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CLARA PIMENTA DO VALE

o Paço do Conde de Barcelos

BARCELOS
1 991

Separata da « Barcelos- Revista»


o PAÇO DO CONDE DE BARCELOS
Clara Pimenta do Vale

Introdução

o trabalho que, com modificações serviu de base a este artigo foi ela-
borado no âmbito de uma cadeira de História do Curso de Arquitectura da
Universidade do Porto . Aproveito para agradecer aos colegas que comigo
colaboraram, Joaquim Flores, Rogério Amoêda e Rui Carrasquinho, aos
professores da cadeira, Arq. o A. Alves Costa, Arq. o Marta Cabral e Dr.
Rui Tavares da FAUP e ainda ao Prof. Carlos Alberto Ferreira de Almeida,
da FLUP.

Um trabalho escolar pressupõe que os interlocutores possuam certos


conhecimentos básicos que se torna desnecessário repetir. Por essa razão
o trabalho apresenta unicamente os factos essenciais à definição da nossa
hipótese, e não uma História geral sobre o Paço dos Condes-Duques de
Barcelos . Optou-se por manter a estrutura inicial porque torna o trabalho
menos denso e com uma dimensão mais compatível com esta revista .
Para essa informação complementar remeto para o Livro «O PAÇO DOS
CONDES-DUQUES DE BARCELOS» do Arquitecto Francisco de Azeredo.

Devemos salvaguardar o facto de o objectivo deste trabalho ser a re-


constituição do Paço no tempo de D. Afonso, 7. o Duque de Bragança, e
não a reconstrução actual do mesmo, que achamos que seja possível, mas
com materiais diferentes que nos marquem as diversas épocas construtivas.

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Evolução e Análise Urbanas

Ao contrário do que é usualmente pensado, a primitiva implantação da


que viria a ser a Vila de Barcelos, não se efectuou naquele promontório
rochoso e planalto adjacente, em que hoje a encontramos . As primeiras
ocupações conhecidas dão-se mais para Poente, num vale de férteis ter-
renos agrícolas, na zona em que o Cávado podia ser facilmente atraves-
sado a vau .
O fenómeno do cruzamento é, quase sempre, motivo para uma ocu-
pação mais perene do lugar . Para além da utilidade do atravessamento de
um rio , e dos proveitos que daí poderiam advir, o cruzamento tem um
valor simbólico próprio, pela referenciação do espaço que produz .
A construção da ponte, no local onde ainda hoje se encontra, ajuda
a transferir, e a intensificar, a ocupação urbana da zona de Vila Frescai-
nha, sua localização inicial, para o planalto mais a Nascente, onde já se
encontravam os celeiros, pelo facto de aí os terrenos não serem propícios
à agricultura . A localização da ponte prende-se com factores de carácter
geológico e construtivo. O afloramento rochoso, com cota elevada em am-
bas as margens do rio, permite o lançamento da ponte . A continuação do
veio granítico no interior do leito do Cávado possibilita a colocação dos
apoios intermédios sem grandes dispêndios em fundações .
É novamente o factor cruzamento que influencia a organização do ter-
ritório e decide a mudança da localização da Vila.
A transferência da população foi certamente gradual mas de qualquer
modo ráplda, pois sendo datado da segunda metade do Séc. XIV o início
da construção da ponte, no primeiro quartel da centúria seguinte, possi-
velmente sobre o reinado de D. João, já se inicia a construção do muro
da cerca. Se por um lado se pode ligar esta ordem régia a um certo prestí-
gio do Senhor de Barcelos, o Conde D. Afonso, filho bastardo e mais tarde
legitimado do monarca, por outro lado pode-se sempre depreender que
a ocupação urbana já tinha uma densidade e dimensão razoáveis para jus-
tificar o facto .
Devemos salvaguardar o facto de certos autores darem como anterior
ao tempo do Conde D. Afonso a data da construção das muralhas. No en-
tanto pelo documento do arquivo de Ponte de Lima (nota 1) sabemos que
esta Vila pagava talha ao Conde D. Afonso para a construção das ditas I
muralhas e que continuou pagando em vida do seu filho o Conde D. Fer-
nando, o que não se justificava se as obras já estivessem concluídas no II j
tempo do primeiro.
A muralha era de perímetro relativamente reduzido para a época tardia

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em que foi realizada, com poucas portas e meros postigos, deixando já
de fora zonas urbanizadas, como por exemplo a Fonte de Baixo, onde existia
uma gafaria. Era feita em alvenaria de pedra granítica, utillizando a arga-
massa bastante forte de barro da região que dava uma grande estabilida-
de à construção. Tinha sensivelmente três metros de espessura, e elevava-se
a uma altura variável sendo depois rematada por merlões, como é possí-
ve l constatar, por exemplo, no desenho de Duarte D' Armas.
Sob as três torres da muralha situavam-se as portas da cidade. Na
torre da Cadeia, como mais tarde viria a ser designada pelo facto de pará
aí ter sido transferida essa função, encontrava-se uma das portas da Vila.
Esta torre, de cantaria de granito, encontrava-se encostada à muralha e
era através dela que era possível sair da cidade em direcção a Ponte de
Lima e Prado. Possuía quatro pisos sendo os três últimos apenas fechados
em três dos seus lados, Norte, Nascente e Sul, formando um «U». O quarto
lado seria possivelmente fechado através de uma estrutura em madeira .
Como justificação desta teoria o facto de encontrarmos, nas juntas de união
das pedras do fechamento renascentista à estrutura pré-existente, o con-
torno de mísulas ao nível dos dois pisos superiores . O remate actual desta
torre é da época renascentista, possuindo originalmente merlões semelhan-
tes aos da muralha como nos é dado a observar no desenho do Séc. XV
de Duarte D'armas . O esquema da passagem desta porta é em cotovelo,
formando a entrada e a saída um ângulo recto, o que facilita o controle
das pessoas que penetravam no burgo.
A torre do Vale, onde se situava a porta do mesmo nome, e de que
infelizmente já não existem vestígios era também em forma de «U» nos pi-
sos superiores, como nos mostra o já citado desenho de Duarte D'armas.
As portas eram no entanto em linha recta, sendo esta a saída utilizada por
carros de animais, carroças ou outro equipamento agrícola . Estas duas torres
são coladas, literalmente, à muralha. No local de encosto é possivel sepa-
rar o que é muralha do que é muro da torre, pois existe duplicação da
espessura da parede.
A terceira torre situa-se à saída da já referida ponte, encostada a um
maciço rochoso . Foi aumentanda nos finais do Séc. XV aquando da am-
pliação do Paço por D. Fernando, obras essas nunca concluídas, adquirin-
do assim um aspecto bastante diferente das restantes (nota 2). Ao nível
baixo possuía três portas, estando uma no enfiamento da ponte e as ou-
tras duas colocadas em ângulo recto com a primeira, dando acesso aos
caminhos que penetravam na vila, contornando o maciço rochoso onde
se implantou o Paço .
Existiam ainda dois postigos, ambos situados na zona fronteira ao rio .

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o das vivandeiras junto à referida torre, dava acesso à margem Cávado .
O do pessegal, dava acesso ao poço da vila e era protegido (ver Fig. 1)
por uma barbacã que também protegia o poço situado nas margens do rio.
As muralhas são ainda hoje visíveis em algumas zonas (ver Figs . 2, 3
e 4) . A organização da vila não segue um esquema padrão. Baseia-se so-
bretudo nos caminhos que unem as portas medievais e os postigos. Na
zona de ocupação mais densa, a poente a organização adapta-se a um
esquema de quadrícula irregular, enquanto que a nascente, onde se situa-
vam as propriedades conventuais não existia praticamente ocupação ur-
bana do solo com excepção feita para a rua direita. Existem ainda alguns
edifícios com raiz medieval, como a casa dos Pinheiros, a casa dos Car-
monas, a do Alferes, a casa do Condestável eainda duas casas mais mo-
destas, uma a Nascente do Paço e outra a Norte do Edifício da Câmara,
ele também de raiz medieval, mas com muitas intervenções posteriores,
e a Matriz, de maior antiguidade e importância, situada a Norte do Paço.

A Matriz e o Paço

A matriz de Barcelos é um edifício com intervenções sucessivas ao longo


de mais de dois séculos. Instaurada a colegiada no Séc . XV, 1474, por
pedido de D. Afonso, Conde de Barcelos, já se encontraria possivelmente
terminada a construção do edifício nesta data .
Muitas vezes erradamente se atribuiu a D. Afonso a construção da Matriz
de Barcelos, assim como a ponte, mas este apenas lhe conseguiu o título
de colegiada.
De raiz românica com influência galega, é edificada completamente no
período gótico . Já no Séc . XVI a sua cabeceira é demolida substituindo-a
outra mais curta e de capela mor recta, ao contrário da anterior, semi-
-circular. As capelas laterais d.esta reconstrução teriam sido demolidas ou
profundamente alteradas, pois as que agora lá se encontram são uma re-
constituição dos monumentos nacionais. Sofreu ainda diversas alterações
nos Sécs . XVIII e XIX sendo da centúria de setecentos o longo transepto,
inicialmente simétrico, e actualmente por necessidade do arranjo da praça
em frente, profundamente assimétrico . A divisão entre as naves, que não
é lida na fachada, é uma influência da arquitectura espanhola, assim
como a característica decorativa dos capitéis (ver Figs. 5 e 6).
O Paço e a matriz terão estado ligados por um passadiço segundo des-
crições, e segundo a cópia feita por António Augusto Pereira de uma pin-

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Fig . 1. - Postigo do Pessegal

Fig . 2 - Restos das muralhas, na Rua do Arco

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Fig. 3 - Vista do local da antiga Torre da Ponte

Fig . 4 - Restos das muralhas


na Rua Fernando de Magalhães e Meneses

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Fig . 5 - Capitéis da igreja Matriz

Fig . 6 - Igreja Matriz


Local onde rematava o passadiço

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tura de seu pai (ver Fig. 7). As descrições são demasiado vagas e
unicamente sabemos que o passadiço rematava na torre da matriz pelo
seu lado nascente .

o Paço do Conde de Barcelos

Os Paços dos Duques de Barcelos sofreram destruições sucessivas ao


longo dos séculos. Serviram durante muito tempo de pedreira para as gentes
do Concelho, chegando mesmo um vereador a vender dez mil carros de
pedra. Nos finais do Séc . XIX com os ecos das discussões estrangeiras
sobre o património e a reconstrução dos edifícios antigos, tenta-se repeti-
damente o restauro dos Paços . O dinheiro escasseia, pouco ou nada é
feito. Existem vários projectos mas o único que chegou até nós foi o do
arquitecto Ernest Korrodi (ver Figs. 8 a 12) . Não se sabe ao certo em que
consistiram o projecto de restauro ou de reconstrução, nem o que foi feito
segundo cada um deles. Sabemos, no entanto a partir da análise de foto-
grafias e postais antigos que algumas das portas e das janelas, ou restos
delas, que se encontram actualmente nas ruínas, foram aí postas aquan-
do dessas obras e restauros dos monumentos nacionais. Pela fotografia
de um postal antigo (ver Fig . 13) é possível verificar a não existência de
portas voltadas a norte e a nascente na casa-torre voltada a poente. Essas
portas são, aliás colocadas com uma falta de lógica desconcertante, acar-
retando por vezes a impossibilidade construtiva da estrutura do soalho, como
por exemplo no corpo voltado a norte, onde a abertura das portas é um
impedimento à estrutura e vice-versa. Noutros locais é ainda hoje possível
detectar as cicatrizes nas pedras resultantes da colocação de elementos
que foram encontrados soltos. É o caso da janela superior e da porta da
parede mais a sul (ver Fig. 14), e do arranque da porta de arco, do corpo
nascente, de fabrico recente (ver Fig . 15) .

Descrição Funcional do Paço de Barcelos

O Paço de Barcelos é mandado construir por D. Afonso, filho bastardo


de D. João I e estaria já concluído no primeiro quartel do Séc . XV, como
pode depreender de um documento de meados da centúria que dá por con-
cluídas as obras vinte e cinco anos antes . As obras foram retomadas por
D. Fernando, filho do Conde D. Afonso, que pretendeu ampliar o Paço.
Esta afirmação é justificada em parte pelo documento do arquivo de Ponte

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Fig . 8 - Projecto do Arq. Korrodi

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Fig. 9 - Projecto do Arq. Korrodi

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Fig . 10 - Projecto do Arq. Korrodi

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Fig . 11 - Projecto do Arq. Korrodi

121
de Lima (ver nota 1), em que os habitantes da vila se queixam do facto
de terem de pagar talha para as obras de D. Fernando, e por outro lado
pela descrição dos Paços de 1609 em que se fala de casas torres incom-
pletas para o lado norte (ver nota 3) . D. Fernando teria amp liado real-
mente a torre da ponte dotando-a do seu segundo piso. Pretendeu tam-
bém ampliar os Paços que eram pequenos, assim como pretenderia mui-
tos anos mais tarde D. Jaime, Duque da mesma casa, quando fala em
demolir a matriz para melhor defesa do Paço Ducal. A ampliação nunca
foi concluída e o que foi construído viria a servir repetidamente como pe-
dreira das ordens religiosas, da própria matriz e mesmo de vereadores me-
nos dignos do cargo .
O nosso trabalho de reconstituição insidiu sobre o que sendo cons-
truído foi concluído e utilizado: o Paço Ducal de Dom Afonso . Pretende-
mos relacionar o espaço físico com as funções que aí tiveram lugar para
melhor o caracterizar .

As Funções

O Paço estava dividido em três zonas distintas mas com espaços de


transição . Existia uma zona doméstica ligada à cozinha e afins no rés-do-
-chão . Aí também estariam situadas as dependências dos criados, que mais
não eram do que uma única sala. Existia ainda uma zona social consti-
tuída pelo grande salão de banquetes e uma sala de armas, e uma zona
íntima onde se situavam os quartos dos senhores. A inex istência de corre-
dores na arquit ectura civil medieval implica que os espaços se encadeiem,
servindo assim uns de ante-câmara aos outros, numa sequência que pas-
sa por uma zona de entrada, pela zona social e que culmina na zona ínti-
ma do quarto da dama, que assim se ria bem vigiado. A zona doméstica
situar-se-ia marginalmente a este percurso pois era uma zona quase uni-
camente para os serviçais . A vida naquela altura era muito rude, a maior
parte dos conceitos actuais de comodidade básica não existiam, assim como
a noção de privacidade . Os dosséis das camas eram a única coisa que se-
paravam as pessoas no seu sono, sendo assim um quarto partilhado por
diversas pessoas .
Iniciámos a análise funcional do edifício pelo último aposento a que é
possível ter acesso para então regredir até à entrada .
A câmara da dama encontrava-se no fim deste percurso que atraves-
sava todos os espaços . Era o segundo em dimensão do piso nobre, pois
era aí que a dama e suas aias passariam grande parte do dia, senão a sua

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Fig. 14 - Ruínas do Paço do Conde de Barcelos

Fig . 1 5 - Ruínas do Paço do Conde de Barcelos

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totalidade . É voltado a poente possuindo três janelas com bancos adossa-
dos e um fogão . Seria pois um espaço aprazível e onde a dama receberia
os seus convidados. Se nos parece bizarro o facto de receber «estranhos»
num quarto, devemos notar que diferenciação de funções não era muito
nítida naquela época . Possuímos ainda uma descrição de Fernão Lopes re-
ferente à Rainha D. Leonor Teles em que se aborda este costume da época.

«A rainha estava em sua camara e donas algumas assentadas no es-


trado; e o Conde de Barcelos .. . », o sexto Conde» ... seu irmão, e o Conde
O. Alvaro Peres, e Fernando Afonso de Samora, e Vasco Peres, e Fernan-
do Afonso de Samora, e Vasco Peres de Camões, e outros, estavão em
um banco. E o Conde João Fernandez, que diante estava em cabeceira
deles .. .»
* Fern ão Lopes , in Crónica de D. Fernando

Nesta câmara dormiriam ainda os filhos em idade menor e aias . Recor-


rem os ainda a Fernão Lopes para a descrição dos costumes da época . De-
vemos salvaguardar que a dama em questão, D. Maria, irmã de D. Leonor
Teles, era viúva e parece ocupar a câma ra que pertenceu ao seu marido .

«Ora assi aveio, como suas tristes fadas mandarom, que o infante, com
os seus à porta, e uma mulher que havia de lavar roupa destrancou as por-
tas, e abriu-as de todo . E, assi como foram abertas, logo os do infante su-
biram acima, a uma sala onde jaziam algumas mulheres dormindo [' . .J E
o infante perguntou por O. Maria, a qual jazia na sua camara cerrada, se-
gundo lhe mostraram as que dormiam de fora; e em outra camara trás aque-
la jazia uma ama e camareiras, com um seu filho .»
« (. .. ) porque as que que eram dentro com ela, de sob o leito, se nom
podiam compor, de medo e temor.»
* Id em

A câmara da dama possuía unicamente acesso a partir da câmara do


senhor, que assim poderia exercer forte vigilância sobre os actos desta.
E a deste tinha acesso apenas a partir da ante-câmara . A câmara do se-
nhor, no Pa ço de Barcelos, era voltada a sul e a poente tendo unicamente
aberturas para sul. Era consideravelmente mais pequena do que a câmara
da dama, o que era justificável pela escassa permanência deste nesse es-

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Fig. 16 - Fotografia antiga - Barcelos vista de Sul


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Fig. 17 - Fotografia antiga - Barcelos vista deste Sudoeste

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paço, uma vez que as guerras, a caça, a deslocação às cortes e sobretudo
os banquetes o afastavam constantemente de sua câmara. Possuía um pe-
queno balcão que confrontava com a da torre que estava sobre a ponte,
e era possível que fosse unida a esta por um pequeno passadiço de ma-
deira . Tinha ainda uma janela com bancos adossados, com a mesma pro-
porção das encontradas na câmara da dama e que caracterizam toda a
zona íntima. O acesso a esta câmara fazia-se através de uma ante-câmara,
que servia de quarto de vestir do senhor e onde dormiriam os filhos ado-
lescentes e adultos bem como os escudeiros. Esta câmara tinha duas ja-
nelas com bancos adossados, de proporções e desenho menos cuidados
relativamente às das câmaras dos senhores, e ainda uma janela interior
de comunicação com a câmara da dama, através da qual ela receberia a
comida quando não se deslocasse à sala de banquetes contígua.
Penetrar na ante-câmara era unicamente possível a partir do salão no-
bre, a maior das cinco salas do Paço, com proporções semelhantes aos
salões nobres de Guimarães, Giela ou mesmo da Sempre-Noiva . A sala bas-
tante comprida era o local onde o senhor passava o tempo quando se
encontrava em casa . Era dotada de um fogão de sala, possuía três janelas
com bancos adossados e uma pequena janela que permitia vigiar a entra-
da do Paço no piso inferior. As janelas desta sala são de menores dimen-
sões do que as existentes nas câmaras dos senhores .
No salão nobre entra-se a partir de uma ante-câmara onde se situa a
escada e a saída para o passadiço que leva à matriz. No piso de baixo des-
ta casa-torre, situa-se a sala das armas, e uma das três saídas para o exte-
rior . Um local de distribuição quer na vertical, através da escada, quer na
horizontal, já que é a partir dela que se faz o acesso à zona doméstica,
e ao mesmo tempo à zona de entrada .
A zona doméstica é constituída por três câmaras do piso inferior, sen-
do a cozinha a que se situa mais a sul, onde se encontra um fogão. Late-
ralmente a esta situa-se uma câmara aberta para o exterior que serviria
quer para o armazenamento de lenhas, quer para qualquer actividade de
cozinha ao ar livre. Entre a cozinha e a câmara onde se situa a escada,
encontra-se uma dependência para os servos que aí dormiriam . Esta
câmara tem outra das saídas para o exterior .
A entrada principal do Paço era feita pelo piso inferior do corpo do sa-
lão nobre, através de uma porta de arco, a de maior dimensões do Paço,
encimada por uma janela que vigiava a entrada . Nesta câmara de entrada
situava-se ainda a adega, a salgadeira e talvez o armazém de alguma
carne seca . Seria separada esta zona da de entrada através de uma
«parede» - cortina de pano - como aliás era usual na época .

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Fig . 19 - Maqueta do Paço do Conde de Barcelos (vista do Poente)

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oPaço era assim constituído por dez câmaras, distribuídas por dois
pisos, com um percurso que unia todos os espaços. Seguia-se neste épo-
ca o esquema organizativo enunciado posteriormente por D. Duarte no seu
livro, O Leal Conselheiro .
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«Pera mayor declaraçom de como entendo que devemos aver das cou-
sas sentimento virtuosamente, eu conssiiro no coraçom de cadahOu de nos
cynquo casas, assy ordenadas como custumam senhores. Prymeira, sal-
la, em que entram to doI/os do seu senhorio que omyzyados nom som, e
assy os estrangeiros que a el/a querem víTr. Segunda, camara de paramento,
ou ante-camara, em que custumam estar seus moradores e algOus outros
notavees do reyno. Terceira, camara de dormyr, que os mayores e mais
chegados de casa devem aver entrada. Quarta, trescamara, onde sse cus-
tumam vestir, que pera mais speciaaes pessoas pera el/o perteeecentes
se devem apropriar. Quinta, oratorio, em que os senhores soas algOas ve-
zes cadadia he bem de sse apartarem pera rezar, leer per boas livros, e
penssar em virtuosos cuidados.»
• D. Duarte in O Leal Conselheiro

Justificação das opções tomadas no projecto

Como referências principais para a elaboração do projecto do Paço dos


Condes- Duques de Bragança, utilizámos o desenho de Duarte D'armas de
1505, bem como algumas descrições e fotografias antigas. Utilizámos ainda
como referências mais longínquas a edificação civil portuguesa da mesma
época, e os castelos franceses do Loire .

- Corpo voltado a Norte


A parede poente é chegada ligeiramente para nascente de modo a li-
bertar a janela do corpo poente . Esta parede havia sido edificada aquando
de um dos restauros anteriores. A largura do compartimento é fixada ba-
seada no tamanho da estrutura do pavimento que se pode adivinhar pelas
marcas deixadas na parede, e pela necessidade de colocação de uma es-
cada neste espaço .

- Corpo voltado a Sul

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:lira Fig. 20 - Maqueta do Paço do Conde de Barcelos (vista do Sul)

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Fig. 21 - Maqueta do Paço do Conde de Barcelos (vista do Norte)

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A colocação da chaminé da lareira do corpo sul baseia-se na observa-
ção de fotografias antigas (ver Figs. 16, 17 e 22). O limite sul deste corpo
é-nos dado quer pela relação com a torre sobre a ponte, quer pela propor-
ção da fachada poente. O alçado sul baseia-se no desenho de Duarte D'ar-
mas e em descrições.

- Corpo voltado a Nascente


O alçado sul é baseado ainda no desenho do Duarte D'armas, sendo
as proporções reais encontradas em fotografias antigas.

As dimensões dos corpos incompletos, são ainda confirmadas pela trian-


gulação dos telhados, baseada nas proporções do desenho do Duarte
D'armas.

Nota 1

«5. or vossa alteza ssabera como o duque dom afomsso em seendo com-
de de barçellos ouue Carta per que amtre doyro e minho pagasse taalha
pera as obras de barçellos e por teer Rezom dauer estes dinheiros ordenou
de çerquar o dito luguar de muros e torres o quall ha mais de xxb anos
que he acabado E porem sempre pagarã o dinheiro como quer que se a
obra nõ fezese ataa era de mil e iiijcL anos que o duq de villaviçosa foy
amtre doyro e minho e vyo o rrendimento dos dinheiro se porerom fazer
taaes tres çercas e nõ abastou as obras seerem acabadas cõ o dinheiro
e suor dos pobres homes mas ajmda fizerã h(]us paaços em que vossa mer-
çee e a 5.ra R.a poderam pousar e o duque e sua molher seere bem apou-
sentados. E por lhe pareçer a este duque dom fernando q avya ajuda mester
mais obra mandou desfazer h(]ua das milhores torres e mais hi auia pera
fazer nas ditas suas casas pera que mãdou leuar a dita pedra e fez com
ella muros que parecem mais fortaleza q paaços.
E porque o duque seu paadre quando foy amtre doiro e minho e vyo
tanto dinheiro Reçeebido e tam mail despeso pareçe lhe como home de
booa comçençia q seu paadre tijnha alg(]u Carrego amte deus pollo quall
disse q nam achava outro Remedio pera a desemcarrear senã que vossa
merçee verá per esta sua carta e asy 5.or escrepueo aos outros comçe-
lhos como e esta faz mençãa .s. a ponte de lima e seu termo e vaI devez
nobregua Regalados penela ssouto juraz santo este(]a poderã bem dizer
e amostrarsya que depois de toda a obra feita se pagarã mais de dous mi-

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'a- Ihõoes oa quaaes se despemderom no éj aos ditos Senhores aprouue;pollo
qual S. ar seja vossa merçee pois por cartas asinadas veedes que a obra
he acabada que nos aja vossa alteza por liures de tall paga e famas hees
S.or dereito e merçee e a vossa alteza fique mandardes tornar a fazer a
torre a que a desfez as sua custa E mandes ao dito duque Dom femando
que nom vse ne mãde Constranger pera as ditas obras polia carta éj ouue
delRei vosso padre que deus aja .»

((Traslado de seis capítulos especiais apresentados a el-rei D. João II por Lopo Ma-
Iheiro, procurador do concelho de Ponte de Lima » in «O Arqueólogo Português», Vai. XXI,
n- pág. 8 e 9)
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Nota 2

IlHe esta Villa cercada com hua boa e alta muralha de alvenaria, cerca-
da a toda a volta com ameas quadradas da m .ma fabrica , com seterias
n- no meyo de cada hua; obra muito forte pela qualidade da argamassa. A
'7a volta da muralha tem tres torres m. to altas de quantaria sendo a maior e
JU a mais levantada/ a do Palacio dos Duques da S.ma C. de B., que esta uni-
JS da com a ponte. Tem esta ponte os fundamentos bem perto da margem
a do rio, sobre rochedos muito fortes e subindo até igualar com a ponte e
Jy terrapleno da Villa, tem tres portas, como já dissemos : e daqui se levanta
er em tanta alturaa que excede de sento e cincoenta palmas com duas va-
ro randas de pedra e na ultima tem janelas de todas as partes. No interior
?r- desta torre que de Norte e Sul tem setenta e cinco palmos e de Nascente
u- a Poente trinta a tres esta hum tanque com huma Milagrosa Imagem de
er S. ta Monica esculpida em pedra : as suas portas tem de largo quatorse pal-
ra mos e treze de grosso nas paredes.»
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((Arquivo da Fundação da Casa de Bragança », citado pelo Sr. Arq. o Francisco de Aze-
la
redo no seu lIivro «O Paço dos Condes-Duques de Barcelos»).
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311

e- Nota 3
CJz
er <Item o Duque nosso Sfír. HÜS Paços Dentro na Villa de Barcellos que
Ji- estão sobre a ponte do Rio Cabado que he serventia da Ditta Villa e tem

133
seis casas torres de éj hOa deI/as que he a que cahe sobre a ponte não tem
sobrado nem tecto e he a mais Alta de todas, e pel/a Banda de fora tem
hOa Varanda estreita de Pedra ao Redor deI/a quasi pel/o meo e as Casas
torres que se seguem tras esta tem seus tectos telhados de telhoes gran-
des sem nehO sobrado, e as duas Casas mais que estão Pera Banda da
Rua do Priol serve de quintal e outras que se não acabarão éj estão P. a
ABanda do norte servem de quintal e partem do norte com a igreja Col/e-
giada e do sul, cõ a ditta Ponte e do nassente com o Recio e Rua Chamada
do Priol e do poente Com as Casas terreas Reguengas de B.ar Machado
t.am, por serventia da escada de pedra em meo que vai da Igreja Pera a
ponte e postigo da oitta Vil/a esta obra he Oe Pedra lavrada de scoadria
grande e fermosa .»

Fig . 22 - Paço - vista desde Poente

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Fig. 24 - Projecto de reconstituição do Paço do Conde de Barcelos, no séc. XV


- Plantas

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Fig . 25 - Corte 1

Fig . 26 - Corte 2

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Fig. 27 - Corte 3

Fig. 28 - Corte 4

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Fig , 29 - Alçado Poente

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Fig , 30 - Alçado Norte

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• Fig . 31 - Alçado Sul

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Fig . 32 - Alçado Nascente

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