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JACQUES LE GOFF & JEAN-CLAUDE SCHMIT1 DICIONARIO MEDIEVAL @ EDUSC SUMARIO @EDUSC as lems Armin. 10-50, Taare? — I (14) 3295-7219 ae ” oe pg wre Preficio 8 edigio brasileira D546 Dicondrio Temisio do Ocidente Medici! coordenao Jacqucs Le Gof i «Jean-Claude Schmit; ordenador da tratio Hiro Franco Jini. Baur, SP: Eade, 2006, 2 ISBN 85:7440.147-0 (1) (EDUSC) ISBN 85-7460-148.9 (2) (EDUS) Inclui bibliog. “Tradupto de: Dictionnaire raisonné de Occident médiva, 1999. 1. Made Média ~ Dicondton. I. Le Goff Jacques. I. Schit, Jean-Claude 1, Tl, €DD 940.1403 SBN 2213-60264 6 (origi “DICTIONNAIRE RAISONNE DE LOCCIDENT MEDIEVAL” de Jacques LE GOFF e Jean-Claude SCHMITT Wold copyight © Libaire Arthime Fayad 1999) Copyright © (ealgso) EDUSC, 2002 Diondrio Todo de ride Madiell LACROIX, Bruno. Hieron Moen dg: Monte ai, 1971 IDADE MEDIA MIRE AND, Ein Mt) ad nl 1), La monique Pini ax Mayen Ae Pt, 198, LA STORIOGRAFIA skoda Spoke nes Média nio existe. Este periodo de quase mil anos, que se estende ‘conquista da Galia por Clovis até 0 fim da Guerra dos Cem Anos, & Shricacio, uma construcio, um mito, quer dizer, um conjunto de repre- de imagens em perpétuo movimento, amplamente difundidas na dade, de geragio em geragio, em particular pelos professores do prima hussardos nogros” da Repibica, para dar comunidade nacional uma tidade cultural, social e politica. Tentaremos perceber a rama desse fim da Idade Média tradicional ao fim do segundo milénio. A fim var a cocréncia deste estudo, prvilegiamos o caso francés, embora amplasvisbes européias ou mesmo planctiias. A Franca é prova- nte 0 nico pats ocidental em que, na época contemporinea, sua me- medieval esteve tanto tempo ¢ to profundamente dividida no plano pl politico e religiso, ¢ no qual a Mdade Média ainda hoje constitu um indicador das Paix francses, como, de resto, se pide verificar em aparigio de um conceito desvalorizante de “idade média", quer dizer, te, de “época intermedisria’, € consequéncia de um duplo fendme- € religioso, Resulta da vontade manifesta dos humanists italianos, 10 século XIV, de retornar 3s fontes da Antigitidade Clissica em sua pu- Autenticidade filoligicas, livre das esc6rias e das alteragées lingiisticas pelas glosas posteriores aos “Sorbonnards”, Como observa Jean: 'Goulemont, a scienza nuove de Petrarca constiui sobretudo “um esfor fa limpar o ps do tempo, perceber sob as rugas da idade o frescor dos pri- Sorrisos do mundo”. Esta abordagem filoldgica também favorece a ten- 44a Reforma Protestante de retornar 20 texto sagrado, reencontrar 0c o das origens ¢ denunciar uma Igreja Catdlica presa ao visco da cidade le € que se tornou indiferente aos ideais evangticos da Cidade de Deus. entre dois cumes da civilizagio ~ a Antigtiidade Clisica ¢ 0 Renascimen- 6 Dicondro Temdtico do Oriente Meio toa transiio medieval sera doravante, por muitos séculos, eo desprezo, como um periodo de profunda decadéncia no domfnio telecual eartistico (a arte “gtica"denegrida por Miguel Angelo) intermindvel noite que os raios de sol do século XVI enti diss A terminologia inventada por Petrarca ¢ os humanistas it lo XIV ~ medium tempus ou media tempora — desenvolve-se na de do século XVII entre os eruditos alemaes e fanceses. Emm I phe Cellarius (ou Keller), professor em Halle, publica em lena a ddadeiea hist6ria medieval em latim. Em 1681, Charles du soso Glossarium ad scriptores mediae et infin latnitais (Glos dade medieval e tardia). © século XVII assume ¢ aperfeigoa = pais linguas européias substituindo o latim ~ esta diviso terndfi (Antigiidade, Mdade Média, tempos modernos), para melhor © faz Voltaire nos Enaios sobre os costumes (1756), a vitéria das I ‘obscurantismo clerical e triunfo de uma civlizagio refinada 5 via ea barbatie desses longinquos séculos de ferro. No entantoy Revolusio, a expressio “Idade Média” comega a tornar-s € ccuropeus, um terme técnico mais neutro, desprovide de cone ca, confortivel fara designar um perfodo recuado no tempo, Por outro lado, ao contririo do que se costuma pensar, na preciso esperar a época rominica para que houvese interes pel se buseassenela temas de inspiragio litera € musical. O prOpt o acusador das trevas medievais, autor, em 1734, de agio se desenrola no reinado de Carlos VIL. Na seq te dos grandes dramacurgos do século XVIII pas em cena eventos da Idade Média: Dormont de Bello pe, Pharamond (1765); Louis Sébastien Mercies, Childévie ( Louis XI(1784), Jeanne d’Are (789); Sedaine, Maillard ow Em 1782, Sedaine, ssociado a0 compositor Grétry, monta ap de Lion, da qual o famoso recitativo “Oh, Ricardo! Oh, meu abandons” torna-se uma senha realista durante a Revolugdo. Francois Ducis encena no Théitre-Frangais Jean-san- Tere 0 Rouget de Lisle, imortalizado por La marseilase, & também antico de guerra: Roland @ Roncenaex. © sucesso dos Templirs «em 1805, constituiu © coroamento de toda esta eorrente Quanto 3 partiha implicta dos temas que se costuma p 1820 na literatura dade Média para os palcos romanticos ~ trata-se de uma visio redutora que no ponide & realidade. Ponsard, encarnigado adversirio do teatro rominti- ena, em 1846, um drama de inspiragio medieval, Agnts de Méranie. n, por ironia da histéria, “Hugoth” ¢ eleito, em 1841, para a Academia ext na cadcira de um “antiquad”, Népomuctne Lemercier, do qual boa dda obra dramética também apresenta uma fichada medicval, embora Jo uma arquitetura rigorosamente ckissica. Portanto, é preciso procu- putro lugar as caracteristicas da visio romantica da [dade Média. IDADE DE OURO DA IDADE MEDIA ROMANTICA NO StiCULO XIX TIL detesta a Made Média que o Romantismo venera. Pro mente ¢ 0 traumatismo revolucionario e seu vandalismo, ferindo ao mes- mpo a arquitetura ¢ o patriménio escrito ~ como reconhece Michelet, Kjuivos também tiveram seu Tribunal Revolucionério ~ que revela aos es rominticos, que o ignoravam, a Idade Média aos pedagos, a Idade ultrajada; “reencontram a Idade Média do mesmo modo que os pri Jhumanistas havia reencontrado a Antigiidade: € certo que a reencon: pas como alguma coisa defiitivamente perdda! (Ch. Carbonell jue que a maior parte dos romanticos sofieu durante a infincia no berto por Alexandre Lenoir em 1795 ¢ em 1816 pela Restauragio ~ teve profundas conseqligncias: susci telagio com o tempo: desemboca na proclamagio revolucionstia de Povo ¢ 0 ator privilegiado da hist6ria, encarnagio viva da Napio france- tribui, enfim, para a sagragio do Herdi Uuniversalidade da razio ¢ da nacureza humana afirmada pelos clissi mAinticos opsem o sentimento de que cada momento da histéri edutivel ao que o precede © a0 que o segue, € que é preciso restivut sua cor propria, respeitando seu tempo particular, como o faz com sucesso Augustin Thierry, em 1840, nos seus célebres Récit des temps ens. Os romanticos sio igualmente apaixonados pelos perfodos de ® € de ruptura nos quais o tempo estremece. Assim, pode-se ler Notre- Me Paris de Hugo (1831) como a crénica de uma revolugio anunciada, ), preparada pelo ripido crescimento da imprensa sob Luis XI e pela da burguesia, que, ao cabo, ameaga a hegemonia cultural e pol “Isso mataré aquilo”: 0 Livro mataré o catolicismo simbolirado pela Bética. Neste interesse apaixonado pela fraturas temporais envxerta-se Dicom Temi do cident Mice lade Maia a busca obsedante pelas origens. Em Michelet, essa busca eae ome quase bioldgico e carnal. Nessa pesquisa de talhe antropolég simila a Idade Média & infincia do povo, a uma etapa capital DNs Franga, a Idade Média invadiu a praga publica, a escola ¢ 0 lar para vimento psiquico ¢ moral. jnder as exigéncias da Revanche e, sobretudo, legitimar os combates poli- No canteiro de obras da Histoire de France aberto por Fe religiosos que ritmam a vida da III Repablica. A asperera dessas "bata- 1833, numa perspectiva de ressurreigao integral do passado, a I rs i rwelivl@ i reve Ee venai phirecltrn tase 0: mum da Nagio Francesa, de ano 1000 a época de Joana d’Are, ‘destino de Joana, 2 Donzela. Para a esquerda, Joana Dare ~ com esta or fiada monécona ¢ repettiva dos reinos que vio de F valorizando sua origem popula, fazendo-a irma de Zé Ninguém — longo combate da Liberdade contra a Fatalidade toma o lugar finua sera filha do povo, a encarnagio viva da nagio, a martr desu i dética das cabogas coroadas. Assim, do mais longinquo passado ncia, a fundadora de sua unidade. E, com certeza, a vitima simbélica gem hersis rgicos quc encarnam as virtudes eters da Fraga ndo a prova mais acabrunhante da impostura desta ins so de dever e de sactificio, generosidade, combate pela lberdad p ctiminosa ¢ birbara, Os catdlicos, ao contriro, satidam na época de do, Estevto Marcel, Du Guesclin e, claro, Joana d’Arc: A dAre— a grande Francesa, a grande Cristi, a grande Santa, segundo os sguras de proa dos tempos medievais exprime-se igualmente ps testemunho mais intenso da sustentagio indefec Gea tbat NB Eigine Delecrobs com Danie cia acorda 3 “filha primogénita da Igreja", promotora das de Dante (1822), Joio, o Bom, na Bataille de Poitiers (1830), Gesta Dei per Francos (“os grandes feitos de Deus por intermédio dos titio na Bavalle de Nancy (1831), Sto Luts na Bacaile de Ti 9). Desta perspectiva sobrenatural, os catélieos conferem a Joana uma cou na Entrée des rosé: Constentinople (1840), Deacioll quase cristolégica: assim como Jesus morreu na cruz para expiar os mistura confusa de cavalos revestidos de couraga, de langas ed dos homens, Joana foi queimada em Rouen para expiat os sacrilégios os da [dade Média, es de Filipe, o Belo - 0 atentado de Anagni contra Bonificio VIII, em ‘ede Isabel da Baviera: 0 “vergonhoso” tratado de Troyes de 1420. impoténcia do parlamentar republicano Joseph Fabre em fazer adotar ara dos Deputados, em 1884, depois pelo Senado, em 1894, 8 dle Grande Exército dos caval ‘A redescoberta da histéria medieval manifesta-se, enfim, B reabilitasio do patriménio monumental, tomado aos cuidados segunda metade do século XIX, que confiaa Viollec-le-Ducad - wees ds maneutche de VE Clacemnonn Toul mo festa nacional ilustra até a caricatura as divises que a heroina 7 2 suscita na sociedade francesa entre 1880 € 1914. Do seu lado, a Igre- 8S eae 11 Joana Venerivel em 1894 ¢ Beata em 1909. £ verdade que o Par lists, elas encantam @ grande piblico, Como nota it @ francés consagra, em 1920, 8 de maio & lembranga nacional da he- Proust em Sadoma e Gomorra “para 0 pequeno comerciante es ap e Hg {g0, vai is vezes visitar edificios dos ‘velhos bons tempos’, mm x fea gas Heat pleco es tee 1 Wola nara “blew horizon’ elcta em 1919 e dominada pelo Bloco Nacional, duels em que todas as pedras so do nosso tempo [..] que ses cae a serisagio da Idade Média", Alény-Reno, este fenmeno is escolares de duas escola rivais, a dos “hussardos negros da ir na Franga profunda tetpretagdes contlituosas da dade Média. Os das escolas contessionais : (0s tempos fortes da Cristandade: o batismo da Franca com Clovis € 0 extabelecimento de um novo Sacro Império Romano-G 96, © coroamento imperial de Carlos Magno em Roma no ano de 800, hada de Jerusalém pelos cruzados em 1099, o século XIII, considerado te como o apogeu da civilizagio cristi em razio da vida exemplar monial reveste-se de dimensio nacionalista: a conclusio da c nia em 1880 ¢ o desenvolvimento do Museu Nacional Ger berg simbolizam a unificagio da Alemanha, vitoriosa sobre a Fr DisioirioTemético do Ocidence Medial ange mea de Sio Luis, do prestigio intelectual dos doutores da Sorbonn designios. Para reforcar 0 liame entre o Fiher e os antigos soberanos tistica da arte gética na Europa. Os das escola laicas exun ‘ apresentar o Fundador do III Reich como o herdeito natural da- edieval todos os eventos que prenunciam a grande movimento comunal do século XII, 0s Estados Gerais ¢ as r medieval de Nuremberg os congressos do Partido Nacional-Socia- ses do século XIV. Em certa literatura progresssta, Esteyo ‘sou igualmente a monumental biografia que, fascinado pelo poder modo, considerado como uma espécie de Danton medieval gis medievais, o historiador Ernst Kantorowies tinha consagrado, em histéria, tentou fazer soar 1789 em 1358! o imperador Frederico II de Hohenstaufen, construtor de um Estado No entanto, malgrado estas querelas de familia, existe ro fortemente centralizado, no qual os nazistas satidam a matriz do Repaiblica uma Kdade Média patiotica ¢ nacional suscetive dduas Frangas: embora os Icigos julguem com condescende desiludide e refugiado nos Estados Unidos, de- nistica de Sio Luis ¢ sua participagto na Cruzada, cles fa recuperagio totalitéria do passado, enfatizando, numa nota das Lau- rem de rogados a vitéria de Luis IX sobre os ingleses em , como aaclamagao que desde a Anschluss de margo de 1938 acolhia Saintes, €a inclusio do Languedoc no dominio real com 0 4 s paradas militares diante de multides exaltadas— ein Reich, ein sgrimas” da cruzada contra os albigenses. Nos dois campos, en in Furer (urn x Império, um s6 povo, um x6 chefe”) ~ € um eco si- gusto, o vencedor dos alemiies em Bouvines, € Luts pda divisa do imp rederico Barba-Ruiva: wnus Deus, wus papa 6 Temeratio, sio considerados infatigiveis artesios da unidade) zor ("um s6 Deus, um s6 papa, um s6 imperador”) fieram por merecer 0 reconhecimento da pétra. melhor denunciar os crimes naristas, os artistas antifascstas também sam a Idade Média. Em 1934, o comunistaalemio John Heartfield al- ja barbsrie de camisa parda com uma foromontagem impactante com- ‘a propaganda nazista nao se contentou em organizar na embandeira- AAlém das controvérsias sobre 0 passado medieval, 0s m «excolas sobretudolegaram aos pequenos franceses do século X9 de imagens mitolégicas que constitui 0 que Gaston Bonbes 1963 de “Album de Familia de txts os franceses”e que po de duas janclas horizontais superpostas: na de cima, a fotografia de um 0 medieval mostrando um homem supliciade sob a roda; na de bai- ciente coletivo: 0 episédio do vaso de Soissons, Rolando $0 fidiver mu sobre uma cruz gamada, numa posigio parecida & do pri- cm Roncevaurx, Carlos Magno felicitando os bons estudantes orpo martiriado. A legenda indica sobriamente: “Como na Idade Mé- preguigosos, Sio Luis distribuindo justiga familiarmente 50 anto, o préprio Stalin, as vésperas de um conflito com o III Reich ‘Vinoenoes, Carlos VIitomado de loucsta na flocens da pressente incvtével, nao hesta em exumar do passado russo mitos Fun- conhecendo Carlos VII em Chinon, Luis XI em Plessis suscexiveis de galvanizar o patrotismo nacional: 0 esmagamento dos uss “meninickiay” ou ‘averrotizide tei a aproairadaa Bs teutdnicos na “batalha do gelo", na Livonia, em 1242, reconsttuida Jogo apés a Grande Guerra, prolongando a “Unido Sagrada’ in na famosa cena de Alexandre Newski (1938), parece prefigurar liticas e religiosas acerca da [dade Média tenham se interrom hersica resisténcia dos combatentes rusts & invasio estrangeia las encontrar jm. nove vigor na Endy totais a ‘mesma época, no Ocidente, a Idade Média constitu uma inesgots- de imagens draméticas cuja exploragio, em especial pela industria Média reinterpretada de modo preconceituoso as inquiet histdricas da construgo de uma terrificante ordem nova fica americana, conteibuitd para criar um imagindrio universal Os usos pa IpaDE MEDIA DE 1920 A 1945 Tdabe Méipia No TEMPO DA CULTURA DE MASSA (Qs velhos mitos que exaltam a memséria do Sacro Impé] 4 1920, as novas midias prolongam a visio romantica da dade Mé- Imnico séo habilmente reatualizados ¢ explorados por Hitler Bante mais de quarenta anos, as superprodugdes medievais reaizadas por Hollywood, esta miquina de fabricar sonhos para o mt is orginais, surgidas em meados dos anos 70, em especial no cinema, senta caracteristicas comuns, do Robin Hood de Allan Dwan, jpevistas em quadrinhos, nos romances, is vezes na misica ¢ na épera Fairbanks, em 1922, ao Cid de Anthony Mann, em 1960: © ¢endg |Jé mais ou menos hé uns vinte anos, 0 cinema ¢ a televisio viraram de- a abundancia de figurantes, a beleza € 0 luxo das vestes¢, sobre ente as costas & superproducio medieval: com Lancelore do Lago lutaindiferenga em relagio a “concordancia dos tempos’! Qu f)¢ Percival, o Gaules (1978), por exemplo, Robert Bresson ¢ Eric Roh- se apropria da heranga cultural européia, ignora soberbame maseram uma reletura ao mesmo tempo muito pessoal e muito ssbria Ihanga histérica e no hesita em jogar abertamente com 0 osa da Ienda arturiana, Dando continuidade a cstas obras “iinimalis- 1935, As Cruzadas de Cecil B. de Mille celebram sem complex conde o espetacular esté voluntariamente banido, a década de 80 & do- mo americano; em 1950, A Flecha e a Tacha de Jacques To da por projetos ambiciosos. Na televisio, Jean-Dominique de La Roche- feréncia, por meio do relato de uma luta de libertagio nacional gud realiza, cm 1987, O ano mil, Serge Moati, A Cruzada das Criamcas, & resistencia d ocupacio alema da Europa. As Aventuras de 88, Philippe Monnier, O menino dos lobo, em 1990, baseado em La chael Cursiz (1938), com Errol Flynn, ¢ sobretudo a trilogia ides nounes de Régine Deforges. No cinema, a atitude austera de Suza Richard Thorpe ~ feanho¢ (1952), Os cavaleiros da Tivola Re ifman em O monge e a feiticeira, em 1986, ou crepuscular em A pai Quentin Durward (1955) ~ cxaltam, em plena Guerra Fria, fae Beatriz de Bertrand Tavernier, em 1987 ~ visio desesperante, mas ins- Sovietico, os valores de uma América dominadora e segura de si © apaixonada, de “o outono da Idade Média” ~ provavelmente dese ismo criador, a fraternidade viril, o impulso conquistador de n 0 grande publico, que acolheu, por outro lado, a adaptasio ea vem e dinimica, a defesa da liberdade oprimida, o espirito deen varia de seu substancial cutano — de O nome da rosa por Jean-Jacques to, a tolerincia religiosa etc. Ao mesmo tempo, Hollywood no ud, em 1986, € sobretudo a comédia comportada, desprovida de qual polio do sonho medieval e duas das maiotes obras-primas conee isio hist6rica, proposta por Jean-Marie Poiré em Os wistantes, que de Média sio criagbes escandinavas: 0 inesquecivel A pai ais de treze milhies de pessoas em 19931, Dreyer, em 1928, e O Sétimo Selo de Ingmar Bergman, em 1956, insparece a obs em 1994, Jacques Rivette demonstrou brilhancem ga ¢ desencantada da Cruzada, em que filme em duas partes: As batalhas e As privdes—que com meios emporinea, 0 apocalipse nuclear. jente limitados ¢ sem efeitos especias pode-se petceber de mancira sen- Nos iltimos vinte anos, nossa relagio com o passado, ailhas dos clichés escolarese das litografias, uma Idade Média a0 mes- tao profundamente que se pide comparar © revorno da Tdad po conereta¢ poctica. Sandrine Bonnaire encarna de modo muito con- dla geragio de 1830. Assim como a monumental Notre-Dame uma Joana “em carne €em vor, em gestosearrepios” (Jean-Michel Fro- tor Hugo sobressai sobre os Trinta Gloriosos rominticos, 0 9 *Monde, 10 de fevercio de 1994, p. VI), sincese viva do mito ¢ do coti nome da rosa de Umberto Eco, banal e do lenditio, do real edo sagrado, E mesmo quando os cineas mente a maré de romances histéricos, em geral cor-de-rosay icanos — como Kevin Reynolds, com Robin Hood, principe des ladres, segue La chembre des dames. '=voltam 20 grande espeticulo hellywoodiano, o tom adotaclo é do estilo pardico da histéria em quadrinhos.. Uma Idade Méd Novas IMAGENS, NOvOS RELATOS 4 ica fez 0 sucesso de Monty Python, o Cilice Sagrado (1974). téria em quadrinhos nao fica de fora: longe do estilo chssico da “ Distanciados por mais de 150 anos, os dois perfodos apes , desenvotvide por um dos mestres da escola fa as. Como na época romantica, a Made Média susie Bs avencuras de Jhen, rencatmasio medieval de Alix imagens frscs. O rrunfo da tradi francesa de O nome dl Gille de Rais, Frangois Bourgeon langa o leitor de Ci longe de scr um fenémeno isolado, prolonga 0 sucesso das ~envolvente trilogia composta por Sorilégio do bosque das brumas os 45 dade Média (1984), Othos de extanho da cidade glance (1986) ¢ O ttiono Bnrretanto, apesar das aparéncias, o grande retorno da Idade Média na seme (1990) ~ numa visio desordenada da Idade Média, a meio e contemporinea distingue-se radicalmente da ressurrcigio romantica an- tre 0 sonho ¢ a realidade, a qual o grande publico reservou um yr duas raz6es principais. Em primeiro lugar, os rominticos e seus ep\- caloroso: foram vendidos mais de cem mil exemplares do terecita BUT Reptilia ocritaecos pela Elgarsicecrs dec fngelen cea, Este sucesso é, no entanto, eelipsado pela voga dos romances guedoc por inquisidores fansticos, freqiientemente se metamorfosea- Jeanne Boutin. De La chambre des dames, ems 1979, a08 Co em 1992, passando por Le jew dele tentation, em 1981, Jeanne xplora um verdadeito filio medieval tomando 10 de pesadelo difundida pelos epigonos de Victor brando uma Idade Média idealizada, vestida de céndida probidade Seu quadro otimista da condigio da mulher no tempo das cate tuma fogucira e queimadas vivas, como as feiticeiras da Europa na Idade cau temps des cathédales, Régine Pernoud), embora vigorosament i (Le Monde, 8 de marco de 1996, p. 15) pelos especialistas da Idade Média masculina (Mle Moyen Age, tiem por isso deinou de fazer chorar a Iitoras populares, Em I “justicciros’, para condenar retrospectivamente esta época maldita felizmente mantemos uma relagio mais serena com nosso passado. Te- tendéncia a perceber a “barbaric” medieval néo em nés, mas fora de nés, jeti-la nos paises fundamentalistas, como Bangladesh, entre outros po- cos, nos quais as mulheres, como lembra Taslima Nasreen, “so ata- ‘Por outro lado, enquanto os rom: contentando-se, como Alexandre Dumas, em plagiar sem escripulos as 3s eram indiferentes & pesquisa his- da familia Brunel, ousive parisiense do século XIII, evocado em dames, atinge, com mais de 1.650.000 exemplares vendidos (sem «es de bolso), as cifras de venda vertiginosas dos bes-scllers de ve Le jew de la tentation,uleapassa os dois milhes de exemple ‘medievais publicadas e considerando a Idade Média como um espago mbienta¢io exética quase infinito, os autores contemporincos mantém, a0 io, um respeito escrupuloso, quase maniaco, pelo contexto histérico, dado sobre o conhecimento da uma documencagio histica irreproch vel Mesmo a muisica de hoje reata com a inspiragio medi