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inet Dabinn denon . juve? siti 466202, CORNELIUS CASTORIADIS AS ENCRUZILHADAS DO LABIRINTO IV A ascensiio da insignificdncia Tada Regina Veneer PAZ ETERRA Antropologia, filosofia, politica* Esta sétie de cmferéncias ten como titulo “Para uma eign ‘la geral do homem”. Este titulo ndo visa uma ciéncia no sent Xo contempordineo e um tanto degradado do term — compu- lagéo algoritmica e manipulagdo experimental — ou ento no sentido de eéncia “postiva’, da qual qualquer trago de reflexdo teria sido culdadosamente apagado, ¢ sim em seu sentido ant 9, que se tefere ao saber concernente a0 homers © que inci todos os enigmas que a simples pslavea “saber” suscta Jogo que 1 intetrogamos. Enigmas que se multiplicam quando lembramos taue este saber do homer (genitive objetivo, saber sobre 0 hhomem) ¢ também wim saber do homem (genitive suljetivo & possessivo); poranto, que o homem ¢ simultancamente objeto sujeito deste saber Tss0 nos leva imediatamente a uma primeira determina, conhecida e cléssca, do homem, porque ele, de todos os seres Gontecia na Universidade de Lausanne, em 12 de mio de 999; pubieada me sie ser des clogs du groupe Audspraies ‘ovis hone, Universite de Lassa, 1980, {que conhecemos, €0 Gnico que visa a um saber em geral ¢ um saber de si proprio em particular. Pode-se mesmo di2et que aqui 6 particular precede o geral, Porque a pergunta: “a que aconte ‘eit com o saber em geral” no pode ser pensada sem nos per kuntarmos previamente © que acontecet com a saber do fo rem (genitivo, aqui, simultaneamente objetivo e subjetivo, 8 que € 6 homem que sabe ou nao, ¢ esta questdo prévia €, por sua vez, apenas uma parte da pergunta: © que sabemos sabre o hhoment? E seré que © que dele sabemos nos permite afirmar ‘ue ele poe saber alguma coisa em geral,e alguma cosa sobre cle mesmo em particular? Podemos observa o desdobramento dda questo em si mesma e 0 que paderka parecer para alguns um teu vieioso, ou uma stazeZo sem esperanga. De fato, 0 clrculo no é vicioso, ele €0 cicula da rellex3o que se desdo- bra sobre ela mesma, que se apdia sobre ela mesma para ques tionar a si propria ~ ow sea, rata-se de uma verdadeita rele io floséica ‘Mais um breve comentirio sobre @ terta “ciéacta gona do homens". Os onganizadares desta série de conferéncias ua visa rain com ea, estou certo disso, a uma simples reunido de tetas as discptina esparsas concementes a0 homem —da antropolo- tia Faia A sociologia,passando pela psicologia, pela ingistiea © pela histéria —, eles ndo visaeam a uma enciclopédia das cn. ‘as huianas, ¢ sim wm saber visondo a generalidade do huma- no, ¢ eu evito sntencionalmente o termo “universalidade”, que Pertence 90 genus homo com tal. Ota, estamos aqui diante de uma outta partculasidade decisiva, conhecida, mas nao suf GGentemente explorada: nds ido temos, no campo humane, a mesma Felago, a mesma estrutura de rlagio que encontramos, fon constituimes, nos outros campos, entte o singula, 0 exer: pilar coneretamente dado, eo universal ov @ abstato, Tal objeto isco, ou mesmo biolSgico, é apenas um exemplo, uma instin- «ia particular das determinagdes wniversas da classe a qual per tence; suas singularidades so simultaneamente acidentals ¢ estausicas. J4. no campo humano existem, certamente, 0 act dental eo estaistico em grande quanidade, mas a singularida de nGo € agulesteanba & esséncia nem é ela acrescida. Aqui, a singulatldade é essencal, a cada vez & uma outta face do ser 20 sonnem que emerge, se eria, por meio de tal individu ou de tal fciedade er partictlar De que modo podemos pensar essa relacio original, nia no campo huimano, que fa2 umn dado homem ou, uma cera so: ciedade, por sua prépria singularidade € no a despeto dela, modificar a esencia do homiem ou da sociedade sem, entetan~ to, delvar de Ihe pertencez — caso contriro, ndo poderiam nem mesmo ser chamados de homem ou sociedade. A solueso para cesta aparente antinomia seré dada, espero, pelo que se segue Mas, antes, € preciso eliminar uma resposta que se apresenta imediatamente, satfatéria pela metade, porque nela falta 0 nals importante to, que tal home, tal sociedede Wve tm povo hebrew, ov ima 80: Poderiamos dizer, com e ern sua singalanidade — 36 tiedade romana, endo dols, ¢ nunca haveré outros em qualquer outro lugar; €© que eles sio, ox foram, ao poderia ser fabr ‘ado com elementos tomades aqui eal entie os nambiquara. 05 hova-iorquinos ow os amerindios pré-colomblanes — nos de monstram 1o-somente posibfidads da ser omem que, sem cles, geriam desconhecidas 001 130 teriam sido realizadas. Em Certo sentido, € @ que acontece, O Tato de Sécrates ter existido lemonstra que a possiildade “ser Sdctates” perience 20 ser fmmano, O mesmo quanto a Heydrich, caja existéncia faz dele am passivel humano, O fato de os astecas praticarem regular mente sacrfcios humans nos die alg sobre o ser das sciedades humanas ese, em alguns kigares, existem sociedades que procla nam a igualdade © a liberdade como direitos do homem, elas também. nos dizem alguma coisa sobre este ser, Esta kléla € importante e nio devernos simplesmente aast-la; de ur lado, porque ela compromete nossa tendénda em nos limitarmos a0 ‘ave nos foi dado como tipo médio e habitual do homer da sociedade e, mais particularmente, & nossa sociedade e aos id ‘duos que tela encontramos. Um dor paradoxes da éoca con temporanes, épaca da televisioe do turismo mundial, €0fato de ‘que & precisamente nesta época que as pessoas padem se sur Kotyoaua preendes ainda mais com o: “Como se poe ser pers?” Ou se ‘come se pode ser iraniano”, acreditando que se trata de mane ras de fazer ou de ser inteiramente aberrantes; a0 passo que, por ‘mais criminosas que elas possam ser em algumas de suas maak festagdes,€ de tals maneizas de sere de sobrecudo feita a histria humana: sociedades dominadas pela religiga © pelo fanatismo religiose. Em outras palavras, consideramos coisa mals narural viver em uma sociedade onde tudo pode set {questionado, quando, na verdade, isto é 0 que existe de menos natural no mundo. Esta posibilidade nos sacode ento eth ns sas evide ute lado, 2idéia€ imporian- te, porque ihsira 0 que en dita sobre a especificidade ao mesmo tempo ontolégica gnosiolégica da questio do homens, Esté exida a hipétese de que um dia venta 8 nascer um cavalo que nos obrigue a reconsiderar nosso iia da esséncia do cavalo; 20 asso que o aparecimento do que chamarnos total 0u 05 ocklenals, etm pleno século XX, io mom cwelebrava a vurdria das ida de progress, liber ‘onside: cas bana elas. P sna € tm pblenir« esamene cise leque de singlaridades, de sotedaeseInviduos quest 2am ponsbiléades do ser humano", no seno em que todo tlingulo que debno conctetamente reaia as posblldades {ocedades-~ os edo sma lel geal, determinando antecpada tenes posbliades do sr bueno peslas qu, lew ce Hegel. No € dllfil demonstrar 0 absurdo dessa idéia. Se 0s festruturalistas tivessem raz, se, como atima Claude Lévi Strauss em Rie hstria, por exemple, as diferentes sociedades Jmumanas no passam de combinacdes diferentes de wm peque no mimero de elementos invaridvels, entéo os estruturalstas leveriam ser capazes de produit, imediatamente, aqui c agora, todos os tips possives de sociedade humana, como um gedme: glares e demonstra que 120 tra prodhiz os cinco poliedros pode haver outros Isto nunca fo! Feito € ndo pode slo. E se 0s hegelianostivessem rao, deveriam ser capazes de, simulanea- mente, demonstrat a rigorosasistematicidade da sucessio his rica dos diversos tipos de sociedade e prolongar essa sucesso ss- femitica de manelta que ela cobrise todo o futuro concebivel Sabemos que 2 primeira tareia sé fol realizada por Hegel num ronstruoso “Ieito de Procusto", onde parte inteiras da Wist6ria dda humaniade foram cortadas, outras esticadas ou comprim: das, onde o Ila € colocado “antes” do exstianismo € este 86 age — 0 protes fcameca “vetdadeiramente" com sua germ {antismo, ete, Mas ha iguabmente a impossbilidade radical de ddar 6 minimo sentide & segunda tarefa, de deducir 0 futuro, atirmacio do {mpossibiidade que leva & necesséria © absurda fim da Histria"- partir daquele momento. Esse “int da His fia" odo & nem uma questo de humor nem wma opiniso pes Sal de Hegel, ele € simultaneamente o pressuposto € a conch io de todo 0 seu sistema © golpe de miseriérdia & dado a esta ia por uma alirmagao do prdplo Hegel (nas Lites sobre fi toe de ha: evdentemente, dz ele, depos dot da Tis Tia, resta ainda um trabalho emplrico a realizar, Assim, por ‘exemplo a histérla do século XX no deveria ser mais do que o ‘objeto de um “trabalho empitico” que algum aluno «no multo talentoso) de Hegel podria realizar sem nenhuma difculdade de principio. ‘Na venlad, o terme possibiidade como tal s6 pode ter aqui 1m sentido puramnente negativo: fetivamente, nada no univer So, na estrutura das leis do universo, tornava impossivel ot Reims, ou instiruicio interditava a construgio da Catedral de ddo Gulag. Mas as formas de socedade, as obras, os tipos de indi- viduos que surgem na Histéria no fazem parte de uma lista, fosse ela Infinta, de possiveis existences € positives. Eles si0 riagdes a partir das quais novos possiveis, antes inexistentes, porgue privados de sentido, aparecem. A expressdo “possvel ‘6 tem sentido no interior de un sistema de detertainagoes bem cspeciflndas, Ser8 que a Quinza Sinfnta seria possivel no mo ‘mento do Big Bang? Ou a pergunta no tem sentido ou, se ela tem algum, a tinea resposta €: impossivel. A possibiidade da Quinta Sinfonia s6 pode existir a partic do momento em que os homens criam a miisica Faz quarenta anos que se vem repetindo que no existe natureza humana ou esséncia do homem. Ess constatacio negativa & inteiarnente insufiiente. A natureza — ou a ess. cia do homem — ¢ precisamente esta “capacidade™, esta “poss. bilidade" no sentido ativo, positive, nfo predeterminado de. exitr formas outras de existéacla sociale india, como pode. mos faclmente verificar a0 considerariios a alteridade das inst tuigdes da sociedade, das Miguas ou das obras ss0 significa que existe de fato uma natureza ou uma essencia do homem, delin da por esta especficidade central que € a criagSo, pela manera € pelo modo segundo os quais 0 homem cria e se autocta, Bessa ‘riagio — constatagdo aparentemente banal, mas decsiva, cujas conseqiiéncias nunca terminamos de observar — nv acabou, emt nenbium sentido do termo, Dat ja decorrem conseqiéncias floséficas ¢, especialmen te, conseqlénctas ontelégeas, capitals. Expiciarel brevemente dduas deas Criagio no significa indeterminagéo. A criacio presupie, com efeito, ums indeterminagio no se: isto, no sentido em que ‘oque é nunca 0 de al modo que exclua osurgimento de novas formas, de novas determinacbes, Em outras palavras, 0 que € nunca estéfeckado do ponto de visa mais essential: 0 que € est aberto, 0 que é esté sempre iqualmente porser Mas, em outro sentido, criaglo nio sigaifica indetermina io: aqui a criagio € precisamente a paso de novas determi 1agdes, © que teriamos compreendido sobre a musica, ou a 1 a dizer que a Historia Revolugio Francesa, se nos limisse 0 campo do indeterminado? A criagio da misiea como tal, 1 Ge determinada obra musical, o a Revohugio Francesa, io io criagBes de formas. Uma forma, poses de nova determina tum vides, como teria dito Platao, significa um conjunco de deter mminagies, um conjunto de possvelse de impossiveis definidos 4 partir do momento em que a forma € colocada. Posigio de hovas determinacies, ede determinagies ontrs, nao redutiveis 40 que jé existia; determinagies ndo dedutivels © ndo produit veis a partir do ja existente, Séerates nBo € Sécrates porque € indeterminado, mas porque ele determina — pelo que diz, pelo ‘tc faz, pelo que é, através do que ele se faz um ser € pela maiteita pela qual faz sua morte — um to de individuo que cle encatha, ¢ que nio existia anteriormente. 0 aleance ontolS- fico desta constatagdo ¢ imenso: existe ao menos um tipo de ser ‘tue eria outro, que € fonte de alteridade, e que, em conseqi a, altera asi mesmo. ‘Uma déncia geral do homem, uma pesquisa dirigida 20 genus homo & precsamente Isto: nia pesquisa diriida as cond (bes eas fonmnas da eriag humana, Pesqulsa que, pelas azBes j& mencionadas, #6 pode ser um continuo val-e-ver entre as cra «Bes singulares e aqullo que podemos pensar do ser humanc oimo tal, Sem esas criagies singolares, sem a sua compreensso, no podemos saber nada sobre © homem; penetrar numa outra raga singular no significa acrescentar um milésime cavalo ‘40s 999 j4 estudados pelos zodlogos. mas desvelar outra forma ‘rinda pelo er bumaro, Qual exnélogo exirateresite que tives: Se visitado a Terra por volta do ano 5.000 antes de nossa era poderia prever, o sequer sspeltar, que aqueles seres desgre hnhados poderiam um dia ctiar a democraca ou a filosoia? Ese cle tivesse pensado sobre esta possbilidade, ou. a0 menos suspe: tado dela, © ele tivesse simplesmente levantado a questéo, ele 15.0 tea feito porque essa formas, ot formas bem andlogas. hhaviam sid crtadas em sew misterioso planeta de origem, Criagio: capacklade de fazer emergit 0 que nio esté deter rminado, ou ndo € derivivel, de modo combinatérlo ou nao, a partir do existente. Pensamos lmediatamente que ¢ justamente esta capacidade que cortesponde ao sentida profundo dos ter mos imaginacéo e imagindrio quando abandonamos seus usos superticais. A imaginagio nfo é simplesmente a capacidade de elementos dados para product outra variate de wma forma 36 dada; a imaginagio é a capacidade de colocar novas formas. verdade que esta nova forma miizaclementos que jé existam; mas a formna como tal € nova, Dito de mode ainda mals radical, da maneira como alguns fisolos (Avstteles, Kant combing Fiehte) entreviram, mas que nunes deixou de set novamente ccultada, 2 imaginagio € aguilo que nos permite eriar um mum 1,01 sea, nos apresentarmos alguma coisa sobre a qual, sem a imaginagio, ndo saberiamos nada, nao poderiamos nada dizer. ‘A limaginagio comeca com a sensftilidade; & manifesta nos dados mais elementares da sensbilidsde. Podemos determinar uma cotrespondencia (sico-fisiotdgica entre certos comprimen: ‘os de ondas e 2 cor vermelha ou azul; no podemos em ab- soluto “explicar™ nem fisica nem fsiologicamente a sevsagio vermelha ou azul em sua qualidade. Poderfamos tet visto 0 ver melho-azuil, oto azul-vermelho, ox outras cores insuspeltadas: cm relagio a0 quale ta da cor nao hd nenhna “explicagio". A Imaginagio incorporada 3 nossa sensiblldade fer existir esta forma de ser que no existe na natareza (no bé cores na nate reza, ha apenas radiagbes}: 0 vermelh, a azul, 2 cor em geral ‘que “perexbemos" —termo abusive, ceramente ~ e que outros animais, em razio de sua imaginagio sensorial divers, “perce bem" de outea forma. imaginagio, Hinhldeng em alerao, sign fica coloeagao em imagens: em certs aspectos, ela € commum a nds todos, enquanta pertencentes ao genus amo, mas cada uma de suas manifestagbes & absohutameate singulae. O meso se dé com o que denomino imagindro socal, imaginario instiuidon sobre 0 qual flare} em seguida, Mas se iso € verdadero, ent, contrariamente 30 velho Tugar comoum, o que faz do homem um homem 150 € 0 ato de ‘que ele €razoével ou racional ~ 0 que, evidentemente, é uma loeteagio. No existe ser mals lonco do que 6 homer, quer © ‘onsideremos nas profundezas de sew psiquismo, quer em suas tividades cotidianas. As formigas ou os animais selvagens tem ‘inna “tacionalidade” uncional de longe superior 8 do hornem: > cometem erros nem comet champignons venenosos, wes (Os homens precisam aprender o que € ou no alimento. Nio & wortanto, a partir da “racionatidade”, da “Ioglea” — que caracte "zam em geral i ser the, como Wipica operante — que pode ns caracterizar o homer, A capacidade de eriag3o nos fz pre samente ver por gue a esséncla do homiem nao poderia sera lice © a rackonalidade, Com a ligica a tacionalidade pode mos chegar ao intnita virtual (depois de 2 bithOes, ha alnda 2 Intides com a poténcia 2 bilhdes), podemos extrair ao infinito 's conseqtléncins de axtomas jd anes coloades; mas nem a Lo ‘ct nent a radonalidade jamais permitive imaginar um ovo xxioma, A maternstica, amas alta forma de nossa 16g, $6 pode Ser constantemente rlanada se imaginamos einventamnos, € 0s maternéticos sabem muito bem disso, mesmo quando nav s30 pares de ehicklar este fato. Eles conhecem @ papel central da imaginagao, ndo apenas na solucéo de problemas que js foram colocados, mas na posigio de novos mundos matematkos, posl- ‘io que nao € redutivel a simples operagies ligica, caso con Trdno, ela poderia ser transformada em algoritmo € posta em ‘A partir desta constatagies, podemos colocar como carac- terfstica essencal da homem a imaginacio e o imagine soca (© homem € pach, alma, psique profunda, ineonscente: e 0 home € socledade, ele s existe em e por meio da sociedade de sua insttuigio das significagdes imaginérlas socials que tor tam a price apta para a vida. A sociedade também € sempre Histéria: nunca existe, nem mesma ouma sociedade primitive, eva, um presente crialzado; em outras palavras, mestno ha sociedade mals aaica, 0 presente é sempre constituido por tum passado que © habita © por um futuro que ele antecipa Logo, tata-se sempre de um presente histrco, Para ale Diologia que, no homem, ao mesmo tempo persiste & encontra- se fremediavelmente desregulada, o homem & um ser psiquico um ser sScio-histrico.# é nestes dois nivels que encontramos a capacidade de eviaglo, que chamo de imaginagio ¢ imagind- rio, Ha a imaginagio radical da psique, ow sej, 0 surgimento perpétuo de um fuxo de representagies. de aletos € de desejos indlissociavets; se no compreendermos isto, nlo campreende remos nada sobre o homem, Mas nao € a psigue, no sentido que dow aqui a este termo, que pode criar instiuigies: ndo € 0 inconsclente que cra a lei ou mesmo a idéia da lek ele a recebe, cele a recebe como estranha, hostil, opressora. Néo & a psique que pode ciara linguagem, ela deve recebé-la¢, com a lingua ‘gem, ela recehe a totalidade ds sigificagSes imaginsas socials ‘que a linguagem carrega e que ela toxna possveis. A linguagem, a8 leis: © que se pode dizer delas? Seria possvel rnaginar um legislador primiivo, que ainda nao possuisse a lingoagem, mas rte “inteligente” para inventé-la sem gue fosse suficent possubla, e para pertuadir os outros seves hnumanos, que ainda roa tivessem, que seria siti falar? Idea dca. A linguagem ‘pos mostra o imaginério social em agio, come imaginsre insti tmidor, colocando av mesmo tempo uma dimensio estrtamen te l6giea, que denomino conjunto de identiticagio (toda lingua mm deve poder dizer 1 mais 1 igual 2 2); e uma dimensio ‘opriamente imagindria, pois na linguagem e por meio dela ‘io delinidas as signillcagdes tmaginérias socials que mantém ama soxiedade unida: tabu, totem, Deus, poli, nagSo,riqueca, partido, cidadania, viride, ou a vida eterna. A vida eterna 6 tevidentemente, mesmo se ela “existe, oma significagio maple ria socal, poi jamais alguém exibiu ow demonstrins matema- ticamente a exisiéncla de uma Vida eterna. Ema signiticacao ete séeuos,a vida imagindsa social que regulon, durante de das socledades que se consideravam as mais civilizadas da Eure ps e do mundo, Esse imaginsro social que cra a linguagem, que tiuigBes, que eia a prdprla forma da institaigso — que nfo tem sentido na perspectiva da psique singular — nds 56 podemos pens-lo como a eapacidade criativa do coletive andnimo, que se reallza a cada ver 4 ‘uma figura singular, instiuida para exis 0 conhecer ¢ 0 agir do home sio, poranta, indissociavel mente psiquicos € s6cio-histées, dole polos que nso podem ‘xis separadamente, € que so irredutives, um em relacSo a0 {o, Tudo o que encontramos de social em wn individu, cat mesmo 2 idéia de individuo, € socialmente fabricado ou ctiado, fem correspondéncia com as instiulgdes da soctedade, Para ‘encontiar no individuo alguma coisa que ae seja verdad mente socal, se isto & possvel — © no porque de qualquer modo, isso deve passar pela linguagem — seria necesséro poder slcangar 0 derradeiro centro da psique, onde 0s desejos mais pi mnios, os modos de represeatar mals castles, os afetes mais bratos e mais selvagens atuam. Esse centro, reconstitula, Quer se trate de 6s mesmos (0s “normals"). quer 36 povlemos se trate do sonho contado por um paciente em andlise ox do ett relatado por um psicdtico,continuamos a estar dhante do social: ndo existe sonho como abjete analisivel se ele ne for contado (anda que eu 0 estela cantando para mim); toda soaho © povwade de objetes socais. Ele pe em cena wma parte do desejo primario da pique que nijo deve ser posta em cena sobretui, no deve ser posia em cena sob aquela determinada forma, porque enconira a aposigio da instiuigSo social, repre entada, no caso de todo individuo, pelo que Freud chamava 0 superego € 2 censura. NSo apenas “nda fads isso", nao delarss com a tua mie", mas muito mais. 4 instincia de censvra e de recalcamento€ to aberzante ¢ 130 Kigiea quanto as grandes rli- ulbes monotetsias, quando ago se linitam a ordenar "ndo deta 5 com a tua me’, mas vio mals akém: “ado descjrds delar com a tua mae". Logo que o inconsciente ultrapassa sua fase pt ige seu desejo para alguém que esteja presente, © ue em geral a mae, 0 que € proibkor esse conto, interiorizado pelo individuo, constiui simultaneamente a razio de ser do ‘nko como fal, e a razio de ser de seu contetida e de seu tipo de elaboraglo. Isso ndo impede que, através das estratossuees sivos da socialiaaglo sofrida pela psique de certo ser alguma coisa dela consiga Sempre se infiliear, bem ow mia, até a super tee, © pslquico propriamente dito nfo € redutivel a0 sScio-hist- co, € 0 séciorhistorco, apesar das tentaivas de Freud ¢ de outros, ndo ¢ vedutivel a0 psiguismo. Podemos interpretar 0 componente “psicanaitico” de tal au tal insttuigio particul dlemonstrande que ela também corresponde a esquemas incons- denies © satistaz tendéndas ou necessidades inconscientes, 0 ‘ve nio € falso, Também a instinigio deve sempre responder 3 busca de sentido que caracteriza a psigue, Mas a realidade da fnstituigio em si mesmo € inteamente estranha psique. Por isso 8 socializagio do indviduo & um processo to longo € 120 ppenoso; talver seja tamlxém por sso que os bebés choram sem ‘azo, mesmo quando esto saiseitos, A pergunta: “O que aconteceu com o komem?”, pergunta 4a antropologi filosdica, muda entio para: “O que aconteceu 1, 0 que acontecen com a soeiedade € a ebemos imediatamente que ess0s perguntas si0 ‘com a psique Histéria2” Per perguntas filosfieas que devem preceder quaisquer ouncas. Em particular, devemos rar todas as consegiéncias (0 que, apa reaitemente, ainda nfo se fe2) do fato conhecido e simples de ‘que, por exemplo,afilosfia nasce em e através da sociedade & a7 a8 soctedades 0s periodos hist todas as socledades, em da listéra, Basta Invest ‘os que conhecemas para ver que 4 ‘quase todas as noc, instituiram-se nso na interrogagio, e sim. hi fechamento da sentido ¢ da si foi verdadeiro, vali e legitinio © que j6estéInstituido © rece- ido, herdado como instituida. © homem é um ser que busca @ sentido e que, por iso, 0 cia; mas, peimeiramente, e durante muito tempo, ele eria 0 sentido no fechamento e cra o fecha mento do sentido, e continua tentando, ainds hoe, a ele retor nar, Aruplura deste fechamento foi inaugurada pelo nascimen: to-€ pelo renascimento, conjugado por duas vezes na Grécla © hho Europa oeidental, da tilosofia e da politica. Porque ambas slo, imltancamente, questionamentes radicals das significa ‘es imaginarias sociais estabelecdas e das insttuigbes que as jens. Para elas, sempre ANTROFOLOGEA, FILOSORLA, POLIEICA Com efeit, a flosotla tem Inicio com a pergunta: © que devo pensar? £ parcial, secundstlo, portanto falso, defini alo Sofia pela “questo do sez". Antes que o ser esteja em quesido, é preciso que © homem passa e perguntar: 0 que devo pensar? Isto, ele geralmente no 0 faz na Hist6ria. Ele pensa o que a Biblia, o Alcordo, o sectettio geral, 0 partido, o feitceio da tnibo, os ancesteas, etc. dizem que ele deve pensar. claro que ‘a pergumta: “O que devo pensar" logo se desdobra em outras:“O due devo pensar do ser?*, °O que devo pensae de mim mes m2, “O que devo pensar do proprio pensamento?”, pelo que ‘se completa 2 prépeiareflex20 do pensamento, Mas dizer: “O ‘que devo pensar?” ¢ ipo faci questionar as representacbe tituidas e herdadas da coletividade, da tibo, e abrir caminho a 1ma interrogacio interminével, Ora, esas representachis, como as insttuigbes¢ to, di ser singular, de dada sociedade, mas a determinar. Se luma sociedade é ¢ que & esta alguma coisa (0) distinta dos ou n geal, nJo somente fazem parte do ser concre tios, € porque ela criow paza si o mundo que ela cru. Se a sociedade hebralc ta qual a sepresentamos no Antigo Testa mento, é a socedade hebraica € nia qualquer eutra € porque cla eriow um mundo, 0 mundo deserito no Antigo Testamento, Sendo uma sociedade “mitica", ela conta a si prépria, aa contar histéras, ela conta a historia de Deus, do mundo e dos Rebreus nas esta histGra desvela a0 mesmo tempo uma estura Inteira do mundo: Deus como criader, ¢ homem como simulta reamente senhor e dono da natusera (0 Givesis nao esperou por Descartes) ¢ submetido & culpa antes mestno de nascer, 3 Le, «etc, Os hebteus 56 so hebreus na medida em que pensar tudo sim como os fianceses, 05 ameticanos ou os suigos eon. temporineos $6 so 0 que sio quando encarnam as signifcaches Imagindrias dle suas respectivas sociedades e, em cero sentido, les quase "so" esas significa imagtnsrias caminhando, ta balhande, bebendo, ete (© auestionaimento dessas represensagbes, signiticagbes mstnniges equivale, pois, av quxstionamento das determina Bes, das leis de seu propria set, reallzado de modo refietido Uelberado, 0 que ocorre com a tilosofa¢ a politica. # els uma segunda grande conchusio ontol 2m na anropologia Glossliea: 0 ser, o ser em geral,& feito de tal forma aque existem seres que se alteram por sie criam, sem gue o sai- bam, as determinagbes de seu ser particular. Isto vale para todas les. Outta conclusio: o ser € felto de tal forma, que 1 seres que podem criar a rellexo 4 deliberagio por meio das qua ees alteram, de maneita relleida e delinerada, as leis, fas determinacies de seu pr6prio ser, Ito m0 existe, que s€ sala, em nenbuma outra egido do ser. Mas podemos especfh ‘oda sociedade existe cxiando significagdes tmagindnas socials — ou seja ampere! imanente, Assim, «Deut hebeal- co, ciso ou islimico; ou @ mereadoria, Ninguém jamais viu juma mercadoria: vemos tam catro, um quilo de bananas, um metro de tecido, E a signiicagio imaginsria social merendoria ‘que faz funcionar esses objetos da manelia como funcionara nhuma mercanti. Impercebivelimaeni, pols, nara um para ua Aldsofo, Deus € manent ociedade que er em Deut, mesino quando ela o considera transcendente; Ele esté presente nela mais que qualquer entidade material, sendo 20 mesmo tempo fmperceptivel, pelo menos em tempos comms. O que é “perce= bivel”sS0 as consequéacias decivadas: um templo em Jerusalém ‘ou em qualquer outta lugar, sacerdotes, candelabros, ete 0 lmpercebivel imanente,etlada pela saciedade, nio existe fem outras regies da ser; © com este impercebivel imanente, aparece a ideaidade. dealidade sigoilica que a signilicagS0 nao se fencontra rigidamente lgada a am suporte, e que ela ultrapassa todos os seus suportes partculares — embora no posse feat sem um suporte qualquer, em geral. Todo o mundo pode falar por diferentes meios et expressoes,remietendo a signos ou simt- holos, de Deus, da vida eterna, da poli, do partido, da mercado do capital e do interesse — temos a Wealidaes. No se tata ws. Uma boa dellnigio para um fetchismo origindrio poderia partir desta observagio: um fetiche & um ebjeto que porta necessariamente uma signitieaglo, que no pode ser dele separada. Iso vale tanto para certascrengas primitivas quant, fm certos aspectos, para nds mesmo (delxo de lado o fetichis: ANTROPOEOGIA. FLOSOFIA, POLITICA ‘mo come perversdo sexual que, de resto, corresponde perl Ineove a ena definigio: 2 signficacdo enbtica estérigidamente Tigada a tal objeto, a tal tipe de objeto, o objeto-feviche) sso sgniieaghes tem sempre na Sociedade uma validade de positive, Flas sto legitimas e incontestéveis numa determi nada sociedade. A questio de sia legiinidade no é cloead, € ‘ pedpris termo legitimidade é anacrOnico,apicado d maloria das sociedades tradicional "No entanto, a partir do momento em que surgem a inerr0~ go ¢ as atividades Rlos6ficae politica, outa dimer {da defini pela idéia, pela exigéncia e mesmo pela efetivida dle de uma valldade que no seja apenas uma validade de fo, iiteto no no sentido juridico, positiva, mae validade de dir thos filosfico. Validade de jure, nd0 mais simplesmente de uma ida, simples Nos nd aveftamos oma representagio, 0 mente, nin devemos aceith mente porgue a recebeinose, ce in B ustificagio, uma exphicagio, logo didn (a Telagio desta idéia com 0 controle politico pblico na agora ena eceia € patente). E0 mesmo vale para 38 nossasistiulgOes ‘E portanto, no s6cio-histirien, ¢ por ele, que emerge © € criada esta exigencia da validade de dircio. Criag30 ontoligica nals uma vez, criagio de uma forma desconhecida nacemstica, a quase-demonstrago fica, 01a 's pmdpra iostituigio politica, a parti do tdemonstragio ™ docile filostlen: 0 uomento em que for colocada de forma a ser const f delibcrada pela coletividade que valklada de modo refletido 'A partir df, surge iguakmente uma questo que subentende toda a histéria da filosofia, e que € criticads, ¢citicada pela pré pia Flosolia, Sea validade de diteto, se a assergao de que uma la € verdadeira tanto hoje quanto Ila € verdadeira, e de que fontem, ha 2 mifades de anos ou daqui a4 nls de anos —se festa valldade surge em e pelo sc ia 8 Colaboragso do pxiquico, como aqullo que we ajeserta com essa e pur intermédio do qual ele mento psiquico e socio-histéric, ‘cl Tempre surge, no fechamento dé tnando onde fol riado? Em tas palavras — e tratasse da questdo que nas importa acima de tudo (por isso a filosolia deve ser sempre também antropolé- fica), como o valida pade se efetiva, eo eetivo, vil? Para sublinhar a importancia deste modo de coloear @ ques Go, Fembremos, por exemplo, que, numa flosofia tio grande, {20 importante, ¢ que marcou tanto a continuagao da histéria da Glosotia, coma & a filsofia de Kant, a eletividade e a vaidade, separadas por um abismo, nio podem + pensadas juntas. Kant ania: come poden0s te, dee, conlaeclmentos necessi105| « vendadetros, ¢ chegar 3 construgio ou suposigho de um sue to transcendental (poderfamos igualmente chamé-lo svjeita ideal), que possuisse, com eleito, por canstaugio, certs come cimentos a prior’ — verdadeiros,e no trvials enecessirios. Mas, o que tent a ver conosco 0 fato, mencion ado por Kant, de que um sueito, ou uma conseiéncia transcendental pode ter este saber asseguado? Iv nao sow um sujelto transcendental, som um ser humano eleva, Dizer que o sujeita transcendental € constraido assim, © que por isso pode chegar ajulgamentn sin \éticos «priori, mo me interessa Isto s6 me interessaria na med da era que tombénn eu fosse um siyeto transcendental. Temos af 12 perpétua oseilagio kantiana: de wn lado, ele fala do que € @ sujelto na diea vonscendental, de outeo,relere-se & “nossa ex periéndia, “nosso espirito” (Gems, “nds, homens” (wi, Mens cen). Tratase de “nosso espirto” ou do “espirito” na perspec va transcendental? Esta oscilagio &climinada, de mado treo, na filesofia prética de Kant, segundo a qual, Hnalmeate, ex munca posto ser verdadelramente moral, i que sou sempre € wecessariamente movide por determinagbes “empirces’, ou seja,efetivas. Desde Plato aflosoia permanece presa aqul pre cisamente porque néo consegue enfrentar esta questdo, a Gakca verdadeira a esse respite: como a validade poste tornar se elet- Vidade,¢ efetividae, validade? Nao possivel responder a esta pergunta agul: indieo apenas alguns pontos de referéneia que permite elueds-la, Se quitermos falar a verdade, dstinguindo-a da simples cor regio (althéia em oposigio 2 orth, Wahrheit em oposigbo Risnighein,e se dssermos: 2+ 2= 4. corteto, masa ilosaila de Aristételes ou de Kant & verdadetra on esté ligada a verdade, flevemos retomar e modificar a signifcagso deste termo. Deve mos ehamae de verdad, nfo uma propriedade dos enunciados, ‘uum resultado qualquer, mas.o movimento mesmo que rome O iechamento que seinpre se estabelece, € que procura, num tesforga de coeréncia e de gon didona, encomtrar-se com 0 que existe, Se dermos ese sentido & verdade, devemos dizer que & 6 SodaLhist6rico, a antropologia no verdadeiro sentido, que € © Tugar da verdade. Porque nao apenas € no social-hstézoo,e por cle que so erladas a linguagem, a significagto, a idealdade, a Cnigendia da validade de diteto, mas € também somente 0 Social histrico e por ele que podemos responder da methor tmoneira possvel a esta exigéncla¢ sabretuda: é exclusivamente no social histrico € por melo dele que esta Tuptura do fecha. mento € 0 movimento que a manifesta podem exis, Sem esta dela da verdade, estariamos simplesmente divididos entre 05 “pontos de vista, que so “verdadeiros™ no interior de € par ito’ de fechemento, logo, de relativismo absoluto, € @ cada pletado, que seria o fecha fla de un sistema definitive co mento de todos 0s fechamentos. f yqualmente em e por meio do socal-histrien, em virwude a segunda eriagio que mencionct acima, que aparecem a subje vida reflexiva € 0 sueito politico, na medida em que eles se ‘psem a toda a sorte de humanidade “anteriot’, ov individuos conformes, socalmeate fabricados, por mals Texpeits wais,dignos de estima e de amor que posam freqlentemente sr ‘E também somente em ¢ por meio de socal-hisGrico que so crindos um espago © um tempo pcos de rellex4o — wna figora sinenka e diacrOnica, que impede que toda subjetivida. ‘dese feche em seu proprio fechamento E afinal, na medida em fine o social-histrieo& crlagGo continua e riaglo densa, que os Jesultodos da rellexdo filosética continuamente adquirides povlem ser, e sée, novemente questionados, Sem ura tal ria~ Gao. a flosofia, uma vez criada,correria 0 isco de ficar cristal Goda ou de se torat uina simples ordenagio Togica do mundo tida wma ver por todas, coun fe, com efeto, 0 des- socal, ada rn Bizdncio ou no II 0, ino da filosofia ns fndia, na China, enlim, de permanecer como aporia em suspensio imével das certezas insttuidas em benefico de uma mistica, como na mato Ha das correntes budistas Mas 6 igualmente verdade que 2 rellexio encontra na ima- slo radical da psique singular sua condio positiva, F esta lmaginagio que permite a crag do novo, ito €, a etmergencia de formas, de figuras, de esquemas originals do pensamento.e do pensavel,B € também porque existe a imaginagho radial, e 930 apenas a reprodugéo, a recombinaGio do que ja fol vst, porque existe a imaginagio nio crisalizada, no fixe, ndo Mnitada 8s formas dadas ¢ conhecidas, que o ser humano € capa de rece bet, acother, aceltara eriagio original de autem, sem o que ela seria delitio ou passatempo individual. sso vale tanto para alle sofla quanto para a arte e as iéncas Em ambos os casos, 0 da imagina da imaginagio que é capaz de acolher um novo tipo de indivi duo est Implicado: a subje fi € lucidamente aberta 20 novo, que ado expulsa as obras dt ImaginagSo — de st mesma ou dos outros — mias € copay de recebé-as citicamente, de aceté-las ou recus-las, ‘Um tal individuo & ele prdpeio uma criagSo socialistic, Ble & a0 mesmo tempo 0 resuliado e a condicéo do questiona mento das instiuigbes estabelecidas. O que nos leva, para con ‘lut,& questdo da politics. ‘Enterido por politica a atividade coletiva refletidae hicida, ‘que surge a partir do momento em que é colocada a questi da validade de dieito das instituigdes. Nossa lls sio justas? Nossa CConstiuicio ¢ justa? Ela ¢ boa? Mas bua em telagio a qué? Justa -m relagdo a qué? E precisamente por essas nerguntas inter niveis que se constitu o objeto da verdadeira politica, que pres supe, pos, 0 questionamento das insttuicdes existentes — seja para confirm:-las no tod, seja em parte. £0 mesmo que dizer ‘que pela politica assim coneebida, 9 homem questiona, © even tualmentealtera, seu mode de se e seu ser como homem socal sarge a questo da (0 social-histérieo €, portanto, 0 gar on walidade de diteto das Insttuigdes e, consequentemente, dos rntamentcs. Este pouto € muito importante, porque demons tra que a questdo étca € criada em ¢ a0 longo da Historia, que cla nio necessatlamente definida om 2 Historia, contrariamen: te ao que se iz, © que ela faz parte, no sentido profundo, da {questio politica, Em uma sociedade tradiclonal, em uma sacie- Gade heterdnina, os comportamentos mesos so insttuidos. ‘asi-se com aquele ou aquela com Faz-se 0 que se deve fa ‘quem se deve casa em determinadas circunstancias & necessé- io fazer determinadas coisas. Existem mals de siscentos m: ddamentos que 0 jovem judeu deve saber de cor por ocastio da far Mizu, Comportamentosinstiuides, respostas dadas a ques thor “0 que devo fazer?” ado € colocada. Ela ambéan nfo ¢ colo: Comte dive daarene o qe eres ae re a pul. mae espana seguro probit da ta et Eaton nes fram eps de ze eo Evangel oa F transfor: Sristlanismo, salvo talvee por um curto period ini Imando-se rapidamente tuuma Iyeja instituida, com a conse ‘adente duplicdade insttuida — passou-se, asim, a colocar a possibilidade de concillagio das prescrgées do Evangelho € de tum vida efetva sem relagio com elas. Daf 0 indelével aspecto de hipoerisia em todas as injungdes 6a “ética” crit histérca A pergunta “O que devo fazer?” faz parte do conjunto das snterrogagées que surgem a partir de momento em que o ei- {20 dos comportamentos se quebra. ntretanto, mesmo considerando a questo pelo lado sim- 1m que no deseje colocar a plesmente ¢tico, diante de al quesido “O que devo fazer" sendo num se oma esqueces por ain segundo que as condies e as normas ikimas do fazer sao Hixadas, a cada vez, pela institu A ques {do “0 que devo fazer?” tomna-se quase insignificant, deixa:se tae, logo quato Bs nse, Fle ot, uhinament rande problema & ‘constituido por esses “outros” reais — 5 bilhoes e meio — que do encontramos, mas salem pertinentemente que existem, € aque levam, em sua maloria, uma existéncia heterSnima, “O que devo fazer?" & uma questio essencialmente politics. Polftica a atvidade lca e efletida que se interroga sobre as instituigées da sociedade e, caso necessirio, visa a transform las st implia que ela nao usa os mesmos pedacos de madeira para combind-los de outra forma, e sim que ela era forms ins tirucionais novas, 0 que signlfla também novas signiicacdes fova disto nos & dada pelas duas erlagbes sobre as guals se funda nossa teadigio, a democracia grega e — sob uma outa forma, bem mais vasta, mas, em certos aspectos, mals problems: fica — 0 movimento democritica € volucionitia moderne. owas slgnificacdes imaginérias emerget equ: as instiuigbes as [As primiitas poles dem «zea, por exemplo, onde os eidadios que pensavam a si mes mos cone Aan, semelhantes,jguais, antes mesmo do terme ici, realizam uma ruptura compleia com 0 mundo des poemas haméricos, nos quaisUlsses naa €@homoior de Test. Os eda ‘dios s5o iguals, bd a sonomia pota todos, Evidentemente exis: tem também as mulheres eos exravos:ndo se trata de uit mode 1b. Mas j podemos perceber os germs. Nos tempos modernos ‘esta sgniieagbes so retomadas ¢fevadas bem mals alt. Fala se de igualdade, de liberdade, de fratemidade para iodo. Este sara todos" & uma significagio secial que surge no Ocidente e ue, poliicamente, ndo € a dos gregos (deixn de lado os esti cos, politicamente impertinent). A partir de quando? Dizem ‘que ajgualdade js estd no Evangelha, Masa igualdade do Evan- gelho, como a de Paulo, esti situada Ié em daa, nio aqui fembaixo. Nas igrejas erst, havia assentos confortiveis para os senhores,cadeias para os bons burgueses da pardquia e bancos, ‘ou mesmo nada, pata os simples il, seus iemaos. Estes, que 4 tao sio mais gregos ou judeus, livres ou escravos, homens Ou inulleres mas filhos de Dews perfeitamente iguais, para escutar imesinodiseurso,encontram-se sentados de maneira diferent “a entio dividem se entre sentadose de pé. igualdade mode hha io é a iguaidade do cristianismo; ela éacriagio de urn nov o hisrico, que colocou a exigencia de uma ignalda tle nda no eéu, mas aqui e agora. O fato de que em e através inexpretadas € ‘gue, durante a tleste movimento a ilas etiststenham sido re-tratadas néo surpreendente; basta lembr Revolugio Francesa, pode-se considera Jesus Cristo como o pt a em im mundo no qual estas Tigulicagdes imaginatlas — Wberdade,igualdade — esto sempre presentes, o que revela ao mesmo tempo una enorine contra ao. Se consierarmos as signifcagées da liberdade e da igualda {cen scu rigor e sua profundidade, vemos, de inicio, que elas Sc mplicam ma na otra, longe de se exclrem, como repete f diseurso mistiicador que crcala hi mais de um século. Mas las também estio longe de estarem reaizadas, mesmo nas Sviedadesditas “democriticas”, De fat, esas sociedades eeai- am eeximes de oigarquia liberal, A atuale respeitavel“ilosofia poles” tech os alhos dante dessa ralidade, 20 mesmo tempo i que ineapar de producir ama veidadeira discuss floss 2 dos fundamentos desse sistema oligirquico; nunca vi, en parte aguma, uma dscussdo, digua deste nome, sobre a etal fica da “vepresentaeio", por exemplo, ou sobre a repzesentacio tos partidos, que consttuem a verdadeira sede do poder nas Soviedades modernas. Ousemos falar da realidad, mos qe falar de Igualdade potitia entre wn varredar de ruas na fe os. Francis Bouygues é wana brincadeira de mau gosto ses de oll F Na Franga —-ea situacio € a mesma em todos os p garquia liberal — 0 “povo soberano” éformado por cerca de 37, mullhdes de eleores. Como ele exerce sia soberania? Ele € ch tmado, a cada cinco ow sete ates, para designar,enive 3.700 pes bas no maximo, aquelas que @ “represemtardo” nos préximos {mco anos — ot © presidente que © governars. A proporsio Ede 1 para 16,000, Muliphquemos este nfimero por 10, para Jevar em conta todos 0s capitaisias, gerencladorese tecnocratas ddo Estado, membros dos aparelhos dos partidos, responsive's pela midi, etc: com boa vontade, chegaremos a 37.000 pessoas fem 37 milhies. A olgarguia daminante ¢formaga por wth mile simo da populagdo ~ porcentagem que farla empalkdecer de inveja 2 oliganquia romana sees regimes de oligarquia liberal representam 0 compro= imisso atingido por nessas sociedades entte o capitalism pro- priamente dito e as luas de emancipacdo que tentaram translor rlo ont liberallzé-lo; compromisso qu Pode ser negado — no somente as iberdades, mas cetas poss- bilidaes para alguns membros das categorias domninadas Mas fala-se de igualdade false também dos “direitos do homem”. Direitos de que homens? Existem cerca de 5 bilhGes € melo de seres humanos na Terra, Essa oigarquia liberal, bem como um certo canforto material, s6 existe Nos pases da OCDE. «© €m um ou dois outros, ou sej, para cerca de 700 mithoes de pessoas. Um oitave da populagio humana beneliciase desses direitos do homem e de um certo confor material, A grande astiia dos governos de Reagan e Thatcher fol a de comprimie a miséria em 15% o0 20% da popalagzo, deta forma carente que Ji nao pode reivindicar nada, ou que, no maximo, poderia explo tir de modo inefia7: es outtes. os they never had i 30%, como se diz em inglés, estio alvez neste momento compranko um se- tgundo televisor em cores, Enq tes da populagio mundial esto mergulhados na mis mas uma vez, no para todes, pois ai também existem vileglados) e vivem, geralmente, ob a tirana, O que aconteceu entio com os direitos do homen, a igualdade, a Herdade? De- ver-se-ia dizer, como dizia Burke aos revolucionétios francess, |que no existem direltos do homer e sim ditetos dos ingleses, dos franceses, dos americans, das suigns, ete? Povleremos sir dessa situacHo? Uma mudans sé seri posst vel se, € somente «©, houver um novo desperar, se tiver info uma nova fase de eriatividade politica densa da humanidade. 0 que implica, por sua vez, sair da apatia e da privatizagio que caracterizam a5 sociedades industrials contemporineas. Em ‘outros palavias, a inovagSo histrica certamente jamais cessard Sendo toda a ila de um “im da ist6ria” muitiplamente abs dda; mas 0 rsco esté no fato de que essa inovagio, em lugar de produzieindividuos mals lives em sociedades mais livres, faga parecer um nove ipo humano, que podemos provisoriamente hamar de “zapantropo" ou de “reflexantropo", tipo que deve Ser mantido na colers, mapnido na isso de sua individualidade de sua libesdade por mecanismos tornados independentes de ‘qualquer tipo de controle social, e geradas por aparelhos aun thes, cuja dominacdo esté desde jd a carpinho. ‘0 que o pensamento politico pode fazer €colacar em terms aros este dilema com que nos controntamos hoje. Evidente mente ele ndo pode resolvé-lo sozinho. Ele s6 pode ser resol {do pela coleividede humana, quando ela desperta de seu sono ce realizar a sua atividade crladora Toni: de appr, med comstatcmeee de canal tans ocr role remot.