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| C TRANNARANCH 00 NAL O principio co mal néo é moral; 6 um principio de desequilibrio de vertigem, principio de complexidade @ de estranheza, de Sedugao, de incompatibilidade. Nao é um principio de morte mas é principio vital de desligagdo. ‘Assim, analisando os sistemas contemporaneos em sua forma \valasirofiea, fracassos e aporias, tanto quanto no modo como eles ‘se impdem e se perdem no delirio do préprio funcionamento, reativa-se em toda parte o teorema e a equaco da parte maldita 8 comprova-se seu indestrutivel poder simbolico. JEAN BAUDRILLART. ‘treducio Exola dos Santos Abre ATRANSPARENCIA DO [ENSAIO SOBRE 0S FENOMENOS 1 PAPIRUS EDITC ‘Outros ttulos da Papirus Da sedueso Jean Bausiillard Doespitito Jacques Derrida, Ensaios sobre a pintura Denis Digerot Eu e seu cérebro (0) Karl Popper John Eccles -2% ed, Imagem mitica (A) Joseph Campbell Mulher e mito '19001-970 - Campinas ~ SP Bausirillard, socigiogo tran- Bes profundas que a aciedade de consumo opera so- as estuturas mentais do ho- ‘moderno, 0 qual se v8 parte feu sistema de signicegSes que p obrigam a buscar saisfagses is simbélicas que propriamanta col eckigin maw que no de um mito mascarador das JEANBAUDRILLARD tradugio [Estelados Santos Abreu ATRANSPARENCIA DO MAL. ENSAIO SOBRE GS FENOMENOS EXTREMOS PAPIRUS EDITORA ‘Since the world drives to a delirious state of ‘things, we must drive to a delirious point of view. Ja que o mundo se encaminha para um delirante estado de coisas, devemos nos encaminhar para um Ponto de vista delirante. ‘Mais vale perecer pelos extremos do que pelas extremidades, A ALTERIDADE RADICAL. O inferno do Mesmo .. O melodrama da diferenca A irreconciliagto O objeto como atrator estranh Apés a orgia Se fosse caracterizar 0 atual estado de coisas, eu diria que ¢ 0 da pés-orgia. A orgia é o momento explosivo da modemnidade, o da liberacao em todos os dominios. Liberacdo politica, liberacdo sexual, liberacdo das forcas produtivas, liberagao das forcas destrutivas, liberacao da mulher, da crianga, das pulsagdes inconscientes, liberacdo da arte. Assuncdo de todos os modelos de representago e de todos os modelos de anti-representacao. Total orgia de real, de racional, de sexual, de critica e de anticritica, de crescimento € de crise de crescimento. Percorremos todos 0s caminhos da produgdo e da superproducao virtual de objetos, de signos, de mensagens, de ideologias, de prazeres. Hoje, tudo estd liberado, o jogo j4 esta feito e encontramo-nos coletivamente diante da pergunta crucial: 0 QUE FAZER APOS A ORGIA? 9 $6 podemos agora simular a orgia e a liberacdo, fingir que prosseguimos acelerando, mas na realidade aceleramos no vacuo, porque todas as finalidades da liberacao jf ficaram para trds, e 0 que nos preocupa, 0 que nos atormenta é essa antecipacdo de todos os resultados, a todos os signos, de todas as formas, de je em que so podemos repetir todas as cenas aconteceram — real ou virtualmente. B 0 em que é preciso paradoxalmente continuar a viver como se elas nao o estivessem. Mas, ja que 0 estdo ¢ jé que nao de sonhos que doravante serie para trés e que, no entanto, devemos reproduzir numa espécie de indiferenca fatal. No fundo, a revolucdo jé aconteceu em toda a parte, ‘mas nao do modo como se esperava. Em toda a parte, 0 que foi liberado o foi para passar a pura circulagdo, para entrar em érbita. Com certo recuo, pode-se dizer que 0 fim ‘Nada mais (nem mesmo Deus) desaparece pelo fim ou pela morte mas por proliferacso, contaminagao, saturacdo € transparéncia, exaustao e exterminag4o, por epidemia de simula¢o, transferéncia na existéncia segunda da simulacao. Ja nao ha modo fatal de desaparecimento, mas sim um modo fractal de dispersao. Nada mais se reflete de fato, nem em esp a em abismo (que nada mais ¢ que o desdobramento da conscigncia). A légica da dispersao viral das redes ja nao 10 a do valor nem a da equivaléncia. J4 nfo hé revolugio, mas circunvoluco, uma involucdo do valor. Ao mesmo tempo, uma compulsdo centripeta bem como uma excentricidade de todos os sistemas, uma metastase interna, limites, a ultrapassar a propria l6gica, nao na pura tautologia mas num aumento de forca, numa potercializacto fantéstica em que eles arriscam a propria perda. ‘Todas essas peripécias nos fazem retornar ao destino do valor. Eu havia invocado outrora, num obscuro intento de classificacao, uma trilogia do valor. Um estadio natural do valor de uso, um estédio mercantil do valor de troca, um estadio estrutural do valor-signo. Uma lei natural, uma lei til, uma lei estrutural do valor. E claro que essas distingdes so formais, mas € como 05 fisicos que inventam a cada més uma nova particula. Uma nao expulsa a outra: clas sucedem-se ¢ adicionam-se numa trajet6ria hipotética. Vou, portanto, aqui acrescentar uma nova particula a suiicre-fisica dos simulacros. Depois do estadio natural, do estédio mercantil, do estédio estrutural, eis que chega 0 estadio fractal do valor. Ao primeiro correspondia um referente natural, e 0 valor desenvolvia-se em relacao com um uso natural do mundo. Ao segundo correspondia um equivalente geral, ¢ o valor desenvol uma légica da mercadoria. Ao ter codigo, ¢ 0 valor ai se desenvolve conjunto de modelos. No quarto ou estadio viral, ou ha neahuma refer em todos os int hé uma espécie de oS do valor, lor, de proliferacdo ¢ de dispersio j4 que licapao ¢ de reacko em cadeia torna u impossivel qualquer avaliacdo. Mais uma vez € como na microfisica: € t20 impossivel calcular em termos de belo ou fio, de verdadeiro ou fal ‘bem ou mal, quanto calcular je € a posicdo de uma particula. ‘em abscissas ¢ ordenadas. Cada particula segue seu préprio movimento, cada valor ou fragmento de valor brilha por uum instante no firmamento da simulac&o para desaparecer no vacuo, segundo uma linha quebrada que so excepcionalmente encontra a dos outros. E o esquema peculiar ao fractal; é 0 esquema atual de nossa cultura. Quando as coisas, os signos, as ages sao libertadas de sua idéia, de seu conceito, de sua esséncia, de seu valor, de sua referéncia, de sua origem e de sua finalidade, entram entao numa auto-reproducko. a funcionar a0 passo que a idéia de idéia de progresso desapareceu, mas 0 ia. A idgia de riqueza que sustenta a feceu, mas a producao continua firme. ‘Ao contrario, ela acelera-se 4 medida que se torna a suas finalidades de origem. Do aspecto politico, pode-se dizer que a idéia desapareceu, mas que 0 jogo p continua numa indiferenca secreta a seu proprio desafio. Da televisdo, pode-se dizer que ela se passa numa indiferenca total a suas proprias imagens (ela poderia continuar assim até na hipétese do desaparecimento do homem). Haveria em todo o sistema, em todo 0 individuo, a pulsao secreta de livrar-se de sua propria idéia, de sua propria esséncia, para conseguir proliferar em todos os sentidos, para extrapolar em todas as direodes? Mas as consequéncias dessa dissociacao 86 podem ser fatais. Qualquer coisa que perca a propria idéia € como 0 homem que perdea a sombra — cai num delirio em que se perde. 2 Aqui comeca a ordem, ou a desordem metastitica, ‘de demultiplicagdo por contigitidade, de proliferagio cancerosa (que j4 nfo obedece nem ao cédigo genético do valor). Esmaece entdo de certa forma em todos os dominios a grande aventura da sexualidade, dos seres sexuados — em proveito do estadio anterior (?) dos seres imortais eassexuados, reproduzindo-se como os protozodrios, por si do Mesmo e declinagao do cédigo. Os atuais, as méquinas, os clones, as protese: para esse tipo de reproducéo e, lentamer proceso nos seres chamados humanos ¢ sexuados. Todas as tentativas atuais, entre as quais a pesquisa bioldgica de vanguarda, tendem para a elaboracdo dessa substituicao genética, de reproducdo seqiiencial linear, de clonagem, de Partenogénese, de pequenas Aquinas eelibatarias. Na época da liberago sexual, a palavra de ordem “o méximo de sexualidade com 0 minimo de reproduga0””. Hoje, 0 sonho de uma sociedade clénica seria 0 inverso: 0 maximo de reprodugéo com o minimo possivel de sexo. /Outrora o corpo foi a metéfora da alma; depois foi a (metéfora do sexo; hoje j4 no é mais metafora de coisa nenhuma. E 0 lugar da metastase, do encadeamento maquinico de todos os seus processos, de uma programacao infinita sem organizacao simbélica, sem objetivo transcendente, na pura promiscuidade consigo mesmo, que é também a das redes e dos circuitos integrados. A possibilidade da metéfora desaparece em todos os dominios. Isso é um aspecto da transexualidade geral que se estende bem além do sexo — a todas as disciplinas, uma vez que elas perdem o carter especifico e entram num proceso de confusio ¢ de contagio, num processo viral de indiscriminagao, que € 0 acontecimento primeiro de todos (08 nossos acontecimentos novos. A economia tornada ' | transeconomia, a estética tomnada transestética, 0 sexo tornado {transexual convergem todos para um processo transversal € 13 universal ém que nenhum discurso mais pode ser a metafora do outro, j& que, para que haja metéfora, é preciso que haja campos diferenciais e objetos distintos. Ora, a contaminacdo de iplinas poe fim a essa tal por definicao (ou por ‘uma transposicao da area s pela viruléncia, pela reacao em cadeia, pela aleatSria ¢ insana, pela metéstase. Talvez nossa Contaminacao respectiva de todas as categorias, tuigdo de uma esfera por outra, confuso dos géneros. esporte — esté nos negécios, no sexo, na pol geral da performance*. Tudo esta afetado pelo te exportivo de exceléncia, de esforco, de recorde ito-superacdo infantil. Cada categoria passa’ assim de fase, em que sua esséncia se dilui em as, a seguir infinitesimais, na solucdo de conjunto, até desaparecer ¢ nao deixar sendo um vestigio indistinto como na meméria da agua. Assim, a Aids corresponde menos a um excesso de sexo ¢ goz0 do que a uma descompensaco sexual por infiltragdo_geral em todos os dominios da vida, a essa ventilacao do sexo em todas as variantes triviais da encantacao + Consgeramor prefervel nto trcusie 0 tomo performance, vio que the aber ‘putas scpett Jeepenho, figrarto, release, aap, exo, fusconaneeto sexual. E em todo o sexual que a i se perde a diferenca sexual e, Dor isso, a propria sexualidade. E nessa difracao do principio de realidade sexual, no nivel fractal, microlégico ¢ desumano, que se instala a confuséo elementar da epidemia. iunidade se perde, que Talver ainda guardemos a meméria do sexo como a agua guarda a das moléculas infinitamente diluldas; mas, justamente, n&o passa de uma meméria molecular, a membria corpuscular de uma vida anterior; no é a meméria das formas nem das singularidades (0s tracos de um rosto, a cor dos olhos, seré que a Agua pode guardar a forma deles?). Assim guardamos a marca de uma sexualidade sem rosto, infinitamente diluida no caldo de cultura politico, midiético, comunicacional ¢, enfim, no desencadeamento viral da Aids. A lei que nos ¢ imposta é a da confusdo dos géneros. Tudo é sexual. Tudo é px linguagem, a m{dia, assim como 0 desejo, tornam-se politicos & medida que entram na esfera da liberacdo e dos processos coletivos de massa. Ao mesmo tempo, tudo tornou-se sexual, tudo € objeto de desejo: 0 poder, o saber, tudo se interpreta em termos de fantasmas de recalque, o estereétipo sexual esté em tudo. Ao mesmo tempo, tudo se estetiza: a politica convencionou chamar cultura, espécie de semiologizacéo mididtica e publicitaria que invade tudo — 0 grau Xérox da cultura. Cada categoria é levada a seu mais alto grau de generalizacdo e, por isso, perde toda a es 19 /S€ desfaz em todas'as outras, Quando tudo € p Gnas € politico, e a palavra ja lo tem sent tudo é sexual, nada mais € sexual, ¢ 0 sexo per determinacao. Quando tudo estético, nada mais é belo 15 nem feio, ¢ a propria arte desaparece. Esse estado de coisas paradoxal, que ¢ ao mesmo tempo a realizacto total de uma idéia, a perfeicko do movimento moderno bem como ‘sua recusa, sua liquidacdo por excesso, pela extensao além dos préprios limites, pode ser retomado numa mesma figura: transpolitica, transexual, transestétice. J4 ndo hé vanguarda politica, sexual nem artistica que corresponda a uma capacidade de antecipacdo, log uma possibilidade de critica radical em nome do dest em nome da revolucdo, em nome da liberagao das formas. -volucionério passou. O movimento glorioso nao fosse uma classe, como foi dito, © que s6 a burguesia fosse uma verdadeira classe e, portanto, sO ela como tal pudesse negar-se. O que de fato ela fez, e o capital junto com ela, gerando uma sociedade sem classes mas bem diferente da que teria resultado de uma revolucao ¢ da andlise de Marx continua idealmente 36 nao havia previsto a possibilidade de 0 capital, diante da ameaca iminente, transpolitizar-se de certa forma, colocar-se em orbita além das relagdes de produgdo 16 ‘flutuante, arrebatado e aleatério, e, assim, totalizaro mundo a sua imagem. O capital (se é que ainda se pode chamé-lo assim) nZo leva em considerae4o a economia politica nem i do valor: € nesse sentido que ele consegue escapar a seu préprio fim. Funciona doravante além de suas proprias finalidades e de maneira totalmente irreferencial. O do mesmo proceso. Na teoria revolucioniria, havia também a utopia poteose e na transparéncia do social. N&o foi politico desapareceu, mas sem transcendc a0 desaparecer, ele arrastou consi Estamos no transpolitico, isto ¢, no grau zero do que é também o de sua reproducio ¢ de sua ee ee escheat ee eee nectar tca em seu lugar. Estamos na histerese do politico. ‘Também a arte nfo conseguiu, de acoréo com a s, transcender-se como tinha de ultrapassar-se estava ld e era religiosa). Ela aboliu-se néo numa lade transcendente mas numa estetizacdo geral da vida cotidiana; desapareceu em proveito de uma circulacao pura das imagens epis6dio crucial na arte foi sem davida Dada e Duchamp, no qual a arte, ao renegar sua propria regra do jogo estético, chega a era transestética da banalidade das imagens. A utopia sexual também no se realizou. Aquela que teria consistido para o sexo em negar-se como atividade REEVALE 0 BIBLIOTECA tmultiplicidade das redes e cai S comunicagaoé o mais social que “a socialidade superativada pela separada e realizar-se como vida total — o que ainda constitui © somho da liberacdo sexual: idade do desejo e de sua realizapio em cada um de nés, masculino e feminino ao mesmo tempo, sexualidade ida, assun¢Ao do desejo além da diferenca dos sexos. Ora, através da liberacao sexual, a sexnalidade s6 conseguiu autonomizar-se como i rrente dos signos do sexo. Se estamos mesmo transiggo para uma situagao transexual, esta assemelha-se ndo a uma revolucdo da vida pelo sexo mas a uma confusao ¢ uma promiscuidade que levam & indiferenca virtual do sexo. © €xito da comunicacao da informagao seria, do mesmo modo, resultante da impossibilidade que a relac3o social tem de superar-se como relacdo alienada? Na falta disso, ela redobra-se na comunicacdo, multiplica-se na social em esséncia niio ¢ isso. F utopia, uma forma conflituosa e contre em todo o caso um acontecimento inte fente e excepcional. < A.comunicacio, ao banalizar a interface, leva a forma social A indiferenga. E por isso que nao hé utopia da comunicacao. A utopia de uma sociedade comunicacional nao tem sentido, Ja que a comunicacao resulta precisamente da incapacidade de uma sociedade superar-se para outros fins. O mesmo acontece com a informac&o: 0 excesso de conhecimento dispersa-se indiferentemente na superficie em todas as direcdes, mas ele s6 comuta. Na interface, os interlocutores €stdo ligados entre si como o plugue na tomada elétrica. “Isso” ica, como se diz, por uma espécie de circuito , Para que comunique bem, é preciso fio ha tempo para o silencio. O silencio banido da comunicacéo. As imagens midiaticas (¢ 0s textos midiaticos sio como as imagens) ‘nunca se calam; imagens e mensagens devem suceder-se sem 18 x interrapedo. Ora, 0 silencio € justamente a sincope no ircuil ‘catastrofe, 0 lapso que, na televisio por spenias um enredo forcado, uma ficgao ininterrupta que nos supre 0 vazio, o da tela tanto quanto o da nossa tela mental, do qual espreitamos as imagens com igual fascinagio, A imagem do homem sentado, contemplando, num dia de greve, sua tela de televisto vazia, constituird no futuro uma das mais belas imagens da antropologia do século XX. Transestético ‘A Arte prolifera por toda a parte. O discurso sobre a Arte mais depressa ainda, mas com seu cardter proprio, sua aventura, sua forca de ilus&o, sua capacidade de recusar © real € de opor a0 real outro cenério, onde as coisas simbOlico, pelo qual ela se distingue da pura ¢ simples produgao de valores estéticos, que conhecemos sob.o nome de cultura: proliferagao dos signos ao infinito, reciclagem ‘das formas passadas e atuais. J4 no existe regra fundamental, critério de julgamento nem de prazer. Hoje, no dominio a estético, ja nfo ha Deus para reconhecer os seus. Ou, segundo outra metafora, j4 nao hé padrdo-ouro de julgamento nem de prazer estético. E como para as moedas que jé nao podem. ser trocadas e que flutuam cada uma por si, sem conversio possivel em valor ou em riqueza reais. Naarte também estamos assim: no estadio de circulaco ultra-répida ¢ de troca impossivel. As “‘obras”” j nfo se trocam, nem entre si nem em valor referencial, ‘a cumplicidade secreta que é a forga de uma cultura. J4 no as lemos, ¢ decodificamo-las segundo critérios cada vez mais contraditérios. Nela nada se contradiz. A Neo-Geometria, 0 Novo Expressionismo, a Nova Abstracdo, a Nova Figuracao, tudo isso coexiste maravilhosamente numa total indiferenca. E Porque todas essas tendéncias j4 no tém carater proprio, que podem coexistir num mesmo espago cultural. E porque suscitam em nds uma indiferenca profunda, que podemos aceita-las simultaneamente. © mundo artistico oferece um aspecto estranho. E como se houvesse uma estase da arte e da inspirago. Como se aquilo que se desenvolyeu magnificamente durante séculos se tivesse subitamente imobilizado, petrificado por sua propria imagem e riqueza. Por trés de todo 0 movimento convulsivo daarte contemporénea, ha uma espécie de inércia, algo que jd no consegue superar-se ¢ que gira sobre si mesmo numa recorréncia cada vez mais rapida. Estase da forma viva da arte e, a0 mesmo tempo, proliferacio, sobrelanco tumultuo: iagdes multiplas sobre todas as movente em si, do que esté onde ha estase, ha metéstase. Onde para de ordenar-se uma f iva, onde para de funcionar uma regra (no cncer), as células comegam a proliferar em desordem. No fundo, na atual desorcem da arte, percebe-se uma ruptura do eédigo secreto 2 - da estética, como em certas desordens biolégicas percebe-se uma ruptura do eddigo genético. Através da liberacio de formas, linhes, cores ¢ concepedes estéticas, através da mixagem de todas as culturas € de todos os estilos, nossa cultura produziu uma estetizagao geral, uma promogio de todas as formas de cultura, sem esquecer as formas de anticultura, uma assung0 de todos os modelos de representacio e de anti-representacAo. Se a arte fosse apenas uma utopia, isto é, algo que escapa a qualquer realizacdo, hoje essa utopia estaria plenamente realizada: através da midia, da informatica, do video, todo ‘© mundo tornou-se potencialmente criativo. Até a antiarte, a mais radical das utopias Duchamp instalou seu .ndy Waar quis tormar-se uma maquina. Toda a maquinaria industrial do mundo ficou estetizada, toda a insignificdncia do mundo viu-se transfigurada pelo estético. Diz-se que o grande empreendimento do Ocideme é a meccantilizacdo do mundo, de tudo entregar a0 destino da mercadoria. Parece, porém, que foi a estetizagao do mundo, sua encenacao cosmopolita, sua transformacao em imagens, sua organizacdo semiolégica. Estamos assistindo, além de ao materialismo mercantil, a uma semi-urgia de -se, ‘‘musealiza-se’”. Tudo € dito, tudo se exprime, tudo toma forca ou modo de signo. O sistema funciona nao tanto pela mais-valia da mercadoria mas pela mais-valia estética do signo. Fala-se de desmaterializapao da arte, com a arte minimal, arte conceptual, arte efémera, antiarte, toda uma ética da transparéncia, do desaparecimento ¢ da desencarnardo, mas na realidade & a estética que se materializou por toda a parte em uma forma operacional. 23 E por isso, alias, que a arte é forgada a se tornar minimal, a colaborar para seu proprio desaparecimento. Ela assim 0 faz hé um século, seguindo todas as regras do jogo. Tenta, como todas as formas que desaparecem, refazer-se na simulagdo, mas em breve desaparecera totalmente, deixando © espago para o imenso muscu artificial e para a publicidade desenfreada. Vertigem cclética das formas, vertigem eclética dos razeres: ja era essa a figura do barroco. Mas, no barroco, a vertigem do artificio ¢ também uma vertigem camal. Como os barrocos, turas Avidas de imagens, embora secretament -onoclastas. Nao desses que audiovisual, imagens é literalmente imagens em que no ha nada para imagens sem vest{gios, sem sombra, sem conseqtiéncias. O' que se pressente é que, por ‘trés de cade uma, algo desapareveu. Blas s40 apenas isto: © vestigio de algo que desaparecen. O que nos fascina num quadro monocromatico é a auséncia maravilhosa de qualquer forma. E o apagamento — ainda sob forma de arte — de toda a sintaxe estética, assim como 0 que nos fascina no ‘transexual ¢ 0 apagamento “ainda sob forma de espetaculo”” da diferenca sexual. Essas imagens nao escondem nada, no revelam nada, tém de certa forma uma intensidade negativa. © nico beneficio de uma lata de sopa Campbell de Andy ‘Warhol (mas ele ¢ imenso) consiste em nao mais se colocar @ questo do belo ¢ do feio, do real ou do irreal, da transcendéncia ou da imanéncia, exatamente como 0s icones bizantinos permitiam que nao se colocasse a questo da existéncia de Deus — sem contudo deixar de crer. Esse é 0 milagre. Nossas imagens so como 0s icones: elas nos dao a possibilidade de continuar a crer na arte, evitando a questéo de sua existéncia. Por isso talvez se deva considerar toda a arte contempordnea como um conjunto ritual, para uso ritual, sem levar em conta nada além de sua funcdo antropolégica, sem referéncia a nenhum julgamento estéiico. Retornaramos assim ao estadio cultural das sociedades primitivas (0 fetichismo especulativo do mercado ‘da arte também faz parte do ritual de transparéncia da arte). Estamos no ultra — ou no infra-estético. Indtil procurar em nossa arte coeréncia ou destino estético. E como buscar o azul do céu do lado infravermelho ou do ultravioleta. Chegados a esse ponto, nfo estamos nem no belo nemno feo sim naimpoablidade de fazer esejulgamento ficamos condenados &indifeenca. Mas, além desainciferenca ¢ substituindo o prazer estético, emerge um outro fascinio. O beloeo feo, quando se iberam das respecivas coercdes, multiplicam-se de certo modo, tornam-se 0 mais belo que © belo ou o mais feio que o feio. Assim a pintura atual culliva nao exatamente 2 feiéra (que ainda é um valor estético) mas 0 mais feio que o feio (0 bad, o worse, o kitsch), ume feiira elevada a segunda poténcia porque liberada da relac%o com seu oposto. Livre do “‘verdadeiro” Mondrian, is Mondrian que Mondrian”. Seago aso eae naif que os naifs” etc. Livre do real, voc® pode fazer el que o real: 0 hiper-real. Alias, foi com 0 hiper-realismo ¢ com a pop-arte que tudo comecou, pela clevacéo da vida cotidiana & poténcia irénica do realismo fotografico. Hoje essa escalada engloba todas as formas de arte € todos os estilos sem distingdo, que entram no campo transestético da simulacdo. HA um paralelo dessa cscalada no préprio mercado da arte. Nele também, por ter-se liquidado toda a lei mercantil do valor, tudo se torna “‘mais caro que caro”, caro elevado ao quadrado: os pregos ficam exorbitantes, 0 25 sobrelango delirante. Assim como quando j4 nao ha regra do jogo estético este se al i ‘quando se perde toda a ref resvala para a especulacdo i da troca, o mercado ‘Mesmo entusiasmo, mesma loucura, mesmo excesso. A explosto publicitaria da arte esta em relacio direta com a impossibilidade de qualquer avaliacdo estética. O valor explode na auséncia de julgamento de valor. E 0 éxtase do valor. Existem hoje, portanto, dois mercados da arte. Um ainda regula-se por uma hierarquia de valores, mesmo que cles j sejam especulativos. O outro assemelha-se aos capitais flutuantes e incontrolaveis do mercado financeiro: é pura ‘especulago, movenca total, cuja Unica justificativa parece ser a de desafiar a lei do valor. Esse mercado da arte uma espécie de péquer ou de porlatch*, um espaco-6pera no hiperespaco do valor. Ser motivo de escfndalo? Nao ha nada de imoral nisso. Assim como a arte atual est além do belo ¢ do feio, o mercado esta além do bem e do mal. *Patevrsintigina da Amésica, através do ogi (183): dom ou deride ariter ‘grado, ofecio «um donatro, que se Otiga A resprecdade. UT.) 26 Transexual © corpo sexuado est entregue hoje a uma espécie de destino artificial. Esse destino artificial é a transexualidade. ‘Transexual ndo no sentido anatémico mas no sentido mais geral de travestido, de jogo de comutacdo des signos do SeX0, €, Por oposicao ao jogo anterior da diferenga sexual, de indiferenca sexual, indiferenciacao dos pdlos sexuais ¢ indiferenga ao sexo como gozo. O sexual tem por objetivo 0 gozo (¢ 0 leitmotiy da liberagio), 0 transexual tem por objetivo 0 artificio, seja ele o de mudar de sexo ‘ou 6 jogo dos signos vestimentares, morfoldgicos, gestuais, caracteristicos dos travestis. Seja como for, operarao cirirgica ou semitrgica, signo ou érgio, trata-se de préteses e, hoje, fem que 0 destino do corpo é tornar-se protese, & Iogico que ‘© modelo da sexualidade se torne a transexualidade, e que esta se torne em toda a parte o espaco da seducdo. 27 ____ Somes todos transexuais. Assim como somos mutantes biolégicos em poténcia, somos transexuais em poténcia. E ndo € questo de biologia. Somos todos simbolicamente transexuais. Vejam a Cicciolina. Haveré encarnagio mais maravilhosa do sexo, da inocéncia pornogrifica do sexo? Contrapuseram-na a Madonna, virgem produto da aerobica € da estética glacial, desprovida de qualquer charme e sensualidade, andréide com musculatura, que, por isso ‘mesmo, conseguiram transformar em idolo de sintese. Mas ndo é também a Cicciolina uma transexual? Os longos cabelos loires, os seios moldados em concha, as formas em quadrinhos ou de fice cientifi cexagerados, de signos carnivoros da sexualidade. O ectopl carnal que €a Cicciolina encontra-se com a seme artificial da Madonna ou com o charme andrégino frankensteiniano de Michael Jackson. Séo todos mutantes, , seres geneticamente barrocos, cujo visual erétice esconde a indeterminacao genética. Todos s4o gender-benders, transfugas do sexo. A ‘Vejam Michael Jackson. E um mutante solitério, precursor da perfeita mestigagem universal, a nova raca segundo as racas. As criancas de hoje nao tém bloqueios quanto a uma sociedade mestiga, esse € 0 universo delas, ¢ ‘Michael Jackson prefigura o que clas imaginam como futuro ideal. Sem esquecer que Michael fez plastica, alisou 0 cabelo e fez tratamento para clarear a pele, enfim, ele se construiu minuciosamente; € isso mesmo que o torna uma crianca inocente e pura — o andrégino artificial da fabula que, mais do que Cristo, pode reinar no mundo e reconcilid-lo, porque € mais do que o menino-deus: é menino-protese, embrido de todas as formas sonhadas de mutas2o que nos livrariam da raga e do sexo. Poderiam também ser evocados os travestis da estética, dos quais Andy Warhol seria o emblema. Como Michael Jackson, Andy Warhol ¢ um mutante solitério, precursor de uma mesticagem perfeita e universal da arte, de uma nova estética segundo as estéticas. Como Jackson, é uma personagem perfeitamente artificial, também inocente & pura, um andrdgino da nova geracio, espécie de protese mistica e de maquina artificial que nos livra, por sua perfeic&o, tanto do sexo quanto da estética. Quando Warhol diz: “Todas ‘as obras so belas, nfo preciso escalher, contemporaneas se equivalem”; quando diz: em toda a parte, logo, ja néo existe, todo o mundo é genial, © mundo tal como é, em sua banalidade, é genial”, ninguém pode acreditar. Mas ele est descrevendo a configuracdo da esiética moderna, que € a de um agnosticismo radical. Somos todos agnésticos ou travestis da arte ou do sexo. J4 nfo temos conviccdo estética nem sexual, mas professamos todas. O mito da liberacdo sexual permanece vivo sob varias formas na realidade, mas no imagindrio ¢ 0 mito transexual que predomina, com suas variantes andrdginas e hermafroditas. Apés a orgia, o travesti. Apés 0 desejo, a irradiagao de todos os simulacros eréticos de cambulhada, © o kitsch transexual em toda a sua gléria. Pornografia ‘pés-moderna, se quiserem, em que a sexualidade perde-se 29 —F fo excesso teatral de sua ambigiiidade. As coisas mudaram bastante em relacdo ao tempo em que sexo ¢ politica faziam parte do mesmo projeto subversiv« pode ser cleita deputada no parlament Porque o transexual e a transpolitica encontrat iferenca irénica. Essa facanha, impensavel ha poucos yrova que nao € sO a cultura sexual mas toda a cultura que se bandeou para o lado do travesti. Essa estratégia de exorcismo do corpo pelos signos do sexo, de exorcismo do desejo pelo exagero de sua é bem mais eficaz que a da antiga repressio feita . Mas, ao contrario da anterior, j4 nao se ela aproveita, pois todo o mundo a suporta scriminadamente. Esse regime do travesti tornou-se a té em nossa busca de femos tempo de buscar idade nos arquivos, na meméria, nem num projeto igacko imediata, espécie de identidade publicitaria que possa scontecer no mesmo instante. Assim, 0 que se busca hoje no € tanto a satide, que ¢ ado de equilibrio organico, mas um brilho efémero, higignico e publicitério do corpo = bem mais uma performance do que um estado ideal. Em termos de moda ¢ de aparéncia, busca nao tanto a beleza ou a seducdo, e sim o visual. Cada um procura seu visual. Como ja nao ¢ possivel achar argumento na propria existéncia, s6 resta fazer ato de aparéncia sem precepts de ser nem mesmo de ser so sem profuse um tipo de ingenuitiade ja em que cada um torné-se empresério da prépria © visual € uma espécie de imagem minimal, de definig&io menor, como a imagem video, imagem tatil com 30 diria McLuhan, que nem provoca olhar ou a admiracio, como ainda o faz a moda, mas um puro efeito especial sem significado particular. O visual j nao é a moda, é uma forma ultrapassada da moda. J4 nao apela para a légica da distincdo, j4 no é diferenca sem nela acret a indiferenca. Ser torna-se uma performance efémera, sem futuro, um maneirismo desencantado num mundo sem maneiras... Retrospectivamente, esse triunfo do transexual e do travesti esclarece de modo estranho a liberacdo sexual das gerages anteriores. Essa liberagdo, longe de ser — de acordo com seu préprio discurso — a invaso de um valor erdtico maximal do corpo, com assunedo privilegiada do feminino ‘edo 2020, talvez nao tenha passado de uma fase intermediéria em diregio A confusio dos géneros. Talvez a revolucdo sexual tenha sido apenas uma etapa para a transexualidade. No fundo, é o destino problematico de toda a revolucio. A revolugao cibernética leva o homem, diante da equivaléncia entre eérebro © computador, & interrogagao crucial: “Sou uum homem ou uma, miquina?". A revolueto genética em “Sou um homem ou um clone virtual?”. (a psicandlise contribuiu pelo menos para incerteza sexual). Quanto a revolucdo politica e social, protétipo de todas as outras, terd, a0 dar-lhe © uso da liberdade ¢ da vontade prépria, levado o homem, segundo uma logica implacével, a se perguntar onde esta sua vontade prépria, que quer de fato ¢ que tem direito de esperar de si mesmo — problema insolivel. Tal €0 resultado paradoxal de toda a revolucdo: com ela comecam a indeterminago, a angistia e a confusto. Passada a orgia, 1a liberagao deixa todo o mundo & procura da identidade genérica e sexual, com cada vez menos respostas possiveis, por causa da circulacdo dos signos ¢ da multiplicidade dos prazeres. Foi assim que nos tornamos transexuais. Do mesmo FERVALE « BIBLIOTECA io ez sem. querer, travestis do Transeconémico O interessante na crise de Wall Street em 1987 foi a incerteza quanto &catdstrofe. Houve, haverd uma verdadeira catdéstrofe? Resposta: ndo haverd catdstrofe real, porque vivemos sob 0 signo da catistrofe virtual. © que ficou claro naquela ocasiao foi a distorcao entre a economia ficticia e a economia real — distorcéo essa que nos protege de uma catdstrofe real das economias produtivas. ‘Serum bem, sera um mal? E o mesmo quea distorc&o | a Se ‘0 choque atémico teria acontecido. Somos dominados pelas 33 ram: o craque das chogue atémico, a rafica. bomba da d Mundo, a bomba demografica. de dizer que tudo isso estourara Herittneste unt Sins assim como fol predito, para ct izamento sismico da California no o af: estamos numa situacao em ‘unica realidade ¢ a desenfreada is que, quando quebra, nao acarreta desequilil substancial nas economias reais (ao contrario da crise de 1929, em que a desconexto das duas ea no estava téo avancada). Sem duvida porque a ee 1s capitais flutuantes ¢ especulativos é td automatizada, que nem mesmo suas convulsdes deixam marcas. inevitavelmente um {4, porém, uma marca mortifera que aparece: € na poe econémica, completamente desarmada diante do estthagamento de seu objeto. Igualmente desarmados esto os tebricos da guerra. Porque, também nisso, a Bom ‘mas € a propria guerra que se fragmenta eu coal ¢ virtual, em érbita, ¢ inimeras guerras ‘As duas ndo tém dimens6es iguais nem regras como a economia virtual e a economia real. jar-nos a essa partitura, a um mundo al distorgdo. Decerto houve uma crise em 1929 ¢ a explosdo de Hiroshima logo, um momento de verdade do craque ¢ do choque, mas nem o capital fo de arise em crise cada vez mais graves (como anunciava Mam nem a guerra foi de choque em choque. © acontecimento ex € acabou. A seqiéncia ¢ outra coisa: ¢ 2 0 do grande capital financeiro hiper- i osntos eden abos oaizadoe ima de n sbecas em vetores que nos ¢ 1 ue iguaiments,escapam propria elidadehiper-realzada a guerra, hiper-realizada a moeda — elas circulam num espago iacessvel mas que, por ist, deixa mundo como é. Finalmente as economias continuam ‘a produzir, 34 20 passo que a minima conseqiiéncia ldgica das flutuacdes ‘da economia ficticia ja teria bastado para aniquilé-las (convém do esquecer que 0 volume das trocas comerciais & hoje 45 Yezes menor que 0 do movimento de capitais). 0 mundo continua a existir enquanto um milésimo da poténcia nuclear disponivel jé teria bastado para extingui-lo. O Terceiro Mundo convive com 0 outro, enquanto o minimo desejo de apurar a divida estancaria toda e qualquer troca. Alids, J comeca a entrar em Grbita, comeca a circular de um banco para outro, de um pais para outro, que a negociam entre si — e assim acabargo por exquecé-la, Pondo-a.em drbita como os detritos atémicos e varias outras coisas. E fantdstica essa divida que gira, esses capitais ausentes que circulam, essa riqueza negativa que, sem diivida, um dia também serd cotada na bolsa. Quando a divida se torna um trambolho, é rejeitada ara um espaco virtual, onde faz figura de catastrofe congelada em sua érbita. A divida torna-se um satélite da ‘Terra, como a guera, como os bilhdes de délares de capitais flutuantes tornaram-se um amontoado-satélite que gira savelmente em torno de nés. Sem divida € melhor .. Enquanto eles ficam girando, e mesmo. que explodam ‘0 espaco (tal como os bilhdes “perdidos”’ na crise de 1987), © mundo continua o mesmo, 80 que de melhor se pode is a esperanca de reconciliar a economia ficticia com a economia real é ut6pica: esses bilhdes de délares que flutuam sao inconvertiveis para a economia real — felizmente, alids, porque, se por milagre eles pudessem ser reinjetados fas economias de producao, ai sim é que haveria uma verdadeira catéstrofe. Da mesma forma, deixemos a guerra Virtual em érbita, pois é 14 que ela nos protege: em sta abstracao extrema, na excentricidade monstruosa, 0 nuclear € nossa melhor protegéo. Vamos nos habituar a viver a sombra dessas excrescéncias: a bomba orbital, a especulacdo financeira, a divida mundial, a superpopulacdo (para a qual, embora sem ter perdido a esperanca, ainda ndo se 35 achou soluggo orbital). Tais como so, exorcizam-se 10 proprio excesso, sr-tealidade, e deixam o mundo de certa maneira intacto, livre de seu duplo. Segalen dizia que, a partir do momento em que se soube de fato que a Terra era uma esfera, a viagem deixou de existir, j@ que afastar-se de um ponto numa esfera é comesar a se aproximar dele. Na esfera, a linearidade assume uma curvatura estranha: a da monotonia. A partir do momento em que os astronautas se puseram a girar em torno da Terra, cada ser comecou a girar secretamente em torno Ge si mesmo. A era orbital comegou, da qual o espaco também faz parte, assim como, de modo privilegiado, a televisio e imimeras outras coisas, entre as quais a ciranda das moléculas © as espirais do ADN no intimo de nossas células. Com 0 orbe dos primeiros vOos espaciais, Snundializacio completou-se, mas 0 préprio -progresso tornou-se circular, ¢ 0 universo dos homens circunscreveu-se 1uina orbital, Comeca o “turismo”, como smo perpétuo de pessous que, a bem dizer, ja n&o viajam, que apenas dio voltas em seu territério cercado. O exotismo morreu. Mas a proposta de Segalen tem sentido mais amplo. Nao foi somente a viagem, isto é, o imaginario da Terra, a fisica e a metafisica da superacdo, da descoberta, que deixou de existir em beneficio unicamente da circulacdo; foi tudo fo que visava & superacio, & transcendéncia, ‘que se inflectiu sutilmente para por-se em or! 3s. téenicas, 0 comhecimento, quando deixam de ser transcendentes em seu projeto, comecam a tecer uma érbita perpétua. Assim a informagdo € orbital, é um saber que Jamais ultrapassaré a si mesmo, que no se transcenderé nem se refletira mais ao infinito, mas que também nfo toca fo cho, que nao tem ancoragem nem referente verdadeiros. E algo que circula, gira, completa suas revolucdes, as vezes perfeitamente indteis (mas justamente ja nao se trata de 36 invocar a questo da utilidade), e esse algo aumenta a cada levisdo é uma imagem que um circuito orbital. A bomba € orbital também: nunca mais em sua trajetéria, mas também j4 nfo é uma bomba acabada nuclear, satelizada ou deixard de preocupar a néo é feita para tocar a te indefinida. Pode-se dizer 0 mesmo dos eurod montanhas de moedas flutuantes... Tudo Siar os dlzes que até nosso crebro jf no est em nbs ‘mas flutua nas infimeras ramifi janes ondis edos cellos. ens anne Gas Nao é ficedo-cientifica. E apenas ralizac teoria de MeLuhan sobre as * do bomen" Tudo do ser humano, seu corp cerebral, flutua em torno dele na forma de; 5 tua emt proteses mecdni ow informatica. Simplesmente, em MeLuhan, tudo iso € concebido como uma expanséo positiva, como a yniversalizagdo do homem através de suas extensOes miiticas m otimista. De fato, em vez de gravitar em torno dele em ordem concéntriea, todas as fungdes do corpo do homem satelizaram-se em torno dele em ordem excéniricg, Entraram em Grbita por si mesmas ¢ por isso, com referéncia a essa o orbital de suas arias fungbes, de suas proprias I 1em que se encontra em aque sriou ¢pés em érbita,¢o homem com seu planeta Tera, tetrit6rio, seu c i 7 Seu teriério, seu corpo, quem sesatelizou, Detranscendente, Nao € 86 0 corpo do homem cujas fun; satelizarem, 0 satelizan, S00 todal as TungBed de noses 7 ores, que s¢ sociedades, especialmente as funcdes superi e destacam ¢ entram em érbita, A guerra, as trocas financeiras, a wvante sem. ital esta fadado ao abandono, doravant apel que j4 nfo hé mais recurso a nenhuma transcendéncia. amos na era da ndo-gravidade. Nosso modelo é « nich espacial cuja energia cinéica anula 2 iia te “ energia centrifuga das miltiplas tesnologias alivia‘nos & toda a gravidade e nos transfigura em vai liberdade de movimento, Livres de toda a densidade e de toda.agravidade, somos arrasiados num movimento orbital que tende a tormar perpétuo. tamos no crescimento; estamos na excresctacin Estamos numa sociedade da proliferac8o, do que continua a crescer sem poder ser medido por seus roprios fins. © excrescente é o que se desenvolve de modo ncontrolavel, sem respeito pela propria definicdo, aque cuujos efeites’ multiplicam-se com 0 desaparecimento das as. Eo que leva a um prodigioso entupimento £0 Se ne ee Oa clon compari jondlidade, por saturaco. Som 0: powesso dau metastases cancerosas: ¢ 2 perda da Fegra do jogo orgfinico de um corpo que faz, com que determinado conjunto de células possa manifestar sua “ftalidade incoercivel e mortifera, desobedecer aos prépri comandos genéticos € proliferar ao infinito. a cri 140 ‘Jénio é um processo critico: a crise é sempre ques de causalidade, de desequilibrio entre causas € efi; da fencontra sua solugao ou nao num reajustamento das causes, ‘Ko passo que, no que nos concerne, so as caus 3 tornam ilegiveis, deixando lugar para Enquanto ha disfuneto num sistema, desobediéncia as leis conhecidas de funcionamento, hé perspectiva de solurdo por superacdo. O que ja ndo € crise e sim catdstrofe € quando o sistema supera a si mesmo, supera seus proprios fins e jd nfo The pode ser achado nenhum remédio. A falta , @ saturacdo, sim, é fatal: cria ao mesmo tempo uma situacdo de tetanizacio e de inércia. O surpreendente é a obesidade de todos os sistemas atuals, essa “‘gravidez diabélica”’, como diz Susan Sontag, do cincer, que € a de nossos dispositivos de informagdo, de comunicacio, de meméria, de armazenamento, de produgdo e de destruicdo, tao pletéricos, que tém de antemao a garantia de jé nfo servirem. Nao fomos nés que extinguimos © valor de uso, foi o préprio sistema que o liquidou pela superproducAo. Tantas coisas so produzidas e acumuladas, que nunca mais teri tempo de servir (0 que é uma sorte no caso das an eares). Tantas mensagens e sinais so que nunca mais ter4o tempo de ‘cue a iufisua parte que absorvemos 4 nos poe em estado de eletrocugo permanente. Ha uma nausea peculiar nessa inutilidade prodigiosa. A néusea de um mundo que prolifera, que se hipertrofia e que no consegue dar & luz. Todas essas memérias, todos esses arquivos, toda essa documentacdo que n&o consegue dar a luz uma idéia; todos esses planos, programas, decisdes que nao conseguem dar a luz um fato; todas essas armas sofisticadas que nao conseguem dar a luz uma guerra! Essa saturagiio ultrapassa 0 excedente de que falava Bataille, que todas as sociedades sempre souberam destruir em despesas imtiteis ¢ suntuosas. 14 nfo podemos despender toda essa acumulagdo, s6 temos uma descompensacdo lenta ou brusca — cada fator de aceleracdo funcionando como fator de inércia e aproximando-nos desse ponto de inércia. 39) aceleragao no vacuo, de s de desafio e de finalidad que se convercionou at inflac&o e © desemprego tradicionais sao variaveis eee do ctescimeatos a nso ae vel — so processos an‘ . J peor solidariedade organica, Inquietante éa sionals, ‘A anomalia nfo é um sintoma claro, € um estranho sia! de enfraquecimento, de infraco no jogo, a uma regra secret ‘ou que no minimo nao conhecemos. Talvez seja um excesso de finalidade, nfo sabemos. Algo nos escapa, estamos nos escapando num processo sem retorno, passamos um extase, que, ent a i inflacao. E a Ha algo bem mais aterrador que @ massa de moedas flutuantes que cercam a Terra em sua Giranda orbital. © nico satéite artificial de verdade, fnoeda tornada artefato puro, com mobilidade sideral, Touvertibilidade instamt&nea e qne, enfim, encontrou seu verdadeiro lugar, mais extraordinario que ‘© Stock Exchange: a orbita ‘em que ela nasce e se pée como um sol artific Zama espécie de satélite artificial, satélite de inércia, massa eumtbade de cleteidade nem mesmo neqatva, letiaade estatica, uma fragdo cada vez maior da s Congela. Por trés da aceleragio dos circuitos © das trocas, por trés da exasperagdo do movimento, algo em nés, 40 cada um de nés, vai perdendo velocidade até desaparecer de circulacdo. E a sociedade inteira poe-se a gravitar em tomo desse ponto de inércia. E como se os pélos de nosso mundo se aproximassem, e esse curto-circuito produzisse tos exuberantes ¢ a extenuacdo das Nesse sentido, nio deixa de ser paradoxal ver a economia voltar em triunfo a ordem do dia. E possivel falar ainda de “‘economia’”? A atual ndo tem o mesmo da andlise classica ou marxista. Porque seu motor mais a infra-estrutura da producdo materi superestrutura; € a desestruturacao do vali desestabilizacao dos mereados © das i triunfo de uma economia despida das i sociais, da historia, de uma economia despida da Economia € entregue @ especulaeao pura, de uma economia virtual despida das economias reais (nfo realmente, € claro: virtualmente — mas hoje justamente nao € a realidade, é a virtualidade que detém a forca), de uma economia viral que, assim, encontra todos os outros processos virais. E como lugar de efeitos especiais, de acontecimentos imprevisiveis, de jogo irracional que ela volta a ser o teatro exemplar da atualidade. Politica, na extinedo das classes e na transparéneia do social, segundo a Idgica inelutavel da crise do Capital. Depois sonhamos com esse fim na recusa dos préprios postulados da Economia, e também da critica marxista: alternativa que neg toda a primazia do econdmico ou do politico — a ia simplesmente abolida como epifendmeno, vencida imulacro e por uma Iégica superior. ‘Hoje ja nem precisamos sonhar: a Economia Politica acaba diante de nossos olhos, mudando para uma 4 transeconomia da especulacto que faz pouco de sua propria légica (a lei do valor, as leis do mercado, a producio, @ mais-valia, a légica classica do capital) ¢ que j4 nao tem mais nada de econémico nem de politico. Puro jogo de regras flutuantes e arbitrérias, jogo de catistrofe, ‘Assim a Economia Politica desapareceré, mas no ‘do modo como se esperava. Pela exacerbacdo até a parédia. ‘A especulapao nao é a mais-valia, € o éxtase do valor, sem Jeferncia 4 produeao nem a suas condigdes reais. E a forma pura e vazia, a forma expurgada do valor, que s6 funciona Sobre sua propria revolucdo (sua propria circulasao orbital). F ao se desestabilizar a si mesma, monstruosamente, jronicamente de certa forma, que a Economia Politica jmpede qualquer alternativa. Que opor a tal sobrelanco que recupera a seu modo a energia do péquer, do potlatch, da parte maldita, que constitui a passagem a fase estetica © Gelirante da Economia Politica? Este fim inesperado, esta transicao de fase, esta curva pela explosio ¢, no fundo, mais original que todas as nossas utopias politicas. a2 Acontecimentos supracondutores Que é que se vé triunfar simultaneamente? ut como forma trenspolitic, a Aids ¢ 0 cancer anear Patobsica,o transexual eo travesti como formas sexual ¢ ie em geral. Apenas essas formas sao hoje fascinantes. fem a liberacdo sexual, nem o debate politico, nem as doencas organicas, nem mesmo a guerra convencional interessam a mais ‘ninguém (no caso da guerra, € timo: ‘muitas guerras nao aconteceram porque nao teriam interessado ee) Os verdadeiros fantasmas estao noutro lugar. io nessas ts formas, provenients do desajuste de um Principio de funcionamento essencial bem como da confuséo dos efeitos resultantes. Cada uma — terrorismo, travesti encer — corresponde a uma exacerbasdo do jogo politico, fevual ou genético, assim como a uma defcncia ¢ 20 ronamento dos repectivos c6digos do politico, do 43 fodas sao formas virais, fescinantes, indiferentes, multiplicadas pela viruléncia das imagens, pois a midia ‘tem em si uma poténcia viral, e sua viruléncia € Estamos numa cultura da irradiacao dos corpos elos sinais e imagens ¢, se essa cultura belos efeitos, como admirar-se de que cla produza também os virus mais mortiferos? A nuclearizacao ‘dos corpos comeou em Hiroshima, mas continua de forma endémica, incessante, na irradiacao da midia, das imagens, dos sinais, dos programas, das redes. mos saturados de acontecimentos ‘‘supracondu- desse tipo de desencadeamentos intempestivos intercontinentais que ja nao atingem Estados, individuos, jinstituicdes, mas afetain inteiramente estruturas transversais: ‘0 sexo, 0 dinheiro, a informacao ¢ a comunicagao. 'A Aids, 0 craque da bolsa, os virus eletr6nicos, 0 terrorismo néo so intercambiaveis mas tém uma parecenca. A Aids € uma espécie de craque dos valores sexuais, us ‘computadores desempenharam papel “‘virulento”’ no craque Ge Wall Street mas, eles mesmos infectados, estao ameagados pelo craque dos 5 informaticos. O contgio € ativo fio apenas né de cada sistema mas passa de um a outro sistema. ‘gira em torno de uma figura genética, ‘a da catastrofe. E claro que os sinais desse desajuste vem aparecendo hd muito: a Aids em estado endémico, o creque ‘com seu célebre precedente de 1929e o risco sempre presente, a piratagem ¢ os acidentes eletrénicos j4 com 20 anos de historia. Mas a conjungdo de todas essas formas endémicas ¢ sua passagem quase simultnea ao estado de anomalia galopante criam uma situagdo original. Os efeitos no so forcosamente de ordem idéntica na consciéncia coletiva: a ‘Aids pode ser vivida como verdadeira catastrofe; j4 0 craque ‘aparece mais como um jogo de catastrofe; quanto ao virus eletrénico, pode ser dramatico em suas conseqiiéncias sem deixar de conter uma ironia desopilante, ¢ a siibita epidemia 44 que se abate sobre os computadores pode provocar, a0 ‘menos em pensamento, um juibilo justificado (exceto p oo jubilo justific « para Outros aspectos concorrem para o mesmo efeit sie, sempre suena fluoy Aeon, h Simulahto © an pea ite ao sobrelanco delirante do mercado de fe ladeira metastase de um corpo irradiado pela grana. O terrorismo. Nada se assemelha tanto 4 reacéo em cadeia do terrorismo em nossas sociedades irradiadas (alias, irradiadas através de qué? pela superfusto de flicida 4 seguranga, da informacto e da comunicagdo? pela desintegracdo dos micleos simb6licos, das regras fundamentais, dos contratos sociais? Who knows?) quanto $ fascinio sA0 t&o enigmaticos quanto os fenémenos. Quando um ea de oe introduz uma soft bomb no programa, usando sua destruicao como meio de pressdo, no estd tomando o programa e todas as suas operagSes como reféns? E os raiders, no estado eles tomando ¢ mantendo como reféns empresas, especulando Sobre & morte ou a ressureiglo delas na bolss? Todos esses feitos operam de acordo com o mesmo modelo do terrorismo (0s reféns tém uma cota de valor assim como as agdes ou 95 quadros); mas também se pode interpretar 0 terrorismo de acordo com 0 modelo da Aids, do virus eletrico ou g PA financeira*: um n&o tem precedéncia sobre 0 outro, ume mesma constelato de fendmenos. (Uustas40 recente! a divulgagao de um disquete com informacdes sobre a Aids que continha um virus desiruidor dos computadores). Ficgio-cientifica? Nem tanto, Na infor Somunlcasto, o valor da mensagem também € ead pura circulacao, porque cla passa de imagem em i Ede cela em tela. Todos nbs desfrutamos esse novo valor 7 Operapto finanecr. 7) FEEVALE BIBLIOTECA 45 aT eer centrifugo como espetaculo (a bolsa, 0 mercado de arte, os raiders). Todos desfrutamos como do embelezamento espetacular do capital, seu delirio estético. Ao mesmo tempo, desfrutamos 2 patologia secreta desse sistema, os virus que nessa bela maquinaria ¢ a desarranjam. virus fazem parte da coeréncia hiperlogica : usam todas as vias, até abrem novas (0s redes nfo haviam previsto). Os virus eletrOnicos sto a expresso da transparéncia mortifera da informacao através do mundo. A Aids é a emanagdo da transparéncia mortifera do sexo na escala de grupos inteiros. Os craques da bolsa 40 a expresso da transparéncia mortifera das economias, ‘umas em relac&o as outras, da circulacdo fulgurante dos valores, que é a propria base da liberago da producdo ¢ liberados, todos 0s processos entram ‘em superfulsdo, a imagem da superfusao nuclear, que constitui um protétipo. Decerto, um dos charmes de nossa época € essa superfusio dos processos fatuais. Também nfo deixa de ter charme a sua imprevisibilidade. Seja como for, qualquer previsio da vontade de desmenti-la. Em geral o fato encarrega-se disso. ‘Assim, hi fatos devidamente previstos que tém a gentileza de n&o acomtecerem; so 0 oposto dos que surgem sem prevenir. E preciso apostar nos retornos de conjuntura — como se falaem retornos de entusiasmo — é preciso apestar no Witz! fatual. Se perdermos, fica-nos ao menos o prazer de ter desafiado essa tolice objetiva das probabilidades. ssa é funcio vital, faz parte do patrim6nio genético da coletividade. E, alids, a tnica verdadeira funcio intelectual, a que emprega a contradicao, a ironia, o inverso, a falha, areversibilidade, a que sempre desobedever4 a lei ea evidéncia. Se hoje os intelectuais nao tem mais nada a dizer, € porque essa funco irénica Ihes escapa, porque eles se mantém no Pleas. 8-7) 46 campo da consciéncia moral, politica ou filos6f aueo jogo mudou e que toda‘ irona, toda a erica redval pastou para o lado do aleat6rio, da viruléncia, éa catastrofe, da reviravolta acidental ou sistematica — nova regra do ogo, principio de incerteza hoje soberano em tudo, e fonte Se tneag race silent Gee divas ee Se poe ‘espiritual’’). Por exemplo, 0 caso do virus nos computadores: algo em nds estremece de jibilo diante de um acontecimento , no por gosto perverso da catdstrofe nem por ery See ‘isso demonstra oafloramento ee eee i ipre provoca no homem um © fatal € quando o mesmo signo presi ayarsimentoe a0 desapareimento de alga, quando. mesmo astre [astro] prossegue no desastre ou, no caso, que a logica de radiacao de um sistema comande sua destruicao. O fatal € 0 contrario do acidente. O acidente esta na periferia, 0 fatal estd no corapto do sistema (mas o fatal nem sempre € desastroso, © imprevisivel pode conter o eucantumento). Ora, no € impossivel que encontremos, mesmo em doses » Algo dessa diabolicidade até mas pequenas ae i snomall .Pequenos desajustes que alteram nosso Pode-se registrar esse Witz fatual em todasas ocasides? Claro que nfo. Mas ai é que est4: a evidéncia nunca ¢ segura. A forga de ser incontestavel, a propria verdade perde a face; aprépria ciéncia perde o traseiro, que fica colado na poltrona. Logo, nao é hipétese académica supor que a verdade estatistica sempre pode ser desmentida. E uma esperanca provinda da quintesséncia do génio coletivo malicioso. Outrora falava-se do silencio das massas. Esse silénci . 1 io Esse sil foi o acontecimento da geragdo anterior. Hoje jé nao & por defeccdo e sim por infecso que clas agem. Infectam as sondagens ¢ as previsdes com sua fantasia heteréclita. J4 a7 no € sua abstencZo ou seu siléncio os determinantes (visto ainda nillsta) mas sua utilizagio da propria engrenagem da incerteza. Aproveitam-se muito bem de sua servidao voluntéria; agora, aproveitam-se da incerteza involuntéria. Isso significa que, a revelia dos especialistas que as estudam © dos uladores que pensam influencié-las, elas compreenderam que o politico est virtualmente morto, mas que 0 novo jogo em que podem entrar, tao excitante quanto o das flutuagdes da bolsa, ¢ aquele em que fazem variar as audiéncias, os carismas, as taxas de prestigio, cota das imagens com insustentével leveza. Procuram desmoralizé-las e desideologiza-las, de caso pensado, a fim de torné-las a presa viva do célculo de probabilidades; hoje clas desestabilizam todas as imagens e desprezam a verdade politica. Jogam com o que as ensinaram a jogar, com a bolsa de niimeros ¢ imagens, com a especulacdo total, com ‘a mesma imoralidade que tém os especuladores. Diante da certeza estipida, da banalidade inexordvel dos ‘massas encartam & margem, em matéria soci principio de incerteza. ica (e a ordem social hoje é uma cuidam secretamente da desordem estatistica. E dessa disposicao viral, diabélica, irénica e reversivel ‘que se pode esperar algum efeito inédito, algum Witz fatual. Essa sociedade j4 ndo produz apenas acontecimentos incertos, cuja elucidacio é improvavel. Outrora um acontecimento era feito para prodwzir-se; hoje € feito para ser produzido. Logo, ele se produz sempre como artefato virtual, como um travesti das formas mididticas. rmatico que desvalou durante cinco horas e militar americana falvez no passasse (Virilio), uma experiéncia dos préprios servicos tares dos Estados Unidos. Um acontecimento produzido e simulado. Entio, ou um acidente verdadeiro, testemunha da viruléncia incontestével dos virus, ou uma simulapao total, prova de que hoje a melhor estratégia é a da desestabilizacaio calculada e a do logro. Qual éa verdade ria? E, mesmo que talvez fosse exata a hipétese de uma simulagdo experimental, ela nao garantiria absolutamente 0 dominio do processo. O virus-ieste pode tornar-se um virus devastador. Ninguém controla as reagOes em cadeia. Estariamos entéo diante nao de um acidente simulado mas de um acidente da simulacdo. Sabe-se, alias, que qualquer acidente ou catéstrofe natural pode ser eivindicado como ato terrorist, ou o inverso, Nao ha paradeiro para o sobrelanco das hipéteses. _ Essa é a raza pela qual todo o sistema é globalmente terrorista, Pois 0 terror nao € tanto o da violéncia e do acidente quanto o da incerteza e da dissuasdo. Um grupo que havia simulado um assalto recebeu ha tempos uma pena mais severa do que a de uma assalto real: porque 0 atentado contra o principio de realidade ¢ falta mais grave do que a agressao real. © que fica € uma imensa incerteza, que existe no cerne mesmo da euforia operacional. As ciéncias jéentraram nessa situacdo de panico: 0 apagamento das posicoes do objeto na interface experimental a, do saber. A propria cigncia parece estar sob a influéncia dos atratores* estranhos. Assim como a economia, cuja ressurreigio parece ligada a imprevisibilidade total que nela reina. E a subita expansdo ddas técnicas de informacao, ligada a indecibilidade do saber que ai circula. ‘Todas essas técnicas fazem parte de fato do mundo real? Néo se sabe. O desafio da téenica e das ciéncias parece *“Tiadupo ineral do nelogsmo willzalo pelo aor, arracteurs(N-T) ser 0 de nos confrontar com um mundo definitivamente inreal, além de todo o principio de verdade ¢ de realidade. A revolucdo contemporanea ¢ a da incerteza. Nao estamos prontos a aceitar isso. E 0 paradoxo é ‘encalgo do anel de Moebius esté apenas comerando. A brancura operacional Paradoxalmente é de um soerseordessndaie der Jados, superexposto sem defesa a todas as fontes de luz. Estamos assim iluminados de todos os lados pelas técnicas, st pelas imagens, pela informaco, sem poder refratar essa luz, ¢ estamos condenados a uma atividade branca, a uma socialidade branca, ao embranquecimento dos corpos como do dinheiro, do cérebro e da meméria, a uma assepsia total. Embranquece-se a violéncia, embranquece-se a historia, ‘numa gigantesca manobra de cirurgia estética ao termo da am uma sociedade e individuos proibidos de jade. Ora, tudo o que ja € condenado a incerteza nfo pode ser negado como simulacao indefini radical ¢ Estamos em plena compulséo cirdrgica que visa a ‘tragos negativos das coisas e a remodelé-las jor uma operasio de sintese. Cirurgia estética: © acaso de um rosto, sua beleza ou feitira, seus tracos is seus tracos negativos, vai ser preciso consertar fazer algo mais belo que o belo, um rosto ideal, um rost rgico. O signo astrolégico, o sign de seu hnascimento, até isso vo refazer para voce, sincronizar seu ‘Signo astral com seu modo de vida; de acordo com o projeto, até aqui utdpico mas ndo desprovido de futuro, de um Instituto de Cirurgia Zodiacal, onde vocé receberia por meio de manipulagbes apropriadas, o signo de sua escolha. E também o sexo que temos, essa particula do destino que nos resta, esse minimo de fatalidade ¢ de alteridade, até isso vai ser possivel mudar 4 vontade. Sem falar da cirurgia ‘estética dos espacos verdes, da natureza, dos genes, dos acontecimentos e da historia (a Revolugao Francesa revista corrigida, esticada no sentido dos direitos do homem). Judo deve ser p6s-sincronizado segundo critérios de conveniéncia e de compatibilidade méxima. Em toda a parte ‘chega-se a essa formalizagao desumana do rosto, da palavra, do sexo, docorpo, da vontade, da opinio pitblica. Qualquer traco de destino e de negatividade deve ser expulso em proveito de algo que lembra 0 sorriso do morto nos funeral homes, em proveito de uma redencao geral dos signos, numa gigantesca manobra de cirurgia plastica. 32. ‘Tudo deve ser sacrificado a uma geracdo operacional dias coipan. A produpl, joule é 0 Tea-qhe peodan wet 0 trabalho que cria riqueza (as famosas mipcias da Terra € do Trabalho); € 0 Capital que faz produzir a Terra ¢ 0 ‘Trabalho. O trabalho ja nao é uma acdo, é uma operacdo. © consumo jé niio € gozo puro ¢ simples dos bens, € um fazer-gozar, uma operac&o modelizada e indexada pela gama diferencial dos objetos-signos. ____ A comunicagio nao é 0 falar, € 0 fazer-falar. A informacdo nio é 0 saber, é 0 fazer-saber. O verbo “fazer” indica que se trata de uma operaeao, néo de uma agéo. Na publicidade, na propaganda, trata-se no de crer mas de Cae as forma social ativa nem mntanea; é sempre induzida por uma espéci inari eee eee eee ‘outras coisas semelhantes. Hoje até 0 querer é mediado por modelos da vontade, pelo fazer-querer, que sdo a persuaséo ou a dissuasao. Se todas essas categorias ainda tém sentido: querer, poder, que é fatitivo*, e a acto o fato de ser ela produzida, ‘tecnicizada. Nao deve existir saber além daquele que resulta de ‘um fazer-saber. Nao deve existir falar além daquele que resulta de um fazer-falar, isto é, de um ato de comunicacdo. Nio deve existir ago além daquela que resulta de uma interaedo, se possivel com tela de controle ¢ retroalimentagao incorporada. Pois o que justamente caracteriza a operacdo, a0 contrario da agdo, € que cla € forgosamente regulada em sea decurso — sendo nao comunica. Fala mas nfo + Daordem do fato. 08.7) 33 r— comunica. A comunicaco ¢ operacional ou ndo existe. A informagao é operacional ou nao existe. Todas as nossas categorias entraram na era da faticidade, na qual j4 ndo se trata de querer mas de fazer querer, ja nao se trata de fazer mas de fazer fazer, ja nao se trata de valer mas de fazer valer (toda a publicidade), ja rnio se trata de saber mas de fazer saber —e, last but not least, nao s¢ trata tanto de gozar quanto de fazer gozar. E © grande problema atual: nao adianta s6 gozar, € preciso que cada um fasa os outros gozarem. Gozar torna-se um ato de comunicacao: vocé me recet surecebo vocé, trocamos ‘9 gozo como uma performance gozer sem comunicar é um animal. Sera que as maquinas usadas para comunicar gozam? Ja é outra histéria — mas. se imaginarmos maquinas para 0 g0z0, elas 96 poderdo ser feitas segundo o modelo das maquinas para ‘comunicar. ‘Alias, j4 existe: s4o nossos compos induzidos a gozar, -para-o-gozo pelas mais sutis técnicas rias. (0 jogging também procede do performativo. Praticar 0 jogging nao € correr, é fazer 0 corpo correr. E um jogo que se baseia na performance informal do corpo, jogo que procura simultaneamente esgotar e destruir 0 corpo. O “estado segundo” do jogging corresponde literalmente a ‘essa operacdo segunda, a0 desconectar maquinico. O gozo, ou a dor, nao é esportivo nem carnal, nao corresponde 20 esforgo fisico puro; corresponde 4 desmaterializacdo € a0 funcionamento sem fim (0 corpo que faz jogging parece uma maquina de Tinguely*), € a ascese © 0 éxtase do performativo. © fazer-correr, aliés, logo se acompanha do deixar-correr: 0 corpo hipnotiza-se no seu desempenho ¢ corre por si $0, como se 0 sujeilo estivesse ausente, como ‘méquina sondmibula e celibatéria (outra maquina andloga: @ + lator sugo modkrno, cxindor de ebjetosexravagants. ST.) 54 * de Jarry, na qual os mortos continuam a pedalar 2 © lado’ interminavel do jogging (como da reflete, alids, essa caracteristica de performance sem finalidade, sem objetivo, sem ilusao. O que nao tem fim, ‘nao tem motivo para parar. ‘Jé nao se pode dizer que o objetivo seja a “forma”, esse ideal dos anos 60 ¢ 70. Porque a forma ainda era funcional: visava ao valor mercantil ou ao valor-signo do corpo, sua produtividade ou seu prestigio. Ao passo que a | __ performance € operacional ¢ visa nio 2 forma do corpo mas a sua formula, sua equardo, sua virtualidade como terreno de operacao, algo que se faz funcionar porque qualquer maquina pede que o facam funcionar, porque qualquer sinal pede que o ponham em movimento. E s6 isso. Daf, a vacuidade profunda do contetido da acdo. Nada hd parece, do que esse modo de correr para exercitar indefinidamente a faculdade de correr. Entretanto, eles correm... A mesma indiferenca ao contetido, 0 mesmo aspecto cobsessivo © operacional, performativo ¢ intermindvel rea © uso atual do computador: aqui também o jomem nfo pensa, assim como ndo corre no jogging; faz o cero funconar tamo quanta fa2 0 corpo cose Também nesse caso a operacdo ¢ virtualmente sem fim: 0 face-a-face com 0 computador — assim como 0 corpo-e-corpo no jogging — no tém motivo para parar. E a espécie de prazer hipnotico, de absor¢ao ou reabsorcdo extatica da energia corporal, num caso, e da energia cerebral, no outro, ‘so exatamente as mesmas. Eletricidade estatica da epiderme e dos misculos, eletricidade estatica da tela. Jogging ¢ computagio podem ser chamados entorpecentes, narcéticos, uma vez que a propria droga esta + Eepive de longa bike cloned por vision ptengsicos.(N.T.) FEEVALE