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REVISTA

BRASILEIRA
DE
SEGURANÇA PÚBLICA
Volume 8
Número 1
fevereiro/março 2014

ISSN 1981-1659
Expediente

Expediente

Esta é uma publicação semestral do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.


ISSN 1981-1659

Rev. Bras. segur. pública vol. 8 n. 1 São Paulo fev/mar 2014

Comitê Editorial Equipe RBSP


Arthur Trindade Maranhão Costa - Editor Chefe (Universidade de Beatriz Rodrigues, Caio Valiengo, Laís Figueiredo,
Brasília - Brasília / Distrito Federal / Brasil) Patrícia Nogueira Pröglhöf
Renato Sérgio de Lima (Fórum Brasileiro de Segurança Pública –
São Paulo / São Paulo / Brasil) Revisão de textos
Denise Niy
Conselho editorial
Elizabeth R. Leeds (New York University – Nova Iorque/ Nova Traduções
Iorque/ Estados Unidos) Paulo Silveira e Miriam Palacios Larrosa
Antônio Carlos Carballo (Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro
Capa e produção editorial
– Rio de Janeiro/ Rio de Janeiro/ Brasil)
Urbania
Christopher Stone (Harvard University – Cambridge/
Massachusetts/ Estados Unidos)
Endereço
Fiona Macaulay (University of Bradford – Bradford/ West Rua Mário de Alencar, 103
Yorkshire/ Reino Unido) Vila Madalena – São Paulo – SP – Brasil – 05436-090
Luiz Henrique Proença Soares (Instituto Via Pública – São Paulo/
São Paulo/ Brasil) Telefone
Maria Stela Grossi Porto (Universidade de Brasília – Brasília/ (11) 3081-0925
Distrito Federal/ Brasil)
Michel Misse (Universidade Federal do Rio de Janeiro - Rio de E-mail
revista@forumseguranca.org.br
Janeiro/ Rio de Janeiro/ Brasil)
Sérgio Adorno (Universidade de São Paulo – São Paulo/ São
Apoio
Paulo/ Brasil)
Open Society Foundations e Ford Foundation.

Fórum Brasileiro de Segurança Pública


Elizabeth Leeds – Presidente de Honra Conselho de Administração
Sérgio Roberto de Abreu – Presidente do Conselho de Administração Arthur Trindade
Samira Bueno – Secretária Executiva Eduardo Pazinato
Humberto Vianna
Jésus Trindade Barreto Júnior
José Luiz Ratton
Luiz Antonio Brenner Guimarães
Luis Flavio Sapori
Marcos Aurelio Veloso e Silva
Renato Sérgio de Lima
Roberto Maurício Genofre

2 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 2-4 Fev/Mar 2014


Sumário
Sumário

Artigos Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:


problemas, impasses e desafios.............................................................................. 6
Paula Rodriguez Ballesteros

Rituais de “pacificação”: uma análise das reuniões organizadas


pelos comandos das UPPs....................................................................................... 24
Frank Andrew Davies

Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco.......................................... 48
Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento

Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa


a medida socioeducativa? O papel dos técnicos judiciários ........................... 70
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, Frederico Couto Marinho, .
Tarcísio Perdigão e Isabela Gonçalves

Representações sociais sobre a violência em egressos


do sistema prisional................................................................................................. 94
Thalita Mara Santos e Eleusa Gallo Rosenburg

Motivações do crime segundo o criminoso:


condições econômicas, interação social e herança familiar ......................... 112
Jarsen Luis Castro Guimarães

Segurança Pública: reflexões sobre o financiamento de suas


políticas públicas no contexto federativo brasileiro........................................ 132
Ursula Dias Peres, Samira Bueno, Cristiane Kerches da Silva Leite
e Renato Sérgio de Lima

Notas técnicas Demandas por direitos e a polícia na encruzilhada ....................................... 154


Marcus Cardoso

Formação compartilhada em Direitos Humanos: diálogo entre policiais e


comunidade no contexto de pacificação no Rio de Janeiro .......................... 170
Anelise Fróes da Silva e Andrea Sepúlveda

Acidentes de trânsito envolvendo motociclistas em Cascavel...................... 184


Valdenir Pinto Ribeiro, José Aparecido Daniel e Luciano Blasius

Opinião Reflexões sobre a Justiça e o Estado Democrático de Direito


a partir do Julgamento do Carandiru.................................................................. 198
Ana Carolina Pekny, Laís Boás Figueiredo Kuller e Lucas Bernasconi Jardim

Regras de publicação .................................................................................................................................... 214

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 2-4 Fev/Mar 2014


3
Summary

Table of Contents

Articles Managing public safety policies in Brazil: problems,


deadlocks and challenges......................................................................................... 6
Paula Rodriguez Ballesteros

“Pacification” rituals: an analysis of the meetings organized


by the command of the UPPs................................................................................. 24
Frank Andrew Davies

Impacts of Gender on the Reduction of Violent Death:


Reflections on the Pact for Life in Pernambuco.................................................. 48
Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento

Monitoring of socio-educational measures for delinquent


children should target the children themselves or the institution implement-
ing these measures? ............................................................................................... 70
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, Frederico Couto Marinho, .
Tarcísio Perdigão e Isabela Gonçalves

Social representations of violence in former convicts....................................... 94


Thalita Mara Santos e Eleusa Gallo Rosenburg

Motivators for crime according to criminal: economic conditions,


social interaction and family background......................................................... 112
Jarsen Luis Castro Guimarães

Public Safety: reflections about the funding of public policies


in Brazilian federative context............................................................................. 132
Ursula Dias Peres, Samira Bueno, Cristiane Kerches da Silva Leite
e Renato Sérgio de Lima
..

Technical Notes The demand for human rights and the police at the crossroads . ............... 154
Marcus Cardoso

Joint Human Rights training: a dialogue between police officers


and the community in the context of pacification in Rio de Janeiro .......... 170
Anelise Fróes da Silva e Andrea Sepúlveda

Traffic accidents involving motorcyclists in Cascavel, Brazil.......................... 184


Valdenir Pinto Ribeiro, José Aparecido Daniel e Luciano Blasius

Opinion Reflections on Justice and the Rule of Law after the Trial of Carandiru...... 198
Ana Carolina Pekny, Laís Boás Figueiredo Kuller e Lucas Bernasconi Jardim

Publishing Rules .................................................................................................................................... 214

4 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 2-4 Fev/Mar 2014


Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 6, n. 2, 229 Ago/Set 2012
5
Gestão de políticas de
segurança pública no Brasil:
Artigos

problemas, impasses
e desafios
Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:
problemas, impasses e desafios
Paula Rodriguez Ballesteros

Paula Rodriguez Ballesteros


Mestre em Administração Pública e Governo pela Fundação Getúlio Vargas/SP. Graduada em Direito pela PUC/SP e em Ciências Sociais
pela USP. Foi pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência e assessora da Ouvidoria-Geral da Defensoria Pública e da Comissão Na-
cional da Verdade. Atualmente é pesquisadora do Departamento de Pesquisas Judiciárias do Conselho Nacional de Justiça.
ballesterospr@gmail.com

Resumo
O artigo propõe-se a discutir as políticas de segurança pública pela perspectiva da gestão pública, destacando, para tanto, dois
importantes aspectos: o das relações intergovernamentais e o da intersetorialidade. O histórico institucional brasileiro exposto
no texto demonstra que a estrutura político-administrativa estatal e a dinâmica interorganizacional da segurança pública têm
importantes implicações para o sucesso das políticas do setor. As mudanças ocorridas neste cenário, apesar de não conso-
lidadas, apresentam grande potencial de transformação, mas dependem, sobretudo, de capacidade e vontade dos atores
envolvidos na área para serem fortalecidas e incorporadas de forma permanente à gestão da segurança pública no Brasil.

Palavras-Chave
Segurança pública; gestão pública; relações intergovernamentais; intersetorialidade

6 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 6-22 Fev/Mar 2014


Artigos
A proposta deste artigo1 é apresentar a
dinâmica político-administrativa das
políticas de segurança pública no Brasil e pro-
retomada da ordem democrática, no fim dos
anos 1980, diferentemente do que aconteceu
com outros direitos respaldados e reformula-

Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:


problemas, impasses e desafios
Paula Rodriguez Ballesteros
mover o debate a respeito dos desafios apresen- dos pela Constituição, o direito à segurança e
tados para seu fortalecimento e consolidação. à ordem, bem como a estrutura organizacional
Inicialmente apresenta-se o cenário configu- que deveria garanti-los, ficou restrito à listagem
rado pela estrutura federalista, passando-se, de algumas organizações policiais vinculadas ao
em seguida, a traçar um histórico da política capítulo da “defesa do Estado e das instituições
nacional de segurança pública, destacando as democráticas”, passando ao largo da caracterís-
consequências daquela estrutura para os al- tica cidadã atribuída às demais esferas da vida
cances e retrocessos no setor. Expõem-se tam- social brasileira que começava a se reconfigurar.
bém as peculiaridades de uma política pública
vinculada aos diferentes níveis e segmentos de A limitação constitucional no que tange à
poder e à pretensa dicotomia entre prevenção segurança pública é vista por muitos autores
e repressão, tratando de questões ideológicas e como resultado do trauma criado em relação
operacionais presentes no cotidiano das agên- ao tema, decorrente das violações e arbitrarie-
cias governamentais. dades cometidas durante os anos de chumbo.
Reduzir a discussão e esquivar-se dela na Cons-
O argumento central aqui apresentado tituinte teria permitido construir a negociação
funda-se na necessidade de uma gestão demo- necessária para a transição ao regime democrá-
crática, capaz de garantir legitimidade e efici- tico. Há quem assegure que a dedicação cons-
ências às políticas de segurança pública, consi- titucional reduzida seria, ao contrário, decor-
derando as diferentes competências dos atores rência de pressão explícita de alguns grupos
e órgãos, bem como a potencialidade das ações interessados em manter o status quo. Como
integradas entre eles. ressalta Gonçalves:
Diferentemente do que se verificava em rela-
Federalismo e relações intergoverna- ção a outras políticas públicas, não havia, à
mentais ou “a política da política de se- época, uma coalizão reformadora para que se
gurança pública” restabelecesse um novo modelo institucional
As políticas de segurança pública no Brasil para a segurança pública, o que não significa
têm sido, em regra, pensadas e implementadas dizer que não existissem atores com agendas
de forma fragmentada e pouco planejada. Na reformistas (Gonçalves, 2009, p. 19).

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As continuidades organizacionais que correntes, por suposto, de um amplo processo
caracterizaram a segurança pública desde a de negociações (Arretche, 2002).
promulgação da Constituição de 1988, so-
Artigos

madas à falta de indicação sobre diretrizes No sistema federativo brasileiro, as compe-


de coordenação ou articulação, bem como tências estatais estão divididas entre diferentes
à omissão com relação ao papel do governo esferas de governo, diferenciadas entre si no
federal e dos municípios neste setor, refor- que se refere às suas instituições, seus recursos
çam o entendimento de Abrucio (2005) a financeiros, humanos e políticos, e sua relação
respeito de um federalismo compartimen- com a sociedade civil. Isso torna o tema da se-
Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:
problemas, impasses e desafios
Paula Rodriguez Ballesteros

talizado. Nesse contexto, os governos es- gurança pública ainda mais complexo. A dis-
taduais teriam tido seu poder fortalecido tribuição de poder entre os níveis de governo
diante do esgotamento do domínio federal, e o tipo de relação estabelecida entre eles são
estabelecendo, naquele momento pós-cons- decisivos para a definição das ações que serão
titucional, relações intergovernamentais adotadas na área de segurança pública, deter-
predatórias e não cooperativas. minando desde seus conteúdos até a maneira e
momento oportunos de executá-las.
Tradicionalmente, as implicações da estru-
tura federalista para a caracterização das polí- O federalismo como forma de organização
ticas públicas nacionais foram analisadas ape- político-territorial, segundo corrente majoritária
nas para as políticas sociais e fiscais. Em raras da doutrina, tem forte impacto na estrutura ad-
oportunidades as análises desta natureza foram ministrativa e no desenho e implementação das
estendidas às políticas de segurança pública. políticas públicas, e a interação que se dá entre
Isso porque, no entender de alguns analistas, o governo central e os governos subnacionais em
os vazios eram tão mais expressivos do que as uma federação é essencial para definir o modo e
ações empreendidas, que não haveria elemen- a qualidade com que o Estado proverá direitos
tos sobre os quais fazer considerações teóricas. fundamentais dos cidadãos (Stepan, 1999).

Em diferentes medidas, áreas como, por Alguns autores (ADORNO, 1999; 2003;
exemplo, educação, saúde e assistência social 2008; SOARES, 2007; MESQUITA NETO,
já passaram por reformas que exigiram a su- 2008) identificam como um dos principais en-
peração ou relativização dos obstáculos legais traves ao desenvolvimento de reformas consis-
e político-administrativos e a reformulação do tentes no sistema de segurança pública o jogo
papel dos entes federativos a fim de constituir político estabelecido desde a época da consti-
políticas públicas nacionais integradas. Respei- tuinte, a partir do qual lobbies corporativistas
tada a autonomia política das entidades sub- e lideranças locais têm se mostrado poderosos
nacionais, a adesão às políticas federais deu-se nas negociações político-partidárias e nos ar-
primordialmente em razão dos incentivos ofe- ranjos federativos sobre área da segurança, re-
recidos pelo governo central, combinados ao tardando um deslocamento contundente no
consenso sobre o conteúdo das reformas, de- sentido da democratização.

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Para Sérgio Adorno, os constrangimentos do ças policiais sob o controle civil e, por conse-
pacto federativo para a área da segurança públi- guinte, de não conseguir produzir políticas de
ca poderiam ser descritos da seguinte maneira: segurança pública que fossem além do uso da

Artigos
Como se sabe, embora o governo federal de- repressão (ADORNO, 1999). Em um segun-
sempenhe uma posição estratégica na formu- do momento, o crescimento da criminalidade
lação e implementação de políticas de segu- e da violência ganhou visibilidade e entrou
rança e justiça criminal, a execução dessas po- para a agenda nacional. Diante disso, aquele
líticas está sob encargo dos governos estaduais primeiro movimento no sentido estadual, em
que, por sua vez, enfrentam problemas locais, decorrência do clamor popular, abriu espaço

Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:


problemas, impasses e desafios
Paula Rodriguez Ballesteros
entre os quais o de ter que lidar com caracte- para que o governo federal assumisse seu pa-
rísticas peculiares e históricas de suas agências pel indutor e formulador de políticas públicas
de contenção do crime, particularmente as desde o final dos anos 1990, como “centro de
ligações entre polícias, Ministério Público, inteligência de novas práticas e abordagens”
Poder Judiciário e autoridades penitenciárias (SENTO-SÉ, 2011).
com o governo civil e com as elites políticas
locais. Trata-se de uma questão de vital im- Políticas nacionais de segurança pública
portância porque depende antes de tudo das e a busca por organicidade e articulação
alianças políticas entre governos estaduais e Para muitos autores (SENTO-SÉ, 2011;
governo federal, mediadas pelas ligações en- MESQUITA NETO, 2008; SOARES, 2007;
tre bancadas estaduais e federais que não raro ADORNO, 2003), o lançamento do primeiro
controlam lobbies muito poderosos como os Plano Nacional de Segurança Pública (PNSP)
das corporações policiais e judiciais (ADOR- em 2000, justamente por ter sido apresentado
NO, 1999, p. 141). como resposta reativa a um episódio de violên-
cia de grande repercussão nacional,2 era muito
A trajetória dos planos nacionais de se- mais um documento político do que estratégi-
gurança pública é ilustrativa das resistências co. Apesar do propósito evidente de articula-
colocadas tanto pelos grupos de interesse ci- ção, seja do Executivo com o Legislativo, seja
tados por Adorno (1999), quanto pela com- das ações repressivas com as preventivas, o pla-
partimentalização administrativa referida no caracterizou-se pela sua “elevada capacidade
por Abrucio (2005). Esta trajetória, segundo de formulação de políticas e baixa capacidade
Sento-Sé (2011), iniciou-se com o próprio de implementação” (ADORNO, 2003, p.
processo de redemocratização, que repassou 130). Isso porque, além das lacunas operacio-
aos Estados a competência pelas políticas de nais e estruturais, o governo Fernando Henri-
segurança pública como forma de redefinição que Cardoso, mesmo tendo se elegido para seu
do pacto federativo. Porém, a pouca familiari- segundo mandato no primeiro turno – fator
dade dos Estados para lidar com o tema, em político favorável – não conseguiu superar os
algumas circunstâncias, e a falta de iniciativa desafios internos ao sistema, impostos por al-
em fazê-lo, em outras, gerou nos governos o gumas agências dos órgãos de segurança e seto-
problema de não conseguir reenquadrar as for- res da sociedade, na condução de um modelo

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que visasse à ruptura de uma lógica envelheci- ou seja, implicaria assumir a responsabilida-
da e pautada simplesmente pela norma penal e de pela segurança perante a opinião pública
pelo uso da força. Não obstante tais limitações, [...] O desgaste seria inevitável, uma vez que
Artigos

reconhece-se no PNSP a virtude de ter coloca- os efeitos práticos de uma reorganização ins-
do o tema da segurança na agenda nacional, titucional só se fariam sentir a longo prazo
sistematizando várias das contribuições sobre (Soares, 2007, p. 88).
o tema, enfatizando seu caráter social e desta-
cando o governo federal como protagonista da O segundo mandato de Lula manteve a
coordenação federativa no setor (ADORNO, continuidade dos dois planos anteriores com
Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:
problemas, impasses e desafios
Paula Rodriguez Ballesteros

2003; SOARES, 2007; SENTO-SÉ, 2011). relação ao tema da segurança pública, consti-
tuindo uma importante série histórica para o
No governo de Luiz Inácio Lula da Silva, tema no país (SOARES, 2007). Por meio do
reforçou-se o caráter articulador do governo Programa Nacional de Segurança com Cida-
federal, associando-o à ênfase dada às políti- dania4 (Pronasci), o governo Lula objetivou
cas preventivas e à valorização profissional dos estabelecer um “novo paradigma” para a se-
trabalhadores da área de segurança. A rearticu- gurança pública, ao promover a inclusão dos
lação federativa, entre outros temas, foi objeto municípios e da sociedade civil como atores
do Comitê de Articulação Federativa (CAF) fundamentais da ação estatal para o setor, rela-
do governo, que se propunha a “promover a ar- cionados principalmente às políticas preventi-
ticulação na formulação de estratégias e imple- vas destacadas no Programa.
mentação de ações coordenadas e cooperativas
entre esfera federal e municipal de governo, O Pronasci foi criado por Medida Provi-
para atendimento das demandas da socieda- sória e depois instituído por lei5 debatida no
de e aprimoramento das relações federativas” Congresso Nacional, e tinha previsão orça-
(BRASIL, 2007 apud GONÇALVES, 2009). mentária de médio prazo (seis anos, incluindo
metade do mandato do sucessor na Presidên-
No Projeto Segurança Pública para o Bra- cia), cujo gasto foi definido de acordo com os
sil , de 2002, elaborado com participação de
3
projetos que constituíam o Programa em cada
alguns setores da sociedade, propuseram-se um dos Estados e municípios que a ele ade-
reformas estruturais abrangentes, inclusive no riram, características gerenciais que os planos
que toca às normas constitucionais. Entretan- anteriores não tinham.
to, segundo Soares,
O presidente reviu sua adesão ao Plano e Além destes projetos nacionais, em três ou-
desistiu de prosseguir no caminho previsto, tras oportunidades o governo federal se propôs
porque percebeu – na interlocução com a ins- a discutir a reforma do sistema de segurança
tância que, à época, se denominava “núcleo de forma integral e considerando os aspectos
duro do governo” – que fazê-lo significaria federativos da política de segurança, sem, con-
assumir o protagonismo maior da reforma tudo, lograr êxito. A primeira, em 1997, sob
institucional da segurança pública no país, coordenação da Secretaria de Direitos Huma-

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nos, quando se criou o Grupo de Trabalhos estariam articuladas entre as esferas federal, es-
de Avaliação do Sistema de Segurança Públi- tadual e municipal. O Susp operaria por meio
ca, mas cujas propostas foram obstaculizadas de um protocolo de intenções entre cada um

Artigos
por outro projeto apresentado pelo Ministro dos governos subnacionais e o Ministério da
de Justiça do mesmo governo, às vésperas de Justiça, via Secretaria Nacional de Segurança
eleições, que relegaram à segunda ordem tanto Pública (Senasp), cujo resultado implicaria a
uma proposta quanto a outra6. Já em 2001, o criação de um plano de segurança e um comitê
Ministério da Justiça, logo depois de lançado de gestão integrada para cada uma das entida-
o primeiro Plano Nacional de Segurança Pú- des governamentais.

Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:


problemas, impasses e desafios
Paula Rodriguez Ballesteros
blica, constituiu o Comitê de Assessoramento
ao Núcleo de Ministros de Estado para a Re- Apesar de um documento formal denomi-
construção do Sistema Nacional de Segurança nado “Arquitetura Institucional do Sistema
Pública, que, entretanto, nem chegou a fun- Único de Segurança Pública” ter sido lançado
cionar em razão da sucessiva troca de titulares em 2004, e de dois Relatórios de Gestão te-
na pasta7. Logo em 2002, outro grupo de tra- rem sido publicados (um referente ao período
balho foi formado por representantes da Secre- 2003-2006, e outro somente sobre 2006), o
taria Nacional de Segurança Pública (Senasp), Susp em regra nunca chegou a ser implementa-
Secretaria Nacional de Justiça e Secretaria de do, a não ser por ações pontuais que remetem
Direitos Humanos, com o propósito de inte- ao conteúdo do sistema, mas não são geridas
grar as ações dos diferentes níveis de governo. de acordo com os princípios de integração e
Como resultado, desenvolveu-se o Programa articulação do mesmo. Da sua formatação ini-
Nacional de Apoio à Administração da Segu- cial em termos de gestão das políticas de segu-
rança Pública nos Estados e Municípios (Pe- rança pública restaram os Gabinetes de Gestão
naspem), mas que, ao que consta, não saiu do Integrada e a consolidação e reformulação do
papel (MESQUITA NETO, 2008). Fundo Nacional de Segurança Pública.

Uma alternativa a todas essas empreitadas Os Gabinetes de Gestão Integrada (GGI)


foi a idealização do Sistema Único de Seguran- tiveram origem em 2003, como objeto dos
ça Pública (Susp), que apesar de nunca ter sido “Protocolos de Intenções” firmados entre o
normatizado8, serviu como parâmetro para governo federal e todos os Estados, além do
algumas propostas de reformulação da estru- Distrito Federal, no bojo da tentativa de se
tura organizacional do setor e como referência instituir o Susp. Inicialmente pensados de for-
das temáticas prioritárias da área. As ações do ma a possibilitar a coordenação de ações de
projeto do Susp se dariam em sete eixos es- gerenciamento de crises e de forças-tarefa9, o
tratégicos, a saber: gestão do conhecimento; GGI passou a ser tratado como órgão delibe-
reorganização institucional; formação e valori- rativo e executivo, que operaria por consenso,
zação profissional; prevenção; estruturação da garantindo a manutenção de autonomia e a
perícia; controle externo e participação social; não hierarquização de seus integrantes. Coube
programas de redução da violência. Estas ações à secretaria estadual de segurança pública de

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cada localidade articular seus membros e or- Em uma oportunidade inédita na gestão da
ganizar as atividades iniciais consoantes com o segurança pública, profissionais da área repre-
II Plano Nacional de Segurança Pública (MI- sentando 26 unidades federativas foram con-
Artigos

NISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2009). vidados pelo Ministério da Justiça a participar


de um seminário que serviria para elaborar
Deveriam integrar o GGI representantes de coletivamente o documento de referência para
órgãos nos níveis federal e estadual: membro a definição dos GGI. Os profissionais foram
da Senasp, Superintendentes da Polícia Federal divididos em três grupos temáticos – estrutu-
e da Polícia Rodoviária Federal, Secretário de ração, funcionamento e prioridades estratégi-
Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:
problemas, impasses e desafios
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Segurança Pública, Chefe da Polícia Civil, Co- cas – que, em plenária, validaram o Termo de
mandante Geral da Polícia Militar, e demais di- Referência base para a atuação dos Gabinetes.
rigentes dos órgãos subordinados à secretaria de Em sua introdução, o documento define:
segurança pública estadual. Ademais, deveriam
ser convidados integrantes das Secretarias Mu- Sem gestão não há política de segurança e políti-
nicipais relacionadas à pasta da segurança, bem ca de segurança implica articulação sistêmica das
como representantes das Guardas Municipais, instituições. Sendo assim, uma política de segu-
do Ministério Público e do Poder Judiciário. rança pública eficiente tem como pressupostos:

Figura 1 - Diagrama Conceitual do Gabinete de Gestão Integrada Municipal

Observatório da
Segurança Pública

Gestão do
Conhecimento

Deliberação e
Coordenação
Pleno GGI-M
I - Prefeito;
Disque II - Autoridades Municipais responsáveis pelas
Segurança Pública

PRONASCI
Gestão das Ações

ações sociais preventivas;


Comunicação da
Integradas de

Formação e da

Sala de
Mobilização

IV - Autoridades Policiais Estaduais que atuam TELE-CENTRO


Gestão da

Vídeo Situação e +
Monitoramento no município: Polícia Civil, Polícia Militar e KIT DE Comunicação
Operações Cortpo de Bombeiros;
Disque
Denúncia V - Representantes do Ministério da Justiça:
Coordenador Estadual do PRONASCI, Polícia
Federal e Polícia Rodoviária Federal;
VI - Secretário Executivo GGI-M

Gestão das Ações


Preventivas
Segurança
Território de Paz
- Gerentes e Convivência
- Equipes Multidisciplinares

Legenda
Integração do jovem Estrutura
e da família
Processo

Fonte: MJ, 2009, p. 98.

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• Articulação interinstitucional projetos de Estados e municípios voltados à
• Planejamento sistêmico área de segurança que estivessem articulados
• Reforma das polícias introduzindo meca- com o Plano Nacional de Segurança Pública.

Artigos
nismo de gestão – dados qualificados, diag-
nósticos rigorosos, planejamento sistêmico, Costa e Grossi (2007) caracterizam o
avaliação regular e monitoramento corretivo FNSP como importante ferramenta de indu-
(MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2009, p. 35). ção das políticas locais de segurança pública e
de cooperação intergovernamental, restringi-
Em 2004, o Conselho Gestor do Fundo do, porém, pela falta de maior empenho do

Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:


problemas, impasses e desafios
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Nacional de Segurança Pública (FNSP) esta- governo federal em assumir protagonismo na
beleceu que daria prioridade aos entes fede- coordenação e no planejamento estratégico das
rados que tivessem GGI instalado e em fun- políticas de segurança pública no Brasil. Se-
cionamento como critério para a distribuição gundo os autores, a criação do FNSP represen-
de recursos. A partir de 2007, os Gabinetes de tou aumento significativo dos investimentos
Gestão Integrada passaram a ser vinculados ao do governo federal no setor, bem como uma
Programa Nacional de Segurança com Cidada- centralização, e, portanto, melhor aplicação,
nia, momento no qual se incentivou a criação dos recursos destinados à área, agora a cargo
dos GGI em âmbito municipal. Os GGI-M, do Ministério da Justiça.
como ficaram conhecidos, foram estruturados
com base no “memorial descritivo” desenvol- O FNSP opera por meio de convênios,
vido pela Senasp, que estabelecia parâmetros cujas condicionalidades que inicialmente es-
para acompanhamento e auditoria da aplica- tabeleciam exigências não só com relação aos
ção dos recursos repassados pelo FNSP. O dia- elementos das políticas de segurança, mas a
grama conceitual do GGI-M elaborado pela outros aspectos relacionados com a estabili-
Assessoria de Assuntos Federativos do Minis- dade econômico-administrativa dos Estados e
tério da Justiça dá uma ideia da potencialidade municípios, foram revistas em 2003 no intuito
gestora do órgão (MINISTÉRIO DA JUSTI- de facilitar e qualificar o repasse de recursos.
ÇA, 2009). Estabeleceram-se, então, como critérios de
distribuição: o tamanho da população; o efe-
Atualmente, os Gabinetes de Gestão In- tivo de policiais civis e militares e o número
tegrada continuam ativos, mas pouco se sabe de homicídios (Costa; Grossi, 2007). En-
sobre suas ações, sobre os resultados delas de- tretanto, apesar dos 820 convênios firmados
rivados, ou sobre os avanços e retrocessos em entre 2000 e 2005, e de R$ 1,2 bilhão repas-
relação à proposta original10. sado para execução de projetos em segurança
pública, o Fundo acabou reiterando velhas
Por sua vez, também legatário do Susp, o práticas que, em vez de investir em reformas
Fundo Nacional de Segurança Pública, insti- estruturais, restringiram-se à aquisição de no-
tuído por lei em 2001 pelo governo Fernando vos equipamentos, como armas e viaturas, e
Henrique Cardoso, teve o objetivo de apoiar desconsideraram pontos importantes como

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a capacitação e a inovação (SOARES, 2007; uma política pública desta magnitude requer.
COSTA; GROSSI, 2007).
Os desafios intergovernamentais que ainda
Artigos

Na análise de Grossi, persistem no setor não são, contudo, os úni-


Apesar deste cenário altamente favorável, cos, e devem ser analisados em conjunto com
desde sua instituição, o Fundo passou a ser as questões intersetoriais que veremos adiante,
encarado mais como uma linha de recursos já que o sistema de segurança pública, correla-
de que cada Estado ou Município poderia cionado à garantia de direitos e promoção da
lançar mão, do que uma forma estruturada cidadania, deve agregar em sua concepção inú-
Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:
problemas, impasses e desafios
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e comandada pelo governo federal para uma meros atores e tipos de intervenção, de forma
política unificada de segurança pública. Na a assegurar uma abordagem democrática e efi-
formalização dos convênios com os Estados e ciente para os problemas causados pelo crime e
municípios, pode-se ter perdido uma oportu- pela insegurança no seio da população.
nidade única nesta relação “conflituosa” entre
os governos locais com o governo federal. Isto Um sistema com muitas peças e pouca
se deve basicamente às exigências ou condi- engrenagem
cionantes que a União poderia ter colocado Algumas iniciativas governamentais têm re-
àqueles que desejassem utilizar os recursos do presentado mudanças na forma – e, mormen-
Fundo (GROSSI, 2004, p. 51-52). te, no discurso – de como a segurança pública
vem sendo administrada nos últimos 25 anos
Apesar de não contar com recursos vincula- no Brasil. Ainda que o governo federal não te-
dos decorrentes de determinação constitucio- nha a competência legal para lidar com o tema,
nal, como são o caso da saúde e da educação, sua postura política apoiada em habilidades
os montantes dos gastos do Fundo Nacional que superam as restrições da normatividade
de Segurança Pública, bem como as demais tem servido para movimentar um ambiente
despesas da União com a função segurança pú- pautado pela inércia e ao mesmo tempo pela
blica, nunca foram desprezíveis e, ao contrário, reatividade. Mesmo não consolidadas, estas
na maior parte do período aqui analisado, ob- mudanças devem ser consideradas importantes
servaram tendência crescente. marcas na governança da segurança pública.

Contudo, assim como nos planos nacio- Todavia, é nos níveis estaduais e municipais
nais, tanto na experiência dos GGI como no desta política pública onde as modificações são
caso do FNSP, em que pesem suas potenciali- mais cogentes, o espaço onde elas mais cus-
dades, inclusive na integração entre essas duas tam a ocorrer. Em outras palavras, os maiores
últimas estratégias político-administrativas, gargalos da política de segurança pública bra-
é possível verificar que as relações intergover- sileira na atualidade surgem sob o pretexto de
namentais na área de segurança pública não que congregar ações de vários órgãos e de di-
constituíram a organicidade e densidade ne- ferentes naturezas, ainda que na mesma esfera
cessárias para consolidar o pacto federativo que de governo, teria, além de um custo político

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muito alto, uma ineficiência gerada pela sobre- legitimidade. Falta legitimidade porque a po-
posição e disputa de poderes e atribuições que lítica não se constrói com base no diagnóstico
mesmo o melhor e mais bem intencionado dos prévio e participativo, e sua implementação

Artigos
governos não conseguiria superar11. ocorre de forma seletiva e segmentada, a de-
pender dessas burocracias insuladas que fazem
Assim como em outras áreas sociais, o de- parte do sistema de segurança e, porque não
bate de ideologias e procedimentos está longe dizer, impulsionada pelos casos de violência de
de ser um passo imediato na direção das trans- grande repercussão nacional.
formações institucionais. No caso da seguran-

Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:


problemas, impasses e desafios
Paula Rodriguez Ballesteros
ça, são inúmeras as organizações com lógicas Em outras palavras, ainda que na ordem
próprias de funcionamento que interferem na jurídico-institucional prevaleçam normas de-
conformação desta política pública que, “como mocráticas, Alvarez, Salla e Souza (s/d) susten-
instituições complexas capazes de acumular tam a ideia de que são os processos políticos
experiências”, acabariam por desenvolver uma restritos a um grupo de atores os que definem
“cultura autônoma” (ROLIM, 2007, p. 34) e, a agenda e as decisões da área, e que entre es-
portanto, de difícil articulação (ADORNO, tes atores estão instituições cujas configurações
2008; SAPORI, 2006; RATTON; TORRES; apresentam alto grau de autonomização em
BASTOS, 2011). relação aos interesses genuinamente públicos.
Consolidando este entendimento sobre o iso-
Segundo a perspectiva histórica proposta lamento institucional na área da segurança, os
por Alvarez, Salla e Souza, este cenário se ca- autores acrescentam:
racterizaria por: Em primeiro lugar, [a segurança pública] é
insulamento burocrático que se realimenta uma esfera na qual atuam de modo marcante
não apenas da capacidade de decidir sobre instituições pertencentes aos poderes da Re-
inúmeros procedimentos no âmbito da ges- pública; há necessidade de estreitas articula-
tão e funcionamento da própria instituição, ções “horizontais” entre os poderes executivo
como tece mecanismos de reprodução das e judiciário (e em menor escala o legislativo)
condições de permanência desse insulamento na própria viabilização das políticas públicas
(Alvarez; Salla; Souza, s/d, p. 11). concebidas para o setor. No entanto, cada um
desses poderes e seus respectivos órgãos são
As experiências realizadas até hoje na área presididos por diferentes valores, interesses,
da segurança pública têm sido, em regra, pau- orientações políticas e procedimentos admi-
tadas por padrões top-down de concepção, de- nistrativos que nem sempre operam na mes-
cisão e execução, combinados, além disso, a fa- ma direção das políticas desejadas. [...] Ao
tores como a ausência de processos de avaliação mesmo tempo, na dimensão “vertical”, não
e a espaços limitados de negociação política. A são menores os desafios para que as análises
gestão na área da segurança pública é, pois, en- levem em consideração as diferentes atribui-
tendida como uma política centralizada e que ções das esferas do poder federal, estadual e
padece de fragilidade decisória, posto que sem municipal em relação ao setor de segurança

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pública, bem como as possibilidades de con- que apenas 9 das 22 secretarias analisadas12 se
flito, articulação e acomodação entre elas orientam por uma lei diretriz específica ou por
(Alvarez; Salla; Souza, s/d, p. 10). um plano de segurança. Apenas oito das secre-
Artigos

tarias têm quadros próprios de concursados


Segundo afirma Sapori (2006; 2007), o sis- civis, sendo que a maioria conta com policiais
tema de justiça criminal brasileiro construído militares (17) e policiais civis (15) na admi-
nessas bases sofre de dupla falta de articulação: nistração da pasta, ainda que não se indique
a que se refere ao conflito entre as organizações quais são as funções desempenhadas por estes
que o compõem, e a que se verifica entre lei e profissionais. Apenas cinco das 22 secretarias
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problemas, impasses e desafios
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prática. Para o autor, estas organizações operam têm pessoal capacitado em políticas públicas e
por meio de uma “informalidade instituciona- somente sete em gestão financeira e de recur-
lizada” fundada em diferentes lógicas, muitas sos humanos; além disso, cinco secretarias não
vezes criando conflito entre as instituições – possuem profissionais capacitados em nenhu-
que, em tese, teriam um mesmo objetivo a ser ma das áreas estratégicas apontadas13.
compartilhado –, e causando, assim, a inefici-
ência do conjunto do sistema. O alto grau de Outro dado interessante em termos de
desconfiança e a diferença de “prestígio” entre composição é o que demonstra a elevada
os órgãos, associados à demanda por eficiência, prevalência dos membros policiais, em detri-
levaria o sistema de justiça criminal a funcionar mento de profissionais de outras áreas. Assis-
com base em “padrões cartoriais” (RATTON; tentes sociais e pedagogos estão presentes em
TORRES; BASTOS, 2011), que configurariam apenas 3 secretarias; profissionais de saúde,
uma “justiça de linha de montagem” (SAPORI, em 5 secretarias; administradores e gestores
2006) muito distante de responder às demandas públicos, em 4 secretarias; e estatísticos, em
substantivas da população diante do crime e de apenas 2 das 22 secretarias pesquisadas. No
outras formas de violências. âmbito específico da articulação, a pesquisa
mostra, ainda, que o relacionamento estreito
Pesquisa realizada por Costa (2011), por com as polícias civil, militar e técnico-cientí-
sua vez, aponta que também a administração fica se dá em mais de 80% das secretarias de
da segurança pública levada a cabo pelas secre- segurança, e com o poder judiciário, o minis-
tarias estaduais designadas para o setor, além tério público e o sistema penitenciário se dá
de pouco conhecida, é muito mal estruturada em em torno de 75% destas instituições. Em
e quase sempre incoerente, no que tange aos contrapartida, as relações com outros órgãos
aspectos de governança, ou seja, à capacida- públicos estaduais, com outras secretarias es-
de de formular e coordenar políticas públicas taduais de segurança pública e com as secreta-
em rede, principalmente em razão de valores, rias municipais dedicadas ao setor são muito
racionalidades e prioridades próprios de cada mais frágeis (respectivamente, 54,5%, 27,3%
ator integrante da rede. e 36,4%), superando apenas a relação estabe-
lecida com as organizações da sociedade civil
No contexto brasileiro, o estudo mostra (27,3%) e com as universidades (27,3%).

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Esta também é a conclusão de pesquisa re- potencializadoras. Ainda que não seja o objetivo
alizada pela Flacso-Chile, no bojo de um ex- deste trabalho aprofundar o debate sobre as po-
tenso projeto sobre o sistema de segurança dos líticas preventivas, uma vez que ampla gama de

Artigos
países da América Latina. Segundo a entidade, estudos e documentos oficiais já avançou nesse
El panorama de la seguridad pública en Bra- sentido, cumpre fazer algumas ponderações que
sil es muy complejo y a la vez problemático, se coadunam com a perspectiva de gestão da se-
pues todos los cuerpos policiales que funcio- gurança pública aqui proposta.
nan en el territorio llevan a cabo su misión de
manera separada, con organización y criterios O primeiro ponto relaciona-se ao fato de

Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:


problemas, impasses e desafios
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de trabajo, formación, gestión, control inter- que, apesar de não serem poucas, as experiên-
no y manejo de la información diferentes. cias e práticas preventivas não têm sido adota-
Si a esto se suman las particularidades de la das como prioritárias ou ao menos considera-
administración del gobierno, la cual define das com a devida atenção no que diz respeito
la orientación de la misma policía, y la mala aos problemas do crime e da violência. Seja
relación existente entre las fuerzas policiales porque a resposta repressiva ainda é a mais
que actúan en una misma jurisdicción (Po- imediata e evidente a ser apresentada como
licía Militar y Policía Civil) se puede señalar “política de segurança”, seja porque, na segu-
que la seguridad pública del país sufre de de- rança pública, os municípios ainda estão fora
sorganización, irracionalidad y crisis, agrava- da órbita definitiva de colaboração e articula-
da por la violencia, el crimen organizado y ção do federalismo brasileiro para as políticas
el narcotráfico que afecta el país (FLACSO, de segurança, diferentemente do que acontece
2006, p. 30-31). em outras áreas de políticas sociais.

Esses dados corroboram a ideia de que Isso ocorre muito mais por parte dos gover-
tanto as agências do poder Judiciário crimi- nos estaduais do que do governo federal, que
nal como também as estruturas do Executivo progressivamente, na linha de desenvolvimento
apresentam resistências e guardam relação com de uma reforma do Estado descentralizadora,
uma estrutura arcaica e pouco modificada, e conforme demonstrado anteriormente, impul-
padecem com obstáculos ideológicos e admi- sionou as esferas municipais a participarem desta
nistrativos que muitas vezes inviabilizam o seara, tanto por meio do resgate e reorganização
processo de governança democrática na área de suas guardas municipais, como do incentivo a
de segurança pública. projetos envolvendo jovens e comunidades terri-
torialmente identificadas como vulneráveis.
A escolha de Sofia
A ação do sistema de justiça criminal e dos O segundo ponto é que, como aponta So-
Executivos estaduais são, com as políticas de ares (2006), as práticas preventivas não são
prevenção, dimensões que compõem a rede de apenas aquelas estruturais, “destinadas a agir
políticas do sistema de segurança pública, e que sobre as macroestruturas socioeconômicas do
entre si são complementares e reciprocamente país”, mas também aquelas tópicas, que, por

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meio de projetos e intervenções imediatas, pelos seus atos, respondendo diante do sistema
“salvam vidas, reduzem danos e sofrimentos, de justiça criminal, cuja principal diretriz de
[...] instauram padrões de comportamento, atuação seria a adoção de medidas dissuasórias
Artigos

suscitam sentimentos e acionam percepções (aparelhamento da polícia, aperfeiçoamento da


coletivas que se convertem, elas mesmas, em máquina judicial, maior rigor na aplicação da
causas de situações menos permeáveis às pres- pena, incremento do encarceramento). Por ou-
sões dos fatores criminológicos” (SOARES, tro lado, associam-se os níveis de criminalidade
2006, p. 95). Na mesma linha, Beato Filho aos parâmetros de pobreza e desigualdade e, as-
aponta as “abordagens culturalistas” que até sim, sendo o criminoso fruto da injustiça social
Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:
problemas, impasses e desafios
Paula Rodriguez Ballesteros

hoje têm sido usadas para a formulação de e da falta de oportunidades, adotam-se medi-
políticas públicas na área da segurança e que das humanitárias e de inclusão social (oportu-
acabam criando dissensos conceituais refleti- nidades de emprego, participação comunitária,
dos na elaboração dos projetos para o setor. valorização da educação, ressocialização do cri-
Para o autor, minoso), evitando que o crime aconteça e, para-
Parece que uma das razões do fracasso e da lelamente, atendendo aos preceitos basilares de
inexistência de políticas nessa área reside direitos humanos (SAPORI, 2007).
num plano puramente cognitivo. A pro-
posição de políticas públicas de segurança, A dicotomia entre políticas preventivas e
no Brasil, consiste num movimento pen- repressivas nas políticas de segurança pública é
dular, oscilando entre a reforma social e apresentada pelos governantes como “a escolha
a dissuasão individual. A ideia da reforma de Sofia”, figurando não só como uma ques-
decorre da crença de que o crime resul- tão ideológica, mas também sendo apresenta-
ta de fatores socioeconômicos que blo- da como uma decisão administrativa: seja pelo
queiam o acesso a meios legítimos de se argumento de que as verbas são limitadas e é
ganhar a vida. [...] preciso fazer opções nos dispêndios financeiros,
seja porque ainda não foram encontradas (ou
No outro extremo do movimento pendular não se propuseram a encontrar) estratégias que
estão aqueles que acreditam que o problema conciliem as duas vertentes de forma harmonio-
do crime é fundamentalmente uma questão sa e eficiente, optando-se, então, pela de maior
de polícia e de legislação mais repressivas. repercussão e familiaridade: o uso da força.
A dissuasão do comportamento crimino-
so, então, passaria necessariamente por uma Considerações finais
atuação mais intensiva do sistema de Justiça Na perspectiva da gestão de políticas de se-
Criminal (BEATO FILHO, 1999, p. 24-25). gurança pública, o que nos propusemos a dis-
cutir neste trabalho é a necessidade de analisar
Por um lado, entende-se que a punição é e administrar atores, estruturas, processos e re-
elemento fundamental para afirmação de valo- sultados, tanto do ponto de vista específico do
res socioculturais e que, sendo o criminoso um que cada um destes elementos representa para
ator racional, deve assumir a responsabilidade a segurança pública, como do ponto de vista

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integral de como estes elementos se relacionam recem de aperfeiçoamento e institucionalidade.
(ou não) entre si.
Estudo do Banco Interamericano de De-

Artigos
Uma visão menos monolítica e compacta do senvolvimento (BID) apontou, tomando como
Estado e, ao mesmo tempo, questionamentos exemplo o Estado de São Paulo, que muitos
mais ampliados sobre processos decisórios por são os obstáculos e desafios para uma gestão
ele coordenados permitem análises mais condi- governamental efetiva no setor de segurança
zentes com a realidade sociopolítica brasileira e pública (Tudela, 2006). No que se refere ao
com sua governabilidade, importantes para o marco regulatório, o trabalho indica a ausência

Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:


problemas, impasses e desafios
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debate sobre segurança pública no Brasil. de uma norma única que defina atribuições,
funções e responsabilidades entre os órgãos de
Como há muito se sabe, a eficácia do siste- segurança e que, por conseguinte, permita esta-
ma de segurança pública resulta justamente da belecer uma coordenação efetiva sob liderança
capacidade de articular intervenções multisseto- institucional integrada e intersetorial pautada
riais e interorganizacionais voltadas a prevenir o por objetivos e metas. Em termos de política
crime ou a superar suas consequências depois de pública, o BID reafirma a inexistência de uma
já ocorrido. Esta articulação está fundamental- política de Estado “explícita e consensuada” e,
mente pautada em uma gestão eficiente de re- assim sendo, a falta de institucionalização das
cursos, informações e estratégias, que privilegie estratégias públicas voltadas a combater a cri-
a formulação e implementação participativa e minalidade. O enfoque dominante não seria
que se ampare em instrumentos de monitora- integral nem vinculado às diretrizes modernas
mento e avaliação constantes e confiáveis, tanto da “segurança cidadã”, o que se traduz na falta
no intuito de corrigir o rumo das intervenções, de centralidade das tarefas de prevenção. Em
como para a tarefa de consolidar práticas bem- termos de resultados, por fim, o estudo revela
-sucedidas e socialmente legitimadas. que não se tem investido na gestão do conhe-
cimento, já que, apesar das informações dis-
A trajetória político-institucional brasileira poníveis – que, ainda que públicas, carecem
da segurança pública, diferentemente de outras de sistematicidade –, falta promover no setor
políticas públicas, não têm conseguido conso- avaliações sobre os resultados das ações de seus
lidar seus espaços de negociação, nem a cons- atores, que, por sua vez, fortaleçam o exercí-
trução coletiva de estratégias ou de objetivos a cio do controle externo e da accountability. Em
serem perseguidos. A despeito de impedimentos suma, o estudo indica que ainda não se dispõe
intergovernamentais e desarranjos organizacio- de “una actividad gubernamental suficiente y
nais, verificam-se deslocamentos significativos, orientada a reducir la brecha e inconsistencias
se não quando em comparação a outras áreas entre el sistema vigente, el fortalecimiento de
sociais, com certeza no que se refere à trajetória la democracia y las demandas ciudadanas del
da segurança pública, que, entretanto, ainda ca- sector” (TUDELA, 2006, p. 56).

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1. Os argumentos deste artigo são de cunho estritamente pessoal.

2. O episódio que ficou conhecido como “Ônibus 174”, em que um jovem sequestrou um ônibus na cidade do Rio de Janeiro e fez seus
Artigos

passageiros reféns. A história terminou com a morte de uma mulher e do próprio sequestrador.

3. Depois conhecido como II Plano Nacional de Segurança Pública.

4. Anunciado depois dos ataques da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), em São Paulo, em 2006.

5. Lei 1.530/2007.

6. À época, figurava como Secretário de Direitos Humanos José Gregori, e como Ministro de Justiça, Íris Rezende.

7. Durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso o Ministério da Justiça teve nove titulares.

8. Existe um projeto de lei, de 2007, do então Ministro da Justiça, Tarso Genro, e um de 2006, dos deputados federais Ricardo Santos
(PSDB-ES) e Carlos Humberto Manato (PDT-ES) Ver Ministério da Justiça (2006).

9. O fato gerador do funcionamento do GGI foi o episódio ocorrido no Espírito Santo, envolvendo a morte de um juiz, que estaria
Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:
problemas, impasses e desafios
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desvelando o crime organizado no estado, cuja participação de altas autoridades políticas parecia estar sendo provada (MJ, 2009).

10. Para informações estruturais e administrativas sobre os GGI existentes, ver pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2013).

11. Para contraposição a este argumento, ver Cerqueira, Lobão e Carvalho (2005).

12. Não responderam ao questionário de pesquisa, desenvolvido em conjunto pela Universidade de Brasília e a Secretaria Nacional de
Segurança Pública do Ministério da Justiça, os Estados de Alagoas, Espírito Santo, Maranhão, Paraíba e Roraima.

13. As áreas abordadas foram: segurança no trabalho, saúde ocupacional, Renaesp, direitos humanos, gestão financeira, gestão de
recursos humanos, políticas públicas e análise criminal.

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Gestão de políticas de segurança pública no brasil:
problemas, impasses e desafios
Artigos

Paula Rodriguez Ballesteros

Resumen Abstract
Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:
problemas, impasses e desafios
Paula Rodriguez Ballesteros

Gestión de políticas de seguridad pública en Brasil: Managing public safety policies in Brazil: problems,

problemas, impases y desafíos deadlocks and challenges


El artículo se propone discutir las políticas de seguridad This paper presents a discussion on public safety policies
pública desde la perspectiva de la gestión pública, from the standpoint of public management. Two important
destacando, para ello, dos importantes aspectos: el de las aspects were highlighted: intergovernmental relations
relaciones intergubernamentales y el de la intersectorialidad. and intersectorality. The survey on the history of Brazilian
El historial institucional brasileño expuesto en el texto institutions presented in this paper suggested that the
demuestra que la estructura político-administrativa estatal government’s political and administrative structure and the
y la dinámica interorganizacional de la seguridad pública public safety interorganizational dynamics are both crucial
tienen importantes implicaciones para el éxito de las políticas for successful policies in this sector. The changes that have
del sector. Los cambios acaecidos en este escenario, a pesar occurred in the realm of public safety remain unstable, but
de no haberse consolidado, presentan un gran potencial de they have a great transformative potential. This, however,
transformación, pero dependen, sobre todo, de la capacidad relies on the ability and will of all stakeholders to strengthen
y voluntad de los actores involucrados en el área para these changes and permanently integrate them into public
que estos se vean fortalecidos e incorporados de forma safety management in Brazil.
permanente a la gestión de la seguridad pública en Brasil.
Keywords: public safety; public management;
Palabras clave: seguridad pública; gestión pública; intergovernmental relations; intersectorality.
relaciones intergubernamentales; intersectorialidad.

Data de recebimento: 21/11/2013


Data de aprovação: 26/02/2014

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Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 6-22 Fev/Mar 2014
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Gestão de políticas de segurança pública no Brasil:
problemas, impasses e desafios
Paula Rodriguez Ballesteros Artigos
Rituais de “pacificação”:
uma análise das reuniões
Artigos

organizadas pelos comandos


das UPPs
Rituais de “pacificação”: uma análise das reuniões

Frank Andrew Davies


organizadas pelos comandos das UPPs

Frank Andrew Davies


Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia
e Antropologia da mesma instituição (PPGSA/UFRJ). Atualmente é professor, faz doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências
Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPCIS/UERJ) e é pesquisador do CIDADES - Núcleo de Pesquisa Urbana (UERJ).
daviesfr@gmail.com

Resumo
Este artigo apresenta reflexões acerca dos processos de regulamentação das reuniões comunitárias organizadas e dirigidas
pelos comandos militares das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) do Estado do Rio de Janeiro. Foram analisados símbolos,
valores e temas suscitados nesses eventos, para o qual convergem diferentes representantes das esferas pública, privada e
de base local a fim de constituir no cenário cotidiano dessas favelas verdadeiros rituais de “pacificação”. Conforme a pesquisa
aponta, existem regularidades e formalidades que buscam conduzir a produção de novos valores morais e também renovar
velhos mecanismos de controle sobre as dinâmicas políticas desses espaços. Nesse escopo, a “pacificação” tem revelado mais
permanências do que rupturas no processo de “promoção de cidadania” aos moradores de favelas.

Palavras-Chave
Segurança pública; pacificação; UPP; participação; cidadania; favela; favelados.

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Artigos
E ste artigo apresenta reflexões acerca dos
processos de regulamentação das reuni-
ões comunitárias organizadas e dirigidas pelos
apresentados e faz-se uma breve análise que
identifica esses encontros como rituais de “pa-
cificação”2 com uma certa eficácia moral. Ao

Rituais de “pacificação”: uma análise das reuniões


organizadas pelos comandos das UPPs
Frank Andrew Davies
comandos militares das Unidades de Polícia Pa- fim, sugerem-se certos efeitos dessas reuniões
cificadora (UPP) no Estado do Rio de Janeiro. para as dinâmicas políticas locais.
A pesquisa tem como base de análise a observa-
ção direta de 14 encontros promovidos por qua- As UPP e suas expectativas
tro unidades em seus territórios no período de As UPP têm sido sinalizadas como uma das
janeiro a julho de 2013. As reuniões ocorreram novidades mais significativas no campo da segu-
em Batan, São João, São Carlos e Manguinhos, rança pública brasileira. Desde 2008, um grupo
sendo as observações complementadas por da- selecionado de favelas cariocas tem sido ocupada
dos obtidos de conversas com representante da pela polícia militar de modo permanente e osten-
Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP)1 sivo. Essa prática é considerada “policiamento de
e com diálogos com os comandantes e demais proximidade”, em teoria distinta da maneira usu-
participantes desses encontros. al de atuação da polícia nessas áreas, tradicional-
mente dada a estratégias “de incursão” que, por
Ao jogar luz sobre as reuniões com repre- efeito negativo, geram índices altos de letalidade.
sentantes do poder público, setor privado e
associações comunitárias, o objetivo dessa in- Ao contrário da lógica da guerra, as UPP
vestigação é refletir sobre os símbolos e valores são apresentadas no espaço público como fer-
que são partilhados nesses eventos, que temas ramentas promotoras de paz para as favelas, e
são mobilizados, encaminhados e soluciona- também para o conjunto da cidade (LEITE,
dos e que sentidos são atribuídos ao projeto 2012). E de fato, um dos efeitos já acenados
das UPP. Em sentido mais aberto, pretende-se do projeto é que mesmo não se relacionando
considerar o impacto dos encontros para a vida necessariamente às áreas com maior taxa de
política local dessas favelas. criminalidade, seu avanço repercute positiva-
mente sobre os índices de violência letal tanto
Para tanto, a primeira seção deste tex- nas áreas de abrangência das Unidades quanto
to pontua a nova política de segurança sobre em seu entorno (LAV, 2012).
algumas favelas da cidade; em seguida, anali-
sam-se brevemente os padrões de contato dos Além da concepção de “paz” como direito
órgãos públicos com os moradores de favelas. à segurança – e, por consequência, à vida – as
Adiante, alguns dados sobre as reuniões são UPP operam, na lei e nos discursos dos agentes

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públicos, com expectativas de integração social Se hoje as leis estão se tornando o padrão
e territorial das favelas e a ampliação de direi- de valor predominante e mais bem ajustado
tos de cidadania aos seus moradores. aos mundos sociais (HASTRUP, 2003), vale
Artigos

pensar os efeitos da política de “pacificação”


O Decreto-lei 42.787, de 6 de janeiro de para os moradores dessas localidades, em es-
2011, que regulamenta o funcionamento das pecial à representação de suas subjetividades,
UPP, afirma que um dos objetivos do progra- sensos de pertencimento e suas formas de rei-
ma é “devolver à população local a paz e a tran- vindicação política.
quilidade públicas necessárias ao exercício da ci-
Rituais de “pacificação”: uma análise das reuniões

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organizadas pelos comandos das UPPs

dadania plena, que garanta o desenvolvimento A despeito da fragilidade institucional da


tanto social quanto econômico” (grifo nosso) política das UPP – sustentada apenas por de-
(RIO DE JANEIRO, 2011). Na lei, a Polícia creto-lei – sua progressão na cidade tem sido
Militar é necessária e garantidora da cidadania e notável nos últimos cinco anos, atingindo
do desenvolvimento local, mas não sua promo- atualmente um contingente de 1,5 milhão de
tora per se. Em entrevista concedida ao jornal O moradores3. Apesar da sua progressão, estudos
Globo em 2011, o Secretário Estadual de Segu- têm chamado atenção para a excepcionalida-
rança, José Mariano Beltrame, declarou: de de algumas práticas legais atreladas às UPP,
Se não houver investimentos maciços na digni- como parcerias com empresas privadas, forte
dade dos cidadãos, na geração de perspectivas gestão da sociabilidade local e adoção de novas
para aquelas pessoas, não digo que o progra- práticas policiais criminosas, como o aumento
ma vá dar errado, mas não é a polícia que vai do desaparecimento de pessoas4.
garantir o sucesso de tudo isso. A UPP criou
um ambiente para a sociedade começar a pagar a A UPP se revela uma prática legal de seguran-
dívida que todos temos com essas áreas até então ça “de excepcionalidade”, visto que, em média, a
excluídas (O GLOBO, 2011, grifo nosso). proporção policial-morador nas áreas de UPP é
oito vezes maior do que a média estadual (LAV,
Essas e outras falas de representantes do poder 2012). Além disso, a gestão dos investimentos e
público mobilizam no imaginário coletivo um serviços públicos aliados ao projeto também per-
forte repertório de expectativas sobre as próximas corre discricionariedades frágeis e de tipo espe-
“melhorias” a serem tomadas a partir da entrada cífico: a prefeitura do Rio de Janeiro desenvolve
da polícia. Em continuação, afirma o Secretário: desde 2011 o programa UPP Social, ao passo que
A UPP mexe com o que há de mais valioso o governo estadual, desde o mesmo ano, coor-
nas pessoas, que é a esperança. E a gente pre- dena o programa Territórios da Paz. Ambas as
cisa ter senso de responsabilidade. Essas pes- ações coordenam iniciativas das secretarias para
soas, com a chegada da polícia, podem come- as localidades, mas sem de fato ter surtido muito
çar a pensar que agora o Estado está presente resultado (FLEURY, 2012; LEITE, 2012).
ali. E esse Estado tem que se apresentar de
forma mais palpável, de um jeito forte (BEL- Com interesse em desvendar aspectos dos
TRAME QUER PRESSA..., 2011). contatos entre órgãos públicos e moradores de

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favelas na contemporaneidade, esta investigação os moradores, e não fortuitamente, muitas de
privilegia a observação das reuniões organiza- suas associações são suspeitas de vínculos com
das pelos comandos das UPP. Antes de apontar as redes de narcotráfico (MACHADO DA

Artigos
alguns dados e reflexões da pesquisa, situam-se SILVA; SILVA; ROCHA, 2008).
elementos que contam a história desse processo.
Apesar desse processo, desde a década de
O Estado para os favelados 1980 órgãos públicos e organizações “de base”
As favelas compõem a paisagem carioca des- têm se aproximado a fim de cumprir precei-
de o fim do século XIX, mas só são reconheci- tos constitucionais de promoção da cidadania

Rituais de “pacificação”: uma análise das reuniões


organizadas pelos comandos das UPPs
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das legalmente em 1937, quando o Código de (DINIZ, 1982). Contudo, estudos apontam
Obras do Distrito Federal as define5 e as senten- que esses contatos ainda seguem um formato
cia à extinção do tecido urbano. Ainda que “te- clientelista, no qual líderes locais são coopta-
nham vencido”, resistido e se multiplicado sobre dos à administração pública. A embaralhada
a cidade, o status de ilegalidade fez legítimo um aproximação entre políticos, agências gover-
modo específico de atuação política sobre esses namentais e associações comunitárias não se
espaços. Seguindo as regras do jogo democrá- restringe ao campo eleitoral, todavia ocorrem
tico, instituições governamentais estimularam interferências também sobre as formas de ges-
o associativismo local6 atrelado à formação de tão das associações e sobre suas atribuições,
redes assistencialistas e clientelistas e, nutrindo de modo que recorrentemente ficam respon-
mediações políticas verticalizadas, fez desenvol- sabilizadas por atividades do serviço público.
ver e consagrar a “política-da-bica-d’água”, que Um exemplo claro é a organização dos traba-
também converteu “lideranças” das favelas em lhadores para as obras, os conhecidos mutirões
cabos eleitorais, alastrados por agentes partidá- (MACHADO DA SILVA, 2002; PANDOL-
rios (MACHADO DA SILVA 1967). FI; GRYNSZPAN, 2002; BURGOS, 2006).

As décadas de 1960 e 1970 revelam conti- É, portanto, no bojo da “metáfora da guer-


nuidades nesse mecanismo de controle ao pas- ra” que se legitima a premência da “polícia pa-
so que acumula perdas maiores aos favelados. cificadora”, ainda que pouco se entenda o sig-
O agravo do quadro de remoções dificulta o nificado prático desse termo (LEITE, 2012).
diálogo com representantes do poder público No cenário atual, parece pertinente considerar
e, como efeito perverso, produz ainda mais como têm se dado as relações entre agências
favelas. Em consequência, se reformula no públicas e os moradores dessas favelas.
discurso e na prática do Estado o que seria o
“problema da favela”: para além de espaços de Como acenado em perspectiva histórica, a
“carência”, é acentuada a sua tipificação como omissão inicial do poder público sobre as fave-
zona “perigosa”. A gramática da violência mar- las foi seguida por investidas por controle e dis-
ca até hoje as representações e as realidades ciplina de seus moradores. Tal retrospecto tem
das favelas enquanto espaços da cidade cario- assentado a concepção sociológica das favelas
ca. Essa sujeição negativa também recai sobre como “margens do Estado” (DAS; POOLE,

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2008), espaços sociais e territoriais a que se atri- diferentes órgãos públicos, do setor privado e
bui um aspecto selvagem e insolidário para as de organizações comunitárias, além de outros
quais as ações do poder público se fazem, para- moradores e o comando da polícia.
Artigos

doxalmente, sempre necessárias e incompletas.


Foram analisados 14 encontros organizados
As “margens” são entendidas como zonas regularmente por quatro UPP no período de ja-
de desordem, contraditórias ao senso da ordem neiro a julho de 2013. As reuniões observadas
a que se associa a representação do Estado. Isso ocorreram em Batan (5 encontros), São João
não quer dizer que as margens devem ser per- (4), São Carlos (3) e Manguinhos (2). A seleção
Rituais de “pacificação”: uma análise das reuniões

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cebidas como resquícios de um passado a civi- seguiu as possibilitadas de acesso pelo pesquisa-
lizar, ao contrário: as “margens” se cristalizam dor a partir de redes de vínculo nessas favelas.
como condição estruturante à reprodução co- A escolha também pretendeu levar em conta a
tidiana do fenômeno estatal: heterogeneidade espacial, social e histórica den-
O Estado é concebido como um projeto sem- tro do conjunto maior de reuniões organizadas
pre incompleto que deve ser constantemente pelas UPP7. Na Tabela 1 é possível identificar as
enunciado e imaginado, invocando o selva- localidades com UPP e, entre elas, as que orga-
gem, o vazio e o caso que não só faz por fora nizam as reuniões “comunitárias”. Essas infor-
dos limites de sua jurisdição, mas que, além mações foram identificadas em conversa com a
disso, é uma ameaça desde dentro (DAS; PO- CPP e com a rede de informantes.
OLE, 2008, p. 22, tradução e grifo nossos).
Esses encontros estruturam um formato es-
A invocação ao selvagem e ao vazio legitima pacial que dualiza espectadores e protagonistas,
formas particulares de atuação do Estado sobre dispondo cadeiras para a audiência, em grande
as margens, mais do que em espaços territoriais, parte composta por moradores. Invariavelmen-
pois nas “margens” se justificam redefinições nos te, os comandantes da Polícia Militar – que or-
modos de governar e legislar. Nesse sentido, na ganizam o evento e mediam as participações –
presente pesquisa entende-se que as reuniões or- iniciam a reunião com uma fala prolongada, po-
ganizadas pelos comandos das UPP constituem sicionando-se de pé no centro do espaço. Nessa
práticas excepcionais do Estado para as favelas “pa- fala costuma ser mencionada a presença das
cificadas”, o que reverbera a interpretação dessas instituições públicas, privadas e comunitárias,
localidades como “margens”. Nessas áreas, o poder e após o discurso, iniciam-se as apresentações e
público despende tecnologias governamentais de inscrições dos demais presentes. Nesse segundo
tipo variado e pouco afeitas às institucionalidades processo, costumam se identificar e posicionar
formalizadas, aplicadas ao resto da cidade. representantes das associações de moradores, do
poder público e do setor privado. Moradores
As reuniões como rituais de “pacificação” de outras filiações associativas ou mesmo sem
As reuniões “comunitárias” organizadas vínculos só se apresentam quando pedem para
pelos comandos militares possuem frequência falar. Seus nomes, como o de todos os outros,
mensal e costumam agrupar representantes de são registrados nas atas dos encontros.

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Quadro 1 - Unidades de Polícia Pacificadora - até Julho de 2013

Artigos
Há reunião realizada
  Data de instalação Localidade
pela UPP?

1 19/12/08 Santa Marta

2 16/02/09 Cidade de Deus

3 18/02/09 Jardim Batan Sim

4 10/06/09 Babilônia/Chapéu Mangueira Sim

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5 23/12/09 Pavão-Pavãozinho e Cantagalo

6 14/01/10 Tabajaras e Cabritos

7 26/04/10 Providência

8 07/06/10 Borel

9 01/07/10 Formiga

10 28/07/10 Andaraí Sim

11 17/09/10 Salgueiro

12 30/09/10 Turano Sim

13 30/10/10 Macacos

14 31/01/11 São João, Matriz e Quieto Sim

15 25/02/11 Coroa, Fallet e Fogueteiro Sim

16 25/02/11 Escondidinho e Prazeres Sim

17 17/05/11 São Carlos Sim

18 03/11/11 Mangueira e Tuiuti

19 11/01/12 Vidigal e Chácara do Céu Sim

20 Meses 04 a 05/2012 Complexo do Alemão

21 Meses 06 a 08/2012 Complexo da Penha

22 20/09/12 Rocinha Sim

23 16/01/13 Manguinhos Sim

24 16/01/13 Jacarezinho Sim

25 12/04/13 Complexo do Caju

26 12/04/13 Barreira do Vasco

27 04/06/13 Cerro Corá e Guararapes

Fonte: elaboração própria.

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Os comandantes proferem discursos pro- por ora, não tem se preocupado em regular a
longados, comumente dotados de orientações forma como cada uma das UPPs efetiva ou
morais às condutas dos moradores. No Batan, efetivará essa aproximação. Fica a critério dos
Artigos

em 26 de abril, o encontro se iniciou com um comandos militares, portanto, aderirem a en-


discurso do Capitão, que destacou o valor da contros já existentes ou promoverem novos e,
participação dos locais para a resolução dos nesses casos, definirem suas características e
problemas. A reunião comunitária é então formatos.
apresentada como o momento mais propício
para o exercício desse papel resolutivo, já que O posicionamento da CPP em relação
Rituais de “pacificação”: uma análise das reuniões

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organizadas pelos comandos das UPPs

ali se apresentam (“cara a cara”) os agentes do às reuniões assevera a constatação de que as


poder público municipal e estadual. Os mora- UPP são uma política de segurança sem cri-
dores devem exercer a função de “cobrar dos térios muito definidos aos procedimentos
representantes” nesse “espaço privilegiado pro- da polícia. No plano empírico, sobressai a
movido pela UPP”. autonomia dos comandos militares, em que
“critérios diferentes são aplicados por coman-
Em outra medida, operações policiais rea- dantes diferentes para as mesmas situações”
lizadas pelas UPP coibindo o tráfico de dro- (LAV, 2012). Assim, as reuniões surgem e se
gas e a circulação de veículos irregulares, por desenvolvem conforme interesses e possibili-
exemplo, são episódios que os comandantes dade de diálogo dos comandos militares com
relatam a fim de reforçar o compromisso de moradores, associações e demais parceiros do
denúncia por parte da população local; para setor público e privado.
tanto, os moradores devem confiar na polícia
e trabalhar “em parceria” com ela. Os tipos de Além disso, percebem-se algumas varia-
demandas e o conteúdo dos discursos são mais ções entre os formatos das reuniões observa-
bem definidos na próxima seção. das, como a oferta – ou não – de mesas de
café e lanche, e a escolha dos locais de en-
Vale acentuar que nem todos os comandos contro. As UPP do São Carlos e do Batan
das UPP promovem reuniões “comunitárias”. preferem realizar encontros na própria sede
Das 27 favelas arroladas no projeto8, apenas 12 policial – de fato, o Batan reveza entre encon-
contam, atualmente9, com a iniciativa desses es- tros na sua sede e em uma quadra na locali-
paços. Apesar disso, a CPP afirma ter emitido em dade Fumacê; já o comando policial do São
junho de 2013 uma resolução orientando todos João prefere encontros itinerantes, enquanto
os comandos das unidades policiais a participa- em Manguinhos é utilizado o anfiteatro de
rem ou organizarem encontros “comunitários”, uma biblioteca recém-inaugurada. Algumas
com regularidade, no mínimo, trimestral10. reuniões possuem características específicas,
como as do Batan, onde se reserva o hábito
A Coordenadoria afirma que o estímulo à de compor uma mesa de “representantes”11.
aproximação com a “comunidade” é uma “ne- Essa variedade relativa de formatos de encon-
cessidade percebida” há pouco tempo, e que, tro reflete sua baixa institucionalização, mas

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Quadro 2 - Localidade, Local, Data e Horário das reuniões etnografadas

Artigos
Dia de
  Localidade Local Data Horário
semana

1 Batan – Fumacê Quadra da Amizade 25/01/13 Sexta-feira 18hs

2 Batan UPP Batan 22/02/13 Sexta-feira 9h00

3 Batan – Fumacê Quadra da Amizade 22/03/13 Sexta-feira 9h00

Complexo São João - Entrada do Queto/


4 18/04/13 Quinta-feira 10h00
Queto (ou Sampaio) Sampaio

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5 Batan UPP Batan 26/04/13 Sexta-feira 10h00

6 Complexo São Carlos UPP São Carlos 30/04/13 Terça-feira 9h00

Complexo São João – Praça no acesso ao


7 09/05/13 Quinta-feira 10h00
Morro São João São João

8 Complexo São Carlos UPP São Carlos 28/05/13 Terça-feira 9h00

Complexo Manguinhos Teatro da Biblioteca


9 12/06/13 Quarta-feira 9h00
– DESUP -Parque

Complexo São João –


10 Entrada da Matriz 13/06/13 Quinta-feira 10h00
Matriz

11 Batan UPP Batan 27/06/13 Sexta-feira 9h00

12 Complexo São Carlos UPP São Carlos 10/07/13 Terça-feira 9h00

Complexo São João – Entrada do Queto/


13 11/07/13 Quinta-feira 10h00
Queto Sampaio

Complexo Manguinhos Teatro da Biblioteca


14 18/07/13 Quinta-feira 10h00
– DESUP -Parque

Fonte: elaboração própria.

também o controle político da polícia sobre de programas e serviços públicos, de âmbito


esses espaços de participação, uma vez que, municipal e estadual, com relativa gerência
sem exceção, são os policiais que promovem e sobre a região.
definem esses encontros.
As reuniões atendem ao interesse explícito
As reuniões organizadas pelas quatro UPP de encaminhar demandas locais aos represen-
acontecem mensalmente, em dias úteis, no tantes do poder público, em especial quando
turno da manhã. Todas, com regularidade, envolvem questões de lixo, conservação dos
agregam representantes das associações de espaços públicos, serviços de fornecimento de
moradores, comandantes das UPP e gestores luz, água e problemas no tráfego. Em segun-

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Quadro 3 - Caraterísticas das localidades e reuniões
“comunitárias” etnografadas
Artigos

Batan São João São Carlos Manguinhos

Região da cidade Oeste Norte Centro Norte

1o semestre Agosto de
Início das reuniões Janeiro de 2013 Abril de 2013
de 2011 2012
Rituais de “pacificação”: uma análise das reuniões

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Modelo de Fixo
Itinerante Itinerante Fixo
encontro (mas quer ser itinerante)

Frequência média 40 – 80 20 – 40 40 – 70
10 – 30 pessoas
de público pessoas pessoas pessoas

Dispõe mesa de
Não Sim Sim Não
café / lanche?

Regularidade
(todos pela 6as-feiras 4as-feiras 3a-feiras 5as-feiras
manhã)

Fonte: elaboração própria.

do plano, os encontros se revelam espaços de mais suscetíveis à análise porque já recortados


“oportunidades” ofertadas por agentes privados em termos nativos. Em outras palavras, tanto
– como representantes do Sistema S e de orga- eventos ordinários, quanto eventos críticos
nizações nãogovernamentais (ONG)12. O tema e rituais partilham de uma natureza similar,
da segurança e do trabalho da polícia é pouco mas os últimos são mais estáveis, há uma or-
enfatizado, e será abordado mais adiante. dem que os estrutura, um sentido de aconte-
cimento cujo propósito é coletivo, e uma per-
A compreensão dessas reuniões como ritu- cepção de que eles são diferentes. (PEIRANO
ais remonta à tradição antropológica, como um 2003, p. 8, grifo nosso).
conceito para análise dos eventos sociais. Por
evento entendem-se acontecimentos sociais Destacados e diferenciados das situações
tangíveis de tipo “then and there”, que produ- do cotidiano, os rituais são episódios que am-
zem revelações e perplexidades de acordo com pliam, focalizam, destacam e justificam o que
a relação que possuem com outros elementos é usual ao grupo social. Entretanto, categori-
da dinâmica social. Seguindo essa perspectiva: zar as reuniões como rituais merece uma dose
Os rituais são tipos especiais de eventos, de cuidado: trata-se de uma definição apenas
mais formalizados e estereotipados e, portanto, relativa e de caráter metodológico. O que se

32 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 24-46 Fev/Mar 2014


pretende é aproximar a análise dos ditos e feitos Considerando o ideário de integração social
dos “nativos”, contemplando “a temporalidade aventado pelas UPP, as reuniões “comunitárias”
do evento, a criatividade do vivido, da perda podem ser sinalizadas como rituais que repre-

Artigos
e do ganho inevitáveis do instante histórico” sentam, na vida local, os símbolos e característi-
(PEIRANO 2003, p. 10). cas da “pacificação”. Um dos símbolos que estão
presentes e que vão além das falas é o protago-
Se as ações sociais são também ações de po- nismo dos comandantes locais das UPP. Esses
der, a etnografia permite trazer à tona a “eficá- personagens assumem a centralidade política do
cia” das falas e de seus efeitos como atos perfor- espaço público dos encontros, coordenando fa-

Rituais de “pacificação”: uma análise das reuniões


organizadas pelos comandos das UPPs
Frank Andrew Davies
mativos, ou seja, como enunciações que por si las, definindo a sequência dos fatos e sugerindo
só se tornam realizações13. Se as falas também os temas que serão abordados. Eles também de-
são atos, considerar os discursos em contextos sempenham papéis disciplinadores, intervindo
é necessário para a compreensão antropológica sobre conflitos e indicando modos de ser e fazer,
do fenômeno social – aqui, as relações entre os em especial para os moradores.
órgãos públicos, privados e os moradores nas
favelas “pacificadas” do Rio de Janeiro. Os convites aos representantes das Secre-
tarias e demais agências públicas são feitos
Em outra mão, cientistas sociais têm tra- pelas próprias UPP. O setor de comunicação
dicionalmente contribuído nos estudos jurí- social (os “P5” ou “relações públicas”, “RP”
dicos para a compreensão dos processos in- da tropa) entra em contato com esse grupo,
formais de pequena escala, destinados a iden- identificado por vontades manifestadas em
tificar como se materializa no plano vivido o outras reuniões. Em casos considerados de
“estado do Estado” (MOORE, 2001, p. 108). maior relevância, os comandantes afirmam
Assim, acredita-se que as reuniões encenam fazer o convite pessoalmente.
no plano ritualístico a possível “eficácia” ou o
mana do projeto de “pacificação”, aquilo que Os policiais também convocam as associa-
o Secretário Beltrame chamou de “começo ções locais e redigem as atas dos encontros. De
do pagamento da dívida de todos” com essas acordo com relatos, as atas seriam outro instru-
favelas. Agregando diferentes agentes, os en- mento de vocalização dos moradores, visto que
contros reproduzem o pressuposto do contro- registram textualmente todas as reclamações fei-
le policial para a atuação dos órgãos públicos tas posteriormente, que são encaminhadas pela
e privados nas favelas. O “retorno do Estado” polícia aos referidos órgãos “de competência”.
a esses espaço da cidade é um recurso argu-
mentativo que justifica o não “pagamento da Além da liderança dos comandantes no es-
dívida” em tempos anteriores, em vista do do- paço das reuniões, outra participação também
mínio das facções criminosas14 sobre essas lo- consolidada é dos representantes dos serviços
calidades. Nesse espectro discursivo, as UPP públicos. Nas diferentes áreas é frequente a
estão identificadas como uma chance inédita presença de agentes locais de saúde (Clínica
de romper a história. da Família), assistência social (Centros de Re-

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ferência da Assistência Social – Cras), limpeza 1997, p. 105, tradução nossa) e que, portan-
e conservação (Secretaria Municipal de Con- to, suas práticas se sustentam pela função de
servação) e programas de interlocução com agente regulador de toda a comunidade. Os
Artigos

as pastas municipais (UPP Social) e estaduais dispositivos legais se desenvolvem nessa di-
(Territórios da Paz). Outros representantes nâmica, assim como se formam os sistemas
também participam dos encontros observados, legais. Distinta do princípio da racionalida-
mas de maneira pontual. de, a ideia de justiça – obrigação formalmen-
te atribuída à esfera pública –, por exemplo,
Além disso, mediadores políticos de repre- não está orientada a cálculos objetivos, mas
Rituais de “pacificação”: uma análise das reuniões

Frank Andrew Davies


organizadas pelos comandos das UPPs

sentatividade local comparecem às reuniões, aos valores morais e de legitimidade, “que por
como assessores de vereadores, deputados esta- seu turno não têm base em eficiência, mas em
duais, funcionários das subprefeituras e regiões variados padrões culturais” (BORNEMAN,
administrativas, e também da supervisão regio- 1997, p. 101, tradução nossa).
nal da secretaria do governo estadual. A plura-
lidade de agentes públicos evidencia o quadro As reuniões são eventos de tipo específi-
de fragmentação e complexificação do Estado co que cristalizam a performance do Estado e
na forma como se apresenta aos moradores no dos setores privados e locais no contexto da
momento de reivindicação por serviços públi- “pacificação” dessas favelas. Conforme sa-
cos. Esse quadro fragmentado dificulta a apro- lientado até aqui, esse ato performativo ca-
ximação e a resolução das demandas, como racteriza-se pelo protagonismo policial e pela
será visto mais adiante. participação voluntária de agentes públicos.
Vale retomar a forma de participação das ins-
A participação desses agentes estatais reifica tituições privadas e do terceiro setor. Agentes
a ideia de reparação que se constata na fala já de ONG e do Sistema S, por exemplo, são
referenciada do Secretário Beltrame. A adesão coadjuvantes desses encontros, ocupando no
voluntária desses representantes aos encontros jogo ritualístico não o momento principal,
é associada discursivamente pelos comandan- mas o “espaço de recados”. Apesar disso, eles
tes à “promoção de cidadania”, a que também apresentam um objetivo específico: são pro-
se reporta o decreto-lei das UPP. Trata-se de motores da inscrição desses espaços urbanos
um tipo de ritual que busca dar forma e senti- na economia produtiva formal, tanto no que
do ao reconhecimento à dignidade dos mora- se refere ao registro das empresas quanto à
dores e à sua condição de cidadãos. As reuniões qualificação profissional dos favelados e na
então são rituais permeados e justificados por sua inserção no mundo do trabalho. Nesses
uma ideia de eficácia moral, sustentada espe- rituais, as organizações não governamentais e
cialmente pelas práticas da esfera pública. instituições do “terceiro setor” se inscrevem
não como agentes políticos per se, mas “par-
Para tanto, vale lembrar que “a obriga- ceiros” do comandante e das melhorias para a
ção do Estado não é apenas hermenêutica, localidade. Será abordado mais adiante como
mas também performativa” (BORNEMAN, se encena essa “parceria”.

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Além da autoridade policial e das institui- to das UPP16, além de ter sido relatada a ocor-
ções privadas, as reuniões se revelam rituais rência de encontros locais com os comandos
vinculados também à atuação das associações em várias áreas desde o início das UPP, mas

Artigos
de moradores. Ainda que deslegitimadas desde apenas como medidas extraordinárias, fora
a década de 1990, as organizações “de base” se da rotina. As reuniões promovidas por um
mantêm como instâncias importantes de me- comando de UPP tornaram-se regulares no
diação das favelas, em especial na relação com Batan no primeiro semestre de 2011, a partir
o poder público15. do interesse de um comandante à época. Em
conversa com este policial, a experiência dos

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organizadas pelos comandos das UPPs
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Também estão presentes moradores desvin- conselhos comunitários de segurança17 no seu
culados das associações, membros ou não de Batalhão de origem foi importante referência
outras formas de organização local, como co- para dar valor à continuidade dos encontros.
missões ou fóruns, o que varia conforme a re- Segundo relatado, já haviam ocorrido reu-
gião em vista de seu histórico associativo. Em niões no Batan antes de 2011, mas sem essa
geral, os moradores que frequentam as reuniões preocupação de torná-la regular18.
são homens e mulheres, adultos e idosos. Há
uma relativa circularidade na participação, em As reuniões “comunitárias” dos comandos
grande parte motivada pela oportunidade de militares têm ganhado adesões com o tempo,
encaminhar demandas circunstanciais aos ór- espraiando-se para outras áreas. Atualmente, a
gãos públicos. As reuniões observadas tiveram iniciativa está replicada em 12 favelas e é esti-
público entre 10 e 70 pessoas, com média de mulada pela CPP, como mencionado.
participação de 30 pessoas, sendo o Batan a lo-
calidade com maior quórum. Os quatro casos analisados revelam alteri-
dades, mas também consonâncias que possibi-
De modo sintético, é possível afirmar que litam a interpretação de que as reuniões são um
as reuniões encenam performances com ao ritual único, dotado de uma formalidade típica.
menos quatro aspectos comuns: (1) são orga- A seguir analisam-se aspectos da sua possível efi-
nizadas autonomamente por cada UPP, com cácia, e se esses eventos conseguem “fechar as
especial ênfase à centralidade da figura do co- contas” abertas pela “dívida com as favelas”.
mandante; (2) objetivam aproximar agentes
públicos, privados e comunitários; (3) envol- Demandas e eficácias: urbanização, se-
vem necessariamente a participação das asso- gurança e controle negociado
ciações de moradores; (4) estão fundamenta- Na pauta reivindicativa dos moradores pre-
das discursivamente em valores progressistas, valecem questões de conservação, urbanização
visando melhorias à vida comum e à regulação e manutenção da ordem pública das favelas.
da ordem local. Temas como educação, por exemplo, não são
abordados. Os moradores e as associações
Antes de se consolidarem como rituais, ou- acessam as reuniões a fim de relatar problemas
tras reuniões já haviam sido feitas no contex- como escadarias mal conservadas, vazamentos

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de esgoto, coletas de lixo em áreas de entulho, atividade policial per se, aquilo que se revela um
casas em áreas de risco, abusos na cobrança de dos objetivos do “policiamento comunitário”19.
conta de luz e perturbação do sossego. Nessa região o comandante acentua esse aspecto
Artigos

do encontro, explicitando nas falas a disposição


Nesse sentido, as reuniões revelam, no con- à escuta de denúncias e o resguardo à identidade
texto das UPP, a percepção da urbanização do denunciante. Muitas vezes o comandante di-
como uma bandeira legítima dos moradores vulgou seu contato telefônico pessoal, da Uni-
de favelas. E essa é uma demanda antiga aqui dade e do Disque-UPP20.
continuada. O investimento em melhorias
Rituais de “pacificação”: uma análise das reuniões

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urbanas nas favelas, política em curso desde Ainda que não ocorra em todas as áreas com
a década de 1980, teria operado como uma UPP, as reuniões “comunitárias” expressam no
estratégia do poder público de contenção do plano simbólico uma disposição formal à escuta
“risco social” diante do fenômeno crescente da por parte das forças de segurança. Entretanto,
territorialização da violência (CAVALCANTI, o controle sobre o policiamento se revela um
2009). A “pacificação” não rompe ou afeta o assunto “desconfortável” nesta e em outras reu-
valor consensual dessa modalidade de reivin- niões. O espaço público dos encontros não se
dicação, ao contrário: talvez nos encontros essa apresenta como momento oportuno aos mora-
pauta se fortaleça a partir da mediação policial. dores, ao passo que suscitam o conflito – algo
que parece ser evitado a todo momento.
Seja como for, as reuniões se vertem em ca-
nais para reivindicações essencialmente pontu- Como já apontado, o objetivo de encami-
ais, pouco afeitas a uma problemática política nhar demandas é acompanhado de certas eficá-
mais abrangente, que transborde, por exem- cias morais, direcionadas dos agentes externos
plo, os limites da própria localidade. para os locais. Nas observações de campo, a
atuação frequente dos comandantes se desta-
Nesse escopo, pouco espaço é conferido a cou, mas também de outros agentes públicos e
outras demandas além da urbanização, salvo privados no sentido de orientar os moradores
reivindicações sobre segurança, com especial sobre o que deve se pedir ao Estado, e como
atenção às demandas por ordem pública. Assim, tais pedidos devem ser feitos. Na reunião da
moradores ocasionalmente aproveitam o ensejo UPP São Carlos em 28 de maio, um represen-
para reclamar da falta de policiamento em cer- tante da associação de moradores criticou o
tos locais e horários, solicitam atitudes diante serviço da Secretaria de Conservação que, ali
da perturbação do sossego (som alto fora do presente, responde estar em fase de reorgani-
horário permitido, por exemplo), denunciam a zação. A fim de facilitar o encaminhamento,
circulação de veículos irregulares, etc. pede que enviem e-mail ou telefonem, a seguir
passando contatos. Porém, o gestor conclui de
Contudo, apenas no Batan parece haver, por forma enfática: “os [moradores] nervosos vão
parte dos moradores, um posicionamento mais ser tratados como caso de polícia”. Nesse mo-
assertivo na regulação e no monitoramento da mento, o comandante intervém para mediar o

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caso e afirma entender a cobrança e também prometimento em trazer respostas às últimas
os limites da Secretaria. Segundo ele, no come- reivindicações – o que nos encontros chamam
ço da sua atuação na UPP considerava haver de “devolutiva do problema”. Esse é o quadro

Artigos
“abandono do poder público” da região, e que usual de todas as reuniões observadas. Nesse
hoje isso está mudando. A mensagem final re- sentido, as reclamações quase nunca se rever-
força a ideia de que o morador deve ter educa- tem em soluções práticas, ou seja, esses rituais
ção ao cobrar demandas. promovem uma participação bastante limitada
da população em relação ao que podem alcan-
Outro exemplo de disciplinamento por çar e obter de resposta efetiva por parte dos

Rituais de “pacificação”: uma análise das reuniões


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parte da polícia e de seus parceiros aconteceu representantes do Estado.
na mesma reunião em São Carlos. Um mo-
rador observou que o representante da Light Pensando os processos de regulamentação
não estava presente e o comandante justificou, das práticas legais sobre as favelas cariocas, é
considerando ser mais difícil convocar empre- possível aproximar a dinâmica desses rituais
sas privadas, em especial para o caso de pri- às características de um padrão de mediação
meira abordagem da UPP – o que parecia ser. consolidado entre o Estado e as organizações
Segundo ele, em geral as agências têm receio comunitárias definido como controle negociado
do contato direto com os moradores porque (MACHADO DA SILVA, 1967, 2002). Nesse
eles “agem com olhos de lince”. O comandante espectro, a perspectiva histórica revela que o
afirmou já ter sido vítima desse modo de sus- “problema da favela”, em sua dimensão habita-
peição por parte dos moradores. Entretanto, a cional e urbana, tem sido conduzido por polí-
autoridade considerou importante que ambas ticas públicas que buscam “não a tentativa de
as partes se compreendessem para a resolução solução definitiva, mas simples formas de con-
das demandas, sem perder de vista o valor da trole, redução e regulação de conflitos” (MA-
continuidade do diálogo. Um argumento pa- CHADO DA SILVA, 2002, p. 225). Dessa
recido foi empregado pelo comandante da forma, os diálogos com os órgãos estatais tem
UPP Manguinhos na reunião de 12 de junho. feito oscilar os movimentos dos moradores de
Tendo em vista investidas agressivas de alguns favelas entre a autoconcepção de categoria so-
moradores, o comandante contemporizou, cial com interesse próprio e a percepção de si
afirmando: “ninguém vem aqui obrigado”. mesmos como “clientela” carente de melhorias.

Se o diálogo policial caminha para um or- Trata-se da adoção por parte do poder pú-
denamento moral da ação política dos mora- blico de estratégias de convencimento na rela-
dores, nas relações com outros agentes públicos ção com os moradores e as associações comu-
os êxitos não parecem maiores. Estes enfren- nitárias. Nesse contato acontece o “encapsula-
tam dificuldades para responder às demandas. mento” político destes últimos, simbolizado
Raramente um mesmo representante participa pela cooptação de lideranças às instâncias da
de reuniões consecutivas, por exemplo. Quan- administração pública e das estruturas parti-
do isso acontece, não necessariamente há com- dárias. Nas relações entre favelados e agentes

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públicos, o papel atribuído ao primeiro grupo primeira coisa que fez foi reunir todo mundo
é recorrentemente limitado pelos modelos de [as outras associações da região] para o meu
ação tutelar do Estado e no âmbito local das lado”. A união entre as associações não surgiu,
Artigos

decisões políticas; o controle negociado limita as contudo, ”para esperar da UPP, mas que [para
possibilidades de interlocução com os morado- que] cada um lutasse por todos”. As falas dos
res e, em muitos casos, a participação dos locais representantes locais foram bastante elogiosas
é restrita a discussões mais pontuais, declaradas ao comando da UPP, que recebia na ocasião a
de natureza administrativa e técnico-financei- visita de uma equipe da CPP.
ra. O que esse cenário político conflagra é a
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identidade da “burguesia favelada” como uma É comum às quatro favelas a congregação de


força social ativa, porém condicionada às “re- diferentes associações de moradores, acenando
gras do jogo” (PANDOLFI; GRYNSZPAN, um alinhamento discursivo com as UPPs. Re-
2002; SILVA; ROCHA, 2008; ROCHA, velam-se nesses espaços falas e posturas de “par-
2011; RIBEIRO; OLINGER, 2012). ceria” entre os representantes das associações e
os comandantes. Contudo, é possível conside-
Assim, limitadas pelas possibilidades de par- rar que um dos efeitos do protagonismo policial
ticipação, as organizações locais operam na re- nesses processos locais recai sobre a representa-
lação com o Estado frequentemente por meio ção e a capacidade de mobilização política dos
da lógica da racionalidade instrumental, o que moradores de favelas, efeito esse representado na
permite aventar a hipótese de que, no contexto ideia de “intercâmbio de papéis” entre as UPP e
atual, as associações de moradores das áreas de as associações (RODRIGUES et al., 2012).
UPP estão se aproximado dos comandos poli-
ciais e aderindo às reuniões a fim de tentar al- Por certo, a observação dessas reuniões re-
cançar seus objetivos mais pragmáticos21. velou vozes contrárias ao movimento de ajuste
entre as associações e os comandos militares,
Na reunião da UPP São João de 18 de abril, o que ocorre sob o signo da “parceria” para
o dirigente de uma associação local que parti- sucesso da “pacificação”. Em especial no Ba-
cipa regularmente do encontro pediu a fala e tan e em Manguinhos, esse papel subversivo
argumentou que no ano anterior houve elei- foi desempenhado por representantes de ou-
ções para a direção da associação de moradores tros coletivos de base territorial, divergentes
e somente uma chapa se candidatou. Ele diz das associações22. As intervenções desses ato-
que, uma vez eleito, adotou como estratégia res jogam dúvidas sobre o alinhamento entre
“reunir forças” e se aproximar de outras asso- organizações “de base” e UPP como estratégia
ciações de moradores do Complexo São João. política das primeiras e, além disso, questiona
Segundo ele, o objetivo maior da luta das as- o trabalho de mediação feito pela polícia.
sociações é a realização de “obras”. Já em 28
de maio, na UPP São Carlos, o presidente de Em uma reunião em Manguinhos, um in-
uma das quatro associações que frequentam a tegrante de um coletivo local questiona a con-
reunião disse que, quando assumiu o cargo, “a vocação desses encontros pelo comando. Para

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ele, a ordem em Manguinhos deveria ser como criminosas; ao mesmo tempo, a “pacificação”
em outros bairros, onde “o policial está fazen- é sentida como uma forma de “gestão da so-
do o seu papel”. Em 12 de junho, um grupo de ciabilidade” local pelo aparato policial, que re-

Artigos
moradores sem vínculos com as associações in- gula a realização de eventos e a circulação de
siste que as instituições comunitárias deveriam moradores – em especial dos jovens, colocados
promover reuniões para diálogo com as agên- constantemente em situação de suspeição (RO-
cias públicas, no lugar do comando policial. CHA, 2011). Esse controle territorial se revela
De acordo com essas pessoas, as associações já também nas falas de alguns moradores de Man-
fazem isso há mais tempo do que a UPP. Dian- guinhos no âmbito das reuniões, e em alguns

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te do conflito, um dirigente de associação de casos pontua-se a violência policial na área, as-
moradores procura contemporizar. Afirma que sociando-se tais casos às reuniões, consideradas
todos estão vivendo um processo de adapta- por esses moradores como espaços de controle
ção, tanto a polícia como os moradores. político sobre a vida associativa da favela.

O comandante concorda que faz papel de É interessante apontar que são moradores
mediador nos encontros, mas não assente à distantes das associações que fomentam esse
“militarização das políticas públicas”, crítica quadro de inflexão e denúncia sobre o possível
elaborada momentos antes por um morador. controle sociopolítico posto em prática pela
Segundo o comandante, não há hierarquia ou UPP. Nenhuma associação de moradores ou
desequilíbrio de autoridade entre a polícia e os organização não governamental questionou,
órgãos públicos. Aos moradores que criticam nas quatro favelas, a legitimidade dos coman-
a reunião da UPP, o policial admite ser uma dos em realizarem os encontros.
figura política por representar a UPP Mangui-
nhos, mas pessoalmente não gosta disso. Está Considerações finais
interessado apenas em trazer “desenvolvimen- Ainda que com variações, as reuniões “co-
to para a comunidade, para o morador”. munitárias” se revelam espaços dotados de cer-
ta formalidade e regularidade que mobilizam
A análise desses rituais da “pacificação” em uma performance que materializa os ideais da
Manguinhos deflagra um quadro de críticas e “pacificação”. Além disso, apresentam um pro-
suspeição por parte de alguns moradores em re- pósito claro, ou como diria a tradição antropo-
lação ao trabalho de mediação institucional feito lógica, uma “eficácia”: aproximar moradores e
pela UPP. Como pano de fundo, denuncia um representantes do Estado e do setor privado no
controle policial mais forte na região, que destoa intuito de encaminhar problemas e necessida-
de como é “lá fora”, conforme disse um morador. des para, a partir disso, solucioná-los. Contu-
do, a análise de quatro casos de reuniões “co-
Entrevistas com moradores da Cidade de munitárias” de UPP constata a continuidade
Deus revelam que por lá a atuação da UPP de um modelo de interlocução que ajusta para
tem gerado a sensação – ao menos inicial – de baixo os limites da possibilidade de participa-
suspensão dos limites de domínio das facções ção dos moradores na esfera pública.

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Estudos sobre as favelas devem tomá-las cas, defendem a continuidade e perante acusa-
por pressuposto como localidades, o que na ções de ineficiência, replicam a positividade do
acepção de Anthony Leeds (1978) quer dizer diálogo. Contudo, que interesses envolvem os
Artigos

compreendê-las além de meros espaços terri- comandantes das UPPs na mobilização desses
toriais, mas como pontos nodais de interação encontros regulares e no seu protagonismo?
providos de configuração e autonomia política
própria. Nesse escopo, a compreensão históri- A análise de 14 reuniões realizadas em 2013
ca das favelas da cidade apresenta as associa- sob iniciativa de quatro comandos das UPP re-
ções de moradores como organizações ativas verbera o que afirmaram outras investigações
Rituais de “pacificação”: uma análise das reuniões

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motivadas a aumentar as vantagens extraídas com foco nos recentes fóruns da UPP Social
dos órgãos supralocais e, ao mesmo tempo, (RODRIGUES et al., 2012; LEITE, 2012;
“frear” tensões entre tais órgãos e o conjunto FLEURY, 2012). Estaria em curso um modelo
dos moradores. Contudo, se não há obtenção de mediação negociada, que, como visto, invia-
de ganhos políticos (ou “obras”) a partir das biliza em sua estrutura a discussão política so-
reuniões, uma pergunta feita por um morador bre o projeto de “pacificação” e as demais ações
do Batan soa pertinente para essa investigação: de desenvolvimento em curso. É possível então
para que então servem esses encontros? concordar que a participação é “pacificada”:
Nesses espaços, é permitido vocalizar angús-
As associações de moradores parecem ade- tias e desejos sobre a ação governamental,
rir pela credibilidade que o ritual lhes confe- mas não há brecha real para definir priorida-
re na representação da “pacificação”: são elas des e ação substantivas das políticas públicas.
as vozes legítimas dos moradores de favela. Em suma, essas instâncias consistem em ins-
Paralelamente, os agentes públicos encenam trumento apaziguador dos conflitos, procu-
um papel conhecido nesses espaços, papel esse rando referendar as decisões já vinculadas à
que reifica a dual percepção de igualdade do política em curso. (FLEURY, 2013).
regime de cidadania brasileiro. As práticas do
poder público são orientadas pelo senso de É preciso lembrar que as reuniões “comu-
“igualdade de tratamento diferenciado” que nitárias”, como aqui apresentadas, são espaços
converge no cotidiano constitucionalidades e iniciados apenas em certas localidades, apa-
discricionariedades e “faz com que as ações do rentemente condicionados às possibilidades de
Estado sejam frequentemente percebidas pelos diálogo com os grupos locais e aos interesses
cidadãos como atos arbitrários” (CARDOSO dos comandos policiais. A realização desses en-
DE OLIVEIRA, 2010, p. 462, grifo nosso). contros não esgota outras formas de mediação
entre representantes do Estado e os moradores,
Nesse jogo que repete papéis históricos das ao contrário: condensa e interpenetra diferen-
associações locais e dos agentes de serviços pú- tes institucionalidades públicas, privadas e das
blicos, a novidade parece ser a atuação dos co- organizações “de base” para a realização de um
mandos policiais, que mobilizam e se interessam ritual que sedimenta valores no grupo por meio
pela continuidade dos espaços. Diante de críti- de atos performativos.

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Vale retomar a função do ritual, na com- “pacificação” que, por sua vez, submete a rei-
preensão de Victor Turner a partir de seu estu- vindicação por cidadania ao primado da pre-
do clássico sobre a sociedade ndembu: servação da ordem urbana. O padrão moral

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os símbolos dominantes no agregado de obje- propagado de forma normativa nas reuniões
tos e atividades simbólicos associados a cada confere novos significados à polícia e redimen-
ritual não refletem ou expressam os princi- siona o que os moradores devem considerar
pais aspectos da estrutura social, mas antes como mau e errado. Considerando o contexto
os valores que todos os ndembus possuem do predomínio do narcotráfico, a dualidade
em comum […]. A unidade primordial dos “bandido x trabalhador” contempla a cons-

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ndembus se expressa na composição das as- trução de uma moralidade relativamente autô-
sembleias rituais. (TURNER, 1996 apud noma nas favelas, em que se conjugam valores
CAVALCANTI, 2012, p. 114, grifo nosso). éticos às condutas criminais e atribuem-se va-
lores de forma mais relacional e pessoalizada
A perspectiva de Turner é de que os rituais (ZALUAR, 1985). No bojo da “pacificação”,
não refletem a unidade política, mas sim a co- rituais como as reuniões organizadas pelas
esão moral do grupo. Ao utilizar esse conceito UPP se cristalizam em modos encenados de
para compreender as reuniões “comunitárias”, a comunicação para fins de adesão a novos pa-
investigação aponta a promoção desses eventos drões morais, alinhados aos interesses de con-
como uma estratégia de convencimento e ade- trole dos agentes públicos, em especial às for-
são a valores que pretendem, em especial, sensi- ças policiais.
bilizar os moradores para um novo momento e
uma nova moralidade. A assessora de um verea- Um processo de despolitização do debate pú-
dor, em São João, no dia 18 de abril, dispôs-se a blico sobre a favela vem ocorrendo desde a déca-
ser um canal de reclamações e encaminhamento da de 2000 (RIBEIRO; OLINGER, 2012), e no
de problemas, pontuando que o trabalho do ve- contexto das UPP talvez este processo esteja se
reador é cobrar e fiscalizar as práticas do poder intensificando. Trata-se de uma “despolitização”
executivo municipal. Nesse aspecto, a assessora que na verdade “repolitiza” os agentes em me-
louva a iniciativa de reunião da UPP, acentu- diação, convertendo dualidades em “parcerias”,
ando que, apesar de promovida pela polícia, a desfigurando o aspecto conflitivo dos processos
reunião é dos moradores e que eles, nesse “novo políticos e renovando velhos “conchavos”.
momento”, devem se “acostumar às leis do as-
falto”, “tendo consciência” no trato com o lixo A participação “pacificada” encontra seu
e em relação à perturbação do sossego. Afirma a lócus privilegiado nas reuniões “comunitárias”
assessora: “ajudem a UPP que ela ajuda a vocês das UPP, tendo em vista que nesses rituais o
e nós ajudaremos a vocês”. protagonismo dos comandos militares reforça
a lógica de convencimento moral nos discur-
Assim como a fala dessa assessora, outras sos, mas também na constituição do próprio
registradas em diferentes reuniões remetem a espaço, distribuição de papéis e legitimação
uma estratégia de convencimento moral da das pautas que vão ao debate.

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As tendências desse processo sem dúvida que diferentes dinâmicas políticas conflagrem
variam conforme contextos e arranjos locais, arranjos de características distintas, inclusive
e as considerações aqui feitas referem-se ape- das que foram relatadas no presente estudo.
Artigos

nas ao universo investigado. As reuniões “co- No entanto, o desempenho da mediação po-


munitárias” das UPP, mesmo que iniciadas há lítica a partir da autoridade policial desafia as
mais de dois anos no Batan, só estão sendo interpretações sobre as relações entre os mo-
replicadas na maior parte das outras áreas há radores de favela e o Estado, em especial no
poucos meses. Atualmente 12 favelas contam acesso aos direitos de cidadania para a socie-
com a organização desses espaços, e é possível dade brasileira.
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1. Instância da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) que coordena as ações das UPP.

2. A “pacificação” aqui tomada em termos nativos, visto que assim é identificado por agentes públicos, privados e comunitários o
momento e as ações em prática a partir da ocupação militar dessas favelas.

3. Dados da Coordenadoria de Polícia Pacificadora divulgados no website oficial <www.upprj.com>. Acessado em: 1 set. 2013.

4. A relação público-privado é comentada no relatório da LAV (2012), que também constata a sensação comum, por parte dos
moradores, de controle policial. Pesquisas em curso têm abordado o interesse de empresas privadas no nicho da “pacificação”, e o
caso do desaparecimento do pedreiro Amarildo de Souza na Rocinha tem acentuado críticas à forma de policiamento realizada nas
UPP.

5. As favelas são consideradas “aberrações” pelo referido Código.

6. Chefiado por José Arthur Rios, o Serviço Especial de Recuperação de Favelas e Habitações Anti-higiênicas (SERFHA) contribuiu para
a fundação de 75 associações de moradores entre 1961 e 1962. Apesar de as associações serem eleitas pelos moradores, tinham
atribuições conferidas pelo Estado, a partir da mediação com o próprio SERFHA.

7. O Batan se localiza na Zona Oeste da cidade, ao passo que Manguinhos e São João estão na porção Norte e São Carlos, mais
ao centro. Ainda que seja um aspecto relevante, esse texto não aborda os precedentes históricos dessas áreas, focando-se nas
reuniões.

8. À época da redação do presente artigo, a Secretaria Estadual de Segurança afirmou existirem 33 UPP, mas algumas unidades
contam com bases avançadas pulverizadas sobre a favela, enquanto em alguns casos uma mesma localidade conta com mais
de uma UPP. Privilegiando a análise sobre as favelas, e não sobre as UPP, foram identificadas 27 localidades, sendo algumas
pontuadas como agregados de favelas, como no caso do Complexo da Penha e do Alemão.

9. Este artigo foi concluído em setembro de 2013, sendo essa a data de referência.

10. Apesar dos pedidos do pesquisador, a representante da CPP não disponibilizou a resolução emitida aos comandantes.

11. No Batan, o comando policial local convoca no início da reunião os presidentes das associações e os gestores e gerentes de serviços
públicos presentes para se sentarem à mesa. O objetivo dessa conduta, afirma o comandante, é dar visibilidade ao grupo e melhorar
o encaminhamento de demandas. Agentes privados, como membros do Sistema S e de organizações não-governamentais, não são
convidados à mesa.

12. É considerável o número de projetos sociais de grandes empresas, como a Coca-Cola, que atuam especificamente nas áreas “pacificadas”
e sob o argumento da qualificação profissional. O Sistema S tem ações específicas para essas áreas, como o Sesi nas Comunidades e o
Senac nas UPP. O Sebrae também tem forte atuação com os micro e pequenos empresários dessas regiões.

13. Um exemplo dado por Peirano (2003, p.11) é o “Eu prometo”.

14. O decreto que regulamenta as UPP define: “São áreas potencialmente contempláveis por UPP [...] aquelas compreendidas por
comunidades pobres, com baixa institucionalidade e alto grau de informalidade, em que a instalação oportunista de grupos criminosos
ostensivamente armados afronta o Estado Democrático de Direito”. Entre as quatro localidades a que essa pesquisa se restringe, três
estavam sob coação de facções de narcotraficantes, ao passo que o Batan é o único caso das 27 localidades em que o domínio ocorria
por uma quadrilha de “milicianos” (CANO; DUARTE, 2012).

15. As associações de moradores são atualmente pontos de mediação também para a implementação do Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC) (TRINDADE, 2012; CAVALCANTI, 2013), e dos programas municipais de urbanização Morar Carioca e Bairro Maravilha.

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16. De julho de 2011 a novembro de 2012, a equipe do programa municipal UPP Social realizou um circuito itinerante de fóruns entre as várias
áreas com UPP, tendo o último ocorrido na Rocinha. A realização dos fóruns marcou o começo da fase da UPP Social sob o escopo da
Prefeitura – de fato, o programa começou de forma tímida em 2010, na estrutura burocrática do governo estadual. Os fóruns marcam, então,

Artigos
o “lançamento” do que seria o “braço social das UPP”. Apesar das iniciativas, os fóruns da UPP Social se revelaram episódios limitados no
tempo, restritos ao momento de apresentação das equipes nas favelas. Em pouco mais de um ano esses fóruns se esgotaram e pararam de
acontecer (FLEURY, 2012; LEITE, 2012).

17. Os conselhos comunitários de segurança foram instituídos por lei estadual em 1999 e objetivam congregar em encontros mensais
representantes da polícia civil, da militar e membros da sociedade civil. Circunscritos às Áreas Integradas de Segurança Pública (Aisp), os
“cafés comunitários” ocorrem desde 2003 e têm como objetivo estimular a participação de todos no direito à segurança. Costumam ser
dirigidos pelo comandante do batalhão e o delegado mais antigo da Aisp, e têm uma diretoria constituída, que ocupa uma mesa durante
os encontros (SENTO-SÉ et al., 2012). A influência dos “cafés comunitários” sobre as reuniões das UPP se revela no caso pioneiro do Batan
não apenas por conta da sua regularidade mensal, mas também no seu formato, que até hoje preserva a formação de uma mesa com as
“autoridades”.

Rituais de “pacificação”: uma análise das reuniões


organizadas pelos comandos das UPPs
Frank Andrew Davies
18. Outras favelas também contaram com reuniões promovidas pela UPP nesse período, mas apenas como ações pontuais em resposta a
problemas localizados.

19. Este artigo não se debruça sobre o tema, mas considera relevante contrastar a experiência das UPPs com a perspectiva teórica que
embasa o ideário de “policiamento comunitário” ou “de aproximidade”. De acordo com a literatura sobre o tema, o que orientaria essa
forma de policiamento seria: (1) a prevenção do crime tendo com base a comunidade, (2) a reorientação do policiamento para serviços
não-emergenciais; (3) a descentralização dos comandos por área; (4) a participação da população nas atividades de monitoramento e
planejamento da atividade policial (Cf. BAYLEY, 2002).

20. O Disque-UPP foi criado em agosto de 2012 para acolher, anonimamente, sugestões, críticas e denúncias sobre o policiamento realizado por
essas Unidades.

21. Esses objetivos variam conforme os contextos de poder nas favelas e, em especial, os interesses dos dirigentes das associações de
moradores, visto que prevalece a referência ao presidente do que à associação como corpo coletivo (PANDOLFI; GRYNSZPAN, 2002).

22. No caso do Batan e de Manguinhos tratam-se de coletivos de moradores descolados das associações, fundados por oposição às mesmas
e vinculados a redes externas da sociedade civil, em especial por contato com pesquisadores e instituições acadêmicas. Se inserem na
pluralidade do “novo associativismo” e alheios também ao modelo de associação por ONGs.

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 24-46 Fev/Mar 2014


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Rituais de “pacificação”: uma análise das reuniões
organizadas pelos comandos das UPPs
Artigos

Frank Andrew Davies

Resumen Abstract
Rituais de “pacificação”: uma análise das reuniões

Frank Andrew Davies


organizadas pelos comandos das UPPs

Rituales de “pacificación”: un análisis de las reuniones “Pacification” rituals: an analysis of the meetings

organizadas por los comandos de las UPPs organized by the command of the UPPs
Este artículo presenta reflexiones acerca de los procesos de This paper presents some reflections on the process of
reglamentación de las reuniones comunitarias organizadas regulating the community meetings organized and conducted
y dirigidas por los comandos militares de las Unidades de by the military command of Pacifying Police Units (UPPs) in
Policía Pacificadora (UPP) del Estado de Río de Janeiro. Se the State of Rio de Janeiro. The symbols, values and themes
analizan símbolos, valores y temas suscitados en estos raised by the participants in these meetings were analyzed.
eventos, en el que convergen diferentes representantes de The attendees included representatives of both the public
las esferas pública, privada y de base local con el fin de and private sectors, in addition to local community members.
constituir verdaderos rituales de “pacificación” en el escenario The goal of these meetings was to help instill “pacification”
cotidiano de esas favelas. Conforme apunta la investigación, rituals into the daily lives of the people living in these
existen regularidades y formalidades que pretenden conducir slums. This study suggests that the effort of creating new
la producción de nuevos valores morales y también renovar moral values and renewing old mechanisms to control the
viejos mecanismos de control sobre las dinámicas políticas political dynamics in these communities emerged in patterns
de esos espacios. Con ese objetivo, la “pacificación” ha of regularity and formality. In this respect, “pacification”
revelado más consolidaciones que rupturas en el proceso de efforts have preserved rather than disrupted structures in the
“promoción de ciudadanía” para los habitantes de favelas. “promotion of citizenry” amongst slum dwellers.

Palabras clave: Seguridad pública; pacificación; UPP; Keywords: Public safety; pacification; UPP; participation;
participación; ciudadanía; favela; habitantes de favelas. citizenship; slum; slum dwellers.

Data de recebimento: 24/09/2013


Data de aprovação: 23/02/2014

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organizadas pelos comandos das UPPs
Frank Andrew Davies Artigos
Impactos de Gênero na Redução
da Mortalidade Violenta:
Artigos

Reflexões sobre o Pacto pela


Vida em Pernambuco
Ana Paula Portella
Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:

Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco

Mestre em Saúde Pública pelo Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães da Fundação Oswaldo Cruz e doutorado em Sociologia
pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) sob orientação de Dr. José Luiz de Amorim Ratton. É pesquisadora do Núcleo
de Estudos e Pesquisas sobre Criminalidade, Violência e Políticas Públicas de Segurança desde 2009 e consultora nas áreas de
gênero, violência, saúde e políticas públicas.
aportella37@gmail.com

Marília Gomes do Nascimento


Graduanda do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pernambuco e bolsista de iniciação científica do Núcleo de Estudos
e Pesquisas em Criminalidade, Violência e Políticas Públicas de Segurança (NEPS), na pesquisa “Vitimização e espaço urbano na Região
Metropolitana do Recife”. É também pesquisadora voluntária na pesquisa “Descarcerização e Sistema Penal: A construção de políticas
públicas de racionalização do poder punitivo”, do mesmo núcleo de pesquisa.
mariliagnascimento@gmail.com

Resumo
O crescimento das mortes violentas vem sendo observado no Brasil desde o final dos anos 1970. No país e em Pernam-
buco, as principais vítimas dos homicídios são jovens negros, do sexo masculino, com pouca escolaridade e baixa renda,.
Em 2011, 86,2% das mulheres assassinadas em Recife eram negras e, em 2009, 47,2% dos casos de homicídios de mu-
lheres concentraram-se em apenas dez bairros dessa capital. Foi apenas em 2007 que a questão da violência letal ganhou
prioridade na agenda do governo do Estado, por meio da implementação da primeira política pública de segurança do
Estado, o Pacto pela Vida (PPV). Nesse mesmo ano, instituiu-se a Política de Enfrentamento da Violência contra a Mulher,
pela Secretaria da Mulher. O PPV vem alcançando bons resultados, as metas globais de redução dos crimes violentos letais
intencionais têm sido alcançadas, mas há diferenças importantes quando se observa a variação de acordo com o sexo da
vítima e com a região de ocorrência dos casos. Os homicídios de mulheres apresentaram redução menor ao longo do tempo
e oscilação entre crescimento e redução que pode se dever à pouca sensibilidade do PPV para as diferentes situações nas
quais as mulheres são assassinadas, que requerem linhas de ação específicas do ponto de vista da política de prevenção
e repressão. Este artigo se propõe a apresentar e analisar estas diferenças e a refletir sobre possíveis hipóteses capazes de
explicá-las, reconhecendo a eficácia do PPV como política pública de segurança, mas também a necessidade de reorientá-
-lo para que seja capaz de responder às diferentes configurações da violência letal contra as mulheres em Pernambuco.

Palavras-Chave
Violência contra a mulher; políticas públicas de segurança; homicídios

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Artigos
Introdução

O crescimento das mortes violentas


vem sendo observado no Brasil desde
do poder público em aplicar lei e ordem. Para
Adorno (2002, p. 100), a “explosão de confli-

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Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco
Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento
o final dos anos 1970. Os crimes violentos le- tos nas relações intersubjetivas, especialmente
tais intencionais (CVLI), entre os quais os ho- de vizinhança, com desfecho fatal” é um dos
micídios, constituem a maioria dos casos1, mas elementos que constituem o cenário da vio-
a elevação de suas taxas não pode ser explicada lência no Brasil nestes últimos anos. Macha-
de forma unidimensional. Numerosos autores do da Silva (2008), apoiado em amplo mate-
concordam que, entre os fatores associados a rial etnográfico, identifica nesses contextos a
este aumento, estão a consolidação do poder de emergência de uma “sociabilidade violenta”,
grupos criminosos sobre territórios de pobreza que resulta do controle do território e da do-
nas grandes cidades brasileiras, a precarização minação armada dos grupos criminosos sobre
das condições de vida nas áreas metropolita- a população pobre residente em algumas áreas
nas, a ampliação e diversificação do mercado do Rio de Janeiro. A violência criminal e po-
de drogas ilícitas e a ineficácia das instituições licial desestabiliza a sociabilidade nesses terri-
de controle para responder a este novo con- tórios, dificultando o prosseguimento regular
texto (PINHEIRO, 1983; ADORNO, 2002; das interações, afetando a confiança entre as
ZALUAR, 2004; COELHO, 2005; MISSE, pessoas e as possibilidades de se articular uma
2006; MACHADO DA SILVA, 2008). No compreensão comum das condições de vida
que se refere às mulheres, as mudanças nos ar- compartilhada.
ranjos familiares e a ampliação do seu acesso à
esfera pública, em um contexto em que per- Nenhum dos autores citados, porém, faz
sistem valores e práticas patriarcais, parecem referência à presença das mulheres nesses con-
colaborar para a produção de novas formas de textos, como vítima, como autora de atos vio-
violência e para o acirramento das “antigas”. lentos ou criminosos ou mesmo como grupo
populacional específico. Do mesmo modo,
Nesse contexto, adquirem relevância os não há qualquer reflexão a respeito das rela-
grupos armados que atuam no varejo do tráfi- ções de gênero nesses contextos. Apenas Ma-
co de drogas, na medida em que sua ação tem chado da Silva (2008, p. 36) menciona em
promovido a desorganização das formas tra- uma nota de rodapé que tanto a homofobia
dicionais de sociabilidade entre as classes po- quanto a violência doméstica estão fora de
pulares urbanas, estimulado o medo das clas- seu raciocínio porque não se enquadram na
ses médias e altas e enfraquecido a capacidade representação da violência urbana.

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Não obstante, não há como obscurecer o rial dos casos. Em 2011, 86,2% das mulheres
fato de que cerca de metade da população é assassinadas em Recife eram pardas ou pretas
formada por mulheres e que as relações sociais (DATASUS, 2013) e, em 2012, 51,2% de to-
Artigos

no Brasil são marcadas por diferentes expressões dos os casos de homicídios de mulheres con-
da violência de gênero. A “explosão de litigio- centraram-se em apenas dez bairros da capital;
sidade” ou a sociabilidade violenta, portanto, essa mesma proporção de casos com vítimas do
afetam as interações entre homens e mulheres, sexo masculino distribuiu-se por 16 bairros no
podendo ainda reconfigurar valores e normas mesmo ano (SDS-PE, 2013)2.
de gênero. Além disso, se, como diz Adorno,
Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:

Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco

“o tecido social encontra-se sensível a tensões e No Brasil, embora alguns estudos tratem
confrontos que, no passado, não pareciam con- da mortalidade por homicídios entre homens e
vergir tão abruptamente para um desfecho fa- mulheres, poucos trabalhos se dedicam a ana-
tal”, pode-se pensar que as tensões e confrontos lisar esta forma de violência entre as mulheres.
conjugais e familiares entre mulheres e homens, Dada a magnitude e as características da violên-
especialmente nos contextos mencionados ante- cia perpetrada por parceiros ou familiares – com
riormente, também apresentem a tendência de seu perfil de longa duração, intenso sofrimento
convergir para desfechos fatais. físico e psíquico, ocorrência no ambiente da
vida privada e forte legitimidade social graças
No Brasil e em Pernambuco, as principais à persistência da dominação patriarcal –, os
vítimas dos homicídios são jovens negros, do homicídios, geralmente associados à violência
sexo masculino, com pouca escolaridade e bai- urbana, têm despertado pouca atenção quando
xa renda (WEISELFISZ, 2012a). Entre as mu- as vítimas são mulheres. Exceção deve ser feita
lheres que são vítimas de homicídio, a maioria aos estudos sobre crimes passionais (CORRÊA,
é também jovem, negra e com baixa escolari- 1981; 1983; TEIXEIRA, 2009), parte deles vol-
dade. Além disso, os homicídios – tanto de ho- tada para o modo seletivo como a justiça trata
mens quanto de mulheres – concentram-se em este tipo de delito. Destaque deve ser dado ao
áreas onde são precárias as condições sociais de estudo coordenado por BLAY (2008), no qual
existência coletiva e onde a qualidade de vida são analisados homicídios de mulheres ocorri-
é acentuadamente degradada. As mulheres que dos em São Paulo, no período de 1995 a 2003,
aí residem estão expostas a múltiplas vulne- ao acompanhamento dos homicídios feitos pelo
rabilidades, possivelmente encontrando inú- SOS Corpo, entre 2004 e 2008 (PORTELLA et
meras dificuldades para evitar ou sair de uma al, 2004-2008) e aos estudos de Pasinato (2011)
situação de violência doméstica. Este diferen- e Meneghel e Hirakata (2011) sobre femicídio.
cial de risco para as negras e pobres evidencia,
também para as mulheres, a “distribuição de- O homicídio de mulheres pode ser – e fre-
sigual do direito à vida” (ADORNO, 2002). quentemente é – o desfecho de uma situação
Em Recife, dados do Datasus e de outros estu- de violência vivida entre o casal. Em Pernam-
dos (PORTELLA et al, 2011) indicam a per- buco, o número de mulheres assassinadas qua-
sistência desse perfil e a concentração territo- se triplicou entre 1979 e 2010, passando de 94

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para 246 casos, e a taxa por 100 mil mulheres dez vezes maior do que a taxa feminina. Essa
passou de 2,9 para 5,4 (DATASUS, 2013)3. discrepância decorre das altíssimas taxas glo-
É provável que neste crescimento operem de bais de CVLI encontradas no Estado4, muito

Artigos
modo articulado elementos da subordinação distantes do padrão aceitável pela ONU – me-
de gênero e raça e da situação socioeconômica nor que 10/100 mil habitantes – e maior do
em contextos de criminalidade urbana, o que que as taxas observadas em vários conflitos
cria uma nova condição de “vítima” para as armados no mundo. No período de 2004 a
mulheres. Essa condição não pode, ao menos a 2007, a mais alta taxa de morte violenta em
princípio, nem ser imediatamente identificada conflitos armados foi encontrada no Iraque, de

Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco
Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento
com a vítima de crimes passionais nem com 64,9/100 mil habitantes, abaixo, portanto, da
os homens vítimas da violência criminosa. No taxa observada entre os homens de Pernambu-
estudo de Portella (2011), por exemplo, cerca co em 2010 (WEISELFISZ, 2012a).
de metade dos casos de homicídios de mulhe-
res ocorridos em Recife em 2009 pertencia à Quanto mais altas as taxas globais de homi-
configuração mais comumente estudada pela cídio, maior a diferença entre as taxas masculi-
literatura e que pode ser aqui descrita como nas e femininas, em virtude da grande ocorrên-
“homicídio cometido por parceiro íntimo”. A cia de casos cometidos por desconhecidos e em
outra metade dos casos, porém, foi distribuída contextos de criminalidade. Contrariamente,
por situações bem distintas dessa primeira: cri- quanto menor é a taxa geral de homicídio,
mes relacionados à dinâmica do tráfico de dro- mais próximas são as taxas de acordo com o
gas, derivados de conflitos familiares, resultan- sexo da vítima. Isso acontece porque nos países
tes de conflitos interpessoais com conhecidos, com baixas taxas de homicídio há, proporcio-
cometidos em contextos de uso de drogas, ho- nalmente, menos casos cometidos por agres-
micídios sexistas e latrocínios. O entrecruza- sores desconhecidos das vítimas e mais crimes
mento das condições de gênero, raça e situação de proximidade, nos quais vítimas e agressores
socioeconômica em áreas de grande registro de mantêm relações de intimidade (LEVTON,
violência criminal parece criar novas situações 1995 apud SALFATI, 2001, p. 288).
de vulnerabilidade para as mulheres que reque-
rem novas compreensões e explicações teóricas A mortalidade violenta vem crescendo em
(PORTELLA, 2009; RATTON, 2009).  Pernambuco desde 1979, mas apenas em 2007
essa questão ganhou centralidade e prioridade
Chama a atenção a grande discrepância en- na agenda do governo do Estado, por meio da
tre as taxas de CVLI de acordo com o sexo da implementação da primeira política pública
vítima. Em 2012, em Pernambuco, os casos de segurança, o Pacto pela Vida (PPV). Este
com vítimas do sexo feminino representaram foi elaborado a partir de um amplo processo
6,4% de todos os casos, ou seja, mais de 90% de debate com a sociedade civil, servidores da
das vítimas eram homens (SDS-PE, 2013). A área de segurança pública e diferentes áreas de
taxa de CVLI com vítimas do sexo masculino governo. O governo de Pernambuco define o
correspondeu a 76,2/100 mil homens, mais de PPV como:

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uma política pública de segurança, transver- cução das políticas públicas de segurança;
sal e integrada, construída de forma pactuada • participação e controle social desde a for-
com a sociedade, em articulação permanente mulação das estratégias até a execução das
Artigos

com o Poder Judiciário, o Ministério Públi- ações de todas as áreas que compõem o
co, a Assembléia Legislativa, os municípios e Pacto. (PERNAMBUCO, s.d.)
a União. A primeira atividade do PPV foi a
elaboração do Plano Estadual de Segurança O PPV organiza-se em seis linhas de ação: re-
Pública. A partir daí, foram definidos 138 pressão qualificada; aperfeiçoamento institucio-
projetos estruturadores e permanentes de nal; formação e capacitação; informação e gestão
Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:

Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco

prevenção e controle da criminalidade, pro- do conhecimento; prevenção social do crime e da


duzidos pelas câmaras técnicas, aglutinados violência e gestão democrática. A linha voltada
em torno das linhas de ação e executados por para a prevenção, por sua vez, subdivide-se em
organizações do Estado e da Sociedade. Estes três grandes programas: intervenção comunitária
projetos abrangem desde a reforma das ins- local, prevenção e gestão e prevenção situacional.
tituições policiais e prisionais até programas O Programa Governo Presente foi a forma en-
de prevenção social específica da violência. contrada para articular as diferentes secretarias
(PERNAMBUCO, s.d.). de Estado que desenvolvem ações de preven-
ção à violência em diferentes territórios, sendo,
A intenção do PPV foi instituir a primeira portanto, a principal ação preventiva do PPV.
política pública nessa área, incorporando ino- A gestão cotidiana do PPV se dá por meio de
vações políticas, técnicas e gerenciais, com base cinco câmaras técnicas – prevenção da violência,
em experiências bem-sucedidas em outros lu- repressão qualificada, ressocialização, articulação
gares, e tendo como prioridade a redução dos com a Justiça e enfrentamento do crack –, que
crimes contra a vida. O desenho da política foi definem as metas a serem alcançadas e monito-
orientado pelos valores a seguir, entre os quais ram o seu cumprimento por meio do Gabinete
as ações de prevenção da criminalidade violen- de Gestão Integrada.
ta ocupam lugar de destaque:
• articulação entre segurança pública e di- A ampliação dos gastos com segurança pú-
reitos humanos, tendo como principal blica é uma evidência da prioridade dada ao
meta a garantia do direito à vida; problema pelo governo do Estado. Entre 2007
• ênfase na prevenção social da criminalida- e 2010, as despesas cresceram 17,5% e a área
de violenta combinada com a qualificação de segurança pública passou a corresponder a
da repressão, baseada no uso de inteligên- 9,4% das despesas totais do Estado. Contudo,
cia, informação, tecnologia e gestão; quando se analisam as despesas per capita, veri-
• ações de segurança pública executadas por fica-se que estas cresceram quase 70%, passando
todas as secretarias de Estado de forma de R$ 107,17, em 2007, para R$ 181,22, em
transversal e não fragmentada; 2010. A despesa total realizada com as ações de
• adoção de mecanismos de gestão, monitora- segurança pública em 2010 equivaleu a aproxi-
mento e avaliação em todos os níveis de exe- madamente R$ 1,6 milhão.

52 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 48-68 Fev/Mar 2014


Além disso, a Secretaria da Mulher tem cando livros e materiais diversos voltados para
uma Política de Enfrentamento da Violência a população e para gestores e servidores públi-
contra a Mulher, com cinco linhas de ação: cos. Além disso, mantém ações permanentes

Artigos
prevenção, proteção, punição, assistência e de articulação com outros órgãos governamen-
produção de conhecimento. A Política se pro- tais – como a Justiça, a SDS, as Polícias e as
põe a instalar e ampliar no Estado a rede de redes de saúde e assistência social.
serviços prevista pela Lei Maria da Penha, nas
áreas da justiça, segurança pública e de políti- Hoje, há no Estado 10 delegacias especiali-
cas sociais – e, de fato, nos últimos cinco anos, zadas de atendimento à mulher, quatro casas-

Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco
Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento
a rede realmente foi ampliada e interiorizada. -abrigo, 13 centros de referência, uma Promo-
Diferentemente, porém, da Secretaria de De- toria Criminal da Mulher e uma Promotoria Es-
fesa Social (SDS), que disponibiliza em sua pecializada, uma Defensoria Pública da Mulher
página eletrônica os dados mensais referentes e cinco Varas de Violência Doméstica e Familiar
aos CVLI e ao PPV, a Secretaria da Mulher contra a Mulher. Além disso, há uma linha gra-
não divulga informações sobre a realização ou tuita para orientação e assistência às mulheres e
sobre os resultados das ações. Esse é um fator serviços de referência em saúde para o atendi-
limitante para a análise aqui pretendida, uma mento a vítimas de violência sexual. Pergunta-
vez que a Política de Enfrentamento à Violên- da sobre a disponibilidade de informações que
cia contra a Mulher detém a competência téc- permitam avaliar os resultados das ações e seus
nica e política para atender às especificidades impactos sobre os índices de violência contra as
das situações de violência vividas pelas mu- mulheres, a gestora reconheceu que essa é uma
lheres, mais dificilmente atendidas por uma área que ainda está por ser construída:
política de perfil generalista e universal, como essa informação você só tem [...] em relação
é o PPV. Por essa razão, entrevistou-se a ges- ao serviço de abrigamento. Hoje a gente sabe
tora da Diretoria Geral de Enfrentamento da dizer quantas mulheres entraram no serviço,
Violência de Gênero da Secretaria da Mulher quantas saíram, quantas crianças foram abri-
de Pernambuco5, que informou a respeito gadas junto com essas mulheres [...] e sobre
das ações atuais da Secretaria e da articulação o perfil dessa mulher. [...] em relação à vio-
com o PPV. lência no Estado, o DPMUL6 fornece esses
dados virtualmente: quantas mulheres deram
Segundo ela, atualmente a Secretaria de- entrada nas delegacias, quantos boletins de
senvolve campanhas de comunicação voltadas ocorrência foram gerados, quantos processos,
para a sensibilização da população sobre o pro- o número de homicídios. Como o DPMUL
blema da violência contra as mulheres; capaci- tá dentro da SDS, a gente pode dizer que as
ta profissionais da rede pública de serviços de informações que a gente tem em relaçãa à
atendimento a vítimas; gerencia o serviço de violência é através da SDS.
abrigamento de mulheres ameaçadas de mor-
te, constituído de quatro casas-abrigo, e realiza A informação disponibilizada pelo DPMUL,
ações de produção de conhecimento, publi- porém, é interna ao governo e requer solicitação

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 48-68 Fev/Mar 2014


53
por telefone ou e-mail, limitando-se, além disso, ça, mas também a necessidade de reorientá-lo
aos dados das delegacias da mulher. para que seja capaz de responder às diferentes
a gente só consegue ter do DPMUL os re- configurações da violência letal contra as mu-
Artigos

gistros e os dados que vêm das delegacias lheres encontradas em Pernambuco.


especializadas, no restante do Estado [...] as
mulheres procuram as delegacias comuns e Nesse sentido, o objetivo deste artigo é ana-
essas também têm informação, só que esses lisar a redução dos CVLI em Pernambuco, a
dados não vão para o DPMUL, vão pra SDS. partir da implementação do PPV, de acordo
Então, o que a gente tem do DPMUL não com o sexo da vítima e a região de ocorrência
Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:

Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco

são os dados reais do Estado, porque a gente dos casos, de modo a identificar possíveis im-
só tem daquelas dez delegacias. pactos diferenciais da política pública de segu-
rança sobre homens e mulheres. A análise aqui
Esse fluxo é revelador das dificuldades de apresentada está centrada nos CVLI, dado que
articulação entre as duas áreas de políticas, a variação na ocorrência destes crimes é toma-
que serão tratadas com mais atenção adiante. da pelo PPV como o indicador prioritário para
Nesse ponto, cabe registrar apenas que a po- o monitoramento e a avaliação da situação de
lítica da Secretaria da Mulher volta-se para a criminalidade e violência.
violência doméstica e não toma o homicídio
como prioridade. Os dados aqui analisados são provenientes
do Sistema de Informação Policial/Infopol, da
Já o PPV, ao longo de seus cinco anos de Secretaria de Defesa Social de Pernambuco,
implementação tem alcançado bons resultados por meio dos Boletins Trimestrais da Conjun-
e, a despeito de algumas variações em momen- tura Criminal, disponíveis na página eletrônica
tos específicos, as metas globais de redução dos da SDS-PE, e do Datasus. Os dados referem-
CVLI tem sido alcançadas. Não obstante, há -se ao número e às taxas de CVLI no perío-
diferenças importantes quando se observa a va- do de 2006 a 2011, de acordo com o sexo da
riação de acordo com o sexo da vítima e com a vítima, região de ocorrência, municípios com
região de ocorrência dos casos. Os homicídios menos e mais de 100 mil habitantes e maiores
de mulheres diminuíram menos e oscilaram ao municípios do Estado. Para esse período foi
longo do tempo, o que pode se dever à pouca analisada a variação na ocorrência dos CVLI,
sensibilidade do PPV para as diferentes situa- procurando-se identificar as diferenças nesta
ções nas quais as mulheres são assassinadas, que variação de acordo com o sexo da vítima e as
requerem linhas de ação específicas do ponto de variáveis mencionadas anteriormente. As taxas
vista da política de prevenção e repressão. estaduais das mortes por agressão para 2009 e
2010, de acordo com o sexo da vítima, tiveram
Este artigo se propõe a apresentar e analisar como fonte o Datasus e o Mapa da Violência
estas diferenças e a refletir sobre possíveis hipó- 2012, que também usa dados do Datasus. As
teses capazes de explicá-las, reconhecendo a efi- informações foram trabalhadas no programa
cácia do PPV como política pública de seguran- Excel 2003-2007.

54 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 48-68 Fev/Mar 2014


Variações na ocorrência de CVLI em respondência direta entre as taxas masculinas
Pernambuco e femininas, nesses mesmos Estados registram-
No Brasil, a proporção de casos de morte -se as maiores taxas de morte violenta entre

Artigos
por agressão em que as vítimas são mulheres mulheres, o que leva a pensar na existência de
tem oscilado em torno de 8%, nas duas últi- contextos ou fatores comuns que favorecem a
mas décadas. O mesmo ocorre com relação às vitimização de pessoas de ambos os sexos. A
taxas, que são bem menores entre as mulheres Tabela 1 apresenta os Estados brasileiros com
do que entre os homens. Como a literatura já as mais altas taxas de homicídios do país, em
tem fartamente demonstrado, o problema da 2009, e já reflete a queda que vem sendo ob-

Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco
Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento
morte violenta é extremamente grave em al- servada em Pernambuco e no Rio de Janeiro
guns Estados, que apresentam taxas altíssimas nos últimos anos. O aumento da violência letal
e, com isso, contribuem diretamente para a entre homens também pode ocasionar aumen-
elevação da taxa nacional. to dos homicídios entre mulheres, uma vez
que sociedades com altas taxas de homicídios
Há cerca de duas décadas, o topo do intramasculinos revelam configurações socio-
ranking das taxas de morte por agressão é ocu- culturais que produzem também altas taxas de
pado alternadamente pelos Estados de Ala- violência dos homens contra mulheres, como
goas, Pernambuco, Rio de Janeiro e Espírito o patriarcalismo, o culto à virilidade e o padrão
Santo e, mais recentemente, pelos Estados de de resolução de conflitos violento e privado
Rondônia e Roraima. Embora não haja cor- (RATTON, 2009).

Tabela 1 - Taxas
 de morte por agressão (por 100 mil habitantes) de acor-
do com o sexo nos dez estados brasileiros de maior ocorrência
2009

UF Masculino UF Feminino UF Total


AL 114,2 ES 12,2 AL 59,3
ES 102,8 RR 12,1 ES 56,9
PE 85,7 AL 6,9 PE 44,9
PA 74,5 RO 6,9 PA 40,1
BA 70 PE 6,7 BA 37
RJ 65,3 MT 6,4 RO 35,7
DF 64,7 PR 6,1 PR 34,5
PR 63,7 DF 5,6 DF 33,8
RO 63,6 GO 5,5 PB 33,5
PB 63,3 MS 5,5 RJ 33,4
Brasil 50,7 Brasil 4,4 Brasil 27,1

Fonte: Datasus, 2012

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 48-68 Fev/Mar 2014


55
Tabela 2 - Nº
 de CVLI, de acordo com o ano e sexo da vítima
Pernambuco, 2006-2011
Artigos

Ano de ocorrência
Sexo Total
2006 2007 2008 2009 2010 2011

Masculino 4305 4311 4233 3717 3279 3231 23076

Feminino 319 277 289 299 253 276 1713

Total 4624 4588 4522 4016 3532 3507 24789


Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:

Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco

Fonte: Infopol, Secretaria de Defesa Social do Estado de Pernambuco, 2013.

Em Pernambuco, o número de CVLI vem ção anual. No caso das mulheres, há oscilação,
declinando desde 2007, e em 2010 observou- com crescimento no número de casos em 2008,
-se a maior redução, de 12,6%, com relação 2009 e 2011 – neste último ano o aumento
ao ano anterior. Considerando o período de ultrapassou os 10%. O ano de 2010 foi o de
2006 a 2011, foram registrados 24.789 CVLI, maior redução, com 17,1% de diminuição no
sendo que 1.713 (6,9%) com vítimas do sexo número de casos com vítimas do sexo feminino
feminino. O ano de 2006 representou o pico e 12,6% entre os casos que vitimaram homens.
da série temporal, com 4.624 casos – mas, para
os casos que vitimaram homens, esse pico se Em 2011, os homicídios de mulheres cres-
deu em 2007. Quando se trata de vítimas do ceram em oito regiões7 e recuaram em quatro.
sexo feminino, o ano inicial da série tempo- A maior variação (64,3%) correspondeu ao
ral, 2006, concentra o maior número de casos Agreste Meridional, que, em 2010, havia re-
(319). Ao longo do período, como se verá a gistrado 14 casos de CVLI com vítimas mu-
seguir, o número oscila, mas em nenhum mo- lheres e, em 2011, registrou 23 casos. No caso
mento volta a alcançar esse patamar inicial. A dos CVLI com vítimas do sexo masculino, em
Tabela 2 apresenta os números absolutos de cinco regiões elevou-se o número de ocorrên-
CVLI a cada ano e os gráficos seguintes apre- cias, mas na Mata Norte esse crescimento foi
sentam as variações temporais. de apenas 0,5%. As maiores variações – 50% e
31% – foram encontradas no Sertão Central e
Já no primeiro gráfico observa-se a tendên- no Sertão do Araripe, respectivamente.
cia que se repete na maioria das regiões e mu-
nicípios analisados. Os casos com vítimas do O ano de 2011 foi problemático para o al-
sexo masculino apresentam uma tendência con- cance das metas do PPV. É de se esperar que,
sistente de redução, mostrando-se sob controle nos primeiros anos de implementação de uma
durante todo o período, ainda que nem sem- política de controle de CVLI, o número de
pre se tenha atingido a meta de 12% de redu- casos se reduza consideravelmente, graças, por

56 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 48-68 Fev/Mar 2014


Gráfico 1 - V
 ariação anual no número de CVLI, de acordo com o sexo da vítima
Pernambuco, 2009

Artigos
15,0
10,0
5,0
0,0
-5,0
-10,0
-15,0
-20,0
2006-2007 2007-2008 2008-2009 2009-2010 2010-2011
Homens 0,1 -1,7 -12,3 -12,6 -0,5
Mulheres -13,2 3,2 4,5 -17,1 11,3

Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco
Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento
Homens Mulheres

Fonte: Infopol, Secretaria de Defesa Social do Estado de Pernambuco, 2013.

Gráfico 2 - Variação no nº de casos de CVLI, de acordo com o sexo


da vítima e região de ocorrência
Pernambuco, 2010-2011

80,0
60,0
40,0
20,0
0,0

Metropolitana
-20,0
Sertão Central
Mata Norte

Meridional

-40,0
Mata Sul

Sertão de

Sertão do

Sertão do

Sertão do
São Franscisco
Agreste

Agreste

Itaparica
Central

Setentrional

Moxotó
Araripe

Região
-60,0 Pajeú
Sertão do
Agreste

Homens Mulheres

Fonte: Infopol, Secretaria de Defesa Social do Estado de Pernambuco, 2013.

exemplo, a ações repressivas voltadas para indi- não retornarão à atividade criminosa e que os
víduos ou grupos que, em função de suas ativi- territórios antes vulneráveis não voltarão a abri-
dades criminosas, são responsáveis isoladamente gar práticas que levam ao CVLI. Assim, as in-
por um grande número de homicídios. O foco tervenções de segurança pública devem passar
sobre territórios específicos, que concentram a por reorientação para alcançar os casos que se
maior proporção de casos, também pode levar distribuem de forma mais difusa no território
à rápida diminuição no número de casos, au- e cujas motivações são também mais diversas.
xiliando o alcance das metas. Passada essa fase Nessas circunstâncias, espera-se que o ritmo de
inicial, políticas preventivas e estruturadoras de- redução no número de casos se desacelere até
vem garantir que aqueles indivíduos e grupos que se implementem as novas medidas.

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 48-68 Fev/Mar 2014


57
A isso, deve-se acrescentar, em 2011, o efeito Não obstante, quando se considera
produzido pelas ações do Sistema Judiciário, que todo o período de implementação do PPV,
objetivavam, entre outras coisas, conferir celerida- verifica-se que, para os casos com vítimas
Artigos

de à Justiça. Assim é que, como parte deste pro- mulheres, a variação acumulada nos cinco
cesso, um número grande de homicidas retornou anos permanece problemática na Zona da
às ruas, em função de irregularidades em seus pro- Mata Sul (+9,1%), no Agreste Meridional
cessos. Parte importante deles, especialmente os (+64,3%), no Sertão de Itaparica (+25%),
líderes de grupos, voltou às atividades criminosas e no Sertão do Araripe (+25%) e no Sertão do
à prática do homicídio, o que constituiu um obs- Pajeú (+33,3%). No caso das vítimas do sexo
Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:

Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco

táculo para o alcance da meta do PPV. Esse pro- masculino, as regiões que apresentaram cres-
cesso foi enfrentado pelo governo do Estado por cimento no número de casos foram o Sertão
meio de ações emergenciais realizadas no final do Central (+105,3%), o Sertão de Itaparica
segundo semestre de 2011 e que, embora não te- (+5,3%) e o Sertão do Araripe (+57,6%).
nham logrado alcançar a meta de 12% de redução, No conjunto do Estado, a variação acumula-
mas tão somente 0,06%, podem ser consideradas da foi negativa para ambos os sexos: 25% de
bem-sucedidas na medida em que não se obser- redução no número de casos com vítimas do
vou crescimento no número global de homicídios. sexo masculino e 13,5% de redução nos ca-
Mas, conforme o Gráfico 1, essa mínima redução sos com vítimas mulheres. Observe-se que,
– que representa apenas um caso a menos – deu-se caso a meta anual de 12% tivesse sido alcan-
entre as vítimas do sexo masculino. Nos casos em çada todos os anos, a variação acumulada no
que as vítimas eram mulheres houve aumento de período deveria ser de 40%, o que não foi
11% de um ano para o outro. alcançado em nenhum dos casos (Gráfico 3).

Gráfico 3 - V
 ariação no nº de CVLI, de acordo com o sexo da vítima e
região de ocorrência
Pernambuco, 2006-2011

120,0
100,0
80,0
60,0
40,0
20,0
0,0
Sertão de Itaparica

-20,0
Sertão Central

Sertão do Araripe
Meridional
Mata Sul

Agreste

Setentrional

Metropolitana
Central

Sertão do

-40,0
Agreste

Pernambuco
Mata Norte

Sertão do São
Agreste

Pajeú

-60,0
Sertão do

Região
Franscisco

Moxotó

-80,0

Homens Mulheres

Fonte: Infopol, Secretaria de Defesa Social do Estado de Pernambuco, 2013.

58 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 48-68 Fev/Mar 2014


Gráfico 4 - V
 ariação anual no nº de CVLI, municípios de até
100 mil habitantes
Pernambuco, 2008-2011

Artigos
5,0
0,0
-5,0
-10,0
-15,0
2008-2009 2009-2010 2010-2011
Homens -3,0 -10,4 -7,6
Mulheres -3,7 -8,4 1,6

Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco
Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento
Homens Mulheres

Fonte: Infopol, Secretaria de Defesa Social do Estado de Pernambuco, 2013.

Gráfico 5 - V
 ariação anual no nº de CVLI, municípios com mais
de 100 mil habitantes
Pernambuco, 2008-2011

30,0
20,0
10,0
0,0
-10,0
-20,0
-30,0
2008-2009 2009-2010 2010-2011
Homens -19,1 -14,5 5,7
Mulheres 9,1 -23,8 20,3

Homens Mulheres

Fonte: Infopol, Secretaria de Defesa Social do Estado de Pernambuco, 2013.

Gráfico 6 - V
 ariação anual no nº de CVLI
Recife (PE), 2008-2011

30,0
20,0
10,0
0,0
-10,0
-20,0
-30,0
-40,0
2008-2009 2009-2010 2010-2011
Homens -18,8 -15,4 1,6
Mulheres 9,1 -36,1 10,9

Homens Mulheres

Fonte: Infopol, Secretaria de Defesa Social do Estado de Pernambuco, 2013.

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 48-68 Fev/Mar 2014


59
Comportamento semelhante se observa quan- to Agostinho, a -65,3% em Garanhuns (onde
do se analisa a variação em municípios selecionados também decresceu fortemente o número de ca-
a partir do tamanho da população8. Nos municí- sos com vítimas mulheres, -57,1%).
Artigos

pios pequenos e nos grandes, assim como na capi-


tal, a curva da variação é a mesma encontrada na Diferenciais de gênero na ocorrência de
maior parte das regiões: entre os CVLI com vítimas CVLI em Recife
mulheres a redução, quando há, é menor e o cres- Para compreender as diferenças na varia-
cimento, quando há, é maior do que entre os casos ção da ocorrência dos CVLI de acordo com o
com vítimas do sexo masculino. Vale ressaltar, po- sexo da vítima, é necessário ter em mente que
Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:

Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco

rém, que a Região Metropolitana e a capital regis- homens e mulheres sofrem violência e são as-
traram crescimento dos dois tipos de caso em 2011 sassinados em circunstâncias nem sempre se-
melhantes. Se é verdade que tem aumentado o
Mais uma vez, porém, ao se analisar a va- número de mulheres envolvidas com atividades
riação total ao final do período – e incluindo criminosas e, assim, expostas aos riscos ine-
agora os municípios mais populosos do Estado rentes a este universo, é verdade também que
–,nota-se que apenas os casos com vítimas mu- parte importante das mulheres continua sendo
lheres cresceram. Isso aconteceu nos municípios vitimada em situações de violência conjugal e
de Camaragibe (+66,7%), Caruaru (+18,2%), doméstica. Para ilustrar este raciocínio e auxiliar
Jaboatão dos Guararapes (+3,8%), Paulista na compreensão dos dados analisados, a seguir
(+100,0%) e Vitória de Santo Antão (+80%). descrevem-se as características dos homicídios
No caso dos homicídios de homens, o espec- de homens e de mulheres ocorridos em Recife
tro de redução foi de -7,4%, no Cabo de San- em 20099 (PORTELLA et al, 2011).

Gráfico 7 - V
 ariação no nº de CVLI, municípios selecionados
Pernambuco, 2006-2011

150,0
100,0
50,0
0,00
-50,0
Até 100 mil hab.

Mais de 1 milhão

Cabo

Camaragibe

Caruaru

Jaboatão dos

Recife

Santo Antão
Olinda

Paulista

Petrolina
Garanhuma

Guararapes

-100,0
Vito´ria de

Homens Mulheres

Fonte: Infopol, Secretaria de Defesa Social do Estado de Pernambuco, 2013.

60 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 48-68 Fev/Mar 2014


Assim como em outros Estados do Brasil, a exatamente os mesmos para vítimas de am-
maior parte dos casos de CVLI, independen- bos os sexos (Tabela 3)
temente do sexo da vítima, concentra-se na

Artigos
região metropolitana e na capital. Em 2009, Outra diferença importante entre os dois
52,6% (ou 2.114) dos casos do Estado aconte- tipos de crime refere-se ao local em que é co-
ceram nessas áreas. Sozinha, a capital concen- metido: 82,4% dos homens morrem em via
trou 20% de todos os casos e 24,4% daqueles pública; entre as mulheres, esse percentual,
cujas vítimas eram do sexo feminino. O con- ainda muito alto, corresponde a 68,1%. Pouco
junto da Região Metropolitana reuniu pratica- mais de um quinto das mulheres (22,2%) é as-

Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco
Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento
mente a mesma proporção (52,9%) encontra- sassinada em sua residência ou perto dela. Para
da para as vítimas do sexo masculino. os homens, essa proporção é de 7,9%.

Em Recife, neste mesmo ano, acontece- Com relação ao período do ano, verifica-se
ram 818 CVLI, 746 dos quais com vítimas do que os casos envolvendo homens distribuem-se de
sexo masculino e 72 (8,8% do total) com víti- modo mais uniforme entre o trimestre de menor
mas mulheres. Ao se compararem os casos de ocorrência – julho a setembro, com 21,3% dos ca-
acordo com o sexo da vítima, verificam-se al- sos – e aquele de maior ocorrência – janeiro a mar-
gumas semelhanças e diferenças importantes. ço, com 29,2% dos homicídios. Entre as mulhe-
Em comum, o fato de que a quase totalidade res, muda a amplitude entre os períodos e o início
dos casos refere-se a homicídio: apenas 1,9% do ano, com menos casos registrados, é também
dos homens e 1,4% das mulheres foram assas- aquele com mais casos (30,6%), mas é o trimestre
sinados em situação de latrocínio. Nenhuma de abril a junho que apresenta a menor propor-
mulher e apenas um homem morreu como ção de homicídios (16,7%). Os finais de semana
decorrência de uma lesão corporal. – especialmente o domingo, que reúne um quarto
dos casos, independentemente do sexo da vítima
Os homicídios de homens se distribuem –, constituem o momento mais arriscado para
por praticamente todo o território da cida- ambos os sexos, com a pequena diferença de que
de: dos 94 bairros do Recife, 81 registraram há mais vítimas mulheres na sexta-feira (20,8%) e
casos de homicídios cujas vítimas eram ho- mais homens no sábado (19,0%). Com relação ao
mens. No caso das mulheres, os casos con- período do dia, em geral, homens e mulheres são
centraram-se em 39 bairros. Como resultado mortos à noite, mas há diferenças com relação à
desse padrão de distribuição territorial, qua- madrugada e à manhã: 27,8% dos casos que viti-
se 50% dos casos em que as vítimas são mu- mam mulheres ocorrem na madrugada e apenas
lheres concentraram-se em apenas 10 bair- 9,7% pela manhã; entre os homens, esses percen-
ros. No caso dos homens, esse percentual é tuais são de 23,6% e 15,8%, respectivamente.
10% menor. Porém, com uma única exceção
(Campo Grande para os homens e Jardim Homens e mulheres morrem principalmente
São Paulo para as mulheres), os bairros de em decorrência de disparos de armas de fogo, mas
maior ocorrência de casos de homicídios são 20,8% das mulheres e apenas 10,4% dos homens

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 48-68 Fev/Mar 2014


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Tabela 3 - P
 roporção de casos de homicídios de acordo com o sexo da
vítima, dez bairros de maior ocorrência
Recife (PE), 2009
Artigos

Bairro Homens Bairro Mulheres

COHAB 5,10% Cohab 6,90%

Ibura 4,70% Ibura 5,60%

Várzea 4,30% Iputinga 5,60%

Imbiribeira 3,60% Jardim São Paulo 5,60%


Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:

Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco

Afogados 3,50% Afogados 4,20%

Boa Viagem 3,50% Boa Viagem 4,20%

Iputinga 3,40% Imbiribeira 4,20%

Água Fria 3,20% Torrões 4,20%

Torrões 2,90% Várzea 4,20%

Campo Grande 2,80% Água Fria 2,80%

Total 37,00% Total 47,20%

Demais bairros 63,00% Demais bairros 52,80%

Total 100,00% Total 100,00%

N=746 homens e 72 mulheres

Fonte: Infopol, Secretaria de Defesa Social do Estado de Pernambuco, 2010

Gráfico 8 - Motivos
 relacionados aos homicídios, segundo o sexo
da vítima
Recife (PE), 2009

Conflitos familiares 8,7

7,2
Conflitos interpessoais com drogas 10,7

Dinâmica da criminalidade 29,6


14,3
15,5
Outros motivos 17,9
40,4
Conflitos interpessoais sem drogas
6,5
Passional 39,3

0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 35,0 40,0 45,0

Masculino Feminino

Fonte: Infopol, Secretaria de Defesa Social do Estado de Pernambuco, 2013.

62 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 48-68 Fev/Mar 2014


são assassinados, respectivamente, com armas homens, corresponderam a apenas 6,5% dos
brancas ou outros tipos de objetos. Nessa última casos. A dinâmica da criminalidade esteve no
situação, que se refere basicamente aos espanca- cerne de 29,6% dos casos masculinos e em

Artigos
mentos e estrangulamentos, encontram-se 8,3% 14,3% dos casos com vítimas mulheres. As
das vítimas do sexo feminino e 5,6% dos homens. demais motivações se distribuíram de forma
semelhante para os dois sexos (Gráfico 8).
Finalmente, há algumas diferenças tam-
bém com relação à motivação do crime. Os Esses dados indicam que os homicídios de
conflitos interpessoais sem envolvimento de mulheres compartilham certas características

Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco
Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento
álcool ou outras drogas motivaram os homi- com os homicídios de homens, mas, ao mes-
cídios de 40,4% dos homens e de 17,9% das mo tempo, apresentam características distintas
mulheres, sendo a principal motivação para que sugerem a existência de configurações es-
os casos com vítimas do sexo masculino. En- pecíficas para esses casos. O quadro a seguir
tre as mulheres, a principal motivação foram sintetiza as semelhanças e diferenças apuradas
os conflitos passionais (39,3%) – que, para os (Quadro 1).

Quadro 1 - C
 aracterísticas dos homicídios, de acordo com o sexo da vítima
Recife (PE), 2009

Características Homens Mulheres


Semelhanças
Natureza do crime Homicídio Homicídio
Horário de maior ocorrência Noite Noite
Dias da semana de maior ocorrência Fim de semana Fim de semana
Trimestre de maior ocorrência 1º 1º
Crime cometido em via pública 82,40% 68,10%
Uso de arma de fogo 89,50% 79,20%
Uso de álcool ou outras drogas pela vítima ou
7,20% 10,70%
agressor no momento do crime
Diferenças
Trimestre de menor ocorrência 3º 2º
Concentração nos 10 bairros de maior ocorrência 37% 47,20%
Crime cometido na residência da vítima 7,90% 22,20%
Uso de arma branca 4,80% 12,50%
Crime resultante de conflitos passionais 6,50% 39,30%
Crime resultante de conflitos interpessoais sem
40,40% 17,90%
presença de drogas
Crime resultante da dinâmica da criminalidade 29,60% 14,30%

Fontes: Infopol, DHPP, SDS-PE

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 48-68 Fev/Mar 2014


63
De maneira resumida, pode-se dizer que, tantes entre as regiões e os municípios mais
em 2009, os homicídios em Recife aconte- populosos do Estado.
ceram à noite, nos finais de semana, em de-
Artigos

corrência de disparo de arma de fogo, con- Assim, o PPV acerta em sua estratégia
centrando-se no primeiro trimestre do ano. para enfrentar os CVLI que são decorrentes
A maior parte dos casos aconteceu em via das situações de criminalidade e que consti-
pública e os conflitos interpessoais foram o tuem a maioria dos casos no Estado. É pos-
principal motivo que levaram à morte vio- sível ainda que parte importante da redução
lenta. Em cerca de 10% dos casos, vítimas nos casos que vitimam as mulheres tenha se
Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:

Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco

ou agressores fizeram uso de álcool ou outras dado justamente entre os que ocorrem nas
drogas no momento do homicídio. Ao se situações de criminalidade e de conflitos de-
compararem os casos de acordo com o sexo correntes do uso de drogas. A partir da análise
das vítimas, verifica-se que os crimes que vi- dos dados, pode-se, ainda, levantar a hipóte-
timaram mulheres apresentaram maior con- se de que as dificuldades de redução no nú-
centração territorial, uma parte considerá- mero de homicídios de mulheres se deve ao
vel aconteceu na residência da vítima e, em peso dos casos que ocorrem em situações de
comparação com os casos masculinos, houve violência cometida por parceiro íntimo, que
maior uso de arma branca e outras armas. Os requerem uma estratégia diferenciada daque-
conflitos passionais figuraram como a prin- las implementadas pelo PPV e que, até en-
cipal motivação dos crimes que vitimaram tão, não foram incorporadas à política. Em
as mulheres. Para os homens, a dinâmica da contrapartida, aparentemente, a Política de
criminalidade foi o segundo maior motivo Enfrentamento da Violência contra a Mulher
que levou ao homicídio. não inclui uma linha específica voltada para
a violência letal, a ser implementada em par-
Conclusões ceria com a Secretaria de Defesa Social. Essa
O PPV pode ser considerado uma políti- questão é reconhecida pela gestora da Secre-
ca bem-sucedida, no sentido de que, de fato, taria da Mulher, que afirma que a concepção
tem logrado alcançar as metas propostas de de violência letal que orienta as estratégias e
redução do CVLI. As dificuldades encontra- ações da SDS está fortemente ancorada na
das nos últimos cinco anos foram superadas, problemática da criminalidade urbana e, mais
de tal forma que se pode afirmar que é uma especificamente, do tráfico de drogas. Assim,
política adequada para a contenção da cri- o PPV não logrou instituir mecanismos efi-
minalidade e da violência em Pernambuco. cazes de identificação dos diferentes tipos de
A análise dos dados, porém, demonstrou situações que levam à vitimização de homens
que há impactos diferenciais das ações do e mulheres e, com isso, não é possível definir
PPV sobre os homicídios de homens e mu- estratégias específicas para lidar com algumas
lheres: é maior a redução entre os primeiros, destas configurações, como é o caso do ho-
e menor ou inexistente nos casos em que as micídio cometido por parceiro íntimo ou da
vítimas são mulheres, com diferenças impor- violência sexista. Nas palavras da gestora,

64 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 48-68 Fev/Mar 2014


o enfrentamento da violência contra mulher com a violência doméstica contra as mulhe-
tá dentro do PPV, é um dos programas, [...] res e, de modo mais específico, por meio de
isso é discutido nas reuniões do pacto, que ações de prevenção, e da identificação ime-

Artigos
acontecem mensalmente. Só que eles traba- diata e unívoca da segurança pública com a
lham por AIS, área de abrangência de cada ação de polícia e, mais especificamente, com
batalhão e discutem o índice de violência em as ações de repressão. Como se viu, metade
cada AIS. A violência contra a mulher não dos casos de homicídios de mulheres não cabe
dá pra tratar da mesma forma. [...] Hoje, na rubrica “violência doméstica” e nada au-
depois da discussão, da nossa participação, toriza a pensar que não há, nessas situações,

Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco
Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento
a nossa presença lá, eles já compreenderam forte influência da posição social subordinada
que é importante separar os gêneros (sic). E das mulheres ou, em outras palavras, de sua
hoje a gente consegue ver os homicídios de condição de gênero. Ao restringir seu campo
mulheres [...] só não consegue ainda decifrar de ação à violência doméstica, a Secretaria da
daquelas mulheres mortas quantas foram por Mulher fecha os olhos para inúmeras situa-
violência doméstica ou por envolvimento no ções sociais que tornam as mulheres vulnerá-
tráfico ou por qualquer outro crime. [...] mas veis à violência letal e que devem ser alvo de
ainda tem muita coisa que é de compreensão ações preventivas.
mesmo, dos comandantes que fazem parte do
PPV, de perceberem que a violência domés- Por sua vez, a concepção que associa políticas
tica contra mulher é muito particular, que é públicas de segurança à polícia e à repressão é
diferente do crime que eles tentam diminuir limitada, por não compreender que a violência
no Estado de Pernambuco. e a criminalidade são questões sociais comple-
xas que requerem abordagens integradas em
É correta a compreensão da gestora a diferentes campos de políticas. Além disso, tal
respeito da necessidade de incorporação da concepção opera uma distinção artificial entre os
perspectiva de gênero para se identificar cor- contextos sociais de atuação de cada Secretaria,
retamente as distintas situações nas quais as na qual o “mundo do crime” seria masculino e
mulheres são assassinadas e, com isso, dese- isolado das interações cotidianas entre homens
nhar programas que, de fato, sejam capazes e mulheres, não se percebendo suas interfaces
de coibir essas práticas. No entanto, sua fala com a violência doméstica. Ora, o “mundo do
denota relativa delimitação dos campos de crime” não paira sobre o “mundo social”, mas é
atuação das duas secretarias no que se refere parte das relações sociais em territórios nos quais
à violência contra as mulheres que, caso tam- homens e mulheres convivem cotidianamente
bém esteja presente entre os demais gestores, e, com maior ou menor constrangimento dado
pode constituir um dos elementos que res- pela presença dos grupos criminosos na área,
pondem pela menor redução ou pelo aumen- desenvolvem suas relações familiares, profissio-
to dos CVLI contra mulheres no período de nais, de lazer, etc., nas quais, evidentemente, o
implementação do PPV. Trata-se da ideia de componente de gênero também atua. Não por
que à Secretaria da Mulher cabe apenas lidar acaso, no plano do governo reproduz-se o que

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 48-68 Fev/Mar 2014


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se vê também no campo acadêmico: os estudos Assim, apesar do contexto de sucesso do
feministas dedicam-se mais à violência domés- PPV, deve-se reconhecer que os homicídios de
tica, especialmente a não-letal, e a criminologia mulheres permanecem como uma lacuna im-
Artigos

ocupa-se dos homicídios, especialmente dos que portante na área de segurança pública, exigin-
vitimam homens. Para os homicídios de mulhe- do maior esforço por parte dos entes governa-
res, portanto, resta ainda a tarefa de se produzir mentais para a redefinição das estratégias e das
um lugar para a reflexão e a intervenção. ações comuns.
Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:

Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco

1. Além do homicídio, os CVLI incluem o latrocínio e a lesão corporal seguida de morte, de acordo com definição adotada pela
Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça em 2006

2. Dados calculados pelas autoras, a partir do Sistema de Informações Policiais.

3. Dados calculados pelas autoras.

4. E, como se sabe, também em outros Estados do Brasil.

5. Entrevista realizada em julho de 2013.

6. Departamento Policial da Mulher, da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco.

7. A informação sobre o Sertão Central não aparece no gráfico porque, em 2010, a região não havia registrado homicídio de
mulheres e, em 2011, registrou quatro casos. Não há como representar graficamente este tipo de aumento.

8. Aqui o período analisado é de 2008 a 2011 porque, para o período anterior, os Boletins de Conjuntura Criminal só disponibilizam as
taxas de CVLI e não os números absolutos.

9. A fonte destas informações também foram os dados da SDS-PE, mas desta vez por meio dos bancos de dados do Sistema de
Informação Policial – Infopol e do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, cuja base são os inquéritos policiais.

66 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 48-68 Fev/Mar 2014


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67
Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade
Violenta: Reflexões sobre o Pacto pela Vida
em Pernambuco
Artigos

Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento

Resumen Abstract
Impactos de género en la reducción de la mortalidad violenta: Impacts of Gender on the Reduction of Violent Death:

reflexiones sobre el Pacto por la Vida en Pernambuco Reflections on the Pact for Life in Pernambuco
Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:

Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento


Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco

El crecimiento de las muertes violentas viene siendo observado en An increase in violent deaths can be observed in Brazil since
Brasil desde finales de los años 70. En el país y en Pernambuco, the end of the 1970s. In the country and in the state of
las principales víctimas de los homicidios son jóvenes negros, del Pernambuco, the main victims of homicide are low-income,
sexo masculino, con poca escolaridad y de baja renta. En 2011, low-education level, male black youth. In 2011, 86.2% of
el 86,2% de las mujeres asesinadas en Recife eran negras y, the women killed in the city of Recife were black, and in
en 2009, el 47,2% de los casos de homicidios de mujeres se 2009, 47.2% of female homicide cases were concentrated
concentraban en solo diez barrios de esa capital. Tan solo en 2007 in just 10 neighborhoods of the capital city. It was only in
saltó la cuestión de la violencia letal a las prioridades en la agenda 2007 that the issue of lethal violence was given priority on
del gobierno del Estado, por medio de la implementación de la the state government’s agenda, through the implementation
primera política pública de seguridad del Estado, el Pacto por la of the first state policy for public safety, the PPV (Pact for
Vida (PPV). En ese mismo año, la Secretaría de la Mujer instituyó Life). In this same year, The Policy to Combat Violence Against
la Política de Enfrentamiento de la Violencia contra la Mujer. El Women was instituted, by the Secretary for Women. The PPV
PPV ha alcanzando buenos resultados, las metas globales de has achieved good results. Overall goals for the reduction
reducción de los delitos violentos letales intencionales han sido of intentional violent, lethal crime have been reached, but
alcanzadas, pero hay diferencias importantes cuando se observa there are important differences when observing the variation
la variación de acuerdo con el sexo de la víctima y con la región according to sex of the victim and in what regions cases
donde suceden los hechos. Los homicidios de mujeres presentaron occur. Female homicides showed both a lower reduction rate
una reducción menor a lo largo del tiempo y una fluctuación entre and a fluctuation of rate over time. The fluctuation of this rate
crecimiento y reducción que puede deberse a la poca sensibilidad may be due to PPV’s low sensitivity to the varying situations
del PPV para las diferentes situaciones en las que las mujeres son in which women are killed, and which require specific lines
asesinadas, que requieren líneas de acción específicas desde el of action from a prevention and repression policy standpoint.
punto de vista de la política de prevención y represión. Este artículo This article aims to present and analyze these differences and
se propone presentar y analizar estas diferencias y reflexionar reflect upon possible hypotheses which may explain them.
sobre posibles hipótesis capaces de explicarlas, reconociendo la This article also recognizes the efficiency of PPV as a policy
eficacia del PPV como política pública de seguridad, pero también for public safety, but also the need to refocus it in order to be
la necesidad de reorientarlo para que sea capaz de responder able to respond to various forms of lethal violence against
a las diferentes configuraciones de la violencia letal contra las women in Pernambuco.
mujeres en Pernambuco..
Keywords: Violence against women; public safety
Palabras clave: Violencia contra la mujer; políticas públi- policies; homicides.
cas de seguridad; homicidios.

Data de recebimento: 01/09/2013


Data de aprovação: 13/02/2014

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Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 48-68 Fev/Mar 2014
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Impactos de Gênero na Redução da Mortalidade Violenta:
Reflexões sobre o Pacto pela Vida em Pernambuco
Ana Paula Portella e Marília Gomes do Nascimento Artigos
Monitorar o adolescente ou o
estabelecimento que executa
Artigos

a medida socioeducativa?
O papel dos técnicos judiciários
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro
Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa a medida
socioeducativa? O papel dos técnicos judiciários
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, Frederico Couto Marinho, Tarcísio Perdigão e Isabela Gonçalves

Possui graduação em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro (2001), graduação em Direito pela Universidade Federal de
Minas Gerais (2002), mestrado em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro (2003) e doutorado em Sociologia pelo Instituto
Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (2009). Atualmente é professora do Departamento de Sociologia e Antropologia (DSOA) e
pesquisadora do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (CRISP) ambos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
ludmila.ribeiro@gmail.com

Frederico Couto Marinho


Doutor em sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador de equipe do Centro de Estudos de Criminalidade
e Segurança Pública (CRISP).
fcfrederico9@gmail.com

Tarcísio Perdigão
Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
tarcisioperdigao@gmail.com

Isabela Gonçalves
Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
belaisa_ironir@hotmail.com

Resumo
Desde 2009, encontra-se em funcionamento o Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Autor de Ato Infracional (CIA), constituído
para reunir, no mesmo espaço físico, todas as instituições responsáveis pelo processamento institucional do adolescente em conflito com a
lei. Outra mudança relevante foi a criação do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase), que prioriza o monitoramento e a
avaliação da qualidade dos programas de atendimento socioeducativo a partir do estabelecimento de categorias e indicadores de avaliação
para as medidas socioeducativas. Assim, este estudo tem como objetivo analisar o trabalho dos dois setores técnicos da Vara da Infância e
Juventude na supervisão das medidas socioeducativas e problematizar como esses setores vêm operacionalizando sua missão institucional
diante das mudanças vivenciadas na organização e no funcionamento do sistema de justiça juvenil. Nesse contexto, argumenta-se que as
mudanças mencionadas impactaram a forma como um dos dois setores responsáveis pela supervisão da medida socioeducativa interpreta
e executa sua missão, mas não o outro. Os resultados apontam a dificuldade dessas agências de estabelecer qual é a razão de sua existência.

Palavras-Chave
Justiça juvenil; monitoramento; medidas socioeducativas.

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Artigos
Introdução

E stamos em um momento de intenso de-


bate sobre a viabilidade da redução da
falta de monitoramento e de avaliação da qua-
lidade dos programas de atendimento socioe-

Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa a medida


socioeducativa? O papel dos técnicos judiciários
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, Frederico Couto Marinho, Tarcísio Perdigão e Isabela Gonçalves
maioridade penal, com a diminuição do limite ducativo em meio aberto e em meio fechado.
de 18 anos, idade que hoje é o marco a partir
do qual o indivíduo infrator deixa de ser pro- Para os defensores da redução da maiori-
cessado pelo sistema infracional juvenil para dade penal, a medida socioeducativa é pouco
ser processado pelo sistema penal. efetiva porque o adolescente não é capaz de
percebê-la como punição. Em parte, isso ocor-
Entre os argumentos manejados para sus- re porque os Executivos (municipais e estadu-
tentar um limite de 14 a 16 anos como teto ais) não são capazes de prover instituições que
máximo para a maioridade penal, encontram- viabilizem a boa execução da medida socioe-
-se os relacionados à ausência do caráter pe- ducativa, entendendo como tal aquela que é
dagógico na execução das medidas socioedu- integralmente cumprida e na qual o binômio
cativas – tanto de meio aberto quanto de meio responsabilização-punição é institucionaliza-
fechado – na responsabilização do adolescente do.
autor de ato infracional. Para os defensores da
redução da maioridade penal, a medida socio- A fim de preencher as lacunas do ECA,
educativa seria uma espécie de “não dá nada uma vez que a fase da execução da medida so-
para mim”, bordão repetido pelos adolescen- cioeducativa não era tratada no Estatuto, dei-
tes encaminhados para cumprimento de uma xando aos Tribunais de Justiça e às entidades
sanção em consequência do cometimento de de atendimento a regulação do processo de
uma infração penal. Em um cenário no qual o execução, foi instituído o Sistema Nacional de
Estado não é capaz de responsabilizar os ado- Atendimento Socioeducativo (Sinase). Esse ór-
lescentes infratores, melhor seria recolhê-los às gão estabeleceu o marco normativo regulatório
instituições penitenciárias e, para tanto, basta- do processo judicial de execução das medidas,
ria reduzir a maioridade penal. garantindo mais objetividade na relação entre
o juiz, os profissionais das medidas socioe-
Como explicação para a ausência do caráter ducativas e os adolescentes em cumprimento
pedagógico, cita-se o fato de que as medidas dessas medidas. A forma como o ECA tratou
socioeducativas não são executadas conforme a fase executória das medidas socioeducativas,
estão previstas no Estatuto da Criança e do com efeito, permitiu que se consolidassem, no
Adolescente (ECA), sobretudo em virtude da campo do atendimento, práticas amplamente

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 70-93 Fev/Mar 2014


71
discricionárias que, além do prejuízo à segu- conflitos e brigas entre adolescentes e com os
rança jurídica (para adolescentes e estabeleci- agentes socioeducativos, prática de novo ato
mentos), operavam na contramão dos ideais de infracional e, no limite, mudanças no compor-
Artigos

justiça e equidade. O instrumento de moni- tamento que justifiquem a progressão da me-


toramento e avaliação da fase de execução da dida (por exemplo, a conversão de internação
medida socioeducativa definida pelo Sinase é em semiliberdade).
o Plano Individual de Atendimento (PIA). O
PIA é o instrumento de registro e gestão das Assim, a proposta deste artigo é avançar
atividades desenvolvidas com o adolescente em na discussão sobre o papel do Judiciário no
Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa a medida
socioeducativa? O papel dos técnicos judiciários
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, Frederico Couto Marinho, Tarcísio Perdigão e Isabela Gonçalves

cumprimento de medida socioeducativa. monitoramento das medidas socioeducativas


com base na análise de dois setores que, em
Apesar de o Poder Judiciário ser obrigado Belo Horizonte, ocupam-se dessas atividades:
a manter um setor técnico para o desenvol- o Setor de Atendimento ao Adolescente em
vimento de “trabalhos de aconselhamento, Situação Especial (Saase) e o Setor de Acom-
orientação, encaminhamento, prevenção e ou- panhamento das Medidas Restritivas de Li-
tros” (art. 151 do ECA) com os adolescentes berdade (Samre). Mais do que descrever como
infratores em fase de cumprimento da medi- cada uma dessas agências percebe seu trabalho
da, poucos são os setores técnicos judiciais que e, dessa forma, justifica a realização de deter-
efetivamente desempenham essa missão insti- minados procedimentos para o alcance de sua
tucional. Como possível explicação para essa missão institucional1, busca-se compreender
lacuna tem-se o entendimento de que o Judi- essas racionalizações em um contexto de mu-
ciário seria o responsável pela determinação da dança possibilitado pela constituição do Cen-
medida de responsabilização (tão logo o ato in- tro Integrado de Atendimento ao Adolescente
fracional é praticado) e pela decretação de seu Autor de Ato Infracional (CIA/BH).
fim (tão logo o estabelecimento informe que o
adolescente a cumpriu corretamente), não sen- O CIA/BH foi formalmente constituído
do de sua competência as atividades relativas à em dezembro de 2008 e entrou em operação
execução propriamente dita1. em janeiro do ano seguinte. Entre as principais
inovações introduzidas por essa instância, tem-
O Judiciário deveria, portanto, averiguar -se a reunião de todas as agências envolvidas no
se as instituições municipais ou estaduais es- processo de apuração da responsabilidade de
tão desempenhando sua missão ao longo do um adolescente rotulado pela polícia como em
cumprimento da medida, o que pode ocorrer conflito com a lei e, ainda, das agências que via-
por meio do exame de relatórios informativos bilizam a responsabilização do adolescente que
sobre o fluxo de entrada e saída de adolescen- “comprovadamente” violou uma lei penal3. É
tes em conflito com a lei de cada instituição, importante destacar que a constituição do CIA/
além de incidentes relacionados à execução da BH não engendrou qualquer alteração nas atri-
medida, tais como: não comparecimento sem buições das distintas organizações que se encar-
justificativa a determinada atividade, evasão, regam do processamento e da responsabilização

72 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 70-93 Fev/Mar 2014


do adolescente infrator. Na verdade, a reunião missões institucionais e o que mudou nessa
dessas diferentes instituições no mesmo espaço interpretação após a constituição do CIA/BH.
físico fez que seus agentes passassem a perceber

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suas atividades de forma diferenciada e, assim, É importante destacar que as informações
elaborassem novos planos de ação para a perse- apresentadas neste artigo são fruto de um ano
guição dos mesmos objetivos. de pesquisa de campo, que incluiu observação
direta do CIA/BH e entrevistas semiestrutura-
Nesse contexto, o papel do Saase e do Sa- das com os atores-chave pertencentes às ins-
mre, do ponto de vista legal, não foi alterado, tituições que compõem esse arranjo organiza-

Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa a medida


socioeducativa? O papel dos técnicos judiciários
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já que essa competência é estabelecida pelos ar- cional. Também foram realizadas observações
tigos 954 e 1515 do ECA. No entanto, as ações sistemáticas dos locais de execução das medidas
que as técnicas desses setores podem engendrar socioeducativas e entrevistas semiestruturadas
para o alcance dos objetivos são substancial- com os técnicos do Executivo municipal (res-
mente diferenciadas em virtude do entendi- ponsáveis pela execução das medidas de meio
mento que cada setor faz de seu papel e ainda aberto) e do Executivo estadual (responsáveis
das mudanças decorrentes da constituição e do pela execução das medidas de semiliberdade e
funcionamento do CIA/BH. internação). O que apresentamos aqui é ape-
nas a parte referente às percepções dos técnicos
Para a realização dessa análise, o artigo está judiciais quanto à sua missão antes e depois da
dividido em quatro seções, além desta intro- criação do CIA/BH. No entanto, com vistas à
dução e das considerações finais. Na primeira, preservação da identidade dos interlocutores,
apresenta-se um breve apanhado de conceitos não são reproduzidas citações literais, tampou-
importantes para a sociologia das organizações, co os responsáveis pelos discursos são identifi-
que orienta a necessidade de compreensão do cados, já que o objetivo maior é compreender
plano de ação para explicar como mudanças o significado destes.
organizacionais são possíveis ainda que os ob-
jetivos formais não tenham sido alterados. Na Sociologia das organizações: conceitos
segunda seção, a realidade do CIA/BH é des- que ajudam a pensar a realidade do Sa-
crita e, em seguida, são apresentados os setores ase e do Samre
técnicos do Poder Judiciário responsáveis pela Para que seja possível analisar o aparato da
supervisão das medidas socioeducativas. Nessa justiça juvenil destinado à supervisão das medi-
seção, buscou-se ressaltar as respectivas rotinas das socioeducativas em Belo Horizonte, é impor-
de trabalho e os procedimentos mobilizados tante dialogar com determinadas teorias da socio-
por essas instâncias para garantir um lugar de logia. Trata-se de arcabouço que fornece suporte
destaque no sistema de justiça juvenil. Em se- conceitual sobre a racionalidade dos indivíduos
guida, os procedimentos engendrados pelo Sa- quando em operação no âmbito de determinada
ase e Samre são apresentados e, por fim, com- organização, bem como o processo decisório que
param-se essas duas agências, problematizando conforma a operacionalização de demandas e de
como uma delas interpreta suas respectivas tarefas institucionais nesses contextos.

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Exemplos disso são as obras de autores matérias-primas usadas e também de deman-
como March e Simon (1972) e Perrow (1976), das da clientela (Quadro 1). Em organizações
preocupados em compreender como os sujei- complexas, contudo, os modelos tendem a ser
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tos mobilizam regras e recursos organizacio- mistos, combinando características típicas de


nais para transformar determinada matéria- ambos. Afinal, toda organização precisa garan-
-prima (ou input) em produto (output). A dife- tir certa previsibilidade na transformação de
rença entre eles reside na ênfase que cada um suas matérias-primas mais comuns e também
concede às regras e aos recursos mobilizados certa capacidade de mudança ou adequação
pelos indivíduos para a realização dessa ativi- às situações inesperadas, que não se adaptam
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dade e ainda na importância de compreender à rotina.


as racionalizações que esses sujeitos fazem para
explicar o que fazem e como fazem6. O que viabiliza a conformação dos dis-
tintos modelos organizacionais propostos por
Perrow (1976) desenvolveu sua teoria das Perrow (1976) é a forma como matérias-pri-
organizações com base em uma diferenciação mas são transformadas em produtos. Afinal, é
principal entre modelos organizacionais bu- a maior ou a menor padronização de inputs e
rocráticos e não burocráticos que devem ser outputs que permitirá a maior ou menor roti-
entendidos como tipos ideais. Os modelos nização de procedimentos operacionais, o que
burocráticos caracterizam-se por alto grau de inclui as regras e os recursos que uma organiza-
estabilidade e controle, no âmbito dos quais ção mobiliza para esse fim. Em última instân-
são estabelecidas rotinas altamente racionais cia, a eficiência na busca dos objetivos de uma
e previsíveis para a execução de determina- organização será resultado, portanto, de uma
das tarefas. Os não burocráticos, por sua vez, articulação entre a tecnologia e a estrutura de
compreendem maior grau de variabilidade em que dispõe para a execução de sua missão orga-
termos de rotinas a serem executadas, o que nizacional (necessariamente, transformação de
ocorreria em razão da elevada variabilidade de inputs em outputs).

Quadro 1 - M
 odelos organizacionais, segundo teoria de Perrow

Modelo Burocrático Não burocrático Organizações complexas

Estável, com algumas


Matéria-prima Estável, sem exceções Altamente variável
variações

Padrão, sem muita Padrão, com algumas


Produto final Bastante diferenciado
diversidade diferenças e exceções

Fonte: Perrow (1976).

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March e Simon (1972) ressaltam que, na mobilizadas para que esta seja executada de
mobilização de regras e de recursos disponíveis determinada forma. Com isso, as regras e os
na organização para viabilizar a transformação recursos são transformados em rotinas a serem

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de determinada matéria-prima em produto, operacionalizadas por todos os que, porven-
os sujeitos sofrem limitações cognitivas em tura, venham a ser encarregados da realização
sua racionalidade. Isso equivale a dizer que os de dada função. Isso equivale a dizer que, ao
membros de uma organização não empreendem deparar com determinada regra e determinado
ações mecanicamente: eles têm necessidades, recurso, o sujeito procura conectar ambos em
motivos e impulsos, e também sofrem limita- programas de ação que serão “compreensíveis”,

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ções em seus conhecimentos e em sua capacida- no plano do indivíduo que deve realizar aquela
de de aprender e de resolver problemas. O con- transformação de matéria-prima em produto.
ceito de racionalidade limitada expande signifi-
cativamente as possibilidades de análise em uma Os programas de ação são algo maior do
organização por colocar em xeque o pressuposto que a simples solução individual para determi-
normativo de que os indivíduos tomam sempre nado problema; representam uma espécie de
decisões racionais com a finalidade de alcançar fórmula organizacional mágica, sendo, por-
soluções ótimas para os problemas. tanto, uma espécie de curso disponível de ação
que deve ser acionado por todos sempre que o
Em última instância, March e Simon (1972) cenário assim indicar. Afinal, esses programas
enfatizam que a escolha dos modelos organiza- apresentam uma espécie de combinação ótima
cionais mais adequados para o alcance dos ob- entre regras e recursos, formalidade e informa-
jetivos institucionais nem sempre leva em con- lidade, saber legal e saber prático. O resultado
sideração apenas a natureza da matéria-prima a mais imediato da elaboração dos programas de
ser processada e o que se espera em termos de ação corresponde a transformar as regras for-
produto final. Para esses autores, a racionalidade mais que deveriam orientar a ação de um agen-
organizacional é sempre limitada porque decor- te qualquer em normas de significado compar-
re das percepções que os indivíduos têm sobre sua tilhado entre aqueles que são responsáveis pela
realidade; por isso, é condicionada pelo contexto realização de dada tarefa. Com o passar do
da organização e do indivíduo. tempo, a institucionalização dessa “interpreta-
ção” das regras é tamanha que ela passa a ser a
Logo, os objetivos institucionais só podem norma cogente do comportamento do agente.
ser operacionalizados se transformados em
produtos plausíveis de serem constituídos por Os programas de ação norteiam os funcio-
meio da execução de tarefas praticáveis, que nários sobre “o que fazer” e “como fazer” dia
serão aprendidas pelos membros das organi- após dia. Em uma organização complexa, esses
zações não apenas por meio de programas de programas funcionam como uma ponte que
capacitação mas também pelas vivências com transpõe os objetivos institucionais em trabalho
outros membros organizacionais, que ensi- cotidiano passível de ser realizado pelos funcio-
narão não a tarefa em si, mas as justificativas nários de forma rotineira, ou seja, sem muita

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 70-93 Fev/Mar 2014


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flexibilidade, questionamento ou inovação. No damente compreendido se o analista for capaz
entanto, esses programas não podem ser enten- de entender, além das regras e dos recursos
didos como dotados de conteúdo imutável, já disponíveis, os programas de ação elaborados
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que este pode ser adaptado à diversidade de estí- pelos agentes e as racionalizações formuladas
mulos que lhe dá origem – permitindo, assim, a para justificar o conteúdo programático desses
acomodação das rotinas a novos estímulos – ou planos de ação.
à necessidade de produtos diferenciados.
Assim, propõe-se apresentar os programas
A propósito, esse é o ponto de conexão de ação formulados pelo Saase e pelo Samre an-
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entre os autores abordados. Tanto March e Si- tes e depois da constituição do CIA/BH no mo-
mon (1972) quanto Perrow (1976) destacam nitoramento das atividades desenvolvidas pelos
que toda organização necessita articular seus Executivos municipal e estadual na execução de
objetivos institucionais com a realidade prática medida socioeducativa. Em última instância,
e com o contexto no qual a instituição está in- será problematizado como alterações na cons-
serida. Como ambientes organizacionais estão, tituição e no funcionamento do procedimen-
na maioria das vezes, inseridos em contextos to que apura a responsabilidade infracional do
abertos, sempre existem novos estímulos e re- adolescente provocaram numerosas mudanças
alidades cuja complexidade deve ser filtrada para o Saase, sendo a mais substancial a neces-
pela organização para seus membros por meio sidade de reinterpretação de seu objetivo orga-
da adaptação ou da constituição de novos pro- nizacional e, por conseguinte, de reorganização
gramas de ação. Exatamente por isso, os indiví- dos procedimentos a serem engendrados para a
duos, quando inseridos em um contexto orga- transformação de matéria-prima em produto fi-
nizacional, têm grande necessidade de adaptar nal. Já para o Samre, a implementação do CIA/
as regras formais a seu contexto mais imediato BH não levou à reorientação da missão institu-
de existência, criando regras rotineiras de ação cional do setor, consequentemente, as ativida-
que, desde o ponto de vista do agente, são ca- des dessa agência continuaram, em boa medida,
pazes de garantir mais eficiência (menor custo sendo feitas como no passado.
e mais benefício) à atividade de transformação
de matéria-prima em produtos. De forma bastante específica, trata-se de
identificar as percepções diferenciadas que
A ressalva “desde o ponto de vista do agen- esses setores têm sobre o impacto da consti-
te” é importante porque, conforme salientado tuição e do funcionamento do CIA/BH sobre
anteriormente, os agentes têm racionalidade suas atividades finalísticas. Afinal, se do pon-
limitada e, assim, talvez o que pareça eficiente to de vista legal nada foi alterado, devendo os
aos membros de uma organização não seja exa- setores materializarem as disposições do artigo
tamente eficiente aos olhos de um analista ex- 151 do Estatuto da Criança e do Adolescente
terno. Essas análises deixam claro que o modo (ECA), o que leva essas agências a desenvolver
como uma organização transforma matéria- programas de ação diferenciados antes e depois
-prima em produtos apenas poderá ser adequa- da constituição do CIA/BH?

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A constituição e o funcionamento do com autoridade para investigar a dinâmica do
CIA/BH e seus impactos sobre o Saase delito e, assim, dizer se a conduta foi mesmo
e o Samre cometida pelo adolescente e se constituiu, com

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O Centro Integrado de Atendimento ao efeito, um ato infracional. Em caso afirmativo,
Adolescente Autor de Ato Infracional (CIA/ o adolescente é indiciado e levado à presen-
BH) foi criado a partir da Resolução Conjunta ça do promotor, do defensor e do juiz, que,
no 68, de 2 de setembro de 2008, com o ob- oralmente, realizam as atividades de acusação,
jetivo de transformar em realidade o art. 88, defesa e julgamento do fato, respectivamente,
incisos I, V e VI, do Estatuto da Criança e do em audiência imediata. Nesse momento, tem-

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Adolescente (ECA)7. -se a análise da natureza jurídica do caso, bem
como das circunstâncias em que a infração
De modo geral, os documentos que sistema- ocorreu e qual foi o grau de responsabilidade
tizam essa experiência enfatizam que esse arran- do adolescente para o resultado final produzi-
jo institucional tem como propósito aumentar do. Com base na consideração desses três ele-
a agilidade e a efetividade da “jurisdição penal mentos, o juiz pode decidir, imediatamente,
juvenil, tanto na apuração da prática de atos pela liberação do adolescente sem aplicação
infracionais quanto na aplicação e na execução de medida socioeducativa, o que ocorre pela
de medidas socioeducativas” (TJMG, 2008). A via da absolvição, do perdão, da remissão9, do
grande inovação trazida pelo funcionamento do arquivamento do processo ou da determinação
CIA/BH – desde janeiro de 2009 – é a reunião, de medida protetiva10.
no mesmo espaço físico, das distintas institui-
ções responsáveis pelo processamento do ado- Não sendo possível o desfecho do caso na au-
lescente infrator, quais sejam: Polícia Militar, diência imediata, inicia-se um segundo momento
Polícia Civil, Ministério Público, Defensoria dessa mesma audiência, no qual o juiz, após ouvir
Pública, Judiciário, sistemas estadual e munici- o promotor e o defensor, pode determinar a apli-
pal de execução de medidas socioeducativas. A cação da medida socioeducativa. Esta, por sua vez,
criação do CIA/BH resulta da constatação de poderá ser cumprida em meio aberto (advertência,
que a dispersão dessas diversas organizações pela reparação de dano, liberdade assistida ou prestação
cidade de Belo Horizonte permitia que o ado- de serviços à comunidade) ou fechado (semiliber-
lescente “escapasse” do fluxo de processamento dade ou internação), dependendo do juízo de re-
e, por conseguinte, permanecesse impune em provação que recaia sobre o adolescente e sobre a
relação ao ato infracional que praticara. conduta ilícita praticada por ele.

O fluxo de processamento é iniciado com Uma vez que a medida socioeducativa é


a detecção, pela Polícia Militar, de um ato in- aplicada, o adolescente é encaminhado aos se-
fracional8 cometido por adolescente de até 18 tores que se ocupam de viabilizar o início da
anos. Após esse primeiro registro, o adolescen- execução da medida. Todo esse fluxo de pro-
te é encaminhado ao CIA/BH e, uma vez nesse cedimentos pode ser vislumbrado na Figura 1
espaço físico, é entregue à Polícia Civil, órgão a seguir.

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Figura 1 - Fluxo de processamento do adolescente no CIA/BH

Caso
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encerrado

Remissão

Sim Não

O caso foi Aplicação


arquivado?
Não
de medida
Adolescente protetiva
Sim levado
ao juiz
Sim
Aplicação
Adolescente de medida
Adolescente Encaminhamento Audiência protetiva
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apreendido Polícia Civil responsável preliminar


para o CIA pelo crime
pela PMMG resolveu
o caso?
Audiência de
Caso Não Instrução e
Não encerrado Julgamento
Denúncia
oferecida pelo
Caso Ministério
encerrado Público

Acompanhamento A medida Adolescente


Regionais
do adolescente Encaminhado aplicada foi considerado
da PBH Sim
pelo SAASE ao NAMSEP culpado?
Sim Não foi de
internação?
Adolescente
cumpriu a
Unidade de Sim Não
medida?
Semiliberdade

Acompanhamento Adolescente
Encaminhado à
do caso liberado, caso
Não SUASE (CEIP)
arquivado
pelo SAMRE
Unidade de
Internação
Audiência de
justificação

Fonte: elaboração própria.

Com a determinação da medida socioedu- de ato infracional para cumprimento da me-


cativa, são acionados os setores judiciais que dida. Como o ECA não estabelece claramente
cuidam do monitoramento e da avaliação de essas funções, cada um dos setores interpreta
sua execução. O Setor de Atendimento ao sua missão de forma diferenciada em razão da
Adolescente em Situação Especial (Saase) é o maior ou menor ênfase dada a um desses dis-
responsável por acompanhar as medidas de positivos em detrimento do outro.
meio aberto; já o Setor de Acompanhamento
das Medidas Restritivas de Liberdade (Samre), O Setor de Atendimento ao Adolescente
as de meio fechado. em Situação Especial (Saase)
O Setor de Atendimento ao Adolescente em
Uma importante questão a ser colocada Situação Especial (Saase) tem como atribuição
refere-se a quem deve ser monitorado: se o monitorar o cumprimento das medidas socioe-
adolescente (artigo 151 do ECA) ou as entida- ducativas em meio aberto, sendo que a execução
des (artigo 95 do ECA) que recebem o autor destas é realizada por profissionais da prefeitura

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de Belo Horizonte (PBH), organizados em nove municipal ou adolescentes com dificuldades
regionais com vistas a garantir a cobertura de quanto ao cumprimento da medida.
todo o município (Salzgeber, 2012).

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Por fim, o Saase mantinha alguns proje-
Antes da constituição do CIA/BH, o Saase tos sociais cujo objetivo consistia em viabi-
era responsável por realizar o primeiro acolhi- lizar a reinserção do adolescente infrator na
mento do adolescente sentenciado à medida de sociedade por meio do aprendizado de de-
meio aberto e, depois, contatar uma das regiões terminada profissão.
que o receberiam, por conseguinte, viabilizavam

Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa a medida


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a execução da medida propriamente dita. Em Como se pode perceber, antes da criação do
seguida, a função do Saase residia em acompa- CIA/BH, o Saase se ocupava tanto de monito-
nhar as progressões feitas pelo jovem por meio rar o adolescente em todas as etapas de cumpri-
da leitura dos relatórios encaminhados pelos mento da medida de meio aberto quanto de su-
técnicos da PBH; dos atendimentos realizados pervisionar o trabalho das técnicas da prefeitura
diretamente em sua sede e na sede de cada uma que viabilizavam a execução da medida propria-
das nove regionais; dos estudos de caso realiza- mente dita e, ainda, de avaliar a adequação das
dos em conjunto com os técnicos responsáveis instituições da rede aos propósitos de responsa-
pela execução da medida. Por fim, essa unidade bilização e socialização do adolescente infrator.
encaminhava um relatório ao juiz informando
a performance do adolescente na medida e, por Com a criação do CIA/BH, o Saase passou
consequência, a possibilidade de sua liberação a construir uma percepção diferenciada de seu
ou a importância de uma medida mais grave trabalho, focalizando cada vez mais o monitora-
para que o jovem pudesse sentir efetivamente o mento do trabalho feito pelas técnicas da PBH
binômio responsabilização/socialização. em detrimento da supervisão do próprio ado-
lescente ao longo do cumprimento da medida.
Para além dessas atribuições, o Saase se Nesse contexto, essa agência passou a ser compre-
ocupava de avaliar as instituições que rece- endida como uma instituição que apenas devia
biam adolescentes infratores para a prestação atuar “se alguma coisa saía do eixo”, o que pode
de serviços à comunidade ou para a realização ser entendido como não cumprimento das fun-
de algumas atividades no âmbito da liberdade ções esperadas do técnico da prefeitura, evasão do
assistida. Assim, o Saase verificava se as ins- adolescente da medida ou problemas com as ins-
tituições da rede eram capazes de oferecer ao tituições que recebiam os jovens. Cada vez mais,
jovem algum senso de responsabilização e de enfatizou-se a adequada observância dos procedi-
ressocialização. Essa atividade, muitas vezes, mentos em vez de como o adolescente percebia a
era realizada em conjunto com a PBH a fim medida e se percebia em relação a esta.
de garantir a forte articulação entre todas as
instituições que se encarregavam da medida de Tal mudança na concepção do papel do Sa-
meio aberto; assim, ocasionalmente os técnicos ase pode ser verificada na seguinte frase: “O
dessa unidade podiam atender os do Executivo Saase é a dobradiça que liga o Judiciário à pre-

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feitura”. Em última instância, o Judiciário e a Desde a criação do CIA/BH, os técnicos da
prefeitura são os responsáveis pela execução da prefeitura elaboram sozinhos o Plano Individu-
medida, cabendo ao Saase não monitorá-las, al de Atendimento (PIA) e encaminham esses
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mas comunicar os incidentes às partes, como documentos ao Saase, que deve avaliá-lo do
uma dobradiça comunica as mudanças no di- ponto de vista técnico e verificar sua adequação
recionamento de uma porta à parede. Essa al- ao disposto na sentença do juiz. Em caso positi-
teração pode ser vislumbrada no encerramento vo, o PIA é enviado ao juiz para arquivamento
do trabalho de atendimento dos adolescentes no processo; em caso negativo, retorna à unida-
logo após a aplicação da medida pelo juiz e o de para adequações, com sugestões aos técnicos
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encaminhamento daqueles para as regionais da sobre como procederem em casos semelhantes.


PBH. O encaminhamento passa a ser realizado Mais uma vez, é visível a mudança de foco, que
pelo Núcleo de Atendimento às Medidas So- sai do adolescente que cumpre a medida e pas-
cioeducativas e Protetivas da Prefeitura de Belo sa para o trabalho desenvolvido pela instituição
Horizonte (NAMSEP/PBH). responsável pelo cumprimento da medida.

Assim, uma vez que o adolescente já está Além disso, após a criação do CIA/BH, os
incluído na medida, o Saase realiza estudos psi- acompanhamentos mais diretos do adolescen-
cossociais e pareceres sobre sua adequação à me- te ou da regional passaram a depender de pe-
dida de meio aberto para assessorar os juízes em didos expressos do juiz, apesar de os próprios
suas decisões relativas à mudança da medida e à técnicos do setor destacarem que, quando eles
reinserção do adolescente na sociedade. Contu- percebem alguma irregularidade (por meio da
do, para a realização dessa atividade, os técnicos leitura dos relatórios bimestrais), procuram in-
deixam de se valer de conversas diretas com os tervir no trabalho realizado pelas regionais ou
adolescentes para se basearem apenas nos relató- ainda nas ações desenvolvidas por um técni-
rios encaminhados pelos técnicos da PBH. co em especial. Nos casos mais dramáticos, a
família e/ou o adolescente são acionados para
Antes da criação do CIA/BH, o Saase tinha atendimento direto na sede do Saase. No en-
um técnico de referência para cada regional tanto, essa ação é evitada a todo custo porque
da prefeitura, o qual coexecutava as medidas os técnicos da PBH podem entender que o Sa-
socioeducativas com os técnicos da prefeitura. ase está transcendendo suas responsabilidades
Ambos discutiam o plano de ação que orien- e interferindo em áreas que não lhe competem.
taria a execução da medida e, em especial, as
ações a serem empreendidas em caso de des- Com relação ao acompanhamento da
cumprimento da determinação judicial. Nesse medida socioeducativa propriamente dita,
sentido, qualquer falha no processo da execu- o Saase realiza o controle dos PIAs, os quais
ção era prontamente identificada pelos técni- orientam ainda a leitura e a avaliação dos re-
cos do Saase, já que iam além de suas funções latórios bimestrais. Esses relatórios são envia-
de monitoramento e avaliação, auxiliando os dos primeiramente pelas técnicas da regional
técnicos da PBH nessa atividade. para a Gerência de Coordenação de Medidas

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Socioeducativas (GECMS) e, em seguida, en- primento da medida e o fato de que as sanções
caminhados para o Saase. Com esse relatório, de meio aberto são também mecanismos de pu-
é possível acompanhar o percurso do adoles- nição pela prática de um ato infracional.

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cente no cumprimento da medida e a necessi-
dade de algum tipo de intervenção, como seu Por fim, o Saase atende os adolescentes que
encaminhamento ao Programa de Proteção a comparecem ao setor por demanda espon-
Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte tânea, o que se dá, normalmente, quando o
(PPCAAM). jovem tem a intenção de se inserir em algum
dos programas profissionalizantes que são ad-

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Para além da revisão dos relatórios encami- ministrados diretamente por essa agência11.
nhados pelas regionais da PBH, o Saase mantém
contato direto com os adolescentes infratores Além dos atendimentos, o Saase realiza,
em quatro situações. A primeira ocorre quando em situações bastante excepcionais, estudos de
o adolescente comete nova infração enquanto caso, visitas domiciliares e visitas às escolas a
cumpre medida socioeducativa. Nesse caso, ele fim de enfatizar a importância da restauração
é encaminhado ao Saase, que explica que, em dos vínculos rompidos com a prática do ato in-
situações como essa, o adolescente pode vir a ser fracional para que o adolescente possa, ao final
acautelado e, depois, encaminhado a uma me- da medida, ser reinserido de forma efetiva na
dida de semiliberdade por seu novo ato infracio- sociedade. Outra atividade realizada excepcio-
nal indicar sua incapacidade em compreender o nalmente é a promoção de reuniões com o ob-
caráter ilícito de sua conduta. Por conseguinte, jetivo de aumentar o diálogo entre os técnicos
o Saase explana sobre a necessidade de uma res- e os integrantes das diversas instituições que
ponsabilização maior. compõem a rede municipal de cumprimento
de medidas socioeducativas.
A segunda situação de contato entre o ado-
lescente infrator e o Saase se dá quando o regi- A Figura 2 esquematiza o fluxo dos encami-
me aberto se apresenta como uma progressão nhamentos realizados pelo Saase após a consti-
à medida cumprida no semiaberto e, por isso, tuição e o início de funcionamento do CIA/BH.
precisa ser informado por algum técnico do
Judiciário sobre a mudança em sua sanção e o O diagrama não destaca, porém, como o
que isso de fato significa do ponto de vista do Saase passou a interpretar sua função de for-
binômio responsabilização/socialização. ma diferenciada após a criação do CIA/BH.
O Setor deixou de utilizar as próprias regras
A terceira situação ocorre quando o adoles- e recursos para monitorar o adolescente in-
cente recebe uma intimação do cartório por não frator no processo de execução da medida
estar cumprindo a medida e precisa ser notifi- socioeducativa e passou a monitorar o tra-
cado sobre as consequências de tal ato. Nesse balho realizado pela PBH na viabilização da
sentido, o atendimento realizado pelo Saase tem execução das medidas. Em última instância,
como propósito ressaltar a importância do cum- essa reinterpretação das tarefas a serem re-

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 70-93 Fev/Mar 2014


81
Figura 2 - F
 luxo de procedimentos do Saase
(inclui as atividades regimentais e as extraordinárias)
Artigos

GECMES

Cobrança
Convocação de relatórios Visitas Domiciliares
bimestrais

Adolescente Visitas em Escolas


comparece no SAASE
Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa a medida
socioeducativa? O papel dos técnicos judiciários
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, Frederico Couto Marinho, Tarcísio Perdigão e Isabela Gonçalves

Intimação Acompanhamento
da medida Estudos de Casos
socioeducativa

Registro no Análise de Processos


Banco de Dados
Demanda
espontânea Análise de Listagens

Conversa sobre Atendimento ao


a importância do Adolescente e aos
cumprimento Familiares
Programas
da medida do Executivo
Acompanhados pelo
SAASE
Verificou
ONG dO CARATÊ
ameaça?
Encaminhamento
para Regional
O Adolescente
Sim aceitou?
CATU

PPCAAM
Sim
Prodabel

Encaminhamento ASPRON
para Programas
PRÓ-JOVEM

OLé

Pai-PJ

SENAQ

Fonte: elaboração própria.

alizadas no setor tem como possível justifi- exatamente as mesmas, uma vez que no caso
cativa o maior protagonismo do Executivo das medidas de semiliberdade e internação o
municipal, que constituiu um núcleo para Executivo estadual não mudou sua atuação
o recebimento dos adolescentes logo após a após a constituição e o funcionamento do
audiência que determina a inserção do ado- CIA/BH. Não houve, assim, qualquer tipo
lescente infrator na medida. As atividades de reinterpretação da missão institucional
do setor judicial, porém, continuaram sendo do órgão judicial.

82 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 70-93 Fev/Mar 2014


Em parte, o que a descrição anterior parece in- O Setor de Acompanhamento das Medi-
dicar é como uma mudança de contexto leva os das Restritivas de Liberdade (Samre)
agentes à formulação de um novo programa de O Setor de Acompanhamento das Me-

Artigos
ação, mas sem muito raciocínio a respeito do im- didas Restritivas de Liberdade (Samre) tem
pacto dessa reinterpretação da missão institucional como atribuição monitorar o cumprimento
sobre a utilidade do setor. Nesse cenário, o Saase das medidas socioeducativas em semiliberda-
foi progressivamente perdendo o protagonismo de de, internação provisória12 e internação regular.
determinar como o adolescente cumpriria a medi- As medidas propriamente ditas são executadas
da de meio aberto para atuar apenas nos proble- pelo Executivo estadual por meio dos esta-

Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa a medida


socioeducativa? O papel dos técnicos judiciários
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, Frederico Couto Marinho, Tarcísio Perdigão e Isabela Gonçalves
mas decorrentes da execução da sanção. belecimentos gerenciados pela Subsecretaria
de Atendimento às Medidas Socioeducativas
Com isso, é possível afirmar que o Saase (Suase), que integra a estrutura da Secretaria
perdeu seu protagonismo na determinação das de Estado de Defesa Social (Seds), tal como se
regras a serem observadas ao longo da execução pode depreender do Quadro 2.
para tão somente verificar se elas estão ou não
sendo cumpridas pelo Executivo municipal. Ao contrário do que ocorre no caso do Saa-
Como o Saase não realiza mais o atendimento se, no Samre não parece existir um dilema entre
inicial, também não direciona de que modo a acompanhar o adolescente infrator ao longo da
medida deve ser cumprida e, por conseguinte, execução da medida ou monitorar o trabalho
como o PIA deve ser elaborado. Por não chan- das unidades apresentadas no Quadro.
celar o credenciamento das entidades na rede
de atendimento, o setor apenas atua em casos Tanto antes quanto depois da constituição
nos quais a unidade apresenta problemas. Adi- e do funcionamento do CIA/BH, o Samre in-
cionalmente, o Saase não atua mais na sensibi- terpreta as regras constantes do ECA na pers-
lização do adolescente infrator no que se refere pectiva de que sua missão reside no monito-
à importância da medida socioeducativa e de ramento do adolescente infrator ao longo do
como seu cumprimento é simultaneamente um processo de cumprimento da medida. Por isso,
elemento de responsabilização e de socialização todo contato realizado com as unidades geren-
antes mesmo do início de sua execução. Contu- ciadas pela Suase visa acessar os adolescentes
do, o setor é chamado a realizar essa sua função em atendimento nesses estabelecimentos. Exa-
quando o adolescente se evade da medida. tamente por isso, em distintos momentos do
trabalho de campo, tanto no CIA/BH quanto
Em última instância, com a constituição nas próprias unidades, o Samre não era apre-
do CIA/BH, o Saase deixou de ter função sentado como supervisor da Suase, tampouco
preventiva, em termos de evitar as “perdas” era descrito como a dobradiça entre o Judici-
de adolescentes infratores ao longo da execu- ário e o Executivo estadual. Na maioria das
ção, para atuar apenas de forma corretiva, no situações, o Samre era apresentado como o
sentido de recolocá-los no fluxo de efetivação “grande parceiro” na execução das medidas de
da medida socioeducativa. semiliberdade e internação.

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 70-93 Fev/Mar 2014


83
Quadro 2 - Unidades
 mantidas pela Suase para o cumprimento das
medidas de semiliberdade, internação provisória
e internação regular
Artigos

Regime de cumprimento de medida Unidades mantidas pela Suase

Casa de Semiliberdade São João Batista


Semiliberdade Casa de Semiliberdade Letícia
Casa de Semiliberdade Santa Amélia

Internação provisória Centro de Internação Provisória Dom Bosco (Ceip)


Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa a medida
socioeducativa? O papel dos técnicos judiciários
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, Frederico Couto Marinho, Tarcísio Perdigão e Isabela Gonçalves

Centro de Atendimento ao Adolescente (Cead)


Centro de Reeducação Social São Jerônimo (CRSSJ)
Internação regular
Centro Socioeducativo Horto (CSEHO)
Unidade de Internação Santa Helena

Fonte: SUASE, 2013.

Em parte isso pode ser explicado pelo fato Nesse período, o técnico de referência desse
de que, no Samre, cada um dos técnicos é res- estabelecimento é o responsável por fazer o
ponsável pelo acompanhamento de todos os primeiro atendimento/acolhida do adolescen-
adolescentes que estão cumprindo medida em te infrator e, em seguida, rascunhar a primeira
cada uma das unidades listadas no Quadro 2. versão do Plano Individual de Atendimento
Talvez a grande ressalva relacione-se ao distan- (PIA). Em seguida, a Suase disponibiliza uma
ciamento desse procedimento daquele adota- vaga dentro do sistema de medida socioeduca-
do pelo Saase, que não possui metodologia de tiva para que o adolescente possa cumprir sua
atribuição de casos, de adolescentes ou de uni- sanção, de acordo com a modalidade determi-
dades a um determinado técnico. Se no Saase nada pelo juiz: semiliberdade ou internação.
a atribuição do técnico é dada pela “ordem de Após seu encaminhamento à unidade de cum-
chegada” do caso, anotada nos livros que orga- primento da medida socioeducativa de semili-
nizam a rotina do setor, no Samre cada técni- berdade e internação, o adolescente é apresen-
co sabe a priori a quantidade de casos que vai tado ao seu técnico de referência.
atender, já que ele é prontamente notificado a
cada nova entrada de adolescentes em sua uni- Nesse momento, o rascunho do PIA é revi-
dade de referência. sado para que o definitivo possa ser construído
e, por conseguinte, executado durante a pri-
De modo geral, o fluxo de procedimentos vação parcial ou total da liberdade do adoles-
do Samre é iniciado com a sentença do juiz e cente. Logo, é importante destacar que o tra-
o encaminhamento do adolescente infrator à balho do técnico do Samre passa a ser atender
unidade de acautelamento provisório (Ceip). o adolescente infrator e estudar seu caso a fim

84 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 70-93 Fev/Mar 2014


de verificar se o PIA está sendo adequadamen- -preparado para o retorno à sociedade. É impor-
te cumprido e se, considerando os avanços e tante destacar que os estudos de caso ocorrem
retrocessos apresentados pela pessoa, são pos- quinzenalmente e podem abranger qualquer

Artigos
síveis reelaborações nesse instrumento e até adolescente internado, incluindo os que ainda
progressões e regressões no regime de cumpri- se encontram no Ceip, já que o critério para a
mento da medida socioeducativa. escolha do caso é a situação de vulnerabilidade
apresentada pelos adolescentes ou a possibilida-
Para o Samre, o atendimento individual de de seu desligamento da unidade.
constitui um dos recursos mais importantes

Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa a medida


socioeducativa? O papel dos técnicos judiciários
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, Frederico Couto Marinho, Tarcísio Perdigão e Isabela Gonçalves
para o conhecimento do adolescente e de seu Assim como o Saase, o Samre também in-
caso tanto nos primeiros contatos (quando ele tervém em situações excepcionais, tais como
ainda está acautelado) quanto no decorrer do motins, rebeliões, depredações, desentendi-
cumprimento da medida socioeducativa; por mentos, ou quando existe alguma denúncia de
isso, enfatizam-se os atendimentos sistematica- violência ou qualquer tipo de abuso por parte
mente em ambos os casos. Afinal, esse é o me- de algum membro da equipe da unidade.
canismo que permite um conhecimento mais
detalhado do adolescente infrator e, por con- Além disso, o Samre é responsável pela vis-
sequência, das motivações que ele teve para a toria dos espaços físicos das unidades como
prática do ato infracional e até das ameaças de decorrência da determinação do Conselho Na-
morte que possa estar sofrendo, o que, por sua cional de Justiça (CNJ), que procura garantir
vez, condiciona sua entrada no programa de que os internados tenham condições dignas
Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados para o cumprimento das medidas socioeduca-
de Morte (PPCAAM). tivas. Desse modo, no início de cada mês, o
técnico de referência se desloca até sua unida-
Outro procedimento empregado com o ob- de para vistoriar todas as dependências, preen-
jetivo de monitorar como o adolescente tem chendo o formulário padrão para a realização
executado a medida socioeducativa é o estudo dessa inspeção; em seguida, envia-o ao CNJ
de caso. Esse procedimento é uma reunião fe- para que este possa avaliar a qualidade das uni-
chada e sigilosa na qual estão presentes, neces- dades de internação em todo o Brasil.
sariamente, a equipe da unidade e o técnico de
referência do Samre. Outros atores podem estar Com base nas informações coletadas nos
presentes, mas os que atualmente comparecem atendimentos individuais, nos estudos de caso
com mais frequência são os membros do Minis- e nas visitas às unidades, cada técnico deve re-
tério Público e da Defensoria Pública. Durante digir um relatório destinado ao juiz de execu-
o encontro, informações e pontos de vista dos ção da Vara Infracional contendo uma análise
profissionais sobre os casos são apresentados e sobre cada um dos adolescentes internados.
debatidos a fim de que sejam planejadas, co- Parte importante desse relatório é o posiciona-
letivamente, atividades às quais o adolescente mento do técnico sobre o caso, com sugestões
será submetido para que possa ser mais bem- específicas sobre concessão de benefícios, pro-

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 70-93 Fev/Mar 2014


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gressão ou ainda regressão de regime, que, por alizado pelo Saase), o trabalho desse setor é
sua vez, servirão de insumo para as decisões estruturado por meio do contato direto com
do juiz. Assim, a rotina dos técnicos do Samre os adolescentes, viabilizado pelo atendimen-
Artigos

pode ser resumida conforme a Figura 3. to sistemático e pelo estudo de caso, quando
excepcionalidades são verificadas ou quando
De acordo com as informações coletadas o desligamento do adolescente se aproxima.
no trabalho de campo e sistematizadas nesta Ademais, de modo bastante subsidiário, o Sa-
seção, os técnicos do Samre são responsáveis mre inspeciona as unidades a fim de garantir
por monitorar o comportamento dos adoles- um espaço físico condizente com a realização
Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa a medida
socioeducativa? O papel dos técnicos judiciários
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, Frederico Couto Marinho, Tarcísio Perdigão e Isabela Gonçalves

centes internados em cada uma das unidades das atividades propostas tanto na medida de
listadas no Quadro 2. Dessa forma, em vez semiliberdade quanto na medida de interna-
de avaliarem o trabalho da unidade, sistema- ção, denotando que sua maior preocupação
tizado nos relatórios de atendimento e em é monitorar o adolescente, e não o trabalho
outros documentos do gênero (tal como re- realizado pelas unidades.

Figura 3 - F
 luxo de procedimentos do Samre

Estudos de caso
Acionar PPCAAM

Na Unidade Atendimento
Sim
reservado com o
adolescente

Identificou
ameaça Vistoria mensal no
de morte?
espaço físico da unidade CNJ
e elaboração de relatório

Produção de
Informe de entrada
relatórios contendo Avaliação e
em unidade de Acompanhamento da medida pela técanica de referência
pareceres técnicos sentença do juiz
internação ou
sobre o caso
semi liberdade

Informes sobre Avaliação e


autorização de Relatórios Contínua
eventuais problemas trimestrais
eventuais PIA avaliação do PIA
no cumprimento interrupções da individualizados
da medida medida

Equipe da unidade de internação ou semi liberdade

Fonte: elaboração própria.

86 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 70-93 Fev/Mar 2014


Considerações finais No entanto, há um hiato, ou seja, um gran-
Há alguns anos o Centro de Estudos de de descompasso entre a concepção e a aplica-
Criminalidade e Segurança Pública (Crisp) ção desse marco legal: além das resistências da

Artigos
analisa as políticas públicas destinadas aos opinião pública e da mídia, as práticas e as re-
adolescentes autores de ato infracional, espe- presentações sobre a menoridade permanecem
cialmente o sistema de execução das medidas nas organizações do campo sociojudiciário, es-
socioeducativas e o funcionamento da justi- pecialmente em um período de aumento do
ça juvenil (CRISP, 2006; 2008; 2010; 2012; sentimento de insegurança e de fortes pressões
Vargas; Marinho, 2008). e demandas repressivas. Ao mesmo tempo, o

Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa a medida


socioeducativa? O papel dos técnicos judiciários
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, Frederico Couto Marinho, Tarcísio Perdigão e Isabela Gonçalves
marco legal se sujeita ao percurso histórico e à
Esse programa de pesquisa tem investigado cultura institucional dos órgãos que compõem
o processamento institucional dos adolescentes a justiça juvenil e o sistema socioeducativo. A
em conflito com a lei, analisando seu contex- cultura e a prática dos profissionais do campo
to simbólico e a prática dos profissionais que sociojudiciário podem fortalecer ou enfraque-
implementam a justiça juvenil e as medidas cer o marco legal através de mediações, resis-
socioeducativas. Os resultados principais indi- tências e adaptações.
caram a superação, no plano legal, do modelo
tutelar-repressivo com a expansão das garantias Assim, considerando as conclusões das
processuais e a noção de sujeito de direitos ao investigações anteriores, bem como o marco
adolescente acusado de infringir a lei. normativo da administração das infrações ju-
venis, o objetivo neste artigo foi analisar o tra-
Ao contrário das legislações anteriores, o balho dos setores técnicos da Vara da Infância
marco legal atual – o Estatuto da Criança e do e Juventude na cidade de Belo Horizonte na
Adolescente (ECA) e o Sistema Nacional de atividade de supervisão das medidas socioedu-
Atendimento Socioeducativo (Sinase) – ado- cativas. Para tanto, os fluxos de procedimen-
ta parâmetros da Convenção dos Direitos da to do Setor de Atendimento ao Adolescente
Criança (CDC) e trouxe inovações profundas em Situação Especial (Saase) e do Setor de
ao fundamentar e balizar a resposta institu- Acompanhamento das Medidas Restritivas de
cional ao adolescente infrator na fase proces- Liberdade (Samre) foram escrutinados, bem
sual e na fase de execução do paradigma da como a interpretação que cada um deles fazia
“proteção integral”. As inovações e conquistas dos dispositivos que sustentam sua existência
dos eixos constitutivos desse paradigma dei- no ECA antes e depois da constituição e do
xam evidente que se trata de um marco não início de funcionamento do Centro Integrado
só para a fase processual, com a regulamen- de Atendimento ao Adolescente Autor de Ato
tação das garantias processuais, concebendo Infracional (CIA/BH).
o adolescente como “sujeito de direitos”, mas
também para a fase de execução das medidas Certamente, uma das maiores lacunas do Es-
socioeducativas, com sua integração à “rede tatuto são a regulamentação e o monitoramento
de políticas públicas”. da implementação das políticas de atendimento

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 70-93 Fev/Mar 2014


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ao adolescente em conflito com a lei. Mesmo Nesses termos, é importante destacar que,
com a vigência de mais de 20 anos do ECA, de acordo com as determinações do ECA, tan-
persistem as marcas punitivas de controle e ex- to o Saase quanto o Samre têm exatamente as
Artigos

clusão social, como atestam as graves violações mesmas funções do ponto de vista do serviço
de direitos nas instituições socioeducativas (se- a ser prestado para que o monitoramento da
gundo levantamento do Conselho Nacional de execução da medida socioeducativa de meio
Justiça em 2011, 19 estabelecimentos de inter- aberto ou fechado se viabilize. Assim, o que
nação no país apresentaram registros de homi- explica os programas de ação diferenciados é
cídio de adolescentes, em 34 estabelecimentos a interpretação que esses setores fazem das dis-
Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa a medida
socioeducativa? O papel dos técnicos judiciários
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registrou-se violência sexual contra os adoles- posições legais antes e depois da constituição
centes, 7 estabelecimentos computaram mortes do CIA/BH.
de adolescentes por doenças preexistentes e em
2 estabelecimentos foram registrados casos de Desse modo, antes do CIA/BH, o Saase
suicídio de adolescentes), a falta de condições entendia que sua missão era monitorar o ado-
de atendimento das equipes técnicas e a ausên- lescente no processo de execução das medidas
cia de planejamento municipal e estadual que socioeducativas, e, por isso, a ênfase recaía so-
tenha as prioridades e os pontos estratégicos de bre o atendimento regular do adolescente, des-
atuação claramente definidos (CNJ, 2012). Por de o momento do estabelecimento da medida
isso, com a aprovação do Sinase, foi sancionada até seu encerramento. Exatamente por essa ra-
a regulamentação do processo socioeducativo zão, cada um dos técnicos dessa unidade era
para suprimir a discricionariedade e o arbítrio responsável por uma regional da prefeitura de
na execução das medidas socioeducativas. Belo Horizonte (PBH) a fim de que acompa-
nhasse, de forma bastante detalhada, o traba-
Buscou-se, portanto, verificar como a mudan- lho realizado com o adolescente infrator. Após
ça do contexto de funcionamento dessas agên- o CIA/BH, o Saase passou a entender que sua
cias (CIA/BH) impactava os programas de ação missão é monitorar o trabalho realizado pela
mobilizados por elas na atividade de transformar PBH e, assim, o contato com o adolescente foi
matérias-primas (adolescentes infratores senten- relegado apenas às situações excepcionais, ou
ciados ao cumprimento de medidas socioeducati- seja, quando a execução da medida não está
vas) em produtos (adolescentes responsabilizados sendo realizada de acordo com o esperado.
pelo cometimento da infração e socializados de Além disso, os técnicos do setor deixaram de
acordo com os valores vigentes). Exatamente por ser distribuídos por regional e todos eles pas-
isso, teóricos da sociologia das organizações foram saram a desempenhar a função de monitora-
mobilizados na tentativa de identificar as variáveis mento e de avaliação dos relatórios enviados
que poderiam explicar como, apesar de o Saase e pelos técnicos da PBH ao setor. Em última
o Samre terem as mesmas regras e recursos, bem instância, o Saase atua apenas quando os técni-
como as mesmas matérias-primas e os mesmos cos do Executivo municipal não são capazes de
produtos, os programas de ação executados por viabilizar a adequada inserção do adolescente
essas agências são completamente distintos. nas medidas socioeducativas.

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No caso do Samre, não houve mudança na PBH nesse arranjo organizacional, o Saase se
interpretação da missão do setor com a cons- viu obrigado a reinterpretar sua missão insti-
tituição e o início do funcionamento do CIA/ tucional e, com isso, seu foco passou a ser o

Artigos
BH, pelo contrário. O Samre parece ter sempre monitoramento das regionais da prefeitura em
interpretado sua função como o monitoramento detrimento dos adolescentes. Nesse contexto,
do adolescente infrator em cumprimento de me- é interessante especular se o Núcleo de Aten-
dida socioeducativa. Nesse sentido, cada técnico dimento às Medidas Socioeducativas e Proteti-
é responsável por uma unidade, com o objetivo vas da Prefeitura de Belo Horizonte (Namsep)
de viabilizar sua identificação com os adolescen- teria encontrado espaço no arranjo do CIA/

Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa a medida


socioeducativa? O papel dos técnicos judiciários
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tes infratores que ali estão. Exatamente por isso, BH caso o trabalho realizado pelo Saase tivesse
antes da elaboração do Plano Individual de Aten- foco mais definido. Ao que tudo indica, essa
dimento (PIA), o adolescente infrator é atendido dubiedade gerou uma lacuna que, uma vez
pelos técnicos do Samre. Espera-se, assim, que o ocupada, levou à necessidade de reelaboração
plano de execução de medida socioeducativa seja do programa de ação do setor, ainda que as re-
viável para aquele indivíduo. Além disso, quando gras que orientam sua constituição e funciona-
o jovem apresenta problemas ou está prestes a ser mento não se tenham alterado.
liberado, estudos de caso são realizados, criando
rotinas a serem observadas em outras situações No caso do Samre, talvez em razão do foco
semelhantes. Nesse contexto, o trabalho realiza- bastante claro dessa agência, o Executivo esta-
do com as unidades é excepcional, sendo empre- dual não chegou a constituir um núcleo para
endido apenas quando são verificados problemas o atendimento inicial dos adolescentes acaute-
com os adolescentes infratores, tais como con- lados, muito menos para o encaminhamento
flitos com a equipe técnica, violação de direitos, destes a uma das unidades listadas no Quadro
violência sofrida no estabelecimento e estagna- 2. Esse trabalho continuou a ser realizado pe-
ção no PIA. los técnicos do setor, cuja competência para o
monitoramento do adolescente infrator é esta-
Cumpre indagar o que explicaria essa dife- belecida de acordo com a unidade à qual este é
rença de comportamento do Saase e do Samre conduzido. Nesse contexto, o programa de ação
após a constituição do CIA/BH. Em primeiro do Samre permanece o mesmo antes e depois
plano, parece evidente que o primeiro setor do CIA/BH, assim como as regras que orientam
nunca teve muita clareza sobre qual deveria ser a constituição e o funcionamento desse setor.
o foco de sua atuação: o adolescente ou a regio-
nal da PBH. Já o segundo sempre centrou sua No entanto, uma última indagação deve
ação no monitoramento do adolescente, sendo ser respondida: o que explica a possibilida-
a unidade apenas uma externalidade, uma vez de de o Saase e o Samre interpretarem suas
que o jovem se encontra internado nesse caso. missões institucionais de forma tão distinta
se o ECA não faz qualquer tipo de distinção
Com a constituição do CIA/BH e, por entre os dois setores? Em parte, isso se res-
conseguinte, com a inserção de um núcleo da ponde pela dubiedade da regra, que, em um

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artigo, enfatiza a importância de monitorar Trata-se de imprecisão do ECA sobre qual é
o adolescente infrator e, em outro, focaliza a função dos setores técnicos judiciais: fiscalizar
os estabelecimentos e programas que o rece- as entidades responsáveis por viabilizar a execu-
Artigos

bem para o cumprimento da medida socio- ção das medidas socioeducativas (artigo 95) ou
educativa. Em última instância, esses resul- monitorar o adolescente ao longo da execução
tados apontam a dificuldade que os setores da medida, atendendo-o, aconselhando-o e, por
técnicos do Judiciário têm para compreen- conseguinte, informando ao juiz tanto seus avan-
der e, por conseguinte, determinar qual é a ços quanto seus retrocessos (artigo 151). Em um
principal razão de sua existência. Afinal, se cenário como esse, mudanças na reinterpretação
Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa a medida
socioeducativa? O papel dos técnicos judiciários
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, Frederico Couto Marinho, Tarcísio Perdigão e Isabela Gonçalves

o Poder Judiciário tem a função de julgar as da missão do setor podem implicar não apenas
infrações cometidas por adolescentes, a im- alteração nos programas de ação mas também na
pressão inicial é a de que os setores técnicos identificação de matérias-primas e de produtos
deveriam atuar tão somente no auxílio dessa completamente diferenciados; o que, por sua vez,
atividade fim. pode alterar a identidade do setor.

1. Afinal, mesmo a função de fiscalização dos estabelecimentos compete ao Ministério Público, e não ao Judiciário, nos termos da
própria Lei Orgânica do Ministério Público (lei 8.625, de 12 de fevereiro de 1993).

2. Este trabalho utilizou princípios da etnometodologia na observação direta do funcionamento do Saase e do SAMRE porque, nas
conversas guiadas com as técnicas judiciais, procurou-se, mais do que entender quais atividades desempenhavam, identificar
as justificativas e as racionalizações empregadas por elas para a descrição das tarefas realizadas e, ainda, a adequação de suas
rotinas ao que entendiam como missão de cada um desses setores. Sobre os princípios de etnometodologia, ver Garfinkel (1963

3. A palavra ‘comprovadamente’ aparece entre aspas porque uma das maiores críticas feitas ao funcionamento do CIA/BH é a
supressão da fase de investigação; e, por isso, a responsabilização do menor ocorre ainda que restem dúvidas sobre a autoria do
fato. Essa discussão será retomada mais adiante.

4. O artigo 95 do ECA estabelece que o Poder Judiciário tem competência para fiscalizar as entidades de atendimento responsáveis
pela execução de programas socioeducativos e de proteção destinados a crianças e adolescentes.

5. O artigo 151 do ECA estabelece que compete à equipe interprofissional do Poder Judiciário “fornecer subsídios por escrito, mediante
laudos, ou verbalmente, na audiência, e bem assim desenvolver trabalhos de aconselhamento, orientação, encaminhamento, prevenção
e outros, tudo sob a imediata subordinação à autoridade judiciária, assegurada a livre manifestação do ponto de vista técnico”.

6. Essa atividade é, em última instância, o que a etnometodologia pretende realizar, ou seja, apresentar as racionalizações
empreendidas pelos sujeitos para explicar o que fazem, como fazem e, especialmente, por que fazem.

7. A lei 8.069, de 13 de julho de 1990, dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Seu artigo 88
estabelece as diretrizes da política de atendimento, sendo que o inciso I faz referência à “municipalização do atendimento”; o
inciso V, “à integração operacional de órgãos do Judiciário, Ministério Público, Defensoria, Segurança Pública e Assistência Social,
preferencialmente em um mesmo local, para efeito de agilização do atendimento inicial a adolescente a quem se atribua autoria
de ato infracional”; e o VI, “à integração operacional de órgãos do Judiciário, Ministério Público, Defensoria, Conselho Tutelar
e encarregados da execução das políticas sociais básicas e de assistência social, para efeito de agilização do atendimento de
crianças e de adolescentes inseridos em programas de acolhimento familiar ou institucional, com vista a sua rápida reintegração à
família de origem ou, se tal solução se mostrar comprovadamente inviável, sua colocação em família substituta, em quaisquer das
modalidades previstas no artigo 28 desta Lei”.

8. Por ato infracional entendem-se todas as ações praticadas por adolescentes definidas como crime no Código Penal, sendo que a
criminação (Misse, 1999) do adolescente é, na prática, a rotulação feita pela Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), que pode ter
início com a chamada registrada no 190 (na qual a vítima ou a testemunha comunica à PMMG a ocorrência do delito) ou com o
patrulhamento ostensivo da polícia em determinada área, permitindo flagrar o cometimento do ato infracional.

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9. De acordo com Trassi (2009), remissão significa clamor, misericórdia e perdão. Nos termos do ECA, dois são os tipos de remissão
possíveis: a remissão pré-processual (artigo 126, caput, ECA), que é aquela oferecida pelo Ministério Público antes de iniciado
o procedimento judicial para a apuração de ato infracional, tendo como efeito prático a exclusão do processo; e a remissão
processual (artigp 126, § único, ECA), que é oferecida quando o procedimento judicial já foi instaurado, tendo como efeito prático a
suspensão ou a extinção do processo.

Artigos
10. As medidas protetivas são aquelas que procuram proteger o adolescente da prática de um novo ato infracional e, por isso, buscam
fortalecer os laços familiares e comunitários do adolescente. Nos termos do artigo 101, são medidas protetivas aplicáveis ao
adolescente infrator: “I – encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de responsabilidade; II – orientação, apoio
e acompanhamento temporários; III – matrícula e frequência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino fundamental; IV –
inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à família, à criança e ao adolescente; V – requisição de tratamento médico,
psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial; VI – inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio,
orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos; VII – acolhimento institucional; VIII – inclusão em programa de acolhimento
familiar; IX – colocação em família substituta”.

11. São projetos coordenados/executados diretamente pelo Saase: Projeto “Olé”, de inclusão digital; Projeto Um Golpe de Cidadania
– Karatê, aulas gratuitas de caratê; convênio com ABRAÇO, quarenta vagas garantidas para a Vara Infracional para tratamento

Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa a medida


socioeducativa? O papel dos técnicos judiciários
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, Frederico Couto Marinho, Tarcísio Perdigão e Isabela Gonçalves
ambulatorial a adolescentes dependentes de drogas; Programa Voluntários da Cidadania; Projeto Brigadista, de formação de
brigadistas pelo corpo de bombeiros; Projeto Yara Tupinambá, que visa à formação profissional e cultural; Projeto Policiart, de
realização de oficinas de percussão e dança em parceria com a Polícia Militar e a prefeitura; ProJovem Urbano; e Programa Chefs
do Amanhã.

12. Nos termos do artigo 108 do ECA, a internação provisória é aquela que ocorre antes da sentença e pode ser determinada pelo
prazo máximo de 45 dias.

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 70-93 Fev/Mar 2014


91
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92 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 70-93 Fev/Mar 2014


Monitorar o adolescente ou o estabelecimento
que executa a medida socioeducativa? O papel dos
técnicos judiciários

Artigos
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, Frederico Couto Marinho, Tarcísio Perdigão e Isabela Gonçalves

Resumen Abstract

Monitorar o adolescente ou o estabelecimento que executa a medida


socioeducativa? O papel dos técnicos judiciários
Ludmila Mendonça Lopes Ribeiro, Frederico Couto Marinho, Tarcísio Perdigão e Isabela Gonçalves
¿Monitorear al adolescente o al establecimiento que Monitoring of socio-educational measures for delinquent
ejecuta la medida socioeducativa? El papel de los children should target the children themselves or the
técnicos judiciales institution implementing these measures?
Desde 2009, se encuentra en funcionamiento el Centro Since 2009, the CIA (Integrated Center for Delinquent Children),
Integrado de Atención al Adolescente Autor de Infracción established to bring together, within the same physical space,
(CIA), constituido para reunir, en el mismo espacio físico, a all institutions responsible for the institutional processing of
todas las instituciones encargadas de procesar al adolescente adolescents in violation of the law. Another relevant change
en conflicto con la ley. Otro cambio relevante fue la creación was the creation of Sinase (the National System of Socio-
del Sistema Nacional de Atención Socioeducativa (Sinase), educational Services), which prioritizes the monitoring and
que prioriza el monitoreo y la evaluación de la calidad de evaluation of the quality of socio-educational programs,
los programas de atención socioeducativa a partir del through the definition of categories and evaluation indicators.
establecimiento de categorías e indicadores de evaluación Thus, the objective of this study is to analyze the work of the
para las medidas socioeducativas. De este modo, este two technical sectors of the Children’s and Juvenile Court in
estudio tiene por objetivo analizar el trabajo de los dos the supervision of socio-educational measures and to discuss
sectores técnicos del Juzgado de la Infancia y la Juventud en la how these sectors put into practice their institutional missions
supervisión de las medidas socioeducativas y problematizar in the face of changes in the organization and operation of
cómo esos sectores han ido operando su misión institucional the juvenile court system. In this context, it is argued that
ante los cambios vivenciados en la organización y en el the changes mentioned had an impact on the way in which
funcionamiento del sistema de justicia juvenil. En este only one of these two sectors interprets and executes its
contexto, se argumenta que los cambios mencionados mission in the supervision of socio-educational measures.
impactaron en la forma de interpretar y ejecutar su misión The results point out difficulties faced by these organizations
de uno de los dos sectores que se encargan de supervisar in establishing the reason for their existence.
la medida socioeducativa, pero no del otro. Los resultados
apuntan la dificultad de esas agencias de establecer cuál es Keywords: Juvenile courts; monitoring; socio-educational
la razón de su existir. measures.

Palabras clave: Justicia juvenil; monitoreo; medidas


socioeducativas.

Data de recebimento: 08/07/2013


Data de aprovação: 05/08/2013

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Representações sociais sobre
a violência em egressos do
Artigos

sistema prisional

Thalita Mara Santos


Representações sociais sobre a violência em egressos
do sistema prisional
Thalita Mara Santos e Eleusa Gallo Rosenburg

Graduada em Psicologia pela Faculdade Pitágoras de Uberlândia (2011). Mestranda em Psicologia Aplicada - Linha de Pesquisa:
Psicopatologia, Psicanálise e Cultura pela Universidade Federal de Uberlândia. Psicóloga Social da Prefeitura Municipal de Uberlândia.
thalitapsico@yahoo.com.br

Eleusa Gallo Rosenburg


Possui formação e licenciatura em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia (1993). Mestrado com área de concentração na
Saúde da Comunidade, pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (2002). Doutorado em Psicologia
pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto/USP (2011). Atualmente é docente da graduação em Psicologia da
Faculdade Pitágoras-Uberlândia/MG.
eleusarosenburg@gmail.com

Resumo
O presente trabalho tem como objetivo identificar aspectos das vivências, especialmente aquelas relacionadas às situa-
ções de violência, dos egressos do sistema prisional da cidade de Uberlândia, Minas Gerais, e conhecer as representações
sociais dos entrevistados sobre violência. A unidade de pesquisa abarcou oito egressos prisionais atendidos pelo Progra-
ma de Inclusão Social de Egressos do Sistema Prisional (PrEsp) de Uberlândia. Foram realizadas entrevistas semiestrutu-
radas com o registro de áudio das respostas, sendo discutidos a naturalização da violência na infância como forma de
cuidado, o processo de socialização da violência no espaço escolar e a convivência no ambiente penal marcada pela via
da violência. Por fim, analisam-se como se representa socialmente o fenômeno da violência e a sua relação com tráfico
e consumo de drogas, bem como as experiências dos egressos com diversos tipos de agressões.

Palavras-Chave
Representações sociais; violência; egressos prisionais.

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Artigos
Violência e criminalidade

O termo “violência” engloba uma


grande variedade de sentidos e
violência, sem levar em consideração que, em
muitos casos, suas histórias de vida antes, du-

Representações sociais sobre a violência em egressos


do sistema prisional
Thalita Mara Santos e Eleusa Gallo Rosenburg
constitui um fenômeno complexo que per- rante e após o aprisionamento são marcadas
passa a sociedade e encontra expressividade também pela existência da violência.
nas relações humanas. Etimologicamente,
essa expressão provém do latim violentia, Nesse entremeio, o fenômeno da crimina-
que significa forçar, coagir, exercer violência lidade configura-se no recrutamento de uma
sobre (CUNHA, 1997). circunscrita população dos estratos sociais in-
feriores que estão distantes do acesso, inclusão
Sob determinada ótica, a violência está re- e permanência a recursos como educação, em-
lacionada com a desintegração do poder; por prego e saúde (BARATTA, 2002).
conseguinte, ela seria o resultado da impotên-
cia diante das diversas situações de opressão. Conforme os dados do Ministério da Jus-
“O decréscimo do poder pela carência da capa- tiça, em junho de 2012, o Estado de Minas
cidade de agir em conjunto é um convite à vio- Gerais contava com uma população carcerá-
lência” (ARENDT, 2009, p. 12). Na perspec- ria de 51.900 presos, sendo 48.875 homens
tiva do processo histórico civilizatório, Freud e 3.025 mulheres. Do total de presos, 14.164
(1996) aponta o fenômeno da sublimação se encontravam na faixa etária entre 18 e 24
como possibilidade de canalização e enfrenta- anos; a maioria (26.235) possuía apenas o en-
mento da violência para fins de valor social. sino fundamental incompleto, e 1.574 eram
analfabetos. Com relação à cor de pele/etnia,
Os fenômenos violentos ocorrem em di- 14.461 eram brancos; 9.136, negros; 21.049,
versos contextos e diferentes modalidades que pardos; 1.177, amarelos e 475 apresentavam
podem afetar os seres humanos em qualquer outras denominações (BRASIL, 2012).
etapa do seu ciclo vital, provocando inúme-
ras consequências. Seria precipitado associar a Sobre os dados demográficos, Adorno
violência a grupos específicos sem uma análise (1996) aponta que a exclusão social é reforçada
crítica das dimensões sociais, culturais e histó- pelo preconceito em relação aos cidadãos ne-
ricas envolvidas no processo de construção das gros, e frequentemente a discriminação socio-
ações violentas. No entanto, quando se refere econômica associa-se à racial. A criminalidade
a pessoas que passaram pelo sistema prisional, não permeia somente o mundo dos pobres e
é comum identificá-las apenas como atores da negros, mas os mecanismos punitivos os atin-

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gem, principalmente, pois “[...] se o crime não pelo Programa de Inclusão Social de Egressos
é privilégio da população negra, a punição pa- do Sistema Prisional (PrEsp) de Uberlândia
rece sê-lo” (ADORNO, 1996, p.1). – Secretaria de Estado de Defesa Social – Su-
Artigos

perintendência de Prevenção à Criminalidade


Na prisão ocorre um processo de sociali- – Centro de Prevenção à Criminalidade de
zação negativa, em que os indivíduos são des- Uberlândia. O PrEsp é um programa do go-
pojados dos seus bens pessoais e submetidos a verno do Estado de Minas Gerais que está pre-
uma identidade coletiva, na maioria das vezes, sente em 11 municípios mineiros.
marcada pela violência (BARATTA, 2002).
Representações sociais sobre a violência em egressos
do sistema prisional
Thalita Mara Santos e Eleusa Gallo Rosenburg

Após a saída do sistema carcerário, as marcas Os entrevistados têm entre 21 e 36 anos de


do aprisionamento permanecem com os egres- idade, escolaridade que varia do ensino funda-
sos ao se depararem com situações preconcei- mental incompleto (6º ano) ao ensino médio
tuosas diante daqueles que ainda o condenam. completo. Três deles, no momento da entrevis-
ta, responderam que estavam desempregados. O
Considera-se que o termo “violência” im- período de reclusão no sistema carcerário dessas
plica tanto as dimensões do âmbito individual pessoas varia de quatro meses a sete anos, de-
quanto o campo das relações sociais localiza- pendendo do tipo de delito de cada uma. Foram
das num tempo e espaço, construído sócio, incluídos nesta pesquisa indivíduos condenados
político e culturalmente. Diante disso, o pre- por porte ilegal de armas, tráfico de drogas, fur-
sente trabalho pretende responder o seguinte to, roubo e roubo com formação de quadrilha.
questionamento: quais as representações so- Os nomes utilizados na caracterização dos su-
ciais sobre violência das pessoas que passaram jeitos são fictícios para preservar sua identidade.
pela experiência do cárcere? Nessa perspectiva,
destaca-se que a representação social é “[...] As entrevistas ocorreram nos meses de feve-
uma modalidade de conhecimento particular reiro e março de 2011, quando compareceram os
que tem por função a elaboração de compor- egressos ao Centro de Prevenção à Criminalidade
tamentos e a comunicação entre indivíduos” de Uberlândia para acolhimento e realização da
(MOSCOVICI, 1978, p. 26). Além disso, a entrevista psicossocial pela equipe do PrEsp. A
teoria das representações sociais analisa a socie- equipe é formada por profissionais de Psicologia,
dade em suas transformações constantes com Serviço Social, Ciências Sociais e Direito, além
as elaborações dos objetos sociais. de contar com estagiários de cada área, compon-
do uma equipe multi e interdisciplinar.
Método
Por se tratar de uma pesquisa qualitativa, Os egressos convidados que aceitaram par-
a unidade de pesquisa abarcou oito egressos ticipar da pesquisa assinaram o Termo de Con-
do sistema prisional da cidade de Uberlândia, sentimento Livre e Esclarecido, para garantir o
Minas Gerais, que, na ocasião da entrevista, caráter voluntário da participação, assim como
estavam em cumprimento do Regime Aberto o respeito às normas éticas que norteiam a rea-
ou Livramento Condicional e são atendidos lização de pesquisas com seres humanos.

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Quadro 1 - Caracterização dos entrevistados

TEMPO DE TIPO DE

Artigos
NOME IDADE ESCOLARIDADE PROFISSÃO
RECLUSÃO DELITO

Conferente de 2 anos e Tráfico


Jorge 28 anos Ensino médio incompleto
mercadorias 10 meses de drogas

Serralheiro e 1 ano e 15
José Carlos 26 anos Ensino médio completo Roubo
pintor dias

Clara 21 anos Ensino médio incompleto Faxineira 4 meses Furto

Representações sociais sobre a violência em egressos


do sistema prisional
Thalita Mara Santos e Eleusa Gallo Rosenburg
Porte ilegal
Carlos 25 anos Ensino médio completo Desempregado 47 dias
de armas

Ensino fundamental 5 anos e 9 Tráfico


Marcos 27 anos Atendente
incompleto meses de drogas

Roubo e
João 27 anos Ensino médio incompleto Desempregado 7 anos formação
de quadrilha

Ensino fundamental 4 anos e 9


Paulo 27 anos Desempregado Roubo
incompleto meses

Ensino fundamental
Ricardo 36 anos Serviços gerais 4 anos Furto
completo

Fonte: elaboração própria.

Foram realizadas entrevistas semiestrutura- que geram o fenômeno das representações


das guiadas pelos pontos de referência conti- sociais: a ancoragem e a objetificação (MOS-
dos no roteiro da entrevista, deixando o entre- COVICI, 2009).
vistado falar livremente durante tal momento.
O registro das respostas levantadas foi feito por O mecanismo da ancoragem tem como
meio da gravação de áudio e posterior transcri- finalidade tornar o estranho em algo fami-
ção das respostas pela própria entrevistadora. liar, contribuindo para a atribuição de senti-
Após a transcrição, o material foi devidamente do a acontecimentos, pessoas, grupos e fatos
desgravado. sociais. Já o processo de objetificação procura
transformar o abstrato em algo concreto; ela é
Resultados e discussão descrita como “o processo que dá materialida-
Conforme a proposta do trabalho de elu- de às ideias, tornando-as objetivas, concretas,
cidar as representações sociais sobre violên- palpáveis” (PADILHA, 2001, p. 71).
cia em egressos prisionais da cidade de Uber-
lândia, os resultados e as discussões apresen- Assim, ao percorrer essa orientação metodo-
tadas possuem como alicerce dois processos lógica, por meio da linguagem e dos discursos

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trazidos pelos egressos procuraram-se as represen- tou que já presenciou discussões de seus pais,
tações sociais dos entrevistados sobre o fenôme- mas que não reconhece isso como uma forma de
no da violência. Tendo em vista que promover a violência. No mundo do trabalho nunca sofreu
Artigos

comunicação e o compartilhamento da realidade ou vivenciou situações de violência. No ambien-


constitui uma das finalidades fundamentais das te carcerário, disse que viu situações de agressão
representações sociais, passa-se a dar voz a cada um entre pessoas da sua cela e das outras celas, mas
dos egressos e a suas experiências com a violência, que nunca se envolveu em nenhuma delas. Para
desde a infância até a saída do sistema carcerário. ele, violência na prisão é algo comum, entenden-
do-a como briga e agressão (verbal ou física). O
Representações sociais sobre a violência em egressos
do sistema prisional
Thalita Mara Santos e Eleusa Gallo Rosenburg

Jorge entrevistado ainda percebe a violência como um


Tem 28 anos. Relatou que nunca sofreu vio- fenômeno cíclico, no sentido de violência gerar
lência por parte de seus cuidadores e que, em violência. Foi preso por roubo.
relação ao período da infância, lembra-se apenas
das brigas na escola, sendo que já se envolveu Clara
em brigas com outros alunos, mas considera Tem 21 anos. No período da infância, con-
isso normal, como algo que faz parte do am- tou que apanhava da avó, que a criou, por fazer
biente escolar e do período de infância. Com re- bagunça (a mãe de Clara faleceu quando ela ti-
lação ao ambiente de trabalho, afirmou sempre nha cinco anos), mas acha normal uma criança
ter tido um bom relacionamento com as pessoas ser corrigida dessa forma. Morava numa casa
no atual emprego e nos empregos anteriores à com muitas pessoas (tios e avós) e presenciou,
detenção. Já na prisão, relatou ser testemunha quando criança, várias brigas que nomeou de
de várias cenas de agressões entre colegas e tam- “brigas de gente grande”, ou seja, com “murros
bém por parte dos agentes penitenciários. Nesse na cara”. Na escola, lembrou que sempre foi
sentido, lembra-se das dificuldades de conviver muito “briguenta” e “encrenqueira” e, quando
com várias pessoas em um espaço reduzido. brigava, apanhava (puxões de orelha e tapas)
Após a saída do sistema prisional, não viven- da avó, na escola e em casa. No ambiente de
ciou nenhuma situação de violência que pu- trabalho, nunca sofreu qualquer tipo de vio-
desse estar relacionada ao fato de ser egresso do lência. Com relação à prisão, disse apenas que
sistema carcerário. Por fim, para ele, violência teve desentendimentos com uma pessoa da sua
é todo tipo de agressividade em suas várias for- cela, e só não houve agressão porque as agentes
mas. Exemplifica que o uso de drogas é um tipo penitenciárias chegaram. Segundo ela, o bloco
de violência contra si mesmo, contra a própria feminino na prisão costuma ser mais tranquilo
saúde, e acredita que em praticamente todos os em comparação ao masculino, quando o as-
lugares e em todos os momentos há violência. sunto é a ocorrência de violência. Depois da
Foi detido por tráfico de drogas. saída carcerária, também não sofreu qualquer
violência por ser egressa prisional. Finalmente,
José Carlos para ela, violência é uma pessoa tirar a vida da
Tem 26 anos. Diz não ter sofrido violência outra, pelo uso de drogas ou por outros moti-
por parte dos pais no período da infância. Con- vos. Detida por furto.

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Carlos de drogas. Ressaltou que a maioria das pessoas
Tem 25 anos. Informou que nunca sofreu que conhecia morreu de forma violenta (tiro
violência por parte dos seus pais, mas, aproxi- no rosto, no peito, facada), por causa de dívi-

Artigos
madamente aos oito anos, presenciou diversas das com drogas. Carlos associou pobreza com
situações de violência doméstica do pai ba- criminalidade, além de acreditar que todo ser
tendo na mãe. Destaca-se que o entrevistado humano é violento e que a busca por dinheiro
atribui a culpa ao vício do pai com jogos de e por bens materiais está na origem da violên-
cartas. A mãe nunca denunciou essa situação, e cia. Detido por porte ilegal de armas.
o irmão mais velho dele, muitas vezes, entrava

Representações sociais sobre a violência em egressos


do sistema prisional
Thalita Mara Santos e Eleusa Gallo Rosenburg
na briga em favor da mãe. No período esco- Marcos
lar, Carlos contou que se sentia perseguido por Tem 27 anos. Relatou que nunca sofreu
andar sempre bem arrumado e por ter lanche. violência nem presenciou situações semelhan-
Desse modo, os outros alunos queriam tomar tes envolvendo seus pais, durante a infância.
suas coisas e ele se envolvia em brigas, chegan- Contou que brigou várias vezes por causa de
do a ter fraturado o nariz de um deles. Para bola e outras brincadeiras na escola, mas que
ele, isso é normal, é algo da fase de criança. acha algo normal dessa fase. No trabalho, nun-
No mundo do trabalho, nunca houve situação ca teve ocorrência de violência. Já na prisão
de violência, e, no sistema prisional, contou afirmou que sempre existiram brigas, tentati-
com detalhes sobre discussões por causa dos vas de homicídio com armas brancas, assassi-
seus pertences e sobre uma situação com uma natos ou situações de rebelião em que os presos
pessoa de outra cela que tinha sido preso por invadiam o bloco seguro para agredir ou matar
estupro e que apanhou bastante das outras pes- pessoas que estivessem lá. Após a saída do siste-
soas da cela. Ilustrou também uma situação em ma carcerário, não vivenciou situações de vio-
que uma pessoa de outra cela se suicidou, pois lência. Para ele, esta se manifesta de diferentes
teria usado crack a noite inteira e não tinha formas: contra a mulher, no crime ou gerando
dinheiro para pagar o traficante. Com relação morte. Detido por tráfico de drogas.
aos agentes penitenciários, ele relatou que so-
freu violência verbal e física numa ocasião em João
que foi levado ao fórum. Para ele foi “sacana- Tem 27 anos. Relatou que trabalhava para
gem” dos agentes, relatando que eles o humi- seu pai na área da construção civil e, no que se
lharam e fizeram maldades, mesmo sem ele refere a dificuldades de relacionamento com o
nunca ter tido problemas com nenhum deles pai, ele disse que era humilhado na frente de
na prisão. Após a saída do sistema prisional ele todos e não era remunerado corretamente. Sa-
disse que se sentiu discriminado por seus vizi- lientou que presenciou inúmeras situações de
nhos e pelas pessoas do seu bairro. Quanto à brigas entre o pai e a mãe por causa de religião
sua definição de violência, ele relatou que tudo e por traições conjugais do pai. Acerca do perí-
que envolve tráfico de drogas é uma forma de odo na escola, mencionou aspectos de bullying
violência; para ele, uma pessoa drogada é vio- por ser pobre e morar numa região sem as-
lenta, pois ela mata e rouba em função do uso falto, além de diversas situações de brigas no

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que concerne a brincadeiras, como o futebol. era criticado por causa de seus dentes e ficou
Quanto ao trabalho, falou sobre o sonho de muito revoltado. Tentou fugir várias vezes, o
jogar futebol profissional – algo que foi barra- que resultou em transferências para cadeias
Artigos

do pelo pai – e a necessidade de trabalhar para de diferentes cidades. Após o aprisionamento,


ele na construção civil, mesmo sendo desmo- não sofreu violência por ser egresso prisional;
ralizado por seu genitor. Não recebia por seu ele afirmou que tem buscado se manter mais
trabalho, e o pai o cobrava pelos alimentos e quieto e em paz. Para ele, violência “é tudo que
moradia em casa. Conforme João, seu pai de- existe de ruim, falta de respeito, agressão, tudo
sejava que ele seguisse a mesma profissão que que prejudica uma pessoa, que tira a pessoa do
Representações sociais sobre a violência em egressos
do sistema prisional
Thalita Mara Santos e Eleusa Gallo Rosenburg

a sua, pedreiro, mas João não queria. Lembrou seu estado normal é violência”. Reconhece que
que aos 15 anos saiu de casa, pois estava num fez mal para as pessoas vítimas do assalto do
período muito difícil de relacionamento com o ônibus, e que hoje sente medo de ser reconhe-
pai, tendo morado na casa “de um e de outro”. cido pelas pessoas e, sobretudo, pelo policial.
Retornou para casa a pedido da mãe, mas a Foi detido por roubo e formação de quadrilha.
situação complicada com o pai não se alterou.
Afirmou nunca ter sido agredido fisicamente Paulo
por ele, mas que se sentia rejeitado e inferior Tem 27 anos. Disse que foi criado pela mãe
no que tange aos outros irmãos, que eram tra- e teve como referência paterna seu tio, pois não
tados com carinho. O entrevistado aponta que conheceu o pai. Disse nunca ter sofrido violên-
não foi um filho desejado pelo pai, pois, con- cia por parte de seus responsáveis. No entanto,
forme sua mãe lhe contou, durante a gravidez já vivenciou discussões familiares entre seus
seu pai pediu para ela abortá-lo. Já no que diz tios, mas que não culminaram em violência
respeito ao sistema prisional, João trouxe cenas física. No período da escola, disse ter sofrido
ricas em detalhes permeadas de situações de bullying por ser negro e, por se sentir discrimi-
violência, especialmente por ter sido julgado e nado, envolveu-se em inúmeras situações vio-
condenado por assalto, sendo uma das vítimas lentas com agressões físicas. Relata que se asso-
um policial. Numa dessas cenas, ele contou ciou aos “malandros” da escola, pois, conforme
que foi espancado pelos agentes penitenciários, a fala de Paulo, com eles ninguém se atrevia
que o algemaram para agredi-lo e só pararam a mexer. No que concerne ao mundo do tra-
de bater quando os outros presos começavam a balho, nunca observou situações de violência.
se agitar e bater nas celas ou quando os agentes Já no que diz respeito ao período na prisão, o
percebiam que ele estava muito ferido ou desa- entrevistado descreveu com detalhes rebeliões,
cordado. Contou que tudo isso foi consequên- brigas de comandos e organizações criminosas
cia do assalto, posto que foram violentos com por poder dentro da prisão, discorreu sobre os
as vítimas. Segundo ele, desses espancamentos objetos utilizados como armas, contou sobre as
resultaram marcas visíveis no seu rosto e nos violências cometidas contra outras pessoas por
seus dentes (o entrevistado apresentava os den- causa de seus delitos, o uso de drogas dentro
tes espaçados, deslocados para a frente, além de da cadeia e as violências cometidas pelos agen-
quebrados). Disse que participou de rebeliões, tes penitenciários contra os detentos. Após o

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aprisionamento, não sofreu qualquer tipo de lembrança de vivências das diversas formas de
violência, mas relatou que sente dificuldades violência, parece um esforço desses sujeitos
de se relacionar com os outros. Sua definição para manter em seu discurso a representação

Artigos
de violência: “Violência pra mim é uma doen- social de uma infância feliz.
ça, que todo ser humano tem”. Para ele, todo
indivíduo tem uma parcela de violência, inclu- Ricardo, Clara e Paulo cresceram em famí-
sive as crianças. Por isso, acredita que é algo a lias sem figuras paternas e maternas. Ricardo
ser dominado. Foi preso por roubo. vivenciou a morte do pai e da mãe na infân-
cia; Clara perdeu a mãe aos cinco anos; e Paulo

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Ricardo não conheceu seu pai. Tem-se clareza de que a
Tem 36 anos. Relatou que foi criado pela mera presença de figuras paternas e/ou mater-
irmã, uma vez que seus pais faleceram quan- nas não garante a não violência doméstica, mas
do era criança. Disse ter apanhado muito (ao as perdas vivenciadas pelos três sujeitos podem
ponto de ficar com hematomas) do marido da indicar situações de desamparo na infância.
irmã, e acredita que tenha sido por ciúmes entre
ele e a irmã e por causa de bagunças. O espo- Nesses termos, Ricardo e Clara relatam a
so da irmã era alcoolista e batia nela, inclusive. experiência com violência doméstica enquan-
Com relação à escola, afirmou que era muito to eram crianças, violência perpetrada pelos
“atentado” e brigava constantemente, mas para cuidadores encarregados de suprir a ausência
ele eram brigas normais de criança. Depois, foi dos genitores. Segundo Pires (2000), crianças
morar num colégio interno rígido e passou a se que sofrem violência física apresentam com-
comportar bem nesse local. No trabalho, nunca portamentos agressivos com irmãos e colegas
vivenciou qualquer situação de violência. Já no na escola, condutas agressivas e antissociais
sistema prisional, disse que nunca se envolveu na adolescência, relações de gênero violentas
em brigas, mas vivenciou cenas horríveis de vio- com seus companheiros e com seus filhos,
lência, de morte, de pessoas levando facadas e bem como chances de cometerem crimes vio-
sendo pisadas por muitas outras. Após a saída lentos no futuro.
do sistema prisional, não sofreu qualquer tipo
de violência. Por fim, para ele, a violência inicia- Esse aspecto vem ao encontro das propo-
-se verbalmente e é uma forma de agredir outra sições de Neves (2008), segundo o qual pre-
pessoa. Foi detido por furto. domina a noção de que a uma boa criação
implica castigos e surras por parte dos cuida-
Infância: violência como forma de dores. De acordo com os entrevistados pelo
“cuidado” e sua invisibilidade no pesquisador, o amor e o bater constituem o
ambiente familiar mesmo campo de afeto.
Cinco dos oito entrevistados afirmam que
nunca sofreram ou presenciaram cenas de Ricardo expressa que já sofreu violência
violência na infância. Preservar essa infância durante a infância/adolescência, enquanto
de ser maculada pela palavra “violência”, pela José Carlos, Clara, Carlos, Paulo e João rela-

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taram que não sofreram violência na infância, Eu via as brigas, ficava olhando. Eles não esta-
mas a maioria deles sofreu violência psicoló- vam nem aí, de eu e minha irmã e minhas pri-
gica nas relações intrafamiliares como teste- mas ficar (sic) vendo (Clara, 21 anos, 2011).
Artigos

munhas: brigas entre os genitores e/ou outros


parentes – José Carlos, inclusive, reforça que Enquanto isso, a entrevistada Clara conta
testemunhar tais acontecimentos entre os que o fato de as crianças observarem as situa-
pais não foi uma violência. Percebe-se a le- ções de violência na sua família não inibia sua
gitimação somente da violência física, como ocorrência e não despertava a preocupação dos
também a negação da violência psicológica adultos para o quão prejudicial isso poderia ser.
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sofrida na infância e de suas consequências ao Briga dentro de casa, desentendimento den-


longo do ciclo vital. tro da própria família, cachaça, pai batendo
Uai, me batia, me dava murro, me batia de na mãe, aí os filhos vê aquilo, não aceita (sic).
correia. [...] Ela [irmã do entrevistado] sabia, [...] Já vi meu pai bater na minha mãe umas
eu contava pra ela, ou ela chegava do trabalho duas vezes (Carlos, 25 anos, 2011).
e eu tava de castigo no quarto, não podia sair
(Ricardo, 36 anos, 2011). Carlos, apesar de relatar que não sofreu
violência física durante a infância, menciona a
Ricardo expressa diretamente que sofreu vio- indignação de observar a ocorrência de brigas
lência física por familiar (esposo da irmã) e pontua entre os pais. Já o entrevistado João discorre
a relativa impotência da irmã diante da situação, sobre as discussões entre os pais e traz, em seu
uma vez que ela também era vítima do agressor. relato, a vivência da violência psicológica na
Já teve briga normal [...]. Já vi discussão, já vi relação com seu pai.
muito, mas que marcou não (José Carlos, 26 Discussão mesmo, porque meu pai queria
anos, 2011). que minha que mãe fosse evangélica e ela
não foi. [...] Tinha uma traição também, por
Qual família que não discute relaciona- parte dele. Aí minha mãe descobriu (João, 27
mento deles mesmo, né? [...] Coisas fúteis, anos, 2011).
nada pra chegar a uma agressão (Paulo, 27
anos, 2011). Me desmoralizava (sic) esquisito. Na frente de
qualquer pessoa. Isso foi fazendo eu me afastar
O entrevistado José Carlos utiliza o ter- dele, fazendo eu ficar mais revoltado. Até que eu
mo “normal” para qualificar as brigas que um dia não aguentei mais, aí comecei a discutir
teria presenciado durante o período da in- com ele, saí de casa (João, 27 anos, 2011).
fância, enquanto Paulo nomeia as discus-
sões de família como algo fútil. De fato, A violência psicológica impede a criança de
ambos explicitam que representam esse ter um crescimento emocional e intelectual co-
tipo de violência como algo natural, quase erente com seu ciclo de vida a partir de agres-
inerente ao ambiente familiar e a essa fase sões verbais, isolamento de vivências através de
de desenvolvimento. experiências sociais, instauração de uma políti-

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ca de medo, rejeição ou cobranças exacerbadas p. 100). Por meio da fala dos entrevistados,
ou expectativas irreais (BRASIL, 1993). João observaram-se ocorrências de violência entre
sofreu violência psicológica, mas não a nomeia os escolares, assim como entre os professores.

Artigos
nem se percebe como vítima. Deixa claro que
nunca foi alvo de violência física, a única re- Já briguei na escola por causa de bola, es-
conhecida pelos entrevistados de modo geral. ses trem (sic). Teve que chamar os pais. [...]
Foi de soco. Não lembro o porquê, mas
Ao considerar o enredo familiar, notou-se a maioria por causa de bola (Marcos, 27
que todos os entrevistados vivenciaram, na anos, 2011).

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condição de testemunhas, situações de violên-
cia entre familiares ou adultos que cuidaram Em toda escola tem aquela galerinha assim,
deles. Assim, pode-se perceber que no âmbito tipo galerinha do mal, sempre. Então, por a
doméstico também se configuraram relações gente ser menor, e eles, porém, ser maior vi-
conflituosas e violentas. nha querer tomar os trem (sic) da gente, esno-
bar mesmo e zuar a gente mesmo (sic) (Paulo,
A partir dessa representação social sobre o 27 anos, 2011).
direito de os pais utilizarem o castigo físico com
seus filhos, constata-se o poder disciplinador Essa violência relatada pelos egressos pri-
dos pais e a responsabilização do papel da vítima sionais aparece na forma de bullying, que é
nessa história (PANNUNCIO-PINTO, 2006). um assunto de destaque, especialmente do
As histórias sobre as infâncias recordadas nas setor midiático, diante dos acontecimentos
entrevistas trazem representações sociais de pais, atuais. De acordo com Marriel, Assis, Avanci
convivências familiares e sociais coerentes com e Oliveira (2006, p. 37), o bullying “caracteri-
a objetivação de uma família vista como muito za-se por atos repetitivos de opressão, tirania,
boa, e seus discursos preservam essa organização agressão e dominação de pessoas ou grupos
mental que elaboraram sobre suas infâncias. As sobre outras pessoas ou grupos, subjugados
situações vivenciadas não foram interpretadas pela força dos primeiros”. Entre os resultados
ou ressignificadas como cenas de violência. obtidos, emergiram situações de bullying na
forma de preconceito em relação às pessoas
A violência na escola de baixa renda, padrões estéticos e também
No tocante ao ambiente escolar, espera- como discriminação racial.
-se, no campo do ideal, que nesse espaço haja
aprendizagem e vivência do processo civiliza- Um dos entrevistados relatou que foi ví-
tório, propiciando trocas essenciais para o de- tima de bullying pelo fato de morar numa
senvolvimento acadêmico e pessoal dos alunos: região periférica e ser de família de classe
“a própria escola, enquanto campo de confliti- menos favorecida.
vidade que configura a interação entre jovens e No lugar onde que eu morava, era rua de
instituições do mundo adulto, deve ser investi- terra, entendeu? Quando chovia, tinha barro
gada e submetida à crítica” (SPOSITO, 2001, e tal, aí eu ia a pé pra (sic) escola e chegava

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lá com meu tênis sujo de barro. Eles ficavam As consequências da violência escolar são
me zoando, eu ficava muito nervoso (João, inúmeras, podendo acarretar desde dificulda-
27 anos, 2011). des na aprendizagem, como medo de frequen-
Artigos

tar a escola, até a evasão escolar. Essa institui-


A partir da situação de bullying e discrimi- ção passa a ser, portanto, um local privilegiado
nação racial, outro entrevistado apresentou a para a veiculação de informações e para a pre-
seguinte fala: venção sobre o que é violência contra crianças
Já sofri discriminação por minha cor, isso [...] e adolescentes, bem como para a divulgação
me sentia o patinho feio, né? Diferente, né? das formas, serviços e programas especializados
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(Paulo, 27 anos, 2011). para denúncia e tratamento de vítimas, agres-


sores e testemunhas.
Concernente à discriminação racial, é inte-
ressante destacar o contorno diferenciado que No ambiente escolar, percebe-se que os
esse tipo de violência tem assumido ao longo entrevistados mantêm uma representação so-
do tempo, uma vez que a existência de leis que cial ancorada na imagem de normalização e
de certa forma inibem a demonstração de pre- aceitação da violência. É, pois, difícil deter-
conceito levam à ocorrência deste de forma ve- minar o que é intolerável nestes casos para os
lada. A Lei n. 9.459, de 13 de maio de 1997, sujeitos entrevistados.
define os crimes resultantes de preconceito de
raça ou de cor como inafiançáveis e institui Ao verificar que a aquisição de escolaridade é
a pena de reclusão de um a três anos e multa uma das condições para o ingresso no mercado
para este tipo de delito (BRASIL, 1997). de trabalho, foi levantado também o questiona-
mento sobre a violência no mundo do trabalho,
Outro aspecto importante contido nas falas e nenhum entrevistado relatou que vivenciou
das pessoas entrevistadas refere-se a um pro- tal situação. Com relação a esse ponto, alguns
cesso de naturalização da violência no espaço entrevistados relataram que sempre trabalharam
escolar. Brigas e agressões aparecem no discur- com familiares (pais e sobrinhos); outros disse-
so de todos os entrevistados como algo nor- ram que, no ambiente de trabalho formal, man-
mal e comum, constituindo o cerne do senso tinham boas relações interpessoais; e os demais
comum para as representações sociais. Seguem pontuaram que exerciam suas funções como
alguns relatos: autônomos (carroceiro, vendedor e doméstica).
Na escola, todo mundo briga né? Todo mun- Salientaram, ainda, que não sofreram violência
do briga, mas isso é normal na escola (Jorge, no ambiente de trabalho, em virtude de terem
28 anos, 2011). trabalhado com parentes ou como autônomos.

Briga sempre tem na escola [...] já briguei O cárcere: espaço de socialização


umas três, quatros vezes. Por causa de bola, es- negativa pela via da violência
ses trem (sic) (Marcos, 27 anos, 2011). Nos dizeres de Goffman (1992), as pri-
sões são instituições totais que controlam (ou

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buscam controlar) a vida dos indivíduos a elas Dentro do mecanismo disciplinar do sis-
submetidos. Nelas, os sujeitos são despojados tema penal e do processo de “educação dos
de sua autonomia e precisam se conformar presos”, Baratta (2002, p. 185) relata que “a

Artigos
com um universo repressivo e uniformizante. maneira pela qual são reguladas as relações de
poder e de distribuição de recursos, [...] na co-
As falas e cenas a respeito de situações vio- munidade carcerária, favorece a formação de
lentas vividas no sistema prisional foram, em hábitos mentais inspirados no cinismo, no cul-
todos os casos, ilustradas de maneira bem vívi- to e no respeito à violência ilegal”. Assim sen-
da e com riqueza de detalhes. do, a violência no sistema carcerário é ilegal,

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porém, institucionalizada.
Ilustrando o caráter repressivo da prisão,
os entrevistados relataram o uso da violência No tocante às relações de violência entre os
por aqueles que possuem a função de manter presos, todos os entrevistados postularam situ-
a ordem e a disciplina dos encarcerados. Logo, ações de violência em que se envolveram ou
na maioria dos relatos há situações de violência que testemunharam. Houve relatos sobre sui-
cometida pelos agentes penitenciários: cídios, assassinatos, agressões verbais e físicas,
Um dia eles iam me levar pro fórum pra (sic) punições a outros presos em virtude do crime
uma audiência [...]. Aí me algemou pra trás, eu cometido, rebeliões e disputa de poder entre
lá algemado de cabeça baixa. Aí um lá veio e gangues dentro da prisão, sendo que, na maio-
me chamou de lixo, me deu um tapa na cara, ria deles, a crueldade e a tensão presentes nos
no rosto, na orelha assim, me chamou de lixo, casos ilustrados eram evidenciadas por meio de
depois me jogou dentro da viatura lá (Carlos, gestos, nas vozes e nos detalhes oferecidos por
25 anos, 2011). alguns dos entrevistados. Carlos discorre deta-
lhadamente sobre as situações de violência. Ele
Já vi eles (sic) batendo num preso, mas mui- demonstra certa familiarização com tais vivên-
tas coisas eles encoberta (sic), né? Acontece cias, mas, ao mesmo tempo, expressa horror
muitas coisas lá que eles encoberta (sic), não diante das situações que presenciou.
deixa (sic) a mídia ficar sabendo (Marcos, 27 Eu já presenciei o cara suicidar, fumou crack
anos, 2011). a noite inteirinha, fiado. [...] eu só vi ele (sic)
passando mesmo, com o lençol amarrado no
Marcos, além de expressar as vivências pescoço, um pedaço, ele morto, eles puxando
de violência que o marcaram nesse período ele (sic) na galeria (Carlos, 25 anos, 2011).
de estadia na prisão, traz à tona a denúncia
sobre o funcionamento das prisões onde a Paulo e Ricardo narram as situações de vio-
violência institucionalizada existe, mas per- lência que presenciaram e buscam apresentar
manece velada. possíveis causas para os acontecimentos. Paulo
eu apanhei dos agentes, algemado pra trás entende que a violência é um ciclo que pode
que nem um cachorro, como bicho. Isso ma- ter como disparador a inveja e a divisão entre
chucou meus dentes (João, 27 anos, 2011). grupos rivais.

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Tudo gera violência, inveja, facção, ou seja, Entende-se, portanto, que o cárcere confi-
divisão. Isso tudo gera violência, é o que mais gura-se na ancoragem de familiarização com
tem dentro da cadeia, é isso, se chama: “um violência e na objetivação de experiências, vi-
Artigos

tem a palavra final”. Ou seja: tem que ser as- vências e informações concretas entre os encar-
sim ou é assim [...]. Então, a maneira que os cerados que sustentam o processo de socializa-
presos acham pra ser resolvido (sic) é na vio- ção pela violência.
lência (Paulo, 27 anos, 2011).
De volta à sociedade: os egressos do
Vive acontecendo, gente levar facada, ser sistema prisional
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pisada por várias pessoas [...]. Geralmente, Para os egressos prisionais, o retorno à so-
a pessoa que maltrata outra pessoa, às vezes ciedade significa o início de um processo de re-
é dívida, às vezes é problema que aconteceu construção da vida em liberdade, muitas vezes
aqui fora, e chega lá eles cobra (sic) (Ricardo, cheio de percalços.
36 anos, 2011). As questões relacionais consigo mesmo, con-
flitos pessoais, traumas, sentimentos de fra-
As pessoas entrevistadas discorreram so- casso, rejeição e abandono, causados pelas
bre os objetos utilizados como arma dentro agressões, humilhações dentro ou ainda fora
da cadeia (vassoura, escova de dente, pedaço da prisão, dificuldade de (re)ingresso no tra-
de ferro, pedra, gilete), e contaram sobre a balho e os conflitos relacionados à sua família
“ética do crime”, em que são cometidas vio- são fatores que marcam a trajetória desses su-
lências contra outras pessoas por causa do jeitos (BORDIN, 2007, p. 34).
delito delas (o estuprador; o “cagueta” – de-
lator; o “rato de mocó” – quem rouba drogas Entre as dificuldades desse retorno à vida so-
dos esconderijos; o “extorquidor” – quem cial fora da prisão, as pessoas entrevistadas asse-
rouba os pertences dos outros dentro da pri- veraram que o período de adaptação a uma nova
são; e o “talarico” – quem “mexe” com a mu- rotina é algo difícil, especialmente quando se sen-
lher do próximo). tem discriminados por serem egressos prisionais.
Tem muitos lugares que você é discrimina-
Além da configuração de relações marcadas do, igual no bairro mesmo, os vizinhos já
pela via da violência no sistema prisional, exis- te olham meio assim, né? Tava preso [...]. E
te um sistema não oficial de regras que rege a quando eu tava usando droga era pior, por-
vida dos encarcerados. Mediante tais aspectos, que você vê que as pessoas te trata (sic) mal,
é notável que o conceito de ética para alguns você vê que tá sendo excluído, você chega no
dos entrevistados aparece associado à moral, a meio (sic) das pessoas e vê que elas tenta es-
qual remete a um conjunto de valores consi- quivá ali pra (sic) sair fora e você sente isso
derados corretos por determinado grupo (SE- (Carlos, 25 anos, 2011).
GRE; COHEN, 2002). Assim, o conceito de
ética para eles assumiria um contorno diferen- Outros entrevistados ressaltaram que procu-
ciado, e não universal. ram ficar mais isolados após a saída do sistema

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prisional. Eles evitam todos os tipos de relacio- lho individual do psiquismo, pois são constru-
namentos com outras pessoas, sobretudo aque- ções coladas ao tecido social e perpassam identi-
les que eles julgam que, de alguma forma, po- dades, interesses e lugares sociais. Isso corrobora

Artigos
dem influenciá-los no retorno à criminalidade. que as vivências dos entrevistados permeiam suas
representações sobre o fenômeno da violência.
Mediante os dados apresentados, é possível
perceber que, dentro do percurso de vida das Considerações finais
pessoas que passaram pela privação de liberdade, Historicamente, a existência de bodes ex-
aparecem várias histórias de violência e diferentes piatórios é legitimada quando se pretende

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formas de representá-la. Para Moscovici (2009), justificar a violência que é própria de cada ser
as representações estão presentes em todas as in- humano, assim como problemas econômicos
terações humanas e estão ligadas a maneiras de e sociais gerados no seio da sociedade, oca-
criações coletivas que dependem das condições sionando uma falsa sensação de alívio para os
de vida social em que foram produzidas. postulados cidadãos de bem. Parece ser mais
cômodo associar problemas socialmente pro-
Nesse contexto, quanto à maneira pela qual duzidos a uma parcela da população (pobres,
os entrevistados representam o fenômeno da negros, ex-presidiários), do que se correspon-
violência, houve associação de violência ao trá- sabilizar pela situação, assumindo os desafios
fico e consumo de drogas. Outros entrevistados evocados por essa postura.
apontam que a violência é algo inerente ao ser
humano, caracterizando-a como uma doença, e Também está presente nos discursos dos
os demais indicam que ela é uma forma de agres- entrevistados o sentimento de invisibilida-
são, que atinge outra pessoa de modo negativo. de social, como se a identidade agora pos-
sível, a de ex-presidiários, transformasse es-
Essa maneira de representar a violência en- ses indivíduos em pessoas ignoráveis. Sen-
contra-se estreitamente ligada às vivências dos do essa parcela da população considerada
egressos prisionais que apresentaram informa- socialmente como merecedora de desprezo,
ções sobre a experiência do consumo de drogas são invisibilizados também os desejos que
ou envolvimento com o tráfico num processo habitam tais sujeitos, que passam a ser ci-
de objetificação, além de terem vivido diferen- dadãos de terceira classe, ou lixo, como
tes situações de violência ao longo da vida, no- relatou um dos entrevistados. Tornam-se
meadamente no ambiente penal. Isso ilustra o “traidores” da sociedade, párias, e devem
fenômeno da ancoragem na edificação da con- ser gratos por qualquer quinhão de crédito
cepção de violência para esses sujeitos. que lhes seja oferecido, a despeito de sua
realização pessoal, como se esta já não lhes
Sobre esse ponto, os dados colhidos no estu- fosse mais de direito.
do vão ao encontro da teoria das representações
sociais. Conforme Guareschi e Jovchelovitch Percebe-se que as representações sociais so-
(1995), as representações vão além de um traba- bre a violência e o encarceramento não estão

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bem compreendidas como um fenômeno re- seus discursos sobre a representação do fe-
sultante de uma cultura violenta e segregadora nômeno da violência após a saída do siste-
imbricada nas histórias de cada indivíduo, de ma prisional.
Artigos

sua família e relações sociais, políticas, econô-


micas, de empregabilidade, de drogadicção, No limite entre a omissão e o comprometi-
educacionais e culturais. mento com tal assunto, encontra-se o olhar dos
pesquisadores de diversas áreas do conhecimen-
As representações sociais do fenôme- to, que podem: investigar a história dos cárceres
no da violência pelos sujeitos da pesquisa que, desde tempos remotos, implicam submis-
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mantêm-se ancoradas na concepção de nor- são, disciplina e formação de sujeitos passivos;


malização e familiarização com a violência penetrar no universo prisional e em instituições
e na objetificação das numerosas vivências que excluem, estigmatizam, sinalizam estilos de
de situações violentas ao longo das suas vi- sobrevivência nesse sistema permeado de vio-
das. Isso implica a fragilização na tentativa lência, buscando compreender as consequências
de determinar o que é aceitável e tolerável que tal forma de confinamento gera na subjetivi-
dentro dessas vivências. Outro aspecto re- dade dessas pessoas; e problematizar o paradoxo
levante diz respeito a quanto a experiência que é a lógica do aprisionamento, a qual propõe
do cárcere na vida desses sujeitos permeia reintegrar uma pessoa à sociedade, segregando-a.

108 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 94-110 Fev/Mar 2014
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<http://portal.mj.gov.br/data/Pages/MJD574E9CEI- em Psicologia) – Programa de Pós-graduação em Psico-
TEMIDC37B2AE94C6840068B1624D28407509CPT- logia – Instituto de Psicologia da Universidade de São
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Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 94-110 Fev/Mar 2014


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Representações sociais sobre a violência em egressos
do sistema prisional
Artigos

Thalita Mara Santos e Eleusa Gallo Rosenburg


Representações sociais sobre a violência em egressos
do sistema prisional
Thalita Mara Santos e Eleusa Gallo Rosenburg

Resumen Abstract
Representaciones sociales sobre la violencia Social representations of violence in former convicts

en expresidiarios This article aims to identify aspects in experiences,

El presente trabajo tiene como objetivo identificar aspectos particularly those related to occurrences of violence, in

de las vivencias, especialmente aquellas relacionadas the lives of former convicts processed through the legal

con las situaciones de violencia, de los expresidiarios de system in the city of Uberlândia, Minas Gerais, and to

la ciudad de Uberlandia (Minas Gerais), y conocer las understand social representations of violence of those

representaciones sociales de los entrevistados sobre la interviewed. The focus group was made up of eight former

violencia. La unidad de investigación comprendió ocho convicts who were part of the Uberlândia PrEsp Program

expresidiarios atendidos por el Programa de Inclusión (The Program for Social Inclusion of Former Convicts).

Social de Egresos del Sistema de Prisiones (PrEsp) de Semistructured interviews were conducted and responses

Uberlandia. Se realizaron entrevistas semiestructuradas were recorded, discussing the naturalization of violence in
con la grabación en audio de las respuestas, discutiéndose childhood as a form of care, the process of socialization
la naturalización de la violencia en la infancia como forma of violence at school and the prevalence violence within
de cuidado, el proceso de socialización de la violencia the penal system. Finally, an analysis was made on how
en el espacio escolar y la convivencia en el ambiente the phenomenon of violence is represented socially and
penal, marcada por la vía de la violencia. Por último, se its relation to the trafficking and consumption of drugs, as
analiza cómo se representa socialmente el fenómeno well as the experiences of former convicts in various types
de la violencia y su relación con el tráfico y consumo de of aggression.
drogas, así como las experiencias de los expresidiarios con
diversos tipos de agresiones. Keywords: Social representations; violence; former
convicts.

Palabras clave: Representaciones sociales; violencia;


expresidiarios.

Data de recebimento: 29/03/2013


Data de aprovação: 05/02/2014

110 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 94-110 Fev/Mar 2014
Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 94-110 Fev/Mar 2014
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Representações sociais sobre a violência em egressos
do sistema prisional
Thalita Mara Santos e Eleusa Gallo Rosenburg Artigos
Motivações do crime segundo
o criminoso: condições
Artigos

econômicas, interação social


e herança familiar
Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômi-
cas, interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães

Jarsen Luis Castro Guimarães


Possui graduação em Economia pela União das Escolas Superiores do Pará (1989), mestrado em Economia Rural pela Universi-
dade Federal do Rio Grande do Sul (2000) e Doutorado pela UFPA-NAEA (2012). Foi Diretor da Faculdade de Direito do Campus
de Santarém e coordenador do curso de especialização em ciências criminais da Amazônia com ênfase na região Oeste do
Pará. Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal do Oeste do Pará e Diretor do Instituto de Ciências da Sociedade
na mesma instituição.
jarsen@bol.com.br

Resumo
O aumento da criminalidade no Brasil tem despertado o interesse de estudiosos na busca de soluções para esse pro-
blema. A Região Norte apresenta, em termos relativos, o maior crescimento da criminalidade. Em Santarém, cidade
localizada no oeste do Pará, ela cresceu 114,64% no período 2000-2010. Diante disso, este trabalho faz uso de modelos
econométricos probit para estudar a relação entre categorias de crimes e variáveis socioeconômicas, na Região, com
foco no município de Santarém. Utiliza também a metodologia desenvolvida por Heckman relativa à correção do viés de
seleção. Como resultado, observa-se que a motivação básica para o preso cometer crimes é diferente entre as quatro
categorias pesquisadas. Nos crimes contra a vida observou-se a interação social como a principal motivação; nos crimes
contra os costumes, a interação social e a herança familiar; nos crimes contra o patrimônio, a condição econômica do
indivíduo; a motivação do preso por tráfico de entorpecentes encontrou apoio nas questões econômicas, na interação
social e na sua herança familiar.

Palavras-Chave
Categorias de crime; motivações da criminalidade; procedimento de Heckman.

112 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014
Artigos
1. Introdução

I nformações do Instituto Sangari (2010)


sobre criminalidade no Brasil para o perí-
existirem quais são, e que fatores econômicos
e sociais contribuem para sua ocorrência, na

Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômicas,


interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães
odo 2002-2007, tendo como indicador a taxa regra de decisão motivadora para a prática de-
de crimes de homicídio, revelam redução da litiva? Que fatores sociais e econômicos estão
criminalidade em 4%, principalmente devido relacionados ao incremento da criminalidade
às taxas negativas de São Paulo e Rio de Janei- em Santarém?
ro. Porém, na maior parte dos Estados brasilei-
ros a criminalidade aumentou no período. No Para responder a esses questionamentos,
Sul, destaca-se o Estado do Paraná, com au- coletaram-se informações de detentos da Peni-
mento de 39,80%; no Sudeste, Minas Gerais, tenciária Silvio Hall de Moura, localizada em
com 37,82%; Goiás, com 11,84%, sobressai Santarém (PA). Os questionários foram aplica-
no Centro-Oeste; no Nordeste, Maranhão dos no primeiro semestre de 2011. Com foco
(89,58%), Rio Grande do Norte (97,34%) e na região oeste do Pará, especificamente no
Bahia (108,30%) exibiram os maiores acrés- município de Santarém, os crimes efetivados
cimos. O Estado do Pará apresenta o maior pelos presos entrevistados foram relacionados
índice de criminalidade na Região Norte, e com variáveis econômicas e sociais. Assim,
registrou 85,83% de aumento para o período espera-se contribuir para o melhor entendi-
2002-2007. mento da real motivação para o preso come-
ter um dos crimes pesquisados. A partir disso,
Em Santarém, cidade localizada no oeste procura-se servir de referência na construção
do Estado do Pará, observando os dados sobre de políticas públicas de segurança específicas
a criminalidade no período 2000-2010, verifi- de combate à criminalidade.
ca-se aumento da ordem de 114,64% (POLÍ-
CIA CIVIL, 2011), o que retrata a significân- 2. Metodologia
cia dessa atividade no Município de Santarém. Para investigação da possível relação exis-
tente entre variáveis socioeconômicas e crimi-
Diante desse quadro, este estudo busca nalidade, os crimes praticados por detentos da
contribuir para o melhor entendimento da Penitenciária de Santarém foram divididos em
motivação do indivíduo ao cometer um crime. quatro categorias: crimes contra a vida; crimes
Em que medida a regra de decisão motivado- contra o patrimônio; crimes contra os costumes
ra da criminalidade é a mesma para diferen- e crimes de tráfico de entorpecentes. A base de
tes tipos de crimes? Existem diferenças, e se dados foi obtida com aplicação de questioná-

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014


113
rios entre os reclusos daquele estabelecimento, na qual X é a matriz de variáveis explicativas
presos provisórios ou condenados pela justiça, do modelo, β é o vetor de parâmetros, t é ter-
nos meses de março a abril de 2011. A popula- mo aleatório que admite distribuição padrão
Artigos

ção carcerária pesquisada oscilou de 500 a 520, normal e i representa o i-ésimo preso, sendo N
sendo preenchidos 408 questionários. Foi es- o número total de presos da amostra.
colhida para a pesquisa somente a população
carcerária masculina. Todos os questionários Como não se observa y*, só se observa y
foram administrados pelo autor. que toma valores 0 ou 1 de acordo com a se-
guinte regra:
Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômi-
cas, interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães

Para entender o comportamento do indi-


víduo envolvido na atividade criminosa e sua Yi = 1 , se Y* > 0
relação com variáveis socioeconômicas obtidas
com a aplicação do questionário foram estima- Yi = 0, caso contrário (2)
dos modelos econométricos, a fim de verificar
a motivação do indivíduo para o cometimen- Como a variável dependente é qualitativa,
to do delito. Com base em Magalhães (2006), trabalha-se com o modelo probit1. De acordo
entende-se por motivação a condição do in- com Johnston e Dinaro (2001), os mode-
divíduo que influencia a direção do compor- los probit são utilizados quando as variáveis
tamento, sendo essa condição retratada pelas dependentes são qualitativas, representadas
variáveis socioeconômicas obtidas com o ques- por variáveis binárias 1 e 0. Será 1 se o even-
tionário e subdividida em questões econômica, to ocorrer, caso contrário, 0. Nesse modelo, a
familiar e social. probabilidade de ocorrência do evento pode
ser relacionada com as variáveis independentes
3. Modelo de variável qualitativa para segundo a seguinte forma funcional:
a criminalidade
XiB 1 z2
O modelo procura estimar os fatores as- prob(Yi = 1) = (Xi ) = ∫-∞
2
exp
2
dz (3)
sociados a uma categoria de crime que têm
impacto sobre a probabilidade de se cometer A transformação normal tradicional Φ (·)
determinado tipo de delito. Assim, observa-se faz com que a probabilidade permaneça entre
uma variável y que toma um dos dois valores, 0 e 1, ou seja,
0 ou 1. Yi = 1, se o indivíduo i cometeu crime
da categoria em questão e Yi = 0, caso contrá- lim (z) = 1 e lim (z) = 0 (4)
z +∞ z -∞
rio. Nota-se que i = 1,....,N, onde i representa
o i-ésimo preso e N o número total de presos Dessa forma, tem-se um modelo por cate-
da amostra. Define-se uma variável latente y* goria de crimes. Por exemplo, quando se tra-
tal que: balha com a categoria de crimes contra a vida,
a variável dependente será crimes contra a vida
y* = X β + t, i =1,..., N (1) e assumirá o valor = 1, já a variável controle,
também aparecendo na equação como variá-

114 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014
vel dependente, composta por todas as outras equação primária, inerente à categoria de cri-
categorias de crimes (patrimônio, costumes e mes estudada. Essa equação tem como objeti-
tráfico), assumirá o valor = 0. Esse raciocínio vo mostrar a relação entre a categoria de crimes

Artigos
é estendido para todos os outros modelos a e os seus determinantes. É definida por:
serem trabalhados. Já as variáveis explicativas
dependem da categoria de crimes trabalhada e Yi = xi’b + εi , (5)
da significância dessas variáveis.
em que Y é observado (representa a categoria
Assim, o modelo procura estimar quais va- de crimes a ser analisada) e Xi a matriz de va-

Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômicas,


interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães
riáveis tiveram influência no cometimento dos riáveis explicativas de Y e ε o termo de erro
crimes pesquisados. estocástico ou perturbação estocástica. Após
estimação de um modelo geral, são retidas
As variáveis foram agrupadas em: a) so- apenas as variáveis que apresentam coeficientes
cioeconômicas; b) de herança familiar; c) de estatisticamente significativos.
interação social. Exceto as variáveis “idade” e
“número de indivíduos no imóvel”, todas as O segundo estágio consiste em definir a
demais são dummy2. equação de comportamento, que mostra a pre-
disposição do agente à prática de um delito da
Como os dados da amostra foram coleta- categoria de crimes analisada. Assim, para tra-
dos somente por meio de informações dos in- balhar a hipótese da existência de motivações
divíduos presos, seguiu-se a metodologia pro- que fazem o indivíduo desobedecer a normas
posta por Heckman (1979), com o objetivo de da sociedade, seleciona-se uma variável latente
corrigir o viés de seleção. z* que pode representar a relação com a índole,
ou com a formação, ou ainda com a situação
Segundo Heckman (1979), em grande par- econômica do indivíduo, variando em relação
te dos casos de escolha quantitativa observa-se à hipótese, para cada categoria de crimes.
que tal opção não é exógena, mas determinada
por uma regra já estabelecida. Se essa norma é De forma parametrizada pode-se afirmar
ignorada, as pessoas para as quais ela vale são que se z* > 0, a categoria de crimes estudada
comparadas com aquelas para as quais não vale possui a característica determinada como hi-
a norma. Este modelo adapta-se à hipótese da pótese, e se z* < 0, não a possui. Além do mais,
existência de alguma motivação que faz o indi- existe um vetor de variáveis observadas w que
víduo ultrapassar certos limites a ele impostos determina z*. Dessa forma tem-se a seguinte
pela sociedade. Adaptações do modelo de He- equação comportamental para o indivíduo i:
ckman foram utilizadas por Mendonça et al.
(2003a) e Shikida et al. (2005). zi* = y’ wi + ui (6)

Heckman (1979) propõe um modelo em A ideia é que u e ε sejam correlaciona-


dois estágios. O primeiro consiste em definir a dos, com a hipótese de que u e ε tenham

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014


115
distribuição normal bivariada com média 0 As equações foram estimadas pelo método
(zero) e correlação ρ. Assim, conforme Gre- de máxima verossimilhança, sendo utilizado
ene (1993), o software Stata.
Artigos

E[ yi yi = 1] = E [yi zi*> 0] = E [yi ui*> - 3.1 Modelo de variável qualitativa para a


γ´wi] = ß´ xi + E [εi ui*> - γ´wi] = categoria de crimes contra a vida
= ß´ xi + E [εi ui*> - γ´wi] = ß´ xi + ρσε λi (αu) ( 7 )
a) Equação primária
onde:
Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômi-
cas, interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães

Categoria de crime contra a vida = f [ pri-


λ (αu) = são anterior, uso de drogas, registro de violência,
f(γ´wi /σu)
(8) bairro onde aconteceu o crime é central, local do
Φ(γ´wi /σu) crime (bar, via pública)].

As estimativas e sinais de parâmetros das


Nesse caso, f e Ф representam a função de variáveis da equação primária e os resultados
densidade e distribuição de uma normal, res- que expressam a consistência do modelo são
pectivamente. Assim, tem-se que: apresentados na Tabela 1.

yi zi*> 0 = ß´ xi + ρσε λi (αu) + ѵi O sinal do parâmetro da variável que repre-


(9) senta a escolaridade do indivíduo (mais de 4 até
8 anos de estudos ) sinaliza o fato de que ter mais
sendo vi um distúrbio com média 0 (zero) e anos de estudos reduz a probabilidade de o pre-
variância constante. so cometer tais crimes. Esse resultado corrobora o
encontrado por Mendonça et al. (2003a) e está de
O próximo passo consiste em verificar, por acordo com os achados apresentados por Fajnzyl-
meio do teste de razão de máxima verossimi- ber e Araújo Jr. (2001) e Andrade et al. (2003),
lhança, se a correlação entre os distúrbios das os quais observaram que a educação influencia de
duas equações (e e u, distúrbios das equações maneira inversa na taxa de crimes contra a pessoa.
primária e comportamental, respectivamen-
te), representado por r, é nula. A hipótese O sinal positivo do parâmetro correspon-
trabalhada é aceita caso se consiga mostrar dente à variável “prisão anterior” indica que a
que existe correlação estatística de sinal ne- cada prisão anterior de um mesmo indivíduo
gativo entre os resíduos dessas duas equações. aumenta a expectativa de cometer crimes dessa
A análise final revela se os indivíduos da ca- natureza. Esse resultado é corroborado pelos
tegoria de crimes que está sendo considerada encontrados por Cerqueira e Lobão (2003b) e
possuem motivação básica para a prática de Andrade et al. (2003) ao observarem as expe-
tais crimes igual ou distinta da dos indivíduos riências em penitenciárias como um estímulo
das demais categorias. aos crimes de homicídio e roubo.

116 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014
Tabela 1 - E stimativas de parâmetros da equação primária das variáveis
para a categoria de crimes contra vida com seleção de amostra
– Modelo probit

Artigos
Estado do Pará – 2011

Número de observações: 396 Prob. > chi2 = 0,0000


LR chi2 (7) = 157,92 Pseudo R2 = 0,3834
Log likelihood = -126,9809

Coeficiente Desvio Padrão P

Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômicas,


interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães
Equação primária (crimes contra a vida)
Até 4 anos de estudos 0,311 0,24 0,023
Mais de 4 até 8 anos de estudos -0,047 0,30 0,089
Prisão anterior 0,322 0,18 0,082
Uso de drogas 1,595 0,18 0,000
Crime cometido em bairro central -1.304 0.29 0.000
Local do crime: bar 1,063 0,48 0,029
Local do crime: via pública 0,742 0,19 0,000
Registro de violência -0,687 0,34 0,049

Fonte: elaboração própria.

O sinal positivo dos parâmetros das variá- adaptada à hipótese de que indivíduos de boa
veis “uso de drogas”, “bar” e “via pública” indica índole agem de modo menos violento.
que a probabilidade de o preso cometer crimes
contra a vida aumenta em razão dessas variáveis. Assim, para escolher variáveis que possam ser
Já os sinais dos parâmetros das variáveis “crime utilizadas como proxies de boa formação e, ainda,
cometido em bairro central” e “registro de vio- as que serão utilizadas como explicativas desta,
lência” sinalizam a redução da probabilidade de os trabalhos de Shikida et al. (2005, 2006) cons-
o infrator cometer crimes contra a vida. tituem referência. Estes obtêm resultados mais
confiáveis estatisticamente quando as proxies de
Observa-se que pessoas mais anos de estu- “travas morais”, como forma de inibir esses tipos
dos tendem a agir de modo menos violento. de crimes, são “ser católico” e/ou “acreditar em
Conforme Mendonça et al. (2003a), tal ca- Deus”. Mendonça et al. (2003a) corroboram
racterística resulta do meio onde o indivíduo essa ideia fazendo uso da variável “acreditar em
formou-se, existindo implicitamente alguma Deus” como a que representa algo relacionado à
regra de comportamento, de modo que ele ul- melhor índole ou formação do indivíduo. Dessa
trapasse, ou não, certos limites que lhe foram forma, trabalha-se como proxy de boa formação a
impostos. Para testar essa hipótese, utiliza-se a variável “religião”, atuando como “travas morais”
metodologia proposta por Heckman (1979), inibidoras de crimes contra a vida.

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014


117
As variáveis com maior probabilidade de ex- entre os distúrbios das duas equações quando
plicar uma crença em Deus por parte do preso nula é rejeitada, isto é, ρ ≠ 0 (Prob > Chi2 =
seriam aquelas relativas às condições existentes 0,0043). O coeficiente de correlação entre os
Artigos

dentro da própria família, derivando daí a in- resíduos das duas equações (primária e com-
teração com a sociedade, destacando-se a boa portamental) apresenta sinal negativo, consta-
relação dos indivíduos com os seus pais aliada tando que nos crimes contra a vida a motiva-
ao relacionamento estável deles e ao tipo de re- ção básica do preso é diferente da dos demais
lacionamento que o indivíduo tem com a sua das outras categorias. Todas as variáveis são
companheira. Ainda em relação à família, é re- estatisticamente significantes em um nível de
Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômi-
cas, interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães

levante o fato de a mãe estar viva, uma vez que, 10% (Prob. > Z) e o modelo é consistente no
no Brasil, pessoas do gênero feminino tendem seu teste (Prob. > Chi2).
a ser mais religiosas. Além disso, Mendonça et
al. (2003a) observam que filhos de casais com Assim, pode-se observar que a motivação da
problemas na justiça podem exibir tendên- criminalidade para o indivíduo preso por crime
cia menor de acreditar em Deus. Outro fator contra a vida é diferente da dos demais inclusos
considerado para explicar a crença em Deus é em outras categorias e que aquele tipo de delito
o local de residência do indivíduo, pois bairros está relacionado a fatores de interação social.
com infraestrutura tendem a possuir igrejas e
templos, o que facilita essa preferência. Assim, 3.2 Modelo de variável qualitativa para a
escolheram-se seis variáveis como regressores da categoria de crimes contra o patrimônio
equação comportamental: “relacionamento dos
pais é casado”; “relacionamento dos pais é união a) Equação primária
estável”; “reside com pai e mãe”; “existe(m) Categoria de crime contra o patrimônio =
preso(s) na família”; “estado civil do indivíduo f [local do crime (via pública, casa alheia), prisão
é casado” e “reside em bairro central”. anterior, uso de drogas, idade, registro de violên-
cia e chefe da família (próprio)].
b) Equação comportamental Fatores relacionados a questões não econô-
A equação comportamental ficou assim es- micas do indivíduo apresentam resultados de
tabelecida: maior influência na criminalidade, destacan-
do-se “relacionamento dos pais: união estável”,
Religião = f [com quem residia (reside com “local do crime: casa alheia”, “local do crime:
pai e mãe), estado civil dos pais (casado, união via pública” e “registro de violência”. Os sinais
estável), preso(s) na família, estado civil do in- dos parâmetros das variáveis “uso de drogas”,
divíduo (casado) e bairro de residência (centro)]. “idade” e “registro de violência” sinalizam a
redução da probabilidade de o preso cometer
Os resultados estimados podem ser vistos crimes contra o patrimônio. Já o das variáveis
na Tabela 2. “prisão anterior”, “local: via pública”, “local:
casa alheia” e “chefe da família: o próprio”
A hipótese estabelecida de que a correlação apontam o aumento da probabilidade de o in-

118 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014
Tabela 2 - E stimativa de parâmetros, segundo variáveis da equação
primária, da equação de comportamento e resultado final do
modelo econométrico, para a categoria de crimes contra vida

Artigos
com seleção de amostra – Modelo probit
Estado do Pará – 2011

Número de observações: 396 Wald chi2 (8) = 199,15


Observações censuradas: 104 Log likelihood = -296,7378
Observações não censuradas: 292 Prob. > chi2 = 0,0000

Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômicas,


interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães
Coeficiente Z Prob. > Z

Equação primária (crimes contra a vida)

Até 4 anos de estudos 0,075 1,35 0,017


Mais de 4 até 8 anos de estudos -0,026 -0,38 0,070
Prisão anterior 0,104 2,65 0,008
Uso de drogas 0,463 9,64 0,000
Crime cometido em bairro central -0,198 -3,90 0,000
Local: bar 0,270 3,26 0,011
Local: via pública 0,134 0,04 0,001
Registro de violência -0,145 -2,21 0,027

Equação de comportamento
Reside com pai e mãe -0,315 -1,60 0,019
Preso(s) na família -0,346 3,37 0,017
Relacionamento dos pais: casado 0,577 3,37 0,001
Relacionamento dos pais: união estável -0,491 -1,89 0,058
Estado civil: casado 0,422 1,49 0,013
Reside em bairro central 1,279 2,48 0,013
r -0,202
Teste de razão de máxima verossimilhança
Ho: r = 0
Chi2 (1) = 0,60
Prob. > chi2 = 0,0043

Fonte: elaboração própria.

frator cometer crimes dessa natureza. Esse re- víduo preso, impedindo-o de retornar ao mer-
sultado está de acordo com os encontrados por cado de trabalho legal, como fatores de estí-
Cerqueira e Lobão (2003a, 2003b) e Andrade mulo à prática de crimes contra o patrimônio.
et al. (2003), quando observam as experiências
em penitenciárias, e Kume (2005), que relata o Conforme Mendonça et al. (2003a), existe
preconceito da sociedade com relação ao indi- uma diferença entre a regra ótima de decisão

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014


119
Tabela 3 - E stimativas de parâmetros da equação primária das variáveis
para a categoria de crimes contra o patrimônio com seleção de
amostra – Modelo probit
Artigos

Estado do Pará – 2011

Número de observações: 396 Prob. > chi2 = 0,0000


LR chi2 (7) = 118,82 Pseudo R2 = 0,421
Log likelihood = -185,9442

Desvio
Coeficiente P
Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômi-
cas, interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães

Padrão

Equação primária (crimes contra o patrimônio)


Local: via pública
Local: casa alheia 0,7708 0,18 0,000
Prisão anterior 1,1735 0,25 0,000
Uso de drogas 0,7577 0,16 0,000
Idade -0,8870 0,18 0,000
Registro de violência -0,0459 0,00 0,000
Chefe da família é o próprio -0,6858 0,32 0,037
0,5004 0,33 0,043

Fonte: elaboração própria.

do preso condenado por crime violento (ho- Mendonça et al. (2003) corroboram essa ideia ao
micídio e estupro) e a regra ótima dos demais observarem que a desigualdade social tem efeito
presos. Fernandez e Maldonado (1999), no positivo sobre a criminalidade. O mesmo se apli-
sentido econômico, classificam o crime em ca a Beato Filho et al. (1998). Warner e Pierce
dois grandes grupos: lucrativo e não lucrativo. (1993) também encontraram relação entre esses
Como crimes do grupo lucrativo citam furto, tipos de crimes e a mobilidade social.
roubo, extorsão, estelionato, entre outros. Para
o caso dos crimes não lucrativos listam homi- A escolha das variáveis proxies da situação
cídio, estupro, tortura, entre outros. Assim, econômica do indivíduo partiu do trabalho de
supõe-se que existem diferenças na motivação Becker (1968), segundo o qual uma das for-
básica entre o preso da categoria de crimes mas de se combater o crime é dar uma melhor
contra o patrimônio e o das demais categorias. distribuição de recursos.

A equação de comportamento associa uma Como proxy de boa condição econômica do


variável que retrate a situação econômica do pre- indivíduo, escolheu-se a variável “possui resi-
so com os seus determinantes. Conforme Pezzin dência própria”. Como regressores da equação
(1986) e Miethe et al. (1991), a pobreza contribui de comportamento buscaram-se proxies condi-
para a ocorrência de crimes contra o patrimônio. zentes com a situação econômica estabelecida

120 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014
Tabela 4 - Estimativa de parâmetros, segundo variáveis da equação
primária, da equação de comportamento e resultado final
do modelo econométrico, para a categoria de crimes contra o

Artigos
patrimônio com seleção de amostra – Modelo probit
Estado do Pará – 2011

Número de observações: 396 Wald chi2 (7) = 51,78


Observações censuradas: 216 Log likelihood = -387,013
Observações não censuradas: 180 Prob. > chi2 = 0,0000

Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômicas,


interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães
Coeficiente Z Prob. > Z

Equação primária (crimes contra o patrimônio)


Local: via pública 0,178 2,24 0,025
Local: casa alheia 0,512 4,19 0,000
Prisão anterior 0,145 -1,88 0,061
Uso de drogas -0,282 -2,98 0,003
Idade -0,010 -3,42 0,001
Registro de violência -0,265 -2,16 0,031
Chefe da família é o próprio 0,651 3,36 0,001

Equação de comportamento
Reside com mulher 0,268 2,27 0,023
Renda familiar 1 -0,466 -4,09 0,000
Bairro de residência periférico 0,924 4,30 0,000
Mais de 4 até 8 anos de estudo 0,923 5,59 0,000
r -0,844
Teste de razão de Máxima verossimilhança
Ho: r = 0
Chi2 (1) = 30,09
Prob. > chi2 = 0,0000

Fonte: elaboração própria.

do indivíduo, com a seleção das variáveis “ren- b) Equação comportamental


da”, “estado civil” e “nível de escolaridade”. O A equação comportamental fica assim es-
uso da variável “mais de 4 até 8 anos de estu- tabelecida.
dos” baseia-se nas considerações de Fajnzylber
e Araújo Jr. (2001). Trabalhou-se ainda como Residência própria = f [renda familiar 1, re-
regressor a variável “bairro de residência perifé- side com mulher, bairro de residência (periférico),
rico”, pois nesses bairros a moradia teria preços escolaridade (mais de 4 até 8 anos de estudos)].
e condições mais acessíveis. Os resultados podem ser vistos na Tabela 4.

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014


121
Observa-se que todas as variáveis do mo- 3.3 Modelo de variável qualitativa para a
delo são significantes em um nível de 10% categoria de crimes contra os costumes
(Prob. > Z), bem como o modelo, Prob > Chi2
Artigos

= 0,0000. Assim, num nível de significância de a) Equação primária


10%, a hipótese estabelecida de que a correla- Categoria de crime contra os costumes = f
ção entre os distúrbios das duas equações seja [idade, prisão anterior, registro de violência na
nula é rejeitada, ou seja, r ≠ 0, ou seja, Prob. > infância/adolescência, escolaridade (até 4 anos de
Chi2 = 0,0000. Nota-se também que o sinal do estudo), local (casa alheia), residência própria].
coeficiente de correlação entre os resíduos das
Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômi-
cas, interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães

duas equações (primária e comportamental) é Conforme os resultados da Tabela 5, na


negativo. Dessa forma pode-se constatar que prática desses crimes os fatores relacionados a
a motivação para criminalidade do indivíduo questões de interação social e herança familiar
preso por crime contra o patrimônio é diferen- apresentam maior influência na delinquência,
te da dos demais inclusos em outras categorias como “idade”, “registro de violência na infân-
e que aquele tipo de delito está relacionado à cia/adolescência”, “prisão anterior” e “local:
condição econômica do indivíduo. casa alheia”. Os sinais dos parâmetros das vari-

Tabela 5 - E stimativas de parâmetros da equação primária das variáveis


para a categoria de crimes contra os costumes com seleção de
amostra – Modelo probit
Estado do Pará – 2011

Número de observações: 396 Prob. > chi2 = 0,0000


LR chi2 (52) = 136,59 Pseudo R2 = 0,6143
Log likelihood = -42,8768

Coeficiente Desvio P
Padrão

Equação primária (crimes contra os costumes)


Idade
Prisão anterior 0,076 0,01 0,000
Registro de violência na infância/adolescência -1,251 0,42 0,003
Até 4 anos de estudo 2,970 0,47 0,000
Local: casa alheia -1,850 0,59 0,002
Residência própria 1,150 0,41 0,005
0,784 0,36 0,034

Fonte: elaboração própria.

122 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014
áveis “prisão anterior” e “até 4 anos de estudos” quando se destacou a boa relação do preso
indicam redução da probabilidade de o preso com os seus pais, o fato de a mãe estar viva e a
cometer crimes dessa natureza, já os das vari- questão de o indivíduo ser filho de casais com

Artigos
áveis “idade”, “local: casa alheia”, “residência problemas na justiça ou de existirem presos na
própria” e “registro de violência na infância/ família. A diferença consistiu em acrescentar
adolescência” aumentam a probabilidade de o ao modelo variáveis que representem questões
delituoso cometer crimes dessa categoria. relacionadas à herança familiar do indivíduo.

O sinal do coeficiente para o nível de escola- b) Equação comportamental

Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômicas,


interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães
ridade do detento, representado por “até 4 anos Estado civil dos pais é casado = f [tipo de
de estudo”, indica redução na expectativa de o religião (católica), com quem residia (pai e mãe),
preso cometer esses delitos. Esse resultado é re- chefe da família (mãe)].
ferendado por Fajnzylber e Araújo Jr. (2001),
segundo os quais níveis mais elevados de edu- Os resultados são expressos na Tabela 6.
cação reduzem a taxa de crimes contra a pessoa.
Nesse caso, mesmo com baixo nível, a escola- A hipótese estabelecida de que a correlação
ridade atua como contentora da criminalidade. entre os distúrbios das duas equações seja nula
é rejeitada. O coeficiente de correlação entre
Vale ressaltar, no que tange à violência na in- os resíduos das equações primária e comporta-
fância/adolescência, que Currie e Tekin (2006), mental apresenta sinal negativo. Dessa forma,
em estudos da economia do crime, chegam a o modelo mostra que indivíduos de “boa for-
conclusões parecidas, principalmente quando mação ou boa índole” têm tendência menor de
observam que o maltrato tende a aumentar o se envolverem em crimes dessa natureza.
risco de o indivíduo se envolver com o crime.
De acordo com o teste de razão de verossi-
Após definição da equação primária, pro- milhança, observa-se que r ≠ 0, ou seja, ao tra-
curou-se estabelecer a de comportamento. A balhar com a análise de informações relativas
variável dependente da equação de compor- apenas a pessoas presas, o resultado mostra que
tamento escolhida como proxy de boa forma- os indivíduos da categoria de crimes contra os
ção do preso tem como referência os trabalhos costumes possuem motivação para a crimina-
de Sutherland (1942), Gottfredson e Hirschi lidade distinta da dos demais presos (Prob. >
(1990), Agnew (1991) e Sampson (1997), os Chi2 = 0,0097).
quais acreditam que a propensão do indivíduo
ao crime é resultado de um ambiente familiar A ideia é que tanto as questões de interação so-
instável, pertinente à má concepção do caráter cial quanto as de herança familiar têm influência di-
dessa pessoa. Dessa forma, trabalha-se com a reta nessa categoria de crimes. Assim, quanto maior
variável “estado civil dos pais: casado”. O cri- for o elo e a integração dos infratores com as normas
tério de escolha dos regressores foi análogo ao da sociedade e quanto mais estável for a sua família,
verificado na categoria de crimes contra a vida, menor será a probabilidade de delinquirem.

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014


123
Tabela 6 - E stimativa de parâmetros, segundo variáveis da equação
primária, da equação de comportamento e resultado final do
modelo econométrico, para a categoria de crimes contra os
Artigos

costumes com seleção de amostra – Modelo probit


Estado do Pará – 2011

Número de observações: 396 Wald chi2 (7) = 185,06


Observações censuradas: 213 Log likelihood = -190,6773
Observações não censuradas: 183 Prob. > chi2 = 0,0000
Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômi-
cas, interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães

Coeficiente Z Prob. > Z

Equação primária (crimes contra os costumes)

Idade 0,006 3,72 0,00


Prisão anterior -0,004 -0,15 0,08
Registro de violência na infância/adolescência 0,583 1,10 0,00
Até 4 anos de estudo -0,099 -2,34 0,01
Local: casa alheia 0,057 1,35 0,07
Residência própria 0,066 2,34 0,01

Equação de comportamento
Reside com pai e mãe 0,977 5,62 0,00
Religião católica 0,210 1,38 0,01
Chefe de família mãe -1,301 -3,52 0,00
r -0,063
Teste de razão de Máxima verossimilhança
Ho: r = 0
Chi2 (1) = 0,03
Prob. > chi2 = 0,0097

Fonte: elaboração própria.

3.4 Modelo de variável qualitativa para a de origem individual como de cunho social.
categoria de crimes de tráfico de entorpecentes A ambição, a cobiça, o ganho fácil, a inveja,
Conforme Mendonça et al. (2003a, entre outras, são as de origem individual. As
2003b), diversos fatores podem levar o in- de cunho social englobam aquelas de natu-
divíduo a praticar esse tipo de delito, desta- reza conjuntural, ligadas a fatores como po-
cando-se os de ordem econômica e o custeio breza, desemprego e ignorância.
do próprio vício. Fernandez e Maldonado
(1999) ressaltam que os determinantes da As estimativas e sinais de parâmetros das vari-
prática desse tipo de delito podem ser tanto áveis da equação primária e o Nível Descritivo (p)

124 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014
Tabela 7 - E stimativas de parâmetros da equação primária das variáveis
para a categoria de crimes de tráfico de entorpecentes com
seleção de amostra – Modelo probit

Artigos
Estado do Pará – 2011

Número de observações: 396 Prob. > chi2 = 0,0000


LR chi2 (8) = 167,83 Pseudo R2 = 0,3161
Log likelihood = -181,5918

Desvio

Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômicas,


interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães
Coeficiente P
Padrão

Equação primária (crimes de tráfico de


entorpecentes)
Local: a própria casa 1,332 0,22 0,000
Local: outros 0,862 0,21 0,000
Uso de drogas -0,988 0,21 0,000
Preso anteriormente 0,921 0,16 0,000
Presos na família 0,384 0,16 0,021
Registro de violência na infância/adolescência -1,036 0,33 0,002
Residência própria
0,4893 0,15 0,001

Fonte: elaboração própria.

que fornece a significância de cada variável dessa Como variáveis de interação social e he-
categoria de crimes encontram-se na Tabela 7. rança familiar destacam-se o “local do crime
(própria casa)” e o “uso de drogas”. A primeira
Como motivadoras desses crimes, verifica- aumenta a possibilidade de o detento cometer
-se a influência tanto das variáveis que retra- esse crime, já a segunda a reduz. Esses resulta-
tam a situação econômica do indivíduo quan- dos estão de acordo com os relatos de Levitt e
to daquelas de interação social e herança fa- Dubner (2005), que observam que a maioria
miliar. No grupo de variáveis socioeconômi- dos traficantes reside no local onde o crack cos-
cas destaca-se a questão da residência própria. tuma ser vendido e que os integrantes da gan-
Outra variável que corrobora essa análise é a gue são seriamente aconselhados a não fazer o
“prisão anterior”. Esses resultados são ratifi- uso do produto.
cados pelos trabalhos de Soares et al. (2005)
e Misse (1997), que atribuem, em parte, a Os crimes de tráfico parecem encontrar respal-
ocorrência desse tipo de delito à condição do em motivos econômicos e não econômicos, o
econômica do indivíduo. que corrobora afirmações de Fernandez e Maldo-

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014


125
nado (1999). Para Soares et al. (2005), o tráfico de f [Renda individual 1 (até meio salário), chefe da
drogas resulta de um processo econômico e social, família (pai), pais casados, número de indivíduos
estimulante de toda a cadeia de crimes, envolven- no imóvel e escolaridade do indivíduo (mais de 4
Artigos

do roubo, furto, homicídio e sequestro. até 8 anos de estudos)].

a) Equação primária Os resultados podem ser vistos na Tabela 8.


Assim, a equação primária ficou definida
da seguinte forma: A hipótese estabelecida de que a correlação
entre os distúrbios das duas equações seja nula
Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômi-
cas, interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães

Categoria de crime de tráfico de entorpe- é rejeitada. O coeficiente de correlação entre


centes = f [local do crime (própria casa, outros), os resíduos das equações primária e compor-
uso de droga, prisão anterior, presos na família, tamental apresenta sinal negativo. Dessa for-
registro de violência na infância/adolescência, re- ma, o modelo mostra que para os indivíduos
sidência própria]. possuírem uma tendência menor de envolvi-
mento em crimes dessa natureza é necessário
Para se escolher variáveis que pudessem ser não só uma “relativa condição econômica”,
utilizadas como proxies da condição econômica como também “boa formação ou boa índole”
do indivíduo, da família, de sua boa formação e “maior interação com a sociedade”, ou seja, a
familiar e interação social e suas variáveis ex- condição financeira tem de estar aliada ao res-
plicativas, teve-se como referência os trabalhos peito, às normas estabelecidas pela sociedade e
de Agnew (1991), Agnew e White (1992) e à boa educação e estruturação familiar.
Entorf e Spengler (2000). Trabalhou-se tam-
bém com Levitt e Dubner (2005) e Fernandez De acordo com o teste de razão de verossimi-
e Maldonado (1999). Assim, o passo seguinte lhança, verifica-se que r ≠ 0, ou seja, ao se traba-
consistiu em buscar uma proxy que represen- lhar com informações relativas apenas a pessoas
tasse a boa formação do indivíduo, sua integra- presas, o resultado mostra que os indivíduos da
ção com a sociedade e sua condição econômica categoria de crimes de tráfico de entorpecentes
e/ou de sua família. possuem motivação para a criminalidade distin-
ta da dos demais presos (Prob. > Chi2 = 0,0013).
O critério de escolha dos regressores foi aná- Tanto as questões econômicas quanto as de inte-
logo ao verificado nas categorias anteriores, em ração social e de herança familiar têm influência
que se buscou representar a condição econômica direta nessa categoria de crimes.
do indivíduo, a sua relação com a família e com
a sociedade. A diferença consistiu em acrescen- 4. Considerações Finais
tar ao modelo variáveis que representassem to- O presente estudo procurou identificar o
das essas questões em uma única equação. que levou o indivíduo preso na penitenciária
Silvio Hall de Moura, situada na cidade de
b) Equação comportamental Santarém (PA), a cometer um crime. A análise
Renda familiar 3 (até 2 salários mínimos) = baseou-se em características socioeconômicas,

126 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014
Tabela 8 - E
 stimativa de parâmetros, segundo variáveis da equação
primária, da equação de comportamento e resultado final do
modelo econométrico, para a categoria de crimes de tráfico de

Artigos
entorpecentes com seleção de amostra – Modelo probit
Estado do Pará – 2011

Número de observações: 396 Wald chi2 (7) = 66,59


Observações censuradas: 351 Log likelihood = -98,4969
Observações não censuradas: 45 Prob. > chi2 = 0,0000

Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômicas,


interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães
Coeficiente Z Prob. > Z

Equação primária (crimes de tráfico


de entorpecentes)

Local: própria casa 0,666 6,45 0,00


Local: outros 0,569 4,98 0,00
Usava drogas -0,394 -2,98 0,00
Preso anteriormente 0,175 -207 0,03
Presos na família 0,197 2,30 0,02
Registro de violência na infância/adolescência -0,652 2,23 0,02
Residência própria 0,053 0,58 0,00

Equação de comportamento
Renda individual 1 -1,748 -7,59 0,00
Chefe da família: o pai 0,730 2,99 0,00
Pais casados 0,423 2,23 0,02
Número de indivíduos no imóvel 0,080 1,91 0,05
Mais de 4 até 8 anos de estudos -0,602 -2,03 0,04
r -0,826
Teste de razão de Máxima verossimilhança
Ho: r = 0
Chi2 (1) = 10,30
Prob. > chi2 = 0,0013

Fonte: elaboração própria.

herança familiar e de interação social do preso, O modelo de Heckman mostrou-se con-


de modo a contribuir para o melhor enten- sistente na obtenção dos objetivos propostos.
dimento da criminalidade nesta região. Para Inicialmente, na resolução do problema da va-
tanto, utilizou-se a metodologia proposta por riável controle. Como não se trabalhou com
Heckman (1979). Para verificar a motivação indivíduos de características idênticas às dos
do crime, os delitos foram divididos em quatro presos, mas que nunca cometeram crimes (não
categorias: contra a vida, contra o patrimônio, presos), o modelo considerou duas equações:
contra os costumes e tráfico de entorpecentes. equação primária e equação de comportamen-

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014


127
to ou secundária. Segundo Heckman (1979), a te a partir da integração entre essas teorias,
maioria das escolhas quantitativas não é deter- variáveis e modelo foi possível generalizar as
minada exogenamente, mas por regras já esta- conclusões observadas.
Artigos

belecidas. Uma vez que essa regra é ignorada,


as pessoas para as quais ela vale são comparadas De acordo com os resultados obtidos neste
com aquelas para as quais ela não vale. Logo, a trabalho, constata-se que a motivação difere
generalização dos resultados obtidos. para o preso de acordo com o tipo de crime.
Nos crimes contra a vida observou-se a intera-
Outra consistência desse modelo reside ção social como a principal motivação. Crimes
Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômi-
cas, interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães

na escolha das variáveis. Foram considerados contra os costumes encontraram motivação


três grupos de variáveis: caráter econômico, na interação social e na herança familiar. Os
interação social e herança familiar. Para cada crimes contra o patrimônio foram explicados
equação de comportamento utilizaram-se va- com base na condição econômica do indiví-
riáveis específicas desses grupos. Dando maior duo. Já os crimes de tráfico de drogas a con-
consistência ao modelo, as teorias observadas dição econômica do indivíduo, os aspectos
foram divididas também em três grupos: teo- relacionados à questão familiar e de interação
rias de caráter econômico, teorias de herança social explicaram a motivação do indivíduo no
familiar e teorias de interação social. Somen- cometimento desse tipo de delito.

1. No modelo probit é assumida uma distribuição normal, já no modelo logit assume-se uma distribuição logística. A distribuição
logística é similar à normal, exceto pelas caudas. Para valores intermediários as duas distribuições tendem a gerar probabilidades
similares (ver GREENE, 2. ed., 1993, p. 637-638). Por similaridade e por ter sido adotada em análises similares, foi escolhida a
distribuição normal.

2. Variáveis binárias, que assumem os valores 0 ou 1.

128 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014
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130 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014
Motivações do crime segundo o criminoso: condições
econômicas, interação social e herança familiar

Artigos
Jarsen Luis Castro Guimarães

Resumen Abstract

Motivações do crime segundo o criminoso: condições econômicas,


interação social e herança familiar
Jarsen Luis Castro Guimarães
Motivaciones del delito según el delincuente: Motivators for crime according to criminal: economic
condiciones económicas, interacción social y herencia conditions, social interaction and family background
familiar An increase in crime in Brazil has sparked an interest in
El aumento de la delincuencia en Brasil ha despertado studies which seek out solutions to this problem. Brazil’s
el interés de estudiosos en busca de soluciones para northern region is, in relative terms, the area of the country
dicho problema. La Región Norte presenta, en términos with the largest increase in crime. In Santarém, a city
relativos, el mayor crecimiento delictivo. En Santarém, located in the western portion of the state of Pará, crime
ciudad localizada en el oeste de Pará, esta creció hasta increased by 114.64% from 2000-2010. For this reason,
114,64% en el periodo de 2000 a 2010. Frente a ello, this article makes use of probit econometric models to
este trabajo se sirve de modelos econométricos probit study the correlation between categories of crime and
para estudiar la relación entre categorías de delitos y socioeconomic variables in this region, focusing on the city
variables socioeconómicas, en la Región, con atención of Santarém. It also utilizes the methodology developed
especial al municipio de Santarém. Se utiliza también by Heckman on sample selection bias correction. As a
la metodología desarrollada por Heckman concerniente result, we are able to see that the base motivator for
a la corrección del sesgo de selección. Como resultado, the committal of crime is different among the four crime
se observa que la motivación básica para que el recluso categories studied. In crimes against the person, we see
cometa delitos es diferente entre las cuatro categorías social environment as the primary motivator; sex crimes,
indagadas. En los delitos contra la vida, se observó la social environment and family background; in crimes
interacción social como la principal motivación; en los against property, the economic conditions of the individual;
delitos contra las costumbres, la interacción social y la motivators for the committal of narcotics trafficking found
herencia familiar; en los delitos contra el patrimonio, support in the areas of economics, social interaction and
la condición económica del individuo; la motivación del family background.
recluso para el tráfico de estupefacientes encontró apoyo
en las cuestiones económicas, en la interacción social y Keywords: Categories of crime; motivators for crime;
en su herencia familiar. Heckman procedure.
.
Palabras clave: Categorías de delito; motivaciones de la
delincuencia; procedimiento de Heckman.

Data de recebimento: 29/10/2012


Data de aprovação: 06/02/2014

Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 112-131 Fev/Mar 2014


131
Segurança Pública: reflexões
sobre o financiamento de suas
Artigos

políticas públicas no contexto


federativo brasileiro
Ursula Dias Peres
Segurança Pública: reflexões sobre o financiamento de suas políticas
públicas no contexto federativo brasileiro
Ursula Dias Peres, Samira Bueno, Cristiane Kerches da Silva Leite e Renato Sérgio de Lima

Graduada em Administração Pública pela Fundação Getulio Vargas (SP), mestre e doutora em Economia pela Fundação Getulio Vargas
(SP). Docente do curso de Gestão de Políticas Públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/
USP) e dos programas de mestrado Mudança Social e Participação Política e Gestão de Políticas Públicas da mesma universidade.
uperes@usp.br

Samira Bueno
Graduada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, mestre e doutoranda em Administração Pública e Governo pela
Fundação Getulio Vargas. Diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pesquisadora colaboradora do GV/CEAPG.
sbueno@forumseguranca.org.br

Cristiane Kerches da Silva Leite


Bacharel em Economia pela Universidade de São Paulo, mestre e doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo.
Docente dos cursos de graduação e pós-graduação em Gestão de Políticas Públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades
da Universidade de São Paulo (EACH/USP). 
criskerches@gmail.com

Renato Sérgio de Lima


Graduado em Ciências Sociais, mestre e doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, pós-doutor pelo Instituto de
Economia da Unicamp. Assessor Técnico da Fundação Seade, Pesquisador do Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas da Escola
de Direito da FGV em São Paulo e vice-presidente do Conselho de Administração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
renato.lima@forumseguranca.org.br

Resumo
Este artigo é síntese da discussão realizada em nota técnica sobre financiamento da segurança pública no Brasil, produ-
zida no âmbito do termo de parceria 752962/2010, firmado entre o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Ministério
da Justiça. O texto resgata o histórico do financiamento das políticas de segurança pública no Brasil, analisa-as à luz do
contexto do pacto federativo brasileiro e propõe possibilidades de organização das informações financeiras em seguran-
ça pública, de modo a aprimorar o controle das informações dos entes federativos.

Palavras-Chave
Pacto federativo; financiamento; segurança pública; política pública.

132 Rev. bras. segur. pública | São Paulo v. 8, n. 1, 132-153 Fev/Mar 2014
Artigos
Introdução

A s relações federativas no Brasil após


a Constituição Federal de 1988 têm
zado a implementar programas nas áreas so-
ciais, mesmo que, simetricamente, nenhum

Segurança Pública: reflexões sobre o financiamento de suas políticas


públicas no contexto federativo brasileiro
Ursula Dias Peres, Samira Bueno, Cristiane Kerches da Silva Leite e Renato Sérgio de Lima
sido marcadas por um panorama de comple- ente federativo estivesse constitucionalmente
xidade, no qual convivem tendências simul- obrigado a fazê-lo (ARRETCHE, 2004, p.22).
tâneas e contraditórias de centralização e des- Dessa forma, o processo de descentralização
centralização, sem clara atribuição de compe- das políticas sociais no Brasil, na primeira
tências que gere o tão propalado federalismo metade da década de 1990, mostrou-se “caó-
cooperativo, presente nos artigos da Constitui- tico, lento, insuficiente ou mesmo inexistente”
ção (ARRETCHE, 2004; ALMEIDA, 2005; (MEDEIROS, 2001; ALMEIDA, 1995).
SOUZA, 2001). Se no início dos anos 1990
as instituições federativas estavam plenamente No