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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS

AS BATONETES:
Uma etnografia de mulheres caminhoneiras no Brasil

FRANCINE PEREIRA REBELO

Florianópolis, Julho de 2011.

FRANCINE PEREIRA REBELO

AS BATONETES:
Uma etnografia de mulheres caminhoneiras no Brasil

Trabalho de Conclusão de Curso a-
presentado como requisito parcial pa-
ra a obtenção do título de Bacharel
do Curso de Ciências Sociais da U-
niversidade Federal de Santa Catari-
na.

Orientadora: Profª. Drª. Miriam Pillar Grossi

Florianópolis, 2011

FRANCINE PEREIRA REBELO

AS BATONETES:
Uma etnografia de mulheres caminhoneiras no Brasil

Trabalho de Conclusão de Curso consi-
derado aprovado em ____/____/____,
como requisito parcial para a obtenção
do título de Bacharel em Ciências Soci-
ais pela Universidade Federal de Santa
Catarina.

Prof. Dr. Julian Borba
Coordenador do Curso de Ciências Sociais

Banca Examinadora:

_______________________________________________
Profª. Drª. Miriam Pillar Grossi (Orientadora)

________________________________________________
Profª. Drª. Edviges Marta Ioris

_________________________________________________
Profª. Drª. Carla Giovana Cabral

AS BATONETES: Uma etnografia sobre representações de gênero a respeito de caminhoneiras. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Sociais). caminhoneiras. identidades. Universidade Federal de Santa Catarina. 2011. O presente trabalho trata de uma pesquisa sobre questões de gênero tendo como objeto as mulheres motoristas de caminhão. A pesquisa é realiza- da sob uma perspectiva feminista e leva em consideração aspectos geracionais. É notório ainda que grande parte desses entraves são superados através do apelo ao profissiona- lismo. raciais e de classe. Orientadora: Profª.REBELO. Florianópolis. Observei que apesar das dife- rentes trajetórias aspectos como família. A pesquisa intentou identificar as formas de inserção dessas profissionais nesse universo predominantemente masculino. cuidado com o caminhão e carreira foram destacados e que grande parte dos obstáculos impostos a essas mulheres são relacionados ao sexo. Miriam Pillar Grossi. étnicos. . profissionalismo. Drª. cuidado e família busquei apresentar como se cons- troem as identidades dessas mulheres motoristas. Através de viagens realizadas com cinco profissionais do transporte e da reflexão sobre segurança. Francine Pereira. Palavras-chave: gênero.

irmã. haha) todos os dias. A Marianinha minha melhor criação. mas amiga querida ainda hoje. AGRADECIMENTOS Mais do que escrito por mim. foi no núcleo onde realmente aprendi como funciona a estrutura da universidade e da produção científica. Agradeço a to- dos/as realmente muito queridos/as que me acompanharam nesse tem- po no NIGS. fundamentais para construção dessa pesquisa. as risadas. Agra- deço principalmente à professora Miriam Grossi que me orientou não só nesse trabalho. eu não es- taria nem no mundo se não fosse você. Livres ou mortas. Ao NIGS (Núcleo de Identidade de Gênero e Subjetividades) por todas as oportunidades e por intensa produção e compartilhamento de reflexões. ao meu avô Abrahão que realmente inspirou esse trabalho. A toda minha família. você é fundamental e a Taia que é minha amiga. conver- . a Gicele. aos meninos Vini. À Carla Cabral pela doçura e sensibilidade. a Rozeli Por- to pela simpatia e energia positiva. parceira e que me ensina algo novo (nem sempre útil. ao meu pai que eu sei que quer o melhor para mim e que vai reclamar por não ter sido o primeiro a ser citado. sem dúvidas. mostrando com o seu amor à Antropologia e ao seu trabalho – o que é realmente viver a Antropologia. À GAFe ( Grupo de Ação Feminista. mas na maior parte da minha graduação. À família ( Êêê família). À minha mãe que sempre me apoiou nas Ciências Sociais e na vida. pela possibilidade de desabafo . resistência e aprendizado. Antes de ingressar no NIGS eu era realmente “perdida” na universidade. Valeu a força. já que sem ele eu não estaria na universidade. jamais escravas! Obrigada do mais fundo do meu coração à toda minha família. minha antiga companheira de NIGS. ação. esse TCC é parte de bons anos que passei em Florianópolis estudando Ciências Sociais e uma soma de várias pessoas que fizeram diferença nessa minha trajetória. para os/as amigos/as de sala que fize- ram tudo isso muito mais divertido. Esse trabalho é também da GAFe. Rary pela solici- tude e carinho. nunca cabe- riam todos os nomes aqui. agora Ação Desgenerada). Ao vovô Zé que é minha inspiração de vida. pai. Agradeço a todos/as professores/as das diversas disciplinas que fiz. É verdade.

uma música. mas uma possibilidade de reafirmar minha admiração por essas mu- lheres. Espero que esse trabalho de certa forma contemple todxs vocês! . Mineiro e Raulzito. discussões sobre preço de sabão em pó. meu querido. Bocones. minha com- panheira das Ciências Sociais antes mesmo de sabermos o que era isso. seu orgulho! Meu colega de profissão e de vida. À Laís. me incentivando e me aguentando por muito tempo. À Nat pela irmandade e a Juli- nha pela filiação. principalmente por nun- ca esquecerem meu lado caminhoneira. um olhar. Obri- gada ao Wagner por se dispor a me ajudar e pelo carinho. uma conversa. Cami. Obrigada a Rô. Vocês são meus amores! É Paula. Mongo. Esse campo foi mais que um trabalho. uma viagem. aos outros tantos que não caberiam aqui.sas sérias. vocês também estão nesse trabalho. assim como o Ricardo. amigas para toda vida. Crise. uma risada. ta aí. minha irmã. Muri e Flávia. Agradeço todas as caminhoneiras por mais um ato de coragem em receber alguém que mal conheciam dentro de suas “casas” e pela recepção sempre amigável. almoços e tudo mais. Vocês são demais! Ana. Agradeço aos meus amigos de Jacareí pela preocupação em sempre saber como estou. Bijos. Obrigada a todxs que não couberam aqui e que me ajudaram com uma palavra. você também não podia ficar de fora. Obrigada ao Rafa por não medir esforços para ajudar sempre. Ao Dú que sempre me apoiou em tudo.

Renato Teixeira. . pois a vida não me cobra o frete. Frete.Eu conheço as minhas liberdades.

............................................................................ Gênero e trabalho feminino ............................................... só falta um cômodo........................................................2 Gênero a partir de uma perspectiva estruturalista .................. ÍNDICE GERAL Índice Geral .. 59 CAPÍTULO 4 – Público e Privado: Relacionando gênero e caminhoneiras ................................................... 90 .................................... 65 4...............2 “Nessa minha casa tem tudo........ 47 3................................ também seria a categoria „sexo‟ construída................ 67 4..............2................................................. 10 CAPÍTULO 1 .............................Referencial Teórico e Problemática ............................................................................. 42 CAPÍTULO 3 – Dinâmica das caminhoneiras e do caminhão ......................2 Distância percorrida e o campo estrada ..............................3 Marxismo e feminismo....Construindo o Gênero .4 Reconhecimento da diversidade x busca por identidade ........... 15 1.... 21 1.......................... 47 3.................... 15 1.......................................6 Além do gênero.................... 34 2........ 28 CAPÍTULO 2 – Metodologia e Descrição do campo ......5 Reflexões a respeito de alguns paradoxos feministas .............................. 63 4................................. 16 1...................... 87 Referências ..............................................3 Traduzindo elementos do universo do caminhão .2. Preconceito..... viii Introdução .............................................. ....................24 1.............................1............. 34 2........................................................... 73 4............................ 19 1...................................................... família e profissionalismo .................................... 23 1................1 Perfil das motoristas ............................ 79 4..1 Navegando e viajando pelo campo................................7 O que foi (e o que não foi) escrito sobre mulheres caminhoneiras?.............................................................2 Profissionalismo como estratégia de resistência ..................................................................................... 82 CONCLUSÕES ...............2.................1 O início da utilização do termo „gênero‟ e o viés culturalista ............. 50 3.....3 Iniciação na profissão e segurança ....................1 Formas de exclusão de gênero ..................................................................................................... o banheiro” .

Essas disposições seriam atitudes. 10 . indicando que a palavra está incorreta. Apesar de todos meus familiares paternos serem “apaixona- dos por caminhão”. rádio comumente utilizado pelos/as motoristas. dirigindo um até o último dia da sua vida. interiorizadas e incorporadas pelos indivíduos. café é “chá de urubu” e Deus é “px maior”. inclinações para perce- ber e pensar. Para o autor (1987). ao longo de seus 145 quilômetros. sendo que nessa linguagem muitas palavras são modificadas. pescadora. no Sudeste o termo designa menina. isto é. assim como valores . O termo varia de acordo com a região. o habitus é uma transmissão doméstica em que um sistema de disposições é adquirido pelo sujeito durante o processo de socialização. posteriormente. prostitutas. são 125 pontes de madeira. meu avô foi o único que quis seguir essa carreira. engenheira e presidenta.Trabalho de Conclusão de Curso. “baton” e “batonete” significam mulher ou menina. Francine Pereira Rebelo . etc. como exem- plo. Nas gírias mais comuns utilizadas pelos programadores/as. outras caminhoneiras destacaram que “batonete” designa mulher em geral. Certamente meu avô romantizava as histórias que nos conta- 1 De acordo com a conversa que tive com a primeira motorista que acompanhei em campo. esposa é “cristal”. “batonete” é o termo utilizado entre os/a caminhoneiros/as para designar mulheres que dirigem caminhão. incluindo “mulheres da estrada”. a estrada com maior número de pontes do mundo. enquanto no Sul existe divergências em relação ao significado. A história de minha família ilustra bem o que Bourdieu denomina de habitus. 2 O próprio Word 2007 não reconhece a palavra caminhoneira. As “batonetes”1: Uma etnografia de mulheres caminhoneiras2 no Brasil INTRODUÇÃO A relação que tive desde minha infância com o caminhão poderia ser explicada por Pierre Bourdieu (1987) através do conceito de habitus. divulgada na internet. sendo essa sublinha- da com um traço vermelho. É também o resultado de um processo de inculcação que se dá no curso da história particular de um indivíduo que se reporta a história particular de seu grupo social. 3 Estrada situada no extremo norte do Pantanal. crenças e regras de comportamento. Era ele quem contava as his- tórias mais engraçadas e aventuras de um tempo em que se atravessa- vam as pontes de madeira da estrada Transpantaneira3 se deparando com “índios sendo retirados das barrigas de cobras” e peixes “maiores que homens”. O termo é utilizado como linguagem do px. O Word reconhece palavras como pedreira.

transportadoras. O que vemos e encontramos habitualmente pode ser familiar. roubos e tudo que se possa ouvir a respeito. acompanhando os maridos caminho- neiros. va. No primeiro semestre de 2010. não pensava em investir academicamente nesse campo. viagens. Lembro sempre de conversas sobre caminhões. no interior de São Paulo. Eu as via. transportando diferentes cargas.Trabalho de Conclusão de Curso. trabalhando nas transportadoras. mas não é necessariamente conhecido (DA MATTA. mas independente disto. até então. modo de compreensão do mundo e regras que estão por trás das interações dos diferentes atores sociais (VELHO. Meu contato com esse campo continuou mesmo depois do fale- cimento do meu avô. Em 2006. nunca. visitas dos motoristas e churrascos em que se compartilhavam as histó- rias. Apesar do contato com o meio e de sempre ter tido vontade de ser caminhoneira. tendo contato diário com o setor de amar- ração de caminhão e desde essa data meu pai abriu uma empresa trans- portadora na cidade de Jacareí. cargas. mas nunca dirigindo. Começando? Mas estamos em 2010. havia mergulhado profundamente em suas práticas e buscado interpretar seu universo teoricamente. Mas quantas elas são? Quem elas são? Como tiveram acesso a essa universo? Como seriam suas vidas? 11 . por que eu nunca tinha visto uma mulher dirigindo? Será que não existiam mulheres caminho- neiras? Se contrataram. crenças e valores era muito limitado ao convívio e conversas superficiais. Os funcionários fazem viagens para todas as regiões do país. conversando com o meu pai sobre a transportadora. Esse cenário sempre foi algo familiar para mim e apesar de compartilhar des- se gosto. é porque elas existiam. compostas principalmente de alimentos não perecíveis. trabalhei alguns meses como secretária em uma empresa de logística. ele contou que tinha contratado uma mulher para traba- lhar de motorista e que várias empresas “estavam começando a contratar mulheres”. essa profissão sempre foi vista por mim como uma “carreira de coragem”. nunca havia problematizado o fato de nunca ter visto uma mulher nesta profissão. o conhecimento que tinha sobre suas vidas. acidentes. 1981). 1978). como frentistas de posto. passagem em oficinas. Apesar de habi- tuada com a presença dos motoristas. revendas. Ao “termos familiaridade” com determinado assunto não está pressuposto que co- nhecemos o ponto de vista . amarração de caminhão. Francine Pereira Rebelo .

gênero e religião nas escolas e movimentos feministas. tive oportunidade de discutir e propor discussões de gênero nos mais variados. como “Identidades de Gênero e Sexualidades” ministrada pela professora Miriam Grossi. a GAFe estendeu suas perspectivas para ações diversas o que fez com que repensássemos o nome do grupo e mudássemos para Ação Desgenerada. partici- pei desde o início da formação da GAFe. conside- ram o feminismo não só um campo teórico e político. violência doméstica. concordo com essa afirmação. construo o programa Útero. Atualmente. Grupo de Ação Feminista. tais como: sexualidades. na retomada dos espaços públicos como a rua e até em espaços religiosos. O interesse pelos temas abordados durante as pesquisas no NIGS me motivou a cur- sar algumas matérias sobre essa temática. A perspectiva feminista. Meu interesse pela temática dos estudos feministas iniciou desde as primeiras disciplinas que cursei nas Ciências Sociais. como Lyra-da-Fonseca (2008). atu- almente. Como militante. articulamos a discussão feminista com as discussões sobre comunicação e principal- mente com a importância da apropriação dos espaços e do discurso mi- diático por parte das mulheres. formado por homens e mulheres. O femi- nismo é para mim uma forma de ver o mundo. fez com que a busca por relações mais igualitárias baseassem minha vida pessoal. normalmente retratadas de maneira des- qualificada por esses meios. foram essenciais para a escolha deste tema de TCC. mulheres na Antropologia. Como participante da GAFe e Ação Desgenerada. Teóricos/as feministas . como em encontros acadêmicos. Pessoalmente. inicialmente dissociadas da teoria an- tropológica. Essas primeiras indagações. familiar e militante. Durante 16 meses fui bolsista do NIGS e tive oportuni- dade de trabalhar com diversos projetos de diferentes temáticas. Me tornei participante de uma rádio livre que busca romper com os meios de comunicação hegemônicos. mas pessoal. programa de viés feminista e que a- borda questões de gênero em geral. Academicamente. Através desse grupo. mas uma filosofia de vida. “Estudos de 12 . na minha trajetória. a entrada no Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades me auxiliou imensamente na inserção desse amplo campo teórico. Francine Pereira Rebelo . além de partici- par de grupos de estudos sobre amor e mulheres e ciências. lembro da surpresa ao ler “Sexo e Temperamento” (2006) em Clássicos da Antropologia e como esse tema me despertava interesse não só acadêmico. Ação Desgenerada.Trabalho de Conclusão de Curso. além de músicas e assuntos de saúde da mulher. Nessa rádio.

atores. haveria neles algu- ma especificidade? Como é construída a identidade dessas trabalhado- ras? Para construção do trabalho. Ainda nessa parte. Francine Pereira Rebelo . desconstruiria a aparência substantiva do gênero. tendo êxito. A prática feminista e o interesse acadêmico pelas teorias feminis- tas. facilitando a circulação deste conhecimento barrado por um sistema de poder que permeia sutilmente toda a trama da sociedade. Na exposição desse processo busco trazer perspectivas de diferentes auto- res/as como Margareth Mead. gênero e religião” com a professora Claudete Ulrich. Mas como estudar as relações de gênero entre as caminhoneiras? E dentro do vasto campo de gênero. Michel Foucault. Quais seriam esses atos no interior do universo das motoristas de caminhão. mas em articulação com outros campos como o de Sexualidades e 4 Destaco que problematizo a questão de “possibilitar visibilidade e voz”. optei pela divisão em quatro capítu- los. des- pertaram-me a atenção para a possível união desses temas. o que a- bordar mais especificamente? Como compreender as relações sociais e de gênero das caminhoneiras observadas etnograficamente de maneira que possibilite a visibilidade (e voz) dessas sujeitas4? O que eu entendo por mulheres? E por caminhoneiras? Resumindo. ou sujeitos” aparece como uma necessidade que deve ser atingida através do seu discurso. reflito sobre o paradoxo feminista com intuito de discutir uma unidade no que diz respeito às mulheres e como diferentes autoras se posicionam frente a esse dilema teórico e epistemológico. É papel do/a cientista social recolher e analisar este discurso. arti- culando o ponto de vista desses/as autores/as com o movimento feminis- ta. as massas sabem o que dizem e o dizem muito bem. Gayle Rubin. trago um resgate do conceito de gênero no decorrer das últimas décadas e busco expor o processo pelo qual o con- ceito é compreendido por alguns/algumas autores/as atualmente. 13 . associado a minha simpatia aos assuntos relativos a caminhão. a genealogia política das ontologias do gê- nero. O primeiro capítulo sobre referencial teórico aborda a problemática da pesquisa.Trabalho de Conclusão de Curso. quem são elas? Se- gundo Judith Butler (2008). Procuro que o tema de gênero não seja compreendido de maneira isola- da. Nesse capítulo. O conheci- mento teórico acumulado durante a graduação foram essenciais para nortear e consolidar essa ideia. Miguel Vale de Almeida e Judith Butler. i- dentificando e desmembrando seus atos constitutivos e explicando essas ações no interior das estruturas compulsórias criadas pelas forças que exercem vigilância a aparência social do gênero. Foucault (1985) afirma que. Sherry Ortner. Isso não quer dizer que o/a antropó- logo deve “dar voz” a determinado grupo. o caminho de “ouvir os agentes. Gênero na Psicologia” com a professora Mara Lago e “História. Nancy Cho- dorow.

À partir da apresen- tação desses elementos intento elucidar o caminho teórico percorrido para compreensão do conceito de “ gênero” e “mulheres” no campo es- colhido. Nesse ponto des- taco a questão da coragem e da importância da fase de iniciação na car- reira. O segundo capítulo tem como objetivo explicar as orientações metodológicas desse trabalho. inicio a apresentação das motoristas para apresentar sua relação com o caminhão e com esse universo. 14 . No quarto e último capítulo analiso as formas de inserção dessas profissionais e a peculiaridades do gênero nessas relações. Primeiramente. raça. o campo real. pontos chaves que nortea- ram essa pesquisa. o campo virtual. em geral. busco mostrar como elas se percebem como motoristas e como se constroem como mulheres. atentando a importância da discussão desse conceito juntamente com outras categorias como classe. primeiramente. Através do resgate das falas dessas profissionais. O terceiro capítulo é predominantemente etnográfico e tem como objetivo esclarecer o campo e o funcionamento da dinâmica do universo do caminhão. Nessa parte intento abordar questões como família. as relações com as empresas e com o cami- nhão. segurança e profissionalismo. elementos essenciais para compreensão do posicionamento dessas mu- lheres em universo predominantemente masculino. Nesse capítulo discuto Antropologia do Ciberes- paço. etnia e geração. Para tal. a delimitação do campo e a divisão desse em duas partes. o das mulheres caminhoneiras. os caminhos percorridos para contatar as informantes. explico a inserção no te- ma. Busco apresentar o funcionamento detalhado da rotina dessas profissionais. Francine Pereira Rebelo .Trabalho de Conclusão de Curso. Nessa parte. campo multi situado e questões éticas. retomo os estudos que abordem a temática dos/as motoristas. realizado através de contatos pela internet e telefone e posteri- ormente.

Por exemplo. Francine Pereira Rebelo . mas também o próprio sexo. utilizo principal- mente as autoras Segato.1 O início da utilização do termo „gênero‟ e o viés culturalista Para iniciar a discussão. Grossi e Butler que em suas obras contextualizaram com muita eficiência o campo de estudos de gênero. assim como o gênero está para a cultura. desenvolvendo a perspectiva de gênero que embasa teori- camente esta pesquisa e recuperando as considerações feitas sobre a te- mática das mulheres caminhoneiras em outros trabalhos.C O N S T R U I N D O O G Ê N E R O . trago as ideias das feministas estruturalistas que construíam sua reflexão principalmente através da noção de que o sexo está para a natureza. CAPÍTULO 1 . Após a localização histórica desse termo. inicio a discussão com a perspectiva de Margareth Me- ad e a construção do viés culturalista a respeito deste conceito. começou a ser compreendido como socialmente construído. Posteri- ormente. A pesquisadora propõe no livro uma análise de três diferentes tribos da Nova Guiné. que tem relação direta com as lutas do movimento feminista. Tenho como objetivo apresentar o percurso das teorias feministas e representações do conceito de gênero e da categoria “mulher”. na sociedade arapesh homens e mulheres comportavam-se de maneira pacífica. Margareth Mead.Trabalho de Conclusão de Curso. Verena Stolke. papel 15 . escrito na década de 1930 por uma das pioneiras nos estudos de gênero. 1. Nas sociedades analisadas pela an- tropóloga era possível perceber que os papéis atribuídos a homens e mu- lheres diferenciavam-se da visão ocidental. Com objetivo de contextualizar historicamente a utilização do termo “gênero”. Para tal.R E F E R E N C I A L TEÓRICO E PROBLEMÁTICA Nesse capítulo discutirei alguns conceitos dos quais faço uso nes- se trabalho. utilizo como base o livro “Sexo e Tem- peramento” (2006). tribo dos arapesh. busco através dos estudos pós-estruturalistas mostrar como não só o termo gênero. É a partir dessas teóricas que construo meus argumentos e que exponho minha posição em relação a temática feminista. dos mundugumor e dos tchambuli.

inaugurando uma das vertentes pelo qual o gênero é entendido na Antropologia. mas de uma interpretação psicológica da fusão de fatores econômicos e re- produtivos. Beauvoir explica que a opressão da mulher não é resultado de fatores biológicos. Já os habitantes da tribo mundugu- mor apresentavam comportamentos agressivos. Por outro lado. Para Stolke (2004). 1. mas torna-se mulher”. pois questionou a visão sexista biologicizante que prevalecia nas Ciências Sociais. O trabalho de Margareth Mead foi de extrema importância para os estudos de gênero. os tchambuls invertiam os típicos valores ocidentais e quem se comportava de maneira agressiva era a mulher. Butler (2008) afirma que nessa perspectiva. Em contrapartida a esse primeiro viés relativista. a autora introduz a idéia de que “não se nasce mu- lher. fundido com o universal. a visão culturalista. enquanto o homem se dedicava às atividades domésticas. o homem era a medida. as mulheres foram dele- gadas ao segundo sexo. um outro viés antropológico do gênero na Antropologia: o viés estruturalista. Stolke (2004) afirma que através de sua pesquisa Mead introduziu a ideia de que a espécie humana é altamente maleável e de que os papéis e comportamentos sexuais variam de acordo com os contextos sócioculturais. Mead iniciou a discussão sobre re- lativismo e gênero. Anos depois.2 Gênero a partir de uma perspectiva estruturalista 16 . enquanto a mulher era defini- da em relação a ele e não por si mesma. psicológicos ou econômicos. Francine Pereira Rebelo . essa ordenação hierárquica era um invento patriarcal de legitimação da auto- ridade masculina. a “outra” dos homens. intitulado “O Segundo Sexo” (2001). emergiu. Nessa obra. o sujeito é sempre masculino. Segato (2011) considera que foi a partir desse trabalho que o gênero passou a ser entendido como categoria an- tropológica etnograficamente representável . frequentemente atribuído à mulher na cultura do Ocidente. esse se difere do “outro” feminino que está fora das normas universalizantes que constituem a condição de pessoa “particular” e constituem a noção própria de pertencimento ao todo. a partir dos anos 1970. No decorrer da história ocidental. no final da década de 1940. independentemente do sexo (MEAD. Simone de Beauvoir publica um livro que hoje já é um clássico. 2006). De acordo com Grossi (1998).Trabalho de Conclusão de Curso.

Segato (1998) afirma que a partir dessa divisão. Dentre essas abordagens clássicas está a perspectiva de Michelle Rosaldo e Louise Lamphere(1979). Para a autora. Para Stolke (2004). dos seres humanos universais. sobre a estrutura que organiza as ideologias de gênero nas sociedades mais di- versas e que mesmo apresentando diferenças tendem a representar o lugar da mulher como local de subordinação. desafiaram também o poder sexista do conhecimento e a carga ideológica de todas as doutrinas que afirmavam a subordinação da mulher a sua natureza. e por outro. pois sua história foi construída juntamente com o movimento político de emancipação pessoal e coletiva e sua ins- piração veio com o desejo de identificar as raízes da opressão para fazer uso da teoria como instrumento de libertação. Rosaldo e Lamphere (1979) localizam um eixo central que justificaria a submissão feminina: a desvalorização 17 . influenciadas pelo momento de contestação. para a autora a hierarquia tem ori- gem com a separação do trabalho masculino. como Heritier. ocupam-se das realidades culturais particulares. tem-se essa tendência geral à subordinação da mulher e a cultura do patriarcado. reservado aos espaços privados. Segundo Stolke (2004). as teo- rias antropológicas. Essa outra perspectiva de análise de gênero. e trabalho feminino. Esse conjunto de autoras que compreendem as estruturas de gêne- ro com tendências universalizantes. Whitehead. apresentam uma abordagem própria para explicar por que. conhecida por estru- turalista. As teóricas feministas. propunham a geração de mo- delos que atendessem a tendência universal da subordinação da mulher na dimensão ideológica das representações culturais. apesar das diferenças culturais e dos princípios relativistas. Francine Pereira Rebelo .Trabalho de Conclusão de Curso. principalmente. contra opressão sexual e dis- criminação veio acompanhada também de desafios teóricos. tinha uma visão universalizante das questões relativas às mu- lheres e baseava-se na ênfase dada por um conjunto de autoras na ques- tão da universalidade nas hierarquias de gênero. Essas autoras. Segato (1998) a- firma que estas constatações não negavam diferentes maneiras de inser- ções hierárquicas e subordinação. Rosaldo e Lamphere. o caminho percorrido por essas teóricas feministas é muito singular. por um lado. mas refletiam. destinado as esferas públi- cas. a luta femi- nista por melhores condições de trabalho. buscaram através das teorias o resgate das lacunas epistemológicas e teóricas deixadas pela omissão da ciência tradicional a respeito das ati- vidades e histórias das mulheres.

O que a autora entende por sistema sexo/gênero é o conjunto de dispositivos socioculturais que dividem machos e fêmeas em duas categorias sociais incompletas uns sem os outros (RUBIN. Ortner afirma que definitivamente não escreveria novamente esse livro. suas obras trazem ele- mentos da Psicanálise e Antropologia. Analisando a obra de Chodorow. Os clássicos universalistas continuam com as obras de Sherry Ortner.Trabalho de Conclusão de Curso. Chodorow (1979) afirma que a questão da maternidade tem uma importância fundamental na estrutura familiar. próxima a figura materna. Outra autora clássica é Nancy Chodorow. A mãe compreende a filha como uma continuação de si mesma. A autora busca explicar a origem da subordinação feminina através do não rompimento da criança do sexo feminino com a mãe. mas seria capaz de impregnar com seu prestígio masculino as tarefas que executasse. Através da conjugação do construtivis- mo relativista e da universalidade da estrutura. se não em todas. 18 . representada pela mulher. sociedades conhecidas. a ruptura secundária acontece de maneira brusca. do trabalho privado. esta socialização da filha. No caso dos homens. A autora faz uma análise de gênero a partir de pressupostos es- truturalistas da oposição entre natureza e cultura. 2003). Fazendo uso das teori- as de Lévi-Strauss. o homem não só seria lócus de prestí- gio social. A autora também sustenta a relação entre masculinidade e prestígio social. Stolke (2004) afirma que a ausência de ruptura impede que haja um cor- te suficientemente esclarecedor entre identificação primária com a mãe e identificação secundária que origina a identidade de gênero. a mulher herda assim também a desvalorização da mãe e do trabalho privado despresti- giado. possibilitando a emergência do filho como ser independente. impede a emergência da mulher como ser autônomo (1979). como Gayle Rubin. a associação homem e cultura5. e por outro lado. chegaram a importantes reflexões através da união entre a perspectiva antropológi- ca estruturalista e a psicanálise. como uma matriz heterossexual do pensamento universal. Segato (1998) afirma que autoras. nas relações entre os sexos e nas divisões de trabalho dentro e fora de casa. objeto do trabalho transformador da cultura. A esfera pública é caracterizada por ser prestigiada na grande maioria. Rubin (2003) enuncia a “matriz sexo-gênero”. Ortner (1979) propõe como centro do seu modelo a relação entre mulher e natureza. pois na época estava sob efeito da onda do estruturalismo. 5 Em entrevista realizada por Guita Debert e Heloisa Almeida (2006). Nessa perspectiva o homem associado a cultura dominaria e domesticaria a natureza. Francine Pereira Rebelo .

Julliet Mitchel. Para Ru- bin. Segundo Conceição (2009). o gênero carece de um caráter analítico próprio e independente. Um dos legados dessa autora é a abertura das dimensões das teorias feministas de modo que estas não estejam confinadas as normas heterossexuais. o ponto central na teoria feminista marxista diz respeito a questão da divisão sexual do trabalho. Para esta autora existe uma importante relação entre o heterosse- xualismo obrigatório e a repressão a sexualidade das mulheres. 1. de parentesco e tabu. fazendo uma análise de Rubin. do co- lonialismo e do capitalismo. no qual prevalecia uma ordem igualitária que havia sido destruída com o advento da propriedade privada. outra perspectiva de análise teórica de gênero deve ser levada em considera- ção. Nessa perspectiva. entre outras. afirma que a partir do sistema sexo-gênero. nessa mesma perspectiva. o das teóricas feministas marxistas. nem o poder exercido pelos homens e nem a opressão so- frida pelas mulheres eram fenômenos universais. o tabu do incesto pressupõe previamente o tabu da homossexualida- de. Stolke (2004) afirma que é importante na obra de Rubin a análise desses conjuntos que a autora denomina como dispositivos so- cioculturais como: regras matrimoniais. os sistemas de parentesco pressupõem uma divisão heterossexual dos sexos. Zuleika Alambert. Branca Moreira Alves. entende -se gênero não apenas como uma identificação com o sexo . algumas encaravam a opressão de maneira excessivamente simplista e acreditavam que a opressão de gênero era um subproduto da opressão de 19 . mas também obrigatoriedade da canalização de desejo para o outro sexo.3 Marxismo e feminismo Além da perspectiva culturalista e do viés estruturalista. como He- leieth Saffioti. Mello e Bertelli (2005) afirmam que nos anos 1970 e 1980 muitas autoras relacionavam o capitalismo com o patriarcado. mas estavam de acordo com as relações de produção histórica e estritamente relacionados ao modelo econômico vigente e de produção capitalista.Trabalho de Conclusão de Curso. podendo ser analisado apenas em relação a outras categorias analíticas. Maria Pedro. De acordo com Stolke (2004). Francine Pereira Rebelo . Segundo Ortner (2006). Schwade (2008). Para essas teóricas. para algumas feministas marxistas havia um matriarcado original. entre as teóricas marxistas haviam diferentes maneiras de abordar a questão da mulher.

não traria automaticamente a resolução das desi- gualdades de gênero. Conceição (2009) afirma que até os anos 1970. assim como a igualdade de gênero. é. O movimento feminista. Esta perspectiva é apre- sentada principalmente na obra de Rubin (1975) intitulada “Tráfico de Mulheres”. não é “crer”. ou a supres- são do capitalismo. como classe. antes de tudo. transformar suas hipóteses provisórias em dogmas eternos. sua continuidade. dissociada da discussão sobre classe. Para Castro (2000). classe e que esta desapareceria com a revolução operária. A militante marxista e teórica Zuleika Alambert (1986) afirma que “tomar a sério a obra de Marx e En- gels. Francine Pereira Rebelo . tanto o feminismo quanto o marxismo questi- onam relações desiguais socialmente construídas. ou mesmo a de Lênin.Trabalho de Conclusão de Curso. p. Outra parte das teóricas acreditava na existência de sociedades igualitárias que teri- am sido pervertidas pelo surgimento da propriedade privada e do capita- lismo. os estudos feministas tinham como objeto central a mulher no singular. Rubin destaca que apesar das limitações da teoria marxista no que diz respeito a gênero e sexo. o paradigma marxista auxilia no avanço dos estudos de gênero. foi superada pela noção de que essa mulher singular só poderia existir em um plano ideológico e que gênero deveria ser pensado em articulação com outros elementos constitutivos das relações sociais.” (ALAMBERT. O que chama a atenção na evolução do pen- samento deles . não traria a igualdade econômica. etnia e raça. sua ampliação e sua a- bertura permanente para informações e problemas novos. 26). muitas vezes é considerado um movimento burguês e algu- mas feministas ignoram as relações entre classe e gênero e ao invés de 20 . universal. A noção de que existia uma mulher no singular. As teorias feministas baseadas em Marx foram responsáveis pela mudança do sujeito “mulher” para “mulheres”. Maria Pedro (2005) ressalta que o surgimento de uma nova organização social. 1986.

chega-se em alguns casos a desmontar a categoria mulher e com isso invalidar as lutas feministas que procuram transcender suas diferenças. Para a autora.Trabalho de Conclusão de Curso. uma forma estável de “mulher”. mas também nos dias de hoje. Castro (2000) afirma ainda que a relação entre feminismo e mar- xismo mostra-se importante tanto teoricamente quanto em termos de militância. buscarem novas formas de organização lutam por igualdade das condi- ções de competição e pela liberdade de sucesso no sistema capitalista. enquanto movimento social. necessitamos essencializar para dar unidade em torno dos problemas da mulher e consolidar uma plataforma para uma política que vigore através das sociedades.4 Reconhecimento da diversidade x busca por identidade Uma das contradições amplamente refletida e discutida pelas teó- ricas feministas. ambos se identificam como um movimento social por mudanças e a relação entre os movimentos e teorias seria fun- damental para o enriquecimento dessas perspectivas. Segato (1998) e Stolke (2004) concordam que ao mesmo tempo em que se buscam perspectivas não essencialistas e não determi- nadas biologicamente. Judith Butler. por outro lado. 1. não só da década de 1970. a vertente relativista do gênero. Tenho como objetivo mostrar como essas diferentes concepções compuseram de alguma forma as reflexões atuais sobre gê- nero e como apesar de enfoque diferenciados elas não são contraditórias entre si. em estudos mais recentes. também invalida-se a proposta feminista se negada a liberdade de optar baseada na indeterminação biológica do destino hu- mano. sob pena de uma análise incom- pleta dos caminhos e debates feministas além do não entendimento da trajetória histórica. problematiza a necessi- 21 . Francine Pereira Rebelo . necessita a afirmação de alguma entidade ou categoria social. como a obra intitulada “Problemas de gênero:feminismo e subversão”. dificulta a possibilidade de se falar de uma mulher. Algumas das contradições refletidas pelas teóricas feministas não podem deixar de serem expostas. Exponho a centralidade da ideia desses/as autores/as para que a compreensão do percurso do conceito de gênero e seus paradoxos seja facilitada. é que dada a compreensão do gênero como socialmente construí- do. O feminismo.

o preesta- belecimento de uma “identidade” não é capaz de tomar como objetivo normativo a expansão dos conceitos de identidade já existentes. Insistir a priori na formação de uma “unidade” da coalizão pressupõe que a soli- dariedade é um pré-requisito da ação política. as identidades podem ganhar vida e se 22 . ou seja. sociais e políticas em que é construído o “espectro concreto” das “mulheres”. não supõe-se que a “identidade” seja uma premissa mas que ela se realiza na prática nas reais formas e significa- dos da coalizão. esse gesto universalizante gerou críticas por parte das mulheres que afirmaram ser a categoria das “mulheres” excludente e normativa. outras ações concretas podem emergir. dade de uma unidade e da universalidade da identidade feminina e o- pressão masculina. Butler (2008) prossegue na reflexão questionando a necessidade de uma unidade para ação política efetiva e se não seria precisamente essa insistência prematura em buscar uma unidade a causa da fragmen- tação crescente das coalizões. a formulação de políticas de coalizão não implicam na pressuposição do conteúdo da noção de “mulheres”. Francine Pereira Rebelo . Butler afirma que se não estabelecidas. Para a autora a crítica feminista deve explorar as afirmações totalizantes da economia significante masculinista e ao mesmo tempo permanecer crítica as formas totalizantes do feminismo.Trabalho de Conclusão de Curso. esforços vêm sendo realizados para que um conjunto de encontros dialógicos no qual mulheres com diferen- tes posicionamentos articulem identidades separadas em uma estrutura de coalizão emergente. Os debates feministas atuais afirmam que as alegações universalistas baseiam-se em um ponto de vista epistemológico comum. nesse caso. A aceitação da fragmentação pode facili- tar a ação e isso ocorre porque a “unidade” da categoria de mulheres não é nem desejada e nem pressuposta. Levando em consideração que a articulação de uma identidade nos termos culturais instaura uma definição que impossibilita previamente o surgimento de novos conceitos de identidade. a autora afirma que é importante em encontrar a verdadeira forma do diá- logo e reconhecer quando a “unidade” foi ou não alcançada. Sem a instituição de uma “unidade” e sem a expectativa compulsória de um acordo estável . De acordo com Butler (2008). Nessa perspectiva. Não desconsiderando as implicações positivas dessas alianças táticas. a insistente busca pela coerência e unidade das mulheres omitiu interseções cultu- rais. superando o debate exclusivamente no nível conceitual e ampliando as reflexões para além das propostas de articula- ção da identidade.

Na perspectiva de Segato (1998). como é possível conciliar as perspecti- vas relativistas que referem-se as considerações culturais de gênero e as tendências universalizantes sobre hierarquias. onde poderia ser observado. seria possível a observação do masculino e feminino. A autora afirma acreditar que o gênero não é observável por seu caráter abstrato e por tratar-se de uma estrutura transvestida de significantes acessíveis aos sentidos. Francine Pereira Rebelo . Se o gênero faz parte. somos capazes de pensar estra- tégias para erradicá-la e finalmente pensar em uma sociedade não orien- tada por relações desiguais e hierárquicas? Segato (1998) afirma a impossibilidade de observação do gênero através de materiais etnográficos e questiona se seria o gênero observá- vel. Segato afirma que o pesquisador deve atentar-se principalmente para dois pontos. permitindo múlti- plas convergências e divergências e evitando a obediência a um telos normativo e definidor.Trabalho de Conclusão de Curso.5 Reflexões a respeito de alguns paradoxos feministas Retomando os paradoxos enfrentados pelas teóricas feministas e refletindo a partir da leitura de Segato (1998). nesse caso. Cabe ao etnógrafo/a. caso seja. mesmo esses não sendo realidades sociais concretas. mas apenas supor- tes onde os sujeitos ancoram suas identidades. o que as etnografias são capa- zes de observar é como o feminino e masculino se instanciam em cada interação social vivida ou relatada enquanto posições em uma estrutura relacional. garantiria identidades instituídas e abandonadas. como categoria. quais seriam os critérios de avaliação do caráter hierárquico ou igualitário que ele assume em de- terminado espaço. dissolver. 1. sem identidades pré afirma- das. Se realmente essa estrutu- ra que orienta essa universalidade existe. No que diz respeito às formas de circulação. desvendar os processos de circulação ocultos pelas re- presentações que reproduzem e estabelecem posições supostamente de- terminantes nas quais ele/a deve elucidar elementos presentes na consti- tuição do sujeito. de um modelo estável é nos seus processos de instanciação que sua instabilidade aparece. uma coalizão aberta. problematizo uma questão central para o debate de gênero. mas mascarados pelas representações dominantes de gênero. Primeira- 23 . mas não reduzida a estes.

Em segundo lugar. nunca imutável. Francine Pereira Rebelo . de Fou- cault. as teóricas passam a analisar as relações de gênero em seu contexto histórico e cultural concreto. o reconhecimento pela morfologia do sexofemi- nino. Stolke (2004) atenta que as análises de gênero. ou seja. considerada uma categoria biológica e natural. é importante destacar que até meados da década de 1980. início dos anos 90.Trabalho de Conclusão de Curso. sofisticam-se as análises de gênero. que as teorias feminis- tas passam a compreender o sexo de maneira dissociada do gênero. Retomando a obra de Stolke (2004) e o processo histórico de conceituações do termo gênero. foi publicado em inglês no em 1978. categoria não dissociada do gênero. 1. a necessidade de reconhecimento das oscilações do sujeito no decorrer do tempo e de como este se insere nas relações. distinto de sexo. De acordo com Rubin (2003). Grossi (1998) afirma que apesar dos avanços nesse período em relação aos es- tudos de mulheres. No início dos anos 1980. as formas de transposição do gênero tornando-se concreto através das experiências do sujeito. nos universos de interação em que se inserem sucessivamente os sujeitos. esse momento foi de emergência dos estudos tra- tando dessa temática. mente. ou seja. No primeiro volume de “História da sexualidade”. também seria a categoria „sexo‟ socialmente construída? No que diz respeito aos estudos sobre sexualidades. ainda é comum a referência a uma unidade biológica das mulheres. posições institucionais e como se posiciona perante determina- das categorias e vocabulários próprios. em outras palavras. para as teorias feministas. ao invés de tomar como 24 . o conceito de gênero ainda era entendido como uma categoria socialmente construída. plural e mista do sujeito a respeito de co- mo é composto o gênero e o trânsito frequente das suas vivências interi- ores. é atribuído a este teórico vários importantes estudos no campo das Sexualidades. O livro “História da Sexualidade” (1998). al- gumas feministas passam a explicar a condição das mulheres em função de alguma atividade ou característica feminina transcultural. a possibilidade aberta.6 Além do gênero. a entrada. Foucault (1988) faz um traçado histórico da emergência da repressão sexual e analisa os aparatos criados para assegurar essa repressão É no final dos anos 80.

emergem discussões e novos paradigmas essenciais para a atual discussão no campo de gênero. Butler (2008). esclarecem que acei- tar o sexo como biológico e não como mais uma construção social é aceitar que a identidade ou a essência são expressões e não um sentido do sujeito em si. não intenta destruir ou negar as teorias feministas anteriores.. Isso significa que o gênero não expressa uma essência interior de quem somos. deveriam iniciar questionando as raízes biológicas dos conceitos de gênero.Trabalho de Conclusão de Curso. finalmente. dadas as categorias de sexo. e. apesar de sua crítica ao dualismo sexo/gênero. Em uma entrevista (BUTLER. Scott (2011) e Butler concordam que nesse modelo biná- rio. Francine Pereira Rebelo . através da introdução da teoria conhecida por teoria performativa. é uma mutável e histórica ins- tituição social ” (2006). Eu também penso que o gênero é vivido como uma in- terpretação. 25 . ou um jogo de interpretações do corpo. confronta a estabilidade das identidades de gênero. independentemente da elaboração cultural particular. Stolke (2004) afirma que Butler. 2006) com a americana. mas o gênero torna-se o destino. tenho argumentado que gênero é per- formativo. a autora trans- forma radicalmente a problemática feminista clássica. dentre as teóricas mais recentes me baseio principalmente na obra de Judith Butler (2008). é responsável por uma verdadeira inversão nos conceitos de sexo e gênero. afirma que: “. mas fazer uma desconstrução. A partir dos anos 90. não o sexo. Stolke (2004) afirma que Butler. quando questio- nada sobre o que é gênero.. Influenciada pelas obras de Foucault sobre sexualidades. unindo o anti-essencialismo fe- minista e a teoria prática. essa data é importante para mudanças das teorias feministas dada a crescente insatisfação antropológica com o estruturalismo e evolucionismo. que não é restrita a dois. mas é constituído por um rituali- zado jogo de práticas que produzem o e- feito de uma essência interior. e isso. considerando a relevância do caráter discursivo da sexualidade e do gênero. Para autora.

Por sua vez. o gênero é um efeito discursivo e o sexo é um efeito do gênero. Como expus anteriormente. Nessa perspectiva não entende-se o gênero como algo que se é.Trabalho de Conclusão de Curso. utilizo principalmente Foucault. nesse caso. classe. Francine Pereira Rebelo . A autora compreende por gênero discursivo as consequências de um conjunto de práticas re- guladoras da identidade de gênero que se tornam estáveis através da heterossexualidade obrigatória. aponta- do por Butler. Para Butler (2008) é fundamental que a crítica feminista compre- enda que se alguém é mulher isso não é tudo que alguém é. Nessa perspectiva. mas se encontram em um processo permanente de constru- ção e de ressignificação. Tal campo não deve ser omitido em uma pesquisa que visa esclarecer os desdobramentos do gê- nero e para tal. as consequências dessas práticas reguladoras resultariam no ritualizado jogo de práticas. autor que contribui teo- 26 . Como afirmei anteriormente. o gênero deve estar sempre em diálogo com identidades discursivamente construídas a partir da interseção com outras categorias – como raça. Para a compreensão da teoria de Butler é importante entender que a categoria “mulheres” é discursivamente construída e que é necessário que a crítica feminista compreenda que essa categoria é produto das mesmas estruturas de poder que as reprimem e pelas quais se busca a emancipação. A teoria performativa da autora não tem como objetivo principal analisar como o sistema sexo/gênero constrói suas identidades através de um conjunto de normas reguladoras. A autora argumenta que o próprio sujeito das mulheres não é mais compreendido em termos estáveis e imutáveis e problematiza questionando o que constitui a categoria “mulheres” e “feminino”. Schwade (2010) afirma que o sujeito “mulheres” não deve ser presumido. mas sim atentar para as ambiva- lências e multiplicidades que emergem da formação da subjetividade e das práticas. Ao concordar que a análise de gênero deve sempre vir acompanhada de outras categorias de análise. 2008) considera o gê- nero mutável e afirma que a identidade feminina e masculina nunca são completas. Butler (2006. Segundo a teoria performativa de Butler (2008). como a vivência do gênero. etnia e região. mas compreendido em sua forma- ção no interior de um campo de poder . a teoria de Butler con- corda com as teóricas marxistas. mas como algo que se faz. o campo dos estudos de gênero não está desligado dos estudos sobre sexualidades.

Francine Pereira Rebelo - Trabalho de Conclusão de Curso.

ricamente para construção da obra de Butler. Para Foucault (1998), a
história da sexualidade é a historia dos discursos.
Foucault (1998) afirma que o discurso articula saber e poder, o
próprio discurso é produtor de poder. No livro “História da Sexualida-
des”, o autor mostra como historicamente constitui-se uma aparelhagem
de produção dos discursos e como o sexo, através da circulação dos dis-
cursos e do próprio silêncio, é regulado por meio de discursos públicos e
úteis. Foucault afirma que o discurso sobre sexo é apropriado pelo Esta-
do e passa a servir como dispositivo de controle do Estado sobre os in-
divíduos. Ele entende que a sexualidade não é o elemento mais rígido
nas relações de poder, mas é um dos dotados de maior instrumentalidade
e possibilita o maior número de manobras.
Para o autor, sexualidade é uma rede em que a estimulação dos
corpos, intensificação dos prazeres, incitação ao discurso, reforço das
resistências e controle se relacionam com estratégias de poder. Foucault
afirma que onde existe poder há resistência e usa o termo “resistências”
no plural, não como um foco único. A distribuição do poder acontece de
maneira irregular, são os nós dessa rede que impedem o livre fluxo do
poder. É bastante comum que esses pontos sejam pontos de resistência
transitórios e móveis.
Procuro compreender nessa pesquisa como essas redes de poder
se articulam nos casos das motoristas de caminhão, se existem e como
funcionam os mecanismos de controles dos corpos e qual a relação des-
tes com as perspectivas de gênero. Essas mulheres podem ser teorica-
mente compreendidas como pontos de resistências, e mais importante,
elas se compreendem como pontos de resistência?
Retornando e finalizando a discussão sobre gênero, trago a con-
cepção de Miguel Vale de Almeida (2004), autor contemporâneo que
trabalha na mesma perspectiva de gênero que Butler. O antropólogo
afirma que tanto o corpo sexuado como o individuo com gênero são re-
sultados de processos de construção histórica e cultural. Por esse moti-
vo, ele opta por não utilizar noções como papel sexual ou de gênero e
acredita que assim evita o valor implícito da dicotomia sexo/gênero.
Para explicitar as relações de gênero, o autor utiliza a concepção de or-
dem de gênero, definindo-as como um padrão historicamente construí-
do, de relações de poder entre homens e mulheres e definições de femi-
nilidade. Vale de Almeida afirma que feminino e masculino não são
dicotômicos, mas sim avaliações morais assimétricas. O autor também
defende a mutabilidade das categorias e das relações de gênero.
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Francine Pereira Rebelo - Trabalho de Conclusão de Curso.

Assim como Butler e Vale de Almeida, não acredito que é neces-
sária para a análise de sexo e gênero, a imposição de uma falsa estabili-
dade desses termos, impossibilitando assim a compreensão das descon-
tinuidades práticas e das identidades de gênero. Aceitada a mutabilidade
do gênero, pretendo através da análise dos processos de construção e
ressignificação, no contexto específico das mulheres motoristas de ca-
minhão, expor e compreender as práticas que regulam esse espaço femi-
nino e suas implicações para a inserção dessas mulheres nesse espaço.
A partir da análise de Butler (2008) que entende gênero como al-
go que se faz e não como algo que se é, acredito que é principalmente
através da exposição da vivência no campo e das práticas das mulheres
motoristas que eu conseguirei expor o que entendendo quando falo de
mulheres caminhoneiras e que mesmo afirmando o conceito de mulheres
para essa pesquisa e identificando a multiplicidade e ambivalências a-
presentadas nesse contexto observável específico, esse conceito está
frequentemente em movimento e é passível de diferentes análises.

1.7 O que foi (e o que não foi) escrito sobre mulheres
caminhoneiras?

Dos trabalhos acadêmicos que encontrei na plataforma do Scielo,
a maioria dizia respeito à saúde dos motoristas de caminhão, alguns tra-
balhos nas Ciências Sociais na área abordavam mais predominantemen-
te a temática do HIV e/ou prostituição infantil. Dentre essas pesquisas,
todas haviam sido realizadas com caminhoneiros homens, através de
entrevistas, ou na residência do motorista, nenhum campo havia sido
feito através de viagens acompanhando esses profissionais. Exceto por
um trabalho de doutorado na Sociologia, do ano de 2002, em que a pes-
quisadora do sexo feminino pesquisou profissionais do transporte, den-
tre os seus/suas informantes caminhoneiros/as, 17 eram homens e quatro
mulheres. A pesquisadora, Luciane dos Santos, realizou entrevistas ma-
joritariamente em postos de gasolina e durante sua pesquisa de campo,
viajou por oito dias com duas motoristas que trabalhavam juntas.
Em sua obra, Santos (2002) analisa principalmente a questão da
vida e trabalho desses/as profissionais. Referente as questões de gênero,
Santos destaca que a presença de mulheres no setor de transporte de
cargas vem tornando-se cada vez mais comum, apesar de ser ainda pou-
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Francine Pereira Rebelo - Trabalho de Conclusão de Curso.

co expressiva se comparada ao número total de caminhoneiros. Apesar
de marcadamente masculinizados, a autora afirma que outros setores do
transporte também apresentam mudanças, sendo crescente o apareci-
mento de mulheres taxistas, motoristas de ônibus, operadoras de trens e
aeronautas.
Através de um resgate histórico, Santos (2002) mostra que a le-
gislação de 1932 proibia que mulheres exercessem trabalho noturno e
atividades consideradas insalubres ou que exigissem atenção e cautela.
Nessa mesma perspectiva, o Estado era defensor da instituição familiar,
incentivando a maternidade e valorizando o patriarcado. É a partir de
1943, com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que o trabalho
noturno passa a ser permitido às mulheres maiores de 18 anos e ainda
com restrições do exercício de algumas funções.
A campanha que restringia o acesso das mulheres aos espaços
públicos era feita não só pelo Estado, Santos (2002) afirma que a identi-
ficação de mulheres como naturalmente responsáveis pelos filhos e a
frequente atribuição de “qualidades naturais” como dóceis, delicadas e
passivas, eram fatores fundamentais para o afastamento das mulheres
das esferas públicas. Quando não afastadas completamente, as mulheres
tinham suas atividades restritas por essas características naturais.
A primeira mulher caminhoneira do Brasil que se tem registro
chamava-se Neiva Zelaya. Ela foi a portadora da primeira carteira de
habilitação profissional concedida a uma mulher no país. Neiva Zelaya,
nasceu em Propriá –SE e viveu a maior parte da vida em Ceres – GO,
tornou-se viúva em 1948, aos 23 anos , com quatro filhos foi obrigada a
lutar pelo sustento da família. Inicialmente foi proprietária de um labo-
ratório fotográfico, porém, por consequência de uma tuberculose foi
recomendada pelo médico a trocar de profissão. Aprendeu, então, a diri-
gir caminhão. Santos afirma que a profissão, ao contrário do que propa-
gava o discurso moralista vigente, não atrapalhou o cuidado com os fi-
lhos. Curiosamente, Zelaya é conhecida principalmente por ser fundado-
ra de uma união espírita conhecida por Vale do Amanhecer 6. Na pes-
quisa realizada na internet, é destacado o amor e cuidado de „Tia Neiva‟
com crianças de um orfanato, mantido por ela própria. As fotos7 mos-

6
De acordo com pesquisas realizadas na internet, Vale do Amanhecer é uma doutri-
na espiritualista cristã fundada em 1959, criada para abrigar a Doutrina do Amanhecer, pela
médium clarividente Tia Neiva.
7
Optei por não colocar as fotos devido a má qualidade de grande parte das imagens.
A maioria das fotos encontradas online relaciona Neiva Zelaya a suas atividades nos templos
espíritas.
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uma empresa de trans- porte 9conhecida pelo grande número de mulheres funcionárias.br/content/146. Através de publicação do presidente da Braspress8 (SANTOS. ela é mais cuidadosa‟10. Milton Braga. não desconstroem as naturalizações das diferenças de gênero. por natureza. Francine Pereira Rebelo . mas reforçam a ideia de que essas mulheres são exceções por apresentarem um „instinto masculino‟. as motoristas são identificadas como “trabalhadoras diferenciadas”. invisibilidade das motoristas. Santos aponta que a apresentação dessas características. independência e vigor físico fazem parte das representações dessas profissionais. ao mesmo tempo em que são reconhecidas como por- tadoras de um “instinto natural”. Essa percepção decorre da incorporação de atributos entendidos como natu- rais dos homens para o exercício dessa profissão. Por outro lado.braspress. trabalhando em turnos específicos. através 8 O trabalho de Santos traz trechos de uma declaração de Urubatan Helou. Santos aborda alguns aspectos principais como características masculinas e fe- mininas. Na parte de sua obra que trata das mulheres motoristas. a Braspress atualmente emprega 757 motoristas. sendo que 264 são motoristas do sexo feminino. vaidade. competitividade. Perpassando esses pontos de reflexão. coragem. Fonte: Rede TV – Leitura Dinâmica – 08/03/11 30 . A maioria dessas motoristas não viaja longas distâncias. usando vestido. Santos afirma que: Ao desempenharem uma atividade mascu- lina. Santos considera que as características atribuídas às mulheres também são fatores de diferenciação. 10 Disponível on-line: http://www. Zelaya ainda foi motorista de ônibus e repórter em um jornal. diretor de Recursos Humanos da Braspress afirma em uma entre- vista que a „mulher é mais calma.Trabalho de Conclusão de Curso. 9 De acordo com informações do site oficial da empresa. A autora afirma que a caminho- neira frequentemente é vista como não feminina ou masculinizada.com. Características como autoconfiança. brincos e maquia- gens. vin- do a falecer em 1985. tram a motorista de cabelos longos. paciência e atenção. 2002). novos arranjos familia- res e redes de ajuda. pode- mos notar que a contratação de mulheres é „justificada‟ por suas caracte- rísticas femininas como maior cuidado. presidente e diretor da Braspress em 1999. tidas como masculinas em uma mu- lher. a pesquisa- dora analisa a questão do preconceito.

tias ou irmãs. p. a atenção à aparência é algo presente no cotidiano das mulheres motoristas. realizam viagens com o conhecimento da empresa. do qual se revelam pelas características do eu-feminino: cuidadosas. 211). Com objetivo de exemplificar a predominância masculina no setor a autora traz um gráfico mostrando a participação feminina de mulheres no setor do transporte em relação à região geográ- 31 . Santos aponta ainda a questão dos novos arranjos familiares possibilitados aos casos de motoristas que viajam longa distâncias. Santos destaca dois aspectos centrais. p. Sobre família. atenciosas e dedicadas (2002. Primeira- mente. as mulheres abandonem sua femi- nilidade”. a questão da invisibilidade das mulheres na profissão. já que é evidente a maior produtividade do casal do que dos motoristas que viajam sozinhos. Para a autora (2002. Em outros trabalhos como o de Leal (2008) a questão da mulher caminhoneira é referenciada apenas a respeito da participação feminina no setor de transporte. 215). não sendo formalmente contratadas ou tendo seus direi- tos trabalhistas reconhecidos. Santos (2002) destaca em sua obra a questão da vaidade. a pesquisadora afirma que as motoristas que deixam os filhos em casa recorrem a uma rede de ajuda formada principalmente por outras mulheres da família. responsáveis. Francine Pereira Rebelo . É notório na pesquisa de Santos que apesar das condições de trabalho dificultarem os cuidados pessoais. mas mesmo assim são invisibilizadas. “trata-se de uma concepção equivocada de que ao realizarem um “trabalho masculino”. motoristas que viajam junto com os maridos.Trabalho de Conclusão de Curso. avó. ou seja. por exemplo.

A autora apresenta as mulheres dos motoristas como diferen- ciadas por serem as principais responsáveis pelas decisões no lar e pela criação dos filhos. Rosa (2006). familiares de motoristas. a pesquisadora buscou perceber a relação do motorista com a família e o significado de ser esposa de um cami- nhoneiro. A obra de Santos trata também de mulheres que tem relação com os caminhoneiros. trata especificamente da relação entre HIV/AIDS entre os motoris- tas. Figura 1 . funcionárias de posto e fun- cionárias de transportadoras. assim como grande parte dos trabalhos sobre caminhonei- ros. aborda principalmente a mu- lher como esposa do motorista. Mesmo nas pesquisas que abordam o uni- 32 . fica. Santos traz em sua obra uma análise a respeito de um clube das mulheres dos caminhoneiros criado em Santa Rosa do Sul .Trabalho de Conclusão de Curso.Participação feminina de mulheres no setor do trans- porte em relação à região geográfica. principalmente nos períodos de ausência do marido. A invisibilidade das mulheres motoristas é notória no que se refe- re a publicações acadêmicas. (LEAL. Francine Pereira Rebelo . 2008) Leal. mas que não são motoristas.SC em 1995. na mesma perspectiva. Através de entrevistas realizadas com as mulheres dos caminhoneiros. as mulheres aparecem principalmente como profis- sionais do sexo. Em seu trabalho. O clube tem como objetivo compartilhamento de experiências entre as esposas.

a referência as caminhoneiras é mí- nima ou mesmo inexistente. Ainda que a pouca representatividade quan- titativa das mulheres motoristas possa servir de „justificativa‟ para essa invisibilização. deixam a desejar no que se refere à compreensão do gêne- ro como categoria de análise. verso dos motoristas de caminhão. acredito que o papel de coadjuvante e a frequente análise das mulheres em relação aos motoristas nessas obras. 33 .Trabalho de Conclusão de Curso. quando não pro- blematizadas. Francine Pereira Rebelo .

apesar da paixão por caminhão que as levavam a participar das comunidades vir- tuais. contendo fotos. Essa plataforma virtual se autode- fine como uma “comunidade on-line que conecta pessoas através de uma rede de amigos confiáveis”. por entrar em contato com mulheres que tinham no seu perfil fotos ao lado de caminhão ou dirigindo. Dentro dessas comunidades existem partici- pantes que se interessam pelo assunto. considero relevante recuperar alguns dados de suas trajetórias. Mas só integraram-se a pesquisa aquelas que se dispuseram a colaborar com o trabalho. principalmente as comunidades “Mu- lheres caminhoneiras”. Antes de iniciar a descrição do campo. Pretendo ainda justificar determi- nadas escolhas metodológicas e refletir eticamente a respeito da pesqui- sa. De onde elas vêm? Como as encontrei? Quais são os espaços pelos quais elas circulam? Essa circulação pode ser virtual? A princípio. outras não me responderam e algumas.1 Navegando e viajando pelo campo. me disseram que não dirigiam. comecei o contato com elas: umas me responde- ram e foram solícitas. “Mulheres que dirigem caminhão” e “Mulheres carreteiras”. Nessas “páginas pessoais”. mulheres motoristas de cami- nhão. Este capítulo tem como objetivo apresentar a metodologia utili- zada para construção desse trabalho. para participação é necessária a adição/filiação dos participantes do Orkut. A partir dessa primeira seleção. via Orkut que tratam da temática de mulheres que dirigem caminhão. existe um espaço chamado “minhas comunidades”. Esses espaços são elabora- dos pelos próprios participantes e com assuntos muito variados. vídeos e informações pessoais no qual as interações são possíveis. Como bem des- creveu Paula Pinhal de Carlos (2010) nesse espaço. Optei. Francine Pereira Rebelo . CAPÍTULO 2 – M E TO D O L O G I A E D E S C R I Ç Ã O D O C A M P O 2. então. cria-se um perfil. foram convidadas a participar da pesquisa partici- pantes das comunidades online. mas que efetivamente não diri- gem caminhão. Como mostra o estudo de Jean Segata (2008) dentro desses espaços existem os 34 .Trabalho de Conclusão de Curso. tendo como foco os perfis. O Orkut é uma rede social da internet que possibilita o contato entre pessoas que se conhecem pessoalmente e com outras que se inte- ressam pelo mesmo tema que constitui a comunidade.

. “ Sou mulher. Carlos 2010 afirma que através do Orkut e da participação em de- terminadas comunidades. onde podemos verificar que as comunidades que a motorista pertence tratam explicitamente so- bre caminhão. traços da personalidade do/a internauta podem ser desvendadas. di- rijo carreta”. considero importante destacar que no acesso aos perfis dessas mulheres motoristas percebi que através do Orkut várias delas exaltam a paixão pela profis- são. A autora entende que o Orkut consiste em uma forma de reprodução de si mesmo no mundo virtual. Abaixo trago uma cap- tura de tela do Orkut de uma das informantes. Francine Pereira Rebelo .”. fóruns.Trabalho de Conclusão de Curso. “Serei caminhoneiro até quando.. por exemplo “Eu amo caminhão”. a maioria das comunidades que essas mulheres participam diz res- peito a caminhões. locais de debate para uma espécie de subtemas do tema principal que é o título da comunidade.Captura de tela do orkut de uma das informantes.11 11 Retirado dia 19 de maio de 2011 da rede social Orkut© 35 . Figura 2 . Desse modo.

notei que muitas delas escreviam antes do nome a sigla “Qra”. No álbum de fotos das caminhoneiras também podemos encontrar várias fotos falando do modelo do caminhão.. Descobri que nem sempre o Qra é acompanhado pelo nome. E assim continuarei até que meus músculos não mais consigam dominar a má- quina e meus olhos não mais consigam en- xergar as pistas. passei a procurar as informan- tes que participavam das comunidades citadas e que também tinham o 'Qra' no nome apresentado no perfil. Ao entrar em contato com as mulheres. outras colocam no próprio perfil “Sou apaixonada pela minha família e por caminhões” ou então: “Poderia ser Médica. mas. (Trecho retirado da des- crição do perfil do Orkut de uma das moto- ristas pesquisadas no dia 19/05/2011). chamando o caminhão de “lindo”. o mesmo utilizado no PX. algumas me adi- 36 . pesquisei na internet o significado e descobri que “Qra” servia para homens e mulheres e significava quem é o operador do rádio PX ou quem está falando. Após perceber que o 'Qra' representava um elemento 'restrito' ao universo dos/as motoristas de caminhão. dessa maneira elas passariam a ter acesso completo ao meu perfil e álbum de fotos. A maioria dos perfis não permite que se deixem recados a uma pessoa que não esteja na rede de amizades da outra. é possível escrever uma mensagem com no máximo 100 caracteres. muitas vezes é o apelido. professo- ra. através da soli- citação de amizade. por hereditariedade. Caminhão e Orkut se misturavam e foi através dessa rede social que alguns elementos do campo emergiram para mim. Engenheira..”. que identifica quem são as motoristas. nasci cami- nhoneira. enviava convites de amizade. logo. Foi através desses 100 caracteres que tentei explicar re- sumidamente a pesquisa para muitas caminhoneiras. Reconhecendo as motoristas.Trabalho de Conclusão de Curso. eu também poderia deixar recados para elas e tentar explicar a pesquisa. Após notar a recor- rência de mulheres com a sigla. Referências ao caminhão são comuns nos perfis e no próprio no- me das motoristas. Francine Pereira Rebelo .

Francine Pereira Rebelo . Nesta situação me vi obrigada a repensar as questões éticas envolvidas em pesquisas através de redes sociais. universaliza e normativa a prática de pesquisa. se haviam me respondido com o telefone delas ou pelo menos com o e-mail. discutem questões práticas e princi- palmente a utilização do consentimento informado. nesse tempo. chegando a perguntar se eu estava pedindo o seu número de telefone para prejudicá-la de alguma maneira. o que mostrou que as redes sociais são hoje um importante espaço de pesquisa. outras se mostraram imediatamente solícitas e disponibilizaram seus endereços – e-mail ou messenger – para facilitar o contato. O termo de consentimento informado representa uma manifestação expressa e assinada pelo infor- mante nas pesquisas. Contraditoriamente ao que pareceu no momento dos contatos na internet. a respeito da questão ética e da pesquisa com seres humanos. estabele- ce regras sobre consentimento informado. verificava com frequência o Orkut para saber se elas tinham me adicionado. Como eu as encontraria? Felizmente não tive que buscar outra solu- ção já que depois de mais ou menos dois meses tinha uma rede de conta- tos por telefone por volta de dez motoristas.Trabalho de Conclusão de Curso. Primeiramente no que se refere negociação da identidade do pesquisador no campo e segundo no momento da divulgação dos resultados da pesquisa. como Ciências Sociais. O termo é uma prática de pesquisas em área de saúde que estendeu-se para outras áreas. o consentimento informado é problemático. uma das motoris- tas que mais me ajudou durante a pesquisa de campo nas estradas foi a que mais mostrou resistência em disponibilizar o contato telefônico. no que faria se nenhuma me desse retor- no. Quando o an- 12 CONEP é um órgão atrelado ao Ministério da Saúde que ordena em geral as regras da pesquisa em seres humanos. ao impor uma visão bi- omédica. pois. Roberto Cardoso de Oliveira (2004). o CONEP12 (Conselho Nacional de Ética na Pesquisa). Roberto Cardoso de Oliveira (2004) aponta dois aspectos princi- pais das dificuldades encontradas pelo/a antropólogo/a devido ao con- sentimento informado proposto pelo CONEP. Alcida Rita Ramos (2004) e Luis Roberto Cardoso de Oliveira (2004). Segundo Heilborn (2004). 37 . Entre esse processo e o contato por telefone com as motoristas houve um intervalo de no mínimo um mês. Pensei muitas vezes sobre a eficácia da metodologia de pesquisa através de redes sociais e principalmente. No primeiro caso. cionaram nas suas redes de amizade mas nunca responderam meus reca- dos.

Apesar de não ter feito uso do termo de consentimento. principalmente por considerar a discussão sobre o assunto suficiente. Francine Pereira Rebelo . Desde a elabo- ração do projeto. porém. Um deles. Além do Orkut. 38 .Trabalho de Conclusão de Curso. Frequentemente. concordo com Debert (2004) que a- firma que um código não substitui o bom senso13. o objeto teórico da pesquisa é redefi- nido após a pesquisa de campo. a preocupação ética e princi- palmente com as informantes foram sempre levadas em consideração. O Orkut. ex-funcionário de uma trans- portadora em Jacareí. Debert destaca a importância de que um código de ética não imponha a todas as disciplinas parâmetros específicos exclusivos da pesquisa em certas áreas disciplinares. Entendo que as recentes discussões sobre o uso do Orkut como campo de estudos através dos debates sobre Antropologia do Ciberespa- ço. o antropólogo é impossibilitado de resgatar algumas de suas experiências existenciais no campo para pensar posteriormente interpretações que não havia pensado durante o campo. que me aju- daram de diferentes maneiras. Nessa pesquisa a questão ética foi sempre central. os sujeitos de pesquisa têm de ser informados sobre quais intervenções estão sujei- tos e do que se trata a pesquisa. mesmo não constituindo campo central nessa pesquisa. foi uma eficiente ferramenta de localização e contato com essas profissionais e foi através da relação virtual com uma delas que se abriu a possibilidade de encontro com várias outras. as discussões durante a viagem seriam utili- zadas na pesquisa. Nesse sentido. a defesa na banca de qualificação e através de diversas conversas com a orientadora da pesquisa. contei com a ajuda de dois amigos. autor afirma que do ponto de vista da produção antropológica não é produtivo uma definição bem amarrada e conclusiva formulada no início da pesquisa. No segundo ponto. são relevantes na medida em que esse é um dos espaços pelo quais as caminhoneiras se sociabilizam e constituem suas redes de amizade. o antropólogo sempre tem mais de uma identidade no seu campo e com essa normatização. tropólogo faz uma pesquisa de campo tem que negociar sua identidade e sua inserção na comunidade. buscou entre os motoristas que conhecia e na pró- pria transportadora que havia trabalhado por alguns anos mulheres ca- minhoneiras ou alguém que as conhecesse. de acordo com a resolução. sempre busquei deixar claro entre as caminhoneiras qual era o meu papel durante as via- gens e relembrá-las que mesmo não gravando e mesmo que elas não me vissem fazendo anotações. Apesar da busca esse amigo 13 A autora reconhece o caráter de proteção que um código de ética oferece aos pes- quisadores e a comunidade científica.

Dentre as motoristas que tive contato por telefone. não encontrou ninguém. funcionário de um posto de fisca- lização. Foi a partir dessa indicação. Através do contato por telefone. nenhum/a pesquisador/a deve acreditar que o campo sairá perfeitamente como programado.Trabalho de Conclusão de Curso. porém. Por isto passei a procurá-las com certa frequência. 39 . Nesse caso. pois eu começava fazendo referência a quem tinha me disponibilizado o contato. Neste momento era muito importante que as motoristas não se esquecessem que eu estava à espera de suas ligações. Outro amigo. elas precisavam entrar em contato quando estivessem em Florianópolis para que pudéssemos nos encontrar. Percebi que minha insistência poderia ser inoportuna ou irritantemente insistente. de uma das mo- toristas e do contato que ela me disponibilizou. Problemas familiares. a rotina de trabalho. Os im- ponderáveis da vida real14. Não bastava que elas me ligassem. eu solicitava possíveis outros contatos. muitas não faziam trajetos que passassem por Florianópolis o que limitava meu acesso a elas. Muitas vezes eu ligava perguntando por onde estavam e se tinham previsão de passar em Florianópolis. órgão responsável por conferir as notas referentes as cargas. Entre os imponderáveis estão. mas não muito insistentemente. dificultaram muitas vezes o acesso ao cam- po. explicou a pesquisa a ela e pediu seu contato. foram problemas frequentes neste momento de busca por informantes. Como sabia do meu trabalho. que pude viajar com a segunda informante. por exemplo. Mas também sabia que não po- deria ficar muito tempo sem procurá-las para que elas não achassem que eu tinha terminado a pesquisa ou desistido. Foi necessário muitas vezes que eu buscasse meu próprio equilíbrio e que aplacasse a minha ansiedade de procurá-las exageradamente. 14 Pude entender concretamente em minha pesquisa este conceito cunhado por Mali- nowski nos Argonatuas do Pacífico Central (1978). Assim como Geertz (1989) teve que fugir da polícia durante a ob- servação de uma briga de galos em Bali. Francine Pereira Rebelo . defeitos no caminhão. motivos familiares a afastaram da profissão por algum tempo. O termo se refere ao conjunto de fenôme- nos relevantes que devem ser compreendidos e observados em sua plena realidade e não em documentos ou através de perguntas. Mantive contato com essa motorista por telefone por mais de dois meses. falta de respostas por telefone dado os diferentes horários de descanso delas ou falta de res- posta por falta de crédito no telefone. a ligação se tornava mais simples e aberta por par- te da motorista. autuou em um dos seus expedientes uma caminhoneira.

razão inicial deste projeto de pesquisa. O fato de termos nos conhecido pessoalmente. O acesso a ela foi feito através do meu pai e apesar do aviso de que ela era completamente livre para não participar da pesquisa. A primeira motorista com quem viajei foi a motorista funcionária da empresa de minha família. portanto não despertar tanta desconfiança e possibilitar maior abertura das motoristas. Esta frase se refere ao pouco período em que permanecem em suas casas e a ideia de que por viajarem sempre. Essa mesma motorista relatou-me depois da nossa viagem que antes de me conhecer tinha pensado em me revistar antes que eu entrasse no caminhão. 2006).Trabalho de Conclusão de Curso. por se tratar de uma população que tem residência fixa. nesse caso. não é nômade. Foi principalmente a segunda informante a responsável pelo con- tato com diversas outras. mas por encontros casuais. Ramos (2008). em que um/a entrevistado/a indica outros/as. com a vantagem prévia de já ser conhecida e. Boissevain (1974) entende que através desse método é possível o acio- namento de uma maior rede de contatos. É comumente atribuída aos caminhoneiros/as a seguinte frase: “Mo- ro no mundo e passeio em casa” (SANTOS. no chamado efeito „ bola de neve‟. Macrae (2011) explica esse método como sendo a apresentação de um sujeito que se qualifique para a pesquisa por um outro que já tenha participado. acredito que essa não tenha sido uma preocupação da motorista. No que diz respeito à limitação geográfica da pesquisa e ao espa- ço. Algumas das caminhoneiras acompanhadas che- gam a ficar de dois a três meses sem retornar as suas casas. 2006). o acesso a ela foi muito mais fácil. facilitava a indicação. mas proporcio- nalmente o tempo que ficam em casa é inferior ao tempo que estão na estrada (ROSA. pois esse espaço configura-se como um local de convívio social (ROSA. Essa motorista conhecia outras profissionais. em seu trabalho sobre povos yanomamis. afirma que o termo nomadismo muitas vezes 40 . De acordo com ela. eu era a primeira pes- soa desconhecida com quem ela viajava. O tempo que essas profissionais ficam sem retornar depende da dinâmica do empre- go. Francine Pereira Rebelo . consideram outros espaços como lar. fui levada a refletir sobre alguns pontos relevantes. O morar na estrada tem para os caminhoneiros um importante significa- do. 2002. intitula- do “O paraíso ameaçado”. ROSA. Creio que grande parte do receio das motoristas era referente à questão de segurança. fato que facilitou sua solicitude. 2006). não tendo o contato de nenhuma outra caminhoneira. A partir desse contato outros se estabeleceram.

mas nascida na região Nordeste. A partir dessa reflexão sobre o “nomadismo” do grupo estudado me questionei sobre. Nesse caso. Destaco a importância dessa discussão. sendo três de Santa Catarina e uma do Rio Grande do Sul. especialmente no transporte rodoviário de carga. Busquei desenvolver a pesquisa nessas duas regiões. Essa implicação é essencial na construção das identidades das motoris- tas e nas configurações dos seus arranjos familiares. caminhoneiras que não tem um turno de trabalho e não retornam ao lar todos os dias. Francine Pereira Rebelo . É notável que no cotidiano das motoristas as relações acontecem muito menos em casa do que em outros espaços como postos de gasoli- na. apesar da sua mobilidade. Essa ques- tão foi central na delimitação do grupo analisado. mesmo que superficialmente. O autor leva em conta em sua obra a noção coletiva de cons- 15 Dentre as motoristas pesquisadas quatro eram da região Sul. Ramos afirma que os yanomami. 41 . estabelecem como se darão as relações com cônjuges e filhos. ou seja. a autora mostra co- mo ao longo dos anos o termo nomadismo foi negativamente conceitua- do. local de mi- nha moradia e portanto de maior possibilidade de acesso às caminhonei- ras. Para Bechelany (2008). sendo a porcentagem nas outras regiões quase nula. para explicar porque não entrei especificamente na questão do nomadismo. uma vez que há maior representatividade de mulheres nas regiões Sudeste e Sul. o espaço nos permite analisar as relações humanas. Segundo a pesquisa de Andréa Leal (2008) a partir de dados do IBGE o local em que mais se encontram mulheres motoristas é no Sul e Sudeste. A autora afirma que 93% do Setor de Transporte Terrestre brasileiro é composto por homens. um dos temas que de- sejava abordar nesta pesquisa. Este dado foi importante na configuração de minha amostra. pois tem moradia fixa à qual retornam invariavelmente. onde as mulhe- res caminhoneiras se concentram em maior quantidade e portanto po- dem ser mais facilmente encontradas15. não é utilizado de forma correta pela Antropologia. o que deveria levar em consideração a respeito de residência: se as informantes residem em determinadas cidades ou se veem a si mesmas como não pertencentes a nenhuma cidade. transportadoras e no próprio caminhão. apenas uma era residente em São Paulo. co- mo categoria da Antropologia. pois. a autora os descreve como povo móvel. não são nômades.Trabalho de Conclusão de Curso. A delimitação inicial da pesquisa era que fosse realizada apenas com profissionais que viajam longas distâncias.

No que se refere a construção e ao entendimento desse trabalho como um processo etnográfico. RIAL. trução do ambiente. 2009).Trabalho de Conclusão de Curso. optei por trabalhar com a emergente noção de campo multi situado. Nesse trabalho. o informante passe a não ser pensado como pessoa confinada em determinado lugar. o espaço como dimensão relativa. lecionada pelo professor Theóphilos Rifiotis. SILVANO. 2002). Defendem ainda que um trabalho apenas com conceitos nativos produziria textos com carência de relevância e interesses acadêmicos e uma preocupação excessivamente acadêmica não captaria ae destorceria matizes da vida diária do grupo estudado. busquei orientar a escrita. A Antropologia multi situada (multi-sited) é produto das novas dinâmicas do mundo contemporâneo. 2. Ao fazer. divido entre o trabalho de campo e o trabalho no escri- tório ou trabalho posterior de escrita. Francine Pereira Rebelo . Fretz e Shaw (1995). Duas ve- zes vim de Jacareí (São Paulo) até Florianópolis (Santa Catarina) com 16 As viagens foram realizadas nas seguintes datas: 42 . 1998.2 Distância percorrida e o campo estrada Foram no total 4. A relação entre o/a etnógrafo/a e o/a sujeito/a se altera e os espaços de pesquisa dialogam com os enfoques globais (CAMARGO. constituído atra- vés das práticas desenvolvidas sobre os lugares e da história que os en- volve. utilizo as reflexões e leituras realizadas na disciplina “Etnografia como método e prática profissional: observa- ção.495 Km percorridos e cinco viagens16. O que essa relação propõe é que o/a etnógrafo/a passe a não ob- servar seu informante em apenas um local. A cultura é entendida como uma produção no interior de espaços multilocais (CLIFFORD. Através da leitura de autores como Emerson. notas de campo e escrita etnográfica”. pude compreender o processo etnográfico como um co- nhecimento dual. Os(as) autores(as) afirmam que o etnógrafo deve representar o mundo estudado para os leitores que não tinham conhecimento sobre o grupo estudado. a observação etnográfica e a construção do trabalho à partir da leitura e reflexão desses (as) teóricos. se move entre suas notas de campo e concei- tos mais gerais da disciplina. A partir dessa compreensão de espaço. e.

viagem realizada entre os dias 08/12/2010 e 11/12/2010.viagem realizada entre os dias 14/04/2011 e 16/04/2011. Caminhoneira Ford . Francine Pereira Rebelo . Caminhoneira Scania . sendo que na hora das viagens eram elas quem me contatavam por telefone avisando que estavam passando próximo a cidade em que eu estava naquele momento (Florianópolis ou Jacareí).Trabalho de Conclusão de Curso. uma das caminhoneiras.viagem realizada entre os dias 14/12/2010 a 17/12/2010. voltando até Tijucas (Santa Catarina) e parando mais uma vez em Palhoça (Santa Catarina).org 43 . depois até Videira (Santa Catarina). se- guindo para Treze Tílias (Santa Catarina).scielo. ao todo foram aproximadamente 14 dias nas estradas. O contato pessoal com uma das motoristas se deu de maneira muito particular: eu mantinha contato por telefone com ela por bastante tempo e estava cha- Caminhoneira Volks . outra vez fui da cidade de Palhoça (Santa Catarina) até Porto Alegre (Rio Grande do Sul). principalmente porque não é comum mais de uma motorista em um posto. voltei até São José (Santa Catarina). Caminhoneira Volvo . Os encontros foram marcados com a maioria delas em postos de gasolina. A escassa produção bibliográ- fica enfocando as mulheres caminhoneiras e a escassez de pesquisas que tenham usado o mesmo instrumento que fiz.viagem realizada entre os dias 13/04/2011 e 16/04/2011. sendo que viajei de dezembro de 2010 a abril de 2011. ou residência dos motoristas. Notei que durante o contato e a construção da pesquisa. Como mostrei anteriormente. de viajar junto com as ca- minhoneiras dificultaram a construção comparativa dos dados deste tra- balho. transportadora. Caminhoneira Mercedes . O trabalho de Santos (2002) sobre caminhoneiras. As via- gens não foram seguidas. apesar de ter contado com uma viagem de 8 dias. não problematizava o contato com as motoristas e o contexto em que essa viagem aconteceu. O reconhecimento era feito imediatamente. apesar dessa resistência as motoristas viam com interesse e curiosidade o traba- lho. as e os pesquisadoras/es que tinha feito os trabalhos acadêmicos que encontrei na plataforma eletrônica do Scielo17 não tinham realizado viagens com os caminhoneiros. 17 www. esperando o período de descarga em São José (Santa Catarina). a viagem seguinte foi de Palhoça (Santa Catarina) até Porto Alegre (Rio Grande do Sul). depois de Biguaçu (Santa Catarina) fomos à Itajaí (Santa Catarina).viagem realizada entre os dias 11/01/2011 e 12/01/2011. sendo que as pesquisas tinham sido principalmente através de entrevistas em pos- tos de gasolina. Por isto entendo que é urgente a emergência desses estudos e que essa pesquisa pode contribuir como suporte para trabalhos futuros. depois até Cachoeirinha (Rio Grande do Sul) e no retorno parei em Penha (Santa Catarina).

Durante a festa de música gaúcha. já que duran- te as viagens tínhamos que dividir a cama do caminhão ou eu dormia em uma rede pendurada nas duas portas. No caminho passamos ainda na casa da ou- tra motorista que chamou outra amiga e paramos em um bailão na beira da estrada. passamos na casa dela e viemos para Tijucas. a casa de três motoristas. As viagens aconteceram sempre de maneira muito espontânea pa- ra mim. 44 . Na festa. ela foi nos encontrar na fábrica onde pegáva- mos a mercadoria para transporte. antes de continuar viagem para Florianópolis. Viajar com mais uma pessoa. A conversa entre nós três fluiu tão bem que fomos almoçar juntas. não fiquei apenas do lado da motorista. mas que “como eles diziam no Big Brother. quando viajei com outra motorista para o interior de Santa Catarina. Ficar acordada era sempre um desafio. lembrei que essa era a cidade onde essa motorista morava e mandei uma mensagem para ela. A motorista. Tentei o máximo possível ficar acordada junto com as motoris- tas e me adaptei muito bem aos seus horários. de passagem. a música serta- neja ou o simples apreciar da paisagem foram momentos muito agradá- veis na minha experiência de campo. Tive oportunidade de conhecer. teada porque ainda não tínhamos nos encontrado pessoalmente. em geral. ela estava sen- do ela mesma”. Viajamos uma noite com quatro mulheres dentro do caminhão. Depois das viagens todas elas continuaram me deixando recados no Orkut e colocando fotos de maneira muito amigável. podia incomodar de certa maneira as moto- ristas. Recusei as viagens muito longas. aproveitando para conhecer também a outra motorista que ela só conhecia por „ouvir falar‟. conheci mais alguns motoristas que trabalhavam juntos com uma das caminhoneiras com que viajava. principalmente quando dormíamos poucas horas por noite. Imediatamente. para as regiões Nordeste ou Norte. já cansada das férias. no calor do norte ou nordeste. Porém. Todos mostraram interesse em me conhecer e pude entender melhor como são as relações de trabalho entre os colegas da mesma empresa. resolveu viajar conosco o resto do caminho. elas viam minha presença como uma possibili- dade de companhia durante as viagens e quando falavam no telefone sempre falavam da minha presença de maneira positiva. Os cafés da manhã no posto ou na gaveta do caminhão. principalmente por medo de incomodar a motorista. Francine Pereira Rebelo .Trabalho de Conclusão de Curso. mas conversei com todos os seus colegas. A primeira mo- torista com quem viajei contou que estava com medo que eu fosse “cha- ta e fresca”.

Apresentada a metodologia da pesquisa. mês das mulheres. a segunda aceitou a gravação. inicialmente. dificilmente minha pre- sença passava despercebida e normalmente os funcionários das fábricas ou das transportadoras perguntavam para as motoristas quem eu era. principalmente em março. Uma preocupação frequente das motoristas era explicar para as pessoas na transportadora ou nas fábricas quem eu era. Nem sempre a prática de dar carona era muito bem vis- ta18 e algumas vezes elas pensavam no que falar por esse motivo. mas agradeço essas profissionais pela solicitude e boa vontade. Algumas me mostraram recortes de jornais das reporta- gens que fizeram parte.Trabalho de Conclusão de Curso. Nos dias seguintes as viagens elaborava um diário de campo completo. A princípio. mas seu próprio imaginário. fazia anotações e reflexões. Os/as antropólogos/as bus- cam conhecer o universo explicitado nas figuras. no exemplo usado por Rial. ou no contato por Orkut19. em momentos que as motoristas não estavam presentes. achei que a transcrição das conversas e anotação de pontos im- portantes se mostrou mais eficiente. A autora afirma que apesar das semelhanças. respondiam que eu era jornalista e que ia fazer uma reportagem so- bre elas. Algumas das motoristas. segundo elas. acreditavam que eu iria publicar um artigo em uma revista e quando questionadas sobre quem eu era. creio que é importante retomar a questão da resistência inicial apresentada pelas motoristas. nesses casos eu ficava esperando na recepção. Não é incomum a participação delas em algumas reportagens. A primeira moto- rista se opôs. porém. enquanto. Pedi permissão para as motoristas para que eu tirasse fotos duran- te as viagens e convivência no caminhão: nenhuma se opôs. os olhares de jornalistas e antropólogos são bem diversos. Rial (2001) esclarece que frequentemente antropólogos/as e jornalistas são confundidos. 19 Não cheguei a conhecer pessoalmente algumas das motoristas que me enviaram links com reportagens e entrevistas. 18 Em algumas empresas não é possível a entrada de acompanhante no momento de descarga. comparando as duas viagens. nas revistas de caminhão. Por se tratar de um ambiente tipicamente masculino. algumas vezes por mais de três horas. tinha a ideia de gravar as conversas durante viagens. Francine Pereira Rebelo . Em seu trabalho intitulado “Contatos fo- tográficos”. Elas me diziam que pensavam se iriam falar que eu era irmã delas. o jornalista fabrica uma imagem onde não leva em con- sideração o outro. mandaram entrevistas e reportagens. a pesquisadora busca explicitar a relação entre fotógrafos e fotografados. 45 . Durante as viagens. amiga ou „menina da universidade‟.

Francine Pereira Rebelo - Trabalho de Conclusão de Curso.

Essa resistência pode ser diretamente relacionada à noção do espaço do
caminhão como a morada da motorista. Nesse sentido, problematizo a
questão do caminhão como espaço, como a configuração do veículo
“assemelha-se” a uma casa e qual a relação das motoristas com o cami-
nhão que é não só seu local de trabalho, mas, sua residência.

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Francine Pereira Rebelo - Trabalho de Conclusão de Curso.

CAPÍTULO 3 – D I N Â M I C A D A S C A M I N H O N E I R A S E D O
CAMINHÃO

Esse capítulo tem como objetivo contextualizar elementos impor-
tantes para compreensão do universo da motorista e do caminhão. Nessa
parte explico resumidamente o perfil das motoristas. Posteriormente,
trago elementos dos significados que o caminhão, enquanto veiculo, tem
para as motoristas. Tento explicar também quem são os/as outros/as per-
sonagens que fazem parte do cotidiano das motoristas e qual a relação
das motoristas com esses personagens e com as transportadoras.

3.1 Perfil das motoristas

Não cheguei a perguntar para as caminhoneiras se podia ou não
colocar seus nomes no texto da pesquisa, mas como acho essa divulga-
ção irrelevante para o trabalho, optei por chamar as motoristas por no-
mes fictícios que designam marcas de caminhão. Para tal, apresentarei
na pesquisa as motoristas: Scania, Volvo, Volks, Mercedes e Ford.
Cláudia Fonseca (1999) em seu trabalho intitulado “Quando cada
caso não é um caso”, narra um pequeno acontecimento sobre uma aluna
que por escrúpulos éticos ou medo de que seus informantes fossem iden-
tificados, foi muito parcimoniosa com as informações como proveniên-
cia, idade, local de residência, ou seja, por medo de identificá-los a pes-
quisadora não contextualizou sociologicamente e historicamente os su-
jeitos de sua pesquisa. Levando em consideração a reflexão da autora,
acredito que mais importante do que a publicação dos nomes, é a análise
contextual e sociológica dessas sujeitas de pesquisa.
A categoria gênero não pode ser pensada isoladamente e antes de
iniciar as reflexões específicas sobre esse tema, traçarei o perfil de cada
uma dessas motoristas, explicando como se deu a iniciação na profissão,
quais eram os empregos anteriores, grau de escolaridade, composição
familiar, étnica, regional e religiosa. Creio que esses elementos são im-
portantes para a compreensão das trajetórias das caminhoneiras estuda-
das. Entre as cinco motoristas existem trajetórias de vida e de inserção
na profissão muito diferenciadas, assim como idades distintas. A ampla
faixa etária e diferentes tempos de profissão permitiram relatos muito
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Francine Pereira Rebelo - Trabalho de Conclusão de Curso.

diferenciados. A mais nova das entrevistadas, com apenas quatro meses
de trabalho como carreteira, destacou nas conversas principalmente a
dificuldade de iniciação na profissão, por outro lado, a motorista com 19
anos de profissão comentava mais sobre as estruturas precárias para mu-
lheres e difíceis condições de trabalho nas transportadoras.
A motorista Ford, como disse acima, tem 22 anos e dirige carre-
tas há quatro meses. Ela é branca, do Paraná e apesar de ter pai e irmão
motoristas não aprendeu a dirigir com eles. É solteira e não tem filhos.
Atualmente mora no interior de Santa Catariana. Sempre teve sonho de
dirigir e foi isso que a impulsionou a carreira. Antes de ser motorista, já
foi babá e trabalhou em uma loja de conveniência, por ter vontade de ser
motorista, tirou a carteira e foi procurar emprego como caminhoneira,
mesmo sem nunca ter dirigido. Logo ela conseguiu emprego em uma
transportadora e viajou por dois meses junto com os colegas para que
aprendesse a dirigir carreta. Também já teve um namorado motorista e
as primeiras vezes que dirigiu truck 20foi com o pai. A motorista Ford
terminou o segundo grau e chegou a fazer cursos de recepcionista, mas
nunca utilizou. Esta motorista volta para casa em Santa Catarina pelo
menos uma vez por semana, mas ainda não conseguiu ir ver a família no
Paraná. Ela viaja pelos estados do Sul, principalmente por Santa Catari-
na. A carreta que dirige é propriedade da transportadora. É espírita e
adora ler, principalmente livros sobre espiritismo.
A motorista Volvo tem 30 anos e dirige há 4 anos. É branca, na-
tural do interior de Santa Catarina. É casada com um motorista de cami-
nhão, mas não viajam juntos. Antes deste casamento, era casada com
outro motorista e tem um filho de 11 anos com ele. Começou nas estra-
das com o primeiro marido, mas aprendeu muito pouco com ele, apren-
deu a dirigir depois, praticamente sozinha. Começou dirigindo com uma
caminhonete e depois foi para o caminhão, hoje é carreteira, atribui a
ajuda inicial principalmente aos colegas da transportadora em que ini-
ciou. Antes de ser motorista foi vendedora e empregada doméstica. Es-

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O Caminhão truck é menor que a carreta. O truck, segundo a CONTRAN ( Conse-
lho Nacional de Trânsito), pode carregar até 23 toneladas no máximo. A carreta, de dois eixos,
pode carregar até 33 toneladas, e a de 3 eixos, pode carregar até 41,5 toneladas. Interessante
destacar que entre os/as motoristas existem disputas entre quem dirige truck e carreta . Várias
piadas são feitos com os/as motoristas de truck e eles/as são chamados de muriçoqueiros. Na
viagem, escutei músicas que tratavam principalmente de caminhão, o DJ Wagner é bem conhe-
cido por suas músicas que zombam dos motoristas de truck. As músicas também falam de
estrada, caminhão, troca de óleo, etc. Fonte: http://www.logisticadescomplicada.com/tipos-de-
caminhoes-tamanhos-e-capacidades
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mas pretende ser. quando pode. desde criança tinha vontade de ser caminhoneira e pagava nos fins de semana para que um motorista a 21 Quando viajamos o marido não estava junto no caminhão. cursou o primeiro grau completo. An- tes teve outro marido. também fica meses sem voltar para casa. mas atualmente é divorciada. fica vários meses sem voltar para casa. Os filhos são do primeiro casamento. Ela trafega principalmente pelo trecho Santa Catarina – Pará e algumas ve- zes fica mais de um mês sem voltar para casa. Tem dois filhos. Antes de ser motoris- ta trabalhou como empregada doméstica e como operária em uma fábri- ca de calçados. mas em caminhões separados21. A caminhoneira Scania tem 32 anos e dirige há 5 anos. natural do Rio Grande do Sul. Foi casada com um caminhoneiro e nesse período morou no Paraná. ainda não batizada.Nordeste. A carreta que dirige é da transportadora. esse marido não era caminhoneiro.Trabalho de Conclusão de Curso. Aprendeu a dirigir com o segundo marido. resolveu então começar a dirigir também. Aprendeu a dirigir com o atual marido mas até aprender nunca tinha pensando em ser motorista. também natural do interior de Santa Catarina. é autônoma e paga parcelas mensais do veículo. Teve três casamentos e só o pri- meiro marido não era caminhoneiro. agora falecido. Ela viaja pelo país todo. Antes de ser motorista já foi funcionária de empresa e mototáxi. É católica não praticante. dirige há 19 anos. É branca. com quem tem um filho de 16 anos. No momento da viagem. estava divorciada do último marido havia um mês. ouve músicas gospel e frequenta. É branca. com esse marido teve três filhos. ficou deprimida por não estar fazendo „nada‟. É católica pouco praticante. 49 . uma menina de 18 anos e dois filhos de 14 e 15 anos. antes de conhecê-lo nunca pensou em ser motorista e tinha preconceito com caminhoneiros. tudou até 8ª série e depois fez o primeiro ano através do supletivo. Estudou até o segundo grau. É branca. mora no interior de São Paulo. Ela mora no Rio Grande do Sul e viaja principalmente pelos estados de Santa Ca- tarina e Rio Grande do Sul. A motorista Mercedes tem 34 anos é motorista faz 5 anos. A motorista tem caminhão próprio. mas quando começou a viajar com o marido. É casada com um moto- rista e normalmente viajam juntos. É evangélica. Aprendeu a dirigir sozinha. mas é natural de Pernambuco. uma menina de 14 anos e um menino de 9 anos. A caminhoneira Volks tem 39 anos. Francine Pereira Rebelo . o culto da Igreja Renovar. Dirige uma carreta com câmbio automático que é propriedade da transportadora. principalmente no eixo Sul .

e lhe res- pondeu indignado: Ah. só falta o banheiro. eu moro aqui dentro. Francine Pereira Rebelo . atualmente. de acordo com a motorista Scania. 3. 50 . a motorista já recusou empregos que tivesse que ficar muito tempo longe de casa. só falta um cômodo. tem tudo. ralos entupidos ou sujos. ajudasse a aprender. 2002.Trabalho de Conclusão de Curso. por causa dela. Ela também é funcionária de transportadora. É determinante para ela que não fique muito tempo sem voltar para casa. Os banheiros que tem são muitas vezes com banho gelado ou muito precários.2 “Nessa minha casa tem tudo. o preço abusivo dos banhos – chegando a custar até cinco reais – assim como a necessidade de urinar na frente do caminhão não são só pouco agradáveis. As motoristas relatam que estão expostas a um grande risco ao terem que algumas vezes sair do cami- 22 Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminhoneira Scania realiza- da entre os dias 08/12/2010 e 11/12/2010. mas só com uma Ordem Judicial para você fazer uma revis- ta no meu caminhão! Isso aqui é minha casa. eu vivo aqui dentro!” (SANTOS. retorna uma vez por semana. Estudou até a 8ª série. É exatamente esse cômodo que falta que gera muito descon- forto nas motoristas. A intenção do poli- cial foi interpretada pelo motorista como uma “invasão de domícilio”. A precariedade dos banheiros. Antes de ser motorista era empregada doméstica e foi com o salário desse emprego que conseguiu pagar o curso para tirar a habilita- ção. Ela é católica não praticante. o irmão e o primo são motoristas. o banheiro”22 “Um informante manifestou sua resistên- cia para impedir a entrada de um guarda rodoviário na cabina de seu caminhão pa- ra fazer uma vistoria. com fiação exposta. atualmente. p 113) A configuração do caminhão assemelha-se em vários pontos com o de uma casa.

normalmente. Notei que os caminhões são mais equipados à medida que a mo- torista fica mais tempo sem retornar a sua casa. A cama fica fechada durante a viagem e quando a motorista para. Em ambos os casos. Francine Pereira Rebelo . Alguns caminhões têm televisão devidamente instalada na parte de trás da cabi- ne onde fica a cama. o caminhão é equipado de maneira a lhe assegurar mais conforto. Na pesquisa realizada por Andréa Leal (2008). 2004). 2002). algumas vezes muito peculiar (SCAREMELLA. assim como a maioria dos postos. não era limpo. em alguns caminhões. se a motorista fica meses sem voltar para casa.Trabalho de Conclusão de Curso. 51 . alguns banheiros chegam a ter grades de ferro ao redor do chuveiro para que estes não sejam furtados. É o quarto e lugar de descanso do(a) motorista. geralmente o que consideram “menos pior”. local onde imprimem seu estilo pró- prio. Os mesmos motoristas acreditam que o banho prova- velmente é cobrado devido aos furtos dos chuveiros. os motoristas que fazem rota internacional afirmaram que consideram a cobrança pelo banho abusiva. a cama já é fixa e só o banco do motorista dobra para que fique maior o espaço. A cabina – também conhecida por boleia – é o local de trabalho e privacidade. eles relatam que no Uruguai. As motoristas. quali- dade da cama e organização do caminhão. nhão no pátio do posto durante a madrugada e que ao invés de atravessa- rem o pátio e irem até o banheiro – muitas vezes isolado – elas conside- ram mais seguro e rápido urinar embaixo do caminhão. Os caminhões têm armários embutidos acima da cama onde as motoristas podem guardar roupas. restos de sabonete e água empoçada. O lugar. empurra os bancos de maneira que eles se unam e for- mem uma cama com espaço suficiente para duas pessoas. não interferindo se o caminhão é da empresa ou se a caminhoneira é proprietária. de acordo com elas. cuidada com muito zelo (SANTOS. roupas de cama e pertences em geral. tendo vários frascos de xampu usados e largados no chão. como espaço. As transportadoras ou fábricas onde as mulheres carregam ou descarregam. os banhos não são cobrados. ao conhecerem a região. não possuem banheiros femininos e nos casos em que presenciei tivemos que pegar a chave com o guarda e cha- vear todo o vestiário (masculino) para podermos tomar banho. por exemplo. tem a prática de ir ao mesmo lugar de tomar banho. A cabine pode ter ventilador ou ar-condicionado. a região sul ainda é melhor por causa do tu- rismo.

vou mostrar meu caminhão! Não só por dentro. eu gosto de deixar o caminhão mais jo- vem. não vou ser admirada. conversas no rádio e luminosidade. por fora também. tá na moda agora rebaixar o caminhão. Se eu vejo um caminhão descuidado. As cortinas são planejadas. porque eu me acho jovem. fecham as cortinas. dá pra ver assim que eles não cui- dam do caminhão. O caminhão recebe atenção especial. acho assim meio jeca. consertar o que está quebrado são frequentes. e ó. A boleia funciona como quarto da motorista. ó. (Trecho (Trecho do diário de campo referente à vi- agem com a caminhoneira Scania realiza- da entre os dias 08/12/2010 e 11/12/2010). edredom e vestem o pijama. Na hora do descanso. miniaturas de caminhão ou imagens religiosas. algum amigo meu chegar. eu acho feio. abaixam os bancos. eu gosto de deixar o caminhão bonito. caminhão é um negócio legal. combinando com o resto da roupa de cama. quando param nos postos ou transportadoras. A decoração interior varia: são bandeirinhas dos estados visita- dos afixadas no vidro. as informantes se sentem respon- sáveis por transmitir a ideia de que esse espaço é cuidado. 52 . os dois bancos ficam levantados. costuradas de rendinha ou com estampa de oncinha. Assim. mas tem uns senhor de idade que coloca uns cd's no vidro. O caminhão tem que tá na moda. como crucifixo. eu não vou ser vista. A cama é sempre arrumada. colocam lençol. montando a cama. eu vou tá fora da moda. os bancos. com lençol rosa. acho a pessoa assim descuidada. eu acho feio. eu gosto de mostrar. Durante o período de trabalho.Trabalho de Conclusão de Curso. eu acho feio. como uma delas contou: Eu tenho o maior prazer de você. vamos supor. O veículo representa quem elas são e auxiliam na construção de que o caminhão é algo “positivo”. Francine Pereira Rebelo . aí. o som ligado. conversas sobre vontades de mudar a cor. se eu não rebaixar.

mas pelo fato do cami- nhão não ser dela. Contou que o dela é “todo arrumado”. embutido no cami- nhão. Ao lado tem uma geladeira pequena que também fica para fora23. a caminhoneira desenrola a lona que já vem 23 Segundo me informaram. em outro compartimento tem um fogão de duas bocas.Trabalho de Conclusão de Curso. O seu tinha quebrado na semana anterior e ela usava outro dispo- nibilizado pela transportadora. 53 . Localizada na lateral do caminhão. O primeiro comentário. Em cima da “gaveta”. tem uma lona enrolada e bem encaixada no caminhão. Outro cômodo importante é a cozinha. copos e alimentos. se tiver sol forte ou chuva. foi desculpando-se pela bagunça do caminhão. Figura 3 -Viagem com a motorista Mercedes Na viagem com a motorista Ford. dentro ficam guardadas panelas. próximo fica também um galão de água . com o gás instalado no próprio caminhão. Esse espaço é reservado para alimentação da motorista que muitas vezes prefere fazer uma comida rápida ou para economizar dinheiro ou porque enjoou da comida dos postos. logo que entrei no caminhão. A “gaveta” abre transformando-se em um pequeno balcão. ela não estava com seu cami- nhão. esse local também é conhecido por “gaveta”. que a caminhoneira usa para lavar louça e escovar os dentes. o valor da geladeira embutida do lado de fora é de dois mil reais. Francine Pereira Rebelo . mostrando que o teto era sujo e a cortina não combinava.

[online]. Algumas delas evitam frituras e gor- duras. optam por frutas e buscam se alimentar no que elas entendem como “corretamente”. Figura 4 . vol. [online]. a geladeira fica den- tro da cabine. LEMOS. Distúrbios psíquicos menores e condições de trabalho em motoristas de caminhão. gaveta. Costa ALS. 2009. o caminhão não tem geladeira e nem mesmo gaveta. toldo e banco. Saúde Pública [online].. A fal- ta de exercícios físicos regulares exige que elas cuidem do corpo princi- palmente através da alimentação. enferm. 2009 54 . Batista KM. Valéria Aparecida and MONTEIRO. bras. Francine Pereira Rebelo . Rev. Agravos à saúde. Pierin AMG. A gaveta tem uma luz que pode ser acesa através de um interruptor quando a motorista deseja parar de noite. 1130-1136. dentro também estão alguns pequenos bancos portáteis. p. ou no caso da caminhoneira que não fica mais de uma semana fora. Rev. hipertensão arterial e predisposição ao estresse em motoristas de caminhão. como : ULHOA. com um apoio e fica um toldo pequeno. Lucia Castro et al. 44. São algumas referências. Síndrome da apneia obstrutiva do sono em motoristas de cami- nhão.6. Bianch ERF. Cavagione LC. A motorista Scania. Em alguns caminhões. pneumol. contou que por um tempo pegava ônibus e 24 Existem no Scielo alguns trabalhos científicos sobre caminhoneiros e qualidade de vida. Melissa Araújo et al. J. fogareiro. MASSON.Foto retirada dia 09 de dezembro exemplificando a ge- ladeira. n. períodos de sono e consumo de álcool.Trabalho de Conclusão de Curso. aspectos de saúde e trabalho de motoristas de caminhão. É notória a preocupação das motoristas com a alimentação. relações entre hábitos alimentares. 2010. Estilo de vida. Contaram que se não se preocupam em ficar o dia todo comendo e tomando café ou refrigerante com cafeína para evitar o sono24. Rev Esc Enferm. 2010. bras. Maria Inês.

procurava nas cidades onde parava uma academia. os caminhões ganharam um novo cômodo: o escritório.Lanche noturno com Mercedes Mais recentemente. que carregavam durante a viagem. mais conhe- cido como PX. ela negociava para que pudesse fazer exercícios por um dia. 55 . Figura 5 . Além do computador.Trabalho de Conclusão de Curso. Essa e outras motoristas relata- ram sentirem dores nas costas. usa- vam o computador para acessar internet. celular e aparelho de som que todas tinham. ver filmes e conversar com os familiares. As informantes tinham notebook próprio. os caminhões eram equipados com o radioamador. Francine Pereira Rebelo . e internet 3G – dispositivo de internet móvel –.

Caminhoneira acessando a internet dentro do veiculo. A sociabilidade entre os/as motoristas se efetiva através do PX (SANTOS. QRA. presença da polícia e conversam com conhecidos e desconhecidos. No Orkut o QRA frequentemente vem na frente do nome ou apelido do/a caminhoneiro/a. nome do/a operador/a. identificando o/a moto- 56 . Figura 6 . É comum entre um grupo combinar determinado canal para se encontrar. O PX tem vários canais de comunicação e às vezes é possível conversar com pessoas que estão bem distantes. de acordo com uma das caminhoneiras que carregava cimento. Para comunicação no aparelho.Trabalho de Conclusão de Curso. facilitando a identificação da profissão pelo nome. desvios. esse canal é previamente conhecido pelos/as moto- ristas. 2002). Francine Pereira Rebelo . os/as motoristas desenvolveram uma linguagem própria. ou como denominam. na comunicação pelo radioamador. Através do aparelho as caminhoneiras passam in- formações sobre as condições das estradas. O PX é o radioamador presente em quase todos os caminhões. al- gumas vezes o QRA vem escrito no caminhão. os/as motoristas adotam apelidos. um canal específico servia de encontro para todos que trans- portavam essa carga.

Ape- sar de presente na grande maioria dos veículos. 57 . o aparelho serve para pequenas discussões entre caminhoneiros e é comum ouvir apenas xingamentos quando se liga o aparelho. quer dizer nickname. precariedade das estradas. no caso pelo PX (SCARAMARELLA. evitar o sono e pedir auxílio em casos de problemas mecânicos no caminhão. Santos (2002) conta que vários/as motoristas não tinham conhecimento sobre a liderança do movimento de paralisação. mui- tas das exigências não foram cumpridas até hoje. seguidas por mais duas paralisações nos anos seguintes. más condições de trabalho com longas jornadas e baixos salários. é disponibilizado pela própria empresa. Outro recurso que proporciona mais segurança aos/as motoristas é o sistema de rastreamento de cargas via satélite. esse dispositivo é essencial já que algumas empresas. O PX também é considerado uma maneira de não se sentir sozi- nho. significa apelido em inglês. Existe no Orkut uma comunidade com o nome “PX é MSN25 de caminhoneiro”. no caso das motoristas contratadas. muitas vezes. 26 Nick. 27 As reivindicações do grupo eram a respeito dos preços abusivos dos pedágios. No caso de cami- nhões de transportadora. normalmente os/as motoristas são responsáveis pela aquisição do aparelho. a greve pre- judicou o abastecimento e dinâmica de diversos setores da economia. 28 Este valor independe do valor do caminhão. O preço médio de um aparelho de radioamador. rista. aderindo à greve depois de re- ceberem o aviso pelo rádio. sendo comprado posteriormente ao caminhão. 2004). e das negociações com o Ministro dos Transportes. As mulheres fizeram reclamações sobre o que normalmente é falado no PX. Apesar da visibilidade da greve. No caso das motoristas autônomas. o PX não é item de fá- brica. Francine Pereira Rebelo . Em ju- lho de 1999.Trabalho de Conclusão de Curso. sendo que nesse caso o QRA seria o nick26. Esse sistema de segu- rança. tendo um custo mensal por volta de cem reais28 e sendo exi- gência das seguradoras de caminhão. de alcance na- cional e com 60 canais é de 600 reais. Para comunicação é preciso ob- tenção de uma licença da Agência Nacional de Telecomunicações. Segundo Santos (2002). valores dos fretes e conflitos com policiais. O grupo dos/as caminhoneiros/as foi o primeiro a organizar uma greve pelo rádio. visibilizando as reivindicações27 dos/das caminhoneiros/as. dependendo do valor da carga. o aparelho é visto como um recurso que lhes proporciona mais segurança. cerca de 800 mil motoristas de caminhão ocuparam durante cinco dias as principais rodovias de 21 estados brasileiros. não liberam o transporte sem que a empresa contratada 25 MSN é dispositivo online de trocas de mensagens simultâneas.

O veículo frequentemente é limpo e os adesivos são colados. o tempo das paradas.Trabalho de Conclusão de Curso. afirma que ao decorar o veículo com o próprio nome. qualquer desvio de rota e período de descanso. O dispositivo é afixado no lado de dentro do vidro da frente do veícu- lo. Alguns caminhões possuem também o “Sem Parar”. é considerado pelo autor. em adesivo ou placa. o funcionamento do seu corpo é comparado ao de uma máquina. du- rante o campo. por exemplo. ao mesmo tempo em que privilegia a segurança da motorista. o valor é co- brado via pagamento eletrônico . como “Coluna: cuide bem desta peça”. San- tos (2002) afirma que o caminhão se mostra muitas vezes como exten- são do corpo do motorista. As regu- lações corporais são parte de uma série de intervenções de uma bio- política das populações. para o rastreamento seja consultada e permita a liberação. o nome (ou QRA) do lado de fora. um adesivo de Jesus Cristo. algumas vezes em que paramos para comer. A decoração exterior do caminhão é tão importante quanto à inte- rior. Em alguns casos. a motorista apenas diminui a velocidade e a cancela abre automaticamen- te. nesse caso. Francine Pereira Rebelo . o moto- rista mostra sua auto identificação e entrelace com o caminhão. O bio-poder. mas alguém fica responsável integralmente pela visualização da rota. mas tem objetivo de reconhecimen- to. serve como um dispositivo de vigilância. 58 . Foucault (1988) afirma que procedimentos de poder caracteri- zados pela disciplina atuam no corpo através da sua maquinização. podendo nessas situações ser abordada por alguém. nesse caso não só é possível localizar o ca- minhão. Este recurso. mais especificamente. essencial para o crescimento do capitalismo e incorporação de suas práticas. controlando. ao caminhão. Vilaça (1987) ao tratar da intimidade entre motorista e ca- minhão. A autora e- xemplifica sua afirmação através da publicação de títulos de reportagens específicas para motoristas. dispositivo conveniado com alguns pedágios e que permitem que o caminhão passe sem que seja necessário pagamento em dinheiro na hora. ouvi as mo- toristas dizendo que “precisávamos abastecer”. a empresa só permite a liberação da carga se o caminhão dispuser de monitoramento 24 horas. o sentido é não só decorativo. bus- ca-se o adestramento do corpo e crescimento de sua utilidade. o nome dos filhos. são marcas que permitem que o caminhão seja reconhecido mesmo de longe ou quando estacionados em algum lugar. Esse aparelho auxilia já que a motoris- ta não precisa andar com quantias grandes em dinheiro e não precisa parar no pedágio.

sendo que o próprio caminhão é formador de certos aspectos da identidade das motoristas. a decoração do cami- nhão e seus elementos auxiliam na criação do „perfil‟ da motorista. não podendo se vir com “chapa de fora”. Posicionam-se mais frequentemente na entrada das cidades ou próximos a zonas indus- triais. comecemos pelos ajudantes. Francine Pereira Rebelo . agenciadores de cargas. conforme suas vias de circulação. para ele os chapas são trabalhadores urbanos. também conhecidos por chapas. em outros casos. borracharias. também auxiliam a descarregar o caminhão. quando é necessário. São os chapas. em um ponto fixo. Esse é um meio para as caminhoneiras posicionarem-se frente a outros profissio- nais e outros/as viajantes. 3.3 Traduzindo elementos do universo do caminhão Alguns personagens do universo do caminhão são tão importantes para o funcionamento da dinâmica do transporte de cargas no país quan- to os/as caminhoneiros/as. carregar e informar. da transportadora ou da seguradora? Qual a percentagem que as motoristas tiram do frete e como é calculado? Para compreensão desse universo é necessário localizar alguns atores sociais. Mezgravis (2006) descreve este universo . responsáveis por auxiliar os/as motoristas através de duas atividades básicas. etc. ajudantes. O caminhão e sua decoração constituem-se como instrumentos de reconhecimento dos/as profissionais. ocupam pontos específicos de uma região. com uma placa indicando “chapa”. frentistas. os responsáveis por descarregar o caminhão já são contratados ou indicados. Qual a relação desses personagens com as motoristas? O que é responsabilidade da ca- minhoneira.Trabalho de Conclusão de Curso. esses trabalhadores ficam na beira da estrada. Dependendo da empresa. Muitos nomes aparecem e a intenção é que sejam esclarecidas as possíveis atividades de cada um e responsabilida- des de cada órgão. Assim como o Orkut. Normalmente. Os chapas são responsáveis por auxiliar um motorista que não conhece uma região a chegar até o local do carregamento ou descar- ga. sem vínculo empregatício. balança. posto fiscal. pedágios. o caminhão não precisa ser descarregado porque esse 59 .

é vantajoso para o/a motorista pegar chapas conhecidos porque nesse caso não são enga- nados. 30 GPS . contratada de transportadora. é um sistema de navegação por satélite que oferece a um aparelho receptor a posição do mesmo. des- ceu correndo e pediu para tirarem o chapa de dentro do caminhão. cada vez menos precisam dos chapas só para orientação. Os/as motoristas indicam chapas aos colegas. As motoristas afirmaram que com o computador dentro do cami- nhão. dependendo do tipo de produto carregado.Trabalho de Conclusão de Curso. não havendo uma prática geral. O posicionamento das transportadoras e motoristas depende das exigências feitas pelas empresas. A negociação é feita com o chapa na hora da contra- tação do serviço e o pagamento é feito em dinheiro. Elas en- tram no Google Maps29 e procuram onde devem ir. O site. depois dividiriam o valor da carga. 29 Google Maps é um serviço de pesquisa e visualização de mapas e imagens de satéli- te da Terra gratuito na web fornecido e desenvolvido pela empresa Google. mas para evitar “contrariá-los” no momento. de acordo com ela. essas são par- ticulares. Para a motorista Volvo. prometeu pensar no caso. oferecendo por escrito os caminhos possíveis e coordenadas. é necessá- rio em alguns casos a utilização dos serviços dos chapas. continuou andando. Algumas empresas transportadoras disponibilizam ajudantes que viajam junto com o motorista. já que é alguém „estra- nho‟ que colocam dentro do caminhão. o programa dá as coordenadas exatas. através de um recurso „como chegar‟ permite que se escreva o ponto de partida e destino . não é da responsabilidade da caminhoneira a negociação. Outra motorista . trabalho é feito por empilhadeira ou pelo próprio motorista. A caminhoneira não concordou. Nenhuma das motoristas que acompanhei possuía GPS30. O GPS permite que seja indicado um local de destino e a partir de coordenadas o aparelho oferece informações para que se chegue ao local desejado. mas que na verdade não sabem e ficam “dando voltas” ou chapas que “não trabalham direito”. na época a carga era de óleo ve- getal. A motorista relatou que pegou um chapa e ficou com medo porque ele falou coisas pornográficas. ela afirmou ter muito medo de contratar chapas não indicados. do original em inglês Global Positioning System. não pensou duas vezes e jogou o caminhão dentro do pátio. quando passou em frente o posto da polícia. eles a espancariam e fingiriam que a carga tinha sido rouba- da. nesse caso. a Mercedes. 60 . como alguns que fingem saber onde fica determinado lugar. disse que uma vez pegou dois ajudantes que sugeriram que ela simulasse o roubo do veículo. Francine Pereira Rebelo . dei- xando ele no meio do caminho.

a motorista recebe o adiantamento da viagem. assim como o valor do frete. Esses momentos exigem da motorista muito “jogo de cintura” e pensamento rápido. Continuando o trabalho de esclarecimento dos principais atores sociais que integram o universo do transporte de cargas.Trabalho de Conclusão de Curso. pois terá acesso a dados que podem futuramente prejudicar o motorista. favorecendo quadrilhas de roubos de carga. Multas por excesso de carga. Em grande parte dos casos. é importante diferenciar a dinâmica de trabalho de uma caminhoneira autônoma e contratada. O chapa nesse caso precisa ser “de confiança”. nenhuma delas pratica esportes de defesa pessoal. São situações em que as motoristas devem achar estratégias para sentirem-se mais seguras. alimentação e contratação do ajudan- te32. Ressalto que o temor referente aos chapas não é exclusividade das mulheres motoristas pois como Mezgravis (2006) salienta. além disso. não são proprietárias do caminhão e recebem salário fixo mais comissão que é uma porcentagem dos fretes das viagens que realizou no mês. sendo esses várias vezes relacionados ao consumo de drogas. dinheiro utilizado para pagar combustível. recorren- temente circulam discursos sobre a criminalidade entre os chapas. pois no momento da negociação o/a motorista oferece informações rele- vantes sobre o carregamento. É de responsabilidade da empresa contratante deliberar e negociar o carregamento que será efetuado pela motorista. como a cooperação entre colegas ao indicar ajudantes conhecidos que podem evitar situações como as relatadas. 61 . acredito que nesse ponto do trabalho. A relação motorista e chapa entra em con- flito com as normas de segurança pensadas para os/as caminhoneiros. As motoristas contratadas não tem responsabilidade financeira em relação a manutenção do caminhão. utilizam- se estratégias mais sutis. mas também determina a intensidade de participação de determinados/as sujeitos/as no cotidiano das motoristas As contratadas. A relação empregatícia interfere não só na relação da motorista com o veículo. bandidagem e desocupação. sendo os gastos com o caminhão de responsabilidade das transportadora. local de descarga e rota. pedágio31. A responsabilidade no que se refere às multas depende se essas são consequência de imprudência ou descui- do dos motoristas. Francine Pereira Rebelo . não são 31 Caso o veículo não tenha o “sem parar”. algumas delas andam com pedaço de pau e até um martelo dentro do caminhão. 32 Caso esses sejam necessários. por exemplo. roubos de cargas. empregadas em empresas transportadoras.

mas só recebe o valor do frete depois de comprova- da a entrega. O agenciador funciona como in- termediário e seu trabalho tem custos mesmo que a carga não seja efetu- ada. No caso das autônomas. as autônomas não participam do quadro de funcionários de uma empresa. As profissionais autônomas também trabalham com relação as transportadoras. O cadastro assegura que a carga chega- rá a seu destino mesmo sendo a primeira vez que essa motorista presta serviços para determinada empresa. quando parceira de uma empresa. caso façam o carregamento com pouca regularidade são consideradas parceiras. A motorista autônoma. o agenciador de cargas. mas não são contratadas. Caso carreguem com frequên- cia nessas transportadoras são consideradas agregadas.Trabalho de Conclusão de Curso. ela en- tra em contato com a transportadora. No caso das trabalhadoras autônomas. cadastro da seguradora e referências de transportadoras que já tenha efetuado algum serviço. As empresas trans- portadoras têm comunicação direta com essas empresas que registram motoristas e no momento da contratação do serviço do/a caminhoneiro 62 . é possível que a motorista negocie diretamente com a transporta- dora. a motorista paga pela informação. ela ainda pagava prestações pelo caminhão. O salário que recebem é referente às viagens que fazem. Quando já conhece melhor a re- gião. se for do interesse da motorista. assim como os gastos referentes às multas. documento do caminhão. oferecendo seus serviços e se mostrando disponível para realiza- ção do carregamento. Existem empresas que realizam o cadastro online de motoristas e registram que essas profissionais são devidamente aptas e já prestaram serviços para outras transportadoras anteriormente. nesse caso. Francine Pereira Rebelo . no seu caso. o envio da nota fiscal é feito pelo correio e o pagamento é via depósito bancário. e são nesses espaços que algumas empresas transpor- tadoras “oferecem” suas cargas. Por circularem por várias transportadoras. cobradas. os colegas de firma são conhecidos e consti- tuem o ciclo de amizade. recebe o adian- tamento da viagem. Para o registro são exigidos a habili- tação da caminhoneira. não tendo rela- ção tão próxima com esses funcionários. Para retirada da carga de determinada transportadora. Viajei apenas com uma motorista autônoma. Caso não retorne ao local. Os escritórios dos agenciadores ficam próximos a postos de gasolina. a caminho- neira é submetida a um cadastro. todos os gastos referentes ao cami- nhão são de sua responsabilidade. outro personagem surge. O cotidiano dessas mulheres se dá muitas vezes no pátio da transportadora.

Francine Pereira Rebelo . como o posto fiscal. as motoristas estão em contato direto com os funcionários do escritório. ele deve descer do caminhão e entregar a nota. pretendo na próxima parte resgatar e- lementos das vivências de gênero que estejam relacionados a esse uni- verso de trabalho no caminhão. Todos esses personagens participam das práticas diárias das mo- toristas. Durante o trajeto existem algumas passagens obrigatórias para as motoristas. muitos deles estão envolvidos nas concepções de gênero cons- truídas por essas mulheres. responsável por verificar que a carga transportada tem nota fiscal e a balança. No posto fiscal é obrigatória a parada do motoris- ta. Nas vezes que pare- mos no posto o atendimento foi feito em cinco minutos. A carga só é liberada e posterior- mente retirada se a consulta pelo nome da motorista for positiva. instrumento utilizado para veri- ficar se o caminhão não está transportando carga excedente que a apre- sentada na nota fiscal. res- taurantes e cantinas. A motorista conhece a estrada e é frequente que conheça bem frentistas. nas fábricas com os responsáveis pela libera- ção da carga e ajudantes. verificam se o cadastro está regular. 63 . exigindo apenas o carimbo da nota. Nas transportadoras.Trabalho de Conclusão de Curso. Após a explicação do funcionamento desse universo próprio nesse capítulo. funcionários das lojas de conveniência.

Mas. desigualdade de gênero e estratégias de resis- tência política”. o mais im- portante. intitu- lada “Práticas discursivas. considero que essas mulheres po- dem ser compreendidas como pontos de resistências. A primeira parte aborda a questão do trabalho feminino e as pesquisas rea- lizadas sobre esse assunto. Foucault (1988) entende que sem resistência não haveria poder e que onde há resistência. como as engenheiras. é entender se elas se compreendem assim. Entendo por resistência as estratégias utilizadas pelas motoristas diante dos dualismos de gênero e das marcas de desigualdade. 9. a coragem e o profissionalismo. consi- derei importante algumas questões emergentes durante o campo como a do trabalho como relação social. o preconceito. a família. dividi o capítulo em três partes distintas que buscam apresentar esse conceito empiricamente. Para tal. Neiva Furlin (REUNIÃO DE ANTROPOLO- GIA DO MERCOSUL. CAPÍTULO 4 – P Ú B L I C O E P R I VA D O : R E L A C I O N A N D O GÊNERO E CAMINHONEIRAS Esse capítulo tem como objetivo refletir sobre as práticas e pecu- liaridades da profissão à partir da perspectiva de gênero. Na segunda parte. para refletir sobre as for- mas de preconceito e a questão do profissionalismo evocado diversas vezes pelas informantes durante o campo. A partir dessa definição de resistência. a iniciação na profissão. Castro (2009). Buscando compreender quais as formas de inserção dessas mulheres no campo de trabalho de motoristas de caminhão. utilizei como base outras pesquisas sobre trabalho de mulheres inseridas em campos de trabalho predominantemente masculinos. é da ordem estratégica e da luta. a segurança. mas são nós de uma rede que impedem o livre fluxo do poder. a resistência não é um ponto único. faço uma pequena discussão sobre espaço público e privado envolvendo a temática da família e dos 64 . em sua obra intitulada “Vocabulário de Foucault” afirma que o autor entende as formas múltiplas de resistência como pon- to de partida para uma análise empírica e histórica das relações de poder e afirma que a possibilidade de resistência. há poder.Trabalho de Conclusão de Curso. Francine Pereira Rebelo . Para o autor. essa oposição a algo. 2011) trabalha com essa ideia em seu texto sobre a participação das mulheres em instituições socioeclesiais. como “pontos de resistência”? Para desenvolver este tópico. Esse pro- cesso compreende a produção de ressignificação de si no interior de um contexto androcêntrico.

261) Heleieth Saffioti (1992). Elizabeth Souza Lobo (1992) traça um itinerário dos estudos sobre trabalho feminino e situa os espaços do tema na Sociologia do trabalho. mais ainda. pois associam família e trabalho. Neste sentido a divi- são sexual do trabalho é um dos muitos lócus das relações de gênero. Francine Pereira Rebelo . No entanto. A autora considera que: As relações entre homens e mulheres são vividas e pensadas enquanto relações en- tre o que é definido como masculino e fe- minino: os gêneros. a reflexão tende a privilegiar a organização fami- liar e seu projeto estratégico.1 Gênero e trabalho feminino Na obra intitulada “O trabalho como linguagem: o gênero do tra- balho”. A autora afirma que a categoria trabalho. p. Vários caminhos apontam para as formas históricas e culturais das relações de tra- balho e . (1992. (p. está fundamentalmente relacionada ao significado do trabalho feminino para a organização familiar.” (1992. 4. 260). nos estudos sobre trabalho feminino. A terceira parte discute a questão da iniciação na profissão e da segurança. o que impede a problematiza- ção das formas históricas e culturais da divisão sexual do trabalho e as mantêm fixas em termos de reprodução dos papéis sociais. Lobo completa “Esses estudos trazem uma contribuição fundamental. para a relação de trabalho como interação que envolve sub- jetividades. p. o problema consiste principalmente na visão es- trutural da natureza do trabalho feminino. novos arranjos familiares. subsumindo integralmente as mulheres como atores sociais. Segundo Lobo. em seu texto intitulado “Rearticulando Gênero e Classe Social” ressalta que os humanos não são exclusivamen- 65 . 257).Trabalho de Conclusão de Curso.

é necessário que além da compreensão estrutural e de classe da situação das caminhoneiras. como setor de serviços. as dificuldades de inserção das mulheres na área da Engenharia ainda continuam. afirma que apesar das transformações favoráveis às mulheres nas rela- ções profissionais dos últimos 30 anos. necessidade de viagens e des- locamentos constantes. ódio. como também sentimentos de toda ordem: tanto a solidarie- dade quanto a hostilidade. em seu trabalho intitulado: “Enge- nheiras brasileiras : inserção e limite de gênero no campo profissional”. Maria Rosa Lombardi (2006). desprezo e etc. Ressaltando que a pesquisa se realiza juntamente a um grupo profissional que se identifica pelo fato de dirigirem caminhões. o homem e a mulher enquanto força de trabalho não utilizam somente a razão e que a dimensão emocional tam- bém impregna a produção da mercadoria. 202) De acordo com Saffioti. Tive dificuldade em relacionar essas abordagens a experiências das motoris- tas de caminhão que apesar de inseridas na lógica de trabalho do sistema capitalista. seja reconhecido que formas históricas e sociais específicas. busquei estudos que tratassem não ape- nas a questão do trabalho feminino33. entre outros. relacionadas a subjetividades desse gru- po. te força de trabalho. 34 Nesse trecho Lombardi aborda principalmente o caso das engenheiras civis. A autora afirma que “Através das relações sociais são trocados não apenas mercadorias. falta de infraestrutura de alojamentos e sanitários para recebê-las. p. Francine Pereira Rebelo . como por exemplo a força de trabalho. se expressam de maneiras diferentes no que diz respeito à lógica de gênero. tanto o amor quanto o rancor. mas a inserção de mulheres em campos profissionais predominantemente masculinos. 66 . Nesse sentido. tanto a liber- dade quanto a opressão. 33 Bruschini (2007) afirma que apesar do progresso da situação feminina no mercado de trabalho nos últimos 15 anos. mas são seres com sentimentos. ambiente sujo e abrutalhado. Argumentos como trabalho pesado. ainda persistem traços de segregação onde as mulheres conti- nuam trabalhando em maior número em setores.” (1992. aborda- vam principalmente dupla jornada e trabalho feminino operário.Trabalho de Conclusão de Curso. como amor. Grande parte dos textos que li sobre trabalho feminino. social e administração pública. ocupações e áreas de trabalho tradicionalmen- te femininas. são utilizados para restringir a par- ticipação das mulheres34. norteiam as vivências e relações de gênero e de trabalho das cami- nhoneiras. raiva.

1997). 4. podemos compreender que ao exercer pro- fissões consideradas masculinas. essas mulheres não estão apenas “in- vadindo” o espaço masculino e público. Ao invés de uma real mudança hierárquica nas relações. 1998. mas também a frequente presença dessas mu- lheres em espaços públicos. Ele se apavorou por eu tá andando sozi- nha.. o crescimento do capitalismo questionou o confinamento da mulher ao espaço privado. sendo que o espaço doméstico é as- sociado às mulheres e os espaços públicos aos homens (GROSSI. Historicamente. mas também. 2006.. são muitos os possíveis argumentos de afastamento. 67 . as mulheres acumularam mais atividades.. provavelmente. família e profissionalismo No caso das mulheres motoristas de caminhão.. abrindo mão do “seu papel” de cuidadora da casa. Para Méndez (2005). apareceu a necessidade que as mulheres possuíssem um mínimo de instrução escolar para desempenhar as atividades produtivas. LOMBARDI. (Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminho- neira Mercedes realizada entre os dias 14/12/2010 e 17/12/2010). tensões entre o espaço pú- blico e privado foram construídas. A partir dessa incorpora- ção. e foram obrigadas a conciliar extensas jornadas de tra- balho nas fábricas e as tarefas domésticas que continuaram sob sua res- ponsabilidade. Uma das motoristas relatou que: .Trabalho de Conclusão de Curso. Relacionando a observação de Lombardi (2006) com as questões das mulheres caminhoneiras. VARIKAS. se apavorou. ela considera que o avanço da industrialização criou a necessidade de que as mulheres fossem in- corporadas ao trabalho produtivo nas fábricas. Francine Pereira Rebelo . da família e dos fi- lhos. não só os também utilizados com as mulheres engenheiras.um dia. aí sozinha”.2 Preconceito. eu encontrei um cara no trevo duas e pouco da manhã e ele falou assim pra mim no rádio “Mas o que você tá fa- zendo essas horas da madrugada sozinha andando nesse mundão aí.

a prática de sair desacompanhada em horários avançados. mas principal- mente. Nesse caso podemos pensar que a mulher pode circular pelos espaços públicos. É notório na fala da motorista que o colega de profissão se “apa- vorou” não só pelo horário em que ela estava na „rua‟.Trabalho de Conclusão de Curso. a caminhoneira Scania. Podemos notar que ainda hoje o espaço público é muitas vezes restrito à mulher que não pode usá-lo de forma autônoma. Miriam Steffen Vieira (2007) aborda em sua tese as questões re- lativas ao „defloramento‟ e estupro. Francine Pereira Rebelo . porque eu sempre fui assim. A mulher que circula de outras maneiras pode muitas vezes ser alvo não só de comentários negativos. entre eles. 68 . contou: “Minha mãe sempre me falou que eu era pra ter nascido homem. pelo fato de ser mulher e estar “sozinha”. metida. em uma conversa que tivemos em um posto. No início do século XX. mas até mesmo de violências. uma série de comportamentos comprometiam a honestidade das mulheres.” (trecho do diário de campo referente à viagem com a caminho- neira Scania realizada entre os dias 08/12/2010 e 11/12/2010). Por ficarem meses sem retornar a suas casas e meses sem ver os filhos. não sozinha e em horários „próprios‟. mas acompa- nhada por um homem. Esse „papel‟ feminino frequentemente é confrontado à motorista. sempre quis fazer coisas que não me compete. segundo a perspectiva dos juristas. resistem à incorporação dos espaços privados e família com- petentes à mulher e tomam para si um espaço público e de predomínio masculino. Vieira afirma que esses comportamentos poderiam implicar na não proteção da mulher e também serviam para indicar quais os comportamentos deveri- am ser seguidos. A pesquisadora afirma que o com- portamento moral das vítimas de violências era examinado pelo judiciá- rio e responsáveis pela comprovação da honestidade dessas mulheres. as motoristas resistem em dois pontos centrais da subordinação feminina.

A própria estrutura física do espaço da estrada afirma constantemente que os espa- ços dos caminhoneiros não são espaços para as caminhoneiras. Em outro caso. mas ele não sabia se ela não estava com outro”. ela perguntou se estava fazendo alguma coisa de errado e se ele sabia o que a mulher dele estava fazendo. a responsabilidade sobre as crian- 69 . pesquisas realizadas pelo IBGE contribuem para confirmação desses dados. então. De acordo com a motorista. mas alteram também as organiza- ções familiares. é notório que alguns „aparentes‟ rompimentos podem ser considerados parte da assimilação do mercado a essas mulheres. é notório o aumento de lares chefiados por mulheres. Francine Pereira Rebelo . De a- cordo com Almeida (2005). a motorista Volks afirmou que uma vez se desen- tendeu com um dos colegas que insinuou que ela não tivesse um “bom comportamento”. outras já trabalhavam como motoristas quando as crianças nasceram. como afirmei anteriormente. participam de uma família com novos arranjos onde a responsabilidade sobre os/as filhos/as é divi- da com outras pessoas. podemos considerar que não exercem a dupla jornada de tra- balho e no caso das motoristas pesquisadas. A autora afirma que nem sempre a feminização do trabalho é resultado das lutas feministas. No que se refere a maternidade. Por mais que seja possível destacar o aspecto de resistência des- sas mulheres. No que diz respeito a relação das mulheres com os espaços priva- dos. Ainda é necessária a reflexão sobre como o trabalho femi- nino trata-se muitas vezes de uma luta pela sobrevivência onde a mulher é obrigada a exercer atividades remuneradas para completar o orçamen- to doméstico e atender às exigências básicas dos membros da família. um dos colegas da firma disse que “não deixaria a mulher trabalhar num lugar que só tivesse ho- mens”. algumas das motoristas moraram com os/as filhos até certa idade. mas também ascende pela necessidade de complemen- tação do orçamento familiar. A ideia de que existem espaços próprios para homens e espaços que „competem‟ as mulheres é recorrente no campo estudado. O outro motorista ficou nervoso e quis brigar com a caminhoneira. porque “talvez a esposa dele estivesse em casa. As fre- quentes reclamações sobre banheiros separados por sexo nas transporta- doras e nos postos nos mostram a pouca adaptação do sistema de trans- porte à entrada das mulheres na profissão. no caso específico das mulheres cami- nhoneiras.Trabalho de Conclusão de Curso. Siqueira (2002) afirma que as mudanças advin- das com a maior inserção das mulheres no mercado de trabalho ultrapas- sam o âmbito do trabalho feminino.

a avó apresenta-se sob o papel de autoridade moral no cuidado da criança. Notei através da fala de algumas motoristas que essa situação incomodava algumas vezes. ças foi sempre da avó. Machado (2010). quando eu tô em casa. entre olhar em tempo parcial e criar como filho(a). não me deixa fazer nada. em sua pesquisa intitulada “Gênero. desde pequeno. ela é muito grudada com a avó. Segundo a autora. não faz tanta questão. parecia algo já incorporado no cotidiano e não apre- sentava uma situação de desconforto. fica o tempo to- do do meu lado. Claudia Fonseca (2006) afirma ser surpreendente a naturalidade com que é tratada a circulação de crianças entre alguns grupos de cama- das populares na cidade de Porto Alegre. em outros casos.( Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminho- neira Volvo realizada entre os dias 14/04/2011 e 16/04/2011). quando eu volto ela nem vai mui- to despedir de mim” (Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminho- neira Volks realizada entre os dias 11/01/2011 e 12/01/2011). a menina já não. a avó resgata e dá sucessão a responsabilidade feminina e coletiva de maternagem e cuidados básicos da casa. sua guarda e sobrevi- vência. A pesquisadora afirma que ao criar os/as netos/as como filhos/as. o cuidado majoritário da avó. as re- des sociais se mobilizam em função da criança. essa naturali- dade surpreendeu no caso da motorista Volvo. “O meu menino. Assumindo o papel de cuidado- ra. apontada pelas suas informantes. Francine Pereira Rebelo . geração e o lugar das avós: estudos com famílias de bairro popular em Belém” afir- ma que existe uma distinção. do mesmo jeito.Trabalho de Conclusão de Curso. ele sempre foi da vó”. Fonseca mostra também como essa circulação de crianças ser- vem para reforçar e estreitar certos laços entre os indivíduos que partici- 70 . “Sempre foi assim.

e moraram com os meninos até uma média de uns 7 anos de idade. em sua obra intitulada “Pioneiras na En- genharia”. mas com pouca frequência. avó paterna responsável pela criança. as mulhe- res transmitem os sentidos da cooperação. normalmente da família. as mulheres que deixam os filhos em casa recorrem sempre a uma rede de ajuda formada por outras mulheres. Scania e Mercedes.Trabalho de Conclusão de Curso. não gostariam de ser motoristas e não gostam de viajar junto com a mãe no período de férias. Sobre a aceitação dos/as filhos/as. as motoristas relataram que e- les/as acham legal a profissão da mãe. mas de uma mulher que ocupa o lugar de mãe no cuidado da criança. Francine Pereira Rebelo . 71 . roupas. 35 As motoristas que deixam os/as filhos/as com os pais relataram boa situação finan- ceira dos ex-conjugês. Podemos notar nessas situações o que afirma Carol Gilligan (1991) a respeito da noção de cuidado. Nessa situação. quando houve separação conjugal. relata- ram ótimo relacionamento com as atuais mulheres dos seus ex-maridos. 1991). principalmente as meninas. as crianças não estão sob responsabilidade apenas da figura paterna. Duas motoristas. Segundo uma das motoristas. da responsabilidade e do cui- dar para outrem (GILLIGAN. pantes dessa relação. Outras. outros arran- jos familiares são formados e os/as filhos/as são cuidados principalmen- te pelo pai e pela madrasta. Em outros casos. Am- bas caminhoneiras que dividem o cuidado dos filhos com a madrasta. 2010). Ambas veem os/as filhos/as. Volvo. Assim nos dois casos. afirmaram que as esposas dos ex-maridos “tratam as crianças como fi- lhos” e no caso de uma delas. Para autora. TECNOLOGIA. afirma que em sua pesquisa a dificuldade de conciliação dos papéis de mãe e profissional foi ressaltada. a madrasta “não podia ter filhos”. dada as condições de trabalho. computado- res. etc. que não são caminhoneiros. a autora entende a transfe- rência de cuidados domésticos e responsabilidades com os filhos para outras mulheres como uma espécie de estratégia de sobrevivência. preocupam-se em prover mais conforto aos/as filhos/as através de presentes como celular. alguns pretendem seguir a carrei- ra e também se tornarem caminhoneiros/as. As motoristas mostram-se muitas vezes a principal provedora econômica do lar e nos casos que os/as filhos/as são cuidados pelo pai35. destacou a boa relação que tem com a ex- sogra. Carla Cabral (CONGRESSO IBEROAMERICANO DE CIÊN- CIA.

Trabalho de Conclusão de Curso. Acho que ela tem vergonha. entendia o caminhão como uma situação temporária. apesar do medo de ficar „vici- ada‟. A motorista Volks viajou um tempo com o irmão mais novo e achou a experiência positiva. A minha menina já é mais mocinha. principalmente por se consi- derar mais segura. Das motoristas que acompanhei. e a outra viajava em rotas diferentes das do marido. o menino é menor. duas eram casadas com cami- nhoneiros. Apesar de considerarem que produziam mais quando viajavam com os maridos. deixaria de ser motorista” e que tinha medo de não saber o dia de parar com o caminhão. (Trecho do diário de campo referente a vi- agem com a caminhoneira Volks realizada entre os dias 11/01/2011 e 12/01/2011). podendo realizar mais viagens em menos tempo. apenas a motorista Ford não ti- nha filhos e nunca foi casada. ele ainda gosta de vir nas férias. ela tam- bém não fica sem a vó dela. Francine Pereira Rebelo . sendo que quase nunca se viam. As motoristas relataram brigas pelo jeito que um ou o outro dirigia. o desgaste emocional de uma viagem compartilhada parece maior. 72 . As outras duas eram divorciadas já ti- nham sido casadas também com motoristas. uma delas viajava normalmente com o marido mas em cami- nhões separados. ela estava na profissão a menos tempo e afirmou que “quando tivesse uma família. Entre as outras quatro motoristas. por ciúmes e principalmente por não terem um tempo sozinhas. porque em todo lu- gar que para tem muito homem.

questão cen- tral para compreensão das relações vivenciadas pelas mulheres motoris- tas de caminhão. a expressão se refere a maneira que os caminhoneiros enfrentam suas condições de tra- balho.2. pretendo esclarecer algumas formas de exclusão de gênero vivenciadas pelas caminhoneiras e posteriormente trazer uma análise sobre as estratégias construídas pelas motoristas para contornar essas dificuldades. filmes e produções televisivas a i- magem do caminhão e do caminhoneiro. Apesar de entender essas re- presentações como romantizadas. apresenta em um dos trechos que trata do caminhoneiro como um tipo forte de homem. Scaramella (2004) mos- tra através do resgate de romances. Baseando-me nas vivências que tive durante o campo. Santos (2002) e Scaramella (2004) sobre caminhoneiros onde se destacam algumas qualidades para o exercício desta profissão. Entre as „qualidades‟ que um verdadeiro homem deve possuir está a coragem. constrói que a ideia de “no peito e na raça” indica o pertencimento a um grupo que compartilha características como coragem e vigor. Iniciemos por uma breve revisão dos estudos de Leal (2008). A música “Frete”. A tese de Andréa Leal (2008).1 Formas de exclusão de gênero Além das discussões sobre espaço público e privado. tema do seriado “Carga Pesada”. apesar de entender a masculi- nidade como algo plural. A autora. 4. Francine Pereira Rebelo . outros estereótipos femininos são questionados com a presença das mulheres motoristas. Santos (2002) afirma que os caminhoneiros buscam 73 . força . a autora afirma que um imaginário fabuloso é construído em torno do caminhoneiro que desponta em uma posição de aventureiro livre e destemido. consideradas por eles próprios como árduas. afirma que o modelo tradicional de masculini- dade é ditado para designar o que são verdadeiros homens. Para o exercício da profissão de motorista. Já Santos (2002) afirma que entre os caminhoneiros pode-se notar a incorporação de um conjunto de regras e comportamentos marcados pela masculinidade tradicional.Trabalho de Conclusão de Curso. entende-se que algu- mas dessas características devem ser inerentes. intitulada “No peito e na raça – a construção da vulnerabilidade dos caminhoneiros: um estudo antropoló- gico de políticas públicas para HIV/AIDS no Sul do Brasil”. criado pela televisão brasileira em 1979 e recriado em uma nova versão em 2003. autoconfiança e virilidade.

A representação da estrada como um lugar que oferece riscos que as mulheres não são aptas a enfrentar é comum. sendo ainda uma questão muito presente. A motorista Scania disse que em uma conversa com um frentista ele perguntou o que ela faria se um pneu furasse e ela respondeu “Eu sou caminhoneira. cultivar a imagem de trabalhadores viris. Para as motoristas. porém. nos últimos anos. Durante as viagens que fazia com eles. como na própria Antropologia. iniciando a carreira. A motorista Ford. mas também entre profissionais envolvidos no transpor- te. o paradigma da força ainda não foi substituído. o trabalho foi um importante fator na construção das masculinidades. o caso da antro- póloga Ruth Landes que em sua estadia no Brasil. como os comentários de demérito por outros profissionais. A ideia de que força física é necessária para profissão é recorren- te não só entre as pessoas que não tem conhecimento sobre o trabalho dos motoristas. similares as citadas por Maria Rosa Lombardi no caso das mulheres engenheiras e também entre outras profissões. na sociedade ocidental. as 74 . O trabalho envolvia o corpo masculino que se distinguia do feminino pela presença da força física. Grossi (1995) afirma que por muitos anos. Então. começou a aprender a di- rigir junto com outros motoristas da empresa que trabalha. dormiam no mesmo caminhão. 2003). apesar das mudanças favoráveis advindas com a tecnologia. Sobre o assunto. a virilidade é en- tendida como força física e moral. o paradigma da força física ligada ao trabalho masculino começou a ser substituído pelo para- digma da competência. vinculadas a sexualidade. apesar de já ter trabalhado em empresas onde ela precisava descarregar o próprio cami- nhão. por ser solteira.Trabalho de Conclusão de Curso. associado ao conhecimento tecnológico. Para a autora. como a Volks. não sou borra- cheira”(Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminho- neira Scania realizada entre os dias 08/12/2010 e 11/12/2010). Ainda são utilizadas contra as mulheres caminhoneiras. Francine Pereira Rebelo . a caminhoneira Scania não considera necessária força para o trabalho. nesse caso. Mulheres em outros campos de atuação também sofrem este tipo de preconceito. A diferenciação entre força física e esforço físico foi ressaltada pela própria motorista. considera que faz muito esforço na profis- são e que deve ter uma estrutura física adequada. Outras motoristas. foi alvo de crítica dos colegas que comentavam sobre uma pretensa troca de favores sexuais de Landes com seus informantes (CORRÊA. outras formas de afastamento. afirmou não gostar de empresas que acham que o motorista deve se esforçar fisicamente.

notamos que algumas piadas como “O CTC é que nem navio pirata. essas piadas estendem-se ao cotidiano e violentam simbo- licamente a esfera profissional. é perceptível que entre as tenta- tivas de afastamentos das mulheres desses postos estão as piadas. a motorista Volvo afirmou que apenas a es- posa de um dos colegas a apoiou.Trabalho de Conclusão de Curso. mas pela internet. Dahia (2008) afirma que devemos nos atentar ao caráter ideológico dessas manifestações. Para autora. No caso das ca- minhoneiras. não é essas ignorantes”. A autora afirma ainda o caráter ambíguo desse tipo de manifestação. é estudada. jornais e meios de comunicação em geral. não só da piada. Do mesmo jeito. no CTC (Centro Tecnológico e Científico) da UFSC . Sobre as piadas. são alvo de piadas sobre a pretensa falta de capacidade da mulher para dirigir. Francine Pereira Rebelo . é enfraquecê-lo. Ainda comparando elementos das vivências de gênero das mulhe- res caminhoneiras com as engenheiras. Contou ainda de outra conversa que teve com um colega. esposa de um dos caminho- neiros. “Mulher no volante. Assim como as outras. as mulheres motoristas. “Estacionado não fica porque mulher não sabe estacionar” são discursos recorrentes e divulgados não só em conversas informais. Outras caminhoneiras também comentaram que ela estava “viajando com ho- mem casado”. “essa mulher. Sobre esse assunto. De acordo com Dahia “tornar alguém ou algo risível é destituí-lo de poder. p. em geral. esposas dos motoristas. dizendo que por ela a motorista e seu marido podiam viajar juntos. Em uma pesquisa que realizei para a disciplina “Sexo. reclamaram para o dono da empresa. ela se posiciona com uma profissional e diz que nunca desistiria de um sonho “por causa de homem”. perigo constante” ou as mais recentes: “Com a Dilma na presidência o Brasil ou vai para trás ou para frente”. amor e gênero”.705). não só as ca- minhoneiras. Essas são maneiras sutis de depreciação das mulheres nesses ambien- tes. é infantilizá-lo” (2008. só tem canhão” e outras brincadeiras preconceituosas desse tipo são propagadas corriqueiramen- te. mas também do riso prove- 75 . (Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminhoneira Volvo realizada entre os dias 14/04/2011 e 16/04/2011 – grifo acresci- do). as piadas instau- ram uma sociabilidade que fundamenta a desqualificação do objeto risí- vel. e ela respondeu: “Fala pra corna da sua mulher que não é comigo que tô aqui trabalhando que ela tem que se preocupar!!”. professora. o caminhoneiro contou que a esposa dele tinha ciúmes dela.

Não podemos caracterizar alguém que ri de piadas racistas necessaria- mente como um indivíduo racista. também carregado de forma i- deológica. maneira de falar e agir. isso não quer dizer que eu virei caminhoneira que eu sou isso.Trabalho de Conclusão de Curso.. Para a autora Ana Maria Pereira (2008). Sobre o assunto a motorista Volks se manifesta “Eu queria dar um caminhão pras pessoas que dizem isso. daí ela viu que tinha falado demais. na realidade eu acho que não tem nada a ver. Existem ainda outros fatores de afastamento das mulheres da pro- fissão. o discurso jocoso pode transitar entre diferentes realidades. ah tu nem sabe agora eu sou caminhoneira.. 76 . niente dela. aposto que não dão conta nem de tirar do lugar”. Entre as motoristas. é uma profissão como qual- quer outra. ou- tras respondem no mesmo tom jocoso. Por dificultar a compreensão da natureza precisa dessas ma- nifestações. Francine Pereira Rebelo .” (Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminhoneira Mercedes realizada entre os dias 14/12/2010 e 17/12/2010).. É popularmente usado a categoria “lésbicas caminhoneiras” para designar mulheres com relações homoeróticas que assumem ou tem um estereótipo tido como masculino. Quando perguntei sobre o início da profissão a caminhoneira Mercedes contou que telefonou a uma amiga contando que tinha come- çado a trabalhar como motorista e que recebeu a acusação de haver se tornado homossexual: “eu liguei pra uma amiga. ah tá. as reações são tão ambíguas quanto às pia- das. o termo “caminhoneira” utilizado para esse tipo de caracteriza- ção é conhecido nacionalmente e constitui-se numa forma depreciativa e estigmatizante. Algumas posicionam-se contrariamente a essas manifestações. eu nunca vou esquecer. tu virou sapatona. Esse estereótipo masculino é marcado por características como vestimenta. ela falou isso pra mim. eu disse. sempre que me perguntam isso eu lembro dela.

principalmente se ela estiver dirigindo carreta. “A cara de carreteira” seria algo que a motorista Scania não tem. Faz parte do cotidiano da motorista o convívio com o espanto das pessoas ao vê-las dirigindo. O próprio marido da moto- rista sugere que existe um estereótipo de motorista. em seu trabalho. A gente fica esperando para ver como que ela vai sair. A motorista respondeu: “Olha para minha cara. se ela vai se enrolar muito” (2002. apresentavam cuidados com o corpo e uso de maquiagem. Segundo Lombardi (2006). realiza uma entrevista coletiva com três motoristas autônomos sobre a partici- pação feminina no trabalho de transporte de cargas.Trabalho de Conclusão de Curso. diz que eu tenho que en- tender que eu não tenho cara de carreteira”. Ouvi dezenas de comentários. relembrando a afirmação de Pereira (2008). ou seja. mas que assim. o que mostra também uma reação ao estereótipo. um outro motorista per- guntou: “Vocês duas que tão nesse caminhão ou vocês tão de brincadei- ra?”. Eram todas su- per “femininas”: usavam vestimentas femininas. Francine Pereira Rebelo . p. 223) 77 . Eles afirmam na pesquisa que: “Dá muita curiosidade ver mulher cami- nhoneira. que “caminhonei- ra” seria uma mulher masculinizada. vê se você acha que eu tô brincando” (Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminhoneira Scania realizada entre os dias 08/12/2010 e 11/12/2010). não que eu sou grossa. Raramente as motoristas passam „desperce- bidas‟ e nos postos de gasolina os comentários de „parabéns‟ disputam espaços com as perguntas “é você que está dirigindo esse caminhão?”. jeito ou comportamento do que preconceituosamente se chama de “caminhoneira”. ele briga comigo. Durante a primeira viagem. a falta de reconhecimento faz com que uma mulher tenha de se esforçar mais que um homem para mostrar sua capacidade e ser valorizada. eu falo na hora. Nenhuma das motoristas com que viajei. apresentaram a “cara de carreteira”. “uma cara de carreteira”. A motorista assim que respondeu falou para mim “se meu marido estivesse aqui ele ia dizer que eu sou grossa. quando parei na transportadora com a caminhoneira Scania. Santos (2002).

as profissionais são o único mo- delo que muitos motoristas têm. daí tem outra. aparece também nas falas de todas as motoristas entrevistadas que reconheceram a necessidade de “fazer melhor do que os homens” para serem reconhecidas. Uma delas afirmou que “a gente tem que fazer me- lhor ou no mínimo igual. o próprio fato de ser mulher as eliminam da profissão co- mo me contou a motorista Ford que uma vez. tem umas que não sou eu. porque igual. notei que sempre que a motorista ia fazer algum tipo de manobra. afirma que os colegas a “tratam com respeito” porque ela também os respeita e por isso eles a ajudam. Francine Pereira Rebelo . A motorista Mercedes acha que o fato de ser mulher não a diferencia. Mesmo que proporcio- nalmente esse erro não seja superior ao dos homens. as motoristas veem com descontentamento os erros de outras mulheres caminhoneiras. é compli- cado. Observei que as caminhoneiras estão sob vigilância não apenas do patrão. elas são referên- cias. outras acham que é igual. Em outros casos. presente no cotidiano das engenhei- ras. Tem uma que é da minha cidade e que também eu não conheço. de uma empresa do Rio Grande do 78 . logo. os funcionários das transportadoras acompanhavam e testavam a habilidade da motoris- ta. As motoristas estudadas apresentam diferentes experiências no que se refere ao relacionamento com outros colegas. ao entregar um currículo. Durante as viagens. fora as que ouviu falar. A motorista Scania conta que em sua vida toda viu umas 10. Pela pe- quena quantidade de mulheres no setor. Parece não haver um comportamento padrão dos companheiros de profissão. Por estarem em constante vigilância. As motoris- tas relatam que alguns as ajudam mais pelo fato delas serem mulheres. o modelo se estende para as outras profissionais. ela mostrou sua opinião da seguinte maneira: “As caminhoneiras são assim.Trabalho de Conclusão de Curso. mas dos colegas e de outros trabalhadores com que convivem. Esta falta de reconhecimento. uns meses atrás essa mulher tombou o caminhão na estrada. 15 mulheres motoristas. Disse que já viu outras motoristas que não são ajudadas porque “se acham demais”. mas é como se fosse. nunca pior”. o funcionário de uma transportadora disse que ela não seria contratada pelo fato de ser mulher. se uma motorista comete um erro.

No caso.Trabalho de Conclusão de Curso. a discussão não era apenas sobre a conduta moral da colega de profissão. daí vão lembrar dessa que quando tava lá não fez certo”. proponho pensar a “resposta” das motoristas à essas tentativas de afastamento. Daí acaba que sempre falam. a partir disso.2. a conduta moral da colega também é colocada em evidência. com a motorista Scania. mas sobre o seu profissionalismo. De acordo com o relato da motorista podemos notar que o pro- blema destacado não foi apenas o envolvimento da motorista com outro profissional. casado e daí ela tinha que entregar uma carga e ela resol- veu esperar um caminhoneiro e daí atra- sou a carga. Francine Pereira Rebelo . Logo nas primeiras viagens de campo. assim. não é. complicou porque a- trapalhou o trabalho dela. mos- trando que essa vigilância é exercida não só pelos caminhoneiros. dado que a motorista atrasou a carga e atrapalhou seu trabalho por causa desse encontro. porque ela começou a ter caso com uns motoristas. Sul que foi mandada embora e que já fala- ram que essa não é mais contratada em lugar nenhum. (Trecho do diário de campo refe- rente à viagem com a caminhoneira Scania realizada entre os dias 08/12/2010 e 11/12/2010). acabam que vão fa- lar que era porque é mulher. a frequente invocação ao profissionalismo já chamou minha atenção. Não 79 . 4.2 Profissionalismo como estratégia de resistência Busquei desde o início desse tópico esclarecer as formas de ex- clusão de gênero e como elas se manifestam no contexto das mulheres motoristas. Eu não de- pendo dessa empresa porque eu sou autô- noma. mas se uma mulher um dia precisar levar um currículo nessa empresa. mas entre as próprias motoristas.

Um/a motorista profissional deve dirigir sem envolvi- mento em acidentes. Essa noção de profissionalismo está princi- palmente ligada ao longo período de tempo trabalhado. Maria da Gloria Bonelli e Rennê Martins Barbalho (2008) afirmam que as advogadas para superar a barreira do estereótipo atribuído a elas. Francine Pereira Rebelo . Nessa mesma viagem. Esse ponto dificulta a conquista das moto- 80 . por exemplo. um motorista ou uma motorista profissional comprovam seu profissionalismo principalmente através de sua capaci- dade na direção. Mais do que tempo trabalhado e capacidade de trabalhar longos períodos. “essas ignorantes” seriam para a motorista as mulheres donas de casa que por não compartilharem do ideário do trabalho feminino seriam incapazes de compreender a situa- ção da mulher profissional. A caminhoneira. ao elogiar a postu- ra da esposa do motorista recorre a sua profissão.Trabalho de Conclusão de Curso. Na obra intitulada “O profissionalis- mo e a construção do gênero na advocacia paulista”. confrontada com outras situações. Para os profissionais do transporte. No que diz respeito aos comentários de demérito e as insinuações de que as mulheres teriam envolvimento sexual com seus colegas. o envolvimento em acidentes é algo nem sempre evitável. adotando o mesmo sentido de profis- sionalismo que os homens. a noção de profissionalismo é outra. por estar com uma pessoa “de fora” queria se “provar” de algum jeito. recorrem a mascu- linização do ideário e da prática. A motorista e ela re- conheceram-se por serem profissionais. Mesmo as piadas. já que preocupam-se como a „menor‟ atenção dada aos filhos poderá será sentida no futuro. nessa situação as advogadas se deparam com o custo emocional de lidarem com essa masculinização. A motorista Volvo ainda destaca que a única mulher de motorista que a apoiou era uma professora. fomos paradas por um policial que afirmou ter recebido várias reclamações sobre a caminhoneira e ela rebateu perguntando ao policial se ele achava que ela não era uma profissional. as motoristas Ford e Volvo apresentaram falas similares de que “nunca prejudicariam sua carreira por causa de um homem”. nesse caso a maneira pela qual elas expressam o seu profissionalismo. No decorrer da viagem. buscam atingir diretamente na „defesa‟ das motoristas. entendi imediatamente se era um posicionamento da motorista em todas as situações ou se ela. evitar multas e zelar pelo caminhão. As piadas colocam em questionamento a capa- cidade de direção das motoristas. se analisadas. “não dessas ignorantes”. notei que essa estratégia de apelo a sua competência profis- sional era utilizada em todas as situações.No caso das motoristas.

Apesar de delegar o cuidado materno a outras mulheres. essa mulheres manifestam e explicitam suas relações de gênero de maneira que difere dos processos culturais e históricos tradicionais. é mais importante para ela do que a com- pensação econômica: “Eu prefiro essa hora do que a hora de receber o dim-dim. avaria. mas 'eu transbordo de felicidade' quando chego no meu destino final e dá tudo certo” (Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminho- neira Scania realizada entre os dias 08/12/2010 e 11/12/2010). ela expressou o que sente quando descarrega e não tem nenhum problema (como quebra na carga. A resistência em permanecerem em um espaço que não lhes é adaptado e que não oferecem a estrutura ne- cessária para suas presenças mostra que possíveis mudanças deverão 81 . entendo que a própria presença delas no espaço público da estrada e a ausência dela no espaço privado do lar. é possível que ela se prepare para o exercício da profissão e que não seja cobrada posteriormente pela não realização de uma atividade que profis- sionalmente não a concerne. problemas na hora do descar- regamento). No que diz respeito a transgressão da mulher caminhoneira nos espaços públicos e privados. A comprovação. ristas porque mesmo que ela não seja „culpada‟ pelo acidente. não que eu não goste. Com a deli- mitação das atividades que devem ser exercidas por essa profissional. Quando conversava sobre a chegada no destino previsto com a caminhoneira Scania. não subverten- do a ordem propriamente dita. a motorista ressalta em seu discurso a necessidade de delimitar qual o seu trabalho – em particular que não envolvam força física. através da segurança da carga.Trabalho de Conclusão de Curso. mas transferindo as responsabilidades no que concerne aos cuidados com as crianças. de que a motorista é uma profissional. Para a realização sem problemas das atividades de caminhoneira. sem a dupla jornada cumprida diariamente. já é por si só uma subversão. Francine Pereira Rebelo . o simples envolvimento já traz desprestígio profissional para caminhoneira que deve preocupar-se em fazer tudo “melhor do que o homem”. eu gosto também.

Trabalho de Conclusão de Curso. a iniciação na profissão não se dá por herança paterna. Scaramella (2004) buscando recuperar historicamente a trajetória e iniciação de alguns motoristas afirma que o filho representa muitas vezes um a extensão do pai. No caso das mulheres motoristas. esse acaba sendo o destino de mui- tos filhos de caminhoneiros. Algumas aprenderam a dirigir com o marido. Quando questionei por que não haviam mais mulheres na profissão diferentes respostas apareceram.3 Iniciação na profissão e segurança Alguns pontos nas trajetórias das motoristas merecem destaque. 4. Apesar do apelo às característi- cas femininas. profissionais engajadas e preocupadas com o desempenho da pro- fissão. Elas são às vezes mães. como exemplifiquei anteriormente com a fala do diretor da Braspress sobre a pretensa calma e cuidado naturais das mulheres. Ivani Rosa (2006) em seu trabalho intitulado “Trilhando caminhos e perseguindo sonhos: Histórias e memórias de caminhoneiro” também narra a relação de herança entre a profissão do pai e o filho . outras apesar de terem tido contato com os maridos caminhoneiros. Francine Pereira Rebelo . a presença desses atributos não foi nenhuma hora ressaltado pelas mulhe- res motoristas em nossas conversas. Diferentemente do que se percebe quando se aborda a questão da iniciação profissão pelos moto- ristas homens. Santos (2002) ressalta que a socialização masculina inicia-se na família e que os caminhoneiros consideram sua profissão como uma herança paterna. pelas dificuldades. as mulheres apresentam trajetórias individuais que unem insatisfação econômica com os empregos anteriores e oportunidade. alguém que busca reproduzir suas experiências. aprenderam o ofí- cio com a ajuda dos colegas. a autora afirma que apesar de muitos pais não desejarem que o filho tor- ne-se motorista. chefes de família. femini- nas. como a importância da iniciação na profissão. Busquei nessa parte do capítulo esclarecer que a masculinização do ideário e de comportamentos não é estratégia central utilizada pelas mulheres motoristas. outras sozinhas pela vontade que tinham de ser motoristas. buscam através da demonstração da capacidade e do profissiona- lismo a inserção e a melhor adaptação. algumas 82 . acontecer neste campo profissional pela necessidade de responder a essa crescente demanda de trabalho feminino.

essa resposta mostra a relevância desse momento inicial para que a carreira da motorista engrene: “Pelo fato da oportunidade. Santos (2002) afirma que a mulher quando exerce atividades distintas das praticadas usualmente por mulhe- res. mas elas têm medo. considerando-se exceções a uma regra da natureza.. Tem muitas que querem. Tem muita mulher medrosa. Outras motoristas seguiram o mesmo discurso. Quando continuei a discussão e perguntei porque ela achava que as mulheres não tinham coragem. geralmente as que tão na estra- da é porque alguém ajudou. tipo assim acho que 80% das mulheres não tem co- ragem de ser caminhoneira. A motorista Scania quando questionada sobre o pequeno número de mulheres na profissão afirma que: “acho que as mulheres não dirigem por- que não tem coragem e porque tem mais obrigação de cuidar da casa. Francine Pereira Rebelo . delas fazendo referência a falta de apoio ou estímulo para viajar.Trabalho de Conclusão de Curso. que não recebe um incentivo. a motorista afirmou que é porque as mulheres são “naturalmente assim. alguém incen- tivou. ela se sentiu segura em saber que elas iam conseguir porque alguém tava incentivando. mas como 83 . pela dificuldade da estrada. mais frágeis” e que ela é uma exce- ção. pelo medo.” (Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminhoneira Scania realizada entre os di- as 08/12/2010 e 11/12/2010).” (Trecho do diário de cam- po referente à viagem com a caminhoneira Mercedes realizada entre os dias 14/12/2010 e 17/12/2010). não é reconhecida como uma trabalhadora qualificada..

Para ela. 84 . O que as impediu da desistência foi segundo elas “a fé. o medo da violência sexual. A motorista fez uma diferenciação entre os medos „comuns‟ que os homens motoristas têm como: medo de assalto. Com o decorrer dos anos co- mo profissional. no começo. o pai mostrou claramente que não desejava que ela se tornasse motorista o que fez com que ela fosse obrigada a procurar outras maneiras de apren- der. apesar de que esses muitas vezes se mostravam pouco dispostos a ensina.. o medo de ser estuprada. por mais que a iniciação à profissão estivesse relacionada a uma figura mas- culina familiar de apoio. qualquer coisinha que acontecia ou que me falavam eu já tava chorando. alguns pontos que antes as incomodavam. Outras três relataram começar através do contato com a profissão dos maridos. Nesses casos. com instintos masculinos. A cami- nhoneira Ford. de acidente. Francine Pereira Rebelo .Trabalho de Conclusão de Curso. As próprias motoristas reconhecem esse esforço e lembram do „i- nício‟ como uma fase mais difícil em que muitas vezes passou pela ca- beça delas desistir. afirmando também que não existiam mais mulheres motoristas porque muitas não tinham coragem. junto com os colegas. a continuação dependia muito do esforço da própria motorista. hoje eu nem escuto mais” (Tre- cho do diário de campo referente à viagem com a caminhoneira Volks realizada entre os dias 11/01/2011 e 12/01/2011). mesmo não tendo aprendido a dirigir carreta com o pai. parece não afetá-las mais. Esse discurso mos- tra-se então presente também na fala das mulheres motoristas. É presente no discurso das motoristas a menção a pessoas próxi- mas que deram algum tipo de apoio no momento da iniciação. “Antes. a mulher tem um medo a mais. Como ela relatou. de „ser roubado e tomar uma surra‟ e os medos que as mulheres têm. neste caso. A motorista Ford destacou outro ponto importante. fase em que se preocupavam com o que as outras pessoas diziam ou que o medo da estrada era muito grande. trouxe outro elemento importante. além desses medos comuns a todos. uma mulher excepcional. a necessidade de ter um salário e a própria paixão pelo caminhão”. conviveu a vida toda próxima a essa profissão.

O salário médio real das empregadas domésticas no ano de 2009 era calculado em R$ 586 reais36. foi ela quem teve a iniciativa de ser motorista. fiquei com esse ne- gócio na cabeça. Dada a baixa escolaridade das motoristas (três das informantes completaram apenas o primeiro grau). 85 . Ao invés de ser influenciada pela família.” A motorista trabalhava em uma casa de família e tirou sua cartei- ra de habilitação com o salário de doméstica.800. “Eu falei que queria ser motorista e todo mundo riu. É notória a diferenciação salarial entre as duas profissões. o salário varia de R$1. Eu fiquei muito brava e depois disso.Trabalho de Conclusão de Curso. O jornal ainda ressalta que a categoria sofre com 70% de informalidade. sendo que depois o irmão mais novo e o primo também se tornaram motoristas. Assim como a motorista Volks.00. empregada ou autônomas. nos fins de semana pagava para que um motorista a ajudasse. a profissão de motorista mostra-se como uma oportunidade de maior salário. ou seja. Acho que eu virei moto- rista pra falar que eu podia ser (Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminhoneira Volks realizada entre os dias 11/01/2011 e 12/01/2011). As próprias caminhoneiras relacionaram a baixa escolaridade e empregos mal remunerados e consideraram o ofí- 36 Fonte: Jornal Estado de São Paulo. As motoristas relataram que como motorista. Francine Pereira Rebelo . falaram que eu era burra.000. 00 à R$ 3. Ela disse que re- solveu ser motorista porque quando tinha uns 14 anos de idade. dependendo do tempo trabalhado pela ca- minhoneira. de 3 a 6 vezes mais do que o salário recebido como doméstica. fica- ram caçoando de mim. estava conversando em um almoço de família e cada um estava falando o que queria ser quando crescesse. O caso da motorista Volks é também interessante pois ele aconte- ceu no sentido contrário. o emprego anterior das informantes motoristas era o trabalho em fábrica ou de doméstica. Dia 24/05/2011.

37 Sobre a questão de salários diferenciados entre homens e mulheres. As moto- ristas afirmam que pelo risco que correm. porque os custos de alimentação e despesas em geral na estrada são altos37. insatisfação com o salário anterior. Todas as motoristas ressaltaram que apesar dos horários e da correria cotidiana. oportunida- de. durante as viagens que fiz. a insegu- rança continua tendo seu espaço no que se refere a acidentes e impru- dência de outros motoristas. não oculta a inse- gurança sentida nas estradas. muitas vezes composto de negociação de carga e de comissão por viagens realizadas impediu que eu fizesse qualquer comparação entre os salários femininos e masculinos. vários fatores se unem. não ouvi ne- nhum tipo de reclamação das caminhoneiras. O cotidiano das motoristas é marcado por acidentes. “sentem-se livres” sendo caminhoneiras.Trabalho de Conclusão de Curso. principalmente. nesse caso acesso direto ou indireto à profissão. Rosa (2006) aponta o risco constan- te de acidente e a apreensão dos motoristas em relação a eles. isso nos mostra que muitos dos medos das caminhoneiras são compartilhados com os motoristas do sexo masculino. as caminhoneiras estavam envolvidas. etc. não existe nenhuma diferencia- ção. busca por liberdade e empenho pessoal da caminhonei- ra. outras vezes.. A segurança propiciada pelos maiores salários. o salário ganho ainda não é justo. estacionar o caminhão. 86 . Francine Pereira Rebelo . A dificuldade em calcular os salários. sendo que o valor pago segue uma tabela de valores de fretes. vi diversos deles. cio de motorista como „a possibilidade‟ mais bem remunerada. No caso da transporta- dora da minha família que tenho acesso à essas informações. Nota-se que não são elementos isolados que propiciam a mulher a possibilidade de tornar-se motorista. Apesar da superação de medos iniciais como dirigir em grandes cidades.

mesmo que para caráter de esclareci- mento. como algo binário. sem o exercício da dupla jornada. num universo marcadamente masculino (2011. Através da reconstrução histórica do conceito de gênero tentei a- presentar diferentes concepções e transformações do termo. o trabalho específico de caminhoneira rompe com trabalhos destina- 87 . Por isso. com o grupo pesquisado e com futuros trabalhos acadêmicos. considerei importante a divisão entre espaço público e privado no capítulo anterior. espero que essa pesquisa possa contribuir com o tema.Trabalho de Conclusão de Curso. Sobre a presença da mulher nos espaços públicos e ausência dela nos espaços privados. Por mais que através dessa retomada eu tenha buscado a desconstrução do gênero na perspectiva estruturalista. Furlin fazendo uso da perspectiva de Butler afirma que: Numa perspectiva butlersiana pode-se a- firmar que é interagindo com as dinâmi- cas e situações do próprio contexto social que as mulheres se constituem sujeitos e constroem estratégias de resistência polí- tica que dão legitimidade as suas práticas. CONCLUSÕES Busquei ao longo desse trabalho desenvolver da melhor forma possível elementos que emergiram durante o campo e articular essas questões com as teorias sociais. p. Nesse sentido. mas também pela escassez de trabalhos acadêmicos sobre trabalho feminino que não tratasse do exercício da dupla jornada. reconheço a dificuldade em não realizar algumas divisões. considero que as mulheres caminhoneiras demandam uma análise nova e diferenciada. 21). Francine Pereira Rebelo . busquei que a recuperação histórica e contextualizada do termo possibilitasse maior compreensão das relações vivenciadas dentro desse grupo específico. Muitas vezes. senti-me desamparada não só pela falta de estudos sobre mulheres caminhoneiras. Desse modo. apesar de podermos analisar a inserção dessas mulheres como mais uma assimilação do mercado e necessidade de complementação do orçamen- to.

dos frequentemente a mulheres e abrem uma nova possibilidade de ofí- cio. como a vida profissional. por si só uma afronta a esses modelos? Como ressalta Furlin (2011). as motoristas atribuem essa característica a natureza femi- nina. as mulheres buscam contornar as adversidades da profissão e se inse- rir nos espaços públicos através de demonstrações de profissionalismo. apesar das adversidades. Apesar de delegarem as responsabilidades maternas a outras mulheres e não necessariamente romperem com um modelo feminino de criação dos filhos. persistem e lutam cotidianamente para a adaptação a esse espaço e para adaptação desses espaços à elas. Santos (2002) afirma que existe uma concepção equivocada de que ao realizarem um „trabalho masculino‟. Para autora. reconhecendo as dificuldades e precon- ceitos acarretados pela profissão. O caminhão. as mulheres abrem mão de sua feminilidade. pode priorizar outros aspectos de sua vida. o fato de desatrelarem esse cuidado das mães biológicas nos apresentam um modelo de ruptura onde a mulher. Apesar de não compreenderem a „superação‟ da fragilidade como uma resistência. as motoristas. são nas fissuras do poder em um contexto de práticas discursivas normalizadoras que essas mulheres em espaços predominantemente masculinos encontram espaço para construírem suas subjetividades. mãe. Apesar de reconhecerem a necessidade de não ser frágil para o exercício da profissão. a agência ética e atos de liberdade acontecem sempre em um contexto facilitador e delimitador ao mesmo tempo. Nessa pesquisa também foi notório que mais do que a busca por um ideário masculino e pela masculinização do comportamen- to. As questões de gênero e classe entrelaçam-se nos apresentando que a opção pela profissão aparece como uma fuga de outros empregos com piores salários. Os rearranjos familiares e de trabalho doméstico propiciados pela profissão rompem com um modelo tradicional de atividade feminina.Trabalho de Conclusão de Curso. ainda referenciando-se a Butler. Será que se manter e lutar para permanecer em uma profissão que as exclui já não seria uma resistência? Será que romper com os modelos tradicionais de cuidado com a casa e com a família não seria uma maneira de não aceitar a imposição de modelos sociais tradicionais? Não seria a circula- ção delas em espaços que não lhes é „destinado‟. apresenta uma pos- sibilidade de maiores salários e de maior liberdade. compreendendo a si próprias como exceções. Francine Pereira Rebelo . Os empregos para pessoas com baixa escolaridade e pertencentes ao sexo feminino são restritos e a maioria deles com salá- rios irrisórios. Considero que por mais 88 .

Espero ter conseguido através dessa pes- quisa traduzir alguns elementos desse universo e demonstrar o prazer com que esse trabalho foi realizado. algumas horas se indignando com o tratamento desigual destina- do as mulheres. que as identidades das motoristas sejam misturadas e não sempre coe- rentes. 89 . Lamento finalizar esse trabalho com mais perguntas do que inici- ei. dando enfoque a outras categorias. outras horas reproduzindo moralidades que controlam o sexo feminino. porém. podemos considerar que essas sujeitas resistem nessas fissuras e propõem diferentes relações familiares. Desejo que as mulheres caminho- neiras e esse universo em geral sejam ainda muito visibilizados.Trabalho de Conclusão de Curso. espero sinceramente que esse traba- lho possa contribuir com o grupo das caminhoneiras da mesma maneira que contribuiu para minha formação. Francine Pereira Rebelo . A pos- sibilidade de realização dessa pesquisa me permitiu a reflexão sobre diversos diferentes assuntos relacionados a essa temática. além do gênero. acredito que algumas refle- xões puderam ser realizadas. de trabalho e de expe- riência feminina. apesar desses questionamentos. A relação en- tre o universo do transporte e as diversas formas de comunicação me chamaram atenção. Por fim. acredito que seja possível a continuação da pesquisa entre o grupo dos(as) motoristas de caminhão.

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