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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS

AS BATONETES:
Uma etnografia de mulheres caminhoneiras no Brasil

FRANCINE PEREIRA REBELO

Florianópolis, Julho de 2011.

FRANCINE PEREIRA REBELO

AS BATONETES:
Uma etnografia de mulheres caminhoneiras no Brasil

Trabalho de Conclusão de Curso a-
presentado como requisito parcial pa-
ra a obtenção do título de Bacharel
do Curso de Ciências Sociais da U-
niversidade Federal de Santa Catari-
na.

Orientadora: Profª. Drª. Miriam Pillar Grossi

Florianópolis, 2011

FRANCINE PEREIRA REBELO

AS BATONETES:
Uma etnografia de mulheres caminhoneiras no Brasil

Trabalho de Conclusão de Curso consi-
derado aprovado em ____/____/____,
como requisito parcial para a obtenção
do título de Bacharel em Ciências Soci-
ais pela Universidade Federal de Santa
Catarina.

Prof. Dr. Julian Borba
Coordenador do Curso de Ciências Sociais

Banca Examinadora:

_______________________________________________
Profª. Drª. Miriam Pillar Grossi (Orientadora)

________________________________________________
Profª. Drª. Edviges Marta Ioris

_________________________________________________
Profª. Drª. Carla Giovana Cabral

REBELO. profissionalismo. A pesquisa intentou identificar as formas de inserção dessas profissionais nesse universo predominantemente masculino. Orientadora: Profª. A pesquisa é realiza- da sob uma perspectiva feminista e leva em consideração aspectos geracionais. Francine Pereira. É notório ainda que grande parte desses entraves são superados através do apelo ao profissiona- lismo. . identidades. Observei que apesar das dife- rentes trajetórias aspectos como família. étnicos. cuidado e família busquei apresentar como se cons- troem as identidades dessas mulheres motoristas. raciais e de classe. AS BATONETES: Uma etnografia sobre representações de gênero a respeito de caminhoneiras. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Sociais). Miriam Pillar Grossi. Através de viagens realizadas com cinco profissionais do transporte e da reflexão sobre segurança. Universidade Federal de Santa Catarina. O presente trabalho trata de uma pesquisa sobre questões de gênero tendo como objeto as mulheres motoristas de caminhão. Florianópolis. caminhoneiras. cuidado com o caminhão e carreira foram destacados e que grande parte dos obstáculos impostos a essas mulheres são relacionados ao sexo. Palavras-chave: gênero. Drª. 2011.

Livres ou mortas. resistência e aprendizado. sem dúvidas. mas amiga querida ainda hoje. ao meu pai que eu sei que quer o melhor para mim e que vai reclamar por não ter sido o primeiro a ser citado. Antes de ingressar no NIGS eu era realmente “perdida” na universidade. A toda minha família. as risadas. pai. ação. parceira e que me ensina algo novo (nem sempre útil. Agra- deço principalmente à professora Miriam Grossi que me orientou não só nesse trabalho. esse TCC é parte de bons anos que passei em Florianópolis estudando Ciências Sociais e uma soma de várias pessoas que fizeram diferença nessa minha trajetória. Agradeço a to- dos/as realmente muito queridos/as que me acompanharam nesse tem- po no NIGS. foi no núcleo onde realmente aprendi como funciona a estrutura da universidade e da produção científica. você é fundamental e a Taia que é minha amiga. Agradeço a todos/as professores/as das diversas disciplinas que fiz. AGRADECIMENTOS Mais do que escrito por mim. fundamentais para construção dessa pesquisa. A Marianinha minha melhor criação. para os/as amigos/as de sala que fize- ram tudo isso muito mais divertido. já que sem ele eu não estaria na universidade. À GAFe ( Grupo de Ação Feminista. nunca cabe- riam todos os nomes aqui. mostrando com o seu amor à Antropologia e ao seu trabalho – o que é realmente viver a Antropologia. conver- . irmã. É verdade. Ao vovô Zé que é minha inspiração de vida. jamais escravas! Obrigada do mais fundo do meu coração à toda minha família. Valeu a força. Ao NIGS (Núcleo de Identidade de Gênero e Subjetividades) por todas as oportunidades e por intensa produção e compartilhamento de reflexões. pela possibilidade de desabafo . a Rozeli Por- to pela simpatia e energia positiva. eu não es- taria nem no mundo se não fosse você. À família ( Êêê família). agora Ação Desgenerada). À Carla Cabral pela doçura e sensibilidade. Rary pela solici- tude e carinho. Esse trabalho é também da GAFe. aos meninos Vini. haha) todos os dias. À minha mãe que sempre me apoiou nas Ciências Sociais e na vida. a Gicele. ao meu avô Abrahão que realmente inspirou esse trabalho. minha antiga companheira de NIGS. mas na maior parte da minha graduação.

uma viagem. Obrigada ao Rafa por não medir esforços para ajudar sempre. Mineiro e Raulzito. Esse campo foi mais que um trabalho. vocês também estão nesse trabalho. assim como o Ricardo. uma conversa. um olhar. uma risada. amigas para toda vida. mas uma possibilidade de reafirmar minha admiração por essas mu- lheres. À Nat pela irmandade e a Juli- nha pela filiação. Obri- gada ao Wagner por se dispor a me ajudar e pelo carinho. me incentivando e me aguentando por muito tempo. aos outros tantos que não caberiam aqui. Ao Dú que sempre me apoiou em tudo. Espero que esse trabalho de certa forma contemple todxs vocês! . Agradeço aos meus amigos de Jacareí pela preocupação em sempre saber como estou. minha com- panheira das Ciências Sociais antes mesmo de sabermos o que era isso. principalmente por nun- ca esquecerem meu lado caminhoneira. Bocones. Muri e Flávia. Bijos. Obrigada a todxs que não couberam aqui e que me ajudaram com uma palavra. Vocês são meus amores! É Paula. seu orgulho! Meu colega de profissão e de vida. Obrigada a Rô. meu querido. minha irmã. almoços e tudo mais. Vocês são demais! Ana.sas sérias. uma música. você também não podia ficar de fora. Crise. Mongo. ta aí. Agradeço todas as caminhoneiras por mais um ato de coragem em receber alguém que mal conheciam dentro de suas “casas” e pela recepção sempre amigável. discussões sobre preço de sabão em pó. À Laís. Cami.

.Eu conheço as minhas liberdades. Renato Teixeira. Frete. pois a vida não me cobra o frete.

...................Construindo o Gênero ......................... 79 4................................................. Preconceito......................2 “Nessa minha casa tem tudo........................................................4 Reconhecimento da diversidade x busca por identidade ......................................................................................2 Distância percorrida e o campo estrada ........................... 63 4........... família e profissionalismo ...... ÍNDICE GERAL Índice Geral .3 Traduzindo elementos do universo do caminhão ......................2..................................................................................................... 47 3.............24 1..........................6 Além do gênero................... 82 CONCLUSÕES .......................... 34 2........ 50 3.........................................1 Navegando e viajando pelo campo.................................................... 16 1......... 21 1....................... 42 CAPÍTULO 3 – Dinâmica das caminhoneiras e do caminhão ..................... 73 4............2 Gênero a partir de uma perspectiva estruturalista ................... 67 4........................... Gênero e trabalho feminino ............... 19 1...............5 Reflexões a respeito de alguns paradoxos feministas ......................... 47 3......... 10 CAPÍTULO 1 ...3 Marxismo e feminismo. .. 15 1................1............................... 28 CAPÍTULO 2 – Metodologia e Descrição do campo ... também seria a categoria „sexo‟ construída...................1 Formas de exclusão de gênero ............................................................ 15 1..........................................................................................................................2.1 Perfil das motoristas .............................. só falta um cômodo..................................................................... 23 1...........................7 O que foi (e o que não foi) escrito sobre mulheres caminhoneiras?......................................... 90 ..............................................................................3 Iniciação na profissão e segurança ............2 Profissionalismo como estratégia de resistência ................................................. 34 2...........Referencial Teórico e Problemática .......1 O início da utilização do termo „gênero‟ e o viés culturalista ............ o banheiro” .2............................................................................................... 65 4............................. 87 Referências ...... 59 CAPÍTULO 4 – Público e Privado: Relacionando gênero e caminhoneiras .................... viii Introdução ......

café é “chá de urubu” e Deus é “px maior”. 3 Estrada situada no extremo norte do Pantanal. Apesar de todos meus familiares paternos serem “apaixona- dos por caminhão”. O Word reconhece palavras como pedreira. 2 O próprio Word 2007 não reconhece a palavra caminhoneira. assim como valores . incluindo “mulheres da estrada”. meu avô foi o único que quis seguir essa carreira. “baton” e “batonete” significam mulher ou menina. posteriormente. Essas disposições seriam atitudes. interiorizadas e incorporadas pelos indivíduos. rádio comumente utilizado pelos/as motoristas. enquanto no Sul existe divergências em relação ao significado. engenheira e presidenta. isto é. pescadora. indicando que a palavra está incorreta. Era ele quem contava as his- tórias mais engraçadas e aventuras de um tempo em que se atravessa- vam as pontes de madeira da estrada Transpantaneira3 se deparando com “índios sendo retirados das barrigas de cobras” e peixes “maiores que homens”. Para o autor (1987). como exem- plo. divulgada na internet. “batonete” é o termo utilizado entre os/a caminhoneiros/as para designar mulheres que dirigem caminhão. etc. o habitus é uma transmissão doméstica em que um sistema de disposições é adquirido pelo sujeito durante o processo de socialização. A história de minha família ilustra bem o que Bourdieu denomina de habitus. outras caminhoneiras destacaram que “batonete” designa mulher em geral. É também o resultado de um processo de inculcação que se dá no curso da história particular de um indivíduo que se reporta a história particular de seu grupo social. ao longo de seus 145 quilômetros. dirigindo um até o último dia da sua vida.Trabalho de Conclusão de Curso. sendo que nessa linguagem muitas palavras são modificadas. O termo varia de acordo com a região. Nas gírias mais comuns utilizadas pelos programadores/as. crenças e regras de comportamento. no Sudeste o termo designa menina. Certamente meu avô romantizava as histórias que nos conta- 1 De acordo com a conversa que tive com a primeira motorista que acompanhei em campo. são 125 pontes de madeira. prostitutas. 10 . a estrada com maior número de pontes do mundo. sendo essa sublinha- da com um traço vermelho. esposa é “cristal”. inclinações para perce- ber e pensar. As “batonetes”1: Uma etnografia de mulheres caminhoneiras2 no Brasil INTRODUÇÃO A relação que tive desde minha infância com o caminhão poderia ser explicada por Pierre Bourdieu (1987) através do conceito de habitus. Francine Pereira Rebelo . O termo é utilizado como linguagem do px.

como frentistas de posto. va. Começando? Mas estamos em 2010. visitas dos motoristas e churrascos em que se compartilhavam as histó- rias. tendo contato diário com o setor de amar- ração de caminhão e desde essa data meu pai abriu uma empresa trans- portadora na cidade de Jacareí. essa profissão sempre foi vista por mim como uma “carreira de coragem”. modo de compreensão do mundo e regras que estão por trás das interações dos diferentes atores sociais (VELHO. Os funcionários fazem viagens para todas as regiões do país. viagens.Trabalho de Conclusão de Curso. acidentes. compostas principalmente de alimentos não perecíveis. Ao “termos familiaridade” com determinado assunto não está pressuposto que co- nhecemos o ponto de vista . Em 2006. mas nunca dirigindo. Eu as via. é porque elas existiam. nunca havia problematizado o fato de nunca ter visto uma mulher nesta profissão. trabalhei alguns meses como secretária em uma empresa de logística. No primeiro semestre de 2010. 1978). transportadoras. até então. trabalhando nas transportadoras. mas independente disto. mas não é necessariamente conhecido (DA MATTA. não pensava em investir academicamente nesse campo. Esse cenário sempre foi algo familiar para mim e apesar de compartilhar des- se gosto. passagem em oficinas. Francine Pereira Rebelo . por que eu nunca tinha visto uma mulher dirigindo? Será que não existiam mulheres caminho- neiras? Se contrataram. Mas quantas elas são? Quem elas são? Como tiveram acesso a essa universo? Como seriam suas vidas? 11 . o conhecimento que tinha sobre suas vidas. ele contou que tinha contratado uma mulher para traba- lhar de motorista e que várias empresas “estavam começando a contratar mulheres”. crenças e valores era muito limitado ao convívio e conversas superficiais. revendas. Apesar de habi- tuada com a presença dos motoristas. Lembro sempre de conversas sobre caminhões. Meu contato com esse campo continuou mesmo depois do fale- cimento do meu avô. 1981). conversando com o meu pai sobre a transportadora. roubos e tudo que se possa ouvir a respeito. O que vemos e encontramos habitualmente pode ser familiar. transportando diferentes cargas. acompanhando os maridos caminho- neiros. Apesar do contato com o meio e de sempre ter tido vontade de ser caminhoneira. cargas. amarração de caminhão. nunca. no interior de São Paulo. havia mergulhado profundamente em suas práticas e buscado interpretar seu universo teoricamente.

lembro da surpresa ao ler “Sexo e Temperamento” (2006) em Clássicos da Antropologia e como esse tema me despertava interesse não só acadêmico. conside- ram o feminismo não só um campo teórico e político. tais como: sexualidades. construo o programa Útero. Grupo de Ação Feminista. mas uma filosofia de vida. como em encontros acadêmicos. Pessoalmente. “Estudos de 12 . fez com que a busca por relações mais igualitárias baseassem minha vida pessoal. tive oportunidade de discutir e propor discussões de gênero nos mais variados. foram essenciais para a escolha deste tema de TCC. O interesse pelos temas abordados durante as pesquisas no NIGS me motivou a cur- sar algumas matérias sobre essa temática. partici- pei desde o início da formação da GAFe. a GAFe estendeu suas perspectivas para ações diversas o que fez com que repensássemos o nome do grupo e mudássemos para Ação Desgenerada. violência doméstica. inicialmente dissociadas da teoria an- tropológica. formado por homens e mulheres. Nessa rádio. como Lyra-da-Fonseca (2008). familiar e militante. Como militante. Durante 16 meses fui bolsista do NIGS e tive oportuni- dade de trabalhar com diversos projetos de diferentes temáticas. articulamos a discussão feminista com as discussões sobre comunicação e principal- mente com a importância da apropriação dos espaços e do discurso mi- diático por parte das mulheres. atu- almente. mulheres na Antropologia. Meu interesse pela temática dos estudos feministas iniciou desde as primeiras disciplinas que cursei nas Ciências Sociais. Academicamente. Como participante da GAFe e Ação Desgenerada. Através desse grupo.Trabalho de Conclusão de Curso. além de músicas e assuntos de saúde da mulher. concordo com essa afirmação. gênero e religião nas escolas e movimentos feministas. Me tornei participante de uma rádio livre que busca romper com os meios de comunicação hegemônicos. normalmente retratadas de maneira des- qualificada por esses meios. como “Identidades de Gênero e Sexualidades” ministrada pela professora Miriam Grossi. A perspectiva feminista. Francine Pereira Rebelo . O femi- nismo é para mim uma forma de ver o mundo. Atualmente. Teóricos/as feministas . programa de viés feminista e que a- borda questões de gênero em geral. além de partici- par de grupos de estudos sobre amor e mulheres e ciências. mas pessoal. na minha trajetória. na retomada dos espaços públicos como a rua e até em espaços religiosos. Ação Desgenerada. Essas primeiras indagações. a entrada no Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades me auxiliou imensamente na inserção desse amplo campo teórico.

reflito sobre o paradoxo feminista com intuito de discutir uma unidade no que diz respeito às mulheres e como diferentes autoras se posicionam frente a esse dilema teórico e epistemológico. O primeiro capítulo sobre referencial teórico aborda a problemática da pesquisa. associado a minha simpatia aos assuntos relativos a caminhão. gênero e religião” com a professora Claudete Ulrich. 13 . Procuro que o tema de gênero não seja compreendido de maneira isola- da. o caminho de “ouvir os agentes. facilitando a circulação deste conhecimento barrado por um sistema de poder que permeia sutilmente toda a trama da sociedade. Isso não quer dizer que o/a antropó- logo deve “dar voz” a determinado grupo. desconstruiria a aparência substantiva do gênero. tendo êxito. optei pela divisão em quatro capítu- los. Miguel Vale de Almeida e Judith Butler. O conheci- mento teórico acumulado durante a graduação foram essenciais para nortear e consolidar essa ideia. Gênero na Psicologia” com a professora Mara Lago e “História. arti- culando o ponto de vista desses/as autores/as com o movimento feminis- ta. ou sujeitos” aparece como uma necessidade que deve ser atingida através do seu discurso. quem são elas? Se- gundo Judith Butler (2008). i- dentificando e desmembrando seus atos constitutivos e explicando essas ações no interior das estruturas compulsórias criadas pelas forças que exercem vigilância a aparência social do gênero. Ainda nessa parte. Francine Pereira Rebelo . É papel do/a cientista social recolher e analisar este discurso. Mas como estudar as relações de gênero entre as caminhoneiras? E dentro do vasto campo de gênero. A prática feminista e o interesse acadêmico pelas teorias feminis- tas.Trabalho de Conclusão de Curso. Foucault (1985) afirma que. atores. Sherry Ortner. Quais seriam esses atos no interior do universo das motoristas de caminhão. as massas sabem o que dizem e o dizem muito bem. Michel Foucault. mas em articulação com outros campos como o de Sexualidades e 4 Destaco que problematizo a questão de “possibilitar visibilidade e voz”. Nesse capítulo. Gayle Rubin. Na exposição desse processo busco trazer perspectivas de diferentes auto- res/as como Margareth Mead. a genealogia política das ontologias do gê- nero. trago um resgate do conceito de gênero no decorrer das últimas décadas e busco expor o processo pelo qual o con- ceito é compreendido por alguns/algumas autores/as atualmente. des- pertaram-me a atenção para a possível união desses temas. Nancy Cho- dorow. haveria neles algu- ma especificidade? Como é construída a identidade dessas trabalhado- ras? Para construção do trabalho. o que a- bordar mais especificamente? Como compreender as relações sociais e de gênero das caminhoneiras observadas etnograficamente de maneira que possibilite a visibilidade (e voz) dessas sujeitas4? O que eu entendo por mulheres? E por caminhoneiras? Resumindo.

as relações com as empresas e com o cami- nhão. Nesse ponto des- taco a questão da coragem e da importância da fase de iniciação na car- reira. À partir da apresen- tação desses elementos intento elucidar o caminho teórico percorrido para compreensão do conceito de “ gênero” e “mulheres” no campo es- colhido. Nessa parte intento abordar questões como família. realizado através de contatos pela internet e telefone e posteri- ormente. atentando a importância da discussão desse conceito juntamente com outras categorias como classe. 14 .Trabalho de Conclusão de Curso. Nessa parte. segurança e profissionalismo. O segundo capítulo tem como objetivo explicar as orientações metodológicas desse trabalho. o campo virtual. os caminhos percorridos para contatar as informantes. busco mostrar como elas se percebem como motoristas e como se constroem como mulheres. retomo os estudos que abordem a temática dos/as motoristas. campo multi situado e questões éticas. primeiramente. Através do resgate das falas dessas profissionais. etnia e geração. elementos essenciais para compreensão do posicionamento dessas mu- lheres em universo predominantemente masculino. O terceiro capítulo é predominantemente etnográfico e tem como objetivo esclarecer o campo e o funcionamento da dinâmica do universo do caminhão. Busco apresentar o funcionamento detalhado da rotina dessas profissionais. Primeiramente. Francine Pereira Rebelo . No quarto e último capítulo analiso as formas de inserção dessas profissionais e a peculiaridades do gênero nessas relações. o campo real. a delimitação do campo e a divisão desse em duas partes. Para tal. inicio a apresentação das motoristas para apresentar sua relação com o caminhão e com esse universo. o das mulheres caminhoneiras. pontos chaves que nortea- ram essa pesquisa. raça. Nesse capítulo discuto Antropologia do Ciberes- paço. explico a inserção no te- ma. em geral.

CAPÍTULO 1 . Posteri- ormente. dos mundugumor e dos tchambuli. Margareth Mead. utilizo principal- mente as autoras Segato. Por exemplo. Tenho como objetivo apresentar o percurso das teorias feministas e representações do conceito de gênero e da categoria “mulher”. desenvolvendo a perspectiva de gênero que embasa teori- camente esta pesquisa e recuperando as considerações feitas sobre a te- mática das mulheres caminhoneiras em outros trabalhos.R E F E R E N C I A L TEÓRICO E PROBLEMÁTICA Nesse capítulo discutirei alguns conceitos dos quais faço uso nes- se trabalho. 1. Com objetivo de contextualizar historicamente a utilização do termo “gênero”. mas também o próprio sexo. escrito na década de 1930 por uma das pioneiras nos estudos de gênero. começou a ser compreendido como socialmente construído. papel 15 . Grossi e Butler que em suas obras contextualizaram com muita eficiência o campo de estudos de gênero. É a partir dessas teóricas que construo meus argumentos e que exponho minha posição em relação a temática feminista. Francine Pereira Rebelo . trago as ideias das feministas estruturalistas que construíam sua reflexão principalmente através da noção de que o sexo está para a natureza. tribo dos arapesh. Verena Stolke. assim como o gênero está para a cultura. que tem relação direta com as lutas do movimento feminista. busco através dos estudos pós-estruturalistas mostrar como não só o termo gênero. utilizo como base o livro “Sexo e Tem- peramento” (2006).Trabalho de Conclusão de Curso. Nas sociedades analisadas pela an- tropóloga era possível perceber que os papéis atribuídos a homens e mu- lheres diferenciavam-se da visão ocidental. inicio a discussão com a perspectiva de Margareth Me- ad e a construção do viés culturalista a respeito deste conceito. A pesquisadora propõe no livro uma análise de três diferentes tribos da Nova Guiné. Para tal. Após a localização histórica desse termo.1 O início da utilização do termo „gênero‟ e o viés culturalista Para iniciar a discussão. na sociedade arapesh homens e mulheres comportavam-se de maneira pacífica.C O N S T R U I N D O O G Ê N E R O .

enquanto o homem se dedicava às atividades domésticas. mas de uma interpretação psicológica da fusão de fatores econômicos e re- produtivos. psicológicos ou econômicos. Já os habitantes da tribo mundugu- mor apresentavam comportamentos agressivos. 1. independentemente do sexo (MEAD. Mead iniciou a discussão sobre re- lativismo e gênero. 2006). inaugurando uma das vertentes pelo qual o gênero é entendido na Antropologia. os tchambuls invertiam os típicos valores ocidentais e quem se comportava de maneira agressiva era a mulher. emergiu. Butler (2008) afirma que nessa perspectiva. esse se difere do “outro” feminino que está fora das normas universalizantes que constituem a condição de pessoa “particular” e constituem a noção própria de pertencimento ao todo. Nessa obra. a autora introduz a idéia de que “não se nasce mu- lher. No decorrer da história ocidental. a visão culturalista. Em contrapartida a esse primeiro viés relativista. enquanto a mulher era defini- da em relação a ele e não por si mesma. mas torna-se mulher”. intitulado “O Segundo Sexo” (2001). o homem era a medida. Simone de Beauvoir publica um livro que hoje já é um clássico. Francine Pereira Rebelo . a “outra” dos homens. as mulheres foram dele- gadas ao segundo sexo. Segato (2011) considera que foi a partir desse trabalho que o gênero passou a ser entendido como categoria an- tropológica etnograficamente representável . a partir dos anos 1970. fundido com o universal. o sujeito é sempre masculino. essa ordenação hierárquica era um invento patriarcal de legitimação da auto- ridade masculina. frequentemente atribuído à mulher na cultura do Ocidente.2 Gênero a partir de uma perspectiva estruturalista 16 . Por outro lado. Stolke (2004) afirma que através de sua pesquisa Mead introduziu a ideia de que a espécie humana é altamente maleável e de que os papéis e comportamentos sexuais variam de acordo com os contextos sócioculturais. Anos depois. um outro viés antropológico do gênero na Antropologia: o viés estruturalista. no final da década de 1940. O trabalho de Margareth Mead foi de extrema importância para os estudos de gênero.Trabalho de Conclusão de Curso. pois questionou a visão sexista biologicizante que prevalecia nas Ciências Sociais. Beauvoir explica que a opressão da mulher não é resultado de fatores biológicos. De acordo com Grossi (1998). Para Stolke (2004).

e por outro. tinha uma visão universalizante das questões relativas às mu- lheres e baseava-se na ênfase dada por um conjunto de autoras na ques- tão da universalidade nas hierarquias de gênero. destinado as esferas públi- cas. as teo- rias antropológicas. conhecida por estru- turalista. e trabalho feminino. Segundo Stolke (2004). mas refletiam. buscaram através das teorias o resgate das lacunas epistemológicas e teóricas deixadas pela omissão da ciência tradicional a respeito das ati- vidades e histórias das mulheres. como Heritier. sobre a estrutura que organiza as ideologias de gênero nas sociedades mais di- versas e que mesmo apresentando diferenças tendem a representar o lugar da mulher como local de subordinação. desafiaram também o poder sexista do conhecimento e a carga ideológica de todas as doutrinas que afirmavam a subordinação da mulher a sua natureza. pois sua história foi construída juntamente com o movimento político de emancipação pessoal e coletiva e sua ins- piração veio com o desejo de identificar as raízes da opressão para fazer uso da teoria como instrumento de libertação. o caminho percorrido por essas teóricas feministas é muito singular. As teóricas feministas. apesar das diferenças culturais e dos princípios relativistas. Rosaldo e Lamphere. tem-se essa tendência geral à subordinação da mulher e a cultura do patriarcado. Segato (1998) a- firma que estas constatações não negavam diferentes maneiras de inser- ções hierárquicas e subordinação. Francine Pereira Rebelo . Essa outra perspectiva de análise de gênero. dos seres humanos universais.Trabalho de Conclusão de Curso. influenciadas pelo momento de contestação. Rosaldo e Lamphere (1979) localizam um eixo central que justificaria a submissão feminina: a desvalorização 17 . Para a autora. apresentam uma abordagem própria para explicar por que. ocupam-se das realidades culturais particulares. Segato (1998) afirma que a partir dessa divisão. Essas autoras. Whitehead. por um lado. a luta femi- nista por melhores condições de trabalho. propunham a geração de mo- delos que atendessem a tendência universal da subordinação da mulher na dimensão ideológica das representações culturais. Dentre essas abordagens clássicas está a perspectiva de Michelle Rosaldo e Louise Lamphere(1979). reservado aos espaços privados. Esse conjunto de autoras que compreendem as estruturas de gêne- ro com tendências universalizantes. principalmente. contra opressão sexual e dis- criminação veio acompanhada também de desafios teóricos. para a autora a hierarquia tem ori- gem com a separação do trabalho masculino. Para Stolke (2004).

representada pela mulher. Segato (1998) afirma que autoras. o homem não só seria lócus de prestí- gio social. Chodorow (1979) afirma que a questão da maternidade tem uma importância fundamental na estrutura familiar. Outra autora clássica é Nancy Chodorow. a ruptura secundária acontece de maneira brusca. A mãe compreende a filha como uma continuação de si mesma. como uma matriz heterossexual do pensamento universal. objeto do trabalho transformador da cultura. Através da conjugação do construtivis- mo relativista e da universalidade da estrutura. esta socialização da filha. Stolke (2004) afirma que a ausência de ruptura impede que haja um cor- te suficientemente esclarecedor entre identificação primária com a mãe e identificação secundária que origina a identidade de gênero. No caso dos homens. Analisando a obra de Chodorow. A esfera pública é caracterizada por ser prestigiada na grande maioria. a associação homem e cultura5. possibilitando a emergência do filho como ser independente. 2003). do trabalho privado. mas seria capaz de impregnar com seu prestígio masculino as tarefas que executasse. Francine Pereira Rebelo . Ortner afirma que definitivamente não escreveria novamente esse livro.Trabalho de Conclusão de Curso. A autora faz uma análise de gênero a partir de pressupostos es- truturalistas da oposição entre natureza e cultura. pois na época estava sob efeito da onda do estruturalismo. impede a emergência da mulher como ser autônomo (1979). Nessa perspectiva o homem associado a cultura dominaria e domesticaria a natureza. 5 Em entrevista realizada por Guita Debert e Heloisa Almeida (2006). Ortner (1979) propõe como centro do seu modelo a relação entre mulher e natureza. A autora também sustenta a relação entre masculinidade e prestígio social. chegaram a importantes reflexões através da união entre a perspectiva antropológi- ca estruturalista e a psicanálise. se não em todas. 18 . próxima a figura materna. A autora busca explicar a origem da subordinação feminina através do não rompimento da criança do sexo feminino com a mãe. a mulher herda assim também a desvalorização da mãe e do trabalho privado despresti- giado. sociedades conhecidas. como Gayle Rubin. nas relações entre os sexos e nas divisões de trabalho dentro e fora de casa. O que a autora entende por sistema sexo/gênero é o conjunto de dispositivos socioculturais que dividem machos e fêmeas em duas categorias sociais incompletas uns sem os outros (RUBIN. suas obras trazem ele- mentos da Psicanálise e Antropologia. Os clássicos universalistas continuam com as obras de Sherry Ortner. Rubin (2003) enuncia a “matriz sexo-gênero”. e por outro lado. Fazendo uso das teori- as de Lévi-Strauss.

outra perspectiva de análise teórica de gênero deve ser levada em considera- ção. Julliet Mitchel. Nessa perspectiva. Maria Pedro. Segundo Ortner (2006). algumas encaravam a opressão de maneira excessivamente simplista e acreditavam que a opressão de gênero era um subproduto da opressão de 19 . Mello e Bertelli (2005) afirmam que nos anos 1970 e 1980 muitas autoras relacionavam o capitalismo com o patriarcado. Um dos legados dessa autora é a abertura das dimensões das teorias feministas de modo que estas não estejam confinadas as normas heterossexuais. Branca Moreira Alves. Francine Pereira Rebelo . nessa mesma perspectiva. Schwade (2008). Para essas teóricas. de parentesco e tabu. o das teóricas feministas marxistas. nem o poder exercido pelos homens e nem a opressão so- frida pelas mulheres eram fenômenos universais.3 Marxismo e feminismo Além da perspectiva culturalista e do viés estruturalista. os sistemas de parentesco pressupõem uma divisão heterossexual dos sexos. entre as teóricas marxistas haviam diferentes maneiras de abordar a questão da mulher.Trabalho de Conclusão de Curso. mas também obrigatoriedade da canalização de desejo para o outro sexo. no qual prevalecia uma ordem igualitária que havia sido destruída com o advento da propriedade privada. afirma que a partir do sistema sexo-gênero. podendo ser analisado apenas em relação a outras categorias analíticas. entende -se gênero não apenas como uma identificação com o sexo . como He- leieth Saffioti. para algumas feministas marxistas havia um matriarcado original. o tabu do incesto pressupõe previamente o tabu da homossexualida- de. entre outras. Para esta autora existe uma importante relação entre o heterosse- xualismo obrigatório e a repressão a sexualidade das mulheres. Para Ru- bin. mas estavam de acordo com as relações de produção histórica e estritamente relacionados ao modelo econômico vigente e de produção capitalista. fazendo uma análise de Rubin. do co- lonialismo e do capitalismo. o gênero carece de um caráter analítico próprio e independente. 1. Stolke (2004) afirma que é importante na obra de Rubin a análise desses conjuntos que a autora denomina como dispositivos so- cioculturais como: regras matrimoniais. Segundo Conceição (2009). o ponto central na teoria feminista marxista diz respeito a questão da divisão sexual do trabalho. De acordo com Stolke (2004). Zuleika Alambert.

não traria automaticamente a resolução das desi- gualdades de gênero.” (ALAMBERT. 1986. não traria a igualdade econômica. antes de tudo. ou a supres- são do capitalismo. O movimento feminista. como classe. universal. o paradigma marxista auxilia no avanço dos estudos de gênero. Maria Pedro (2005) ressalta que o surgimento de uma nova organização social. dissociada da discussão sobre classe. muitas vezes é considerado um movimento burguês e algu- mas feministas ignoram as relações entre classe e gênero e ao invés de 20 . p. Outra parte das teóricas acreditava na existência de sociedades igualitárias que teri- am sido pervertidas pelo surgimento da propriedade privada e do capita- lismo. A noção de que existia uma mulher no singular. é. assim como a igualdade de gênero. sua ampliação e sua a- bertura permanente para informações e problemas novos. Conceição (2009) afirma que até os anos 1970. sua continuidade. não é “crer”. O que chama a atenção na evolução do pen- samento deles . Esta perspectiva é apre- sentada principalmente na obra de Rubin (1975) intitulada “Tráfico de Mulheres”. As teorias feministas baseadas em Marx foram responsáveis pela mudança do sujeito “mulher” para “mulheres”. etnia e raça. transformar suas hipóteses provisórias em dogmas eternos. classe e que esta desapareceria com a revolução operária. A militante marxista e teórica Zuleika Alambert (1986) afirma que “tomar a sério a obra de Marx e En- gels. foi superada pela noção de que essa mulher singular só poderia existir em um plano ideológico e que gênero deveria ser pensado em articulação com outros elementos constitutivos das relações sociais. Para Castro (2000). os estudos feministas tinham como objeto central a mulher no singular. Francine Pereira Rebelo . Rubin destaca que apesar das limitações da teoria marxista no que diz respeito a gênero e sexo. ou mesmo a de Lênin. tanto o feminismo quanto o marxismo questi- onam relações desiguais socialmente construídas. 26).Trabalho de Conclusão de Curso.

Para a autora. Segato (1998) e Stolke (2004) concordam que ao mesmo tempo em que se buscam perspectivas não essencialistas e não determi- nadas biologicamente. é que dada a compreensão do gênero como socialmente construí- do.4 Reconhecimento da diversidade x busca por identidade Uma das contradições amplamente refletida e discutida pelas teó- ricas feministas. também invalida-se a proposta feminista se negada a liberdade de optar baseada na indeterminação biológica do destino hu- mano. problematiza a necessi- 21 . mas também nos dias de hoje. Francine Pereira Rebelo .Trabalho de Conclusão de Curso. O feminismo. ambos se identificam como um movimento social por mudanças e a relação entre os movimentos e teorias seria fun- damental para o enriquecimento dessas perspectivas. enquanto movimento social. a vertente relativista do gênero. Tenho como objetivo mostrar como essas diferentes concepções compuseram de alguma forma as reflexões atuais sobre gê- nero e como apesar de enfoque diferenciados elas não são contraditórias entre si. dificulta a possibilidade de se falar de uma mulher. buscarem novas formas de organização lutam por igualdade das condi- ções de competição e pela liberdade de sucesso no sistema capitalista. necessitamos essencializar para dar unidade em torno dos problemas da mulher e consolidar uma plataforma para uma política que vigore através das sociedades. uma forma estável de “mulher”. Algumas das contradições refletidas pelas teóricas feministas não podem deixar de serem expostas. Judith Butler. por outro lado. Castro (2000) afirma ainda que a relação entre feminismo e mar- xismo mostra-se importante tanto teoricamente quanto em termos de militância. Exponho a centralidade da ideia desses/as autores/as para que a compreensão do percurso do conceito de gênero e seus paradoxos seja facilitada. 1. em estudos mais recentes. não só da década de 1970. como a obra intitulada “Problemas de gênero:feminismo e subversão”. sob pena de uma análise incom- pleta dos caminhos e debates feministas além do não entendimento da trajetória histórica. necessita a afirmação de alguma entidade ou categoria social. chega-se em alguns casos a desmontar a categoria mulher e com isso invalidar as lutas feministas que procuram transcender suas diferenças.

De acordo com Butler (2008). as identidades podem ganhar vida e se 22 . Nessa perspectiva.Trabalho de Conclusão de Curso. Os debates feministas atuais afirmam que as alegações universalistas baseiam-se em um ponto de vista epistemológico comum. Não desconsiderando as implicações positivas dessas alianças táticas. o preesta- belecimento de uma “identidade” não é capaz de tomar como objetivo normativo a expansão dos conceitos de identidade já existentes. Butler (2008) prossegue na reflexão questionando a necessidade de uma unidade para ação política efetiva e se não seria precisamente essa insistência prematura em buscar uma unidade a causa da fragmen- tação crescente das coalizões. Butler afirma que se não estabelecidas. A aceitação da fragmentação pode facili- tar a ação e isso ocorre porque a “unidade” da categoria de mulheres não é nem desejada e nem pressuposta. nesse caso. esforços vêm sendo realizados para que um conjunto de encontros dialógicos no qual mulheres com diferen- tes posicionamentos articulem identidades separadas em uma estrutura de coalizão emergente. ou seja. Insistir a priori na formação de uma “unidade” da coalizão pressupõe que a soli- dariedade é um pré-requisito da ação política. Francine Pereira Rebelo . superando o debate exclusivamente no nível conceitual e ampliando as reflexões para além das propostas de articula- ção da identidade. a autora afirma que é importante em encontrar a verdadeira forma do diá- logo e reconhecer quando a “unidade” foi ou não alcançada. outras ações concretas podem emergir. Sem a instituição de uma “unidade” e sem a expectativa compulsória de um acordo estável . esse gesto universalizante gerou críticas por parte das mulheres que afirmaram ser a categoria das “mulheres” excludente e normativa. a insistente busca pela coerência e unidade das mulheres omitiu interseções cultu- rais. não supõe-se que a “identidade” seja uma premissa mas que ela se realiza na prática nas reais formas e significa- dos da coalizão. dade de uma unidade e da universalidade da identidade feminina e o- pressão masculina. Para a autora a crítica feminista deve explorar as afirmações totalizantes da economia significante masculinista e ao mesmo tempo permanecer crítica as formas totalizantes do feminismo. a formulação de políticas de coalizão não implicam na pressuposição do conteúdo da noção de “mulheres”. sociais e políticas em que é construído o “espectro concreto” das “mulheres”. Levando em consideração que a articulação de uma identidade nos termos culturais instaura uma definição que impossibilita previamente o surgimento de novos conceitos de identidade.

mas mascarados pelas representações dominantes de gênero. nesse caso. seria possível a observação do masculino e feminino. A autora afirma acreditar que o gênero não é observável por seu caráter abstrato e por tratar-se de uma estrutura transvestida de significantes acessíveis aos sentidos. garantiria identidades instituídas e abandonadas. como categoria.Trabalho de Conclusão de Curso. somos capazes de pensar estra- tégias para erradicá-la e finalmente pensar em uma sociedade não orien- tada por relações desiguais e hierárquicas? Segato (1998) afirma a impossibilidade de observação do gênero através de materiais etnográficos e questiona se seria o gênero observá- vel. quais seriam os critérios de avaliação do caráter hierárquico ou igualitário que ele assume em de- terminado espaço. Segato afirma que o pesquisador deve atentar-se principalmente para dois pontos. sem identidades pré afirma- das. de um modelo estável é nos seus processos de instanciação que sua instabilidade aparece. permitindo múlti- plas convergências e divergências e evitando a obediência a um telos normativo e definidor. dissolver. Se realmente essa estrutu- ra que orienta essa universalidade existe. Primeira- 23 . onde poderia ser observado. No que diz respeito às formas de circulação. 1. problematizo uma questão central para o debate de gênero. mesmo esses não sendo realidades sociais concretas. uma coalizão aberta. Na perspectiva de Segato (1998). o que as etnografias são capa- zes de observar é como o feminino e masculino se instanciam em cada interação social vivida ou relatada enquanto posições em uma estrutura relacional. desvendar os processos de circulação ocultos pelas re- presentações que reproduzem e estabelecem posições supostamente de- terminantes nas quais ele/a deve elucidar elementos presentes na consti- tuição do sujeito. como é possível conciliar as perspecti- vas relativistas que referem-se as considerações culturais de gênero e as tendências universalizantes sobre hierarquias. caso seja. mas apenas supor- tes onde os sujeitos ancoram suas identidades. Cabe ao etnógrafo/a.5 Reflexões a respeito de alguns paradoxos feministas Retomando os paradoxos enfrentados pelas teóricas feministas e refletindo a partir da leitura de Segato (1998). Se o gênero faz parte. mas não reduzida a estes. Francine Pereira Rebelo .

em outras palavras. foi publicado em inglês no em 1978. Em segundo lugar. nunca imutável. as teóricas passam a analisar as relações de gênero em seu contexto histórico e cultural concreto. Grossi (1998) afirma que apesar dos avanços nesse período em relação aos es- tudos de mulheres. categoria não dissociada do gênero. No primeiro volume de “História da sexualidade”. é importante destacar que até meados da década de 1980. considerada uma categoria biológica e natural. De acordo com Rubin (2003). para as teorias feministas. sofisticam-se as análises de gênero. início dos anos 90. o conceito de gênero ainda era entendido como uma categoria socialmente construída. ou seja. Francine Pereira Rebelo . Retomando a obra de Stolke (2004) e o processo histórico de conceituações do termo gênero. a possibilidade aberta. a entrada. o reconhecimento pela morfologia do sexofemi- nino. 1. distinto de sexo. No início dos anos 1980. nos universos de interação em que se inserem sucessivamente os sujeitos. ainda é comum a referência a uma unidade biológica das mulheres. de Fou- cault. Stolke (2004) atenta que as análises de gênero. mente. as formas de transposição do gênero tornando-se concreto através das experiências do sujeito. Foucault (1988) faz um traçado histórico da emergência da repressão sexual e analisa os aparatos criados para assegurar essa repressão É no final dos anos 80. que as teorias feminis- tas passam a compreender o sexo de maneira dissociada do gênero. posições institucionais e como se posiciona perante determina- das categorias e vocabulários próprios. é atribuído a este teórico vários importantes estudos no campo das Sexualidades. al- gumas feministas passam a explicar a condição das mulheres em função de alguma atividade ou característica feminina transcultural. também seria a categoria „sexo‟ socialmente construída? No que diz respeito aos estudos sobre sexualidades. esse momento foi de emergência dos estudos tra- tando dessa temática. a necessidade de reconhecimento das oscilações do sujeito no decorrer do tempo e de como este se insere nas relações. O livro “História da Sexualidade” (1998). ou seja.Trabalho de Conclusão de Curso. plural e mista do sujeito a respeito de co- mo é composto o gênero e o trânsito frequente das suas vivências interi- ores. ao invés de tomar como 24 .6 Além do gênero.

Em uma entrevista (BUTLER. que não é restrita a dois. é responsável por uma verdadeira inversão nos conceitos de sexo e gênero. mas fazer uma desconstrução.. mas o gênero torna-se o destino.. emergem discussões e novos paradigmas essenciais para a atual discussão no campo de gênero. mas é constituído por um rituali- zado jogo de práticas que produzem o e- feito de uma essência interior. esclarecem que acei- tar o sexo como biológico e não como mais uma construção social é aceitar que a identidade ou a essência são expressões e não um sentido do sujeito em si. Isso significa que o gênero não expressa uma essência interior de quem somos. essa data é importante para mudanças das teorias feministas dada a crescente insatisfação antropológica com o estruturalismo e evolucionismo. quando questio- nada sobre o que é gênero. Stolke (2004) afirma que Butler. tenho argumentado que gênero é per- formativo. finalmente. Scott (2011) e Butler concordam que nesse modelo biná- rio. e isso. Eu também penso que o gênero é vivido como uma in- terpretação. afirma que: “. não intenta destruir ou negar as teorias feministas anteriores. deveriam iniciar questionando as raízes biológicas dos conceitos de gênero. A partir dos anos 90. 25 . Francine Pereira Rebelo . através da introdução da teoria conhecida por teoria performativa. Butler (2008). Stolke (2004) afirma que Butler. a autora trans- forma radicalmente a problemática feminista clássica. unindo o anti-essencialismo fe- minista e a teoria prática. independentemente da elaboração cultural particular. dadas as categorias de sexo.Trabalho de Conclusão de Curso. não o sexo. dentre as teóricas mais recentes me baseio principalmente na obra de Judith Butler (2008). ou um jogo de interpretações do corpo. confronta a estabilidade das identidades de gênero. apesar de sua crítica ao dualismo sexo/gênero. considerando a relevância do caráter discursivo da sexualidade e do gênero. Para autora. Influenciada pelas obras de Foucault sobre sexualidades. e. é uma mutável e histórica ins- tituição social ” (2006). 2006) com a americana.

as consequências dessas práticas reguladoras resultariam no ritualizado jogo de práticas. mas como algo que se faz. A autora compreende por gênero discursivo as consequências de um conjunto de práticas re- guladoras da identidade de gênero que se tornam estáveis através da heterossexualidade obrigatória. 2008) considera o gê- nero mutável e afirma que a identidade feminina e masculina nunca são completas. A autora argumenta que o próprio sujeito das mulheres não é mais compreendido em termos estáveis e imutáveis e problematiza questionando o que constitui a categoria “mulheres” e “feminino”. o campo dos estudos de gênero não está desligado dos estudos sobre sexualidades. Ao concordar que a análise de gênero deve sempre vir acompanhada de outras categorias de análise. Francine Pereira Rebelo . Nessa perspectiva. a teoria de Butler con- corda com as teóricas marxistas. Para a compreensão da teoria de Butler é importante entender que a categoria “mulheres” é discursivamente construída e que é necessário que a crítica feminista compreenda que essa categoria é produto das mesmas estruturas de poder que as reprimem e pelas quais se busca a emancipação. etnia e região. mas compreendido em sua forma- ção no interior de um campo de poder . o gênero deve estar sempre em diálogo com identidades discursivamente construídas a partir da interseção com outras categorias – como raça. classe. utilizo principalmente Foucault. Para Butler (2008) é fundamental que a crítica feminista compre- enda que se alguém é mulher isso não é tudo que alguém é. A teoria performativa da autora não tem como objetivo principal analisar como o sistema sexo/gênero constrói suas identidades através de um conjunto de normas reguladoras. Nessa perspectiva não entende-se o gênero como algo que se é. como a vivência do gênero. o gênero é um efeito discursivo e o sexo é um efeito do gênero. mas se encontram em um processo permanente de constru- ção e de ressignificação. aponta- do por Butler. Como expus anteriormente. nesse caso. Schwade (2010) afirma que o sujeito “mulheres” não deve ser presumido. Segundo a teoria performativa de Butler (2008). Butler (2006. Como afirmei anteriormente. autor que contribui teo- 26 . mas sim atentar para as ambiva- lências e multiplicidades que emergem da formação da subjetividade e das práticas. Tal campo não deve ser omitido em uma pesquisa que visa esclarecer os desdobramentos do gê- nero e para tal. Por sua vez.Trabalho de Conclusão de Curso.

Francine Pereira Rebelo - Trabalho de Conclusão de Curso.

ricamente para construção da obra de Butler. Para Foucault (1998), a
história da sexualidade é a historia dos discursos.
Foucault (1998) afirma que o discurso articula saber e poder, o
próprio discurso é produtor de poder. No livro “História da Sexualida-
des”, o autor mostra como historicamente constitui-se uma aparelhagem
de produção dos discursos e como o sexo, através da circulação dos dis-
cursos e do próprio silêncio, é regulado por meio de discursos públicos e
úteis. Foucault afirma que o discurso sobre sexo é apropriado pelo Esta-
do e passa a servir como dispositivo de controle do Estado sobre os in-
divíduos. Ele entende que a sexualidade não é o elemento mais rígido
nas relações de poder, mas é um dos dotados de maior instrumentalidade
e possibilita o maior número de manobras.
Para o autor, sexualidade é uma rede em que a estimulação dos
corpos, intensificação dos prazeres, incitação ao discurso, reforço das
resistências e controle se relacionam com estratégias de poder. Foucault
afirma que onde existe poder há resistência e usa o termo “resistências”
no plural, não como um foco único. A distribuição do poder acontece de
maneira irregular, são os nós dessa rede que impedem o livre fluxo do
poder. É bastante comum que esses pontos sejam pontos de resistência
transitórios e móveis.
Procuro compreender nessa pesquisa como essas redes de poder
se articulam nos casos das motoristas de caminhão, se existem e como
funcionam os mecanismos de controles dos corpos e qual a relação des-
tes com as perspectivas de gênero. Essas mulheres podem ser teorica-
mente compreendidas como pontos de resistências, e mais importante,
elas se compreendem como pontos de resistência?
Retornando e finalizando a discussão sobre gênero, trago a con-
cepção de Miguel Vale de Almeida (2004), autor contemporâneo que
trabalha na mesma perspectiva de gênero que Butler. O antropólogo
afirma que tanto o corpo sexuado como o individuo com gênero são re-
sultados de processos de construção histórica e cultural. Por esse moti-
vo, ele opta por não utilizar noções como papel sexual ou de gênero e
acredita que assim evita o valor implícito da dicotomia sexo/gênero.
Para explicitar as relações de gênero, o autor utiliza a concepção de or-
dem de gênero, definindo-as como um padrão historicamente construí-
do, de relações de poder entre homens e mulheres e definições de femi-
nilidade. Vale de Almeida afirma que feminino e masculino não são
dicotômicos, mas sim avaliações morais assimétricas. O autor também
defende a mutabilidade das categorias e das relações de gênero.
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Francine Pereira Rebelo - Trabalho de Conclusão de Curso.

Assim como Butler e Vale de Almeida, não acredito que é neces-
sária para a análise de sexo e gênero, a imposição de uma falsa estabili-
dade desses termos, impossibilitando assim a compreensão das descon-
tinuidades práticas e das identidades de gênero. Aceitada a mutabilidade
do gênero, pretendo através da análise dos processos de construção e
ressignificação, no contexto específico das mulheres motoristas de ca-
minhão, expor e compreender as práticas que regulam esse espaço femi-
nino e suas implicações para a inserção dessas mulheres nesse espaço.
A partir da análise de Butler (2008) que entende gênero como al-
go que se faz e não como algo que se é, acredito que é principalmente
através da exposição da vivência no campo e das práticas das mulheres
motoristas que eu conseguirei expor o que entendendo quando falo de
mulheres caminhoneiras e que mesmo afirmando o conceito de mulheres
para essa pesquisa e identificando a multiplicidade e ambivalências a-
presentadas nesse contexto observável específico, esse conceito está
frequentemente em movimento e é passível de diferentes análises.

1.7 O que foi (e o que não foi) escrito sobre mulheres
caminhoneiras?

Dos trabalhos acadêmicos que encontrei na plataforma do Scielo,
a maioria dizia respeito à saúde dos motoristas de caminhão, alguns tra-
balhos nas Ciências Sociais na área abordavam mais predominantemen-
te a temática do HIV e/ou prostituição infantil. Dentre essas pesquisas,
todas haviam sido realizadas com caminhoneiros homens, através de
entrevistas, ou na residência do motorista, nenhum campo havia sido
feito através de viagens acompanhando esses profissionais. Exceto por
um trabalho de doutorado na Sociologia, do ano de 2002, em que a pes-
quisadora do sexo feminino pesquisou profissionais do transporte, den-
tre os seus/suas informantes caminhoneiros/as, 17 eram homens e quatro
mulheres. A pesquisadora, Luciane dos Santos, realizou entrevistas ma-
joritariamente em postos de gasolina e durante sua pesquisa de campo,
viajou por oito dias com duas motoristas que trabalhavam juntas.
Em sua obra, Santos (2002) analisa principalmente a questão da
vida e trabalho desses/as profissionais. Referente as questões de gênero,
Santos destaca que a presença de mulheres no setor de transporte de
cargas vem tornando-se cada vez mais comum, apesar de ser ainda pou-
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Francine Pereira Rebelo - Trabalho de Conclusão de Curso.

co expressiva se comparada ao número total de caminhoneiros. Apesar
de marcadamente masculinizados, a autora afirma que outros setores do
transporte também apresentam mudanças, sendo crescente o apareci-
mento de mulheres taxistas, motoristas de ônibus, operadoras de trens e
aeronautas.
Através de um resgate histórico, Santos (2002) mostra que a le-
gislação de 1932 proibia que mulheres exercessem trabalho noturno e
atividades consideradas insalubres ou que exigissem atenção e cautela.
Nessa mesma perspectiva, o Estado era defensor da instituição familiar,
incentivando a maternidade e valorizando o patriarcado. É a partir de
1943, com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que o trabalho
noturno passa a ser permitido às mulheres maiores de 18 anos e ainda
com restrições do exercício de algumas funções.
A campanha que restringia o acesso das mulheres aos espaços
públicos era feita não só pelo Estado, Santos (2002) afirma que a identi-
ficação de mulheres como naturalmente responsáveis pelos filhos e a
frequente atribuição de “qualidades naturais” como dóceis, delicadas e
passivas, eram fatores fundamentais para o afastamento das mulheres
das esferas públicas. Quando não afastadas completamente, as mulheres
tinham suas atividades restritas por essas características naturais.
A primeira mulher caminhoneira do Brasil que se tem registro
chamava-se Neiva Zelaya. Ela foi a portadora da primeira carteira de
habilitação profissional concedida a uma mulher no país. Neiva Zelaya,
nasceu em Propriá –SE e viveu a maior parte da vida em Ceres – GO,
tornou-se viúva em 1948, aos 23 anos , com quatro filhos foi obrigada a
lutar pelo sustento da família. Inicialmente foi proprietária de um labo-
ratório fotográfico, porém, por consequência de uma tuberculose foi
recomendada pelo médico a trocar de profissão. Aprendeu, então, a diri-
gir caminhão. Santos afirma que a profissão, ao contrário do que propa-
gava o discurso moralista vigente, não atrapalhou o cuidado com os fi-
lhos. Curiosamente, Zelaya é conhecida principalmente por ser fundado-
ra de uma união espírita conhecida por Vale do Amanhecer 6. Na pes-
quisa realizada na internet, é destacado o amor e cuidado de „Tia Neiva‟
com crianças de um orfanato, mantido por ela própria. As fotos7 mos-

6
De acordo com pesquisas realizadas na internet, Vale do Amanhecer é uma doutri-
na espiritualista cristã fundada em 1959, criada para abrigar a Doutrina do Amanhecer, pela
médium clarividente Tia Neiva.
7
Optei por não colocar as fotos devido a má qualidade de grande parte das imagens.
A maioria das fotos encontradas online relaciona Neiva Zelaya a suas atividades nos templos
espíritas.
29

A autora afirma que a caminho- neira frequentemente é vista como não feminina ou masculinizada. trabalhando em turnos específicos. presidente e diretor da Braspress em 1999. ela é mais cuidadosa‟10. coragem. tidas como masculinas em uma mu- lher. as motoristas são identificadas como “trabalhadoras diferenciadas”. diretor de Recursos Humanos da Braspress afirma em uma entre- vista que a „mulher é mais calma. Por outro lado. uma empresa de trans- porte 9conhecida pelo grande número de mulheres funcionárias. Fonte: Rede TV – Leitura Dinâmica – 08/03/11 30 . Na parte de sua obra que trata das mulheres motoristas. novos arranjos familia- res e redes de ajuda. Através de publicação do presidente da Braspress8 (SANTOS. brincos e maquia- gens. vaidade.Trabalho de Conclusão de Curso. Santos aponta que a apresentação dessas características. Essa percepção decorre da incorporação de atributos entendidos como natu- rais dos homens para o exercício dessa profissão. independência e vigor físico fazem parte das representações dessas profissionais. ao mesmo tempo em que são reconhecidas como por- tadoras de um “instinto natural”. paciência e atenção. Perpassando esses pontos de reflexão. Santos considera que as características atribuídas às mulheres também são fatores de diferenciação. através 8 O trabalho de Santos traz trechos de uma declaração de Urubatan Helou. mas reforçam a ideia de que essas mulheres são exceções por apresentarem um „instinto masculino‟. Santos afirma que: Ao desempenharem uma atividade mascu- lina. a Braspress atualmente emprega 757 motoristas. Francine Pereira Rebelo . vin- do a falecer em 1985.com. invisibilidade das motoristas. sendo que 264 são motoristas do sexo feminino. tram a motorista de cabelos longos. Milton Braga. 2002). usando vestido. não desconstroem as naturalizações das diferenças de gênero. Santos aborda alguns aspectos principais como características masculinas e fe- mininas. por natureza. A maioria dessas motoristas não viaja longas distâncias. pode- mos notar que a contratação de mulheres é „justificada‟ por suas caracte- rísticas femininas como maior cuidado. 10 Disponível on-line: http://www.braspress. 9 De acordo com informações do site oficial da empresa. Características como autoconfiança. competitividade.br/content/146. Zelaya ainda foi motorista de ônibus e repórter em um jornal. a pesquisa- dora analisa a questão do preconceito.

Santos aponta ainda a questão dos novos arranjos familiares possibilitados aos casos de motoristas que viajam longa distâncias. Para a autora (2002.Trabalho de Conclusão de Curso. ou seja. mas mesmo assim são invisibilizadas. a questão da invisibilidade das mulheres na profissão. 215). Francine Pereira Rebelo . p. p. tias ou irmãs. realizam viagens com o conhecimento da empresa. Sobre família. a pesquisadora afirma que as motoristas que deixam os filhos em casa recorrem a uma rede de ajuda formada principalmente por outras mulheres da família. Santos (2002) destaca em sua obra a questão da vaidade. as mulheres abandonem sua femi- nilidade”. Com objetivo de exemplificar a predominância masculina no setor a autora traz um gráfico mostrando a participação feminina de mulheres no setor do transporte em relação à região geográ- 31 . Santos destaca dois aspectos centrais. não sendo formalmente contratadas ou tendo seus direi- tos trabalhistas reconhecidos. 211). É notório na pesquisa de Santos que apesar das condições de trabalho dificultarem os cuidados pessoais. Em outros trabalhos como o de Leal (2008) a questão da mulher caminhoneira é referenciada apenas a respeito da participação feminina no setor de transporte. Primeira- mente. “trata-se de uma concepção equivocada de que ao realizarem um “trabalho masculino”. atenciosas e dedicadas (2002. avó. motoristas que viajam junto com os maridos. por exemplo. já que é evidente a maior produtividade do casal do que dos motoristas que viajam sozinhos. do qual se revelam pelas características do eu-feminino: cuidadosas. a atenção à aparência é algo presente no cotidiano das mulheres motoristas. responsáveis.

as mulheres aparecem principalmente como profis- sionais do sexo. (LEAL. Francine Pereira Rebelo . trata especificamente da relação entre HIV/AIDS entre os motoris- tas. Em seu trabalho.Trabalho de Conclusão de Curso. na mesma perspectiva. mas que não são motoristas. principalmente nos períodos de ausência do marido.SC em 1995. Figura 1 . A obra de Santos trata também de mulheres que tem relação com os caminhoneiros. assim como grande parte dos trabalhos sobre caminhonei- ros. Santos traz em sua obra uma análise a respeito de um clube das mulheres dos caminhoneiros criado em Santa Rosa do Sul . aborda principalmente a mu- lher como esposa do motorista. A autora apresenta as mulheres dos motoristas como diferen- ciadas por serem as principais responsáveis pelas decisões no lar e pela criação dos filhos. funcionárias de posto e fun- cionárias de transportadoras. fica. Rosa (2006). O clube tem como objetivo compartilhamento de experiências entre as esposas. A invisibilidade das mulheres motoristas é notória no que se refe- re a publicações acadêmicas. Através de entrevistas realizadas com as mulheres dos caminhoneiros. Mesmo nas pesquisas que abordam o uni- 32 . 2008) Leal. familiares de motoristas. a pesquisadora buscou perceber a relação do motorista com a família e o significado de ser esposa de um cami- nhoneiro.Participação feminina de mulheres no setor do trans- porte em relação à região geográfica.

Trabalho de Conclusão de Curso. verso dos motoristas de caminhão. Francine Pereira Rebelo . a referência as caminhoneiras é mí- nima ou mesmo inexistente. Ainda que a pouca representatividade quan- titativa das mulheres motoristas possa servir de „justificativa‟ para essa invisibilização. acredito que o papel de coadjuvante e a frequente análise das mulheres em relação aos motoristas nessas obras. deixam a desejar no que se refere à compreensão do gêne- ro como categoria de análise. 33 . quando não pro- blematizadas.

Mas só integraram-se a pesquisa aquelas que se dispuseram a colaborar com o trabalho. Como mostra o estudo de Jean Segata (2008) dentro desses espaços existem os 34 . cria-se um perfil.1 Navegando e viajando pelo campo. mulheres motoristas de cami- nhão. vídeos e informações pessoais no qual as interações são possíveis. Nessas “páginas pessoais”. O Orkut é uma rede social da internet que possibilita o contato entre pessoas que se conhecem pessoalmente e com outras que se inte- ressam pelo mesmo tema que constitui a comunidade. Como bem des- creveu Paula Pinhal de Carlos (2010) nesse espaço. principalmente as comunidades “Mu- lheres caminhoneiras”.Trabalho de Conclusão de Curso. comecei o contato com elas: umas me responde- ram e foram solícitas. então. tendo como foco os perfis. por entrar em contato com mulheres que tinham no seu perfil fotos ao lado de caminhão ou dirigindo. outras não me responderam e algumas. Francine Pereira Rebelo . para participação é necessária a adição/filiação dos participantes do Orkut. contendo fotos. Esses espaços são elabora- dos pelos próprios participantes e com assuntos muito variados. apesar da paixão por caminhão que as levavam a participar das comunidades vir- tuais. me disseram que não dirigiam. “Mulheres que dirigem caminhão” e “Mulheres carreteiras”. mas que efetivamente não diri- gem caminhão. Essa plataforma virtual se autode- fine como uma “comunidade on-line que conecta pessoas através de uma rede de amigos confiáveis”. CAPÍTULO 2 – M E TO D O L O G I A E D E S C R I Ç Ã O D O C A M P O 2. De onde elas vêm? Como as encontrei? Quais são os espaços pelos quais elas circulam? Essa circulação pode ser virtual? A princípio. Este capítulo tem como objetivo apresentar a metodologia utili- zada para construção desse trabalho. existe um espaço chamado “minhas comunidades”. Pretendo ainda justificar determi- nadas escolhas metodológicas e refletir eticamente a respeito da pesqui- sa. foram convidadas a participar da pesquisa partici- pantes das comunidades online. Antes de iniciar a descrição do campo. Optei. A partir dessa primeira seleção. considero relevante recuperar alguns dados de suas trajetórias. via Orkut que tratam da temática de mulheres que dirigem caminhão. Dentro dessas comunidades existem partici- pantes que se interessam pelo assunto.

Francine Pereira Rebelo ..Captura de tela do orkut de uma das informantes.Trabalho de Conclusão de Curso. “Serei caminhoneiro até quando.11 11 Retirado dia 19 de maio de 2011 da rede social Orkut© 35 . considero importante destacar que no acesso aos perfis dessas mulheres motoristas percebi que através do Orkut várias delas exaltam a paixão pela profis- são. onde podemos verificar que as comunidades que a motorista pertence tratam explicitamente so- bre caminhão.”. locais de debate para uma espécie de subtemas do tema principal que é o título da comunidade. a maioria das comunidades que essas mulheres participam diz res- peito a caminhões. A autora entende que o Orkut consiste em uma forma de reprodução de si mesmo no mundo virtual. Figura 2 . traços da personalidade do/a internauta podem ser desvendadas. fóruns. di- rijo carreta”. “ Sou mulher. por exemplo “Eu amo caminhão”. Carlos 2010 afirma que através do Orkut e da participação em de- terminadas comunidades. Desse modo. Abaixo trago uma cap- tura de tela do Orkut de uma das informantes..

o mesmo utilizado no PX.. por hereditariedade. nasci cami- nhoneira. algumas me adi- 36 .. logo. E assim continuarei até que meus músculos não mais consigam dominar a má- quina e meus olhos não mais consigam en- xergar as pistas. pesquisei na internet o significado e descobri que “Qra” servia para homens e mulheres e significava quem é o operador do rádio PX ou quem está falando. No álbum de fotos das caminhoneiras também podemos encontrar várias fotos falando do modelo do caminhão. outras colocam no próprio perfil “Sou apaixonada pela minha família e por caminhões” ou então: “Poderia ser Médica. Reconhecendo as motoristas. chamando o caminhão de “lindo”. muitas vezes é o apelido. A maioria dos perfis não permite que se deixem recados a uma pessoa que não esteja na rede de amizades da outra. que identifica quem são as motoristas. Referências ao caminhão são comuns nos perfis e no próprio no- me das motoristas. (Trecho retirado da des- crição do perfil do Orkut de uma das moto- ristas pesquisadas no dia 19/05/2011). Foi através desses 100 caracteres que tentei explicar re- sumidamente a pesquisa para muitas caminhoneiras. Descobri que nem sempre o Qra é acompanhado pelo nome. Após perceber que o 'Qra' representava um elemento 'restrito' ao universo dos/as motoristas de caminhão. enviava convites de amizade. Ao entrar em contato com as mulheres. professo- ra.Trabalho de Conclusão de Curso.”. passei a procurar as informan- tes que participavam das comunidades citadas e que também tinham o 'Qra' no nome apresentado no perfil. notei que muitas delas escreviam antes do nome a sigla “Qra”. Após notar a recor- rência de mulheres com a sigla. é possível escrever uma mensagem com no máximo 100 caracteres. eu também poderia deixar recados para elas e tentar explicar a pesquisa. dessa maneira elas passariam a ter acesso completo ao meu perfil e álbum de fotos. mas. Francine Pereira Rebelo . Engenheira. Caminhão e Orkut se misturavam e foi através dessa rede social que alguns elementos do campo emergiram para mim. através da soli- citação de amizade.

Quando o an- 12 CONEP é um órgão atrelado ao Ministério da Saúde que ordena em geral as regras da pesquisa em seres humanos. Segundo Heilborn (2004). Primeiramente no que se refere negociação da identidade do pesquisador no campo e segundo no momento da divulgação dos resultados da pesquisa. chegando a perguntar se eu estava pedindo o seu número de telefone para prejudicá-la de alguma maneira. Contraditoriamente ao que pareceu no momento dos contatos na internet. cionaram nas suas redes de amizade mas nunca responderam meus reca- dos. O termo é uma prática de pesquisas em área de saúde que estendeu-se para outras áreas. o CONEP12 (Conselho Nacional de Ética na Pesquisa). Roberto Cardoso de Oliveira (2004) aponta dois aspectos princi- pais das dificuldades encontradas pelo/a antropólogo/a devido ao con- sentimento informado proposto pelo CONEP. no que faria se nenhuma me desse retor- no. Como eu as encontraria? Felizmente não tive que buscar outra solu- ção já que depois de mais ou menos dois meses tinha uma rede de conta- tos por telefone por volta de dez motoristas. ao impor uma visão bi- omédica. verificava com frequência o Orkut para saber se elas tinham me adicionado. pois. Nesta situação me vi obrigada a repensar as questões éticas envolvidas em pesquisas através de redes sociais. a respeito da questão ética e da pesquisa com seres humanos. o consentimento informado é problemático. Francine Pereira Rebelo . Roberto Cardoso de Oliveira (2004). Entre esse processo e o contato por telefone com as motoristas houve um intervalo de no mínimo um mês. 37 . universaliza e normativa a prática de pesquisa. o que mostrou que as redes sociais são hoje um importante espaço de pesquisa. uma das motoris- tas que mais me ajudou durante a pesquisa de campo nas estradas foi a que mais mostrou resistência em disponibilizar o contato telefônico. nesse tempo. discutem questões práticas e princi- palmente a utilização do consentimento informado. Alcida Rita Ramos (2004) e Luis Roberto Cardoso de Oliveira (2004). como Ciências Sociais. O termo de consentimento informado representa uma manifestação expressa e assinada pelo infor- mante nas pesquisas.Trabalho de Conclusão de Curso. se haviam me respondido com o telefone delas ou pelo menos com o e-mail. outras se mostraram imediatamente solícitas e disponibilizaram seus endereços – e-mail ou messenger – para facilitar o contato. Pensei muitas vezes sobre a eficácia da metodologia de pesquisa através de redes sociais e principalmente. No primeiro caso. estabele- ce regras sobre consentimento informado.

os sujeitos de pesquisa têm de ser informados sobre quais intervenções estão sujei- tos e do que se trata a pesquisa. Além do Orkut. O Orkut. são relevantes na medida em que esse é um dos espaços pelo quais as caminhoneiras se sociabilizam e constituem suas redes de amizade. autor afirma que do ponto de vista da produção antropológica não é produtivo uma definição bem amarrada e conclusiva formulada no início da pesquisa. a defesa na banca de qualificação e através de diversas conversas com a orientadora da pesquisa. Apesar de não ter feito uso do termo de consentimento. ex-funcionário de uma trans- portadora em Jacareí. que me aju- daram de diferentes maneiras. Desde a elabo- ração do projeto. Nesse sentido. as discussões durante a viagem seriam utili- zadas na pesquisa. sempre busquei deixar claro entre as caminhoneiras qual era o meu papel durante as via- gens e relembrá-las que mesmo não gravando e mesmo que elas não me vissem fazendo anotações. Apesar da busca esse amigo 13 A autora reconhece o caráter de proteção que um código de ética oferece aos pes- quisadores e a comunidade científica. o antropólogo é impossibilitado de resgatar algumas de suas experiências existenciais no campo para pensar posteriormente interpretações que não havia pensado durante o campo. Nessa pesquisa a questão ética foi sempre central. principalmente por considerar a discussão sobre o assunto suficiente. Um deles. buscou entre os motoristas que conhecia e na pró- pria transportadora que havia trabalhado por alguns anos mulheres ca- minhoneiras ou alguém que as conhecesse. Francine Pereira Rebelo . No segundo ponto. Debert destaca a importância de que um código de ética não imponha a todas as disciplinas parâmetros específicos exclusivos da pesquisa em certas áreas disciplinares. concordo com Debert (2004) que a- firma que um código não substitui o bom senso13. contei com a ajuda de dois amigos. de acordo com a resolução. a preocupação ética e princi- palmente com as informantes foram sempre levadas em consideração. mesmo não constituindo campo central nessa pesquisa. porém. o objeto teórico da pesquisa é redefi- nido após a pesquisa de campo. o antropólogo sempre tem mais de uma identidade no seu campo e com essa normatização. tropólogo faz uma pesquisa de campo tem que negociar sua identidade e sua inserção na comunidade. foi uma eficiente ferramenta de localização e contato com essas profissionais e foi através da relação virtual com uma delas que se abriu a possibilidade de encontro com várias outras.Trabalho de Conclusão de Curso. Entendo que as recentes discussões sobre o uso do Orkut como campo de estudos através dos debates sobre Antropologia do Ciberespa- ço. Frequentemente. 38 .

Percebi que minha insistência poderia ser inoportuna ou irritantemente insistente. autuou em um dos seus expedientes uma caminhoneira. Assim como Geertz (1989) teve que fugir da polícia durante a ob- servação de uma briga de galos em Bali. 39 . O termo se refere ao conjunto de fenôme- nos relevantes que devem ser compreendidos e observados em sua plena realidade e não em documentos ou através de perguntas. foram problemas frequentes neste momento de busca por informantes. Outro amigo. 14 Pude entender concretamente em minha pesquisa este conceito cunhado por Mali- nowski nos Argonatuas do Pacífico Central (1978). que pude viajar com a segunda informante. elas precisavam entrar em contato quando estivessem em Florianópolis para que pudéssemos nos encontrar. por exemplo. explicou a pesquisa a ela e pediu seu contato. mas não muito insistentemente. Dentre as motoristas que tive contato por telefone. pois eu começava fazendo referência a quem tinha me disponibilizado o contato. Francine Pereira Rebelo . Através do contato por telefone. porém. dificultaram muitas vezes o acesso ao cam- po. Entre os imponderáveis estão. Muitas vezes eu ligava perguntando por onde estavam e se tinham previsão de passar em Florianópolis. não encontrou ninguém. Problemas familiares. Por isto passei a procurá-las com certa frequência. Mas também sabia que não po- deria ficar muito tempo sem procurá-las para que elas não achassem que eu tinha terminado a pesquisa ou desistido. eu solicitava possíveis outros contatos. a ligação se tornava mais simples e aberta por par- te da motorista. Neste momento era muito importante que as motoristas não se esquecessem que eu estava à espera de suas ligações. Como sabia do meu trabalho. muitas não faziam trajetos que passassem por Florianópolis o que limitava meu acesso a elas. Mantive contato com essa motorista por telefone por mais de dois meses. nenhum/a pesquisador/a deve acreditar que o campo sairá perfeitamente como programado. a rotina de trabalho. Não bastava que elas me ligassem. Nesse caso. defeitos no caminhão. falta de respostas por telefone dado os diferentes horários de descanso delas ou falta de res- posta por falta de crédito no telefone. Foi necessário muitas vezes que eu buscasse meu próprio equilíbrio e que aplacasse a minha ansiedade de procurá-las exageradamente. motivos familiares a afastaram da profissão por algum tempo.Trabalho de Conclusão de Curso. funcionário de um posto de fisca- lização. órgão responsável por conferir as notas referentes as cargas. Os im- ponderáveis da vida real14. Foi a partir dessa indicação. de uma das mo- toristas e do contato que ela me disponibilizou.

Ramos (2008).Trabalho de Conclusão de Curso. É comumente atribuída aos caminhoneiros/as a seguinte frase: “Mo- ro no mundo e passeio em casa” (SANTOS. intitula- do “O paraíso ameaçado”. Francine Pereira Rebelo . consideram outros espaços como lar. No que diz respeito à limitação geográfica da pesquisa e ao espa- ço. O fato de termos nos conhecido pessoalmente. De acordo com ela. Esta frase se refere ao pouco período em que permanecem em suas casas e a ideia de que por viajarem sempre. facilitava a indicação. Foi principalmente a segunda informante a responsável pelo con- tato com diversas outras. fui levada a refletir sobre alguns pontos relevantes. Macrae (2011) explica esse método como sendo a apresentação de um sujeito que se qualifique para a pesquisa por um outro que já tenha participado. eu era a primeira pes- soa desconhecida com quem ela viajava. mas proporcio- nalmente o tempo que ficam em casa é inferior ao tempo que estão na estrada (ROSA. Boissevain (1974) entende que através desse método é possível o acio- namento de uma maior rede de contatos. razão inicial deste projeto de pesquisa. A primeira motorista com quem viajei foi a motorista funcionária da empresa de minha família. por se tratar de uma população que tem residência fixa. portanto não despertar tanta desconfiança e possibilitar maior abertura das motoristas. afirma que o termo nomadismo muitas vezes 40 . A partir desse contato outros se estabeleceram. no chamado efeito „ bola de neve‟. Algumas das caminhoneiras acompanhadas che- gam a ficar de dois a três meses sem retornar as suas casas. em que um/a entrevistado/a indica outros/as. O tempo que essas profissionais ficam sem retornar depende da dinâmica do empre- go. 2002. o acesso a ela foi muito mais fácil. Essa motorista conhecia outras profissionais. acredito que essa não tenha sido uma preocupação da motorista. 2006). em seu trabalho sobre povos yanomamis. nesse caso. 2006). mas por encontros casuais. O acesso a ela foi feito através do meu pai e apesar do aviso de que ela era completamente livre para não participar da pesquisa. com a vantagem prévia de já ser conhecida e. pois esse espaço configura-se como um local de convívio social (ROSA. fato que facilitou sua solicitude. não é nômade. 2006). ROSA. O morar na estrada tem para os caminhoneiros um importante significa- do. Creio que grande parte do receio das motoristas era referente à questão de segurança. Essa mesma motorista relatou-me depois da nossa viagem que antes de me conhecer tinha pensado em me revistar antes que eu entrasse no caminhão. não tendo o contato de nenhuma outra caminhoneira.

Essa implicação é essencial na construção das identidades das motoris- tas e nas configurações dos seus arranjos familiares. um dos temas que de- sejava abordar nesta pesquisa. ou seja. co- mo categoria da Antropologia. sendo a porcentagem nas outras regiões quase nula. não é utilizado de forma correta pela Antropologia. A delimitação inicial da pesquisa era que fosse realizada apenas com profissionais que viajam longas distâncias. Segundo a pesquisa de Andréa Leal (2008) a partir de dados do IBGE o local em que mais se encontram mulheres motoristas é no Sul e Sudeste. estabelecem como se darão as relações com cônjuges e filhos. 41 . local de mi- nha moradia e portanto de maior possibilidade de acesso às caminhonei- ras. pois. onde as mulhe- res caminhoneiras se concentram em maior quantidade e portanto po- dem ser mais facilmente encontradas15. apenas uma era residente em São Paulo. a autora os descreve como povo móvel. Ramos afirma que os yanomami. apesar da sua mobilidade. A autora afirma que 93% do Setor de Transporte Terrestre brasileiro é composto por homens. para explicar porque não entrei especificamente na questão do nomadismo. pois tem moradia fixa à qual retornam invariavelmente. especialmente no transporte rodoviário de carga. Nesse caso. O autor leva em conta em sua obra a noção coletiva de cons- 15 Dentre as motoristas pesquisadas quatro eram da região Sul. Destaco a importância dessa discussão. caminhoneiras que não tem um turno de trabalho e não retornam ao lar todos os dias. uma vez que há maior representatividade de mulheres nas regiões Sudeste e Sul. Francine Pereira Rebelo . o espaço nos permite analisar as relações humanas.Trabalho de Conclusão de Curso. Essa ques- tão foi central na delimitação do grupo analisado. o que deveria levar em consideração a respeito de residência: se as informantes residem em determinadas cidades ou se veem a si mesmas como não pertencentes a nenhuma cidade. Para Bechelany (2008). Este dado foi importante na configuração de minha amostra. A partir dessa reflexão sobre o “nomadismo” do grupo estudado me questionei sobre. sendo três de Santa Catarina e uma do Rio Grande do Sul. transportadoras e no próprio caminhão. mesmo que superficialmente. a autora mostra co- mo ao longo dos anos o termo nomadismo foi negativamente conceitua- do. Busquei desenvolver a pesquisa nessas duas regiões. não são nômades. É notável que no cotidiano das motoristas as relações acontecem muito menos em casa do que em outros espaços como postos de gasoli- na. mas nascida na região Nordeste.

Fretz e Shaw (1995). A Antropologia multi situada (multi-sited) é produto das novas dinâmicas do mundo contemporâneo. trução do ambiente. Defendem ainda que um trabalho apenas com conceitos nativos produziria textos com carência de relevância e interesses acadêmicos e uma preocupação excessivamente acadêmica não captaria ae destorceria matizes da vida diária do grupo estudado. notas de campo e escrita etnográfica”. RIAL. lecionada pelo professor Theóphilos Rifiotis. a observação etnográfica e a construção do trabalho à partir da leitura e reflexão desses (as) teóricos. SILVANO. A relação entre o/a etnógrafo/a e o/a sujeito/a se altera e os espaços de pesquisa dialogam com os enfoques globais (CAMARGO. Duas ve- zes vim de Jacareí (São Paulo) até Florianópolis (Santa Catarina) com 16 As viagens foram realizadas nas seguintes datas: 42 .495 Km percorridos e cinco viagens16. 2009). utilizo as reflexões e leituras realizadas na disciplina “Etnografia como método e prática profissional: observa- ção. O que essa relação propõe é que o/a etnógrafo/a passe a não ob- servar seu informante em apenas um local. 1998. No que se refere a construção e ao entendimento desse trabalho como um processo etnográfico. e. divido entre o trabalho de campo e o trabalho no escri- tório ou trabalho posterior de escrita.2 Distância percorrida e o campo estrada Foram no total 4. constituído atra- vés das práticas desenvolvidas sobre os lugares e da história que os en- volve. 2002). Francine Pereira Rebelo . A partir dessa compreensão de espaço. o informante passe a não ser pensado como pessoa confinada em determinado lugar. A cultura é entendida como uma produção no interior de espaços multilocais (CLIFFORD. 2. o espaço como dimensão relativa. optei por trabalhar com a emergente noção de campo multi situado.Trabalho de Conclusão de Curso. Através da leitura de autores como Emerson. Ao fazer. pude compreender o processo etnográfico como um co- nhecimento dual. busquei orientar a escrita. Nesse trabalho. se move entre suas notas de campo e concei- tos mais gerais da disciplina. Os(as) autores(as) afirmam que o etnógrafo deve representar o mundo estudado para os leitores que não tinham conhecimento sobre o grupo estudado.

Francine Pereira Rebelo .viagem realizada entre os dias 14/04/2011 e 16/04/2011. A escassa produção bibliográ- fica enfocando as mulheres caminhoneiras e a escassez de pesquisas que tenham usado o mesmo instrumento que fiz.viagem realizada entre os dias 14/12/2010 a 17/12/2010. outra vez fui da cidade de Palhoça (Santa Catarina) até Porto Alegre (Rio Grande do Sul). de viajar junto com as ca- minhoneiras dificultaram a construção comparativa dos dados deste tra- balho. esperando o período de descarga em São José (Santa Catarina). O trabalho de Santos (2002) sobre caminhoneiras. depois até Cachoeirinha (Rio Grande do Sul) e no retorno parei em Penha (Santa Catarina). Os encontros foram marcados com a maioria delas em postos de gasolina. sendo que as pesquisas tinham sido principalmente através de entrevistas em pos- tos de gasolina. as e os pesquisadoras/es que tinha feito os trabalhos acadêmicos que encontrei na plataforma eletrônica do Scielo17 não tinham realizado viagens com os caminhoneiros.scielo. As via- gens não foram seguidas. Caminhoneira Scania . sendo que viajei de dezembro de 2010 a abril de 2011. a viagem seguinte foi de Palhoça (Santa Catarina) até Porto Alegre (Rio Grande do Sul). Caminhoneira Ford . transportadora. principalmente porque não é comum mais de uma motorista em um posto.org 43 . sendo que na hora das viagens eram elas quem me contatavam por telefone avisando que estavam passando próximo a cidade em que eu estava naquele momento (Florianópolis ou Jacareí).viagem realizada entre os dias 13/04/2011 e 16/04/2011. não problematizava o contato com as motoristas e o contexto em que essa viagem aconteceu.viagem realizada entre os dias 08/12/2010 e 11/12/2010. apesar dessa resistência as motoristas viam com interesse e curiosidade o traba- lho. se- guindo para Treze Tílias (Santa Catarina). Por isto entendo que é urgente a emergência desses estudos e que essa pesquisa pode contribuir como suporte para trabalhos futuros. ao todo foram aproximadamente 14 dias nas estradas. O contato pessoal com uma das motoristas se deu de maneira muito particular: eu mantinha contato por telefone com ela por bastante tempo e estava cha- Caminhoneira Volks . 17 www. voltando até Tijucas (Santa Catarina) e parando mais uma vez em Palhoça (Santa Catarina). Como mostrei anteriormente. O reconhecimento era feito imediatamente. depois até Videira (Santa Catarina). uma das caminhoneiras.Trabalho de Conclusão de Curso. ou residência dos motoristas. Caminhoneira Mercedes . voltei até São José (Santa Catarina). Notei que durante o contato e a construção da pesquisa. apesar de ter contado com uma viagem de 8 dias. Caminhoneira Volvo .viagem realizada entre os dias 11/01/2011 e 12/01/2011. depois de Biguaçu (Santa Catarina) fomos à Itajaí (Santa Catarina).

A primeira mo- torista com quem viajei contou que estava com medo que eu fosse “cha- ta e fresca”. podia incomodar de certa maneira as moto- ristas. passamos na casa dela e viemos para Tijucas. Viajar com mais uma pessoa. para as regiões Nordeste ou Norte. ela foi nos encontrar na fábrica onde pegáva- mos a mercadoria para transporte. Durante a festa de música gaúcha. Viajamos uma noite com quatro mulheres dentro do caminhão. principalmente quando dormíamos poucas horas por noite. Os cafés da manhã no posto ou na gaveta do caminhão. conheci mais alguns motoristas que trabalhavam juntos com uma das caminhoneiras com que viajava. a música serta- neja ou o simples apreciar da paisagem foram momentos muito agradá- veis na minha experiência de campo. Francine Pereira Rebelo . Tentei o máximo possível ficar acordada junto com as motoris- tas e me adaptei muito bem aos seus horários. a casa de três motoristas. não fiquei apenas do lado da motorista. Todos mostraram interesse em me conhecer e pude entender melhor como são as relações de trabalho entre os colegas da mesma empresa. mas que “como eles diziam no Big Brother. Tive oportunidade de conhecer. 44 . em geral. As viagens aconteceram sempre de maneira muito espontânea pa- ra mim. teada porque ainda não tínhamos nos encontrado pessoalmente. resolveu viajar conosco o resto do caminho. no calor do norte ou nordeste. mas conversei com todos os seus colegas. Imediatamente. já que duran- te as viagens tínhamos que dividir a cama do caminhão ou eu dormia em uma rede pendurada nas duas portas. A motorista. No caminho passamos ainda na casa da ou- tra motorista que chamou outra amiga e paramos em um bailão na beira da estrada. Na festa. principalmente por medo de incomodar a motorista. quando viajei com outra motorista para o interior de Santa Catarina. Ficar acordada era sempre um desafio. já cansada das férias. antes de continuar viagem para Florianópolis. elas viam minha presença como uma possibili- dade de companhia durante as viagens e quando falavam no telefone sempre falavam da minha presença de maneira positiva.Trabalho de Conclusão de Curso. A conversa entre nós três fluiu tão bem que fomos almoçar juntas. Depois das viagens todas elas continuaram me deixando recados no Orkut e colocando fotos de maneira muito amigável. aproveitando para conhecer também a outra motorista que ela só conhecia por „ouvir falar‟. Porém. de passagem. Recusei as viagens muito longas. ela estava sen- do ela mesma”. lembrei que essa era a cidade onde essa motorista morava e mandei uma mensagem para ela.

Algumas me mostraram recortes de jornais das reporta- gens que fizeram parte. em momentos que as motoristas não estavam presentes. principalmente em março. a segunda aceitou a gravação. Pedi permissão para as motoristas para que eu tirasse fotos duran- te as viagens e convivência no caminhão: nenhuma se opôs. Nos dias seguintes as viagens elaborava um diário de campo completo. enquanto. A autora afirma que apesar das semelhanças. Em seu trabalho intitulado “Contatos fo- tográficos”. a pesquisadora busca explicitar a relação entre fotógrafos e fotografados. Elas me diziam que pensavam se iriam falar que eu era irmã delas. 45 . amiga ou „menina da universidade‟. Durante as viagens. inicialmente. comparando as duas viagens. segundo elas. Uma preocupação frequente das motoristas era explicar para as pessoas na transportadora ou nas fábricas quem eu era. Por se tratar de um ambiente tipicamente masculino. algumas vezes por mais de três horas. acreditavam que eu iria publicar um artigo em uma revista e quando questionadas sobre quem eu era. no exemplo usado por Rial. mas agradeço essas profissionais pela solicitude e boa vontade. mas seu próprio imaginário. creio que é importante retomar a questão da resistência inicial apresentada pelas motoristas. respondiam que eu era jornalista e que ia fazer uma reportagem so- bre elas. Francine Pereira Rebelo . Não é incomum a participação delas em algumas reportagens. ou no contato por Orkut19. Nem sempre a prática de dar carona era muito bem vis- ta18 e algumas vezes elas pensavam no que falar por esse motivo. mandaram entrevistas e reportagens. Os/as antropólogos/as bus- cam conhecer o universo explicitado nas figuras. Apresentada a metodologia da pesquisa.Trabalho de Conclusão de Curso. nesses casos eu ficava esperando na recepção. mês das mulheres. achei que a transcrição das conversas e anotação de pontos im- portantes se mostrou mais eficiente. porém. A princípio. os olhares de jornalistas e antropólogos são bem diversos. o jornalista fabrica uma imagem onde não leva em con- sideração o outro. nas revistas de caminhão. Rial (2001) esclarece que frequentemente antropólogos/as e jornalistas são confundidos. A primeira moto- rista se opôs. 18 Em algumas empresas não é possível a entrada de acompanhante no momento de descarga. fazia anotações e reflexões. Algumas das motoristas. dificilmente minha pre- sença passava despercebida e normalmente os funcionários das fábricas ou das transportadoras perguntavam para as motoristas quem eu era. tinha a ideia de gravar as conversas durante viagens. 19 Não cheguei a conhecer pessoalmente algumas das motoristas que me enviaram links com reportagens e entrevistas.

Francine Pereira Rebelo - Trabalho de Conclusão de Curso.

Essa resistência pode ser diretamente relacionada à noção do espaço do
caminhão como a morada da motorista. Nesse sentido, problematizo a
questão do caminhão como espaço, como a configuração do veículo
“assemelha-se” a uma casa e qual a relação das motoristas com o cami-
nhão que é não só seu local de trabalho, mas, sua residência.

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Francine Pereira Rebelo - Trabalho de Conclusão de Curso.

CAPÍTULO 3 – D I N Â M I C A D A S C A M I N H O N E I R A S E D O
CAMINHÃO

Esse capítulo tem como objetivo contextualizar elementos impor-
tantes para compreensão do universo da motorista e do caminhão. Nessa
parte explico resumidamente o perfil das motoristas. Posteriormente,
trago elementos dos significados que o caminhão, enquanto veiculo, tem
para as motoristas. Tento explicar também quem são os/as outros/as per-
sonagens que fazem parte do cotidiano das motoristas e qual a relação
das motoristas com esses personagens e com as transportadoras.

3.1 Perfil das motoristas

Não cheguei a perguntar para as caminhoneiras se podia ou não
colocar seus nomes no texto da pesquisa, mas como acho essa divulga-
ção irrelevante para o trabalho, optei por chamar as motoristas por no-
mes fictícios que designam marcas de caminhão. Para tal, apresentarei
na pesquisa as motoristas: Scania, Volvo, Volks, Mercedes e Ford.
Cláudia Fonseca (1999) em seu trabalho intitulado “Quando cada
caso não é um caso”, narra um pequeno acontecimento sobre uma aluna
que por escrúpulos éticos ou medo de que seus informantes fossem iden-
tificados, foi muito parcimoniosa com as informações como proveniên-
cia, idade, local de residência, ou seja, por medo de identificá-los a pes-
quisadora não contextualizou sociologicamente e historicamente os su-
jeitos de sua pesquisa. Levando em consideração a reflexão da autora,
acredito que mais importante do que a publicação dos nomes, é a análise
contextual e sociológica dessas sujeitas de pesquisa.
A categoria gênero não pode ser pensada isoladamente e antes de
iniciar as reflexões específicas sobre esse tema, traçarei o perfil de cada
uma dessas motoristas, explicando como se deu a iniciação na profissão,
quais eram os empregos anteriores, grau de escolaridade, composição
familiar, étnica, regional e religiosa. Creio que esses elementos são im-
portantes para a compreensão das trajetórias das caminhoneiras estuda-
das. Entre as cinco motoristas existem trajetórias de vida e de inserção
na profissão muito diferenciadas, assim como idades distintas. A ampla
faixa etária e diferentes tempos de profissão permitiram relatos muito
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diferenciados. A mais nova das entrevistadas, com apenas quatro meses
de trabalho como carreteira, destacou nas conversas principalmente a
dificuldade de iniciação na profissão, por outro lado, a motorista com 19
anos de profissão comentava mais sobre as estruturas precárias para mu-
lheres e difíceis condições de trabalho nas transportadoras.
A motorista Ford, como disse acima, tem 22 anos e dirige carre-
tas há quatro meses. Ela é branca, do Paraná e apesar de ter pai e irmão
motoristas não aprendeu a dirigir com eles. É solteira e não tem filhos.
Atualmente mora no interior de Santa Catariana. Sempre teve sonho de
dirigir e foi isso que a impulsionou a carreira. Antes de ser motorista, já
foi babá e trabalhou em uma loja de conveniência, por ter vontade de ser
motorista, tirou a carteira e foi procurar emprego como caminhoneira,
mesmo sem nunca ter dirigido. Logo ela conseguiu emprego em uma
transportadora e viajou por dois meses junto com os colegas para que
aprendesse a dirigir carreta. Também já teve um namorado motorista e
as primeiras vezes que dirigiu truck 20foi com o pai. A motorista Ford
terminou o segundo grau e chegou a fazer cursos de recepcionista, mas
nunca utilizou. Esta motorista volta para casa em Santa Catarina pelo
menos uma vez por semana, mas ainda não conseguiu ir ver a família no
Paraná. Ela viaja pelos estados do Sul, principalmente por Santa Catari-
na. A carreta que dirige é propriedade da transportadora. É espírita e
adora ler, principalmente livros sobre espiritismo.
A motorista Volvo tem 30 anos e dirige há 4 anos. É branca, na-
tural do interior de Santa Catarina. É casada com um motorista de cami-
nhão, mas não viajam juntos. Antes deste casamento, era casada com
outro motorista e tem um filho de 11 anos com ele. Começou nas estra-
das com o primeiro marido, mas aprendeu muito pouco com ele, apren-
deu a dirigir depois, praticamente sozinha. Começou dirigindo com uma
caminhonete e depois foi para o caminhão, hoje é carreteira, atribui a
ajuda inicial principalmente aos colegas da transportadora em que ini-
ciou. Antes de ser motorista foi vendedora e empregada doméstica. Es-

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O Caminhão truck é menor que a carreta. O truck, segundo a CONTRAN ( Conse-
lho Nacional de Trânsito), pode carregar até 23 toneladas no máximo. A carreta, de dois eixos,
pode carregar até 33 toneladas, e a de 3 eixos, pode carregar até 41,5 toneladas. Interessante
destacar que entre os/as motoristas existem disputas entre quem dirige truck e carreta . Várias
piadas são feitos com os/as motoristas de truck e eles/as são chamados de muriçoqueiros. Na
viagem, escutei músicas que tratavam principalmente de caminhão, o DJ Wagner é bem conhe-
cido por suas músicas que zombam dos motoristas de truck. As músicas também falam de
estrada, caminhão, troca de óleo, etc. Fonte: http://www.logisticadescomplicada.com/tipos-de-
caminhoes-tamanhos-e-capacidades
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mas atualmente é divorciada. uma menina de 18 anos e dois filhos de 14 e 15 anos. Ela trafega principalmente pelo trecho Santa Catarina – Pará e algumas ve- zes fica mais de um mês sem voltar para casa. É branca. Tem dois filhos. ainda não batizada. Antes de ser motorista já foi funcionária de empresa e mototáxi. cursou o primeiro grau completo. Ela viaja pelo país todo. Estudou até o segundo grau. A motorista tem caminhão próprio. o culto da Igreja Renovar. Aprendeu a dirigir com o atual marido mas até aprender nunca tinha pensando em ser motorista. uma menina de 14 anos e um menino de 9 anos. A motorista Mercedes tem 34 anos é motorista faz 5 anos. É casada com um moto- rista e normalmente viajam juntos. principalmente no eixo Sul . Dirige uma carreta com câmbio automático que é propriedade da transportadora. antes de conhecê-lo nunca pensou em ser motorista e tinha preconceito com caminhoneiros. A carreta que dirige é da transportadora. Foi casada com um caminhoneiro e nesse período morou no Paraná. Teve três casamentos e só o pri- meiro marido não era caminhoneiro. Aprendeu a dirigir com o segundo marido. A caminhoneira Volks tem 39 anos. É católica pouco praticante. dirige há 19 anos. ficou deprimida por não estar fazendo „nada‟. estava divorciada do último marido havia um mês. natural do Rio Grande do Sul.Nordeste. É branca. Francine Pereira Rebelo . mas quando começou a viajar com o marido. também fica meses sem voltar para casa. É católica não praticante. resolveu então começar a dirigir também. mas é natural de Pernambuco. mas pretende ser. Os filhos são do primeiro casamento. É branca. com esse marido teve três filhos. é autônoma e paga parcelas mensais do veículo. ouve músicas gospel e frequenta. também natural do interior de Santa Catarina. An- tes teve outro marido.Trabalho de Conclusão de Curso. A caminhoneira Scania tem 32 anos e dirige há 5 anos. quando pode. Aprendeu a dirigir sozinha. com quem tem um filho de 16 anos. mora no interior de São Paulo. agora falecido. tudou até 8ª série e depois fez o primeiro ano através do supletivo. 49 . fica vários meses sem voltar para casa. Ela mora no Rio Grande do Sul e viaja principalmente pelos estados de Santa Ca- tarina e Rio Grande do Sul. mas em caminhões separados21. No momento da viagem. Antes de ser motoris- ta trabalhou como empregada doméstica e como operária em uma fábri- ca de calçados. esse marido não era caminhoneiro. desde criança tinha vontade de ser caminhoneira e pagava nos fins de semana para que um motorista a 21 Quando viajamos o marido não estava junto no caminhão. É evangélica.

É determinante para ela que não fique muito tempo sem voltar para casa. tem tudo. atualmente. A precariedade dos banheiros. retorna uma vez por semana. eu moro aqui dentro. mas só com uma Ordem Judicial para você fazer uma revis- ta no meu caminhão! Isso aqui é minha casa. só falta o banheiro. 2002. eu vivo aqui dentro!” (SANTOS. 3. por causa dela. de acordo com a motorista Scania.2 “Nessa minha casa tem tudo. Os banheiros que tem são muitas vezes com banho gelado ou muito precários. Estudou até a 8ª série. Francine Pereira Rebelo . Ela é católica não praticante. o banheiro”22 “Um informante manifestou sua resistên- cia para impedir a entrada de um guarda rodoviário na cabina de seu caminhão pa- ra fazer uma vistoria. As motoristas relatam que estão expostas a um grande risco ao terem que algumas vezes sair do cami- 22 Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminhoneira Scania realiza- da entre os dias 08/12/2010 e 11/12/2010. o preço abusivo dos banhos – chegando a custar até cinco reais – assim como a necessidade de urinar na frente do caminhão não são só pouco agradáveis. 50 . É exatamente esse cômodo que falta que gera muito descon- forto nas motoristas. atualmente. A intenção do poli- cial foi interpretada pelo motorista como uma “invasão de domícilio”. só falta um cômodo. com fiação exposta. o irmão e o primo são motoristas.Trabalho de Conclusão de Curso. ajudasse a aprender. Antes de ser motorista era empregada doméstica e foi com o salário desse emprego que conseguiu pagar o curso para tirar a habilita- ção. a motorista já recusou empregos que tivesse que ficar muito tempo longe de casa. p 113) A configuração do caminhão assemelha-se em vários pontos com o de uma casa. Ela também é funcionária de transportadora. e lhe res- pondeu indignado: Ah. ralos entupidos ou sujos.

não era limpo. roupas de cama e pertences em geral. 2002). Os mesmos motoristas acreditam que o banho prova- velmente é cobrado devido aos furtos dos chuveiros. de acordo com elas. A cama fica fechada durante a viagem e quando a motorista para. nhão no pátio do posto durante a madrugada e que ao invés de atravessa- rem o pátio e irem até o banheiro – muitas vezes isolado – elas conside- ram mais seguro e rápido urinar embaixo do caminhão. A cabina – também conhecida por boleia – é o local de trabalho e privacidade. Os caminhões têm armários embutidos acima da cama onde as motoristas podem guardar roupas. É o quarto e lugar de descanso do(a) motorista. ao conhecerem a região.Trabalho de Conclusão de Curso. a região sul ainda é melhor por causa do tu- rismo. Em ambos os casos. como espaço. assim como a maioria dos postos. alguns banheiros chegam a ter grades de ferro ao redor do chuveiro para que estes não sejam furtados. Alguns caminhões têm televisão devidamente instalada na parte de trás da cabi- ne onde fica a cama. o caminhão é equipado de maneira a lhe assegurar mais conforto. em alguns caminhões. restos de sabonete e água empoçada. não possuem banheiros femininos e nos casos em que presenciei tivemos que pegar a chave com o guarda e cha- vear todo o vestiário (masculino) para podermos tomar banho. empurra os bancos de maneira que eles se unam e for- mem uma cama com espaço suficiente para duas pessoas. quali- dade da cama e organização do caminhão. As transportadoras ou fábricas onde as mulheres carregam ou descarregam. se a motorista fica meses sem voltar para casa. O lugar. a cama já é fixa e só o banco do motorista dobra para que fique maior o espaço. normalmente. tendo vários frascos de xampu usados e largados no chão. As motoristas. 51 . eles relatam que no Uruguai. não interferindo se o caminhão é da empresa ou se a caminhoneira é proprietária. Notei que os caminhões são mais equipados à medida que a mo- torista fica mais tempo sem retornar a sua casa. Na pesquisa realizada por Andréa Leal (2008). local onde imprimem seu estilo pró- prio. por exemplo. algumas vezes muito peculiar (SCAREMELLA. geralmente o que consideram “menos pior”. A cabine pode ter ventilador ou ar-condicionado. cuidada com muito zelo (SANTOS. os banhos não são cobrados. Francine Pereira Rebelo . 2004). os motoristas que fazem rota internacional afirmaram que consideram a cobrança pelo banho abusiva. tem a prática de ir ao mesmo lugar de tomar banho.

com lençol rosa. As cortinas são planejadas. porque eu me acho jovem. edredom e vestem o pijama. algum amigo meu chegar. aí. Assim. eu gosto de deixar o caminhão mais jo- vem. Francine Pereira Rebelo . Durante o período de trabalho. A boleia funciona como quarto da motorista.Trabalho de Conclusão de Curso. eu gosto de deixar o caminhão bonito. eu acho feio. consertar o que está quebrado são frequentes. O caminhão recebe atenção especial. como crucifixo. se eu não rebaixar. conversas sobre vontades de mudar a cor. vou mostrar meu caminhão! Não só por dentro. acho assim meio jeca. como uma delas contou: Eu tenho o maior prazer de você. por fora também. (Trecho (Trecho do diário de campo referente à vi- agem com a caminhoneira Scania realiza- da entre os dias 08/12/2010 e 11/12/2010). eu vou tá fora da moda. conversas no rádio e luminosidade. ó. Se eu vejo um caminhão descuidado. A cama é sempre arrumada. fecham as cortinas. abaixam os bancos. caminhão é um negócio legal. as informantes se sentem respon- sáveis por transmitir a ideia de que esse espaço é cuidado. os dois bancos ficam levantados. os bancos. O caminhão tem que tá na moda. 52 . Na hora do descanso. tá na moda agora rebaixar o caminhão. eu acho feio. eu acho feio. e ó. colocam lençol. O veículo representa quem elas são e auxiliam na construção de que o caminhão é algo “positivo”. montando a cama. dá pra ver assim que eles não cui- dam do caminhão. não vou ser admirada. quando param nos postos ou transportadoras. miniaturas de caminhão ou imagens religiosas. o som ligado. A decoração interior varia: são bandeirinhas dos estados visita- dos afixadas no vidro. mas tem uns senhor de idade que coloca uns cd's no vidro. eu não vou ser vista. costuradas de rendinha ou com estampa de oncinha. combinando com o resto da roupa de cama. eu gosto de mostrar. acho a pessoa assim descuidada. vamos supor.

próximo fica também um galão de água . Ao lado tem uma geladeira pequena que também fica para fora23. A “gaveta” abre transformando-se em um pequeno balcão. Figura 3 -Viagem com a motorista Mercedes Na viagem com a motorista Ford. tem uma lona enrolada e bem encaixada no caminhão. Esse espaço é reservado para alimentação da motorista que muitas vezes prefere fazer uma comida rápida ou para economizar dinheiro ou porque enjoou da comida dos postos. mas pelo fato do cami- nhão não ser dela. ela não estava com seu cami- nhão. Outro cômodo importante é a cozinha. 53 . esse local também é conhecido por “gaveta”. O seu tinha quebrado na semana anterior e ela usava outro dispo- nibilizado pela transportadora. dentro ficam guardadas panelas. se tiver sol forte ou chuva. a caminhoneira desenrola a lona que já vem 23 Segundo me informaram. Contou que o dela é “todo arrumado”. embutido no cami- nhão. Francine Pereira Rebelo .Trabalho de Conclusão de Curso. Em cima da “gaveta”. mostrando que o teto era sujo e a cortina não combinava. que a caminhoneira usa para lavar louça e escovar os dentes. com o gás instalado no próprio caminhão. Localizada na lateral do caminhão. copos e alimentos. em outro compartimento tem um fogão de duas bocas. foi desculpando-se pela bagunça do caminhão. logo que entrei no caminhão. O primeiro comentário. o valor da geladeira embutida do lado de fora é de dois mil reais.

o caminhão não tem geladeira e nem mesmo gaveta. Lucia Castro et al. Francine Pereira Rebelo . Em alguns caminhões. Cavagione LC. Bianch ERF. A fal- ta de exercícios físicos regulares exige que elas cuidem do corpo princi- palmente através da alimentação. ou no caso da caminhoneira que não fica mais de uma semana fora. São algumas referências. Contaram que se não se preocupam em ficar o dia todo comendo e tomando café ou refrigerante com cafeína para evitar o sono24.Foto retirada dia 09 de dezembro exemplificando a ge- ladeira. J. [online]. dentro também estão alguns pequenos bancos portáteis. bras. Batista KM. A motorista Scania. 2010. Costa ALS. com um apoio e fica um toldo pequeno. a geladeira fica den- tro da cabine. MASSON. Maria Inês. enferm. Rev. LEMOS. Rev. Figura 4 . vol. n. toldo e banco. 2009. 44. A gaveta tem uma luz que pode ser acesa através de um interruptor quando a motorista deseja parar de noite. Distúrbios psíquicos menores e condições de trabalho em motoristas de caminhão. pneumol. contou que por um tempo pegava ônibus e 24 Existem no Scielo alguns trabalhos científicos sobre caminhoneiros e qualidade de vida.6. Estilo de vida. bras.. Síndrome da apneia obstrutiva do sono em motoristas de cami- nhão. [online]. Algumas delas evitam frituras e gor- duras.Trabalho de Conclusão de Curso. 1130-1136. Saúde Pública [online]. p. Agravos à saúde. hipertensão arterial e predisposição ao estresse em motoristas de caminhão. 2009 54 . aspectos de saúde e trabalho de motoristas de caminhão. 2010. relações entre hábitos alimentares. optam por frutas e buscam se alimentar no que elas entendem como “corretamente”. Melissa Araújo et al. É notória a preocupação das motoristas com a alimentação. períodos de sono e consumo de álcool. fogareiro. gaveta. Valéria Aparecida and MONTEIRO. como : ULHOA. Rev Esc Enferm. Pierin AMG.

que carregavam durante a viagem. os caminhões eram equipados com o radioamador. 55 . procurava nas cidades onde parava uma academia. celular e aparelho de som que todas tinham.Trabalho de Conclusão de Curso. Além do computador. e internet 3G – dispositivo de internet móvel –. mais conhe- cido como PX. Figura 5 . usa- vam o computador para acessar internet. os caminhões ganharam um novo cômodo: o escritório. As informantes tinham notebook próprio. ela negociava para que pudesse fazer exercícios por um dia.Lanche noturno com Mercedes Mais recentemente. Essa e outras motoristas relata- ram sentirem dores nas costas. Francine Pereira Rebelo . ver filmes e conversar com os familiares.

identificando o/a moto- 56 . desvios. um canal específico servia de encontro para todos que trans- portavam essa carga. presença da polícia e conversam com conhecidos e desconhecidos.Trabalho de Conclusão de Curso. Figura 6 . de acordo com uma das caminhoneiras que carregava cimento. Através do aparelho as caminhoneiras passam in- formações sobre as condições das estradas. QRA. al- gumas vezes o QRA vem escrito no caminhão. A sociabilidade entre os/as motoristas se efetiva através do PX (SANTOS. Francine Pereira Rebelo . O PX é o radioamador presente em quase todos os caminhões. O PX tem vários canais de comunicação e às vezes é possível conversar com pessoas que estão bem distantes. na comunicação pelo radioamador. Para comunicação no aparelho. No Orkut o QRA frequentemente vem na frente do nome ou apelido do/a caminhoneiro/a. os/as motoristas desenvolveram uma linguagem própria. 2002). esse canal é previamente conhecido pelos/as moto- ristas. ou como denominam.Caminhoneira acessando a internet dentro do veiculo. facilitando a identificação da profissão pelo nome. nome do/a operador/a. É comum entre um grupo combinar determinado canal para se encontrar. os/as motoristas adotam apelidos.

rista. a greve pre- judicou o abastecimento e dinâmica de diversos setores da economia.Trabalho de Conclusão de Curso. Esse sistema de segu- rança. As mulheres fizeram reclamações sobre o que normalmente é falado no PX. No caso das motoristas autônomas. 2004). Em ju- lho de 1999. dependendo do valor da carga. tendo um custo mensal por volta de cem reais28 e sendo exi- gência das seguradoras de caminhão. seguidas por mais duas paralisações nos anos seguintes. valores dos fretes e conflitos com policiais. O grupo dos/as caminhoneiros/as foi o primeiro a organizar uma greve pelo rádio. o aparelho serve para pequenas discussões entre caminhoneiros e é comum ouvir apenas xingamentos quando se liga o aparelho. muitas vezes. Ape- sar de presente na grande maioria dos veículos. sendo que nesse caso o QRA seria o nick26. 26 Nick. Para comunicação é preciso ob- tenção de uma licença da Agência Nacional de Telecomunicações. Outro recurso que proporciona mais segurança aos/as motoristas é o sistema de rastreamento de cargas via satélite. não liberam o transporte sem que a empresa contratada 25 MSN é dispositivo online de trocas de mensagens simultâneas. o PX não é item de fá- brica. sendo comprado posteriormente ao caminhão. 28 Este valor independe do valor do caminhão. 57 . O preço médio de um aparelho de radioamador. esse dispositivo é essencial já que algumas empresas. visibilizando as reivindicações27 dos/das caminhoneiros/as. más condições de trabalho com longas jornadas e baixos salários. é disponibilizado pela própria empresa. significa apelido em inglês. evitar o sono e pedir auxílio em casos de problemas mecânicos no caminhão. de alcance na- cional e com 60 canais é de 600 reais. precariedade das estradas. Santos (2002) conta que vários/as motoristas não tinham conhecimento sobre a liderança do movimento de paralisação. cerca de 800 mil motoristas de caminhão ocuparam durante cinco dias as principais rodovias de 21 estados brasileiros. mui- tas das exigências não foram cumpridas até hoje. no caso pelo PX (SCARAMARELLA. Existe no Orkut uma comunidade com o nome “PX é MSN25 de caminhoneiro”. Segundo Santos (2002). no caso das motoristas contratadas. aderindo à greve depois de re- ceberem o aviso pelo rádio. normalmente os/as motoristas são responsáveis pela aquisição do aparelho. O PX também é considerado uma maneira de não se sentir sozi- nho. quer dizer nickname. e das negociações com o Ministro dos Transportes. o aparelho é visto como um recurso que lhes proporciona mais segurança. 27 As reivindicações do grupo eram a respeito dos preços abusivos dos pedágios. Francine Pereira Rebelo . No caso de cami- nhões de transportadora. Apesar da visibilidade da greve.

Francine Pereira Rebelo . o nome (ou QRA) do lado de fora. Alguns caminhões possuem também o “Sem Parar”. o sentido é não só decorativo. a empresa só permite a liberação da carga se o caminhão dispuser de monitoramento 24 horas. bus- ca-se o adestramento do corpo e crescimento de sua utilidade. O dispositivo é afixado no lado de dentro do vidro da frente do veícu- lo. podendo nessas situações ser abordada por alguém. Esse aparelho auxilia já que a motoris- ta não precisa andar com quantias grandes em dinheiro e não precisa parar no pedágio. As regu- lações corporais são parte de uma série de intervenções de uma bio- política das populações. Em alguns casos. ouvi as mo- toristas dizendo que “precisávamos abastecer”. é considerado pelo autor. du- rante o campo. Este recurso. O bio-poder. San- tos (2002) afirma que o caminhão se mostra muitas vezes como exten- são do corpo do motorista. o valor é co- brado via pagamento eletrônico . ao mesmo tempo em que privilegia a segurança da motorista. controlando. A autora e- xemplifica sua afirmação através da publicação de títulos de reportagens específicas para motoristas. mas tem objetivo de reconhecimen- to. para o rastreamento seja consultada e permita a liberação. o nome dos filhos. mas alguém fica responsável integralmente pela visualização da rota. algumas vezes em que paramos para comer. o funcionamento do seu corpo é comparado ao de uma máquina. dispositivo conveniado com alguns pedágios e que permitem que o caminhão passe sem que seja necessário pagamento em dinheiro na hora. qualquer desvio de rota e período de descanso. afirma que ao decorar o veículo com o próprio nome. por exemplo. essencial para o crescimento do capitalismo e incorporação de suas práticas. como “Coluna: cuide bem desta peça”. O veículo frequentemente é limpo e os adesivos são colados.Trabalho de Conclusão de Curso. o moto- rista mostra sua auto identificação e entrelace com o caminhão. Foucault (1988) afirma que procedimentos de poder caracteri- zados pela disciplina atuam no corpo através da sua maquinização. nesse caso. um adesivo de Jesus Cristo. em adesivo ou placa. são marcas que permitem que o caminhão seja reconhecido mesmo de longe ou quando estacionados em algum lugar. Vilaça (1987) ao tratar da intimidade entre motorista e ca- minhão. serve como um dispositivo de vigilância. 58 . ao caminhão. A decoração exterior do caminhão é tão importante quanto à inte- rior. a motorista apenas diminui a velocidade e a cancela abre automaticamen- te. nesse caso não só é possível localizar o ca- minhão. o tempo das paradas. mais especificamente.

Mezgravis (2006) descreve este universo . Normalmente. com uma placa indicando “chapa”. responsáveis por auxiliar os/as motoristas através de duas atividades básicas. Assim como o Orkut. São os chapas. borracharias. esses trabalhadores ficam na beira da estrada. da transportadora ou da seguradora? Qual a percentagem que as motoristas tiram do frete e como é calculado? Para compreensão desse universo é necessário localizar alguns atores sociais. Os chapas são responsáveis por auxiliar um motorista que não conhece uma região a chegar até o local do carregamento ou descar- ga. não podendo se vir com “chapa de fora”. Posicionam-se mais frequentemente na entrada das cidades ou próximos a zonas indus- triais.Trabalho de Conclusão de Curso. também conhecidos por chapas. Muitos nomes aparecem e a intenção é que sejam esclarecidas as possíveis atividades de cada um e responsabilida- des de cada órgão. posto fiscal. Esse é um meio para as caminhoneiras posicionarem-se frente a outros profissio- nais e outros/as viajantes. frentistas. os responsáveis por descarregar o caminhão já são contratados ou indicados.3 Traduzindo elementos do universo do caminhão Alguns personagens do universo do caminhão são tão importantes para o funcionamento da dinâmica do transporte de cargas no país quan- to os/as caminhoneiros/as. em um ponto fixo. Francine Pereira Rebelo . pedágios. sendo que o próprio caminhão é formador de certos aspectos da identidade das motoristas. sem vínculo empregatício. 3. quando é necessário. Qual a relação desses personagens com as motoristas? O que é responsabilidade da ca- minhoneira. o caminhão não precisa ser descarregado porque esse 59 . etc. agenciadores de cargas. balança. ajudantes. ocupam pontos específicos de uma região. a decoração do cami- nhão e seus elementos auxiliam na criação do „perfil‟ da motorista. conforme suas vias de circulação. comecemos pelos ajudantes. Dependendo da empresa. O caminhão e sua decoração constituem-se como instrumentos de reconhecimento dos/as profissionais. em outros casos. carregar e informar. para ele os chapas são trabalhadores urbanos. também auxiliam a descarregar o caminhão.

Nenhuma das motoristas que acompanhei possuía GPS30. contratada de transportadora. é necessá- rio em alguns casos a utilização dos serviços dos chapas. de acordo com ela. dei- xando ele no meio do caminho. O site. não pensou duas vezes e jogou o caminhão dentro do pátio. não é da responsabilidade da caminhoneira a negociação. a Mercedes. mas que na verdade não sabem e ficam “dando voltas” ou chapas que “não trabalham direito”. oferecendo por escrito os caminhos possíveis e coordenadas. o programa dá as coordenadas exatas. na época a carga era de óleo ve- getal. As motoristas afirmaram que com o computador dentro do cami- nhão. depois dividiriam o valor da carga. dependendo do tipo de produto carregado. O posicionamento das transportadoras e motoristas depende das exigências feitas pelas empresas. A caminhoneira não concordou. através de um recurso „como chegar‟ permite que se escreva o ponto de partida e destino . é um sistema de navegação por satélite que oferece a um aparelho receptor a posição do mesmo. 29 Google Maps é um serviço de pesquisa e visualização de mapas e imagens de satéli- te da Terra gratuito na web fornecido e desenvolvido pela empresa Google. nesse caso. essas são par- ticulares. já que é alguém „estra- nho‟ que colocam dentro do caminhão. como alguns que fingem saber onde fica determinado lugar. Elas en- tram no Google Maps29 e procuram onde devem ir. disse que uma vez pegou dois ajudantes que sugeriram que ela simulasse o roubo do veículo. quando passou em frente o posto da polícia. Os/as motoristas indicam chapas aos colegas. 30 GPS . A motorista relatou que pegou um chapa e ficou com medo porque ele falou coisas pornográficas. Francine Pereira Rebelo . mas para evitar “contrariá-los” no momento. trabalho é feito por empilhadeira ou pelo próprio motorista. é vantajoso para o/a motorista pegar chapas conhecidos porque nesse caso não são enga- nados. cada vez menos precisam dos chapas só para orientação. Para a motorista Volvo. O GPS permite que seja indicado um local de destino e a partir de coordenadas o aparelho oferece informações para que se chegue ao local desejado. não havendo uma prática geral. do original em inglês Global Positioning System.Trabalho de Conclusão de Curso. ela afirmou ter muito medo de contratar chapas não indicados. Outra motorista . des- ceu correndo e pediu para tirarem o chapa de dentro do caminhão. Algumas empresas transportadoras disponibilizam ajudantes que viajam junto com o motorista. continuou andando. prometeu pensar no caso. A negociação é feita com o chapa na hora da contra- tação do serviço e o pagamento é feito em dinheiro. 60 . eles a espancariam e fingiriam que a carga tinha sido rouba- da.

A relação empregatícia interfere não só na relação da motorista com o veículo. dinheiro utilizado para pagar combustível. local de descarga e rota. acredito que nesse ponto do trabalho. recorren- temente circulam discursos sobre a criminalidade entre os chapas. Continuando o trabalho de esclarecimento dos principais atores sociais que integram o universo do transporte de cargas. roubos de cargas. É de responsabilidade da empresa contratante deliberar e negociar o carregamento que será efetuado pela motorista.Trabalho de Conclusão de Curso. pois no momento da negociação o/a motorista oferece informações rele- vantes sobre o carregamento. é importante diferenciar a dinâmica de trabalho de uma caminhoneira autônoma e contratada. A responsabilidade no que se refere às multas depende se essas são consequência de imprudência ou descui- do dos motoristas. empregadas em empresas transportadoras. 61 . Em grande parte dos casos. algumas delas andam com pedaço de pau e até um martelo dentro do caminhão. não são 31 Caso o veículo não tenha o “sem parar”. As motoristas contratadas não tem responsabilidade financeira em relação a manutenção do caminhão. além disso. 32 Caso esses sejam necessários. Francine Pereira Rebelo . assim como o valor do frete. pedágio31. por exemplo. favorecendo quadrilhas de roubos de carga. sendo os gastos com o caminhão de responsabilidade das transportadora. mas também determina a intensidade de participação de determinados/as sujeitos/as no cotidiano das motoristas As contratadas. Multas por excesso de carga. pois terá acesso a dados que podem futuramente prejudicar o motorista. A relação motorista e chapa entra em con- flito com as normas de segurança pensadas para os/as caminhoneiros. nenhuma delas pratica esportes de defesa pessoal. como a cooperação entre colegas ao indicar ajudantes conhecidos que podem evitar situações como as relatadas. não são proprietárias do caminhão e recebem salário fixo mais comissão que é uma porcentagem dos fretes das viagens que realizou no mês. bandidagem e desocupação. sendo esses várias vezes relacionados ao consumo de drogas. a motorista recebe o adiantamento da viagem. alimentação e contratação do ajudan- te32. São situações em que as motoristas devem achar estratégias para sentirem-se mais seguras. utilizam- se estratégias mais sutis. O chapa nesse caso precisa ser “de confiança”. Ressalto que o temor referente aos chapas não é exclusividade das mulheres motoristas pois como Mezgravis (2006) salienta. Esses momentos exigem da motorista muito “jogo de cintura” e pensamento rápido.

Existem empresas que realizam o cadastro online de motoristas e registram que essas profissionais são devidamente aptas e já prestaram serviços para outras transportadoras anteriormente. no seu caso. a caminho- neira é submetida a um cadastro. nesse caso. No caso das autônomas. os colegas de firma são conhecidos e consti- tuem o ciclo de amizade. O agenciador funciona como in- termediário e seu trabalho tem custos mesmo que a carga não seja efetu- ada. a motorista paga pela informação. assim como os gastos referentes às multas. as autônomas não participam do quadro de funcionários de uma empresa. caso façam o carregamento com pouca regularidade são consideradas parceiras. cobradas. Os escritórios dos agenciadores ficam próximos a postos de gasolina. mas não são contratadas. quando parceira de uma empresa. As profissionais autônomas também trabalham com relação as transportadoras. documento do caminhão. todos os gastos referentes ao cami- nhão são de sua responsabilidade. O cotidiano dessas mulheres se dá muitas vezes no pátio da transportadora. Para retirada da carga de determinada transportadora. Caso não retorne ao local. As empresas trans- portadoras têm comunicação direta com essas empresas que registram motoristas e no momento da contratação do serviço do/a caminhoneiro 62 . No caso das trabalhadoras autônomas. recebe o adian- tamento da viagem. ela en- tra em contato com a transportadora. o agenciador de cargas. Para o registro são exigidos a habili- tação da caminhoneira. Caso carreguem com frequên- cia nessas transportadoras são consideradas agregadas.Trabalho de Conclusão de Curso. é possível que a motorista negocie diretamente com a transporta- dora. Viajei apenas com uma motorista autônoma. se for do interesse da motorista. ela ainda pagava prestações pelo caminhão. cadastro da seguradora e referências de transportadoras que já tenha efetuado algum serviço. outro personagem surge. Por circularem por várias transportadoras. não tendo rela- ção tão próxima com esses funcionários. Quando já conhece melhor a re- gião. o envio da nota fiscal é feito pelo correio e o pagamento é via depósito bancário. e são nesses espaços que algumas empresas transpor- tadoras “oferecem” suas cargas. A motorista autônoma. oferecendo seus serviços e se mostrando disponível para realiza- ção do carregamento. mas só recebe o valor do frete depois de comprova- da a entrega. Francine Pereira Rebelo . O cadastro assegura que a carga chega- rá a seu destino mesmo sendo a primeira vez que essa motorista presta serviços para determinada empresa. O salário que recebem é referente às viagens que fazem.

Todos esses personagens participam das práticas diárias das mo- toristas. instrumento utilizado para veri- ficar se o caminhão não está transportando carga excedente que a apre- sentada na nota fiscal. A carga só é liberada e posterior- mente retirada se a consulta pelo nome da motorista for positiva. Nas vezes que pare- mos no posto o atendimento foi feito em cinco minutos. as motoristas estão em contato direto com os funcionários do escritório. pretendo na próxima parte resgatar e- lementos das vivências de gênero que estejam relacionados a esse uni- verso de trabalho no caminhão. muitos deles estão envolvidos nas concepções de gênero cons- truídas por essas mulheres. ele deve descer do caminhão e entregar a nota.Trabalho de Conclusão de Curso. Após a explicação do funcionamento desse universo próprio nesse capítulo. funcionários das lojas de conveniência. A motorista conhece a estrada e é frequente que conheça bem frentistas. como o posto fiscal. 63 . responsável por verificar que a carga transportada tem nota fiscal e a balança. exigindo apenas o carimbo da nota. nas fábricas com os responsáveis pela libera- ção da carga e ajudantes. res- taurantes e cantinas. verificam se o cadastro está regular. Francine Pereira Rebelo . Durante o trajeto existem algumas passagens obrigatórias para as motoristas. Nas transportadoras. No posto fiscal é obrigatória a parada do motoris- ta.

Mas. a família. a segurança. Foucault (1988) entende que sem resistência não haveria poder e que onde há resistência. o mais im- portante. a resistência não é um ponto único. Francine Pereira Rebelo . essa oposição a algo. para refletir sobre as for- mas de preconceito e a questão do profissionalismo evocado diversas vezes pelas informantes durante o campo. como as engenheiras. mas são nós de uma rede que impedem o livre fluxo do poder. o preconceito. há poder. Na segunda parte. Entendo por resistência as estratégias utilizadas pelas motoristas diante dos dualismos de gênero e das marcas de desigualdade. intitu- lada “Práticas discursivas. Para tal. faço uma pequena discussão sobre espaço público e privado envolvendo a temática da família e dos 64 . é entender se elas se compreendem assim. desigualdade de gênero e estratégias de resis- tência política”. CAPÍTULO 4 – P Ú B L I C O E P R I VA D O : R E L A C I O N A N D O GÊNERO E CAMINHONEIRAS Esse capítulo tem como objetivo refletir sobre as práticas e pecu- liaridades da profissão à partir da perspectiva de gênero.Trabalho de Conclusão de Curso. a iniciação na profissão. 2011) trabalha com essa ideia em seu texto sobre a participação das mulheres em instituições socioeclesiais. A partir dessa definição de resistência. utilizei como base outras pesquisas sobre trabalho de mulheres inseridas em campos de trabalho predominantemente masculinos. consi- derei importante algumas questões emergentes durante o campo como a do trabalho como relação social. Neiva Furlin (REUNIÃO DE ANTROPOLO- GIA DO MERCOSUL. Esse pro- cesso compreende a produção de ressignificação de si no interior de um contexto androcêntrico. como “pontos de resistência”? Para desenvolver este tópico. considero que essas mulheres po- dem ser compreendidas como pontos de resistências. é da ordem estratégica e da luta. em sua obra intitulada “Vocabulário de Foucault” afirma que o autor entende as formas múltiplas de resistência como pon- to de partida para uma análise empírica e histórica das relações de poder e afirma que a possibilidade de resistência. a coragem e o profissionalismo. A primeira parte aborda a questão do trabalho feminino e as pesquisas rea- lizadas sobre esse assunto. Buscando compreender quais as formas de inserção dessas mulheres no campo de trabalho de motoristas de caminhão. Para o autor. Castro (2009). dividi o capítulo em três partes distintas que buscam apresentar esse conceito empiricamente. 9.

p. (1992. A autora afirma que a categoria trabalho. No entanto. A terceira parte discute a questão da iniciação na profissão e da segurança. A autora considera que: As relações entre homens e mulheres são vividas e pensadas enquanto relações en- tre o que é definido como masculino e fe- minino: os gêneros. novos arranjos familiares. p. a reflexão tende a privilegiar a organização fami- liar e seu projeto estratégico. Vários caminhos apontam para as formas históricas e culturais das relações de tra- balho e . pois associam família e trabalho. está fundamentalmente relacionada ao significado do trabalho feminino para a organização familiar. mais ainda. o que impede a problematiza- ção das formas históricas e culturais da divisão sexual do trabalho e as mantêm fixas em termos de reprodução dos papéis sociais. Segundo Lobo. Elizabeth Souza Lobo (1992) traça um itinerário dos estudos sobre trabalho feminino e situa os espaços do tema na Sociologia do trabalho. nos estudos sobre trabalho feminino.Trabalho de Conclusão de Curso. em seu texto intitulado “Rearticulando Gênero e Classe Social” ressalta que os humanos não são exclusivamen- 65 . Lobo completa “Esses estudos trazem uma contribuição fundamental. (p. para a relação de trabalho como interação que envolve sub- jetividades. 257).1 Gênero e trabalho feminino Na obra intitulada “O trabalho como linguagem: o gênero do tra- balho”. 260). o problema consiste principalmente na visão es- trutural da natureza do trabalho feminino. Neste sentido a divi- são sexual do trabalho é um dos muitos lócus das relações de gênero.” (1992. 4. Francine Pereira Rebelo . 261) Heleieth Saffioti (1992). subsumindo integralmente as mulheres como atores sociais.

são utilizados para restringir a par- ticipação das mulheres34. raiva. p. ainda persistem traços de segregação onde as mulheres conti- nuam trabalhando em maior número em setores. aborda- vam principalmente dupla jornada e trabalho feminino operário. mas são seres com sentimentos. afirma que apesar das transformações favoráveis às mulheres nas rela- ções profissionais dos últimos 30 anos. A autora afirma que “Através das relações sociais são trocados não apenas mercadorias. Grande parte dos textos que li sobre trabalho feminino. falta de infraestrutura de alojamentos e sanitários para recebê-las. é necessário que além da compreensão estrutural e de classe da situação das caminhoneiras. se expressam de maneiras diferentes no que diz respeito à lógica de gênero. Francine Pereira Rebelo . tanto o amor quanto o rancor. norteiam as vivências e relações de gênero e de trabalho das cami- nhoneiras. te força de trabalho. o homem e a mulher enquanto força de trabalho não utilizam somente a razão e que a dimensão emocional tam- bém impregna a produção da mercadoria. como setor de serviços. 66 . seja reconhecido que formas históricas e sociais específicas. ódio. necessidade de viagens e des- locamentos constantes. Nesse sentido. como por exemplo a força de trabalho. 33 Bruschini (2007) afirma que apesar do progresso da situação feminina no mercado de trabalho nos últimos 15 anos. Ressaltando que a pesquisa se realiza juntamente a um grupo profissional que se identifica pelo fato de dirigirem caminhões. 34 Nesse trecho Lombardi aborda principalmente o caso das engenheiras civis.Trabalho de Conclusão de Curso. relacionadas a subjetividades desse gru- po. ambiente sujo e abrutalhado. como amor. desprezo e etc. mas a inserção de mulheres em campos profissionais predominantemente masculinos. social e administração pública. Argumentos como trabalho pesado. em seu trabalho intitulado: “Enge- nheiras brasileiras : inserção e limite de gênero no campo profissional”. Tive dificuldade em relacionar essas abordagens a experiências das motoris- tas de caminhão que apesar de inseridas na lógica de trabalho do sistema capitalista. 202) De acordo com Saffioti. busquei estudos que tratassem não ape- nas a questão do trabalho feminino33. como também sentimentos de toda ordem: tanto a solidarie- dade quanto a hostilidade.” (1992. as dificuldades de inserção das mulheres na área da Engenharia ainda continuam. Maria Rosa Lombardi (2006). entre outros. ocupações e áreas de trabalho tradicionalmen- te femininas. tanto a liber- dade quanto a opressão.

1998. abrindo mão do “seu papel” de cuidadora da casa. mas também a frequente presença dessas mu- lheres em espaços públicos.. se apavorou. (Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminho- neira Mercedes realizada entre os dias 14/12/2010 e 17/12/2010). 1997). Ao invés de uma real mudança hierárquica nas relações.um dia.Trabalho de Conclusão de Curso. ela considera que o avanço da industrialização criou a necessidade de que as mulheres fossem in- corporadas ao trabalho produtivo nas fábricas. apareceu a necessidade que as mulheres possuíssem um mínimo de instrução escolar para desempenhar as atividades produtivas. o crescimento do capitalismo questionou o confinamento da mulher ao espaço privado. A partir dessa incorpora- ção.. e foram obrigadas a conciliar extensas jornadas de tra- balho nas fábricas e as tarefas domésticas que continuaram sob sua res- ponsabilidade. Relacionando a observação de Lombardi (2006) com as questões das mulheres caminhoneiras. VARIKAS. Para Méndez (2005). 67 . da família e dos fi- lhos. Historicamente. LOMBARDI. não só os também utilizados com as mulheres engenheiras. mas também. Francine Pereira Rebelo .. provavelmente. as mulheres acumularam mais atividades. Ele se apavorou por eu tá andando sozi- nha. 2006. eu encontrei um cara no trevo duas e pouco da manhã e ele falou assim pra mim no rádio “Mas o que você tá fa- zendo essas horas da madrugada sozinha andando nesse mundão aí. essas mulheres não estão apenas “in- vadindo” o espaço masculino e público. podemos compreender que ao exercer pro- fissões consideradas masculinas. são muitos os possíveis argumentos de afastamento. 4. tensões entre o espaço pú- blico e privado foram construídas. Uma das motoristas relatou que: . família e profissionalismo No caso das mulheres motoristas de caminhão. aí sozinha”. sendo que o espaço doméstico é as- sociado às mulheres e os espaços públicos aos homens (GROSSI..2 Preconceito.

Miriam Steffen Vieira (2007) aborda em sua tese as questões re- lativas ao „defloramento‟ e estupro. contou: “Minha mãe sempre me falou que eu era pra ter nascido homem. A mulher que circula de outras maneiras pode muitas vezes ser alvo não só de comentários negativos. mas principal- mente. resistem à incorporação dos espaços privados e família com- petentes à mulher e tomam para si um espaço público e de predomínio masculino. Nesse caso podemos pensar que a mulher pode circular pelos espaços públicos. Vieira afirma que esses comportamentos poderiam implicar na não proteção da mulher e também serviam para indicar quais os comportamentos deveri- am ser seguidos. Esse „papel‟ feminino frequentemente é confrontado à motorista. a caminhoneira Scania. segundo a perspectiva dos juristas. sempre quis fazer coisas que não me compete. não sozinha e em horários „próprios‟. Francine Pereira Rebelo . É notório na fala da motorista que o colega de profissão se “apa- vorou” não só pelo horário em que ela estava na „rua‟. uma série de comportamentos comprometiam a honestidade das mulheres. metida. a prática de sair desacompanhada em horários avançados. em uma conversa que tivemos em um posto. mas até mesmo de violências. No início do século XX. mas acompa- nhada por um homem. Por ficarem meses sem retornar a suas casas e meses sem ver os filhos. A pesquisadora afirma que o com- portamento moral das vítimas de violências era examinado pelo judiciá- rio e responsáveis pela comprovação da honestidade dessas mulheres. as motoristas resistem em dois pontos centrais da subordinação feminina. Podemos notar que ainda hoje o espaço público é muitas vezes restrito à mulher que não pode usá-lo de forma autônoma. 68 .Trabalho de Conclusão de Curso. entre eles. porque eu sempre fui assim.” (trecho do diário de campo referente à viagem com a caminho- neira Scania realizada entre os dias 08/12/2010 e 11/12/2010). pelo fato de ser mulher e estar “sozinha”.

Siqueira (2002) afirma que as mudanças advin- das com a maior inserção das mulheres no mercado de trabalho ultrapas- sam o âmbito do trabalho feminino. De acordo com a motorista. participam de uma família com novos arranjos onde a responsabilidade sobre os/as filhos/as é divi- da com outras pessoas. outras já trabalhavam como motoristas quando as crianças nasceram. ela perguntou se estava fazendo alguma coisa de errado e se ele sabia o que a mulher dele estava fazendo. A própria estrutura física do espaço da estrada afirma constantemente que os espa- ços dos caminhoneiros não são espaços para as caminhoneiras. a motorista Volks afirmou que uma vez se desen- tendeu com um dos colegas que insinuou que ela não tivesse um “bom comportamento”. então. Francine Pereira Rebelo . no caso específico das mulheres cami- nhoneiras. a responsabilidade sobre as crian- 69 . A autora afirma que nem sempre a feminização do trabalho é resultado das lutas feministas. Por mais que seja possível destacar o aspecto de resistência des- sas mulheres. pesquisas realizadas pelo IBGE contribuem para confirmação desses dados. Em outro caso. mas alteram também as organiza- ções familiares.Trabalho de Conclusão de Curso. podemos considerar que não exercem a dupla jornada de tra- balho e no caso das motoristas pesquisadas. No que se refere a maternidade. é notório que alguns „aparentes‟ rompimentos podem ser considerados parte da assimilação do mercado a essas mulheres. O outro motorista ficou nervoso e quis brigar com a caminhoneira. algumas das motoristas moraram com os/as filhos até certa idade. No que diz respeito a relação das mulheres com os espaços priva- dos. As fre- quentes reclamações sobre banheiros separados por sexo nas transporta- doras e nos postos nos mostram a pouca adaptação do sistema de trans- porte à entrada das mulheres na profissão. De a- cordo com Almeida (2005). mas ele não sabia se ela não estava com outro”. mas também ascende pela necessidade de complemen- tação do orçamento familiar. um dos colegas da firma disse que “não deixaria a mulher trabalhar num lugar que só tivesse ho- mens”. Ainda é necessária a reflexão sobre como o trabalho femi- nino trata-se muitas vezes de uma luta pela sobrevivência onde a mulher é obrigada a exercer atividades remuneradas para completar o orçamen- to doméstico e atender às exigências básicas dos membros da família. porque “talvez a esposa dele estivesse em casa. é notório o aumento de lares chefiados por mulheres. como afirmei anteriormente. A ideia de que existem espaços próprios para homens e espaços que „competem‟ as mulheres é recorrente no campo estudado.

apontada pelas suas informantes. ças foi sempre da avó. Notei através da fala de algumas motoristas que essa situação incomodava algumas vezes. Segundo a autora. Machado (2010). geração e o lugar das avós: estudos com famílias de bairro popular em Belém” afir- ma que existe uma distinção. ela é muito grudada com a avó. o cuidado majoritário da avó. entre olhar em tempo parcial e criar como filho(a). quando eu volto ela nem vai mui- to despedir de mim” (Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminho- neira Volks realizada entre os dias 11/01/2011 e 12/01/2011).Trabalho de Conclusão de Curso. A pesquisadora afirma que ao criar os/as netos/as como filhos/as. não me deixa fazer nada. Francine Pereira Rebelo . “Sempre foi assim. em outros casos. essa naturali- dade surpreendeu no caso da motorista Volvo. a avó apresenta-se sob o papel de autoridade moral no cuidado da criança. do mesmo jeito.( Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminho- neira Volvo realizada entre os dias 14/04/2011 e 16/04/2011). quando eu tô em casa. Fonseca mostra também como essa circulação de crianças ser- vem para reforçar e estreitar certos laços entre os indivíduos que partici- 70 . em sua pesquisa intitulada “Gênero. a menina já não. fica o tempo to- do do meu lado. ele sempre foi da vó”. desde pequeno. sua guarda e sobrevi- vência. parecia algo já incorporado no cotidiano e não apre- sentava uma situação de desconforto. “O meu menino. Claudia Fonseca (2006) afirma ser surpreendente a naturalidade com que é tratada a circulação de crianças entre alguns grupos de cama- das populares na cidade de Porto Alegre. não faz tanta questão. a avó resgata e dá sucessão a responsabilidade feminina e coletiva de maternagem e cuidados básicos da casa. as re- des sociais se mobilizam em função da criança. Assumindo o papel de cuidado- ra.

mas com pouca frequência. as mulheres que deixam os filhos em casa recorrem sempre a uma rede de ajuda formada por outras mulheres. Duas motoristas. As motoristas mostram-se muitas vezes a principal provedora econômica do lar e nos casos que os/as filhos/as são cuidados pelo pai35. a autora entende a transfe- rência de cuidados domésticos e responsabilidades com os filhos para outras mulheres como uma espécie de estratégia de sobrevivência. Segundo uma das motoristas. que não são caminhoneiros. etc. e moraram com os meninos até uma média de uns 7 anos de idade. normalmente da família. Para autora. TECNOLOGIA. Podemos notar nessas situações o que afirma Carol Gilligan (1991) a respeito da noção de cuidado. Volvo. as mulhe- res transmitem os sentidos da cooperação. avó paterna responsável pela criança. Scania e Mercedes. Francine Pereira Rebelo . Nessa situação. dada as condições de trabalho. 2010). afirma que em sua pesquisa a dificuldade de conciliação dos papéis de mãe e profissional foi ressaltada. Em outros casos. outros arran- jos familiares são formados e os/as filhos/as são cuidados principalmen- te pelo pai e pela madrasta. as crianças não estão sob responsabilidade apenas da figura paterna. Ambas veem os/as filhos/as. quando houve separação conjugal. Sobre a aceitação dos/as filhos/as. em sua obra intitulada “Pioneiras na En- genharia”. 71 . 35 As motoristas que deixam os/as filhos/as com os pais relataram boa situação finan- ceira dos ex-conjugês. não gostariam de ser motoristas e não gostam de viajar junto com a mãe no período de férias. Am- bas caminhoneiras que dividem o cuidado dos filhos com a madrasta. 1991). roupas. preocupam-se em prover mais conforto aos/as filhos/as através de presentes como celular. da responsabilidade e do cui- dar para outrem (GILLIGAN. as motoristas relataram que e- les/as acham legal a profissão da mãe. mas de uma mulher que ocupa o lugar de mãe no cuidado da criança. computado- res. destacou a boa relação que tem com a ex- sogra.Trabalho de Conclusão de Curso. Carla Cabral (CONGRESSO IBEROAMERICANO DE CIÊN- CIA. principalmente as meninas. alguns pretendem seguir a carrei- ra e também se tornarem caminhoneiros/as. a madrasta “não podia ter filhos”. Assim nos dois casos. Outras. pantes dessa relação. relata- ram ótimo relacionamento com as atuais mulheres dos seus ex-maridos. afirmaram que as esposas dos ex-maridos “tratam as crianças como fi- lhos” e no caso de uma delas.

entendia o caminhão como uma situação temporária. Das motoristas que acompanhei. apesar do medo de ficar „vici- ada‟. As outras duas eram divorciadas já ti- nham sido casadas também com motoristas. principalmente por se consi- derar mais segura. por ciúmes e principalmente por não terem um tempo sozinhas. ele ainda gosta de vir nas férias. o desgaste emocional de uma viagem compartilhada parece maior. As motoristas relataram brigas pelo jeito que um ou o outro dirigia. apenas a motorista Ford não ti- nha filhos e nunca foi casada. porque em todo lu- gar que para tem muito homem. deixaria de ser motorista” e que tinha medo de não saber o dia de parar com o caminhão. A minha menina já é mais mocinha. 72 . (Trecho do diário de campo referente a vi- agem com a caminhoneira Volks realizada entre os dias 11/01/2011 e 12/01/2011). Entre as outras quatro motoristas. ela tam- bém não fica sem a vó dela. A motorista Volks viajou um tempo com o irmão mais novo e achou a experiência positiva. ela estava na profissão a menos tempo e afirmou que “quando tivesse uma família. o menino é menor. Francine Pereira Rebelo . e a outra viajava em rotas diferentes das do marido.Trabalho de Conclusão de Curso. duas eram casadas com cami- nhoneiros. sendo que quase nunca se viam. Apesar de considerarem que produziam mais quando viajavam com os maridos. uma delas viajava normalmente com o marido mas em cami- nhões separados. podendo realizar mais viagens em menos tempo. Acho que ela tem vergonha.

outros estereótipos femininos são questionados com a presença das mulheres motoristas. Scaramella (2004) mos- tra através do resgate de romances. Já Santos (2002) afirma que entre os caminhoneiros pode-se notar a incorporação de um conjunto de regras e comportamentos marcados pela masculinidade tradicional. criado pela televisão brasileira em 1979 e recriado em uma nova versão em 2003. apesar de entender a masculi- nidade como algo plural. Baseando-me nas vivências que tive durante o campo. Francine Pereira Rebelo . Apesar de entender essas re- presentações como romantizadas. a expressão se refere a maneira que os caminhoneiros enfrentam suas condições de tra- balho. A autora. intitulada “No peito e na raça – a construção da vulnerabilidade dos caminhoneiros: um estudo antropoló- gico de políticas públicas para HIV/AIDS no Sul do Brasil”. Entre as „qualidades‟ que um verdadeiro homem deve possuir está a coragem. apresenta em um dos trechos que trata do caminhoneiro como um tipo forte de homem. Para o exercício da profissão de motorista. A tese de Andréa Leal (2008). pretendo esclarecer algumas formas de exclusão de gênero vivenciadas pelas caminhoneiras e posteriormente trazer uma análise sobre as estratégias construídas pelas motoristas para contornar essas dificuldades. filmes e produções televisivas a i- magem do caminhão e do caminhoneiro. autoconfiança e virilidade. entende-se que algu- mas dessas características devem ser inerentes. Santos (2002) e Scaramella (2004) sobre caminhoneiros onde se destacam algumas qualidades para o exercício desta profissão. 4. tema do seriado “Carga Pesada”.1 Formas de exclusão de gênero Além das discussões sobre espaço público e privado. constrói que a ideia de “no peito e na raça” indica o pertencimento a um grupo que compartilha características como coragem e vigor. Santos (2002) afirma que os caminhoneiros buscam 73 . A música “Frete”. afirma que o modelo tradicional de masculini- dade é ditado para designar o que são verdadeiros homens.Trabalho de Conclusão de Curso. força . consideradas por eles próprios como árduas.2. Iniciemos por uma breve revisão dos estudos de Leal (2008). questão cen- tral para compreensão das relações vivenciadas pelas mulheres motoris- tas de caminhão. a autora afirma que um imaginário fabuloso é construído em torno do caminhoneiro que desponta em uma posição de aventureiro livre e destemido.

apesar das mudanças favoráveis advindas com a tecnologia. cultivar a imagem de trabalhadores viris. na sociedade ocidental. Outras motoristas. O trabalho envolvia o corpo masculino que se distinguia do feminino pela presença da força física. vinculadas a sexualidade. A ideia de que força física é necessária para profissão é recorren- te não só entre as pessoas que não tem conhecimento sobre o trabalho dos motoristas. Ainda são utilizadas contra as mulheres caminhoneiras. A motorista Scania disse que em uma conversa com um frentista ele perguntou o que ela faria se um pneu furasse e ela respondeu “Eu sou caminhoneira. o trabalho foi um importante fator na construção das masculinidades. sendo ainda uma questão muito presente. foi alvo de crítica dos colegas que comentavam sobre uma pretensa troca de favores sexuais de Landes com seus informantes (CORRÊA. A diferenciação entre força física e esforço físico foi ressaltada pela própria motorista. por ser solteira. Durante as viagens que fazia com eles. A motorista Ford. considera que faz muito esforço na profis- são e que deve ter uma estrutura física adequada. Mulheres em outros campos de atuação também sofrem este tipo de preconceito. nesse caso. Francine Pereira Rebelo . 2003). Para a autora. como os comentários de demérito por outros profissionais. como a Volks. mas também entre profissionais envolvidos no transpor- te. a caminhoneira Scania não considera necessária força para o trabalho. iniciando a carreira. associado ao conhecimento tecnológico. como na própria Antropologia. Para as motoristas. A representação da estrada como um lugar que oferece riscos que as mulheres não são aptas a enfrentar é comum. apesar de já ter trabalhado em empresas onde ela precisava descarregar o próprio cami- nhão. outras formas de afastamento. o paradigma da força ainda não foi substituído. as 74 . Sobre o assunto. Então. afirmou não gostar de empresas que acham que o motorista deve se esforçar fisicamente. o paradigma da força física ligada ao trabalho masculino começou a ser substituído pelo para- digma da competência. nos últimos anos. não sou borra- cheira”(Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminho- neira Scania realizada entre os dias 08/12/2010 e 11/12/2010). porém. começou a aprender a di- rigir junto com outros motoristas da empresa que trabalha. a virilidade é en- tendida como força física e moral.Trabalho de Conclusão de Curso. o caso da antro- póloga Ruth Landes que em sua estadia no Brasil. similares as citadas por Maria Rosa Lombardi no caso das mulheres engenheiras e também entre outras profissões. dormiam no mesmo caminhão. Grossi (1995) afirma que por muitos anos.

essas piadas estendem-se ao cotidiano e violentam simbo- licamente a esfera profissional. reclamaram para o dono da empresa. dizendo que por ela a motorista e seu marido podiam viajar juntos. Assim como as outras. é infantilizá-lo” (2008. só tem canhão” e outras brincadeiras preconceituosas desse tipo são propagadas corriqueiramen- te. mas também do riso prove- 75 .705). Para autora. não só da piada. e ela respondeu: “Fala pra corna da sua mulher que não é comigo que tô aqui trabalhando que ela tem que se preocupar!!”. No caso das ca- minhoneiras. é estudada. (Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminhoneira Volvo realizada entre os dias 14/04/2011 e 16/04/2011 – grifo acresci- do). são alvo de piadas sobre a pretensa falta de capacidade da mulher para dirigir. “Estacionado não fica porque mulher não sabe estacionar” são discursos recorrentes e divulgados não só em conversas informais. amor e gênero”. Sobre as piadas. é perceptível que entre as tenta- tivas de afastamentos das mulheres desses postos estão as piadas. professora. ela se posiciona com uma profissional e diz que nunca desistiria de um sonho “por causa de homem”. De acordo com Dahia “tornar alguém ou algo risível é destituí-lo de poder. no CTC (Centro Tecnológico e Científico) da UFSC . Dahia (2008) afirma que devemos nos atentar ao caráter ideológico dessas manifestações. as piadas instau- ram uma sociabilidade que fundamenta a desqualificação do objeto risí- vel. Do mesmo jeito. “essa mulher.Trabalho de Conclusão de Curso. mas pela internet. Francine Pereira Rebelo . as mulheres motoristas. Em uma pesquisa que realizei para a disciplina “Sexo. é enfraquecê-lo. Ainda comparando elementos das vivências de gênero das mulhe- res caminhoneiras com as engenheiras. p. A autora afirma ainda o caráter ambíguo desse tipo de manifestação. perigo constante” ou as mais recentes: “Com a Dilma na presidência o Brasil ou vai para trás ou para frente”. Essas são maneiras sutis de depreciação das mulheres nesses ambien- tes. Contou ainda de outra conversa que teve com um colega. em geral. não é essas ignorantes”. jornais e meios de comunicação em geral. “Mulher no volante. esposas dos motoristas. Outras caminhoneiras também comentaram que ela estava “viajando com ho- mem casado”. o caminhoneiro contou que a esposa dele tinha ciúmes dela. Sobre esse assunto. não só as ca- minhoneiras. notamos que algumas piadas como “O CTC é que nem navio pirata. a motorista Volvo afirmou que apenas a es- posa de um dos colegas a apoiou. esposa de um dos caminho- neiros.

na realidade eu acho que não tem nada a ver. eu disse. é uma profissão como qual- quer outra. isso não quer dizer que eu virei caminhoneira que eu sou isso. as reações são tão ambíguas quanto às pia- das. o termo “caminhoneira” utilizado para esse tipo de caracteriza- ção é conhecido nacionalmente e constitui-se numa forma depreciativa e estigmatizante. ela falou isso pra mim. também carregado de forma i- deológica. Francine Pereira Rebelo .. Entre as motoristas. niente dela. sempre que me perguntam isso eu lembro dela. ah tá. eu nunca vou esquecer. tu virou sapatona. Esse estereótipo masculino é marcado por características como vestimenta.. daí ela viu que tinha falado demais. Não podemos caracterizar alguém que ri de piadas racistas necessaria- mente como um indivíduo racista. Existem ainda outros fatores de afastamento das mulheres da pro- fissão. maneira de falar e agir.” (Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminhoneira Mercedes realizada entre os dias 14/12/2010 e 17/12/2010). Sobre o assunto a motorista Volks se manifesta “Eu queria dar um caminhão pras pessoas que dizem isso. Quando perguntei sobre o início da profissão a caminhoneira Mercedes contou que telefonou a uma amiga contando que tinha come- çado a trabalhar como motorista e que recebeu a acusação de haver se tornado homossexual: “eu liguei pra uma amiga. Para a autora Ana Maria Pereira (2008).. ah tu nem sabe agora eu sou caminhoneira. aposto que não dão conta nem de tirar do lugar”. Por dificultar a compreensão da natureza precisa dessas ma- nifestações. Algumas posicionam-se contrariamente a essas manifestações. 76 .Trabalho de Conclusão de Curso. ou- tras respondem no mesmo tom jocoso. É popularmente usado a categoria “lésbicas caminhoneiras” para designar mulheres com relações homoeróticas que assumem ou tem um estereótipo tido como masculino. o discurso jocoso pode transitar entre diferentes realidades.

o que mostra também uma reação ao estereótipo. Segundo Lombardi (2006). principalmente se ela estiver dirigindo carreta. Ouvi dezenas de comentários. se ela vai se enrolar muito” (2002. ou seja. vê se você acha que eu tô brincando” (Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminhoneira Scania realizada entre os dias 08/12/2010 e 11/12/2010). um outro motorista per- guntou: “Vocês duas que tão nesse caminhão ou vocês tão de brincadei- ra?”. Santos (2002). a falta de reconhecimento faz com que uma mulher tenha de se esforçar mais que um homem para mostrar sua capacidade e ser valorizada. A motorista respondeu: “Olha para minha cara. mas que assim. relembrando a afirmação de Pereira (2008). Raramente as motoristas passam „desperce- bidas‟ e nos postos de gasolina os comentários de „parabéns‟ disputam espaços com as perguntas “é você que está dirigindo esse caminhão?”. Durante a primeira viagem. eu falo na hora. Eram todas su- per “femininas”: usavam vestimentas femininas. não que eu sou grossa. A gente fica esperando para ver como que ela vai sair. A motorista assim que respondeu falou para mim “se meu marido estivesse aqui ele ia dizer que eu sou grossa. p. “A cara de carreteira” seria algo que a motorista Scania não tem. ele briga comigo. realiza uma entrevista coletiva com três motoristas autônomos sobre a partici- pação feminina no trabalho de transporte de cargas. Faz parte do cotidiano da motorista o convívio com o espanto das pessoas ao vê-las dirigindo. apresentaram a “cara de carreteira”. diz que eu tenho que en- tender que eu não tenho cara de carreteira”. O próprio marido da moto- rista sugere que existe um estereótipo de motorista. Eles afirmam na pesquisa que: “Dá muita curiosidade ver mulher cami- nhoneira. que “caminhonei- ra” seria uma mulher masculinizada. Nenhuma das motoristas com que viajei. 223) 77 . “uma cara de carreteira”. quando parei na transportadora com a caminhoneira Scania. Francine Pereira Rebelo . em seu trabalho. jeito ou comportamento do que preconceituosamente se chama de “caminhoneira”.Trabalho de Conclusão de Curso. apresentavam cuidados com o corpo e uso de maquiagem.

presente no cotidiano das engenhei- ras. Pela pe- quena quantidade de mulheres no setor. aparece também nas falas de todas as motoristas entrevistadas que reconheceram a necessidade de “fazer melhor do que os homens” para serem reconhecidas. porque igual. Observei que as caminhoneiras estão sob vigilância não apenas do patrão. A motorista Scania conta que em sua vida toda viu umas 10. de uma empresa do Rio Grande do 78 . o próprio fato de ser mulher as eliminam da profissão co- mo me contou a motorista Ford que uma vez. fora as que ouviu falar. Francine Pereira Rebelo . tem umas que não sou eu. uns meses atrás essa mulher tombou o caminhão na estrada. Disse que já viu outras motoristas que não são ajudadas porque “se acham demais”. Em outros casos. As motoris- tas relatam que alguns as ajudam mais pelo fato delas serem mulheres. ao entregar um currículo. daí tem outra. Tem uma que é da minha cidade e que também eu não conheço. mas dos colegas e de outros trabalhadores com que convivem. Esta falta de reconhecimento. as motoristas veem com descontentamento os erros de outras mulheres caminhoneiras. 15 mulheres motoristas. afirma que os colegas a “tratam com respeito” porque ela também os respeita e por isso eles a ajudam. Uma delas afirmou que “a gente tem que fazer me- lhor ou no mínimo igual. os funcionários das transportadoras acompanhavam e testavam a habilidade da motoris- ta. é compli- cado. Por estarem em constante vigilância. ela mostrou sua opinião da seguinte maneira: “As caminhoneiras são assim. logo. Mesmo que proporcio- nalmente esse erro não seja superior ao dos homens.Trabalho de Conclusão de Curso. Durante as viagens. o modelo se estende para as outras profissionais. mas é como se fosse. se uma motorista comete um erro. notei que sempre que a motorista ia fazer algum tipo de manobra. as profissionais são o único mo- delo que muitos motoristas têm. o funcionário de uma transportadora disse que ela não seria contratada pelo fato de ser mulher. elas são referên- cias. A motorista Mercedes acha que o fato de ser mulher não a diferencia. nunca pior”. outras acham que é igual. As motoristas estudadas apresentam diferentes experiências no que se refere ao relacionamento com outros colegas. Parece não haver um comportamento padrão dos companheiros de profissão.

Não 79 . daí vão lembrar dessa que quando tava lá não fez certo”. a partir disso.2. (Trecho do diário de campo refe- rente à viagem com a caminhoneira Scania realizada entre os dias 08/12/2010 e 11/12/2010). mas sobre o seu profissionalismo. assim. No caso. 4.Trabalho de Conclusão de Curso. complicou porque a- trapalhou o trabalho dela. mos- trando que essa vigilância é exercida não só pelos caminhoneiros. Daí acaba que sempre falam. a frequente invocação ao profissionalismo já chamou minha atenção. De acordo com o relato da motorista podemos notar que o pro- blema destacado não foi apenas o envolvimento da motorista com outro profissional. Logo nas primeiras viagens de campo. porque ela começou a ter caso com uns motoristas. Sul que foi mandada embora e que já fala- ram que essa não é mais contratada em lugar nenhum. proponho pensar a “resposta” das motoristas à essas tentativas de afastamento. acabam que vão fa- lar que era porque é mulher. mas entre as próprias motoristas. Francine Pereira Rebelo .2 Profissionalismo como estratégia de resistência Busquei desde o início desse tópico esclarecer as formas de ex- clusão de gênero e como elas se manifestam no contexto das mulheres motoristas. casado e daí ela tinha que entregar uma carga e ela resol- veu esperar um caminhoneiro e daí atra- sou a carga. mas se uma mulher um dia precisar levar um currículo nessa empresa. com a motorista Scania. dado que a motorista atrasou a carga e atrapalhou seu trabalho por causa desse encontro. a discussão não era apenas sobre a conduta moral da colega de profissão. não é. Eu não de- pendo dessa empresa porque eu sou autô- noma. a conduta moral da colega também é colocada em evidência.

No decorrer da viagem. a noção de profissionalismo é outra. buscam atingir diretamente na „defesa‟ das motoristas. por exemplo. as motoristas Ford e Volvo apresentaram falas similares de que “nunca prejudicariam sua carreira por causa de um homem”. adotando o mesmo sentido de profis- sionalismo que os homens. Um/a motorista profissional deve dirigir sem envolvi- mento em acidentes. Nessa mesma viagem. A caminhoneira. Maria da Gloria Bonelli e Rennê Martins Barbalho (2008) afirmam que as advogadas para superar a barreira do estereótipo atribuído a elas. notei que essa estratégia de apelo a sua competência profis- sional era utilizada em todas as situações. nessa situação as advogadas se deparam com o custo emocional de lidarem com essa masculinização. As piadas colocam em questionamento a capa- cidade de direção das motoristas. o envolvimento em acidentes é algo nem sempre evitável. ao elogiar a postu- ra da esposa do motorista recorre a sua profissão. um motorista ou uma motorista profissional comprovam seu profissionalismo principalmente através de sua capaci- dade na direção. entendi imediatamente se era um posicionamento da motorista em todas as situações ou se ela. Esse ponto dificulta a conquista das moto- 80 . Essa noção de profissionalismo está princi- palmente ligada ao longo período de tempo trabalhado. nesse caso a maneira pela qual elas expressam o seu profissionalismo. evitar multas e zelar pelo caminhão. Mesmo as piadas. confrontada com outras situações. A motorista Volvo ainda destaca que a única mulher de motorista que a apoiou era uma professora. já que preocupam-se como a „menor‟ atenção dada aos filhos poderá será sentida no futuro. se analisadas. recorrem a mascu- linização do ideário e da prática. Para os profissionais do transporte. “essas ignorantes” seriam para a motorista as mulheres donas de casa que por não compartilharem do ideário do trabalho feminino seriam incapazes de compreender a situa- ção da mulher profissional.No caso das motoristas. fomos paradas por um policial que afirmou ter recebido várias reclamações sobre a caminhoneira e ela rebateu perguntando ao policial se ele achava que ela não era uma profissional. Mais do que tempo trabalhado e capacidade de trabalhar longos períodos. No que diz respeito aos comentários de demérito e as insinuações de que as mulheres teriam envolvimento sexual com seus colegas. Na obra intitulada “O profissionalis- mo e a construção do gênero na advocacia paulista”. “não dessas ignorantes”. Francine Pereira Rebelo . por estar com uma pessoa “de fora” queria se “provar” de algum jeito.Trabalho de Conclusão de Curso. A motorista e ela re- conheceram-se por serem profissionais.

problemas na hora do descar- regamento). de que a motorista é uma profissional. A comprovação. No que diz respeito a transgressão da mulher caminhoneira nos espaços públicos e privados. Quando conversava sobre a chegada no destino previsto com a caminhoneira Scania. a motorista ressalta em seu discurso a necessidade de delimitar qual o seu trabalho – em particular que não envolvam força física. A resistência em permanecerem em um espaço que não lhes é adaptado e que não oferecem a estrutura ne- cessária para suas presenças mostra que possíveis mudanças deverão 81 . ela expressou o que sente quando descarrega e não tem nenhum problema (como quebra na carga. essa mulheres manifestam e explicitam suas relações de gênero de maneira que difere dos processos culturais e históricos tradicionais. avaria. é possível que ela se prepare para o exercício da profissão e que não seja cobrada posteriormente pela não realização de uma atividade que profis- sionalmente não a concerne. eu gosto também. através da segurança da carga. não subverten- do a ordem propriamente dita. mas transferindo as responsabilidades no que concerne aos cuidados com as crianças. já é por si só uma subversão.Trabalho de Conclusão de Curso. Para a realização sem problemas das atividades de caminhoneira. mas 'eu transbordo de felicidade' quando chego no meu destino final e dá tudo certo” (Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminho- neira Scania realizada entre os dias 08/12/2010 e 11/12/2010). o simples envolvimento já traz desprestígio profissional para caminhoneira que deve preocupar-se em fazer tudo “melhor do que o homem”. é mais importante para ela do que a com- pensação econômica: “Eu prefiro essa hora do que a hora de receber o dim-dim. Francine Pereira Rebelo . sem a dupla jornada cumprida diariamente. entendo que a própria presença delas no espaço público da estrada e a ausência dela no espaço privado do lar. ristas porque mesmo que ela não seja „culpada‟ pelo acidente. não que eu não goste. Apesar de delegar o cuidado materno a outras mulheres. Com a deli- mitação das atividades que devem ser exercidas por essa profissional.

como exemplifiquei anteriormente com a fala do diretor da Braspress sobre a pretensa calma e cuidado naturais das mulheres. chefes de família.Trabalho de Conclusão de Curso. outras sozinhas pela vontade que tinham de ser motoristas. Scaramella (2004) buscando recuperar historicamente a trajetória e iniciação de alguns motoristas afirma que o filho representa muitas vezes um a extensão do pai. esse acaba sendo o destino de mui- tos filhos de caminhoneiros. Ivani Rosa (2006) em seu trabalho intitulado “Trilhando caminhos e perseguindo sonhos: Histórias e memórias de caminhoneiro” também narra a relação de herança entre a profissão do pai e o filho . pelas dificuldades. a presença desses atributos não foi nenhuma hora ressaltado pelas mulhe- res motoristas em nossas conversas. a autora afirma que apesar de muitos pais não desejarem que o filho tor- ne-se motorista. outras apesar de terem tido contato com os maridos caminhoneiros. a iniciação na profissão não se dá por herança paterna. Busquei nessa parte do capítulo esclarecer que a masculinização do ideário e de comportamentos não é estratégia central utilizada pelas mulheres motoristas. Santos (2002) ressalta que a socialização masculina inicia-se na família e que os caminhoneiros consideram sua profissão como uma herança paterna. alguém que busca reproduzir suas experiências. Algumas aprenderam a dirigir com o marido. buscam através da demonstração da capacidade e do profissiona- lismo a inserção e a melhor adaptação. femini- nas.3 Iniciação na profissão e segurança Alguns pontos nas trajetórias das motoristas merecem destaque. Diferentemente do que se percebe quando se aborda a questão da iniciação profissão pelos moto- ristas homens. profissionais engajadas e preocupadas com o desempenho da pro- fissão. Francine Pereira Rebelo . como a importância da iniciação na profissão. No caso das mulheres motoristas. acontecer neste campo profissional pela necessidade de responder a essa crescente demanda de trabalho feminino. Elas são às vezes mães. as mulheres apresentam trajetórias individuais que unem insatisfação econômica com os empregos anteriores e oportunidade. algumas 82 . Apesar do apelo às característi- cas femininas. aprenderam o ofí- cio com a ajuda dos colegas. 4. Quando questionei por que não haviam mais mulheres na profissão diferentes respostas apareceram.

Outras motoristas seguiram o mesmo discurso. Tem muita mulher medrosa. considerando-se exceções a uma regra da natureza. que não recebe um incentivo. alguém incen- tivou. Santos (2002) afirma que a mulher quando exerce atividades distintas das praticadas usualmente por mulhe- res. Quando continuei a discussão e perguntei porque ela achava que as mulheres não tinham coragem.” (Trecho do diário de cam- po referente à viagem com a caminhoneira Mercedes realizada entre os dias 14/12/2010 e 17/12/2010). A motorista Scania quando questionada sobre o pequeno número de mulheres na profissão afirma que: “acho que as mulheres não dirigem por- que não tem coragem e porque tem mais obrigação de cuidar da casa. geralmente as que tão na estra- da é porque alguém ajudou. delas fazendo referência a falta de apoio ou estímulo para viajar. pela dificuldade da estrada. Francine Pereira Rebelo . tipo assim acho que 80% das mulheres não tem co- ragem de ser caminhoneira. pelo medo.. a motorista afirmou que é porque as mulheres são “naturalmente assim. não é reconhecida como uma trabalhadora qualificada. essa resposta mostra a relevância desse momento inicial para que a carreira da motorista engrene: “Pelo fato da oportunidade. mas como 83 . Tem muitas que querem. mais frágeis” e que ela é uma exce- ção.. mas elas têm medo. ela se sentiu segura em saber que elas iam conseguir porque alguém tava incentivando.” (Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminhoneira Scania realizada entre os di- as 08/12/2010 e 11/12/2010).Trabalho de Conclusão de Curso.

As próprias motoristas reconhecem esse esforço e lembram do „i- nício‟ como uma fase mais difícil em que muitas vezes passou pela ca- beça delas desistir. Outras três relataram começar através do contato com a profissão dos maridos.. Esse discurso mos- tra-se então presente também na fala das mulheres motoristas. trouxe outro elemento importante. a mulher tem um medo a mais. conviveu a vida toda próxima a essa profissão. a necessidade de ter um salário e a própria paixão pelo caminhão”. parece não afetá-las mais. “Antes. junto com os colegas. neste caso. o medo de ser estuprada. É presente no discurso das motoristas a menção a pessoas próxi- mas que deram algum tipo de apoio no momento da iniciação. alguns pontos que antes as incomodavam. de „ser roubado e tomar uma surra‟ e os medos que as mulheres têm. Com o decorrer dos anos co- mo profissional. no começo. qualquer coisinha que acontecia ou que me falavam eu já tava chorando. o medo da violência sexual. com instintos masculinos. de acidente. A motorista Ford destacou outro ponto importante. O que as impediu da desistência foi segundo elas “a fé.Trabalho de Conclusão de Curso. Para ela. A cami- nhoneira Ford. a continuação dependia muito do esforço da própria motorista. o pai mostrou claramente que não desejava que ela se tornasse motorista o que fez com que ela fosse obrigada a procurar outras maneiras de apren- der. A motorista fez uma diferenciação entre os medos „comuns‟ que os homens motoristas têm como: medo de assalto. afirmando também que não existiam mais mulheres motoristas porque muitas não tinham coragem. além desses medos comuns a todos. Como ela relatou. uma mulher excepcional. mesmo não tendo aprendido a dirigir carreta com o pai. Nesses casos. Francine Pereira Rebelo . fase em que se preocupavam com o que as outras pessoas diziam ou que o medo da estrada era muito grande. apesar de que esses muitas vezes se mostravam pouco dispostos a ensina. 84 . hoje eu nem escuto mais” (Tre- cho do diário de campo referente à viagem com a caminhoneira Volks realizada entre os dias 11/01/2011 e 12/01/2011). por mais que a iniciação à profissão estivesse relacionada a uma figura mas- culina familiar de apoio.

“Eu falei que queria ser motorista e todo mundo riu. nos fins de semana pagava para que um motorista a ajudasse. O salário médio real das empregadas domésticas no ano de 2009 era calculado em R$ 586 reais36. Francine Pereira Rebelo . 00 à R$ 3. fica- ram caçoando de mim. fiquei com esse ne- gócio na cabeça.Trabalho de Conclusão de Curso. ou seja. de 3 a 6 vezes mais do que o salário recebido como doméstica.” A motorista trabalhava em uma casa de família e tirou sua cartei- ra de habilitação com o salário de doméstica.800. sendo que depois o irmão mais novo e o primo também se tornaram motoristas. foi ela quem teve a iniciativa de ser motorista. As motoristas relataram que como motorista. O jornal ainda ressalta que a categoria sofre com 70% de informalidade. Dada a baixa escolaridade das motoristas (três das informantes completaram apenas o primeiro grau). O caso da motorista Volks é também interessante pois ele aconte- ceu no sentido contrário. o emprego anterior das informantes motoristas era o trabalho em fábrica ou de doméstica. As próprias caminhoneiras relacionaram a baixa escolaridade e empregos mal remunerados e consideraram o ofí- 36 Fonte: Jornal Estado de São Paulo. estava conversando em um almoço de família e cada um estava falando o que queria ser quando crescesse. falaram que eu era burra. empregada ou autônomas.000. Ela disse que re- solveu ser motorista porque quando tinha uns 14 anos de idade. a profissão de motorista mostra-se como uma oportunidade de maior salário. É notória a diferenciação salarial entre as duas profissões. Acho que eu virei moto- rista pra falar que eu podia ser (Trecho do diário de campo referente à viagem com a caminhoneira Volks realizada entre os dias 11/01/2011 e 12/01/2011). dependendo do tempo trabalhado pela ca- minhoneira. Dia 24/05/2011.00. Ao invés de ser influenciada pela família. Eu fiquei muito brava e depois disso. Assim como a motorista Volks. o salário varia de R$1. 85 .

Todas as motoristas ressaltaram que apesar dos horários e da correria cotidiana. as caminhoneiras estavam envolvidas.Trabalho de Conclusão de Curso. Apesar da superação de medos iniciais como dirigir em grandes cidades.. vi diversos deles. durante as viagens que fiz. “sentem-se livres” sendo caminhoneiras. nesse caso acesso direto ou indireto à profissão. insatisfação com o salário anterior. A dificuldade em calcular os salários. porque os custos de alimentação e despesas em geral na estrada são altos37. O cotidiano das motoristas é marcado por acidentes. principalmente. busca por liberdade e empenho pessoal da caminhonei- ra. estacionar o caminhão. vários fatores se unem. sendo que o valor pago segue uma tabela de valores de fretes. 37 Sobre a questão de salários diferenciados entre homens e mulheres. Rosa (2006) aponta o risco constan- te de acidente e a apreensão dos motoristas em relação a eles. outras vezes. etc. Francine Pereira Rebelo . isso nos mostra que muitos dos medos das caminhoneiras são compartilhados com os motoristas do sexo masculino. muitas vezes composto de negociação de carga e de comissão por viagens realizadas impediu que eu fizesse qualquer comparação entre os salários femininos e masculinos. 86 . Nota-se que não são elementos isolados que propiciam a mulher a possibilidade de tornar-se motorista. não existe nenhuma diferencia- ção. a insegu- rança continua tendo seu espaço no que se refere a acidentes e impru- dência de outros motoristas. o salário ganho ainda não é justo. cio de motorista como „a possibilidade‟ mais bem remunerada. No caso da transporta- dora da minha família que tenho acesso à essas informações. não oculta a inse- gurança sentida nas estradas. não ouvi ne- nhum tipo de reclamação das caminhoneiras. As moto- ristas afirmam que pelo risco que correm. A segurança propiciada pelos maiores salários. oportunida- de.

senti-me desamparada não só pela falta de estudos sobre mulheres caminhoneiras. mas também pela escassez de trabalhos acadêmicos sobre trabalho feminino que não tratasse do exercício da dupla jornada. Desse modo. 21). Furlin fazendo uso da perspectiva de Butler afirma que: Numa perspectiva butlersiana pode-se a- firmar que é interagindo com as dinâmi- cas e situações do próprio contexto social que as mulheres se constituem sujeitos e constroem estratégias de resistência polí- tica que dão legitimidade as suas práticas. num universo marcadamente masculino (2011. Muitas vezes. sem o exercício da dupla jornada. apesar de podermos analisar a inserção dessas mulheres como mais uma assimilação do mercado e necessidade de complementação do orçamen- to.Trabalho de Conclusão de Curso. reconheço a dificuldade em não realizar algumas divisões. o trabalho específico de caminhoneira rompe com trabalhos destina- 87 . Através da reconstrução histórica do conceito de gênero tentei a- presentar diferentes concepções e transformações do termo. com o grupo pesquisado e com futuros trabalhos acadêmicos. espero que essa pesquisa possa contribuir com o tema. Por isso. Francine Pereira Rebelo . mesmo que para caráter de esclareci- mento. p. Por mais que através dessa retomada eu tenha buscado a desconstrução do gênero na perspectiva estruturalista. Sobre a presença da mulher nos espaços públicos e ausência dela nos espaços privados. considero que as mulheres caminhoneiras demandam uma análise nova e diferenciada. como algo binário. Nesse sentido. CONCLUSÕES Busquei ao longo desse trabalho desenvolver da melhor forma possível elementos que emergiram durante o campo e articular essas questões com as teorias sociais. considerei importante a divisão entre espaço público e privado no capítulo anterior. busquei que a recuperação histórica e contextualizada do termo possibilitasse maior compreensão das relações vivenciadas dentro desse grupo específico.

Nessa pesquisa também foi notório que mais do que a busca por um ideário masculino e pela masculinização do comportamen- to. mãe. dos frequentemente a mulheres e abrem uma nova possibilidade de ofí- cio. como a vida profissional. pode priorizar outros aspectos de sua vida. as mulheres buscam contornar as adversidades da profissão e se inse- rir nos espaços públicos através de demonstrações de profissionalismo. Será que se manter e lutar para permanecer em uma profissão que as exclui já não seria uma resistência? Será que romper com os modelos tradicionais de cuidado com a casa e com a família não seria uma maneira de não aceitar a imposição de modelos sociais tradicionais? Não seria a circula- ção delas em espaços que não lhes é „destinado‟. as mulheres abrem mão de sua feminilidade. O caminhão. as motoristas atribuem essa característica a natureza femi- nina. As questões de gênero e classe entrelaçam-se nos apresentando que a opção pela profissão aparece como uma fuga de outros empregos com piores salários. apesar das adversidades. reconhecendo as dificuldades e precon- ceitos acarretados pela profissão. Apesar de delegarem as responsabilidades maternas a outras mulheres e não necessariamente romperem com um modelo feminino de criação dos filhos. o fato de desatrelarem esse cuidado das mães biológicas nos apresentam um modelo de ruptura onde a mulher. apresenta uma pos- sibilidade de maiores salários e de maior liberdade. Francine Pereira Rebelo . ainda referenciando-se a Butler. são nas fissuras do poder em um contexto de práticas discursivas normalizadoras que essas mulheres em espaços predominantemente masculinos encontram espaço para construírem suas subjetividades. a agência ética e atos de liberdade acontecem sempre em um contexto facilitador e delimitador ao mesmo tempo.Trabalho de Conclusão de Curso. por si só uma afronta a esses modelos? Como ressalta Furlin (2011). Apesar de reconhecerem a necessidade de não ser frágil para o exercício da profissão. persistem e lutam cotidianamente para a adaptação a esse espaço e para adaptação desses espaços à elas. compreendendo a si próprias como exceções. Para autora. Santos (2002) afirma que existe uma concepção equivocada de que ao realizarem um „trabalho masculino‟. Apesar de não compreenderem a „superação‟ da fragilidade como uma resistência. Os rearranjos familiares e de trabalho doméstico propiciados pela profissão rompem com um modelo tradicional de atividade feminina. Considero que por mais 88 . as motoristas. Os empregos para pessoas com baixa escolaridade e pertencentes ao sexo feminino são restritos e a maioria deles com salá- rios irrisórios.

Lamento finalizar esse trabalho com mais perguntas do que inici- ei. apesar desses questionamentos. de trabalho e de expe- riência feminina. A relação en- tre o universo do transporte e as diversas formas de comunicação me chamaram atenção. 89 . Francine Pereira Rebelo . dando enfoque a outras categorias. Por fim. podemos considerar que essas sujeitas resistem nessas fissuras e propõem diferentes relações familiares. Desejo que as mulheres caminho- neiras e esse universo em geral sejam ainda muito visibilizados. que as identidades das motoristas sejam misturadas e não sempre coe- rentes. espero sinceramente que esse traba- lho possa contribuir com o grupo das caminhoneiras da mesma maneira que contribuiu para minha formação. Espero ter conseguido através dessa pes- quisa traduzir alguns elementos desse universo e demonstrar o prazer com que esse trabalho foi realizado. além do gênero. porém. outras horas reproduzindo moralidades que controlam o sexo feminino. A pos- sibilidade de realização dessa pesquisa me permitiu a reflexão sobre diversos diferentes assuntos relacionados a essa temática. algumas horas se indignando com o tratamento desigual destina- do as mulheres. acredito que seja possível a continuação da pesquisa entre o grupo dos(as) motoristas de caminhão.Trabalho de Conclusão de Curso. acredito que algumas refle- xões puderam ser realizadas.

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