso nidade árabe adventista e a comunidade cultura, língua, costumes e comida, depa-
que, nesse período, aprendi tanto quanto internacional, formada por membros de rei-me com membros que têm dificuldade
ao longo dos nove anos em que trabalhei diferentes partes do mundo que vivem na em entender qual é a real missão da igreja.
como pastor nos Estados de São Paulo, capital, Amã. Imaginava que enfrentaria Quando deixei o Brasil, sabia que a ta-
Goiás e Alagoas. muitos desafios, principalmente com os refa seria difícil, mas não previa que teria
O primeiro choque foi ainda dentro do muçulmanos. A Jordânia é um país em que tantas dificuldades relacionadas à visão
avião, em Paris. Fazia a conexão para Bei- 97% da população professa o islamismo, e missionária dos membros da igreja. Há
rute quando, ao entrar na aeronave, per- o proselitismo é proibido por lei. A exceção quase um ano estou tentando ensinar
cebi que mulheres de burca e homens ocorre apenas quando um cristão deseja se aos de dentro que nossa única razão de
vestidos de túnica eram a maioria dos pas- tornar seguidor de Maomé. ser igreja é alcançar os de fora. Percebi que
sageiros. De São Paulo a Paris, o visual ain- Entretanto, para minha surpresa, a esse problema é mais comum do que ima-
da era muito familiar; mas, entrar em um cada sábado eu percebia alguém diferente ginava. Por favor, ore para que essa barrei-
avião onde a maioria aparentava a ima- nos horários de culto. Os visitantes entra- ra seja vencida e o evangelho eterno seja
gem de “terrorista” divulgada no Ociden- vam discretamente e se assentavam para pregado com poder aqui na Jordânia.
te, foi algo totalmente diferente. Eu ainda acompanhar a programação. No princípio
não havia vivenciado, muito menos tra- fiquei preocupado. Quem seriam eles? Es- Paulo Rabello
balhado isso em minha mente. Enquanto piões, terroristas, a polícia secreta? Coisa Missionário na Jordânia

30 | JAN-FEV • 2016
A vida é um presente de Deus.
Comece cada dia com os devocionais da CPB
e permita que o Criador inspire sua jornada.
Alimente a esperança em seu coração.

Meditações 2016
Pricila Cajá / Imagem: Fotolia

Apenas
Encadernada

Meditações diárias Meditação da mulher Inspiração juvenil Devocional das crianças


Um olhar para o céu totalmente amável De olho no prêmio crescendo com Jesus
Marcos De Benedicto Várias autoras Compilação
Cecília E. de
Nascimento
Histórias Selma Carvalho Fonseca, Thiago Lobo

Brochura e encadernada

Ligue
0800-9790606 Acesse
Horários de atendimento: Segunda a quinta, das 8h às www.cpb.com.br
/casapublicadora Ou dirija-se a uma CPB livraria
20h / Sexta, das 8h às 15h45 / Domingo, das 8h30 às 14h

Se preferir, envie um SMS para o número 28908 com a mensagem CPBLIGA, e entraremos em contato com você.
DIA A DIA S. Joseph Kidder
Professor no Seminário
Teológico da Universidade

Gentileza do autor
Andrews, Estados Unidos

Momentos de decisão
Torne sua igreja mais receptiva aos convidados

Q
uando entrei no templo que estava impressão dela. Essa opinião acaba sendo aceitação aos convidados? Eles demons-
visitando, um homem, carregando generalizada a toda sua igreja. O resultado tram simpatia autêntica?
um maço de papel, cumprimentou- final do contato é um sentimento positivo 5. Experimentando ministérios e ser-
me. Enquanto reclamava com outra pessoa ou negativo a respeito de sua denominação. viços. Os fraldários estão limpos e abertos?
sobre alguns problemas da igreja que não Os banheiros estão limpos e livres de odo-
deveriam ser mencionados em minha pre- Pense como um convidado res desagradáveis? As classes de escola bí-
sença, apertou minha mão. Tentando me Para entender a experiência de um con- blica são decoradas com bom gosto?
fazer sentir bem-vindo, disse-me: “Prazer vidado, você precisa deixar de lado sua 6. Conhecendo os recepcionistas.
em conhecê-lo. Você vai gostar de nossa compreensão sobre sua congregação e Os recepcionistas são sorridentes e ex-
igreja. É um lugar muito agradável.” pensar como ele. Dos muitos momentos pressam atitude amigável? A atmosfera
Assim que me assentei, uma mulher de decisão, vamos olhar para oito que ge- da nave da igreja é vibrante e feliz? Há es-
se levantou para dar os anúncios e disse: ralmente são enfrentados pelos visitan- paço para se sentar de modo confortável?
“Hoje não teremos nosso junta-panelas, tes. Para cada um deles, pense sobre o que Os convidados são recebidos gentilmente
conforme foi anunciado no boletim. Des- ocorre atualmente e o que deveria ocorrer e tratados com respeito?
culpe-nos, nós tivemos que cancelá-lo.” quando alguém vai à sua igreja. 7. Participando do culto de adoração.
Então, um homem a interrompeu, dizendo: 1. Dirigindo-se ao edifício da igre- A liturgia do culto é simples de seguir? Os
“Não, nós o transferimos para o parque.” ja. O paisagismo em torno de sua igreja é hinos são fáceis para os convidados canta-
De repente, outra pessoa gritou: “Isso não bem conservado? O estacionamento é pa- rem? As palavras dos hinos são compreen-
foi uma boa ideia. Vejam o tempo, vai cho- vimentado e livre de entulhos? As paredes síveis? Os visitantes se sentem à vontade?
ver!” Finalmente, o pastor foi à frente e dei- e janelas exteriores do prédio são atraen- Os convidados encontram uma atmosfe-
xou claro que o almoço comunitário havia tes? Existem vagas de estacionamento es- ra amigável ao sair da nave da igreja? Eles
sido transferido para a semana seguinte. pecificamente reservadas para visitantes? são recebidos de maneira positiva pelas
Essa discussão durou alguns minutos, mas 2. Chegando à entrada. Existem pes- pessoas ao seu redor? Eles são chamados
parecia uma eternidade. soas amigáveis saudando aos convidados para um lanche a fim de conversar e co-
Eu fiquei tão envergonhado que desejei antes de entrarem no edifício? A entrada nhecer outras pessoas?
me esconder debaixo do banco. Orei para é claramente identificada? A entrada pos- 8. Recebendo um contato. Os convi-
que não houvesse visitantes. Como ex- sui um aspecto convidativo que diz: “Por dados recebem um contato pessoal den-
periente membro de igreja, disse comigo favor, entre”? tro de 48 horas após a primeira visita à
mesmo: “Nunca mais voltarei aqui!” Ima- 3. Entrando no prédio. Os sons que os sua igreja? Eles são convidados a voltar?
gine como um convidado teria se sentido? convidados ouvem ao entrar no prédio da Eles são surpreendidos, de alguma forma,
Quando uma pessoa fala com um mem- igreja são edificantes? O odor é agradável? com algum livro ou uma cesta de alimen-
bro de sua congregação, recebe um folheto A decoração é atraente e acolhedora? As tos saudáveis? O endereço dos convidados
evangelístico pelo correio ou deixa o carro placas de direcionamento são facilmente é inserido em uma lista de interessados
no estacionamento da igreja, ela pode enca- visíveis? Há pessoas disponíveis para res- para contato futuro? Os visitantes rece-
rar essas ocasiões como momentos de de- ponder perguntas e dar assistência? bem um boletim descrevendo os minis-
cisão. Um momento de decisão é qualquer 4. Encontrando pessoas amigáveis. térios que podem despertar o interesse
oportunidade em que alguém entra em Os membros da igreja são extrovertidos deles? Os membros da igreja os convidam
contato com sua comunidade e forma uma e acessíveis? Eles expressam atitude de pessoalmente para eventos especiais?

32 | JAN-FEV • 2016
O que os convidados veem, experimen-
tam e sentem a partir desses momentos
de decisão em sua igreja? O que sua con-
gregação pode começar a fazer para tor-
nar essas experiências positivas para eles?
Conforme você avança nessas áreas, pro-
ponha-se a fazer tudo com excelência e a
passar muitas horas em oração, a fim de
que as pessoas que vierem à sua igreja
experimentem a presença de Deus.
Lightstock

JAN-FEV • 2016 | 33
RECURSOS Márcio Nastrini
Editor associado da
Revista Ministério

William de Moraes
O templo do Senhor
Pesquisa abrangente destaca evidências
do santuário celestial no Antigo Testamento

U
m dos temas mais controvertidos sumerianos, acadia- de Habacuque 2:20:
da teologia adventista está rela- nos, hititas e ugarí- “Mas YHWH está no
cionado com a crença no santuá- ticos, mostrando as Seu santo templo, [...]”.
rio celestial e sua vinculação à dinâmica da similaridades e dife- Souza ainda explana
salvação. Em O Santuário Celestial no An- renças entre a concep- acerca da descrição do
tigo Testamento (Academia Cristã; Ceplib, ção do povo de Israel e “querubim cobridor” do
2014, 520 p.), Elias Brasil de Souza, doutor seus vizinhos quanto à santuário celestial e sua
em Exegese e Teologia do Antigo Testa- existência e função de correspondência com o
mento e diretor do Instituto de Pesquisa um templo/santuário equivalente terrestre
Bíblica da Associação Geral da Igreja Ad- celestial. As evidências (Ez 28). De acordo com
ventista, apresenta um estudo de passa- apontam que eles en- o pesquisador, o templo
gens do Antigo Testamento com o objetivo tendiam o santuário do Céu também é des-
de destacar (1) a função do santuário ce- celestial como local de habitação e ativi- crito como um lugar de adoração, expia-
lestial; (2) a relação do santuário celestial dade das divindades. ção e julgamento. No capítulo 5, o autor
com seu correspondente terrestre e; (3) o Ao tratar do tema do santuário celes- analisa passagens relacionadas com essas
conceito do santuário na Bíblia Hebraica. tial na Torá, no capítulo 3, o autor exami- funções, principalmente, no livro de Daniel.
O livro apresenta uma análise minuciosa na alguns acontecimentos narrados nos O último capítulo agrupa insights dos
de passagens-chave do Antigo Testamen- livros de Gênesis, Êxodo e Deuteronômio. capítulos anteriores e apresenta uma sín-
to, ampliando a pesquisa anteriormente Ele inicia sua exposição com o episódio da tese teológica do tema. Souza conclui que
publicada por Richard M. Davidson, “The Torre de Babel, provavelmente um templo a Bíblia Hebraica concebe o santuário ce-
Heavenly Sanctuary in the Old Testa- ou zigurate, segundo sua compreensão. lestial como o lugar das atividades divinas,
ment”, a qual mostrou a necessidade de A seguir, Souza analisa o sonho de Jacó, existente em correspondência estrutural
uma futura investigação sobre o tema. De uma escada posta na Terra, cujo topo to- e vertical com seu equivalente terrestre.
fato, poucos estudos acadêmicos têm sido cava nos céus (Gn 28:12). A escada e os atos Além disso, o santuário parece desempe-
dedicados ao assunto do templo/santuá- cultuais realizados pelo patriarca indica- nhar um papel proeminente no contex-
rio celestial na Bíblia Hebraica. vam uma interação dinâmica entre a es- to do grande conflito, está intimamente
Dividida em seis capítulos, a obra foi fera terrestre e seu equivalente celestial. vinculado ao tema da aliança e, evidente-
estruturada de tal maneira que sua argu- O estudo da palavra tabnît (modelo, figu- mente, é um lugar no Céu. Tal implicação
mentação percorre desde o pano de fun- ra, imagem [Êx 25:9, 40]) é apresentado à se opõe à ideia de que essa edificação deve
do da Bíblia Hebraica, no Antigo Oriente luz de seu contexto narrativo. Ao que tudo ser interpretada de maneira metafórica ou
Próximo, até o último dos livros da Tanakh. indica, a expressão revela que o templo ce- “como uma realidade de extensão igual ao
No primeiro capítulo, o autor descreve a lestial funcionou como arquétipo para o Céu” (p. 435).
problemática da pesquisa, metodologia santuário terrestre. Sem dúvida, estudiosos de teologia,
e uma revisão da literatura sobre o tema. A análise dos livros proféticos se con- pastores e o público em geral serão gran-
Por sua vez, o segundo capítulo apresen- centra no capítulo 4. O autor destaca demente beneficiados pela sólida pesqui-
ta o conceito de santuário/templo no An- textos como a visão do trono e do tem- sa apresentada em O Santuário Celestial
tigo Oriente Próximo em textos egípcios, plo celestial de Isaías 6:1-8 e a referência no Antigo Testamento.

34 | JAN-FEV • 2016
PONTO FINAL

A glória da cruz

Daniel Oliveira
O
nome desta seção dá a entender que tudo o que Alguns pregadores gostam de fazer incursões na fi-
é publicado aqui deve ser conclusivo. Portanto, losofia, no reino encantado da teologia esposada por
é com profundo senso de responsabilidade que eruditos famosos, para exibir conhecimento. Querem
vou me esforçar para escrever algo que tenha significado. dar a impressão de que dominam vários campos do
Minhas reflexões têm como ponto de partida um rápi- saber, apresentando definições complexas, conceitos


do diálogo que mantive, em 1983, com uma jovem univer- de difícil decodificação. Dão pouco lugar ao “assim diz
sitária, na igreja anglicana de St. Matthews, em Oxford. o Senhor” e muito espaço ao “assim dizem os teólo-
– O senhor estuda nesta universidade? – ela me gos”. Essa postura empavonada me traz à lembrança
perguntou. uma frase que ouvi do saudoso pastor Enoch de Oli-
– Estudo no Newbold College e estou aqui, com al- veira, príncipe dos pregadores adventistas, no passa-
guns colegas, a convite de Børge Schantz, um de meus do. Durante um concílio de pastores, ele afirmou que
professores. alguns pregadores oferecem “pasto demasiadamen-
– E onde você estuda? – perguntei à jovem, que es- A cruz de Cristo te alto para as ovelhas”. Nesse caso, só as girafas po-
tava sentada ao meu lado. precisa ser o dem se alimentar...
– Vim do norte da Inglaterra para ouvir Michael centro de toda Jamais defendi a superficialidade, a mesmice ou água
Green. Ele prega para alcançar o coração, e não ape- pregação. Os com açúcar. Mas tenho plena convicção de que palavras
nas o intelecto. temas podem simples, articuladas depois de profunda reflexão, po-
Quando o pregador abriu a Bíblia e leu o verso que variar, mas a dem expressar pensamentos elevados. A cruz de Cris-
daria a base de seu sermão, entendi o que aquela moça cruz deve ser to é o parâmetro que define o perímetro da pregação
havia dito. Green falou sobre a inabalável convicção do o elemento de grande alcance. A cruz é a demonstração mais elo-
apóstolo Paulo revelada em Gálatas 6:14: “Mas longe es- balizador quente de que Jesus preferiu ir ao fundo do poço a re-
teja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor de cada tornar para o Céu com as mãos vazias.
Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mensagem” Max Lucado escreveu: “Cristo viveu a vida que não
mim, e eu, para o mundo.” poderíamos viver e recebeu a punição que não podería-
Na viagem de volta ao colégio, quase não me lem- mos suportar, para oferecer uma esperança à qual não
brei do pregador, porque a visão do sacrifício de Je- poderíamos resistir” (Seu Nome é Jesus, p. 116).
sus ofuscou a eloquência de Edward Michael Green. Ellen G. White resume o texto desta página: “A fim
Quando coloquei a cabeça no travesseiro, continuei de ser devidamente compreendida e apreciada, toda
acordado por vários minutos, agradecido a Deus pelo verdade da Palavra de Deus, do Gênesis ao Apocalipse,
precioso dom da salvação. precisa ser estudada à luz que vem da cruz do Calvário”
A cruz de Cristo precisa ser o centro de toda prega- (Obreiros Evangélicos, p. 315).
ção. Os temas podem variar, mas a cruz deve ser o ele- O Espírito Santo é fiel parceiro dos que fazem da
mento balizador de cada mensagem. John Stott afirmou mensagem da cruz a plataforma de suas pregações.
que a morte de Cristo é “a vitória ganha”, e a ressurrei-
ção, a vitória “endossada e proclamada”. Rubens S. Lessa
Em face disso, toda demonstração de sabedoria Pastor, foi editor-chefe da Casa
Publicadora Brasileira por 36 anos
humana conspira contra a glória que irradia da cruz.

JAN-FEV • 2016 | 35
Lançamento Especial

Pricila Cajá / Imagem: Fotolia


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e Atualizada foi complementada por uma rica coleção de recursos. Entre eles, encontram-se mais de 12 mil notas
de estudos elaboradas por teólogos adventistas, mapas, sistema de referências, concordância e 26 tabelas com
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