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Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre case indios Sobre cies e indios: domesticidade, classificagao zoolbgica e relagao humano-animal entre os Karitiana Felipe Ferreira Vander Velden* Resumo Este artigo discute a existéncia de diferentes narrativas sobre a histéria e as relagées entre humanos e néo-humanos, baseando-se nos dados sobre a relagao entre os Karitiana, povo indi- gena na Amazéinia brasileira, e os cies e animais similares. Pretende demonstrar que os estu: dos sobre a domesticidade na biologia —que facalizam o paralelismo entre formas sociais huma- nas e néo-humanas na consolidagéo da convivéncia muitua- precisam levar em conta as formas culturalmente distintas de se construir 0 universo social. Palavras Chave: Domesticidade; Indios Amazbnicos; Sociedade; Animais, Abstract This article discuss che existence of different narratives on the history and relationships between human and non-human beings, based on data from the Karitiana, an indigenous people of Brazilian Amazon, and their relationships with dogs and similar species. Its objective is to demonstrate that studies on domesticity produced by biologists focusing on a kind of paralle- Lism between human's and non-human social forms in consolidation of mutual coexistence~ ‘must account culturally distinct forms of constructing society. Keywords: Domesticiy; Amazon Indians; Society; Animals, ‘AvANO1S | Julio 2009 « Pég, 125 + Oeeabie 2009 Fecha de recepcién: Diciembre 2008 » Fecha de aprobac *Doutorando do Programa de Pés-Graduagio em Antropologia Social, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Brasil, E-mail: fvander@unicampbe. “Trabajo preseneado en la Mesa 24, Naturaeza y Cultura: La relacién navuraleza-culeura en su diversidad, Prcepciones, clasificaciones y pricticas. Facultad de Humanidades y Ciencias Sociales, UNaM. Posadas, Agosto de 2008. Avi NSIS | Julio 2009 « Pig 126 Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre cies ¢indios Introdugao! Em um curto artigo para uma prestigiada revista cientifice norte-americana, a zodloga Juliet Clutton-Brock (1977) sugeriu que os povos indigenas sul-americonos teriam adota- do rapidamente 0 c4o de origem européia pelo fato de que as cerca de onze espécies de cani- deos existentes na América do Sul (do género Dusycion*, endo do género Canis, este tilti- mo ao qual pertencem o cio domesticado ¢ 0 lobo) prestavam-se mal a domesticagio: podiam ser no maximo “amansados” (tamed), mas seus “recalcitrantes” (recalcitrant) habi- tos de roubar alimentos (sao excessive shieves) ¢ de “vaguear” pela floresta (go to prowl in the forest) cornaram-nos, ao longo dos séculos, maus companheiros dos humanos ¢, portanto, imprestaveis a uma efetiva domesticagao (1977: 1341-1342). Esta constatagao decorre da sugestio, expressa no mesmo texto, de que estes canideos nao seriam animais muito pro- pensos a formacao de grupos sociais, se comparados aos seus parentes do género Canis, que inclui espécies altamente gregirias ¢ organizadas em estruturas sociais relativamente com- plexas: de um paralelismo entre a organizagao social dos animais do género Canis aquela dos humanos teria surgido o lago duradouro que consolidaria a domesticidade: “A domesticagio s6 acontece, entretanto, se os padrées de comportamento social dos animais amansados [tamed] sao suficientemente bem desenyol- vidos para permitir que gerages sucessivas se reproduzam em cativeiro, separadas das espécies selvagens” (Clutton-Brock, 1977: 1342; meu grifo). Discutir a natureza dessas “sociedades animais’, ou os graus de complexidade da organi- zagio social das diferentes espécies~e isso em relagao aos processos de criagéo de vinculos duradouros entre estes e os humanos~parece ser a questo para as narrativas cientificas que perseguem os mistérios da domesticagio. De fato, a relagao entre os hdbitos sociais comple- xos de certas espécies animais ¢ sua domesticagio por grupos humanos é um fato reconhe- cido hé tempos pela zoologia (cf. Zeuner, 1963). Nao obstante, incomoda-me a compara- ao entre Canis ¢ canideos nativos, entre os animais que tém ¢ os que nao tém, digamos, “sociedade”, e o quanto destas caracteristicas efetivamente desenham os modelos de relagéo entre seres humanos ¢ nio-humanos. Assim, algumas das perguntas que se pode colocar séo: terdo os grupos indigenas nas terras baixas sul-americanas adotado os cies introduzi- dos apés a conquista tio somente porque careciam de animais com habitos semelhantes aos daqueles? Haveria, ent4o, uma espécie de “déficit de sociabilidade” que nao permitiu a domesticagao dos canideos nativos? Terao esses povos reconhecido imediatamente nos caes ceuropeus, as formas familiares de seus “recalcitrantes” canideos selvagens e, por esta razao, 1 Agradego a0 apoio e aos comentitios criticos de André Luiz Martini, Juliana Vergucito Gomes Dias, Raquel ‘Taminato, Bridn Ferrero e Marylin Cebolla Badie. Todas as tradugSes de eeechos em inglés, francs e espanhol sio de minha autoria, 2. género Dusicyon foi postcriormente revisto, ¢ a classificagdo mais aceita hoje ~ ¢ utilizada neste artigo - & a pro- posta por Wozencrafe (2005). Atualmente as doze (e nio mais onze) espécies de canideos sul-americanos estio classifi cadas nos generos Lycalopex (6 expécies de raposas sul-americanas); Atelocynus, Speothas, Urocjon, Cerdacyon e (Chrysocyon (cada um com 1 espécie): 0 género Dusicyon foi preservado para c extinto lobo das ilhas Falkland (D. aus- wralis). Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre ees e indi contornariam, via adogio do exdgeno, as experiéncias fracassadas de domesticagio das espé- cies nativas aparentadas? Essas questdes nos levam, por fim, a perguntar: se a projegao de uma idéia de sociedade sobre os grupos organizados de lobos ~ancestrais do cio— permitiu a interpenetragio da sociedade humana com aquela dos animais, em que medida faz. senti- do projetar esta mesma idéia sobre a relag4o entre homens ¢ Canidae em povos com distin- tas nogées do que é 0 social? 2 Este artigo busca explorar algumas das contradig6es localizaveis em certas narrativas cientificas sobre a domesticagio do cio, sobretudo no tocante ao conceito de sociedade uti- lizado pelas cincias biolégicas quando discutem a historia da associacio entre humanos € animais. Estas contradig6es parecem emergir quande confrontamos os discursos desta cién- cia hegeménica da vida com outras narrativas, indigenas e antropoldgicas, que oferecem possibilidades alternarivas para o entendimento das relagées inter-especificas, ¢ propdem desafios para uma histéria que, da perspectiva de zodlogos, etdlogos e paleontélogos; pare- ce estar cada vez mais préxima da verdade dos fatos. Necessério assinalar que estou utilizando a nogio de “domesticagio” (domésti- co/domesticado) em geral empregada nos estudos zooldgicos sobre 0 processo, tal qual expressa no préprio fragmento de J.Clutton-Brock transcrito acima, e definida aipartir do controle - especialmente do controle reprodutivo ~de certas espécies pelo homem; acres- cente-se um componente adicional ~ definida como “dominagio’, “servidéo” ou“escravi- dao” dos animais— que ¢ parte tanto de um conjunto de saberes que contesta as narrativas zooldgicas dominantes (Serpell, 1996; Singer, 2004; Regan, 2006) como integra, porvezes, mesmo estas tiltimas (cf. Zeuner, 1963). Ambas as interpretagdes podem ser bem resumi- das na definigao de A. Gautier (apud Delore, 2002: 58, meus grifos), com particular aten- a0 as palavras por mim destacadas: domesticaco é “um processo de microevolugao iniciado pelo isolamento de um niimero restrito de individuos de uma espécie selvagem particular, em um nicho ecoldgico especial, estabelecido pelo homem e que obriga esses animais a viverem ese reproduzirem sob sua tutela e em seu proveito” ‘A mesma cautela deve ser assumida quanco ao conceito de “amansamento” (que tenta traduzir o termo inglés zaming) que, a partir do texto de Clutton-Brock, parece constituir- se como uma primeira ¢ necessdria etapa da relagao entre animais ¢ humanos que segue depois rumo a domesticagao; nesse sentido, 0 conceito ¢ um tanto diverso do uso que a lite- ratura etnolégica faz do termo “familiarizagao” (que, por vezes, também traduz a palavra inglesa taming. Cf. Erikson, 1987), embora as tradugées por vezes paregam confundir as duas nogées. Uma discussao mais detalhada de todos esses conceitos faz-se necessdria, mas nao tenho aqui espago para tanto, As Américas e seus cies Provavelmente © primeiro animal a ser domesticado por seres humanos; ou, melhor dizendo, primeiro animal a se associar ao homem de maneira duradoura e se tornar “zem- bro da sociedade humana” (Zeuner, 1963: 77; Serpell, 1996), 0 cio domesticado (Canis familiaris Linnaeus) estava bastante difundido na América antes da conquista: existem ricas evidéncias histéricas, arqueolégicas e, mais recentemente, genéticas da presenga do cachor- ro entre populagées indigenas por toda a América do Norte e México pré-colombianos (Schwartz, 1997). Sua distribuicio na América do Sul é questao mais espinhosa. Gilmore AviNAIS | Julio 2009 « Pig 127 Ava N*IS | Julio 2009 « Pg 128 Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre edes indi. (1997: 219, 273-274) observa que 0 c4o ndo é um endemismo neotropical, cendo migrado do norte para algumas regiées su!-americanas. Existem evidéncias de que 0 cio estava pre- sente antes de 1492 nas regiées meridionais do continente e também na regio circum-cari- benha e nas Guianas (Zeuner, 1963: 102; Schwartz, 1997: 30, 40-45, 76-78)’, Nao obstan- te, sabe-se que 0 co estava ausente na maior parte da Amazénia, tendo sido introduzido pelos conquistadores europeus. Boa quantidade de relatos de contato efetivamente observa que o cachorro foi rapidamente “adotado” pelos grupos indigenas, muitos dos quais mesmo pediam filhotes aos brancos que encontravam. Por todo o continente sul-americano, entretanto, havia (e ha) riqueza de outros géneros ce espécies de canideos nativos. Dados mais recentes (Fahey & Myers, 2000) indicam a pre- senga de 12 espécies, distribuidas em sete generos. De acordo com a literatura zoolégica especializada, a maioria desses animais ¢ solitaria ou vive em pequenos grupos familiares, ¢ jo bastante timidos e fugidios, sendo dificilmente observados: por esta razao, sao espécies ainda mal conhecidas pelos bidlogos. Destaque-se, ainda, que varios deles ~especialmente ‘os cachorros-do-mato encontrados no Brasil— s4o animais raros, ameagados pela ocupagio de seus territérios ¢ pela caga. Os cientistas ainda destacam que, 2 rigor, os canideos sul- americanos sio animais majoritariamente onivoros e oportunistas, subsistindo largamente da caga de pequenas presas, além de ovos, frutas € carniga; podem ocasionalmente, no entanto, atacar animais maiores (Emmons, 1990: 134-6; Eisenberg & Redford, 1999: 280- 6; Fahey & Myers, 2000; Reis et al., 2006: 242-250)..A principal excegao a este resumo seria 0 cachorro-do-mato-vinagre (Speothus venaticus), que parece ter o costume de viver em pequenos grupos familiares euja dieta, mais estritamente carnivora, é obtida por meio de um sistema cooperativo de caga bastante sofisticado, fortes evidéncias —de acordo com os critérios zoolégicos— de que a espécie pode ser* social (Reis et al., 2006: 249-50; Eisenberg & Redford, 1999: 285-6). Existem variadas formas -oriundas de diferentes campos cientificos e tradigdes acadé- micas— de se reconstituir o longo processo de domesticacdo em que esto implicados huma- nos e cies (Zeuner, 1963; Serpell, 1996; Schwartz, 1997; Haraway, 2003), mas, em geral, a maioria delas converge para a idéia de uma simbiase, ou seja, a co-evolugio das duas espécies calcada na obtengao de beneficios mtituos, ¢ produzida em ultima andlise pela homologia entre as sociedades humanas ¢ as matilhas lupino-caninas. Tal panorama interpretativo nos permite ver como se constroem as diferencas entre os hdbitos dessas espécies nativas de canideos da América e aqueles das espécies de Canis. Estes seriam animais altamente grega- tios, vivendo em grupos com estruturas sociais complexas e hierarquizadas, que permiti- ria, entre outras coisas, alta eficiéncia na caga conjunta: as espécies do género Canis sio, fundamentalmente, carnivoras e predadoras eficientes (Schwartz, 1997: 4). Tal como suge- re Zeuner (1963: 83-85) tais caracteristicas seriam, justamente, aquelas que teriam favore- 3 Com base em Gilmore (1997: 240-41), entretanto, é posstvel supar que esses cachorros circum-caribenhos, registra- dos por alguns cronistas ¢ visjanes ~ como perras mudes ~ fssem, na verdade, espécimes de cies selvagens nativos amansados (tamed) ¢ mantidos nas aldeias; de fato, a malor parte das espécies de canfdeos naivas possi vocalzagBes muito diferentes dos latidos do cachorro doméstico (Emmons, 1990: 135; Einsenberg & Redford, 1999: 280-6). 4 Conforme jd disse, o comportamento da maior parte dessas espécies em seus habitats naturais é ainda parcamente con- hecido, Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre cies indios cido 0 tipo de “zssociagao simbidtica” entre lobos’ e humanos, nos primérdios da domestica- vida social dos canideos aproximando-os da sociedade dos homens ¢ suas habilidades aproveitadas pelos cagadores, formando-se verdadeiras “matithas” mistas, humano-animais. Os lobos possuiriam, portanto, as caracteristicas de “predisposigao” para a domesticagio tudo o que os seres humanos fizeram foi introduzir-se nos sistemas sociais lupinos (Schwartz, 1997: 7-10), ainda que, como aponta Serpell (1996), devemos dizer que os cani- deos, de sua parte, também souberam intrometer-se nas sociedades humanas. £ importan- te notar, contudo, que este é apenas um resumo de uma das narrativas possiveis dojproces- so de associagao entre humanos e canideos ~ ainda que paresa ser um modelo dominante no atual estado do conhecimento no interior das ciéncias bioldgicas. E com este discurso hegeménico® que devemos dialogar aqui. Na auséncia, portanto, dos caracteres comportamentais acima apontados —e,na cons- tancia de outros habitos julgados “perniciosos” para a domesticacao por J.Clutton“Brock— as espécies de canideos nativos da América do Sul jamais foram domesticadas pelo homer sul-americano. De fato, esses animais nao parecem ter grande rendimento simbélico, apa- recendo pouco nos mitos ¢ inventétios de saberes indigenas, além do que, ainda que possam ser “familiarizados” (ou “amansados”), sua ocorréncia entre os animais mantidos nas aldeias indigenas como “mascotes” (pets) parece ser bastante tara: desconheco referéncias a essas espécies nas etnografias mais recentes sobre as populagdes indigenas nas tetras baixas. Quero destacar que, a partir deste momento, estarei me referindo aos dados etnogréficos Karitiana, povo com quem trabalho, bem como concentrarei minha atengio sobre os Canidae cuja ocorréncia na floresta amaz6nica jé foi comprovada, Passemos, pois, as rela- des entre os Karitiaita e os diversos “caes” Os Karitiana e 0 cachorro Os Karitiana (Yjxa) sio uma populagao de aproximadamente 350 individuos, habitan- do trés aldeias localizadas no estado de Rondénia, sudoeste da Amaz6nia brasileira; algu- mas familias vivem, ainda, nas cidades de Porto Velho ¢ Cacoal. Meus dados referem-se ape- nas & principal aldeia Karitiana chamada Aldeia Central, (Kyéwa)- localizada bem no centro da ‘Terra Indigena demarcada, que vem sendo continuamente habitada ha pelo menos 40 anos, ¢ na qual realizei minha pesquisa de campo. Dados relevantes também foram coletados na cidade de Porto Velho —capital do estado de Rondénia, a cerca de cem quilometros da Aldeia Central uma vez que os indios I esto com freqiéncia. Ademais, as relagées dos Karitiana com a cidade sao cruciais para a compreensio de alguns aspectos de sua relagao com os cdes, bem como com outros animais domesticados introduzidos pelos brancos, como veremos. Os Karitiana falam uma lingua do tronco Tupi, a tinica represen- tante ainda viva da familia Arikém. 5 De acordo com virias pesquisas, os lobos cinzentos (grey wolves, Canis /upus) sio 0s ancestrais do cachorro domésti- 0 ¢, como afirma Robert Wayne (apud Schwartz, 1997: 10), com base em estudos morfolégicos e genéticos,“cachor- 105 io lobos cinzentos” 6 0 texto de J.Clutton-Brock com o qual dialoge aqui, embora escrito em 1977, representa com clareza esta “narrativa hegembnica” da domesticagio,¢ por iso permanece atual Foi escolhido apenas como exemplo, nio obstante privlegia- do, pois cacrega com ele o capital simbélico de sua autora edo periédico em que foi publicado, AAviNAIS | Julio 2009 « Pig 129 Avi NO15 | Julio 2009 « Pag: 130 Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre cdes ¢ indios Os Karitiana so registrados como habitando, ao que se sabe desde o inicio do século XX, a regio de florestas dos vales dos rios Candeias ¢ Jamari, no que ¢ hoje o norte do esta- do de Rondénia. Ao que parece, estabeleceram contatos permanentes com os brancos somente a partir dos anos de 1950 (Moser, 1993). Em razdo das caracteristicas das frentes de colonizagio (caucheiros € seringueiros) que atingiram sua regio a partir do final do século XIX, é razodvel supor que os Karitiana tenham conhecido a maio: parte das espécies de criagio diretamente pelas maos dos brancos: suas narrativas da introdugio dos diversos animais exéticos ~ entre eles 0 cio — destacam-se por uma pequena profundidade temporal (reconhecida pelos indios), ¢ por fazerem explicita referéncia & mediagiéo dos homens bran- c0s no aparecimento dessas espécies. Os Karitiana desconheciam os cachorros domesticados antes do contato com os bran- cos. As narrativas do aparecimento desses animais entre eles, no entanto, sio invariavelmen- te curtas e diretas como de resto sio todas as que se referem aos animais introduzidos pelos brancos: dizem os Karitiana que esses seres “do tém histéria’, no sentido de que a respeito deles nao existem relatos (mitos) que descrevam suas origens no tempo pretérito distante que os indios denominam, em portugués, “tempo [de] antigamente”: “céo nao foi Deus [Botyj] que criow’, nas palavras de Epivicio Karitiana. Ha historias dos mais diversos ani- mais da floresta que relatam sua criagéo por obra do demiurgo Botyj (que os indios cha- mam, em portugues, de Deus), de seu irmao Ora, e de outros personagens miticos. Mas os animais introduzidos sio reconhecidamente exdgenos, estrangeiros e, como tais, produtos da relagio estabelecida com os homens brancos num pasado néo téo longinquo, uma vez que vatios individuos mais velhos podem se lembrar dos eventos, ou ouviram, quando pequenos, os relatos diretamente daqueles seus antecessores que os vivenciaram. Eles nio sao, portanto, produtos das poténcias criativas ¢ criadoras que conformaram o mundo ¢ seus habitantes tais como se os conhecem desde tempos imemoriais. Os Karitiana dizem que os primeiros cées que viram foi com seringueiros, na regizo do rio Candeias, 0 que deve ter acontecido ~a julgar pelas memérias dos individuos que fecor- dam os acontecimentos~ por volta dos anos de 1940. As narrativas relatam que o primeiro cachorto adotado pelos Karitiana era de pequeno porte, de cor branca. excelente cagador, ¢ foi chamado Marreteiro, nome que se d4aos vendedores ambulantes que percorriam 0 oeste da Amazénia brasileira atendendo as populagses dispersas pela floresta. Os seringueiros teriam sido os primeiros fornecedores de cdes aos Karitiana, entregando espontaneamente 08 animais ou sendo roubados pelos indios, que demonstravam preferéncia por filhotes. Conforme contam os Karitiana, tudo leva a crer que se tratou de adogio répida: conhece- ram cies, levaram para a aldeia c, ato continuo, os cachorros estéo convivendo com os indios como se lé estivessem desde sempre. Esta narrativa aponta os rumos da acomodagao dos cachorros & sociedade Karitiana, hoje em bom niimero na aldeia Kyéwad: meu tiltimo recenseamento (em dezembro de 2006) contou cerca de 40 animais, para uma populagio total de cerca de 270 indios. Todos os cies de acordo com os Karitiana tém donos (d’gy, termo empregado também para os pertences pessoais de um individuo), ou seja, “pertencem” a alguma residéncia da aldeia. Na verdade, como as casas sio referidas pelo nome do homem que a construiu e é seu “chefe”, é comum dizet-se que tal cachorro “é” deste homem, ainda que sejam as mulheres quem efetivamen- te cuidam dos animais. “Cuidam” é um modo um tanto exagerado de falar, e 0 verbo talvez 86 deva ser aplicado aos filhotes. Quanto aos animais jé crescidos, embora sejam bastante Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre ces ¢ indias apreciados como auxiliares de caga, ¢ sejam criaturas bastante préximas dos humanos ~ganhando nomes individuais, freqiientemente vivendo ¢ dormindo no interior das resi- déncias, ¢ sendo “defendidos” por seus donos’-, softem as maiores atrocidades por parte dos indios: raramente sio alimentados, tendo de procurar comida por conta prépria, vivem cobertos de sarna e feridas na pele, sdo varias vezes surrados por aqueles que esto por perto e écomum definharem lentamente e morrerem sem qualquer atengao ou preocupacio. Cachorros sao considerados por muitos, ainda, como animais sujos ~pois comem exes ¢ outros dejetos—, promiscuos, traigoeiros e pouco confidveis; muitos deles, além disso, sto evitados pelas pessoas por serem considerados ferozes ou agressivos (“bravos”), Ademais, sua ampla liberdade na aldeia representa sério perigo para os cacadores, pois se cies come- rem restos de animais abatidos —fragmentos de carne, ossos, penas, peles, residuos de san- gue~ ou urinarem ou defecarem sobre estes, 0 cagador torna-se imediatamente panemat (so’ndakap ou naam), nao conseguindo mais encontrar nem matar caga. Talvez por.essa razio seja muito raro que os Karitiana alimentem seus cachorros com porgées de carne dé caga, ‘H4, ainda, uma curiosa associagao do cachorto com a figura do diabo, uma releitura Karitiana do cristianismo inttoduzido entre eles por missiondrios norte-americanos a pat= tir dos anos 70. Com efeito, no Brasil ¢ em outras partes do mundo cristéo 0 diabo ¢ comu- mente designade como “o cdo”, ¢ cachorros sao freqiientemente associados ao mal, press4- gios funestos ¢ a hébitos imundos e condenaveis (Cascudo, s/d [1954]: 215-6, 238-9), Os Karitiana, parece, levaram tal vinculo a sétio, de modo que o diabo, chamado por eles de “céo’, € considerado “chefe” de todos os cachorros que vivem entre os homens; nao por caso, varios comportamentos dos cachorros na aldeia (por exemplo, cies uivando ou gemendo, ou ainda a morte solitaria de um animal) sugerem interpretagdes funestas, ém geral antincios de inforténio grave ou morte. O diabo, entre os Karitiana, é chamado Tem tema, ow ainda Kida huj huj’, ¢ & descrito como “espirito mau’, uma criatura monstruosa que anuncia 0 roubo e a devoragio das almas dos individuos com wm ganido idéntico ao, dos cachorros (diz-se que ele “chora como cao”). Criado por Botyj, segundo os Karitiana, a partir de um dente de onga ~ 0 que sugere a aproximagio entre cachorros ¢ felinos que dis- 7 Para os Karitiana, agredir um cachorro implica em ofender dirctamente o seu dono (termo nativo); animais da flores- 12 gue matam ou ferem cachorros durance cagadas sio invariavelmente procurados e mortos pelos cagadores como “pagamento” (de uma espécie de “divda de sangue”; exe eermo nao é usado pelos Karitiana) ou vinganga, além do ft0 de que as pessoas choram ¢ lamencam muito a perda de seus cis 8 "Tero de uso comum na Amazénia brasileira (mesmo entre néo-indios) ¢ que designa o azar na caga, estado em que 1 cagador no consegue macar animais para trazer carne para scu grupo doméstico. As causas, “sintomas” (modos de ‘manifestagio) e formas de “cura” variam enormemente entre as populagécs. 9 Arriscando-me na etimologia, penso que a denominagéo desta criatura “demonfaca” também deriva de uma releitura indigena da visio crista do diabo, chamado também de “Coise Ruin” no Brasil: com efeito, a palavra kida é traduzida como “coisa « € empregada para se referc aos objecos em geral (por exemplo, hide o, “fruto" lt. “coisa redonda"), mas também a varios seres que 08 Karitiana designam como “bichos’, e que podem incluir desde mamiferos ferozes (on¢38) « insetos erépreis pegonhentos até criaturas monstruosas como o Mapinguasi (kida so’emo ou kida barara); se bof buj puder ser lido como a prontincia Kariiana da palavea portuguesa (note-se que o “j" final € uma semivogal nasalizada meu editor de texto nao permitiu sua representagio grifica adequads— fazendo com que a proniincia Karitiana soe {déncica& da palavra “ruins” em portugués) terfamos o “Coisa Ruim” indigena. Os Karitiana dizem que bug uj descreve ‘som que aeriatura emire quando se aproxima dos humanos com a intengio de devorar-thes a alma, som que ¢idénti- 0 20s ganidos de um cachorro machucado (o mesmo se diz da outra denominagio, Tem tema, que também seria on0- smatopéica). AvANSIS | Julio 2009 « Pig 131 ‘Avi N°IS | Julio 2009 « Pg. 132 Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre cdese indios .. cutiremos adiante. Ademais, cies esto presentes em varios relatos sobre a geografia do mundo dos mortos, sempre com carater agressivo: diz-se que o caminho que leva até Deus (Botyj) é cheio de cachorros enormes que perseguem ¢ ameagam dilacetar ¢ devorar as almas dos mortos. Voltaremos adiante a este ponto, Voltando as priticas, observa-se que os cies gozam da intimidade dos humanos, viven- do em um espago intermediério entre os dominios masculinos ¢ femininos: cuidados pelas mulheres (e criangas) desde filhores, é na companhia dos homens que vio demonstrat seu. efetivo valor, aos olhos dos Karitiana, como cagadores; de fato, muitos homens declaram apreciar apenas cAes que sabem cagar bem, ¢ varias familias nao abrigam cachorros porque dizem nao conseguir animais que sejam treinados para cacar. A habilidade para acompa- nhar os homens na mata, localizar e perseguir as presas e mesmo langar-se sobre elas ¢ maté- lasdetermina o valor assinalado a cada cachorro. Existem varias técnicas de treinamento dos caes, além de intimeros procedimentos destinados a fazé-los cagadores eiicientes ¢ especia- lizados em certas presas. E de serem bons cagadores, grandes auxiliares nas atividades dos homens na floresta, que, creio, vem a denominagao desta espécie na lingua Kaririana. Cachorros sio obaky by'edna, literalmente “ongas de criagao”, ongas (obaky) domésticas, criadas/cuidadas (by’ed- na, “criagao”, termo que pode ser utilizado para os filhos de um individuo); os Karitiana também traduzem o termo como “ongas mansas” ¢ “ongas de casa’, Perguntados sobre a razao de cies serem “ongas mansas’, os Karitiana apontam sempre as mesmas razées; cachor- ros tém “o [mesmo] sentido da onga’, ou seja, sao iguais 4s ongas, pois sto bravos, perigosos ¢ atacam mesmo sem serem molestados; sio pa’ira, termo traduzido por “bravo” ¢ que se refere & disposicao de um ser em atacar ou investir agressivamente contra outro: ¢ emprega- do para varias espécies animais -ongas, queixadas, quatis, vespas— mas também para qual- quer criatura humana ou nao humana~ com intengdes agtessivas. “Cachorro é como onga, sé que vive na aldeia’, sintetiza Marcelo Karitiana. Mas, se canideos nativos j4 existiam na AmazOnia antes da penetracio dos colonizadores europeus, por que os -achorros inttodu- zidos nao foram associados a estes animais, mas as ongas? A crer em Juliet Clutton-Brock, estes canideos nativos seriam como que candidatos dbvios para esta associacio, ainda que nao pudessem, segundo a autora, ser domesticados. Mas as ongas, afinal, também no pude- ram! Cachorros do mato, cachorros bravos e jaguares: problemas de classificagao Os bidlogos sabem pouco a respeito das espécies de canideos nativas da Amaz6nia, incluindo a real extensio de sua distribuigio geogréfica. Os dados disponiveis registram a ‘ocorréncia de duas espécies na regio tradicionalmente habitada pelos Karitiana: 0 cachor- r0-do-mato-de-orelha-curta (Atelocynus microtis) e 0 cachorro-do-mato-vinagre (Speothos venaticus), duas espécies intimamente relacionadas (Reis et al., 2006: 242, 249; Eisenberg & Redford, 1999: 280-1, 285-6). ‘Ambos parecem ser animais bastante raros em toda sua area de ocorréncia, conforme escreve a bidloga Louise Emmons (1990: 135-136): “eles parecem raros em toda parte, ¢ pou- cos indios na Amazénia aparentam ter visto algum deles em qualquer ocasido”. De fato, essas espécies, como jé apontamos, sio de dificil observagao, a destruigao de seus habitats ali daa caca predatéria coloca as duas espécies na lista dos animais ameagados de extingao no Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre ces e indios Brasil. Nao obstante, se bidlogos encontram dificuldades na obtenco de dados sobre estes animais, é preciso relativizar a afirmagao de Louise Emmons: afinal, como populagdes que conhecem de modo tio detalhado os ambientes em que vivem —e as criaturas com as quais compartilham esse ambiente podem passar sem saber destes animais, ainda mais se tratan- do de mamiferos de médio porte? E possivel, obviamente, que a rarefagio das espécies venha tornando episédico o aparecimento dos cachorros nativos, mesmo ‘nas terras indige- nas, Nao obstante, é razodvel supor que, talvez, as perguntas dos pesquisadores quanto a estes animais estejam sendo mal interpretadas. Modificando a abordagem, coloquemos assim: para os Karitiana, cachorros-do-mato sio cachorros? & Nio foi facil conseguir que os Karitiana identificassem 0 que eu chamava de cachorro- do-mato: a prépria idéia lhes parecia estranha, e uma primeira tentativa produziu a identi- ficagio obaky by'edna gopit, cuja tradugio literal é “onga de criagio (cachorro) do mato’, evidente paradoxo, pois a expressio by’edna (“de criagio, manso, de casa”) é diretamente oposta ao qualificativo gopit, que é usado apenas para descrever os animais que vivem na floresta e que recusam a companhia dos humanos: ou seja, os animais de caga. Nao obstan- te, a descrigao do animal pareceu bastante consistente com a descrigéo que a zoologia da regiio faz dos canideos com ocorréncia na area ~ ainda que parega uma mistura das carac: teristicas das duas espécies: existiam antes da chegada dos brancos, possuem pelagem preta, marrom ou cinza escura, vivem em bandos de trés ou quatro individuos, latem como cies domesticados ¢ so muito arredios, nao sendo possivel amansa-los. Como os dois informan- tes eram jovens cagadores, podemos desconfiar que eles conheciam os animais nativos, mas talvez nao seu nome na lingua Karitiana. Utilizei, entao, com individuos mais experientes, as ilustragdes de um guia para bidlo- gos de campo (Emmons, 1990: pranchas 15 ¢ 16), mesmo tendo consciéncia de todas a8 ¢rl- ticas feitas &s limitagdes da identificagao de seres vivos por meio do uso de imagens impres- sas (ver Hunn 1977: 21-26). Com isso, Anténio Paulo Karitiana identificou Atelocynus microtis (Emmons, 1990: prancha 15, no. 9) como gyryty, “cachorro-do-mato” na sua tra- dugao. Ele disse que o animal tem um latido semelhante ao do cachorto criado, e possui pelagem acinzentada; ademais, nao sao comidos pelos Karitiana, mas seus dentes (assim como dentes de onca) podem ser usados na confeccio de colares bastante valorizados, com 05 quais os genros presenteiam seus sogros. E completa as informagées: “é igual cachorro, por isso chamam de obaky by’edna” (o termo Karitiana para 0 cio domesticado). Outros informantes traduziram gyryty como “raposa” ou “lobo-do-mato”,¢ ressaltaram que o ani- mal é bravo. Jé Epitacio Karitiana identificou como gyryty duas outras espécies, também ilustradas em Emmons (1990: prancha 16, nos. 3 ¢ 5): 0 furio (Galictis vittata) ¢ a irara (Eira barbara), dois carnfvoros mustelideos". Curiosamente, os Karitiana designam a irara como obaky emo, que se traduz literalmente por “onga preta”, Um outro animal, o guaxi- nim (Procyon cancrivorus, um carniyoro procionideo) é denominado obaky irisa, “onga- quati”; digno de nota, se quatis ¢ iraras sio apreciados como alimento, os guaxinins nao sio comidos pelos Karitiana. Outro animal referido pelos Karitiana, mas nao correlacionado a nenhuma das ilustra- ges do guia de campo, é chamado kypon ou kyporéty (lit. “kypon grande’), ¢ identificado em portugues também como “cachorro-do-mato”: diz-se que se trata de um animal de rabo 10 Note-se que o furdo é também chamado, no interior do Brasil, de cachorro-do-mato (Reis et al, 2006: 256). AvANOIS | Julio 2009 + Pg 133 AvLNOIS | Julio 2009 « Pig 134 Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre ces eindios.. curto, pelagem preta com pescogo branco e peito cinzento, com cheiro forte, e que vive em grupos de cinco individuos. O ponto interessante a destacar & que, embora os indios men- cionassem a espécie como “cachorro bravo” ou “bicho como [isto é, semelhante ao] lobo, como cachorro’, eles completavam a informagio dizendo que cle é “tipo anga, mata caga para comer’, tem “o sentido da onga” (6 semelhante a onca) ou “é uma ona, igual cachorro Parece haver, portanto, uma invariante aqui: varios carnivoros nativos da regiao sao rela- cionados pelos Karitiana & onga (jaguar, Panthera onca), o maior carnivoro das Américas. ‘Todos eles compartilham com o felino uma caracter{stica fundamental, a ferocidade: todos sio “do mato” (gopit), todos sao “bravos” e agressivos, potencialmente perigosos (pa’ira), ¢ todos séo reconhecidamente predadores, cagadores. Actescente-se que, ainda que os Karitiana possam sugerir a possibilidade de “amansar” esses animais quando capturados ainda jovens, hé bastante incerteza quanto ao sucesso desta tarefa: nao hé qualquer um deles na aldeia hoje, ¢ as referéncias a sua existéncia em tempos passados sio imprecisas. A associagao dos canfdeos —nativos ou introduzidos~ e de carnivoros de outras familias com os jaguares nao é estranha a outras populagées amerindias. Philippe Descola (1994: 84-86) afirma que os Achuar na fronteira peruano-equatoriana incluem na categoria yawa “um conjunto de mamiferos carnivoros que, d primeira vista, parecem totalmente distintos’, os varios felinos, duas espécies de cachorros-do-mato, o furio ¢ a irara, além do cachorro domesticado; esta classificagao deriva da percepgao de que esses seres compartilham “natu- ral ferocidade e gosto por carne crua” (Descola, 1994a: 230). Diego Villar (2005: 499) anota a mesma “misteriosa relacién” entre cies e ongas entre os Chiriguano-Chané no oriente boliviano, recordando a informagao de Claude Lévi-Strauss feita quase 40 anos antes: “Mas uma classificago que nos parece heteréclita, nao o é forgosamente do ponto de vista indigena. A partir do radical /iawa/ o tupi forma, por sufi- xagio, os substantivos: /iawara/ “cachorro’, /iawareté/ “jaguar”, /iawacaca/ “ariranha’, /iawaru/ “lobo”, /iawapopé/ “raposa” (..), agrupando assim em uma mesma categoria felideos, canideos ¢ um mustelideo” (2004a [1967]: 83). Esta vinculagdo entre cies e jaguares seria, assim, uma das formas de classificagio dos cachorros europeus pelas culturas indigenas, que os associaram a diferentes criaturas nati- vas da regio: conforme observa Marion Schwartz (1997: 158), “em todos os lugares das Américas, caes [europeus] sdo tradicionalmente vistos como animais totalmente distintos dos ‘tées selvagens’ [ou seja, as espécies nativas de canideos]”. Dito de outra forma, os cachorros europeus so antes equacionados aos jaguares, que parecem funcionar como uma sorte de prototipo (Hunn 1977) de um grupo de seres que partilham certas caracteristicas: varios mamiferos da ordem Carnivora, ¢ entre eles os canideos nativos. O que parece estar operando aqui, no modo como os Karitiana classificam esses ani- mais, é que cles nao estao preocupados com a morfologia, sim com algo préximo ao que Fabiola Jara (2002) chama do contexto (context) em que esses seres vivem. De acordo com a autora, os sistemas indigenas de classificagio dos seres apdiam-se majoritariamente em “redes complexas de relagées ecoldgicas” (complex webs] of ecological relationships), ou seja, © parentesco entre as espécies é definido em fungio de miiltiplos contextos de relagio entre elas ~habitos alimentares e reprodutivos, competicao, simbiose, coabitacgio, mutualidade, Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre céese indios.. entre outras~ 0 que inclui também suas relag6es com os humanos ( Jara, 2002: 125); nesse sentido, a constituigio de grupos de espécies relacionadas passa menos pela forma dos seres do que pelas variadas inter-telagdes entre eles. E a observacio dos modos de relacio das varias espécies de carnivoros que estamos discutindo aqui com os outros seres da floresta com os humanos ~caca, ferocidade, agressividade, competicéo ecoldgica~ que, me parece, situa-os em um mesmo grupo (Jara, 2002). Uma resposta Karitiana & pergunta formulada alguns pardgrafos acima, portanto, parece ser: nao, cachorros-do-mato nao:sao cachorros, ‘mas sio jaguares. E no final das contas, cachorros de criagio também sio jaguares. Qs colo- nizadores europeus (¢ seus cientistas) nomearam as espécies nativas (para cles exéticas) uti- lizando uma categoria que j4 conheciam (0 cachorro, mas também raposas, lobos, entre outros) fundamentando-se na légica das semelhangas morfoldgicas (e posteriormente gené- ticas). Os Karitiana fizeram 0 mesmo: aplicaram sobre a espécie européia exdtica uma cate- goria nativa (a onca), mas baseando-se em outra Iégica, aquela das semelhangas comporta- mentais ou contextuais (ferocidade, predacio, alimentagio carnivora), ou seja, focalizando os habitos -e, poderfamos dizer, as téenicas corporais~ de todos esses seres. Familiarizando o exterior Por que, entéo, os Karitiana ~e outras sociedades indigenas nas terras baixas sul-ameri- canas— nao domesticaram as varias espécies de canideos nativos? Philippe Descola (2002) deu uma resposta ampla para a questio da auséncia da domesticagao animal na Amaz6nia, focalizando as espécies da familia Tayassuidae (os porcos-do-mato), talvez as mais fortes candidatas 20 processo na regiao por seu comportamento altamente gregirio e social. Os povos indigenas amazénicos nao domesticaram os animais porque o processo da domesti- cacao animal ~ tal qual concebido por muitas das narrativas que recontam este processo seria incompativel com as formas de relagao que estas culturas concebem entre humanos ¢ ‘0s demais seres que povoam o cosmo: como articular a ideologia da domesticidade -com todo seu contetido, ao menos no mundo ocidental judaico-cristao, de controle, servidao, escravidao e dominaio (Serpell, 1996), vinculados, como vimos, ao controle reprodutivo, exploragio econémica ¢ & manutengio em confinamento- com cosmologias que desco- nhecem, em larga medida, tais formas de relagao social? Em um sentido mais amplo, se a domesticagao envolve o dominio da cultura (humana, ativa e criativa) sobre a natureza (ani- ‘mal, inerte e objetificada), como reconhecer este processo entre sociedades que desenham a relagéo entre humanos ¢ demais criaturas de outras formas (Viveiros de Castro, 1996; Descola, 1998)? As relagdes entre humanos e animais na Amazénia sio relagies sociais (cf. Descola, 1998) que nao se fundam na objetivacao ¢ na dominacao destes por aqueles, mas na premis- sade que a subjetividade é um atributo comum aos seres e, portanto, as inter-relagdes assu- mem contornos diversos do controle da cultura (domesticidade) sobre a natureza (selvage- ria). Nas terras baixas sul-americanas fammiliariza-se, mas nao se domestica (Erikson, 1987; Descola, 2002), 0 animal que vem para a aldeia, porque os modelos de relagio entre huma- nos e nao-humanos para essas sociedades no entendem os pressupostos da domesticidade tal qual definidos por boa parte da cincia bioldgica, a saber, o humano controlando (e dai subjugando) o nao-humano. Relagao cujo nexo esté situado nas tais “predisposig6es” para a convivéncia, encontradas tanto nos humanos quando nas demais espécies domesticadas Avi NOIS | Julio 2009 « Pg 135 2009 + Pig 136 Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre cdes e indis.. que, em tiltima andlise, sio derivadas de uma visio que estende aos animais as caracteristi- cas sociolégicas tipicas dos agrupamentos humanos: desta forma, humanos ¢ animais agru- pam-se e convivem porque estes sio, ao fim e ao cabo, sociologicamente identificadas aque- les. Voltemos, entio, aos argumentos de J.Clutton-Brock: num sentido mais amplo, os indios amaz6nicos nao domesticaram os animais ~incluindo-se, aqui, os canideos~ porque nao quiseram alterar seus modos de relac4o com esses seres. E néo somente porque esses canideos nativos teriam, como na visio dos especialistas, caracteristicas incompativeis com a domesticagao. Atentemos para o fato de que este suposto défict de socialidade dos can{- deos nativos talvez nao seja mesmo empiricamente comprovavel se situamos a reflexdo na perspectiva das narrativas hegemdnicas da domesticacio, ou seja, aquelas que sugerem uma forma de “encaixe” entre as socialidades humana ¢ animal: 0 cachorro-do-mato-vinagre (Speothos venaticus), por exemplo, parece ser uma espécie gregéria, que vive em bandos ¢ exibe “wma estrutura social de certa complexidade” (Bisenberg & Redford, 1999: 285-6; Reis et al., 2006: 249-50); além disso, “domesticado, portar-se-ia tal qual um cachorro” (Schwartz, 1997: 5); da mesma forma, outros canideos nativos possuiriam, também, um “potencial social” reconhecido na formacéo de pequenos grupos familiares observados na natureza, ¢ na docilidade apresentada quando em cativeiro (Eisenberg & Redford, 1999: 282; Reis et al., 2006: 243-4). Os prdprios Karitiana dizem que as duas espécies que iden- tificam como “cachorros-do-mato” ~gyryty e kypon/kypéréty- vive cm pequenos grupos. Unna lista de espécies familiarizadas entre grupos indigenas amaz6nicos (cf. Gilmore, 1997; Descola, 2002: 101-2) inclui animais que normalmente levam vidas solitérias, além de ani- mais que, em liberdade, sio fugidios e mesmo agressivos. ponto, todavia, é outro. De uma perspectiva geral, os indios nio domesticaram os canideos nativos como nao domesticaram nenhum outro ariimal: por mais déceis, socidveis ¢ controlaveis que a zoologia entenda varias espécies sul-americanas, a relagio social dese- nhada entre humanos € nao-humanos aqui é radicalmente diferente do modelo de relagao. que fundamenta a domesticagéo. Mas num sentido estrito, quero destacar dois dados a res- peito dos mamiferos carnivoros da familia Canidae e sua posigio entre os Karitiana: primei- To, que as caracteristicas que Clutton-Brock julga impeditivas para a domesticagao dos cani- deos nativos —os habitos de roubar comida ¢ de vagar livremente pela floresta— sio atribui- das pelos Karitiana, justamente, aos cies de criagio, animais considerados traigoeiros € pouco confidveis, além de viverem soltos pela aldeia, vagando sem rumo preciso e, sem ali- mento, freqiientemente cacando por conta prépria pequenas presas na floresta; segundo, que os hébitos sociais dos cies séo percebidos de modo negativo pelos Karitiana, como se o cachorro fosse, acima de tudo, um ser ndo-social, no sentido moral, e lembremos que, na Amaz6nia, a moralidade define a socialidade e mesmo a humanidade (ver Overing, 1985): incestuoso, preguicoso, sujo, ardiloso, feroz. Ou seja, se nds projetamos sobre os cachorros a nossa nogio de sociedade, tracando um paralelo entre esta ea organizagio das “sociedades caninas” (ou “lupinas”) e criando as condigées para a domesticagio, os Karitiana projetam sobre os cies caracteristicas que sio, em principio, nao-sociais e, em tese, probleméticas para a convivéncia entre humanos e animais, Como observa Diego Villar (2005: 499): “Esta domesticidade [do cao] remete a uma predisposigao para a vida social, por mais que a qualida- de da mesma no deixe de resultar problemdtica”. Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre cde indi. Oposto de tudo o que é plenamente social como os jaguares, seres que, na Amazénia, sao emblemas das poténcias solitdrias, agressivas ¢ predatérias. A identifica dos cachor- ros com 0s jaguares teria sido, entao, um impedimento mais forte para a nao familiarizagao daqueles; da mesma forma, todos os seres associades as ongas, da perspectiva dos indios -incluindo os can{deos nativos-, nao se prestam & familiatizagio: come predadores por exceléncia, a onga ¢ seus “irmaos” (¢ por meio deste termo de parentesco que os Karitiana assinalam o vinculo entre o seres) nao podem entrar nas familias dos humanos. Como ter jaguares na aldeia, convivendo cotidianamente com os homens? E se cachortos sao jagua- res, Vemos, entio, que se 0 cio é um animal social da perspectiva da etologia ocidental, uma etologia Karitiana considera-os de maneira inversa: da{ set necessdrio levar em conta; no estudo das relagées de proximidade entre humanos e néo-humanos, nao apenas as caracte- risticas das espécies animais que as aproximam dos homens, mas também os modos cultu- ralmente singulares como estes homens véem os animais. Hé muitas outras nogées de socie- dade em jogo na histéria das interagdes trans-especificas. O problema, entao, parece estar em comparar uma pretensa “socialidade humana” ¢, de modo correlato, uma pretensa “socialidade animal”: nogées de hiecarquia e dominancia nao estarao tao arraigadas na nossa compreensio do social que se aplicam bem aos modelos de sociedades animais, cen- trados em estruturas sociais rigidamente organizadas ¢ hierarquizadas? Mas ¢ quando as sociedades em questéo nao compartilham dessas mesmas construg6es do social? Nao obstante tudo isso, mesmo assim, os cachortos esto 14, em bom numero, na aldeia, perfeitamente familiarizados pelos Karitiana e adaptados & vida em “sociedade”. Onde esta- r4, portanto, a diferenga entre os jaguares-cachorros domesticados introduzidos e os demais jaguares da floresta? A principio, é crucial relembrar que o cachorto “doméstico” jamais foi, a rigor, domes- ticado pelos Karitiana, e nem por outras sociedades indigenas na Amazénia. Vemos, entao, que mesmo sua familiarizacao tao répida por parte desses povos coloca problemas, uma vez que as espécies a cle associadas pelos Karitiana onga, irara, guaxinim e os cachorros-do- mato~ nao podem ser trazidas para a aldeia, ou s6 0 sio muito raramente (registrei, a0 longo da pesquisa, apenas uma mengio a uma irara criada na aldeia, que teria fugido apés algum tempo), assim como demonstram outtas etnografias amaz6nicas. Buscando concluir, gostaria de propor uma sugestao para este problema com base nos dados que coletei entre os Karitiana, Se cachorros sio jaguares, é como se eles projetassem no interior do universo dos huma- nos toda a poténcia perigosa e potencialmente destrutiva dos grandes felinos, cagadores poderosos, mas predadores solitérios e sorrateiros. A admiragao pelos cies de caga ilustra esse valor positive atribuido & habilidade de cagar: a onga, embora perigosa, é admirada por sua capacidade de perseguir e matar suas presas; de modo idéntico, sio admirados os cachorros que demonstram destreza ¢ ferocidade ao cagar. A poténcia cagadora é uma vir- tude de uns e outros, uma vez que ambos sao ongas, uma do mato, outras domésticas (a mesma ambigitidade é observada entre os Achuar: Descola, 1994a: 230). Nao é estranho que os Karitiana conhegam técnicas —hoje, segundo eles, no mais empregadas~ para que um homem se transforme em onga: pintar 0 corpo com pontos pretos de jenipapo (a “pin- tura da onca’, obaky ejema), beber ou besuntar-se com o sangue do animal, comer as folhas de uma planta identificada como obaky opirisapo (lit. “orelha de onga”), as raspas de casca AviNOI5 | Julio 2009 « Pg 137 Avi NCIS | Julio 2009 « Pig 138 Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre cdeseindios de uma érvore de tronco pintado (epepokejema go obakydna) ou, ainda, a propria carne do animal, tudo isso sio artificios que permitiam a um cagador tornar-se uma onga, quer seja, assumir as afecgdes corporais e, dal, a perspectiva (cf. Viveiros de Castro, 1996) de uma onga. Com garras ¢ dentes fortes, um homem-onca converte-se em um cagador formidavel. Nao obstante, esta transformagio carrega o germe da associalidade, posto que o homem que se torna onga passa a ser um individuo inconstante, agressivo ¢ perigoso para todos os seus pares: por isso todas as histérias de humanos que usavam transformar-se em jaguares aca- bam, invariavelmente, na morte do cagador, néo mais reconhecido por seus parentes como um dos seus. Beste perigo mortal cravado no seio do social que, creio, fundamenta a ambigitidade do cio entre os Karitiana, ¢ 0 paradoxo que existe entre sua valorizagéo como cacadores (e os cuidados que recebem quando filhotes ou, em menor grau, quando sio cacadores bem-suce- didos) e 0 desprezo e a violéncia que constituem sua posicao simbdlica e seu tratamento cotidiano: poder inconstante no seio da sociabilidade humana, exterior interiorizado que se deve admirar, mas, a0 mesmo tempo temer, ¢ manter sob estrito controle, exterior que & preciso incorporar, mas processo sempre regulado, tenso e potencialmente destrutivo. Os cachorros da aldeia Karitiana esto sempre vindo de fora, ¢ isso sua origem jf 0 demonstra: eles vieram pela mao dos brancos nos primeiros contatos recordados. Mesmo hoje em dia, a maior parte dos caes é adquirida em Porto Velho (comprados, trocados, reco- Ihidos nas ruas, doados por brancos) e sao rarfssimas as fémeas que parem na aldeia: hd sem- pre pouquissimos filhotes. Seguramente, as condigées de satide dos animais tornam a repro- dugao local invidvel, como aponta Kohn (2007: 11) entre os Avila Runa no oriente equato- tiano; no entanto, como o mesmo autor assinala, o fato dos caes serem sempre trazidos da cidade cria um lago de dependéncia do grupo em relagio aos brancos “fornecedores” de cachorros, 0 que se constitui em uma ligagao dos Runa com um mundo mais amplo, que transcende a aldeia. Da mesma forma, os Karitiana dependem da cidade para se “abastece- rem” de cachorros, mas me parece que, como todos os poderes inerentes aos bens dos bran- cos, que vém de fora, é exatamente esta origem alégena que confere valor e, a0 mesmo tempo, inspira o temor. Certo é, ainda, que a auséncia de reprodugao dos cies na aldeia eo transporte dos animais individuais para a comunidade espelham a captura constante de espécimes na floresta, 0 que constitui a dinamica do processo de familiarizagio que carac- teriza a relagdo dos povos indigenas com os animais criados entre os homens. Os Karitiana, portanto, desprezam e agridem os cachorros porque eles espelham a poténcia predatéria “do mato” no interior da aldeia; animal que pode cagar com muito sticesso, mas, concomitantemente, ¢ por isso mesmo, no inspira muita confianga, além de roubar alimentos, comportar-se incestuosamente ¢ viver na sujeira, todos indices de sua poderosa associalidade ~ daf, talvez, sua associacio, na releitura Karitiana do cristianismo, com o diabo, “o Cao”, figura do mal que esté entre nés, contraparte necesséria dos poderes da divindade criadora e provedora, e que deve ser controlada por meio do trabalho inces- sante de construcio dos lacos de tespeito, solidariedade e apoio mituo (cf. Overing, 1985; Overing & Passes, 2000). Todavia, como o cachorto de origem européia foi adotado com tanta facilidade e rapi- dez, mesmo encarnando toda esta ambigiiidade, talvez 0 argumento de Philippe Descola (2002: 107-9) esteja correto: a adogao das espécies de animais trazidas pelos colonizadores trouxe, junto, um novo modelo de configuragio das relagdes entre humanos e nao-huma- Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre cies e indios.. nos, como se cies, galinhas, bois ¢ cavalos fossem vistos pelas sociedades indigenas como parte de um “pacote tecnoldgico” (Turbay, 2002: 102) que incluitia nao s6 os animais, mas, também, as ideologias associadas a cles ¢, em menor medida, as técnicas para sua adminis- tragao. Isso poderia explicar porque o cao foi (¢ ainda hoje é) familiarizado (depois de tra- zido da cidade) e criado na aldeia, a0 passo que os canideos natives ~por mais “domesticd- veis” que possam ser, do ponto de vista da biologia— nao costumam freqiientar as aldeias indigenas: todos sio jaguares, mas alguns pertencem aos dominios do mato, enquanto outros esto desde sempre na companhia dos homens. Talvez esta sugestio seja valida ape- nas para grupos que reconhecem nos brancos os introdutores dos animais — como é 0 caso dos Karitiana em relagéo aos cies ¢ a outras espécies domésticas. Assim, esses seres consti- tuiriam uma classe auténoma que, embora simbolicamente vinculada aos seres “do mato” seria definida, acima de tudo, por sua origem exdtica. Conclusio: antropologia e biologia Existem intimeras narrativas sobre a trajetéria da domesticagéo animal, produzi- das por uma variedade de disciplinas académicas (zoologia, ecologia, etologia, genética, paleontologia, histéria, antropologia, arqueologia, economia) bem como por diferentes grupos de interesses, como movimentos de defesa animal, ¢ seus naturais conteérios, os gru- pos que dependem economicamente da reprodugio industrial de animais de criatério. ‘Nesse campo, cada vez mais conflituoso, em que se entrechocam saberes, poderes, rotinas, direitos ¢ sensibilidades, uma compreensio detalhada dos processos de coexisténcia entre humanos ¢ animais sé pode ser alcangada com sucesso por meio da colaboragao intensa e sincera entre as diferentes areas do conhecimento. Assim, este artigo sugeriu que a historia conjunta de homens ¢ animais ~sejam clas milenares ou muito recentes, como é 0 caso dos caes na Amaz6nia— pode chegar a conclusées instigantes ao se analisar caso a caso, prestan- do cuidadosa atengio nao apenas as diferentes espécies de animais envolvidas, mas, da mesma forma, as diversas sociedades ¢ culturas que encontraram esses seres e com eles enta- bularam relagées de proximidade ¢ convivio. Se a historia da convivéncia entre humanos € espécies domesticadas no contexto ocidental (¢, posteriormente, nas sociedades industriais modernas) pode ser explicada em termas do paralelismo entre os modos de organizagio social das comunidades humanas ¢ as caracteristicas que teriam desenvolvido em alguns ani- mais uma “predisposico” para a convivéncia com humanos, a relagao desses animais com formas radicalmente distintas de organizagio social e cultural requerem anilises especificas. Assim, pode-se sugerir que se algumas sociedades no domesticaram animais, isso nao foi devido a “falhas” ou “auséncias” da parte seja dos animais, seja das comunidades humanas, mas tao-somente a modos cultural e socialmente singulares de desenhar e atualizar estas relagdes. esse espirito, a antropologia tem feito, ha tempos, um esforco por incluit os conheci- mentos produzidos pela biologia (sobreudo pela ecologia) no estudo das relagdes entre humanos e néo-humanos (Ingold, 1988; 2000; Haraway, 2003; Kohn, 2007). Restaria & biologia fazer, de sua parte, a fusao pelo caminho inverso: o reconhecimento das formas de relagio diferenciadas que se estabelecem entre as espécies nao-humanas na perspectiva dos povos indigenas, bem como das mitiltiplas interagées culturalmente especificas entre aque- las c estes. E fundamental que se reconheca, entre outras coisas, que néo hé uma humanida- 15 | Julio 2009 « Pag. 139 Avi NA15 | Julio 2009 « Pde 140 Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre cdese indies... de que desenvolve, como um bloco, relagdes com os outros seres, mas tantas “humanidades” quantas forem as diferentes culturas humanas. Os conhecimentos produzidos pelas ciéncias da vida podem ser (e so) muito titeis, mas é tarefa fundamental desconstruir 0 enorme poder das narrativas biolégicas, colocando-as no mesmo patamar das outras narrativas sobre os humanos e os demais seres com os quais partilhamos 0 mundo, e permitindo um didlogo comum entre distintos conjuntos de saberes. f forcoso reconhecer que a narrativa cientifica é apenas uma das possibilidades de se compreender o mundo, e que certamente ela acessa apenas uma parcela -e nao necessariamente a mais rica~ do imenso conjunto que chamamos de biodiversidade. Da mesma forma que Eduardo Kohn (2007: 5) propés uma “Antropologia da vida” “ver os diferentes modos por meio dos quais as pessoas estado, de fato, conectadas ao universo mais amplo da vida, ¢ as maneiras através das quais podem modificar o que significa ser huma- no”, seria pertinente, talvez, sugerir uma “Ecologia das culturas’, nao, evidentemente, no ja surrado sentido da ecologia cultural (norte-americana), mas em busca da percepgao de que diferentes humanos talvez produzam diferentes animais"': isso, sim, seria levar o estudo das relagdes entre seres humanos ¢ néo-humanos para outro patamar, em que as ontologias nao-ocidentais ou nao-cientfficas sejam, de fato, consideradas em toda a sua complexidade. Isso significa sugerir que, por exemplo, 0 cachorro domesticado, conquanto uma espécie nica e singular (notemos, en passant, que a nogao de espécie como um “isolado” é critica da por parte da biologia), apresenta caracteristicas diferentes segundo as modalidades de relago que estabelecem com os seres humanos, dependentes de universos simbélicos ¢ pré- ticas sociais culturalmente especificos de tratar 0s animais. Talvez, deste modo, possamos compreender melhor as respostas dadas pelas mais diferentes criaturas 4s atividades onipre- sentes dos seres humanos, contribuindo, assim, para estratégias mais eficientes ¢ mais soli- darias para com humanos ¢ nao-humanos- que visem a conter a exploracio dos seres vivos, os maus tratos contra os animais, o desaparecimento de incontaveis espécies ¢ a devas- tagao da Terra. 11 As diferentes técnicas de caga caninas entre as sociedades indigenas Amazénicas podem ser um bom exemplo destas distincasténicascorporais aprendidasc em-corporadas (embodied) pelos cies em uina multplicidade de contextos s6cio- culturais. Estes variados habitos (habitus?) caninos espantaram Herbert Baldus entre os Tapirapé no Brasil Central, de acordo com a Revista de Arualidade Indigena (FUNAI, 1978: 3, meu grifo):“[elomo ndo recebem o sustento regular @ _fome lens os cachorras a adotarem urn comportamento néo-canino: se frugiores¢ trepadores: Maso que &0 “comporta- Felipe Ferreira Vander Velden | Sobre cdes ¢ indios ... Bibliografia Cascudo, Luis da Camara. S/d [1954]. Diciondrio do falelore brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro. Clutton-Brock, Juliet. 1977. “Man-made dogs”. Em: Science. Vol. 197, N° 4311. Delore, Robert. 2002. “Animais’ Em: J. Le Goff & JC. Schmitt (orgs.), Diciondrio temdtico do Ocidente Medieval. Vol. 1. Bauru: Edusc. Descola, Philippe. 2002. “Genealogia de objetos ¢ antropologia da objetivagio”. Em: Horizontéi Antropolagicos. Vol. 8, N° 18. Descola, Philippe. t 1998. “Estrurura ou sentimento: a relagio com 0 animal na Amazénia’, Em: Mand. Vols 4, Ne. Descola, Philippe. 1994. 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