Você está na página 1de 58

Disciplina: Psicologia da Educação

Autores: Esp. Simone Micos dos Santos


Revisão Conteúdos: M.e Romário Keiti Pizzatto Fugita
Revisão Ortográfica: Jacqueline Morissugui Cardoso
Ano: 2016

Copyright © - É expressamente proibida a reprodução do conteúdo deste material integral


ou de suas páginas em qualquer meio de comunicação sem autorização escrita da equipe
da Assessoria de Marketing da Faculdade São Braz (FSB). O não cumprimento destas
solicitações poderá acarretar em cobrança de direitos autorais.

1
Simone Micos dos Santos

Psicologia da Educação
1ª Edição

2016
Curitiba, PR
Editora São Braz

2
FICHA CATALOGRÁFICA

SANTOS, Simone Micos dos.


Psicologia da Educação / Simone Micos dos Santos. – Curitiba, 2016.
58 p.
Revisão de Conteúdos: Romário Keiti Pizzatto Fugita.

Revisão Ortográfica: Jacqueline Morissugui Cardoso.

Material didático da disciplina de Psicologia da Educação – Faculdade


São Braz (FSB), 2016.
ISBN: 978-85-5475-084-8

3
PALAVRA DA INSTITUIÇÃO

Caro(a) aluno(a),
Seja bem-vindo(a) à Faculdade São Braz!

Nossa faculdade está localizada em Curitiba, na Rua Cláudio Chatagnier,


nº 112, no Bairro Bacacheri, criada e credenciada pela Portaria nº 299 de 27 de
dezembro 2012, oferece cursos de Graduação, Pós-Graduação e Extensão
Universitária.
A Faculdade assume o compromisso com seus alunos, professores e
comunidade de estar sempre sintonizada no objetivo de participar do
desenvolvimento do País e de formar não somente bons profissionais, mas
também brasileiros conscientes de sua cidadania.
Nossos cursos são desenvolvidos por uma equipe multidisciplinar
comprometida com a qualidade do conteúdo oferecido, assim como com as
ferramentas de aprendizagem: interatividades pedagógicas, avaliações, plantão
de dúvidas via telefone, atendimento via internet, emprego de redes sociais, e
grupos de estudos com alunos e tutores, o que proporciona excelente integração
entre professores e estudantes.

Bons estudos e conte sempre conosco!


Faculdade São Braz

4
Apresentação da Disciplina

A disciplina “Psicologia da Educação” pretende tratar dos fatores


históricos do desenvolvimento e da aprendizagem, a concepção de homem, a
natureza infantil, além de esclarecimentos sobre a educação na sociedade
capitalista. Serão também citados alguns mitos da aprendizagem, aspectos
psicológicos da avaliação e implicações dos atos de ensinar e aprender.
Para corroborar o tema, serão utilizadas as teorias dos seguintes grandes
autores: Freud, Skinner, Bandura, Piaget, Rogers e Vygotsky. Através de tais
autores, serão abordadas as principais contribuições sobre os processos de
desenvolvimento e aprendizagem humana, considerando a influência da
psicologia.

Copyright © - É expressamente proibida a reprodução do conteúdo deste material integral


ou de suas páginas em qualquer meio de comunicação sem autorização escrita da equipe
da Assessoria de Marketing da Faculdade São Braz (FSB). O não cumprimento destas
solicitações poderá acarretar em cobrança de direitos autorais.

5
Aula 1 - Introdução à psicologia da educação: aspectos sócio-históricos.

Apresentação da Aula 1

Esta primeira aula abordará os fatores sócio-históricos do


desenvolvimento e da aprendizagem, a concepção de homem e a educação nas
sociedades capitalistas, diferenças individuais e a ideologia adaptacionista. Esta
contextualização inicial é fundamental para compreender o restante da matéria

1. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

Converse Com Seus Colegas


De que forma ocorreu a evolução da aprendizagem e das
escolas ao longo dos anos? Como e por que surgiu o ensino
público obrigatório? Qual a influência do capitalismo na
escola atual? Como encaramos os aspectos singulares de
nossos alunos? Essas são perguntas importantes que
nortearão nosso trabalho nesta aula

Prisioneiros acorrentados no interior de uma caverna conseguem olhar


somente uma parede iluminada por uma fogueira, em que ficam
visíveis as sombras projetadas do mundo fora da caverna. Essas
sombras são tudo o que os prisioneiros enxergaram a vida inteira.
Imagine que um destes prisioneiros sai das amarras que o prendem e
é obrigado a sair do interior da caverna. Ele veria que as sombras eram
na verdade seres reais, corpóreos. Perceberia que passou a vida
inteira julgando sombras e ilusões, desconhecendo a verdade e que se
voltasse e contasse a seus companheiros sobre o que vira, seria
julgado como louco, irracional... (Resumo do trecho de A caverna-
Platão).

A sociedade ateniense, conhecida por sua grande sabedoria e cultura,


apresentava uma estrutura escolar muito diferente da atual, composta em sua
maioria de acompanhamentos pedagógicos particulares e não obrigatórios,
embora a cultura social buscava oferecer pelo menos a educação básica mesmo
nas classes mais baixas da sociedade. Concluída a educação básicas, os jovens
de Atenas poderiam se desenvolver na filosofia com a escola de Platão, Sócrates
e Aristóteles, que promovia um espaço de reflexão, conversação e
experimentação (PANOS, 2004). Já em Esparta, conhecida pela força e bravura

6
de seus soldados, as crianças eram educadas desde cedo: os meninos
desenvolviam seus atributos físicos e técnicas marciais e as meninas para serem
boas esposas e mães espartanas (SOUSA, s/d.).
A educação infantil surgiu nas sociedades antigas centrada no núcleo
familiar, mas ela era fundamentalmente embasada no contexto funcional, assim
era diferenciada por função social, com atribuições específicas para a classe
dominante e para a classe subalterna (COSTA; SANTA BÁRBARA, 2008). A
educação era vista como formação individual na visão grega e como formação
moral para os romanos, com a inserção nas escolas para as famílias com
condições de prover uma educação mais formal para os seus filhos. A diferença
das classes sociais dessa época geralmente determinava até que momento a
criança frequentava a escola antes de ser inserida na sociedade (BRANDÃO,
1981)
No período medieval, os líderes cristãos foram os grandes detentores da
transmissão da educação, ela apresentava duas modalidades bem definidas
para públicos distintos, uma era destinada a futuros monges e sacerdotes e outra
para a plebe. Além dessa educação, outra educação também era oferecida para
a classe nobre da sociedade, em que havia claras diferenças entre a educação
masculina e a feminina pelos próprios costumes e funções que os nobres
assumiam – mulheres eventualmente passavam a viver com outra família após
o matrimônio e homens se associavam com a carreira militar e política. Nessa
época já foi possível observar uma tendência educacional, que era a de acalmar
e estimular um comportamento conformista com a realidade medieval. (COSTA;
SANTA BÁRBARA, 2008).
O papel da escola começa a ser discutido com mais fervor na Idade
Moderna, nesta época houve melhoria nos espaços escolares, discussões sobre
currículos e fases de ensino, mas a questão da divisão de gêneros ainda
permanecia forte, tendo o homem uma supremacia referente à mulher. Foi no
século XVIII que a educação sofreu grande reviravolta.
A educação pública, gratuita e obrigatória foi criada no século XVIII
através dos líderes do despotismo esclarecido, uma forma reformista de
governar, predominante principalmente no leste da Europa – Prússia, Rússia e
Áustria, e que tinha por objetivo acelerar o crescimento de alguns países,

7
aumentando seu poder e prestígio. Era pautado por ideias iluministas e prometia
trazer felicidade ao povo.
Foi a humilhante a revolta que o rei da Prússia sofreu, quando seus
soldados profissionais foram derrotados por um exército voluntário de
agricultores comandados por Napoleão Bonaparte, que o fez estabelecer o
ensino obrigatório em nível nacional. Para o rei, ao forçar estas crianças a irem
para a escola, estaria formando adultos leais ao Estado. Os pais não tinham
outra escolha senão encaminhar seus filhos, correndo o risco de receber
soldados armados para levá-los até a escola quando os pais não o faziam,
alguns eram até mesmo presos ou mortos.
A ideia do rei consistia em formar soldados que não questionassem
ordens e fizessem imediatamente o que lhes fosse exigido. As crianças não
podiam fazer perguntas ou questionar os portadores da autoridade, no caso, os
professores. Como resultado, todas as crianças teriam a mesma opinião sobre
as matérias dadas – vale considerar, que eram as matérias consideradas
importantes pelo estado.

Para Refletir
Você enxerga alguma semelhança entre esse sistema de
educação e o nosso sistema atual de educação pública?
Resta alguma herança desta fase?

Obviamente, o rei não queria que seus descendentes fossem sujeitos a


essa educação. Não poderiam eles ser cegos obedientes, deveriam ser criativos
e independentes. Para tal fim, criou um segundo sistema, que ficou conhecido
como a “verdadeira escola” (enquanto que a outra era a “escola do povo”).
Participavam dela também os filhos de comerciantes e funcionários públicos. Um
total de 93% de crianças participava da escola do povo, enquanto que 7%
participavam da verdadeira escola.
Observando o modelo proposto, o restante da Europa e os povos da
América copiaram a ideia do ensino obrigatório, levantando a bandeira de
igualdade social e de “escola para todos”, mas a verdadeira busca era por um

8
modelo elitista e de disputa de classes, que criasse trabalhadores cada vez mais
alienados na ilusão de que havia alguma igualdade social.

Para Refletir
Com a chegada dos portugueses ao Brasil em 1500, os
índios foram submetidos a aulas com os padres de origem
portuguesa. Organizaram diversas revoltas, pois se viram
impedidos de seguir sua própria fé e seus próprios costumes.
O conflito cultural entre portugueses e índios era tão abismal
que houve uma tentativa de doutrinação, como se um
conhecimento diferente de outro representasse um erro, uma
estupidez. Quantas vezes na prática educacional somos
pouco tolerantes com a diferença cultural e tentamos impor
nossos padrões ao invés de nos permitir aceitar e respeitar
um conhecimento diferente do nosso?

Napoleão, inimigo declarado dos déspotas, alegou pouco tempo depois


que também formaria um corpo docente para poder dirigir a opinião dos
franceses. A escola nasceu como uma necessidade para os trabalhadores, mas
não para auxiliá-los e sim para criar operários melhores e para que os
trabalhadores pudessem ter onde deixar seus filhos enquanto trabalhavam –
ideia muito parecida com a de alguns críticos da atualidade de que a escola
aparenta, muitas vezes, ser só um estacionamento de crianças.
O ensino passou a ser obrigatório na grande maioria dos países e,
portanto, começou a receber muitos estudantes. Obviamente, não havia uma
estrutura adequada para receber tantos alunos, já que sempre foi uma instituição
elitista, e por esse motivo essa época foi marcada por grande evasão escolar e
dificuldades de aprendizagem e com o passar do tempo, a escola começou a
acumular as mais variadas funções sociais, além da transmissão de
conhecimento, cumpria seu papel na socialização, nos ritos de passagem –
como o vestibular – e mais tarde, com a entrada da mulher no mercado de
trabalho, as crianças precisavam ser cuidadas por alguém e isto se tornou papel
da escola. Apesar de ser reconhecida a importância da escola na questão da
socialização e transmissão de regras e leis, para além da transmissão de
conhecimento, é importante demarcar este ponto das funções acumuladas pela
escola, pois será importante mais a frente.

9
Refletindo sobre a prática pedagógica, principalmente em seu início, mas
não somente nele, é possível pensar que a pedagogia exibia um caráter
missionário, em que os princípios religiosos correspondiam a uma formação de
caráter, como se fosse este o fim último da educação. Ao criar sua teoria, Freud
não era livre dessas ideias, mas também não era capturado por elas, por isso
alterou completamente a visão da criança vigente na época e pensou a educação
de uma forma que não busca adaptação e modelação, porque a pulsão escapa
do domínio do que é controlável.

Vocabulario
Pulsão - Representante psíquico que liga os estímulos
surgidos no corpo até a atividade mental, exigindo que a
mente trabalhe conforme a função do corpo.

1.1. Concepções de homem

Para a filosofia, existem três principais concepções de homem. Elas


apresentam contradições entre si, pois a natureza humana é de fato muito
complexa. O homem pode ser analisado através das mais diversas dimensões.
A concepção de homem é muito ampla e por isso será abordado o assunto de
forma resumida nesta aula.
A concepção metafísica vê o homem como um modelo infindável e
inalterável. Teve grande influência das ideias de Platão e foi amplamente
difundida na idade média, permanece forte no pensamento religioso e teológico,
por exemplo. Essa concepção acredita que existe um modelo de homem e cada
um seria a transformação deste modelo.
A concepção naturalista, configurada na Idade moderna e influenciada
pelo pensamento de Descartes e Locke, entende o ser humano como um ser
dual, ou seja, composto por uma alma e um corpo biológico. O ser humano seria
então alguém capaz de constituir seu próprio destino, sendo autônomo e
influenciado pelas determinações naturais.

10
Já a concepção sócio-histórica, enxerga o homem como um processo,
considerando sua existência pessoal e concreta. O homem é um ser marcado
pela singularidade e está apto para realizar diversas atividades. É um processo
inacabado, não surge pronto. Se torna um ser social através da convivência.
É importante compreender cada uma dessas concepções de homem e
fazer uma interlocução entre elas. Nas aulas, será abordado o homem numa
perspectiva mais voltada para a concepção sócio-histórica, ou seja, de um
homem que somente se torna um ser social através da convivência com o meio
que convive.

1.2. O capitalismo e a educação

Fonte: http://www.sinpronorte.org.br/files/2015/07/Educa%C3%A7%C3%A3o-n%C3%A3o-
%C3%A9-mercadoria-1024x724.jpg

Por viver em uma sociedade capitalista, a educação é também uma


atividade determinada por tal lógica. Com a mudança para esse sistema (como
seria em qualquer outro), mudam as relações sociais de produção, a organização
da sociedade e a concepção de homem, trabalho e educação. As escolas e
universidades acompanham a crescente necessidade de acúmulo de capital e
refletem as especificidades do capitalismo. Dessa forma, é importante entender
como a educação se encaixa ao modelo capitalista.
A educação proveniente do capitalismo é uma educação classista, vem
das classes dominantes e são poucas as esperanças de que seja igual para

11
todos em um futuro breve, pelo simples motivo da diferença de estilo de vida dos
burgueses e dos trabalhadores, já que existe uma relação de dominação do
primeiro pelo segundo em que é de interesse da burguesia perpetuar a
desigualdade de ensino. Os poucos que se adaptam ao modelo escolar são os
escolhidos para ingressar na universidade e mais tarde, fazer parte da elite
dominante. A educação capitalista procura gerar mão de obra para o mercado,
transmitir valores burgueses e até mesmo legitimar a desigualdade de classes,
ou seja, convence a classe trabalhadora de que a desigualdade educacional é
apenas uma desigualdade natural, sendo assim, seria inútil lutar contra ela.
A sociedade primitiva se fundamentava na propriedade comum e ao
passar a propriedade privada, o que rege as relações é o poder do homem, que
se impõe aos demais. No capitalismo, o homem não é aquele que se humaniza
na relação com outros homens, mas é aquele que vende sua força ao trabalho
e ao fazer isso transforma-se em fator de produção. A partir deste ponto de vista,
a educação tem a finalidade de habilitar ideologicamente e socialmente os
trabalhadores para servir ao mundo do trabalho, ou seja, para responder às
demandas do capital.
A perspectiva escolar não precisaria ser salvacionista, mas em um nível
ideal seria aquela que concebesse o homem em sua totalidade, como um ser
biopsicossocial e não somente como mais um número, despedaçando sua
singularidade. O projeto educacional precisa estar amparado na realidade, na
transformação, na construção.
Tudo aquilo que é criado pelo homem só se legitima para cumprir, frente
à sociedade, a finalidade para a qual foi criado. Visto como a escola foi criada e
como se sustenta até hoje se torna mais claro entender porque é tão difícil mudar
o sistema escolar, que já está tão arraigado. Mas se a escola foi criada para
formar sujeitos sociais, precisa de um espaço coerente que possibilite a
socialização e a construção de conhecimento, tendo em vista que o
conhecimento não é algo dado a priori e sim algo em constante processo de
construção. Para Durkheim a escola deveria ser um espaço público, a serviço de
toda a sociedade, que garantisse a comunhão de ideias e o fortalecimento da
coletividade e comunidade.
No cotidiano, se reflete pouco sobre a finalidade da escola, a natureza
infantil, as relações criança-escola-sociedade e sobre o processo de socializa-

12
ção. A falta de análise crítica neste sentido oferece uma visão abstrata da criança
e da escola. A idealização da infância e da função da escola, desconsiderada
em seu caráter histórico e social, reduz-se a: integração de uma criança abstrata
em um processo de escolarização neutro, e enquanto o debate permanecer no
nível superficial, pouco será possível fazer pelas crianças e escolas.
A função da escola é de promover a adaptação do indivíduo na sociedade,
ela é uma agência socializadora de uma sociedade que se afirma democrática,
mas se a socialização e integração não são viáveis a responsabilidade será
sempre do indivíduo, inadaptado. A escola não é neutra, ela atua, muitas vezes,
como instrumento de dominação, funcionando como reprodutora das classes
sociais, através de processos de seleção e exclusão de alunos e ao mesmo
tempo da dissimulação desses processos.
A escola acaba por ser um mediador do conflito entre as classes,
reproduzindo internamente o confronto entre interesses opostos, dessa forma, a
escola que atende a finalidade dos dominadores pode também representar um
espaço dinâmico para os dominados. O acesso à escola tem sido cada vez mais
reivindicação frequente das classes populares, mas infelizmente, a escola tem
respondido com a experiência do fracasso e da marginalidade, cuja
responsabilidade é novamente atribuída a criança a e ao seu meio social. A
escola deveria ser espaço de reapropriação do saber que foi alienado pela
dominação de classes.
No capitalismo, a escola impõe uma cultura e a considera legítima,
tornando ilegítima qualquer outra manifestação, negando muitos conteúdos e
valores e propõe novos valores de socialização. É preciso repensar os processos
de metodologia de ensino, de sedução e coação, veiculados pelos integrantes
da escola.

1.3. O Mal-Estar na Educação

Uma das principais obras de Freud se chama O mal-estar na civilização e


trata das dificuldades encontradas na modernização da sociedade, e é disso que
este capítulo irá tratar.
Foucault estabelece a diferença entre poder, vigilância e educação em
seus escritos. O autor coloca a escola como sendo um meio de controle social e

13
a conecta com o cárcere, o manicômio e o reformatório. Atualmente, não são
mais utilizados os castigos físicos para controlar o aprendizado, mas existe uma
repressão muito grande, que ocorre no nível psicológico, com a intenção de criar
massas produtivas. Dessa forma, é importante frisar que o professor, mesmo
com grandiosas e boas intenções, também é formado por esse sistema de
ensino, e por isto sua prática precisa ser sempre repensada, pois é muito fácil
“se deixar levar” por estas ilusões societárias.
Foucault cita ainda que em cada época é possível identificar que há um
grupo dominante que tem o poder da educação e o utiliza de acordo com seus
próprios interesses. Por outro lado, o que apresenta certa esperança e otimismo
é que apesar dos grupos dominantes acreditarem exercer vigilância total sobre
o povo, pois pensam que controlam a maneira de agir destes, o que eles não
sabem – ou fingem não saber – e que é impossível controlar cada indivíduo. A
esperança consiste em que cada indivíduo possa se livrar desta “neurose
coletiva”, como chamaria Freud, para sua própria “neurose individual”, ou seja,
refletir sobre si e a sociedade a partir de si mesmo.
Para Freud em “Psicologia de grupo e análise do eu” o pensamento crítico
pode ser formado somente individualmente e até mesmo um sujeito muito culto
pode se transformar em um bárbaro quando inserido em um grupo. Pois grandes
grupos têm esta característica: para permitir que determinado indivíduo pertença
a este grupo, ele não deve questionar nada e nem inserir nenhum
questionamento que exija mudança de postura, senão será excluído do grupo.

Os grupos nunca ansiaram pela verdade. Exigem ilusões e não podem


passar sem elas. Constantemente dão ao que é irreal precedência
sobre o real; são quase tão intensamente influenciados pelo que é falso
quanto pelo que é verdadeiro. Possuem tendência evidente a não
distinguir entre as duas coisas. (FREUD, 1997b)

Mas para que, um dia, o indivíduo seja capaz de pensar por si próprio, é
preciso que antes haja um outro, que o conduza ao raciocínio crítico, pois assim
como é necessário que a mãe cuide do bebê nos primeiros anos para que depois
ele possa cuidar-se sozinho, o indivíduo também precise de um outro que o
indique o caminho da aprendizagem.

14
Vídeo
O vídeo a seguir de título Experimento prova que a maioria
das pessoas são ‘ovelhas’, mostra um experimento a respeito
do comportamento das pessoas, evidenciando que alguns
comportamentos são adquiridos para que a pessoa se sinta
participante de um grupo.
Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=MubYTaMK83E

Além das formações de massa, que inibem a capacidade reflexiva, a


sociedade está abolindo a possibilidade de reflexão dos jovens também de
outras formas, como: pelo imperativo do abandono, pelo excesso de competição,
pelo ritmo alucinado de vida, pelo culto ao corpo e a juventude, pela banalização
das tragédias humanas e pelas formas sutis de violência que se fazem cada vez
mais presentes.
A sociedade capitalista caminha de uma forma em que o sujeito abandona
seu próprio desejo, pois a ilusão cultural estabelece que o mais importante é
trabalhar e consumir. Entre trabalho e consumo pouco tempo resta para repensar
práticas, desejos e a própria condição enquanto seres humanos. O excesso de
produção perde lugar para a cultura e o conhecimento. E as escolas acabam por
criar indivíduos que são quase como máquinas e que somente dão continuidade
ao seu trabalho. Ao passo que alguns indivíduos morrem outros já estão
preparados para tomar seu lugar e substitui-los, como em uma fábrica de
produção em série, a educação convencional não promove indivíduos pensantes
e reflexivos, mas sim, alienados e acomodados. Dessa forma, os educandos são
sujeitos passivos, parecem mais um mero produto de substituição.
Paulo Freire acredita que a sectarização transforma a realidade em uma
falsa realidade, que não pode ser mudada. O sectário está cego, não percebe
ou não pode perceber a dinâmica da realidade ou se percebe, a percebe
equivocadamente, até sua dialética é domesticada.

15
Vocabulario
Sectarização – termo abordado por Paulo Freire que denota
um modo de pensar e sua disseminação de um ponto de
vista, algumas vezes exagerado, intolerante, intransigente e
com uma estreita visão de uma ampla realidade.

O autor acredita que a vivência de opressão daqueles que foram


oprimidos, tendem a torná-los também agentes de opressão dos outros, muitas
vezes o oprimido sonha em se tornar opressor, como que, buscando um senso
de justiça. Mas a humanização e libertação só aconteceria se aqueles que foram
oprimidos – que cedo ou tarde, irão lutar contra quem os oprimiu – não
buscassem ser idealistamente opressores, mas sim restaurar a humanidade em
ambos (pois o opressor também foi desumanizado).

“Educar não é um ato de consumir ideias, mas sim de criá-las e


recriá-las” (Paulo Freire)

Para Refletir
Um grande problema apontado por Freire reside no fato de
que como os oprimidos, que hospedam em si o opressor,
poderão participar da elaboração de uma pedagogia de
libertação?
Somente ao descobrirem esta faceta em si poderão contribuir
verdadeiramente para uma pedagogia libertadora, enquanto
viverem na dualidade será impossível fazê-lo.

Aqueles submetidos à opressão buscam um novo modelo de homem, mas


este novo homem não é o resultado da superação da contradição entre oprimido-
opressor, que leva à libertação, para eles o novo homem são eles mesmo,
tornando-se opressores dos outros. A aderência ao opressor não os possibilita
a consciência de si como pessoa, nem a consciência da classe oprimida.
Pretendem fazer da revolução a sua revolução privada. Descobrir-se na posição

16
de opressor não é somente se solidarizar com os oprimidos, assumindo uma
posição de falsa generosidade, não é prestar somente assistência, pois esta
aprisiona o povo ainda numa posição de dependência. É preciso uma atitude de
buscar a libertação juntos aos oprimidos, ajudar a desenvolver o pensamento
crítico na massa.
Os seres humanos são, em sua própria natureza, seres duais,
contraditórios e divididos, e precisa encarar essa situação para que, enfim, seja
possível agir de forma coerente. Somente os oprimidos, podem se libertar e
libertar seus opressores, pois esses, enquanto classe que oprime, nem libertam,
nem se libertam.

Amplie Seus Estudos


SUGESTÃO DE LEITURA
Leia a obra Pedagogia do Oprimido, (Paulo
Freire). Nesta obra, Paulo Freire aborda
questões sobre a relação entre oprimido e o
opressor, além de questões sobre a
pedagogia da libertação.

Para Refletir
A escola se tornou uma desumanizada fábrica de
consumidores obedientes. As crianças se tornaram apenas
números, qualificações e estatísticas. Os grupos homogê-
neos e com conhecimentos iguais. O objetivo proposto é
aquele que se pode medir, quantificar e observar. E a lógica
é a de comparar as crianças frente a uma escala. Mas o que
se pode comparar, se cada indivíduo é singular?

Vídeo
Assista ao documentário A Educação está Proibida (2012) que
mostra muitos fatos e comentários importantes de
pesquisadores e pedagogos a respeito da formação que é
oferecida atualmente nas escolas.
Trailer disponível em: https://youtu.be/F6wEPUzeZGE

17
Para pensar a educação hoje, é necessário, antes de qualquer coisa,
saber de onde a educação surgiu e como se constituiu. Este panorama geral,
tem como intuito pensar os fenômenos da educação e aprendizagem de maneira
mais crítica e consciente e permite seguir adiante com esse estudo com mais
segurança e conhecimentos.

Resumo da Aula

Nesta aula foi apresentado que há várias maneiras de conceituar o


“Homem”, no sentido de ser humano que aprende e interage com seus
semelhantes, e que influências que o modelo de sociedade, o capitalista, teve
nos processos de ensino-aprendizagem. Além disso, foi apresentado um breve
histórico dos processos educacionais desde a atinguidade.

Atividade de Aprendizagem
Como você correlacionaria o mito da caverna de Platão com o
que aprendeu sobre a origem da escola e sua relação com a
lógica capitalista?

Aula 2 – Primeiras considerações sobre a criança e a aprendizagem

Apresentação da aula 2

Esta aula trará as primeiras considerações sobre a natureza da criança e


do comportamento infantil, discorrerá também sobre alguns dos mitos da
aprendizagem, além de casos que exemplificarão a prática escolar.
A fim de introduzir as contribuições dos grandes autores da psicologia da
educação, como tema desta aula, será iniciado o estudo sobre a teoria
piagetiana.

18
2. NATUREZA INFANTIL

A ideia de infância como se tem hoje surgiu juntamente com a educação


escolar, e isto não é uma mera coincidência. O avanço da educação resultou na
reorganização das relações sociais, foi neste ponto que a família passou a ter a
estrutura e função que de hoje, por conta da mudança da sociedade industrial.
Na idade média e início da idade moderna a criança era cuidada e criada pelos
pais, mas ainda não estava presente o sentimento de família unida
emocionalmente.
O período da infância se limitava até a idade em que esta necessitava dos
cuidados físicos para sua sobrevivência. Logo que isto estivesse assegurado,
Ariès (1960) acredita que acontecia aproximadamente aos 07 anos, a criança
passava a conviver diretamente com os adultos, compartilhando trabalhos e
jogos, em todos os momentos. A criança aprendia com os mais velhos, portanto,
a socialização acontecia no convívio com a sociedade de uma forma geral e não
apenas com outras crianças. Misturavam-se idades e condições sociais
diferentes, não havendo espaço para intimidade e privacidade. Quem
estabeleceu a intimidade, a vida privada e o sentimento de união afetiva entre o
casal e entre os pais e filhos foi a família moderna.
A aprendizagem social passa então, a se realizar através do convívio
escolar e não mais do convívio direto com os adultos, a partir do século XVII. Os
pais passaram e enviar seus filhos à escola para se adaptar à formação para a
vida, que era proclamada pelos reformadores moralistas da época.
Essas transformações ocorreram primeiramente nas famílias burguesas,
já a alta nobreza e o restante do povo permaneceu mais tempo nos antigos
padrões. Para Ariès (1960) o sentimento de classe social também surge neste
momento, pois antes as crianças ricas frequentavam as escolas de caridade e já
no século XVIII passaram a frequentar colégios somente para burgueses.
A escola passou a funcionar como uma passagem do mundo infantil ao
mundo adulto, levando em conta o que é esperado de seus membros para a
manutenção de interesses. A ideia de escola não faria sentido na idade medieval
já que o espaço entre crianças e adultos era compartilhado. A necessidade de
integração da criança surgiu com sua exclusão do mundo adulto.

19
A noção atual de infância foi criada pela sociedade capitalista e pela
burguesia, contudo a ideia de infância que chega até os dias de hoje não se
fundamenta em sua história real, ela aparece como se para essa forma de
pensar a criança fosse eterna, natural e universal, o que mostra uma dimensão
social dissimulada em relação à criança, ao adulto e à sociedade.
Sendo afastada do convívio direto com os adultos, a criança perdeu a
possibilidade de opinar sobre decisões que lhe diziam respeito, foi excluída do
processo de produção, das festas e jogos. Restou a ela a condição da
consumidora de bens e portadora de ideias produzidas exclusivamente pelos
adultos.
Alguns autores, ao analisarem a imagem da criança moderna, refletem
que ela é definida pelo contraditório: boa e má, perfeita e imperfeita,
independente e dependente, e esta dupla identidade infantil é explicada pela
própria natureza da criança. Ela é naturalmente má e boa por estar desprovida
de meios para enfrentar o mundo. A ideia da infância como um fator natural e
não social, justifica as concepções comuns sobre a criança e a infância e
dissimula sua desigualdade social. Apesar de a ideia da infância ser uma
representação social, a criança tende a internalizar este modelo, tornando-o
realidade, ao mesmo tempo em que se rebela contra os preceitos naturais que
negam sua condição social. Para Charlot (2013), a criança é reflexo do que o
adulto e a sociedade querem que ela seja e temem que ela se torne.

Amplie Seus Estudos


SUGESTÃO DE LEITURA
Leia a obra “História social da criança e
da família” (Phillipe Ariès). A obra aborda
a história da infância na sociedade
ocidental e qual foi sua importância e
relevância ao longo tempo.

A dificuldade em falar da natureza infantil reside no fato de que pressupõe


a igualdade de todas as crianças, a idealização de uma criança abstrata. Nossa
questão não é entender como a criança socializa, mas como a sociedade
socializa a criança.

20
2.1. Mitos da aprendizagem

Como visto na aula anterior, ao tornar o ensino público, obrigatório e


gratuito a taxa de evasão escolar aumentou grandemente por conta da precária
estrutura da escola, que mudou rapidamente e radicalmente, não havendo
tempo necessário para adaptações. Ainda hoje, as altas taxas de evasão e
reprovação persistem e é muito lentamente que algo tem sido mudado neste
sentido e somente em alguns casos específicos.
Um mito é uma construção que permite exprimir um quadro imaginário,
aparentemente coerente à primeira vista, mas que não possui nenhuma raiz
racional em sua profundidade. Quando não se dispõe de informações claras e
precisas é comum surgirem racionalizações intelectuais que tentem dar conta de
justificar aquilo que permanece sem explicação. Os mitos respondem de forma
provisória a tentativa de explicar a realidade e apesar de causarem certa
tranquilidade, isso só acontece porque eximem a sociedade de preocupações e
tiram a responsabilidade dela, por isso é importante desmistificar algumas
questões, já que a falta de explicação coerente pode levar a erros e preconceitos.
Há um tempo, era comum acreditar que se uma criança não se saísse
bem na escola isso se devia ao fato de que ela própria estava desadaptada ou
não possuía uma capacidade intelectual adequada. Hoje, é possível perceber
que vários fatores podem atuar de forma a condicionar a dificuldade escolar de
uma criança e que a resposta para isso é bem mais complexa, pois resulta de
vivências pessoais, sociais, biológicas, fisiológicas e emocionais, e não somente
escolares como poderia ser pensado a algum tempo atrás. As condições para a
educabilidade de uma criança decorrem então das características do processo
de desenvolvimento da criança, assim como as características das práticas
pedagógicas que são ofertadas a elas.
Existe outro mito presente de que a criança carente não aprende. Algo do
senso comum, apoiado na sociedade desigual, paternalista e assistencialista,
desacredita nessa criança. Obviamente, as condições de vida das crianças que
frequentam a escola pública são extremamente precárias e podem estar
associadas a outros elementos desfavoráveis da educação, como a falta de
auxílio, de local para estudar, entre outros. Conhecer a realidade da criança deve
ser o ponto de partida para formar uma prática pedagógica adequada, pois

21
muitas escolas usam esse fator para eximir sua responsabilidade no fracasso
escolar da criança carente.

Vídeo
Assista ao filme “Preciosa” de 2012, dirigido por Lee Daniels.
Preciosa é uma menina de 16 anos, expulsa da escola no
início da segunda gestação, seu ambiente familiar possui
várias características desfavoráveis. Passa a frequentar uma
escola alternativa para garotas com problemas sociais e
encontra neste espaço, apoio social.
Trailer disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=AnrxEqzI81gr

Mesmo frisando que a escola não é o único fator de mudança social é


inegável o importante papel que ela tem na socialização do saber e formação de
uma sociedade em que todos possam exercer sua função de forma crítica e
participativa.
Não é suficiente sentir “pena” da criança carente na escola, mas é preciso
fazer com que este sentimento seja substituído por uma implicação a fim de que
esta criança possa portar o direito de se desenvolver como as outras, mesmo
que não seja no nível estipulado “ideal” – já que isso é muito subjetivo.

Gostaria de expor aqui um caso de minha experiência pessoal. Fui


chamada por uma escola pública para ministrar alguns encontros sobre
Orientação Profissional aos alunos do terceiro ano do ensino médio.
Ao chegar à sala fui imediatamente avisada de que os alunos não
respeitavam ninguém e de que o aluno Y. era o pior de todos.
Segundos antes de iniciar minha fala, o professor voltou-se para mim
e disse “Boa sorte com esses marginais”, deu as costas e me deixou
sozinha com eles. Ignorei o comentário e apesar de certa dificuldade
nos primeiros 15 minutos para conseguir a atenção da turma, fui aos
poucos incluindo eles em minha explicação, fazendo com que
participassem. Logo depois, a sala permaneceu atenta ao que eu dizia
e perguntava fervorosamente, a aula havia se tornado um incrível
debate. Os alunos me contaram angústias, medos e tiraram dúvidas.
Ao final da aula o aluno Y. me abordou perguntando se eu atendia
como psicóloga na clínica particular e se poderia dar a ele meu cartão,
pois dizia ter algumas dificuldades de aprendizagem e seria bom
procurar ajuda. Fonte: A autora (2016).

Obviamente, o tempo com esta turma foi pequeno e não é comparativo ao


tempo de um ano que o professor passa com eles, mas a questão é que, muitas
vezes, é mais fácil se deixar levar pelo estereótipo de “aluno que nunca vai

22
aprender”. A experiência mostra que o que muitos alunos precisam é somente,
ter voz, poder serem ouvidos.

Para Refletir
Certa vez, ouvi uma professora contando que determinada
aluna passou a aula inteira chorando, quando perguntei por
que ela estava chorando, a professora ficou atônita, como se
minha pergunta fosse absurda, e logo tratou de responder
“não sei, deve ter brigado com o namorado, ou descobriu que
estava grávida, sei lá” (sic), comentário que desencadeou
risada entre outras professoras.
Como podemos esperar uma atitude humana e responsável
de nossos alunos se, muitas vezes, não oferecemos o
mesmo a eles?

Muitas crianças e jovens com dificuldades de aprendizagem acreditam


que nunca serão capazes de aprender apesar de seus esforços, acreditam que
irão fracassar, mas é certo que qualquer sujeito tem potencial de aprender, o que
se diferencia são os estilos e ritmos de aprendizagem e é por isso que existem
diferentes recursos e estratégias pedagógicas para cada necessidade
específica.
Há um conto que relaciona o sistema de ensino com uma plantação.
Aquele que cultiva tem carinho pela sua planta, mas deve pacientemente esperar
que ela cresça sozinha, em seu tempo, cabe a ele oferecer somente as
condições para que isto aconteça. Se ele, na ânsia de que ela atinja a altura que
ele deseja puxar a planta para adiantar seu crescimento, acabará matando sua
primorosa plantinha. O mesmo acontece na educação, o professor deve
aguardar pacientemente que seja o tempo de aprendizagem, ao adiantar o
processo de cultivo do conhecimento, então se sacrificará algo muito importante
nos alunos: a curiosidade e vontade de aprender, e sem ela não existe ensino
que seja eficaz. As crianças têm em si grande potencial para explorar novos
mundos e aprender, mas o que se constata é que elas estão cada vez mais
cansadas e desmotivadas. Quando perguntam ao seu professor qual a utilização
prática de determinado conhecimento, terão de se contentar em ouvir, em muitos
casos, que “Ah, um dia você vai usar isto! ”.

23
A manifestação da diversidade humana tem sido entendida como
deficiência ou desajustamento diante de um padrão esperado. Algumas escolas
têm contribuído para a vulnerabilidade social, quando poderia, na verdade, ser
fonte de criação de mecanismos protetores para aqueles que têm dificuldades.

Converse Com Seus Colegas


Cada vez mais cresce o número de crianças levadas para os
psiquiatras, encaminhadas por serem hiperativas e
desatentas, recebem rótulos de déficit de atenção e de
hiperatividade. Quantas destas crianças estão apenas
agindo como crianças e nós, adultos, é que não sabemos –
ou pior, não queremos lidar com isso?

Há uma grande preocupação em ajustar as crianças a um padrão, para


que seja mais fácil lidar com elas, mais do que em procurar atender e
compreender cada aluno como um ser humano singular.
E esse modo de pensar também se estende para alunos especiais, apesar
de muitas vezes os professores se perguntam “por que incluir o aluno no ensino
regular?”, quando existem tantas escolas especiais espalhadas pelo país. E a
resposta é muito simples: porque eles não vivem em uma sociedade especial,
eles vivem na mesma sociedade que as pessoas sem necessidades especiais e
precisarão dar conta de viver nela. Pensar que o aluno de inclusão aprenderá
melhor fora de sala de aula ou em classes especiais é outro mito. Nada que a
escola pode oferecer é mais importante para este aluno do que a possibilidade
de socialização e apreensão de regras.

2.2. Contribuições de Piaget para a Psicologia da Educação

O modelo de educação segundo a teoria piagetiana baseia-se na


aprendizagem ativa do aluno. Para o autor, é preciso que a criança organize
suas próprias atividades, com um objetivo mais ou menos preciso, o que pode
ser visto como “perda de tempo” para alguns professores. Quando o professor
apresenta verdades estruturadas ao aluno para “ganhar tempo”, o aluno perde a
oportunidade de realizar suas próprias tentativas e ir estruturando seu
conhecimento.

24
Para Piaget, o ideal seria que os professores adaptassem o material
escolar em função do caminho percorrido pelo aluno, mas para isso seria
necessário compreender a criança e observá-la. A tese piagetiana acredita que
o desenvolvimento cognitivo é marcado por etapas que caracterizam estruturas
mentais diferentes, em cada uma delas a criança compreenderá e resolverá os
problemas de forma diferente e por isso seria importante entender em qual etapa
está cada criança (o diagnóstico pode ser obtido através do uso das provas
piagetianas).
Cada estrutura tem seu momento próprio para aparecer. A interação
adequada com o ambiente proporcionará que ela possa ser utilizada em sua
plenitude. Caso determinada capacidade não seja estimulada em certo
momento, acarretará a necessidade de maior esforço por parte do indivíduo
posteriormente.
Embora a sequência de desenvolvimento seja igual para todas as
crianças, a cronologia poderá ser variada para cada um. Três crianças de 5 anos,
por exemplo, podem estar em etapas de desenvolvimento diferentes.
É importante que o professor avalie a melhor forma de aprendizagem para
o aluno. É comum que o professor não alcance sucesso ao ensinar determinada
matéria e isto pode se dar pelo fato de que, talvez, este professor esteja
ensinando da maneira que lhe parece mais simples, mas como cada um possui
uma maneira de aprender, talvez aquela não seja a maneira mais adequada para
tal aluno, pode ser que para esse aluno a forma de solução seja outra. É
importante encarar como está o aprendiz em seu processo de desenvolvimento
e também o que é necessário fazer para que ele progrida.
Para que uma criança aprenda, ela precisa compreender o conteúdo. O
professor não pode se contentar com simples automatismos. Uma aprendizagem
compreensiva requer que o professor conheça o processo de pensamento do
aluno e lhe ofereça questionamentos interessantes para que o aluno possa
explorar a questão para além da explicação do professor.
O ensino precisa ser um facilitador do processo de desenvolvimento, não
um acelerador e nem uma barreira. Adquirindo o conhecimento de cada etapa,
a criança será capaz de aprendizagens mais complexas adiante, mas é preciso
que o aluno tenha seu tempo respeitado. Não é suficiente conhecer a resposta
do aluno, é preciso entender o caminho percorrido por ele para chegar até ela.

25
Piaget sugere que há quatro estágios nos quais os sujeitos evoluem na
aquisição de conhecimentos, de um estado de total desconhecimento até a
capacidade de conhecer o que ultrapassa aquilo que está a sua volta.

Amplie Seus Estudos


SUGESTÃO DE LEITURA
Para complementar o conhecimento sobre os estágios da
formação do conhecimento nas fases infanto-juvenil confor-
me a teoria de Piaget, recomenda-se a leitura do artigo de
Waldir Uller, de título “Afetividade e Cognição” de 2007.
Artigo disponível em:
http://www.diadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/27
-2.pdf

Fonte: A autora, adaptado pelo DI (2016).


http://psicopedagogiacuritiba.com.br/wp-content/uploads/2014/07/Est%C3%A1gio-
Sens%C3%B3rio-Motor.jpg
http://www.notapositiva.com/trab_estudantes/trab_estudantes/filosofia/filosofia_trabalhos/preop
eratorio.jpg
http://cdn.timerime.com/cdn-
4/upload/resized/139474/1551486/resized_image2_5463825acfa37aebfc64b232ca57c6de.jpg
http://www.novadidacta.com.br/upload/a_120418154513.jpg

26
Independente do estágio em que o ser humano se encontra, a aquisição
de conhecimentos ocorre na relação entre sujeito e objeto. Esta se dá por
processos de assimilação, acomodação e equilibração, em um desenvolvimento
mútuo e progressivo. A equilibração acontece através de sucessivas situações
de equilíbrio – desequilíbrio – reequilíbrio que visam dominar o objeto do
conhecimento.
Ao pensar a natureza infantil, o desenvolvimento segundo Piaget e o
manejo com alunos que possuem dificuldades de aprendizagem, além de
elucidar alguns mitos da aprendizagem, fica mais fácil pensar o aluno enquanto
sujeito histórico e social, influenciado por essas vertentes.

Resumo da Aula

A criança nem sempre teve a função social que possui hoje. Sua
convivência era com os adultos e foi somente mais tarde, na idade moderna, que
surgiram as noções de família e infância, que conhecemos hoje. Com a ida para
a escola, a criança passou a conviver com crianças de sua idade e ser excluída
dos eventos adultos, mas esta realidade é pouco conhecida hoje.
Com o advento da escola pública obrigatória os números de evasão
escolar aumentaram exponencialmente e geraram diversos tipos de segregação
e mitos em relação a aprendizagem, como, de que a responsabilidade pela
dificuldade cabe somente ao aluno ou de que alunos carentes não dispõe de
dispositivos cognitivos suficientes para aprender.
Finalizando a aula, foi abordada a teoria de Piaget. O autor separa o
desenvolvimento do sujeito em quatro estágios: sensório-motor, pré-operatório,
operatório-concreto e operatório formal. Para ele, o professor deve estar sempre
atento a fase de desenvolvimento de seu aluno, ensinando-o de acordo com
suas condições naquele momento.

Atividade de Aprendizagem
Discorra sobre as mudanças ocorridas na função social da
criança ao longo do tempo, como isto a afetou/afeta e o que
ocorreu para ocasionar esta mudança.

27
Aula 03 – O que os Grandes Autores têm a contribuir para a Psicologia da
Educação?

Apresentação da aula 3

Como pensar na psicologia da educação sem trazer as contribuições dos


grandes autores sobre o assunto? Nesta aula será discutido sobre como Skinner,
Freud, Rogers, Bandura e Vygotsky pensam a educação. Na aula anterior já foi
iniciada a discussão trazendo o trabalho de Piaget.
Será evidenciado que cada autor pensa sua teoria de um modo particular
e que elas são, quase sempre, conflitantes entre si, o que não quer dizer que
uma está errada e outra certa, mas que existem diversas formas de pensar uma
mesma coisa.

3. AUTORES DA PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO

3.1. Skinner

Skinner foi o fundador da análise do comportamento, também conhecida


como behaviorismo. Baseou seus estudos em Pavlov e Watson. Para Watson,
todo comportamento de interesse é aprendido e para que seja possível visualizá-
lo é necessário analisar seus antecedentes.
O cerne da teoria behaviorista é o conceito de comportamento operante,
que é caracterizado por um comportamento voluntário do qual as consequências
serão determinantes sobre a probabilidade de sua ocorrência. O processo do
condicionamento operante pretende condicionar determinada resposta em um
indivíduo, podendo ser a fim de aumentar sua ocorrência ou até mesmo extingui-
la.
Quando o desejo é aumentar a probabilidade de uma resposta
apresentam-se reforços toda vez que o sujeito emite a resposta adequada. Um
estímulo só é reforço se aumentar a possibilidade do comportamento acontecer
e será positivo quando algo é apresentado ao indivíduo ou negativo quando algo
é retirado. Essa diferença marca que reforço não é sinônimo de recompensa.

28
Um exemplo de reforço positivo em sala de aula é quando o professor
insere o uso de jogos, atividades lúdicas, ou qualquer outra técnica que os alunos
reajam bem, quando a turma tem uma relação positiva com a matéria, em nível
de aprendizagem e comportamento. Este reforço aparece para que os sujeitos
sintam-se cada vez mais dispostos a repetir tal comportamento. Já o reforçador
negativo, envolve a retirada de algo do ambiente, como, uma criança que não
faz as atividades e passa horas jogando videogame, então a mãe o proíbe de
jogar até que todos os exercícios estejam prontos e a criança passa então a
realizar suas tarefas.
Ocorre muitas vezes em sala de aula, o uso da punição. Punição é quando
o indivíduo é punido toda vez em que aparece um estímulo que o professor
pretende extinguir. Os reforços e punições podem ser também positivos ou
negativos, quando se insere ou retira um estímulo, respectivamente. O próprio
Skinner fazia várias ressalvas quanto ao uso da punição, principalmente em
ambiente escolar, pois esta pode apresentar efeitos colaterais nocivos ao
sujeito.
É importante enfatizar a diferença entre o reforço negativo e a punição. O
reforço negativo é a retirada de uma condição negativa para reforçar um
comportamento, enquanto que a punição é apresentar ou retirar um estímulo
para enfraquecer um comportamento.

Para Refletir
Identifique se este exemplo é uma punição ou é um reforço
negativo:
José esqueceu seu livro em casa, no dia da correção do
material, e por isso o professor vetou sua participação na
aula de educação física. Reforço negativo ou punição?

A situação descrita acima é de punição, pois retira um estímulo a fim de


enfraquecer um comportamento, no caso, o comportamento de esquecer seu
livro em casa.

Converse Com Seus Colegas

29
Converse com os seus colegas sobre as vantagens e
desvantagens do uso de reforço positivo, reforço negativo e
punição em sala de aula. Troquem experiências e procurem
identificar em alguns casos qual dos elementos citados foi
utilizado.

A aprendizagem é uma mudança na possibilidade de determinada


resposta, mas o que afirma a execução de um comportamento não é a execução
em si. Skinner acredita que o foco não está na ação do estudante, mas nas
contingências das quais o comportamento é função. A contingência de reforço
possui três variáveis: 1) a ocasião em que o comportamento ocorreu; 2) o
comportamento em si; 3) as consequências deste comportamento.
Para Skinner, um dos grandes problemas da aprendizagem está em criar
condições que sejam favoráveis para as consequências do comportamento, para
o autor, o professor deve arranjar contingências, fornecendo situações em que
fique claro o que deve ser observado e adquirido enquanto experiência, para que
assim o sujeito possa exercitar os comportamentos ensinados.
Para que um reforço ocorra, é importante que a consequência ocorra logo
após do comportamento emitido. Portanto, o papel do professor em sala de aula
envolve a montagem de um ambiente que estimule e propicie a aprendizagem
ao aluno. O professor deve se questionar sobre os reforçadores que irão ser
utilizados e de que forma estão dispostas as contingências de reforço, tornando
a estratégia de ensino mais eficaz. Após a aquisição de um comportamento,
Skinner ressalta a importância de que exercícios que repitam a emissão sejam
feitos, para que o aluno possa fazer a manutenção e fixação de seu próprio
conhecimento.
Quando se fala sobre o Behaviorismo e aprendizagem é importante
também diferenciar os conceitos de modelação e modelagem. Modelação é um
aprendizado que tem origem na herança cultural, por exemplo, todos sabem que
é preciso se vestir para sair de casa e que não pode colocar a mão no fogo. Ou
seja, aprendizagem por modelação é aquela que atua nos níveis básicos de
sobrevivência e da convivência em sociedade. Já a aprendizagem por
modelagem é aquela que ocorre através de reforços progressivos de uma ação,
até que aquilo se torne um novo comportamento, por exemplo, o bebê percebe

30
que a mãe espera dele algum tipo de comunicação e balbucia, a mãe se alegra
com a nova conquista - o que age como reforçador – e o bebê passa então a
emitir novos sons até conseguir dizer sua primeira palavra. O comportamento de
incentivo da mãe agiu como reforçador e o bebê, através de tentativas
sucessivas, estabeleceu um novo comportamento: a fala. É possível pensar no
mesmo em sala de aula, a própria alfabetização, por exemplo, é adquirida
através do processo de modelagem.

3.2. Freud

Antes de compreender as contribuições que a teoria psicanalítica, criada


por Freud, exerce no contexto educacional, mostra-se importante frisar de que o
próprio Freud nunca publicou nada relacionado claramente à aprendizagem, pois
suas preocupações se voltavam para o contexto clínico. Mas obviamente, muitos
de seus ensinamentos se tornam extremamente úteis para a aplicação prática
da educação, como em tantos outros campos.
Anna Freud, sua filha, procurou mostrar aos educadores a forma como
Freud pensava o desenvolvimento da criança, pois ele investiga o surgimento
das preocupações que a criança possui e sua curiosidade. Para Freud, o
momento de maior determinação na vida do indivíduo é o momento da
descoberta da diferença sexual anatômica entre os sexos, que causará diversos
efeitos em meninas e meninos. O que é importante marcar aqui é que ao
descobrir a diferença sexual, as crianças ficam marcadas por esta e é a partir
deste ponto que se marca a falta, um dos temas centrais na teoria freudiana.

31
Amplie Seus Estudos
SUGESTÃO DE LEITURA
Recomenda-se a leitura das obras
“Fundamentos da Psicanálise” – 1 e 2,
(Marco Antônio Coutinho Jorge). Para
aqueles que se interessam em iniciar um
aprofundamento na psicanálise, estas
duas obras serão ótimos guias. Elas
elucidam da forma mais simples possível
(lembrando que a teoria psicanalítica não
é muito simples), os principais conceitos
freudianos e lacanianos.

Para a psicanálise é a própria falta que irá mover o sujeito, que irá fazê-lo
ir atrás de seu desejo. Sem falta não haveria desejo. Mas a falta é também a
grande causadora da angústia, que pode se tornar insuportável ao sujeito e é
por isso que, tanto as crianças quanto os adultos irão fazer a sublimação.
Para que a menina se defina como mulher e o menino se defina como
homem os dois precisam passar pelo complexo de Édipo e neste primeiro tempo,
em que as crianças descobrem a diferença anatômica, elas passarão a procurar
investigar questões da sexualidade infantil a fim de mascarar esta angústia. Em
outro tempo, esta investigação é reprimida e a criança passa a exercer certa
curiosidade para outros campos, sublimando sua angústia para uma pulsão de
saber, pois para Freud o saber e o dominar estariam no mesmo patamar. É
importante saber disso para compreender se a criança tem em si um impulso de
investigação e que a curiosidade pode se apresentar das mais variadas
maneiras. É importante, portanto, que o professor esteja atento sobre como isto
se manifesta na criança, para que não a prive de sua própria vontade de
aprender.
Na teoria psicanalítica não há um percurso pré-fixado do desenvolvimento
infantil, como ocorre na teoria Piagetiana por exemplo. Para Freud não há uma
concepção de que já existe uma programação de como o desenvolvimento
infantil irá suceder, muito pelo contrário, a criança é ativa no seu próprio
desenvolvimento, pois é ela quem faz investigações e são essas que ajudam em
seu desenvolvimento psíquico.

32
Portanto, existem determinantes que fazem com que a criança deseje
aprender, mas ela também precisa de alguém que faço o papel de intermediário
na aprendizagem, e este seria o professor. Para a psicanálise, aprender é um
processo no qual um professor, frente a um aluno, ocupa para ele determinada
posição que pode ou não propiciar aprendizagem. A relação de aprendizagem
sempre conta com um outro, mesmo no caso dos autodidatas é criada a figura
de alguém, em forma de livro ou uma figura imaginária. A aprendizagem
acontece na relação ensinante-ensinado. Um professor só é capaz de transmitir
conhecimento se é autorizado pelo aluno, esteja dizendo a verdade ou não. O
aluno que dá ouvidos ao que o professor tem a dizer é aquele que atribui ao
professor uma posição de respeito em sua vida. Dessa forma, os docentes
ganham papel de influência em relação ao aluno.
Em determinada fase do desenvolvimento, o professor recebe um afeto
que antes era dirigido exclusivamente aos pais, um afeto transmitido na
manifestação do complexo de Édipo, quando a referência é paterna, ou
complexo de Electra quando a referência é materna.

Saiba Mais
Complexo de Édipo e complexo de Electra são dois sistemas
de ideias associadas à relação da criança, respectivamente
com a mãe e com o pai, ao começar a sofrer restrições dos
pais aos poucos ela se torna ciente das diferenças entre os
sexos.
Este Complexo tem início quando o bebê, habituado a receber total
atenção e proteção, ao atingir cerca de três anos de idade, passa a
ser alvo de várias proibições que são para ele desconhecidas.
Agora a criança já não pode fazer o que bem entende, porque já
está ‘crescidinha’, não pode mais compartilhar o tempo todo o leito
dos pais, deve evitar andar nu à vontade, como antes, entre outras
interdições.

A visão que se tem é que os alunos também interagem tempo o bastante


com o professor a ponto de estabelecer com eles uma relação similar com a que
eles têm com o pai ou a mãe, no caso respectivo de professor ou professora,
podendo inclusive desenvolver os complexos mencionados anteriormente
Kupfer (2008) chega a dizer que a relação professor-aluno pode ser vista
como uma reedição de uma relação afetiva primitivamente ligada à figura

33
paterna. Essa relação é chamada de “transferência” e do mesmo modo que um
sujeito pode transferir a relação com o pai para a figura do psicólogo, pode fazer
isto também na figura do professor, tudo isso inconscientemente. Quem tem
certa experiência em salas de aula, sabe que é comum em turmas de crianças
pequenas que os alunos se equivoquem e chamem a professora de mãe ou o
professor de pai – a psicanálise nomeará isto de ato falho.

Amplie Seus Estudos


SUGESTÃO DE LEITURA
Leia a obra Sobre a Psicopatologia da vida
cotidiana, (Sigmund Freud). Nesta obra, Freud
explora os lapsos da fala, incluindo a formação
do ato falho, fenômeno citado acima.

Na transferência para a figura do professor está implicado um desejo que


atribui a este um sentido especial, pois envolve um vínculo de poder, que será
discutido mais à frente. Este vínculo faz com que o aluno seja muito suscetível
ao que o professor fala e acredita e pode acontecer de que o docente seja
impulsionado a abusar deste poder para reprimir e rebaixar o aluno, infligindo a
ele seus próprios valores e ideias e até mesmo destruindo o desejo do aluno e
instaurando seu próprio desejo. Este tipo de pedagogo não será capaz de aceitar
discussões e colocará o aluno no papel de objeto e não de sujeito da
aprendizagem.

Vídeo
A Onda é um filme alemão de 2008 dirigido por Dennis Gansel.
Um professor, ao dar aula sobre autocracia, decide fazer um
experimento em sala de aula, criando um grupo fascista. O
experimento perde totalmente o controle. O filme exemplifica
de forma clara a influência que a relação transferencial com
um professor pode exercer na vida dos alunos.
Trailer disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=brnEKSEvtZg

34
A relação professor e aluno é complicada, pois cada um dos dois tem seu
próprio desejo inconsciente. O professor que dá aula devido ao seu desejo
próprio de ensinar deve atentar para aos poucos abrir mão desse desejo para
que permita ao aluno ser sujeito de sua própria aprendizagem. As crianças são
curiosas, mas sua curiosidade é espontânea e não sistemática, o professor deve
trabalhar com essa curiosidade para formar a aprendizagem.
Assim como o tratamento analítico, a educação age, mas não pode prever
qual o efeito que será gerado em seus alunos. Para Kupfer (2008) o importante
não são os conteúdos ensinados, pois estes são somente a ponta do iceberg e
a autora ainda evoca uma questão importante, que deve ser pensada e
repensada por todos os professores:

Para Refletir
Como usar o controle e ao mesmo tempo renunciar dele em
sala de aula? Como manter o respeito diante dos alunos, mas
sem interferir na subjetividade deles?

A resposta dessa pergunta deve advir da busca de cada professor, o


caminho precisa ser trilhado por cada um, porque a resposta não está dada, a
pergunta é um ponto de início para que cada um possa trilhar e seguir sobre seu
próprio caminho, mas sempre respeitando seu próprio desejo e o desejo do
outro.
O professor guiado pela psicanálise precisa estar ciente de que os alunos
darão mais importância para aquilo que lhes for conveniente e não o que for
conveniente ao professor, pois cada indivíduo conta com sua própria
subjetividade. Permitir isto aos alunos – e se permitir poder permitir isto a eles –
é essencial para que o sujeito se desenvolva intelectual e pessoalmente. A
subjetividade de cada um processa o ensinamento e cria novos conhecimentos.
Quando o professor nega o poder que lhe é dado, preserva a essência do aluno
e permite a este conquistar a própria autonomia.
Desde a formação do professor até a imagem que a sociedade constituiu
sobre este profissional, é possível perceber entre os discursos uma construção

35
imaginária de que o professor é ser humano ideal, que não padece da falta, sua
imagem está vinculada a uma ação maternal e sacerdotal. Se todos as pessoas
são seres faltantes, como podem os professores não o serem? A história
construiu essa imagem para os professores, de forma que estes fossem vistos
como modelo para essa humanidade tão faltante, mas o problema é que conviver
com este estereótipo constitui grande carga para estes profissionais, quando se
sentem embaraçados, por exemplo, ao não saberem algo. Ao negar esta falta
os professores podem acabar abusando de seu poder e reprimindo questões de
seus alunos, por medo de não darem conta do conteúdo. Neste processo, tanto
o professor quanto o aluno perdem, pois uma relação de aprendizagem é
bilateral, os dois podem usufruir de novos conhecimentos.
Para estabelecer uma relação de aprendizagem mais próxima do ideal é
importante que os professores ‘deem conta de não dar conta’, que saiam do lugar
da onipotência para o lugar de claudicante, que reconhece que não possui todo
o conhecimento, assim tanto professor quanto aluno poderão constituir uma
relação mais serena com a aprendizagem. É difícil também para o professor dar
conta desse lugar que a sociedade lhe dá, mas mais difícil ainda é abdicar dele,
pois seria uma forma de mostrar sua falta, e como a psicanálise ensina, o ser
humano está sempre buscando negar sua falta.
Para a psicanálise, o material ensinado trabalha aquele que ensina e
aquele que aprende, nenhum dos dois está isento das ebulições que aquele
conteúdo poderá desenrolar em sua subjetividade.
A transmissão, seja ela qual for, é sempre de um “saber que não se sabe”,
não se sabe no sentido que não é dado por completo, irrefutável e imutável. A
relação do ser humano com o conhecimento precisa estar sempre com a
possibilidade de mudança, reflexão e reestruturação em aberto. Dessa forma, a
constituição de um saber por aquele que aprende passa por processos que
aquele que ensina ignora, e a construção daquele que ensina precisa dar conta
de admitir que não é possível saber a totalidade. A transmissão não é de
conhecimento, mas de algo que toca o sujeito. Quando o professor se coloca
numa posição de detentor de todo o saber, acaba por transmitir um
conhecimento que não possui. Para Freud, o ensino é um ato. Uma ética.

36
3.3. Rogers

"Toda a nossa cultura procura insistentemente manter os jovens


afastados do contato com os problemas reais. Será possível inverter essa
tendência?" (ROGERS apud FERRARI, 2011, s/p.)
"A única coisa que se aprende e realmente faz diferença no
comportamento da pessoa que aprende é a descoberta de si mesma" (Carl
Rogers apud FERRARI, 2011, s/p.)
Rogers é um dos autores da fenomenologia. A fenomenologia é um
estudo que pretende entender como o indivíduo percebe determinado fenômeno
e se este integra a consciência do indivíduo e a realidade, está interessada em
saber como o indivíduo se percebe.O ser humano procura a compreensão da
realidade, através de sua memória, raciocínio lógico, imaginação, intuição,
emoção e criatividade. Quando um novo desafio lhe é imposto, a ignorância o
torna inseguro e ele, muitas vezes, enxerga o desafio como ameaça. A forma de
encarar a aprendizagem tem de ser subjetiva, mas a ciência que foi construída
nos últimos anos é extremamente objetiva e além de pretender explicar os
fenômenos, acha-se capaz de controlá-los. Mesmo em toda a sua variabilidade
existe uma pretensão em dominar o funcionamento humano e é por isso que
Rogers e os fenomenologistas se mostravam resistentes à teoria de Skinner e
outros autores, por acreditar que estes buscavam certo status na ciência, a fim
de construir um conhecimento mensurável e constante sobre o comportamento
humano, neste tipo de abordagem o pensamento intuitivo é descartado.
Para a fenomenologia, a ciência precisa de construções hipotéticas cada
vez mais próximas da realidade dos fenômenos. Esta abordagem tem uma visão
humanista, ou seja, não compreende o ser humano por uma abordagem
mecanicista, mas como um ser que evolui, que busca construir valores,
realização pessoal e o bem-estar para todos. Os maiores representantes deste
pensamento são Rogers, Maslow e Combs.
Rogers acredita que a educação deve se basear na aprendizagem
significante, ou seja, deve ser baseada nos significados que os alunos dão ao
conteúdo que é a eles apresentado. A aprendizagem não é meramente uma
tarefa, algo sem sentido deslocado do cotidiano, mas deve estar associada com
questões que sejam concernentes com a vida daquele que aprende. O intuito da

37
aprendizagem significante é provocar reflexão e mudanças em toda a vida do
sujeito, em suas crenças, valores, mundo afetivo e cognitivo, personalidade e
relações sociais.
Para Rogers, o aluno é o centro e é ele que deve conduzir sua própria
aprendizagem e o papel do professor é responsável por construir um clima
facilitador para seu aluno, preocupando-se em reconhecer suas motivações e
interesses. O professor propõe uma regra, mas em contrapartida escuta a
sugestão dos alunos, e só depois estabelece com eles um “contrato”, assim o
objetivo fica claro e todos são participantes ativos nesta meta. Através desse
posicionamento, o professor demonstra empatia e se coloca na posição de quem
também aprende. O professor precisa demonstrar seus sentimentos e aptidões,
seus limites e seus potenciais, ou seja, deve ser coerente consigo mesmo.
A aprendizagem ocorre quando o indivíduo incorpora o conhecimento
como algo seu e este algo permite que a vida do sujeito seja transformada, dando
novas dimensões à vida do sujeito. Aprender significa então atribuir significados,
manipular significantes e ser capaz de alterar percepções.
O aluno tenta ser alguém no mundo, dar sentido para a sua existência,
portanto é importante que sua existência esteja aberta para reflexão e novos
desafios, porque, como dito anteriormente, ao não dispor de conhecimentos
necessários para enfrentar um novo desafio, o sujeito pode se sentir ameaçado
por esta força.

Para Refletir
Quando estou em sala será que minhas explicações chegam
à compreensão da realidade ou são meras figuras de
linguagem que construo para mim mesmo?

Aprender é dar sentido para aquilo que a ignorância tem resistência em


revelar. É criar um elo entre objetos, fenômenos, significados e significantes e
para isso é preciso estar com vontade de crescer. A aprendizagem é um convite
para descobrir algo de novo em si, é saber dos próprios limites, ausências,
lacunas e desejos.

38
Para Rogers, a força motriz dos seres vivos é a tendência à atualização,
que tem como fim a autonomia. O processo constante de atualização gera
abertura a novas experiências, capacidade de viver o aqui e agora, confiança
nos próprios desejos e intuições, disponibilidade para criar e liberdade e
responsabilidade de agir. A melhor qualidade de um professor, na visão de
Rogers, é interferir quanto menos possível no processo de aprendizagem do
aluno, ou seja, usar o método não-diretivo, traço marcante dos rogerianos.

3.4. Vygotsky

A teoria de Vygotsky considera largamente a construção de condições


para que os alunos se tornem sujeitos que pensem e atuem por si mesmo,
espera-se que sejam indivíduos livres de manipulações e que tenham a
capacidade de examinar e pensar criticamente as ideias que lhe são
compartilhadas e a realidade da qual partilham, para isso é importante estimulá-
los a operar com ideias, analisar fatos e discuti-los, para que na troca de diálogo,
cada um possa construir seu ponto de regulação para pensar de forma
comprometida com as práticas sociais, sempre realizando o exame da realidade.
Atualmente, tem sido recolocada a discussão sobre as funções críticas e
libertadoras da educação. Os entraves impostos na burocracia das redes
públicas pelos regimes militares motivaram muitas discussões e o professor tem
sido obrigado a rever sua prática e avaliar seus resultados com os alunos.
A psicologia sócio-histórica tem a concepção de que todo homem se
constitui como ser humano pelas relações que estabelece com os outros. Desde
que nasce ele é socialmente dependente de outras pessoas e entra em um
processo histórico que, ao mesmo tempo, oferece a ele dados e visões sobre o
mundo e permite criar uma visão pessoal sobre este mundo. Cada um está
inserido, desde seu nascimento, em um tempo e um espaço em constante
movimento, nossa história de vida caminha processando uma outra história
integrada com tantas outras que se cruzam.
O ser humano constrói a própria história com a participação dos outros e
da apropriação do patrimônio cultural da humanidade. A constituição do homem
passa então pela vivência com os outros e vai se consolidando na formação de
cada um. Tanto a criança quanto o adulto trazem em si marcas de sua história,

39
marcadas pelos aspectos pessoais que passaram por processos de
transformação e trazem também marcas da história acumulada por grupos
sociais com quem partilham o mundo.
Vygotsky tem uma visão do desenvolvimento humano baseada na ideia
de um organismo ativo cujo pensamento é constituído em um ambiente histórico
e cultural, a criança vai então, reconstruindo internamente resultados de seus
processos interativos. Essa reconstrução é baseada na dupla estimulação:
Interpsicológica, ou seja, tudo que está no sujeito existe antes no social e
quando é apreendido e modificado no sujeito, passa a existir então no plano
intrapsicológico, ou seja, internamento no indivíduo. A medida que a criança
vai aprendendo ela vai se modificando.
A criança só irá ampliar sua compreensão de um conceito quando
aprender no social e depois internalizá-lo, pois somente assim será apta a pensar
sobre ele. As possibilidades que o ambiente proporciona ao sujeito são, portanto,
fundamentais para que ele se construa enquanto indivíduo consciente, capaz de
alterar as circunstâncias em que vive. O acesso a instrumentos físicos e
simbólicos para a aprendizagem da criança é fundamental.
O tempo vai permitindo as interações com parceiros mais experientes que
orientam o desenvolvimento do pensamento e do comportamento da criança. A
linguagem constitui papel fundamental neste processo de transformações que
permite a passagem das funções elementares para as superiores.
É a linguagem do ambiente que permite a criança a perceber o real em
determinado tempo e espaço, que aponta o modo pelo qual a criança apreende
as circunstâncias em que vive, cumprindo dupla função: permite a comunicação
e organiza a conduta, além de expressar o pensamento e ressaltar a importância
reguladora dos fatores culturais presentes nas relações culturais. Portanto, o
confronto da percepção da criança com a de seus parceiros de ambiente se
mostra imprescindível para a apropriação de significados, que depois poderão
se transformar em sentidos.
Significado e sentido tem uma importante distinção nesta teoria.
Significado é algo convencionalmente estabelecido pelo social, enquanto que
sentido é a interpretação que o sujeito histórico dá a algo.
A troca entre os parceiros em sala de aula permite essa negociação entre
os sentidos. É nas interações que o conceito científico passa a ser discutido em

40
um processo descendente, e os conceitos cotidianos passam a ser enriquecidos
e tomam caminho ascendente, já que são ampliados pelo conhecimento
científico.
A fala é uma das formas pelas quais os significados sociais são
compreendidos e ela está permeada por expressões afetivas que se tornam
também alvo das interações: preferências, antagonismos, simpatias, antipatias,
concordância, etc. a ação e a fala se unem na coordenação de várias
habilidades, entre elas o pensamento discursivo. Assim, os sentidos adquiridos
permitem ao sujeito articulações internas que requerem negociações para
alcançar significados.
Adultos e crianças podem conferir as palavras significados e sentidos
diferentes, então, quando um adulto interage com uma criança estimula a
expansão de conhecimentos e a elaboração de sentidos particularizados da
mesma. Dessa forma, o ser humano continua em constante transformação, pois
a internalização não é uma adoção passiva do conhecimento apresentado a
criança e sim uma reconstrução mental do funcionamento interpsicológico, a
internalização é uma aquisição social.
Para o autor, é importante que as classes não sejam socialmente
homogêneas, pois assim seria reproduzido um domínio social e esta seria a
visão de mundo dos alunos. Também não é aceita a ideia de classe organizada
de forma que somente o professor fala e os alunos escutem e anotem no
caderno. Vygotsky propõe uma sala de aula em que todos têm a possibilidade
de falar, levantar hipóteses, estabelecer um processo dinâmico e um vínculo de
parceria.
Cabe ao professor a importante tarefa de promover a articulação dos
conceitos espontâneos e dos conceitos científicos. Ele deve instruir, explicar,
informar, questionar e corrigir o aluno, explicitando seus conceitos espontâneos.
Para o sociointeracionismo, o desenvolvimento se dá para além da soma
de experiências, pois também é encontrado na vivência das diferenças. O aluno
aprende concordando, imitando, fazendo oposição e analogias e internalizando
símbolos e significados.

41
Para Refletir
O ambiente que envolve a criança a influencia? Que
ambiente estamos oferecendo as nossas crianças?

3.5. Bandura

Albert Bandura é um psicólogo social canadense. Sua teoria da


aprendizagem social é baseada no fato de que todo ser humano é constituído
por elementos do meio social em que faz parte: sua família, sua escola e sua
comunidade são grupos sociais em que o sujeito é inserido em certa fase do
desenvolvimento e que contribuem para o processo de aprendizagem.
Essa teoria adota a perspectiva de agência para a adaptação, mudança e
autodesenvolvimento. Ser um agente significa influenciar seu próprio
funcionamento e a vida a partir de um modo intencional, sendo assim, as
pessoas são auto-organizadas, proativas, autorreguladas e autorreflexivas. Para
Bandura, o homem não é totalmente influenciado pelo meio, pois suas reações
e estímulos são autoativadas, portanto o homem não é determinado pelas ações
ambientais e sim influente entre elas. Ao contrário do behaviorismo, a
aprendizagem social acredita que o comportamento não precisa ser reforçado
para ser aprendido, pois o homem adquire experiências observando as
consequências dentro de seu ambiente e as vivências de outras pessoas ao seu
redor.
As principais pesquisas do autor se referiam à aprendizagem e
comportamento agressivo, e seus estudos concluíram que crianças que são
expostas a situações de agressividade exibem respostas imitativas agressivas,
isto demonstra a importância dos modelos reais e simbólicos.
Nesta teoria é enfatizada a importância de processos vicários, simbólicos
e autorregulatórios. A aprendizagem é resultado de experiências diretas que
pode ocorrer numa base vicariante, ou seja, através da observação dos
comportamentos e experiências de outras pessoas e suas consequências. Por
exemplo, um aluno poderá aprender determinado esporte imitando os gestos e

42
passos do professor, portanto aqui fica clara a importância da figura do educador,
pois são agentes sociais na construção tanto da aprendizagem quanto do sujeito,
vistos que são modelos de cognição para os alunos.
A teoria reconhece a importância do pensamento no processo de controle
de comportamentos. O pensamento é um instrumento adaptativo que aumenta
a capacidade do indivíduo de enfrentar o ambiente de maneira eficaz, por
permitir a representação e manipulação simbólica dos acontecimentos e suas
inter-relações, representações que decorrem da abstração de propriedades
comuns nos fatos e objetos.
Para Bandura, a observação e modelagem de comportamentos, atitudes
e respostas emocionais é muito importante. Modelagem é a mudança no
comportamento/sentimento/pensamento por meio da observação do modelo de
outra pessoa. Por exemplo, ao ver alguém obtendo sucesso ao executar
determinado comportamento ou atitude, um observador tenderá a executar esse
comportamento também. Uma criança que observa outra fazendo birra e
conquistando o que desejava, terá maior chance de desenvolver o
comportamento de birra também.
O autor acredita que o aprendizado seria muito trabalhoso se as pessoas
dependessem somente dos efeitos de suas próprias ações para se informar
sobre como agir, mas por sorte, a maior parte do comportamento humano é
aprendido através da modelagem, ou seja, pela observação ativa dos
comportamento emitido pelos outros. A pessoa observa, depois forma uma ideia
de como novos comportamentos são executados e, em ocasiões posteriores,
esta informação codificada serve como um guia para a ação.

Atenção! O conceito de modelagem de Bandura difere do


conceito de modelagem do Behaviorismo da teoria de Skinner

A aprendizagem ativa é aprender experimentando e a aprendizagem


indireta é aprender observando os outros. A aprendizagem indireta acontece
através de um reforço indireto (recompensa ou punição), a expectativa de ser
reforçado e a identificação com o modelo de admiração. Por trás dessa
aprendizagem estão: a atenção, retenção, reprodução e motivação.

43
Outros conceitos importantes da teoria de aprendizagem social são:
 Autoeficácia – senso do indivíduo de ser capaz de lidar com uma tarefa;
 Modificação cognitiva do comportamento – procedimentos utilizados para
alterar seu próprio comportamento, utilizando autoinstrução e fala provada;
 Autoinstrução - falar consigo mesmo ao executar determinada tarefa.

Vocabulario
Contingências - efeito da resposta sobre a probabilidade de
um estímulo.
Sublimação – um mecanismo de defesa, em que determinados
impulsos inconscientes são integrados na personalidade e
acabam por culminar em atitudes com valor social positivo.

Cada indivíduo tem uma forma diferente de pensar a sociedade e não é


diferente na educação. Nesta aula, foi possível traçar um plano geral sobre as
teorias destes autores. Cada um deles pensa a educação de uma maneira
particular, cabe ao educador saber qual delas se adapta mais ao seu perfil.

Resumo da Aula

Todos têm maneiras singulares de pensar a educação, mas tem em


comum a preocupação em pensar numa prática coerente e efetiva. Skinner,
Freud, Rogers, Vygotsky e Bandura. Grandes nomes da psicologia e educação.
O principal ponto da teoria de Skinner consiste na ideia do uso de reforço
positivo e negativo para a aquisição da aprendizagem, o autor aponta que é
sempre mais efetivo reforçar um comportamento do que tentar enfraquecê-lo e
por isso, diferencia reforço negativo de punição.
Freud não possui um modelo fixo de desenvolvimento infantil, mas
acredita que a pulsão do saber infantil, advinda da repressão da curiosidade
sobre a diferença sexual anatômica, é uma grande mola propulsora para a
educação. O professor deve aproveitar disto e de sua relação transferencial com
o aluno para um processo de aprendizagem efetivo.
Rogers apresenta um método não-diretivo em sua abordagem e, ainda
que ele tenha formulado com atividades de natureza clínica, o autor indica o

44
mesmo para os professores, para ele, os educadores precisam deixar que o
aluno descubra o máximo por si mesmo. Já Vygotsky baseia sua teoria no fato
de que são nas relações sociais que a aprendizagem é possível e que para o
aluno transformar um conteúdo em aprendizagem, ele precisa internalizá-lo.
Por fim, Bandura vê na modelagem um grande artifício para a educação.
Acredita que os alunos aprendem muito através da observação de
comportamentos que obtiveram respostas positivas.

Atividade de Aprendizagem
Escolha a teoria que você achou mais interessante para
escrever um breve texto, que contenha: quem a idealizou, as
principais ideias, e as contribuições que esta oferece para a
educação e aprendizagem.

Aula 4 – Novas formas de pensar a educação

Apresentação da aula 4

Os apontamentos e teorias vistos nas aulas anteriores compõem os


fundamentos que permitirão colocar todos esses conhecimentos em movimento
e aliá-los a uma reflexão sobre os aspectos da avaliação de aprendizagem, os
processos de ensinar e aprender, além de outros pontos que serão abordados
no texto.

4. ASPECTOS PSICOLÓGICOS DA AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM

O processo de avaliação de aprendizagem precisa ser pensado e


repensado muito criteriosamente e superar sua função alienadora para o
professor e para o aluno, pois ambos são capazes de detectar aquilo que foi
assimilado ou o que falta ser alcançado.
Quando o professor revela os pequenos progressos do aluno, deixará de
exercer o temível papel de desqualificador do aluno, evidenciando que a

45
dificuldade e a incompletude fazem parte do processo normal de aprendizagem.
Ao desqualificar um aluno, o professor pode estar “matando” sua curiosidade e
vontade de aprender.
Se algum objetivo pedagógico não está sendo alcançado é importante
lançar um olhar geral sobre a situação, envolvendo todos os elementos. A teoria
comportamental mostra que existem maneiras saudáveis de reforçar, ou não,
determinado comportamento, como foi explorado na aula anterior.
A noção de desenvolvimento de Piaget também pode servir ao professor
de modelo de gestão. Piaget reforça que não se deve tentar fazer com que a
criança acelere seu desenvolvimento, pois isso pode acabar prejudicando suas
potencialidades. Dessa forma, levar em consideração qual a fase de
desenvolvimento em que a criança está, pode ser de grande ajuda no processo
de avaliação.
Somente assim é que se terá a capacidade de contribuir com uma escola
que exerça o papel de transmissora do conhecimento, e não mera informante,
lembrando-se sempre de estabelecer uma prática coerente com o sujeito e com
a formação de cidadãos críticos, capazes de construir uma sociedade mais
igualitária e democrática. E a prática precisa ser estabelecida junto à equipe
pedagógica para definir a melhor estratégia para receber o aluno na escola.
Outro ponto relevante é que se a aprendizagem é uma ponte entre aluno
e professor, e o aluno não atinge o resultado esperado, precisa-se considerar
também como este conhecimento está sendo transmitido pelo professor. Piaget
frisava que muitos professores ensinam usando técnicas que são boas para si e
não oferecia opções ao aluno de utilizarem outros métodos, mas cada aprendiz
é singular e precisa encontrar seu próprio estilo.

Para Refletir
Quantas vezes um aluno não apresenta um bom resultado
porque na verdade não se adapta ao método utilizado pelo
professor?

Não há como olhar para a dificuldade de aprendizagem se refletindo


somente sobre a questão do aluno. O professor, enquanto aquele que ensina, e

46
o aluno, enquanto aquele que aprende, geram nessa relação um terceiro
elemento: que é aprendizagem. Portanto, a dificuldade apontada somente no
aluno é descontextualizada e tende a formar novos mitos, justificativas e
desculpas. É necessário entender de forma mais abrangente, pois o aluno
necessita dessa forma de se apropriar do mundo, do simbólico e da cultura, sem
essas características não será capaz de desenvolver as funções superiores da
consciência. O aluno precisa ser ativo no processo de significação do
conhecimento. É preciso olhar para além de uma dificuldade de aprender ou uma
dificuldade de ensinar, é preciso olhar para uma dificuldade no processo de
ensino-aprendizagem.
Portanto, as avaliações escolares precisam ser vistas de forma mais
desconstruída, não contendo, por exemplo, questões que induzam ao erro, como
questões para marcar alternativas incorretas. As provas devem ser construídas
de forma clara, não dificultando o acesso do aluno ao entendimento. Devem
também avaliar da maneira mais sincera possível o conhecimento real do aluno,
lembrando que nem sempre o resultado da prova é indicador de eficiência ou
não do aluno em determinada matéria.
4.1. Principais contribuições da psicologia para a educação

A psicologia apresenta, através de seus grandes autores, que o processo


de aprendizagem precisa ser encarado com seriedade e atenção. É preciso estar
atento às motivações pessoais de professores e alunos quanto ao processo de
aprendizagem, a fatores que possam prejudicar o desenvolvimento do aluno em
sala de aula, a adaptação de material e estratégia para cada turma, quando não
para cada aluno.
O mestre tem uma difícil missão, a de olhar para o aluno com empatia e
buscar compreender o mesmo em um plano complexo, não apenas o escolar é
aí que reside a dificuldade. O olhar das pessoas é contaminado com nossos
próprios valores, crenças e questões, ao olhar para o outro, seja ele quem for, é
preciso tentar se isentar dessas questões e ter em mente que as concepções de
vida são diferentes e nem por isto uma está certa e a outra está errada.
Dificultando ainda mais a prática pedagógica, é preciso lidar também com
a psicomedicalização da infância e o excesso de diagnósticos. É de grande
importância ressaltar que um diagnóstico deve ser feito com muito cuidado e

47
atenção, é preciso sempre mais de um instrumento de avaliação para chegar a
uma conclusão. E hoje, sabe-se também que é imprescindível realizar
entrevistas em conjunto com os testes, pois estes isoladamente, não dão conta
de definir um sujeito.

Saiba Mais
Para exemplificar e iniciar uma nova discussão, coloco aqui um caso
de minha prática pessoal:
Fui chamada pela escola pública X. a fazer uma intervenção sobre
bullying, pois o aluno A., recém-chegado na escola, portava um
diagnóstico de autismo, e não houvera nenhum caso similar na escola
antes. A direção relatava que o aluno estava sofrendo bullying dos
demais colegas de classe, por ser diferente.
Em um primeiro momento, decidi observar a rotina da turma em uma
aula. Notei que o aluno A. possuía trânsito livre em sala de aula,
chegando até mesmo a parar ao lado da professora, em alguns
momentos, e se voltar com postura de deboche para o restante dos
colegas. Em dado momento, viu o reflexo de alguém no vidro da porta,
correu até ela, abriu-a e gritou um “palavrão” para o lado de fora. Tudo
isso acontecendo e a professora continuava impassível perante o
comportamento deste aluno. Quando algum outro aluno se levantava, a
professora se zangava imediatamente e mandava-o sentar. Não
identifiquei no aluno traços de um autista e por isso solicitei o laudo. Ao
ver o documento, constatei que havia sido realizado em más condições
por uma profissional e não apresentava dados suficientes para tal
diagnóstico. Tratava-se de um laudo mal elaborado, com quase nenhuma
fonte crível. Não cabe aqui realizar um novo diagnóstico, mas para
ilustrar, era um aluno com pequena defasagem intelectual, que
apresentava alguns problemas de socialização e possuía respostas
agressivas com frequência, mas era capaz de estabelecer vínculos, se
relacionar e aprender o conteúdo.
Voltei dias depois e resolvi separar a turma em dois grupos de 15
pessoas e realizar com eles duas atividades. A primeira era um quebra
gelo, em que cada um portava um dizer na testa (por exemplo: “dance
comigo”, “me parabenize”, “ria para mim”, etc.), e os outros deveriam
seguir o que estava escrito no papel colado na testa do colega, mas sem
dizer o que era, deixando para que a pessoa tentasse adivinhar mais
tarde. A confusão de não saber os escritos gerava risadas e brincadeiras,
deixando os alunos mais “aquecidos” para a próxima atividade.
A outra atividade consistia em que, grupos de 04 ou 03 pessoas,
deveriam desenhar um barco em conjunto, mas cada um poderia realizar
somente um traço e estaria com uma dificuldade imposta (por exemplo:
com a mão esquerda amarrada, vendado, com as duas mãos amarradas,
etc.). A atividade gerou grande estresse nos dois grupos, muitos alunos
se sentiram irritados com os membros dos próprios grupos, por conta do
péssimo desempenho – já esperado – na atividade.
A intenção da atividade era de poder discutir sobre as diferenças e
dificuldades em sala de aula e sobre como elas eram vistas para cada
aluno. Após a atividade, abriu-se uma roda de conversa e cada um
deveria falar o que pensou durante a atividade e como aquilo se
encaixava em sala de aula.
O aluno A. participou do grupo 01. O grupo 01 conseguiu partilhar
poucas coisas na roda de conversa, mas falaram que algumas pessoas
são isoladas em sala de aula e que eles não sabiam trabalhar com as

48
diferenças. O aluno A. se negou a compartilhar qualquer comentário e
em dado momento caçoou do comentário de uma participante, com
palavras grosseiras.
O grupo 02 contava com outra atmosfera, os alunos conseguiram
falar muitas coisas concernentes as suas dificuldades de relacionamento.
Em dado momento, um aluno disse, em tom de desabafo, que havia um
menino na sala que praticava bullying com os outros e que em uma
medida de vingança, alguns alunos haviam rasgado seu trabalho de
artes, que era o único a estar exposto na biblioteca. Disseram que este
aluno fazia o que queria e nenhum professor parecia se importar. E este
aluno era A., o aluno que a direção havia dito que estava a sofrer bullying.
Conversei com alguns professores e notei que havia uma demanda
da escola e dos pais para que este aluno recebesse um tratamento
diferenciado, por conta de seu diagnóstico. Os professores se sentiam
desorientados em relação a tudo o que acontecia em sala de aula e a
coisa já havia tomado uma proporção tão grande, que mal conseguiam
dar aula nesta turma. Os alunos se mostravam rebeldes e insatisfeitos.
O que estava acontecendo nesta escola?

Os professores e a direção receberam uma demanda a qual não poderiam


dar conta naquele momento, pois não receberam preparação alguma em relação
aquele caso. Assustados, passaram a tratar o aluno como se este fosse livre
para falar e fazer o que quisesse. A intenção dos professores e direção era boa,
não queriam que o aluno se sentisse excluído e por isso, reconheciam seu
trabalho de forma mais intensa do que a dos outros alunos, que desenvolviam
trabalhos melhores, iguais ou piores. Mesmo que o aluno possuísse um
diagnóstico confiável de autismo esta não era a melhor atitude a ser tomada,
mas não se pode culpar a equipe pedagógica, que se viu encurralada em uma
situação – como acontece tantas outras vezes- e não deu conta de resolvê-la
sozinha.
Os outros alunos se sentiam injustiçados e até invejosos com relação a
atenção destinada ao aluno A., enquanto que ele aproveitava o máximo a
situação de poder a qual gozava.
Ao reunir a equipe, foi passada essa nova visão em relação ao caso para
eles. A reação dos professores foi de choque e clareza. Vale lembrar, que é mais
fácil que alguém de fora consiga enxergar com clareza a dinâmica relacional de
qualquer Instituição. Passado isso, sentiram-se mais tranquilos e amparados
para trabalhar com a turma. Decidiram que todos os alunos receberiam
tratamento similar, mas claro, de acordo com a necessidade de cada um, dessa
forma, a relação pode ser melhorada para todos, pois os professores se sentiam
mais seguros em sua intervenção, o aluno A. possuía os mesmos direitos e

49
deveres que os outros (a criança precisa e pede por limites, no fundo, ele
também se incomodava com seu poder) e os outros alunos, aos poucos,
sentiram-se mais acolhidos e passaram a inclusive, aceitar a presença do aluno
A.
Esse caso exemplifica como um diagnóstico precipitado pode atrapalhar
toda a dinâmica escolar, pois fica notável que a partir do momento em que “uma”
coisa não estava caminhando bem, outras coisas desandaram. O psicólogo
entra como um auxiliar neutro que pode olhar as questões sob uma nova ótica,
pois muitas vezes, a dificuldade já está tão engendrada, que a própria equipe se
sente perdida e desorientada. Fica claro a necessidade de repensar sempre a
prática, pois cada novo aluno é um novo desafio a ser enfrentado. Não existe
receita na educação, o trabalho precisa ser feito de um a um.
O que aconteceu com o aluno A. foi que suas dificuldades foram
explicadas usando somente um diagnóstico e a prática proposta se tornou
unidimensional e sem característica interdisciplinar. Quando se trata da
dificuldade de aprendizagem não é possível tratar somente de comportamentos
emergentes e fórmulas práticas de solução. Entender a dificuldade só tem
sentido quando há correlação entre os diversos fatores (neurológicos,
psicológicos, sociais, pessoais, etc.)
Esta visão integrada ainda não faz parte do cotidiano de muitas escolas,
poucos enxergam dessa maneira. Há um grupo que tende a culpar a criança e
enumerar diversos déficits e outro que enxergam tudo como problema dos
professores e no processo de seus trabalhos e desta forma, perde-se de vista a
visão global da aprendizagem.
Uma criança com atitudes emocionais descompensadas, como:
insegurança, instabilidade, agressividade, tensões, ansiedade, baixa tolerância
a frustrações, resistência com as tarefas, hipersensibilidade, mudanças de
humor e impulsividade podem ser resultado da situação biopsicossocial da
criança, agregada com uma inabilidade na construção de relações sociais
adequadas. E uma criança ou adolescente pode viver sem saber logaritmos, mas
não pode viver sem saber se relacionar, e é no papel do professor, o mesmo
acaba influenciando, de forma direta ou indireta, a forma de compreender a
sociedade dos seus alunos, e o professor instaura a própria visão social, sendo
incapaz de promover o conhecimento imparcialmente.

50
Não adiantará em nada resolver os problemas de aprendizagem se os
problemas de relação persistirem e é aí que a psicologia entra. A criança com
dificuldade precisa ser respeitada enquanto ser humano, e muitas vezes não é
o que se encontra nas escolas. É preciso transformar esta criança em um
membro real da sociedade, baseando sua aprendizagem de sucesso em
sucesso, sem estabelecer um ideal societário.

4.2. O Processo de Ensinar e Aprender

Ao dar aula, um professor não desenvolve somente o conteúdo de sua


disciplina, mas acaba por influenciar a forma como o aluno entenderá a
sociedade. O professor tem um papel muito importante na subjetividade do
aluno, o que poderá ser positivo ou negativo, dependendo de como esse recurso
será utilizado. Mesmo ao tentar manter certa neutralidade, o professor deixa
escapar suas opiniões, valores e concepção de vida. Por esse motivo, ensinar é
também influenciar na concepção de vida dos alunos.
Para o autor Meksenas (2010) existem dois tipos de professores, o
professor reprodutor e o professor transformador. O primeiro tem postura
autoritária e parte do princípio de que é detentor do saber, não permitindo a si
mesmo aprender com o aluno e dialogar. Já o segundo admite que o aluno é um
ser humano que mergulhou nas mais diversas experiências e estas enriquecem
o processo de aprendizagem, esse tipo de professor valoriza o debate e o aluno.
O aluno é um elemento dinâmico que se recria junto com o professor. Ele
é um agente social que leva ao ambiente escolar todas as suas vivências
acumuladas, são essas experiências que tornam o aluno capaz de elaborar os
conceitos emitidos pelo professor. E é através desta experiência entre aluno e
professor que o conhecimento se faz. A definição de aluno pode ser geral, mas
é sempre importante lembrar que cada aluno é um ser singular e cada diferença
encontrada em sala de aula precisa ser respeitada e estar livre de preconceitos
e discriminação.
Como dito na aula anterior, para estabelecer uma relação de
aprendizagem mais próxima do ideal é preciso que o professor esteja atento a
diferença entre transmitir e informar. Transmitir é muito mais do que veicular a
informação, o acúmulo de saber não torna ninguém mais ou menos apto a

51
ensinar, porque a transmissão está para além do que se define como aprendido.
A transmissão marca a expressão do nosso desejo e do que queremos transmitir.
A transmissão do saber só acontece mediada pela transferência, pois a
relação professor e aluno implica dois desejos, o de ensinar e o de aprender. O
conteúdo é uma ponte entre esses dois desejos e quando o professor lança seu
desejo e cria a oferta da aprendizagem, o aluno pode embarcar ou não. A
transmissão diz de algo que toca o sujeito e não do conhecimento em si. Quando
o professor se coloca numa posição de detentor de todo o saber, acaba por
transmitir um conhecimento que não possui. A ação educativa quer aparentar
ser imunes de incertezas, divergências e conflitos, usa-se concepções e
programações universais e lineares, mas é impossível que um meio educativo
possa ser uniformemente bom para todas as crianças.
O caminho que leva à ciência, à aquisição do conhecimento, passa pelo
professor, mas hoje o bom professor é aquele que não precisa dar a prova de
sua eficiência metodológica, que não insiste em técnicas vazias, não tenta
explicar o que não tem explicação, não responde simplesmente para aliviar seu
próprio mal-estar e para se encaixar na posição de quem detém o saber, mas
sim aquele que suporta ser o substituto parcial da projeção do aluno, que sabe
que sua intervenção ultrapassa o discurso, que suporta um “não saber o que
fazer com isso” . A civilização tende a impulsionar o sujeito contra isso, cabe a
cada um não simplesmente seguir o curso que lhe é imposto.
A única forma de o professor poder transmitir algo ao aluno é se for
autorizado por ele, por isso é importante que o mestre saiba como ocupar este
lugar sem abusar de sua posição. Essa relação transferencial, explicada na aula
passada, faz com que o professor ocupe um lugar projetivo para o aluno, dando
margem a identificações, crenças, fantasias, etc. Suportar este lugar não é fácil,
exige muito do professor, mas com certeza a recompensa é grande, pois é um
lugar de humildade, de quem permite que o desejo do aluno de aprender
sobressaia sobre seu desejo de ensinar e portar o conhecimento.
Ao professor cabe a difícil tarefa de envolver a turma, sem dominá-la.
Muitas vezes, através da identificação, o aluno descobre sua vocação através
do professor, sem nem se interessar pela matéria lecionada. O professor não
deve deixar de ter sua própria personalidade, mas precisa se controlar com os
excessos e as tentações do poder. Para Kupfer (2008) é preciso “matar o mestre

52
para se tornar mestre de si mesmo, esta é uma lição que, já vimos, pode ser
extraída até mesmo da vida de Freud”.
O mestre que recebe a transferência do aluno e refreia sua vontade de
dominar, não liberta somente o aluno, mas também a si mesmo, libertando-se
de uma carga que é excessiva e indesejável, ao tornar-se impotente perante o
outro, para que este seja uma pessoa livre. Ao renunciar isto em si mesmo,
estará contribuindo com a formação pessoal do aluno.

Converse Com Seus Colegas


Quantas vezes o professor concorda de que determinada
estratégia de aprendizagem é mais criativa e efetiva, mas se
sente inseguro e se apega a cartilha conhecida para apoiar
sua ação?
Como fazer do ensino algo que ultrapasse o automatismo da
resposta, mas que também siga as normas da instituição e o
currículo?

É preciso se deixar ser questionado pelo aluno. O saber é mutante,


sempre se transforma. Posso ensinar algo por anos e mesmo assim sempre
existirá algo a ser descoberto. Quando alguém diz que já sabe tudo sobre
determinada coisa é sinal de que está em posição de negação do saber, é
impossível dar conta da totalidade, a teoria de Freud mostra isso. E é por não
poder dar conta de tudo que o professor precisa da motivação de procurar saber
mais, mais e mais.
Quando o professor se deixa ser interrogado pelo aluno, sejam eles
crianças ou adultos, ele se permite ver o mundo sob os olhos deles. Cada um
tem suas próprias questões e subjetividade e, portanto, ele pergunta a partir de
algo que, no fundo, diz de si mesmo. Os outros, inclusive alunos, têm
questionamentos diferentes dos questionamentos do próprio professor,
perspectivas e perguntas diferentes das dele, mas não é porque não são
perguntas de outras pessoas que o professor não pode se beneficiar de suas
respostas. O professor tem medo de mostrar ao aluno um lado seu que está em
falta.
Saindo da posição de quem detém o conhecimento e compartilhando isto
com o aluno o professor pode tornar sua própria prática mais agradável, pois já

53
não carregará o fardo de ser obrigado a saber tudo e poderá manter seu
conhecimento sempre em movimento. O professor se vê questionado diversas
vezes, principalmente por crianças, em assuntos que possui grande domínio.
Mas mesmo possuindo domínio, acontece de ser pego desprevenido por
relações de conteúdo que não eram naturais para si, são essas experiências que
o fazem aprender mais e, além disso, permitir que as crianças possam ensinar
ao professor faz com que elas fiquem à vontade para questionar e aprimorar seu
próprio pensamento.

Para Refletir
Quando você não souber alguma resposta a criança não vai
pensar que você não é inteligente, mas vai sentir que ela
também tem capacidade de pensar e contribuir com a própria
aprendizagem. Alguma vez na atividade docente você se
deparou com uma situação parecida?

Poder construir o conhecimento junto com o professor fará com que a


criança se sinta valorizada, motivada e com autoestima elevada. E o mais
importante de tudo: quando crescer esta criança não precisará eleger alguém
como modelo de líder, como ocorre na formação de grupos, explicada na
primeira aula. Ao ensinar que ela não é capaz de pensar por si, ela compreende
que sempre deverá se pautar pela opinião de outras pessoas e assim o professor
“mata” seu pensamento crítico. Mas se, pelo contrário, ele desconstrói esta
imagem, por consequência dá a ela a possibilidade se ser mestre de si mesma
e defender suas próprias ideias.
Não é fácil, mas nenhuma mudança é. Não se pode deixar que todas as
dificuldades que a pedagogia oferece, tornem o profissional num professor
omisso, que aceita o derradeiro destino da profissão e não se permite mudar
nada.

54
Para Refletir
Como vimos, a missão do professor é muito importante para
a sociedade, ele é o responsável por formar as próximas
gerações. Qual a maior dificuldade que você encontra na sua
abordagem pedagógica para trazer os conhecimentos que
foram apresentados para a prática escolar?

Resumo da Aula

Nesta última aula, foi possível pensar sobre alguns aspectos da


educação, em articulação com os temas estudados nas aulas anteriores. As
formas de avaliação foram pensadas de uma maneira que favoreça o sujeito e
avalie sua aptidão o mais condizentemente quanto for possível, para isto é
importante que o professor esteja atento em fazer uma avaliação que seja clara
e não induza ao erro.
Outro tópico abordado foi o da importância de considerar o aluno como
indivíduo singular, pensando sempre na melhor estratégia de ensino e avaliação
para cada turma. A aprendizagem acontece em uma relação e é importante que
os dois lados, aluno e professor, sejam pesados.
O que se buscou transmitir é que o processo de aprendizagem entre aluno
e professor pode ser muito mais satisfatório se o desejo do aluno de aprender e
o desejo do professor de ensinar se encontrem de forma serena, sem um tentar
anular o outro, promovendo assim uma aprendizagem bilateral, em que o aluno
é sujeito e não objeto da aprendizagem.

Atividade de Aprendizagem
Aliando os conhecimentos adquiridos nas quatro aulas,
responda as seguintes perguntas: 01) Minha concepção sobre
a educação mudou? Justifique sua resposta. 02) De acordo
com a minha maneira de enxergar o mundo, qual é a forma que
penso a educação?

55
Resumo da disciplina

A primeira aula contou com uma contextualização histórica do ensino,


como ele começou no berço familiar e evoluiu para o surgimento de instituições
que oferecem o ensino como atualmente. Foi dada muita atenção ao papel do
professor enquanto profissional que medeia a construção do conhecimento do
seu aluno, que é o objetivo principal do ambiente escolar.
Na segunda aula foi visto que o conceito de criança passou por mudanças
acompanhando a evolução do pensamento e da cultura humana, sendo que a
criança nos tempos atuais tem a sua fase de desenvolvimento respeitada, e a
participação do universo adulto só ocorre durante a sua adolescência. Em
seguida se iniciou a apresentação de teorias de aprendizagem por Piaget,
conhecida por epistemologia genética.
Outras teorias são apresentadas na terceira aula, onde se verificou
grandes autores como: Skinner, com o Behaviorismo, Freud, com a Psicanálise,
Rogers, com a Fenomenologia, Vygotsky, com a teoria sociointeracionista e
Bandura que apresentou a aprendizagem social.
Na última aula foi apresentada a importância de uma forma de avaliação
condizente com o que os alunos conseguiram desenvolver, sendo o mais claro
para manter a objetividade do processo avaliativo.

56
REFERÊNCIAS

ARIÈS, Phillipe. História social da criança e da família. 1960.

BRANDÃO, C. R. O Que é Educação. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981.


Disponível em:
https://disciplinas.stoa.usp.br/pluginfile.php/1992579/mod_resource/content/1/O
%20que%20e%20educa%C3%A7%C3%A3o.pdf Acesso em 8/12/2016

CHARLOT, Bernard. Das relações com o saber as práticas educativas. Rio


de Janeiro: Cortez Editora, 2013.

COSTA, L. P. da; SANTA BÁRBARA, R. B. A EDUCAÇÃO DA CRIANÇA NA


IDADE ANTIGA E MÉDIA. 2008. VII Jornada de Estudos Antigos e Medievais.
VI Ciclo de Estudos Antigos e Medievais do PR e SC.

FERRARI, M. Carl Rogers. 2011.Disponível em:


http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/carl-rogers-307067.shtml
Acesso em 14/12/2016.

FORISHA, Bill; MILHOLLAN, Frank. Skinner x Rogers: maneiras contrastantes


de encarar a educação. São Paulo: Summus Editorial, 1978.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1999.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2015.

FREUD, Sigmund. O mal estar da civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997a.

FREUD, Sigmund. Psicologia dos grupos e análise do eu. Rio de Janeiro:


Imago, 1997b.

JORGE, Marco Antônio Coutinho. Fundamentos da psicanálise, vol. 1.Rio de


Janeiro: Zahar, 2000;

JORGE, Marco Antônio Coutinho. Fundamentos da psicanálise, vol. 2.Rio de


Janeiro: Zahar, 2010;

KUPFER, Maria Cristina. Freud e a educação: o mestre do impossível.


São Paulo: Scipione, 2008.

LA TAILLE, Yves. Piaget, Vygotsky e Wallon. São Paulo: Summus, 1992.

LEFRANÇOIS, Guy. Teorias da aprendizagem. Rio de Janeiro: Cengage, 2008.

MEKSENAS, Paulo. Sociedade, Filosofia e Educação. São Paulo, Loyola,


2010.

57
PANOS, Phedra. EDUCAÇÃO NA ANTIGA ATENAS. 2004. Disponível em:
http://www.sociedadehelenica.org.br/paginas_pt/netnews.cgi?cmd=mostrar&co
d=12&max= Acesso em 8/12/16.

PIAGET, Jean. Psicologia e pedagogia. Rio de Janeiro: Forense, 1970.

PIAGET, Jean. Psicologia e epistemologia: por uma teoria do conhecimento.


Rio de Janeiro: Forense, 1973.

SOUSA, Rainer Gonçalves. A educação espartana. Brasil Escola. Disponível


em <http://brasilescola.uol.com.br/historiag/a-educacao-espartana.htm>.
Acesso em 07 de dezembro de 2016.

Copyright © - É expressamente proibida a reprodução do conteúdo deste material integral


ou de suas páginas em qualquer meio de comunicação sem autorização escrita da equipe
da Assessoria de Marketing da Faculdade São Braz (FSB). O não cumprimento destas
solicitações poderá acarretar em cobrança de direitos autorais.

58