Você está na página 1de 36

MAR-ABR DE 2016

Uma revista para pastores e líderes de igreja


Exemplar avulso: R$ 13,80

UMA SOMBRA CHAMADA

DEPRESSÃO
EDITORIAL

O demônio do meio-dia

William de Moraes
A
pesar de soar agressivo, o título deste editorial conseguirem ajudar a pessoa querida. Além disso, alguns
foi extraído do Salmo 91:5, 6, na versão Douay- temem que essa angústia familiar transcenda os limites
Rheims. O texto diz: “[…] tu não terás medo do do lar e atinja o contexto de sua congregação ou distrito
terror da noite, da seta que voa de dia, da peste que pastoral. Infelizmente, apesar de saberem que a depres-
anda no escuro, da invasão ou do demônio do meio-dia”. são é uma doença, muitos líderes receiam que, de alguma
O escritor norte-americano Andrew Solomon se inspirou forma, os membros da igreja olhem de “modo diferente”
nesses versículos para dar nome a uma de suas principais para eles ou para o parente afetado pela enfermidade.
obras: O Demônio do Meio-Dia: Uma anatomia da Podemos ser afetados pela depressão. Sim, a


depressão (2001). Em certo trecho do livro, o autor doença pode nos alcançar. Alguns pastores relutam
descreve a doença como “o sofrimento emocional que contra essa possibilidade, mas ela é real e progressiva.
se impõe sobre nós contra nossa vontade e depois se Como algo inerente à posição, o líder cristão exerce um
livra de suas circunstâncias exteriores” (p. 16). papel fundamental na condução da igreja. Entretanto,
De fato, essa realidade tem se tornado cada vez mais o que ocorre quando ele é atingido pela depressão? Sua
comum em nosso cotidiano. A Pesquisa Nacional de visão de mundo se torna distorcida e o próprio sentido
Saúde, realizada em 2014, indica essa tendência. De da vida se perde num emaranhado de emoções confu-
acordo com o estudo, na ocasião, a doença atingia cer- Ainda que o sas. Assim, a forma pela qual o pastor se relaciona con-
ca de 11 milhões de pessoas com 18 anos ou mais. Isso “demônio do sigo mesmo, com a família e com os membros da igreja
representava mais de 7% da população brasileira. Diante meio-dia” se altera profundamente. Lamentavelmente, muitos
dessa constatação, é natural que, em algum momento, nos assedie, bons soldados de Cristo foram abatidos de tal maneira
como pastores e líderes, nós nos deparemos com algu- “o Sol da pela doença que jamais conseguiram se recompor ple-
ma das seguintes situações: justiça se namente em seu ministério.
Membros da igreja afetados pela depressão. Se, levantará Embora inevitáveis, essas situações podem ser su-
num exercício simples, projetarmos o percentual na- trazendo cura peradas. Ainda que o “demônio do meio-dia” nos asse-
cional de pessoas acometidas pela doença ao número em suas asas” die, “o Sol da justiça se levantará trazendo cura em suas
de adventistas brasileiros, teremos então a cifra signi- à meia-noite. asas” (Ml 4:2, NVI) à meia-noite. O poder divino dispo-
ficativa de quase 105 mil pessoas. Qual é nossa reação nível para superar a depressão, a visão bíblica integral
diante de um membro da igreja quando ele relata sua do ser humano e o auxílio de profissionais e de recur-
angústia provocada pela depressão? Certamente, em sos adequados para combater a doença são elementos
ocasiões como essa, a intervenção do pastor pode ser fundamentais no processo de restauração.
bálsamo ou fel na vida de alguém que sofre com esse Quanto a nós, pastores e líderes cristãos, precisamos
que é considerado o “mal do século”. conhecer acerca do tema, saber aconselhar diante dessa
Familiares afetados pela depressão. Como líderes circunstância e agir com eficácia dentro de nosso âmbito
cristãos, sofremos com as angústias de nossos irmãos de atuação. Assim, testemunharemos na vida daqueles
na fé. Contudo, é natural que a dor daqueles que estão que sofrem com a depressão, o cumprimento da pro-
mais próximos de nós seja sentida com maior intensida- messa: “na sua angústia Eu estarei com ele, livrá-lo-ei
de. A depressão tem rondado o lar de muitos servos de e o glorificarei. Saciá-lo-ei com longevidade e lhe mos-
Deus e atingido seus familiares próximos. O que fazer trarei a minha salvação” (Sl 91: 15, 16).
quando isso acontece? Para vários ministros, essa situa-
ção tem sido um fardo difícil de ser suportado. Um senso Wellington Barbosa
de incapacidade toma conta e muitos se culpam por não Editor

2 | MAR-ABR • 2016
SUMÁRIO

2 Editorial
4 Palavra do leitor

10 Depressão ou tristeza?
 onald W. Pies e Cynthia M. A. Geppert
R
Como o pastor pode identificar a diferença entre
5 Panorama
6 Entrelinhas
o pesar comum e a depressão grave
7 Entrevista

14 Saúde para a mente 32 Além das fronteiras


J orge Iuorno e Alida Daniele de Iuorno 33 Dia a dia
Quatro atitudes poderosas para promover saúde mental
34 Recursos

18 Os cristãos e a homossexualidade 35 Ponto final


(Parte 2)
 oy E. Gane
R
Princípios do Antigo Testamento para orientar
a conduta da igreja em relação aos homossexuais

CASA

22 do despertamento ao engajamento
PUBLICADORA
Missão adventista: Uma publicação da Igreja Adventista do
Sétimo Dia
BRASILEIRA
Editora da Igreja Adventista do Sétimo Dia
Ano 88 – Número 523 – Mar/Abr 2016 Rodovia SP 127 – km 106 – Caixa Postal 34
Periódico Bimestral – ISSN 2236-7071 18270-970 – Tatuí, SP

(Final) Editor
Wellington Barbosa
Diretor-Geral
José Carlos de Lima
Wagner Kuhn e Marcelo Dias Editor Associado Diretor Financeiro
Márcio Nastrini Uilson Leandro Garcia
Dez tendências que podem tornar a Igreja Adventista Assistente de Editoria Redator-Chefe
mais eficaz na tarefa de pregar o evangelho ao mundo Milenna Vieira Marcos De Benedicto
Projeto Gráfico Redator-Chefe Associado
Levi Gruber Vanderlei Dorneles
Designers Chefe de Arte

27 pós-moderna
Levi Gruber e Cleusa Santos Marcelo de Souza

O cristão e a sociedade Capa


©lassedesignen | Fotolia SERVIÇO DE ATENDIMENTO AO CLIENTE

Colaboradores Especiais Ligue Grátis: 0800 979 06 06


Carlos Hein; Lucas Alves; Jerry Page; Derek Segunda a quinta, das 8h às 20h
 ubén Montero
R Morris; Willie Hucks Sexta, das 7h30 às 15h45
Domingo, das 8h30 às 14h
Entenda como a pós-modernidade tem afetado Colaboradores
Site: www.cpb.com.br
Alberto Peña; Aldo Muñoz; Arildo Souza;
E-mail: sac@cpb.com.br
o mundo e como os cristãos devem lidar com ela Cícero Gama; Cláudio Leal; Edison Vasquez;
Edilson Valiante; Eufracio Quispe; Fabian
Marcos; Geraldo M. Tostes; Horácio Cayrus; Assinatura: R$ 67,00
Jair G. Góis; Leonel Lozano; Mitchel Urbano; Exemplar Avulso: R$ 13,80
Montano de Barros
Todos os direitos reservados.

30 A aplicação do sermão
Proibida a reprodução total
Ministério na Internet
ou parcial, por qualquer meio,
www.revistaministerio.com.br
sem prévia autorização escrita
www.facebook.com/revistaministerio
 milson dos Reis
E Redação: ministerio@cpb.com.br
do autor e da Editora.

Aprenda a tornar a mensagem bíblica aplicável Todo artigo ou correspondência para


a revista Ministério deve ser enviado para Tiragem: 6.500 
a seus ouvintes o seguinte endereço: 5880 / 33924
Caixa Postal 34 – 18270-970 – Tatuí, SP

MAR-ABR • 2016 | 3
PALAVRA DO LEITOR

AGRADECIMENTO interessante, com bons artigos, relevan-


Fiquei muito feliz ao receber a Ministério mais uma tes para o tempo em que vivemos. Possui
vez aqui do outro lado do mundo. A revista é sempre estatísticas atualizadas, revela pesquisa e
uma fonte segura de conhecimento, orientação e di- seriedade no conteúdo. Tem artigos com
cas. Quero estender minha gratidão sincera aos edito- ênfases diferentes, como “O pensamento
res e colaboradores que a cada bimestre nos oferecem hebraico”, de Eduardo Rueda, e o polêmi-
esse presente. Çok Teşekkür Ederim! co “Os cristãos e a homossexualidade”, de
Samir Costa Roy Gane, entre outros. Quero aproveitar
Missionário, Ásia. a oportunidade e sugerir que o livro apre-
sentado na seção “Recursos” esteja ligado
ao tema de capa da revista. Por exemplo,
ENTREVISTA à igreja. Nosso índice de apostasia é bai- há alguns dias terminei de ler O caminho
Quero parabenizar a Ministério pela es- xíssimo e os membros estão firmes e en- de volta, de Barry Gane. O autor oferece
colha dos temas da última edição. Acho que volvidos no ciclo de discipulado. ideias e exemplos que ajudam o pastor a
os artigos são muito relevantes, trazem Jackson Roberto de Andrade lidar com a espiritualidade dos jovens da
São Paulo, SP
subsídios para o trabalho do pastor distri- atualidade, dos que estão na igreja e dos
___________________________________________________________________________
tal e possuem qualidade indiscutível. Gos- que estão afastados. Às vezes não sabe-
taria de salientar a entrevista com Jiwan PÚLPITO DA NOVA GERAÇÃO mos o que fazer para ajudá-los em seus
Moon e dizer que sua ênfase em engaja- O artigo do pastor Odailson Fonseca dilemas e desafios. Para isso precisamos
mento jovem na missão foi ao ponto. Pre- sobre pregação às novas gerações é mui- buscar informações relevantes, que podem
cisamos refletir mais em como colocar isso to relevante. Precisamos urgentemente ser apresentadas na Ministério. Aproveito
em prática no dia a dia da igreja. preencher as lacunas de comunicação com para desejar ao novo editor muitas bên-
Marcelo Notaro os jovens. Muitos deles estão se sentindo çãos nessa nova função.
São Luís, MA
desconectados das pregações ou mesmo Heber Toth Armí
___________________________________________________________________________ Fraiburgo, SC
da igreja. Eles continuam sendo terreno
Gostei muito da entrevista com Jiwan fértil para o aprendizado bíblico, mas é ne-
Olá, Heber! Obrigado por sua mensa-
Moon, especialmente do ponto em que ele cessário inovar e sair da zona de conforto
gem e sugestão. Vamos procurar colocá-la
destaca o discipulado como forma de al- para alcançá-los. Isso requer criatividade e
em prática.
cançar a nova geração. Certamente, essa adaptabilidade. Que Deus nos ajude a ser
tem sido uma ferramenta poderosa para relevantes para os jovens!
alcançar as mentes pós-modernas. Tenho Fernando Brasil Expresse sua opinião. Escreva para
Curitiba, PR ministerio@cpb.com.br ou envie sua
visto isso em meu trabalho com jovens na carta para Ministério, Caixa Postal 34,
___________________________________________________________________________
Comunidade Yes, no Unasp-SP. Desde que CEP 18270-970, Tatuí, SP.

começamos o projeto, há dois anos, bati- SUGESTÃO As cartas publicadas não representam
necessariamente o pensamento da revista e
zamos 23 jovens de uma comunidade com Gostei de ler a edição de janeiro/fe- podem ser editadas por questão de clareza
ou espaço.
200 pessoas, das quais 70 não pertencem vereiro da Ministério. A revista está

revistaministerio.com.br
revistaministerio
@MinisterioBRA

4 | MAR-ABR • 2016
PANORAMA

O aumento dos desigrejados


Em primeiro lugar, 71% dos entrevistados disseram que uma
postura recriminatória contribuiu para que eles saíssem da igreja.
Na sequência, 60% indicaram que o excesso de burocracia foi de-
terminante para que abandonassem o contexto eclesiástico ins-
titucional. Em terceiro lugar, foi mencionada a desconexão entre
os ensinos da igreja e as lutas da vida cotidiana.
É importante destacar que, ao mesmo tempo que os desigre-
jados rejeitam a vivência eclesiástica institucional, eles valorizam
a ideia de viver em verdadeira comunhão com outros cristãos, em
um contexto de simplicidade e proximidade. As estatísticas com-
parativas entre Estados Unidos e Brasil ajudam a entender me-
lhor as dimensões desse grupo em crescimento.

• 30,5 milhões de norte-americanos se declaram


cristãos, mas não frequentam nenhuma igreja
• 40% dos desigrejados eram ativos em suas
congregações

Estados • 9% dos desigrejados se vinculariam a alguma


Unidos religião novamente
• 63% não pretendem se vincular novamente à igreja

•4
 milhões de brasileiros se declaram evangélicos,
mas não frequentam nenhuma igreja
•6
 2% dos desigrejados saíram de denominações
neopentecostais
•6
 3% declararam que voltariam a frequentar uma
igreja que não apresentasse os problemas que os
Brasil afastaram da comunhão
• 2 9% não pretendem se vincular a outra igreja
novamente

A
palavra desigrejado está se tornando cada vez mais comum A comparação entre os percentuais dos Estados Unidos e do
no contexto evangélico. O termo designa cristãos que es- Brasil pode apresentar números diferentes; contudo, a realidade
colheram viver sua fé fora da igreja institucional. Os Esta- é igualmente incômoda. A fim de conter esse fenômeno, os líderes
dos Unidos, maior país protestante do mundo, têm acompanhado cristãos precisam ouvir de forma acolhedora a voz dos desigreja-
o aumento gradativo do número de desigrejados. No Brasil, de dos, voltar-se ao ensino bíblico sadio e apresentar os princípios es-
acordo com o último censo, já é possível constatar essa tendên- pirituais contextualizados aos desafios de nosso tempo.
cia também. Josh Packard, professor de sociologia da University of
Northern Colorado, recentemente publicou um estudo a respeito
© Helgidinson | Fotolia

dos desigrejados norte-americanos. Além dos indicadores numéri- Fontes: Carlos Fernandes, “Desigrejados, fenômeno que cresce”, Cristianismo Hoje
(out/nov 2013): 18-25; Idauro Campos, Desigrejados – Teoria, história e contradições
cos, esse relatório mostra os principais motivos pelos quais as pes- do niilismo eclesiástico (São Gonçalo: Contextualizar, 2014); Josh Packard, Exodus of
soas estão abandonando as igrejas, não a fé, nos Estados Unidos. the Religions Dones (Loveland, CO: Group, 2015).

MAR-ABR • 2016 | 5
ENTRELINHAS

Do desapontamento

Gentileza DSA
à alegria

E
les tinham grandes esperanças, convencidos de o que Jesus tinha a lhes dizer estava diretamente con-
que uma nova era havia chegado. Pensavam que centrado em sua missão. A obra de Deus não havia co-
o que estavam aguardando havia tanto tempo meçado apenas três anos e meio antes, e certamente
iria finalmente se cumprir. De fato, os sinais estavam não havia chegado a um fim inglório nas últimas 48 ho-
por toda parte, mas suas esperanças terminaram em ras. Sua missão era claramente vista em cada cordeiro
amargo desapontamento. Como poderiam prosseguir sacrificado nos altares, e havia acabado de ser testemu-


rumo a um futuro desconhecido? nhada quando o Cordeiro de Deus foi sacrificado na cruz.
Então, de repente, aqueles dois seguidores de Cris- Foram hospitaleiros (v. 29-31). Esses homens, mes-
to, a caminho de Emaús, reconheceram que Jesus havia mo não sabendo quem era seu Hóspede, o convidaram
estado com eles durante toda a viagem, e Sua presen- para tomar uma refeição e descansar em sua casa. Ele,
ça mudou tudo. Eles viajaram na estrada proverbial do que os havia deixado em suspense com suas palavras ao
desapontamento à alegria. Como fizeram isso? Sua his- longo da viagem, então tocou profundamente seu cora-
tória pode ser encontrada em Lucas 24. ção quando tomou o pão, partiu e o deu a eles. Naquele
Compartilharam seus pensamentos (v. 14-16). Aqueles dois momento, seus olhos se abriram, e eles perceberam que
Na estrada para Emaús, aqueles dois viajantes con- discípulos aquele que havia acabado de abençoar o pão era justa-
versavam a respeito de sua esperança no Messias e da caminharam mente quem sempre os havia abençoado com a espe-
frustração pelo não cumprimento de seus sonhos. Mal sobre algo rança de que eles iriam, um dia, ver a profecia se cumprir.
perceberam quão próximo literalmente o Salvador es- além do que Pregaram a mensagem (v. 33-35). Desconsideran-
tava deles; e que Ele havia chegado. Comentando sobre a estrada dedo a fome, o cansaço, a segurança pessoal, e uma série
isso, Ellen G. White diz: “[...] tão absorvidos se achavam Jerusalém parade outros fatores físicos e emocionais, esses dois dis-
em sua tenebrosa decepção que não o observaram mui- Emaús. Eles cípulos de Cristo saíram para proclamar a “mensagem
to [o Estranho que os acompanhava]. Continuaram em percorreram das boas-novas de que dependem as esperanças da hu-
sua conversa, externando os pensamentos de seu co- a estrada damanidade para o tempo e a eternidade” (Ibid., p. 801).
ração” (O Desejado de Todas as Nações, p. 795). Permi- decepção para
tiram que seus sentimentos sobre os acontecimentos a alegria.” Conclusão
recentes anuviassem sua capacidade de ver que Jesus No ministério, nós também enfrentamos todos os
estava perto deles, esperando para compartilhar in- tipos de desapontamento. Quando estamos lidando
sights eternos com eles e por meio deles. com eles, às vezes parece que o fim do mundo chegou
Expressaram seus sentimentos a Jesus (v. 18-24). e não temos nenhuma esperança quanto ao futuro. No
Embora estivessem compartilhando suas preocupações, entanto, a pergunta que deve ser feita é: “Como posso
eles ainda não haviam experimentado o progresso de passar do desapontamento para a alegria?”
que necessitavam até que expressaram seus sentimen- Aqueles dois discípulos caminharam sobre algo além
tos a Jesus. Eles estavam com o coração partido, mas do que a estrada de Jerusalém para Emaús. Eles percor-
Alguém estava prestes a transformar seu desaponta- reram a estrada da decepção para a alegria – a alegria
mento em alegria. proveniente da presença de Cristo com eles e do ardo-
Escutaram o que Jesus tinha para lhes dizer roso desejo de compartilhar as boas-novas do Salvador.
(v. 25-27). Jesus estava esperando para dizer palavras Que todos nós possamos fazer o mesmo!
de conforto a seu coração atribulado. Entretanto, eles se
demoraram para abrir o coração a Cristo mais do que Ele Willie E. Hucks II
em revelar uma mudança de vida para eles. Além disso, Editor associado da revista Ministry

6 | MAR-ABR • 2016
ENTREVISTA – MARTA GOMES

O pastor e a
depressão

Gentileza da entrevistada
“O pastor precisa entender que não é um
‘semideus’ e sim um ser humano que precisa
do outro e de ajuda quando se sente frágil.”

por Zinaldo A. Santos

A depressão está atingindo as pessoas cada vez mais cedo, é cada Sempre ouvimos falar de algum pastor
vez mais frequente, e o pastor não está isento dessa realidade. O que com problemas emocionais. Há uma
ele deve fazer para fechar as portas contra esse distúrbio ou para resposta para isso?
superá-lo, caso se torne vítima? De que maneira deve agir, ao se de- O pastor é humano, está no mundo, tem
parar com alguém, de sua igreja, que foi apanhado pela depressão? sentimentos, desejos, medos, e não está
Essas e outras perguntas são respondidas nesta entrevista, por Mar- blindado contra os problemas da atualida-
ta Barbosa de Andrade Gomes, que também dá orientações a respei- de. Como seres humanos, quando não con-
to de como o pastor deve enfrentar a velhice e consequente jubilação. seguimos vivenciar as dificuldades de forma
“Considero a aposentadoria uma grande oportunidade de realiza- controlada e positiva, adoecemos. Todos nós
ções”, ela declara. temos fragilidades, e adoecemos onde so-
Paraibana de Fagundes, ela nasceu em lar adventista e estudou mos mais frágeis. Muitas vezes pensamos
desde o Ensino Fundamental até a Universidade em instituições que nossa atividade nos adoece; porém, nem
da igreja. Graduou-se na Faculdade de Enfermagem, em 1975, no sempre esse conceito é verdadeiro. Se gos-
Centro Universitário Adventista de São Paulo, Unasp, campus São tamos do que fazemos e nos sentimos úteis,
Paulo, trabalhou no Hospital Adventista de São Paulo, no Hospital sabendo que a escolha profissional foi cons-
Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro, e fez várias especializações na ciente, se temos objetivos claros, provavel-
área de Enfermagem. É também psicóloga clínica, pós-graduada em mente seja a nossa maneira de trabalhar que
Terapia Familiar, e tem formação em Psicanálise, Psicoterapia Breve nos adoece. Isso poderia acontecer estando
e Psicologia Geriátrica. em outra profissão. Desafios há em todo lu-
Casada com Paulo Roberto Gomes, advogado da União Sudeste gar e em todo trabalho. O que precisamos é
Brasileira da Igreja Adventista, mora e trabalha em Petrópolis, RJ. aprender a lidar com eles.

MAR-ABR • 2016 | 7
Tem-se dito que o pastor vive um con- a mudar nosso interior. É preciso ter cons- depressão será a maior causa de absen-
flito, diante do desafio de continuar ciência das obrigações e procurar cumpri- teísmo ao trabalho, no mundo. De modo
sendo humano em meio à tentação de las, ter consciência das limitações, saber simplista, falarei sobre o que acontece com
ser diferente. Qual é sua opinião so- quais são as possibilidades de mudá-las o cérebro no processo da depressão. No
bre isso? ou aceitá-las, entender que não é um se- cérebro existem substâncias chamadas
O pastor é uma pessoa pública que está mideus e sim um ser humano que precisa neurotransmissores, que são hormônios
à frente de uma comunidade, liderando, ad- do outro e de ajuda quando se sente frágil. cerebrais (dopamina, serotonina, noradre-
moestando, e deve transmitir crenças e va- A família é um bem precioso e único. Estar nalina e outros), cuja função é levar infor-
lores a ser seguidos. O que ele fala e o que bem com ela, ter uma convivência de ami- mações de uma célula nervosa a outra; o
faz com sua própria vida tem uma impor- zade e afeto dá equilíbrio para suportar as que chamamos de sinapse. Na falta dessas
tância significativa na vida das pessoas ao vicissitudes da vida externa. Muitas vezes, substâncias aparecem diversos sintomas
seu redor. Isso é fato. A sociedade coloca pelo fato de sermos vistos pelos outros emocionais e físicos que tiram a pessoa
um peso sobre o pastor e sua família, que- como pessoas importantes, temos a ten- de seu equilíbrio. Alguns dos sintomas
rendo que sejam modelos a ser seguidos, dência de achar que somos importantes. são falta de energia, angústia, ansiedade,
e qualquer falha é superestimada. A orga- Para manter esse status, negamos a nós dores generalizadas, falta de esperança,
nização à qual ele pertence tem projetos e mesmos, nossas necessidades, as neces- de ânimo, de prazer, medo, problemas de
expectativas que precisam ser cumpridos sidades da família e até nossa comunhão concentração e, às vezes, pânico desenca-
e espera resposta positiva da parte deado pela ansiedade descontrolada.
dele, independentemente das dificul- Existem graus de depressão depen-
dades. Essas são realidades inegáveis. O que não deve ter lugar em dendo dos sintomas avaliados: leve,
Há uma igreja com suas exigências e média e grave. O grau leve pode ser
críticas, às vezes duras, injustas, e nossa vida é a insatisfação, tratado com mudança dos hábitos de
uma administração que, em alguns vida e com psicoterapia. Nos graus
momentos, se apresenta distante, a revolta, a mágoa. Esses médio e grave é necessário o uso des-
exigente, com aparente dificuldade ses itens citados, além da medicação
sentimentos negativos são a
para ver a pessoa, olhando apenas a antidepressiva. O medicamento tra-
produção. Sabemos que a consciên- porta aberta para as doenças ta os sintomas repondo neurotrans-
cia do fazer, da missão cumprida, dá missores; a psicoterapia trata a causa,
alento e estabilidade emocional à pes- físicas e psíquicas. ou trabalha o entendimento da vida
soa. Satisfazer o outro nem sempre é para que a pessoa não volte a ter o
possível. Ter esse discernimento e pro- problema, ou entenda seu problema.
curar não valorizar tanto a opinião do ou- com Deus. Quando fazemos isso, a ten- É o tratamento integrado: medicação com
tro, a ponto de se negar, é necessário para dência é adoecer. O pastor também pre- psicoterapia. O profissional que trata o de-
se viver bem. É importante ter autenticida- cisa cuidar de sua saúde física, psíquica, pressivo deve avaliar o tipo de depressão
de e calma para gerenciar conflitos inter- social e espiritual. O criador da nossa má- e determinar o tipo de tratamento reco-
nos e externos. Devemos ter a consciência quina deixou orientações no manual de mendado. A oração ajuda muito a suportar
de que existem coisas que não dependem funcionamento ao qual todos temos aces- a doença. Ter certeza de que Deus está ao
somente de nós e não podemos mudá-las. so. O problema é seguir essas orientações. lado fortalecendo e protegendo faz toda
Então, temos três alternativas: aceitarmos, Entretanto, a distância entre o discurso e a diferença.
não valorizarmos ou nos afastarmos delas. a prática precisa ser diminuída. Isso é pos-
O que não deve ter lugar em nossa vida é a sível através de um trabalho consciente. A aposentadoria parece ser um cau-
insatisfação, a revolta, a mágoa. Esses sen- sador de depressão para muitas pes-
timentos negativos são a porta aberta para O que a senhora tem a dizer para al- soas. O que fazer para enfrentar a rea-
as doenças físicas e psíquicas. guns religiosos para os quais “líderes lidade da velhice e suas limitações?
espirituais” com depressão ainda pa- A vida tem princípio, meio e fim.
O que mais o pastor pode fazer para rece ser um “tabu”? Nada é eterno, nossa finitude é nossa
superar essa condição? Depressão é doença, não é fraqueza de companheira desde nosso início.
Normalmente, não há como fazer mu- caráter nem de fé. Segundo a Organiza- Infelizmente, não pensamos nisso e
danças externas, mas podemos aprender ção Mundial de Saúde (OMS), em 2025 a agimos como se o fim não existisse.

8 | MAR-ABR • 2016
Se pensássemos que a vida tem ciclos, po- para pessoas que estejam chegando a esse ao profissional habilitado, quando solici-
deríamos vivê-los de modo mais inten- momento na vida. A aposentadoria deve tado a isso. Conhe­cendo os membros de
so, fechando-os para que pudéssemos ser vista como um privilégio e um prêmio, sua igreja, observando as queixas e o
abrir outros ciclos com alegria. A velhice não como castigo. Minha sugestão é que comportamento deles, ouvindo sobre
faz parte dos ciclos da vida, e só fica ido- os pastores aposentados busquem novas seus sintomas, o pastor pode saber que
so quem tem o privilégio de viver muito. participações nos mais diferentes grupos se trata de problemas não espirituais, que é
Considero a aposentadoria uma grande sociais, resgatem antigas amizades, façam doença, e não deve assumir o tratamen-
oportunidade de realizações. Nessa fase, novas amizades, descubram novos dons, to. Junto à família, deve orientar a procu-
conhecemos todos os “desígnios do Céu”, tenham novos objetivos de vida, procurem ra de ajuda profissional especializada. Se
já construímos nossa estabilidade finan- viver de modo produtivo e feliz. O pensa- na igreja há médicos e psicólogos, ele
ceira (pelo menos deveríamos), não de- mento modifica o comportamento. pode dialogar com esses profissionais a
pendemos de ordens alheias, somos respeito do caso e solicitar ajuda.
senhores de nosso tempo. Há mui- Caso contrário, o pastor deve
to a ser feito nesse estágio da vida. buscá-los na cidade ou em sua re-
Será muito produtivo que
Muitos descobrem uma nova pro- gião. Será muito produtivo que du-
fissão, outros trabalham em proje- durante os anos de sua rante os anos de sua formação, o
tos beneficentes, outros viajam, cur- pastor receba conhecimento e
tem a família e a vida com liberdade. formação, o pastor receba orientações para entender a parte
Não mais é necessário parecer ser. A psíquica do ser humano e como de-
conhecimento e orientações
autenticidade dessa fase nos liber- tectar alterações de comportamen-
ta. O pastor tem status e glamour. O para entender a parte to que sirvam de alerta, antes que
perigo é ele se acostumar com isso, a doença se instale. A partir desse
pois, com a aposentadoria, ele per- psíquica do ser humano e conhecimento, haverá maior segu-
de esse lugar, tornando-se um cida- rança no encaminhamento.
dão como outro qualquer. Ele per-
como detectar alterações de
de a função, porém, jamais perderá comportamento que sirvam O que mais a senhora tem a di-
a vocação pastoral. Continuará até zer para que os pastores te-
a morte sendo ungido do Senhor. de alerta, antes que a doença nham mais saúde emocional e
É uma atividade que ele pode exer- física?
cer depois da aposentadoria, com li- se instale. O pastor é um ser humano, com
berdade e intensidade. As igrejas es- sentimentos, limitações e impossi-
tão sedentas por mensagens de pas- bilidades. Não é inferior nem supe-
tores experientes que possam ajudá-las a Outro aspecto do trato do pastor rior a ninguém, apenas é “filho de Deus”, o
crescer espiritualmente. Ouço de muitos com a depressão é o trabalho dele com que já é o máximo. Assim, ele deve conhe-
idosos que vivem como se estivessem no membros da igreja acometidos por cer sua força e suas fragilidades. Deve ad-
passado; com isso, eles não aproveitam as essa desordem emocional. Como o ministrar sua agenda, priorizando tempo
boas coisas da aposentadoria. pastor e o profissional de saúde po- para comunhão com Deus, consigo mes-
dem ser parceiros? mo e com a família. Desses relacionamen-
De que maneira o pastor pode “tra- A igreja é composta de pessoas, mui- tos depende o equilíbrio com todos os de-
balhar a própria cabeça” para aceitar tas delas vivem conflitos e desequilíbrios mais. Procure trabalhar da melhor forma
essa realidade? psíquicos, e buscam ajuda na própria igre- possível, conforme ordena o Pai celestial.
O pastor e a igreja têm o que fazer. Hoje, ja. Entendo que ela seja o lugar em que Não gaste suas energias físicas e psíquicas
as grandes empresas têm um programa de se busca ajuda para a cura espiritual, e com coisas sobre as quais não pode legis-
preparo para a aposentadoria (PPA), que forças para suportar o sofrimento, não lar nem pode mudar. A vida é muito curta
consiste em apresentar para o servidor con- para tratar doenças. O pastor, por mais para nos preocuparmos com superficiali-
dições e meios para que ele tenha uma boa informações e conhecimentos que tenha, dades. Pensemos mais nas coisas lá do alto,
aposentadoria e saiba desfrutá-la, ocupan- não é profissional habilitado para tratar do nosso Pai, e jamais percamos de vista
do o tempo com atividades prazerosas e sa- doenças. Ele ajuda, aconselha, dá confor- que estamos de viagem para nosso ver-
lutares. Considero fundamental um preparo to espiritual e sugere o encami­nhamento dadeiro lar!

MAR-ABR • 2016 | 9
CAPA Ronald W. Pies Cynthia M. A. Geppert
Professor de Psiquiatria Professora de Psiquiatria
na Universidade e Ética na Escola de

Gentileza da autora
Gentileza do autor
Siracusa, Nova York, e Medicina do Novo México,
na Escola de Medicina Estados Unidos
em Boston, Estados
Unidos

Depressão ou tristeza?
Conheça as principais diferenças entre ambas

C
omo psiquiatras, também somos fa- abatido”) e humor severamente deprimi- há características que nos ajudam a distin-
miliarizados com o sofrimento que do. O senso de decadência corporal e de guir essas condições. Por exemplo, quan-
acompanha a depressão clínica. Con- autorrejeição do salmista é mais sugestivo do experimentamos tristeza ou angústia
tudo, como especialistas em ética e escri- de depressão do que de mera tristeza, na cotidianas, geralmente nos sentimos (ou
tores sobre temas espirituais e religiosos, qual o senso de autoestima normalmen- pelo menos somos capazes de sentir) liga-
também nos preocupamos com a discus- te fica intacto. dos com outros. O luto saudável é dirigido
são entre depressão e luto comum. Cremos Em contraste com o Salmo 38, o mesmo para uma recordação de longo alcance das
que essa seja uma questão importante, Davi, após a morte de seu querido amigo memórias do ente querido. Nesse proces-
digna de consideração por parte de pas- Jônatas, estava longe de se sentir “encur- so de recordação, a compaixão e compa-
tores e conselheiros. Como o conselhei- vado e sobremodo abatido”. Depois de um nhia de amigos, familiares e do pastor
ro distingue o luto comum (uma emoção breve período de pranto e jejum, o rei foi frequentemente ajudam a pessoa desolada.
normal e adaptável, para cujo acompanha- movido a escrever um cântico inspirador, Enquanto a experiência é compartilhada,
mento os pastores são normalmente trei- conhecido como “O lamento de Davi por a memória do falecido é “avivada” e a pes-
nados) da depressão, que em geral requer Saul e Jônatas” (2Sm 1:17-27), dedicado ao soa enlutada é “fortalecida”.
ajuda psicológica especializada e, em al- falecido amigo. “Como caíram os valentes Em contraste, quando experimenta-
guns casos, tratamento psiquiátrico? [...] Angustiado estou por ti, meu irmão Jô- mos depressão séria, tipicamente nos
natas; tu eras amabilíssimo para comigo!” sentimos rejeitados e sozinhos. Para usar
O fenômeno bíblico do Aqui não há traços de autorrejeição nem os termos de Martin Buber, a tristeza é
sofrimento decadência corporal, como encontrados no uma experiência “eu-tu”, ou relacional.
A distinção entre depressão e luto pare- Salmo 38. Ao contrário, na tristeza de Davi A depressão é uma preocupação mórbi-
ce tão antiga quanto o relato histórico. No pelo homem descrito como sendo amado da “comigo”. De fato, William Styron des-
Salmo 38, o salmista lamentou seus peca- “como à sua própria alma” (1Sm 18:1), ouvi- creve as pessoas depressivas como tendo
dos. Ele disse: “Não há parte sã na minha mos uma nota triste de saudade. É digno de “sua mente agonizantemente voltada para
carne, [...] não há saúde nos meus ossos, nota que a expressão de tristeza de Davi re- dentro”.1 A depressão grave consome o eu
por causa do meu pecado [...]. Tornam-se lembra “os velhos tempos” de amizade com e forma uma fortaleza mental que, sem
infectas e purulentas as minhas chagas, o falecido. Conforme veremos, a habilidade ajuda clínica, nem o pastor nem os fami-
por causa da minha loucura. Sinto-me en- para citar lembranças positivas do finado é liares podem romper.
curvado e sobremodo abatido, ando de um dos sinais do luto depois do falecimen- O senso subjetivo da pessoa também
luto o dia todo [...] dou gemidos por efei- to, e raramente é vista na depressão. difere no luto e na depressão. Quando ex-
to do desassossego do meu coração” perimentamos tristeza comum temos o
(v. 3-8). Psiquiatras modernos reconhece- Anatomia da tristeza e senso de que, algum dia, ela findará. Con-
riam nessa descrição sintomas de grande depressão forme o salmista diz, “ao anoitecer pode
depressão, tais como lentidão psicomo- Embora algumas vezes seja difícil per- vir o choro, mas a alegria vem pela manhã”
tora (“sinto-me encurvado e sobremodo ceber os limites entre o luto e a depressão, (Sl 30:5). Por sua vez, a depressão severa

10 | MAR-ABR • 2016
nos envolve com o senso de que durará O caminho da tristeza ter alguma receptividade à consolação ofe-
para sempre. Nassi Ghaemi chama aten- relacionada à perda recida por amigos e familiares, o que é ca-
ção para o senso de distorção temporal na Conforme Katherine Shear observou, racteristicamente ausente na depressão. A
depressão, ou seja, o sentimento subjeti- “a universalidade da tristeza é tão incon- tristeza é experimentada tipicamente em
vo de que o tempo é lento. 2 A tristeza tem testável quanto sua unicidade. A tristeza é “ondas” ou “pontadas”, em lugar da me-
a capacidade de conter a alegria interna uma experiência compartilhada por toda lancolia incessante da depressão. Frequen-
ou, pelo menos, de encontrar consolo a humanidade. É uma resposta instintiva temente mesclada com a tristeza estão as
dentro de sua própria essência. Nesse que compreendemos em um nível intuiti- recordações agradáveis sobre o falecido.
sentido, ela é dialética: gera uma “conversa­ vo. Naturalmente esperamos que a triste- Não é incomum que a pessoa recen-
ção” interior entre a possibilidade esperan- za evolua ao longo do tempo, tornando-se temente enlutada possa ouvir a voz ou
çosa e o desespero – especialmente em remodelada e integrada enquanto faze- ver em relances a imagem do falecido.8 Os
pessoas de fé, que são capazes de ver a mos as pazes com a dura realidade. Ainda pastores podem ajudar os profissionais de
tristeza sub specie aeternitatis [do pon- assim, ficamos confusos com o que essa saúde mental a reconhecer essas visões
to de vista da eternidade]. Assim, quan- transformação se parece e quanto tempo como manifestações esperadas de triste-
do Martinho Lutero foi confrontado com deve demorar”.6 za aguda em vez de sintomas de depres-
a morte iminente de sua filha Madalena, De fato, não há um andamento previ- são psicótica.
ele disse estas palavras, enquanto ela sível nem “correto” para a tristeza relacio- Muitos elementos de tristeza podem
morria em seus braços: “Querida Lena, nada à perda. De acordo com a explicação ser minimizados pelos rituais confortado-
minha filhinha! Tu ressuscitarás e brilha- de Katherine Shear e Sidney Zisook, mui- res de lamento, tais como os sete dias de
rás como uma estrela, sim, como o sol! Es- tos fatores estão em jogo: “A intensidade shiva na fé judaica. O isolamento social ou
tou espiritualmente feliz, mas na carne e duração da tristeza é altamente variável. cultural pode intensificar a dor aguda. Se
estou muito triste.”3 Não apenas na mesma pessoa ao longo o processo de luto e tristeza transcorrer
Além disso, há uma dimensão inten- do tempo ou depois de perdas diferentes, conforme o esperado, uma transição sutil
cional para sofrimento e tristeza, ausen- mas também em diferentes pessoas que terá início, normalmente com os primei-
te na depressão. Assim, somos tragados tratam ostensivamente com perdas se- ros cinco meses depois da perda – isto é, o
ou “invadidos” pela depressão como melhantes. A intensidade e duração é de- surgimento da tristeza integrada. Durante
uma força fora de nós, ao passo que terminada por múltiplas forças, incluindo, essa fase, a dor da perda é entrelaçada no
nos entregamos à tristeza. Em seu re- personalidade, estilo de apego, constitui- grande tecido da vida da pessoa enlutada.
lato autobiográfico, Andrew Solomon ção genética e vulnerabilidades exclusivas, A tristeza integrada requer maior aceita-
comentou sobre “o terrível sentimen- idade e saúde, espiritualidade e identida- ção da morte, renovado interesse e engaja-
to de invasão presente na condição do de cultural, apoios e recursos, número de mento na vida, predominância de emoções
depressivo”.4 perdas e a natureza do relacionamento.”7 positivas quando se lembra da pessoa fale-
Finalmente, a depressão é experimen- Gênero e cultura também podem mo- cida, e uma redução na preocupação com
tada como excluindo a possibilidade de delar o aspecto da tristeza. Assim, embora pensamentos e lembranças dela.9
avançar na vida. Em contraste, embora o os estereótipos devam ser evitados, ho- Isso não significa que a perda seja sem-
sofrimento e a tristeza, geralmente, sejam mens na cultura ocidental podem omitir pre esquecida ou ignorada. Nem a pessoa
profundamente dolorosos, eles também expressões emocionais, que socialmen- enlutada deve ser aconselhada com algo
provêm oportunidades para o crescimen- te são “permitidas” às mulheres. Apesar como: “Supere isso e vá em frente!” A tris-
to espiritual. Essa perspectiva é satisfato- das muitas variáveis, algumas declarações teza não é tanto uma experiência como o
riamente elucidada pelo psicoterapeuta e gerais sobre o curso normal da tristeza se desdobramento de um processo, que pode
ex-monge Thomas Moore: “A tristeza tira aplicam. Nos primeiros dias e semanas de- persistir durante anos, ou a vida inteira.
a atenção da vida ativa e focaliza sobre as pois da morte de um ente querido, o en- Pastores conselheiros e capelães po-
coisas que mais importam. Quando você lutado tipicamente experimenta tristeza dem cooperar com clínicos de saúde men-
atravessa um período de extrema perda ou aguda. Às vezes isso pode ser um período tal para ajudar o enlutado a ver o luto como
sofrimento, reflete sobre pessoas que mais intensamente doloroso, durante o qual a um tipo de relacionamento invertido ou
significam para você, em vez de pensar em pessoa triste pode experimentar frequen- transformado com a pessoa falecida – e
sucesso pessoal; reflete no profundo enre- tes crises de choro; dificuldade para dormir que pode durar muitos anos. É por isso que
do de sua vida, em vez de entretenimen- e se concentrar; redução do apetite; dimi- o enlutado diz tão frequentemente: “Ela
to e distrações.”5 nuição do desejo de socializar-se, apesar de está viva em minha memória”, o que é um

MAR-ABR • 2016 | 11
conceito altamente espiritual. Para algu- Styron: “A morte passou a ser uma presen- luto comum com depressão grave. En-
mas pessoas enlutadas, a tristeza prolon- ça diária, soprando em mim ventos frios. tretanto, mais comumente, sintomas de
gada pode envolver visitas periódicas ao Misteriosamente e em maneiras totalmente depressão são erroneamente descarta-
túmulo do falecido ou a participação em distantes da experiência normal, o chuvis- dos como “normais”, simplesmente por-
cerimônias religiosas que cultivam a hon- co triste do horror induzido pela depressão que eles ocorrem logo após a morte de um
ra da pessoa que morreu e proveem opor- assume a qualidade de sofrimento físico [...]. ente querido. Essa enganosa percepção
tunidade para relembrar.10 [O] desespero, fruto de algum jogo distor- toma a forma do que eu (Ronald Pies) cos-
A tristeza não é uma desordem nem cido de uma mente doente, assemelha-se tumo chamar de “falácia da empatia enga-
requer tratamento especializado. Entre- ao diabólico desconforto de estar preso em nosa” – a noção errada de que, se podemos
tanto, algumas vezes, esse processo aca- um quarto ferozmente superaquecido [...], compreender como alguém se torna de-
ba sendo complicado de alguma forma. [assim] é inteiramente natural que a vítima pressivo, teremos estabelecido que o hu-
De fato, o termo tristeza complicada fre- comece a pensar incessantemente que foi mor da pessoa é normal.14
quentemente é aplicado quando a transi- esquecida [...] Na depressão, a fé na liberta- Conselheiros, religiosos ou não, podem
ção da tristeza aguda para a integrada é ção, na restauração final, é ausente”.12 ser especialmente vulneráveis para essa
partido ou interrompido. Os pastores de- Como sugere essa descrição, há mar- bem-intencionada, mas errônea “normali-
vem ser capazes de reconhecer a tristeza cantes diferenças experienciais entre a zação”. Na tradição judaico-cristã, o enluta-
complicada, porque ela pode ser um avi- tristeza decorrente de luto e a depressão do tem um status especial de reverência e
so de progressão e integração da triste- clínica. Por exemplo, os pastores e conse- recusa de responsabilidade que frequente-
za, ou prognóstico do desenvolvimento lheiros devem estar atentos à importân- mente é ritualizado. Pastores e terapeutas
de grande depressão. As duas coisas po- cia de reconhecer que, se as pessoas tristes igualmente podem achar desconfortável a
dem necessitar de tratamento profissional, têm desejo de morrer, isso normalmente opinião de que o enlutado esteja “depressi-
junto ao contínuo apoio espiritual. Embora envolve pensamentos sobre o “encontro” vo”, mas, ao aceitar o fato, eles podem aju-
a discussão da tristeza complicada esteja com o ente querido, abrindo a chance para dar a reduzir o estigma da diagnose, que
além do âmbito deste artigo, Shear e ou- algum consolo espiritual. Em contraste, o frequentemente evita que pessoas religio-
tros especialistas têm descrito alguns as- humor de pacientes com depressão severa sas busquem tratamento mental.
pectos característicos como: é frequentemente acompanhado por pen- Considerando que a tristeza e a depres-
• Dificuldade contínua em aceitar a mor- samentos ou planos de suicídio e do senso são são condições separadas, segue-se que
te, por um período superior a seis meses. de que eles “não merecem” viver. as duas podem coexistir, particularmente
• Persistente e forte saudade do falecido. Essas ideias ou planos suicidas, prin- depois do luto, e podem tirar muito pro-
• Ira ou amargura em relação às circuns- cipalmente quando acompanhados por veito do cuidado colaborador dos pastores
tâncias da morte. expressões de autorrejeição e culpa, repre- e profissionais de saúde mental. De fato, o
• Preocupação com o falecido. sentam uma verdadeira emergência psico- luto, longe de “imunizar” a pessoa contra a
• Excessivo escape de qualquer lem- lógica que requer adequada intervenção depressão grave, é realmente um precipi-
brança do falecido. por especialistas em saúde mental. Ao con- tante comum da doença.15 Tudo isso torna
• Futilidade em relação ao valor de con- trário da pessoa em sofrimento normal, a mais importante que capelães e conse-
tinuar a vida e os relacionamentos. que está severamente depressiva usual- lheiros pastorais reconheçam a depressão
• Incapacidade e enfraquecimento no mente é muito centralizada nela mesma grave e respondam apropriadamente a ela.
desempenho.11 e emocionalmente isolada, para apreciar Geralmente, pessoas religiosas têm muito
o consolo de outros ou buscar e respon- mais confiança nos pastores do que nos clí-
Retrato da depressão grave der ao conforto pastoral. Em contraste, a nicos. De fato, um sacerdote, pastor ou rabi,
O pesaroso e o gravemente deprimido pessoa com tristeza comum mantém um pode ser a única pessoa capaz de persua-
habitam dois diferentes reinos existenciais, forte laço emocional com amigos, familia- dir o enlutado a buscar ajuda especializada
embora os dois “universos” se cruzem em res e, em alguns casos, pastores, dos quais em saúde mental. Se houver suspeita de
alguns aspectos vivenciais. A pessoa tris- aceitam conforto. Na verdade, o psicólo- depressão grave, deve ser garantido o en-
te e a gravemente deprimida, por exem- go Kay R. Jamison observou que “a capa- caminhamento a um profissional de saúde
plo, descrevem melancolia e perda. A pessoa cidade para receber consolo é a diferença mental. Em casos mais moderados, ape-
gravemente deprimida, entretanto, supor- importante entre o luto e a depressão”.13 nas o tratamento psicoterápico é suficiente.
ta um único tipo de sofrimento assassino da Algumas vezes, amigos, familiares ou Para episódios mais graves de depressão,
alma, eloquentemente descrito por William clínicos inexperientes podem confundir pode ser requerido o uso de medicamentos.

12 | MAR-ABR • 2016
Transtorno depressivo grave (TDG)
Definição/conceito Doença psiquiátrica na qual a angústia e o sofrimento são marcantes, e as funções normais são
significativamente prejudicadas. As mais severas formas de TDG são depressão grave psicótica e
“melancólica”.

Característica de humor e Usualmente, um sentimento profundo e penetrante de desespero, abandono, melancolia, aniquilamento,
tom dos sentimentos “tempo parado”. Redução significativa de prazer em quase todas as atividades.

Variabilidade de humor e Pouquíssima mudança de um dia para outro, sentimentos positivos diminuídos ou ausentes (inabilidade
sentimentos para experimentar emoções positivas é marca de depressão grave); humor altamente depressivo na
maioria dos dias, por mais ou menos duas semanas. Raramente consolável por amigos ou familiares.

Sono, apetite Acordar demasiadamente cedo (4h, por exemplo) é uma característica. Raramente há excesso de sono.
Perda de apetite frequentemente leva a significativa perda de peso. Raramente há ganho de peso na
depressão “atípica”. Não raro, anorexia severa, com substancial perda de peso.

Energia, mudança Marcante desaceleração dos processos mentais e diminuição da energia; significativo aumento ou
psicomotora diminuição da atividade motora (aumento do volume da fala, redução do desempenho; muita agitação,
esfregar as mãos, mexer nos cabelos, etc.).

Teste de realidade Severo TDG com psicose pode mostrar delírios de decadência corporal, punição da parte de Deus; pode
experimentar alucinações auditivas depreciativas.

Autoimagem Autorrejeição, sentimentos de indignidade, ser alguém “imperdoável” ou “pecador terrível”; profundo e
corrosivo sentimento de culpa sem razão evidente.

Pensamentos de morte Ideais e planos suicidas são comuns; a pessoa pode ter sentimentos como “não mereço viver”.

Função social/vocacional O afastamento social é frequentemente profundo; a pessoa se sente altamente estranha a outros; pode se
isolar no quarto, recusar qualquer visita.

Curso/resultado Duração variável, frequentemente ao longo de muitos meses e, algumas vezes, anos, se não for
adequadamente tratado. O suicídio é o resultado em cerca de 4% daqueles que sofrem depressão grave.

Tratamento Frequentemente requer tratamento profissional, com psicoterapia ou medicação, ou as duas coisas.

Entretanto, mesmo após o encaminhamen- importantes porque elas têm relação di- 5
 homas Moore, Dark Nights of the Soul: A Guide
T
to Finding Your Way Though Life’s Ordeals (Nova
to, o cuidado pastoral é salutar, especial- reta sobre disposição e tratamento. Quan- York: Cotham, 2005), p. 211.
mente para a solução da tristeza e o apoio do for aconselhar a pessoa recentemente 6
Katherine Shear, Pacific Standard, 16 de junho de
espiritual do enlutado. Queremos animar enlutada, o conselheiro, bem como o pro- 2014, <www.psmag.com>.
os pastores e profissionais de saúde men- fissional de saúde, deve reconhecer as ad- 7
Sidney Zisook e Katherine Shear, World Psychiatry 8,
tal para que sejam parceiros no trabalho da vertências e responder aos sintomas de nº 2 (jun. 2009), p. 67-74.

saúde integral, abordando assim as dimen- episódios da depressão grave, que requer
8
Ibid.

sões física, mental e espiritual da pessoa. tratamento profissional.


9
Ibid.

Luto e depressão grave ocupam dife-


10
Ibid.
Referências:
rentes campos da experiência humana, 11 
M. Katherine Shear, Angela Chesquiere e Kim
1
 illiam Styron, Darkness Visible: A Memoir of
W Glickman, Current Psychiatry Reports 15, nº 11
embora compartilhem alguns aspectos e (nov. 2013), p. 406.
Madness (Nova York: Vintage, 1992), p. 47.
possam coexistir na mesma pessoa. Isso 12 
William Styron, Op. Cit., p. 50.
2
 . Nassir Ghaemi, Schrizophrenia Bulletin 33 (2007):
S
pode complicar o diagnóstico e o trata- 122-130. 13
 ay Redfield Jamison, Nothing Was the Same: A
K
mento, particularmente se o conselheiro 3
 urat Halstead, Story of Opportunity or Character
M Memoir (Nova York: Knopf Doubleday, 2009), p. 178.
ou clínico não estiver familiarizado com Building (Whitefish, MT: Kessinger Publishing, 14
Kristy Lamb, Ronald Spies e Sidney Zisook,
2003), p. 582. Psychiatry (Edgmont) 7, nº 7 (jul. 2010), p. 19-25.
as diferenças substanciais entre tristeza
4
Andrew Solomon, The Noonday Demon: An Atlas 15
Sidney Zisook, Ronald Spies e Alana Iglewicz,
e depressão. No período agudo pós-luto, of Depression (Nova York: Touchstone, 2002), Journal of Psychiatry Practice 19, nº 5, (set. 2013),
essas discriminações são especialmente p. 293. p. 3886-3896.

Diga-nos o que achou deste artigo: Escreva para ministerio@cpb.com.br ou visite www.facebook.com/revistaministerio

MAR-ABR • 2016 | 13
CAPA Jorge Iuorno Alida Daniele de Iuorno
Professor da Faculdade Psicóloga, trabalha no
de Teologia da serviço de Saúde Mental

Gentileza da autora
Gentileza do autor
Universidad Adventista do Sanatório Adventista
del Plata, Argentina del Plata, Argentina

Saúde
para a mente

Atitudes simples podem


promover o bem-estar mental

A
Igreja Adventista do Sétimo Dia
tem como uma de suas crenças dis-
tintivas a observância de princípios
que levam à vida saudável. Contudo, é in-
teressante notar que, no início da deno-
minação, seus ministros foram um tanto
quanto resistentes à aplicação desses con-
selhos inspirados em sua vida.1
Ainda hoje é relativamente comum en-
contrar pastores que são bons em acon-
selhar outros sobre saúde, mas, de certa
forma, resistentes na hora de praticar em
sua própria vida os mesmos princípios
compartilhados. Talvez isso se deva ao que afetam a psique e requerem tratamen- campo da saúde mental é a confiança em
fato de que os ministros se sintam invul- to profissional. Deus. Entretanto, esse não é o único que
neráveis, em virtude de estarem no servi- De acordo com a Organização Mundial a autora sugere para esse aspecto. Quais
ço do Senhor. de Saúde, até 2020, nas regiões mais desen- são os outros?
No entanto, a realidade é que nós, pas- volvidas, a depressão se tornará a principal Ela apresenta no livro A Ciência do Bom
tores, somos seres humanos e, como tais, causa de enfermidade, ao lado de doenças Viver outros três remédios (dos quais pou-
vulneráveis. O apóstolo Paulo disse ter coronárias e acidentes de trânsito, e será co falamos) que, além de contribuir com o
um “espinho na carne” (2Co 12:7), prova- o segundo principal motivo de invalidez.2 bem-estar mental, também afetam po-
© Rui Vale de Sousa | Fotolia

velmente referindo-se a uma visão limi- A maioria dos adventistas pode expli- sitivamente a saúde física geral. Diz a es-
tada. Por que, então, não poderíamos ter car facilmente quais são os oito remédios critora: “Gratidão, regozijo, benignidade,
um espinho na mente? Os ministros não naturais apresentados por Ellen White.3 confiança no amor e no cuidado de Deus
estão imunes à doença, incluindo aquelas Entre eles, o que tem maior projeção no — eis as maiores salvaguardas da saúde.”4

14 | MAR-ABR • 2016
É interessante notar que o conselho sido possível provar cientificamente que De fato, se fôssemos gêmeos idênticos
de Ellen White é comprovado pela ciên- pessoas gratas tendem a experimentar e tivéssemos vivido as mesmas circuns-
cia da saúde mental, especialmente pelo emoções positivas como contentamento, tâncias de vida, diz Sonja, diferiríamos em
movimento psicoterapêutico denomina- alegria e esperança com muito mais fre- nível de felicidade. Sua pesquisa consta-
do Psicologia Positiva. Essa corrente con- quência do que pessoas ingratas.7 Essa tou que há um terceiro fator por trás de
trasta com as terapias tradicionais, que qualidade pode gerar um ambiente posi- nossa capacidade de ser feliz: a atitude.
tratam principalmente das questões re- tivo que alimenta a pessoa grata, melho- Ela se reflete na nossa maneira de pensar
lacionadas às carências humanas e sua rando sua saúde física e emocional. e em nossas atividades cotidianas. Esse
possível reparação, como depressão, es- fator é valioso porque nos permite decidir
tresse, ansiedade, vícios, suicídio, entre ou- Alegria e exercer controle total sobre nossa feli-
tros transtornos. Ao longo do tempo, pesquisadores des- cidade. Não há nada que possamos fazer
Quem promove a psicologia positiva cobriram que a tão procurada felicidade quanto à herança genética. Não temos o
explica: “A psicologia do século 21 deve- não se encontra, mas se constrói. Somos domínio completo das circunstâncias da
ria se preocupar não apenas em reparar capazes de criá-la; portanto, ela depende vida; contudo, temos o controle de nos-
o dano psicológico, mas também em es- de nós. Eles também provaram que pes- sas atitudes. Ou seja, 40% das causas do
tudar como são reforçadas as qualidades soas felizes não são aquelas que não têm bem-estar e da felicidade estão em nos-
positivas que todos os seres humanos pos- problemas, mas aquelas que podem lidar sas mãos!
suem.”5 Devemos acrescentar que esse com os reveses e seguir em frente, com a Vemos em declarações de Ellen White
reforço pode ser maravilhosamente acom- ajuda de Deus. um reflexo dessa mesma posição. Para a
panhado pelo trabalho eficaz do Espírito escritora, alegria e felicidade são resulta-
Santo. Vejamos os efeitos positivos que Herança do da atitude pessoal: “Por meio de Cristo
esses quatro remédios podem promover Atitude Genética podemos e devemos ser felizes e adqui-
em nossa saúde física e mental. rir hábitos de domínio próprio.”9 À primei-
ra vista, a declaração chama a atenção
40% 50%
Gratidão porque temos a ideia de que a felicidade
Em meio à crise econômica global, as não pode ser enquadrada como um de-
pessoas tendem a valorizar mais os laços 10% ver, pois ela aparece somente de acordo
pessoais do que os aspectos materiais. com as condições. Como, então, podemos
Nesse contexto, a gratidão contribui para nos obrigar a ser felizes?
que isso ocorra. O fato é que nossa quali- Circunstâncias Ellen White afirma que podemos di-
dade de vida será maior à medida que nos- rigir nossos pensamentos. Além das cir-
sos relacionamentos forem mais sólidos. Após extensa pesquisa, Sonja Lyubo- cunstâncias em torno de nós, temos a
Os pastores precisam estabelecer boas mirsky tentou identificar as causas do opção de conduzir o rumo do que pensa-
relações. Os irmãos que nos apoiam nas bem-estar e da felicidade. Seu trabalho mos a respeito do que nos acontece e de
atividades da igreja não recebem remu- constatou que 50% das causas estão liga- como interpretamos os fatos. Quantas ve-
neração por seu trabalho. Por isso, gostam das a aspectos determinados geneticamen- zes você se deparou com um membro da
quando seu esforço é apreciado e reconhe- te.8 Apenas 10% dos níveis de felicidade que igreja que tende a pensar negativamen-
cido. O espírito de gratidão manifesto pelo alcançamos estão relacionados às diferen- te de quase tudo, enquanto outro pre-
pastor gera um clima positivo, que estimu- tes circunstâncias experimentadas. Para fere destacar as coisas positivas, mesmo
la o empenho dos voluntários e promove o provar isso, a pesquisadora cita um estu- em tempos difíceis? E quanto a nós? Não
desenvolvimento das diversas atividades do feito nos Estados Unidos, no qual se de- somos a exceção! Podemos manter ati-
da congregação local. monstrou que os empresários americanos tudes que, de alguma forma, predeter-
Ellen White resume o efeito da grati- relataram níveis de felicidade pessoal pou- minam nossa interpretação da realidade.
dão na saúde quando diz: “Coisa alguma co maiores do que o de seus funcionários. Além disso, a escritora agrega um be-
tende mais a promover a saúde do cor- A constatação de que as circunstâncias nefício adicional ao associar a alegria com
po e da alma do que o espírito de grati- da vida têm pouca relevância para nosso a saúde integral: “Devemos incentivar ale-
dão e louvor.” 6 Podemos nos perguntar: bem-estar e não constituem a chave para gre, esperançosa e tranquila disposição de
Como a gratidão pode ajudar nossa saúde? nossa felicidade nos encoraja a buscá-la espírito; pois nossa saúde depende de fa-
Quanto a isso, devemos destacar que tem por nós mesmos! zermos isso.” Que desafio!

MAR-ABR • 2016 | 15
Bondade Dicas para desenvolver as quatro atitudes no dia a dia
Em uma das matérias que lecionamos Gratidão Como parte de sua devoção pessoal, leia o livro dos Salmos
na Faculdade de Teologia temos um re- e faça uma lista de motivos pelos quais você deve ser grato a
Deus. Durante um mês, todos os dias, mostre gratidão a alguém
quisito no qual os alunos são desafiados a
por algo que essa pessoa tenha feito de especial a você.
preparar e desenvolver um projeto comu-
nitário. Quando lhes perguntamos quais Alegria Consiga uma boa versão do clássico “O Messias”, de Handel,
foram os resultados do trabalho, invaria- e, durante uma semana, ouça-a no início do dia com fones de
ouvido. Imagine o momento da segunda vinda de Jesus, no qual
velmente a grande maioria responde que você reencontrará seus entes queridos e as pessoas que levou
eles foram os principais beneficiados. Os a Cristo.
alunos enfatizam como se sentiram bem
Bondade Escolha uma família carente da igreja e ajude-a, seja pagando
ao experimentar esse fruto do Espírito, ao a mensalidade da Escola Adventista para um de seus filhos
realizar uma atividade solidária. ou dando-lhe uma cesta básica pelo tempo que você decidir.
Foi Hans Selye10 que estabeleceu o Dedique algumas horas por semana para acompanhar alguém
doente ou algum idoso que vive sozinho.
conceito de “egoísmo altruísta”. Essa
ideia consiste na seguinte dinâmica: pro- Confiança em Deus Pense em três coisas que deram certo no último mês. Pergunte
curamos fazer o bem aos outros a fim de a si mesmo como Deus interveio nessas situações, e quais
que os outros nos devolvam o bem. Des- emoções e sentimentos isso desperta em você. Faça um
inventário das bênçãos que Deus derramou sobre sua família e
se modo, geramos em torno de nós um seu ministério nos últimos cinco anos. Planeje uma reunião para
ambiente positivo e saudável. Na prática, celebrar essas dádivas, de modo que todos se alegrem pelas
contudo, as coisas não ocorrem de manei- grandes coisas que o Senhor realizou por vocês.
ra tão exata. De fato, o bem deve ser feito,
em princípio, sem esperar nada em troca. passávamos era totalmente injusta: uma e praticantes de suas orientações, a fim
A benevolência demonstrada deve ser um transferência inesperada, acontecimentos de que possamos desfrutar de uma vida
resultado da bondade recebida do Senhor, nos quais percebemos duvidosas inten- mais plena e feliz!
que se reflete no ensino da parábola dos ções, enfim, circunstâncias que nos afeta-
dois devedores: “Você não devia ter tido ram negativamente. Entretanto, como é
misericórdia do seu conservo como eu tive gratificante, depois de algum tempo, olhar Referências
de você?” (Mt 18:33, NVI). para trás e ver como o Senhor nos guiou 1
Herbert Douglass, Mensageira do Senhor (Tatuí,
SP: CPB, 2001), p. 295.
através desses aparentes vales obscuros,
Confiança no amor e no permitindo-nos passar por extraordinárias
2
 rganização Mundial de Saúde, Informe sobre la
O
Salud em el Mundo - 2001, <http://www.who.int>.
cuidado de Deus experiências espirituais! Em alguns casos, 3
 llen G. White, A Ciência do Bom Viver (Tatuí, SP:
E
Ter a confiança e a certeza de que nos- podemos até considerar esses momentos CPB, 1997), p. 89.
sa vida descansa nas mãos de um Deus que entre os mais felizes de nossa vida. 4
Ibid, p. 214
nos ama contribui significativamente para 5
 . Seligman e M. Csikszentmihalyi, “Positive
M
o desenvolvimento da paz interior tão ne- Conclusão Psychology: An Introduction”, American
Psychologist , 55 (1), 5-14.
cessária. Essa paz é muito valiosa, porque Na sociedade confusa em que vivemos,
6
Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver, p. 194.
não depende das circunstâncias que nos ro- podemos pensar que a solução para nos-
7
 . A. Emmons e M. E. McCullough, “Counting
R
deiam, que podem ser inquietantes, mas de sos problemas deve ter estas duas carac-
Blessings versus Burdens: An Experimental
uma experiência interior que torna eficaz a terísticas: sofisticação e complexidade. Investigation of Gratitude and Subjective
expressão paulina: “Todas as coisas coope- Essa talvez seja uma das razões pelas Well-being in Daily Life”, Journal of Personality
and Social Psychology, v. 84, p. 377-389.
ram para o bem daqueles que amam a Deus” quais julgamos ser tão difícil aplicar os 8
S. Lyubomirsky, La Ciencia de la Felicidad: Un
(Rm 8:28). A partir dessa perspectiva, tem princípios divinos para desfrutar de ex- Método Probado para Conseguir el Bienestar
sentido o provérbio: “Alimente sua fé em celente saúde física e mental. Entretan- (Barcelona: Ediciones Urano, 2008).

Deus, e seus medos vão morrer de fome.” to, sabemos por experiência própria que 9
Ellen G. White, Mente, Caráter e Personalidade
(Tatuí, SP: CPB, 1989), v. 2, p. 593.
Talvez tenha havido alguns momen- o conselho de Deus aplicado à nossa vida
10
 édico nacionalizado canadense que, a partir de
M
tos ao longo de nosso ministério nos sempre produz o efeito prometido. Que
suas investigações, descobriu o estresse e seus
quais sentimos que a situação pela qual o Senhor nos ajude a ser fiéis ouvintes efeitos na saúde humana.

Diga-nos o que achou deste artigo: Escreva para ministerio@cpb.com.br ou visite www.facebook.com/revistaministerio

16 | MAR-ABR • 2016
ASSINE LEIA INFORME-se • •
Indispensável para todo adventista.

André Brunelli

Notícias • Conteúdo Teológico • Matérias Exclusivas • Opiniões • História • Entrevistas


Informações da Igreja • Evangelismo • Comportamento • Saúde • Dicas de Leitura

Ligue
0800-9790606 Acesse
Horários de atendimento: Segunda a quinta, das 8h às 20h www.cpb.com.br
/casapublicadora Sexta, das 8h às 15h45 / Domingo, das 8h30 às 14h Ou dirija-se a uma CPB livraria

Se preferir, envie um SMS para o número 28908 com a mensagem CPBLIGA, e entraremos em contato com você.
ÉTICA Roy E. Gane
Professor de Hebraico e Línguas
do Antigo Oriente Médio,

Gentileza do autor
no Seminário Teológico da
Universidade Andrews,
Estados Unidos

Os cristãos e a
homossexualidade
Princípios do Antigo Testamento para orientar
a conduta da igreja quanto aos homossexuais
(Parte 2)

E
sta segunda parte do nosso estudo é, tornando-se parceiros conjugais, come- amor” e “fazer sexo”. Assim, Levítico rejei-
busca identificar, no Antigo Testa- tem abominação, e adiciona a penalida- ta o processo ou parte dele. O fato de que
mento, princípios relevantes para o de capital sob a jurisprudência teocrática a prática sexual coberta pelo verbo hebrai-
relacionamento entre a comunidade de fé israelita.2 co normalmente incluiria penetração e
e pessoas engajadas em atividade homo- Assim como a legislação a respeito de ejacula­ção masculina não limita seu signi-
erótica consensual, conforme praticada outros delitos sexuais graves, Levítico 18 e ficado a esses elementos. Consequente-
pelos membros dos chamados movimen- 20 não oferecem exceções, limitando fato- mente, ela não se justifica.5 Para especificar
tos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e res culturais, ou circunstâncias atenuantes, a ideia de penetração em si mesma, a lin-
transgêneros). como relacionamento amoroso e exclusi- guagem hebraica usa expressões diferen-
vo. Simplesmente somos proibidos de nos tes: o verbo ntn + o substantivo sekobet +
Proibições da prática envolver em um ato homossexual, inde- a preposição b, que significa literalmente
homossexual pendentemente das intenções evocadas. “colocar o pênis (de alguém) em” (Lv 18:20,
O livro de Levítico apresenta as se- Obviamente, a penalidade mortal apli- 23; 20:15; Nm 5:20).6
guintes leis a respeito da atividade cada sob a teocracia israelita, que já não Em Números 31:17, 18, 35 e Juízes 21:11, 12,
homoerótica: existe, não pode ser imposta em um Es- o se “deitar com homem” é o que uma mu-
“Com homem não te deitarás, como se tado secular. Entretanto, essa penalida- lher experimenta quando ela tem relações
fosse mulher; é abominação” (Lv 18:22). de indicava a atitude de Deus para com o sexuais com um homem.7 À luz disso, o se
“Se também um homem se deitar com ato, que não estava inteiramente excluído “deitar com uma mulher”, em Levítico 18:22;
outro homem, como se fosse mulher, am- da comunidade do Seu povo. Além disso, 20:13, descreve o que um homem experi-
bos praticaram coisa abominável; serão aqueles que transgridem deliberadamente menta quando faz sexo com uma mulher.
mortos; o seu sangue cairá sobre eles” qualquer das leis em Levítico 18 são adicio- O ponto principal é que o homem não deve
(Lv 20:13). nalmente condenados ao castigo divina- ter com outro homem o mesmo tipo de ex-
Levítico 18:22 é uma proibição categó- mente imposto, isto é, ser “eliminados” periência que teria com uma mulher.
rica e irrefutável, direcionada ao homem (v. 29), algo que o próprio Deus pode exe- A expressão em Levítico 18 e 20 é ain-
israelita com respeito a uma ação que ele cutar em qualquer tempo e qualquer lugar.3 da mais clara em Gênesis 49:4, onde Jacó
(sujeito) não deveria fazer com outro ho- Em Levítico 18:22 e 20:13, o elemento abordou Rúben, seu filho primogênito,
mem (como objeto direto). Em seguida de­finidor do ato homoerótico é descrito des­ a respeito do incesto com Bila: “por que
a essa proibição está uma expressão da ta maneira, literalmente: “deitar [verbo da subiste ao leito [plural de miskab] de teu
avaliação que o Senhor faz desse ato: “é raiz skb]4 um macho com outro como se pai”. O verdadeiro problema não foi o lo-
abominação”.1 Levítico 20:13 expressa a fosse uma mulher”. O verbo para deitar [da cal do ato, a cama, o lugar de “deitar” per-
mesma ideia em uma formulação casuís- raiz skb] descreve a atividade sexual como tencente a Jacó, mas o fato de que Rúben
tica, especificando que dois homens que um processo conjunto, como as modernas usurpou uma prerrogativa com referência
(voluntariamente) se envolvem nisso, isto expressões “ir para a cama com”, “fazer a Bila, deitando-se com ela, um privilégio

18 | MAR-ABR • 2016
exclusivo de Jacó. Essa prerrogativa é ex- 1. A impureza é gerada por uma subs- transgridem o primeiro (e provavelmen-
pressa pelo (provavelmente abstrato) plural tância ou condição física, o que explica a ra- te o segundo) mandamento (Êx 20:3-6).
de miskab, cujo significado corresponde ao zão pela qual, em muitos casos, pode ser Amaldiçoar pai e mãe discorda do quin-
da mesma palavra em Levítico 18:22; 20:13, transferida pelo contato físico. to mandamento (v. 12), e o adultério é
onde “deitar com uma mulher” é uma ex- 2. Incorrer em impureza não se cons- transgressão do sétimo mandamento
periência legítima para um homem, com titui pecado, isto é, a transgressão de um (v. 14). Assim, pelo menos algumas leis nes-
a mulher certa; porém, jamais com outro mandamento divino (ex. Lv 12:6-8; com- ses capítulos expressam ou aplicam prin-
homem.8 pare com o capítulo 4), a menos que haja cípios permanentes.13
proibição específica (Lv 11:43, 44; Nm 6:6, 7). Entretanto, apenas isso não prova que
Proibição universal? 3. Seu propósito é evitar a profanação todas as outras leis nesses capítulos se-
O significado das leis bíblicas sobre ativi- da esfera sagrada centralizada no santuá- jam permanentes. Compare Levítico 19,
dade homoerótica é claro. Mas a qual gru- rio (Lv 7:20, 21; 15:31; Nm 5:1-4). que reitera alguns dos Dez Mandamentos
po, ou a quais grupos, elas são aplicáveis? A 4. Há solução ritual prevista, como ablu- (v. 3, 4, 11, 12, 30), mas também contêm al-
legislação em Levítico 18 e 20 primariamen- ções e sacrifício (Lv 14; 15). gumas leis rituais que não podem perma-
te é direcionada aos israelitas, mas também As transgressões em Levítico 18 per- necer aplicáveis, devido à sua dependência
se aplica aos estrangeiros que viviam entre tencem a outra categoria: impureza mo- do santuário terrestre (v. 5-8, 20-22), que
eles (Lv 18:2, 26; 20:2). De acordo com a es- ral que resulta de séria ação pecaminosa. foi destruído em 70 d. C. Apesar disso,
trutura da narrativa de Levítico, o Senhor Elas não contaminam outra pessoa pelo Levítico 18 e 20 não contêm nenhuma lei
deu aquelas leis antes de eles entrarem na contato físico. Em vez disso, contaminam cerimonial requerida no santuário.14
Terra Prometida, e não fez restrições quan- tanto o pecador quanto a terra, e não po- As leis concernentes à sexualidade em
to à sua aplicabilidade àquela terra.9 Em dem ser removidas por meios rituais.12 Es- Levítico 18 estabelecem limites que salva-
Levítico 18:3, os israelitas não deviam se sas profanações morais são geradas por guardam a pureza moral da pessoa (v. 4, 5,
comportar como os egípcios nem os habi- ofensas sexuais (Lv 18), idolatria (18:21; 24-30), de maneira que vão além da proi-
tantes de Canaã, indicando que Deus re- cf. v. 24) e assassinato (Nm 35:31-34), que bição de adultério (Êx 20:14). Elas também
provava o modo pelo qual aqueles povos ferem princípios divinos (Êx 20:3-6, 13, 14), estão fundamentadas no princípio de se-
transgrediam Seus princípios de moralida- sendo proibições tanto para os israelitas xualidade expresso em Gênesis 2:24: “Por
de. A desaprovação divina às práticas gen- quanto para os estrangeiros que habita- isso, deixa o homem pai e mãe e se une à
tílicas se torna explícita nos versos 24, 25, vam entre eles (Lv 18:2, 26; Nm 35:15). sua mulher, tornando-se os dois uma só
27 e 28, onde o Senhor ameaçou vomitar O contexto das leis contra a prática ho- carne.” Levítico 20 adiciona especialmen-
os habitantes da terra (cf. Lv 20:22, 23), por- mossexual em Levítico 18 e 20 reforça a te a motivação do benefício da santidade
que eles se desviaram, praticando abomi- ideia de que sua aplicação seja permanen- obtida do Senhor, correspondente ao Seu
nações proibidas no início do capítulo, te. As leis em Levítico 18 dizem respeito a caráter (v. 7, 8, 26). Todas as leis nesse ca-
entre as quais estava incluída a atividade incesto (v. 16, 17), bigamia incestuosa (v. 18), pítulo dizem respeito à santidade pessoal
homossexual (Lv 18:22). Assim, Deus res- relações sexuais durante a menstruação em relação a Deus. Portanto, seus princí-
ponsabilizava judeus e gentios, à medida (v. 19), adultério (v. 20), entrega dos filhos pios são morais e permanentes, embora
que eles compreendessem os princípios ao deus Moloque (v. 23), atividade homos- Levítico 20 acrescente algumas penalida-
básicos da moral sexual conforme a lei na- sexual (v. 22) e bestialidade heterossexual des civis por enforcamento sob a teocra-
tural (Rm 1:18-32; 1Co 5:1).10 (v. 23). Levítico 20 trata de culto a Moloque cia (v. 2, 9-16, 27).15
(v. 1-5), ocultismo (v. 6, 25), amaldiçoar pai e As leis bíblicas contra incesto, bigamia
Cerimonial ou moral, mãe (v. 9), adultério (v. 10), incesto (v. 11, 12, e bestialidade, em Levítico, são claramen-
temporal ou permanente? 14, 17, 19-21), atividade homossexual (v. 13), te morais em sua natureza. Entretanto,
O fato de que Levítico 18 se refira às ati- bestialidade heterossexual (v. 15, 16), rela- os cristãos geralmente não compreen-
vidades sexuais ilícitas, pervertidas (raiz ção sexual durante a menstruação (v. 18) dem que as leis contra relações sexuais
tm’), àqueles que se envolvem com elas, e e carnes limpas e imundas (v. 25). deliberadas durante a menstruação
também sua terra (v. 20, 23-25, 27, 28, 30) (Lv 18:19; 20:18) também são morais.16 Isso
não significa que as proibições sejam leis Princípios do decálogo explica por que essa orientação aparece em
cerimoniais que regulam rituais de impu- Os princípios de alguns dos Dez Man- Ezequiel 18:6 entre uma lista de virtudes
reza.11 Um ritual/cerimonial de impureza é damentos aparecem em Levítico 18 e 20. morais.17 O fato de que as proibições contra
reconhecido pelos seguintes fatos: O culto a Moloque e a prática ocultista o sexo durante a menstruação constitua

MAR-ABR • 2016 | 19
um requerimento moral remove a força do v. 15, p. 591-604. Preuss resume: “Dentro do Antigo porque o sexo incestuoso durante a menstruação
Testamento, to’ebah se refere a alguma coisa no e o adultério incestuoso estão regulamentados
argumento de que os cristãos não as ob-
domínio humano que é eticamente incompatível, pelas leis sobre incesto, e todo adultério e o culto
servam porque sejam cerimoniais, e, por- seja como ideia ou ação. Acima de tudo isso, é a Moloque são categoricamente proibidos nos
tanto, as leis contra atividade homossexual irreconciliável com Yahweh, contrário ao Seu Dez Mandamentos (Êx 20:3-6, 14). Recentemente,
caráter, um tabu ético e cúltico. Dizer que alguma Bruce Wells argumentou que “com homem não
nos versos posteriores já não seriam váli- coisa é to’ebah é caracterizá-la como caótica e te deitarás, como se fosse mulher” em Levíticos
das. O fato é que os cristãos devem evitar oposta, portanto, perigosa, dentro da ordem 18:22 e 20:13 significa literalmente “na cama
social e cósmica [...] Pelo fato de o substantivo com a esposa” e se refere à atividade sexual por
o sexo durante a menstruação. A trans- (bem como o verbo) ter essa variedade de uso no um homem casado que transgride os direitos
gressão desse requerimento por meio de Antigo Testamento, é difícil chegar a uma única de sua esposa (“ The Grammar and Meaning
raiz significativa de tudo o que é caracterizado of the Leviticus Texts on Same-Sex Relations
omissão ignorante e inconsistente não jus- como to’ebah. Material sapiencial e legal é colocado Reconsidered”, monografia apresentada em
tifica a transgressão da proibição da ativi- junto ao material cúltico na grande maioria dos 24/11/2014, no encontro anual da Society of
exemplos” (p. 602). Em Levítico 18, onde a mesma
dade homossexual.18 Biblical Literature, San Diego, CA). Entretanto, se
palavra no plural (to’ebar) caracteriza todas as ’ishah, “mulher”, estivesse restrito à esposa do
ofensas proibidas anteriormente no capítulo homem mencionado em 18:22 e referido em 20:13,
Reflexos no Novo (v. 26, 27, 29, 30), o único caso classificado como
abominação (to’ebah) é a atividade homossexual
poderíamos esperar alguma indicação de que ela
Testamento (v. 22). Somente esse tipo de atividade é chamada
pertence a ele, como em 18:20. A palavra ’ishah por
si mesma pode significar qualquer mulher, como
Temos visto que as leis contra a ativi- de abominação em Levítico 20 (v. 13).
em 18:19. Portanto, a proibição se refere a todos os
dade homossexual em Levítico 18:22; 20:13
2
 queles que a executam são inculpáveis porque
A homens, não apenas ao homem casado.
os parceiros sexuais levam sua própria culpa de
aparecem em contextos que consistem ex-
9
 ompare 14:34; 19:23; 23:20; 25:2, a respeito das leis
C
sangue, ou seja, a responsabilidade por sua própria
que começam a funcionar quando os israelitas são
clusivamente de leis morais que dirigem o morte.
instalados em Canaã.
povo de Deus em um viver puro e santo, 3
 f. Donald Wold, “The Meaning of the Biblical
C 10
 f. James R. White e Jeffrey D. Niell, The Same Sex
C
Penalty Kareth” (Tese de doutorado, University
indicando que essas normas são perma- of California, 1978), p. 251-255; Jacob Milgrom,
Controversy: Defending and Clarifying the Bible’s
Message About Homosexuality (Mineápolis, MN:
nentes. O Novo Testamento afirma essa Leviticus 1-16: A New Translation with Introduction
and Commentary, Anchor Bible, v. 3 (Nova York: Bethany House, 2002), p. 66.
contínua aplicabilidade da santidade das Doubleday, 1991), p. 457-460; Baruch Schwartz, 11
 oy E. Gane, “Same-sex love in the ‘Body of
R
leis de Levítico. O concílio de Jerusalém, re- “The Bearing of Sin in the Priestly Literature”, Christ?’” em Christianity and Homosexuality
em Pomegranates and Golden Bells: Studies in ed. David Ferguson, Fritz Guy, e David Larson
latado em Atos 15, estabeleceu requeri-
Biblical, Jewish, and Near Eastern Ritual, Law, and (Roseville, CA: Adventist Forum, 2008), parte
mentos de estilo de vida para os cristãos Literature in Honor of Jacob Milgrom, ed. David P. 4, 66, 67, em resposta a John R. Jones, “In Christ
gentios. A orientação foi “que vos abste- Wright, David N. Freedman, e Avi Hurvitz (Winona There is Neither… Toward the Unity of the Body
Lake, IN: Eisenbrauns, 1995), p. 13. of Christ”, Christianity and Homosexuality, parte
nhais das coisas sacrificadas a ídolos, bem 4s, 5.
4
 qui, o termo hebraico ’et é aparentemente o
A
como do sangue, da carne de animais su- objeto direto marcador, mas alternativamente, 12
Jacob Milgrom, Leviticus 17-22; Jonathan Klawans,
focados e das relações sexuais ilícitas” poderia ser compreendido como a preposição Impurity and Sin in Ancient Judaism (Oxford:
“com”, em cujo caso a tradução seria “deitar com Oxford University Press, 2000), p. 21-31; Jay Sklar,
(At 15:29, cf. v. 20). A lista nesse verso resu- uma mulher”. Sin Impurity, Sacrifice, Atonement: The Priestly
me os grupos de proibições apresentados 5
Cf. Richard M. Davidson, Flame of Yahweh: Conceptions (Sheffield Phoenix Press, 2005),
em Levítico 17 e 18,19 que eram aplicáveis Sexuality in the Old Testament (Peabody, MA: p. 139-153. É verdade que uma emissão de sêmen
Hendrickson, 2007), p. 149, 150. gerava um ritual de impureza física menor
aos gentios que viviam entre os israelitas (Lv 15:16-18), mas isso era separado da questão
6
Ver Harry Orlinsky, “The Hebrew root SKB”,
(Lv 17:8, 10, 12, 13, 15; 18:26). Journal of Biblical Literature 63 (1944): 40.
moral quanto à proibição de incorrer em impureza
numa determinada situação.
Em Atos 15:20, 29, a palavra grega por- 7
“Deitar” traduz literalmente o singular de miskab, 13
 eus originalmente deu os Dez Mandamentos aos
D
neia, para “relações sexuais ilícitas” em ge- como sendo literalmente, “cama” ou lugar de
deitar. israelitas (Êx 19; 20; cf. Dt 5). Entretanto, de acordo
ral, abrange o conjunto de práticas sexuais com o Novo Testamento, eles têm aplicação
8
 ontra a interpretação de Jacob Milgrom,
C contínua para os cristãos, quer sejam judeus ou
proibidas em Levítico 18.20 Portanto, a proi- que interpreta o plural de miskab como uma gentios ou vivam dentro ou fora da terra de Israel
bição da atividade homossexual continua linguagem apenas para uniões heterossexuais (Rm 7:7, 12; 13:9; Tg 2:11; cf. Mt 19:18, 19).
ilícitas, limitando assim as proibições de Levítico
através da era cristã até o tempo presente. 14
 esmo as distinções básicas entre carnes “limpas”
M
18:22; 20:13 a atividades homossexuais incestuosas
Continua na próxima edição. – Leviticus 17-22: A New Translation with (próprias para comer) e “imundas” (impróprias
Introduction and Commentary, Anchor Bible, v. 3A “para comer), das quais Levítico 20 provê um
(Nova York: Doubleday, 200), 1569, 1786; citando lembrete (v. 25, cf. Lv 11:1-23, 29, 30, 40-45), não
Referências:
David Stewart – ver Roy Gane, Leviticus, Numbers, são cerimoniais, porque um animal impuro não
1
A palavra hebraica to’ebah, traduzida como NIV Application Commentary (Grand Rapids MI: pode ser feito puro por recursos rituais, e não há
“abominação” nessas passagens, pode se referir Zondervan, 2004), p. 326-328. Em Levítico 18, solução ritual para uma pessoa que transgride
a uma grande variedade de males que são o verso 22 está separado das leis sobre incesto uma ordem categórica contra comer animal
abomináveis ao Senhor. Sobre esse termo hebraico (v. 6-18). Se o verso 22 estivesse implicitamente impuro (compare v. 24-28, 31-40, que provê
e sua variação semântica, ver H. D. Preuss, em limitado a incesto, alguém poderia argumentar o purificação ritual do contato com vários tipos de
Theological Dictionary of the Old Testament , ed. G. mesmo com respeito às leis concernentes ao sexo esqueletos, pelo toque, por carregar ou comer um
Johannes Botterweck, Helmer Ringgren e Heinz- durante a menstruação (v. 19), adultério (v. 20) animal limpo que tiver morrido naturalmente).
Josef Fabry (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2006), e culto a Moloque (v. 21). Isso não teria sentido, O propósito dessas distinções é manter a pureza

20 | MAR-ABR • 2016
da pessoa, independentemente do santuário, em 16
 a mesma forma que geralmente não
D 18
Roy E. Gane, Leviticus, Numbers, p. 324-326,
harmonia com sua santidade pessoal em relação compreendem que também se trata de um respondendo a William J. Webb, Slaves, Women
a Deus (Lv 11:43-45; cf. Dn 1:8 – longe do templo requerimento moral (alicerçado no respeito & Homosexuals: Exploring the Hermeneutics of
destruído; Roy E. Gane, Leviticus, Numbers, pela vida, o princípio atrás de Êxodo 20:13: “Não Cultural Analysis (Downers Grove, IL: InterVarsity,
p. 206-209, 215). matarás”), mesmo para gentios cristãos, o abster-
2001), p. 168-170.
se de comer a carne de um animal do qual o
15
 obre lei moral fora dos Dez Mandamentos e
S sangue não tenha sido drenado no momento do 19
Levítico 17:3-9 – ofertas das quais o ofertante
princípios morais e éticos nas leis civis, ver Roy abate (At 15:20, 29; cf. Gn 9:4; Lv 17:10-12). comia, carnes sacrificadas aos demônios; 17:10-14
Gane, Leviticus, Numbers, p. 307, 308. Note – comer sangue; capítulo 18 – imoralidade sexual
17
 verdade que em Levítico 15:24 há uma solução
É
que, quando foi pedido que Jesus identificasse
ritual para o homem que faz sexo com uma em geral.
o grande mandamento na Torah, Ele não Se mulher durante o período da menstruação
referiu a um dos Dez Mandamentos, mas citou
20
Por exemplo, no Novo Testamento, porneia inclui
dela, mas isso se refere a um caso acidental,
Deuteronômio 6:5 e Levítico 19:18, leis morais incesto (1Co 5:1). O Novo Testamento concorda
inadvertido, ou à preocupação com a natureza do
permanentes dadas por meio de Moisés, que ritual de impureza física independentemente de com Levítico 18 e 20, condenando explicitamente
resumem as responsabilidades abrangentes de qualquer penalidade (Jacob Milgrom, Leviticus 1-16, o incesto (1Co 5:1) e a atividade homossexual
amar a Deus e ao próximo (Mt 22:36-40). p. 940, 941). masculina (Rm 1:17; 1Co 6:9; 1Tm 1:10).

Diga-nos o que achou deste artigo: Escreva para ministerio@cpb.com.br ou visite www.facebook.com/revistaministerio

Para pessoas interessadas em respostas da


Bíblia quanto à questão da homossexualidade

André Brunelli

0800-9790606 | www.cpb.com.br | CPB livraria


Se preferir, envie um SMS para o número 28908 com a mensagem CPBLIGA, e entraremos em contato com você.
MISSIOLOGIA Marcelo Dias Wagner Kuhn
Professor de missiologia Professor e diretor
na Faculdade de do programa de

Gentileza do autor

Gentileza do autor
Teologia do Unasp, missiologia no
Engenheiro Coelho, SP Seminário Teológico da
Universidade Andrews,
Estados Unidos

Missão adventista
do despertamento
ao engajamento
As tendências missionárias da igreja
para os próximos anos
(Final)

N
a primeira parte deste artigo (ja- membros da igreja a respeito das diversas 2. O alcance global da missão ad-
neiro-fevereiro de 2016), conside- oportunidades de missão, como o recen- ventista. O âmbito da missão adventis-
ramos a missão adventista desde te lançamento da revista Missão 360º. Ou- ta é “cada nação, tribo, língua e povo”.
seu início até o presente. Vamos agora tros programas existem há algum tempo, Cerca de 25 anos atrás, a Igreja Adven-
considerar dez tendências que, em nossa como o projeto Missão Global, que come- tista estabeleceu uma estratégia de mis-
compreensão, devem liderar os esforços çou em 1993. Nesse caso, os missionários são global destinada a alcançar o mundo
missionários da igreja nos próximos anos: pioneiros entendem a cultura, falam a lín- inteiro com o evangelho. Esse trabalho
gua local, vivem e trabalham dentro da di- incluiu a abertura de centros de estudo
1. Envolvimento pessoal. Conforme nâmica do povo a ser alcançado, a fim de voltados para promover relacionamen-
Gottfried Oosterwal notou há 40 anos, estabelecer novos grupos de cristãos. Eles tos e entendimento com as principais re-
“o movimento missionário adventista se ampliam o ministério de cura de Jesus, aju- ligiões mundiais. O escritório de Missão
mantém, ou diminui, com o conceito de dando as pessoas em suas necessidades fí- Global estabeleceu centros para com-
que missão significa alcançar aqueles que sicas e espirituais. preensão do budismo, hinduísmo, judaís-
não conhecem a Cristo, não por procura- Em uma esfera maior, cada membro da mo e islamismo. Estratégias para alcançar
ção, mas pelo envolvimento pessoal com igreja deve ser envolvido em uma “vigília de os pós-modernos e secularizados junto
familiares, povos, tribos e línguas”. Esse
1
oração” pela missão mundial. A vigília às massas urbanas também foram imple-
princípio se aplica em todo o mundo; ulti- de oração dos irmãos morávios, que durou mentadas recentemente.
mamente, talvez até mais, no Ocidente. ininterruptamente 100 anos, lembra a todos O projeto Missão Global instituiu a meta
O escritório da Missão Adventista na da natureza da batalha em que se encontra de estabelecer a igreja entre cada 1 mi-
Associação Geral tem criado iniciativas a missão e do poder de uma comunidade lhão de habitantes do planeta. Essa ten-
para desenvolver a consciência de líderes e que confia em Deus por meio da oração. dência foi vista nas recentes decisões da

22 | MAR-ABR • 2016
Associação Geral que visam a capacitação no território da janela 10/40 e o crescimen- as necessidades de missão. Em alguns lu-
de leigos e projetos em áreas com pouca ou to da população secularizada/pós-moderna, gares foram estabelecidos hospitais e es-
nenhuma presença adventista, como Pa- sobretudo nas zonas urbanas. O relato das colas; em outros, a obra de publicações
quistão, Mianmar e Brunei.2 Bruce Bauer, missões adventistas inclui uma história de prosperou. Missionários e líderes da igreja
diretor do departamento de Missão Mun- iniciativas lideradas pelo Espírito Santo, estudaram as melhores abordagens evan-
dial da Universidade Andrews, observa que bem como atividades individuais e gelísticas e trabalharam sob a orientação
“muito recurso é empregado onde a igre- institucionais. do Espírito Santo para alcançar pessoas
ja vem trabalhando por cem anos ou mais No passado, muitos obreiros interdivi- para Cristo. A maioria dos esforços foi des-
e pouco é voltado para os mundos muçul- são, bem como locais, foram chamados e tinada à obra missionária. Adaptações es-
mano, hindu, budista e chinês. Pouquíssi- enviados a partir do mundo em desenvol- truturais que favorecem movimentos e
mos missionários estão trabalhando onde vimento para trabalhar em lugares sub- expressões adventistas autóctones em
não há nenhum cristão ou apenas alguns desenvolvidos e, assim, várias abordagens áreas tradicionalmente desafiadoras têm
cristãos de alguma denominação. É hora missionárias diferentes foram implemen- sido implementadas, a fim de estimular a
de redirecionar nossos recursos para a ja- tadas. Esse sistema/estrutura mudou atividade missionária.
nela 10/40, onde vivem 63% da população consideravelmente desde então. Antes A União Norte-Africana Oriente
mundial, mas onde apenas 20% dos mis- de 1901, em algumas partes do mundo, Médio (Middle East and North Africa
sionários adventistas trabalham e somen- a igreja estabeleceu linhas de comuni- Union Mission – MENA), criada em
te 20% dos voluntários adventistas estão cação e responsabilidade para que a ex- 2011, mostra-nos um exemplo dessa
localizados”.3 pansão missionária avançasse de maneira flexibilidade nos últimos tempos. Outro
estruturada. exemplo é a Igreja Adventista na China.
3. Estruturas flexíveis de missão. A Há mais de 110 anos (1901-1903), cerca Como G. T. Ng, secretário-executivo
Igreja Adventista continua enfrentando de seis décadas após o início do movimen- da Associação Geral ressalta, esse não
© Kzenon | Fotolia

dois grandes desafios relacionados à mis- to adventista (1844), uma grande reorga- é um território desorganizado, mas
são: as oportunidades e “impossibilidades” nização ajudou a igreja a melhor atender fundamentado em “igrejas-mãe”. Sob

MAR-ABR • 2016 | 23
essas igrejas (34 em 2012) existe um Outro exemplo são os missionários não- para cumprir um propósito específico? O
conjunto de igrejas menores e grupos. residentes, ou pessoas e/ou grupos que que é “missão de curto prazo” e como ela
Entre diferentes atividades, as “igrejas- concentram sua atenção, seus recursos e pode ser usada para gerar compromisso
mãe” se tornam bases de envio de materiais para se aproximar de maneira de longo prazo para um trabalho missio-
missionários nessas áreas.4 criativa dos indivíduos, embora ainda vi- nário transcultural? Como uma multidão
vam em “casa”. Esse é o caso daqueles que de pessoas de diversas ocupações pode
4. Missão “de todo lugar para todo são especialmente treinados para trabalhar ser treinada para missões? Para quais mis-
lugar”. A mudança na concentração de entre os estudantes nas universidades da sões específicas elas poderão ser enviadas
membros está começando a produzir um América do Norte, América do Sul e Europa. ou envolvidas? Como podem ser mais bem
movimento reverso do Hemisfério Sul para Enquadram-se nessa modalidade também organizadas para uma missão estratégica?
o Norte, que redefine as noções anteriores as pessoas que se concentram em ajudar Como podemos integrar pioneiros, missio-
de países que “enviam” e “recebem” mis- os milhares de refugiados que vivem em nários de sustento próprio e funções insti-
sionários.5 O conceito “de todo lugar para áreas de fronteira, ministrando àqueles que tucionais para a divulgação mais eficaz do
todo lugar” promove a missão tradicional enfrentam traumas psicológicos, choques evangelho? Novas estruturas e platafor-
(Norte-Sul), a missão inversa (Sul-Norte), e relacionados à cultura religiosa e necessi- mas para a missão podem ser fornecidas
a missão paralela (Sul-Sul), de acordo com dades físicas. Imagine uma Associação pa- de modo que mais missionários sirvam em
os diferentes padrões de missão. trocinando uma “Escola de um Dia” em um áreas menos evangelizadas (por exemplo,
Conforme a igreja avança no século 21, campo de refugiados sírios na Turquia. Isso na Janela 10/40)? A igreja pode criar mais
novas formas de missão precisam ser de- também pode incluir serviços de relocação. oportunidades de serviço no continuum
senvolvidas. Ela precisa repensar seus Esse movimento tende somente a crescer entre obreiros interdivisão, Serviço Volun-
métodos missionários. Novos processos em um novo mundo globalizado e plano.7 tário Adventista (SVA) e/ou missionários de
e plataformas missionárias serão desen- sustento próprio? Quais métodos a igreja
volvidos para mobilizar os leigos, espe- 5. Parcerias missionárias ativas. O deve usar para recrutar pessoas específi-
cialmente em algumas das regiões mais fato de que a maior parte do dízimo ainda cas para tarefas especiais de missão? “Por
desafiadoras do mundo – lugares em que o vem do Norte global e a maior concentra- que os membros de uma igreja, ou de vá-
acesso aos tipos mais tradicionais de evan- ção de recursos humanos parece estar no rias pequenas igrejas, não devem se unir
gelização se tornaram impossíveis. Sul global leva a diferentes tipos de par- para sustentar um missionário em campos
Um exemplo disso são os missionários cerias. Não mais se pode dizer em missão estrangeiros? Se eles negarem a si mes-
de sustento próprio.6 Eles não apenas es- para, mas em missão com. “Nunca antes mos, eles podem fazer isso.”9
tão sendo recrutados, como também a atividade missionária foi mais premente Um híbrido de pioneiro/missionário de
estão sendo desenvolvidos entre as cen- ou a necessidade de uma parceria signifi- sustento próprio/estudante Valdense/Ser-
tenas de voluntários adventistas que se cativa entre Norte e Sul foi mais urgente.”8 viço Voluntário Adventista pode ser uma
mudaram para mercados de trabalho Grandes mudanças e transformações forma atraente e viável de a igreja conti-
emergentes e buscam compartilhar sua fé estão ocorrendo no mundo e elas têm um nuar sua expansão missionária. Os custos
nesses novos contextos. impacto direto sobre a igreja e a composi- poderiam ser reduzidos significativamente,
ção de seus recursos (huma- e mais pessoas de várias origens poderiam
nos e materiais) utilizados na ser incorporadas no serviço missionário. Isso
evangelização. Por isso, a igre- envolveria um missionário de sustento pró-
ja deve se esforçar para cum- prio ou um pioneiro que já trabalha em uma
prir sua missão, olhando para determinada região. Ele iria estabelecer a
várias abordagens e tipos de “plataforma” para o serviço missionário por
oportunidade missionária. meio de suas habilidades profissionais ou de
Assim, várias questões seu emprego. A igreja o ajudaria com um sa-
precisam ser feitas: Como vo- lário parcial, enquanto ele recrutaria, apoia-
luntários de curto prazo po- ria e cuidaria dos demais voluntários ou em
© Vadymvdrobot | Fotolia

dem se tornar missionários vários outros tipos de missão.


de sustento próprio de lon-
go prazo? Como eles podem 6. Comunicação transcultural in-
ser mais bem posicionados tencional. A comunicação é o cerne da

24 | MAR-ABR • 2016
evangelização. Para ser eficaz e chegar a mui­ pouco tinham a oferecer. Programas de cultura legítima e aprender a comunicar
tas pessoas, como parte de um plano doutorado promovidos pelo departa- Jesus dentro dela. A missão deve focalizar o
maior, a igreja continuará utilizando novos mento de Missão Mundial na Universida- experiencial, bem como a experiência cog-
meios de comunicação para evangelizar. As de Andrews são parcialmente responsáveis nitiva tradicional.
duas primeiras décadas deste século teste- por essas novas oportunidades. O novo
munharam o surgimento de novas formas programa de doutorado em missiologia 10. Perseguição. Mais cristãos foram
de se comunicar. Ao redor do mundo, exis- (DMiss) visa promover a discussão e tor- martirizados no século 20 do que em to-
tem alguns ministérios adventistas de tele- nar a formação mais acessível para os que dos os outros séculos anteriores juntos, e
visão e internet muito dinâmicos, mas eles não vão necessariamente seguir a carrei- as estatísticas recentes mostram um au-
terão que se tornar mais integrados com a ra acadêmica. O Journal of Adventist Mis- mento da perseguição religiosa. Casos de
estratégia global. Consequentemente, isso sion Studies também tem sido um veículo cristãos mortos por sua fé duplicaram em
deve levar a uma discussão sobre a elabo- para a divulgação do pensamento missio- 2013 (2.123 casos) em relação ao ano an-
ração da mensagem para atingir diferentes lógico adventista. No Brasil, o Unasp, cam- terior.14 Isso confirma a tendência de ter
públicos. Em outubro de 2013, os delega- pus Engenheiro Coelho, tem oferecido uma duplicado nos últimos seis anos o número
dos do Concílio Anual deram mais um pas- pós-graduação lato sensu em Missiologia, de países com ações terroristas motivadas
so em um programa quinquenal que visa com o objetivo de preparar pastores para por questões religiosas. De fato, o número
comunicar as crenças fundamentais da os crescentes desafios da evangelização. de nações com elevado nível de hostilida-
igreja usando a “mais clara – e frequen- des religiosas tem aumentado.15 Em mui-
temente inclusiva – linguagem”.10 Neste 9. Missão relevante nas grandes ci- tas partes do mundo, missionários estão
mundo tão diversificado em que vivemos, dades. A maioria das pessoas vive em enfrentando grande oposição. Por vezes,
uma linguagem mais clara e inclusiva sig- áreas urbanas. Contudo, nossas igrejas não religiosos extremistas criam grupos terro-
nificaria ser capaz de articular a fé adven- estão tradicionalmente localizadas nesses ristas, e isso deve ser levado em conta no
tista por meio de gerações, etnias, línguas contextos. Uma das consequências da ur- cálculo da missão.
e fronteiras geopolíticas. banização tem sido a desigualdade eco-
nômica, que é vista no desenvolvimento Conclusão
7. Missão integral. A mensagem de de luxuosos arranha-céus que se elevam Ainda há muito a ser feito em termos de
saúde tem sido parte do entendimento da sobre enormes favelas. Ambas as confi- engajamento missionário na Igreja Adven-
missão adventista desde o início. Entretan- gurações representam desafios às estraté- tista. A globalização tornou todos cidadãos
to, muitas vezes ela tem sido negligencia- gias tradicionais de missão. “Menos de 1 em do mundo. Contudo, uma questão perma-
da na prática. Missiólogos destacaram a 500 missionários estrangeiros trabalham nece: você se tornou um cristão globaliza-
necessidade de uma abordagem coeren- em favelas.”12 Ellen White descreveu cen- do? Os líderes adventistas de uma centena
te com a visão integral de ser humano de- tros de ministério integral, chamados por de anos atrás se sacrificaram para enviar
fendida pelos adventistas. Recentemente, ela de centros de influência, que deveriam missionários a lugares distantes. Esses ho-
a igreja anunciou a primeira fase de uma ser estabelecidos nas grandes cidades ao mens e mulheres poderiam facilmente ter
ampla estratégia para a divulgação da redor do mundo. Eles tinham o objetivo de justificado sua permanência em seus pró-
mensagem de saúde. Mark Finley levan- dar oportunidades aos membros da igreja prios países, uma vez que havia muitas ne-
tou esta questão: “O que aconteceria se para servir em suas próprias comunidades. cessidades locais. Entretanto, eles foram e,
70 mil igrejas adventistas do sétimo A missão urbana adventista não consegue por causa disso, atualmente a Igreja Ad-
dia abrissem as portas para ensinar [...] se concentrar exclusivamente na tentativa ventista está em todo o mundo.
bem-estar?” Ele acredita que “isso amplia- de atrair pessoas, como um ímã espiritual, Você é corajoso o suficiente para fazer
ria a base de uma abordagem evangelísti- das ruas para os templos. A principal tare- o mesmo e enviar obreiros para a janela
ca que vai além da pregação – alcançando fa da igreja deve ser a de inspirar, treinar 10/40? Ou está disposto a ir?16
os aspectos espirituais, mentais e físicos”.11 e mover seus membros às comunidades.13 Outras sugestões são:
Locais de trabalho, escritórios, fábricas e • Continuar promovendo uma estra-
8. Reflexão acadêmica sobre a mis- lojas devem ser vistos como “lugares sa- tégia coordenada de missão adventista –
são. Programas de pós-graduação em grados”, nos quais o Espírito Santo está um plano missionário estratégico de longo
missiologia estão sendo implementados vivo e atua. Não podemos nos dar ao luxo prazo, teologicamente, biblicamente e mis-
em continentes onde faculdades e uni- de lamentar a pós-modernidade. Em vez siologicamente apropriado e estrutural-
versidades adventistas tradicionalmente disso, devemos compreendê-la como uma mente prático.

MAR-ABR • 2016 | 25
• Criar diretrizes e políticas moder- • Empregar recursos de forma adequada de Ensino Médio com dormitórios. Nos últimos
anos, Shenyang se tornou base de uma agência
nas para ajudar a coordenar e definir pa- e eficaz, conforme os planos missionários da missionária local, enviando jovens missionários de
râmetros para o envio e recebimento de igreja, em diversas áreas difíceis ou não al- sustento próprio a dez localidades, dois dos quais
missionários. cançadas do mundo, como a Janela 10/40. estão em países estrangeiros.” G. T. Ng, “Seventh-
day Adventist Mission: The Shifting Landscape,”
• Escolher cuidadosamente, treinar e Ellen White afirma que “enviar missionários Journal of Adventist Mission Studies, 2012, nº 2, 40.
enviar estrategicamente equipes visioná- para um campo estrangeiro a fim de que fa- 5
 g, “Seventh-day Adventists Mission”, 39. “Dos
N
rias de missão. çam obra missionária sem a ajuda de recur- dez países que mais enviaram missionários cristãos
em 2010, três estavam no Sul global: Brasil, Coreia
• Constituir alguns conselheiros nos sos e meios, é como exigir os tijolos sem do Sul e Índia. A ‘segunda lista dos dez mais’
lugares em que a igreja procura inten- fornecer a palha”.17 incluiu outros seis países do Sul global: África do
Sul, Filipinas, México, China, Colômbia e Nigéria
cionalmente informações e opiniões, e Deus abençoou o movimento adven-
(tornando do Sul global responsável por nove
conectá-los com formas específicas de tista, e muitas pessoas ao redor do mun- colocações no ‘top 20’.)” Center for the Study
aplicação de novas ideias. do foram alcançadas com sua mensagem of Global Christianity, Christianity in Its Global
Context, 1970 -2020, 76.
• Estabelecer e acolher novas parcerias de esperança. Esse é principalmente o re-
6
 issionários de sustento próprio são aqueles que
M
com “ministérios de apoio”, a fim de am- sultado de membros que demonstram um utilizam sua própria profissão e suas habilidades
pliar a visão, a missão e o trabalho. estilo de vida coerente para aqueles que para trabalhar em áreas do mundo que não
estão abertas à evangelização tradicional, a fim
• Convidar missionários voluntários estão acompanhando seu testemunho de
de fazer discípulos e abrir congregações. Eles
para trabalhar em cooperação mais estrei- fé, que inclui sua compreensão profética, ajudam a igreja a estabelecer sua presença, mesmo
ta com as missões da igreja, das Associa- paixão pela justiça de Deus e zelo missio- que não trabalhem para a denominação. Não
são dependentes do sustento da igreja porque
ções, Uniões, Divisões e Associação Geral. nário. Para que essa experiência seja per- acessam áreas e povos não alcançados por meio
Desse modo, suas opiniões influenciarão petuada, a missão específica (Ap 14:6-12; de atividades que correspondem à sua educação,
experiência e habilidades.
os planos e decisões do dia a dia no que Mt 28: 18-20) dada por Deus à Igreja Ad-
7
 homas L. Friedman popularizou a ideia de que o
T
diz respeito ao serviço na missão. ventista do Sétimo Dia deve ser colocada
mundo é “plano” em seu livro O Mundo é Plano:
• Criar novas categorias entre missio- como prioridade pela liderança mundial da Uma Breve História do Século XXI (Rio de Janeiro:
nários interdivisão, por um lado, e volun- igreja em todo planejamento, suporte e Objetiva, 2007). Em sua análise da globalização, ele
usou a metáfora para descrever o mundo em nível
tários do SVA, por outro. Por exemplo: (a) implementação de trabalho. No entanto, de igualdade de condições em termos de comércio.
voluntários que vivem de renda ou dos be- acima de tudo, a missão deve ser abraça- 8
Ng, “Seventh-day Adventist Mission,” p. 45.
nefícios da aposentadoria; (b) missionários da por todos aqueles que professam Jesus 9
Ellen G. White, Obreiros Evangélicos (Tatuí, SP:
com um contrato híbrido (custos comparti- Cristo como Senhor e Salvador e se com- CPB, 1993), p. 466, 467.
lhados); (c) missionários enviados para um prometem a ser seus discípulos. 10
 lizabeth Lechleitner, “Annual Council Delegates
E
território/divisão diferente e apoiados por Review Suggested Wording Changes to 28
Referências: Fundamental Beliefs,” Adventist News Network,
igrejas locais e/ou Associações; (d) missio- última modificação em 22/10/2013, <archives.
nários enviados por instituições afiliadas à
1
 otfried Oosterwal, “Adventist Mission: After a
G adventistreview.org>.
Hundred Years”, Ministry (set. 1974): 26.
igreja, como editoras, Sistema Adventista 11
 nsel Oliver, “First Phase of Comprehensive
A
2
 lizabeth Lechleitner, “Adventist Treasurer Makes
E Health Ministry Will Promote Future Work”,
de Saúde, ou ADRA; e (e) leigos adventis- Case for Inclusion of Young Adults”, Adventist Adventist News Network, publicado em
tas recém-aposentados que iriam como News Network, <archives.adventistreview. 18/10/2013, <archives.adventistreview.org>.
org>, acessado em 20/7/2015. “Os dez países
missionários voluntários. listados como os que recebem o maior número de
12
Center for the Study of Global Christianity,
• Designar ex-missionários como men- missionários por milhão de habitantes, em média, Christianity in Its Global Context, 1970-2020, p. 85.
2.634 por milhão de pessoas. Por causa do grande  ary Krause, “Centros de Influência,” Foco na
G
tores para os novos.
13

número de cristãos, no entanto, juntos, eles Pessoa, 2013, nº 2, 14, 50.


• Ter um sistema de informações que receberam um missionário internacional para cada
32 não-cristãos, em 2010.” Center for the Study
14
 om Heneghan, “Christian Persecution Doubled
T
identifique rápida e adequadamente ex- in 2013, Reports Annual Survey by Open Doors”,
of Global Christianity, Christianity in its Global
obreiros interdivisão, voluntários e pessoas Context, 1970–2020, jun. 2013, 77. Huff Post Religion, última modificação em
23/1/2014, <www.huffingtonpost.com>.
que estejam dispostas ao trabalho missio- 3
Bruce Bauer, “O Desafio Restante”, Foco na
15
 ngelina Theodorou, “Key Findings About
A
nário, tão logo existam vagas disponíveis. Pessoa, 2013, nº 4, 47.
Growing Religious Hostilities Around the
• Treinar um grupo de missionários de 4
“ A Igreja Beiguan, em Shenyang, por exemplo, foi World”, Pew Research Center, 17/1/2014, <www.
iniciada em 1985 com apenas uma igreja e alguns pewresearch.org>.
longo prazo com habilidades avançadas
crentes. Hoje é um conglomerado de oito igrejas-
para o serviço de missão transcultural en- mãe e 130 igrejas-filhas, com mais de 7 mil membros.
16
Bauer, “O Desafio Restante”, p. 49.

tre povos menos evangelizados. As igrejas-mãe administram três asilos, um jardim 17


 llen G. White, Medicina e Salvação (Tatuí, SP:
E
de infância, uma escola primária e duas escolas CPB, 1991), p. 330.

Diga-nos o que achou deste artigo: Escreva para ministerio@cpb.com.br ou visite www.facebook.com/revistaministerio

26 | MAR-ABR • 2016
ÉTICA Rubén Montero
Secretário ministerial
da União Peruana do Sul

Gentileza do autor
O cristão e a sociedade
pós-moderna
Para viver os princípios éticos da Bíblia
o cristão precisa se posicionar obrigatoriamente
contra a ética relativista

O
século 20 começou com um otimis-
mo generalizado na capacidade do
homem para construir um mun-
do melhor. Esse sentimento caracteriza-
va a sociedade moderna. Acreditava-se que
a razão seria o instrumento que realiza-
ria a maravilhosa façanha de construir um
mundo em que os seres humanos pudes-
sem alcançar a felicidade e viver em har-
monia perpétua. Conforme transcorria o
século, ficava cada vez mais evidente a in-
capacidade da razão de construir o ideal de
modernidade e de uma sociedade de paz resposta quase exclusivamente emocio- chamar de: “Sinto, logo existo”. A prepon-
e harmonia.1 Duas guerras mundiais foram nal aos ideais frustrados da modernidade. derância dos meios de comunicação é es-
golpes devastadores contra a modernida- Tal condição molda o que tem sido chama- magadora, e as multidões são atraídas
de. Por meio da razão, o homem havia al- do de sociedade pós-moderna, o contex- para um universo virtual de imagens que
cançado o ápice da ciência e tecnologia, to em que vivemos, com suas grandezas e emocionam, aterrorizam, fazem rir e cho-
mas também se viu no limiar do inferno de misérias. Vejamos algumas das caracterís- rar. Parece que somente o que toca as fi-
um holocausto nuclear. A razão tinha dado ticas mais notáveis da pós-modernidade. bras da emoção é digno de ser seguido.
à humanidade extraordinárias conquistas A reflexão e a análise das ideias têm sido
na ciência, mas essas conquistas, longe Supremacia do sentimentalismo mi- relegadas ao ostracismo midiático.2 Essas
de levá-la ao ideal da sociedade perfeita, diático. Em nossa sociedade, o ideal ra- sucessões de experiências e emoções su-
© Sabine hürdler | Fotolia

voltaram-se contra o próprio homem. cionalista fundamentado no princípio perficiais produzem uma sociedade super-
Hoje, um sentimento de decepção aba- cartesiano “Penso, logo existo” tem sido ficial. Não importa tanto “ser” compassivo
la o coração da humanidade. Ele é uma substituído por outro que poderíamos como “parecer” compassivo. Essa série de

MAR-ABR • 2016 | 27
apelações superficiais e emocionais des- humano tem a capacidade de lembrar, ou exalta a solidariedade e a fraternidade, é
troem qualquer compromisso real e al- seja, tem memória poderosa, que registra um exemplo das grandes ideias modela-
truísta pelo bem-estar do próximo e da suas ações, boas ou más, enquanto o ani- doras da modernidade: a utopia de uma
sociedade em geral. É o que Lipovetsky mal, geralmente, enfrenta cada dia como sociedade perfeita, sem a luta das classes
tem classificado como a moral sentimen- se fosse o primeiro de sua existência, o que sociais, sem violência nem conflito.
tal midiática.3 torna impossível aprender com seus er- O pós-modernismo baniu o ideal da
ros e consolidar seus sucessos.5 Deixan- sociedade perfeita e apresentou em seu
Ética relativista e estética. Na socie- do de lado a pressuposição evolucionista lugar a realidade de uma sociedade frag-
dade pós-moderna, não há lugar para va- que fundamenta essa declaração, não há mentada, diversificada e questionadora.
lores absolutos. Cada pessoa constrói seu dúvida de que a história e seus protago- Isso é ainda mais evidente quando olha-
próprio sistema de valores. Bom e mau de- nistas exercem grande influência sobre a mos para o fenômeno das tribos urbanas:
pendem de cada ser humano. Esse relati- civilização moderna, o que somos, como grupos de indivíduos que reivindicam um
vismo inclusivo tem se estendido até as vivemos e em que acreditamos. A própria estilo de vida próprio, uma forma diferen-
artes, configurando uma espécie de rela- civilização não teria sido possível sem os te de se vestir, preferências musicais que
tivismo estético. Mario Vargas Llosa assim esforços de inúmeras gerações que contri- os unem e têm seus próprios ideais políti-
descreveu esse cenário: “A liberdade que buíram para a arquitetura e cultura atuais. cos e éticos. Punks, góticos, emos, hippies
as artes plásticas têm adquirido consiste Entretanto, essa convicção de sermos her- e satanistas são alguns desses grupos, que
em que tudo pode ser arte e nada o é. Que deiros de uma longa e penosa conquista caracterizam a paisagem social das nossas
toda arte pode ser bela ou feia, mas não cultural que se estende por séculos está agitadas cidades pós-modernas.
existe maneira de saber. Não temos o ‘câ- ausente na mentalidade pós-moderna.
non’ que anteriormente existia e que nos O ser humano do século 21 tem à sua dis- Conformidade com o superficial. Es-
permitia diferenciar o excelente do regu- posição os maiores avanços tecnológicos tamos tão acostumados com os confor-
lar e do execrável: hoje tudo pode ser ex- da história, desfruta da sociedade mais tos da vida moderna que não valorizamos
celente ou execrável, ao gosto do cliente.”4 opulenta que o mundo já conheceu e não a água potável que chega à nossa casa, o
tem a menor ideia de quanto custou essa chuveiro para se tomar um banho quente,
Um mundo sem passado. José Orte- conquista em termos geracionais. Ele pare- o fogão a gás que nos livra de precisar cor-
ga y Gasset dizia que a principal diferença ce interessado somente no aqui e no agora. tar lenha ou os carros que nos permitem
entre o ser humano e o animal é que o ser A constatação do pouco interesse de- viajar grandes distâncias em pouco tempo,
monstrado pelos pós-modernos nas ques- algo impossível antes. Ainda poderíamos
tões sociais, políticas e tecnológicas, nos mencionar muitos aspectos de nossa vida
leva a entender a atitude arrogante das que foram facilitados pelo rápido avanço
crianças que querem usufruir de todos os da tecnologia.
direitos possíveis sem ter a responsabili- Contudo, esses benefícios têm causado
dade de se comprometer com os deveres um efeito colateral pernicioso: um desdém
mais básicos de seu ambiente e com as ge- generalizado quanto ao desenvolvimento
rações futuras. da capacidade de lutar para conquistar va-
lores morais e superar desafios intelectuais
Fragmentação e tribalismo. Um dos e artísticos. Testemunhamos o predomí-
poemas mais famosos de Cesar Vallejo é nio de uma geração que não está dispos-
“Masa” [Massa],6 em que ele descreve a ta a se esforçar e tem horror ao sacrifício;
grande força que a humanidade teria se entretanto, na vida, há muitos propósitos
ficasse unida em favor de um objetivo co- desejáveis que exigem enorme sacrifício
mum. Seus versos falam de um comba- pessoal. Por exemplo, a construção de re-
tente morto no fim de uma batalha e lações saudáveis no casamento demanda
alguns dos seus companheiros implorando grande dose de perseverança e comprome-
que ele não morresse. Somente quando timento, mas o ser humano pós-moderno
© Christin Lola | Fotolia

todos se uniram, e gritaram contra a mor- prefere não investir esforço nessa dire-
te, o corpo morto reviveu, levantou-se ção, então é superficial na construção e
e começou a andar. Esse poema, que manutenção de seus vínculos pessoais e

28 | MAR-ABR • 2016
familiares. O cultivar do intelecto e o re- como o Estado (com seu poder para for- não é uma luz própria, é a que procede
finamento do prazer estético também mular e fazer cumprir as leis) e a família7. de uma fonte superior. Assim como a lua
exigem considerável esforço, porém a so- No entanto, voltando ao exemplo do sal, reflete a luz do Sol, o verdadeiro cristão re-
ciedade pós-moderna está contente com ele só é efetivo se mantiver sua proprieda- flete a luz de Jesus, que também declarou:
o superficial e o “light”. de de salgar. De igual modo, o cristão só “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8:12). Por isso,
pode ser o agente que evita a decomposi- a missão do cristão não é apenas iluminar, é
Os cristãos frente à ção da sociedade na medida em que é um também levar outras pessoas a se coloca-
sociedade pós-moderna genuíno cristão e vive à altura das exigên- rem em tal harmonia com Cristo que pos-
Quando o cristão vive os princípios éti- cias de sua profissão de fé. Ou seja, o cris- sam refletir sua luz imarcescível.
cos da Bíblia, se coloca obrigatoriamente tão, para ser efetivo, deve manter a É dessa maneira que podemos promo-
contra a ética pós-moderna fundamenta- semelhança com Cristo, da mesma forma ver uma revolução na sociedade: a revo-
da no relativismo moral. Não que o cristão que o sal deve conservar intacta sua capa- lução do amor, do perdão e da verdade. A
busque essa confrontação, mas, em reali- cidade de salgar. verdadeira essência da mensagem cristã
dade, ela é o resultado natural dos paradig- Ellen G. White disse: “Os seguidores de é mostrar que o estabelecimento do reino
mas opostos sobre os quais se constituem Cristo devem se tornar semelhantes a Ele de Deus começa por uma mudança real no
a pós-modernidade e a cristandade. – pela graça de Deus devem formar ca- coração de cada um de nós.
Qual é o papel dos cristãos nessa socie- ráter em harmonia com os princípios de
Referências
dade? Em que podemos contribuir numa Sua santa lei. Isso é santificação bíbli-
1
 ianni Vattimo, El fin de la modernidad: Nihilismo
G
sociedade que está estabelecida sobre os ca.”8 Nesse sentido, a maior contribuição
y hermenéutica en la cultura posmoderna
fundamentos frágeis do relativismo mo- que o cristianismo pode dar à sociedade é (Barcelona: Editorial Gedisa, 1987), p. 10.
ral? Alguns poderiam pensar que o me- apresentar um caminho alternativo ao do 2
 aniel Bell, Las contradicciones culturales del
D
lhor seria nos retirarmos definitivamente pós-modernismo relativista. Cabe aos cris- capitalismo (Azcapotzalco: Editorial Patria, 1989),
p. 110.
do mundo e manter uma atitude distan- tãos ser a luz de um mundo mergulhado na
3
 illes Lipovetsky, El crepúsculo del deber – La
G
te e indiferente diante do destino da so- obscuridade moral e espiritual. Jesus disse ética indolora de los nuevos tiempos democráticos
ciedade. No entanto, confrontando esse que essa luz são as “boas obras”. Parece que (Barcelona: Editorial Anagrama, 1994), p. 138.
pensamento, temos as palavras de Cristo: essa é “uma expressão geral que abrange 4
 ario Vargas Llosa e Gilles Lipovetsky, “Alta
M
cultura o cultura de masas?”, Letras libres, nº 130,
“Vós sois o sal da Terra; ora, se o sal vier a tudo o que o cristão diz e faz, porque ele é
jul. 2012, p. 10-16.
ser insípido, como lhe restaurar o sabor? cristão. Ela significa qualquer manifestação 5
José Ortega y Gasset, La rebelión de las masas
Para nada mais presta senão para, lança- externa e visível de sua fé cristã”.9 (Santiago: Editorial Andrés Bello, 1996), p. 45.
do fora, ser pisado pelos homens” (Mt 5:13). O cristão verdadeiro é um embaixador 6
César Vallejo, España, aparta de mí este cáliz,
Assim como o sal é necessário para evi- de uma sociedade superior, conduz-se nes- edição comentada (Madrid: Gráficas Mar-Car, 1937),
p. 141.
tar que os alimentos se estraguem, em sa sociedade terrena vivendo os valores de
7
John Stott, Contracultura cristiana: El mensaje
uma sociedade que se deteriora dia a dia sua cidadania celestial e, ao fazê-lo, torna-se del Sermón del Monte (Illinois: Ediciones Certeza,
são necessários esforços para impedir seu um farol de esperança para um mundo me- 1991), p. 66.
apodrecimento. Logicamente, existem ins- lhor. Por isso, Jesus afirmou: “Vós sois a luz 8
Ellen G. White, O Grande Conflito, p. 469.
tituições que ajudam na proteção social, do mundo”. Entretanto, a luz do cristão 9
John Stott, p. 67.

Diga-nos o que achou deste artigo: Escreva para ministerio@cpb.com.br ou visite www.facebook.com/revistaministerio

MAR-ABR • 2016 | 29
HOMILÉTICA Emilson dos Reis
Professor da Faculdade de
Teologia do Unasp, Engenheiro

Gentileza do autor
Coelho, SP

A aplicação do sermão
Não despreze esse item essencial para a eficácia da pregação bíblica

U
ma das atividades mais comuns no meus ouvintes, em meio às nossas lutas, portanto, o alimento não havia sido alte-
ministério é a preparação e entrega necessidades e desafios?” É preciso notar rado. Além disso, quando eram convida-
de sermões. Quando um pregador que os relatos bíblicos que abordam o pas- dos por algum amigo pagão para participar
escolhe preparar uma mensagem sobre sado e o futuro visam ensinar princípios de uma refeição na qual era servido esse
determinado texto bíblico, é necessário que devem ser adotados no presente. tipo de comida, eles aceitavam. Outros, po-
que ele primeiro conheça sua interpre- O valor da interpretação jamais deve ser rém, que haviam sido pagãos, viam nisso
tação e, depois, saiba como aplicá-la. desprezado, pois, se ela não existir ou for um comportamento pecaminoso e fica-
incorreta, há o risco de se fazer uma aplica- vam escandalizados (v. 7).2 Paulo, então,
A interpretação do texto ção que não condiz com a verdade, resul- recomendou àqueles que consumiam car-
Interpretar um texto significa desco- tando assim, em pessoas e congregações ne sacrificada a ídolos, que abrissem mão
brir o que ele significava para aquele que distantes do que foi planejado por Deus. de sua liberdade, por amor daqueles que
o escreveu – o que ele tinha em mente, É importante considerar também que, não a consumiam (v. 13). De modo geral, não
qual era sua intenção. A correta interpre- embora o verdadeiro sentido de um texto temos nenhuma dificuldade com esse as-
tação é feita respeitando-se determina- bíblico e o princípio nele contido não mu- sunto, pois o alimento que compramos não
das regras da hermenêutica e fazendo uso dem com o passar do tempo, sua aplicação foi oferecido a algum ídolo antes de ser
de ferramentas apropriadas. Uma dessas depende da época, da cultura, das circuns- enviado ao mercado. Contudo, o princípio
regras nos lembra de respeitar o contex- tâncias e das necessidades dos ouvintes.1 permanece, exigindo que consideremos o
to, outra nos adverte a levar em conta o Como exemplo, citamos 1 Coríntios 8. Nes- bem-estar espiritual de nossos irmãos aci-
gênero literário que foi utilizado, ainda se texto, o apóstolo Paulo apresenta um ma de nossa liberdade individual.
outra, recomenda considerar o conjun- princípio e sua aplicação. O princípio decla-
to das Escrituras Sagradas sobre deter- ra: quando fazemos uso de nossa liberdade A aplicação do texto
minado assunto e não apenas um texto e saber, de maneira que nosso irmão fraco Enquanto a interpretação do texto
isolado. Enfim, há diversas regras que po- tenha sua consciência perturbada e, assim, atinge nosso intelecto, a aplicação deve
dem ser encontradas em livros que tra- tropece e pereça, estamos pecando con- contribuir para moldar nosso caráter e
tam desse assunto. As ferramentas, por tra esse irmão e contra Cristo, que por ele nossa conduta. A primeira está relaciona-
sua vez, consistem nas obras preparadas morreu. A aplicação, para aqueles que re- da ao saber e a segunda, ao ser e fazer.3
para ajudar na compreensão do texto bí- ceberam essa carta apostólica, referia-se A tarefa da pregação é basicamente a de
blico: dicionários bíblicos e teológicos, en- à comida sacrificada aos ídolos. aplicar o texto à vida dos ouvintes. Se o
ciclopédias bíblicas, comentários bíblicos, Nas cidades pagãs, a carne podia ser en- pregador não fizer uma aplicação do tex-
concordância bíblica, etc. contrada nos mercados e nos templos. A to, então podemos chamar sua fala de aula,
Depois que se descobre o significado carne vendida nos templos era mais barata, palestra, discurso, comentário bíblico fala-
original do texto por meio da interpreta- por isso, alguns cristãos, para economizar, do, ou de outro nome qualquer, mas nunca
ção, ele precisa ser aplicado. Aplicar sig- consumiam esse alimento sem maior preo- de sermão. Ele mesmo, o que fala, de fato,
nifica extrair dele a lição espiritual para a cupação. Eles consideravam que, embora a não é um pregador, mas apenas um orador,
vida presente. O pregador deve perguntar: carne tivesse sido oferecida em sacrifício, palestrante ou algo equivalente. Sem apli-
“Como este texto me ajuda, bem como os de fato, os ídolos eram inexistentes (v. 4); cação, a mensagem deixa de ser relevante,

30 | MAR-ABR • 2016
porque o ouvinte geralmente não perce- que simplesmente não sabem como apli- sejam tão óbvias que se torne desnecessá-
be como aquela porção bíblica se relacio- car o ensino bíblico à sua vida se não hou- rio que o pregador faça a aplicação. Algu-
na com sua vida. ver a orientação de um pregador.4 mas vezes, aquilo que as pessoas percebem
A aplicação tem sido comparada a uma Como elaborar uma aplicação eficaz do no texto, sem que o pregador lhes diga cla-
ponte entre o mundo bíblico e o mundo texto bíblico? O pregador pode seguir as ramente, poderá produzir efeito maior.
atual. Para construí-la, o pregador deve co- seguintes sugestões: • A aplicação geralmente é específica e
nhecer bem as duas margens que ela irá • A aplicação deve brotar naturalmen- definida, mas há ocasiões em que pode ser
ligar: o texto bíblico e seus ouvintes. Se te do texto que estiver sendo estudado. apresentada mediante sugestão, como é o
ele conhecer e souber interpretar corre- Os ouvintes precisam perceber que ela caso de uma ilustração que, por si mesma,
tamente as Escrituras, mas não entender está contida no princípio exposto na por- aplique uma determinada verdade.
a natureza humana, as lutas, provas, ten- ção bíblica. Eles precisam ver na aplicação • Se houver na igreja um problema mui-
tações e condições em que o povo se en- o selo de “Assim diz o Senhor”.5 to delicado, talvez o melhor seja não ser
contra, então a aplicação será semelhante • A aplicação pode ser vista desde o pró- tão específico na aplicação, confiando na
a uma ponte inacabada, que começou a ser prio título do sermão, que deve ser cati- aplicação feita pelo Espírito Santo.8
construída a partir de uma das margens vante para o ouvinte. Assim, se você for • Ao aplicar, é necessário deixar claro
e que por qualquer razão foi abandonada pregar sobre Gênesis 12, em lugar de inti- que nossa obediência à Palavra resulta-
no meio caminho, sem qualquer serventia. tular como “O chamado de Abraão”, esco- rá em bênçãos e crescimento espiritual.9
O mesmo ocorrerá se o pregador estiver lha “Saindo da zona de conforto” ou algo
familiarizado com seus ouvintes e conhe- parecido, com uma linguagem atual. Como vimos, a aplicação é um aspecto
cer a natureza humana, mas desconhecer • A aplicação deve ser feita, sempre que essencial do sermão. Sem ela, a exposição
o correto ensino bíblico. Como pregadores, possível, desde o início da exposição até da Palavra nem sequer pode ser chamada
precisamos conhecer bem as Escrituras, seu clímax, na conclusão. de sermão. Ela se constitui uma ponte en-
a humanidade e os dias em que vivemos. • A aplicação mostra como a verdade bí- tre o mundo bíblico e o contemporâneo.
Para tanto, é relevante ter contato direto blica se relaciona à experiência dos ouvin- A fim de que expresse a vontade de Deus
com o povo, inclusive por meio da visitação. tes, a seus problemas pessoais. para nossa vida, deve ser precedida de cui-
Em realidade, o principal responsável • A aplicação faz o ouvinte ver o que dadosa interpretação. Embora o Espírito
pela aplicação da Palavra ao coração hu- deve ser feito, apresenta sugestões prá- Santo seja o grande aplicador da verdade,
mano é o Espírito Santo. Ele que produ- ticas de como fazer e o persuade a agir.6 com muita frequência Ele se vale do pre-
ziu as Sagradas Escrituras, preservou-as • A aplicação não deve ser apenas ne- gador como Seu agente para moldar a vida
através dos séculos, fez com que o prega- gativa, indicando o que não fazer. e o caráter dos ouvintes.
dor as entendesse e atua a fim de aplicá-las • A aplicação deve ser feita de maneira
Referências
no coração dos ouvintes. Ele faz sua obra que o ouvinte perceba os aspectos em que 1
Jerry Stanley Key, O Preparo e a Pregação do
antes, durante e depois da pregação. O Es- precisa mudar e não apenas a parte Sermão (Rio de Janeiro: JUERP, 2001), p. 294.
pírito motiva o pregador a escolher cer- que lhe é favorável, aquela que ele obede- 2
Warren W. Wiersbe, Comentário Bíblico Expositivo
to texto ou tema específico e direciona as ce. Ela deve atingir seus pontos fracos.7 (Santo André: Geografia Editora, 2006), 5:777. O
assunto de comer ou não da comida sacrificada aos
pessoas ao local de culto. Durante a prega- • Alguns assuntos podem ser aplicados
ídolos era motivo de grande discussão e desavença
ção, Ele traz lembranças, revela necessida- aos ouvintes em geral, outros só podem na igreja do primeiro século. Ele também é tratado
em 1 Coríntios 10 e em Romanos 14.
des, desperta a consciência, faz sugestões, ser aplicados a classes específicas (líderes,
move a vontade e vivifica o coração. De- mulheres, jovens, etc.).
3
 ruce Wilkinson, As Sete Leis do Aprendizado
B
(Belo Horizonte: Betânia, 1998), p. 106.
pois do sermão, no transcorrer da vida, o • Algumas vezes é melhor utilizar a ex- 4
 ey, 289; James Braga, Como Preparar Mensagens
K
Espírito Santo dá forças para mudar e res- pressão “você” e não “nós”, pois assim o Bíblicas (Deerfield, FL: Vida, 1986), p. 191.
taura o homem à imagem de Deus. En- ouvinte é atingido mais direta e pessoal- 5
Wilkinson, p. 116.
tretanto, frequentemente Ele se vale dos mente. Outras vezes é melhor o pregador 6
John A. Broadus, Sobre a Preparação e a Entrega
pregadores e os usa como seus agentes se incluir, empregando a primeira pessoa de Sermões (São Paulo: Custom, 2003), p. 228.

para fazer a aplicação. Foi o que ocorreu do plural. 7


Key, p. 293.

com os profetas, os apóstolos, com João • Pode acontecer que em alguns pontos 8
Ibid., p. 285.
Batista e com o próprio Jesus. Há ouvintes do sermão as lições que advêm da Bíblia 9
Ibid., p. 286.

Diga-nos o que achou deste artigo: Escreva para ministerio@cpb.com.br ou visite www.facebook.com/revistaministerio

MAR-ABR • 2016 | 31
ALÉM DAS FRONTEIRAS

Conduzidos
pelo Senhor
O melhor lugar para nós é aquele
no qual o Senhor deseja que estejamos

E
stou indo para minhas aulas de idio- Em alguns momentos, é fácil viver aqui; em Graças a Deus, essa pergunta nunca
ma, um dos três mais falados no país. outros, é difícil. Vivemos situações felizes e me trouxe angústia nem preocupação,
As pessoas me olham, não se inco- outras tristes. Passamos por circunstâncias porque uma das razões pelas quais estou
modam com meu silêncio, sabem que sou diferentes daquelas às quais estávamos aqui é a certeza de que o Senhor deseja
estrangeiro. A temperatura está -2ºC e es- acostumados. Por exemplo, nos últimos que eu esteja neste lugar. E o melhor lu-
tou congelando. Perguntas vêm à minha meses, vivemos em sete lugares diferen- gar para nós é aquele no qual Deus dese-
mente: Que faço aqui? Quem me enviou? tes (sem contar os dias que passamos em ja que estejamos.
Como isso aconteceu? quartos pequenos, hotéis ou aeroportos), Nosso desafio é muito grande, nossa
Chegamos, minha família e eu, para ser- e tenho concedido “grandes entrevistas” função é coordenar o trabalho em todo o
vir ao Senhor na Ásia Central, e passamos a policiais civis e militares, além de interro- sul do país. Durante 2015, abrimos uma es-
um ano trabalhando numa cidade media- gatórios à polícia secreta. Há também a di- cola de idiomas e de esportes. Assim, po-
na. A paisagem é linda, a região é rodea- ficuldade para se fazer compras, pois não demos dedicar algum tempo a crianças,
da por montanhas e tem um clima bem entendemos nada do que se fala. Pior ain- jovens e adultos.
variado. No verão, a temperatura chega da é que, depois de alguns meses, quando Um casal de amigos, únicos jovens da
aos 40 graus e no inverno pode chegar a começamos a entender alguma coisa, des- igreja, compartilhou conosco, talvez sem
20 graus negativos. cobrimos que temos que aprender mais dois saber, uma das frases mais lindas que ouvi:
As pessoas são muito boas. Retraídas, idiomas, a fim de manter boa comunicação. “Faz anos que estamos orando por vo-
não se expressam muito publicamente, No entanto, além desses detalhes, a cês, mesmo sem conhecê-los. Vocês são a
pois é deselegante falar alto. Contudo, no adaptação tem sido gradativa e positiva. resposta das nossas orações.” Não posso
diálogo pessoal e no lar, são muito alegres Estamos contentes por estarmos aqui. Há deixar de pensar nesta frase: “Vocês são
e expressivas. Em uma mesma cidade, há poucos dias, enquanto visitávamos alguns a resposta das nossas orações.” Será que
basicamente três culturas diferentes que familiares na América do Sul, deparei-me estamos à altura delas? Será que estamos
convivem entre si, o que dificulta um pouco com um grande desejo de voltar para con- à altura do que o Senhor deseja fazer por
o aprendizado dos costumes locais. tinuar nossas atividades. meio de nós?
A cidade tem um grupo de 15 adventis- É claro que em minha mente, várias ve- Deixo com você, querido colega, a mes-
tas. A realidade vivida por aqui é um grande zes surgiu a pergunta: “Que faço aqui?”, es- ma pergunta. Sem dúvida seu ministério é
desafio, pois, neste lugar, a igreja definha a pecialmente quando sentimos dificuldade a resposta a diversas orações. Estará você
cada ano. Os estrangeiros formam a tota- de nos comunicar com as pessoas. Não es- à altura dessas orações? Estará à altura
lidade da igreja e, com o passar do tempo, tou falando de uma conversa casual, mas de do que o Senhor deseja fazer por seu in-
eles voltam ao país de origem ou morrem. um diálogo profundo, que nos permite uma termédio?
© Olivier Le Moal | Fotolia

Durante este ano, estamos conhecen- comunicação verdadeiramente pessoal, sem


do um novo lugar. Nossos sentimentos e tradutores. É bem verdade que eles ajudam, R. P.
emoções têm variado ao longo dos meses. mas também limitam a conversação. Missionário na Ásia Central

32 | MAR-ABR • 2016
DIA A DIA Ronaldo Alberto
de Oliveira
Secretário ministerial da

Gentileza do autor
Associação Paulistana

O pastor em ação
Dicas para maximizar a eficácia de seu ministério

I
niciei meus estudos na faculdade de Teo- congregações. No decorrer de meu minis- sempre gostava de enfatizar que estava
logia com apenas 17 anos. Desde o princí- tério, percebi que durante esse período a ali para trabalhar em parceria com os líde-
pio, eu sonhava em ser pastor de grandes procura pelo pastor e os problemas para res. Além disso, quando o pastor se depa-
igrejas. Esse desejo persistiu durante todo solucionar ocorrem com menor frequência. ra com uma igreja numerosa, considerando
o período da graduação e nos primeiros Depois, eu planejava visitas a cada o fato de que a comissão de uma grande
anos de meu ministério. Contudo, os de- semana, e procurava estar presente em congregação pode facilmente ultrapassar
safios e as realidades das demandas pas- momentos específicos das necessidades 50 membros, é proveitoso trabalhar
torais nos primeiros distritos me fizeram dos membros – enfermidade, falecimen- com pequenas subcomissões das dife-
abandonar esse ideal. to de um familiar, nascimento, etc. rentes áreas/departamentos, as quais
No entanto, parece que o sonho deixado podem submeter suas propostas à Co-
de lado era justamente o que Deus havia pla- Púlpito – Organizar os cultos e plane- missão da Igreja, facilitando o trabalho
nejado para mim porque, depois de 11 anos jar as programações são grandes desafios, administrativo.
de ministério e pelos 20 anos seguintes, tive especialmente nas grandes congregações.
a oportunidade e o privilégio de pastorear Seja pela quantidade de pessoas que fre- Foco evangelístico – O tempo e a
quatro grandes igrejas. quentam a igreja ou pelo perfil dos ado- energia gastos para manter uma igreja
Durante esse período aprendi alguns radores. Essa área deve sempre merecer em atividade podem fazer com que facil-
“segredos” que me ajudaram no exercício atenção especial. Precisei dedicar muitas mente se perca o foco evangelístico. Para
do ministério e que gostaria de comparti- horas ao preparo de sermões, pois hou- que isso não ocorra é preciso que o pastor
lhar com vocês. Eles são simples, eficazes ve ocasiões em que preguei três sermões seja o responsável por manter constante-
e se aplicam a qualquer realidade distrital: novos numa semana! Ter um calendário de mente o senso missionário diante da igreja.
púlpito anual e apresentar temas em série Treinamento evangelístico, iniciativas mis-
Comunhão com Deus – O pastorado são excelentes recursos. sionárias, pequenos grupos e ações sociais
não é uma tarefa meramente humana. Se são algumas das atividades nas quais os
essa verdade for esquecida, existe o risco Relacionamentos – Dependendo do ta- membros gostam de se envolver. As igre-
de se fracassar completamente. Ter rela- manho da igreja ou do distrito, corre-se o jas podem ainda patrocinar o envio de jo-
cionamento diário com Deus, no começo risco de os relacionamentos se tornarem im- vens como missionários. Em 2009, a igreja
do dia, é essencial para o desempenho de pessoais. Para tentar diminuir essa tendên- que eu pastoreava enviou uma jovem para
nossa vocação. Se isso não for a prioridade cia, eu procurava conhecer o nome da maioria Cabo Verde, e a manteve ali por um ano
do dia, acaba sendo esquecido em meio a dos membros, das crianças e dos convidados. realizando projetos evangelísticos.
tantas tarefas que precisam ser realizadas. Chamar alguém pelo nome é algo de que to-
dos apreciam. Procure se relacionar com os Pastorear igrejas representa um desafio
Visitação – O plano da visitação não jovens, adolescentes e crianças. Os pais ficam proporcional ao tamanho que elas têm. Em
pode ser negligenciado, mesmo em gran- felizes ao perceber que seus filhos são bem toda e qualquer situação, o convívio com
des igrejas e nos grandes centros urbanos. atendidos pelo pastor da igreja. a realidade congregacional é uma ótima
Ao chegar a um novo distrito, eu procura- oportunidade para aperfeiçoar e preparar
va visitar, nas primeiras semanas, o maior Trabalho em equipe – Ao reunir-me o pastor para as demandas cada vez mais
número possível de líderes e membros das com a liderança de uma nova igreja, eu complexas do ministério.

MAR-ABR • 2016 | 33
RECURSOS Wellington Barbosa
Editor da revista Ministério

William de Moraes
O caminho da restauração
Livro apresenta abordagem integral
para prevenção, tratamento e
cura da depressão

E
mbora a depressão seja uma das prin- maravilhas da mente hu- apresenta quanto às abor-
cipais doenças de nossos dias, mui- mana, os perigos ocultos da dagens alopática e natural
tas pessoas ainda desconhecem as depressão e as causas da para o combate à depres-
informações básicas sobre ela. Entre cris- doença. Por sua vez, os são. Como médico, ele não
tãos, muitos confundem essa enfermida- capítulos quatro, cinco e ignora a função dos me-
de com tristeza, falta de fé e, inclusive, ação seis apresentam como os dicamentos. Contudo, ele
demoníaca. Neil Nedley, em seu livro Como tratamentos nutricionais, o faz na perspectiva de
Sair da Depressão: Prevenção, Tratamen- as mudanças no estilo de que o uso de remédios é
to e Cura (CPB, 2009, p. 272), ajuda seus lei- vida e o uso de ervas e recomendável predomi-
tores a se desvencilharem da ignorância medicamentos podem nantemente no início do
quanto ao assunto, além de sugerir uma agir de maneira conjunta para superar a tratamento. Longe de pensar apenas na eli-
estratégia de superação da doença. O au- condição depressiva. Já os capítulos sete e minação dos sintomas, o autor sugere uma
tor tem doutorado em medicina pela Uni- oito se dedicam a retratar o estresse e reprogramação de vida, que proporcione
versidade de Loma Linda, Estados Unidos. como ele pode desencadear o processo de- cura e minimize os perigos de uma recaída.
Em sua trajetória profissional, atuou du- pressivo. O capítulo nove foi separado para Por último, destaca-se a visão integral
rante quase 20 anos nas áreas de medici- explicar de maneira mais detalhada a rela- de ser humano defendida pelo autor. Sem
na interna, prevenção e estilo de vida, em ção entre o lobo frontal, um dos cinco lo- fazer proselitismo, mas sendo muito claro
Ardmore, Oklahoma. Ele ministra cursos de bos do córtex humano, e a incidência da quanto às suas crenças cristãs, Nedley in-
educação continuada para médicos e pro- depressão. O último capítulo sugere uma centiva os leitores a considerar, além dos
fissionais de saúde em todo o mundo, além estratégia a ser desenvolvida em 20 sema- aspectos físicos e mentais, a importância da
de apresentar seminários para as mais di- nas para vencer a doença. dimensão espiritual, conforme retratada na
versas audiências. Muitos motivos fazem dessa obra algo Bíblia, no processo de cura da doença. Ele
Nessa obra, Nedley se propõe a compar- singular. Em primeiro lugar, por ter sido es- afirma que a chave para o sucesso no tra-
tilhar de maneira didática seu método para crita por um médico bem-sucedido no tra- tamento é “colocar o corpo dentro do equi-
curar a depressão. O que torna seu plano tamento da depressão, suas orientações líbrio que Deus originalmente planejou, com
diferenciado é que o autor sugere o uso de estão distantes de qualquer tipo de abor- dieta apropriada e decisões pelo estilo de
uma abordagem integral do ser humano dagem superficial ou contrária aos precei- vida e, acima de tudo, pelo estudo de Sua
para superar a doença. A partir de uma am- tos da boa medicina. Existem atualmente Palavra e pela confiança em Sua direção”
pla pesquisa, evidenciada pelas 958 citações centenas de livros que falam sobre a doen- (p. 130).
bibliográficas presentes no livro, ele discute ça, mas muitos deles são limitados em sua Como Sair da Depressão é indicado para
as causas, os sintomas e os diversos elaboração. Com profundidade acadêmica, toda pessoa que deseja conhecer mais a
tratamentos para esse que tem sido con­si­ Como Sair da Depressão é acessível a to- respeito dessa doença, estar mais bem
derado o “mal do século”. dos os perfis de leitores, alcançando desde preparado para acompanhar e aconse-
Como Sair da Depressão contém leigos no assunto até psicólogos, médicos, lhar pessoas que estejam sofrendo des-
10 capítulos, repletos de quadros informa- conselheiros e pastores. se mal, além de ajudar o próprio leitor a
tivos que resumem os principais conceitos Outro ponto destacável do livro está minimizar os riscos de ser acometido pela
abordados. Os três primeiros exploram as relacionado ao equilíbrio que Nedley depressão.

34 | MAR-ABR • 2016
PONTO FINAL

Gatilhos da depressão

Daniel Oliveira
O
termo depressão, que pode ser utilizado para disso, o sistema estrutural mais amplo da sociedade como
designar tristeza comum, síndrome, sintoma, crenças, valores e cultura também estão envolvidos, ine-


doença ou um conjunto delas, está cada vez vitavelmente, de forma direta ou indireta, com a qualida-
mais presente na sociedade contemporânea, retrata- de de vida individual e do grupo no qual se está inserido.
do na literatura como fenômeno complexo, com origens Por esse motivo, estudos têm revelado que a religião
biológicas, psíquicas e sociais. Entretanto, quais são os e a família, como contextos de desenvolvimento, podem
mecanismos geradores de tensão e estresse que po- funcionar de forma ambivalente, o que significa que po-
dem funcionar como gatilhos para essa enfermidade? dem ser bons ou ruins para a saúde mental da pessoa,
Segundo Bronfenbrenner e Morris (Handbook of dependendo de como são utilizadas e percebidas pelo
Child Psychology, 1998), os quatro elementos envolvi- Como ministros indivíduo. Por exemplo, família e igreja funcionam como
dos nessa dinâmica são a pessoa, o contexto, o tempo do Senhor, solo psicológico de modo a atender diferentes necessi-
e o processo. Isso indica que a depressão, como expe- temos a dades dos seres humanos, proporcionando significado
riência humana, pode extrapolar o nível exclusivamen- responsabilidade à vida, senso de pertencimento e segurança. Além dis-
te biológico de análise. de construir so, servem como suporte em momentos de crise, favo-
Assim, entre as características desejáveis nas relações relações mais recendo estratégias para lidar com diferentes tensões
humanas para minimizar a possibilidade de desenvolver respeitosas, em diversas situações da existência.
a doença, encontram-se: singulares, Em contrapartida, ambos os contextos podem pro-
(1) O envolvimento conjunto das pessoas em ativida- saudáveis e mover situações percebidas e identificadas como estru-
des que lhes sejam significativas. prazerosas turas que oferecem suporte e acolhimento insuficientes,
(2) Atividades regulares e com pessoas que o indi- no exercício reduzindo o espaço livre necessário para saúde da pes-
víduo sente que lhe querem bem, não sendo suficien- do ministério soa e do grupo, ou frustrando suas expectativas de acei-
te mera repetição mecânica ou friamente profissional. pastoral” tação e valorização na família e na igreja.
(3) Diálogo bidirecional, ou seja, as pessoas precisam Essas atitudes podem contribuir para gerar, agravar
ter oportunidade de se sentir seguras e à vontade para ou prevenir situações estressantes, as quais possibilitam
se expressar sem o temor constante de serem conde- disparar algum dos diversos gatilhos para a depressão,
nadas e rejeitadas. inclusive entre líderes, na igreja e na família. A conscien-
(4) Relações afetivas positivas, genuínas e de con- tização disso tudo nos alerta, como ministros do Senhor,
fiança mútua. para a responsabilidade de, pela graça de Deus, construir
(5) Equilíbrio de poder entre as pessoas, seja entre relações mais respeitosas, singulares, saudáveis e praze-
pais e filhos ou líderes e liderados, minimizando a sen- rosas no exercício do ministério pastoral.
sação de insegurança nas relações hierárquicas institu-
cionais ou familiares.
Demóstenes Neves da Silva
As experiências imediatas ou indiretas da pessoa fazem Doutor em Psicologia, professor do Seminário Adventista
parte de um sistema social em camadas interligadas. Além Latino-americano de Teologia, campus Cachoeira, BA.

MAR-ABR • 2016 | 35
Indispensável
para o estudante da bíblia
Aprenda a estudar efetivamente e entender a mensagem da revelação de Deus.

Neste livro, George Knight


reconta a história do grande
desapontamento e investiga a
dinâmica vital que tornou o
Movimento Milerita um marco
histórico para o cristianismo.

Esta obra foi escrita para


pessoas que, às vezes,
encontram dificuldades para
compreender certos textos
da Bíblia. Este livro ajudará você
a firmar sua fé no terreno
sólido da Palavra de Deus
e tornar-se vitorioso pelo
sangue do Cordeiro.

André Brunelli

Ligue
0800-9790606 Acesse
Horários de atendimento: Segunda a quinta, das 8h às 20h www.cpb.com.br
/casapublicadora Sexta, das 8h às 15h45 / Domingo, das 8h30 às 14h Ou dirija-se a uma CPB livraria

Se preferir, envie um SMS para o número 28908 com a mensagem CPBLIGA, e entraremos em contato com você.