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08/03/2018 - 09H08 - ATUALIZADA ÀS 09H08 - POR CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA DEFENDE QUE COACHES PRECISAM TER FORMAÇÃO


ESPECÍFICA EM PSICOLOGIA OU PSICOTERAPIA (FOTO: PEXELS)

Muito se fala sobre coaching, mas afinal, quem é esse profissional? O Conselho Federal de
Psicologia defende que é necessária uma formação específica em psicologia ou psicoterapia.
Diversas associações de coaching protestam, afirmando que tal prática não é um tipo de
psicoterapia, mas apenas um conjunto de técnicas que ajudam a levar alguém de um ponto A
para um ponto B, um orientador de carreira que se milita a assuntos profissionais.

Tem coach para tudo, até para dormir

Há grandes cuidadores de almas que jamais pisaram em uma faculdade de psicologia, assim
como há pessoas que parecem ter nascido para escutar os outros. Tendo uma espécie de
mágica com as palavras ou uma rica experiência com a vida, são capazes de desembaraçar
nossas dificuldades. Há amigos que nos dizem coisas, na hora certa, ao preço que o
Mastercard da psicanálise não pode pagar. Há leituras e filmes que nos transformam para
sempre. Há encontros amorosos que curam nossa neurose, ainda que provisoriamente, já dizia
Freud. Lembremos ainda que os psicoterapeutas, antes de se tornarem uma classe
profissional, eram charlatões itinerantes (charlar em espanhol é falar), que viviam das soluções
“práticas” que criavam com suas palavras e gestos, ao modo de xamãs modernos. Portanto, a
controvérsia do coaching não é só uma questão de quem tem a carteira da ciência ou da lei na
mão.

Quando alguém me diz que o coaching não é psicoterapia eu não me pergunto o que a pessoa
sabe de coaching, mas o que ela entende por psicoterapia. Há terapias focais que tratam
apenas de um problema. Outras não usam qualquer forma de diagnóstico ou psicopatologia.
Há terapias orientadas para motivação, desempenho, sucesso, desenvolvimento pessoal ou
qualidade de vida, bem como centradas no auto-conhecimento ou na descoberta de
propósitos. Há terapias dirigidas exclusivamente para o futuro, como há outras tantas que
consideram que há algo importante no passado. Daí que a definição mais simples e restritiva
seja pela prerrogativa de formação: psicólogo ou médico. Problema. Psicanalistas não são
necessariamente de um tipo ou outro e eles originaram o próprio conceito moderno de
psicoterapia. Quando se entra na sala para falar livremente com alguém, os resultados são
imprevisíveis e não há método que não traga consigo efeitos colaterais, maus usos ou abusos
iatrogênicos.

Quando ouço falar de life coaching, coaching coercitivo, coaching ontológico ou coaching
executivo, isso faz pensar em uma maneira de oferecer terapia sem o ônus, moral, médico ou
contra-religioso que muitas vezes a palavra carrega consigo. Uma forma de tratar a loucura
sem chamá-la de psicose, um modo de questionar ou rever a vida sem arriscar descobrir
“coisas muito desagradáveis”. Um espaço para falar e ser escutado de modo pessoal e
interessado por alguém experiente parece algo desejável por si mesmo nestes tempos de
solidão e rarefação de escuta. A popularização do coaching parece uma resposta social à
cultura da indiferença, ao massacre da perda da intimidade, ao fracasso da psicofarmacologia
e ao declínio das narrativas religiosas. Lembro-me de quantas outras práticas geraram
controvérsias semelhantes, algumas mais técnicas como o aconselhamento de carreira, outras
mais terapêuticas como a constelação familiar, outras ainda mais miméticas como os florais de
Bach. Várias ajudaram, outras mostraram-se irrelevantes e outras tantas atrapalharam muito.
Só não me contento com a ideia de que falar ao outro livremente seja algo anódino ou sem
consequências.

No Brasil a disseminação do coaching está ligada à consciência crescente de que no mundo


corporativo as relações humanas são fator chave para ascender a cargos mais elevados.
Habilidades relacionais aumentam a sobrevida profissional em meio à mecânica dos cortes do
abatedouro neoliberal. A curva mais frequente é de que a carreira começa em uma função
técnica e vá migrando para a “administração” de pessoas. O tempo passa e ela é assediada
pelo mal-estar por estar tão pouco preparada para um ambiente cada vez mais complexo e
predatório da política corporativa: processos seletivos indecifráveis, bônus opinativos,
avaliações 360 graus, habilidades sociais e inteligências emocionais são dispersadas no ar sem
que saiba muito bem do que são feitas. Apesar disso todos concordam quando elas estão
ausente em um chefe ou um empregado “sem noção”. Por isso o coaching externo, separou-se
do mentoring, como um sinal de que a própria empresa era insuficiente para lidar com os
problemas que ela produzia e que estes não eram controláveis por meio de treinamento,
compliance ou palestras motivacionais.

Colocar todos em psicoterapia seria uma receita velha e impraticável daí que o coaching surja
tanto como uma forma de escuta quanto como sintoma de nossa percepção da relevância do
problema. Vi o coaching disseminar-se no Brasil e acompanhei vários psicanalistas que aceitam
esta demanda como qualquer outra forma de pedir ajuda. Assim como aquele que recebe um
paciente interessado em fazer uma terapia de regressão às suas vidas passadas, porque de
fato vamos examinar suas vidas passadas e esquecidas, ou seja, sua infância, aqui mesmo
neste mundo. Psicoterapia não funciona “on demand”, justamente porque as pessoas nem
sempre sabem bem o que querem, e as vezes o problema é justamente que elas sabem demais
o que querem. Uma das funções mais elementares de qualquer psicoterapia consiste em
examinar clinicamente as demandas de alguém.

Não somos uma loja de departamentos onde os problemas se dividem em prateleiras do tipo:
vida afetiva ou profissional, amigos ou família, vontade ou inteligência, cérebro ou fé, talento
ou esforço. Isolar nossos interesses e funções pode dar certo até certo ponto, mas no fundo
sabemos que as coisas estão sempre e necessariamente interligadas. Freud comparava a
transferência, formada na relação entre paciente e psicanalista, com uma forma de amor.
Neste sentido o coaching é uma promessa do tipo: vamos para cama, mas sem envolvimento,
tá bom?
O problema ético colocado tanto pelo coaching quanto pelas psicoterapias, ainda que uma
prática não se reduza a outra, é que quando apresentamos certas modalidades de sofrimento
psíquico como curáveis por manobras educativas ou morais nós tocamos na ética da cura que
cada um de nós carrega consigo. Isso não deve ser objeto de controle ou censura, mas de
responsabilidade ética e cuidado.

Suponhamos aquela pessoa que tentou tudo para livrar-se de seu sofrimento e que vê uma
situação análoga ser resolvida por um passe de mágica. Isso qualifica ou banaliza o cuidado
consigo? Essa era uma das primeiras e mais interessantes recomendações de Freud sobre o
início do tratamento: não destruir o desejo do paciente de cuidar de si. Psicólogos, psiquiatras,
psicoterapeutas e psicanalistas abstém-se de fazer propaganda e de prometer resultados para
não prejudicar a ética do cuidado daquela pessoa. Coachings e congêneres estariam
dispensados desta recomendação? Tenta-se evitar experiências de fracasso na relação da
pessoa com o cuidado de si. Por isso idealização que ligam o sofrimento psíquico, a convicções
do tipo: “isso não tem jeito, isso não tem cura, isso sou eu” ou inversamente “obedeça o
método ´paps´ que tudo vai dar certo” são temerárias.

Não é apenas uma restrição jurídica ou uma censura moral. Quando alguém paga para ter sua
prática divulgada desta maneira ela denota a maneira negocial como aborda o assunto. O que
é preciso questionar está justamente na oposição entre lidar com o sofrimento das pessoas ao
modo de um negócio ou tentar coibir isso por meio da dimensão moral ou da gramática
judiciária. Há um espaço entre as duas coisas, mas isso implicará que o coaching apresente de
forma mais ampla os fundamentos de sua ação, mais além da falsa alternativa entre o negócio
e a lei.

* Christian Ingo Lenz Dunker é um psicanalista e professor da Universidade de São Paulo