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JUSTIÇA

Bene ciários do INSS vão à Justiça por dano


moral
Juízes têm concedido indenização em casos de cancelamentos indevidos de benefícios ou
fraude

Bárbara Mengardo

Giovanna Ghersel

02/06/2017 – 06:20

Foto: Antonio Cruz/ (Arquivo) Agência Brasil Segurados do INSS procuram postos de atendimento para fazer perícias médicas

DANO MORAL DANO MORAL PREVIDENCIÁRIO DESTAQUES DIREITO PREVIDENCIÁRIO INSS

PEC 287/2016 REFORMA DA PREVIDÊNCIA SISTEMA PREVIDENCIÁRIO TRF1 TRF2 TRF4


E
m 2001, após o falecimento de seu marido, Maria Amélia passou a receber pensão por morte do INSS,

o Instituto Nacional do Seguro Social. O benefício foi depositado em sua conta até 2013, quando

cessaram os pagamentos. O motivo? A autarquia descon ava que Maria Amélia também havia falecido, e por
isso não teria mais direito à pensão.

A história aconteceu com uma bene ciária do Piauí. Maria Amélia entrou com uma ação na Justiça,
conseguindo não só a retomada do benefício, como o pagamento de uma indenização ainda pouco conhecida

por muitos brasileiros: o dano moral previdenciário.

No caso de Maria Amélia, o dano moral foi reconhecido porque o Tribunal Regional Federal da 1ª Região,
com sede em Brasília, considerou que não havia “motivo justi cado” para o cancelamento do benefício.

Segundo especialistas, esse tipo de dano ocorre quando atitudes do INSS geram transtornos ao bene ciário.

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De acordo com a presidente do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP), Jane Berwanger, é o
caso, por exemplo, da mulher que perde o lho porque o INSS não reconheceu a gravidez de risco, ou da

pessoa que, após ter um auxílio suspenso, foi parar em algum cadastro de proteção ao crédito.

A demora na concessão de benefícios, porém, não entra nessa categoria.

Vulnerabilidade

Segundo advogados, o dano moral é aquele que não atinge um bem patrimonial, mas viola a honra, a saúde,

o psicológico ou o emocional da vítima. Não se pode considerar dano moral o mero aborrecimento ou

descontentamento. É preciso que esteja presente a dor, o sofrimento ou a humilhação, gerando desequilíbrio
e perdas, normalmente irreparáveis.

“A ideia do dano moral não é tornar ninguém rico, ele é pensado em caráter punitivo e educativo. É uma

maneira de mostrar ao INSS que, enquanto ele não melhorar esses aspectos e observância às normas, ele
será punido monetariamente”, a rma o advogado Theodoro Vicente Agostinho, coordenador do Instituto

Brasileiro de Estudos Previdenciários (IBEP) e conselheiro suplente do Conselho Administrativo de Recursos

Fiscais (Carf).

Agostinho é um dos autores do livro “Dano Moral Previdenciário – Um estudo teórico e prático com modelo

de peças processuais”. O advogado veri cou um aumento no número de sentenças deferindo os pedidos de

dano moral. O acréscimo, segundo ele, decorreria de uma “questão estrutural, como falta de treinamento dos

servidores da autarquia, de orçamento para a melhoria das agências do INSS e o dé cit de conselheiros”

a rma.
Os casos são dos mais variados – vão desde cortes indevidos de benefícios até fraudes. “Tive um cliente que

não quis receber o benefício porque achou pouco e resolveu contribuir por mais alguns anos.  Quando foi

receber descobriu que o INSS pagava o seu benefício para outra pessoa, que praticou fraude”, a rma a

advogada  Maria José Gianella Cataldi, do Gianella Cataldi advogados associados.

A presidente da Comissão de Seguridade Social da seccional do Distrito Federal da Ordem dos Advogados do

Brasil (OAB-DF) Riedel Thais Riedel lembra que as irregularidades ocorrem em momentos de vulnerabilidade

dos bene ciários.

“Normalmente acontece quando a pessoa está doente, numa fase delicada. O INSS precisa se equipar e

melhorar, para dar uma assistência boa e não submeter a pessoa à situações constrangedoras, que podem lhe

causar o dano”, a rma.

Nascimento prematuro

Exemplo de dano moral previdenciário foi julgado pelo TRF da 2ª Região (RJ e ES) em março. A 5ª Turma

Especializada do tribunal analisou um processo envolvendo um homem que conseguiu uma ordem judicial

para que o INSS concedesse o benefício. Mesmo com a decisão judicial, o INSS demorou dois anos para

iniciar os pagamentos, e após a implementação, suspendeu os depósitos por mais de três meses.

O tribunal concedeu indenização de R$ 19,2 mil. “Tem-

se que a angústia e os transtornos decorrentes de tal evento [não implementação do benefício] não podem

ser quali cados como meros aborrecimentos do cotidiano, con gurando o dever de indenizar”, a rmou a
juíza Carmen Silva Lima de Arruda, relatora do processo.

Outro caso, mais extremo, foi julgado pelo TRF da 4ª Região (sul do país) em junho de 2016. O processo

envolvia uma empregada doméstica que passou por uma gestação de risco em 2014, sendo orientada por seu
médico a car em repouso absoluto.

A mulher procurou o INSS, pleiteando um auxílio-doença, mas o benefício foi negado por “não constatação

de incapacidade laborativa”. Ela não conseguiu deixar de trabalhar, o bebê nasceu prematuro, mas faleceu
em seguida.

O caso foi analisado pelo desembargador Cândido Alfredo Silva Leal Junior, que deferiu uma indenização de

R$ 80 mil, entendendo que o ocorrido não foi, conforme defendia o INSS, apenas um “dissabor”.

“Do conjunto probatório é possível veri car que a autora já havia abortado duas vezes no ano de 2009 e,
quando no ano de 2014 engravidou novamente, fez de tudo que estava ao seu alcance para chegar ao nal da

gestação, inclusive ajuizou ação para recebimento de auxílio-doença. Tal situação demonstra a grande
expectativa da autora com o nascimento do bebê e a dor de tê-lo perdido”, a rmou o magistrado.

Em primeira instância, a decisão favorável à mulher foi fundamentada no artigo 37 da Constituição Federal,

que de ne que “as pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços
públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o
direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa”.

Outro lado

Sobre o tema, o INSS a rmou por meio de sua assessoria de imprensa que “o pedido de dano moral veiculado
em ações previdenciárias ou o ‘dano moral previdenciário’ em verdade possui uma multiplicidade de causas
de pedir distintas, que permitem a utilização de diferentes argumentos de defesa pela Advocacia-Geral da

União”.

A Advocacia-Geral da União (AGU), que representa o INSS judicialmente, a rmou que “em geral, a defesa do
INSS se pauta na inexistência do dano moral pela ausência dos próprios requisitos para a con guração da

responsabilidade civil, material ou moral, do Estado – ato ilícito, nexo causal, dano efetivo, excludentes da
obrigação de indenizar”.

O órgão informou ainda que “há casos em que, inclusive, é o próprio segurado quem dá causa ao

indeferimento ou à suspensão do seu benefício. São as hipóteses, por exemplo, em que o requerente sequer
comparece à perícia médica agendada ou não instrui adequadamente o processo administrativo para a

concessão do benefício (faltam documentos, etc.), o que enseja o indeferimento”.

Também há casos, segundo a AGU, que o bene ciário deixa de levantar os valores depositados por mais de 60
dias, o que possibilita a suspensão do benefício. “Nessas hipóteses, o INSS demonstra em juízo que não é

possível estabelecer um elo causal entre a conduta administrativa e o eventual dano moral alegado pelo
autor, pelo que é impossível a responsabilização da Administração Pública para o pagamento de
indenização”, diz a AGU.

Demora

A advogada Thais Riedel, que atua em casos envolvendo pedidos de dano moral previdenciário, recomenda
que o requerimento relacionado ao benefício e o de indenização seja feitos em processos distintos.

“O ideal é o advogado entrar com a ação e requerer o benefício ao demonstrar o equívoco do INSS. E, depois

de ter uma decisão judicial que con rme o erro por parte da autarquia, ajuizar uma ação autônoma de danos
morais”, a rma.

Theodoro Vicente Agostinho salienta que o valor das causas varia entre R$ 5 mil e R$ 15 mil, podendo ser

maior em casos extremos, como o da mulher que perdeu o bebê.

A má notícia para quem já esperou horas e horas em las intermináveis do INSS é que a Justiça vem
considerando que a simples demora na concessão do benefício não justi ca indenização por dano moral. Foi

o que decidiu o TRF1 em maio, após analisar um pedido nesse sentido.


O juiz federal Rodrigo Rigamonte Fonseca considerou que “não caracteriza ato ilícito, a ensejar reparação
moral, o indeferimento administrativo de benefício previdenciário, ou o seu cancelamento, ou a demora na

sua concessão, salvo se provado o dolo ou a negligência do servidor responsável pelo ato, em ordem a
prejudicar deliberadamente o interessado”.

Jane Berwanger con rma que a jurisprudência segue nesse sentido, mas considera que a demora também
deveria motivar o pagamento de indenizações por dano moral. “Talvez se houvesse a condenação [a

concessão do benefício] não demorasse tanto”, diz.

Reforma da previdência

Especialistas apontam que o cenário relacionado aos pedidos de dano moral previdenciário pode ser alterado

com a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 287/2016, que traz a reforma previdenciária.
Para advogados, a aprovação do projeto pelo Congresso Nacional tem potencial de aumentar o número de
casos sobre o tema.

A PEC, que visa dentre outros pontos aumentar o tempo de contribuição de 15 para 25 anos e elevar a idade
mínima para aposentadoria, poderá mudar a percepção dos segurados, segundo a mestre em Direito
Econômico e Previdenciário Ana Paula Fernandes.

“A reforma em si não vai ensejar o dano moral, o que vai acontecer, provavelmente, é a mudança da
consciência do segurado da previdência, porque ele vai car mais desassistido e procurar os direitos que têm.
A mudança da previdência trará leis mais duras e maior di culdade de acesso aos benefícios”, a rma.

O advogado trabalhista e previdenciário José Augusto Lyra acredita que há pontos na reforma que

possivelmente vão gerar mais casos de danos morais. Um exemplo seria a mudança da pensão por morte.

“Se hoje alguém falece e tem três dependentes o valor da pensão é dividido pelos três, se um deles atingir 21
anos e perder a pensão a sua parte será revertida para os demais. Na reforma essa reversibilidade não existe”

a rma.

Para o advogado, a reforma da previdência não resolve o maior problema, que é o próprio sistema. “Uma
solução seria descentralizar o sistema, já foi comprovado ao longo do tempo que a gura centralizada do

INSS não funciona. O sistema está falido, temos que pensar na possibilidade do modelo abrir, como foi
proposto na Emenda Constitucional 20/1998”.

O artigo 194 da EC 20 propõe um caráter “democrático e descentralizado da administração, mediante gestão

quadripartite, com participação dos trabalhadores, dos empregadores, dos aposentados e do governo nos
órgãos colegiados”.

Processos tratados na matéria:


0071913-71.2013.4.01.9199 – TRF1

0037458-25.2006.4.01.3800 – TRF1

0000842-84.2009.4.02.5104 – TRF2

5001694-28.2015.4.04.7118 – TRF4

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