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GLOBALIZAÇÃO E FRAGMENTAÇÃO

NO MUNDO CONTEMPORÂNEO
Rogério Haesbaert
(Organizador)

GLOBALIZAÇÃO E FRAGMENTAÇÃO
NO MUNDO CONTEMPORÂNEO
2ª edição
Revista e atualizada

Editora da Universidade Federal Fluminense


Niterói, 2013
Copyright © 2013 by Rogério Haesbaert
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H136 Haesbaert, Rogério
Globali zação e fragmentaç ão no mundo contemporâneo./Rog ério Haesbaer t. (Org.). – 2. ed. revista e atualizada – Niterói: Editora da
UFF; Rio de Janeiro: Bertr and-Br asil, 2013. 218 p. : il.
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-228-0888-5
1. Globalização-Aspectos econômicos. 2. Relações econômicas internacion ais. I. Haesbaert, Rogério, org. II. Título. III. Série.
CDD 337

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da Silva
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Tania de Vasconcellos

Editora filiada à
Sumário

APRESENTAÇÃO, 7
ROGÉRIO HAESBAERT
OS DILEMAS DA GLOBALIZAÇÃO – FRAGMENTAÇÃO, 11
ROGÉRIO HAESBAERT
ESTADOS UNIDOS: AINDA A POTÊNCIA DOMINANTE NO SÉCULO XXI?, 55
JOÃO RUA
UNIÃO EUROPEIA: TRANSFORMAÇÕES, CRISES E DESAFIOS DA INTEGRAÇÃO REGIONAL, 87
JORGE LUIZ BARBOSA
CHINA NA NOVA DINÂMICA GLOBAL-FRAGMENTADORA DO ESPAÇO GEOGRÁFICO, 113
ROGÉRIO HAESBAERT
O JAPÃO NUM MUNDO EM BUSCA DE SENTIDO, 137
IVALDO LIMA
AMÉRICA LATINA E A COLONIALIDADE DO PODER, 167
CARLOS WALTER PORTO-GONÇALVES
PEDRO DE ARAÚJO QUENTAL
ÁFRICA: INTEGRAÇÃO E FRAGMENTAÇÃO, 193
CRISTINA PESSANHA MARY
OS AUTORES, 219
APRESENTAÇÃO

Esta coletânea tem como objetivo principal fornecer a professores, estudantes, pesqui-
sadores e ao público em geral (já que trata de temas de grande atualidade) uma análise
geográfica crítica do mundo contemporâneo, tanto em uma perspectiva ampla, focalizando
os processos de globalização e fragmentação em sua manifestação conjunta, quanto numa
escala de regionalização, seja focalizando regiões de extensão continental como a América
Latina, a África e a União Europeia, seja de extensão nacional, como os Estados Unidos, a China
e o Japão. Essa escolha e/ou divisão, embora não tenha obedecido a um critério comum ex-
plícito, levando em conta, sobretudo, a qualificação de cada autor com a temática, acabou
cobrindo grande parte daqueles espaços considerados estratégicos na conformação da nova
des-ordem mundial. Se Estados impor tantes como Índia e Rússia não são contemplados, estão
presentes as três maiores economias nacionais mundiais, ao lado da União Europeia: Estados
Unidos, China e Japão. No contexto dos espaços ditos periféricos, a escolha de América Latina
e África se justifica por se tratar dos únicos conjuntos continentais considerados, em sua tota-
lidade, componentes de periferias mundiais (com toda a sua diversidade e suas contradições
internas).
Este livro é resultado de vários anos de investigação na área de Geografia Regional (para
alguns, “do Mundo”, pela referência primeira à escala global), envolvendo pesquisadores
do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal
Fluminense (cinco docentes: Rogério Haesbaert, Jorge Luiz Barbosa, Ivaldo Lima, Carlos

WalterQuental)
Pedro Porto-Gonçalves e Cristina
e o geógrafo Pessanha
João Rua, Mary, eUniversidade
da Pontifícia o mestre e Católica
doutorando
do RiododePrograma
Janeiro,
convidado por sua reconhecida produção sobre a realidade norte-americana. O estudo des-
ses contextos regionais do mundo, embora não tenha representado propriamente um objeto
exclusivo em nossas linhas básicas de pesquisa, envolveu, em maior ou menor grau, durante
vários anos, cada um dos autores. Alguns, como no caso dos Estados Unidos, China e América
Latina, com publicação de livros que também focalizaram a temática; outros, com longo tem-
po de abordagem, sobretudo em sala de aula, às regiões ou países aqui trabalhados.
8 | Apresentação

O projeto inicial deste livro foi moldado ainda na década de 1990 e resultou na sua primei-
ra edição, publicada pela Editora da Universidade Federal Fluminense, em 1998. Como afir-
mávamos na primeira edição, o trabalho adquire um caráter coletivo na medida em que todos
os textos foram lidos e, muitas vezes, comentados por cada um de seus autores. A individua-
lidade e a própria forma de estruturação de cada texto, com a definição de suas problemáticas
centrais, entretanto, ficou totalmente a cargo de cada pesquisador. Nos capítulos, mantive-
ram-se os autores da primeira edição, com exceção do capítulo sobre a América Latina, que,
na primeira edição, fora de autoria de Márcio Piñon de Oliveira e agora foi escrito por Carlos
Walter Porto-Gonçalves e Pedro Quental. Aproveitamos para reiterar nossos agradecimentos
ao colega Márcio por sua reconhecida contribuição à primeira edição.
Esta reedição foi completamente revista, incluindo modificações de fundo que resultaram
na alteração de títulos e na ampla reconstrução de capítulos. Manteve-se, contudo, o mesmo
objetivo srcinal de fornecer uma análise geográfica suficientemente ampla, capaz de cobrir
alguns dos principais territórios (Estados-nações hegemônicos e configurações econômico-
-políticas como a União Europeia) e/ou regiões (caso de América Latina e África) do mundo
contemporâneo, alterando-se apenas, nesse sentido, o enfoque sobre Rússia e China. Nesta
versão, por força da dificuldade em analisar as intensas transformações sofridas por esses dois
contextos nacionais, optamos por focalizar apenas a realidade chinesa, fundamental na atual
reconfiguração da chamada nova ordem mundial.
O primeiro artigo, de caráter introdutório e geral, por isso mesmo mais extenso, intitulado
“Os dilemas da globalização-fragmentação”, é uma versão revista e substancialmente amplia-
da de “Globalização e Fragmentação do Mundo Contemporâneo”, texto que, com o mesmo
título deste livro, constituiu o primeiro capítulo de sua primeira edição. Além da ampliação de
debates anteriores, acrescentamos dois novos tópicos: “Uma globalização da in-segurança e
da ‘exceção’”e “A reconfiguração do Estado sob a globalização”, incorporando assim a temática
da in-segurança, tão evidente nesta última década, e a complexa transformação da figura do
Estado em meio à ebulição econômica destes novos tempos.
Os capítulos seguintes focalizam espaços específicos do atual contexto de globalização-
fragmentação, alguns partindo de uma abordagem geo-histórica mais elaborada, outros
centralizados diretamente numa questão marcante da contemporaneidade. Alguns, como no

caso tanto
tem de Estados Unidosdesses
a inserção (João países
Rua), China (Rogério
na nova Haesbaert)
“des-ordem” e Japão
mundial (Ivaldo
quanto Lima),
suas discu-
contradições
geográficas internas, enfatizando especialmente a criação de uma “Região do Pacífico” e,
em nível interno, as desigualdades socioeconômicas de cada um desses contextos nacionais.
No caso da União Europeia (Jorge Barbosa), privilegia-se a discussão do próprio processo de
unificação e suas inúmeras contradições. A América Latina (Carlos Walter Porto-Gonçalves e
Pedro Quental) é focalizada a partir da colonialidade de sua construção histórico-geográfi-
ca e da atual reconfiguração territorial diante de megaprojetos de infraestrutura como os da
IIRSA. A África (Cristina Mary), por sua vez, é tratada no complexo jogo entre fragmentação e
Apresentação | 9

integração, com uma abordagem geo-histórica que desemboca na diversidade de sua compo-
sição regional contemporânea.
Assim, esperamos oferecer, com este trabalho, diferentes contribuições – e estímulos – à
área dos estudos regionais “do mundo” na Geografia brasileira, principalmente tendo em vista
as intensas transformações efetivadas nas últimas décadas e que nos exigem olhares atentos
para conhecer e avaliar os complexos contextos geográficos em escala internacional.
Rogério Haesbaert

OS DILEMAS DA GLOBALIZAÇÃO – FRAGMENTAÇÃO


A afirmação que fizemos há mais de dez anos continua válida: vivemos uma época de
grandes contradições e complexidade, em que podemos nos deparar com interpretações dia-
metralmente opostas sobre odes-ordenamento territorial e/ou a des-organização regional do
mundo. Enquanto muitos autores alardeiam a “era da globalização”, do mundo “em rede”, ou-
tros enfatizam uma genérica “fragmentação” que marcaria o mundo desde o final da Guerra
Fria. Dois trechos dos anos 1990, reproduzidos a seguir, constituem um exemplo dessa contro-
vérsia, mais paradoxal ainda porque se passou entre pesquisadores de uma mesma institui-
ção (a Fundação Nacional de Ciências Políticas de Paris) – enquanto o geógrafo Jacques Lévy
enfatiza a ordem e a globalização (o mundo moderno como “sistema de sistemas”), o cientista
político Zaki Laïdi destaca a fragmentação e a ambiguidade (o mundo pós-moderno simulta-
neamente polar e “a-polar”):

[...] a constituição de uma sociedade-mundo é provável, não porque ela seria a melhor, mas
porque ela é a solução mais econômica para tratar os problemas mundiais. O mundo é um
sistema de sistemas em movimento (LÉVY, 1992, p.31).
Observar o mundo como uma totalidade em movimento, por mais contraditória que ela seja,
é identificar um momento histórico que vê o reencontro do global e do social [.. .]. O mundo é
um, mas ele é circunstanciado; o que significa que ele tem um futuro [...]. A contenda [enjeux]
do presente não é o fim da história, mas a de uma pré-história em que, seguindo as palavras
de Kant, acaba para os homens o tempo de sua “insociável sociabilidade” (LÉVY, 1992, p.220,
tradução nossa).

Raciocinar em termos pós-modernos


terizar empiricamente é tentar
a ordem mundial refletir[relâché
distendida sobre]:tudo isto que, hoje,
o transitório, pareceo desar-
o instável, carac-
ticulado e o ambivalente. É tentar apreender o instável e recusar o unívoco. O pós-Guerra Fria
se revelaria pós-moderno no que ele rompe com as principais características da modernidade:
os modelos-tipo lineares e prontos (a Guerra Fria), fundados sobre a causalidade direta e pre-
visível (LAÏDI, 1992, p.30).
[...] admitir que toda explicação geralmente não é nem estável nem unívoca. [...] a realidade
internacional é simultaneamente unipolar, multipolar e em muitos casos “a-polar”. [...] No
12 | Os dilemas da globalização – fragmentação

estudo das relações internacionais, a questão será menos de classificar e de simplificar que de
interpretar o mutante e o contraditório. (LAÏDI, 1992, p.32, tradução nossa).

A exemplo desses dois autores, outras correntes antagônicas se sucederam ao longo dos
anos 1990, a primeira década pós-divisão do mundo entre os dois grandes blocos da Guerra
Fria. Ainda que as discussões mais difundidas tenham sido aquelas que focalizavam os pro-
cessos de globalização, sobretudo numa perspectiva econômica, outras linhas (especialmente
aquela lançada por HUNTINGTON, 1994, 1996) enfatizavam os processos “fragmentadores”,
como os de ordem cultural – uma nova ênfase à divisão em grandes civilizações ou, de outro
ângulo, no âmbito das relações internacionais, uma nova ordem multipolarizada e flexível.
Por fim, aparecem até mesmo aqueles que propõem que a nova fonte de conflitos dar-se-á
em função das questões ambientais.1 Como é possível a existência de tantas e aparentemente
tão contraditórias interpretações?
Podemos dizer que todo esseimbróglio teórico não é novidade dentro da história do pen-
samento, alimentando velhos dilemas como o que, já entre os antigos gregos, se desenhava
entre os partidários de um mundo fundado pelo caos, pela “desordem”, e aqueles que o tra-
tavam primordialmente a partir de um cosmos, de uma ordem que lhe seria inerente. Sem
entrarmos nesta questão de fundo, ontológica, percebemos que o que manifesta uma espe-
cificidade do espaço-tempo contemporâneo é o abandono de uma certa “ordem” e a difícil
instalação de uma outra – ou, quem sabe, de uma forma mais acurada, o aprendizado do con-
vívio, agora, concomitantemente, de múltiplasdes-ordens. Abordagens como a que passou
a distinguir modernistas e pós-modernistas, universalistas e comunitaristas ou, numa outra
leitura, mais geo-historicamente contextualizada, “euro (ou ocidentalo) cêntricos” e “pós (ou
des)-coloniais”, manifestam com roupagem nova questões recorrentes na história humana.
Cabe verificar em que sentido sua associação com os processos, concomitantes, aqui denomi-
nados de globalização e fragmentação, ajuda a elucidar esses dilemas.
Na verdade, o debate da globalização/fragmentação acabou muitas vezes banalizado e
aparece eivado de ambiguidade. Abre-se, assim, um leque de interpretações que vão desde as
mais críticas até as mais conservadoras, das mais universalistas às mais “regionalistas”, desde
as mais economicistas até as mais culturalistas e mesmo ecologicistas – talvez como reflexo,

no campo
lidade das ideias,
contemporâ deÉtoda
nea. comoa incerteza
se as duaseúltimas
imprevisibilidade que passou
décadas tivessem a caracterizar
configurad o um dosa rea-
pe-
ríodos em que a história, condensada numa multiplicidade de acontecimentos, muitos deles
totalmente imprevisíveis, reunisse novos e velhos tempos, compondo uma nova e ainda mais
complexa geografia do mundo.

1
Ver por exemplo relatório do Instituto Worldwatch, de Washington, que afirmava, nos anos 1990, que a base para a segurança mundial
seria a estabilização da população, a redução das desigualdades sociais, a conservação do solo e da água e o retardamento do processo de
aquecimento global.
Rogério Haesbaert | 13

Diante dos discursos sobre a globalização, podemos distinguir pelo menos uma posição
“oficial”, mais conservadora, muito estimulada pela mídia, e uma posição crítica, mais difun-
dida no meio acadêmico. Na primeira perspectiva, a globalização é vista, sobretudo, como
um processo recente, fruto da “Terceira Onda” (na expressão de Alvin Toffler) ou da Terceira
Revolução Industrial tecno-científica, fundada no livre mercado (neoliberal), na (pretensa)
livre circulação de bens, capitais e serviços e na sociedade informacional, pós-industrial, de
compressão do espaço-tempo. Com isso, haveria uma ampliação dos princípios da liberdade
democrática, a afirmação de regimes multipartidários mundo afora, juntamente com uma
economia “sem fronteiras”, com a superação das distâncias (CAIRNCROSS, 1997, 2000) e, no
limite, o próprio “fim da geografia” (VIRILIO, 1997), pelo menos para o capital financeiro efeti-
vamente globalizado (O’BRIEN, 1992). O fim da Guerra Fria e da bipolarização que a acompa-
nhava teria afastado o perigo nuclear, e a universalização dos valores ocidentais (pelo menos
antes do 11 de setembro de 2001) abriria as portas para uma cidadania planetarizada (como
na sociedade-mundo proposta por Jacques Lévy).
Já numa postura mais crítica, a globalização poderia ser vista como o ápice de um processo
cujas srcens já se encontram, como analisaremos logo adiante, na própria formação do capi-
talismo, que se ampliaria tanto horizontal quanto verticalmente por toda a superfície da Terra.
Uma característica diferenciadora fundamental, hoje, seria o domínio avassalador do capital
financeiro e usurário, especulativo, com um montante de capital fictício (como já identificava
Marx) nunca antes tão relevante (CHESNAIS, 1996, 2006). Para a efetivação de uma atuação
em nível global, ao mesmo tempo como seu produto e seu condicionante, estaria o padrão
tecnológico pautado na informatização. Em vez do utópico e nunca concretizado “livre merca-
do”, entretanto, vigoraria o domínio de grandes oligopólios e de blocos econômicos protecio-
nistas, concentrando entre seus parceiros a maior parte dos intercâmbios mundiais, deixando
à margem imensas periferias e provocando com isso uma desigualdade social provavelmente
inédita na história – principalmente por sua proliferação tanto no chamado “Sul” quanto no
interior do próprio “Norte” mundial – categorias, a propósito, tais como as de centro e perife-
ria, cada vez mais problemáticas.2

As raízes históricas da globalização

A globalização contemporânea é vista assim, antes de tudo, como um produto da expan-


são cada vez mais ampliada do capitalismo e da sociedade de consumo, acarretando uma
crescente mercantilização da vida humana, que teria atingido patamares únicos na história,
especialmente com a sua expansão pela esfera da cultura. Numa sociedade moldada pelo
2
Para uma interessante discussão teórica de inspiração pós-colonial sobre esse entrecruzar Norte-Sul (“o Sul do Norte” e o “Norte do
Sul”) e que questiona também certas concepções de pós-modernismo, ver Souza Santos (2004). Disponível em:<http://www.ces.
uc.pt/misc/Do_pos-moderno_ao_pos-colonial.pdf>. Para uma avaliação (sobretudo quantitativa) do aumento das desigualdades no
interior da principal sociedade nacional hegemônica, os Estados Unidos, ver Dieguez (2008). Disponível em:<www.diplo.uol.com.br/
2008-2,a2214>.
14 | Os dilemas da globalização – fragmentação

fetichismo da mercadoria, dominada pela lógica contábil em que praticamente tudo é trans-
formado em grandeza abstrata, passível de se tornar objeto de compra e venda, parece difícil
até mesmo imaginar a manifestação de culturas ou “civilizações” com padrões efetivamente
distintos de organização político-econômica e sociabilidade. É inerente à lógica do capital,
bem sabemos, expandir-se tanto em profundidade, reordenando espaços já incorporados (a
partir da reconstrução de territórios previamente existentes, ou seja, de dinâmicas intrínsecas
de reterritorialização), quanto em extensão, incorporando constantemente novos territórios
(ou seja, territorializando-se pela desterritorialização de grupos culturais e organizações so-
cioeconômicas distintos).
Muitos autores consideram como fase embrionária da globalização o próprio período ini-
cial de formação e afirmação do capitalismo, entre os séculos XV e XVIII. Robertson (1994),
por exemplo, propõe a seguinte periodização para as diferentes fases do processo “denso e
complexo” que levou à globalização:

• Fase I ou embrionária (do começo do século XV até a metade do século XVIII): marcada
pela decadência do feudalismo, o crescimento das comunidades nacionais, o avanço
das explorações geográficas e das conquistas territoriais, e a difusão dos conceitos de
indivíduo e humanidade.
• Fase II ou incipiente (da metade do século XVIII até a década de 1870): fortalecimento
de Estados unitários, formalização dos conceitos de relações internacionais e da pro-
blemática do internacionalismo, com a comunicação e a regulamentação ampliando-
se a partir da Europa para o resto do mundo.
• Fase III ou da decolagem (da década de 1870 até a metade da década de 1920): deba-
te sobre a “sociedade nacional [global] ‘correta’”, aceleração das comunicações, início
do movimento ecumênico, implementação de hora e calendário universais, primeiro
conflito considerado “mundial” (a Primeira Grande Guerra).
• Fase IV ou da luta-pela-hegemonia (do começo da década de 1920 até a primeira me-
tade da década de 1960): disputas e guerras em torno dos frágeis termos do processo
de globalização estabelecido no final do período anterior, criação das Nações Unidas,
sentimento humanitário global a partir do holocausto e da bomba atômica (evidência

• da
Fasepossibilidade de destruição
V ou da incerteza global).
(do início da década de 1960 até provavelmente o início dos
anos 1990): inclusão do Terceiro Mundo nas redes do sistema industrial e intensifica-
ção da consciência global, com a difusão de várias instituições e movimentos globais,
problemas crescentes de multi(ou trans)nacionalidade, complexificação do conceito
de indivíduo com as questões de gênero e etnia, sistema internacional mais fluido,
poderoso sistema de mídia global, questões ecológicas mundializadas.
Rogério Haesbaert | 15

Podemos, entretanto, localizar as bases históricas mais firmes da globalização na etapa


que Robertson identifica como de “decolagem”, entre 1870 e 1920 – ou, mais propriamente,
até o início da Primeira Grande Guerra, em 1914. Em relação à importância da abertura eco-
nômica nesse período, autores que questionam a atual globalização econômica, como Hirst
e Thompson (1998), chegam mesmo a afirmar que “em certos aspectos, a economia inter-
nacional atualmente émenos aberta e integrada do que o regime que prevaleceu de 1870 a
1914” (p. 15). Esta época equivaleria aproximadamente àquela do capitalismo denominado
de monopolista ou imperialista (LÊNIN, 1917,1979) quando, a partir do final do século XIX,
o sistema econômico não só se expande por novas áreas como, sobretudo, impõe redivisões
entre diferentes blocos de influência do capital financeiro, fato que fica explícito, sobretudo,
com a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Temos assim, especialmente na primeira metade
do século XX, uma intensificada disputa pela redivisão do mundo em termos dos centros de
poder que sobre ele exercem influência.
Não se trata, é óbvio, de um avanço do capitalismo de forma linear e sem resistências. Se
retrocedermos no tempo, verificaremos que, na identificação de fases ou “ondas”, o capitalis-
mo apresentou avanços e recuos em sua dinâmica competitiva, imperialista e globalizadora,
não só pela natureza contraditória de sua reprodução como também pela interferência, mais
ou menos intensa, dos trabalhadores (organizados em sindicatos, por exemplo) e do Estado
(principalmente dentro do “capitalismo burocrático total” [Castoriadis, 1985] do chamado so-
cialismo [ir]real). Alternando fases de acumulação e crise, estabilidade e instabilidade (que
não se restringem à lógica econômica, incluindo também a lógica político-militar), “liberalis-
mo” e maior intervenção do Estado, o capitalismo se reordena, sobretudo em função das cons-
tantes inovações tecnológicas, criando com elas novas “necessidades” capazes de redirecionar
e reimpulsionar os ciclos produtivos. Este permanente avanço tecnológico é que favorecia a
percepção de um avanço ou “progresso” cumulativo e linear, pelo menos até o agravamento
das questões ambientais.
Podemos, entretanto, propor pelo menos alguns elementos bastante amplos que servem
de referenciais indicativos da globalização em um sentido geral. Entre eles destacaríamos, to-
dos portadores de contradições e ambivalências,

• suas
o princípio econômico
srcens (claramenteexpansionista
enfatizado “global” inerente
no Manifesto à acumulaç
Comunista deãoMarx
capitalista desde
e Engels) eo
processo colonialista e/ou imperialista que o acompanhou, difundindo gradativamen-
te por todo o planeta a ideologia do consumo de grupos seletos e de massa;
• o modelo político estatal, reprodutível ao nível global como forma exclusiva (e, em
vários sentidos, excludente) de gestão socioterritorial, a partir do sistema jurídico de
estruturação e garantia da propriedade privada;
16 | Os dilemas da globalização – fragmentação

• o princípio ideológico universalista da filosofia iluminista europeia (ou da chamada


modernidade ocidental), a partir da crença na figura do indivíduo autônomo e, com
ela, de valores e direitos universais;
• mais recentemente,o princípio da“finitude comum”da humanidade, geradocontra-
ditoriamente pelo mesmo “modelo” que dilapidou o planeta, princípio este abalizado
por ações concretas de alto poder simbólico, como o já comentado lançamento da
bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial.
O acirrar dessa dinâmica concomitantemente fragmentadora (mais para os “de baixo”)
e globalizadora (mais para os “de cima”) leva, nos anos 2000, à configuração de uma nova
des-ordem caracterizada não mais pelo predomínio de processos socioeconômicos e/ou polí-
tico-militares, típicos do período de confronto entre dois blocos, mas também, às vezes com
igual relevância, pela dimensão simbólico-cultural, com o fortalecimento de conflitos com
forte (mas, obviamente, nunca exclusiva) conotação cultural, especialmente étnico-religiosa
(HAESBAERT; PORTO-GONÇALVES, 2006).
Propomos redenominar essa última fase, pois a “incerteza” – ou, talvez mais apropria-
damente, como decorrência dela, a “insegurança” –, que parece ter mesmo se acentuado na
primeira década do século XXI, não é um traço definidor apenas daquele período, como queria
Robertson. Ela parece inaugurar uma característica fundamental de todo um novo e mais am-
plo momento da história da globalização, a que faremos referência mais adiante.
Poderíamos, assim, redefinir a fase V, do final (e não do início) dos anos 1960 (especial-
mente com as manifestações de maio de 1968) até o início dos anos 2000 e denominá-la
era da “insegurança” e, concomitantemente, como diriam Foucault e Deleuze, em nome do
próprio combate a esta “insegurança”, do aumento e da sofisticação das formas de controle.
“Insegurança”, aqui, é muito importante frisar, não carrega apenas um sentido negativo, mas
representa ainda o potencial mais explícito da mudança. Isto também equivale a interpretar
o período mais “seguro” que a antecedeu, obviamente, não como um período mais “positivo”
pelo simples fato de revelar maior “segurança” – que, neste caso, associa-se igualmente com
estabilidade, esta podendo ser conquistada às custas, por exemplo, de muita opressão (como
foi o caso dos regimes ditatoriais latino-americanos). Aliás, é justamente esta leitura unila-
teral e maniqueísta que associa segurança com o positivo e insegurança com o negativo que

pauta oparte
grande discurso
umaideológico
produçãodominante.
desse campoAsimbólico
“sociedade
oudede(in)segurança”
representações.em que vivemos é em
Associada à produção dessa incerteza e insegurança (e, por outro lado, ao mesmo tem-
po de abertura para o novo), encontramos a gradativa dissociação dos padrões hegemônicos
anteriores. Estes eram pautados no binarismo que se refletia na bipolaridade em nível políti-
co-ideológico (blocos capitalista e socialista) e que foi, aos poucos, dando lugar à multiplici-
dade das chamadas “políticas pós-modernas” ou“da diferença”. A afirmação do neoliberalismo
econômico dito pós-fordista ou de acumulação flexível (altamente especulativo), deu lugar
também à insegurança nas relações de trabalho, com a fragmentação dos movimentos sociais
Rogério Haesbaert | 17

e a precarização socioeconômica de uma massa crescente da população, colocada estrutu-


ralmente à margem por uma economia altamente tecnificada e “fictícia” (financeirizada) e
potencializada em termos da imprevisibilidade de sua ação/de seus efeitos sobre a nova des-
-ordem em construção.
Os anos 2000, provavelmente evidenciando um novo período, ainda não muito claro, tra-
zem à tona com mais força a contradição da globalização em termos de suas dimensões e de
seu alcance, aflorando com mais ênfase a dissociação entre sua efetivação material (especial-
mente em termos tecnoecológicos), seu reconhecimento no campo da cultura (com a ausência
ou dificuldade de um consenso simbólico-cultural mais amplo) e sua necessidade (mas tam-
bém ausência) no nível jurídico-político. Trata-se de uma verdadeira encruzilhada, em que são
gestadas novas alternativas, entrelaçando alguns dilemas básicos:

• a problemática ecológica,especialmente o aquecimento globale seus desdobramen-


tos imprevisíveis, que coloca em primeiro plano a consciência global das questões
ambientais e, consequentemente, o questionamento do atual modelo social, espe-
cialmente em seu padrão econômico-energético e tecnológico;
• o jogo entre o revigorar de identificações culturais fragmentadoras(ou, simplesmente,
diferenciadoras) e valores particularistas e o reconhecimento (de alguma forma visto
como também necessário) de uma identidade global universalizadora, algo como a
“Terra Pátria” proposta por Morin e Kern (1993);
• as disputas políticas entre Estados-nações, ainda os principais instrumentos políticos
na construção da hegemonia, pelo estabelecimento de consensos sobre questões cuja
amplitude de ocorrência e intensidade requerem, de fato, medidas globais, sugerindo
até mesmo a constituição de uma cidadania mundial comum (SASSE N, 2010).

Por outro lado, trata-se também, indiscutivelmente, do período em que se manifesta, pela
primeira vez com intensidade, o que pode ser chamado de um conjunto de movimentos con-
traglobalizadores, tendo como marco histórico o movimento zapatista e sua luta contra o neo-
liberalismo e a favor de uma espécie de socialismo na diferença. Movimentos contraglobaliza-
dores não mais no sentido de, simplesmente, contraporem-se aos processos de globalização

(ou termos
em a uma globalização
de escala dasemações
sentido genérico e,oupornecessárias),
(pretendidas isto, bastante
sãoabstrata) que,praticamente
tidas como pelo menos
irreversíveis, mas também de efetivamente proporem projetos por outras globalizações, tanto
num sentido neoconservador (como no caso do fundamentalismo islâmico) quanto progres-
sista (como em muitas manifestações veiculadas por meio dos Fóruns Sociais Mundiais).
Ainda que cientes da necessidade de periodizações como aquela proposta por Robertson,
não devemos confundi-la com a ideia de uma evolução linear progressiva da globalização
(havendo sempre, portanto, a possibilidade de avanços e recuos) e muito menos com uma
transformação geral, concomitante e uniformemente produzida em relação a suas diversas
18 | Os dilemas da globalização – fragmentação

dimensões (social, econômica, político-militar, cultural, ambiental). Na verdade, propomos


estabelecer o debate sobre a globalização sempre conjugado a sua contraface, aquela que
denominamos, incorporando sentido amplo já legitimado, de “fragmentação” – e que outros,
mais simplificadamente, também denominam de “regionalização”.
No sentido mais geral de fragmentação aqui adotado, e como será melhor discutido mais
adiante, não se vinculam apenas dinâmicas que se contrapõem às dinâmicas globalizadoras,
mas também muitas que, de algum modo, a compõem, como um de seus elementos indis-
sociáveis. Alguns autores, especialmente no âmbito econômico, utilizam também o termo
“regionalização” (ou mesmo “novos regionalismos”, quando se referem aos blocos econômi-
cos) para destacarem esta outra face da globalização. Preferimos dotá-lo de maior rigor e re-
servarmos um sentido mais estrito para este termo,3 propósito central no desdobramento da
problemática principal abordada nos capítulos subsequentes deste trabalho.

Uma globalização da in-segurança e da “exceção”?

Hoje, sem dúvida, a incerteza ou a imprevisibilidade e o risco são aspectos fundamentais


que moldam a chamada globalização. Em outras palavras, somos marcados pelo discurso da
insegurança, legitimando, mais do que nunca, um outro, o da necessidade de uma “sociedade
de controle”, profeticamente delineada por Orwell em seu clássico1984. Como parte de uma
sociedade da “in-segurança” ou do “des-controle” fortalece-se, também, aquela que Foucault
denominou “sociedade biopolítica”, uma sociedade com raízes ainda nos séculos XVII-XVIII (e
que se firma a partir do século XIX), em que o propósito fundamental é o de “fazer viver”,
prolongando a vida e estimulando os mecanismos biotecnológicos nas mais diversas áreas ou
evitando/retardando a morte, que inverte o princípio do poder soberano tradicional que se
fazia em torno do “fazer morrer”, do legislar basicamente sobre a morte (FOUCAULT, 2002, p.
294). Os grandes genocídios do último século seriam desencadeados, paradoxalmente, tam-
bém, em nome da vida: a morte, quando estimulada, é produzida visando maximizar a vida
ou, pelo menos, a vida “seleta” de determinado grupo – e suas características biológicas (de
aptidão física, pureza étnica etc.), isto é, daqueles que, de fato, “mereceriam” viver.
Gradativamente, o perigo ou risco fundamental passa a ser não exatamente a reprodução

biológica,
da como
vida, que em conhecidas
é julgada linguagens
assim o centro neomalthusianas,
das preocupações mas o próprio desaparecimento
e da “governamentalidade” do Estado.
Substitui-se o antigo poder soberano de “fazer morrer”, de decretar a morte, pelo poder bio-
político de “fazer viver” ou, mais ainda, de não deixar morrer ou até mesmo de não promover
a extinção da própria espécie humana. A relevância que este tema adquire no contexto atual
está ligada à própria definição de globalização, pois uma das preocupações que primeiro se
efetivou como questão global foi sem dúvida a problemática ecológica e as consequentes ga-
rantias de reprodução da vida (em paralelo aos riscos de sua extinção). Ela está diretamente
3
Para uma discussão sobre o tema ver Haesbaert (2010).
Rogério Haesbaert | 19

ligada ao padrão capitalista dominante, arquitetado agora, entre outros, pela produção do
próprio risco, da (“indústria” da) insegurança e do medo.
Globalização e fragmentação, ou se quisermos, “individualização”, são dinâmicas que po-
dem ser associadas ao que Foucault denominou de biopoder e poder disciplinar. O poder dis-
ciplinar estava focado sobre a figura do homem-corpo, os mecanismos disciplinares visando
fortalecer sua figura enquanto indivíduo, passível de permanente incorporação ao mercado
de trabalho e aos circuitos de produção e consumo. Por outro lado, numa sociedade biopolí-
tica em que não se acredita mais nessa inserção generalizada no mundo da exploração (ou,
numa ótica conservadora, do “progresso”) pelo trabalho, produzindo uma massa crescente de
despossuídos, os mecanismos de segurança estão centralizados no controle do homem en-
quanto espécie, enquanto “população”4 – em que a preocupação básica pode não ser mais a
de sua reprodução enquanto (potencial) indivíduo trabalhador, produtivo, “força de trabalho”,
mas, sobretudo, enquanto população que, como entidade biológica, se reproduz, se expande
e circula.
A emergência da “população” como questão no campo das ideias e como realidade em-
pírica se projeta a partir dos séculos XVII e XVIII e, sobretudo, do XIX, de forma a trabalhar
genericamente, “globalmente”, o conjunto dos homens. A estatística – de alguma forma uma
“ciência de Estado”, como se percebe na sua srcem etimológica, especialmente a estatística
demográfica e econômica, em seu caráter global, universalizante, tratando todos como uni-
dades de uma mesma espécie (biológica) – passa a ser um dos instrumentos fundamentais
para o controle social.
Nossa época, juntamente com as marcas foucaultianas da “segurança” e da “biopolítica”,
é também, assim, uma época de generalização do “controle”5 (DELEUZE, 1992), do controle,
antes de mais nada, da circulação, dos fluxos – do capital, da informação e, sobretudo, da
população (notadamente em suas frações subalternizadas). De forma ambígua – ou mesmo
justificando essas expressões – é também a época em que começamos a perder o poder sobre
a vida (e banalizamos a morte), a época em que vigora o descontrole – inclusive dos territó-
rios, com a relativa crise da soberania territorial do Estado. Nosso tempo “global-fragmen-
tado” é, assim, o tempo da indistinção do dentro e do fora, do móvel e do imóvel, no qual
as fronteiras territoriais “de soberania” nunca foram, ao mesmo tempo, tão vulneráveis e tão

fechadas.
plena criseOsdanovos muros estatal
soberania mundo(éafora (mapa 1)diante
sobretudo são uma
dos evidência disso: é justamente
fluxos transnacionais que elesemsão
erguidos) que as fronteiras precisam, de alguma forma, “espetacularmente” (como destaca
BROWN, 2009), manifestar mais explicitamente sua existência. Os novos muros, ainda que
pautados pela pouca eficácia, não se restringem às fronteiras internacionais, expandindo-se
no nível das propriedades privadas (residências gradeadas ou muradas) e das “comunidades”
4
População, no sentido foucaultiano, vista aqui como “uma multiplicidade de indivíduos que são e que só existem profundamente, essen-
cialmente, biologicamente ligados à materialidade no interior da qual eles existem”. (FOUCAULT, 2004b, p. 23, tradução no ssa)
5
Para uma seleção bibliográfica sobre o tema do “controle” (social) na Geografia, ver Fraile (1990).
20 | Os dilemas da globalização – fragmentação

(tanto dos condomínios fechados dos mais abnegados quanto das favelas e bairros pobres,
como no R io de Janeiro). A problemática (efetiva ou imaginária) da in-segurança se torna aí,
muitas vezes, o discurso dominante.
Na afirmação de Deleuze com que abrimos nosso livro O mito da desterritorialização:

[...] o homem não é mais o homem confinado, mas o homem endividado. É verdade que o
capitalismo manteve como constante a extrema miséria de três quartos da humanidade, po-
bres demais para o endividamento, numerosos demais para o confinamento: o controle não só
terá que enfrentar a dissipação das fronteiras, mas também a explosão dos guetos e favelas.
(DELEUZE, 1992, p. 224)

Poderíamos dizer que vivemos o tempo dos paradoxos e da perplexidade (DREIFUSS, 1996)
ou, se quisermos, por fidelidade a Ulrich Beck e Giorgio Agamben, dos “riscos” e das “exceções”
territoriais (em que esses “territórios de risco” e/ou “de exceção” podem facilmente se tornar
a regra, principalmente diante daquilo que Klein (2008) denominou nosso “capitalismo de
desastre”, gerenciador de catástrofes). Assim, é melhor afirmar que a designação da sociedade
e dos processos de globalização contemporâneos, a partir dos termos “segurança”, “controle”
e/ou “biopolítica”, na verdade deveria incorporar seu caráter profundamente contraditório e
ambivalente e ser substituída pelos binômios “in-segurança”, “des-controle”e “bio-tanatopolí-
tica”. Por outro lado, seremos assim inteiramente coerentes, também, com a indissociabilidade
do binômio globalização-fragmentação.
Com relação à insegurança e à perda de controle, o sociólogo alemão Ulrich Beck, em um
livro, hoje tornado clássico, publicado ainda na década de 1980, propôs o termo “sociedade de
risco” para definir a sociedade contemporânea:

Este conceito designa uma fase de desenvolvimento da sociedade moderna em que, atra-
vés da dinâmica de mudança a produção de riscos políticos, ecológicos e individuais escapa,
cada vez em maior proporção, às instituições de controle e proteção da chamada sociedade
industrial. (p. 201) [...] a sociedade de risco se srcina ali onde os sistemas de normas sociais
fracassam em relação à segurança prometida ante os perigos desencadeados pela tomada de

decisões. (BECK, 1996, p. 206)


Com relação ao que estamos denominando de bio-tanatopolítica, por sua vez, verifica-se
que, paralelamente a uma preocupação inédita com as diferentes formas de vida (com a “biodi-
versidade”, em sentido amplo), ocorre uma “desqualificação progressiva da morte” (FOUCAULT,
2002, p. 294), como aquela envolvida no discurso e nas práticas de racismo. Segundo Foucault,
o racismo é uma cesura do tipo biológico no interior desse próprio domínio, no qual a morte do
outro significa o meu fortalecimento – não se trata apenas de garantir a segurança da “minha
vida”, mas de evitar a proliferação da “raça ruim, da raça inferior (ou do degenerado, ou do
Rogério Haesbaert | 21

anormal)”, deixando assim “a vida em geral mais sadia [...] e mais pura”. (2002, p. 305) Desse
modo, “o poder de expor uma população à morte geral é o inverso do poder de garantir a outra
sua permanência em vida”. (FOUCAULT, 1985, p. 129)

Mapa 1 – Os novos muros fronteiriços

Tende a proliferar algo próximo da figura ambivalente que Agamben denominou dehomo
sacer, o homem “insacrificável e, todavia, matável” (AGAMBEN, 2002, p. 90), que “pertence ao
Deus na forma da insacrificabilidade, e é incluído [pela “exclusão” ou banimento] na comuni-
dade na forma da matabilidade”, experimentando assim uma “dupla exclusão em que se en-
contra preso” (excluído concomitantemente do direito humano e do divino) e uma “violência à
qual se encontra exposto” (já que, “matável”, diante dele todos os demais são “soberanos”, pois
podem matá-lo sem que com isso cometam homicídio) (2004, p. 90),6 Condenado à “vida nua”,
o homo sacer teria no “campo” o seu espaço ou território por excelência.
Para o autor, o “campo” é o “puro, absoluto e insuperável espaço biopolítico (e enquanto
tal fundado unicamente sob o Estado de exceção). [...] paradigma oculto do espaço político
da modernidade” (2002, p. 129). Em outras palavras, “o campo é o espaço que se abre quando

o estado de exceção começa a tornar-se a regra”, quando este “cessa de ser referido a uma
6
“Nos dois limites extremos do ordenamento, soberano e homo sacer apresentam duas figuras simétricas, que têm a mesma estrutura e
são correlatas, no sentido de que soberano é aquele em relação ao qual todos os homens são potencialmente homines sacri e homo sacer
é aquele em relação ao qual todos os homens agem como soberanos”. (AGAMBEN, 2002, p. 92) O “homo sacer” representaria, em outras
palavras, “a figura srcinária da vida presa no bando soberano e conser varia a memória da exclusão srcinária através da qual se constituiu
a dimensão política”. (2002, p. 91) Não se trata da “simples vida natural” (a “zoé”, pela distinção grega em relação à “bios”) ou da simples
“animalização do homem”, como dizia Foucault, mas da “vida exposta à morte (a vida nua ou vida sacra)”, “elemento do poder srcinário”
(p. 96). Para Agamben, o “bando” é “remetido à própria separação e, juntamente, entregue à mercê de quem o abandona, ao mesmo
tempo excluso e incluso, dispensado e, simultaneamente, capturado” (2002, p. 116). O “bando” carrega tanto a “insígnia da soberania”
(que o “baniu”) quanto a “expulsão da comunidade”.
22 | Os dilemas da globalização – fragmentação

situação externa e provisória de perigo factício e tende a confundir-se com a própria norma”
(AGAMBEN, 2002, p. 175). Assim:

[...] o campo é também o mais absoluto espaço biopolítico que jamais tenha sido realizado,
ao qual o poder não tem diante de si senão a pura vida nua sem qualquer mediação. Por isso
o campo é o próprio paradigma do espaço político no ponto em que a política torna-se bio-
política e o homo sacer se confunde vir tualmente com o cidadão. (AGAMBEN, 2002, p. 178)

Embora seja difícil identificar essa “pura vida nua”, difundem-se, sem dúvida, “espaços” ou
“territorializações de exceção” (HAESBAERT, 2006) – provavelmente não na escala e intensida-
de sugeridas por Agamben (2004), mas onde aparecem traços claros do que o autor identifica
como “Estados de exceção”, nos quais leis emergenciais/excepcionais, inerentes ao próprio
poder soberano, acabam por se tornar a regra. De territórios mais restritos como os campos
de concentração e espaços de controle de migrantes até o próprio Estado em seu conjunto
(no caso, por exemplo, doP.A.T.R.I.O.T. Act7 pós-11 de setembro para todo o território norte-a-
mericano), pode-se identificar uma complexa “geografia” em diferentes formas dedes-orde-
namento (sempre hifenizado) que, com base no discurso da segurança biopolítica, acaba por
percorrer praticamente todo o planeta, de alguma forma “globalizando” (em diferentes níveis)
políticas de exceção, especialmente em relação ao que, como veremos mais adiante, pode ser
caracterizado como “aglomerados de exclusão”.
Trata-se, sem dúvida, de um processo acompanhado por uma nova configuração do
Estado, chamado a exercer funções diretamente relacionadas com o discurso da in-segurança,
e que coloca em cheque a tese da fragilização ou mesmo do fim do Estado-nação – especial-
mente quando a insegurança e os riscos embutidos numa crise financeira internacional, como
a de 2008, voltam a demandar fortes intervenções estatais. Tem-se, contraditoriamente, um
Estado que é chamado a intervir em questões de ordem transnacional ou global, evidentes
para muito além de sua estrita esfera territorial de soberania.

A reconfiguração do Estado sob a globalização

O papel doocidental
modernidade Estado-nação dentro dosempre
globalizadora, capitalismo e, num sentido
foi ambivalente. mais amplo,
Ao suprimir antigasdentro da
divisões
regionais e de clãs e se difundir como forma padrão de organização política pelo mundo, 8
o Estado universalizou determinados instrumentos de gestão (“técnicas de governamen-
talidade”, diria Foucault) que, ao mesmo tempo que estabeleceram inúmeros direitos (de
7
Este acrônimo significa “Uniting and Strengthening America by Providing Appropriate Tools Required to Intercept and Obstruct Terrorism
Act of 2001” (“Ato de 2001 para Unir e Fortalecer a América Proporcionando Ferramentas Apropriadas Necessárias para Interceptar e
Obstruir o Terrorismo”, em tradução nossa).
8
Uma “sociedade de nações” que, iniciada simbolicamente na Europa com o Tratado de Vestfália em 1648, só se globalizou de fato com o
processo de descolonização nas décadas de 1950 e 1960.
Rogério Haesbaert | 23

“cidadania”), especialmente no nível individual, fortaleceram os interesses do capital e, mui-


tas vezes, impuseram-lhe alguns limites, reordenando sua circulação, como ocorreu recente-
mente no gerenciamento da crise financeira pelo chamado G-20.
Assim, o domínio das “sociedades nacionais” (como enfatizou ROBERTSON, 1994), ao con-
trário de uma leitura disseminada no senso comum, é um aspecto fundamental do processo
globalizador. Segundo Sassen (2010), não se pode esquecer que “certos componentes chave
do global se estruturam dentro do nacional, o que produz múltiplas instâncias de desnaciona-
lização especializada” (p. 25).
Robertson define como componentes centrais da globalização as sociedades nacionais, os
sistemas de relações internacionais e “os conceitos deindivíduo e de humanidade” (1994, p. 34,
grifos do autor). Não se pode esquecer, contudo, que o papel ambivalente do Estado se reflete
nitidamente hoje entre um Estado que tenta transcender os particularismos e diz promover
os ideais modernos de cidadania e autonomia (centradas na figura do indivíduo universal) e
outro que, pautado mais no comunitarismo referido a etnia e religião (ou no jus sanguinis), por
exemplo, acaba por vezes promovendo a fragmentação e/ou o sectarismo.9
Não há dúvida de que as mudanças no poder focalizado na figura do Estado, a par tir prin-
cipalmente da alegada crise pela qual ele estaria passsando desde pelo menos os anos 1980,
com a instauração de um padrão de acumulação capitalista dito mais flexível e descentraliza-
do (o pós-fordismo), a chamada revolução informacional e a desregulamentação do capital
financeiro (iniciada com a crise do acordo de Bretton Woods no final dos anos 1960 e hoje
colocada seriamente em xeque), sem falar na paralela queda dos regimes burocráticos alta-
mente centralizados do chamado bloco socialista e, de maneira geral, na intensificação dos
fluxos transnacionais de toda ordem, levaram a um relativo debilitamento da sua capacidade
de controle sobre diversos fluxos através de suas fronteiras. Além disso, restringiu-se também
seu poder direto de intervir, internamente, na configuração de regiões e territórios, sobretudo
por intermédio do macroplanejamento territorial.
Nesse sentido, a tendência do Estado capitalista de “monopolizar os procedimentos de
organização do espaço e do tempo que se constituem, para ele, em rede de dominação e de
poder”, destacada por Poulantzas (2000, p. 98), parece estar sendo colocada em questão. A
própria retomada de políticas de planejamento regional ou de “ordenamento territorial”, pelo

menos
e, emvezes,
muitas paísesconcentrada
de grandes dimensões como o Brasil,
em áreas bastante passou
seletivas do aterritório.
priorizar
10 escalas mais restritas

Podemos dizer que muitas políticas “paraestatais” (desdobrando a própria lógica do


Estado) demonstram, se não a “perda de poder” do Estado tradicional, pelo menos a dele-
gação ou partilha de poder a/com outras esferas/escalas, tanto acima quanto abaixo de sua
jurisdição. Basta lembrar, “a montante”, a formação de grandes blocos supranacionais, União
9
Para um debate mais aprofundado sobre essas distinções, que incluem a própria diferenciação entre os padrões de organização estatal-
nacional das Europas Ocidental e Centro-Oriental, ver Schnapper (1994).
10
Substituem-se, no nosso caso, as macrorregiões que recobriam o território nacional como um todo (como no caso das “superintendências
[macro] regionais” dos anos 1950-1970) por meso e microrregiões específicas, em distintos níveis de priorização.
24 | Os dilemas da globalização – fragmentação

Europeia à frente (sem falar na proliferação de grandes fóruns multi[ou mesmo trans]nacio-
nais) e, “a jusante”, entidades políticas mais autônomas no nível intranacional, como os “novos
regionalismos” e/ou “localismos” em diversas áreas do planeta, alguns incentivando o diálogo
diretamente dos níveis “regional” e/ou “local” ao global, como veremos com mais detalhe no
debate sobre novas configurações regionais, na segunda parte deste livro.
Na análise dessa reestruturação do papeldes-reterritorializador do Estado sob a globaliza-
ção, devemos considerar a distinção e o cruzamento de diversos elementos, entre eles:

a) os sujeitos em jogo e seus objetivos políticos, desde os grupos econômicos e políti-


co-militares hegemônicos em suas reestruturações conservadoras até os movimentos
sociais de resistência em suas estratégias de transformação autonomista e reapropria-
ção/reconfiguração do Estado (como tentam construir hoje muitos grupos subalternos
latino-americanos);
b) as escalas dessa reestruturação, seja nas relações voltadas para fora do Estado (numa
escala inter-nacional ou global), seja para as que se constituem prioritariamente no
seu interior;
c) os níveis de flexibilização e/ou de centralização das decisões nas mãos doaparato es-
tatal e suas repercussões diferenciadas nas esferas econômica, político-militar, cultu-
ral e/ou ambiental.

No campo econômico, parece se repetir um processo recorrente dentro do modo de produ-


ção capitalista que alterna intervenções estatais mais agudas com outras insipientes, ou, nas
palavras de Arrighi (1996), trata-se de um jogo entre “territorialismo” (com maior intervenção
do Estado) e “capitalismo” (em seu sentido mais estrito), reproduzido ao longo de toda a his-
tória desse modo de produção.
Mesmo, sob o domínio do neoliberalismo, tendo perdido terreno em setores-chave como
o controle dos fluxos financeiros e de informação, o Estado volta a ser chamado a atuar, em-
bora nem sempre com sucesso, em épocas de crise, como a recente crise financeira global
de 2008. Ele sempre dispôs de alguns mecanismos, por exemplo, para alterar taxas de juro e
câmbio, fundamentais na atração do capital globalizado, ou para controlar algumas fontes de

informação, como
informações tentam
difundidas pelafazer a China
internet. e outros
Mesmo países ditatoriais
a propalada em relação
hipermobilidade a determinadas
global, associada
à “deslocalização” de grandes empresas, se revela uma falácia quando nos deparamos com o
papel do Estado no estímulo à instalação dessas empresas em determinados locais em função
de isenções fiscais e outros benefícios indiretos, incluindo a própria garantia de infraestrutura
e de qualificação da força de trabalho (a produção daquilo que alguns denominaram “capital
pensante”, hoje fundamental).
Como afirmava Defarges, ainda no início dos anos 1990:
Rogério Haesbaert | 25

[...] as decisões de modernização das redes telefônicas, de construção de autoestradas ou de


aeroportos pertencem às a utoridades públicas (Estados, eventualmente regiões ou comunas),
que têm suas exigências, seus preconceitos, frequentemente suas normas. A globalização
deve se acomodar à fragmentação do mundo em entidades políticas, mesmo se a abertura
dos mercados públicos está na ordem do dia [...] (DEFARGES, 1993, p. 49).

Outro setor em que o Estado sempre manteve uma função e que hoje parece, relativamen-
te, fortalecer-se, é o do controle da força de trabalho – ou, pelo menos, de sua mobilidade.
Se há um papel em relação ao qual as fronteiras, cada vez mais permeáveis no que se refere a
outros fluxos, foram reforçadas é o do controle da mobilidade da população, sobretudo, mas
não apenas, a população enquanto força de trabalho. Embora raras vezes com efetivo sucesso,
o Estado, mundo afora, é chamado a exercer maior controle sobre o fluxo de imigrantes, quer
mediante legislações altamente seletivas, quer mediante o fortalecimento do próprio controle
físico – ou informacional – sobre suas fronteiras territoriais (ver, por exemplo, os muros fron-
teiriços no mapa 1).
É importante lembrar também que, na sua enorme heterogeneidade, o Estado, ainda que
na forma de pequenos e frágeis territórios, muitas vezes é criado ou reconfigurado justamente
para servir como espaço estratégico às grandes redes do capital financeiro globalizado, como
é o caso, fundamental para estes circuitos, dos paraísos financeiros internacionais, espécies de
“Estados de exceção” em sentido menos estrito e literal (por não incluírem claramente o sen-
tido biopolítico da “vida nua”), estimulados justamente pelo caráter de um sistema jurídico,
no qual, literalmente, “o ilegal torna-se legal”, especialmente por seu papel na lavagem de
dinheiro.11
Considerando ainda a grande diversidade de Estados, em níveis de poder extremamente
diferenciados, alguns deles, mesmo num sentido econômico mais amplo, continuam exercen-
do um papel muito relevante, inclusive no setor produtivo. O caso da China é o mais emble-
mático, com empresas estatais muito poderosas e controles seletivos, inclusive territoriais,
ainda hoje, sobre a entrada do capital estrangeiro (v. capítulo referente à China neste livro).
O Vietnam, no Sudeste Asiático, segue modelo semelhante. No âmbito do ex-bloco soviético,
também se destacam países de economia mais dirigida, como alguns Estados da chamada

Ásia Central. Seguem-se outros, mesmo sem heranças “socialistas”, como alguns países árabes
11
Crédito a Lia Machado a consideração a respeito deste elo entre “Estados de exceção”e paraísos fiscais. Geoff Cook, ex-diretor financeiro do
banco HSBC e diretor da Jersey Finance Limited ( Jersey é uma pequena ilha do Canal da Mancha com estatuto especial dentro da Common-
wealth britânica), usa o eufemismo de “território fiscalmente neutro” para definir o estatuto de seu paraíso fiscal. Há quem identifique
até 70 “centrosoffshore”, como também são chamados, abrigando cerca de 11,5 trilhões de dólares de grandes magnatas internacionais.
(MULLER-CIRAN, 2008). Para estes últimos dados o autor pautou-se em estimativas da ONG Tax Justice Network em seu relatório The price
of offshore, Londres, 2005). Em reunião do G-20, o grupo que reúne as 19 maiores economias mundiais e a União Europeia, realizada em
abril de 2009, para gerenciar a crise financeira global e combater a evasão fiscal, a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvol-
vimento Econômico) divulgou lista com 42 paraísos fiscais que não teriam se comprometido com um proposto acordo internacional de
padronização tributária (Costa Rica, Malásia e Filipinas) ou se comprometido de forma parcial (entre estes constando países da própria
OCDE, como Suíça, Áustria, B élgica e Luxemburgo, além de outros como Uruguai, Chile, Guatemala, Panamá, Brunei, Singapura, Mônaco,
Liechtenstein, San Marino e Andorra).
26 | Os dilemas da globalização – fragmentação

(Emirados Árabes à frente) e, mais recentemente, países da América do Sul, como Venezuela,
Bolívia e Equador, que propuseram políticas econômicas redistributivas que incluem a rees-
tatização de grandes empresas, especialmente em setores estratégicos como o de energia. A
crise financeira global desencadeada em 2008 veio alterar significativamente esses processos,
retomando e generalizando, quem sabe, um novo ciclo capitalista de maior intervenção esta-
tal na economia, e que também pode manifestar a necessidade da reformulação de organiza-
ções supranacionais (como no caso da União Europeia).
Por outro lado, num sentido amplo, as dinâmicas de privatização e de retração dos espaços
públicos que acompanharam esse momento da globalização alcançaram não apenas a seara
econômica, mas também a esfera de mais típica prerrogativa do Estado: o setor militar, lócus
do pretenso exercício do “monopólio da violência legítima”. Aí o Estado também perde poder
em termos de controle territorial, não só ao ter de admitir (e às vezes até estimular, ainda que
indiretamente) a proliferação interna de territórios de segurança privada (que pode, inclusive,
acarretar a apropriação de espaços públicos) como a difusão, externa, de grupos privados que
lutam não mais diretamente em nome de um Estado, mas em função de empresas às quais en-
contram-se subordinados e que vendem seus serviços no mercado de conflitos e de violência
globais. Surgem daí, também, muitas figuras “híbridas”, como no caso das milícias.
Paralelamente a esses Estados “economicamente mínimos” (e, portanto, a favor da des-
-reterritorialização do/pelo mercado), articula-se assim um movimento de transformação na
esfera político-militar, especialmente aquele envolvendo a chamada problemática da segu-
rança que, como já destacamos, tanto tem dominado o discurso recente, pós 11 de setembro
de 2001 e a emergência do chamado megaterrorismo globalizado.
Uma nova – ou nem tão nova – manifestação do poder nessas sociedades, como vimos, é
aquela denominada por Foucault de biopoder que, embora longe de se restringir à figura do
Estado, também é profundamente incorporada por este, reestruturando assim o seu papel.
Se antes o aparelho estatal estava preocupado em reconhecer e alimentar processos “disci-
plinadores”, capazes de manter, por exemplo, instituições de reclusão dos “anormais”, com a
intenção de posteriormente resgatá-los à sociedade (intuito pelo qual teoricamente se estru-
turou o sistema prisional), hoje ele se mobiliza a fim de conter a “massa” ou as “populações”
(nos termos de Foucault) estruturalmente excluídas dos direitos de cidadania e motivo de

preocupação,
via proliferaçãosobretudo, por sua reprodução biológica e difusão de “insegurança” (inclusive
de epidemias).
Passa-se, segundo Foucault, da preocupação com o “homem-corpo” para o “homem-vi-
vo”, o “homem espécie”.12 Aí, podemos dizer, desenham-se duas grandes preocupações com
as quais o Estado também pode recompor seu papel: a preocupação com os problemas do
12
Segundo Foucault, “a disciplina tenta reger a multiplicidade dos homens na medida em que essa multiplicidade pode e deve redundar em
corpos individuais que devem ser vigiados, treinados, utilizados, eventualmente punidos. [...] a nova tecnologia [...] se dirige à multiplici-
dade dos homens, não na medida em que eles se resumem em corpos, mas na medida em que ela forma, ao contrário, uma massa global,
afetada por processos de conjunto que são próprios da vida, que são processos como o nascimento, a morte, a produção, a doença etc. [.. .]
uma ‘biopolítica’ da espécie humana”. (2002, p. 289)
Rogério Haesbaert | 27

“meio”,13 da própria “natureza” em sentido amplo, e a preocupação com a circulação, com os


fluxos, como já destacamos. Segundo Foucault, num texto premonitório escrito ainda no final
dos anos 1970:

[...] desta vez o soberano não é mais aquele que exerce seu poder sobre um território a partir
de uma localização geográfica de sua soberania política; o soberano é alguma coisa que tem
a ver com uma natureza ou, antes, à interferência, ao intrincar-se perpétuo de um meio geo-
gráfico, climático, físico com a espécie humana, na medida em que ela tem um corpo e uma
alma, uma existência física [e] moral; e o soberano será aquele que terá de exercer seu poder
neste ponto de articulação em que a natureza, no sentido de elementos físicos, vem interferir
com a natureza no sentido da natureza da espécie humana [...].” (FOUCAULT, 2004b, p. 24,
tradução nossa)

Daí a ambígua posição do Estado quanto às suas fronteiras – por exemplo, cada vez (pelo
menos até a crise de 2008) mais abertas para o capital financeiro e a maior parte das mercadorias
e cada vez mais(tentativamente, pelo menos) fechadas para os fluxos de pessoas. Também em
relação às questões ambientais, as políticas estatais podem atuar de forma ambivalente: obriga-
das a “abrir” seu território para atacar problemáticas ecológicas de maior magnitude, mais fluidas
e globais, e a “fechar” territórios internamente a fim de criar áreas de preservação, muitas vezes
formalmente intocáveis.
É nesse contexto de biopoder que emerge com força aquilo que, como já destacamos,
Agamben (2002) irá denominar “estados de exceção”, quando o Estado, especialmente em prol
da “segurança”, impõe leis de exceçãocomo regra, oilegal como legal, em nome de uma pretensa
situação permanente de ameaça ou de “catástrofe” (inclusive ambiental). Difundem-se, assim,
mundo afora, políticas de exceção, não apenas em parcelas específicas do território nacional mas
no próprio Estado como um todo, decretando-se “estados de emergência”, “estados de sítio” ou
legitimando-se a exceção via alegados “atos patrióticos”, como o decretado por Bush, nos Estados
Unidos, em 2001. Pode-se estender este debate, também, para a ampliação dos setores e redes
informais da economia, fundamentais, hoje, para a estruturação capitalista – de tal forma que
acabam se confundindo e/ou retroalimentando os setores formais, um pouco como ocorre com

“osdeparaísos
exceção”fiscais para a fração
que envolve financeirizada
circuitos do capital. Inclui-se aqui, é claro, toda a economia
como o do narcotráfico.
Internamente ao território nacional criam-se “zonas especiais”, que podem ser mais estrita-
mente econômicas – como as zonas econômicas especiais ou zonas francas, hoje popularizadas
no mundo inteiro, onde grande parte da legislação “normal” do país é colocada entre parênte-
ses, ou mais diretamente jurídico-políticas –, como os campos de refugiados e de controle de

13
Termo utilizado por Foucault para definir a espacialidade predominante nas “sociedades de segurança” ou biopolíticas, nas quais a ques-
tão básica se torna o controle dos fluxos, da circulação – ou seja, “meio” é o espaço em que se dá a circulação (e que, no nosso ponto de
vista, pode se confundir parcialmente, hoje, com a ideia de rede).
28 | Os dilemas da globalização – fragmentação

imigrantes. Estas últimas, como já ressaltamos, configuram “campos”, espécies de território-lim-


bo em que vigoram processos de “exclusão includente”, ao mesmo tempo de exclusão –no senti-
do de que os migrantes são impedidos de entrar e usufruir dos direitos de cidadania nacionais – e
de inclusão – na medida em que continuam dentro do “território nacional”, ainda que sob regras
de exceção.
Esses processos, na verdade, mais do que um simplista refortalecimento do papel do Estado,
estão inseridos em:

[...] uma lógica contraditória e ambivalente, na medida em que, se por um lado parece revelar seu
fortalecimento, com o recurso frequente a “Estados de exceção”, por outro pode estar justamente re-
velando seu ocaso, no “desespero” de tentativas de controle que buscam, de certa forma, “controlar o
incontrolável” (HAESBAERT, 2006,p. 33).

Não podemos esquecer também que é justamente no âmbito da organização política que a glo-
balização é considerada como tendo sua menor vitalidade, no sentido de que, mesmo após a criação
da ONU, faltam novas entidades ou fóruns políticos globais efetivamente capazes de se sobrepor aos
Estados-nações como instâncias de poder. Por enquanto, apenas a União Europeia parece configurar
uma espécie de “supra-Estado”, ainda assim sem pretensão explícita de representar um poder global
e enfrentando profunda crise nos últimos anos (v. capítulo específico neste livro). Neste sentido, po-
demos afirmar que o papel do Estado-nação continua firme, nem que seja simplesmente “por falta”,
isto é, pela ausência ou debilidade de outras entidades políticas de gestão em níveis mais amplos. Ou,
como defende Sassen (2010), por seu papel decisivo na “preparação” das condições para a efetivação
das dinâmicas globalizadoras, especialmente no que se refere aos circuitos do capital financeiro.
Não devemos, contudo, confundir “organização política” global frágil com “debilitação do poder”,
pois este se manifesta de diversas outras formas e não apenas na tradicional forma do poder político
estatal. Assim, segundo Marcuse (2000), por exemplo, uma das marcas da globalização, ao lado dos
avanços tecnológicos, éconcentração
a global do poder econômico,
uma de suas formasmais organiza-
das e eficazes. Para o autor:

A importância da ação do Estado em permitir o funcionamento do sistema capitalista do mundo in-

dustrializado aumentou,
te. Se os Estados não diminuiu,
não controlam à medidadeem
o movimento que este
capital ou desistema se expande
bens, não é porqueinternacionalmen-
eles não podem
abdicação do poder estatal
mas porque não o farão – trata-se de uma , não uma falta desse poder. A
verdadeira importância concedida pelos interesses dos negócios internacionais aos acordos de tarifas
da OMC, ao reforço governamental dos direitos contratuais e à proteção dos interesses de proprie-
dade intelectual atestam a continuidade, se não o crescimento, da importância do estado nacional.
(MARCUSE, 2000, p. 3, grifo nosso).
Rogério Haesbaert | 29

Na verdade, trata-se de uma espécie de conluio Estado nacional-empresa global, dificilmente


redutível a uma lógica mais simples.14
Desse modo, devemos reconhecer que, se existe algum “poder
global”, ele se refere à articulação de entidades que se organizam geograficamente muito mais por
meio de lógicas reticulares do que zonais ou em área, corporações transnacionais à frente, mas que
em hipótese alguma podem prescindir desse ordenamento territorial mais zonal capitaneado pelo
Estado. O Estado abdica de poderes que de alguma forma delega às grandes empresas, ao mesmo
tempo que a elas fica subordinado.15

Não podemos deixar de enfatizar, também, aqui, a força praticamente global da própria articu-
lação daqueles poderes ditos paralelos, parcialmente, pelo menos, à margem do controle estatal (na
maioria das vezes com vinculações veladas ou mesmo intimamente atrelados [e confundidos] à figu-
ra do Estado), como muitos circuitos econômicos ilegais (e que acabam também, de alguma forma,
militarizando-se), tráficos de toda ordem, de drogas, de armas, de pessoas, de animais
ou mesmo de
órgãos, todos eles de crescente importância nalógica
(i) econômica domundo contemporâneo.

A face econômica da globalização

Apesar de toda essa força dos circuitos globalizados da economia e suas articulações, in-
clusive, via instituições também globais, não podemos esquecer que, a partir da associação
entre Estado e capital, forma-se de longa data aquilo que Michel Beaud (1992) denomina
“economias nacionais capitalistas”. Apesar de sua propensão a libertar-se dessas formações
sociais, o capitalismo acabou por fixar em alguns Estados os seus territórios-base, especial-
mente a fim de organizar – e dominar – seus mercados consumidores. Mesmo as empresas
transnacionais, símbolos da globalização, muitas vezes competem entre si alegando razões
nacionalistas – como foi muito evidente (e, em parte, ainda é) no c aso de países como o Japão
e a Coreia do Sul.
Muitos autores entendem que, até aproximadamente os anos 1960, o capitalismo em-
preendeu um gradativo (embora muito complexo) processo de internacionalização da econo-
mia, tornado ainda mais inter-nacional com a estreita conexão entre Estado e grande capital
monopolista, a partir das políticas de inspiração keynesiana pós-Grande Depressão, nos anos

14
Não esquecendo, neste caso, que, como enfatiza Sassen (2010), “empresa global” não existe como pessoa jurídica, tendo ainda que se
atrelar a jurisdições nacionais. Nem mesmo existe a figura jurídica de uma empresa europeia, lembra a autora. Contudo, os Estados
nacionais se esforçam cada vez mais para “desnacionalizar em parte seus marcos jurídicos e institucionais de tal modo que a empresa
estrangeira possa operar em seus territórios como se fosse global”. Além disso, como já foi ressaltado, “os próprios Estados criaram de
forma coletiva uma rede de espaços desnacionalizados que se inserem no mais profundo de seus territórios”. (SASSEN, 2010, p. 13-14)
15
Forrester (1997) já afirmava, às vezes de forma exagerada (utilizando inclusive a expressão “fora de qualquer território”), a imposição da
“potência privada”, alheia às disposições do controle político territorial estatal clássico. Para a autora: “Essas redes econômicas privadas,
transnacionais, dominam cada vez mais os poderes estatais; muito longe de ser controladas por eles, são elas que os controlam e formam,
em suma, uma espécie de nação que, fora de qualquer território, de qualquer instituição governamental, comanda cada vez mais as
instituições dos diversos países, suas políticas, geralmente por meio de organizações consideráveis, como o Banco Mundial, o FMI ou a
OCDE”. (FORRESTER, 1997, p. 30)
30 | Os dilemas da globalização – fragmentação

1930. Aí, o Estado-nação desempenhava um papel muito relevante,16 e suas fronteiras podiam
representar alguns importantes constrangimentos à expansão e/ou à fluidez do capital e das
grandes corporações internacionais. Consideramos importante, assim, distinguir os termos
internacionalização e globalização. Como afirma Dicken (apud ORTIZ, 1994):

Embora sejam usados muitas vezes como sendo intercambiáveis, internacionalização e globa-
lização não são termos sinônimos. Internacionalização se refere simplesmente ao aumento da
extensão geográfica das atividades econômicas através das fronteiras nacionais; isso não é um
fenômeno novo. A globalização da atividade econômica é qualitativamente diferente. Ela é
uma forma mais avançada, e complexa, da internacionalização, implicando um certo grau de
integração funcional entre as atividades econômicas dispersas (ORTIZ, 1994, p. 16).

No sentido com que usualmente é considerada nos nossos dias, a globalização só começa
efetivamente a tomar vulto a partir dos anos 1960 e, especialmente, nos anos 1970. A déca-
da de 1970 seria decisiva, pois com a hegemonia do capital financeiro ou de financiamento,
altamente especulativo, cada vez mais autônomo em relação ao setor produtivo da economia
e em relação às lógicas de reprodução das formações nacionais, consolida-se um “capitalismo
mundial” (MICHALET, 1976,1983), no qual as empresas multi(ou trans)nacionais, integrando
capital de financiamento e capital industrial, acabam adquirindo tamanho poder que são ca-
pazes de influenciar decisivamente a ação do E stado. As cifras de negócios de muitas empresas
transnacionais tornam-se superiores à da maior parte dos Estados-nações pelo mundo.
Beaud (1992) denomina esse conjunto multifacetado que reúne economias nacionais
e economia-mundo de “sistema nacional/mundial hierarquizado – SNMH”, cuja dinâmica é
“múltipla, diversificada, muitas vezes desconexa e contraditória” (p. 78), e que deve sempre
ser analisado tanto numa perspectiva histórica quanto nas diferentes escalas geográficas em
que se manifesta, tendo em vista que a economia mundial “é local/regional/internacional/
multinacional; é capitalista mas também estatal/mercantil/tributária/comunitária e domés-
tica” (p. 78).
Uma rede não só industrial (com a industrialização firmando-se em alguns países peri-
féricos, denominados depois por Wallerstein de “semiperiféricos”) mas, sobretudo, financei-

ra expande-seque
dividamento peloatingiu
mundo,
nãoacompanhada
só o chamadonos anos 1970
Terceiro Mundoporcapitalista
um violento
masprocesso
tambémde en-
o dito
Segundo Mundo ou “Socialista”. A mobilidade do capital gera uma globalização financeira que
“é facilitada pela técnica: introdução do computador, desmaterialização dos títulos, máquinas
de transferência automática, redes de transmissão de dados, pontos eletrônicos de compra e
venda, difusão de cartões de crédito” (DEFARGES, 1993, p. 46).

16
É importante lembrar que o ápice desse processo, o “Estado de bem-estar social”, não foi apenas resultado de uma estratégia moldada
numa aliança intra-burguesa (representantes do Estado e capitalistas) mas também da pressão e da organização da sociedade civil, dos
trabalhadores.
Rogério Haesbaert | 31

Chesnais entende por “acumulação financeira” um processo que, com raízes nos Estados
Unidos dos anos 1950 e na Europa dos anos 1960, passou a dominar a economia mundial
especialmente a partir dos anos 1980, caracterizado pela:

[...] centralização em instituiçõesespecializadas [sobretudo não-bancárias, como fundos de pen-


são, sociedades de seguro] de lucros industriais não reinvestidos e derendas não consumidas, que
têm por encargo valorizá-los sob a forma de aplicação emativos financeiros – divisas, obrigações
e ações – mantendo-osfora da produção de bens e serviços. (CHESNAIS, 2006, p. 37)

Nos anos 1980, vários fatores se conjugaram para consolidar essa mundialização financeira,
especialmente o que Chesnais (citando BOURGUINAT) identifica como “os três D”: “adesregu-
lamentação ou liberalização monetária e financeira, adescompartimentalizaçãodos mercados
financeiros nacionais e adesintermediação, a saber, a abertura das operações de empréstimos,
antes reservadas aos bancos, a todotipo de investidor institucional”. (2006, p. 46)
Trata-se de um processo que, apesar de efetivamente mais nítido na esfera do capital fi-
nanceiro, acabou sendo generalizado comoglobalização. O novo padrão tecnológico pautado
na informática valorizou ainda mais o “capital pensante” dos países centrais e acelerou bru-
talmente os fluxos de informação e de capitais, ao mesmo tempo que acentuou as desigual-
dades, com a exclusão das periferias, já mergulhadas na crise do endividamento externo que
as atrelou definitivamente ao circuito financeiro mundial e concedeu a organismos interna-
cionais como FMI, Organização Mundial do Comércio (antigo GATT) e Banco Mundial poderes
nunca antes imaginados.17 Os fluxos financeiros e comerciais incrementaram-se entre os cen-
tros do sistema econômico (para muitos agora “tripolar”, dividido entre Estados Unidos, União
Europeia e China-Japão, mas na prática ainda altamente influenciados pelos Estados Unidos e
pelo dólar) e as antigas vantagens comparativas das periferias, como força de trabalho barata
e matérias-primas, tornaram-se bem menos relevantes.
Tal como ocorre em relação ao debate sobre a pós-modernidade, também em relação ao
tema da globalização econômica muitos autores o associam, direta ou indiretamente, a pro-
cessos ditos de “desterritorialização” (HAESBAERT, 2004a).18 Assim, seria sobretudo por meio
das relações econômicas, capitalistas e, mais enfaticamente, no campo financeiro e nas ativi-

dades maisdediretamente
destruição barreiras ouligadas ao “ciberespaço”,
de fixações que se dariam
territoriais definidoras, os principais
desde mecanismos
uma perspectiva de
geográ-
fica, da chamada globalização econômica.
Podemos identificar pelo menos três perspectivas da desterritorialização sob o ponto de
vista econômico:

17
A liberalização e desregulamentação dos sistemas financeiros de países periféricos endividados foram feitas, é sabido, “sob a direção do
FMI e do Banco Mundial e sob a pressão pol ítica dos Estados Unidos” (CHESNAIS, 2006, p. 47).
18
Tomaremos como base neste item, a partir de agora, algumas reflexões trabalhadas em Haesbaert e Ramos (2004b).
32 | Os dilemas da globalização – fragmentação

• Num sentido mais amplo, a desterritorialização é vista praticamente como sinônimo


de globalização econômica ou, pelo menos, como um de seus vetores ou caracterís-
ticas fundamentais, na medida em que ocorre a formação de um mercado mundial
com fluxos comerciais, financeiros e de informações pretensamente independentes de
bases territoriais bem definidas, como as dos Estados nações;
• Numa interpretação um pouco mais restrita, a ênfase é dada a um dos momentos
do processo de globalização – ou ao mais típico –, aquele do chamado capitalismo
pós-fordista ou de acumulação flexível, flexibilidade esta que seria responsável pelo
enfraquecimento das bases territoriais ou, mais amplamente, espaciais, na estrutu-
ração geral da economia, em especial na lógica locacional das empresas e no âmbito
das relações de trabalho (precarização dos vínculos entre trabalhador e empresa, por
exemplo); daí também a proposta simplista de desterritorialização como sinônimo
de “deslocalização”, enfatizando o caráter “multilocacional” das empresas, como se
elas fossem cada vez mais autônomas em relação às condições locais/territoriais de
instalação;
• Num sentido ainda mais restrito, desterritorialização seria um processo vinculado no-
tadamente a um setor específico da economia globalizada, o setor financeiro, no qual
a tecnologia informacional tornaria mais evidentes tanto a imaterialidade quanto a
instantaneidade (e a superação do entrave distância) nas transações, permitindo as-
sim a circulação de capital (especialmente o especulativo) em “tempo real”.19

Provavelmente, o primeiro grande autor que deu ênfase clara à fundamentação econô-
mica do processo, concomitantemente globalizador e desterritorializador, foi Karl Marx. Em
seu discurso, a não explicitação do termo “desterritorialização” não impede a profunda análise
das formas com que o modo de produção capitalista “desterritorializa” os modos de produção
preexistentes para reterritorializar segundo sua própria dinâmica. A expropriação do campesi-
nato, transformado em trabalhador “livre” em meio a fenômenos como a apropriação privada
da terra e a concentração fundiária e, no outro extremo da pirâmide social, a velocidade com
que os estratos mais privilegiados da burguesia destroem e reconstroem o espaço social, sob
o famoso dito de que “tudo que é sólido desmancha no ar, tudo que é sagrado é profanado”,

seriam as referê
Negri ncias
e Hardt maisp.marcant
(2001, es do moviment
348) reconhecem três oaspectos
de des-re-territorialização
primários capitalista.
já presentes no próprio
Marx e que marcam o caráter“desterritorializante e imanente”[e globalizador] do capitalismo:

• liberação de populações de seus territórios na realização da acumulação primitiva,


criando um “proletariado ‘livre’”;

19
Poderíamos inserir aqui, também, aqueles setores da economia (ser viços, especialmente) estruturados cada vez mais em torno do chama-
do teletrabalho, que pode até mesmo prescindir da própria sede física da empresa (a este respeito, ver FERREIRA, 2003).
Rogério Haesbaert | 33

• unificação do valor em torno do dinheiro, seu equivalente geral,referência quantitati-


va diante da qual praticamente tudo passa a ser avaliado;
• estabelecimento de um conjunto de leis “historicamente variáveis imanentes ao pró-
prio funcionamento do capital”, como as leis de taxas de lucro, taxas de exploração e
de realização da mais-valia.

Esses teriam sido como que pré-requisitos para o gradativo processo de globalização que
pretende-se definir, antes de tudo, pela ruptura de fronteiras, de limites e condicionamentos
locais, pela expansão de uma dinâmica de concentração e acumulação de capital em nível
mundial, numa integração e num cosmopolitismo generalizados. Como profetizavam Marx
e Engels:

Impelida pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo ter-
restre. Necessita estabelecer-se em toda parte, explorar em toda parte, criar vínculos em toda
parte. Pela exploração do mercado mundial, a burguesia imprime um caráter cosmopolita à
produção e ao consumo em todos os países. [...] As velhas indústrias nacionais foram des-
truídas e continuam a ser destruídas diariamente. São suplantadas por novas indústrias, cuja
introdução se torna uma questão vital para todas as nações civilizadas – indústrias que já
não empregam matérias-primas nacionais, mas sim matérias-primas vindas das regiões mais
distantes, e cujos produtos se consomem não somente no próprio país mas em todas as partes
do mundo. [...] No lugar do antigo isolamento de regiões e nações auto-suficientes, desen-
volvem-se um intercâmbio universal e uma universal interdependência das nações. E isto se
refere tanto à produção material como à produção intelectual. As criações intelectuais de uma
nação tornam-se patrimônio comum. (MARX; ENGELS, 1848, 1998, p. 43)

Entretanto, mesmo com toda a sua vocação global, tão bem retratada nesse trecho do
Manifesto Comunista, o capitalismo não alimenta apenas uma dinâmica desterritorializadora,
reafirmando a tese de Deleuze e Guattari (1972) de que todo processo de desterritorialização
está sempre vinculado a uma dinâmica de reterritorialização. Fica evidente que, ao criar a nova
“interdependência” e ao conectar, econômica e culturalmente, as regiões mais longínquas,

está-se estruturan
balmente do. uma
articulado E estenova organiza
territór ção territorial,
io-mundo tem comouma espécie decomum
um elemento território-mundo
um sistemaglo-
de
códigos e signos igualmente criados, em grande parte, no bojo da reprodução capialista.
Podemos dizer que o capitalismo já nasce vir tualmente global, ou seja, sem uma base ter-
ritorial restrita, bem definida, mas que, para realizar efetivamente sua vocação globalizadora,
recorre a diferentes estratégias territoriais, especialmente aquela que faz apelo, ocasional ou
permanentemente, ao ordenamento geográfico estatal. Como já ressaltamos, a interferência
“cíclica” do Estado, sempre como uma faca de dois gumes, na contradição que lhe é inerente
34 | Os dilemas da globalização – fragmentação

entre a defesa de interesses públicos e interesses privados, atua no mínimo como um impor-
tante complicador nesse jogo entre abertura e (relativo) fechamento de fronteiras.
Hirst e Thompson (1998), já aqui citados, questionaram a passagem de uma economia
inter-nacional para uma economia globalizada. Para eles, grandes potências, em especial os
Estados Unidos, continuam como “avalistas” no “sistema de livre comércio mundial”, com a
abertura dos mercados globais ainda dependente da política americana, e o dólar continuan-
do a ser “o intermediário do comércio mundial” (p. 33). No confronto entre uma economia
inter-nacional e uma economia globalizada, que para eles ainda não se manifestou em sentido
estrito, os autores afirmam:

[...] o oposto de uma economia globalizada não é uma economia voltada para dentro, mas
um mercado mundial aberto, baseado nas nações comerciais e regulado, em maior ou menor
grau, pelas políticas públicas dos E stados-nação e pelas agências supranacionais. Uma econo-
mia assim tem existido de uma forma ou de outra desde os anos 1870, e continua a reemergir,
apesar de grandes contratempos, sendo o mais sério a crise dos anos 30. A questão é que isso
não deveria ser confundido com uma economia global. (p. 36)

Assim, apesar de alguns exageros de generalização nas interpretações de Hirst e Thompson,


a máxima de que “o capital não tem pátria” deve ser relativizada. Embora, mesmo com seu
papel redistributivo, nunca tenha se colocado como um verdadeiro empecilho à realização da
acumulação em escala mundial, o Estado sempre atuou, em sucessivos ciclos de interferência,
a fim de regular a dinâmica dos mercados, em geral como um parceiro e/ou uma “escala de
gestão” indispensável ao bom desempenho dos fluxos comerciais e financeiros. O discurso de
uma globalização irrestrita num mundo efetivamente “sem fronteiras” ou “desterritorializado”
vincula-se hoje, em grande parte, aos argumentos políticos daqueles que defendem o chama-
do projeto neoliberal.
Nas últimas décadas começaram a se anunciar também outros tipos de respostas do ca-
pitalismo organizado em defesa de seus interesses maiores e em reação a acontecimentos
no seio da globalização econômica. Uma destas respostas foi a chamada reestruturação pro-
dutiva. A retomada da acumulação capitalista vai se dar por meio de uma reestruturação em

suas bases produtivas


reestruturação que passam por uma restauração dos mecanismos de comando e uma
do poder.
O modo de produção capitalista irá tomar como fios condutores para sua reestruturação e
manutenção de poder a “integração das economias mundiais”, que se convencionou chamar de
globalização, e a“reestruturação das componentes de produção”, que vão incluir a força de tra-
balho e o processo produtivo. Ambos passam a se inserir em uma informatização e automação
crescentes. Podemos perceber então, especialmente no período pré-crise de 2008, a íntima
relação entre fenômenos como a emergência do neoliberalismo, o processo de reestruturação
Rogério Haesbaert | 35

da produção industrial e do trabalho, a mundialização da economia e a internacionalização


dos fluxos promovidos pelo capitalismo.
Políticas neoliberais visando teoricamente ampliar a competição via desregulamentação
(que afirmava reduzir as limitações à concorrência) e flexibilização da produção (estimulada
também pela facilidade crescente dos deslocamentos de pessoas, produtos e informações)
substituíram em muitas áreas o antigo modelo fordista de industrialização, pautado na produ-
ção em massa, no intervencionismo estatal e numa hierarquização mais rígida das estruturas
produtivas.
O denominado modelo pós-fordista ou de capitalismo flexível debilitou a organização dos
trabalhadores via estimulação dos empregos temporários e da terceirização (com a difusão
dos sistemas de subcontratação, por exemplo). Dentro dessa mesma lógica de maior fluidez
do capital e do incremento do lucro e da especulação, aumenta brutalmente a destruição am-
biental e surgem problemáticas também efetivamente globais, como o aquecimento provo-
cado pelo efeito estufa, a destruição da camada de ozônio e o fenômeno das chuvas ácidas,
além da rápida difusão de velhas e novas epidemias como a cólera e a AIDS, a SARS, a gripe
aviária e a gripe suína.
A chamada Terceira Revolução Industrial teria produzido um “meio técnico-científico”
(SANTOS, 1985) e um “ciberespaço” pautado em relações ditas em tempo real por meio de
infovias, interligando instantaneamente os diferentes espaços do planeta e revolucionando
as relações espaço-tempo (o que levou SANTOS (1994) a acrescentar o qualificativo “informa-
cional” ao “meio técnico-científico”). Cria-se então um novo conjunto de redes informacio-
nais, entre as quais a internet, aworld wide web, é o exemplo mais expressivo, desigualmente
distribuído ao redor do planeta. Começa assim a ser forjada, ao lado de uma globalização
econômico-financeira, uma espécie de cultura global pautada na cibernética e nas múltiplas
conexões que ela permite ativar.
Até mesmo a grande distinção “regional” entre centros e periferias, cada vez mais comple-
xa, vai hoje muito além da simples diferenciação do tipo de produção (como no colonialismo
da primeira metade do século XX, quando ainda era nítida a distinção entre centros ou “metró-
poles” industrializadas e periferias exportadoras de produtos primários). Além de considerar
a importância dos níveis tecnológicos de produção (e o peso do know-how) na distinção entre

espaços
te concentradores
qualificada e espaços de capital (financeiro,
“endividados” especialmente)
e de predomínio e de força dedetrabalho
de trabalhadores altamen-
menor qualifica-
ção, a relação centro-periferia deve levar em conta a capacidade mais ampla de gestão e de
produção/difusão das informações – fundamental, hoje, para a formação do “público” –, seja
no sentido político da “opinião pública”, seja no sentido econômico do “público consumidor”.
A formação dessa “opinião pública” adquire tamanha relevância nas decisões políticas e na
construção da hegemonia que autores como Lazzarato (2006) ampliam a concepção de vida
da biopolítica contemporânea. Enquanto para Foucault a biopolítica está centrada na gestão
da “população” como entidade biológica, para Lazzarato ela se transforma em noopolítica (de
36 | Os dilemas da globalização – fragmentação

nous, alma) e centra-se na gestão do “público”, cuja “vida” é capturada pelo capitalismo en-
quanto “cérebro”, sua memória e seus desejos.
Daí a relevância da concentração geográfica na produção e controle da informação e do
conhecimento: a maior parte da produção intelectual e midiática está concentrada, hoje, nas
grandes cidades globais dos países centrais. As periferias funcionam quase sempre como mero
“terminal receptor” (LASH ; URRY, 1996). A partir dessas cidades globais é que seria difundida
não só a informação, em sentido amplo, mas a maior parte dos valores culturais capazes de
soldar a hegemonia, tomada aqui num sentido não apenas da coação político-militar mas,
gramscianamente falando, em termos de um consenso cultural globalmente articulado.

Globalização e cultura

Embora mais visível no âmbito técnico-econômico do mercado, é possível evidenciar, prin-


cipalmente a partir dos anos 1990, a presença de outros níveis de globalização em distintas
esferas da sociedade. Ortiz (1994), ao contrário da maioria dos autores que utilizam como si-
nônimos globalização (preferida na língua inglesa) e mundialização (preferida na língua fran-
cesa), propôs utilizar o termo mundialização para enfatizar os processos na esfera cultural (ou
do “universo simbólico”), na formação daquilo que ele denominou uma “cultura internacional
popular”, e o termo globalização apenas para o âmbito das mudanças econômico-tecnológicas:

[...] creio ser interessante distinguir entre os termos “global” e “mundial”. Empregarei o pri-
meiro quando me referir a processos econômicos e tecnológicos, mas reservarei a idéia de
mundialização ao domínio específico da cultura. A categoria “mundo” [...] significa também
uma “visão de mundo”, um universo simbólico específico à civilização atual (p. 29).

A construção de uma “memória internacional-popular” traduziria “o imaginário das socie-


dades globalizadas”, (de matriz norte-americana!) em que a mídia e as grandes empresas tor-
nam-se agentes preferenciais, fornecendo novas referências culturais para a identidade social
por meio de esferas como o lazer (o cinema e os westerns americanos, por exemplo), o ves-
tuário (com a universalização do jeans) e a alimentação (com a difusão das redes de fast-food,

por exemplo).
televisão, Num universo
as imagens cultural
“denotam em grande
e conotam parte forjadomais
um movimento pelaamplo
mídia,noespecialmente
qual uma éticaviaes-
pecífica, valores, conceitos de espaço e de tempo são partilhados por um conjunto de pessoas
imersas na modernidade-mundo” (p. 144). Esse “mundialismo” não se identifica, entretanto,
com a uniformidade, pois “uma cultura mundializada não implica o aniquilamento das outras
manifestações culturais, ela coabita e se alimenta delas” (ORTIZ, 1994, p. 27), surgindo assim
uma dinâmica complexa de interações, ambivalências e contradições.
Alguns autores passam até mesmo a defender a tese de que a fonte básica de conflito será
a partir de agora de ordem cultural, compreendendo o que o cientista político conservador
Rogério Haesbaert | 37

norte-americano Samuel Huntington (1994, 1996) denominou “choque de civilizações”, en-


tendida “civilização” como a unidade mais ampla em termos de identidade cultural. Somam-
se para isto, segundo ele, diversos fatores: diferenças culturais entre as civilizações baseadas
em tradições/história, idioma e religião se tornam mais relevantes que as de ordem ideológica
e política; a intensificação dos contatos interculturais reforça as identidades; a modernização
tem enfraquecido a nação-Estado como fonte de identidade, sendo substituída pelas religiões
e etnias; a ocidentalização vive ao mesmo tempo o seu auge e o seu descrédito diante da
emergência de culturas não ocidentais; os traços culturais são os mais difíceis de serem alte-
rados e o crescimento do “regionalismo econômico” fortaleceria a “consciência civilizacional”.
Polêmicas dessa ordem acabam sobrevalorizando a dimensão cultural – estabelecendo
mesmo um culturalismo – e esquecendo ou menosprezando a dinâmica complexa que se es-
tabelece entre a ebulição de uma ordem econômica mundializada, a relativa erosão dos pode-
res políticos instituídos e a crise de ideologias que se pretendem globais. Se, apesar do aumen-
to das desigualdades, a própria divisão Norte versus Sul e/ou Centro versus Periferia deve ser
questionada, não é a igualmente complexa diferenciação Ocidente versus “não Ocidente” (ou
“o Resto”, como propõe, de forma depreciativa, HUNTINGTON) que irá agora determinar, por si
só, uma “nova des-ordem” mundial.
A dimensão cultural da globalização não pode ser reduzida a um contraponto de duas
faces: o sentido homogeneizador de uma cultura de raízes ocidentais que tenta se projetar
globalmente e o sentido diferenciador de grupos culturais que resistem a esta cultura global
padronizada. Isto porque não só a “globalização cultural” não é uma via de mão única como
os “localismos” ou “regionalismos” culturais não podem ser considerados simplesmente como
resistências à globalização. As relações podem ser muito mais híbridas do que parecem. A
mescla inter ou mesmo transcultural é a tônica em várias regiões do mundo.
Tanto a globalização impõe certos padrões culturais quanto se apropria e mesmo fortale-
ce outros, “locais”, que, inclusive, podem assim também, pelo menos em parte, tornarem-se
“globais” (como aconteceu ao longo da história com a culinária e outros hábitos culturais an-
tes restritos a determinados países). E vice-versa: as “resistências” locais de algumas culturas
podem almejar não simplesmente sobreviver enquanto tais mas se ampliar como “projetos
alternativos”, também com pretensões globalizadoras, como ocorre com grande parte do mo-

vimento fundamentalista
Habermas islâmico.
(1995) identificou no nosso tempo “globalizado” uma desconexão entre os fatos
– principalmente a globalização em sua dimensão econômica – e as normas, no nível políti-
co-ideológico, gerando inúmeros dilemas num mundo cujo sistema jurídico-político ainda se
encontra atrelado à escala do Estado nação (e mesmo aí corroído pela proliferação dos circui-
tos de poder ilegais ou “paralelos” – geralmente integrados, de diversas formas, aos poderes
“oficiais”, como já ressaltamos). Para Habermas, há um “antagonismo devastador” entre crité-
rios tecnológicos, empíricos e critérios normativos (aquilo que o mundo deveria ser). Enquanto
a realidade dominante é a da globalização econômica, da modernização universalizante,
38 | Os dilemas da globalização – fragmentação

normativamente não há o universalismo, mas o florescer dos particularismos fundamentalis-


tas. Na verdade, em sua visão europeia-racionalista, “o único recurso contra esse universalismo
tecnológico é o universalismo normativo” (HABERMAS, 1995, p. 5-7).20
No que tange à ideologia, entendida em seu sentido mais geral como um conjunto coeren-
te de ideias capaz de forjar um sistema relativamente geral de valores sociais, o mundo da glo-
balização econômica e técnico-científica também não parece ter obtido muito êxito. Alguns
autores, como Laïdi (1994), chegam mesmo a falar em um mundo “sem sentido” no qual os
valores da modernidade racionalista e tecnicista são cada vez mais questionados, sem que,
na mesma escala, um novo conjunto de valores esteja sendo formulado e/ou aprofundado e
difundido. Ele defende a tese de que o mundo estaria vivenciando um gap brutal entre uma
débil produção de sentido (para a vida humana) e uma potência tecnológica e de destruição
nunca tão fortalecida. Mesmo com toda sua eficácia econômica, o capitalismo não é capaz
de dar um sentido à vida coletiva, propor um projeto social efetivo, a não ser o “evangelho da
competitividade” (PETRELLA, 1995) e a lógica da mercadoria e do consumismo. 21

A partir desse vazio ideológico, fruto inicialmente do fim da bipolaridade “socialismo”


versus capitalismo, passaram a proliferar as guerras civis desarticuladas, com múltiplos ou
nenhum objetivo explícito. Enzensberger (1995) chega a denominá-las “guerras civis mole-
culares” (ocorrendo inclusive no interior das metrópoles), nas quais os criminosos não distin-
guem mais entre destruição e autodestruição, lutando “perdedores contra perdedores” numa
violência que se liberta de quaisquer fundamentações ideológicas. Trata-se de um redesenhar
do mapa estratégico do mundo, em que só interessam de fato os conflitos que margeiam e por
isso ameaçam mais diretamente os países centrais ou, no pós-11 de setembro, aqueles em que
se alega ar ticulação com as redes do megaterrorismo globalizado (especialmente o da rede Al
Qaeda), como Afeganistão, Somália e Iêmen.
Entendendo “sentido” como um “princípio de base sobre o qual se apoia um projeto co-
letivo”, reunindo ao mesmo tempo as noções de fundamento, unidade e finalidade, Laïdi
(1994, p. 15) afirma que, enquanto antes “era o político que definia a identidade, hoje – e
isto à escala mundial – é da busca problemática de identidade que parece se desprender
uma bastante incerta ação política” (p. 17). “Sentidos” pretensamente globais como os que
determinadas religiões e certos grupos mais radicais do movimento ecológico pretendem

difundir
tas revelam-se
conquistas ainda frágeismoderno,
do universalismo e geralmente bastante
enquanto conservadores
vinculado em relação
a um projeto a mui-
de autonomia
20
Para uma referência recente no debate sobre o universalismo, ver a posição de Jullien (2009), em sua crítica ao universalismo mas não
ao “universal”, contanto que este esteja “livre de todos os universalismos instalados”, aberto à “tradução” entre culturas e se, “em vez de
valer como invólucro ideológico, ele servir efetivamente de ideia reguladora que oriente a pesquisa: descerrando toda totalidade dada,
ele não cessará de extrair novamente, irreprimível, as condições de possibilidade de um comum sempre ameaçado de estreitar e retrair;
e o sentido do humano, por sua vez, não conhecerá mais limite – de medo ou de reticência – para crescer e se desenvolver”. (p. 212) O
autor faz também uma interessante reflexão sobre a distinção e ao mesmo tempo interação entre as noções de “comum”, “universal” e
“uniforme”.
21
Como afirma Chesnaux (1993) “os valores propostos ao mundo pelo O cidente (empresa, crescimento, lucro etc.) não somente são inaces-
síveis à grande maioria dos humanos, mas são para eles totalmente desprovidos de sentido” (p. 12, grifo do autor).
Rogério Haesbaert | 39

individual e coletiva. Projetos alternativos de caráter “pós-colonial” e, por isso, histórica e


geograficamente contextualizados, como os que estão sendo emp reendidos por grupos nati-
vos em muitos espaços latino-americano s, evidenciam o complexo cruzamento entre valores
“globais” e reinterpretações – ou, para utilizar termos caros aos pós- coloniais, “traduções” ou
“transculturações” – “regionais”.
A proliferação de movimentos étnico-religiosos e suas novas territorialidades, em geral
bastante contraditória em relação aos processos de globalização, encontra-se hoje no bojo do
complexo “mundo privado de sentido” a que se referia Zaki Laïdi. Outros movimentos alter-
nativos com articulações globais – algumas ONGs (“organizações não governamentais” pre-
tensamente independentes de governos e grandes empresas, como o Greenpeace e a Anistia
Internacional), facções mais abertas do movimento ecológico, iniciativas por um sindicalismo
supranacional e lutas setoriais refletem uma “globalização alternativa” ou uma “contragloba-
lização” (por se contrapor ao sistema socioeconômico vigente) ainda precária e que, no caso
de lutas setoriais/regionais, muitas vezes se extinguem ou arrefecem assim que são atingidos
seus objetivos. Muitos destes processos acabam atuando tanto no sentido da globalização
(mas de uma globalização que pode estar a serviço dos chamados “excluídos” ou subalterni-
zados) quanto da fragmentação (na medida em que contrariam os princípios da globalização
hegemônica).
Por isso, propomos analisar a globalização considerando toda a diferenciação que seus
processos envolvem, levando em conta pelo menos:

• as dimensões sociais que ela abrange (socioeconômica, político-ideológica e/ou


simbólico-cultural);
• as classes sociais e grupos culturais que ela envolve (das elites gerenciais às classes
subalternas, dos grupos étnicos aos grupos religiosos);
• os objetivos e a temporalidade (o caráter estrutural, conjunturalou de curta duração)
dos movimentos sociais tidos como “globais”.

Um caminho que nos parece fértil é então aquele que não dissocia os termos globalização
e fragmentação e que, ao utilizar “fragmentação”, entende este termo em suas múltiplas con-

figurações,
como inclusive
veremos na articulação
no próximo item. com outros processos, como os de “exclusão” socioespacial,

Fragmentação e “exclusão”

Contrapor globalização à fragmentação é um falso problema. [...] a globalização se realiza


através da diferenciação.[...] O pattern da civilização mundial envolve padronização e segmen-
tação, global e local, manifestando um processo cultural complexo e abrangente. Ele produz
40 | Os dilemas da globalização – fragmentação

diferenças no interior de um mesmo patamar de cultura. Talvez fosse o caso de abandonar-


mos definitivamente a noção de homogeneização [.. .]. A idéia de nivelamento cultural parece
mais adequada. Ela permite apreender o processo de convergência dos hábitos culturais, mas
preservando as diferenças entre os diversos níveis de vida. A padronização neste caso não é
negada, mas se vincula apenas a alguns segmentos sociais. Um mundo nivelado não é um
mundo homogêneo. (ORTIZ, 1994, p. 181).

Tornou-se quase lugar-comum explicar toda a complexidade do mundo contemporâneo


pelo binômio globalização-fragmentação. Contudo, destituído de qualificações mais rigoro-
sas, ele acaba banalizado, perdendo assim todo o seu poder explicativo. Assim como a dinâmi-
ca da globalização, como vimos até aqui, se revela de modo muito diferenciado, os processos
de fragmentação – ou, se preferirmos, de segmentação – também, pois podem tanto estar
intimamente conjugados à globalização como podem contradizê-la e mesmo contestá-la.
Comecemos por problematizar o próprio termo “fragmentação”. A partir da citação intro-
dutória de Renato Or tiz, já percebemos sua polissemia, podendo ser sinônimo de “diferencia-
ção”, “segmentação”, “heterogeneidade”. Como já destacamos anteriormente, ele pode tam-
bém ser associado, ou mesmo substituído, ao termo “regionalização”, relação esta demasiado
simplista dentro dos objetivos deste trabalho. Fragmentação na verdade não pode ser vista
simplesmente nem como regionalização (muitas vezes associada à formação de blocos eco-
nômicos “regionais”), nem como “diferenciação” ou “heterogeneização” (pois a diferenciação
também é inerente à globalização capitalista, o capitalismo não sobrevive sem uma deter-
minada “produção da diferença”, na medida em que é a “diferença” – ou pelo menos um certo
tipo de diferença – que “vende”).
Propomos trabalhar aqui numa analogia entre fragmentação e “segmentação” ou “fracio-
namento”, num sentido de fragmentação que vai muito além daquele que a associa estrita-
mente com “ruptura” ou “quebra”.22 Trata-se de uma concepção bastante ampla de fragmen-
tação, a partir da noção de “fragmento” vista, sobretudo, como “parte de um todo, pedaço,
fração” (DICIONÁRIO Novo Aurélio). Se nos reportamos à ideia de ruptura ou quebra é mais
para falar em níveis diferenciados de ruptura do que de rompimento em sentido estrito.
Milton Santos, em uma de suas últimas obras,Por uma outra globalização(SANTOS, 2000),

propôs uma distinção


compartimentação interessante
, mais entre fragmentação
amplo, manifesta-se hoje sob ae forma
compartimentação. Para, naele,medida
de fragmentação o termo
em que perdemos a capacidade de uma “regulação interna” aos espaços compartimentados,
sujeitos agora, cada vez mais, a “parâmetros exógenos, sem referência ao meio”. (2000, p. 81)
Embora ele às vezes deixe implícita uma certa benevolência com o caráter “endógeno” (mui-
to relativo) dos grandes impérios e dos Estados-nação (p. 82-83), trata-se, sem dúvida, com
a globalização, de uma intensificação da “compartimentação como fragmentação” por meio
22
É neste sentido, e com razão, que Becker (2004), por exemplo, critica a expressão: “o termo fragmentação não é adequado porque [quan-
do, diríamos nós] sugere [apenas] uma ruptura”, por tratar-se, sobretudo, de reestruturação, de recomposição de relações sociais. (p. 13)
Rogério Haesbaert | 41

de “nexos verticais que se superpõem à compartimentação horizontal” dominante até há um


certo tempo.
Não cremos, entretanto, ser possível falar de fragmentação de uma forma genérica e
não qualificada. Propomos assim começar por distinguir, do ponto de vista da globalização
hegemônica, uma fragmentação “inclusiva” ou “integradora”, em um sentido mais amplo, e
uma fragmentação em sentido estrito, “excludente” ou “desintegradora”, uma fragmentação
mais diretamente inserida nos processos de globalização e uma fragmentação aparentemen-
te paralela ou contraposta à globalização hegemônica. Além disso, é importante identificar
também as relações entre suas diferentes dimensões (econômica, política, cultural e mesmo
ambiental ou ecológica), como acabamos de fazer em relação à globalização em sentido mais
geral. Assim, utilizaremos o termo no sentido analítico geral de segmentação ou parcelamen-
to, e não na perspectiva normativa (difundida no senso comum), que vê a fragmentação como
um processo de caráter sempre negativo.
Os processos de fragmentação, aqui denominada defragmentação inclusiva ou integrado-
ra, correspondem a um sentido lato, pois são parte intrínseca dos processos de globalização,
constituindo mesmo, como nas afirmações de Ortiz que abrem este item, uma forma de reali-
zá-la. Trata-se muitas vezes de uma nova manifestação do velho princípio do “dividir para me-
lhor governar” – no caso, em outras palavras, “fragmentar/segmentar paramelhor globalizar”.
Subcontratações e terceirização, trabalho temporário, deslocalização de firmas, renovação (e
descarte) constante dos produtos – tudo isto faz parte de uma estratégia de “flexibilização”
dos circuitos produtivos dentro da lógica de competitividade contemporânea em que o maior
lucro é uma decorrência, mais uma vez, da desarticulação do movimento trabalhista, da intro-
dução de novos métodos de produção e de novas tecnologias, acelerando o ciclo produtivo e
criando cada vez mais novas “necessidades”.
As novas tecnologias de transporte e informação permitiram fragmentar ainda mais o
processo de produção, criando uma divisão do trabalho pautada sobretudo nos diferentes ní-
veis tecnológicos envolvidos em cada estágio de produção. Assim, determinados produtos que
exigem mais mão de obra ou matéria-prima ainda podem ser fabricados sob uma espécie de
“taylorismo sanguinário” (LIPIETZ, 1988) nos países periféricos, enquanto a produção de com-
ponentes que incorpora graus de tecnologia muito avançados fica restrita a alguns núcleos

seletos (tecnopolos
centros ou “vales”,
do capitalismo mundial“montanhas” e “ilhas”
– sem esquecer do silício),
de espaços especialmente
ditos emergentesnos
nasprincipais
semipe-
riferias, como áreas em torno de Bangalore, no sul da Índia, ou de Campinas-São José dos
Campos, no entorno da Grande São Paulo.
Defarges (1993, p. 50-51) afirma que a globalização parece ter imposto essa nova organi-
zação das firmas, agora muito mais flexíveis e móveis. Enquanto a multinacional “clássica” ou
“tradicional” se caracterizava por uma estrutura vertical, rigidamente hierarquizada a partir
de um centro de comando firmemente enraizado num determinado Estado-nação, as “firmas-
-rede” substituem a “internalização” que agrupava todas as fases de produção e distribuição
42 | Os dilemas da globalização – fragmentação

numa mesma entidade pela externalização de todas as atividades que, tanto a jusante (sub-
contratações) como a montante (franchising para comercialização), não constituem o núcleo
central de suas atividades. Segundo o autor, “a ilustração extrema da globalização é dada pela
‘firma virtual’, rede temporária de empresas explorando em comum uma ocasião suscitada
pelo mercado” (p. 51).
Como as novas tecnologias de transporte e o acirramento das desigualdades e da “exclu-
são” promoveram também um aumento substancial das migrações para os países centrais (e,
hoje, para muitos considerados “emergentes”), muitas vezes as corporações nem precisam sair
de seu espaço srcinal (como na retomada da indústria de vestuário com migrantes latinos
e tailandeses na Califórnia), ou podem localizar-se em suas margens imediatas (como na
instalação de maquiladoras na fronteira México-Estados Unidos ou de empresas chinesas de
mão de obra intensiva no Vietnam), utilizando aí mesmo a força de trabalho barata e/ou os
“cérebros” (como ocorreu com m igrantes do Leste Europeu) que aband onaram situaçõ es
mais precarizadas e/ou de menor remuner ação em seus países de srcem.
Em alguns casos, para evitar a assim chamada “invasão” por essa massa de migran-
tes que, na visão dos grupos hegemônicos, não geram apenas força de trabalho barata
mas também problemas de integração e encargos sociais, criam-se barreiras de con-
tenção, inclusive diretas, como os novos muros em muitas fronteiras que separam não
só Estados ricos e pobres mas também pobres e mais pobres, como no caso da cerca
fronteiriça entre Botswana, de maior crescimento econômico, e Zimbábue, em crise.
Outras barreiras, ao mesmo tempo integradoras e fragmentadoras, são construídas
em torno dos novos blocos econômicos, muitas vezes transformados em verdadeiras
“fortalezas” na defesa comum dos interesses de seu grupo de Estados – tendência que
se vê ainda mais reforçada a partir da crise econômica mundial de 2008. A proliferação
e o fortalecimento desses blocos, União Europeia à frente, é uma evidência das contra-
dições do discurso neoliberal, cuja defesa do “livre mercado” e da “desregulação” acaba
sempre reconfigurando limites, fronteiras muito claras nas re-divisões do mundo entre
seus núcleos hegemônicos. Conforme já ressaltamos, muitos autores preferem identi-
ficar este processo com o polêmico termo “r egionaliza ção”, em vez de “fragmentação” .
A formação desses espaços econômicos “regionais” é uma das respostas do próprio

capitalismo
assim globalizado,
as novas tendo em vista
escalas prioritárias sua de
de ação melhor
suas performance,
frações, acimatentando
do Estadolegitimar
nação.
Este, como já vimos, ao mesmo tempo que constituiu uma base fundamental durante a
fase denominada de internacionalização do capital, vê seu papel questionado e surge
algumas vezes como um elemento “fragmentador” no sentido negativo, quase como
um constrangimento a ser extirpado (na leitura do conservador Kenichi OHMAE, por
exemplo). Mas sua importância ainda é incontestável, como salientamos no item sobre
a dimensão política da globalização – China Popular à frente, direcionando seletiva-
mente a reprodução capitalista com o máximo de vantagens econômicas ao mesmo
Rogério Haesbaert | 43

tempo que controla a atividade sindical-trabalhista e o fluxo de informações (inclusive


aquelas veiculadas via internet, como no recente imbróglio da censura ao site de busca
Google).
A definição de novas “fatias” geográficas dentro do mercado mundial é ao mesmo
tempo uma estratégia de sobrevivência pelo melhor controle de certas áreas em épocas
de turbulência, e uma forma de apaziguar possíveis atritos entre a nova tripolaridade
criada em função da competição cada vez mais acirrada entre capitalistas orienta is (chi-
neses e japoneses, sobretudo, mas também indianos, coreanos e taiwaneses), europeus
(ingleses, alemães, franceses e italianos) e norte-americanos. Geralmente promove-se
o discurso da globalização comercial e financeira sem fronteiras na escala mundial,
enquanto na escala “regional” (supranacional) se resguardam áreas de relacionamento
privilegiadas a fim de evitar maiores transtornos em épocas de crise e competição mais
acirrada. Em blocos regionais periféricos, como o Mercosul, trata-se de fortalecer não
só os laços intrabloco s mas também um maior mercado consumidor capaz de se inserir
mais atrativamente nos circuitos da globalização.
Por outro lado, reestruturam-se as escalas regionais intranacionais, que muitas ve-
zes acabam complexificando os espaços transfronteiriços ao promoverem a integração
econômica entre áreas de países diferentes, como ocorre entre a Catalunha espanhola
e o Midi francês, o noroeste dos Estados Unidos e a Colúmbia Britânica canadense ou o
Guangdong chinês, Hong-Kong e T aiwan. É mais ou menos o que Ohmae (1990, 1996),
numa leitura neoliberal, propõe denominar de “Estados-regiões”, cujo poder estaria
cada vez mais se acentuando. 23
Identificamos, também, processos que, numa leitura um pouco mais estrita de
“fragmentação”, propomos denominar fragmentação “excludente” ou “desintegradora”
em relação à própria globalização neoliberal. Essa fragmentação que interfere muito
mais de forma contrária aos processos globalizadores pode ainda ser desdobrada sob
duas perspectivas muito distintas: uma, que constitui a contraface excludente, direta-
mente produzida pelos processos de globalização neoliberal, cujo modelo financeiro e
tecnológico (especulativo e poupador de mão de obra) gera desemprego estrutural e
relega praticamente ao abandono extensas áreas da periferia do planeta (que, enquan-

to tradicion
inclui al “exército
as reações de reserva”
ou resistências ao, processo
é [ou era]globalizador
f uncional aohegemônico,
próprio sistem a); e outra, que
especialmente
nas esferas ideológica e cultural. Nesta, devemos distinguir ainda duas posições: as
reações “conservadoras”, como a dos movimentos fundamentalistas islâmicos e muitos
neonacionalismos, e as “progressistas”, como aquelas construídas pelos chamados mo-
vimentos alternativos contraglobalizadores que envolvem vários movimentos sociais,

23
Para uma discussão mais aprofundada sobre as novas perspectivas conceituais de região diante dos atuais processos globalizadores, ver
nosso trabalho “Regional-Global: dilemas da região e da regionalização na Geografia contemporânea” (HAESBAERT, 2010).
44 | Os dilemas da globalização – fragmentação

algumas ONGs e associações mundiais em defesa das classes e grupos subalternos (es-
pecialmente os que são representados no Fórum Social Mundial).
De forma simplificada, podemos caracterizar genericamente essas três formas de
fragmentação nos quadros-síntese (v. Quadros 1 e 2), em que identificamos e exempli-
ficamos suas distintas modalidades. O primeiro deles é uma abordagem mais geral e
o segundo busca especificar esses processos numa perspectiva espacial ou geográfica.
É muito importante perceber que diversos desses processos não se encaixam estrita-
mente numa abordagem ou modalidade, mas se relacionam com mais de uma delas ao
mesmo tempo. É o caso, muito evidente, da precarização das relações de trabalho que,
ao mesmo tempo que constitui uma dinâmica fragmentadora integrada ao processo
globalizador, acelerando a acumulação, quando exacerbada, pode se voltar contra a
globaliza ção, por seu caráter excludente e “ desintegrador ”.

Quadro 1 – Dinâmicas gerais de fragmentação


Fragmentação inclusiva ouintegradora Fragmentação excludente ou desintegradora
(em relação à globalização hegemônica)
Inerente ao processo de globalização
Produto da Resistência à
atuando em seu favor (“fragmentar para melhor
globalização globalização
globalizar” ou “dividir para a cumular”)
Flexibilização do processo produtivo, terceirização, Desemprego estrutural, “inclusão Conservadora Progressista
trabalho temporário, contratos precários precária”, e tnocídio / desculturação, (excludente) (reincludente)
perda de cidadania (refugiados Movimentos Movimentos
políticos) fundamentalistas; sociais (como
Neonacionalismos os do FSM)

Quadro 2 – Dinâmicas geográficas de fragmentação


Fragmentação Inclusiva ou Integradora Fragmentação Excludente ou Desintegradora
(em relação à globalização hegemônica)
Inerente ao processo de globalização Produto da Resistência à
Mais zonal: divisões e/ou agrupamentos regionais globalização globalização
(em nível econômico e/ou cultural) e territoriais hegemônica hegemônica
(em nível político) em diferentes escalas
Mais reticular: fluxos de rápida des-relocalização de
capital, mercadorias, força de trabalho
“novos regionalismos” econômicos mercados Redes/circuitos ilegais da Conservadora
comuns / blocos mundiais de poder; regiões de economia; aglomerados de (excludente)
“conhecimento intensivo” e fluxos transfronteiriços exclusão (campos de refugiados e Controle nacionalista de fluxos de diversas
altamente seletivos; deslocalização e circularidade de controle de migrantes), novos ordens pelo fortalecimento das fronteiras;
espacial do aparato produtivo e da captação de muros fronteiriços de contenção de guetos étnico-religiosos tradicionalistas
força de trabalho; paraísos financeiros; reservas grupos subalternizados, exclusão Progressista
naturais territorial por precarização das (reincludente)
condições ambientais (depósitos Criação de redes antiglobalização com
de lixo tóxico, áreas de acidentes ocupações de espaços públicos; criação de
nucleares etc.) territórios autônomos, como os zapatistas
Rogério Haesbaert | 45

Devemos ressaltar, portanto, que essas distinções geralmente não passam de um recur-
so analítico, pois proliferam as interseções e as ambiguidades. Os movimentos nacionalistas,
por exemplo, podem, concomitantemente, contrapor-se – ao pregar a xenofobia – e apoiar
– ao estimular a ação externa de suas empresas nacionais – a dinâmica da globalização. O
fundamentalismo islâmico, por sua vez, ao mesmo tempo que “fragmenta”, contestando a
globalização dominante, não deixa também de impor-se, pelo menos em algumas de suas
manifestações, como um contraprojeto de universalização político-religiosa.
A fragmentação promovida pela exclusão se dá basicamente pela expansão de uma massa
de desempregados e miseráveis que é o produto mais evidente do aumento das desigualdades
promovido pelo modelo econômico-tecnológico concentrador pós-fordista. Altamente seleti-
vo em termos da especialização da força de trabalho e da qualidade dos materiais que utiliza,
com uma massa cada vez maior de capital fora do circuito produtivo, envolvido em atividades
puramente especulativas, o capitalismo hegemônico não se caracteriza propriamente pela
geração de empregos, ainda mais quando consideradas as crises recorrentes dos últimos anos.
O “exército industrial de reserva”, tal como fora definido por Marx, parece estar se trans-
formando numa massa permanente de “precarizados”, cuja situação de penúria faz com que
o próprio movimento trabalhista se enfraqueça ainda mais, com os trabalhadores não mais
lutando por mudanças nas condições de trabalho, mas simplesmente clamando pela incorpo-
ração ao mercado, como se a exploração capitalista – vista como única ou fundamental forma
de “inclusão” – fosse uma espécie de benefício a ser concedido.
A redução do papel social do Estado, paralelamente ao aumento do desemprego, da vio-
lência e da insegurança em sentido geral, sem que outras instituições sejam criadas para, no
mínimo, disciplinar e regular a lógica do lucro e da acumulação em nível global, gera um au-
mento dos alijados das condições mínimas de cidadania e fazem proliferar os circuitos ilegais
de (precária) “assistência” e (in) “segurança”, entre os quais se destacam o narcotráfico, as mi-
lícias e as máfias do crime organizado.
Trata-se, em sentido amplo, daquilo que Ribeiro (2010) denomina “sistema mundial não
hegemônico” (mas não “anti-hegemônico”, devemos destacar). No sistema hegemônico ,
em íntima relação com o poder estatal, “os agentes econômicos conseguem gerar e manter
a aparência para a sociedade como um todo de que detêm o monopólio da legitimidade e

legalidade
vidades das transações
ilegais” econômicas,
(p. 11), usando mesmo quando
de subterfúgios envolvidos ou esurpreendidos
como subfaturamento em ati-
falsas declarações de
transporte. Enquanto isso, “o sistema mundial não hegemônico é formado por dois tipos bá-
sicos de processos de globalização”, sem fronteiras claras, a “economia ilegal global” do crime
organizado e a “economia (i)lícita global”, envolvendo o que o autor denomina de globalização
popular. Na verdade, diz ele:

[...] são processos que podem se entrelaçar, retroalimentar e manter relações hierárquicas.
Por exemplo, ainda que a atividade de globalização popular seja, do ponto de vista do Estado,
46 | Os dilemas da globalização – fragmentação

caracterizada como contrabando, é bastante diferente se consideramos o “chamado contra-


bando formiga” [...] ou grandes esquemas de contrabando controlados por quadrilhas orga-
nizadas. Assim, aquilo que em geral é indistinto do ponto de vista do Estado, do meu ponto
de vista pode ser parte da economia (i)lícita global (da globalização popular) ou da economia
ilegal global (do crime organizado).

Grande parte desses circuitos ilegais é forjada em pleno conluio dessa massa de trabalha-
dores precários com “capitalistas da ilegalidade”, cuja produção (“pirata”) tem seu valor e sua
eficácia definidos na relação que travam com o alto valor simbólico das grandes logomarcas.
Na interpretação de Ribeiro (2010), grandes diásporas como a chinesa e a sírio-libanesa, em
sua múltipla composição socioeconômica, estão entre as principais responsáveis por esses cir-
cuitos globais.
Mas a assim chamada “exclusão” – que preferimos denominar de precarização – , embora
se expresse aí em sua forma mais violenta, não é apenas de natureza econômica, projetando-
se para o âmbito da política e da cultura, do gênero (sexo) e das etnias. Culturalmente, entre
outros fatores, o já comentado vazio de sentido que acompanha o consumismo e a mercan-
tilização da vida humana – e/ou a sua ausência e dificuldade de acesso – contribui para o
aparecimento e fortalecimento de fundamentalismos religiosos, étnicos e nacionalistas que
resultam numa fragmentação identitária francamente contrária ao pretenso universalismo
globalizador.
Aqui se confunde a fragmentação enquanto produto e enquanto reação ou resistência à
globalização. Dizer, por exemplo, que o revigorar do islamismo fundamentalista é fruto dos
valores “sem valor” da modernidade tecnicista global é dizer muito pouco. Trata-se, ao mesmo
tempo, de um processo endógeno, de longa história, em sociedades marcadas pela repressão
e pelo autoritarismo, e de um produto e reação ao imperialismo (também de longa data) e aos
processos niveladores e “ocidentalizantes” da sociedade global em formação.
Em muitos Estados muçulmanos, mesmo que não se questione a base econômico-tecno-
lógica do capitalismo global, à qual a grande maioria da população almeja ter acesso, questio-
na-se e reage-se contra a dessacralização do mundo e o imperialismo da cultura e do militaris-
mo ocidentais, especialmente o de feição norte-americana. A fragmentação frequentemente

gerada da
reflexo peloglobalização,
reacionarismo
queidentitário
faz uso dododiscurso
mundodacontemporâneo é, ao mesmo
“autonomia individual” tempo, umàs
e do “respeito
diferenças” (criando assim novos nichos de mercado) para se difundir, e uma reação contra sua
expansão, calcada nos valores contábeis da economia de mercado que, muitas vezes, manipu-
lam ou simplesmente desprezam as múltiplas especificidades culturais.
Paradoxalmente, o colapso do chamado bloco socialista, ao mesmo tempo que represen-
tou a abertura definitiva e quase irrestrita de algumas das “últimas fronteiras” para a globali-
zação capitalista, promoveu alguns dos processos mais veementes de fragmentação, tanto no
sentido do crescimento da massa de excluídos do mercado de trabalho e de consumo (alguns
Rogério Haesbaert | 47

sendo obrigados a retornar a uma espécie de modo de produção doméstico para sobreviver),
quanto do relativo esfacelamento do Estado (vide a proliferação de máfias nas ex-repúblicas
soviéticas) e da difusão de conflitos de base étnico-cultural (especialmente em áreas social e
culturalmente mais fragilizadas, como a região do Cáucaso).

Numa síntese conclusiva, podemos agora retomar o questionamento sobre algumas ca-
racterísticas gerais entre aquelas que mais enfaticamente são destacadas, especialmente na
perspectiva conservadora, como indicadoras do processo de globalização: o fato de tratar-se
de um processo recente, fundamentado no livre mercado e na desregulação, com a crise “defi-
nitiva” do Estado-nação, a emergência global do sistema informacional que permite falar em
“fim das distâncias” e a difusão de uma cultura globalizada. Vejamos cada uma delas:

• A globalização é um processo recente, originado a partir dos anos 1960:

Na verdade, inerente ao próprio processo de reprodução capitalista, a globalização vem


sendo construída desde as srcens do sistema (ou, numa ótica mais estritamente econômica,
do modo de produção), embora a maioria dos autores prefira distinguir entre uma fase mais
antiga de “internacionalização” do capitalismo, quando o Estado-nação e a produção em série,
fordista, têm um papel fundamental, e a fase mais efetiva de globalização, dominada pela
concentração de poder em mãos de grandes corporações transnacionais, pelo capital financei-
ro e pela maior flexibilidade do processo produtivo e do trabalho – esta sim aproximadamente
coincidente com o período pós-1960.

• A globalização está baseada na difusão do livre mercado e na desregulação econômica,


com a crise definitiva do Estado-nação:

A formação de grandes oligopólios e fusões entre empresas não indica a existência do pro-
palado “livre mercado”, sem falar que muitos países de acelerado crescimento econômico re-

cente devem
Tigres seue êxito
Asiáticos a umadominada
da China, firme interferência
por grandesestatal, especialmente
empresas estatais. Emnoalguns
caso dos chamados
países ocorre
mesmo o fortalecimento do papel do Estado em setores estratégicos, como o energético (caso
da Rússia, Venezuela, Bolívia e Emirados Árabes); por outro lado, o discurso da segurança (em
nome do “combate ao terror”, por exemplo) legitima novas investidas na militarização estatal
(e na constituição, ainda que temporária, dos chamados Estados de exceção), incluindo o rela-
tivo reforço no controle das fronteiras visando à contenção dos fluxos migratórios. A tudo isso
acrescentam-se, de forma veemente, novas demandas por intervenção estatal na economia,
salvando bancos e empresas, decorrente das crises econômicas pós-2008.
48 | Os dilemas da globalização – fragmentação

• A globalização promove o domínio do capital financeiro e a difusão de um avanço tecno-


lógico-informacional generalizado, o que faz com que o entrave distância seja superado:

Apenas uma parcela restrita da população tem efetivamente acesso às inovações tecnoló-
gicas “de ponta”, cuja transformação constante faz acentuar a desigualdade social planetária.
Muitos países, especialmente na África, ainda têm economias de base agrária e setor de ser-
viços pouco ou nada informatizado. A população urbana mundial só recentemente se tornou
equivalente à rural. Paralelo ao acúmulo de capital financeiro especulativo e ao desenvolvi-
mento tecnológico e informacional, altamente seletivos espacialmente, ocorre o aumento do
desemprego e da “exclusão”social (ou melhor, da precarização da inclusão social, como prefere
o sociólogo José de Souza Mar tins). O alegado “fim das distâncias” só funciona – e ainda assim
de forma relativa, pois depende do espaço aonde circulam – para quem efetivamente tem
acesso às novas tecnologias de transporte e informação.

• A globalização promove a homogeneização cultural ou de valores:

A universalização do valor mercadoria ou da lógica contábil que rege a difusão do capi-


talismo não significa uma paralela homogeneização cultural, até porque “diferença cultural
vende” e o próprio capital tem interesse na promoção (e recriação) da diferença, criando assim
novos nichos de mercado. Por outro lado, muitas vezes a propalada homogeneização moder-
nizadora gera seu contrário, uma espécie de retorno ou reatualização de valores “tradicionais”,
como os de identidades étnico-nacionais e religiosas, sem falar nos movimentos integristas e
na formação de guetos no interior de grandes cidades pretensamente cosmopolitas. A cultu-
ra ocidental hegemônica nunca se impõe unilateralmente, devendo sempre dialogar com as
culturas e os valores locais (vide casos mais complexos como o da maioria dos países árabe-
muçulmanos e o interior da Índia). Novos centros hegemônicos emergentes, como a China,
promovem políticas explícitas de difusão de seus valores culturais nacionais.
A globalização não só não promove a unidade e a homogeneização, como estas, obvia-
mente, estão longe de ser unilateralmente positivas. Em meio a posições politicamente con-
servadoras e às vezes culturalistas, o grande escritor norte-americano Thomas S. Eliot tinha

uma grande parcela de razão ao afirmar:


Excesso de unidade pode provir de barbarismo e conduzir à tirania, excesso de divisão pode ser
devido à decadência e pode também conduzir à tirania; qualquer um dos excessos bloqueará
o desenvolvimento posterior da cultura. Não se pode determinar o grau adequado de unidade
e de diversidade para todos os povos em todos os tempos. (p. 67-68) O valor absoluto é que
cada área deveria ter sua cultura característica, que deveria também harmonizar-se com, e
enriquecer, as culturas das áreas vizinhas. (p. 72) [...] uma cultura nacional, para florescer,
Rogério Haesbaert | 49

deveria ser uma constelação de culturas cujos componentes, beneficiando-se mutuamente,


beneficiam o todo. (ELIOT, 1988, p. 77)

A partir da diversidade de situações, contraditórias e/ou ambivalentes, aqui destacadas, é


que se desenha essa complexa geografia contemporânea, e que, sobre esta espécie de pano
de fundo mais geral, permite iniciarmos agora o debate específico de algumas das grandes
“parcelas” regionais com que o mundo contemporâneo pode ser trabalhado: quatro gran-
des Estados ou conjunto de Estados hegemônicos – Estados Unidos, União Europeia, China e
Japão, e dois agrupamentos continentais periféricos – América Latina e África.

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João Rua

ESTADOS UNIDOS: AINDA A POTÊNCIA DOMINANTE NO SÉCULO XXI?

Os Estados Unidos atuaram como potência dominante na maior parte do século XX, e as-
sim foram percebidos por todos. Esse domínio foi exercido em múltiplas dimensões, mas de
maneira diversa no tempo e no espaço. As perguntas que se colocam, já há algum tempo, é se
esse papel continuará a ser desempenhado pelo país, e se, unicamente, por ele, ou se haverá
potência(s) que o substitua(m). Este texto não se propõe a responder tais indagações, mas
a encaminhá-las, em sua complexidade, já que se trata de temática por demais polêmica e
controversa.
Desde o final dos anos 1980, lançou-se a ideia de uma nova ordem mundial comandada
pelos Estados Unidos, que pareceu fortalecer-se durante a Guerra do Golfo e pela ação desse
país, junto com as Nações Unidas (mas, também, unilateralmente), nas diversas “missões de
paz” e na busca de armistícios e tratados. Entretanto, o que tem sido percebido, desde então,
é que vem ocorrendo uma ausência de regulação nas relações internacionais, cada vez mais
marcadas pelos movimentos, quase sempre contraditórios, de globalização e de fragmenta-
ção e, neles, a presença americana vem se apresentando como dominante, com destaque para
a sua ação militar. No entanto, há indícios de mudanças significativas nesse papel. Não como
alterações conjunturais, mas integradas às marcantes mudanças que vêm sendo percebidas
no mundo contemporâneo há algumas décadas. Para alguns, o domínio americano estaria se
enfraquecendo; para outros, estaria apenas mudando de caráter.
O que se pretende, ao estudar os Estados Unidos, é analisar a construção do seu domínio

epolítico e econômico
simbólicas), (em suas
num longo múltiplas
processo dimensões:
de busca estratégicas,
da hegemonia diplomáticas,
mundial. ideológicas
Procurar-se-á com-
preender as diretrizes traçadas, as contradições vividas e os obstáculos encontrados, em nível
interno e, também, na sua projeção como nação/potência de expressão planetária.
Nessa perspectiva, tentar-se-á demonstrar que a chamada crise da hegemonia americana
apresenta uma dimensão externa e uma dimensão interna, com seus dilemas e polarizações,
que parecem agravar-se. As duas dimensões interagem permanentemente, como se procurará
demonstrar.
56 | Estados Unidos: ainda a potência dominante no século XXI?

A base teórica para a análise efetuada foi buscada na teoria do desenvolvimento desigual
e combinado, nas leituras que dela fizeram Soja (1983) e Harvey (2004a, 2004b, 2006) como
desenvolvimento(s) geograficamente desigual(is). Para este último autor, a globalização é, a
um só tempo, um processo, uma condição e um tipo específico de projeto político, que che-
gou a um estágio radicalmente novo, sustentado por agentes discerníveis que trabalham para
promovê-la (HARVEY, 2004a). O capitalismo, que não pode sobreviver sem “ajustes espaciais”,
tem utilizado a reorganização geográfica como solução parcial para suas crises e seus impas-
ses. Assim, cada momento histórico tem a sua própria organização espacial, na qual o que
facilita a acumulação em uma f ase pode ser destruído ou reconfigurado numa fase posterior.
No momento atual, convivem, interagindo dialeticamente, a globalização e a fragmenta-
ção, em espaços circunscritos, mas inseridos no espaço internacional de fluxos de capital, de
trabalho, de informação, cada um deles composto de espaços menores, dotados de caracte-
rísticas regionais e locais próprias, todos integrados a uma divisão “global” do trabalho e das
funções (HARVEY, 2004a, p. 87).
Os Estados Unidos serão estudados na perspectiva da globalização das condições repro-
dutivas do capital em seus diversos momentos; da integração de espaços econômicos, favo-
recida pela concorrência intercapitais em escala internacional e interna; pela hierarquização
dos espaços, assentada no movimento desigual e combinado do capitalismo em diferentes
momentos da história americana; na hegemonia em que frações do capital e classes sociais se
confrontam e interagem num mútuo interesse, na escala internacional, nacional e local. Nessa
abordagem, o capitalismo não será percebido de maneira restritiva (modo de produção), mas
como verdadeira organização societária, à maneira de Ianni (1993, p. 53), quando escreve que
“[o capitalismo] é a rigor um processo civilizatório universal”.
Este capítulo do livro tem como balizamentos os seguintes pressupostos, que serão expli-
citados ou aparecerão implícitos ao longo do texto:

1. Entende-se como sujeitos hegemônicos, noprocesso geral de reprodução,concordan-


do com Ceceña (2004, p. 115), as grandes empresas transnacionais, os grandes capi-
tais financeiros que vão fazendo e desfazendo economias, e o Estado norte-americano
como pretenso portador do interesse geral e dos valores universais. De acordo com Cox

(1987, p. 7),
particular embastante
que um marcado por Gramsci,
ordenamento a hegemonia
seria criado seria com
por um Estado um domínio
base emdeamplo
tipo
consentimento mas procurando preservar o papel do Estado-líder, ou Estados, e de sua
classe social dominante, oferecendo, ao mesmo tempo, medidas de compensação aos
Estados menos poderosos. As classes sociais da nação dominante encontram aliados
nas classes das outras nações. Este conceito mais alargado de hegemonia servirá como
base para se compreender outras dimensões do domínio americano, além da política,
da econômica e da militar, embora sempre com elas relacionado.
João Rua | 57

2. Ao se fazer uma tentativa de periodização da política externa norte-americana e das


suas diversas perspectivas analíticas, percebe-se o quanto elas se intercambiam: rea-
lismo e idealismo; isolacionismo e internacionalismo/globalismo (estes divididos em
unilateralismo e multilateralismo), além de funcionarem como pares interconectados
e não justaposições, ainda apresentam ausência de exclusividade em cada período. O
período atual é marcado pelo internacionalismo/globalismo (com o predomínio da so-
ciedade de mercado) e pelo realismo (o interesse nacional acima de tudo). Entretanto,
por causa das pressões conservadoras internas, delineia-se uma força isolacionista
que, até pouco tempo, era pouco percebida.
A esse respeito, em Rua (2001, p. 33) afirmamos que recentemente vem sendo admi-
tida uma outra concepção chamada de liberal-internacionalista ou globalista. Trata-se
de uma concepção de que o mercado mundial substitui a ação política numa pers-
pectiva neoliberal que reduz a multidimensionalidade da globalização a uma única,
a econômico-financeira, subordinando as demais dimensões. O idealismo e o multi-
lateralismo posteriores ao fim da Guerra Fria transformaram-se, após os ataques ter-
roristas de 11 de setembro de 2001, em realismo, unilateralismo e intervencionismo,
reforçados, internamente, pela ação de tais grupos conservadores e fundamentalistas
que, além de acentuarem as polarizações internas, ainda interferem nas ações inter-
nacionais, forçando um maior isolacionismo.
3. O interno e o externo estão sempre interligados nas intencionalidades das ações nor-
te-americanas. A ênfase em uma perspectiva analítica não exclui as demais. Ao dar
mais importância à dimensão interna, não se descuida da proteção aos interesses de
empresas ou do governo. É dessa proteção que advém grande parte dos recursos que
alimentam os investimentos internos. Outro aspecto fundamental dessa relação inter-
no-externo é a capacidade que os Estados Unidos apresentam para internacionalizar
suas crises econômicas, fato que aconteceu em vários momentos do século XX e que
parece se manter neste início de século XXI. A capacidade referida alicerça-se na rela-
ção com os principais organismos políticos, financeiros e comerciais do mundo (FMI,
BM, BIRD, OMC, ONU), nos quais os Estados Unidos exercem forte influência, de manei-
ra que, por meio deles, expandem mercados de capitais, fortalecem suas empresas e

criamforma
Essa regrasdegerais queinterno-externo
relação afetam as transferências
é expressainternacionais de mais-valia.
por Agnew (2005, p. 72) quando
afirma que a globalização é o resultado da projeção geográfica da sociedade de mer-
cado (marketplace society) americana aliada aos avanços tecnológicos nas comunica-
ções e nos transportes. Seria, portanto, uma globalização “feita em casa”. Em outro
capítulo da mesma obra (2005, p. 189), destaca que a globalização “volta para casa”
e aponta os impasses vividos pelos Estados Unidos em sua relação com a economia
global e os efeitos negativos dessa relação. Isso será discutido na última parte do texto.
58 | Estados Unidos: ainda a potência dominante no século XXI?

4. Outro balizamento importante para se pensar o papel dos Estados Unidos no mundo
contemporâneo é buscado em Nye (2002, p. 41), onde se pode ler que, no século XXI, o
poder repousará numa combinação de recursos brutos e brandos e nas três dimensões
– a militar, a econômica e a do poder brando. O autor refere-se à metáfora do jogo de
xadrez tridimensional (2002, p. 80), em que, no tabuleiro superior, o poder militar é
predominantemente unipolar e exercido pelos Estados Unidos. Prossegue, escrevendo
que o tabuleiro do meio é multipolar, no qual o poder econômico é compartilhado com
a Europa, Japão e China. Aí, a negociação já é necessária, mesmo que influenciada pelo
tabuleiro superior. No tabuleiro de baixo, predominam as relações transnacionais que
transpõem as fronteiras e escapam ao controle governamental. O autor citado coloca
nesse nível os banqueiros, os terroristas e oshackers, como exemplo de dispersão de
poder. Chama a atenção, ainda, para a necessidade de se estar atento para os três ta-
buleiros e para as conexões verticais entre eles. Se isso é colocado como pressuposto
geral é porque, ao se observar as ações internacionais norte-americanas (por qualquer
um dos sujeitos hegemônicos em tais ações), percebe-se que é dada pouca atenção a
essas conexões.
Parece nítida a contribuição que a ciência geográfica pode dar a essa análise pelo
conceito de escala e pela noção de multiescalaridade (embora outros conceitos se-
jam fundamentais para auxiliar a compreensão de uma problemática tão complexa).
As empresas e o próprio governo norte-americano têm atuado multiescalarmente,
desconhecendo, muitas vezes, as escalas intermediárias, ao intervir diretamente nos
lugares de interesse, isto é, independentemente da aquiescência de Estados-nação
ou de governos regionais ou locais. Assim, impõem-se hegemonicamente ao usar as
múltiplas escalas em proveito próprio. As escalas da ação são muito mais complexas
do que aquelas expressas pelo jogo de xadrez utilizado metaforicamente por Nye.
5. Um pressuposto que também balizará este capítulo é a “marcha para oeste”, interna-
mente em seu território e rumo ao Oceano Pacífico, onde os Estados Unidos têm atua-
do como potência reforçadora da impor tância dessa área, na qual parece desenhar-se
o protagonismo da ação política e econômica (militar?) do século atual. Se o oceano
Atlântico foi o centro das atenções ao longo da maior parte do século XX, parece que no

séculoapresentado
será atual essas na
atenções
parte estarão voltadas,
final deste texto. sobretudo, para a área
Esses pressupostos do Pacífico, como
e balizamentos vão
constituir a base argumentativa da discussão travada neste capítulo.

Será Theodore Roosevelt quem fará os Estados Unidos entrarem como ator protagonista
na cena internacional. Quando chegou ao poder em 1901, esse país já era, economicamente,
um dos grandes. Sua produção industrial já representava entre 20% e 25% da produção mun-
dial e o país atuava como mediador em numerosos conflitos internacionais. Para Roosevelt,
as relações internacionais eram relações de força. Era necessáriospeak softly and carry a big
João Rua | 59

stick – falar manso, mas carregar um grande porrete. Acreditava-se que a missão internacional
dos Estados Unidos era, a partir de sua posição geográfica de ilha-continente, desempenhar
o papel de equilíbrio de forças que a Grã-Bretanha havia desempenhado ao longo do sécu-
lo XIX. A potência industrial que se apresentava ao mundo exigia a fusão da economia com
a política. Desenvolveria, para isso, um poder brando e um poder bruto (o que parece ser a
marca da atuação internacional do país). Para Nye (2002, p. 36), o “poder bruto (o político e
o econômico) é apoiado tanto em induções (a cenoura) como em ameaças (o porrete)”. Já o
poder brando, para o mesmo autor, é “levar os outros a querer o que você quer”. Esse poder
coopta as pessoas em vez de coagi-las. Osoft power dos Estados Unidos é imenso, no sentido
do quão atraente é a cultura desse país, desde a maneira de vestir até produtos como o cinema
ou a música.
Essas duas formas de intervenção (poder brando e poder bruto) não se têm apresentado
como excludentes, ao contrário, complementam-se, explicitadas como imperialismo e/ou he-
gemonia, que se alternam e se completam nas ações intervencionistas. Se a América Latina e
o Oriente Médio sentiram (e sentem) uma ação mais imperial, a Europa e o Extremo Oriente
sentiram (e sentem) uma ação hegemônica de convencimento e cooptação (GARCIA, 2010, p.
169). Embora coexistentes, essas duas formas podem ter ênfases diferentes de acordo com o
partido no poder e as relações do governo com o Congresso, mas significam que os Estados
Unidos têm, há muito tempo, a capacidade de definir a pauta e determinar o arcabouço dos
debates, mesmo fazendo algumas concessões. Pode-se dizer que o poder internacional do país
tem se reduzido após o 11 de setembro, ao se voltar mais para os problemas internos e para
a segurança. Mas não se percebem rivais que possam com ele competir em nenhuma das di-
mensões até agora enunciadas. Assim, participa-se do debate entre defensores de que a ação
dominadora dos Estados Unidos dá-se sob a forma de imperialismo (ou novo imperialismo) e
aqueles que a veem como exercício de hegemonia. Aqui se defende a ideia de que a hegemo-
nia, permanente nas ações de domínio americanas, com seduções e cooptações, pode utilizar
a coerção e se revestir de ações do tipo imperiais, mais explicitamente intervencionistas. Essa
será a perspectiva defendida neste texto e a ela se voltará mais à frente.
A abordagem de Agnew (2005), ao criticar os que defendem a ideia de que os Estados
Unidos constituem um império, procura demonstrar que o domínio americano é exercido de

euma maneiraque
persuasão hegemônica muito particular,
não é sustentada na qual
ou dominada ocorre
pelo umaPara
Estado. forma de autor,
esse dominação social
a hegemonia
americana deve ser analisada numa perspectiva histórica, na qual a cultura do mercado foi
desenvolvida e difundida pelo mundo (from marketplace society to globalization), com incen-
tivos do governo (2005:73), ao longo do século XX. Tal hegemonia está enraizada na habili-
dade de reproduzir as práticas de consumo e a cultura americana através do mundo (AGNEW,
2005, p. 2). O autor prossegue afirmando que a sociedade de mercado é um conjunto de ideias
e práticas sociais baseadas no consumo de massa, comodificação, privatização, populismo
e na retórica das oportunidades iguais. Esses processos seriam a base da globalização que
60 | Estados Unidos: ainda a potência dominante no século XXI?

Agnew coloca como invenção americana e da qual o país estaria sofrendo os efeitos negativos
(AGNEW, 2005, p. 189). A posição de Agnew dá sustentação às argumentações utilizadas neste
texto a respeito da presença hegemônica dos Estados Unidos no mundo, mesmo em momen-
tos em que o unilateralismo e o intervencionismo são mais explicitados e que caracterizariam
uma ação imperial.
Defende-se a posição de que a constância da ação hegemônica não prescinde da coerção,
característica clássica do imperialismo. Assim, na fundamentação deste capítulo, a hegemo-
nia, tal como vista por Arrighi (1996), profundamente enraizado em Gramsci, soma-se à ob-
servada por Agnew (em que Estado e sociedade civil/empresas atuam distintamente, mas
com apoio daquele a estas) e às teses sobre o imperialismo (mesmo mudando de roupagem
– um novo imperialismo) na visão de Har vey (2004b). O novo imperialismo parece basear-se
na universalização do capitalismo e não apenas na expansão para áreas pré- capitalistas, como
viam os clássicos. O que se demonstra é que houve momentos de nítida ação imperial, embora
sem abrir mão das tessituras inerentes a uma ação hegemônica (predominante no tempo)
marcada pelo convencimento e cooptação. Essa argumentação é reforçada por Garcia (2010,
p. 172), ao escrever que:

Em alguns casos, a ênfase nos meios de dominação econômica e militar leva à caracterização
da ordem mundial como imperialista. Em outros, a ênfase nas instituições soft power e conces-
sões a poderes menores leva à caracterização da ordem como hegemônica, que também pode
ser vista a partir da perspectiva gramsciana de universalização de regras, normas e valores
particulares.

Para avaliar a condição hegemônica dos Estados Unidos, é preciso uma abordagem de sua
posição relativa nos setores essenciais de reprodução global, como afirma Ceceña (2004, p.
114). Essa reprodução estaria muito mais ligada à produção de instrumentos de dominação
militares e culturais do que, propriamente, à produção de mercadorias. A autora destaca a
importância da tecnologia como elemento de hegemonia, exemplificando com o domínio da
internet, na qual as empresas norte-americanas fornecem os padrões tecnológicos dos seg-
mentos estratégicos (computadores pessoais, supercomputadores, microcomputadores, os

sistemas
cas de exploração,
e os serviços as dorsais
de internet. e os pontos
As decisões dedos
estatais acesso à internet,
Estados Unidosasorientam
infraestruturas telefôni-
a evolução da
rede, a sua privatização, as modificações na regulação e a convergência entre a telefonia e os
órgãos de comunicação de massa, além dos criadores de conteúdo e os organismos normati-
vos da internet (CECEÑA, 2004, p. 116). Segundo a mesma autora (2004, p. 125), não se pode
esquecer a capacidade de criar imaginários e influir no cotidiano das pessoas ao redor do mun-
do, o que significa o domínio de uma indústria do entretenimento de dimensões planetárias.
Seguramente esta é uma das bases culturais e simbólicas da hegemonia norte-americana, ao
difundir o American Way of Life.
João Rua | 61

É preciso destacar a importância de um país que, desde fins do século XIX, vem influen-
ciando militarmente, politicamente, economicamente e culturalmente todos os continentes,
a ponto de transformar a vida das pessoas na quase totalidade do planeta e suas práticas
espaciais.
Em 1898, os Estados Unidos, tendo há pouco estabelecido sua continuidade territorial do
Atlântico ao Pacífico, dirigiram suas forças armadas contra a Espanha e obtiveram Porto Rico,
impuseram a independência de Cuba e conquistaram as Filipinas. Explicitou-se, desde então,
o projeto imperial/hegemônico norte-americano: dominar as Américas (já enunciado com
a Doutrina Monroe, um século antes) e ser protagonista nas relações internacionais, daí em
diante. Tudo isso impulsionou a expansão para a Ásia e para as Antilhas e marcou a política
americana de superar as potências europeias na busca por mercados. Enfim, pode-se dizer
que a influência americana, no século XIX, foi conseguida graças à obtenção de possessões,
protetorados e à intervenção militar em diversas áreas do mundo, que colocaram os Estados
Unidos na primeira linha das potências mundiais, mas também se pode afirmar que houve um
“exoterismo carregado de princípios expansionistas e convertido em pragmatismo, através de
aquisições e anexações realizadas pela União”, no dizer de Barbosa (1996, p. 30), justificado
pela ideia da superioridade americana diante dos outros povos e de uma predestinação para
esse exercício. Pode-se mesmo afirmar que os Estados Unidos colocaram-se como o centro da
ocidentalização do mundo (LATOUCHE, 1994), do capitalismo (ARRIGHI, 1994) e como capta-
dor de mão de obra, capitais e de espírito de iniciativa, enfim, de grande parte dos recursos
estocados na Europa pelo colonialismo.
A partir do final da Primeira Guerra Mundial, começou-se a falar de “modelo americano”,
que seduzia e seduz, principalmente, a partir das imagens mostradas por seus filmes. Os Estados
Unidos passaram a ser, por definição, o país da liberdade, da mistura cultural, da acolhida aos
perseguidos e aos imigrantes de todo o mundo. Ou, como escreve Harvey (2004b, p. 50):

Os Estados Unidos se apresentaram como o principal defensor da liberdade (entendida em


termos de livres mercados) e dos direitos à propriedade privada. O país proporcionava prote-
ção econômica e militar às classes proprietárias e às elites políticas/militares onde quer que
elas se encontrassem. Em troca, essas classes e elites se centravam tipicamente numa política

pró-americana em todo o país em que estivessem.


A Segunda Guerra Mundial representou um golpe fatal para as potências europeias e as-
sinalou o fim dos impérios coloniais, que se efetivou, quase totalmente, nos anos 1960-70. A
posição insular dos Estados Unidos, aberta para os dois oceanos mais impor tantes, contando
desde cedo com os recursos do continente americano, “anexado” pela Doutrina Monroe e seus
corolários posteriores, a possibilidade de atuar determinantemente no comércio mundial,
além de um território bem provido de recursos naturais, criaram condições de suficiência re-
lativa difíceis de igualar.
62 | Estados Unidos: ainda a potência dominante no século XXI?

Voltando a Ceceña (2004, p. 123), podemos perceber que a capacidade de dispor e contro-
lar a maior quantidade de recursos naturais estratégicos é, junto com a superioridade tecnoló-
gica, a condição de materialidade da hegemonia.
Inúmeros têm sido os aspectos que favoreceram o projeto norte-americano de tornar-se
uma potência mundial. Alguns são fruto de ações deliberadas de organização da produção
econômica e de expansionismo político/ideológico, outros ocorreram por acaso e são resul-
tantes da prodigalidade da natureza e da paisagem que, aqui, mais do que em outros lugares,
funcionou como “matriz” (BERQUE, p.1983), já que participou da cultura, da montagem de
uma nova relação sociedade/natureza, em que esta se transformou numa série de signos para
a sociedade e se tornou fator importante para a construção da imagem de potência mundial.

Recursos naturais de um vasto e rico território

Os Estados Unidos constituem o quarto país do mundo em extensão territorial, logo após
a Rússia, o Canadá e a China. São 9.327.614 Km , incluindo o Alasca, Porto Rico e o Havaí,
localizados fora do espaço-base para a expansão estadunidense, objeto deste trabalho.
Ceceña (2004, p. 122) lembra que:

Os Estados Unidos são um território bem provido em termos de riquezas naturais. Isto foi um
dos elementos importantes para transformá-los na potência produtiva que são hoje [...]. No
entanto, gerar a terça parte da riqueza mundial supõe dimensões de consumo de recursos que
não guardam proporção com suas (imensas) reservas locais. Sua condição depotência exige uma
expansão que garanta uma provisão segura de recursos essenciais e, para não descuidar da con-
corrência, que coloque o resto do mundo numa situaçãocorrespondente de insuficiência.

A relação interno-externo fica bem evidente quando se relaciona a ação de empresas nor-
te-americanas fora dos Estados Unidos, influenciando na produção agrícola ( alterando siste-
mas produtivos tradicionais, adquirindo grandes extensões de terra, aquíferos, disseminando
técnicas não adequadas aos ecossistemas nos quais são implantadas, comprometendo a bio-
diversidade ao impor espécies transgênicas, provocando, com algumas ações, diversas for-

mas de Um
Latina. escassez
mapaalimentar) e buscando
dos principais recursosminerais estratégicos
estratégicos do mundona eÁsia,
das na África militares
posições e na América
dos
Estados Unidos evidencia essa situação (CECEÑA, 2004, p. 136-137) e aponta para os interesses
na Ásia Central, Oriente Médio, Américas Central e do Sul e África. A hegemonia e o imperialis-
mo norte-americanos mais uma vez se explicitam.
Internamente também tem sido assim. Não se trata somente de uma natureza-recurso a ser
transformada em riqueza. Também não é somente uma natureza mercantili zada pelas atividades
turísticas. Trata-se de modelo único e irreprodutível em qualquer outro lugar do mundo, como
escreve Porto-Gonçalves (2006, p. 55) ao se referir aos Estados Unidos. Para esse autor:
João Rua | 63

O chamado consumo produtivo, ou seja, o consumo de recursos naturais feito na própria pro-
dução agrícola e industrial – solos, águas e outros minerais – acusa uma altíssima demanda
historicamente satisfeita por uma natureza pródiga em condições singularíssimas. Minérios
de alto teor, assim como solos amplos, férteis e planos podiam ser obtidos numa área geográ-
fica contígua e, assim, proporcionar ganhos diferenciais [...].

Mas como se apresenta essa natureza tão generosa em termos de fertilidade, fartura e
boa localização? Que natureza pródiga é essa e como tem atuado como elemento ativo na
construção da potência americana?
A disposição meridiana dos principais elementos do quadro natural favoreceu uma divi-
são do território em três regiões: o Leste, o Centro e o Oeste, que tiveram suas especificida-
des acentuadas pelo processo de colonização. O Sul, mais quente e úmido, desenvolveu um
processo de povoamento bastante srcinal, quando comparado com as demais regiões; além
de demonstrar a negação da liberdade e da possibilidade de acesso à terra, é, também, a área
de racismo mais arraigado e das cicatrizes da maior manifestação bélica no interior do terri-
tório americano. Contrastando, sobretudo com o Sul, mas também com o Nordeste, aparece o
Oeste que, no dizer de Barbosa (1996, p. 32), “deixou de ser um ponto cardeal para transfor-
mar-se em direção sócio-histórica”. O Oeste era a planície de grandes extensões, a montanha
difícil de transpor e o deserto inóspito. Um ambiente geográfico novo, lugar próprio da reali-
zação de um novo modo de vida.
Fala-se muito da fortuna americana em termos de natureza, mas é bom sempre recordar
que a colonização foi, muitas vezes, um processo doloroso. Os colonos não tinham informações
sobre o território para onde se dirigiam e só conseguiram sobreviver na base das tentativas
e da experiência dos que os haviam antecedido. Nem com os indígenas puderam aprender,
já que estes, quase sempre, por serem considerados inimigos perigosos, foram sistematica-
mente exterminados. A conquista da natureza (e a sua subjugação) em nenhuma parte foi
tão veloz, tão brutal ou tão ruidosa quanto na frente pioneira americana em rápido avanço. O
interior é a antítese da civilização e a morada do selvagem e, assim, a natureza e o selvagem
eram uma coisa só. Eles eram obstáculos a ser vencidos na marcha do progresso e da civiliza-
ção, dentro de uma perspectiva que percebia, cada vez mais, a natureza apenas como recurso

a serEssa
transformado
concepção em riqueza, no
de natureza de processo de crescimento
uso infinito tem marcadoeconômico.
a sociedade americana e, ainda
hoje, há sérios problemas decorrentes dessa perspectiva. A acelerada expansão da agricultura
e da pecuária para oeste, em moldes de monocultura especulativa e de cada vez mais inten-
so pisoteio, em ecossistemas tão frágeis como os do semiárido e do deserto, têm levado à
aceleração da erosão dos solos e à salinização de grandes extensões. Há pelo menos 40 anos,
desenvolvem-se políticas de restauração, com efetivo sucesso mas de altíssimo custeio. Os
problemas de poluição das águas dos rios e, principalmente, dos Grandes Lagos, as emissões
de monóxido de carbono (20% das emissões de todo o mundo ocorrem nos Estados Unidos)
64 | Estados Unidos: ainda a potência dominante no século XXI?

e a descarga de resíduos industriais, entre outros problemas ambientais, atraem a atenção do


Estado e de ativistas vigilantes, num dos movimentos mais combativos do mundo.
A grandeza físico-continental dos Estados Unidos é marcada pelas suas paisagens na-
turais. Para Barbosa (1996, p. 29), elas são “[...] grandeza e policromia transformadas pela
mass-media em paisagens/espetáculo que povoam nosso imaginário e configuram, como
senso comum, a impressão permanente do gigantismo dos Estados Unidos”.
Desse modo, a ideia do Oeste selvagem que precisava ser conquistado e domado funcio-
nou como um dos signos mais importantes da história americana. As aspirações territoriais
têm se somado às aspirações de liberdade, tanto para as populações oprimidas dos outros
continentes, quanto para os oprimidos no próprio país. As planícies, as montanhas e os de-
sertos, divulgados pelo cinema, acabaram por se tornar marcas da liberdade e da amplidão
que dominam a sociedade americana. Assim, entendida não apenas como recurso, muitas
vezes guardado como reserva para uso futuro, a geografia física americana tem funcionado,
também, como mensagem ideológica para projetar a potência americana.
O cidadão comum participa desse ideário. Para ele, o Go to West da história americana é
facilmente percebido comoWestmoreland (mais terra a oeste, em tradução literal), mesmo
que esse West esteja na Ásia ou em outras partes do mundo. Pode-se desconhecer onde é o
Vietnã ou o Afeganistão, mas a ideia da conquista de outras terras, que precisam viver a mes-
ma liberdade, está fortemente inculcada. Para Baudrillard (1986, p. 66):

A convicção idílica dos americanos de que são o centro do mundo, a potência suprema e o mo-
delo absoluto não é falsa. E baseia -se menos nos recursos, nas técnicas e nas armas do que no
pressuposto milagroso de uma utopia encarnada, de uma sociedade que se instituiu a partir
da ideia de que é a realização de tudo aquilo com que as outras sociedades têm sonhado. Ela
(a sociedade) sabe- o, crê nisso e, finalmente, os outros também creem.

Esse mundo ideal, para o mesmo autor, tem sido consagrado pelo cinema.
A geografia física americana, mais do que a de outros países, ganha dimensões que ultra-
passam os fenômenos geológicos e climato-botânicos (embora estes dados sejam importan-
tes em si mesmos) e funciona, também, como base para todo um jogo que demonstra que

a grandezauma
(também) físico-continental dos Estados
realização humana. Isso ficaUnidos não é (apenas)
claro quando se analisauma construção
o moviment o denatural.
expansãoÉ
para oeste, como símbolo do preenchimento do território americano pela lógica capitalista.

Povoamento acelerado: migrações, força de


trabalho, expansão do espaço produtivo

Um outro fator para o desenvolvimento e projeção da potência América tem sido o volume
de força de trabalho, fornecido pelas sucessivas ondas de imigrantes e a sagacidade dessa
força de trabalho disponível. A expansão do povoamento demandou trabalho duro; a ética
João Rua | 65

religiosa protestante deu suporte a essa demanda, mesmo que impregnada pela intolerância
e pelo racismo.
O povoamento inicial da costa leste do que hoje constitui os Estados Unidos ocorreu dentro
de um contexto em que predominaram as características básicas da emergente época moder-
na, quer dizer, a importância crescente da autonomia individual e a convicção, cada vez mais
profunda, de que seres humanos poderiam obter a salvação, a riqueza e a felicidade, graças ao
esforço individual. O individualismo, base para o liberalismo, com seus corolários econômico
(o capitalismo do laissez-faire) e político (democracia majoritária, com alguma proteção para
os direitos das minorias), constituiu a base sobre a qual se assentou a sociedade norte-ameri-
cana, pelo menos no que se refere à maioria dos homens brancos.
No Mapa 2, a seguir, pode ser percebida a sucessiva aquisição de terras a oeste, que servi-
riam de base para o intenso processo de colonização.

CANADÁ

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TRÓPI MÉXICO
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CÂNC
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ALASCA

EUA
0 345 690km

Limites atuais dos Território comprado Anexado em 1845 Território comprado


da França – 1803 do México – 1853
estados
As antigas 13 Território cedido pela Território cedido pela Alasca, comprado da
Inglaterra – 1818 Inglaterra – 1846 Rússia – 1867
colônias
Território obtido da Flórida, comprada da Território comprado
Inglaterra – 1783 Espanha – 1819 do México – 1848

Mapa 2 – Formação do território dos Estados Unidos


66 | Estados Unidos: ainda a potência dominante no século XXI?

Na medida em que o processo de colonização se expandia, o colono participava de um


compromisso ideológico a que Francis Sullivan denominou, em 1845, de Destino Manifesto,1
que representava um desejo, compartilhado pelos colonos, de estender a sua comunidade até
o Pacífico (NARO,1987, p. 6). Enquanto os norte-americanos avançavam sobre o remoto oeste,
pressupostos românticos intensificavam-lhes a fé sobre a superioridade e o destino glorioso de
suas instituições livres, as quais teriam a missão de espalhar-se por todos os vastos territórios a
oeste do Mississipi. A ideologia do Destino Manifesto alimentou seu próprio gênero particular
de racismo expansionista e idealismo internacional (HARVEY, 2004b, p. 47). Na esperança de
que os diversos acordos feitos entre os partidos políticos tivessem contornado as controvér-
sias a respeito da escravidão (o Sul tinha toda uma justificativa ideológica para mantê-la),
orientaram-se todas as energias da nação para o fortalecimento da livre empresa com enorme
impulso à revolução industrial.
Outro elemento de suma importância foi o salto dado pela imigração, contando, agora,
com vultoso contingente srcinário da Alemanha e da Irlanda. O total de imigrantes em 1850
era de 400 mil por ano, e forneciam a base de mão de obra para as fábricas do leste, para a
construção de ferrovias e de canais e para as novas zonas rurais do sul dos Grandes Lagos.
No ritmo do crescimento industrial e da imigração, processou-se, também, um enorme
crescimento urbano. Em 1820, apenas 6% dos norte-americanos viviam em cidades (locais
com 2.500 habitantes ou mais). Em 1860, alcançaram-se os 20% e Nova York atingia a cifra
de um milhão de habitantes. Às vésperas da Guerra Civil, os Estados Unidos perdiam apenas
para a Inglaterra em termos de produção industrial (SELLERS; MAY; MCMILLEN, 1985, p. 179).
Esse acentuado crescimento econômico e a expansão territorial geraram um recrudesci-
mento do conflito regional, que só foi resolvido com a guerra civil entre o Norte e o Sul. Apesar
(ou por causa) da guerra, a indústria não parou de crescer, já que recebeu um grande apoio do
governo central. Embora a industrialização viesse de antes da Guerra da Secessão, esse mo-
mento foi decisivo para a vida econômica norte-americana, já que foi aí e nos anos seguintes
que se forjaram os grandes impérios ferroviário, industrial e bancário. Andrew Carnegie (aço),
J. P. Morgan (finanças), John D. Rockfeller (petróleo e finanças), Gustavus F. Swift e Philip D.
Armour (alimentos), Cornelius Vanderbilt e Huntington (ferrovias), Guggenheim (cobre), e as
espantosas riquezas e poder que reuniram, pertencem ao meio século que se seguiu a 1860.
2

Sãobancos
os chamados de Robber Barons
de investimentos e os (AGNEW,
negócios,2005, p. 86)uma
marcando e demonstram
nova fase daa estreita
economia relação entre
americana,
agora baseada em grandes empresas capitalistas que atuavam domesticamente, em acirra-
da competição, e começaram a expandir-se internacionalmente. Algumas empresas surgidas
nessa época incluem a General Electric, Eastman Kodak, International Harvester e U.S. Steel.
1
Esse jornalista proclamava o direito divino do povo americano de subjugar o continente e espalhar suas instituições benevolentes sobre ele.
2
Essa expressão é pejorativa e refere-se aos “barões usurpadores”, industriais e finan cistas que fizeram suas fo rtunas em verdadeiras guer-
ras interempresas, num “vale-tudo” que marcou o período referido. Há um livro clássico, de 1934 (1ª edição), de Mathew Josephson, cha-
mado The Robber Barons: the great American capitalists, 1861-1901, que trata criticamente da ascensão desses “barões” e que consagrou
o nome usado por Agnew.
João Rua | 67

Nesse período, intensificou-se, de um lado, a imigração, agora em nova fase, e, de outro, com-
pletou-se a ocupação do território.

A nova fase da imigração

Depois de terminada a Guerra Civil, acelerou-se de forma extraordinária o desenvolvimen-


to industrial e urbano do Norte e dos Grandes Lagos, fazendo com que suas cidades passassem
a absorver a maior parte dos imigrantes. O Sul, derrotado, além de sofrer um enorme esvazia-
mento econômico, sofria, também, acentuadas perdas demográficas, criando-se, desde então,
intensos fluxos de migrações internas, tanto de negros como de brancos, que só diminuíram
de intensidade em direção ao Norte-Nordeste, ou mudaram de direção, nas últimas décadas.
O Oeste e o Sul foram transformados em periferias de recursos para o Nordeste industrial,
provendo alimentos e matérias-primas para as fábricas.
A partir de 1890, recorreu-se a novos centros fornecedores de população. Não há tanta
disponibilidade de alemães e irlandeses, agora retidos em seus países de srcem graças às
melhorias das condições socioeconômicas. Os países nórdicos entraram na era industrial e,
assim, foram deixando de alimentar as migrações para os Estados Unidos. Começa a se deli-
near um novo fluxo de populações “menos puras” em termos étnicos, de acordo com a visão
dominante na época. Passaram a ingressar, em larga escala, no país, imigrantes provenientes
da Europa Central, Oriental e Meridional, sem conhecimento do inglês e professando outros
credos religiosos que não o protestantismo.
A presença desses novos imigrantes acirrou antigos antagonismos como o que se desen-
volvera contra os católicos irlandeses pouco antes de iniciar-se a Guerra Civil. Tais movimentos
vêm à tona episodicamente na sociedade norte-americana em momentos de xenofobia exa-
cerbada, como a histeria antigermânicos, durante a I Guerra Mundial; a atuação, mais aberta
ou mais oculta, da Ku Klux Klan, contra negros e católicos; o internamento de japoneses em
campos de concentração, durante a II Guerra Mundial, e os recentes conflitos étnico-raciais.
Os totais de imigrantes atingiram proporções nunca vistas. O ápice migratório ocorreu
entre 1907 e 1914, sendo recorde em 1907 com quase um milhão de imigrantes. Na última
década do século XIX, cerca de 80% dos imigrantes europeus provinha da Europa Centro-

Ocidental. Em 1910,
Centro-Ocidental e amais
outrademetade
91% dos da imigrantes procediam
Europa Meridional da Europa3%(metade
e Oriental), da Ásiadae apenas
Europa
2,1% da América Latina. Em 2009, 3
os imigrante s de srcem latino-americana já representa-
vam 54,1%, os de srcem asiática eram 27% e os de srcem europeia somente 12,4%, o que
demonstra radical mudança em um século de migração com relação à srcem dos imigrantes
legais. Tal mudança, como se verá, vai ser c rucial para a composição étnica da sociedade ame-
ricana, com seus rebatimentos culturais e políticos.

3
De acordo com o Bureau of Census para 1910 e com o Current Population Survey para 2009.
68 | Estados Unidos: ainda a potência dominante no século XXI?

No final do século XIX, começou um movimento para fechar as por tas do país às migrações.
Eram ianques puritanos, racistas do Sul, dirigentes sindicais que durante três décadas mar-
telaram seus argumentos baseados na superioridade anglo-saxônica. Foi em Boston, centro
da tradicional burguesia branca, anglo-saxã e protestante, ao mesmo tempo instruída e rica,
que foi fundada a Liga de Restrição à Imigração, em 1893 (HOBSBAWM, 1988, p. 218). Para
esse autor, chegou-se a inventar, na época, um mito heroico e nativista, o caubói anglo-saxão
branco dos amplos espaços, que contrastava com os estrangeiros pobres, reforço permanente
do proletariado urbano (1988, p. 217).
Tratava-se de uma mistura de antissemitismo, anticatolicismo, nativismo e xenofobia re-
forçada pelos interesses do trabalho organizado, sempre menos hospitaleiro do que a gerência
das empresas à corrente aparentemente inesgotável de recém-chegados, famintos de empre-
go (SELLERS; MAY; MCMILLEN, 1985, p. 252). Chegando frequentemente na mais absoluta po-
breza, sem falar inglês, desorientados pela brusca transição de suas aldeias para o meio hostil
dos cortiços das cidades, esses imigrantes davam a impressão de resistir à americanização. Em
muitas cidades, organizaram suas próprias comunidades e sociedades culturais, conservaram
suas línguas nativas, costumes religiosos e jornais. Para muitos norte-americanos, de classe
média, certos bairros de Nova York, Chicago e San Francisco eram tão estrangeiros quanto
Nápoles, Varsóvia e Xangai.4
Por essa classificação definia-se uma elite – os WASP White ( Anglo-Saxon Protestants),
que deram ao Estado as estruturas jurídicas, as bases linguísticas, sociais e culturais. Estas têm
regido e dirigido a jovem sociedade americana. Foi nessa época (início do século XX) que se
criou o mito do Melting Pot que capturou a imaginação do público antes da I Guerra Mundial.
Exagerava-se a homogeneização da sociedade quando se demonstrava como os imigrantes
assumiam os valores da matriz tradicional da sociedade norte-americana, quer dizer, os valo-
res “superiores” da srcem anglo-saxônica. Ridicularizavam-se os costumes dos outros povos e
sugeria-se a troca pelos costumes do novo país.
O período que vai de 1930 até o final da Segunda Guerra Mundial é marcado apenas pela
importância da imigração mexicana, que, mesmo assim, sofreu grandes variações: entradas
maciças antes de 1929; repatriamento forçado entre 1930 e 1935; reabertura das portas, por
intermédio do programabracero, de 1942, dentro do quadro de esforço de guerra norte-ame-

ricano (SIMON, 1995,


É importante p. 230).a permanência do caráter ambíguo da população e do gover-
destacar
no americano com relação aos imigrantes. Necessários e rejeitados, alvo de organizações e
manifestações racistas, os imigrantes procuram, cada vez mais, o retorno à política de portas
abertas de cem anos atrás, simbolizada na Estátua da Liberdade. Isso parece fora dos planos
do governo, que tenta, por meio de leis sucessivas (a mais recente, ainda em tramitação no
4
Luedtke (1985, p. 78) explica essa situação da seguinte maneira: “A sabedoria convencional da época, influenciada pelas teorias da evo-
lução, sancionou a classificação da humanidade em raças segundo suas aptidões. Em consequência, os estudiosos dispuseram os grupos
ancestrais da América em ordem hierárquica, colocando os anglo-saxões e seus primos nórdicos no topo, e os europeus do sul, do leste, os
orientais e os negros na base”.
João Rua | 69

Congresso), o controle regulamentado desse movimento que, em termos de população, é o de


maior envergadura no globo, já que os Estados Unidos recebem mais imigrantes do que todos
os outros países juntos. Toda essa ambiguidade com relação à imigração foi reforçada após o
11 de setembro de 2001, com mais intensa repressão aos clandestinos, com maior vigilância
nas fronteiras e outros locais de entrada e com xenofobia mais acirrada. Entretanto, nem isso
arrefeceu o ímpeto imigratório. De um total de 38.517.000 imigrantes legais,
5
atualmente re-
sidentes nos Estados Unidos, 8.041.000 entraram antes de 1980. Entre 1980 e 1989, esse total
caiu para 7.577.000, pulando para 10.736.000 entre 1990 e 1999 e alcançando 12.163.000
entre 2000 e 2009. Percebe-se, portanto, que as medidas restritivas pós-11 de setembro de
2001 não sur tiram efeito como meios de frear a imigração. Se forem somados os presumíveis
dez milhões de clandestinos,6 chega-se à impressionante cifra de quase 50 milhões de imi-
grantes vivendo no país.
No que diz respeito às migrações mexicanas, após 40 anos de crescimento contínuo, que
tornou o país o maior fornecedor de imigrantes para os Estados Unidos, informações divulga-
das em abril de 2011 pelo Pew Hispanic Center chamam a atenção para a queda da migração
do México para os Estados Unidos, chegando os números de imigrantes e emigrantes retorna-
dos a se equivalerem, quando analisado o período 2005-2010. O mesmo Centro atribui essa
queda aos seguintes fatores: a difícil situação do mercado de trabalho americano, a crise da
construção civil, o reforço da fiscalização na fronteira, o aumento das deportações, o aumento
dos perigos na travessia da fronteira associados ao tráfico ilegal de pessoas e drogas, o declínio
das taxas de fecundidade no México e a melhoria da “saúde” econômica desse país.
Como resultado desse processo migratório, oUS Census Bureau apresentava, em 2010,
o seguinte quadro étnico para a população americana: dos 308.745.538 habitantes, 72,4%
eram brancos; 12,6% negros; 4,8% asiáticos; 0,9% eram indígenas, incluindo os esquimós e
aleutas. A população de srcem hispânica (brancos, negros ou mestiços) constituía 16,3%. É
interessante observar a evolução desses dados, de acordo com a mesma fonte: em 1994, 9,9%
eram de srcem hispânica (6,4% em 1980); 3,5% eram de srcem asiática (1,5% em 1980);
12,5% eram negros (11,7% em 1980); 0,8% eram de srcem indígena (incluindo os aleutas
e os esquimós); 74,1% eram brancos não hispânicos (83% em 1980). Mais de 55 milhões de
pessoas falam em casa outras línguas que não o inglês. O espanhol já é falado por mais de 34

milhões1992,
desde de pessoas (AMERICAN
tornou-se, COMUNITY
oficialmente SURVEY
, bilíngue. , 2006-2008)
Se obser varmos aeimportância
a municipalidade de Miami,
do espanhol no
Sudoeste, no litoral do Pacífico e em estados do Leste e do Sudeste, além do espantoso cresci-
mento das línguas asiáticas, podemos entender algumas iniciativas como a de tornar o inglês
a língua oficial do país e a obrigatoriedade de se estudar essa língua em todas as escolas. Como
se verá a seguir, esse quadro representa significativas alterações na política, no mercado de
trabalho e em outras dimensões da sociedade americana.
5
De acordo com o US Census Bureau, outubro de 2009.
6
Fox News 21/12/2010.
70 | Estados Unidos: ainda a potência dominante no século XXI?

Dilemas, paradoxos e polaridades da sociedade americana: rumo a uma


reestruturação espacial

Ao se estudar um país como os Estados Unidos, percebe-se quão complexo se torna com-
preender as múltiplas realidades que se apresentam. Desde a fundação da nação, grandes di-
lemas marcam a sociedade americana: federalismo ou localismo, agrarismo ou industrialismo,
utopismo humanitário ou pragmatismo, liberalismo ou intervenção do Estado, homogeneiza-
ção cultural ou multiculturalismo, isolacionismo ou internacionalismo etc. Na verdade, esses e
outros dilemas, que não são exclusivos da sociedade americana, têm tido uma leitura própria
que tem provocado seguidos paradoxos e intensas polaridades diante dos quais a “gangorra
política“ tem se apresentado quase sempre oscilante, como bem ilustram a forma como têm
sido percebidas a política migratória, a atuação como potência planetária e a liberdade e o
igualitarismo.
Contudo, a liberdade e o igualitarismo não são vivenciados da mesma maneira por todos.
Há crescentes desigualdades e conflitos que apontam para processos, cada vez mais comple-
xos, da sociedade americana atual. Após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001,
as liberdades, das quais tanto se orgulham os americanos, ficaram bastante comprometidas,
principalmente para os estrangeiros. Em nome da segurança, os Estados Unidos restringem
as liberdades civis diminuindo as garantias contra a transgressão dos direitos fundamentais.
Em 26 de outubro de 2001, o Congresso americano adotou uma lei, oportunamente
batizada como P.A.T.R.I.O.T Act(Provide Appropriate Tools Required to Intercept and Obstruct
Terrorism), num jogo de palavras ( patriot/patriota) que tem se mostrado muito perigoso, na
aplicação a que a lei tem sido submetida, autorizando a deportação, a detenção e prisão in-
comunicável de cidadãos considerados suspeitos. Essa lei elimina a autorização, por parte do
Judiciário, para proceder às buscas, instalar grampos telefônicos, violar a correspondência e as
comunicações pela internet. Em complemento a essa lei, em janeiro de 2004 entrou em vigor
o US Visit, com diversos constrangimentos aos visitantes do país.
Mais uma vez, o interno e o externo estão conectados. O multilateralismo, praticado pelos
Estados Unidos após a Segunda Grande Guerra, cedeu lugar a um unilateralismo agressivo, que
só episodicamente havia sido posto em prática. As leis restritivas após o 11 de setembro auto-

rizaram
um a Guerra
alto preço, Seminternamente
tanto Fim ao Terrorcomo
(AGNEW, 2005, p. 19)já que,
externamente, segundo ooautor,
que colocaram tem cobrado
país isolado diante
de muitos de seus aliados e impuseram princípios contra os quais os americanos se rebelaram
desde a Declaração da Independência. Esse quadro de dilemas e paradoxos vai se acentuar
com os contrastes econômicos e c ulturais que polarizam a atual sociedade americana.
João Rua | 71

Os contrastes socioeconômicos e culturais

A distribuição de renda torna-se, cada vez mais, contrastante. Em 2010, os 20% mais ricos
detinham 80% da renda nacional, enquanto os 15% mais pobres detinham apenas 3,4%. 7
De acordo com o US Census Bureau havia, nos Estados Unidos, em 1989, 31,5 milhões de po-
bres (famílias de quatro pessoas com renda anual inferior a 14.763 dólares), ou seja 12,8% da
população. Em 1992, eram 36,9 milhões, ou seja, 14,5% da população. Em 2010, de acordo
com a mesma fonte, 46,2 milhões de americanos viviam abaixo da linha da pobreza, ou seja,
15,1% da população dos Estados Unidos. São os números mais elevados desde que se aplica
esse indicador (1959). Os negros e os hispânicos são os mais atingidos pela pobreza: 27,4%
dos negros e 26,6% dos hispânicos vivem na pobreza, contra 9,9% entre os brancos. A renda
média por família branca era, em 2002,8 8.650 dólares. Esse montante era de 7.900 dólares
entre as famílias hispânicas e de apenas 5.900 entre as famílias negras. Há pesquisas que in-
dicam que a renda de uma família hispânica seria 30% superior não fossem as remessas para
os países de srcem. 9
Ao se observar as taxas de desemprego, em 2010 (US CENSUS BUREAU), também as desi-
gualdades estão patentes: para 8,5% de brancos desempregados (eram 6% em 1991) havia
16,1% de negros (eram 12,5% em 1991); entre os hispânicos, os percentuais eram, respecti-
vamente, de 12,5% e 9,6%. Esses dados demonstram como as clivagens étnicas se manifes-
tam no mercado de trabalho. Embora as desigualdades econômicas não sejam tão marcantes
quanto no Brasil, por exemplo, elas já preocupam na medida em que se somam às tradicionais
polaridades étnico-culturais que marcam a sociedade americana.
Todo esse quadro é balizado por nítidas alterações nas relações Estado/sociedade. A partir
dos anos 1980, assiste-se a um progressivo desmonte do que restava da política do New Deal
rooseveltiano e a uma volta aos princípios liberais em que a ordem moral puritana, a crença
na justiça imanente, e a busca da pureza cultural são ressuscitadas. Desde meados dos anos
1990, assiste-se a um nítido processo de crescente exclusão social (ou inclusão precária) que
atinge negros, imigrantes e, até mesmo, brancos, que vão engrossar as estatísticas da pobreza.
Nardon (2010, p. 89) aponta os esforços do presidente Obama para reverter, mesmo que
parcialmente, essa situação. As reformas propostas incluíram: baixa de impostos federais

para a classe
trutura média, aumento
educacional, hospitalar,dodeauxílio desemprego,
transportes aumentoNadosverdade,
e de energia. investimentos
o que senadesejava
infraes-
era diminuir os níveis de desemprego, como vimos, bastante elevados. As reformas das leis

7
Segundo a Associated Press de 28 de setembro de 2010.
8
Segundo o Centro Hispano Pew, publicado em La Nación, Buenos Aires, 6/11/2004.
9
Deve-se ressaltar, também, a grande heterogeneidade interna dos grupos étnicos e/ou culturais, pois existem nítidas diferenças sociais e
econômicas entre os hispânicos – os de srcem cubana têm uma renda familiar de quase 40 mil dólares ao ano, enquanto os de srcem
mexicana de 7.600 e os de srcem centro-americana e do Caribe de apenas 2.500 dólares. Todos esses dados são referentes a 2002,
segundo a mesma fonte.
72 | Estados Unidos: ainda a potência dominante no século XXI?

imigratórias10 em nível federal, mais uma vez, foram postergadas. Outra reforma importante,
de aprovação difícil e de âmbito modesto, foi a da regularização do funcionamento do sistema
de saúde, tentando corrigir os abusos das companhias de seguro privadas. A difícil situação
econômica e política do país torna problemática a aprovação de medidas mais interventivas.
Um aspecto que define as relações sociais e as qualificações espaciais é aquele que, aqui,
se denomina “justaposição cultural”. Na verdade, sabe-se que a miscigenação foi muito par-
cial, e a guetização, isto é, a segregação étnica, racial e espacial foi a regra. O que se verifica é
uma justaposição de culturas distintas em que persiste a etnicidade que, desde a década de
1960, passa a ser vista, por alguns intelectuais, como fator positivo para a sociedade america-
na, com base nas teorias do pluralismo cultural.
A “América” de hoje deixa de lado a ideia de miscigenação Melting( Pot) e, ao endossar
as teses do pluralismo cultural, invoca a imagem de uma “saladeira”, onde os componentes,
ainda que misturados, permanecem distintos, contribuindo para a variedade e diversidade da
vida americana. As culturas se misturaram, mas ainda assim mantiveram-se distintas.
É importante acentuar que esse multiculturalismo admite diversas leituras. De um lado,
pode romper com as teses da homogeneidade da sociedade americana e da superioridade
da influência anglo-saxônica. De outro, pode significar crescente radicalismo e até violência
na explicitação das diferenças, ao mesmo tempo que, por parte dos setores conservadores,
é percebida como um reforço da lógica do apartheid e da exclusão. Esse outro aspecto (vio-
lência na explicitação das diferenças) pode ser relacionado àquilo que pode ser denomina-
do de “guerras moleculares” no interior das metrópoles, em que perdedores lutam contra
perdedores e, no caso americano, corresponde às gangs dos guetos negros e hispânicos, já
vulgarizadas pelo cinema.
A violência está, ainda, represen tada naquilo que alguns c hamam de geografia do ódio
nos Estados Unidos. 11 Haveria 1.002 grupos de ódio no país, formados por racistas (bran-
cos, neonazistas, skinheads , negros separatistas e guardas de fronteira) que têm tido seu
crescimento alimentado pela ansiedade com relação ao mercado de trabalho, à imigração,

10
As dificuldades de aprovação de nova legislação em nível federal abre caminho para leis estaduais cada vez mais restritas, como aquelas já
postas em prática. Em 3/10/2011, a BBC Brasil noticiou que “nos últimos anos inúmeras leis estaduais contra os imigrantes foram postas
em prática”. Dá como exemplo os estados do Arizona, Alabama, Utah, Georgia, Carolina do Sul, com fortes reações jurídicas (inclusive
do governo federal) contra alguns pontos das leis. Isso mostra que a questão migratória constitui um tema candente para a sociedade
americana e que está sendo “resolvida”em nível estadual. É exatamente a falta de solução para o problema nacional da imigração ilegal o
argumento usado por muitos estados para implementarem suas próprias leis sobre o tema. A promessa de promover uma ampla reforma
nas leis de imigração do país, feita por Obama ainda durante a campanha de 2008, parece cada vez mais distante, adiada pela crise eco-
nômica e pela forte oposição dos republicanos. O descontentamento com o governo federal parece vir de ambos os lados, tanto daqueles
que cobram uma solução mais rápida para legalizar a situação dos imigrantes que já estão no país quanto dos que consideram a atuação
da Casa Branca muito branda e exigem maior rigor na fiscalização das fronteiras para impedir a entrada de novos ilegais. Em meio a esse
cenário e sem previsão de solução no curto prazo, muitos estados resolveram agir. “O sentimento anti-imigração vem crescendo no país.
Antes, tentavam convencer o Congresso a passar leis contra os imigrantes. Como fracassaram em nível nacional, mudaram o foco para os
estados”, diz o informativo.
11
Geografia do Ódio nos EUA, Richard Florida, Jornal The Atlantic, 11 de maio de 2010.
João Rua | 73

à diversidade étnica e racial, à eleição de Barack Obama e à longa crise econômica. 12 Os


grupos de ódio estariam associados à miséria, pobreza e frustação, portanto aos fatores
econômicos que dividem a população dos Estados Unidos por classe, ideologia, religião,
política e, ao voltar-se contra as minorias étnicas, sexuais e religiosas, reforçam a profunda
geografia de classes que marca o país.
Tais polarizações estão expressas em discursos de intelectuais influentes na política e na
opinião pública como, por exemplo, o de Huntington (2004), quando escreve que os imigran-
tes hispânicos ameaçam oamerican way of life.13 Huntington explica que, diferentemente dos
grupos imigrantes do passado, os mexicanos e os outros latinos não assimilam a cultura ame-
ricana, ao contrário, eles formam seus próprios enclaves políticos e linguísticos e desafiam os
valores angloprotestantes que construíram o sonho americano. Mas a guetização tem sido,
como já vimos, uma das formas de viver o multiculturalismo. Por se tratar de figura tão proe-
minente, as opiniões de Huntington ganham destaque na academia e na mídia, e, portanto,
influenciam na construção do imaginário social americano. Essa problemática apresenta uma
expressão espacial, como se verá a seguir.

A reestruturação espacial e as novas territorialidades

Também em escala local, essa justaposição de culturas, muitas vezes traduzida por desi-
gualdades sociais e violência, explicita-se em novos desenhos espaciais, com formas-conteú-
do particulares de cada época.
Muito se tem falado dos guetos nas cidades americanas, relacionados aos não brancos
(incluindo os hispânicos de qualquer srcem). Não se pode falar de minorias porque esses
não brancos (negros de diversas srcens, ameríndios, latino-americanos, asiáticos) consti-
tuem a maioria da população em muitas cidades. Em 2010,14 eram 75% em Nova York (não
brancos e hispânicos); em 2008, eram 55% em S ão Francisco e mais de 61% em Washington.
Geralmente, concentram-se na parte central das cidades, onde o processo de desvalorização
imobiliária vem acelerando e é acelerado pela saída da população de maior poder aquisitivo,
barateia os aluguéis e permitiu que aí se instalassem pessoas mais pobres como negros e imi-
grantes. A falta de investimentos públicos nesses setores urbanos levou a uma deterioração

física dos prédios e a uma maior desvalorização. Nas grandes regiões metropolitanas, fruto

12
Essas associações, que expressam crenças que agridem ou caluniam grupos de pessoas por causa de suas características imutáveis, dis-
tribuem-se de maneira bastante desigual no território americano. Estão altamente concentrados no velho Sul e nos estados das Planícies
do Norte e nos que votam nos republicanos, segundo o artigo do jornal que serve de fonte; são menos representativos no Nordeste, nos
Grandes Lagos e na Costa Oeste.
13
O autor afirma ainda que o mais sério desafio para a identidade tradicional da América vem da imensa e continuada imigração da América
Latina, especialmente do México. Em outra passagem, escreve que a divisão cultural entre hispânicos e anglos pode substituir a divisão
racial entre brancos e negros como a mais séria clivagem na sociedade dos Estados Unidos.
14
Fonte: Houston, TX Census Profile, 2010.
74 | Estados Unidos: ainda a potência dominante no século XXI?

de contínuo processo de conurbação (megalópoles), é que se percebe a verdadeira criação de


territórios separados, onde o poder público pouco se tem feito presente.15
Nos subúrbios, muitas vezes em condomínios fechados, vem se localizando a população
de maior poder aquisitivo. Aí, protegidos por muros, com forças de polícia particulares, escolas
restritas e serviços de esgoto e lixo independentes, encontra-se o poder político e os votos dos
que mais pagam impostos e que não mais admitem sustentar nem mesmo umWelfare State à
maneira americana, isto é,bastante limitado. Entretanto, nas duas últimas décadas, esse pano-
rama vem sendo alterado. Alguns setores dos centros das cidades vêm sendo renovados graças
a investimentos realizados por parcerias público-privadas que integram programas políticos e
econômicos de reestruturação urbana de acordo com interesses do capital (SMITH, 1996).
Com isso, as áreas centrais das cidades, marcadas por essa reestruturação chamada, su-
gestivamente, de “reabilitação urbana”, sofrem uma segmentação do mercado de trabalho e
uma profunda fragmentação com polarizações socioespaciais cada vez mais profundas. Esta
reabilitação é acompanhada de uma mudança radical dos habitantes. Os pobres e miseráveis
que habitavam esses quarteirões deteriorados são substituídos por outros estratos sociais em
que dominam domicílios para uma pessoa ou para casais sem filhos. Essa gentrificação (eliti-
zação) contempla os jovens executivos que trabalham no setor de serviços. Para atender a essa
nova classe de elevado poder aquisitivo, desenvolveram-se inúmeras atividades comerciais e
de lazer que ampliaram a reestruturação urbana. SãoMalls (shoppings ao ar livre), Seaports e
Waterfronts, e a recuperação de centros históricos que marcam a arquitetura dos novos/velhos
centros.
A renovação urbana já referida é obscurecida por outra mudança drástica na localização da
pobreza na América. Enquanto as áreas centrais continuam a receber brancos ricos, os subúr-
bios estão recebendo um número crescente de moradores de baixa renda e imigrantes pobres,
como mostra o jornal Financial Times (4 abril 2008). Este fenômeno recente alcança muitas
das grandes áreas metropolitanas da megalópole Nordeste e dos Grandes Lagos e, também,
da Costa do Pacífico, com sérias repercussões na arrecadação e na manutenção dos serviços à
população.
Essa mudança foi percebida por M. C. Tavares (1992, p. 25) da seguinte maneira: “[...] o
modelo fordista, que havia sustentado a difusão do padrão industrial no pós-guerra, tornava-

se rapidamente
consumo anacrônico
de massa começa aeser
a base interna de sustentação de uma economia de produção e
erodido”.
Assim, desenvolveu-se um novo modelo (para alguns nem é novo), superando o fordis-
mo, baseado na flexibilização das relações capital/trabalho (contra a “rigidez” do modelo
fordista) e na economia de tempo, na redução dos postos de trabalho e dos tempos de
produção e circulação .

15
Watts, em Los Angeles, Mount Pleasant, em Washington; partes do Harlem e South Bronx, em Nova York, são apenas exemplos de desem-
prego, violência, miséria e favelização que vêm marcando as áreas centrais das cidades norte-americanas desde meados do século XX,
mas sofrendo grandes alterações nas últimas décadas.
João Rua | 75

Espacialmente, essas transformações têm tido repercussões marcantes. Se o padrão for-


dista apontava para a concentração, o padrão do capitalismo flexível, pós-fordista, aponta
para a descentralização espacial das atividades e, até mesmo, da população, ao redistribuí-la.
Esse processo multidimensional e multiescalar aponta para uma crescente fragmentação do
espaço nas áreas centrais das metrópoles (uma espécie de “cidades na cidade”), nas regiões,
no país e no mundo. Forma-se um “caleidoscópio espacial” em que áreas renovadas se justa-
põem a áreas deterioradas, as regiões industriais se dissolvem em polos industriais isolados e a
gentrificação vai se impondo em algumas áreas urbanas e rurais. Mas toda essa fragmentação
está integrada em redes e participa heterogeneamente de escalas diversas.
H. Tavares (1994, p. 7) afirma que “estas modificações espaciais teriam, também, a função
de reduzir o poder de organização e resistência dos trabalhadores”. De acordo com esse autor,
a indústria pesada (siderúrgica, automobilística e a têxtil remanescente) entrou em profunda
crise em muitos países centrais, levando à decadência econômica e social regiões de industria-
lização tradicional. Nos Estados Unidos, enquanto a região dos Grandes Lagos e do Nordeste
tem visto o número de empregos se reduzir, a Califórnia transformou-se no estado mais in-
dustrializado do país, com maior número de empregos, além de um dos que mais cresce em
população. O mesmo pode ser dito dos estados doSun Belt (cinturão do sol) e que se estende
das Carolinas à Flórida, ao Texas, Arizona, Califórnia e Noroeste. Nessas regiões, a produção é
predominantemente de padrão mais flexível e voltada para a tecnologia de ponta.
Segundo o autor anteriormente referido (1994, p. 7), para implantar o novo padrão indus-
trial foi preciso procurar áreas onde a combatividade dos trabalhadores fosse reduzida, onde a
organização sindical fosse fraca e onde a legislação se apresentasse mais permissiva em rela-
ção às práticas contratuais flexíveis e/ou contrárias aos tradicionais direitos dos trabalhadores.
Hermes Tavares destaca a busca de melhor qualidade de vida em áreas aprazíveis e a procura
de sítios e parques tecnológicos (os tecnopolos), como fatores importantes para atrair a mão
de obra qualificada.
É preciso lembrar que as áreas para onde tem se deslocado a indústria são aquelas em que
há forte imigração de latino-americanos e asiáticos, muitos clandestinos, além de negros, o
que, de alguma maneira, favorece a exploração de mão de obra desqualificada e desprotegida
em termos legais. Como escreve Harvey (2004a, p. 92):

A produção em outros locais que não a sede da empresa [...] tornou-se, de súbito, mais geral
[...]. Seguiram-se a isso a dispersão e a fragmentação geográficas dos sistemas de produção,
das divisões de trabalho e das especializações de tarefas, embora o mais das vezes em meio
a uma crescente centralização do poder corporativo por meio de fusões, assunções agressivas
de controle ou acordos de produção conjunta que transcenderam as fronteiras nacionais. As
corporações têm mais poder de controlar o espaço, tornando lugares individuais bem mais
vulneráveis aos seus caprichos.
76 | Estados Unidos: ainda a potência dominante no século XXI?

Essa longa citação sintetiza o movimento do/no espaço em termos de organização pro-
dutiva. As corporações exercem poderes que antes apenas o Estado possuía. A capacidade de
pressionar os lugares em busca de localização mais privilegiada e a competição entre os lu-
gares para receberem essas localizações são apenas evidências da lógica fragmentadora que
preside a produção do espaço nos dias atuais e que afeta os Estados Unidos e sua projeção
como potência planetária.
Não se pode ignorar que essas tendências do chamado capitalismo flexível vêm acentuar
movimentos que caracterizam a organização espacial da produção norte-americana há déca-
das. A descentralização da produção (empresas que têm procurado novas áreas e novas fontes
de matérias-primas no Sudoeste, no Pacífico ou no exterior [internacionalização da produção:
maquiladoras no México]) vem desde, pelo menos, a década de 1930, desenvolvendo um pro-
cesso de realocação das indústrias. As tendências mais recentes revestem-se de características
de verdadeira desindustrialização das áreas do Nordeste e dos Grandes Lagos, onde se expan-
diu a grande indústria fordista em proveito do mencionadoSun Belt.
O velho manufacturing belt passa a ser conhecido como Rust Belt (cinturão da ferrugem),
imagem emblemática do processo de decadência econômica e esvaziamento populacional. No
Nordeste, o emprego diminuiu muito em alguns setores, como a siderurgia na Pensilvânia e
Ohio, a indústria têxtil na Nova Inglaterra e a automobilística em Michigan. As razões para tal
perda são a concorrência dos produtos importados (Japão, Tigres Asiáticos e, principalmente,
China) e de outras regiões dos Estados Unidos, com mão de obra mais barata. De acordo com
a mesma fonte, também em termos demográficos, o Nordeste apresenta declínio relativo. De
46,2% da população nacional, em 1950, passa para 37,7%, em 1988 e 17,9%, em 2010.
Nessas verdadeiras guerras entre os lugares por empregos e dólares cria-se um novo
processo de planejamento urbano e regional, à custa dos serviços sociais e da previdência.
Esse tipo de operação tornou-se comum desde a década de 1980. A esse respeito, em Harvey
(2004a, p. 94), lê-se que:

A Mercedes Benz recebeu recentemente um quarto de bilhão de dólares em subvenções – o


equivalente a um subsídio de 160 mil dólares por emprego prometido –, num pacote ofereci-
do pelo estado norte-americano do Alabama para persuadi-la a instalar-se lá.

Aparentemente contraditório ao movimento de desindustrialização-descentralização,


mas plenamente lógico se entendermos o momento atual como de explicitação da crise e de
reestruturação do capitalismo, verifica-se um movimento de recentralização-reindustrializa-
ção, sem que, no entanto, se recuperem os empregos perdidos nos centros urbanos mais tra-
dicionais. Seria uma reindustrialização seletiva voltada para tecnologias avançadas e centrada
nos setores menos sindicalizados, que, de um lado, vêm estancando o declínio de algumas
das regiões racionalizadas com mais sucesso (por exemplo, na Nova Inglaterra) e, de outro,
vêm concentrando o crescimento industrial na periferia. A hegemonia da potência americana
João Rua | 77

tem sido fortemente abalada por esse movimento efetuado em escala interna e externa. O
desemprego e a desindustrialização acirram contradições internas que radicalizam tensões
influentes na definição de políticas que, por vezes, definem as relações externas.
Desse mosaico e dessas contradições compartilha, também, o espaço agrário que, nos
Estados Unidos, bem como em outras partes do mundo, vem apresentando profundas trans-
formações. Ao lado de um global countryside, plenamente integrado à lógica da globalização,
com suas commodities e corporate farms de paisagens bastante uniformes, percebe-se uma
crescente fragmentação do espaço rural em que a gentrificação (primeiras e segundas resi-
dências), as indústrias, o lazer, diversos serviços vão construindo um rural mais complexo e
diversificado, cada vez mais distinto do agrícola.
Em 2010, 51 milhões de habitantes eram rurais por residência (quase 20% do total da po-
pulação). Desde 1990, observa-se um crescimento absoluto da população rural, revertendo a
tendência declinante por décadas (mesmo com a população urbana crescendo continuamen-
te). A pobreza rural cresceu menos do que a urbana entre 1999 e 2010. Eram 14,8% de pobres
nas áreas rurais que passaram para 16,5%. Nas áreas urbanas, no mesmo período, os valores
subiram de 11,9% para 14,9%. As taxas de desemprego são ligeiramente inferiores nas áreas
rurais em relação às urbanas (9,2% contra 9,7%, em 2010). Os dados estatísticos do Census
Bureau para 2007 apontavam que 86,5% das unidades fundiárias eram geridas pela família.
O número de explorações agrícolas vem diminuindo ao longo do século XX: em 1940, eram
6 milhões; em 1993, 2 milhões; e, em 2007, 2,2 milhões. Essa pequena elevação parece re-
lacionar-se à migração urbano-rural bastante expressiva no país, onde a gentrificação rural
vem sendo estudada há algum tempo.16 A área média das unidades de produção elevou-se de
174 acres, em 1940, para 473 acres, em 1993, caindo para 418, em 2007, o que pode reforçar
aquela migração. Observa-se um crescimento numérico entre 2002 e 2007 apenas entre os
estratos inferiores das unidades fundiárias (menos de 99 acres). Como em outras áreas rurais
do mundo, o preço da terra também aí vem se elevando. Passou de 997 dólares por acre, em
1997, para 1.892 dólares, em 2007, dobrando em dez anos. Isso pode indicar uma maior im-
portância da terra como ativo financeiro (em época de agudização da crise capitalista), além
de fortalecer a tese da gentrificação rural.
Como resultado das negociações na OMC, nas quais os Estados Unidos reclamaram dos

diversos
suas protecionismos
diversas praticados pelos
formas de protecionismo ao outros países ––,mas
setor agrícola viram,
foram também,algumas
introduzidas expostasmo-
as
dificações que atenuaram o “pousio econômico” (a remuneração pela utilização não produtiva
da terra) e os outros subsídios estatais. Entretanto, a agricultura americana ainda continua a
ser uma das mais protegidas do mundo.

16
Ocorre um movimento de migração das cidades para áreas rurais no qual se destacam os profissionais bem pagos, com largo acesso a
tecnologias que lhes permitam trabalhar em casa, e imigrantes (sobretudo latinos) mal pagos, clandestinos, para trabalhar em indústrias
“indesejáveis”nas áreas urbanas, confo rme Nelson e Nelson (2010, p. 442).
78 | Estados Unidos: ainda a potência dominante no século XXI?

Esses dilemas, paradoxos e polaridades confluem para novas espacialidades urbanas e ru-
rais, como visto, mas também na escala nacional e internacional. A principal mudança é uma
desconcentração do Nordeste e Grandes Lagos em direção ao Sul, Sudoeste e, sobretudo, para
o Oeste Pacífico, movimento que se integra a uma outra lógica geopolítica e geoeconômica
em direção ao Pacífico e à Ásia Oriental, como se verá a seguir. Ao que parece, a hegemonia e o
imperialismo, marcantes na era do Atlântico e dos vínculos com a Europa, embora ainda muito
significativos, evidenciam uma perspectiva de perda de poder e de obrigatória busca de novas
parcerias, desta vez tendo como palco a Ásia do Índico e do Pacífico.
Rumo a uma hegemonia compartilhada

A hegemonia dos Estados Unidos estabelece-se em acordo com a ação imperial da potên-
cia. Soft e hard power atuaram (e atuam) conjuntamente, mesmo que diferentemente, con-
forme o momento e a região do globo em que essa atuação se faça sentir. Essa é a ideia que se
defende neste capítulo. Não se ameniza a ação imperial com uma ação hegemônica. A força
política da expressão “imperialismo” obriga a esse cuidado, mesmo que numa abordagem não
integrada a estágios do capitalismo, como nas abordagens mais clássicas. Por outro lado, he-
gemonia e sua violência simbólica não podem ser percebidas como sinônimo de soft. O poder
(hard ou soft) é exercido de múltiplas maneiras, como já se demonstrou.
A capacidade de projetar o poder militar para o exterior reforça o poder econômico de uma
nação, relembrando os tabuleiros de Nye, apresentados no início deste texto. Nesse aspecto,
os Estados Unidos permanecem o país mais poderoso do mundo. Em qualquer circunstância,
isso tem de ser levado em conta. Por vezes é decisivo como elemento de coação ou cooptação.
Na dimensão econômica, a globalização “feita em casa”, como esclarece Agnew (2005), foi
difundida hegemonicamente enraizada na habilidade de reproduzir as normas culturais e as
práticas de consumo da sociedade americana. Por vezes de maneira imperial, mesmo que um
“império informal”, como o denominam Panitch e Gindin (2004, p. 8), na busca de expandir as
relações capitalistas (com seus atrativos modelos de produção, cultura e consumo) para todos
os cantos da Terra. É interessante como os referidos autores (2004, p. 24) reúnem hegemonia e
imperialismo ao escrever que, em outras palavras, não é a hegemonia do imperialismo ameri-

canoEssa
queposição
está emdos
crise,autores
mas a totalidade
corrobora, do
deimperialismo
certa maneira,sobaessa
ideiahegemonia
defendida. neste trabalho.
As múltiplas escalas (global, regional e local) dessa crise – do imperialismo como um todo e
do imperialismo e hegemonia americanos – têm for tes rebatimentos espaciais, como já vem
sendo demonstrado e agora será retomado. Assiste-se, neste início de século, ao declínio da
hierarquia regional, herdada de muito tempo, em que predominava uma quase exclusiva in-
terface dos Estados Unidos com a Europa e com o Oceano Atlântico. Uma nova organização
regional se desenvolve, com forte destaque para o Oeste litorâneo, em que se privilegiam as
relações com a Ásia Oriental.
João Rua | 79

A importância dessa nova interface evidencia as opções tomadas até o momento pela po-
lítica externa norte-americana e, ao mesmo tempo, corresponde a novas estratégias de neu-
tralizar rivais (preocupação constante) e de fortalecer laços preexistentes.
Para autores como Beeson e Broome (2010, p. 509), as manifestações atuais da crise do
capitalismo seriam consequência da transformação, em longo prazo, da relação do poder eco-
nômico entre os Estados Unidos e a Ásia Oriental. Não há dúvida de que a ajuda enviada pela
nação americana teve papel fundamental para a reconstrução europeia, como o foi para diver-
sos países da Ásia Oriental. Mas, segundo os referidos autores:
A política americana para a Ásia não teve o mesmo impacto integrador [que teve para a
Europa] [...]. Ao contrário, a política americana teve a intenção de manter a Ásia Oriental divi-
dida e com a orientação estratégica focada em Washington, mais do que na região. (BEESON;
BROOME, 2010, p. 509)

A relação Estados Unidos-Japão, por exemplo, é emblemática dessa estratégia. Superada a


fase de reconstrução do pós-guerra, quando a ajuda nor te-americana foi decisiva, as relações
entre os dois países foram se estreitando politicamente (dentro do contexto da Guerra Fria) e
implementando a concorrência comercial, na medida em que o Japão recuperava sua econo-
mia. A imagem de parceria e rivalidade sintetiza muito bem tais relações, num contexto em
que o político tinha prioridade sobre o econômico.
Assim escrevem Beeson e Broome (2010, p. 512):

O Japão contemporâneo é uma criação da hegemonia americana, de um modo que não foi
sempre planejado ou previsto. Após a Segunda Guerra Mundial, em primeiro lugar era uma
preocupação geopolítica, como uma base para um amplo processo de consolidação do capita-
lismo na região e baluar te contra a expansão comunista.

Com isso, os Estados Unidos toleraram um Japão neomercantilista, com estratégias de de-
senvolvimento fortemente ancoradas no Estado, as estreitas relações Estado-empresas e sua
propensão para uma política industrial agressiva. Entre 1980 e 1985, o dólar valorizou-se mais

de 50% em
indústria relação aoe foi
americana ieneume ados
algumas moedas europeias.
elementos-chave Isso causou sérias
para a reestruturação dificuldades
produtiva à
e descon-
centração industrial já mencionadas. Um for te lobby sobre o governo de então, formado por
provedores de serviços e fazendeiros do agronegócio exportadores de grãos, produtores de
automóveis e companhias de alta tecnologia como IBM e Motorola, desencadeou uma cam-
panha exigindo proteção contra a concorrência externa.
Em 1985, foi assinado o Plaza Accord, prevendo uma desvalorização das moedas em rela-
ção ao dólar. Esse acordo foi bem sucedido em relação às moedas europeias, com as quais foi
reduzido o déficit comercial, mas não, de imediato, com relação ao iene. Entretanto, tornou-se
80 | Estados Unidos: ainda a potência dominante no século XXI?

forte elemento de pressão sobre a economia japonesa e, num período mais longo, contribuiu
para a reconfiguração econômica e política da Ásia Oriental. Com a valorização do iene, o
Japão optou por exportar investimentos para diversos países asiáticos e produzir industrial-
mente para a exportação. O econômico estava subsumido pelo político, dentro da lógica da
bipolaridade, em escala mundial, e de contenção da China, em escala regional.
Finda a Guerra Fria, a competição comercial e tecnológica, entre as economias japonesa
e americana, ficou mais explícita. Porém, até isso deve ser relativizado. A economia japonesa
e a americana passaram, entre 1980 e 1995, a apresentar enorme complementaridade. Com
observações muito críticas sobre a atuação dos Estados Unidos com relação ao Japão e à Ásia
Oriental, em geral, prosseguem Beeson e Broome (2010, p. 513):

Não obstante, o caráter geral das relações bilaterais neste período [1985-1995] e o acordo
Plaza em particular demonstram outro exemplo da natureza oportunista e auto-centrada da
política americana e no modo como pressões políticas de curto prazo podem gerar efeitos
destrutivos a longo prazo.

Deve ser lembrado que, para esses autores, muito da crise atual tem raízes na maneira
como os Estados Unidos estabeleceram suas relações com a Ásia Oriental. Pode-se dizer que a
importância que as relações Estados Unidos-Japão tiveram nos anos 1980-1990 para a econo-
mia global corresponde àquela que as relações Estados Unidos-China representam atualmen-
te, guardando, é claro, todos os cuidados ao fazer essa correspondência, pois o momento geo-
político é outro e a China tem muito mais poder de barganha do que o Japão possuía naquela
ocasião. Ao que parece, nos dias atuais, a política está subsumida pela economia.
Como a política externa americana é influenciada, permanentemente, pela economia
doméstica e pelas pressões que ela exerce, tem-se, aí, mais um exemplo das interações in-
terno-externo aludidas como balizamento geral deste capítulo. Quando os Estados Unidos se
interessam, cada vez mais, pela vida econômica do Pacífico (a prosperidade da costa oeste é
devida, em grande parte a essa participação geoestratégica), desejam, de um lado, neutralizar
a presença preponderante da China e do Japão nessa área e, por outro, pretendem participar
da prosperidade econômica que anima as margens asiáticas daquele oceano.

esteApaís
importância da China
num parceiro como mercado
preferencial compradordedeprodutos
como mercado produtosdasamericanos
Zonas de transformou
Produção para
Exportação. Pouco importam as questões derivadas da repressão política, no interior daquele
país, ou a apregoada pirataria industrial, tecnológica e comercial dos chineses. A ascensão da
Coreia do Sul e de Taiwan como produtores de bens industrializados, graças a investimentos do
Japão e dos Estados Unidos, pôde substituir as tradicionais exportações de têxteis, tornando-
se esses países fundamentais para o “jogo” das relações naquela parte do mundo. A presença
dos Estados Unidos na APEC (Associação de Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico) é uma
João Rua | 81

evidência clara dos interesses americanos aí estabelecidos. Essas relações podem ser percebi-
das na Tabela a seguir:

Exportações, Importações e Saldo Comercial dos Estados Unidos com os três maiores
parceiros da Ásia do Pacífico, 2000-2010 (em milhões de doláres americanos)
Ano 2000 2005 2010
País Exp. Imp. Saldo Exp. Imp. Saldo Exp. Imp. Saldo

China 16,2 100,0 -83,8 41,2 243,4 -202,2 91,8 364,9 -273,0
Japão 64,9 146,4 -81,5 54,7 138,0 -83,8 60,5 120,5 -60,0
CoreiadoSul 27,8 40,3 -12,4 27,5 43,7 -16,2 38,8 48,8 -10,0
Fonte:US Census Bureau, 2012.

Comparando os dados da Tabela com aqueles referentes aos outros parceiros comerciais,
pode-se observar o destaque que essa parte do mundo, especialmente a China, ganha na vida
econômica (e política) americana. Em 2010, 34,3% das importações americanas procediam da
Ásia do Pacífico (e 23% das exportações para lá se dirigiam); 16% das importações vinham
da União Europeia (e 17% das exportações tinham essa destinação); 26% das importações
provinham da América do Norte (e 26,4% das exportações para lá se dirigiam). A América
Latina contava, respectivamente, com 6,8 e 9,8 desses percentuais. Percebe-se que a partici-
pação americana na vida econômica e política da Ásia oriental só faz crescer e se torna neces-
sária em face da explicitação atual da crise do capitalismo, crise que afetou muito o quadro do
comércio exterior em 2010, já que freou o ritmo do crescimento.
A secretária de Estado, Hillary Clinton, em recente entrevista (CLINTON, 2011), proclama
o America’s Pacific Century17 e escreve que “o centro de gravidade econômico e político do
mundo está derivando para leste”. Suas afirmações demonstram um esforço recente para rea-
firmar o papel dos Estados Unidos como potência do Pacífico, numa espécie de resposta às
preocupações dos países da região com o fortalecimento econômico e militar da China, bem
como com a manutenção do comprometimento americano com a Ásia oriental. O presidente
Obama reforça essa mensagem ao convocar, em outubro de 2011, um fórum de cooperação
econômica do Pacífico, no Havaí, e ao assinar um Tratado de Livre Comércio com a Coreia do
Sul. O presidente almeja cimentar o papel econômico dos Estados Unidos na Ásia, finalizan-

do as negociações
Partnership para), oque
Agreement Tratado de Parceria
foi firmado Trans-Pacífica
por etapas ( 18 Este acordo
Trans-Pacific
desde 2005. Strategic Economic
prevê tarifas
zero no comércio entre os membros deste grupo, implantadas antes de 2015, além de uma
maior liberalização das economias nacionais.
O interesse do Japão em juntar-se ao grupo deve-se a três fatores principais: o medo da
concorrência coreana no acesso livre ao mercado americano, o atual declínio da agricultura
17
O Século do Pacífico da América, em tradução livre.
18
Em 14 de novembro de 2010, Austrália, Brunei, Chile, Nova Zelândia, Malásia, Peru, Cingapura e Vietnã confirmaram sua participação. Em
11 de novembro de 2011, o Japão comprometeu-se a aderir (mas encontra resistências internas).
82 | Estados Unidos: ainda a potência dominante no século XXI?

japonesa (histórico obstáculo ao livre comércio com os Estados Unidos, com medo da “invasão”
do agronegócio, numa atividade tão protegida) e o temor econômico, político e militar da China.
Com a China, também, os Estados Unidos estão envolvidos em conversações. Este país
permanece dependente do Japão e, mais recentemente, da China, que continuam a financiar
seu déficit orçamentário. Se isso não acontecer, o governo americano será obrigado a elevar as
taxas de juros e, com isso, os americanos comprarão menos, o que não interessa aos credores
asiáticos. Essa é a moeda de troca dos Estados Unidos para dialogarem com a China (Strategic
Economic Dialogue), continuando o que já fizera George W. Bush.
Fica evidente o maior interesse dos Estados Unidos no Pacífico do que no Atlântico, no mo-
mento atual. A modernização econômica chinesa impõe Pequim como ator incontornável no
mundo atual. Os Estados Unidos continuam a tentar atrair a China para os fóruns mundiais. As
questões estratégicas, de estabilidade e de equilíbrio na Ásia do Pacífico são afetadas pela mo-
dernização militar chinesa e a afirmação, de fato, da China como ator regional, numa área, de há
muito, caracterizada pela dominação naval americana e pelas alianças com o Japão e a Coreia do
Sul, a emergência de um novo ator impõe revisões, como escreveu Nardon (2010, p. 103-104).
Um aspecto da tentativa de recuperação do poderio dos Estados Unidos foi a constituição do
NAFTA (North American Free Trade Agreement ), agregando Canadá e México (o Chile é um mem-
bro associado), a partir de janeiro de 1994. Essa tentativa ainda suscita entusiasmo para alguns
e visões pessimistas para outros. Essa associação pretende suprimir, gradativamente, ao longo
de 15 anos, as tarifas aduaneiras entre os três países. As trocas comerciais (até meados de 1995)
foram fortemente incrementadas. Os Estados Unidos absorvem 85% das exportações mexicanas,
enquanto o México torna-se o segundo mercado comprador de produtos americanos.
Para alguns analistas, pouca coisa mudou em termos de investimentos, já que o México, há
40 anos, quando do fim do programabracero, provocado pela pressão dos sindicatos america-
nos, vem recebendo vultosos investimentos americanos na implementação dasmaquiladoras
(empresas industriais, situadas próximo à fronteira dos Estados Unidos, constituída em Zona
Industrial de Exportação). Tais empresas vêm se instalando no México em busca de mão de
obra barata e contando com uma legislação ambiental menos restritiva do que a nor te-ame-
ricana, além de, ao dar emprego aos mexicanos, frear, de alguma maneira, o enorme fluxo
migratório entre os dois países.

Afetadorelacionadas
alterações pelos atentados de 11 dee àsetembro
à segurança criação dedenovas
2001,facilidades
esse tratado
de tem sofridodealgumas
circulação mer-
cadorias. Essas alterações ocorreram até 2004. Daí em diante, a retórica tem dominado os
discursos, e os interesses norte-americanos têm estado voltados para outras partes do mundo.
O que deve ser registrado, por fim, é que os Estados Unidos continuam buscando ma-
neiras de manter a hegemonia conquistada ao longo do século XX. Para M. C. Tavares (1992,
p. 38), o potencial científico e militar dos Estados Unidos continua dominante, e a dimen-
são transnacional de sua economia mantém o espaço norte-americano como decisivo para a
João Rua | 83

reestruturação das regras do jogo global. A observação da autora permanece válida 20 anos
depois, como evidenciado em Ceceña (2004).
Ao que parece, desenvolve-se uma linha de fortalecimento do multilateralismo, de modo
a manter uma hegemonia compartilhada, seja pelo reforço dos papéis dos organismos inter-
nacionais, seja na remodelagem dos fóruns de governança global como o G-8 (uma espécie de
comitê gestor da economia mundial) ou do G-20 (buscando integrar economias emergentes,
refletindo, talvez, a busca de um novo equilíbrio do poder econômico que não passa somente
pelos Estados Unidos e Europa).
Essa hegemonia compartilhada procuraria preservar as prerrogativas das potências, capi-
taneadas ainda pelos Estados Unidos, para decidir os princípios-chave e as mudanças políticas
que mais interessem a esse grupo de países. Uma nova divisão internacional do trabalho está
em marcha, evidenciando, com a globalização, uma fragmentação apoiada em desenvolvi-
mentos geograficamente desiguais (fruto de resistências, cooptações e aceitações), cada vez
mais distantes da apregoada tendência à homogeneização do livre mercado.
Concluindo, é necessário retornar aos registros que balizariam a atual (des)ordem inter-
nacional – o econômico e o político – nas suas diversas dimensões (diplomático, estratégico,
ideológico/simbólico), para compreender como a natureza, a amplitude e o papel dos Estados
Unidos tornam-se uma questão central para o estudo da configuração do sistema interna-
cional, em função da sua importância para a resolução dos problemas mundiais. Depois de
terminada a Guerra Fria, os Estados Unidos ainda não conseguiram montar uma estrutura de
dominação à altura de substituir os esquemas de poder que ruíram com o fim da bipolaridade.
Se vão conseguir manter-se como potência hegemônica nos campos político e econômico,
simultaneamente (ou se as outras potências, principalmente as emergentes, vão permitir),
é um problema de difícil equação, já que passa por mudanças internas (estas de velocidade
crescente), que alteram a consciência coletiva americana com seu imaginário oscilando en-
tre o isolacionismo saudosista, com seus corolários segregacionistas, e o internacionalismo/
multilateralismo racional imposto pela globalização que, agora, parece voltar-se contra seu
criador, como escreve Agnew (2005). O que se tentou fazer neste capítulo foi discutir esse mo-
vimento alicerçado nos dilemas e polarizações de uma sociedade de mercado, cada vez mais
multiétnica, que se mundializou e, com isso, realocou seus interesses, os quais, atualmente,

sob a formao próprio


tensionam de corporações transnacionais e Estados nacionais credores dos Estados Unidos,
Estado norte-americano.

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Jorge Luiz Barbosa

UNIÃO EUROPEIA: TRANSFORMAÇÕES, CRISES E DESAFIOS DA INTEGRAÇÃO REGIONAL

Este capítulo tem o objetivo de colocar em questão o processo de unificação europeia em


suas distintas escalas de acontecimento. Por tratar-se de um evento amplo e complexo em sua
densidade histórica e geográfica, optaremos pela análise em recortes espaço-temporais que, a
nosso ver, são os mais significativos para o entendimento do processo de construção do “bloco
europeu de poder”. Portanto, o esforço de síntese privilegiará o inventário crítico como método
de exposição de um projeto que se inscreve, com todas as críticas que possamos fazer, como
um dos mais ambiciosos do mundo contemporâneo.

A Europa em movimento de unificação

O Tratado de Maastricht celebrou, em dezembro de 1991, um dos mais importantes pro-


cessos de integração política, econômica e diplomática entre países europeus após a Segunda
Guerra Mundial. Coroava-se, com o Tratado, um movimento de reordenamento do território
europeu, onde diferentes fronteiras poderiam ser abolidas por meio de livre circulação de ca-
pitais, bens, serviços e cidadãos.
O projeto de unificação europeia ganhava seus contornos cartográficos ao reunir 12 países
signatários (Mapa 4). Tratava-se, portanto, de uma proposta audaciosa, fazer da Europa uma
comunidade de cidadãos: do Cabo Norte à Sicília, do Mediterrâneo ao Atlântico e, num futu-
ro não muito distante, dos Montes Urais ao Planalto da Anatólia. Demarcações de umanova
geografia de liberdades, prosperidade e solidariedade entre as diferentes nações do complexo
mosaico europeu.
88 | União Europeia: transformações, crises e desafio s da integração regional

Países-membros srcinais da União Europeia em 1993


Países que entraram no bloco em 1995 Finlândia
Países que entraram no bloco em 2004 Suécia

Países que entraram no bloco em 2007

Estônia
Letônia
Dinamarca
Irlanda Reino Lituânia
Unido
Holanda Polônia
Bélgica Alemanha
Luxemburgo República Tcheca
Eslováquia
França Áustria Hungria
Romênia
Eslovênia
Mar
Itália Negro
Portugal Bulgária
Espanha

Grécia Turquia
Mar Mediterrâneo

Malta Chipre

Mapa 3 – União Europeia: países-membros

A criação de uma pan-Europa esteve permanentemente presente no imaginário europeu


como ideia-força. Diversas tentativas de unificação europeia se fizeram presentes, em diferen-
tes períodos históricos, a par tir de determinadas centralidades de poder: Roma e seu vasto im-
pério terrestre e marítimo; o Papado Romano com sua regiãochristiana; a França Napoleônica
e suas conquistas políticas e territoriais do início do século XIX; e, mais recentemente, oTerceiro
Reich com seu cor tejo de destruição e barbárie.
Com o final da Segunda Guerra Mundial, o tema da unificação europeia é retomado em
termos políticos e institucionais mais complexos. O quadro de devastação deixado pela dispu-

ta militarconcretas
nativas intraimperi
de alista obrigava
acordos de pazase de
lideranças políticas
recuperação e institucionais
socioeconômica quea ultrapassassem
buscarem alter-as
fronteiras nacionais. Multiplicaram-se os movimentos, as campanhas públicas e os congressos
de diferentes matizes ideológicos, porém, identificados com a causa da unificação como solu-
ção inadiável para a Europa devastada pela guerra.
As cinzas fumegantes da destruição bélica sinalizavam o fim de um período dominado
pelo nacionalismo econômico como estratégia de expansão regional e mundial, notadamen-
te praticado pela Inglaterra, França, Alemanha e Bélgica, e responsável pelo alargamento de
disputas militares no continente. Por outro lado, a ascensão dos Estados Unidos e da União
Jorge Luiz Barbosa | 89

Soviética, como centros hegemônicos de poder (político e militar) mundializados, determina-


va um novo cenário geopolítico e, em especial, a Paz de Yalta, celebrante da cisão da Europa a
leste e a oeste, demarcava “áreas de influência” das novas potências político-militares e seus
respectivos projetos de primazia. Essas novas condições desenhavam uma geografia política
que reclamava outra construção da ideia-força de unificação.
Contribuíam também, de modo decisivo, para as novas formas de orientação político-ideo-
lógica, as precárias condições do sistema produtivo e de circulação, parcialmente arruinado
pela guerra e, sem nenhuma dúvida, a ascensão dos movimentos sociais, sobretudo sindical e
socialista, que reivindicavam mudanças políticas e econômicas substanciais em seus países de
srcem e que, c uriosamente, assumiam a bandeira da unificação como caminho possível para
a reconstrução da Europa.
Diante dos novos arranjos geopolíticos (regional e mundial) e da radicalidade das contra-
dições sociais com a entrada de novos atores na cena pública, as burguesias europeias obri-
gavam-se a novos agenciamentos institucionais e políticos, capazes de restituir seu poder de
direção na reconstrução econômica e social da Europa. O cenário aberto com o pós-guerra
obrigava os partidos políticos, intelectuais, empresários, como também os sindicatos, à elabo-
ração de propostas consistentes que pudessem garantir a independência dos países europeus
diante das novas forças hegemônicas (EUA e URSS) e, ao mesmo tempo, mobilizar processos
de unificação, como premissas da reconstrução da Europa.
Duas grandes vertentes de defesa da unificação ganharam importante destaque. A primei-
ra delas, a dosatlantistas – reunindo os britânicos, o Vaticano e as classes dirigentes mais con-
servadoras – que argumentavam a favor da preservação da autonomia dos Estados europeus
em aliança com os Estados Unidos, conformando a “Comunidade do Atlântico Norte”, projeto
parcialmente realizado com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em 1949.
A segunda vertente, representada peloseuropeístas, proclamava a imperiosa necessidade de
uma unidade supranacional, mas divergia quanto ao modelo a ser adotado, configurando dois
agrupamentos distintos: os “federalistas”, que defendiam uma unificação imediata, construin-
do um Estado europeu comum (federativo), proposição profundamente revolucionária para
o período, e os “funcionalistas”,defensores de um processo gradual e setorial de integração,
sobretudo nos campos econômico e diplomático (KNIAJINSKI, 1987; RICHONNIER, 1986).

Apesar dasexperimentou
Europa-Oeste distinções postas em termos
iniciativas dos caminhos
de unificação a partir que deveriam
de pactos ser seguidos,
supranacionais e in-a
ternacionais firmados entre Estados. Institucionalidades políticas começaram a ganhar ma-
terialidade em diferentes escalas territoriais e, evidentemente, com seus respectivos recortes
temáticos (diplomáticos, financeiros, comerciais e técnicos).
O Benelux, criado em 1944, destaca-se entre os tratados pioneiros de unificação gradual/
setorial entre países europeus. Nascido ainda no calor da guerra, o aludido acordo reunia
Bélgica, Holanda e Luxemburgo em um esforço de recuperação econômica comum, ao pri-
vilegiar a tessitura de um mercado regional de bens, serviços e capitais complementares às
90 | União Europeia: transformações, crises e desafio s da integração regional

suas respectivas economias. No final da mesma década, é instituído, na cidade de Estrasburgo,


o Conselho Europeu, com participação da França, Itália, Noruega, Suécia, Bélgica, Holanda
e Luxemburgo, tendo como propósito maior o estabelecimento de convenções a respeito de
delicados temas diplomáticos criados no âmbito do conflito militar de 1939/1945, a exemplo
da questão dos refugiados, da extradição de criminosos de guerra e dos direitos humanos.
O avanço da bipolarização da ordem mundial e a perda progressiva das colônias na África
e na Ásia, em face dos movimentos de libertação nacional, colocavam os países europeus em
uma encruzilhada geopolítica, obrigando-os a superar as velhas rivalidades nacionais como
condição decisiva para superação da crise da hegemonia europeia. A gestão de recursos oriun-
dos do Plano Marshall obrigou a criação de uma forma de ação cooperativa por parte dos
Estados europeus beneficiados. Era intenção de Washington tutelar a execução dos recursos
para o esforço de reconstrução e, ao mesmo tempo, responsabilizar os países pelo uso ade-
quado dos empréstimos.
Como resposta às crescentes obrigações exigidas pelos Estados Unidos, foi fundada, em
1948, a Organização Europeia para Cooperação Econômica (OECE). Do seio da OECE criou-se,
em setembro de 1950, a União Europeia de Pagamentos, com o objetivo de suprimir barreiras
protecionistas e superar a falta de liquidez das economias aderentes ao Plano Marshall, fatores
que limitavam sensivelmente as trocas comerciais europeias e, principalmente, as exporta-
ções norte-americanas para os países europeus.
O início da década de 1950 também marcaria as primeiras formas de cooperação suprana-
cional que fogem ao script do projeto norte-americano em países da Europa-Oeste. A partir do
empenho dos europeístas, seis Estados – França, Alemanha Ocidental, Itália, Bélgica, Holanda
e Luxemburgo – assinam o Tratado de Paris, instituidor da Comunidade Europeia do Carvão
e do Aço (CECA). A CECA significava, nas palavras de J.F. Besson (1962), um primeiro passo
para o desenvolvimento de uma política europeia sem precedentes históricos e geográficos,
contribuindo decisivamente para a construção de umEstado Supranacional. Na verdade, a
Comunidade do Carvão e do Aço seguia o modelo gradual (e setorial) de unificação defendido
pelos europeístas funcionalistas. Unindo o car vão e o aço, produtos-símbolos da primeira e se-
gunda revolução industrial, a Comunidade em tela revelava-se como uma estratégia de supe-
ração da crise técnica e produtiva do setor carbonífero e siderúrgico, por meio de investimen-

àtosampliação
estatais dedicados
dos serviçosà de
modernização
transportes,da gestão, à inovação
diretamente vinculadosdosàquela
equipamentos produtivos
atividade industrial. e
Segundo Pierre George (1985), a CECA era uma consequência tardia da solidariedade de
interesses econômicos – anteriormente estruturados sob a forma de trustes e cartéis de bases
nacionais – articulando proprietários de minas de ferro e carvão, de siderúrgicas, de ferro-
vias e metalúrgicas localizadas na Alemanha, França, Bélgica, Luxemburgo, Itália e Holanda.
Tratava-se, entretanto, não exclusivamente de revitalizar o complexo carbonífero-siderúrgico
nos vales do Rhur e do Reno, mas também de impulsionar a recuperação de outros ramos
Jorge Luiz Barbosa | 91

industriais urbanos (metalurgia, construção naval e civil) e, de modo especial, contribuir para
a expansão do setor automobilístico, organizado sob o primado do fordismo.
A Comunidade do Carvão e do Aço tornou-se um importante laboratório de cooperação
com vistas às possibilidades de integração econômica e gestão territorial de empreendimen-
tos supranacionais. O esforço cooperativo na modernização da infraestrutura de produção e
circulação (ferrovias, rodovias e hidrovias), a criação de um mercado regional de bens libera-
dos de taxações alfandegárias e a participação conjunta no mercado internacional (importa-
ção e exportação) foram importantes experiências entre empresas e entre Estados nacionais
que assentaram, por sua vez, a construção do Mercado Comum Europeu (MCE), com a assina-
tura do Tratado de Roma, em 1957.
O MCE buscava ampliar os acordos anteriormente estabelecidos no âmbito da CECA,
rumando na direção do estabelecimento das quatro liberdades: a livre circulação de bens,
serviços, capitais e trabalhadores, ações de nítido reordenamento de territórios nacionais
em favor da superação da rigidez fronteiriça das relações econômicas. Portanto, as medidas
estabelecidas visavam reduzir restrições alfandegárias e administrativas sobre o movimento
de composição de mercados regionais de produção e consumo de bens, serviços e força de
trabalho. Todavia, a unidade econômica guardava planos mais audaciosos. A cooperação téc-
nica e financeira para o desenvolvimento estratégico da energia nuclear (criação da EURATOM
– Comunidade Europeia da Energia Atômica), para fins civis e de defesa continental, a atuação
conjunta para reconversão de empresas em crise de produtividade e a criação de políticas agrí-
colas comuns faziam parte dos planos ambiciosos da nova forma associativa de organização
institucional/territorial do MCE.
No plano político-ideológico, o Tratado de Roma celebrava a realização de dois movimen-
tos fundamentais. O primeiro, realizando a aproximação franco-germânica que exorcizava a
figura do feindbild (o inimigo), sempre presente na história das relações entre os dois países. O
segundo, um desafio (em plena Guerra Fria) ao projeto de dominação dos Estados Unidos em
relação à Europa, ao buscar o desenvolvimento socioeconômico associado à edição de estra-
tégias políticas comuns, inclusive no âmbito da defesa e segurança continentais. Os esforços
da França, sob a liderança do Charles de Gaulle, e da Alemanha, com Konrad Adenauer, na
construção de uma Europa unida, demonstravam que estávamos diante de uma causa para

alémO dos interesses


cenário internaeconômicos, configurando-se
cional também como
respondeu pelas umadecididas
opções razão de dos
Estado.
Estados nacionais
europeus, particularmente da França, em seu papel de artífice do movimento de unificação
europeia, tendo como divisor de águas a humilhante retirada anglo-francesa do Canal de Suez
(1956), imposta pela União Soviética e os Estados Unidos. Diante da ordem política e militar
dominantemente bipolar, a França engendra, sob a égide de forças gaullistas, a tessitura polí-
tica da Petit Europe como bloco de poder, incluindo decisivamente a Alemanha e a Itália no seu
contexto geopolítico. Estava aberto o cenário de tensões, no qual os esforços de cooperação
92 | União Europeia: transformações, crises e desafio s da integração regional

econômica em escala nacional/regional se vinculavam às questões políticas e diplomáticas no


âmbito do sistema de poder mundial.
No complexo movimento de unificação europeia, também entra em cena a política britâ-
nica. Após a recusa de participação na CECA, devido aos seus interesses políticos e econômicos
de revitalização da Commonwealth (Comunidade Britânica de Nações), os britânicos respon-
dem às ações dos europeístas funcionalistas com a criação de uma região de comércio livre, de-
nominada Associação Europeia de Livre Comércio (AELC). Constituída na cidade de Estocolmo
em 1960, a AELC representava um modelo associativo (e não supranacional) de organização de
trocas de bens industriais selecionados e não concorrentes entre si. Reunindo países de níveis
profundamente desiguais em termos de desenvolvimento econômico e representação políti-
ca (Dinamarca, Noruega, Suécia, Áustria e Portugal), a AELC era demonstrativa do empenho
dos britânicos na retomada da liderança continental, em face do movimento da França e da
Alemanha em sua escalada política e econômica no cenário europeu.
O Mercado Comum Europeu e a Associação Europeia de Livre Comércio se inscrevem no
período de recuperação econômica e social dos países europeus após o desastre da Segunda
Guerra Mundial. O “velho continente” emergia das cinzas sob a égide do regime fordista de
acumulação de capital, em seu ciclo de onda longa de prosperidade, denominado na literatura
especializada como os Gloriosos Trinta (1945 – 1975).
O fordismo constituía, em síntese, um regime de produção e consumo que combinava os
avanços técnico-científicos da Segunda Revolução Industrial a novos métodos de gestão do
trabalho no ambiente empresarial, sobretudo por meio da divisão técnica tripartite: pesquisa
e desenvolvimento, montagem qualificada e montagem em série. Tratava-se de um modelo
de produção serial de bens de renda ou de consumo durável (automóveis, eletrodomésticos)
que, por sua vez, exigia o consumo de massa para sua realização. Isto implicava a notória
presença do Estado como investidor/regulador macroeconômico e como agente de ofertas
sociais (educação, saúde, seguridade, habitação, transporte). O sucesso deste modelo nas
paisagens europeias reclamava pré-condições (experiência industrial já dada) e a capacidade
dos Estados nacionais de assumirem novos papéis na política econômica e na política social,
inclusive implementando um amplo programa de estatização/modernização de indústrias de
bens de capital, de empresas de transportes (aéreos, ferroviários, rodoviários, hidroviários),

de serviços de energianão
À Europa-Oeste e comunicação.
importava exclusivamente dinheiro e máquinas na ajuda concedi-
da pelo Plano Marshall. Incorporava um modelo de gestão política de produção/consumo e
uma cultura particular de relações contratualistas entre o capital e o trabalho (LIPIETZ, 1988).
Segundo Boltanski (1982), este último item da cesta de importações era uma condição explí-
cita para que os Estados europeus recebessem a ajuda dos Estados Unidos.
O ambiente favorável à realização do modelo fordista não era ubíquo, nem mesmo po-
deria ser realizado em toda a sua plenitude. Portanto, o “milagre europeu” não aconteceu de
modo uniforme, fazendo com que países, e regiões dentro dos países, apresentassem níveis
Jorge Luiz Barbosa | 93

desiguais de desenvolvimento econômico, técnico e social. A forte retomada da industrializa-


ção e da expansão urbana na Alemanha, França, Bélgica e Holanda contrastava com a perma-
nência da agricultura tradicional como base econômica de Espanha, Portugal e Grécia. Assim
como o progresso industrial do Norte da Itália contrastava com o Sul agrário.
Na Europa Ocidental, a felicidade do novo modo de acumulação realizou-se de modo es-
pecial no âmbito do MCE, espacialidade concentradora do desenvolvimento industrial desde o
século XIX, e que mais rapidamente adequou-se às exigências políticas, econômicas e técnicas
do modelo fordista, incluindo a domesticação dos sindicatos dos trabalhadores no processo de
constituição do Welfare State ou Estado de Bem-Estar Social.
O sucesso da reconstrução disparou um rápido crescimento técnico-produtivo associado à
expansão do capital financeiro e das empresas industriais norte-americanas. A Petite Europe
(França, Alemanha, Itália e Bélgica) tornava-se a principal parceira econômica dos Estados
Unidos, a despeito das divergências políticas no tocante aos rumos da integração europeia.
Por outro lado, o comércio intercomunitário no total das exportações crescia a passos largos:
28,5% em 1960; 36,5% em 1965; 41,6 em 1970 (MANDEL, 1990).
Tendo como referência do sucesso do fordismo o seu produto-símbolo, Petite
a Europe al-
cançava, no início da década de 1960, o segundo posto da produção automobilística mundial,
com cerca da metade dos 8 milhões de veículos produzidos pelos Estados Unidos, concen-
trando 40% da população economicamente ativa empregada na indústria e 37% nos serviços
urbanos. A Europa do MCE tornava-se o lócus de “milagres econômicos” que impulsionavam,
por sua vez, a necessária expansão da união aduaneira de 1957, na direção da redução de ta-
rifas e da criação de uma tarifa exterior comum. Portanto, a generalização da produção serial
para um mercado de massa reclamava o alargamento da espacialidade dos fluxos das trocas
comunitárias para além dos produtos industriais e de serviços vinculados ao setor carbonífero
e siderúrgico.
Os impulsos da integração regional correspondiam aos esforços de cooperação indispensá-
veis ao desenvolvimento social, econômico e tecnológico daEuropa dos seis (França, Alemanha,
Bélgica, Itália, Holanda e Luxemburgo) e conduziram à fusão da CECA, da EURATOM e do MCE,
dando srcem à Comunidade Econômica Europeia (CEE) na década de 1960.
A prioridade política de investimentos dedicados ao desenvolvimento tecnológico aplica-

do àreduzir
de produção industrialem
a distância e àrelação
geraçãoaodecrescimento
serviços no âmbito da CEE,
do Estados sobretudo
Unidos, com o objetivo
entretanto, não deve
ofuscar as importantes experiências regionais/setoriais comunitárias. Destaca-se aí a Política
Agrícola Comum (PAC), que definia a segurança alimentar e a garantia de renda dos agricul-
tores como fundamento das ações governamentais compartilhadas, considerando inclusive
que a população do campo no conjunto dos países-membros alcançava 23% de sua população
total. Deve-se ainda salientar a construção de um eficiente sistema de proteção social para os
cidadãos em cada Estado-membro, sobretudo em suas principais cidades.
94 | União Europeia: transformações, crises e desafio s da integração regional

Enquanto na escala territorial das ações da CEE as políticas de integração expandiam as


condições do crescimento econômico e ampliavam a complementaridade das economias de
seus signatários, a Grande Europa (AELC) navegava em mares turbulentos até naufragar. Em
1973, em função da for te pressão do Partido Trabalhista, o Reino Unido solicita adesão à CEE.
No mesmo ano, também ingressaram a Dinamarca e a Irlanda, configurando uma comunidade
de dimensão efetivamente continental.
A unificação europeia seguia um curso promissor com o crescimento industrial em ritmo
acelerado e o aprofundamento técnico-organizativo das empresas privadas e estatais. A con-
juntura de abrandamento da Guerra Fria na Europa, com o “pacto de coexistência pacífica”
com a União Soviética, contribuía firmemente para a afirmação da CEE em face dos interesses
exclusivistas dos Estados Unidos.
Todavia, a “crise do petróleo” provocada pelas imposições econômicas dos países exporta-
dores da OPEP revelaria as fragilidades da integração europeia. O otimismo regional dava lu-
gar a preocupações nacionais. A recessão econômica e o crescente déficit na balança de paga-
mentos (notadamente na França, Grã-Bretanha e Itália), provocados pelo choque dos preços
do petróleo e pela desvalorização do dólar, identificavam, como afirmou Willy Brandt (então
chanceler da Alemanha Ocidental), a repartição da CEE em um setor “sólido” e outro “instável”.
A crise de acumulação e capital no período 1975-1979 colocava em evidência essa reali-
dade de regiões e países desigualmente desenvolvidos, tendo no processo de integração eco-
nômica um dos seus fortes componentes de reprodução e não de superação de desigualdades
socioespaciais, obrigando à edição de políticas compensatórias regionais para evitar situações
extremas de tensão social.1
As soluções nacionais para aliviar os impactos da crise trouxeram poucos resultados, uma
vez que agiam de modo conjuntural (políticas monetaristas),2 portanto pouco significativas
para a retomada do desenvolvimento econômico e social. Por outro lado, o ingresso ampliado
de bens industriais norte-americanos e asiáticos promovia uma forte concorrência no merca-
do de consumo construído no âmbito da CEE, restringindo a capacidade de recuperação de
empresas europeias.
Na verdade, estávamos diante da crise estrutural do regime fordista, após 30 anos de
crescimento contínuo. É neste momento que entram as instituições multilaterais, com

destaque para o Econômico


Desenvolvimento Fundo Monetário
(OCDE),Internacional e para oaseguinte
a fim de estabelecer Organização para Cooperação
receituário de superaçãoe
da crise: desregulamentação do mercado (financeiro e de trabalho, sobretudo), incentivo às

1
Criação do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional com o objetivo de transferir recursos de regiões ricas para as m ais pobres, visando
a investimentos em infraestrutura e em atividades voltadas para geração de emprego e renda em regiões de industrialização pretérita em
reconversão e de frágil desempenho econômico.
2
A exemplo do Sistema Monetário Comum em 1978, criado para equilibrar as contas dos Estados europeus em conjunto. O SME mostrou-
-se altamente vulnerável com a instabilidade do dólar e a forte especulação do marco alemão, conduzindo à desvalorização das demais
moedas dos integrantes do Sistema.
Jorge Luiz Barbosa | 95

empresas de alta tecnologia, reajustes fiscais do Estado em benefício das empresas e redução
dos gastos sociais públicos.
É nesse quadro de desafios e imposições que os países-membros da CEE precisam enfren-
tar a crise de acumulação do capital, na certeza de que as soluções nacionais teriam pouco
efeito prático na mudança do cenário da política econômica mundial. Portanto, dar continui-
dade ao processo de integração regional (cuja evolução é sintetizada no Quadro 3) parecia ser
a estratégia mais adequada para a reestruturação do regime de acumulação de capital e da
retomada do papel da Europa Ocidental na escala internacional.
Quadro 3 – Cronologia de adesão à unificação regional até a CEE (1944 – 1986)
Ano Instituição Países signatários ou incorporados [+]
1944 Benelux Bélgica,HolandaeLuxemburgo
1951 CE CA França, Alemanha,Itália, Bélgica, HolandaeLuxemburgo
1957 MCE França,Alemanha,Itália,Bélgica,HolandaeLuxemburgo
1960 CEE França,Alemanha,Itália,Bélgica,HolandaeLuxemburgo
1973 CEE +ReinoUnido,DinamarcaeIrlanda
1981 CEE +Grécia
1986 CE E +PortugaelEspanha

União Europeia: um novo paradigma de Estado?

Em linhas gerais a CEE estava mergulhada em um conflito visceral. O “mercado comum”


estava estruturado no desempenho das economias nacionais, tendo cada uma a sua própria
moeda, como exercício de soberania sobre o território, srcinando um conjunto de impasses
no seio da “comunidade” em termos de conversibilidade, taxas de câmbio e ações deflacionis-
tas, sobretudo em um período agravado pelo desmoronamento do sistema de Bretton Woods.
Por outro lado, havia uma necessidade imperiosa de mercado comum para garantir um sis-
tema monetário estável, portanto protegido da agressividade da globalização das finanças.
Para Ernest Mandel (1990), a consolidação de uma ordem monetária estável era inadiável,
pois exprimia:

[...] a vontade dos grandes trustes, monopólios, multinacionais e bancos que têm como pro-
prietários, principalmente europeus, de ver seus interesses defendidos por uma potência esta-
tal, diante de seus concorrentes americanos e japoneses e outros, o que não ocorre no caso dos
Estados-nações, manifestadamente inadequados às formas internacionais da produção e das
finanças capitalistas de hoje (p. 306).

O Tratado de Maastricht (1991) coroava um conjunto de esforços de unificação em um


momento político decisivo, cuja marca era a desconstrução da União Soviética e do seu bloco
96 | União Europeia: transformações, crises e desafio s da integração regional

europeu, fazendo-se acompanhar da reunificação da Alemanha. Ao mesmo tempo, buscava


atender às exigências do período aberto com a globalização da economia. É justamente nesse
sentido que os acordos celebrados entre os chefes de Estado na cidade holandesa estabelece-
ram critérios de financiamento e gestão de economias nacionais como atributos indispensá-
veis para o ingresso na União:

a) estabilidade dos preços: a taxa de inflação não deveria ultrapassar em mais de


1,5% a taxa de inflação dos três Estados-membros com melhores resultados no ano
precedente;
b) déficit orçamentário (diferença entre receita e despesa pública): o déficit deveria, em
princípio, ser inferior a 3% do PIB;
c) dívida: o limite foi fixado em 60% do PIB, contudo, um país com uma proporção en-
dividamento/PIB mais elevada pode adotar o euro, caso o nível da dívida esteja dimi-
nuindo de forma regular;
d) taxas de juros a longo prazo: não deveriam ultrapassar em mais de 2% as taxas dos
três Estados-membros com as melhores taxas de inflação no ano precedente;
e) estabilidade das taxas de câmbio: as taxas decâmbio deveriam permanecer, durante
dois anos, entre as margens de flutuação predefinidas.

Os critérios acima mencionados estavam diretamente relacionados à adoção de moeda


única como instrumento de coesão regional do mercado de bens, serviços, capitais e força
de trabalho. Realizava-se, então, a recomendação da Comissão das Comunidades Europeias:
“[...] as vantagens do mercado único europeu só podem ser amplamente aproveitadas pelos
cidadãos europeus se estas puderem contar, nomeadamente, com taxas de câmbio fixas ou,
mesmo, com uma moeda única” (COMISSÃO DAS COMUNIDADES EUROPÉIAS, 1992).
A abolição das fronteiras para a livre circulação pretendida não poderia prescindir de me-
didas monetárias capazes de superar as rugosidades territoriais impostas pelas moedas na-
cionais. Uma economia em fluxo requeria uma dinâmica monetária adequada, capaz de ser
“transfronteiriça” sem perder a sua estabilidade regional e, de modo especial, assumir um
papel de referência no cenário mundial. A criação do euro e de sua sustentação pelos Estados

anacionais
respostasignatários
à demandadodeTratado de Maastricht
um sistema seria,
monetário no cáculo
sólido, assimdos seusdeartífices
como políticos,
um regime finan-
ceiro próprio para enfrentar a “competitividade global” sob a forma institucional da União
Econômica e Monetária.
Apesar dos aspectos relevantes em termos da circulação de pessoas entre os países aderen-
tes ao Tratado, expressos na proposição da construção de uma “cidadania europeia”, Maastricht
foi fundamentalmente uma conjugação de interesses relativos à construção de um pacto para
a edição de políticas monetária, fiscal e financeira. Estava em jogo o desenvolvimento de uma
política regional vigorosa, porém sintonizada com as transformações em curso no mundo. Para
Jorge Luiz Barbosa | 97

tanto, o papel do Estado seria amplo e imprescindível na condução da unificação, sobretudo


em função da pluralidade dos atores sociais e das escalas territoriais de poder que estavam em
jogo. Portanto, para além da obediência aos receituários neoliberais de adequação do Estado
nacional às formas internacionais da produção e das finanças capitalistas, a União Europeia
matizava uma experiência de constituição de uma instância de poder supranacional.
O debate em torno da relevância do Estado nacional no mundo global tem sido diverso.
Em uma das vertentes do debate, a sua situação é considerada como contraditória diante de
acontecimentos e intencionalidades que estão para além de sua capacidade de intervenção
política e que, até mesmo, seriam conflitantes com o paradigma de ordenamento territorial
representado pelo Estado-nação.
Paul Kennedy (1993) afimava que, diante das imperiosas mudanças globais – econômi-
cas, demográficas, ambientais e militares –, o E stado nacional não era mais a escala adequada
para os desafios da contemporaneidade. Para algumas questões, ainda segundo Kennedy, o
Estado nacional “era uma unidade demasiadamente grande para operar com eficiência, para
outras, era pequena demais” (KENNEDY, 1993, p. 129).
Habermas (1995), embora partindo de uma matriz teórica distinta de Kennedy, também
identificava na transgressão de fronteiras operada pela globalização (inclusive no âmbito da
comunicação) e no multiculturalismo das sociedades contemporâneas, os elementos que limi-
tavam o asseguramento das condições da cidadania democrática por parte do Estado nacional.
A escolha dos dois autores não é fortuita. Ambos desenvolvem as suas argumentações em
pleno período de afirmação do projeto de unificação europeia atualizado em Maastricht. Por
conseguinte, conduzem-nos a duas questões fundamentais: a União Europeia atesta a falên-
cia do Estado nacional como agente jurídico-político de produção e organização do espaço
socialmente construído? O processo de integração dos países europeus é representativo da
incapacidade da escala nacional de intervenção diante das transformações de um mundo cada
vez mais globalizado?
As respostas exigem cuidado e muita atenção para não cairmos em reducionismos teóricos
que acabam por ocultar a complexidade dos fenômenos do mundo da vida. Num primeiro
plano de argumentação, é importante ressaltar que os Estados nacionais europeus envolvidos
na construção da unificação jamais perderam a sua iniciativa política e a capacidade de intervir

no cursopresentes,
fizeram dos acontecimentos.
como veremosÉ evidente que osporém
mais adiante, interesses
isto nãodasdeve
corporações empresariais
nos conduzir se
para conclu-
sões simplistas de que os Estados europeus se tornaram absolutamente servis às grandes em-
presas globais. Como buscamos demonstrar, o avanço das formas de cooperação econômica
se inscrevia em cenários de disputas políticas importantes no cenário mundial e regional. Não
se tratava, portanto, de uma unidade pequena ou grande para determinadas questões, mas
sim da qualidade de enfrentamento das questões por parte do Estado e das possibilidades do
exercício de sua soberania nacional em diálogo com suas intenções continentais.
98 | União Europeia: transformações, crises e desafio s da integração regional

É bem verdade que o poder das organizações multilaterais – FMI, BIRD, OCDE, OMC, OTAN
– demonstra claramente as limitações dos Estado nacionais de regular fluxos cada vez mais
mundializados. Em economias cada vez mais globalizadas, as margens de atuação sobera-
na dos Estados nacionais são reduzidas e, inclusive, ameaçam a sua legitimidade em face da
sociedade civil. Porém, a realização com sucesso das recomendações e imposições dos orga-
nismos multilaterais requer a participação dos Estados nacionais. No caso da União Europeia,
os Estados nacionais foram decisivos para a implantação das medidas necessárias para a ade-
são dos países europeus ao sistema de moeda única. Ou seja, a ação na escala nacional era
condição para ascender ao empoderamento regional/global conferido pelo ingresso na união
econômica e monetária.
Como relembra Castells (1999b), o sucesso da integração europeia advém do fato da não
suplantação do Estado nacional pelas instituições supranacionais que foram sendo criadas.
Tratava-se da instrumentalização de Estados-nações como condição para dar conta tanto de
questões internacionais quanto de caráter nacional, em sua estratégia de desenvolvimento
regional. Tal convergência de interesses em escalas diferenciadas exigiu uma complexa tes-
situra de negociações, acordos e institucionalidades que permitissem um campo flexível
de decisão aos governos nacionais: Comissão Europeia, Conselho de Ministros, Tribunal de
Justiça, Banco Europeu, entre outros, numa Europa que ganhava unificação em redes regio-
nais supranacionais.
Como preconizavam Keohane e Hoffman (1991), a União Europeia buscava encontrar a sua
legitimidade e funcionalidade ao ser organizada como uma rede, envolvendo o compartilha-
mento de soberania, sem a transferência desta mesma soberania para um um nível hierárqui-
co superior. É justamente nesta perspectiva das instituições europeias que Castells (1999b) ar-
gumentou em favor do Estado em rede: “caracterizado pelo compartilhamento de autoridade
(ou seja, em última instância, a capacidade de impor a violência legitimidada) em uma rede”
(p. 407). E, como assegura esse mesmo autor, o “Estado em rede” não significa a inexistência
de relações políticas assimétricas e desiguais entre instituições e instâncias governamentais.
Entretanto, não obstante essas assimetrias e desigualdades, “os vários nós do Estado em rede
europeu são interdependentes, de forma que nenhum nó, nem o mais poderoso, pode ignorar
os outros, nem mesmo os menores, no processo decisório” (CASTELLS, 1999b, p. 407).

receAser
questão da ampliação
a questão de fundoda
doescala de poder
processo de Estadoeuropeia,
de integração em soberanias
pois o compartilhadas pa-
exercício das políticas
de governo supranacional só podem ganhar concretude quando alcançam os lugares da vida,
nos quais as pessoas e suas múltiplas relações se concretizam. Nesse sentido, a União Europeia
ganhava forma ao amalgamar, contraditoriamente, conteúdos do Estado nacional em suas
distintas hierarquias de governo (próprias a cada país e região) com a criação de instâncias de
poder supranacionais.
Como extensão regional dos Estados nacionais, a União Europeia foi precipitada devido à
crise e à consequente fragmentação territorial da União Soviética e dos países do Leste Europeu.
Jorge Luiz Barbosa | 99

Para muitos dos seus artífices políticos, a criação de uma “comunidade europeia integrada” se-
ria a melhor resposta às ameaças de balcanização do continente. Contraditoriamente, no lado
ocidental, a questão da autonomia fundada em reivindicações de caráter territorial começava
a emergir vigorosamente. Na Europafin-de-siècle , os movimentos regionalistas cíclicos que,
com maior ou menor intensidade, empunharam as bandeiras de autonomia territorial, assu-
miram uma expressiva força política fundada em identidades culturais históricas (Catalunha,
Galícia, Bretanha, Sardenha, País de Gales, País Basco). É evidente que estes movimentos de-
monstravam, ao seu modo, os limites do pacto territorial fundador dos Estados-nação e do
próprio conceito de identidade nacional que os consagrou. Linhas de fratura, anteriormen-
te invisibilizadas pela hegemonia política e cultural conformadora da nação, começaram a
emergir no mapa da Europa, expressando a existência de comunidades linguísticas e culturais
subordinadas. As nacionalidades questionavam a Nação, exigindo o reconhecimento de sua
diferença e reclamando o direito a sua própriagraphia no território (ver o Mapa 5).
Muitas dessas reivindicações deram srcem a movimentos de independência nacional,
recorrendo ao uso da violência como estratégia de luta de organizações políticas (ETA – país
Basco/Espanha, e IRA – Irlanda do Norte/Reino Unido) que, por sua vez, foram também vio-
lentamente reprimidas pelas forças militares e policiais dos Estados nacionais constituídos ou
de Estados ocupantes. Outros assumiram dimensões xenófobas como causa motor de movi-
mentos separatistas, inclusive para assegurar a prosperidade econômica de seus territórios
contra a “invasão” de estrangeiros e o próprio controle de poder centralizado – é o caso de
movimentos como os ocorridos na Padânia (Itália) e Flandres (Bélgica) –, demonstrando uma
profunda racionalidade econômica ao reivindicar “passados gloriosos”.
O processo de integração europeia reduziu, em parte, a força de lutas de independência e
os movimentos separatistas, pois afirmar o papel político-institucional dos Estados nacionais
em seu processo de construção fazia com que estes retomassem a legitimidade ameaçada
pelas reivindições de autonomia. A fragmentação territorial estava adiada em função da inte-
gração regional mais ampla.
Retomando as contribuições de Habermas, a globalização da comunicação, instituída a
partir da diferenciação/ampliação de sistemas, redes e organizações, estabelecia novos de-
safios às sociedades e ao próprio Estado nacional. De um lado, oferecia a oportunidade de

superação dadeconcepção
diversidade homogeneizadora
formas culturais da vida, dos de nação (com
diferentes reconhecimento
grupos e visibilidade
étnicos, da pluralidade da
das re-
ligiões etc.) mas, de outro, poderia nos conduzir na direção de um mundo fragmentado na
“multiplicidade de aldeias globais” (HABERMAS, 1995, p. 99). Diante dos impasses e riscos
disparados com a globalização, o filósofo alemão observava a construção de democracias su-
pranacionais como possibilidade de preservar a tradição democrática republicana e promover
o valor universal da cidadania. Cabe-nos, portanto, mais uma indagação: a União Europeia –
“o Estado em rede de instituições europeias” – significava o devir daRes Publica?
100 | União Europeia: transformações, crises e desafios da integração regional

Mapa 4 – Principais regionalismos na Europa Ocidental

O agenciamento da unificação europeia pelas empresas globais

Para Streeck e Schmitter (1991), o processo de unificação europeia, particularmente im-


pulsionado a partir da década de 1980, resultava da combinação de dois grandes interesses
– o das elites do Estado, buscando restaurar sua soberania política gradativamente perdida
em decorrência de uma crescente interdependência internacional, e o das grandes empre-
sas, esforçando-se para superar as sensíveis vantagens competitivas dos capitais japoneses e
norte-americanos.
Em 1985, Wise Dekker, representante da Phillips e presidente da Mesa Redonda Europeia,
lobby da elite empresarial junto à CEE, justificava a necessidade da unificação europeia com o

seguinte argumento:
Uma vez que as economias de escala são necessárias para cobrir o gigantesco aumento dos
custos de pesquisa e do desenvolvimento, tão característicos da tecnologia moderna e que
ultrapassam a abrangência dos mercados nacionais [...]. Economias de escala e velocidade são
também elementos estratégicos utilizados por nossos concorrentes (DEKKER, apud VELLOSO,
1992, p. 361).
Jorge Luiz Barbosa | 101

O cenário de desafios estava mapeado pelas empresas: a reestruturação organizativa


e tecnológica em face do desenvolvimento do meio técnico-científico e o acirramento da
competição com a globalização de mercados de bens, dinheiro e força de trabalho. François
Miterrand aborda o tema em suaLettre à tous les Français:

Consideremos a economia mundial, vemos aí apenas um campo de batalha onde as empresas


travam uma guerra sem tréguas. Não há prisioneiros. Quem for vencido, morre. A exemplo da
estratégia militar, o vencedor se inspira sempre em regras simples; a melhor preparação, os
movimentos mais rápidos, a ofensiva no terreno adversário, bons aliados, a vontade de vencer...

Os exageros das metáforas do presidente da França não reduzia a dimensão dos desafios
postos às empresas europeias, especialmente diante do quadro acirrado da competitividade
global. A constituição de bloco de poder reunindo Estado e empresa era condição primeira
para vencer a guerra do mercado. A criação de uma Europa competitiva, sobretudo capaz de
assegurar posições no mercado-mundo, alimentava a construção de um consenso entre agen-
tes do Estado e do empresariado, agora unidos em prol de umasaída europeia para a crise de
acumulação das corporações empresariais.
A integração europeia em análise tornou-se, desde as suas primeiras experiências, um
movimento de associação de grandes indústrias, bancos, seguradoras, grupos financeiros e
empresas de transporte. Configurava uma geografia complexa da divisão técnica do traba-
lho entre filiais das mesmas corporações e firmas associadas de distintas latitudes. Segundo
Emerson (1988), a unificação do mercado europeu proporcionava ganhos significativos em
decorrência dos seguintes fatores:

a) redução dos custos em função de uma mais adequada exploração de economias de


escala;
b) maior eficiência das empresas, com racionalização das estruturas industriais e uma
fixação dos preços mais próxima dos custos de produção;
c) cooperação entre empresas com baseem vantagens comparativas;
d) fluxo de inovações –de novos processos enovos produtos –estimulado pela dinâmica

do mercado.
Embora os nexos de eficiência e rentabilidade resultem em ganhos prioritamente para as
grandes empresas, relevantes experiências reunindo pequenas e médias empresas merecem
destaque em termos de cooperação produtiva e inovação tecnológica para o ingresso no mer-
cado regional e mundial. Distritos e zonas especiais de localização industrial começaram a sur-
gir no entorno de metrópoles regionais, ganhando importância estratégica ao valorizar agen-
tes econômicos locais na articulação entre o regional e o global. Podemos identificar, inclusive,
o crescimento econômico exógeno de regiões sob o impulso de pequenas e médias empresas,
102 | União Europeia: transformações, crises e desafios da integração regional

demonstrado na paradigmática “Terceira Itália”,3 e o promovido pela associação de empreen-


dimentos regionais na forma declusters empresariais, a exemplo de Baden-Würtemberg, na
Alemanha.
Todavia, não seria apenas a estratégia de livre circulação o motor exclusivo para o cres-
cimento das empresas. É preciso considerar os investimentos da Comunidade Europeia para
desenvolvimento tecnológico e científico, em parceria com empresas privadas, com destaque
para os projetos estratégicos como o Ariadne (foguetes para o lançamento de satélites), Super
Phénix (energia nuclear), Esprit (informática), Airbus (aviões comerciais), Bride (biotecno-
logia) e Eureka (inovações tecnológicas). Tratava-se, sem dúvida, da busca pelo domínio de
novas tecnologias de ponta para enfrentar a competição econômica (e política) com Estados
Undios e Japão.
É nesse sentido que podemos afirmar que a política regional estabelecida no processo
de unificação foi um importante suporte para a expansão de empresas privadas, muitas de-
las constituindo oligopólios concentradores de dinheiro, técnicas e bens para além de suas
fronteiras nacionais. Como alertava um estudioso do período em tela, na unificação europeia
estava em causa as escalas de ação das firmas que não poderiam mais seguir enfrentando
os limites de fronteiras administrativas, da proteção governamental a empresas pouco com-
petitivas, das regulamentações nacionais de indústrias e bancos, dos padrões localizados de
produção, do tratamento desigual na tributação de lucros, das taxas de câmbio de variação
nacional e das exigências sanitárias consideradas anacrônicas (HOFFMAN, 1989).
Em 1985, sob pressão das “empresas comunitárias”, o Tratado de Roma é revisto, sendo
suspensas 300 barreiras alfandegárias, além da harmonização de padrões de bens industriais
e da regulamentação da concorrência para o setor privado e dos critérios para os subsídios
estatais. As quatro liberdades que sustentavam a unificação mostravam-se estratégicas para
as intencionalidades das empresas. A cooperação assumia a fisionomia de um forte proces-
so de concentração de capital, a partir de aquisições e fusões de empresas: Ferruzi e Leusier;
Siemens e Plessey; Martini & Rossi e Bénédictine; Deutsche Bank e Morgan; Volvo e Renault.
As grandes empresas tornavam-se megaempresas, multiplicando seus poderes e exigindo a
ampliação de sua “geografia de negócios”.
O entrelaçamento competitivo de interesses privados, que era forjado no processo de inte-

gração
um europeia, apresentava
neoprotecionismo, um cenário
denominado no qual
Fortaleza muitos
Europa analistas
(OHMAE, identificavam
1985). Ledo engano.a edição de
A Europa
unificada estava sendo construída para atrair bons investimentos, inclusive com a presença di-
reta das empresas nipônicas e nor te-americanas em associação com as europeias, a exemplo
das alianças entre a Ford e a Jaguar, IBM e Siemens, Honda e Rover, Mitsubishi e Daimler-Benz,
Fujitsu e ICL, entre outras.

3
Na região de Emília-Romana, uma das centralidades da Terceira Itália, 90% das indústrias manufatureiras eram compostas por pequenas
firmas, empregando 58% do total da força de trabalho da região. Em Modena e Reggio Emília, mais de 200 minúsculas fábricas de cerâ-
mica respondiam, em 2000, por 80% da produção italiana e por 27% da produção mundial de ladrilhos.
Jorge Luiz Barbosa | 103

A reestruturação das corporações empresariais sob primado da racionalidade competiti-


va não se impuseram como força hegemônica exclusivamente por meio da incorporação dos
avanços dos meios técnico-científicos que a tornaram, digamos, mais competivas na configu-
ração dos mercados europeu e mundial. A “reengenharia empresarial” foi acompanhada por
mudanças significativas nas relações de trabalho, sobretudo no que diz respeito à adoção de
“contratos flexíveis”entre patrões e empregados, implicando a redução de direitos trabalhistas
arduamente conquistados.
Como enfatizam diferentes autores (HARVEY, 1993, 2003; HOBSBAWM, 1994; CASTELLS,
1999a, 1999b), o período em tela foi marcado por uma profunda reestruturação técnica e or-
ganizacional das empresas diante da aceleração global da competição, fato que implicou o
crescimento do desemprego, acompanhado do declínio dos sindicatos de trabalhadores como
instância de ação política; muitos destes, é bem verdade, enfraquecidos pela hostilidade dos
governos neoliberais e pelos pactos políticos celebrados com os governos social-democratas.
As condições de mobilização, de resistência e de proposição política da classe trabalhadora
europeia – particularmente dos países e regiões de menor desenvolvimento industrial e de
experiência democrática institucional – estavam limitadas em uma das conjunturas mais des-
favoráveis de sua história de lutas políticas e sociais.4
A União Europeia estava sendo constituída como um mercado fundado na reestruturação
das corporações empresariais em sua fase de “racionalidade competitiva” global. Portanto,
muito distante das esperanças de Habermas e dramaticamente próxima de um cartel de inte-
resses privados e metas geoestratégicas regionais.

As duas últimas décadas de União Europeia: transformações, desigualdades e


crises do processo de integração regional

Em um discurso de extremo otimismo, publicado pela Direção-Geral de Imprensa e


Comunicação da Comissão Europeia, em 2003, era afirmada a conquista plena dos objetivos
maiores da unificação:

O progresso econômico e social e a melhoria constante das condições de vida e de trabalho

são objectivos
monstra fundamentais
claramente da Uniãoeconómica
que a integração Europeia. A(supressão
experiênciadosdasobstáculos
últimas cinco décadas
à livre de-
circulação
de mercadorias, serviços, capitais e pessoas) oferece à Europa muito mais oportunidades de
criação de emprego e de crescimento sustentável. Muito já foi conseguido: a união aduaneira,
seguida do mercado único e, mais recentemente, a União Económica e Monetária (UEM).

4
Os países de menor industrialização em seu conjunto apresentavam os efeitos mais danosos da crise econômica na CEE, a exemplo da
Espanha (21,5%) e da Irlanda (17,4%), que exibiam as duas maiores taxas de desemprego em 1985. Interessante observar que, na recente
crise pós-2008, também os efeitos mais perversos se verificaram sobre esses dois países, mais Grécia e Portugal.
104 | União Europeia: transformações, crises e desafios da integração regional

Nesta mesma publicação, era realizado um balanço da experiência de dez anos de


Maastricht:

O mercado único abriu novas possibilidades de realização do enorme potencial económico eu-
ropeu. No período de dez anos entre 1992 e 2002, graças ao mercado único, o PIB do conjunto
da UE cresceu mais 1,8%. Além disso, o mercado único teve os seguintes efeitos:
• gerou prosperidade suplementar no valor de quase 900 mil milhões de euros – cerca de
6 mil euros por agregado familiar – nos seus primeiros dez anos;
• criou, desde 1992, cerca de 2,5 milhões de postos de trabalho na UE que não existiriam
sem a abert ura das fronteiras;
• contribuiu para o aumento de 30% do comércio de produtos manufacturados na UE
desde 1992, aumentando desta forma a liberdade de escolha dos consumidores e fo-
mentando a concorrência;
• foi um elemento essencial no estímulo dos fluxos de investimento directo na UE que
foram multiplicados por 12 entre 1992 e 2000;
• estimulou novo investimento directo estrangeiro na UE;
• tornou a UE mais competitiva internacionalmente. Por exemplo, as exportações da UE
para os países terceiros, que representavam 6,9% do PIB da UE em 1992, passaram para
11,2% em 2001;
• assegurou uma repartição mais eficiente das competências, ao permitir que as pessoas
aproveitassem as oportunidades de trabalho noutros países da UE;
• impulsionou o poder de compra, através da pressão sobre os preços. A diferença entre
os preços mais altos e mais baixos da UE reduziu-se e alguns produtos são mais baratos
em termos absolutos.

São reconhecíveis os alcances econômicos da União Europeia que, desde 1995, já contava com
o ingresso de Áustria, Finlândia e Suécia, perfazendo 15 países signatários. Todavia, as informações
oficiais não explicitam os custos sociais que também se fizeram presentes na obediência aos critérios
de adesão estabelecidos em Maastricht perda
(a de direitos trabalhistas e o desemprego promovidos
pelos ajustes econômicos e fiscais, o crescimento do trabalho temporário com a flexibilização das rela-

çõesOutra
contratuais
questãoe a redução dos investimentos
ser considerada diz respeitopúblicos de proteção
à concentração social). do desenvolvimento
socioespacial
econômico, explicitamente evendenciada nos dez anos de Maastricht. Trata-se, na verdade, de uma
dinâmica urbana reforçada (ou mesmo consolidada) no seio das políticas de “cooperação comunitária”
em seu corolário territorial.
Esse processo possui como “personagens” principais as metrópoles, que já reuniam uma história
de concentração industrial
, financeira, demográfica e política,além de conformarem extensas regiões
urbanas sob seu comando. Londres, Paris, Munique, Milão, Barcelona e Bruxelas configuravam os pi-
lares dessa dinâmica urbana concentradora. Todavia, o caminho também estava posto para cidades
Jorge Luiz Barbosa | 105

dotadas de economias abertas à internacionalização (PERULLI, 1995) e que ganhavam suas posições
de destaque ao se tornarem sedes de corporações transnacionais, por abrigarem centros universitários
e de pesquisa, ou mesmo por serem dotadas de serviços adequados para atrair empreendimentos
ao seu âmbito territorial (bancos, financeiras
, seguradoras, imobiliárias, indústrias de alta
tecnologia,
companhias de turismo).
Esse processo combinado de concentração e difusão metropolitana ganhou a forma de uma
imensa “dorsal urbana” do Mediterrâneo ao Atlântico (Mapa 6), integrando grandes áreas metropo-
litanas como as de Londres, Paris, Munique e Milão, as cidades nodais do comércio, da indústria e da
finança como Roterdã, Bruxelas, Frankfurt, Amsterdã e Zurique, a região urbana multipolarizada do
Rhur (Dusseldorf, Colônia, Essen),metrópoles regionais comoLyon, Barcelona eurim,T ascidades das
indústrias de alta tecnologia como Stuttgart e Bolonha,e cidades da ciênciacomo Grenoble. Esse con-
junto urbano significa a“empiricização” da integração europeia, tendo o capital financeiro e o capital
industrial como seus principais tífices.
ar
A densidade demográfica, financeira, comercial e tecnológica da “dorsal urbana” se fez acompa-
nhar de uma ampla e diversificada rede de transportes e circulação, configurando uma economia de
fluxos que a destaca como espaço por excelência de realização das quatro liberdades preconizadas
pelo Tratado de Maastricht. Consolidava-se o processo de concentração urbano-regional da realiza-
ção do capital, denominado por Olivier Dolffus (1997) como arquipélago megapolitano ; espacialidade
diferencial onde se exerce a sinergia entre as diversas formas do terciário superior e do quaternário
(inovação tecnológica e atividades de direção), exprimindo as densas articulações entre cidades que
pertencem a uma região e entre os grandes polos mundiais da produção/circulação/acumulação
capitalistas. Podemos falar então da generalização do urbano como forma/produto de realização do
capitalismo em seu estágio global.
À urbanização regional concentrada soma-se o ingresso de dez novos países em 2004 – Polônia,
Estônia, Letônia, Lituânia, Repúblicacheca,
T Eslováquia, Hungria,Eslovênia, Malta e Chipre –,impul-
sionando um rápido alargamento territorial da UE na direção do Leste Europeu. Entre os novos ingres-
santes, como podemos observar, estavam países que outrora haviam pertencido à esfera de influência
da União Soviética e, portanto, experimentavam proces sos significativos de reformas capitalistas em
suas respectivas sociedades. Alguns deles já haviam aderido à Organização do Tratado do Atlântico
Norte (OTAN), a exemplo da Polônia e da República Tcheca (1999), como passaporte para a sua entrada

na União Europeia.
A presença desses novos países significava o enfrentamento de grandes desafios. Os novos ade-
rentes à União Europeia, especialmente os da Europa-Leste, eram sociedades que possuíam econo-
mias apoiadas em atividades agrícolas e, em termos de industrialização, algumas contavam com par-
ques produtivos obsoletos quando comparados aos países da Europa-Oeste. Para além das questões
econômicas e tecnológicas, a herança “modelo
do soviético de socialismo” estava posta nas profundas
questões sociopolíticas
, sejam estas diretamente vinculadas à relação entre a sociedade civil
o Estado
e
( na construção do sentido da democracia em cada país), ou mesmo no que concerne à garantia de
direitos fundamentais à população (educação, saúde, habitação, trabalho, seguridade).
106 | União Europeia: transformações, crises e desafios da integração regional
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Jorge Luiz Barbosa | 107

Esse quadro de realidade ofuscava os cenários otimistas da expansão da fronteira da UE


para a Europa-Leste (fato acentuado com a adesão da Bulgária e da Romênia, em 2007) como
possibilidade de ampliação do mercado de consumo para “empresas comunitárias” (com o in-
gresso de mais 100 milhões de “cidadãos europeus”!) e, sobretudo, para a redução e controle
dos fluxos migratórios para os membros da Europa-Oeste. É impor tante destacar esse segundo
item, uma vez que a migração é tema, permanentemente, na pauta da Comissão de Bruxelas,
sobretudo pela dimensão política do fenômeno e pela preocupação recorrente dos Estados
europeus sobre a matéria.
De início, devemos considerar que a Europa historicamente se constituiu como um espaço
de migrações regionais e continentais. Podemos afirmar, inclusive, que a diversidade étnica é
uma marca indelével da geografia europeia. Todavia, também podemos afirmar que, embora
tenha se constituído como encruzilhada de povos, culturas e religiões, a Europa possui uma
experiência de tratamento das diferenças que se caracteriza muito mais pelo apartamento do
outro do que pelo seu acolhimento.
Um dos momentos importantes da migração regional e internacional tem como referência
o pós-Segunda Guerra Mundial. A “solução demográfica” para a recomposição do mercado de
trabalho dos países em recuperação econômica – Inglaterra, Alemanha e França, notadamen-
te – foi a contratação de trabalhadores emigrados de países europeus (Portugal, Espanha),
das colônias e ex-colônias da África do Norte e da Ásia Ocidental e, no caso particular da
Alemanha, a contratação de trabalhadores vindos da Turquia.
Mais de 20 milhões de emigrados haviam adentrado em solo europeu em busca de trabalho e
abrigo até a última década do século XX (Eurostat, 1996). Emsua imensa maioria, os trabalhadores ex-
tracomunitários ocuparampostos que exigiammenor qualificação profissional e, consequentemente,
de baixos salários e de condições contratuais precárias. Além disso, devido à ausência de políticas de
integração/assimilação às sociedades receptoras, foram relegados à condição de um subestrato de
classe operária desprotegid
o pelas leisde regulamentação do trabalho, de frágil organização sindical e
de limitado acesso às ofertassociais do Estado de Bem-Estar.
Sabidamente, pesam sobre os imigrantes, além de sua pobreza material, a srcem étnica
e a identidade cultural, como fatores de negação de sua integração como cidadãos plenos nos
países europeus. E, em cada conjuntura econômica adversa, os trabalhadores emigrados pas-

savampredadores
como a ser sumariamente responsabilizados
dos serviços peloaflorar
públicos, fazendo desemprego dos “nativos”
os preconceitos raciaise considerados
e as reações
xenófobas violentas. Todavia, não são apenasmodos de intolerância da presença do diferente
que estão em causa. As restrições atualmente estabelecidas no âmbito da União Europeia, em
relação à entrada de pessoaspertencentes a certos grupos religiosos, habitantes de países
em guerra, países em extrema situação de pobreza ou países com histórico de exportadores
de drogas, configuram-se como uma política de criminalização de imigrantes e refugiados
pobres, inclusive os das ex-colônias, considerados indesejáveis no território europeu por “com-
petir” pelo acesso a recursos públicos e privados. Tais ações afrontam claramente o artigo 21
108 | União Europeia: transformações, crises e desafios da integração regional

da Carta de Direitos Fundamentais da União Europeia: “[...] se proíbe toda discriminação, e


em particular, a exercida por razão de sexo, raça, cor, srcem étnica ou racial, características
genéticas, língua, religião ou de convicções, opinião política, ou de qualquer outro tipo de pertença a
uma minoria nacional [...].” (DIÁRIO OFICIAL das Comunidades Européias, 2000)
O combate à presença considerada indevida de estrangeiros – e de seus descendentes – vem
assumindo uma dimensão supranacional, sendo objeto da lei de repatriação (incluindo a detenção
como recurso para extradição) aprovada pelo Parlamento Europeu em 200 8, com o objetivo de “har-
monizar” a atuação dos países-membros em relação ao tratamento dos imigrantes ilegais. 5
O recrudescimento de posições conservadoras e, no limite, reacionárias, de tratamento
do diferente, vem assumindo, na Europa unificada, uma perigosa demarcação de campos ci-
vilizatórios/religiosos. A defesa de “raízes civilizatórias cristãs” da Europa como superiores a
outras matrizes, sobretudo em relação à árabe-muçulmana, vem sendo responsável pela ma-
nipulação de sentimentos (e de ressentimentos) de hostilidade contra imigrantes e minorias
étnicas (a exemplo dos ciganos). Discursos, campanhas e leis hostis aos considerados como
fora da humanidade reiventam o recurso da defesa da identidade nacional como mercadoria
política nas mãos de grupos, partidos e governos conservadores, especialmente em períodos
socioeconômicos mais críticos e de disputas eleitorais acirradas.
Não devemos, entretanto, deixar de ressaltar a importância das lutas políticas e estra-
tégias cotidianas de resistência dos imigrantes6 e de grupos de defesa de direitos humanos
pela legitimidade de sua permanência nos países onde trabalham e residem, inclusive, com o
reconhecimento de sua dupla cidadania. Resultam desses movimentos os avanços, apesar de
tímidos, na legislação de proteção aos direitos civis e sociais dos imigrantes e de suas famílias
em alguns países filiados à União Europeia.
A União Europeia se constituiu como uma região de desigualdades, apesar de seu dis-
curso estar referendado no “progresso econômico e social e na melhoria constante das con-
dições de vida e de trabalho”. Para muitos analistas, houve um alargamento desmedido, e
por demais ambicioso, da União Europeia, criando situações desiguais entre os seus mem-
bros. Entre elas, a dos que pertencem e dos que ainda não devem pertencer (particular-
mente os récem-saídos do “socialismo real”: Bulgária, Hungria, Letônia, Lituânia, Polônia,
Romênia e República Tcheca) à chamada zona do euro, repartindo a UE em dois blocos,

em termos
regional de efetivação
é realizado das políticas
na “zona do euro”).monetária, financeira e comercial (85% do comércio
Por outro lado, questões próprias à cooperação para o desenvolvimento regional não foram com-
pletamente realizadas, fazendo permanecer na Europa nificada
u economias “frágeis”e “sólidas”(como
5
Estima-se que mais de três milhões de imigrantes vivam clandestinamente na UE. Entre 800 mil e 1,2 milhões na Espanha, cerca de 750
mil na Alemanha, meio milhão na França, 250 mil na Itália e na Holanda, mais de 100 mil em Portugal. Na Grã-Bretanha, seu número as-
cende a largas centenas de milhares. A maior parte destes imigrantes é procedente do norte da África, da Turquia, da Índia, do Paquistão,
da África subsaariana e dos Bálcãs (EUROSTAT, 2005).
6
A tessitura de relações de pertencimento, a par tir de elementos culturais, religiosos e linguísticos, vem sendo uma experiência de coesão
política e social das mais relevantes entre os imigrantes de diferentes nacionalidades.
Jorge Luiz Barbosa | 109

dizia o chanceler alemão), ou melhor, com profundas desigualdades em termos de riqueza e poder. Tal
questão reaparece em momentos de recrudescimento da crise estrutural do capitalismo nos últimos
dez anos, particularmente impulsionada pela especulação financeira, e que vem se colocando como
um dos maiores desafios à integração regional supranacional sob o crivo do euro.
Curiosamente, o ingresso na União Europeia fez com que determinados países tivessem acesso a
uma “moeda global” para financiar gastos públicos e privados que, em tese, proporcionariam o desen-
volvimento de suas economias. Esse foio curso seguido porpaíses como Grécia e Irlanda que, guardan-
do as devidas proporções, são marcados pela limitação de suas economias quando comparados aos
parceiros da Europa-Oeste, portanto, muito mais expostos às ações predatórias do capital financeiro.
O descontrole fiscal e a dívida pública que comprometeram o PIB dos dois países citados, e que
também atingiram as economias de Portugal e Espanha, são demonstrações inequívocas do sistema
econômico ambíguo da União Econômica e Monetária, uma vez que possui uma política econômica
regionalmente integrada, mas comuma política fiscal particular a cada país.
Os atuais problemas, portanto, como informa Geraldo Della Paolera (EL PAÍS, 14 fev. 2010),
estão na própria srcem do euro, o seu pecado srcinal de unificar a política monetária entre
seus Estados-membros e preservar a soberania destes em termos de suas obrigações fiscais.
Por outro lado, os níveis de vigilância estabelecidos pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento
(PEC) não foram eficazes para controlar ou mitigar os graves problemas econômicos emergen-
tes na eurozona, a exemplo dos déficits comerciais, especulação imobiliário-financeira e da
expansão artificial dos créditos bancários, que provocaram a crise na Grécia e na Irlanda. Não
é sem maiores surpresas que os déficits fiscais (Quadro 4) passaram a ser um tormento para a
regulação macroeconômica dos países europeus.

Quadro 4 – Déficit fiscal em relação ao PIB de alguns países da UE (2009)


País DéficFitiscal
Inglaterra 14 %

Grécia 13 %

Islândia 13 %

Irlanda 12 %

Espanha 12 %

França 8%
Portugal 8%

Itália 5%

Alemanha 3%
Fonte: Eurostat, 2009

A situação aberta com as crises de Grécia, Irlanda e Portugal (com possibilidade de amplia-
ção para outros países) colocou em questão a credibilidade (por que não dizer, a artificialidade)
110 | União Europeia: transformações, crises e desafios da integração regional

do sistema monetário da União Monetária Europeia e, mais dramaticamente, implicou medi-


das de austeridade com sérias consequências sociais por parte da Comissão de Bruxelas.
Entre as medidas para reduzir os efeitos da gravidade da crise estavam presentes os em-
préstimos financeiros aos bancos privados (especialmente aos franceses e aos alemães, que
eram os principais credores da Grécia) e aos governos mais afetados pela crise fiscal. É evi-
dente que as economias mais “sólidas”, como a da Alemanha, se tornaram as fiadoras e as
tuteladoras da recuperação das economias mais fragilizadas. Todavia, os empréstimos faziam
parte de um receituário mais abrangente que incluía cortes em políticas asseguradoras de
direitos trabalhistas (aposentadorias por tempo de serviço e reajustes salariais) e de direitos
sociais. Medidas pretensamente austeras – embora profundamente autoritárias – que já se
mostraram, em outros tempos e lugares, incapazes de controlar as corporações financeiras, de
mobilizar investimentos produtivos e superar a dramática destruição de empregos na Europa
integrada.7 O Quadro 5 mostra a situação do desemprego no início de 2010.
As significativas taxas de desemprego demonstram os impactos desiguais e combinados
da crise econômica associada às políticas que visam à saúde fiscal do Estado. Não é ocioso
relembrar que o desemprego vem atingindo grande parte da juventude nos países europeus,
em particular nos vinculados à União Europeia. É este grupo social, inclusive, um dos com-
ponentes mais importantes dos movimentos e das manifestações contra a política social e
econômica em vigor na Europa unificada.

Quadro 5 – Desemprego (abril de 2010)


País Taxadedesemprego
Alemanha 7.1
ReiUnnoido 7,9
Bélgica 8.2
Itália 8.9
França 9.9
Grécia 10. 1
Portugal 10. 4
Irlanda 13. 2
Espanha 19,7
Fonte: Eurostat, 2010

Protestos e mobilizações públicas uniram trabalhadores de diversos países – da França à


Grécia, da Espanha à Irlanda – contra as medidas da Comissão de Bruxelas, implementadas
pelos governos nacionais e devidamente resguardadas pelo Fundo Monetário Internacional.
Em todas estas cenas públicas era posta em causa a defesa de direitos sociais duramente res-
tringidos em nome da estabilidade fiscal e econômica.
7
Segundo as informações do Eurostat (2010), há um total de 20,15 milhões de pessoas desempregadas na União Europeia – exclusivamen-
te na zona do euro são 14,15 milhões de homens e mulheres sem emprego.
Jorge Luiz Barbosa | 111

Os efeitos da crise fiscal e financeira expuseram as limitações da integração regional, so-


bretudo nos termos da união econômica e monetária proclamada em Maastricht. Todavia,
a mobilização em curso dos cidadãos – os que pagarão a conta da predatória acumulação
financeira e da irresponsabilidades das autoridades dos Estados nacionais – exprime a crise
de legimitidade das instituições da União Europeia e a sua incapacidade de garantir as suas
próprias promessas de progresso, paz e segurança para todos os seus cidadãos.

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Rogério Haesbaert

CHINA NA NOVADODINÂMICA GLOBAL-FRAGMENTADORA


ESPAÇO GEOGRÁFICO

Diante do dinamismo e da voracidade com que o Estado chinês tem expandido seus inte-
resses em termos econômicos e políticos nas últimas três décadas, vem logo à nossa mente a
questão: estaria a China moldando um novo processo ou mesmo um novo padrão de globa-
lização – ou melhor, para sermos fiéis à temática deste livro, de globalização-fragmentação?
Ao mesmo tempo que se fortaleceu como um dos Estados econômica e politicamente mais
fortes do planeta, numa transformação considerada por alguns como a mais extraordinária
da história, a China promoveu essa dinâmica conjugada à intensificação das desigualdades
socioeconômicas internas e mesmo a uma espécie de fragmentação política de seu território,
criando toda uma escala altamente diferenciada ou seletiva de abertura aos investimentos
estrangeiros e à entrada de suas distintas regiões nos circuitos do grande capital globalizado.
Tomaremos como eixo norteador deste capítulo, por um lado, essa forte e rápida inserção da
China na economia e na geopolítica globais e, por outro, o caráter indissociável de sua frag-
mentação territorial interna – especialmente em termos socioeconômicos, já que, apesar de
suas profundas diferenças culturais, continua politicamente unificada, sob o domínio de um
regime autoritário centralizado.
A China se tornou a maior potência emergente do mundo contemporâneo, tendo recente-
mente superado o Japão como segunda economia do mundo e com previsões de que poderá
ultrapassar os Estados Unidos até o final da década de 2020 – já tendo superado este país em

termos,
dem mais estritos,
planetária – tantodano
produção industrial.
pós-queda do muro Ela de
joga, assim,(1989)
Berlim um papel-chave na recentemente,
quanto, mais nova des-or-
no pós-setembro de 2001. Junto com a queda do muro veio o fortalecimento do regime auto-
ritário, já exacerbado com a brutal repressão às manifestações por liberdade na Praça da Paz
Celestial ( Tiananmen), no mesmo ano, em Pequim. No pós-2001 firmou-se, definitivamente,
a política de controle político-militar e de abertura seletiva ao capitalismo, capitaneada pelo
Estado e suas empresas, consolidando a China como novo núcleo mundial de poder, em franca
expansão econômica por todos os cantos do mundo.
114 | China: na nova dinâmica global-fragmentadora do espaço geográfico

Apesar de toda a retórica socialista do regime, pode-se até mesmo antever, sob inspiração
dos “ciclos sistêmicos de acumulação” de Arrighi (2009), que estaria em curso a inauguração
de um novo ciclo capitalista capitaneado pela Ásia Oriental, em substituição à hegemonia
norte-americana, moldada a partir do final do século XIX e que passou a decair no final do
século XX, queda evidenciada em conflitos como as guerras do Vietnã e do Iraque, as crises
financeiras (começando pela crise do petróleo dos anos 1970) e, mais recentemente, por meio
do megaterrorismo globalizado.
Uma das evidências mais claras da ascensão da China como grande potência é seu papel
comercial cada vez mais incisivo em relação às “periferias”mundiais: em 2009 (como será anali-
sado mais adiante, no capítulo referente à África), ela se tornou o principal parceiro comercial do
continente africano, e até mesmo na distante América Latina seu papel é crescente em termos
de investimentos e de balança comercial. Um bom exemplo é seu principal parceiro comercial
latino-americano, o Brasil, que viu a China transformar-se no primeiro país do mundo para suas
exportações, e superou Rússia e Índia, vizinhos da China, em 2010, ao tornar-se seu nono par-
ceiro comercial, especialmente em função do peso crescente das importações. A própria com-
posição dessa relação evidencia bem a mudança do papel da China na divisão internacional do
trabalho: o Brasil importa basicamente produtos manufaturados, em que se incluem artigos
como telefones celulares e telas deLCD, e exporta, sobretudo,commodities como ferro e soja.
Cada vez mais a China passa de grande produtor e vendedor de produtos manufaturados
de baixo valor agregado, como ocorria nos anos 1980-1990, para exportador de produtos que
incorporam tecnologias mais avançadas. Assim, sua “periferia imediata” na Ásia do Sudeste,
onde o melhor exemplo é o Vietnã, recebe uma vaga de industrialização baseada em mão de
obra intensiva que antes tinha na costa chinesa (especialmente em suas zonas econômicas
especiais) o seu grande ateliê de produção.
Tal como o Japão no passado, a China – com um crescimento constante e dos mais expressivos do
mundo nas últimas três décadas –tem marcado sua trajetória de sucesso econômico pela incorpora-
ção e aperfeiçoamento de tecnologias provenientes do Ocidente. Dois exemplos desse sucesso são a
liderança chinesa na exploração de minérios em áreas remotas e até há pouco tempo inacessíveis dos
fundos oceânicos (o que acirra disputas já históricas por territórios marítimos com seus vizinhos) e o
empenho do país emdominar e aperfeiçoar atecnologia mais avançada em trens de grande velocida-

de – hoje ogrande símbolo


tecnologicamente da1 mudança
dominantes. de devemos
Além disso, paradigmaressaltar
industrial para ramos
também altament
e inovadores
as pretensões e
do programa
espacial chinês que, na contramão de iniciativas ocidentais (Estados Unidos, RússiaUniãoe Europeia)
para projetos conjuntos, lançou sua própria miniestação no final de 2011planeja
e uma estação orbital
completa entre 2020 e 2022. 2

1
Ironicamente, foi o próprio Japão, por meio de seu fabricante de trens-bala em (antiga) associação com a estatal chinesa do setor, que
forneceu as bases de uma tecnologia que, com um mínimo de aperfeiçoamento, a China tenta agora vender para países como o Brasil e
até mesmo os Estados Unidos. Seus trens de alta velocidade já conformam a mais extensa rede do mundo e num ritmo apenas sonhado
por grandes cidades norte-americanas.
2
CHINA quer lançar miniestação espacial até o final deste ano. Folha de S. Paulo, 31 jul. 2011.
Rogério Haesbaert | 115

Segundo o jornal inglês Financial Times, a China desmente a crença de muitas empresas
ocidentais de que o país só alcançaria o seu nível tecnológico num prazo de muitas décadas. Tal
como fizeram os próprios Estados Unidos no passado, ela vive uma fase de fiscalização branda
das leis de propriedade intelectual, o que acarreta não só a conhecida “pirataria informal” de
produtos de consumo de massa ligados a empresas privadas como também a absorção de tec-
nologias sofisticadas com aprovação estatal, numa clara política de transformação do padrão
industrial dominante. Como lembra muito bem o jornal inglês, “é difícil resistir isoladamente
quando a China exerce controle sobre as aquisições da3 segunda maior economia do planeta
e sobre o maior mercado mundial para infra-estrutura”,especialmente em períodos de crise
nos países centrais como o pós-2008.

A força político-cultural da civilização chinesa e


o legado socioeconômico do “socialismo real”

Ainda que de forma breve, é muito importante destacarmos alguns dos elementos de fun-
damentação histórica e cultural que ajudam a compreender o fato de a China ser, nos nossos
dias, a potência emergente que tanto se propaga. A China é um império milenar, que já cons-
tituiu uma das civilizações mais ricas e inovadoras do planeta, o que ajuda a explicar o orgulho
que seu povo nutre ainda hoje por sua cultura e pela unidade de seu vasto território – em
parte, ainda, um “império”, se considerarmos o domínio que a maioria étnica han exerce sobre
áreas como o Tibet e par te da Mongólia, budistas, e o Sinkiang turcófono-muçulmano.
Em várias regiões do mundo, muitas vezes a identidade (étnica e/ou nacional) acaba sen-
do reinventada ou revigorada em função de períodos de crise social, política e econômica. Na
China, porém, ao contrário da Rússia nos anos 1990, não é em função de uma crise que a identi-
dade nacional é reforçada – ao contrário, é a partir doboom econômico e da paralela necessida-
de, dentro do modelo instituído, de um estritocontrole político sobre a liberdade deexpressão.
Faz-se uso, assim, do fortalecimento do discurso nacionalista como uma forma de corroborar a
unidade do Estado e calar as dissidências. Eventos globais como os Jogos Olímpicosde 2008, em
Pequim, ajudaram a retomar mitos de um passado glorioso (como o da “civilização” de maior
continuidade histórica que se conhece e a mais brilhante do mundo em plena Idade Média eu-
4

ropeia), vinculado
amalgamar a coesãosobretudo à identidadeàmajoritária
social indispensável manutençãohan.
de Trata-se de um
um sistema pré-requisito
político ditatorial,para
se-
riamente questionado por parcela expressiva da população, especialmente por ocasião do mo-
vimento (e posterior massacre) da Praça da Paz Celestial (Tiananmen) em 1989, em Pequim.
Segundo Arrighi (2006), a China constituía também o maior mercado nacional no século
XVIII e foi o Estado de maior duração contínua que se conhece. Sua tradição de paz (teriam
3
CHINA toma um atalho para se desenvolver. Folha de S. Paulo, 19 dez. 2010.
4
Segundo Braudel (1989), a China consolidou seu império pelo meno s desde a dinastia Chin (221 a.C.), construindo, assim, uma instituição
imperial que perdurou por 22 séculos.
116 | China: na nova dinâmica global-fragmentadora do espaço geográfico

sido 300 anos sem conflitos sérios, do século XVII ao XIX) e maior preocupação com a manu-
tenção das fronteiras do que com o expansionismo continental e ultramarino colocavam, para
Arrighi, uma distinção fundamental em relação ao sistema de poder europeu, em permanente
competição militar interna e geograficamente expansionista. Apesar da paz duradoura e da
importância de sua economia de mercado:

[...] a falta de envolvimento na expansão ultramarina e na corrida armamentista à moda euro-


péia tornou a China e todo o sistema asiático-oriental vulneráveis ao massacre militar das potên-
cias européias em expansão. Quando houve o massacre, aconclusão inevitável foi a incorporação
subordinada da Ásia orientalao sistema europeu globalizante. (ARRIGHI, 2006, p. 342)

Não é de hoje, entretanto, que uma vocação globalizadora se faz sentir no contexto chinês.
Basta lembrar a famosa história das proezas de seus navegadores que teriam chegado até a
costa oriental da África e, para algumas interpretações, poderiam até mesmo ter alcançado e
“descoberto” a América. Por outro lado, a ideia de uma “civilização” chinesa, ainda hoje difun-
dida,5 revela a força cultural de um povo e/ou de um Estado que, reiteradamente, afirmou sua
vocação hegemônica, pelo menos na região do Extremo Oriente asiático.
Não é demais lembrar que, naquela região, apesar de todas as especificidades coreana
e japonesa, a China constituiu o núcleo básico fundador através de duas fontes culturais, o
confucionismo e o taoísmo. A influência dessas bases culturais é tamanha que houve até mes-
mo autores que caracterizaram o capitalismo implantado naquela área como um “capitalismo
confuciano” (vide o economista M. Morishima para o caso japonês).
Além dessas raízes culturais (ou “civilizacionais”) bem mais longínquas, é fundamental
entender o atual processo de globalização chinês a partir das bases socioeconômicas implan-
tadas no decorrer de sua abertura ao imperialismo ocidental, especialmente no século XIX e,
mais recentemente, nos cerca de 60 anos de “socialismo” – termo que os atuais governantes
ainda insistem em utilizar. Para entendermos a instalação desse “socialismo real” – ou, como
alguns preferem, “capitalismo burocrático” ou estatal, pelo papel desempenhado pelo estra-
to burocrático dominante, grupo privilegiado em parte equivalente à burguesia dos países
capitalistas6 – é importante relembrar alguns pontos da história do grande império chinês.

Hoje,1980,
anos muitaspodem
das contradições vividas também
ser compreendidas pela China após seu
quando período de abertura,
nos reportamos a partirmais
a esses períodos dos
distantes.
Ao contrário do vizinho Japão, a China abriu-se (ou foi forçada a abrir-se) de forma indis-
criminada ao imperialismo ocidental durante o século XIX, por meio de concessões às várias
5
Como na identificação de uma “civilização sínica” expressa por Samuel Huntington em sua polêmica divisão do mundo em “civilizações”
(HUNTINGTON, 1997). O autor distingue, é importante ressaltar, a civilização “sínica” da civilização “budista”, dominante no Tibet, mas,
surpreendentemente, não identifica, pelo menos em seu mapa, a “civilização islâmica” presente no Sinkiang.
6
Castoriadis (1985, p. 21) utiliza os termos “estratocracia (stractos = exército)” e “capitalismo burocrático total” para o caso da ex-União
Soviética. Já Hobsbawm (1995, p. 464) denomina o “sistema socialista” de “economias de comando centralmente planejadas”.
Rogério Haesbaert | 117

potências econômicas da época. Mesmo a proclamação da República, em 1911, não repre-


sentou mudanças significativas na política espoliadora que havia se estruturado no país. O
agravamento da miséria e das lutas internas constituiu um campo fértil para a consolidação
do Partido Comunista e sua defesa do campesinato excluído e/ou explorado. Ao contrário do
modelo “socialista” implantado na ex-União Soviética a partir da revolução de 1917, na China
o papel dos camponeses, que constituíam mais de 80% da população, foi primordial para a
construção do projeto maoísta, calcado, a par tir de determinado momento, na formação das
famosas comunas populares rurais autossustentadas.
Desde o período imperial clássico, a China manifestava um vivo contraste entre a opulên-
cia vivida pelos membros da corte e pelos mandarins da elite intelectual e a situação de penú-
ria de uma enorme massa de despossuídos que constituíam as maiores vítimas dos grandes
conflitos, das fomes endêmicas e da extorsão realizada por meio de tributos governamentais.
O ideário socialista fundamentado na teoria mar xista-leninista reformulada por Mao utilizava,
de forma direta ou indireta, elementos da cultura confuciana e taoísta e sua tradição comu-
nitária. Ele teve, assim, um grande respaldo popular e acabou se fortalecendo, também, a
partir da situação de crise (lembrando que a Revolução Chinesa ocorreu em 1949, logo após a
Segunda Guerra Mundial). Como afirma Hobsbawm:

Quando tomaram a China, em 1949, tendo varrido quase com desprezo as forças do
Kuomintang [Partido de Chiang Kai-Shek] numa breve guerra civil, os comunistas eram todos,
com exceção dos restos do poder do Kuomintang em fuga [refugiados logo depois em Taiwan],
o governo legítimo da China, verdadeiros sucessores das dinastias imperiais após um interreg-
no de quarenta anos [desde a proclamação da república, em 1911]. E foram tanto mais a ceitos
como tais porque, com sua experiência de partido marxista-leninista, puderam forjar uma
organização disciplinada nacional capaz de levar a política do governo do centro até as mais
remotas aldeias do gigantesco país – como devia fazer, na mente da maioria dos chineses,
um império de verdade. [...] Para a maioria dos chineses, tratava-se de uma revolução que era
basicamente uma restauração: de ordem e de paz, de bem-estar; de um sistema de governo
cujos funcionários públicos se viam apelando para precedentes da dinastia T’ang, da grandeza
de um excelso império e civilização. (HOBSBAWM, 1995, p. 454 e 455)

O projeto revolucionário, contudo, não teve o êxito inicial almejado. Hobsbawm respon-
sabiliza, em parte, as decisões arbitrárias e incontestadas do “grande timoneiro” Mao pelas
“duas décadas de catástrofes que se seguiram aoboom econômico que elevou a produção de
grãos em mais de 70% entre 1949 e 1956” (HOBSBAWM, 1995, p. 452). Para se ter um ideia, a
produção de grãos por habitante, que fora de 310kg em 1956, só voltou a este nível em 1975
(LARIVIÈRE; SIGAULT, 1991). O maoísmo nutria-se de um “utopismo muito chinês” que envol-
via uma espécie de “misticismo coletivista” onde:
118 | China: na nova dinâmica global-fragmentadora do espaço geográfico

[...] a ênfase característica no poder de transformação espiritual para se conseguir [a realização


do indivíduo], remodelando o homem, embora recorra à crença de Lênin e depois de Stálin, na
consciência e no voluntarismo, foi muito além dela. [...] sem a crença em que “forças subjetivas”
eram todo-poderosas, e que os homens podiam mover montanhas e tomar o céu de assalto se
quisessem, são inconcebíveis as loucuras do “grande salto avante”[projeto de industrializaçãoul-
trarrápida proposto em 1958 e que incluía a construção de dois milhões de pequenos alto-fornos
em zonas rurais e urbanas]. (SCHWARTZ, 1966 apud HOBSBAWM, 1995, p. 453)

A China partiu para uma coletivização muito mais radical do que a então União Soviética,
fundando o que alguns consideravam o exemplo mais acabado de comunidade socialista, as
famosas comunas populares que visavam à autossuficiência nos mais diversos setores. Em ter-
mos de organização de um espaço de dimensões continentais, sua proliferação por todo o país,
em alguns meses no ano de 1958, representou de fato uma revolução:

No espaço de dois meses, a quase totalidade das 740.000 cooperativas socialistas foi amalga-
mada em 24.000 comunas, cada uma delas reagrupando cerca de 30 cooperativas, ou seja, em
torno de 4.000 ha de terra e 5.000 famílias. [.. .] Evocava-se então, através delas, perspectivas
verdadeiramente grandiosas. “Seis anos de trabalho duro e de privações para dez mil anos de
felicidade”. A realidade foi logo a maior desordem. Desejava-se tudo coletivizar, inclusive os
lotes individuais, e por vezes as casas, até mesmo os móveis; e proibir os mercados privados.
Comia-se em cantinas, onde o alimento era desperdiçado (falava-se mesmo de vestuário e
funerais gratuitos); trabalhava-se dia e noite [...]. “As mulheres seriam assim liberadas dos
trabalhos domésticos”. [...] Mas o fracasso foi logo tremendo, do ferro aos cereais. (DUMONT,
1984, p. 60 e 61)

Mao foi obrigado a “voltar atrás” e fazer uma “autocrítica”. Calamidades naturais e a rup-
tura com a União Soviética, que assegurava importante assistência técnica, acentuaram ainda
mais o fracasso econômico que levou aos “anos negros” de 1959 a 1961, quando, segundo
Dumont (1984), estima-se que morreram 15 milhões de pessoas devido à subnutrição (é im-
portante ressaltar, contudo, que vários períodos de fome anteriores a 1949 foram tão ou mais

calamitosos do que este). e diminuição da dimensão das comunas, a partir de 1961, valo-
Com a descentralização
rizaram-se mais suas divisões internas, as equipes ou brigadas de trabalho, reafirmando-se
o “a cada um segundo o seu trabalho” e não “segundo suas necessidades”. No final de 1961,
cerca de 5 a 7% das terras aráveis foram transformadas em lotes individuais. O poder deci-
sório, entretanto, continuava centralizado no presidente das comunas, que era também o
primeiro-secretário do partido, o que garantia ao PC praticamente tudo controlar – um pou-
co, como ainda hoje – “sem nenhum contra-poder, sem nenhuma possibilidade de controle
popular” (DUMONT, 1984, p. 52).
Rogério Haesbaert | 119

Cabe aqui enfatizar que, especialmente no sentido da organização do espaço, o chamado


sistema socialista reproduzia características das típicas “sociedades disciplinares” ocidentais
analisadas por Foucault (1984), de forma tão ou mais rígida que as do tão criticado sistema
capitalista. Para Foucault, como sabemos, o poder disciplinar implica, em primeiro lugar, no
controle do espaço (impondo “cercas”, limites ou classificações que constrangem e/ou dirigem
a mobilidade) e do tempo (por meio de rígidos horários impostos ao trabalho individual e
coletivo).
A grande diferença é que, no caso chinês, a “disciplinarização” não tinha seu foco principal
na escala local, individual – até porque a questão não girava propriamente em torno da figura
de um indivíduo pretensamente autônomo, como no ideário ocidental-capitalista, mas de co-
munas autônomas. Além disso, ainda que produzida também por instituições em nível local,
“microfísico”, essa disciplina se projetava por várias outras escalas, dispostas numa hierarquia
em torno do par Estado-comuna (ou, no caso urbano, “gabinetes de quarteirão” – até hoje
existentes), e suas raízes estavam bem além da natureza capitalista que caracterizou a socie-
dade disciplinar europeia. De toda maneira, como destacou Foucault, o poder disciplinar não
carrega apenas um sentido negativo, e a disciplinarização da força de trabalho foi, na leitura
de Arrighi (2006), um dos mais importantes legados para o sucesso das reformas de Deng
Xiaoping, no pós-1978.
Uma burocracia que tinha praticamente total controle sobre a força de trabalho e sua mo-
bilidade acabou expandindo rapidamente seu sistema, tanto de forma horizontal (ao incre-
mentar a ocupação de vastas fronteiras econômicas, como o Sinkiang e o Tibet) quanto vertical
(por exemplo, ao fortalecer e integrar setores nos complexos industriais existentes ou recente-
mente implantados). O deslocamento dirigido se tornava de tal forma maciço e, muitas vezes,
brutal que, sob certos períodos e condições, podemos falar de uma população extremamente
cerceada, como no caso dos estudantes privados da atividade escolar e obrigados a trabalhar
no campo durante a chamada Revolução Cultural (especialmente entre 1966 e 1969).
Ao mesmo tempo que manifestava forte centralização burocratizada e elevado grau de
intervenção estatal sobre o espaço de indivíduos e grupos, a China também partilhava uma
geografia que alternava traços comuns com espaços c apitalistas periféricos e importantes es-
pecificidades do seu “modelo socialista”. Por exemplo:

• a ênfase na organização do espaço social com base na função/instrumentalização eco-


nômica, sobrevalorizando o espaço do trabalho,7 buscando expandir o parque indus-
trial, especialmente no que tange à indústria de base e ao complexo industrial-militar,
mas com “características chinesas” na medida em que mesmo as comunas rurais incor-
poravam atividades do setor secundário.

7
Para o escritor Thomas Mann, citado por Kurz (1992, p. 24), “a diferença ética entre o capitalismo e o socialismo é insignificante, porque
ambos consideram o trabalho o princípio supremo, absoluto”.
120 | China: na nova dinâmica global-fragmentadora do espaço geográfico

• uma divisão territorial do trabalho ainda pautada na separação cidade-campo, mas


que conseguiu manter um rígido controle sobre o êxodo rural, pelo controle de re-
sidência atrelado à garantia do acesso a serviços sociais básicos; a modernização,
que pretendia ser generalizada, acabou ainda concentrada nos grandes centros e em
determinados setores e regiões do território nacional (processo que, como veremos,
fortaleceu-se ainda mais no período de reformas).
• a força centralizadora do Estado que, mesmo criando “regiões autônomas” para as
minorias étnicas mais importantes (especialmente tibetanos, uigures [muçulmanos
turcófanos], mongóis e chineses muçulmanos [“hui”, em chinês]), na prática provocou
o abafamento das questões político-culturais regionais, a autonomia e respeito às di-
ferenças muitas vezes se restringindo a uma espécie de folclorização cultural, promo-
vendo-se, de forma velada, uma intensa hanização (imposição da cultura majoritária
han), especialmente no Sinkiang e no Tibet.

Em síntese, podemos considerar como características desse período, até o início da abertu-
ra econômica efetivada a partir do XI Comitê Central do Partido, em 1978:

• o comando centralizadoda máquina burocráticaestatal pelo partido único, dominado


por uma forma de ideologia “socialista” (de variante maoísta), com um planejamento
econômico que procurava cobrir todos os pontos do espaço nacional e proporcionar
acesso social equânime aos recursos básicos de sobrevivência – e que, de fato, propor-
cionou melhorias substanciais na distribuição da renda, no acesso à educação e nas
condições médico-sanitárias da maior parte da população;
• a posse coletiva da terra e/ou o controle estatal sobre sua propriedade, com rigorosa
reforma agrária;
• o controle dos cidadãos em diversos níveis do espaço público (com um rígido contro-
le da mobilidade, tanto inter quanto intranacional) e mesmo privado (que acabavam
muitas vezes se confundindo, como nos comitês de quarteirão), além da imposição de
leis estritas como a do filho único;
• a prioridade às redes de relações intrabloco“socialista”(em 1965, por exemplo, 2/3 do

comércio internacional
autonomia em relação aoeram feitos
bloco dentro doe, próprio
capitalista ao mesmobloco), a fimmanter
tempo, de dar-lhes maior
a hegemonia
sobre alguns Estados “satélites”– como, no caso da China, o Vietnã e a Coreia doNorte.

A China, a partir de 1979, antecipando-se em muito à abertura do chamado bloco sovié-


tico, ocorrida no final dos anos 1980/início dos 1990, pós-queda do muro de B erlim, começou
seu processo muito próprio de transformação, concentrado mais estritamente no âmbito da
economia e pautado numa estratégia geográfica decisiva, pela definição de áreas especiais
liberadas ao investimento estrangeiro. Um dos primeiros países ditos socialistas a abrir suas
Rogério Haesbaert | 121

portas às empresas transnacionais, a China, paradoxalmente, acabou tornando-se na atuali-


dade uma das últimas ditaduras burocrático-“socialistas” a resistir a uma abertura política e
ideológica. Por outro lado, o padrão ou “modelo” econômico-político chinês faz escola (vide o
exemplo vietnamita) ou, pelo menos, é almejado por vários países que invejam seus índices
de crescimento econômico e a elevação do nível de consumo.
Arrighi aponta como elemento fundamental para o sucesso das reformas econômicas, he-
rança do período maoísta, não apenas a quantidade de mão de obra barata mas a sua “elevada
qualidade [...] em termos de saúde, educação e capacidade de autogerenciamento” (2006, p.
357). Outro elemento decisivo foi a força (capitalista) da diáspora chinesa – especialmente
na Ásia – que ofereceu, de longe, a parcela mais importante dos investimentos externos re-
cebidos e que manteve os laços mais importantes com os “novos capitalistas” chineses, espe-
cialmente aqueles das áreas economicamente mais dinâmicas (justamente de onde par tira a
maior parte dos migrantes da diáspora). Para Arrighi (2006), diante dos grandes investidores
norte-americanos, europeus e mesmo japoneses:

[...] os chineses ultramarinos podiam contornar a maio ria dos regulamentos, graças à familia-
ridade com o idioma, os costumes e os hábitos locais, à manipulação de vínculos comunitários
e de parentesco – que reforçavam com doações generosas para instituições locais – e ao trata-
mento preferencial que recebiam das autoridades do PCC. (ARRIGHI, 2006, p. 358)

O país iniciou o processo de abertura por meio de uma inédita, gradual e seletiva aber-
tura de espaços à entrada do capital estrangeiro. Neste sentido, surge a construção de um
capitalismo à moda chinesa ou, nos termos de seus mentores, de uma “economia socialista
de mercado” – termo adotado pelo Partido Comunista em seu XIV Congresso, em 1992, após
a dissolução do bloco “socialista”. Posteriormente, em 1997, veio se somar a esse conceito sui
generis em termos econômicos o seu contraponto político, o “Estado de direito socialista”, “con-
ceito-projeto [...] para legitimar a modernização autoritária de um sistema jurídico e judiciário
que deveria continuar sob a direção do PC” (CABESTAN, 2009, p. 178). Firmavam-se, assim, os
pressupostos para um projeto de crescimento econômico acelerado e contínuo, 8
mas configu-
rando, contraditoriamente, um Estado e uma sociedade, cada vez mais marcados, também,

pela fragmentação e pela desigualdade.


A construção de um espaço “de exceção” fragmentado
no contexto da globalização neoliberal contemporânea

Procuraremos discutir agora o processo singular de inserção da China nos circuitos


de um capitalismo neoliberal globalizado, destacando a dimensão geográfica, na forma
8
O crescimento médio chinês foi de 5,8% entre 1965 e 1975 e de 7,8% entre 1975 e 1985, mantendo-se em torno de 9,5% nos últimos 15
anos. Desde o início das reformas, o país cresceu nove vezes o seu PIB per capita.
122 | China: na nova dinâmica global-fragmentadora do espaço geográfico

espacialmente desigual e fragmentada em que se fundamentou. A indicação dos passos tri-


lhados na gradativa abertura de diferentes áreas do país, a partir das províncias litorâneas, é
bem reveladora da geografia extremamente desigual e multiterritorial que, desde o início,
passou a se desenhar (ver Mapa 7). Ela pode ser sintetizada a partir das seguintes etapas:

• em 1980 foram abertas quatro zonas econômicas especiais estrategicamente posicio-


nadas próximo a áreas já incorporadas pelo capitalismo: Shenzhen (em frente à en-
tão colônia inglesa de Hong Kong); Zhuhai (em frente à então colônia portuguesa de
Macau); Xiamen (defronte ao estreito de Taiwan, a China capitalista) e Shantou (no
litoral da província de Guangdong, como Shenzhen);
• em 1984 foram criadas 14 cidades litorâneas abertas ao capital estrangeiro, dotadas
de “zonas de desenvolvimento econômico e técnico”, entre elas 11 antigos portos
abertos ou colônias estrangeiras durante a abertura ao Ocidente realizada no final do
século XIX, incluindo Xangai, Cantão, Tianjin e Dalian;
• em 1985 a abertura passou a alcançar também zonas rurais, incorporando toda a re-
gião do delta do rio das Pérolas, em torno de Cantão e Shenzhen, o delta do Yangtse,
em torno a Xangai, e a região meridional de Fujian;
• em 1988 a abertura expandiu-se para incluirprovíncias inteiras,dentro de uma“estra-
tégia de desenvolvimento econômico das zonas costeiras”, considerando-se como la-
boratório das reformas a província inteira de Guangdong (onde já se situavam as áreas
abertas de Cantão/delta do rio das Pérolas e as ZEEs de Shenzhen, Zhuhai e Shantou) e
definindo-se toda a província-ilha de Hainan, com 34.000 km , como zona econômica
especial;
• em 1990, foi estabelecida a Nova Zona de Pudong, junto à área portuária de Xangai,
logo transformada em um dos principais polos de investimento do país (com o estabe-
lecimento, no mesmo ano, da bolsa de valores de Xangai);
• em 1992 ocorreu a abertura da maioria das capitais do interior (“capitais provinciais
abertas”), dos portos fluviais ao longo do Yangtse (como um grande eixo de entrada
para o interior, especialmente a populosa província de Sichuan) e de cidades frontei-
riças (especialmente nas fronteiras com a Rússia, a nordeste, e com os vizinhos da pe-

nínsula
• em 1997indochinesa,
e 1999, comaasudoeste, totalizando
incorporação 15mente,
, respectiva “cidadesdefronteiriças
Hong Kong abertas”);
e Macau, estas
foram transformadas em “zonas administrativas especiais”, com especificidades não
apenas econômicas mas também político-ideológicas;
• ao longo dos anos 1990 foram estabelecidas, entre outras, 15 zonas de livre comércio,
32 zonas econômicas e tecnológicas em nível estatal e 53 zonas industriais de alta
tecnologia em grandes e médios centros urbanos.
Rogério Haesbaert | 123

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124 | China: na nova dinâmica global-fragmentadora do espaço geográfico

Ong (2006) distingue a “excepcionalidade” das zonas econômicas e das zonas administra-
tivas especiais, identificando seus “poderes e privilégios”:

• zonas econômicas (zonas econômicas especiais, cidades litorâneas abertas, cinturões costeiros
abertos): autonomia em todos os assuntos de natureza econômica e administrativa; isenções
em relação ao planejamento “socialista” centralizado e à regulação de questões ligadas a in-
vestimento e trabalho; as condições de mercado determinam os salários e as condições de
trabalho;
• zonas administrativas especiais (Hong Kong e Macau) [dentro da lógica oficialmente deno-
minada “um país, dois sistemas”]: mini-constituição ou lei fundamental para atividades ca-
pitalistas já consolidadas (full-fledged); conselhos judiciário, executivo e legislativo indepen-
dentes; eleições democráticas para todos os cargos, exceto o de chefe executivo; liberdade de
expressão (a isenção das leis “socialistas” que comandam a segurança nacional estão sendo
politicamente contestadas).9

A partir dessa intensa abertura ao mercado e ao capital estrangeiro, desdobra-se um


acirrado debate sobre até que ponto a economia chinesa acabou incorporando princípios do
capitalismo neoliberal, adotando a receita do chamado Consenso de Washington e seus pro-
motores institucionais (para Arrighi, o Banco Mundial, o FMI, o Tesouro norte-americano e in-
glês, com o apoio da mídia formadora de opinião, em especial o Financial Times e a revista The
Economist). Arrighi polemiza com autores como Harvey (2005) e seu “neoliberalismo com ca-
racterísticas chinesas”, afirmando que, ao contrário de inúmeros outros países periféricos (em
especial na África e na América Latina), o “sucesso” chinês não se deve à adoção do “consenso
neoliberal”. A China teria adotado medidas próprias, como o “não-abandono do gradualismo
em favor das terapias de choque defendidas pelo Consenso de Washington” (Arrighi, 2006,
p. 361), o comando do setor financeiro (ressaltando-se que o país não enfrentou a “crise da
dívida” dos anos 1970), a manutenção de uma indústria de base estatal, o controle da relação
abertura-criação de empregos, acolhendo o capital externo a partir de alegados “interesses
nacionais” chineses, além de investimentos sem precedentes na modernização da educação
e da infraestrutura.

Arrighi,
desigual ementretanto, no nosso entender,
termos geográficos, territoriaisnão dá a devida
– inclusive em ênfase
termosao
decaráter extremamente
legislação, tanto para
o capital quanto para o trabalho – com que foi construído o “modelo” de abertura chinês.
Diante dessa reflexão, embora com algumas restrições, propomos analisar a abertura da China
ao mercado global por meio da dinâmica geograficamente diferenciada destacada por Ong
(2006), ao associar o padrão chinês com um “neoliberalismo de exceção”. A autora aponta
como traço fundamental da abertura chinesa o seu caráter espacialmente desigual, gradual e
seletivo. Manifesta-se aí uma “lógica de exceção”, que “fragmenta a territorialidade humana
9
Ong (2006, p. 109), parcialmente com base em www.china.org.cn/english/feature/38096.htm (Hong Kong Special Administrative Region).
Rogério Haesbaert | 125

para estabelecer conexões específicas, variáveis e contingentes aos circuitos globais” – ou,
como preferimos, uma lógica de múltiplas territorialidades/controles espaciais que, no con-
junto, conforma a multiterritorialidade do atual Estado chinês. Essa economia “liberalmente”
fragmentada no espaço vem acompanhada de uma soberania também “graduada” ou “va-
riegada” que garante “que o Estado possa ao mesmo tempo enfrentar os desafios globais e
[autoritariamente] assegurar a ordem e o crescimento” (ONG, 2006, p. 19).
Para Ong, num sentido mais geral, a maioria dos Estados, hoje, tem de ser mais flexível
em termos de soberania e cidadania, a fim de que adquiram relevância no mercado global.
Uma das características desse período, que ela propõe denominar de “pós-desenvolvimen-
tista”, seria a fragmentação territorial dos Estados como forma praticamente indispensável
para o ingresso, sempre seletivo, nos circuitos globais, especialmente pela criação de zonas
especiais, como as ZEEs chinesas ou as zonas de livre comércio em diversos países do mundo. O
que Ong, aqui, ao contrário de Arrighi, não enfatiza o suficiente, é a grande especificidade da
política econômica chinesa nesse contexto, aliando interesses neoliberais globais (em parte,
zonalmente contidos) e interesses estatais nacionais chineses. Enquanto alguns espaços mais
restritos vivem de forma mais efetiva a dominação das “leis do mercado”, outros são ordenados
sob o domínio quase exclusivo dos interesses “públicos” (estatais) chineses.
Ao falar de “exceção”, Ong não está interessada na “exceção” negativa que coloca em
suspensão os direitos civis, como na visão de Giorgio Agamben (2002), mas sim nos “tipos
positivos de exceção que criam oportunidades, geralmente para uma minoria, que goza de
condições e favores não proporcionados ao restante da população”. Essa situação de “exceção
positiva” seria especialmente invocada em sociedades burocraticamente centralizadas (ONG,
2006, p. 101).
O caso chinês seria um tipo paradoxal, ao mesmo tempo de reforço e de afrouxamento
do Estado. Por um lado, no campo cultural-ideológico, por exemplo, ele reforça seu discurso
nacionalista de controle da opinião pública e da liberdade de expressão, com rígida repressão a
qualquer manifestação étnico-religiosa ou ideológica dissidente (inclusive, sempre que julga
necessário, via controle da Internet). Por outro lado, no sentido seletivo e gradual aqui men-
cionado e, sobretudo, em relação à economia das zonas especiais, abre mão de muitas de suas
prerrogativas, cedendo amplas vantagens e direitos às empresas transnacionais.

em Em relação à omobilidade
desmantelar da forçaviadecertificados
controle interno, trabalho, por
de sua vez, ao(omesmo
residência tempoe estimula
huku), dirige que reluta
migrações para vários países do mundo, onde estabelece verdadeiras “brigadas” de trabalho,
seja na indústria de base (como no projeto, depois malogrado, de levar centenas de trabalha-
dores para instalar uma siderúrgica no Rio de Janeiro), na construção civil (com vários projetos
na África, Ásia e América Latina) e mesmo na agricultura (adquirindo milhares de hectares
em território africano, por exemplo). Além dessa migração diretamente envolvida em proje-
tos ligados à sua autossuficiência alimentar e de matérias-primas, o Estado estrategicamente
126 | China: na nova dinâmica global-fragmentadora do espaço geográfico

incentiva também a preparação de quadros no exterior, com dezenas de milhares de jovens,


hoje, estudando no Ocidente.
As zonas econômicas especiais seriam também “espaços controlados a fim de lidar com o
descontentamento social e inquietações trabalhistas que as reformas de mercado poderiam
provocar”. Ali, os trabalhadores migrantes, embora com maiores salários, possuem ainda me-
nos direitos de organização do que nas empresas estatais chinesas, subordinados, assim, às
condições quase exclusivas das “leis de mercado”. “Migrantes”, afirma Ong, “devem obter um
cartão de entrada, uma permissão de trabalho e um passe de residente temporário para traba-
lhar nas ZEEs.” Entre os trabalhadores nas ZEEs, predominam mulheres vindas de zonas rurais,
vivendo “sob condições altamente exploradoras” e “sistematicamente ignoradas por trabalha-
dores sindicalizados do restante da China” (ONG, 2006, p. 105 e 106).
Para completar, Ong destaca o forte elo das ZEEs com os chineses de ultramar ou da “diás-
pora”. Basta verificar que a maior parte dos investimentos recebidos pela China provêm da
Ásia, sendo o principal investidor Hong Kong, centro econômico mais importante da diáspo-
ra (destacando-se também Singapura e, de forma distinta, Taiwan, que é considerada pelo
governo como província integrante da China). Hong Kong, além de concentrar capitais de
chineses de ultramar, serve também como “intermediário” na transição de investimentos pro-
venientes da própria China (as províncias do Sul, mais capitalizadas, são justamente as de
maior conexão com a diáspora). Uma eficiente estratégia utilizada pelos próprios empresários
chineses, a fim de usufruir as enormes vantagens oferecidas pelo governo ao capital estran-
geiro, é fazer o investimento passar por Hong Kong ou por paraísos fiscais como Samoa, Ilhas
Cayman e, sobretudo, Ilhas Virgens, que, em 2006, foram o segundo maior investidor na China.
Uma expressiva parcela do investimento estrangeiro direto constitui-se assim de “falsos” in-
vestimentos (roundtripping), de capital chinês reinvestido no seu próprio país.
A mobilidade interna da força de trabalho é um tema à parte, tamanha a sua relevância na
institucionalização do temporário, do transitório ou, em síntese, para retomar a qualificação
de Ong, da “excepcionalidade”. Aquilo que seria a exceção, em muitos casos, como este da força
de trabalho “ilegal” que transita do campo para a cidade, acaba por tornar-se a regra, num as-
sombroso volume “flutuante” estimado hoje em cerca de 150 milhões de pessoas. O governo,
por um lado, tenta conter esse fluxo com a manutenção (ainda que seriamente questionada)

do cartão de
educação residência
e saúde), e osoutro,
e, por direitos daí advindos
legitima (especialmen
a “ilegalidade”, comtea em termos
criação de benefícios
de vistos em
de residência
temporários nas cidades.
Os vistos de migrante temporário não impedem, entretanto, a generalização de situações
de precariedade e segregação nas relações sociais e/ou de trabalho e na própria estrutura in-
terna das grandes cidades. Segundo Thireau (2009):

Esse caráter individual e instável das migrações internas suscita desconfianças e suspeitas em
relação ao imigrante, considerado como um indivíduo de passagem, livre para se movimentar,
Rogério Haesbaert | 127

porque sozinho, agindo em função do cur to prazo, porque não pode se instalar, e suscetível de
desaparecer de um dia para o outro. [...] Perante todas as hierarquias com que se defrontam
na cidade, algumas dependem diretamente do registro de residência. É o ca so, claramente, da
repartição desigual dos direitos à saúde, à educação e à habitação. Mas é o caso também das
desigualdades encontradas no mundo do trabalho. [...] Estabelece-se frequentemente uma
hierarquia formal nos lugares de trabalho entre dois grupos, os empregados regulares e os
empregados temporários, afetando principalmente a remuneração, [...] a natureza dos postos
ocupados e obrigações que lhe estão adstritos. (THIREAU, 2009, p. 262 e 263)

É comum, assim, a maior exploração desses trabalhadores que, além de em geral recebe-
rem salários menores e não terem direito à sindicalização, muitas vezes não podem recusar
horas extras e são proibidos de realizar concursos para ascensão profissional. Sua segregação
espacial também é evidente ao se concentrarem, por srcem geográfica, em áreas precárias
onde muitos não têm acesso a educação e assistência médica, e outros constroem suas pró-
prias escolas improvisadas.10
A corrupção impregnada na máquina de governo, visivelmente atestada pelo recente au-
mento dos julgamentos e prisões de governantes nas mais diversas esferas (fruto, por outro
lado, de um recrudescimento das campanhas contra a corrupção), é um indicador fundamen-
tal do grau com que o “limbo” entre o legal e o ilegal, a exceção e a regra – ou a exceção que
(quase) se tornou regra – está entranhado na sociedade e no Estado chineses. Para dar um
outro exemplo, a burla à política do filho único leva tanto à corrupção dos fiscais quanto à
tática do não registro do segundo filho, o que provoca a existência, especialmente nas zonas
rurais, de milhares de crianças “ilegais”.
Outro circuito em que a ilegalidade (ou, em certo sentido, a “excepcionalidade”) se propa-
ga é o das privatizações, ou melhor, da mudança na forma de propriedade, ocorrida principal-
mente a partir de 1998, quando mais da metade das empresas estatais foram transformadas
em sociedades por ações (as mais relevantes podendo ser cotadas em bolsa, mesmo que o
capital continue sendo majoritariamente controlado pelo Estado). Nesse processo, embora
muitos trabalhadores tenham sido beneficiados com a “propriedade” (de ações) da empresa
– que só poderia ser vendida a empregados e dirigentes –, foi relativamente comum o rápi-

do enriquecimento
Segundo Arrighi, “aode longo
algunsdomandatários, apropriando-se
processo, várias formas de ilicitamente
acumulação dos
por bens públicos.
desapropriação,
como apropriação de propriedades públicas, desvio de verbas e venda de direitos de uso da

10
Thireau (2009) afirma que há cerca de 500 dessas escolas somente em Pequim, onde estima-se que 100 mil filhos de migrantes não
frequentam a escola. Após uma série de protestos de migrantes de Sichuan nas províncias de Guangdong e Hubei, Wei Wei, fundador da
ONG “Xiao Xiao Niao” (ou “Little Bird”), afirmou ao jornal francês Le Monde (15 jun. 2011): “Os migrantes não conseguem se integrar à
vida urbana normal, mesmo depois de muitos anos. Eles se sentem excluídos de todos os pontos de vista, e têm a impressão de não serem
tratados humanamente”. Esta ONG ajuda migrantes a lutarem por seus direitos trabalhistas em cidades como Shenzhen, Pequim e Xangai.
128 | China: na nova dinâmica global-fragmentadora do espaço geográfico

terra, tornaram-se o ponto de partida de fortunas imensas” (2006, p. 373-374). 11


Num sentido
mais amplo, uma declaração anônima veiculada pelo diário espanhol La Vanguardia (3 jan.
2007) afirma que, a exemplo da Rússia, se qualquer empresa chinesa fosse investigada minu-
ciosamente, “creio que nenhuma passaria no exame da legalidade, porque todas devem fazer
algo ilegal para existir, seja evasão de impostos, falsificação ou propinas”.
Esse sistema híbrido entre legal e ilegal, público e privado, cria várias situações ambíguas,
como no setor imobiliário. Embora formalmente o Estado continue como único proprietário da
terra – com direitos de utilização delegados à população, de 70 anos para imóveis residenciais
e de 50 para estabelecimentos comerciais – , ainda assim ela é objeto de compra e venda,
criando um verdadeiro e lucrativo mercado de terras (o preço médio do metro quadrado em
Xangai duplicou entre 1998 e 2004, expulsando grande parte da população das áreas centrais
para a periferia). Segundo Guilheux (2009):

Em 2002, um relatório oficial estimava que um quarto dos empréstimos ligados à atividade
imobiliária não respeitava a legislação em vigor. Em teoria, uma operação imobiliária não
pode ser financiada além de 70% do seu custo com empréstimos bancários, mas, na prática,
bancos e promotores contornam essa limitação. Além disso, a ausência de transparência nas
transações é uma fonte importante de corrupção. Os riscos não são apenas econômicos, mas
também sociais e políticos, porque a reconstrução maciça de quarteirões inteiros é fonte de
litígios e protestos. (p. 265-266)

Todos esses elementos ajudam a explicar o nível de contradições e, no que nos interessa
mais de per to, das desigualdades que marcam a organização do espaço e da sociedade chinesa
a partir das reformas econômicas. Dada a magnitude e o vigor “geográfico” dessa questão,
reservamos um item específico para sua análise.

A trilha das desigualdades socioespaciais

O intervalo de cerca de 12 a 20 anos entre o início da aber tura e seu alcance até cidades
menores, fronte iriças, no interior do país, não significou, na verdade, que os investimentos

fossem
tes, gradativament
fossem e conquistando
decrescendo. o interior
A China tem hoje do paísdeoudesigualdade,
indicadores que as disparidades, já existen-
como o índice de
Gini, 12 semelhantes aos da América Latina e um dos mais elevados da Ásia.
Em um sentido geral, essas desigualdades geográficas, na verdade, são seculares e come-
çam pela má distribuição da população e da economia, extremamente concentradas junto à
faixa litorânea e no baixo e médio vale de grandes cursos fluviais, como o Yangtse e o Huang
11
Arrighi se questiona, contudo, se esses novos ricos constituem efetivamente uma nova classe capitalista “e, mais importante, se essa
classe, se é que ela existe, conseguiu assumir o controle dos picos dirigentes da economia e da sociedade chinesas” (2006, p. 374).
12
Segundo Sutherland ; Yao (2011), este índice, em nível nacional, passou de 0,29 em 1985, para 0,45, em 2006.
Rogério Haesbaert | 129

Ho (rio Amarelo). Condições naturais profundamente diferenciadas entre as faixas leste e cen-
tro-oeste do país associam-se a essa desigual concentração demográfica e econômica: en-
quanto no leste encontramos grandes e férteis vales fluviais, desde os climas mais frios, ao
norte, até o clima tropical, no extremo sul, a noroeste e no centro e oeste estendem-se amplos
platôs desérticos e/ou frios (com destaque para o planalto do Tibet, um dos mais altos e inós-
pitos da Terra) que constituem empecilhos à concentração humana.
O imenso oeste chinês, seja o planalto tibetano, sejam os desertos de Gobi e Taklamakan,
acaba por se transformar numa espécie de “área-reserva” cujo peso estratégico e simbólico
(na construção da “grande nação” chinesa) é maior do que seu valor econômico efetivo. Em
um vivo contraste com essas áreas quase desabitadas, o “outro lado”, onde se concentra
mais de 90% da população, exibe uma miríade de problemas socioambientais. Cidades com
sérios problemas ambientais, fruto de uma industrialização rápida e pouco rigorosa na fis-
calização, já eram um legado do “socialismo real”. A rápida abertura para o capitalismo e a
sede pelo lucro fácil e imediato têm agrava do muito esses problemas. Regiões como a bacia
Vermelha de Sichuan estão entre as ambientalmente mais degradadas do mundo, e uma
das maiores preocupações, hoje , em várias regiões do leste do país, é com a degradação dos
solos e a poluição do lençol freático . Mesmo países vizinhos, como Japão e Coreia, sofrem os
efeitos da poluição chinesa, por meio da difusão de chuvas ácidas.
Para além dessas desigualdades socioambientais, de raízes mais antigas, o novo “mode-
lo” chinês alterou certos recortes, como aquele que diferencia as áreas litorâneas do interior
e aquele, mais genérico, que distingue zonas rurais e zonas urbanas. As áreas mais remotas e
as de domínio de minorias étnicas, em geral mais periféricas, como o Sinkiang, continuam
ostentando alguns dos indicadores sociais mais problemáticos, mas, como se trata de áreas
geopoliticamente mais sensíveis, têm participado de alguns programas especiais de desen-
volvimento econômico com resultados positivos. Por outro lado, pode ocorrer o contrário em
algumas províncias centrais superpovoadas, como Henan (100 milhões de habitantes), cuja
população rural, muitas vezes em condições de pobreza extrema, frequentemente depende
dos recursos enviados por seus migrantes que, mesmo na condição de ilegais, trabalham nas
grandes cidades. Um estudo do Banco Mundial, realizado em 2008, previa a existência, ainda,
de 300 milhões de pobres na China. A cada ano cerca de 10 milhões de pessoas são reclassi-

ficadas
de de rural
pessoas para aurbanas
constitui e, como
“população já afirmamos,
flutuante” um do
que, saída conjunto
campo,estimado
não tem de 150 milhões
registro oficial de
residência nas cidades.
Um trabalho bastante rico em dados e que debate teses sobre a desigualdade chinesa
foi desenvolvido por Sutherland e Yao (2011), da School of Contemporary Chinese Studies
de Nottingham, na Inglaterra. Para os autores, a desigualdade geográfica na China compor-
ta várias leituras, algumas mais simplificadas, outras mais complexas – sendo que somente
aquelas que sofisticam as variáveis consideradas podem dar conta do polêmico quadro que se
130 | China: na nova dinâmica global-fragmentadora do espaço geográfico

configura hoje no país. A questão deve ser abordada tanto a partir das relações rural-urbanas
e interregionais quanto intraurbanas e intrarrurais.
100
88%
90 84% 82%
80
71%
70
60 56%
50%
50 43%
40
30 28%

20
12%
10
0
1952 1978 2006
Proporção de população rural Emprego agrícola PIB agrícola

Figura 1 – Proporção de população rural, emprego na agricultura e PIB agrícolana China em 1952, 1978 e 2006
(Fonte: SUTHERLAND ; YAO, 2011, com base no NBS – National Bureau of Statistics chinês)
Efetivamente, a China ostenta um dos maiores desníveis entre rendas do campo e da cida-
de – uma proporção que se situava em torno de 3,3 em 2007 (a renda das zonas rurais sendo
3,3 vezes maior que a das zonas urbanas), contra 3,0 a 2,2 nos outros países da Ásia. Ainda
assim, não basta reconhecer que as desigualdades rural-urbanas se agravaram nos últimos
anos. A começar que a distinção entre rural e urbano tem se redefinido com frequência e,
segundo Sutherland e Yao, a rápida reclassificação de áreas rurais como urbanas tende a exa-
gerar as diferenças de renda rural-urbanas.13 A população rural chinesa, mantida quase estável
na era maoísta – passou de 88 para 82% entre 1952 e 1978 –, mesmo com a continuação
do controle estrito da mobilidade, caiu drasticamente após as reformas, alcançando 56% em
2006 e, segundo a Academia Chinesa de Ciências, passou pela primeira vez a ser minoritária

na passagem
mundo de população,
rural na 2011 para 2012. A Figurae 1namostra
no emprego claramente
produção chinesas.a queda dessa proporção
A agricultura, do
que respondia
por metade do PIB em 1952, caiu para apenas 12% em 2006, enquanto o emprego agrícola,
muito mais relevante, caiu pela metade, passando de 84%, em 1952, para 43%, em 2006.
Como a maior parte da população pobre se concentra nas áreas rurais, é aí que muitas
vezes se concentram, embora também “intrarruralmente” distribuídos de forma desigual,
13
Embora os autores não comentem, é importante ressaltar que essa mudança de categoria envolve também, quase sempre, a expro-
priação, a valores baixos, das terras rurais para a incorporação urbano-industrial. Embora a terra rural não seja privatizada, “aluguéis”
governamentais a prazos longos (50/70 anos) criam, na prática, como já ressaltamos, um mercado ilegal de compra e venda, comandado
especialmente por autoridades locais, muitas vezes marcadas pela corrupção.
Rogério Haesbaert | 131

alguns subsídios governamentais, especialmente no que se refere a educação e saúde. Outro


fator que complexifica a discussão do gap rural-urbano é que a grande massa de migrantes
ilegais nas cidades não é considerada, e são justamente eles que vivenciam as condições mais
precárias nas áreas urbanas, ao mesmo tempo que enviam recursos às famílias no campo,
não registrados nos levantamentos oficiais de renda. Além disso, o custo de vida, em sentido
amplo, é reconhecidamente bem mais elevado nas áreas urbanas – pesquisa apontada por
Sutherland e Yao registra uma diferença 40% maior do custo de vida nas cidades do que no
campo em 2002. Apesar de muito expressivo, e crescente em termos absolutos, o desnível ru-
ral-urbano na China, proporcionalmente mais estável nos últimos tempos, deve ser analisado
em conjunto com outros recortes, como a desigualdade regional e intrarregional.
Em termos regionais, é nítida a desigualdade entre as províncias litorâneas, que primeiro
foram abertas ao capital externo, e que ainda hoje recebem a grande maioria desses inves-
timentos, e as províncias do interior. A proposta de regionalização em três grandes áreas –
Litoral, Centro e Oeste –, reproduzida no Mapa 7, associada ao gráfico da Figura 2, demonstra
bem a extrema desigualdade entre as diferentes regiões do país. As províncias litorâneas res-
pondem por apenas cerca de 13% da área e 43% da população – no entanto, envolvem mais
de 60% do PIB, quase 87% dos investimentos diretos e nada menos que 92% das exportações
do país.
Enquanto o IDH14 de províncias-líderes, como Xangai (Shanghai) e Pequim (Beijing), equi-
vale ao de países como Portugal e República Tcheca, o das províncias mais pobres, como Gansu
e Tibet, se aproxima dos de Camboja e Laos. Outros fatores, além da reforma econômica que
privilegiou as províncias costeiras e aí incentivou as privatizações, explicam essa desigualda-
de. Por exemplo, políticas industriais, muito mais antigas, estimularam o emprego industrial
prioritariamente nessas áreas.
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PIB I DE Exportações População
Leste Centro Oeste

Figura 2 – Desigualdades Regionais em produção (PIB), investimentos (IDE) e exportações


(Fonte: China Statistical Yearbook, 2007).
14
Índice de Desenvolvimento Humano, composto por dados de saúde (vida média), educação (analfabetismo) e renda per capita.
132 | China: na nova dinâmica global-fragmentadora do espaço geográfico

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Rogério Haesbaert | 133

Muitos advogam que mais impor tante ainda do queessas distinções socioeconômicas entre rural
e urbano e entre diferentes regiões e províncias é a diferença existente no interior dessas regiões e
unidades administrativas, ou até mesmo no interior de uma mesma cidade. Embora a desigualdade
rural-urbana seja mais importante, também se deve destacar aquela existente no interior das próprias
zonas rurais. Alguns pesquisadores reconhecem que a desigualdade intrarregional é maior nas pro-
víncias de maior dominância rural, no oeste, do que nas províncias litorâneas, embora nestas ocorra
uma crescente desigualdade no interior das zonas urbanas. Para a população urbana, por exemplo,
a faixa de renda dos 10% mais ricos em relação aos 10% mais pobres passou de 2,9, em 1985, para
8,7, em 2007 (SUTHERLAND ; YAO, 2011, com base no National Bureau of Statistics
chinês). O cresci-
mento acelerado do número de empresários chineses bilionários também ésintoma
um do aumento
da desigualdade, não tanto de renda/rendimentos recebidos, mas de riqueza acumulada, típica dos
processos capitalistas (MORAIS, 2011).
Entre as iniciativas governamentais para minorar essa situação de agravamento das de-
sigualdades socioespaciais está a redistribuição regional dos investimentos, que continuam
altamente concentrados na faixa litorânea. Reformas fiscais retiraram prerrogativas dos go-
vernos provinciais, estabilizando em patamares mais altos o percentual de recursos advindos
da arrecadação de tributos sob controle direto do governo central e, assim, passíveis de serem
redistribuídos na forma de investimentos para províncias mais pobres. A seletividade dos in-
vestimentos externos também tenta, embora com efeitos práticos mitigados, dirigir maiores
recursos ao interior, por meio da definição não apenas de setores econômicos específicos mas
também de regiões prioritárias. Mutáveis com o tempo, o Estado central define setores con-
siderados “encorajados” (como os de alta tecnologia nas províncias litorâneas), “autorizados”,
“limitados” e “proibidos” ao investimento estrangeiro. Hoje, as regiões que estão sendo mais
“encorajadas” são o Centro e o Oeste, como medida que visa a dirimir as profundas desigual-
dades em nível nacional.

Um outro caminho? A China e seu (novo) lugar no mundo

Toda essa desigual distribuição de renda e de condições sociais, em diversos níveis geográ-
ficos, acompanhada, ao mesmo tempo, pelo assombroso ímpeto econômico ao longo das três

últimas
e, décadas, pela melhoria
concomitantemente, efetiva das condições
pelo agravamento de vida
de enormes da grande
dilemas, maioriapolítico-ideológi-
do âmbito da população
co ao ambiental, faz da China, sem dúvida, um imenso laboratório para nossa interpretação
dos processos que aqui estamos denominando de globalização e fragmetação. Interpretações
que se estendem desde a de um novo padrão nitidamente capitalista (“neoliberal”, como quer
Harvey),15 até o de um “novo socialismo de mercado” (como defende o Estado chinês), pas-

15
Segundo Harvey, estaria ocorrendo um processo gradativo de proletarização a partir do aumento da privatização e da flexibilização da força de
trabalho, e o Estado chinês, envolvido no dilema da repressão às demandas por democratização e justiça distributiva, “definitivamente dirigiu-se à
neoliberalização e à reconstituição do poder de classe, embora ‘com características especificamente chinesas’”(2005, p. 151).
134 | China: na nova dinâmica global-fragmentadora do espaço geográfico

sando por uma espécie de “modelo específico” de relação sociedade-mercado (inclusive mais
pacifista, como defende Arrighi).
Embora muito poucos autores ainda acreditem num “socialismo” ou mesmo num “marxis-
mo à chinesa”, também parece temerário afirmar, de forma direta e simplificada, que a China
é um país “capitalista”, principalmente na medida em que o Estado ainda possui um papel re-
gulador, redistributivo e geograficamente redirecionador que dificilmente encontra similares
no restante do mundo. Preferimos falar, a partir de uma releitura de Aihwa Ong, num padrão
singular de globalização desigual e gradativa do espaço, capitaneado pelo Estado e, nas zonas
econômicas e administrativas especiais, pelo grande capital. Estado que, mesmo no seu au-
toritarismo e na fragmentação territorial de suas ações (abrindo mão de várias prerrogativas,
especialmente nas zonas econômicas especiais), ainda parece capaz de recompor, sem muita
dificuldade, a pauta de suas preocupações sociais.
A grande questão, muito provavelmente, é até quando irá perdurar o crescimento aparente-
mente sem limites – incluindo o aumento das desigualdades – e a “lua de mel” da maior parte
da população com o aparato estatal e, especialmente, com o Partido único, visivelmente abalado
quando das manifestações de 1989 em Pequim mas hoje, vigorosamente alicerçado numa ideo-
logia de consumo e até mesmo de ostentação (urbana, inclusive).
16
Como adverte Arrighi:

Enquanto essa tendência [do enorme aumento das desigualdades] pôde ser apresentada,
com credibilidade, como resultado de uma estratégia de desenvolvimento desequilibrado que
criou oportunidades de progresso para a maioria, a resistência à desigualdade crescente foi li-
mitada e pôde ser eliminada ou reprimida com facilidade. Com o passar do tempo, no entanto,
essa desigualdade entrou em choque com a tradição revolucionária, corroendo seriamente a
estabilidade social. (2006, p. 380)

A escritora Lijia Zhang (autora de A garota da fábrica de mísseis – memórias de uma ope-
rária na nova China), pessimista, comenta que 1989 – o ano das manifestações estudantis na
Praça da Paz Celestial –foi “o ano mais extraordinário” de sua vida mas que irá “demorar muito
para se repetir”. “Enquanto isso”, conclui ela, “a democracia não virá, não enquanto a popula-
ção está satisfeita e distraída em gastar dinheiro.”17

Para além
a questão da questão
ambiental, da maior igualdade
fundamental para quemsocioeconômica e da democracia,
demonstra pretensões temosumainda
de formular “novo
modelo” de sociedade e de civilização. E a China, ainda que com boas intenções, criando re-
centemente espécies de “cidades sustentáveis”, não tem sido exatamente “um modelo”. Como
afirma Arrighi, “nem mesmo um quarto da população da China e da Índia pode adotar o modo
16
Novos ricos chineses, segundo o jornal espanhol La Vanguardia(3 jul. 2007), ostentam sua riqueza por meio de moradias nos mais diversos
– e inesperados – estilos ocidentais, desde réplica da Casa Branca (do milionário Huang Qiaoling, em Hanzhou), do Capitólio (em Xangai)
até condomínios “fantásticos”inspirados na Holanda, no Mediterrâneo e até em povoados ingleses (como a Thames Town– “Cidade Tâmi-
sa” – em Xangai, que inclui um pub e casas em estilo inglês, de 2 milhões de reais).
17
Entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, 12 dez. 2010.
Rogério Haesbaert | 135

norte-americano de produzir e consumir sem matar por sufocação a si mesmo e o resto do


mundo” (2006, p. 392). “Em resumo”, diz ele:

[...] inspirando-se demais no caminho ocidental de consumo excessivo de energia, o rápido


crescimento econômico da China ainda não criou para si e para o mundo um caminho de de-
senvolvimento ecologicamente sustentável. Essa inspiração não só ameaça dar um fim pre-
maturo ao “milagre econômico”, em razão da pressão sobre os recursos já escassos (como ar e
água limpos), como também, o que é mais importante, ela é a causa e o resultado da clivagem
cada vez maior entre os que têm condições de se apropriar dos benefícios do rápido crescimen-
to econômico e os que têm de pagar o preço por ele. (2006, p. 392)

Isso significa que, se não encontrar uma solução factível para o dilema da desigualdade,
do autoritarismo (inclusive sobre suas importantes minorias étnicas) e da pressão sobre seus
recursos (agora, da própria Terra, na medida em que busca matérias-primas nos quatro can-
tos do mundo), a China não instituirá nenhum “novo” caminho, mas apenas aquele, já bem
conhecido, da indignação, da revolta e, no seu extremo, da violência que, bem sabemos, pode
desandar para outro lado.

Referências

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Ivaldo Lima

O JAPÃO NUM MUNDO EM BUSCA DE SENTIDO

Muito se tem discutido sobre o processo de globalização, incluindo-se na agenda de


debates uma ocidentalização implacável do mundo – a irresistível ascensão do Ocidente –,
redefinindo a significação, o alcance e os limites da unificação e do desenraizamento planetá-
rios, como magistralmente discutido por Latouche (1994). Um mundo que se globaliza é um
mundo que se ocidentaliza, arriscariam alguns. Mas, de que mundo se trata? Um mundo em
descontrole, no qual a

globalização está reestruturando o modo como vivemos, e de uma maneira muito profunda.
Ela é conduzida pelo Ocidente, carrega a forte marca do poder político e econômico ameri-
cano e é extremamente desigual em suas consequências. Mas a globalização não é apenas
o domínio do Ocidente sobre os demais, afeta os Estados Unidos tanto quanto outros países
(GIDDENS, 2003, p. 15).

Um mundo em desajuste, pois,

com o fim da Guerra Fria, a proeminência das potências ocidentais parecia ter ultrapassado
um novo limite. Seu sistema econômico, político e social acabava de demonstrar indiscutível
superioridade e parecia a ponto de se estender por toda a superfície do globo, com alguns
chegando a falar em “fim da História”, pois o mundo inteiro ia tranquilamente se fundir na

forma
sonhamdoosOcidente vitorioso.
ideólogos Mas a2011,
(MAALOUF, História não é a virgem dócil e bem-comportada com que
p. 37).

Um mundo soma-zero, pois a “posição econômica dos Estados Unidos após 2008 desgas-
tou o poder e influência do país de todas as formas. Ela ameaça seu poder hard, militar, e
enfraqueceu seu podersoft, conferido pelo prestígio americano. Os acadêmicos, olhando para
as tendências de longo prazo, alertaram sobre o fim da Era do Otimismo” (RACHMAN, 2011, p.
147). Este mundo sem bússola conduziria a humanidade rumo ao abismo, por fim indagou-se
Edgar Morin (2011), num ensaio sobre os desafios da globalização e da globalidade.
138 | O japão num mundo em busca de sentido

Essas inquietações nos fazem pensar o Japão, esse extraordinário representante do Oriente
que se articula com o Ocidente – em meio a um cenário de incertezas assaz desafiador, ao
homem comum, no seu dia a dia e aos homens de ciência – em seus devaneios intelectuais.
Para introduzir o Japão no jogo tenso e criativo que (re)significa o Ocidente e o Oriente num
contexto de globalização, recorremos a Ortiz (2000, p. 139):

A antinomia Japão/Ocidente pode ser resolvida de várias formas. Uma delas afirma a supe-
rioridade do pólo ocidental sobre o oriental. Nesse caso, o antagonismo se traduziria como
sendo uma expressão da ocidentalização. Cito uma passagem de um japonólogo francês, um
tanto impressionista ao analisar a publicidade na televisão. “À medida que as propagandas
desfilam, um sentimento estranho se apodera de mim: os objetos propostos são diferentes,
xampu, sopa instantânea, uísque, automóvel, cartão de crédito, relógio, hambúrguer... mas
para além dessas diferenças uma unidade se revela ao olhar do estrangeiro, a referência ao es-
trangeiro enquanto indivíduo, paisagem, língua, referência que mede a suposta distância social
em relação a si. Por que não havia eu reparado nisso a nteriormente? Quero dizer, por que isso
não me surpreendeu? Por que a necessidade dessas loiras de olhos azuis para vender sabonete
para morenas de olhos escuros?” (grifo nosso)

Que “distâncias” nos aproximam do Japão atual? Como se pode definir a busca de sentido
no mundo contemporâneo, analisando-se o Japão? Em que escalas geográficas isso se pode
verificar? Seguimos, em alguma medida, os passos de Bouissou (1998, p. 263), quando o autor
se questiona: “o Japão pode conferir sentido à Ásia?” E, também, acompanhamos a indagação
de Laïdi (1998, p. 13), quando ele lança a pergunta: “por que mundialização e regionalização
vão de par?”. Empreender uma leitura dos fatos, processos e tendências intrínsecos à nova
ordem mundial, numa perspectiva territorial, exige, de forma inescapável, o desdobramen-
to da análise em escalas geográficas distintas, as quais (re)compõem, em sua articulação, a
metáfora sistêmica do todo. Neste texto, essas escalas reportam-se, basicamente, ao planeta
como uma totalidade em si, ao contexto do Pacífico Ocidental, bem como ao espaço nacional
japonês, com ênfase em sua organização regional. Desnecessário seria lembrar que, da mes-
ma maneira que as escalas geográficas recortam (e integram) o espaço, as escalas históricas

qualificam
do o tempo
atual serão objetoemdeperíodos,
referênciaépocas, eras etc.aoAssim,
e de análise longo alguns períodos históricos distintos
do texto.
O objetivo central que norteia este capítulo é evidenciar aspectos significativos relativos à
inserção do Japão na nova ordem planetária. Para tanto, o texto se estrutura em partes refe-
rentes à posição do Japão no mundo atual; à estrutura produtiva nipônica, a par tir de meados
do século XX, e às atuais características e impasses da configuração regional do país; às linhas
de tensão, com ênfase nos conflitos internos e nas relações com os Estados Unidos e, em parte,
com a China; e, por fim, um enfoque sobre o papel do Japão no horizonte do século XXI, em
face da recomposição sistêmica da geopolítica e da geoeconomia mundiais.
Ivaldo Lima | 139

A posição do Japão no mundo atual

A partir das últimas décadas do século passado, acontecimentos de alcance planetário pre-
nunciavam um período de intensas e rápidas transformações responsáveis pela reacomodação
das estruturas de poder, tendo-se em mira: a) o desmoronamento das experiências socialistas,
direta ou indiretamente ligadas ao modelo soviético; b) a afirmação de um movimento de
integração econômica suprarregional, cujo exemplo mais avançado é o da União Europeia; c)
o relativo declínio da maior economia do mundo que é a estadunidense; d) o agravamento da
polarização entre o Norte e o Sul, através dos monopólios do acesso aos recursos naturais, dos
meios de comunicação de massa, dos recursos financeiros, das armas de destruição maciça e
das tecnologias de ponta, como nos sugere Amin (2006); e) o recrudescimento do terroris-
mo, da (bio)pirataria, de organizações mafiosas, da renuclearização do planeta e de guerras
irregulares; e, por fim, sem esgotar o rico elenco dessas realidades novas, f) a emergência
de potências intermediárias – Tigres Asiáticos, África do Sul, Brasil e Índia, e de outras com
pretensões globais mais acentuadas, como o Japão, sobretudo em função do montante de
sua riqueza acumulada, e a China, como a economia que mais cresce, hoje. Um embate entre
estoques e fluxos regeneradores de riqueza se apresenta como um dos vetores que permitem
avaliar tendências do exercício do poder no mundo atual.
As condições sob as quais o Japão vem (re)definindo e especificando seu papel no mundo
atual encerram os elementos de problematização que buscamos rastrear. Um mundo onde se
pode admitir, como o faz Celso Furtado, o surgimento de uma nova hierarquia de poder, de
corte mais policêntrico – uma provável heterarquia, poderíamos arriscar a dizer. E um papel
que está inextricavelmente vinculado aos processos globalizadores, bastando citar a expressão
“[...] ‘sociedade da informação’ que está na base do fenômeno da globalização [e que] é uma
invenção japonesa, formulada pela primeira vez nos anos 1960” (BONIFACE, 2011, p. 148).
A posição do Japão no sistema mundial moderno assume especial destaque no período
que se segue à Segunda Guerra Mundial. Isto significa dizer que a presença japonesa mundo
afora se traduz, mais explicitamente, pela crescente conquista de fatias do mercado interna-
cional. Como nos alerta Cumings (1993), nas décadas da Guerra Fria, o Japão se move de uma
postura passiva para uma outra mais ativa, dentro de uma matriz capitalista moldada forte-

mente pelos
melhor o papelinteresses
do Japãonorte-americanos.
no sistema-mundo,Mas não é ultrapassar
é preciso apenas isso.o Para
meroque se compreenda
reconhecimento de
suas estratégias econômicas ou mesmo de um certo “modelo japonês” de acumulação de capi-
tal. No arranjo geopolítico global – na perspectiva do realismo político, que assume os Estados
territoriais como unidades básicas –, é lícito admitir o Japão como um dos pilares principais.
Uma das questões basilares relativas à nova ordem mundial versa sobre a definição da
hegemonia no nível planetário. E, neste jogo, o Japão se projeta de modo perceptível. Trata-
se, evidentemente, de uma hegemonia incompleta ou inacabada, por assim dizer. Hegemonia
que se interpreta numa concepção gramsciana, qual seja, um estado de supremacia alicerçado
140 | O japão num mundo em busca de sentido

numa dominância econômica, numa direção política e numa liderança ideológica, de forma
articulada e simultânea. De acordo com essa interpretação, as pretensões japonesas não de-
vem ser subestimadas, uma vez que, marcado pelo ano de 1945 – quando foi derrotado e
humilhado – , após a Guerra da Coreia (1950-1953), o Japão reintegra-se ao campo ocidental,
desta feita em outro patamar, seja como “porta-aviões insubmergível” dos Estados Unidos no
Pacífico, seja como a segunda potência econômica mundial nos anos 1970 – em 1975, fazia
parte do grupo de países fundadores do G-7 – ou, ainda, hoje, como postulante a uma cadeira
como membro permanente no Conselho de Segurança de uma Organização – a ONU – da qual
ele é o segundo contribuinte orçamentário.
A partir desse balizamento histórico e teórico, podem-se identificar os Estados Unidos, a
Alemanha, o Japão e a China como protagonistas dessa disputa por uma posição hegemônica.
A principalidade dessa disputa reside menos no resultado ao qual se poderá chegar, do que na
rede de interesses estabelecida entre os Estados territoriais em foco. Uma rede que envolve,
conjunta e contraditoriamente, aproximações e distanciamentos, alianças e rupturas, como
expressões da redefinição de objetivos estratégicos. Conforme Durand, Lévy e Retaillé (1993),
os três primeiros Estados mencionados representavam os principais nós da rede mundial, for-
mando um oligopólio do poder mundial, na ótica sistêmica de uma rede hierarquizada, em
que se configuram centros e periferias de natureza e funções diferenciadas. Acrescentamos
dois novos pontos a essa leitura: a) a China se insinua firmemente nesse oligopólio; e b) esses
polos de poder não estão imunes à crise que decorre simultaneamente das fragilidades do
funcionamento sistêmico do Estado e do mercado. Isso redunda no imperativo de revisão das
políticas levadas a cabo por esses polos, na esteira de uma profunda reestruturação das formas
de se produzir e de se distribuir a riqueza, nas palavras de Valladão (1994).
Assim é que o Japão e os demais polos contam com trunfos significativos e diferenciados na
cena geopolítica global, ora evidenciados por um poder militar e econômico, como os Estados
Unidos, ora por um poder econômico-financeiro, como a Alemanha (HOFFMANN, 1990) – e
ainda, trunfos referenciados a um poder financeiro-tecnológico, como o Japão, ora a um poder
econômico, como a China. Essa cena global é dotada de notória mutabilidade, derivando daí
as emergências, ou seja, realidades geoestratégicas novas, que implicam um relativo declínio
ou ascensão de alguns Estados e de sua posição num sistema-mundo. Nesse sentido, parece

oportuno
atual registrar
ordem queentrou
mundial, o Japão, ainda
numa fasequede sedesaceleração
mantenha como um Estado
econômica proeminente
no transcurso na
da pri-
meira década dos anos 2000, exigindo do país a busca de novas vias de robustecimento de seu
modelo, tanto no plano interno quanto naquele da política externa. Conforme se lê no Atlas
Geopolítico Le Monde Diplomatique (2010, p. 76):

Quando, ao final da década de 1980, os japoneses “compravam o mundo”, gerou-se em muitos


países um mote febril de hostilidade contra o Japão. A imprensa se interrogava sobre quais
seriam os objetivos subsequentes desses devoradores de empresas, castelos, de vinhedos e,
Ivaldo Lima | 141

inclusive, de símbolos culturais como o caso dos estúdios Columbia, comprados pela Sony, em
1989. [...] Ao mesmo tempo, esse insolente êxito comercial, levou à reflexão sobre as condições
que permitiram ao Japão impor-se na economia mundial.[...] Passado um tempo, a crise mun-
dial provocou um prolongamento da recessão ao longo do primeiro semestre de 2009, apesar
dos planos de desenvolvimento. As autoridades colocaram ênfase na capacidade de exportação
da indústria de conteúdos (jogos, vídeos, animação, cinema etc.) assim como na intenção de
colocar o arquipélago no coração das novas tecnologias – principalmente com a robótica.

Então, mesmo com todos os percalços enfrentados pelo Japão, nos últimos anos, incluin-
do aí catástrofes de grande magnitude como os abalos sísmicos e o tsunami ocorridos em
março de 2011, o país se beneficia por fazer parte de um contexto regional que leva alguns
observadores internacionais a falarem de um renascimento da Ásia O riental e Meridional, ou
simplesmente, de um grande retorno do Oriente, como a avaliação do Atlas Geopolítico 2010
do Le Monde Diplomatique (2010, p. 62), segundo a qual “o renascimento da Ásia como centro
dinâmico da economia mundial está em vias de mudar totalmente a geopolítica internacio-
nal. A Ásia Oriental e Meridional volve a encontrar, assim, o lugar que havia tido antes da
Revolução Industrial”, tendo à frente economias em aquecimento promissor como a China e
a Índia, a Coreia do Sul e o Vietnã, com cifras de 4,1 a 16,6% de taxas médias de evolução do
PIB, entre 1990 e 2005, segundo o relatório de 2007-2008 do Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento. O referido retorno é avaliado de diferentes maneiras por especia-
listas. Veiga (2012), por exemplo, considera o dinamismo chinês como a locomotiva desse
retorno eurasiático, em detrimento da atuação coreana ou da japonesa. Em que pese, nessa
interpretação, a virulência econômica da China ante o relativo decréscimo econômico japonês,
defendemos a ideia de que a Eurásia se define sistematicamente – desde a proposta srcinal
de Mackinder, em 1904 – e que o Japão e as demais economias regionais a ele atreladas são
cruciais na consistência do aludido retorno. Nesta linha de raciocínio, e de uma forma ainda
aproximativa, o papel do Japão como um dos pilares da nova ordem mundial poderia sugerir a
definição de uma “Era do Pacífico”, isto é, o deslocamento do eixo geográfico do sistema-mun-
do. Historicamente centrado em potências, esse eixo já teria se configurado anteriormente no
Mediterrâneo e, em seguida, no Atlântico. Contudo, lembramos que essa avaliação sobre a

ascensão do Pacífico é recorrente, como veremos a seguir.


De novo uma “Era do Pacífico”?

As considerações de Pascal Boniface (2011) talvez nos instiguem à reflexão sobre uma
nova “Era do Pacífico”, na qual se destacariam o Japão e a China. Mas qual é a efetiva atualida-
de desse tipo de elucubração? A construção de uma “Era do Pacífico” constitui um tema atual
de debate, porém suas srcens não são recentes. Pelo menos desde o final do século XIX, já se
tem notícia de uma preocupação pública com a proeminência do Japão e o for talecimento do
142 | O japão num mundo em busca de sentido

Pacífico Ocidental como área geográfica privilegiada para o avanço e consolidação do desen-
volvimento das nações no nível planetário. Aldrich apud
( DURAND et al., 1993, p. 263) lembra
as palavras do secretário de estado norte-americano, em 1867, por conta das negociações com
a Rússia na compra do Alasca, afirmando que “doravante, a atitude, o comércio e a política
da Europa [...] diminuirão de importância, enquanto que o oceano Pacífico, seus rios, suas
ilhas [...] se tornarão o teatro principal dos fatos do grandioso futuro do mundo”. O Pacífico
Ocidental, como novo centro de gravidade planetário, permanece como tema recorrente ao
longo do século atual, sendo fracionado nos planos geopolítico, geoeconômico e cultural.
Vislumbra-se, dessa forma, um horizonte histórico e geográfico, no qual o Japão teria asse-
gurada uma posição bastante favorável, atuando como um dínamo no decorrer do século XX.
Para não correr o risco de transformar um dado espaço – como o Oceano Pacífico – em
personagem histórico de uma trama muito bem urdida, impõem-se considerações acerca das
ideias que sustentam a proposição de uma “comunidade ou era do Pacífico”. Uma delas diz
respeito ao que interpretamos como um imenso processo de transnacionalização do espaço
regional naquela parte do mundo. O ritmo acelerado da expansão das forças produtivas em
vários países da região, com destaque para alguns do Sudeste Asiático, conduz análises com-
parativas que reforçam a noção de uma “era do Pacífico”. Ocorre que a base desse rápido cres-
cimento econômico está na brutal mobilização de recursos, tais como investimentos maciços
em capital fixo, nos níveis de educação e expansão do emprego, o que pode não estar sendo
acompanhado por equivalentes ganhos de eficiência para um emprego conjunto de países da
borda ocidental do Pacífico (KRUGMAN, 1995).
O mesmo autor faz a oportuna ressalva do caso do Japão, cujo crescimento nas décadas
de 1950 e 1960 foi marcado tanto pela expansão dos recursos mobilizados como pelos ganhos
em eficiência, lembrando, porém, a recente desaceleração do crescimento econômico japo-
nês, com destaque para a severa recessão iniciada em 1991. Assim, examinar criticamente o
surgimento de uma economia mundial centralizada numa parte da Ásia não implica negar
a expansão da base técnica e o notável crescimento econômico de alguns daqueles países,
muitas vezes superior ao crescimento econômico ocidental, mas também não nos autoriza
a acreditar na manutenção do ritmo acelerado dos anos recentes para as próximas décadas.
Uma certa inexorabilidade da acumulação progressiva vinculada a uma visão linear da história

deveOutrossim,
ser questionada.
acenamos que tal crescimento econômico leste-asiático, acompanhado da
transnacionalização do espaço regional, é parte constitutiva de um processo mais amplo liga-
do ao estágio avançado do capitalismo globalitário deste início de século. Vivemos num mun-
do cada vez mais globalizado e regionalizado. E isto significa que a reestruturação do planeta
passa pela formação e expansão de redes globais, capazes de interligar e hierarquizar pontos
distintos (e distantes), forjando uma interdependência cada vez mais assimétrica. Da mesma
forma, também significa que a consolidação de contextos regionais mais interligados se apre-
senta como estratégia banalizada no atual período histórico, delineando novas fronteiras para
Ivaldo Lima | 143

blocos supranacionais, cujo exemplo asiático não é exclusivo. Portanto, assiste-se à formação
de blocos internacionais de poder, em diferentes partes do mundo (HAESBAERT, 1991), tendo
por base logística a competitividade e, por finalidade geopolítica, a posição hegemônica de
alguns centros, como já alertamos.
Logo, uma possível “comunidade ou era do Pacífico” é ambígua, até mesmo imprecisa de-
mais. Se alguns países se projetam como centros importantes, como o Japão e a China, outros,
mantidos em posições periféricas ou semiperiféricas, acabam por dificultar a tarefa de definir
onde começa e onde termina tal “comunidade”, nessa vastíssima área geográfica Ásia-Pacífico.
Previsões não tardaram, como as do Banco Mundial, de que a Ásia seria a responsável por me-
tade do crescimento global do comércio na década de 1990 a 2000, de acordo com Manning e
Stern (1995, p. 114). Num esforço de elucidar este ponto, Santos (1994, p. 250) alertava que,
nas duas últimas décadas do século XX, ocorrera um deslocamento da produção mundial para
a Ásia, constituída “como todas as outras regiões por um centro (o Japão), uma semiperiferia
(os novos países industriais: a Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Cingapura) e uma periferia
(o resto da Ásia).” Destarte, podemos confiar na premissa de que o Japão se configura, na
história do presente, como uma das forças motrizes do Pacífico Ocidental,vis-à-vis à China.
Entretanto, o seu território merece uma análise regional que explicite as especificidades do
país e a isso nos dedicaremos nas próximas páginas.

Estrutura produtiva e regional do Japão numa perspectiva histórico-geográfica

O Japão teria tudo para ser apenas mais um arquipélago do oceano Pacífico, compondo
um arco montanhoso e vulcânico, não fossem alguns traços que lhe conferem uma individua-
lização em seu contexto socioespacial. De acordo com Mendez e Molinero (1994), as razões
que justificam uma “evidente srcinalidade” desse país de apenas 377.800 km estão ligadas
a seu caráter de potência industrial, seu intenso desenvolvimento urbano, sua capacidade de
incorporar inovações ocidentais, partindo por vias autônomas para uma revolução tecnoló-
gica, e uma interpenetração entre tradição e modernidade que permite falar numa “versão
japonesa” de desenvolvimento. Mas nem tudo é srcinal no Japão. Como muitos de seus vizi-
nhos, apresenta elevada densidade demográfica (338 hab/km , em 2011), além de enfrentar

adversidades
território), bemclimáticas vinculadas geológica
como instabilidade a um regime monçônico
expressiva, uma(que domina
vez que a maiornuma
se localiza parteárea
do
de choque de duas placas tectônicas, a Placa do Pacífico e a Placa Eurásica.
A economia japonesa apresentava, em dados de 2008 fornecidos pela OCDE, um PIB em
torno de 4,31 trilhões de dólares contra apenas cerca de 200 bilhões, em 1970. As bases que
instauraram e facilitaram a acumulação capitalista naquele país remontam, contudo, a perío-
dos históricos anteriores às duas décadas em foco. A história econômica japonesa é marcada
por dois momentos cruciais, verdadeiros pontos de inflexão ao longo do processo de cresci-
mento do país como Estado moderno. O primeiro deles reporta-se à Restauração ou Revolução
144 | O japão num mundo em busca de sentido

Meiji, ainda no século XIX, e o segundo está ligado ao período do “Milagre” Japonês, já depois
da Segunda Guerra Mundial. Os 200 quilômetros que separam a costa japonesa do setor conti-
nental mais próximo, aliados ao fato da escassez de recursos naturais em seu território, foram
facilitadores para o isolamento econômico e cultural do país durante a era Tokugawa ou de
Edo – período de uma dinastia de xoguns que controlaram o Japão por quase três séculos
(1603 a 1867). No tempo desse xogunato instauraram-se alguns traços essenciais da socie-
dade japonesa, particularmente sua coesão interna, numa codificação-controle social e espa-
cial, tanto em aspectos formais como funcionais (MÉNDEZ ; MOLINERO, 1994). Encontraremos
em Haesbaert (1991, p. 56) uma síntese dos traços próprios da sociedade no Japão, na era
Tokugawa, a saber: a) militarismo e nacionalismo; b) centralização do poder; c) ética confucia-
na; d) valorização de decisões tomadas, de forma aparente, coletiva e anonimamente; e) con-
trole empresarial concentrado em certos grupos familiares (oszaibatsus). Como assinalamos,
esses aspectos estarão contidos transversalmente na história e na geografia japonesa, ainda
que a realidade nacional mude consideravelmente, como foi o caso da era Meiji.
A Restauração Meiji implicou o impulso inicial para o desenvolvimento e a fundação do
Japão como país moderno, no período de 1868 a 1912. Trata-se, com efeito, de um processo de
transformações políticas, econômicas, sociais e espaciais, o qual rompe definitivamente com
a realidade feudal, de incipientes relações concentradas em Osaka e Edo (atual Tóquio). Nas
últimas décadas do século XIX, tornara-se possível a integração efetiva do mercado nacional, a
partir das reformas institucionais que eliminaram privilégios dos feudos (monopólios, fixação
do camponês à terra) e acabaram com restrições de compra e venda da terra como proprie-
dade privilegiada, além de melhorias nos transportes com as primeiras ferrovias (Tóquio-
Yokohama, 1872 e Kobe-Osaka, 1874).
A era Meiji (que significa “governo esclarecido”) vai adiante. A educação primária é esta-
belecida como obrigatoriedade, incorpora-se tecnologia ocidental e criam-se empresas pú-
blicas em vários setores (bancos, indústrias e comércio). Com o aumento da produtividade,
apoiada na expansão técnica, na concentração empresarial e nos baixos salários, ativam-se
as exportações. A rápida expansão da atividade econômica é ampliada com as vitórias sobre
a China (1894) e a Rússia (1905), que fortalecem um Japão projetado sobre seu império colo-
nial (Okinawa, 1874; Kurilas, 1875; Taiwan, 1895; Coreia, 1910). Uma vez descobertas as van-

tagens comparativas
naturais, a acumulaçãopresentes nosnopaíses
capitalista Japãovizinhos, principalmente
avança velozmente relativas aos
até as primeiras recursos
décadas do
século XX, tendo a industrialização como vetor principal.
Se a indústria experimenta taxas de crescimento em torno de 5,7% ao ano, entre 1868 e
1940, o mesmo não se verifica nos índices de produtividade agrícola. O governo Meiji até ado-
tou políticas que aumentaram as transferências de excedentes da agricultura para os setores
econômicos considerados modernos. O processo de modernização econômica, gerador de uma
realidade urbano-industrial para o país, acabou por elevar custos para pequenos produtores
rurais – quase 50% deles arrendatários, ainda em 1914, de acordo com Méndez e Molinero
Ivaldo Lima | 145

(1994). Os mesmos autores lembram também que ocorre uma remodelação do território
nacional, inclusive com a expansão do espaço efetivamente integrado, com a colonização de
Hokkaido, no extremo norte do país. O impacto da Restauração sobre as estruturas territoriais
se observou igualmente na substituição da fragmentação espacial (os domínios feudais, de-
nominados han) por uma divisão do país em 46 prefeituras (ou ken), instalando oficialmente a
capital em Tóquio (anteriormente situada em Kyoto). É um Japão que se urbaniza e industria-
liza e assiste ao aumento dos contrastes regionais, tanto entre as porções sudeste e nordeste
do território quanto entre a costa e o interior ou ainda entre os litorais do mar do Japão e do
Pacífico.
A estrutura produtiva, criada a partir da era Meiji, sofrerá um retrocesso com os efeitos
da Segunda Guerra Mundial. Destruição de infraestrutura, pagamento de indenizações, seis
milhões de repatriados das antigas colônias, desarticulação dos zaibatsus (em face da lei an-
timonopólio, em 1947, imposta pelos Estados Unidos) são alguns exemplos desses efeitos.
Ocorre que, particularmente entre 1953 e 1973, o Japão conheceu um crescimento econômico
sem precedentes, com taxas anuais de crescimento do PNB em torno de 9,7%, muito acima
de outros países, fato que levou à criação do termo “milagre econômico”, especialmente, “mi-
lagre” japonês.
O “milagre” se baseou no desenvolvimento industrial, seu carro-chefe. Inicialmente, in-
vestiu-se nas indústrias pesadas, químicas e mecânicas com relativo decréscimo da indústria
leve. Posteriormente, inversões maciças direcionaram-se para setores de alta tecnologia como
eletrônica, informática, telecomunicação, equipamentos de automatização, biotecnologia e
novos materiais. Plantas ligadas aos setores têxtil-confecções e de montadoras de compo-
nentes eletrônicos são relocalizadas em países vizinhos, do Sudeste Asiático, especialmente a
partir de 1983. Esses são setores que utilizam mais intensamente a força do trabalho. Vê-se,
em tal movimento, o avanço da estrutura produtiva japonesa na direção de unidades de pro-
dução intensivas em conhecimento, resultado das avançadas tecnologias de produção e dos
investimentos significativos em Pesquisa & Desenvolvimento (3% do PNB, em 1992, o dobro
daquele em 1960). Lembrando que a estrutura do PIB se divide em 75,6 % para o setor de
comércio e serviços contra 22,8 % do setor secundário (em 2007), e ante o grau de tecnologia
presente em ambos, o Japão parece se aproximar mais e mais do que Drucker (1993) denomi-

na de da
outra sociedade do conhecimento,
produtividade, vivenciandotendo
agorasuperado criativamente
uma revolução umaem
gerencial, revolução industrial, e
que conhecimento
– a formação eficaz em ação – torna-se o principal recurso. Citemos, por exemplo, os esforços
na consecução de novos materiais – “as matérias-primas do próximo século” – reduzindo a
vulnerabilidade do Japão quanto às importações de alguns recursos naturais.
Entretanto, segundo alguns autores, “milagre” é um termo artificial (ou imaterial?) em
demasia para explicar a proeza econômica do Japão atual. O país não se tornou uma potên-
cia econômico-financeira e tecnológica, no pós- guerra, por conta da mão invisível smithiana.
Ao contrário, tratar-se-ia de um “milagre bem planejado”, consoante Gibney (1982). Segundo
146 | O japão num mundo em busca de sentido

esse autor, as duas influências básicas na forja do “milagre” seriam uma ética de trabalho con-
fuciana, modificada e enriquecida, e a intervenção e a inspiração norte-americanas. Logo, es-
tariam alinhados um capitalismo confuciano e um fator americano, estando este último ligado
a técnicas de eficiência gerencial, de maior produtividade etc. A ocupação americana no Japão,
de acordo com Gibney (1982, p. 33), seria uma “segunda fase da Restauração Meiji, de 1868”.
A economia japonesa seria mais racional em relação ao plano do que ao mercado – uma sen-
tença que agrada a Gibney.
Schwartz (1990, p. 9), por sua vez, sem ignorar a especificidade da cultura japonesa, dis-
corda que o “milagre japonês” somente possa ser compreendido a partir do contexto cultural
único do Japão, e que “tanto a transição para uma sociedade moderna comoboom do pós-
guerra envolveram reformas e políticas financeiras com um grau de intencionalidade dificil-
mente encontrável em outras economias”. Sua tese, portanto, é a de que as características do
caso japonês surgiram com rapidez e agilidade por causa de reformas financeiras (SCHWARTZ,
1990, p. 20) Por fim, o trabalho de Satoshi (1985) procura desvendar a face social do “milagre”,
sob o prisma dos custos impostos aos trabalhadores explorados e seus desejos adiados.

Configuração regional japonesa

No Japão, a estrutura produtiva engendrada, no contexto histórico anteriormente reporta-


do, apresenta uma configuração espacial fortemente apoiada notrivium: empresa, metrópole,
porto. A centralização do poder econômico vê-se acompanhada por concentrações espaciais
bem nítidas. Os contrastes espaciais encontrados no Japão nos permitem identificar uma
estrutura regional expressa numa articulação territorial do tipo centro-periferia. Tal estrutu-
ração do espaço produtivo, definindo traços distintivos entre várias “partes” do arquipélago
nipônico, levou os japoneses ao reconhecimento de regiões dentro do território nacional, uti-
lizando-se os limites das circunscrições administrativas (as prefeituras). Vários autores têm-se
esforçado em registrar as diferenciações do conteúdo geográfico dessas regiões, em caráter
francamente descritivo, objetivando, entre outros, desmistificar uma imagem homogênea do
espaço japonês.
Aceitando como válido este esforço assumidamente descritivo e destacando as regiões

mais importantes,
Pelletier reproduziremos as(1988).
(1988) e Pezeu-Massabuau considerações
O quadroderegional
Derruauque
(1970), Berque (1988),
se reconhece habitual-
mente no Japão é composto das regiões de Hokkaido, Tohoku, Kanto, Hokuriku, Kansai, Tokai,
Chugoku, Shikoku e ainda Kyushu e o arquipélago das Ryukyu ( Mapa 9). Comentaremos algu-
mas delas a seguir.
Ivaldo Lima | 147

Mapa 8 – Recortes regionais do Japão

Hokkaido

Nas palavras de Derruau (1970, p. 193), esta é “a mais canadense das ilhas japonesas”, de-
vido às semelhanças do clima frio, pelo estilo de suas fazendas e pela relativa extensividade de
sua agricultura, pela produção de celulose e de pasta para papel. Há também traços distintivos
e bem “japoneses”. A grande ilha do norte se impõe como um domínio à parte, 1
à imagem dos
pioneiros ainos. O clima é rude, com invernos muito frios, formação de gelos costeiros e de
banquisas que bloqueiam durante vários meses os portos do Mar de Okhotsk. A agricultura de
arroz domina a oeste, as culturas secas (trigo) ao centro e a criação de bovinos a norte e a leste.
Hokkaido está no centro de uma das quatro grandes zonas de pesca do mundo. A indústria é

relativamente pouco
especialmente desenvolvida
em Sapporo, a capitale regional.
as atividades de serviços jogam um papel importante,
Uma questão geopolítica importante se avizinha de Hokkaido: trata-se do problema de
demarcação territorial envolvendo as Ilhas Kurilas, a pouquíssimos quilômetros de Hokkaido.
A questão territorial entre a Rússia e o Japão passa por uma rediscussão sobre o controle do
conjunto das Ilhas Kurilas onde, a partir de negociações entre os dois governos, especialmente
em 1993, o Japão reivindica ao menos as Ilhas de Etorofu, Kunashiri, Shikotan e Habomai,
1
Hokkaido é a mais setentrional das quatro maiores ilhas do Japão, ao lado de Honshu ou Hondo – que significa “terra principal”, por ser a
mais extensa –, de Shikoku e de Kyushu, as quais, reunidas, compõem 97% do território japonês.
148 | O japão num mundo em busca de sentido

propondo uma modificação nos termos do Tratado de Paz de San Francisco, de 1951, com res-
paldo de nota do governo dos Estados Unidos, desde 1957, de acordo com Mormanne (1995,
p. 136-137). Se Tóquio se projeta no cerne dessa questão devido à sua posição como sede
do poder central, Hokkaido, por seu turno, se projeta pela sua dimensão estratégica, em que
desponta sua localização geográfica como dispositivo crucial em sua participação na questão
em tela.

Kanto
Inserida no coração da Ilha de Honshu,região
a de Kanto em torno da capital do país corresponde
à mais vasta planície japonesa. Ali vive um em cada grupo de quatro japoneses, sendo a densidade
de ocupação o triplo da média nacional. Seu litoral é marcado por dois promontórios: as Penínsulas
de Miura e de Boso, enquadrando a profunda Baía de Tóquio. A ocupação rural segue um esquema
concêntrico, havendo a atividade florestal e turística nas montanhas; sericultura nas colinas; cultura
do trigo e criação(para leite e carne) nos terraços. Uma série de cidades antigas da planície cede mais
e mais lugar à função de “subúrbios” residenciais de Tóquio. No litoral, a pesca é muito mais ativa, pois
o encontro de duas correntes marítimas , uma quente e outra fria(Kuro Sivo e Oya Sivo) multiplica ali o
plâncton, como na área de Choshi. Tóquio, aglutinando a mais vasta conurbação do planeta, ultrapas-
sando a marca dos 30 milhões de habitantes, interliga-se, intensa e territorialmente, com Yokohama,
Kawasaki, Chiba etc. no entorno da Baía de Tóquio. Yokohama e Kawasaki ali se destacam devido à
excepcional concentração industrial.
Pode-se afirmar que a capital nacional é o motor da vida japonesa, se bem que Osaka domina
economicamente a metade oeste do país, e Kyoto permanece como importante centro da cultura
tradicional. Contudo, é em Tóquio que se concentram mais de 30% das empresas japonesas, a isto
acrescentando-se as funções política e cultural. As três linhas de TGV (Trem de Grande Velocidade, o
trem-bala oushinkansen) e o maior aeroporto internaciona l do país(Narita) fazem deóquio
T o maior
nó de comunicações do país, expressando a grande fluidez do espaço polarizado por essa metrópole,
núcleo de uma megalópole que, no dizer do geógrafo Jean Gottmann, se refere a uma “conurbação de
conurbações”. Tóquio ainda acumula metade dos depósitos bancários existentes no país e 70% das fi-
liais estrangeiras localizadas no arquipélago. A região de Kanto, juntamente com a de Tokai e de Kinki,

compreendem o setor mais dinâmico dosfluxos que animam oterritório japonês.


Kinki ou Kansai

Polo pioneiro da urbanização do Japão, a região de Kinki – também designada pelo topô-
nimo genérico de Kansai – assistiu ao desenvolvimento de uma burguesia mercantil, a partir
do século XVI. Em seguida, surgiu uma burguesia industrial, com a modernização centrada
em Osaka, enquanto Tóquio exercia funções burocráticas. A região é, por assim dizer, o ber-
ço do Japão, nas palavras de Pelletier (1988). A posição geográfica conta muito para a sua
Ivaldo Lima | 149

importância, uma vez que, de um ponto de vista marítimo, margeia o Mar Interior e o O ceano
Pacífico e, de uma perspectiva terrestre, localiza-se no centro do arquipélago japonês. Conta
ainda com as duas ex-capitais do Japão, as cidades de Kyoto e Narita.
Muitas diferenças socioculturais distinguem essa região daquelas do leste japonês, como
por exemplo, dialeto,teatro, artesanato. O alto crescimento da economia nacional (1950-1960)
operou uma reversão da importância de Kansai em favor de Tóquio e sua região. A participa-
ção de Kinki no PIB nipônico passou de 40 para 20% em 30 anos. A crise passa a atingir suas
indústrias tradicionais (naval e têxtil), e até mesmo suas firmas de eletrônica (Matsushita,
Sayo, Sharp). Permanece ativo na região o potencial comercial e portuário, em torno de Osaka
e Kobe, e científico, em torno de Kyoto. Vários projetos buscam responder ao imperativo de
reforço econômico e estratégico para a região, tais como o novo aeroporto de Osaka; a “cidade
científica e cultural”, simbolicamente situada entre Osaka e Kyoto; a expansão do porto de
Kobe; além da construção de pontes sobre o Mar Interior em direção à Ilha de Shikoku.
As descrições regionais trabalhadas nos exemplos acima nos permitem avaliar, ainda que
superficialmente, o grau diferenciado do desenvolvimento das forças produtivas no Japão,
bem como algumas correlações ante a disputa pela acumulação de riqueza em pontos espe-
cíficos do território nacional. Reiteremos que, para além de um quadro descritivo abordando
regiões individuais, nosso intuito consistiu em demonstrar a concentração espacial de ele-
mentos econômicos, políticos, tecnológicos e financeiros, além de naturais, capazes de atuar
como vetores de uma estruturação territorial que estimula ações públicas e privadas, de cará-
ter normativo. Em outras palavras, desponta o planejamento territorial como prática impositi-
va que busca um rearranjo espacial menos concentrador. Tanto o extremo norte como a porção
mais meridional do país contrastam com o eixo da megalópole japonesa, onde os dados são
reveladores quando se constata que mais da metade das grandes corporações se localiza em
Tóquio e Osaka, chegando a 70% do total se incluirmos Nagoya, Kobe, Kyoto e Yokohama – a
supremacia industrial das seis metrópoles; enquanto, por outro lado, e em outros espaços, as
atividades primárias asseguram um elevado nível de emprego (mais de 10 % em Hokkaido e
Kyushu). A dinâmica territorial se afirma através de forte processo de metropolização, uma
hiperconcentração (Quadro 1).

Quadro 1 – A concentração na região de Tóquio (Kanto)


36,6 % do PIB japonês 8,5 % da área
35,7 % da produção industrial 31,2 % da população
38,3 % dos serviços e comércio 70% da pesquisa pública

A partirdo que foiexposto anteriormente, ponderamos como relevante comentar dois esforços de
reordenamento do espaço japonês, nos exemplos dos conjuntos de estratégias territoriais colocados
em prática nas décadas de 1960 e 1980.
150 | O japão num mundo em busca de sentido

A tentativa de construir uma nova realidade espacial


, no final dos anos 1960,reporta-se ao Plano
de Ordenamento Territorial de 1969. Trabalhando conjuntamente magnitudes macroeconômicas e o
melhor arranjo espacial para sua viabilidade, o Plano previa um conjunto de ações voltadas para a
agilização dos fluxos, através de linhas de TGV atravessando todo o território nacional. Tal malha de cir-
culação facilitaria a reconversão de espaços industriais e agrícolas, além do aparecimento e/ou forta-
lecimento de centros industriais de impor
tância regional/nacional, especialmente nos extremos norte
e sul do arquipélago. O objetivo central, portanto, era gerar estruturas territoriais concebidas para
imprimir maior fluidez ao espaço, dentro de uma visão de conjunto do território nacional, reduzin-
do as crescentes contradições setoriais e regionais impostas por um capitalismo monopolista e pelos
imperativos de um processo de transnacionalização de diversas partes do espaço territorial japonês.
Atuação posterior norteada por objetivos similares aos do Plano de Ordenamento supracitado diz
respeito ao esforço de descentralização/desconcentração de atividades através da criação de tecnopo-
los por todo oterritório nacional. A lei, aprovada em julho de 1983,
relativa à criação detecnopolos, ex-
pressa uma nova figura de reordenação do território. Segundo apud StohrMÉNDEZ;
( MOLINERO, 1994,
p. 231), tal empresa se definia como “estratégia para o desenvolvimento de regiões atrasadas, focada
na criação deatrativas cidades nasquais a indústria, aciência e oespaço residencial estejam estreita-
mente relacionados”. Tratava-se de pôr em prática uma política regional descentralizada que mobili-
zasse recursos endógen os de cada área selecionada. De acordo com Méndez e Molinero (1994, p. 232),
os seguintes requisitos teriam de ser preenchidos para se aprovar a construção de um tecnopolo: uma
cidade de, pelo menos, 200mil habitantes; proximida de com umaárea com empresas já implantadas;
fácil acesso a meios de transporte rápidos; formação de um organismo promotor da inovação tecno-
lógica no qualparticipassem a administração local, as universidades da área e as empresas privadas; e
disponibilidade de solo, água e equipamentos capazes de fazer frente às novas necessidades.
A busca de um desenvolvimento policêntrico, nos dois exemplos de estratégias territoriais em-
preendidas, não significou o alcance dos resultados esperados. Consoante Haesbaert (1991, p. 62),
estaríamos diante de uma falsa descentralização, posto que o poder político permaneceria centraliza-
do e metade dos tecnopolos estava prevista para o eixo da megalópole, além do que “esses megapro-
jetos têm obtido êxito no sentido de garantir o pleno emprego em setores como a construção civil e os
serviços públicos, atendendo também a interesses políticos, ao beneficiarem regiões eleitoralmente
favoráveis ao governo”.

Enfrentamentos e exclusão: elementos de uma geografia dos conflitos

Como uma das primeiras economias mundiais, o Japão apresentou nas últimas duas
décadas um crescimento econômico de altos e baixos, após um crescimento muito elevado,
especialmente na segunda metade da década de 1980. De qualquer forma, continuam sur-
preendentes a velocidade e a maneira como se deu o desenvolvimento do país ao longo da
segunda metade do século XX. Não há dúvida de que tal processo de acumulação de capital
se baseou num sistema produtivo denso e de qualidade, cujo arranjo espacial procuramos
Ivaldo Lima | 151

explicitar na seção anterior. Também é certo que os números relativos ao Japão impressionam,
quando lembramos, por exemplo, que sua economia foi multiplicada por quatro, entre 1970 e
1994, e que, ainda hoje, contando com menos de 2% da população, o país realiza 8,4% do PIB
mundial (dados do FMI para 2011). Talperformance, sem dúvida, redundou na elevação do ní-
vel de vida e na melhoria do bem-estar social. Uma questão que se introjeta nessa observação
de resultados diz respeito ao alcance desses ganhos em relação a todos que vivem no Japão,
a suas desigualdades. Isto é, interessa avaliar de um modo mais qualitativo o que significa
bem-estar para aqueles que estão vivendo, trabalhando e representando o Japão, ou ainda, o
status de uma sociedade japonesa moderna.
Nesse sentido, nem tudo parece um mar de tranquilidade. Turbulências que agitam o ter-
ritório japonês não são restritas aos frequentes abalos sísmicos, como o ocorrido em Kobe, no
inicio de 1995, e o tsunami no Nordeste do país em 2011. Ao desempenho econômico alter-
nando sucesso e superações produtivas, dotado de notável competitividade, acrescenta-se a
complexidade de uma sociedade composta de cidadãos vulneráveis a um jogo de interesses
gerador de conflitos de natureza econômica (como a prática criminosa das máfias), étni-
ca (como a segregação sofrida por coreanos residentes no país), religiosa (no caso de seitas
terroristas como a Aum, que promoveu atentados no metrô de Tóquio em 1995) e mesmo
ético-profissionais (para citar o esforço de redefinição do papel da mulher no trabalho e na
sociedade e, de outro lado, dos sindicatos). Sem pretender alçar vôo na direção de uma análise
antropológica, destacaremos alguns pontos relativos aos espaços sociais de tensão, potencia-
lizadores de práticas socioespaciais excludentes.

Conflitos internos no Japão atual

Um aspecto presente na sociedade japonesa e que versa sobre a dialógica existente entre
diferentes normatividades é a instituição de poderes paralelos aopoder estatal, legal. São espa-
ços sociais marcados por um conjunto de normas existentes fora do Estado. Configuramethos,
comportando práticas e projetos distintos. É assim que se corporifica a máfia japonesa. Uma
das mais antigas organizações criminosas do mundo, é contemporânea da camorra napolitana
e mais antiga que a máfia siciliana. Osgangsters japoneses são designados pelo termo genérico

de Yakuza, organizando-se
Pons ainda nos informadesde
que ameados
Yakuzado século
teve papelXIX,político
segundo Pons (1988,
importante p. 201).do século
na virada
passado até a Segunda Guerra Mundial, especialmente como colaboradora da extrema direi-
ta, reprimindo grevistas, atacando militares socialistas, participando até mesmo de investidas
militares na China. Ao mesmo tempo que revela um comportamento desviante da sociedade
japonesa, a Yakuza expressa elementos dessa mesma sociedade através da hierarquia que
existe internamente. Uma normatividade específica é criada. O código de normas estabele-
cido (incluindo relações de fidelidade, cerimoniais ritualísticos, marcas distintivas, como ta-
tuagens) respalda a ação controlada da Yakuza sobre os jogos clandestinos, a prostituição, o
152 | O japão num mundo em busca de sentido

narcotráfico, a mão de obra de jornaleiros e estivadores – o que não significa uma separação
total do mundo da legalidade e da formalidade. A organização criminal da Yakuza está à frente
de inúmeras atividades legais, escondendo-se, oficialmente, por trás de “associações amigá-
veis de ajuda mútua” (Shimboku dantal). Dreifuss (1996) considera a Yakuza uma das multina-
cionais privadas do crime, movendo-se “nos porões da globalização”.
Existindo como grupo, os Yakuza não chegam a implantar um clima de terror aberto aos ci-
dadãos. Dominada por grandes organizações criminais, a Yakuza tem nos espaços urbanos de
maior porte a materialização de sua territorialidade, elegendo as ruas como espaço privilegia-
do de fluxos. A mais importante organização está situada em Kobe, contando com mais de dez
mil membros: é a Yamaguchi-gumi. Em Tóquio, encontra-se aSumiyoshi-gumi. Os Yakuza têm
diversificado e internacionalizado suas operações, na direção do Sudeste asiático, do Havaí e
da costa oeste dos Estados Unidos. A polícia estima que a cifra dos negócios das organizações
da Yakuza chegaram, em 1986, perto de 15 bilhões de dólares (PONS, 1988).
Cabe-nos sublinhar a relação conflituosa entre a legalidade e a ilegalidade, no exemplo
da máfia japonesa, que abre uma perspectiva dos diferentes projetos e práticas sociais conti-
dos no modelo japonês de acumulação. O submundo da criminalidade ainda conta, no Japão,
com a ação dos sokaiya, que atuam através de chantagens e extorsões, especialmente junto a
acionistas, ante a ameaça de revelar informações importantes para os negócios e mesmo da
vida privada.
Os nichos sociais criados pelos agentes produtores de normas não se restringem apenas ao
mundo da criminalidade, mas ao domínio da marginalidade e da exclusão. As normas impin-
gidas ao cotidiano carregam um significado de arbitrariedade e derivam de interesses. Dessas
premissas pode-se entender melhor a existência dosburakumin, no Japão, termo administra-
tivo oriundo da contração detokushu buraku, que significa aldeias ou lugarejos especiais, em
torno de 5 mil, onde estima-se que vivam cerca de 2 milhões de japoneses. Os burakumin são
pessoas que vivem nesses lugares e sofrem profunda discriminação social.
Os burakumin são descendentes da casta de párias da época feudal e foram liberados ofi-
cialmente em 1871. A srcem da discriminação sobre eles é apresentada, comumente, como
sendo de cunho religioso. Para Sabouret (1988, p. 244), podemos falar de casta, nesse caso,
haja vista que os burakumin: a) devem exercer ocupações ligadas ao abate de animais; b) são

impedidose de
timentas casar com
penteados pessoas fora
específicos; de seu
d) não grupo;
podem c) devem
circular depoisportar, em certas
de certos épocas,
horários; ves-
e) devem
viver em guetos; f) apesar de, em 1971, terem sido denominados “novos cidadãos”, e após
a Segunda Guerra Mundial, de burakumin, são tratados como uma “raça invisível”, sofrendo
discriminação brutal quanto à consecução de emprego. Na opinião de Sabouret (1988, p. 245),
“a persistência do fenômeno discriminatório pode [...] se explicar apenas por uma única ra-
zão: a utilização dos burakamin como bodes expiatórios”. Portanto, há uma relação, ao mesmo
tempo explícita e conflituosa, entre esses “japoneses” fortemente discriminados e segregados
Ivaldo Lima | 153

espacialmente e outros japoneses que vivem a plenitude do espaço que podem consumir, sem
barreiras estabelecidas por um código moral tão rígido e excludente.
Uma ideia obsessiva que persegue a humanidade é aquela de estar ou viver juntos. Às
vezes, e em certos contextos territoriais específicos, isto pode representar um longo e duro
caminho a percorrer. Historicamente, as relações entre Japão e Coreia nem sempre foram as
mais harmoniosas (o Japão invade a Coreia em 1592, depois em 1904 e ainda a “anexa” em
1910). Os coreanos que residem no Japão sofrem uma discriminação que ocorre no nível do
emprego, da habitação e da educação, principalmente. Para escapar dessa discriminação ét-
nica, muitos coreanos recorrem à naturalização. Os dados são explícitos: de 1952 a 1986, ocor-
reram 179.435 naturalizações no Japão, das quais 136.095 relativas aos coreanos. De acordo
com o Depar tamento de Imigração do país, havia 901.284 coreanos no Japão em 2010, sendo
284.840 naturalizados e 515.570 com residência permanente.
Mesmo aqueles nascidos no país são classificados como “residentes estrangeiros” através
do termo zainichi, que significa srcinalmente “permanecendo no Japão”, ou seja, residente
temporário, mas que se estendeu até mesmo para cidadãos japoneses, de descendência corea-
na que conquistaram sua cidadania seja por naturalização seja por nascimento de um dos pais
naturalizado japonês. Tais constatações levam Debionne (1988) a considerar que as sequelas
de uma política colonial ainda são profundas, no que diz respeito à aspiração de viver juntos
para coreanos e japoneses.
Aos exemplos anteriores, os quais conduzem à guetificação do espaço social japonês e à
segregação étnica oficializada, poderíamos acrescentar um embate identitário entre os “japo-
neses” e os ainus – aborígenes do país, que vivem atualmente em Hokkaido. A incongruência
do modo de vida dos ainus com a chamada sociedade envolvente pode fazer com que sua cul-
tura desapareça, ainda no século XXI. A geografia de um conflito entre resistência e assimila-
ção se estende tanto pelas terras setentrionais, no caso dos ainus, como na porção meridional
do Japão, no que se refere ao povo de Okinawa, sujeito às imposições da presença americana.
Nesse caso, a presença de militares norte-americanos provoca e acelera o esfacelamento cul-
tural, além de haver a questão geopolítica aí envolvida.

Linhas de tensão: Japão, Estados Unidos e China

Sabouret (1988, p. 357-359) se questiona com propriedade acerca do que estaria por trás
da palavra Japão: seria um signo de reconhecimento, ou o nome de guerra de um grande
comprador e investidor? Chama-nos a atenção o fato de o Japão assumir posição relevante
no cenário mundial, fazendo parte do G-7, a partir de 1975, e tornando-se, dez anos mais
tarde, o maior credor mundial. Isto graças às tecnologias, métodos de gestão e procedimentos
industriais introduzidos no país, por conta da ocupação americana no imediato pós-guerra. O
sucesso industrial japonês e sua reconstrução após a Segunda Guerra Mundial se devem muito
aos Estados Unidos. Contudo, a bem-sucedidaperformance japonesa acabou por engendrar
154 | O japão num mundo em busca de sentido

uma linha de tensão entre o Japão e os Estados Unidos, ante o potencial de competitividade
daquele país no mercado internacional e, em especial, a sua presença como investidor e com-
petidor dentro dos Estados Unidos. O foco da tensão entre ambos os países esteve centrado nas
relações econômicas, devido, sobretudo, à balança comercial desfavorável aos Estados Unidos,
além das relações de segurança militar.
Historicamente, apesar de a presença efetiva dos Estados Unidos no Japão se registrar
com a passagem do almirante M. Perry, em 1853-1854, forçando a abertura das relações co-
merciais do Japão com o Ocidente, a ocupação norte-americana nos anos que se seguem ao
término da Segunda Guerra Mundial marca em tons bastante fortes a estreita relação forma-
da entre os dois países. Tanto pela nova constituição, àquela época, pacifista, e de inspiração
americana, quanto pelos investimentos diretos, planos de estabilização, pacto de segurança,
entre outros, funda-se entre os Estados Unidos e o Japão um tipo de relação que Riès (1988)
caracteriza como marcada por uma “ironia cruel”. Isto talvez por conta da “criatura”, anos mais
tarde, enfrentar firmemente o seu “criador”, numa guerra comercial assaz agressiva.
O Japão que,especialmente nos anos1990, enfrenta comercialmen te os Estados Unidos, nofun-
do, enfrenta o mundo todo. Delanglade (1991, p. 60) fala de um Japão dotado de uma “niponidade”
(nipponité), um paísfechado em si mesmo queultiva
c sua especificidade como seu bem mais precio-
so, e que, tornado uma potência econômica mundial, invadindo e dominando a produção eletrônica
global, pode dizer não. A autora ainda cita a frase de uma primeira-ministra francesa, Edith Cresson,
quando afirma que “está claro que o Japão é um adversário que não joga o jogo que tem a vontade de
conquistar o mundo”. A América e a Europa viam o Japão – como, hoje, veem a China – como um rolo
compressor que os invadia. Apreocupação norte-americana, neste tocante, é mais explícita, contudo,
pois a maioria de seu comércio é feito hoje com a Ásia.
A potência japonesa é uma expressão de sua densidade tecnológica. Uma tecnologia que,
desde o século XIX, é incorporada e melhorada, em grande parte a partir do Ocidente. As trans-
ferências de tecnologia para o Japão obedeceram diferentes ritmos ou fases, os quais, de acordo
com Saito (apud RAFFETSTIN, 1993, p. 243), são: a) 1868-1883, construção de uma nação mo-
derna; b) 1884-1990, industrialização e desenvolvimento de tecnologia militar; c) 1901-1914,
desenvolvimento da indústria química e das indústrias pesadas; d) 1915-1928, alcance das na-
ções mais avançadas; e) 1929-1945, racionalização e procura de bens de substituição; f) 1945-

1953, reconstrução
forma, econômica;
nota-se que as g) 1954
transferências [...], taxa deencurtaram
de tecnologia crescimento econômico
o período elevada. Destae
de modernização
projetaram o Japão como potência econômica e tecnológica e, mais tarde, também, financeira.
A taxa de crescimento econômico, nos anos 1990 e 2000, não é mais a mesma das três décadas
anteriores (v. Quadro 2) e isto é uma ressalva importante. Uma nova fase?
Quadro 2 – Crescimento anual do PIB japonês (1996-2010)
1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
2,6 1, 6 –2,0 –0,1 2, 9 0,2 0, 3 1, 4 2,7 1, 9 2, 0 2,4 –1,2 –6,3 4,0
FONTE: site do Banco Mundial, 2011.
Ivaldo Lima | 155

Já destacamos, anteriormente, que o período da ocupação norte-americana no Japão


foi crucial para a (re)construção do poderio japonês. Cabe-nos ressaltar, no momento, que o
“mito mobilizador” americano, alicerçado no taylorismo e no fordismo, assume outra forma,
na prática experimental produtiva japonesa, criando um novo modelo, denominado toyotis-
mo, ou ainda, ohnismo (ohnoísmo). Tais apontamentos nos são fornecidos por Lojkine (1995,
p. 30-32), o qual acrescenta que os dois mitos mobilizadores, tanto o “americanismo” como o
“niponismo”, fundamentam-se em dimensões, tais como: divisão vertical e horizontal do tra-
balho; economia do trabalho vivo; controle social; tipo de regulação econômica e sociopolítica.
Ocorre que, a partir desses elementos/dimensões comuns a ambos, os dois mitos assumem
formas invertidas, em que o fordismo e o taylorismo expressariam uma rigidez, enquanto o
niponismo resumiria uma flexibilidade. Os rótulos pululam: para alguns autores, o sistema
de produção japonês (kan-ban) seria um “hipertaylorismo” ou até mesmo “pós-taylorismo”;
para outros, denotaria um conjunto de princípios “antitayloristas”, ou ainda, um “taylorismo
flexível” (LOJKINE, 1995).
O enfrentamento entre Estados Unidos e Japão estendeu-se para além do plano das trocas
comerciais assimétricas, indo também ao plano das ideias e princípios aplicados à produção
empresarial, como se percebe pelo confronto entre “modelos” de gestão da produção. Para os
sociólogos do trabalho, este tema tornou-se candente, como se nota no trabalho de Wood
(1993) ao se questionar sobre as diferenças entre toyotismo e japonização, suas vantagens,
tendências e consequências. Nosso enfoque, todavia, é outro.
Os resultados obtidos pelo Japão, no pós-guerra, redefiniram seu papel no plano geoeco-
nômico e exigiram novas atitudes políticas. Quanto a este último aspecto, tornou-se lapidar a
frase O Japão que sabe dizer não, cunhada pelo relatório de Akio Morita (o lendário criador da
Sony) e Shintaro Ishihara (figura eminente do Partido Liberal Democrata). Mais tarde publi-
cado como livro – um best-seller –, com a rubrica apenas do último autor, o conteúdo do re-
latório divulgava um Japão sustentado por uma superioridade econômica e tecnológica e não
tão esquivo à confrontação. Ishihara (1991) propugnava um rompimento com a postura servil
do Japão em relação aos Estados Unidos, criticando o tecnonacionalismo norte-americano e a
presença militar desse país no arquipélago nipônico.
É sabido que o Japão tornou-se, a partir de 1986, o maior credor dos Estados Unidos e do

mundo. Diante
devedora de tal
não ama fato,
o seu Emmott
credor”. (1992,contesta
O autor p. 19) ideias-força,
cita J. Keynes,como
lembrando que por
a divulgada “uma nação
Burstein
(1990, p. 29) em cenários excessivamente dramáticos, nos quais afirma que “o Japão está se
tornando uma superpotência por conta própria”. A partir da recusa de tais cenários, Emmott
(1992, p. 25) argumenta que o Japão “dirige o olhar para o seu interior. Não tem o que é
necessário para ser um líder internacional”. Sua objeção mais séria é a de que o Japão não
possui armas nucleares, podendo se tornar, no máximo, uma potência de segunda categoria
extremamente importante. Isto se explicaria pela solidificação de tendências, que estariam
fazendo do Japão uma nação de consumidores, daqueles que buscam prazer, de pensionistas
156 | O japão num mundo em busca de sentido

e de especuladores. Seria uma nação de explosão de quebra, e sentencia que “o comércio e o


excedente da conta-corrente do Japão irão desaparecer, não para sempre mas por um período
significativo” (EMMOTT, 1992, p. 283).
A crise do crescimento econômico japonês, bem delineada nos anos 1990, parecia estar
sendo superada na passagem para os anos 2000, mas foi novamente abalada pela crise de
2008 (v. Quadro 2), perdendo a condição, bastante simbólica, de segunda economia do mundo
para a China. Entre os desafios para o futuro, encontra-se, por exemplo, o envelhecimento da
população, destacando-se que “o investimento social permanece baixo, mas quanto mais a
população envelhece, mais ele tende a aumentar. Cedo ou tarde, os japoneses vão concluir
que um país que envelhece tão rápido não pode viver tão acima de seus meios” (TRICKS, 2010,
p. 87). Lembremos que, “segundo certas projeções demográficas, de hoje à metade do século
XXI, o Japão terá perdido 30% de sua população, registrando 89 milhões de habitantes (dos
quais 36 milhões com mais de 65 anos!), contra 128 milhões na atualidade” (BONIFACE, 2011,
p. 152).
Por outro lado, nunca é demais lembrar, que, a par de seus esforços de recuperação eco-
nômica, o Japão se empenha, igualmente, para reforçar seu poderio militar, uma vez que,
segundo Lacoste (2009, p. 167 – 168), “a força de defesa japonesa se situa hoje no terceiro
posto no ranking mundial de frotas de guerra” e que, em janeiro de 2007, o diretor da força de
“autodefesa” foi substituído por um ministro da defesa, “o que permite pressagiar o renasci-
mento de um exército japonês”. Então, a tendência de o Japão se tornar uma nação de consu-
midores atrelados a um gerontocrescimento nítido estaria convivendo com outras tendências
de caráter mais geoestratégico do que propriamente geoeconômico?
Avaliado o papel dos Estados Unidos e do Japão na nova ordem mundial, Araújo et al.
(1993, p. 145) ponderavam que a Pax Americana era um cenário mais provável do que aPax
Nipponica, tendo o Japão uma função comunicante entre a economia norte-americana e
aquelas do Pacífico asiático. Logo, “a relação entre os dois países, assim como o papel mun-
dial do Japão, é definida pela expressãosupportive leadership”, expressando-se o Japão, nesse
aspecto, como liderança auxiliar. Tal liderança dos Estados Unidos é igualmente indicada por
Wilkinson (1990, p. 78) ao ressaltar que a América pode estar declinando, “mas em muitos
aspectos permanece como a número um”.

cemOpiniões sobre oPonderamos


especulativas. desafio japonês,
que eosua delicada
Japão relação com
se apresenta comoosum
Estados Unidos,
país de forçapermane-
incontestá-
vel na economia mundial, mas que não está imune à necessidade de maturação da trama de
relações – não apenas econômicas, mas, sobretudo, geopolíticas – que o projeta no epicentro
de cenários mundiais para o século XXI. Não se pode perder de vista que, em qualquer tempo,
uma ordem mundial é menos uma fórmula acabada do que um processo, como os próprios
Estados territoriais também o são. Para Boniface e Védrine (2009, p. 101),
Ivaldo Lima | 157

o fim da guerra fria não apaziguou as rivalidades nacionais na Ásia. Ao contrário, o Japão continua
preocupado com sua própria segurança diante da China, a despeito da interdependência das duas
economias, e diante da Coreia do Norte, face à incerta evolução da questão coreana. Litígios terrrito-
riais não resolvidos pesam sobre as relações com a Rússia. Por isso, o Japão permanece dependente
dos Estados Unidos para sua segurança e sua margem de manobra diante de Washington é limitada.

Talvez tenha razão Yves Lacoste quando, ao se referir à posição do Japão no mundo atual,
fala de “ambições geopolíticas limitadas”. O autor considera que os problemas geopolíticos
do Japão, na realidade atual, não estão centrados tanto em territórios disputados – como as
reivindicações que faz sobre os “Territórios do Norte”, ou seja, as Ilhas Kurilas, fazendo face à
Rússia; o litígio com a China pelas Ilhas Senkaku, ao norte de Taiwan; a disputa pelas Ilhas
Takeshima, com a Coreia do Sul; e, com alguma analogia, a repulsa da população japonesa
acerca das bases militares estadunidenses em Okinawa, ao sul do arquipélago de Ryukyu –
mas, sim, na imagem negativa que o seu imperialismo de outrora deixou nos países vizinhos,
sobretudo quanto aos coreanos e aos chineses. O geógrafo francês indaga ainda:

Deve o Japão reforçar suas relações militares com os Estados Unidos, quando este país considera que
suas relações com a China se medem em termos de força? Ou, pelo contrário, deve apostar na China?
Esta última opção ofereceria consideráveis mercados a sua indústria, mas ao custo de tornar o país
muito mais dependente da China do que da América do Norte (LACOSTE, 2009, p. 168).

Nessa mesma linha de argumentação, Boniface (2011, p. 150-151) acrescenta elementos


ainda mais problematizadores, quanto às linhas de tensão que vislumbramos entre Japão,
Estados Unidos e China, ao sustentar que

o Japão teme, aliás, um abandono departe de Washington, com favorecimento da potência chi-
nesa emergente. [Os japoneses] vêem com inquietação Pequim tornar-se o interlocutor mais im-
portante dos Estados Unidos, no plano estratégico. [...] Sabendo que no decurso da história nunca
houve, simultaneamente, uma China e um Japão poderosos, eles temem realmente ser supera-
dos pelo seu vizinho, com o qual os atritos históricos nem mesmo foram encerrados. Segundo

eles, é a China que impede o Japão de se apresentar como uma potência global.
Levando em consideração as alianças e as ameaças militares regionalmente configuradas,
bem como as pretensões geoestratégicas nipônicas no mundo global, Boniface (2009, p.100)
nos propõe uma síntese iconográfica, por meio do Mapa 10, no qual se representa o mundo
visto pelo Japão.
158 | O japão num mundo em busca de sentido

M
a
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O Japão diante de si mesmo

Projetar cenários é uma técnica tentadora na abordagem das ciências políticas, como a
geografia. A nova ordem mundial que se instaura redefine centralidades, reverte tendências,
impulsiona novos pivôs geográficos, torna a projeção de cenários, além de sedutora, vacilante.
Nessa direção, lembramos a visão de Dreifuss (1996, p. 252) quando acena que estaríamos
saindo de uma realidade mundial bipolar para um cenário marcado por certa heterarquia
geoestratégica, na qual as diferenças existem, lado a lado, mas sem ligação por nenhum
princípio de compatibilidade ou de ordem, em que se formaria “uma nova ‘constelação’ políti-
co-militar de potências científicas, produtivas, financeiras, tecnológicas e de serviços”. Em tal
perspectiva, o Japão e a China tornar-se-iam pivôs geográficos de uma nova história, baseada
numa continentalização político-estratégica, como polos-motores do grande bloco eurasiano,
estabelecendo alianças renovadas ou novas parcerias.
Nesse sentido, o Japão, em especial, conforme nos acena Lacoste (2003, p. 225), teria de
lidar com suas duas singularidades geográficas, as quais nos impedem de falar de “mundo
japonês”: em primeiro lugar, o fato de sua civilização estar confinada num arquipélago; e, em
segundo, o fato de se tratar até aqui do único país desenvolvido e a única grande potência eco-
nômica que não é de c ultura europeia. Para o geógrafo francês, a China, mesmo ascendendo
rapidamente, no século XXI, ao status de grande potência, apresenta uma sociedade ainda
“profundamente marcada pelas sequelas do subdesenvolvimento” (LACOSTE, 2003, p. 225).
A projeção do Japão como centro de cenários mundiais é dado recorrente. Lembramos as
ideias de K. Haushofer, cuja vocação para a geopolítica nasceu no Japão, quando de sua pas-
sagem por lá entre 1908 e 1910. O autor consagra seu primeiro livro O grande Japão, de 1913,
encarando-o como potência asiática capaz de conter as potências anglo-saxônicas marítimas.
Daí o controle sobre uma “pan-região” envolvendo boa parte da Ásia e Oceania, configurando
uma ordem internacional ideal, alicerçada na autarquização de grandes espaços. A efetividade
de tais zonas planetárias de influência justificaria o projeto expansionista japonês (bem como
o da Alemanha nazista), de acordo com Lorot (1995, p. 31). Para outros autores, como Lacoste
(1993, p. 856), a consolidação de uma área geoestratégica, controlada pelo Japão, poderia
representar a formação de um espaço regional de coprosperidade, ao mesmo tempo que uma

ameaça dos
político japonesa na Ásia. Oémesmo
anos vindouros autorque
o de saber levanta
formasa assumirá
questão dea expansão
que “o grande problema
da potência geo-
japo-
nesa, primeiramente na Ásia Ocidental, depois no Pacífico, e depois no conjunto do mundo”.
Como ameaça ou como vetor da prosperidade de todo o Extremo Oriente, o Japão en-
cerra um papel destacado na nova ordem mundial. Novas alianças caracterizam essa ordem
internacional vigente, reorganizando as vinculações entre os países e seu condicionamento
político-estratégico (e cultural), afirmando o que Dreifuss (1996, p. 257) denominou de “iden-
tidades ou unidades megaespaciais”, as quais vão “europeizando” a Europa, “americanizan-
do” as Américas e “asianizando” a Ásia. Reconhecer lideranças e/ou protagonismos em tais
160 | O japão num mundo em busca de sentido

processos de estreitamento e aproximações impõe-se como tarefa fundamental para os ana-


listas internacionais. Por esse motivo, Funabashi (1994, p. 19-22) admite a existência de “uma
nova consciência regional na Ásia”, cujo fortalecimento depende em muito do Japão, desde
que esse país reforme sua estrutura econômica e social exclusiva e revise o sistema político e
administrativo que a sustenta.
A derrota eleitoral, em 2009, do PLD (Partido Liberal Democrata), de orientação conser-
vadora e onipresente no exercício do poder desde 1955, ante a ascensão grandiloquente do
PDJ (Partido Democrático do Japão), seria um indício dessa revisão? O que Funabashi chama
de “asianização da Ásia” se refere à ampliação da cooperação e dos laços interasiáticos ca-
paz de conferir maior força à nova ordem mundial. A posição acima é complementar àquela
de Domenach (1994, p. 37), que acena para uma nova fórmula econômica regional, calcada
numa “‘regionalização’ econômica e financeira da Ásia”, por meio da qual o comércio intrarre-
gional, que alcançou 42% na década de 1990, tenderia a aumentar. Para alguns autores, como
Durand, M. F. et al. (2009, p. 53), estaríamos diante do neorregionalismo asiático:

Se a integração regional pouco avançou no campo político-institucional, ela se encontra mui-


to mais desenvolvida economicamente. Caracterizada pela intensificação dos intercâmbios
transnacionais (frequentemente antigos) de mercadorias, capitai s e tecnologias, essa i ntegra-
ção regional econômica é conduzida por empresas privadas que se aproveitam da segmenta-
ção de processos de produção a fim de deslocalizar suas produções para os países pobres da
região, onde os custos sociais são mais baixos. Enquanto o regionalismo fundado no modelo
europeu supõe formas de homogeneização dos territórios (livre circulação, fundos estruturais
etc. que visam a reduzir as disparidades socioeconômicas), o neorregionalismo praticado na
Ásia embasa-se, ao contrário, na divisão internacional do trabalho, ou seja, nos diferenciais em
termos de desenvolvimento dos territórios e de custo da mão de obra. Portanto não são, como
no caso europeu, os intercâmbios comerciais intrarregionais que desenham o espaço, e sim os
percursos dos Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) oriundos do Japão, desde os anos 1960,
em direção a Coreia do Sul, Cingapura, Taiwan e Hong Kong e, a seguir, à medida que esses
países foram crescendo e os custos de produção aumentando, em direção à Malásia, Tailândia
e Indonésia, às regiões costeiras da China, ao Vietnã etc.

Acrescentamos que o Japão busca incrementar a dimensão político-institucional desse


neorregionalismo, uma vez que,

à margem da evidente melhora das relações bilaterais com a China, o gabinete de Hatoyama
voltou a apostar na ideia de criar uma comunidade do leste asiático, apresentada sob a presi-
dência coreana de Kim Dae-jung, e intensificou os laços, na cimeira Japão-ASEAN de novem-
bro de 2009, com os países do sudeste asiático, por meio de um importante plano de ajuda ao
desenvolvimento escalonado em três anos (SERRA, 2010, p. 396).
Ivaldo Lima | 161

A Ásia estaria surgindo, então, como um novo espaço estratégico, centrado na China,
no Japão e na sua periferia imediata, constituída pelos Tigres Asiáticos e pela segunda ro-
dada desses “pequenos dragões”, como Malásia e Tailândia, Vietnã, Indonésia e Filipinas. 2

Evidentemente, o papel da China não deverá ser minimizado nesta análise de tendências,
tendo-se, porém, que incorporar, forçosamente, dados que complexificam o coprotagonismo
global-regional chinês. Em nenhuma hipótese, entretanto, eles o colocam num plano de me-
nor importância cronogeoestratégica, devido tanto a sua posição geográfica quanto à maneira
como esse Estado dito socialista controla e produz, atualmente, o tempo-espaço diferencia-
do da produção e da acumulação de sua riqueza, conforme destacado no capítulo escrito por
Rogério Haesbaert, neste livro.
Retornamos, assim, aos apontamentos iniciais deste capítulo, quando nos questioná-
vamos sobre uma emergente “era do Pacífico” ou um novo modelo civilizacional relativo ao
Pacífico Ocidental. O retorno é importante para (re)dimensionar o confronto entre o espaço
concreto, promotor de uma dimensão real dos eventos, e o espaço-projeção, mobilizador da
imaginação geográfica, numa perspectiva do devir. Mesmo concordando com Monteiro (1988,
p. 128), quando afirmava que “um dos caracteres mais for tes do mundo [...], ao final do século
XX, é a retração do horizonte projetivo”, destacaremos as palavras de Sabouret (1988, p. 357-
39), que vislumbrava o projeto japonês para o século XXI, com seus objetivos ambiciosos: pros-
seguir a penetração no mercado mundial de automóveis, centrando esforços na Europa; obter
o monopólio na informática e na eletrônica; atirar-se em novos setores como a aeronáutica, e
se possível, o setor bélico; construir o mercado comum asiático; proteger o mercado interno ou
abri-lo minimamente. Acrescentaríamos mais um, relativo à redefinição de seu papel quanto
à segurança interna e à do seu contexto regional. Isto posto, nesses contextos global, regio-
nal e nacional, o que o século XXI reserva ao Japão? Recordamos que a noção de contexto se
interdigita com aquela de horizonte, ou seja, nos interpõe a ideia de pulsão para frente, nos
impulsiona o pensamento para frente – como na metáfora de Ítaca, na poesia de Konstantino
Kaváfis – do mesmo modo que a noção de projeto dialoga com o seu cognato projétil, sendo
ambos um conteúdo que se lança para fora de seu continente.
A inserção do Japão num mundo em busca de sentido é, pois, um instigante processo, o
qual reflete um “país que diz sim” a assimétricas relações de interdependência. Um sentido

eque,
de nas palavras
direção de Comte-Sponville
ou finalidade, (2005, p.a outra
“sempre remete 215), nas
coisaacepções
que nãocoetâneas de significado
ele próprio: o sentido de
uma palavra não é essa palavra, o sentido de um ato não é esse ato. [...] O sentido nunca
está ali, ele não está onde estamos mas para onde vamos. É o que chamei de estrutura dias-
tática do sentido, ele remete sempre a outra coisa que não ele próprio”. Um “sim” repleto de
2
A orientação geográfica dos fl uxos comerciais, com relação aos NPI’s asiáticos, aponta para os Estados Unidos e o Japão; em primeiro plano
Lorot e Schwob (1987) lembram que “o Japão e os NPI’s da Ásia têm como característica uma dependência mútua, relativamente a seus
desenvolvimentos econômicos respectivos”. E ainda, citando Cumings ( apud BUSTELO, 1990, p. 196): “o Japão é a única potência colonial
que instalou várias indústrias pesadas [...] em suas colônias”, retratando as relações, imbricadas historicamente entre o desenvolvimento
econômico do Japão e de sua periferia imediata.
162 | O japão num mundo em busca de sentido

condicionamentos, resultantes, em grande parte, de um passado de construções-desconstru-


ções-reconstruções vitais para sua definição como potência contemporânea. Atravessado por
linhas de tensão e enfrentamentos (internos e externos), sobrecarregado pelo êxito econômi-
co, financeiro e tecnológico, o Japão, diante de si mesmo, é um país que continua produzindo
sentidos, a partir do autorreconhecimento, como um dos mais relevantes vetores do espaço-
tempo planetário.

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Carlos Walter Porto-Gonçalves
Pedro de Araújo Quental

AMÉRICA LATINA E A COLONIALIDADE DO PODER

Os processos de integração regional em curso hoje na América Latina têm sido marcados
por uma lógica territorial que tem concebido grandes áreas do espaço geográfico latino-a-
mericano como “vazios demográficos” ou “terras disponíveis”. Entretanto, existe a concepção
oculta de que muitas dessas áreas não apenas são ocupadas por uma grande diversidade de
populações, como também são ricas em biodiversidade.
Nessa concepção de desenvolvimento e integração regional, a natureza, com seus com-
plexos biomas e domínios morfoclimáticos, é compreendida como simples obstáculo a ser
superado pela engenharia, e povos e comunidades os mais diversos, como povos srcinários,
comunidades remanescente de quilombos, camponeses e tantos outros, são concebidos como
sendo prescindíveis. A expropriação de muitas dessas populações de suas terras tem se torna-
do comum a muitos dos empreendimentos de integração regional. Não por acaso, a execução
de grandes projetos de integração física e de infraestrutura, em curso atualmente no conti-
nente, tem sido acompanhada por intensos conflitos territoriais.
Essa forma de conceber o espaço geográfico latino-americano, entretanto, não é nova, ao
contrário, remonta-nos ao legado colonial que atravessa a formação socioespacial da região
e a própria posição que o continente americano ocupou no processo de formação do sistema
mundo moderno-colonial, a partir de 1492. A atual integração regional ocorre dentro de um
novo cenário geopolítico e econômico no qual a Ásia e a China, em particular, passam a de-

sempenhar
da América importante centralidade.
do Sul, em específico, temNeste contexto, acomo
se apresentado integração física da América
uma possibilidade Latina, e
de responder
às novas e crescentes demandas asiáticaspor commodities.
Este artigo tem por objetivo problematizar os processos de integração física e de infraes-
trutura em curso atualmente no continente, especificamente a Iniciativa para Integração da
Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), buscando evidenciar a reprodução da lógica da
colonialidade do poder e do saber constituintes de seu modelo de desenvolvimento regional.
168 | América Latina e a colonialidade do poder

O sistema-mundo moderno-colonial e a colonialidade do poder

A globalização que vivemos nos dias de hoje é o auge de um processo iniciado há mais de
500 anos, com a conquista da América, o desenvolvimento do sistema capitalista e a formação
de um novo padrão de poder mundial centrado na Europa. Neste processo, a América foi o
ato constitutivo, o ponto de partida e condição de possibilidade para a formação do que viria
a ser o sistema-mundo moderno-colonial, um novo padrão de poder com vocação mundial
(QUIJANO, 2005).
Até o século XV, a região geográfica que hoje conhecemos como Europa manteve papel
periférico e secundário dentro do contexto histórico do continente euro-afro-asiático (DUSSEL,
2000, p. 58-60). Foi apenas a partir do processo de conquista da América e inauguração do
circuito comercial do Atlântico que a Europa se afirmou como centro geopolítico do mundo.
Sem o ouro e a prata da América, sem a ocupação de suas terras para o plantio da cana-de-
-açúcar, do café, do tabaco e tantas outras especiarias, sem a exploração do trabalho indígena
e escravo, a Europa não se faria nem moderna, nem centro do mundo (PORTO-GONÇALVES,
2003). Portanto, ao contrário do que estamos acostumados a imaginar, a América exerceu um
papel decisivo no processo de formação do sistema-mundo moderno e o colonialismo, relação
estruturada em torno do controle político e econômico metrópole-colônia, foi uma dimensão
fundamental na constituição deste novo padrão de poder eurocentrado e de base capitalista.
Assim, o sistema-mundo moderno que se forma a partir da conquista da América, em
1492 – e à custa dessa conquista –, configura-se, em verdade, como um sistema mundial
moderno-colonial, expressão que designa a contraface colonial constituinte da modernidade
e do sistema-mundo moderno (QUIJANO, 2005). Omitir o lado colonial do sistema-mundo é
olvidarmos o caráter colonial da modernidade. Quando se pensa em modernizar a Amazônia,
por exemplo, a ideia de colonizá-la está subjacente. Considerar o sistema-mundo como mo-
derno-colonial é deixar que o espaço fale, haja vista que é o espaço-mundo como um todo
que se conforma e não o mundo visto como se fosse estágios distintos da Europa e, assim,
um evolucionismo em que os lugares/as regiões do mundo são silenciados. A América é par te
constitutiva da modernidade, uma exterioridade que lhe constitui. É o que nos indica o fato
de que “o açúcar, principal mercadoria manufaturada nos séculos XVI e XVII, era produzido nos

mais modernos
mas, engenhos
sim, no Brasil, de produção
em Cuba, no Haiti. até então
Somos construídos
modernos e que
há 500 não(PORTO-GONÇALVES,
anos” estavam na Europa,
2006, p.153).
O sociólogo peruano Aníbal Quijano (2000) ressalta que as relações sociais e de poder que
ergueram o sistema-mundo moderno e produziram a América, enquanto território sob domí-
nio europeu, se estruturaram em torno da classificação da população mundial a partir da ideia
de raça (QUIJANO, 2000). As diferenças fenotípicas, como por exemplo, a cor da pele, a forma e
cor do cabelo, dos olhos, do nariz, passaram a ser utilizadas no processo de colonização como
forma de diferenciar conquistadores e conquistados, europeus e não europeus, estabelecendo,
Carlos Walter Porto-Gonçalves e Pedro de Araújo Quental | 169

assim, uma relação de superioridade e inferioridade pautada nas distintas estruturas biológi-
cas de cada grupo social e criando supostas gradações de seres humanos. Assim, são criadas
identidades sociais até então não existentes, como índio, negro e mestiço. Designações que,
como sabemos, homogeneizaram, em um único termo, uma imensa diversidade de povos,
como é o caso das culturas inca, maia, asteca, zapoteca, guarani, quéchua, aimara, banto, en-
tre tantas outras que tiveram suas diferenças reduzidas a uma única categoria social (PORTO-
GONÇALVES, 2003).
É com a invenção eurocêntrica da América, portanto, que surge o conceito de raça, manei-
ra de legitimar as relações de dominação impostas pela conquista e estabelecer o controle eu-
ropeu sobre todas as formas de subjetividade, cultura, e produção do conhecimento (QUIJANO,
2005). Nenhum dos habitantes do continente que conhecemos como África jamais se chamou
de negro, assim como os europeus até então jamais haviam se chamado de branco. A distin-
ção/discriminação das pessoas com a noção pseudocientífica de raça é parte de um sistema
de poder mundial que nos habita até hoje. Assim, embora a raça não exista como conceito
científico, o racismo existe como fenômeno social real. Os negros e os povos srcinários que o
digam, e costumam dizer com a força de um conhecimento que não é só conhecimento, mas
conhecimento com sentimento na medida em que o racismo não é simplesmente uma ideia,
mas prática cotidianamente sofrida.
Nestes termos, alguns povos e grupos sociais acabam por ser identificados fora da catego-
ria de seres humanos, são descartáveis, prescindíveis e não formam parte da história, ou são
rotulados como seres humanos de segunda classe, como no caso dos índios e dos escravos afri-
canos (MIGNOLO, 2007). Para Maldonado-Torres (2007), são povos e grupos sociais colocados
sob permanente suspeita e dúvida a respeito de sua qualidade de humanos.
Contudo, é importante destacar que o racismo é mais amplo que a categorização do ser
humano a partir de suas características físicas; ele se desdobra em todos os planos da exis-
tência social, como a religião, a língua e as classificações geopolíticas do mundo. Como afirma
Mignolo, “a categorização racial não consiste simplesmente em dizer ‘és negro ou índio, por-
tanto, és inferior’, mas sim dizer ‘não és como eu, portanto, és inferior’” (2007, p. 41-43).
Nesta mesma lógica, portanto, territórios e organizações políticas de base territorial tam-
bém foram sendo classificados de acordo com a suposta posição “racial” em que seus habitan-

tes eram situados.


hierarquizam A partire suas
os lugares da ideia de raça
gentes, se institui umdeconjunto
classificando-os de relações
acordo com de poder
um suposto grauque
de
evolução e desenvolvimento societário “numcontinuum linear que vai da natureza à cultura,
ou melhor, da América e da África, onde estão os povos primitivos mais próximos da natureza,
à Europa, onde está a cultura, a civilização” (PORTO-GONÇALVES, 2002, p. 218).
Este padrão de controle, hierarquização e classificação da população mundial, que afeta
todas as dimensões da existência social e que tem no conceito de raça seu eixo estruturante,
Quijano (2005) denominou colonialidade do poder. Para o autor, a colonialidade não se es-
gota no colonialismo, forma de dominação político-econômica e jurídico-administrativa das
170 | América Latina e a colonialidade do poder

metrópoles europeias sobre suas colônias; expressa, mais que isto, um conjunto de relações de
poder mais profundo e duradouro que, mesmo com o fim do colonialismo, se mantém arrai-
gado nos esquemas culturais e de pensamento dominantes, legitimando e naturalizando as
posições assimétricas em que formas de trabalho, populações, subjetividades, conhecimentos
e territórios são localizadas no mundo contemporâneo (QUIJANO, 2000, 2005; ESCOBAR, 2003;
CASTRO-GÓMEZ, GROSFOGUEL, 2007; MALDONADO-TORRES, 2007).
Como trataremos neste artigo, este legado da colonialidade permeará, ainda nos dias de
hoje, a maneira como o espaço geográfico latino-americano tem sido concebido por nossas
elites, pelo capital internacional e mesmo por muitos governos de alinhamento progressista,
fato que produzirá reflexos na própria forma como as políticas de integração regional têm sido
formuladas e executadas no continente.

A colonialidade e os desafios da integração

A colonialidade, como vimos, não se esgota com o fim do colonialismo, perdura ao longo


da história, arraigada nos esquemas culturais e nas relações sociais e de poder, conformando
a organização socioespacial de países e regiões. É o que vemos em curso, atualmente, com as
políticas e projetos de integração regional na América Latina que reproduzem a lógica da co-
lonialidade do poder e do saber no continente. É o que podemos constatar na atual “Iniciativa
para Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana” (IIRSA). Trata-se de um projeto de
integração física da América do Sul (estradas, hidrelétricas, por tos, hidrovias) que foi proposto
no ano 2000 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, à época num contexto mar-
cado pela proposta da Aliança de Livre Comércio das Américas – a Alca –, capitaneada pelos
Estados Unidos. Na verdade, a Alca recolocava, em pleno final do século XX, a mesma questão
do início do século XIX quando os Estados Unidos propuseram a América para os americanos
com seu Destino Manifesto (1823), denunciada por Simon Bolívar por seu caráter imperial.
O Brasil, desde 1996, mostrara-se atento à nova conjuntura de crescimento econômico
que se iniciava no mundo através de novas políticas de ordenamento do território, com os
Planos Plurianuais e seus Eixos de Integração e Desenvolvimento. Vai ser sobre esses funda-
mentos que a IIRSA será proposta pelo Brasil no ano 2000. Ou seja, a organização de Eixos

de Integração
do Atlântico aoe Pacífico
Desenvolvimento,
(vide Mapainicialmente cerca dehidrovias
11) com estradas, dez, interligando
e ferrovias,a redes
América
de do Sul
comu-
nicação, portos, aeroportos e construção de barragens hidrelétricas e integração energética.
Registre-se que, no ano 2000, as estatísticas do comércio exterior dos países da América do
Sul já acusavam um aumento significativo do comércio intrarregional, assim como o início do
decréscimo da participação dos Estados Unidos no comércio dos países da América do Sul e o
aumento da participação da Ásia, sobretudo da China. Esse contexto geopolítico vai abrir uma
outra página para a integração regional da América Latina, em particular da América do Sul,
Carlos Walter Porto-Gonçalves e Pedro de Araújo Quental | 171

que, todavia, será marcada pela colonialidade do saber e do poder, com todos os desafios que
se colocam para essa integração. É o que veremos a seguir.

A difícil integração

Quando os colonos estadunidenses, no dia 4 de julho de 1776, consagraram a primei-


ra luta de libertação nacional, com seu êxito contra a metrópole inglesa, afirmaram-se com
a geografia: somos americanos, somos daqui e não da Europa. José Maria Caicedo, quando
nos propõe a América Latina, em 1856, refaz essa geografia dizendo que há duas Américas:
“Porém isolados se encontram, desunidos./Esses povos nascidos para aliar-se:/A união é seu
dever, sua lei amar-se:/Igual srcem e missão têm./A raça da América Latina,/À frente tem a
saxona raça,/Inimiga mortal que já ameaça/Sua liberdade e pendão destruir”. 1
O poema de
Caicedo é um convite à união e não se dá num contexto abstrato, afinal, o México acabara de
experimentar a amputação de seu território com a anexação pelos Estados Unidos, em 1845-
1848, do Texas, Novo México, Arizona e Califórnia. Hoje os mexicanos precisam de passaporte
para atravessar as fronteiras. Recentemente, bem disse um migrante, “não atravessamos as
fronteiras, as fronteiras é que nos atravessam” (FLORES, 2009).
A temática da integração foi, desde sempre, uma marca do pensamento crítico naNuestra
América ou Abya Yala. Nasce, na verdade, da resistência à invasão, à conquista, à dominação
colonial. Nem sempre, todavia, esse debate rende a devida homenagem aos povos srcinários,
muitos dos quais foram dizimados em sua luta de resistência, sobretudo no Caribe, hoje quase
todo negro. Enfim, o necessário debate da integração é o corolário da questão da desterrito-
rialização srcinária. Nossa região chegou a ser integrada numa estranha geografia das Índias
Ocidentais que unia Cuba às Filipinas, passando por Nova Espanha e Nova Granada. Afinal,
chamar-nos de Nova Espanha ou Nova Granada e nos unir à terra de Filipe – as Filipinas – é
ignorar os povos que haviam por aqui. Fomos integrados por cima quando as Coroas Ibéricas se
uniram entre 1580 e 1640. O meridiano de Tordesilhas foi borrado desde então e as fronteiras
se moveram com o sensível avanço territorial português para oeste. As fronteiras atuais ainda
guardam essas tensões.
A crise do império colonial espanhol não só foi acelerada pelas revoltas indígenas, a maior

delas, sem dúvida,


1781-1782, como deua deensejo
TupacaAmaru
que se(quéchua)
inventassee aTupac Katari/Bertolina
América Sissa A(aimaras),
e os americanos. afirmaçãoem
pela geografia dos filhos dos colonizadores brancos nascidos aqui – criollos – foi uma nova
manifestação de afirmação territorial soberana. Essa luta emancipatória se juntava a outras
que vinham se desenvolvendo desde a primeira hora da invasão colonial pela resistência
dos povos srcinários, pelos outros criollos, não brancos, que buscaram emancipar-se, tanto
em territórios livres como os pallenques, quilombos e cumbes – os quilombolas, cimarrones,
1
Trecho do poema “Las dos Américas” de José Maria Torres Caicedo, 1856. Disponível em: < http://www.analitica.com/bitblio/jmarti/
nuestra_america.asp>. Acesso em: 15 jan. 2011.
172 | América Latina e a colonialidade do poder

marroons – como, depois, no Haiti, em 1804, viram-se obrigados a fazer a independência por
verem negados os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade pela França revolucionária.
Afinal, Toussaint de L’Overture bem que tentou fazer valer no Haiti os princípios da
Revolução Francesa que se dizem universais. Os haitianos ainda hoje pagam caro a ousadia
da liberdade. Ali, no Haiti, Simon Bolívar obteve armas para seu projeto libertador. Todavia,
uma parte das elites criollas brancas se viu em pânico com a luta dos outroscriollos haitia-
nos – “os jacobinos negros” (James, 1938, 2000) – e inventou o haitianismo como fantasma
da liberdade que rondava a América e ameaçava seu poder. O sonho integrador se mostrava
difícil duplamente: por dentro, pelo medo da liberdade que as oligarquias escravocratas nu-
triam dos “de baixo”, tanto pelas revoltas indígenas como pelo haitianismo negro e, de fora,
pela intervenção tanto das metrópoles europeias como dos Estados Unidos por suas disputas
geopolíticas cruzadas (França, Inglaterra e Estados Unidos).
A integração – a Pátria Grande, na consagrada expressão de Bolívar – mostrava-se não só
necessária como cada vez mais difícil. Os povos srcinários, por exemplo, com as independên-
cias, se viram vítimas de um novo e violento processo expropriatório em que boa parte de suas
terras comunais foram transformadas em propriedades privadas, quase sempre em grandes
latifúndios, haciendas e plantations, estas últimas renovando a integração à nova divisão in-
ternacional do trabalho que se aprofundava com a revolução (nas relações sociais-e-de-po-
der) industrial. Integração à divisão internacional do trabalho que vinculava diretamente dis-
tintas regiões dos novos países que sequer tinham relação entre si. O geógrafo Manuel Correia
de Andrade chegou a cunhar a expressão “arquipélago socioeconômico” para caracterizar essa
organização do espaço geográfico tipicamente colonial.
Mesmo o poeta colombiano José Maria Caycedo, quando nos oferece a expressãoAmérica
Latina e nos propõe outra unidade, mostra-nos a difícil integração ao invocar o latino e, assim,
o eurocentrismo com todas as suas implicações epistêmicas e políticas. No Brasil, não escapa-
mos dessas contradições quando vemos a difícil integração da Amazônia, que nos valeu uma
das maiores revoltas populares da nossa história – a Cabanagem (1835) – diante da violên-
cia que se seguiu contra os cabanos logo depois que a Província do Grão-Pará se libertara de
Portugal e se vinculara ao Rio de Janeiro, em 1823. Livre do controle da metrópole portuguesa
e longe do Rio de Janeiro, as oligarquias regionais amazônicas se sentiram livres para mas-

sacrar osmassacres
maiores cabanos, em sua maior
da nossa parte
história, índios,
entre 1835negros
e 1840,e em
brancos
que sepobres.
fala emAlicerca
tivemos um dos
de 30.000
mortos (MOREIRA NETO, 1988).
O ensaísta cubano José Martí nos legará a expressão Nuestra América2 (1891), já em fi-
nais do século XIX, confirmando, mais uma vez, a tese antecipada por Bolívar, ao assinalar o
empenho dos Estados Unidos no controle pleno do Caribe e que se realizará numa manobra
geopolítica de amplo alcance que envolveu não só a tutela da independência de Cuba (1898),
a criação de um país, o Panamá, em território amputado da Colômbia (1903), o controle do
2
Pode-se acessar o ensaio Nuestra América em http://www.analitica.com/bitblio/jmarti/nuestra_america.asp (acessado em 15/1/2011).
Carlos Walter Porto-Gonçalves e Pedro de Araújo Quental | 173

canal que ali se estabelecerá e, ainda, a tutela da independência das Filipinas (1898). Essa
verdadeira obsessão geopolítica estadunidense se configura, sobretudo, quando o país se im-
põe do Atlântico ao Pacífico com a tomada dos territórios ao México (1845-1848). Diga-se,
de passagem, que essa manobra geopolítica implicará uma dedicação intensa dos Estados
Unidos no controle da América Central e do Caribe, a ponto de a expressão “lo que piensa La
Embajada” adquirir um sentido muito próprio, de poder de fato, entre os habitantes da região.
Assim, todo tempo há uma tensão geopolítica que será constitutiva da nossa difícil inte-
gração. Recorrendo a Antonio Gramsci, podemos identificar em cada Estado territorial que se
forma em nossa região a conformação de “blocos históricos” de poder em que se imbricam
interesses das oligarquias e das elites locais/regionais/nacionais com essas linhas de força ex-
ternas (FIORI, 2009). De um modo geral, a integração à divisão internacional do trabalho, via
exportação de produtos primários com mão de obra superexplorada (MARINI, 1973) e super-
-exploração dos recursos naturais, ensejará um liberalismo conservador subordinado geopo-
liticamente aos centros de poder do sistema-mundo moderno-colonial, protagonizado pelos
interesses ligados ao latifúndio exportador e ao rentismo ligado à exportação de minérios.
Contra isso, teremos bandeiras históricas, como a reforma agrária, ligadas às lutas na-
cional-populares que, por seu caráter anti-imperialista, retomarão muitas das bandeiras da
Pátria Grande, da Nuestra América, da América Latina, sinalizando, portanto, para uma inte-
gração com forte componente de justiça social. Emiliano Zapata (1879-1919) e Pancho Villa
(1878-1923), com a Revolução Mexicana de 1910, e o peruano José Carlos Mariátegui (1894-
1930), já nos anos 20 do século passado, trazem os camponeses e os indígenas para o centro
do debate teórico-político. A crise estrutural do capitalismo de 1929 deixará a nu o caráter
dependente de nossa região e toda a limitação que essa condição impõe à integração, não só
entre os países como também entre as regiões no interior dos próprios países.
A crise das oligarquias e seu modelo primário-exportado ensejaria, nos anos 1930, movi-
mentos revolucionários que nos deram líderes como Augusto Cesar Sandino (1895-1934), na
Nicarágua, Farabundo Martí (1853-1932), em El Salvador, como também governos naciona-
listas como Lázaro Cárdenas (1895-1970), no México, e Getúlio Vargas (1930-1945), no Brasil.
Afora o caso do Brasil, em todos os demais países a reforma agrária esteve na ordem do dia.
Desse contexto emergirá um período de afirmação nacional-popular que proporcionará um

momentoDiante
tações”. rico dedosintegração nacional
“arquipélagos” queatravés da “industrialização
caracterizavam as geografiasporeconômicas
substituiçãodosdediversos
impor-
países naquela ocasião, a integração latino-americana não podia ser mais que intenção, ainda
que avançasse a integração nacional. Todavia, nasceria ali uma nova etapa na compreensão
teórico-política das nossas contradições, de que a “teoria da dependência”, sobretudo em sua
vertente marxista (MARINI ; THEOTONIO DOS SANTOS), é um dos melhores legados.
Um nacionalismo revolucionário ganhará força na América Latina após a Segunda Guerra
com a Revolução Boliviana de 1952, e a “Primavera Democrática” (1944-1954) na Guatemala
de Jacobo Arbenz (1913-1971), que sofrerá uma intervenção de mercenários patrocinada pela
174 | América Latina e a colonialidade do poder

empresa estadunidenseUnited Fruit Co., com um golpe de Estado em que o anticomunismo se


reforçará com o racismo anti-indígena para protagonizar uma das mais sanguinárias ditaduras
de nossa região. Os golpes que derrubaram o governo de Getúlio Vargas, em seu segundo
mandato no Brasil (1951-1954), e de Juan Domingo Perón (1946-1955), na Argentina, nos
mostram a difícil integração não só entre países, mas da própria integração dos países nos
quais esses governos procuravam criar infraestrutura de energia, transportes e comunicações,
sobretudo através de empresas estatais.
A surpreendente vitória dos jovens revolucionários cubanos em 1960 – entre eles esta-
vam alguns que viveram a experiência golpeada da Primavera Democrática na Guatemala –,
reacendeu as esperanças de uma América Latina integrada, seja com a exportação da revolu-
ção (Che Guevara), seja com governos nacionalistas, como o de João Goulart, no Brasil (1961-
1964), seja com governos nacionalistas revolucionários, como o de Juan Velasco Alvarado, no
Peru (1968-1975), e Juan José Torres, na Bolívia (1970-1971). Todavia, os anos 1960 atuali-
zariam a tensão geopolítica histórica entre forças centrípetas e centrífugas. À Aliança para o
Progresso, desencadeada pelos Estados Unidos em resposta à Revolução Cubana, seguiram-se
golpes de Estado liberal-conservadores no Brasil (1964), na República Dominicana ( 1965), no
Uruguai (1973), no Chile (1973), no Peru (1975) e na Argentina (1976).
Pela abrangência dos seus efeitos merece destaque o golpe contra o governo de Salvador
Allende (1970-1973), no Chile. Com a ditadura do general Augusto Pinochet, um novo regime
político será estabelecido a partir de 1976 quando o dirigente, depois de exterminar a maior
parte das lideranças populares entre 1973 e 1976, convida assessores da Escola de Chicago
e inaugura o que viria a ser conhecido como neoliberalismo. Enfim, as reformas neoliberais
que nos serão impostas e que terão grandes implicações territoriais fizeram-se com tortura,
desaparecimentos, exílio e morte por meio do terrorismo de Estado.
No entanto, não deixemos de considerar que a relação que se estabelece entre os
Estados Unidos e os blocos históricos de poder (GRAMSCI) de nossos países não é unidirecio-
nal, haja vista a defesa intransigente por parte das nossas oligarquias dos seus latifúndios.
Embora a questão agrária sempre tenha se constituído numa bandeira política dos movi-
mentos nacionalistas e revolucionários, os Estados Unidos também haviam compreendido
a importância da reforma agrária para garantir alguma estabilidade política na região. Eles

já haviam
país imposto
que então limites aoterritorialmente,
controlavam tamanho da proprieda de da
tendo essa lei,terra em Porto
inclusive, Rico,a em
atingido 1942,
temida
United Fruit Co.
A raison d’etat, nacional imperial, mostrar-se-á, em Porto Rico, mais importante que a
razão econômica. Os Estados Unidos já haviam imposto a reforma agrária no Japão, temendo
a expansão da Revolução Comunista da China e o poderio soviético fortalecido após a Segunda
Guerra. No Brasil, e como resposta à Revolução Cubana e à crescente importância das Ligas
Camponesas, a Aliança para o Progresso não só distribuirá leite aos pobres como também
Carlos Walter Porto-Gonçalves e Pedro de Araújo Quental | 175

apoiará a criação dos primeiros sindicatos de trabalhadores rurais,3


no Rio Grande do Norte,
através da Igreja Católica, em que se destacou Eugênio Salles. Os militares bem que tentaram
usar de sua tutela na ditadura para incorporar a questão agrária, reconhecendo a sua gravi-
dade e baixando o Estatuto da Terra em outubro de 1964, mas não conseguiram êxito pelo
extremo conservadorismo das oligarquias latifundiárias.4 Portanto, o papel de nossas oligar-
quias, seja na aliança com os Estados Unidos, seja com o imperialismo em geral, não é passivo.
O latifúndio, que certos setores do pensamento crítico viam como um empecilho ao desen-
volvimento capitalista, será, na verdade, o suporte da nova fase de expansão do capitalismo
que David Harvey chamaria, recentemente, de “acumulação por espoliação” (HARVEY, 2004).
A velha plantation de 500 anos e suas monoculturas em grandes latifúndios empresariais com
suas manufaturas ganhará um novo nome:agribusiness. A manufatura dos nossos engenhos
de açúcar, assim como as primeiras monoculturas de exportação em grande escala, era o que
de mais moderno o mundo conhecia no século XVI, tão moderna como o são, hoje, os tratores-
computadores e o plantio direto da agroindústria! Nosso problema não está em sermos tec-
nologicamente avançados. O que temos de reconhecer é a colonialidade que subjaz à moder-
nidade que, entre nós, tem uma cara socialmente injusta, um racismo sutilmente perverso e
uma relação com a natureza irresponsável. Na contemporaneidade, o debate sobre os desafios
da integração regional e a manutenção da lógica da colonialidade será atualizado com a IIRSA
e seus princípios de desenvolvimento e integração do continente.

Colonialidade, integração e o discurso dos espaços vazios

Atualmente, os fluxos, a fluidez e a circulação adqui


rem destaque e ênfase, sobretudo, no que
diz respeito às redes de caráter mais instrumental que materializam a lógica das grandes corpo-
rações financeiras e do comércio transnacional, conferindo maior dinamismo, velocidade e efi-
ciência aos mesmos. Nesta perspectiva, prevalece uma visão funcional-economicista do território
na qual este é compreendido, sobretudo, como base material para instalação de redes e vias de
circulação que permitirão a superação dos constrangimentos“geográficos”. A lógica de integração
e desenvolvimento da IIRSA, ao priorizar a escala de ação e de territorialização das grandes cor-
porações econômicas, acaba por ignorar e desestruturar territórios de grupos não hegemônicos

situadosmarginalizados
grupos em escalas locais.
como É asendo
partir demograficamente
de uma concepção que classifica
vazios que a esses territórios
intervenção onde vivem
e desorganiza-
ção dos mesmos é legitimada. Por conseguinte, a ocorrência de situações de violência e conflito
3
Registre-se que a reforma trabalhista de Getúlio Vargas (1934), ainda em vigor no início dos anos 1960, mostrava a aliança do modelo de
substituição de importações com as oligarquias latifundiárias, haja vista que essa legislação não era extensiva aos trabalhadores rurais.
A concentração da terra e a submissão absoluta do trabalhador eram os pilares da obtenção de divisas com a exportação de produtos
agrícolas. Enfim, o latifúndio era o lugar do poder privado absoluto. Foi contra esse poder absoluto que surgiram as Ligas Camponesas
como movimento autônomo.
4
O debate acerca da questão agrária não é estranho aos militares. Nos anos 1920, no Brasil, os tenentes já haviam colocado a reforma
agrária como uma bandeira política de interesse nacional.
176 | América Latina e a colonialidade do poder

social se intensifica e os desafios para o estabelecimento de uma efetiva integração regional fora
dos marcos da colonialidade do poder e do saber permanecem.
Os Eixos de Integração e Desenvolvimento da IIRSA não visam à integração física das ca-
pitais políticas dos diferentes países como, por exemplo, no projeto geopolítico brasileiro im-
plicado na mudança da capital para Brasília, em que toda capital de cada unidade federada
deveria estar interligada à nova capital federal – enfim, uma integração territorial com fins
políticos explícitos. Não é o que se vê na IIRSA. Os eixos e os fluxos da IIRSA visam interligar
portos, e a integração regional, em seu projeto inicial, deve cumprir o papel de integrar com-
petitivamente a região aos mercados mundiais (consultarhttp://www.iirsa.org). Como disse
o sr. Henrique Garcia, presidente da CAF (Corporação Andina de Fomento):

Vemos que um obstáculo fundamental para a inserção efetiva da região é, precisamente, a


baixa competitividade. Assim, a infra-estrutura e a logística se convertem nos elementos fun-
damentais nesse processo de transformação e de busca pela competitividade. Evidentemente
que a infra-estrutura não deve ser vista como um fim em si, mas como meio – como Carlos
Lessa, com toda clareza, explicou (GARCIA, 2003, p. 2).

Ignorar a região e privilegiar os fluxos que circulam pelos eixos implica reconfigurar/desconfigu-
rar/configurar relações sociais e blocos de poder que, antes, estavam conformados pelas unidades ter-
ritoriais dos Estados (municípios,
estados ou províncias), seja através de superintendência
s ou outros
entes articuladores. No caso do Brasil, por exemplo, através da SUDENE e da SUDAM articulavam-se
as unidades políticas subnacionais, os estados. Além disso, ao privilegiar uma integração regional na
perspectiva das oportunidades que se abrem nos mercados mundiais, não se parte das realidades lo-
cais a serem viabilizadas, e os grupos sociais que se forjam nessas escalas são ignorados. A escolha das
escalas nunca é sociale politicamente neutra, nem ingênua. Aliás, aoviabilizar
se o acesso através de
uma integração física, não se pode ignorar que os diferentes grupos sociais não dispõem das mesmas
condições para delas se aproveitar. Afinal, as regiões (e seus grupos sociais e etnias) objeto da expan-
são desses investimentos, pela própria natureza de sua posição geográfica marginal e periférica, são
áreas situadas marginal e perifericamente nas relações de poder. Portanto, a concentração de poder
tende a ser maior nas áreas de expansão, com os grupos sociais mais
fortes se antecipando e tornando-

se mais fortes
A visão dasainda.
classes capitalistas (gestorial e burguesa5) e a colonialidade que as acompanha
continuam comandando as estratégias políticas de integração na IIRSA, como se pode ver no
pronunciamento do sr. Carlos Lessa, então presidente do BNDES, em 2003:
5
João Bernardo chama a atenção para o fato de o capitalismo se constituir por duas classes capitalistas, a dos gestores e a dos burgueses.
Ambas vivem da mais-valia social obtida em suas relações com as classes trabalhadoras, separadas dos meios de produção e circulação.
A classe burguesa se caracteriza por ser proprietária privada de meios de produção, e a classe dos gestores por sua posição com relação às
condições gerais de produção sem as quais as unidades privadas de produção não se integram. O fato de os gestores não serem proprietá-
rios privados leva-os a que eventualmente entrem em conflito com os proprietários privados, podendo, até mesmo, em situações-limite,
apoiar transformações políticas para regimes que não se sustentam na propriedade privada, mas que negam aos trabalhadores a possibi-
lidade de fazerem a autogestão. Afinal, são gestores, e a autogestão seria sua eliminação.
Carlos Walter Porto-Gonçalves e Pedro de Araújo Quental | 177

Eu insisti muito para que o projeto Rio Madeira fosse apresentado nesse seminário [...] esse
projeto era, da carteira dos nossos projetos, o que tinha mais o sentido da conquista do Oe ste,
o sentido da construção no interior do continente de um espaço de prosperidade e de um
espaço articulado de expansão. Eu não sei se a energia dessas usinas será para Manaus, se irá
numa ou noutra direção, mas estou absolutamente certo de que 4,8 mil quilômetros de aqua-
vias – 30 milhões de hectares de terras no Brasil, na Bolívia e Peru abertos à produção – repre-
sentam para a história do continente um movimento em pequena escala do que foi a ocupação
do velho oeste do continente norte-americano. Eu acho que é um gesto, um projeto que tem este
significado de pôr a modernidade sul-americana na hinterlândia ainda não ocupada. (LESSA
apud CARVALHO: 2004, p. 46, grifos nossos).

Vários mitos coloniais são aqui atualizados, com destaque para a ideia de “conquista do
oeste” e a de vazio demográfico, a “hinterlândia ainda não ocupada”. Sendo os espaços episte-
micamente esvaziados, espaços de ninguém, a conquista e ocupação está justificada. Os maio-
res obstáculos passam a ser os obstáculos naturais que cabe à engenharia resolver (cordilheira
dos Andes, “selva amazônica”, rio Amazonas, Pantanal etc.). Como bem expressou o mesmo
Carlos Lessa: “A cordilheira dos Andes é certamente uma beleza, mas é um terrível problema
de engenharia” (LESSA apud CARVALHO, 2004, p. 22).
É esse mesmo raciocínio que está subjacente à análise de cientistas do ICONE – Instituto de
Estudos do Comércio e Negociações Internacionais – que vêm dando subsídios aos agronego-
ciantes e assessorando as políticas governamentais no setor,6 e que nos dá um quadro (Quadro
6 e Mapa 12) em que, ao mostrarem as terras e águas disponíveis no mundo para a expansão
do agribusiness, situam o lugar privilegiado da América do Sul. Observando o Quadro 6, falam-
nos de mais de 60 milhões de hectares “de terras disponíveis” no Brasil, aproximadamente 25
milhões na Argentina e cerca de 3 milhões na Colômbia. E o título do Mapa 12 – Águas e Terras
Disponíveis por País – é sintomático do lugar de enunciação do discurso, haja vista o pressu-
posto de que são terras disponíveis – mas, disponíveis para quem?
Como se pode observar nesse Quadro 6, nenhuma região do mundo tem, simultanea-
mente, a mesma proporção de terras e águas “disponíveis” como a nossa. A América Latina,
em particular a América do Sul, passa a ser objeto de atenção, muito embora pouco se fale

que de
fato essas áreasparte
a maior estejam ocupadas
de nossos paísese ter
queuma
são estrutura
regiões ricas em biodiversidade.
fundiária E atenção:
com alta concentração de o
terras em poucas mãos acaba sendo um atrativo para os grandes investimentos das corpo-
rações transnacionais, tendo em visa que, com uma só operação de compra, podem adquirir
grandes extensões de terras, o que dificilmente obteriam caso a terra fosse democraticamente
distribuída. Por outro lado, a concentração de terras tende a acentuar a concentração de poder
econômico e, com isso, as grandes redes logísticas da IIRSA podem estar servindo como vias de
6
O ICONE, somente entre os anos de 2007 e 2009, produziu 35 documentos confidenciais para o governo brasileiro. Disponível em: http://
www.iconebrasil.org.br/pt.
178 | América Latina e a colonialidade do poder

mão única, pois não sendo partilhada a renda, as importações tendem a não ser partilhadas
por um número maior de interessados e, assim, o custo-Brasil ou o custo-América tem na con-
centração de riqueza sua principal razão e não simplesmente questões técnicas de gargalos
logísticos em nome dos quais quase sempre se justificam essas grandes obras. E mais, não
sendo vazias demograficamente essas áreas, os conflitos rebentarão por todo lado, conforme
veremos a seguir.
Com a reconfiguração geopolítica em curso, em que o império estadunidense deixa de ter
a hegemonia que acreditava possuir desde a queda do muro de Berlim, em 1989, e a China as-
sume um lugar de destaque, a integração da América Latina, em particular a América do Sul,
ganha outros contornos e possibilidades inéditas de, enfim, estabelecer relações de outro tipo,
não mais de subordinação, com os Estados Unidos. Os gestores do capitalismo de Estado mo-
nopolista da China têm demonstrado as enormes vantagens do planejamento centralizado, o
proveito dos grandes números e de uma mão de obra disciplinada e barata para manter taxas
de acumulação e de crescimento suficientemente altas para proporcionar um aumento gene-
ralizado da demanda de matérias-primas agrícolas e minerais que, como acusam os dados do
nosso comércio exterior, vem ensejando a reprimarização da nossa pauta de exportações e,
mais recentemente, atraindo investimentos diretos chineses.
Todavia, essa nova configuração geopolítica e geoeconômica implica acentuar a disputa
por condições naturais: terra/água/fotossíntese e minérios. Deste modo, tende a se agravar
um quadro já grave de violência, sobretudo aquela ligada aos processos de conquista territo-
rial que, como vimos, vem considerando nossa região como se fosse um espaço vazio de gente,
como se as terras fossem disponíveis, cujos obstáculos – a serem superados pela engenharia,
como disse Carlos Lessa, e conforme se pode ler nos documentos da IIRSA – fossem os que im-
pedem a livre circulação – as “rugosidades” das cordilheiras, dos alagados, dos rios, das selvas.
Nos últimos anos, sobretudo após 2003, temos assistido no Brasil a um aumento do núme-
ro de conflitos no campo, do número de famílias envolvidas em conflitos, de famílias expulsas
da terra e de famílias despejadas. Têm sido frequentes os conflitos em torno das obras do PAC, 7

que, como sabemos, fazem parte dos Eixos Nacionais de Integração e Desenvolvimento e estão
articulados à IIRSA. E esses conflitos estão longe de se reduzirem a um conflito entre desen-
volvimentistas e ambientalistas, como quase sempre costumam ser reduzidos. Neles estão

implicados vários grupos


Em pesquisa sociais
realizada peloque conformam
LEMTO múltiplasdeterritorialidades
– Laboratório em tensão.Sociais e
Estudos de Movimentos
Territorialidades da UFF – foram identificados, ao longo dos oito Eixos da IIRSA, num levan-
tamento ainda exploratório, múltiplas ações de grupos sociais que defendem seus espaços
os quais vêm sendo ameaçados pela expansão dessas obras e dos interesses que as acom-
panham. Neste levantamento foram identificados mais de 555 diferentes comunidades/

7
Entre os conflitos que ganharam maior destaque temos os do sul da Bahia; os da baía de Sepetiba no estado do Rio de Janeiro; os relacio-
nados à transposição do Rio São Francisco, envolvendo vários estados como Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Ceará, Paraíba, Sergipe e
Alagoas; e os vinculados à construção das hidrelétricas de Belo Monte, no Pará, e do rio Madeira, em Rondônia.
Carlos Walter Porto-Gonçalves e Pedro de Araújo Quental | 179

povos/etnias indígenas, mais de 222 comunidades camponesas, mais de 115 comunidades


de pescadores, mais de 199 comunidades quilombolas/cimarrones, mais de 45 comunidades
de faxinalenses, mais de 61 organizações sociais, geralmente urbanas (sem-teto, moradores,
desocupados, piqueteros), mais de 36 entidades ambientalistas territorializadas, além de mais
de 70 grupos autodesignados como camponeses-indígenas, camponeses extrativistas, cam-
poneses-mineiros, camponeses-quilombolas, cocaleros, mineiros, atingidos pela mineração,
atingidos por barragens, seringueiros, marisqueiros, ribeirinhos, junqueiros, cipozeiros, caiça-
ras, afro-brasileiros, afro-bolivianos, afro-peruanos, afro-indígenas, desplazados e sem-teto,
entre outras identidades/territorialidades. Enfim, mais de 900 territorialidades foram iden-
tificadas a partir de algum nível de mobilização ao longo dos oito eixos, o que nos indica o
potencial de conflito em torno da IIRSA.

Perspectivas da América do Sul diante da nova configuração geográfica mundial

A integração física nos marcos do livre-comércio e da abertura externa, tal como vem sen-
do até aqui encaminhada, tende a atualizar uma história de longa duração no limiar de um
novo ciclo sistêmico multipolarizado, em que a Ásia, a China principalmente, passa a ter um
lugar de destaque, conforme já podemos identificar na nova geografia comercial dos países
latino-americanos, sul-americanos. Por tudo que o Brasil significa nesse contexto latino-ame-
ricano, em termos de extensão territorial, de sua demografia e magnitude da sua economia,
essa nova configuração geoeconômica, por nossa posição geográfica, tende a ter uma impor-
tância igualmente proporcional. Sendo o Brasil um país atlântico, vimo-nos até aqui diante de
uma integração a um sistema-mundo cujos diferentes ciclos foram, desde 1492, geografica-
mente situados no Atlântico.
A hegemonia estadunidense desde o século XIX ensejou tensões geopolíticas próprias na
nossa região. À medida que, hoje, a Ásia (Japão, Tigres Asiáticos e a China, em particular) passa
a ter grande dinamismo econômico a ponto de afirmar-se como polo na nova geopolítica mul-
tipolar, abrem-se para os países latino-americanos, sul-americanos particularmente, novos
horizontes que proporcionam condições de romper com a dependência em relação aos Estados
Unidos. O Brasil, pelas razões apontadas anteriormente, e a Argentina, Uruguai e mesmo a

Venezuela,
vações sendo
não são países atlânticos,
necessariame se veemque
nte as mesmas instados a uma os
comandaram integração regional
libertadores cujas
(Bolívar, Marmoti-
tí,
Sucre, San Martin e tantos outros).
Por outro lado, três dos quatro países sul-americanos do Pacífico têm ligações fortes com
os Estados Unidos (Colômbia, Peru8 e Chile) e, ainda, por sua própria localização geográfica,
independem da integração física regional sul-americana para aprofundar suas relações com
8
Em 2011, as eleições no Peru indicaram claramente o novo contexto geopolítico que vimos assinalando neste artigo. O Brasil teve um
papel ativo nas eleições peruanas com um apoio nada velado ao candidato nacionalista Ollanta Humalla, haja vista o alinhamento pró-
-estadunidense de sucessivos governos daquele país que se colocavam abert amente contra a UNASUR e as propostas de integração sul-a-
mericanas do Itamarati.
180 | América Latina e a colonialidade do poder

a Ásia – afinal já estão no Pacífico. Dos países do Pacífico sul-americano, somente o Equador
vem mantendo um vivo interesse nessa integração, sobretudo depois das sucessivas quedas
de governos comprometidos com o neoliberalismo, para o que concorreu um dos mais pode-
rosos movimentos sociais dos últimos anos em toda a América Latina, o movimento indígena
e camponês equatoriano. Essa busca pela integração regional por parte do novo governo do
Equador se dá porque, para realmente romper com o neoliberalismo, o país precisa romper
também com a dolarização da economia que lhe foi imposta, o que dificilmente conseguirá
fora de um quadro de integração regional.
A integração regional vem se movendo, de um lado, pelo impulso de governos progressis-
tas que se elegeram não só pelo desgaste próprio das políticas neoliberais, desgaste que não
é abstrato, mas manifestado pelo descontentamento da população através de movimentos
sociais e, de outro, pela pressão exercida pelas forças das corporações que veem na integração
oportunidades de bons negócios.9
Diferentemente do caráter imperial que caracterizou a ação dos Estados Unidos quando de
sua integração ao Pacífico, os desafios que se abrem para o Brasil terão de ser de outra ordem,
embora, como vimos, grupos políticos poderosos venham exercendo um papel de protago-
nista no direcionamento dessa integração, entre eles, as grandes corporações de engenharia
e consultoria do campo da construção civil – as mais diretamente interessadas nas obras de
construção de pontes, estradas, hidrelétricas – e, ainda, as grandes corporações da área de
mineração, além dos grandes grupos oligárquicos que operam a partir dos grandes latifúndios
empresariais de exportação, autodenominadosagribusiness, que, a partir do Brasil, operam
com grande força no Paraguai e no Oriente boliviano.
O Brasil já vem experimentando algumas tensões derivadas desse novo contexto que já
valeram, inclusive, a chamada de embaixador, como noaffair envolvendo empreiteiras no
Equador acusadas de corrupção e de não cumprimento de regras técnicas de construção; na
renegociação, em nossa opinião bem-encaminhada, no caso da nacionalização dos hidrocar-
bonetos na Bolívia, inclusive com o governo sofrendo forte pressão pela grande imprensa; e,
ainda, pressão de movimentos sociais com relação à Petrobras também no Equador (PORTO-
GONÇALVES ; SANTOS, 2007).
Há uma tensão territorial de novo tipo em curso e já não se trata mais do territorial con-

efundido comoportunidades
as novas a escala do Estado (uni)nacional.
abertas O aprofundamento
por novos meios da mundialização
de comunicação, do capital
como a internet, assim
como a popularização dos telefones móveis,10 proporcionaram as condições materiais para que
9
Nada poderia ser mais emblemático dessa tensão do que a Copa Libertadores da América de futebol, disputada pela primeira vez em
1960, quando a ideia libertadora ganhara força com a Revolução Cubana, e que passou a ser chamada recentemente Copa Toyota Li-
bertadores, entre 1998-2008 e, desde então, Copa Santander Libertadores. Enfim, Toyota e Santander estão longe de constituírem uma
perspectiva libertadora para a região.
10
Os telefones móveis, o uso das pequenas motocicletas e a internet desempenharam um papel importantíssimo para a rápida mobilização
popular que impediu, por baixo, o golpe de Estado contra o presidente Hugo Chávez em 2002, convocando a população pobre das perife-
rias de Caracas para que cercasse o Palácio Miraflores.
Carlos Walter Porto-Gonçalves e Pedro de Araújo Quental | 181

outros protagonistas adentrassem a arena política e colocassem em xeque o Estado (uni)na-


cional e seu colonialismo interno. Enfim, movimentos sociais quebraram o monopólio estatal
e empresarial nas relações internacionais e tornaram complexa a cena política ao se tornarem
protagonistas também na escala global. O slogan “proletários de todo o mundo, uni-vos!” do
Manifesto Comunista ganha uma dimensão jamais vista e com uma diversidade de sujeitos
políticos inimaginável, conforme se pode ver nas diversas versões do Fórum Social Mundial.
Observemos que os movimentos camponeses e indígenas, os campesíndios (BARTRA,
2008) ou o indigenato (RIBEIRO, 1986), passam a ter um papel relevante, sobretudo a partir
de 1990-1992-1994,11 atualizando uma história de longa duração e trazendo outras questões
para o debate contemporâneo. Não é sem sentido que politizam o conceito de território, haja
vista que o momento primeiro do sistema-mundo moderno-colonial foi justamente a invasão
de seus territórios, sua (des)territorialização. Para esses povos, a separação da cultura e da na-
tureza se mostra mais que uma questão de paradigma, de episteme, embora também o seja.
Atualizam não só essa questão de longa duração, mas também o debate no pensamento con-
temporâneo, sobretudo no campo crítico ao capitalismo, ao ampliarem o debate sobre a terra,
como a questão camponesa é pensada na tradição marxista e liberal, ao colocarem a questão
dos territórios. Nas palavras de um líder indígena boliviano: “não queremos terra, queremos
território”, o mesmo que veríamos com o líder sindical equatoriano Humberto Cholango, mais
tarde (2011) líder indígena e coordenador da CONAIE – Coordenadora das Nacionalidades
Indígenas do Equador.
A luta que os camponeses e os povos srcinários vêm travando adquire um sentido mais
amplo e que diz respeito a toda a humanidade e aos destinos da vida no planeta não só por
suas lutas históricas contra a desterritorialização/expropriação. Afinal, a defesa das culturas
em sua diversidade implica a defesa das suas condições naturais de existência com as quais
desenvolveram valores que dão sentidos a suas práticas, daí a tríade território-territorialida-
de-territorialização vir adquirindo centralidade.
É que, no bojo das contradições do sistema-mundo moderno-colonial acima esboçadas,
em que os protagonistas eram, sobretudo, do “andar de cima”, como os gestores dos organis-
mos multilaterais, as ONGs e as corporações do grande capital transnacional, surgiram grupos
sociais, etnias e classes que reinventam sua R-existência12 histórica à tomada de seus territó-

rios,
11
1990de suas terras
– Marchas e demais
pela Dignidade condições
e pelo Território naturais
no Equador de existência
e na Bolívia; desdedosa500
1992 – data simbólica invasão/conquista, como
anos da invasão colonial, data
politizada pelo movimento indígena, sobretudo na Conferência Rio 92 da ONU; 1994 – no dia 1º de janeiro, quando os Estados Unidos,
México e Canadá firmavam o Nafta, os zapatistas, com o EZLN – Exército Zapatista de Libertação Nacional –, através de uma ação espeta-
cular, se manifestam, denunciando ao mundo o olvido dos povos srcinários, o México Profundo, a América Profunda. O manejo das novas
tecnologias pelo movimento indígena surpreendeu aqueles que teimam em ignorar sua criatividade. Aliás, a colonialidade é, sempre,
desperdício de experiência humana.
12
Nota conceitual: Porto-Gonçalves (1998, 2001, 2004) vem insistindo na criação de um neologismo – R-Existência – que nos parece mais
rico do que a expressão resistência para dar conta do que está em curso. Afinal, resistência é uma expressão que sugere que se reage a
uma ação de outrem somente. Com o neologismo proposto tentamos dar conta de que embora haja reação, resistência, essa não se dá a
partir do nada, mas sim a partir de um patrimônio sociocultural pré-existente que, diante da experiência (THOMPSON), age. Logo é de
R-existência que se trata.
182 | América Latina e a colonialidade do poder

os indígenas, os camponeses e os afro-americanos (em seus cumbes, quilombos e pallenques)


e que, sobretudo nos últimos 40 anos, veem-se em grande parte como populações pobres das
periferias urbanas vivendo em habitações subumanas paradoxalmente mais suscetíveis a si-
tuações de riscos ambientais do que quando estavam nas áreas rurais, nos campos e florestas.
Não esqueçamos que a crise ambiental é também, na perspectiva dessas populações, crise
civilizatória reconfigurando o debate epistêmico-político.
Definem, assim, uma outra agenda política em que o ambiental ganha outros contornos.
Desse modo, no debate acerca da integração regional háque se tomar em conta esses processos
de fundo que vêm construindo outra agenda política. O avanço sobre novas áreas engendrou
tensões de territorialidades e, em seu bojo, novas questões vão sendo formuladas. A Amazônia,
por exemplo, tem merecido, particularmente por parte da União Europeia, um interesse com
relação ao desmatamento, preocupados que estão com o tema das mudanças climáticas glo-
bais, e também com a biodiversidade que desaparece junto com as florestas. Do ponto de vista
estadunidense, tudo indica que os interesses sejam de outro tipo e mais diretos, sobretudo o
controle estratégico da região em função de sua riqueza em biodiversidade e água, o que vêm
perseguindo através de ações militares na Colômbia e no Peru (BRUCKMAN, 2011).
Os movimentos sociais introduziram a questão social e cultural no debate acerca da natu-
reza. “Não há defesa da floresta sem os povos da floresta”, tese defendida por Chico Mendes, lí-
der camponês da Amazônia brasileira, sintetiza bem um conjunto de lutas sociais travadas em
diferentes lugares do mundo, como o Movimento Chipko, na Índia, a luta dos Chimalapas, nas
selvas do sul do México (Chiapas e Oaxaca), entre os afro- colombianos do Pacífico (ESCOBAR;
GRUESO), na Articulação dos Povos do Cerrado (Brasil), assim como nos “acordos de pesca”, das
reservas marinhas, no “salário defeso”13 e outras formas de configuração territorial propos-
tas a partir dos movimentos sociais. Enfim, em diferentes contextos geoculturais politiza-se
a cultura, e como a cultura não é algo abstrato, essa politização traz junto o debate sobre
a apropriação da natureza e, com isso, a questão territorial adquire centralidade no debate
teórico-político (PORTO-GONÇALVES, 1998, 2004).
Chico Mendes é, nesse aspecto, um líder emblemático, pois soube se mover bem nesse
novo quadro geopolítico, ampliando o debate ecológico, introduzindo demandas populares
clássicas, como a reforma agrária, e complexificando o debate teórico-político sobre a proble-

mática
to ambiental.
de unidade A proposta de
de conservação reserva extrativista
ambiental ao colocar adefendida
cultura e opor ele popular
saber revolucionou
como ocondi-
concei-
ções necessárias da preservação ambiental14 e se coloca de modo distinto ante o paradigma
eurocêntrico em que a proteção da natureza se faz com unidades de conservação sem gente.
13
O “salário defeso” é uma inovação no direito que reconhece o direito dos pescadores a receberem um salário nos períodos em que a pesca
está interditada em função das necessidades de reprodução das espécies. Antes se defendia o peixe e não o pescador. Com o “salário
defeso” estamos diante de outro paradigma em que o peixe e o pescador não são antagon izados.
14
Em torno de Chico Mendes (1944-1988) se desenvolve uma perspectiva teórico-política mais próxima ao “ecologismo dos pobres” e à “eco-
logia popular”, diferente da defendida pelo Banco Mundial e setores empresariais, e suas ONGs, relacionada à ideia de desenvolvimento
sustentável.
Carlos Walter Porto-Gonçalves e Pedro de Araújo Quental | 183

Chico Mendes dizia que “a reserva extrativista é a reforma agrária dos seringueiros” e, com
isso, deslocava o debate da terra para a questão territorial, tal e qual vimos líderes indígenas
formulando de modo próprio na Bolívia, no Equador e no México.
Essas questões, é importante frisar, não dizem respeito somente a países em que as popu-
lações indígenas ou camponesas são numerosas, como nos casos da Bolívia, Equador, Peru e
Paraguai, ou de regiões no interior de alguns países nas quais o indígena é demograficamente
relevante, como no sul do Chile, na Patagônia e Chaco argentinos, na Amazônia brasileira,
colombiana e venezuelana ou nos contrafortes da serra de Perijá, nas lindes colombiano-
venezuelanas. Não, essas populações ocupam áreas de alta relevância no que diz respeito à
diversidade biológica e que, agora, se tornam objeto da expansão através de projetos como a
IIRSA, que abrem essas áreas aos interesses de grandes empresas de mineração e outras ávidas
de terras para ampliarem seus negócios de exportação.
Independentemente do tamanho demográfico dessas populações, são áreas estratégicas
e, desse modo, elas se inscrevem definitivamente no debate político nas suas mais diferentes
escalas (DIAZ-POLANCO, 2004). Essas questões são cada vez mais associadas à problemática
urbana, seja pela qualidade das águas ou dos alimentos (orgânicos ou transgênicos?), seja
pelo crescimento exponencial das cidades a que já aludimos, ou mesmo pelas mudanças cli-
máticas com chuvas torrenciais, secas rigorosas e incêndios grandiosos que se propagam e
que localmente tornam a vida mais difícil de ser vivida. Essa realidade torna-se mais grave,
sobretudo, para as populações que dispõem de menos condições econômicas e são obrigadas
a viver nos ambientes mais íngremes ou nos fundos de vales alagáveis ou ainda nos mangues.
Enfim, o indígena e o camponês já não são mais os “locais”, embora também o sejam. Essas
populações se colocam, hoje, no debate político em escala nacional reconfigurando esse deba-
te com questões próprias, mas não como questões exclusivas, específicas. Propõem-se explici-
tamente a questão do poder nacional. Assim, procuram escapar das armadilhas políticas que
lhes são colocadas pelo pós-modernismo e seu multiculturalismo que separa cada qual em
seu canto e, deste modo, estimulam os essencialismos, a xenofobia, como na Europa. Falam,
ao contrário, de descolonização, de interculturalidade (WALSH, 2002), de transmodernida-
de (DUSSEL, 2004). Essa ampliação do debate teórico-político enseja que o Estado não seja
mais (uni)nacional como a Bolívia explicita ao se renomear como Estado Plurinacional (TAPIA,

2009).representantes
seus Na última eleição, realizada
de acordo comnocritérios
país empróprios
2010, as epopulações indígenas puderam
não necessariamente na baseeleger
de cada
indivíduo um voto, tendo sido uma revolução nos mecanismos políticos na medida em que
reconhece a cultura, para além de seu plano específico, também no plano político-territorial
(municípios mancomunados).
O Equador foi o primeiro país do mundo a introduzir os direitos da natureza numa cons-
tituição. A proposta, nascida no movimento indígena-camponês-ambientalista e acatada
pelo governo Rafael Correa, de não explorar o petróleo nos contrafortes andino-amazônicos
– Parque Nacional de Yasuny – mediante a arrecadação de metade do valor que obteria com a
184 | América Latina e a colonialidade do poder

exploração, é a primeira proposta concreta que não se faz enquanto compensação dos países
ricos a algum país pobre enquanto continuam explorando e lançando gases de efeito estufa
na atmosfera. Com a proposta do Parque Nacional de Yasuny deixa-se de explorar o petróleo
em benefício das populações e da natureza em troca de captação de metade do valor caso
houvesse a exploração.
Começam a ganhar sentido ideias como pluralismo jurídico não mais recusando os direitos
das gentes, o chamado direito consuetudinário, já não mais somente o direito hegemônico
fundado nos princípios liberais do indivíduo e da propriedade privada.15 Afinal, o conhecimen-
to srcinário e tradicional não é um direito individualizável, mas um patrimônio comum, cole-
tivo e comunitário que demanda uma sistematização e um reconhecimento que não necessa-
riamente o reduza a princípios contrários aos seus fundamentos sociopolíticos e culturais. Por
exemplo, a maior parte das grandes corporações da área de biotecnologia sabe que não basta
sair de nossos países carregando espécies botânicas e faunísticas para, a posteriori, identificar
o princípio ativo em seus laboratórios. O custo disso seria incalculável. Daí seu interesse em
buscar conhecimento junto a grupos sociais, povos e etnias de usos srcinários, seja como
alimento, seja como remédio. É com base nesse conhecimento srcinário e tradicional que
recolhem as espécies de interesse. Portanto, o que carregam não é o que se convencionou cha-
mar biopirataria, mas sim etnobiopirataria, pois é da cultura e do conhecimento srcinários
que srcinariamente se apropriam.
Só reconhecer o direito de propriedade a partir do isolamento do princípio ativo nos la-
boratórios é apropriar-se indevidamente de um acer vo de conhecimento que é comunitário e
coletivo – direitos de propriedade intelectual de outra ordem, enfim, novas questões teórico-
-políticas. Afinal, herdamos uma enorme riqueza cultural enquanto conhecimento srcinário e
tradicional cuja srcem remonta à ocupação do continente e à própria formação dos domínios
clímato-botânicos (AB’SABER, 1977), abrigada no patrimônio natural de nossas florestas tro-
picais e equatoriais, nossas savanas, nossas estepes, nossaspunas, nossos páramos e nossos
mangues/humedales, enfim, a riqueza em diversidade biológica de nosso continente, e de
nossa sub-região sul-americana em particular.
Enfim, há uma agenda positiva surgindo no interior dessas lutas sociais, muitas das quais
já foram incorporadas enquanto leis ou enquanto políticas. Há, muitas vezes, avanços for-

mais com enormes


Indígenas dificuldades
da Venezuela, uma dasconcretas de implementação,
mais sensíveis como asrcinário,
a esse pensamento Lei Orgânica
masdos
quePovos
en-
contra enormes dificuldades para ser assimilada pelo próprio governo bolivariano de cujo
processo revolucionário, no fundo, emergiu essa Venezuela Profunda que foi capaz de admitir

15
O Artigo 197 da Constituição boliviana estabelece que “o Tribunal Constitucional Plurinacional estará integrado por Magistradas e Magis-
trados eleitos com critérios de plurinacionalidade, com representação do sistema ordinário e do sistema indígena srcinário-camponês”.
Nas eleições gerais de 6 de dezembro de 2009, no marco da nova Constituição Política do Estado, elegeu-se na Bolívia a Assembleia
Legislativa Plurinacional (em substituição ao Congresso Nacional até então existente), composta de 36 senadores e 130 deputados, sete
dos quais se elegeram em circunscrições especiais indígena-srcinário-camponesas.
Carlos Walter Porto-Gonçalves e Pedro de Araújo Quental | 185

essa lei.16 No Brasil, todo o esforço desencadeado pelos seringueiros e que culminou, nos anos
1980, na criação das reservas extrativistas, que demandavam novas relações entre o Estado
e a sociedade civil organizada, viu-se impossibilitado de cumprir sua verdadeira missão pelo
esvaziamento do E stado nos anos de hegemonia neoliberal.
Há uma questão de fundo que emana desse repertório de questões. Trata-se da luta pela
reapropriação social da naturezaque a humanidade, na sua diversidade, vem travando. É isso
que se coloca enquanto questão territorial. Afinal, uma das condições para que haja uma do-
minação generalizada de alguns homens sobre a humanidade é a expropriação das condições
materiais da existência, entre as quais se inclui a natureza. Assim, privados dessas condições
pela instauração do primado da propriedade que priva – propriedade privada –, instaura-
se a separação homem-natureza não só enquanto paradigma. Deste modo, são profundas as
implicações que emanam dessas lutas pela reapropriação social da natureza, boa parte delas
desencadeadas por populações com fortes vínculos territoriais, como os povos srcinários,
camponeses, quilombolas, os sem-terra (desterritorializados em luta por re-territorialização
enquanto reapropriação social da natureza).
Ao colocarem a natureza como sujeito de direito, como no Equador, ao politizarem a cul-
tura dando-lhe um sentido prático não separando corpo e mente, natureza e cultura, espírito
e matéria, ensejam um debate que vai além do desenvolvimento/subdesenvolvimento como
até aqui ficamos presos nos marcos eurocêntricos. Vários autores como Ricardo Abramovay,
J-M. Allier (2009), Elmar Altvater, Gustavo Esteva, Alberto Acosta, Wolfgang Sachs, Celso
Furtado e Josué de Castro já insistiram em que não se trata de “socializar oamerican way of
life”. Esses movimentos sociais e seus intelectuais orgânicos (GRAMSCI, 1968) oferecem ao de-
bate teórico-político o Suma Kawsay, o Buen Vivir, não como modelo, por suposto, mas como
outro horizonte de sentido.
Por fim, consideremos que todo esse patrimônio teórico-político forjado no terreno mo-
vediço da história recente deNuestra América se fez tendo de enfrentar um dos mais violentos
processos expropriatórios de que se tem notícia na história da humanidade, desde os anos
1970. Regimes autoritários comandaram a construção de estradas, barragens, hidrelétricas,
linhas de transmissão, produziram os sem-terra e sem-teto, mas, nesse bojo e apesar de tudo,
surgiu uma nova agenda teórico-política que aqui, ainda que sucintamente, explicitamos. A

IIRSA e as, perspectivas


particular que sea integração
impõem ao Brasil abrem comregion
a demanda
al físicapor commodities
da América pela Ásia, China em
do Sul.
Como vimos, o cenário de conflitos tende a se estender. E tende a expor aos conflitos go-
vernos de distintas formações, como se pode ver recentemente na Bolívia com os movimentos
sociais, de onde saíram as principais lideranças do governo, confrontando-se com o governo.
O mesmo pode ser visto contra o aumento dos combustíveis do governo de Piñera, quase ao
16
Vemos que, assim, acontece algo parecido com o que se passou com as políticas neoliberais que admitiram a incorporação dos direi-
tos indígenas ou de populações negras, mas que não tinham a dimensão do seu real significado, da magnitude, sobretudo em termos
territoriais. Vide as leis que reconhecem o direito à demarcação dos territórios quilombolas no Brasil, assim como as primeiras leis que
introduziram novos direitos entre os povos indígenas na Bolívia e em outros países.
186 | América Latina e a colonialidade do poder

mesmo tempo no sul do Chile com bloqueio de estrada, forma de manifestação típica dos mo -
vimentos indígenas e camponeses, impedindo o trânsito, inclusive de turistas nos aeroportos.
No ano de 2010, o governo Rafael Correa (Equador) se viu alvo de manifestação que por pouco
não se transformou em tentativa de golpe, em que o governo se viu isolado ao não contar
com o apoio de movimentos sociais que, nas últimas décadas, tiveram um papel importante
naquele país, inclusive na deslegitimação de um neoliberalismo que se acreditara tão forte
que impôs a dolarização da moeda ao país. No Peru, um dos movimentos mais expressivos,
a CONACAMI – Confederación Nacional de Comunidades Afectadas por la Minería (CONACAMI)
– viu-se, em 2009, implicado num dos mais violentos conflitos dos últimos anos, em Bagua,
nos contrafortes andino-amazônicos. Nesse conflito, morreram dezenas de pessoas, inclusive,
um número expressivo de militares, conflito este protagonizado por povos indígenas em con-
fronto com empresas mineradoras e forças militares, indicando sua expansão até os confins
andino-amazônicos onde vivem povos em isolamento voluntário. Na Venezuela, o governo
vem encontrando dificuldades para demarcar os territórios indígenas, como na serra de Perijá,
onde estão sendo feitas concessões de mineração em áreas dos indígenas yukpa, que estão
protagonizando lutas por território sob a liderança de Sabino Romero. No Brasil, são tensas
as relações com movimentos indígenas e camponeses em torno da construção das barragens,
como a de B elo Monte, no rio Xingu, e outras, no rio Madeira, assim como na transposição do
rio São Francisco.
Sabemos que a lógica que comanda os processos eleitorais não é a mesma que está por
trás das contradições sociais e suas lutas, nem tampouco aquela que norteia a chamada opi-
nião pública. Evo Morales, há menos de um ano, tinha amplo respaldo eleitoral que lhe deu
mais de 60% dos votos e 2/3 do Parlamento. Recentemente, sofreu ampla contestação de seu
gasolinazo, como ficou conhecida sua medida de aumento de 83% no preço da gasolina. O
mesmo ocorreu com Piñera, no Chile: eleito, e com amplo apoio depois do acidente em que os
mineiros foram soterrados e salvos em grande operação comandada pelo governo, com ampla
cobertura da mídia, viu-se tendo de enfrentar grandes mobilizações que lhe afetaram a popu-
laridade. Enfim, há um cenário complexo se abrindo que propõe enormes desafios, sobretudo
para aqueles que buscam uma integração com justiça social, que abrigue a diversidade cultu-
ral-territorial de nossa região e que seja ambientalmente responsável.

rizarTudo indicaimperialismo”
“o novo que a “acumulação por espoliação”,
e sua combinação cunhada
estrutural por Davidabsoluta
de mais-valia Harvey para caracte-
e mais-valia
relativa (para mantermo-nos nos marcos teóricos marxistas de Harvey), embora seja um ar-
cabouço teórico necessário para compreender o que vem se passando, é insuficiente se igno-
rarmos a colonialidade que atravessa o sistema-mundo desde seus primórdios até hoje. Uma
história de larguíssima duração parece estar sendo agenciada por populações srcinárias, por
camponeses que se apropriaram das terras como espaços de vida e liberdade, escapando do
latifúndio, e ainda por populações negras que fizeram nospallenques/quilombos/cumbes uma
história e uma geografia de liberdade, numa região marcada pela escravidão, pelo latifúndio
Carlos Walter Porto-Gonçalves e Pedro de Araújo Quental | 187

e pela monocultura. Clamam por uma análise crítica que esteja à altura da sua criatividade
e que supere uma sociedade que reduza o mundo à mercadoria e que não mais reproduza a
colonialidade do saber e do poder que desperdiça essa rica experiência humana. Enfim, há um
acervo enorme tanto de ideias para constituir uma agenda política nesse sentido, como de
ricos e diversos patrimônios culturais e naturais que nos servem de condição para reinventar
a nossa existência e a da humanidade. Enfim, como nos ensina Simon Rodrigues, “ou inventa-
mos ou erramos”.

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Mapa 10 – Eixos de integração e desenvolvimento para integração


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Fonte: http://www.igeo.ufrj.br/fronteiras/mapas/eje_Mapa_General.jpg
Carlos Walter Porto-Gonçalves e Pedro de Araújo Quental | 191

Quadro 6 – Disponibilidade de terras aráveis por país

Mapa 11 – Águas e terras disponíveis por país


Cristina Pessanha Mar y

ÁFRICA: INTEGRAÇÃO E FRAGMENTAÇÃO

Sob o signo do período mais recente da globalização, a relação do continente africano


com os centros mundiais de poder vem se alterando. Como afirmam algumas análises, a África
estaria deixando para trás seu antigo papel, de “periferia descartável”, para integrar-se aos
circuitos da globalização. Neste capítulo, investigamos tal premissa a partir da recuperação
dos condicionantes histórico-geográficos da situação. Interrogamos ainda os limites, as con-
tradições e as perspectivas dessa nova inserção africana ante os centros de poder.

Metáforas geográficas

Na primeira edição deste livro, ao comentarmos a situação africana ante o processo de


globalização, transcrevemos as impressões de dois autores acerca do continente. Enquanto, na
década de 1940, o militar português Henrique Galvão descrevia a Guiné como a encarnação
do que se acreditava ser uma África genuína, “com rios infestados de jacarés, negros retintos
e o ar cenográfico de mistério, calor e febre” (GALVÃO, 1948, p. 68), Lester Thurow, economis-
ta de renome internacional, quase meio século mais tarde, afirmava que a África ao sul do
Saara (com exceção da República da África do Sul) “era a causa perdida da economia mundial”
(THUROW, 1993, p. 255).
Ainda hoje, a despeito das mudanças recentes, a África continua identificada somente
pelo exotismo, pelo fracasso e mesmo por outros males como a fome, doenças, guerras e se-
1

cas. Essas
havia imagens
a ideia de umacristalizaram-se a partir
terra selvagem, de de
carente sucessivas representações.
civilização,
2 Sob amissionários
pronta a receber colonizaçãoe
militares (BRUNEL, 2005, p. 1). Foi esse o mote da Conferência de Berlim, realizada entre 1884

1
Apesar de ser um fato inconteste que a África apresenta o menor PIB per capita e os maiores índices de analfabetismo em relação aos
demais continentes, enfrentando também o avanço de enfermidades, como a AIDS, e a fome (por exemplo, a recente crise alimentar
no Níger, país onde estima-se que mais da metade da população sofra algum tipo de penúria alimentar [STWART, 2010]), salientamos,
obviamente, que o continente não se resume a esses estereótipos.
2
Sobre a participação das Sociedades de Geografia nesse processo, criando “Estações Civilizadoras”, ver MARY, 2010.
194 | África: integração e fragmentação

e 1885. Por detrás da fachada humanista, o famoso evento definiu o acesso às bacias hidrográ-
ficas do continente, facilitando a interiorização da colonização.3
No século XIX, graças a vários intelectuais negros, como Alexander Crummell, a concep-
ção de uma África una, indivisível, ganhou vitalidade. Esse padre episcopal, com formação
na Universidade de Cambridge, “americano de nascimento e liberiano por adoção” (APPIAH,
1997, p. 22), ao projetar a construção de uma pátria para os negros, nos moldes dos naciona-
lismos do século XIX, esculpiu, talvez, a face mais conhecida do continente. Uma espécie de
“metáfora geográfica para a raça negra” (MAGNOLI, 2009, p. 222). Assim, o pan-africanismo
colocou sob seu manto uma miríade de diferenças culturais, como aquelas que distinguem
um amara, da Etiópia, de um ambundo, em Angola, e estes de um jalofo, do Senegal (SILVA,
2008).
Ante o exposto, cabe a questão: o que fazer diante da força dessas geografias imaginativas4
que unificam o diverso e tomam a parte pelo todo? Certamente o caminho para uma avaliação
consistente acerca do papel da África no interior do processo de globalização, escopo deste
capítulo, exigirá o esforço permanente da utilização simultânea de duas escalas: aquela que a
reconhece como conjunto e a outra que a regionaliza – ambas colocadas a partir de uma pers-
pectiva histórica. Afinal, como lembra o geógrafo Yves Lacoste, os diferentes níveis de análise
espacial – fronteiras, localização desordenada de diferentes povos e línguas – resultam de
relações de forças mais ou menos antigas, reavivadas constantemente por grupos políticos
que sublinham memórias tendenciosas e tornam assim impossível “compreender, mesmo em
traços largos, uma situação geopolítica sem saber ‘como se chegou aí’”(LACOSTE, 2006, p. 12).

Uma geografia histórica do continente: muitas Áfricas5

Na srcem de seu nome a África traz as marcas da cultura berbere.6 Ifri (rochedo ou gruta
naquela língua) indicava a região correspondente à zona de influência da cidade fenícia de
Cartago (LACOSTE, 2006). Inteiramente destruída pelos romanos, estes fundam em seguida
uma província, bem próxima dessa localidade (atual Túnis), a qual denominam África. Tal

3
Na prática, a Conferência permitiu ainda, entre outras medidas, a criação, pelo rei belga Leopoldo II, do Estado Livre do Congo, cuja
extensão abarcou grande parte da África Central ( WESSELING, 1998).
4
Resumidamente, podemos entender a “geografia imaginativa” como um conhecimento para além de uma geografia positiva, dos fatos.
O conceito remete à discussão de representação (SAID, 1990).
5
“Muitas Áfricas” é um subtítulo de capítulo do livro 1688: o início da era moderna, no qual me inspirei (WILLS Jr., 2001).
6
Antes da expansão árabe no norte da África, entre os séculos VII e VIII, predominavam na região grupos de língua berbere. A dissemi-
nação da cultura árabe terminou por incorporar ou reprimir grande parte daquele universo. No entanto, em certas regiões do Marrocos,
etnias berberes ainda constituem maioria entre a população. Recentemente, o governo daquele país, diante da pressão popular, vem
anunciando, entre outras medidas de democratização, a proteção da língua amazig ou tamazig (berbere) como patrimônio cultural do
país. Na Argélia, as etnias berberes mantêm suas tradições em algumas regiões como a Cabília, Aures e entre grupos nômades (como
os tuaregues). Estes grupos ocupam uma área do Saara que se estende do Sudeste argelino até o Noroeste do Níger (LACOSTE, 2008).
Encontramos berberes também em Nefusa, no Noroeste da Líbia (STORIG, 1990). Disponível em: <http://ww w.elpais.com/articulo/inter-
nacional/Marruecos>. Acessado em 9 mar.2011.
Cristina Pessanha Mary | 195

denominação, mantida pelos árabes, estendeu-se por toda aparte Noroeste. Por fim, passou
a designar o continente inteiro (CASTRO, 1981).
Embora, à primeira vista, a geografia histórica pré-colonial do continente (esquemati-
camente representada no Mapa 13) possa aparentar “uniformidade”, com seus reinos e im-
périos relativamente bem delimitados (RETTAILLÉ, 1992), esta foi marcada por contrastes.
Salientamos o recorte geográfico clássico entre as áreas setentrionais e o extenso conjunto que
recobre todo o espaço situado ao sul do Saara, e comumente denominado de África Negra. 7

Ao norte, região que até hoje figura como entidade histórica e cultural distinta,8
floresce-
ram, em torno do Mediterrâneo, as sociedades romana, árabe e, por último, a otomana, vigen-
te até a Primeira Guerra. Já a África Subsaariana seguiu seu curso, imersa em dinâmica própria.
A partir da expansão mercantil, enquanto várias áreas setentrionais estiveram ligadas ao
Império Otomano,9 fatia considerável da África Negra foi integrada às redes do circuito do co-
mércio de escravos atlântico. No âmbito de uma divisão internacional do trabalho entre os
centros europeus e suas colônias, grande parte dessa África ao sul do Saara funcionou como
uma “periferia da periferia”, isto é, como fornecedora de negros para outras áreas, como o con-
tinente americano (AMIN, 1976). Os efeitos dessa atividade foram devastadores. Observou-se
um quadro de êxodos, guerras, fragmentação, diminuição dramática do contingente popula-
cional, interrupção do crescimento e desenvolvimento das grandes comunidades africanas.
No entanto, o impacto das atividades decorrentes de tal comércio incidiu de forma dife-
renciada sobre a África Subsaariana. Enquanto algumas regiões permaneceram à margem do
processo, em outras, o tráfico deu novo conteúdo a antigas estruturas sociais, tornando mais
complexas e profundas as hierarquias preexistentes.
Por volta de 1870, com o avanço imperialista decorrente do acirramento da disputa dos
centros europeus em relação aos fundos territoriais africanos,10 novas lógicas socioespaciais
foram geradas. Políticas coloniais distintas, superpostas às antigas estruturas, herdadas do
período pré-colonial, determinaram configurações regionais singulares, firmando padrões
muito diferenciados de desenvolvimento regional na África Subsaariana.
7
No interior dessa zona de contatos e de conflitos, não podemos afirmar a uniformidade da cor: assim, entre os tuaregues, que se definem
como brancos, existem inúmeros grupos de cor negra. A Etiópia nos fornece outros exemplos das dificuldades de distinções tendo por
base a cor de pele: se os oromos são considerados como negros, as etnias tigre e amaras, de tez mais ou menos escura, julgam-se brancas
em função de alguns traços fisionômicos e tipo de cabelo. O quadro torna-se mais complexo quando lembramos a presença de negros
(núbios) no Egito e a existência de uma grande mestiçagem (LACOSTE, 1993).
8
A região Norte compreende os países do Maghreb árabe (Mauritânia, Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia) e ainda o Egito. Embora estejamos
associando as áreas setentrionais do continente ao mundo árabe e islâmico, como fazem vários autores, alguns também tomam parte da
região Norte como subconjunto do Oriente Médio. Lembramos que, ainda que a maior parte da população dessas áreas seja árabe e, ao
mesmo tempo, islâmica (excetuando-se a importante minoria copt a, isto é, os cristãos egípcios), o Islã há muito ultrapassou as fronteiras
ao sul do Saara (LACOSTE, 1993).
9
A expansão do Império Otomano na África do Norte foi pautada por avanços e recuos ao longo dos séculos de sua existência. No entanto,
mesmo em um dos momentos de grande avanço, como no final do século XVII, os berberes da região do Marrocos, embora muçulmanos,
resistiram a qualquer tipo de tutela, nunca sucumbindo ao Império O tomano (LEMARCHAND, 1994).
10
Antônio Carlos Robert de Moraes entende como fundos territoriais as regiões coloniais “pouco conhecidas e genericamente assinaladas
pela cartografia do período. [...] Submetidas apenas formalmente pelos centros metropolitanos [...] figurando, na ótica do colonizador,
como estoques de espaços a serem apropriados futuramente” (MORAES, 2005, p. 56).
196 | África: integração e fragmentação

Mapa 12 – Geografia histórica pré-colonial


A região correspondente ao Oeste africano,11 ao Camarões, ao Chade e ao Sudão forma um
conjunto denominado por Amin (1976) de “África da Economia do Tráfico”, espaço com altas
densidades demográficas, abrigando, sobretudo na faixa do Sahel (orla sul do Saara), reinos

11
No recorte clássico, a região Oeste abarca os Estados do Golfo da Guiné (Nigéria, Benin, Togo, Gana, Costa do Marfim, Serra Leoa), Libéria
e Guiné-Bissau, Senegal, Gâmbia, Mali, Burquina Fasso e Níger.
Cristina Pessanha Mary | 197

e impérios em contínua expansão e retração.12 Como se tratava de área sem recursos minerais
à vista, o colonizador aproveitou a estrutura e a organização preexistente das atividades do
comércio de escravos, de forma a produzir produtos primários para o mercado mundial. Ali, o
principal mecanismo de integração entre os colonizadores e as elites locais foi o apoio político
dos colonizadores às camadas sociais superiores regionais, que se apropriaram do excedente
produzido nas terras comunais.
Esse processo resultou na formação de uma classe de plantadores autóctones, no golfo da
Guiné (Costa do Marfim e Gana), de srcem rural, utilizando-se de mão de obra assalariada.
Mais ao norte, nas savanas, estendendo-se do Senegal ao Sudão, e passando pelo norte da
Nigéria, confrarias muçulmanas em um modelo teocrático-político estiveram na srcem da
organização da produção de exportação de amendoim e algodão (AMIN, 1976).
Até os dias de hoje, tal região expressa, como nenhuma outra, os testemunhos de territo-
rialidades pregressas, com um número expressivo de Estados contemporâneos, organizados
em torno de antigos polos etnográficos e culturais. A força dessas rugosidades 13
transparece
na leitura do livro Na casa de meu pai, do filosófo Kuame Anthony Appiah, natural de Gana.
Através de episódio de sua própria biografia, a convivência da tradição com a modernidade
fica muito evidente. Durante a organização da cerimônia fúnebre de seu pai, realizada em
Gana, o autor viu-se em meio a fortes disputas familiares. De um lado, a pressão por parte
dos parentes do grupo paterno, pertencente a uma antiga família real africana. Esses preco-
nizavam um culto de acordo com a tradição do clã achanti. 14 De outro, estavam os costumes
modernos do ramo da mãe do autor, de srcem europeia. As contradições familiares (disputas
envolvendo desde a atuação do presidente de Gana até as intervenções da tia do autor, a rai-
nha achanti) retratam fielmente as ambiguidades do próprio país e da região, onde as asso-
ciações religiosas e étnicas muitas vezes desempenham o papel do Estado, sendo responsáveis
pela assistência à saúde, por exemplo.
No entanto, cabe salientar, tal superposição de territorialidades, tão característica daquele
recorte geográfico, não encontra paralelo fácil no restante da África Subsaariana. O caso do
megaconjunto, correspondente,grosso modo, ao que hoje denominamos de África Austral
e Oriental,15 constitui-se como testemunho emblemático dos contrates existentes na África
Subsaariana, gerados ou acentuados com a colonização.
12
Alguns desses reinos atuaram como instrumentos militaristas a serviço do comércio atlântico de escravos. O caso do Califado de Sokoto
é ilustrativo (ver Mapa 13). No início do século XIX, a população capturada durante os embates decorrentes das guerras de expansão
daquele reino, composta das mais diversas etnias, passou a ser vendida para os traficantes, terminando seus dias na Bahia, no Brasil. A
presença de alguns desses grupos foi vital para a rebelião dos malês, como ficaram conhecidos os escravos muçulmanos. Este movimento
rebelde ocorreu em Salvador, em 1835 (REIS, 2003).
13
A expressão “rugosidades” remete à ideia de um espaço testemunho, de uma forma preexistente que se mantém em outro momento da
sociedade (SANTOS, 1980).
14
O antigo reino negro achanti foi um poderoso intermediário no tráfico negreiro. Segundo Yves Lacoste, o fato de negros terem escravizado
negros até os dias de hoje impede o surgimento de valores nacionais na região (LACOSTE, 2008, p. 212).
15
Integram a macrorregião da África Austral e Oriental os países desde Angola até Moçambique, em um traçado longitudinal, e aqueles do
eixo nordeste-sul, do Quênia à África do Sul.
198 | África: integração e fragmentação

Tal região, identificada pelo predomínio banto,16 manteve-se relativamente à parte do


tráfico negreiro durante a expansão mercantil. Tampouco abrigou sociedades altamente hie-
rarquizadas (os bantos se organizavam predominantemente em torno da união de famílias
extensas, com propriedade comunal da terra). Distinguiu-se ainda da região da “Economia
do Tráfico” pela presença de implantes brancos (colônias agrícolas, de povoamento bôer 17
na
África do Sul e inglesas no Zimbábue) e por contar com importantes jazidas minerais detec-
tadas, no século XIX (diamantes em 1867 e ouro em 1886), no interior do atual território da
República da África do Sul.
Como a demanda de mão de obra do setor mineiro parecia inesgotável, políticas de des-
territorialização das comunidades banto foram implementadas pelos brancos instalados na
região, de modo a garantir mão de obra barata. Nessas circunstâncias, a sociedade tradicional,
autóctone, viu-se na contingência de fornecer “braços” para aquela atividade. Os negros ocu-
param-se ainda do trabalho nas fazendas dos colonos europeus e, mais tarde, nas indústrias
manufatureiras da África do Sul e do Quênia (AMIN, 1976). Até mesmo a “circunvizinhança”,
como o sul e o centro de Moçambique, todo o oeste da Tanzânia atual e, ainda, parte do
Quênia, funcionou como viveiro de mão de obra barata para os canteiros de mineração no
interior da União Sul-Africana,18 hoje República da África do Sul, onde se formulou e se im-
plantou a política de segregação racial e social, o apartheid.
A supremacia branca sustentou-se em modelos diferentes e complementares de segrega-
ção racial e social, impostos ao longo do tempo em um draconiano planejamento do espaço. 19

16
Banto ou bantu significa “povo” – a palavra foi utilizada para designar falas aparentadas, mais de 300, recobrindo imensa superfície, de
Biafra, no golfo da Guiné, a Melinde, na costa oriental. Existe grande controvérsia acerca da srcem e do modo pelo qual essa língua se
espalhou pela África Subsaariana. (SILVA, 2006)
17
O termo bôer designa os agricultores ou pequenos fazendeiros holandeses, colonos livres que chegaram ao Cabo no século XVII e protago-
nizaram a ocupação do interior da África Meridional no século XIX. A marcha de levas e levas desses protestantes, que procuravam escapar
da dominação britânica no Cabo, conhecida como Trek, deu srcem a uma identidade cultural bôer impregnada da recusa ao progresso e
da modernidade (MAGNOLI, 1998).
18
A União da África do Sul, criada em 1910, reuniu quatro entidades políticas da África Meridional (compreendendo os antigos territórios
bôeres e ingleses), constituindo-se num Estado. A União selou o pac to político entre ingleses e bôeres instalados na região. Estes, em fins
do século XIX, protagonizaram encarniçadas batalhas. Lutaram pelo controle das jazidas de diamante e ouro, descobertas nas províncias
holandesas. A disputa envolveu ainda concepções distintas de colonização. Com a paz, unidos, obtiveram um grau de autonomia inco-
mum entre as colônias africanas naquele período: “[...] o novo E stado, independente no interior da Comunidade Britânica, reconhecia leal-
dade à Coroa. Esse reconhecimento materializava-se pela presença simbólica de um governador nomeado pelo rei e ainda pela aprovação
da Constituição sul-africana no Parlamento britânico através do South Africa Act. Em 1921 a União conseguiria o status de domínio, como
o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia” (MAGNOLI, 1998, p. 33). Para um relato pormenorizado da evolução da África do Sul durante o
Oitocentos, ver também Wesseling (1998).
19
Já em 1912, foram promulgadas leis que destinavam apenas 8% das terras sul-africanas aos negros, buscando obrigar tal comunidade a
residir em reservas, especialmente destinadas para esse fim. Mais tarde, em 1948, o sistema agiu na tentativa de impedir a urbanização
dos negros. Nasceram então, nas periferias dos centros industriais, as townships, distritos destinados unicamente para negros. Na década
de 1970 aprimorou-se o sistema por meio da criação de fronteiras internas, instituindo-se os Estados Étnicos ou bantustões. A nova
“pátria” imposta aos negros convertia tais grupos em estrangeiros em sua própria terra, cada vez mais longe dos direitos civis. Somente
em 1994, com a eleição de Mandela, o apartheid foi extinto. Nelson Mandela, o símbolo maior da resistência às políticas de segregação da
República da África do Sul, nasceu no Transkey em 1918. Por conta de seu ativismo permaneceu encarcerado por 27 anos. Foi o primeiro
presidente eleito democraticamente na África do Sul, em 1994 (MANDELA, 2010).
Cristina Pessanha Mary | 199

A superexploração do trabalho negro, associada às atividades mineradoras de ouro e diaman-


tes, constituiu-se como pilar do crescimento econômico da República da África do Sul.
A partir da Primeira Grande Guerra, o país industrializou-se pelo modelo de substituição
de importações. Capitais ingleses e americanos afluíram e logo um parque industrial integra-
do foi instalado.20 Na década de 1960, o país seguiu como centro de gravidade da região: ao
seu redor a atual Namíbia, como um protetorado, uma Botswana submissa, além de aliados
como Zimbábue, que praticava um regime similar ao apartheid. H avia ainda “sócios menores”,
tais como Moçambique, Angola e Malawi (MAGNOLI, 1998).
Completando o painel dos condicionantes histórico-geográficos das diferenças regionais
na África Subsaariana, resta ainda mencionar a trajetória da África Central.
21
Na era colonial,
tal região correspondeu,grosso modo, ao domínio da floresta equatorial. Por força das condi-
ções ecológicas (a floresta protegia os povos da captura dos traficantes de escravos) e sociais
(ausência de hierarquização expressiva), a ação direta da administração colonial foi menos
intensa do que nas demais regiões subsaarianas. Tal fato implicou em dinâmica socioespa-
cial peculiar, ultrapredatória, tanto do ponto de vista social quanto ambiental: entre 1890 e
1930, companhias privadas, em sociedade com o rei belga, em busca de borracha e marfim,
devastaram a antiga África Equatorial Francesa (Chade, Gabão, Camarões, Congo e República
Centro-Africana) (AMIN, 1976). O exemplo mais conhecido desse tipo de “colonização extrati-
vista” ocorreu no território da atual República Democrática do Congo, cenário de um dos mais
violentos regimes de exploração, baseado em massacres sistemáticos da população. 22

***

A presença de africanos nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial e todo o esfor-
ço excepcional exigido às colônias para que estas fornecessem matérias-primas estratégicas
de que o Ocidente tinha necessidade23 mudaram, irremediavelmente, as relações destas últi-
mas com suas respectivas metrópoles. O envolvimento dos africanos na luta contra os regi-
mes autoritários não fez mais do que assinalar as mazelas de sua própria situação. Recrutados
compulsoriamente, estiveram em váriosfronts, como na Eritreia, lutando contra italianos, ou
na Birmânia, contra a ameaça japonesa. De volta às suas terras de srcem, não possuíam os

20
Enquanto a indústria de base deitou raízes no Transvaal, em torno de Joanesburgo, Port Elizabeth abrigou bens duráveis e as cidades do
Cabo e Durban, a indústria têxtil.
21
Região de contornos indecisos, ao sabor de interesses geopolíticos, estendendo-se das latitudes correspondentes aos territórios com-
preendidos entre a zona meridional do Sudão até a República da África do Sul e a faixa de terra que liga Angola a Moçambique, no sentido
longitudinal. Cabe lembrar que a maioria dos autores exclui deste conjunto inicial os territórios a l este dos Grandes Lagos, considerando-
-os como pertencentes à região da África Oriental (WESSELING, 1998).
22
As atrocidades cometidas só vieram a ser denunciadas na virada para o século XX, após árdua campanha de jornalistas e missionários,
que terminaram por mostrar à opinião pública a face cruel do rei belga por trás da fachada filantrópica estrategicamente construída
(HOCHSCHILD, 1999).
23
“Sabe-se que a primeira bomba americana que destruiu Hiroxima foi fabricada a part ir de urânio do Congo” (KI-ZERBO II, 1971, p. 164).
200 | África: integração e fragmentação

mesmos direitos dos colonizadores. O discurso de defesa da democracia contra os regimes


autoritários retornava, assim, com força sobre as próprias metrópoles.
Na Europa Ocidental, a chegada ao poder de partidos com conteúdo anticolonialista, bem
como a retomada da consciência da necessidade da independência por parte de sindicatos
e, ainda, o protesto dos intelectuais reforçaram o processo pró-independência dos territórios
coloniais. Este culminou com a formação da maioria dos Estados Nações do continente, em
curto lapso de tempo – 17 anos –, entre a independência da Líbia em 1951 e a libertação da
Suazilândia em 1968.
As colônias portuguesas, bem como Djibuti, somente obtiveram este resultado durante
a década de 1970, enquanto o Zimbábue (ex-Rodésia do Sul), embora tenha declarado sua
independência unilateralmente em 1965, apenas em 1980, após anos de conflito, obteve o
reconhecimento da ONU. Por último, ocorreu em 1990 a independência da Namíbia, em rela-
ção à África do Sul, e da Eritreia (separada da Etiópia), em 1993. Nos dias de hoje, finalmente,
assistimos à divisão do Sudão.24
Esse processo de fragmentação do continente ocorreu em meio às disputas da Guerra Fria e
na contramão dos antigos ideais pan-africanistas. Mesmo a O rganização da Unidade Africana
(OUA),25 criada em 1963, na Etiópia, nasceu sob o signo do respeito às fronteiras coloniais.
As imposições decorrentes da bipolarização da geopolítica mundial, quando as jovens
nações africanas precisaram escolher entre dois grandes campos ideológicos, modificaram o
quadro de rivalidades no continente. Os conflitos passaram a responder a outra lógica. Assim,
ao procurar expandir as fronteiras da revolução socialista, vimos Moçambique se empenhar no
processo de reconhecimento da independência do Zimbábue, efetivada em 1980; a liderança
da Tanzânia lutando por uma África do Sul livre, e a resistência de todos os três às investidas
militares do Ocidente e da África do Sul contra seus territórios. Esta nação, durante o transcurso

24
Em janeiro de 2011, o mundo assistiu ao plebiscito que decidiu pela separação entre a região Norte do Sudão, predominantemente
árabe e muçulmana, e a região Sul, de maioria negra, cristã ou animista. Tal cisão constitui-se como ponto culminante de um processo
de antigas rivalidades, muito além das diferenças religiosas ou étnicas entre ambas as regiões. No século XIX, Cartum foi o centro de uma
rede de tráfico de escravos. Negros capturados no sul eram levados pelos intermediários de Cartum para o trabalho em obras, como as
do Canal de Suez. As tensões prolongaram-se em longas e esquecidas guerras na região. Com a descoberta do petróleo em períodos mais
recentes, concentrado basicamente na região Sul, a discórdia passou a girar em torno da distribuição dos royalties. No momento atual,
resta a disputa em torno da região de Abyei, rica em ó leo, localizada na fronteira entre o norte e o sul. Na parte oeste da região Nor te, em
Darfur, seguem os embates e os massacres realizados pelo governo de Cartum contra as populações insurgentes, negros e, nesse caso, de
maioria muçulmana (LACOSTE, 2008).
25
Durante o processo de sua formação, a OUA já se via sob o signo da cisão. As clivagens ocorreram em várias escalas. Havia partidários da
rendição da soberania, em favor de um governo comum no continente. Outros recusavam a revisão das fronteiras erguidas durante o
período colonial. Encontravam-se também antagonismos em relação às questões do Congo e Argélia (DOPCKE, 2002). Na atualidade, a UA
(União Africana), sucessora da instituição, criada em 2002, não tem obtido resultados eficazes na luta contra os problemas econômicos e
políticos que afligem o continente. Por vezes, “as organizações sub-regionais africanas parecem desempenhar um papel mais significa-
tivo. A Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental interveio em conflitos como os da Libéria, Serra Leoa e Costa do Marfim”
(LACOSTE, 2008, p. 217).
Cristina Pessanha Mary | 201

da Guerra Fria, quando o território africano adquiriu maior peso estratégico na defesa dos inte-
resses do bloco capitalista, selou sua aliança com as principais potências do Ocidente.26
O Chifre da África27 também sofreu os impactos do grande jogo entre União Soviética e
Estados Unidos. Na década de 1970, o governo da Somália, instigado pelos soviéticos, avançou
sobre o território etíope de Ogaden (região de maioria somali). O pretexto para a anexação foi
a reunificação dos somalis.28 Os Estados Unidos, contrabalançando tal política, deram supor-
te ao governo etíope. Em meio a tal conflito, russos e americanos inverteram suas posições:
enquanto os primeiros aliaram-se aos etíopes, os americanos aproximaram-se da Somália.
Durante esse processo, os americanos obtiveram o controle da base naval de Berbera, na costa
da Somália, no Mar Vermelho e, desde então, ali se mantêm. Em 1991, mesmo depois da dis-
solução da União Soviética, os Estados Unidos mantiveram sua política de desestabilização do
governo etíope, passando a apoiar forças separatistas no interior da própria Etiópia (LACOSTE,
2008).
Para a Somália, aquelas décadas marcaram o início do atual processo de esfacelamento de
seu território, literalmente partido em várias regiões, controladas por facções rivais. Embora
exista um “governo de transição”, apoiado pelo Ocidente, a influência do mesmo se limita à
antiga capital, Mogadíscio. Tal governo é constantemente fustigado por investidas da milícia
islâmica, Al-Shabab, que controla mais de 1/4 do que foi outrora o território da S omália (Mapa
14). O mosaico somaliano é composto ainda da região semiautônoma de Puntalândia e da
Somalilândia, autoproclamada independente, desde 1991, e correspondente à antiga área de
colonização italiana.29
O Zaire (hoje Republica Democrática do Congo) foi outro cenário de pesada ingerência
externa durante a Guerra Fria. Logo após a independência do país, com a anuência da CIA, a
Bélgica, ex-metrópole, deu suporte às forças separatistas da região de Katanga. O estratagema
26
Situada no cruzamento entre o Atlântico e o Índico, controlando a rota do Cabo (fundamental para o fluxo de petróleo), a África do Sul, além
de receber apoio logístico por parte dos aliados ocidentais, sediava uma cadeia de bases aéreas e navais que colocava Pretória como parte
importante na defesa dos interesses do bloco capitalista contra as investidas comunistas que, na década de 1970, com a independência de
Angola e Moçambique, tornaram-se mais e mais efetivas. Sobretudo “entre 1960 e 1980 os investimentos dos EUA triplicaram, enquanto no
início da década de 1970 as trocas comerciais Alemanha Federal-África do Sul aumentaram em mais de um terço” (NICOLAU, 1982, p. 52).
27
O Chifre da África é um conjunto que compreende a Etiópia, a Eritreia, Djbuti e a Somália fragmentada. Uma região com trajetória bem peculiar
no interior do panorama da África Negra, principalmente se levarmos em consideração a história da Etiópia, uma sociedade hierarquizada,
erguida sobre o maciço abissínio, que resistiu à conquista islâmica e notabilizou-se por sua aproximação com o cristianismo na sua versão
copta. Os etíopes rechaçaram
um desenvolvimento as forças
autocentrado, comimperialistas
agriculturae,produtiva,
somente que
na década de 1930,
lhe rendeu sofreramcrescimento
um elevado curta ocupação italiana. (AMIN,
demográfico O país chegou
1976). a manter
28
Em 1960, quando as fronteiras da Somália foram riscadas, “deixaram de fora” do território nacional recém-criado inúmeros grupos da-
quela etnia. Tais grupos terminaram incorporados ao vizinho Djibuti, à Etiópia e ao Quênia. Ao final da década de 1970, alimentado pelo
sonho de reunificação dos somalis, o governo da Somália lançou-se sobre a região de Ogaden, ao sul da Etiópia, onde se concentrava
grande número de somalis.
29
Recentemente, um novo eixo de conflitos surgiu na região. Clãs de srcem diversa agruparam-se em torno da afinidade religiosa sufi, modera-
da, para resistir ao grupo adepto do waabismo. A resistência sufi encontra-se encastelada na cidade de Dusa Mareb e na região ao redor, como
se observa na Figura 2 (GETTLEMAN, 2009). O sufismo, tradição mística no interior do islamismo, teve papel importante na expansão do Islã
em áreas localizadas fora das fronteiras dos grandes impérios muçulmanos, como a África Subsaariana. Essa tradição, bastante identificada
com algumas crenças dos grupos xiitas, sofreu forte repressão em alguns momentos da história. Os religiosos waabitas protagonizaram per-
seguições e repressão a práticas sufistas. Para compreender melhor as diferentes tradições islâmicas, ver Pinto (2010).
202 | África: integração e fragmentação

contribuiu para a derrubada do governo recém-eleito, terminando com o assassinato do pri-


meiro-ministro congolês, Patrik Lumumba. Embora a secessão não tenha sido efetivada, a
jovem nação amargou, durante décadas, o governo ditatorial de Mobutu Sese Seko, instalado
em 1965 (WITTE, 1989) .

DJIBOUTI

Hargeisa PUNTLÂNDIA
Addis-Abeba SOMALILÂNDIA
(Estado autoproclamado)
Garowe

as
ad
ETIÓPIA d isp
ut
s
i ra
te
on Dusa Marreb
Fr

Hodour
Oceano Índico
Baidoa
SOMÁLIA

Bardera Mogadiscio Localização


Legenda

QUÊNIA Zonas sob controle


da ARShabad e dos jihadistas
0’00”
Campos de refugiados
Linha do Equador Kismaayo
Bases militares: França EUA

0 60 120 Km Fonte: GETTLEMAN, 2009.


Organização: Bianca Lima.

Mapa 13 – A fragmentação da Somália

O enfrentamento indireto entre as grandes potências, sua atuação de modo a gerar crises
no campo oponente, foi a tônica do período. Entretanto, com o fim da bipolarização e a inten-
sificação da globalização, tal quadro alterou-se rapidamente. A partir de então, os países afri-
canos, com a perda momentânea de seu papel estratégico, passaram a não contar mais com a
possibilidade de aliar-se a um ou outro bloco de poder, ficando à mercê das potências ociden-
tais. Essas, por seu turno, passaram a impor condições para “ajuda”, como exigências de pluri-
partidarismo e de planos de ajuste estruturais, ditados pelo Fundo Monetário Internacional e
pelo Banco Mundial. A ajuda pública ao desenvolvimento não só diminuiu, entre 1991 e 2001,
Cristina Pessanha Mary | 203

como foi desviada para a Europa Central (BRUNEL, 2005). A deterioração dos termos de troca
prejudicou ainda mais as já combalidas economias, como evidenciado no baixo valor de pro-
dutos primários exportados por vários países africanos.
Marcando todo o período que se seguiu à Guerra Fria vislumbrou-se uma situação de
instabilidade política, crises (como as das dívidas externas) e crescimento dos aglomerados
de exclusão (HAESBAERT, 1995) decorrente da multiplicação de guerras civis, como se pode
observar por meio do Mapa 15. Nesse quadro sombrio, enquanto a Etiópia tornou-se o em-
blema da fome, na década de 1980, Ruanda, em 1994, transformou-se no rosto do genocídio.
Centenas de milhares de mor tos, mais de 2 milhões de refugiados e deslocados constituíram-
se como saldo do conflito na região dos Grandes Lagos (GUICHAOUA, 1996). Inicialmente apre-
sentado pela mídia como um típico caso de rivalidade étnica entre os dois grupos principais
existentes no país (tutsis e a maioria hutu), o conflito esteve relacionado às implicações da
fragmentação do bloco soviético, em 1991.
O fim da bipolarização do mundo, como já mencionamos, ampliou a ascendência política
de algumas potências sobre as economias mais frágeis do continente. No caso de Ruanda, a
ajuda francesa ao país esteve condicionada ao restabelecimento do Estado de direito, isto é, à
redemocratização da sociedade. A França passou a exigir uma divisão de poder mais equâni-
me entre as etnias existentes. Tal procedimento explica-se pelo fato de a sociedade ruandesa,
desde o século XIX, ter sido assentada em privilégios de um grupo em detrimento dos demais.
Grande parte dos tutsis (considerados pelo colonizador como per tencentes à linhagem etíope,
de longa e conhecida tradição cristã) foi convertida ao cristianismo, estimulada e assessorada,
de forma a intermediar o comando do então território colonial. Aos hutus, representados como
legítimos herdeiros da cultura banto e no patamar inferior da hierarquização étnica imputada
pelos belgas, foram impostas for tes restrições, políticas e sociais, de toda ordem.
Após a independência do país, a situação inverteu-se: os hutus tomaram o poder, repri-
mindo e expulsando do país a elite tutsi. Grande número desse grupo se dirigiu para Uganda. 30

Com as crises desencadeadas, no final da década de 1980, atingindo indiscriminadamente


todos os países do continente, o governo de Uganda passou a repatriar os tutsis (muitos há
mais de 20 anos em Uganda). A sorte estava lançada: a volta dos tutsis, organizados na FPR
(Frente Patriótica Ruandesa), a militarização de grupos rivais, garantida pela venda de armas,

provenientes
bem como os do Egito,preços
baixos Áfricadodocafé,
Sul, um
Rússia
dosesustentáculos
outros integrantes do extinto
da economia Pacto deencarrega-
ruandesa, Varsóvia,
ram-se do resto. Definitivamente, o espectro da ruína rondava aquela parte do continente.

30
Na realidade, pelo aspecto físico ou idioma utilizado, é impossível distinguir um tutsi de um hutu. Nos períodos anteriores à colonização,
havia diferenças entre grupos definidos pelo status de atividades que exerciam na sociedade e/ou pela propriedade da terra (pastores ou
agricultores) (WAAL, 1994).
204 | África: integração e fragmentação

Mapa 14 – 1985-2000: 20 anos de guerras e guerras civis

nenteDurante
de umatoda a década
espécie de 1990,daforam
deexclusão Áfricacomuns as análises
Subsaariana prevendo
do sistema a possibilidade
mundial. imi-
Nesse período,
enquanto Amin (2002) referia-se à mesma como “quarto-mundializada”, sem função no mun-
do, Zorgbibe (1996) mencionava a marginalização no sistema mundial.31 Naquele contexto, o
enquadramento pessimista de Lester Thurow em relação à África Negra, com o qual abrimos
esse capítulo, mesmo questionável, não se distanciou de outras análises do período, quando
grande fatia da região Subsaariana foi desenhada como “periferia abandonada”.
31
Para Zorgbibe (1996), marginalização significava estar presente massivamente no ranking dos países menos adiantados, isto é, países
com insuficiência alimentar e sistemas de saúde arruinados.
Cristina Pessanha Mary | 205

Entretanto, apesar da crise vivida, o pífio crescimento econômico médio do continente


africano nos anos 1990 do século XX, 32 em torno de 2,4%, foi deixado para trás. Entre 2000 e
2008, em uma dramática virada de curso, esse crescimento chegou a alcançar cifras correspon-
dentes ao dobro do registrado nas décadas de 1980 e 1990. Mesmo durante a recessão global
de 2009, África e Ásia foram as únicas regiões a crescer, em torno de 1,4%. Aparentemente, o
“caos africano” tinha prazo de validade. A tormenta não teria durado para sempre.

África: rotas alteradas


Até 2000, o quadro das polaridades e redes no continente foi relativamente simples. Em
meio à estagnação alardeada pelos analistas, três Estados disputaram a primazia africana
como polos econômicos e/ou culturais concorrentes. Mais ao norte havia a liderança do Egito.
Embora combalido, o país logrou manter seu papel na arena regional, em razão do controle
do canal de Suez (ainda nos dias de hoje, muitas economias do Norte Africano utilizam suas
instalações petrolíferas).33 A oeste, a Nigéria, o gigante populacional do continente, figurou
como outro dínamo; contornando crises (conflitos internos entre muçulmanos e cristãos, riva-
lidades étnicas, problemas sociais e ambientais decorrentes da exploração petrolífera no delta
do Níger), mas com enorme poder de arraste econômico sobre o seu entorno geográfico. Por
último, na África Austral, mantendo-se como coração da região, encontrava-se a África do Sul.
Logo abaixo dessas lideranças, em outro patamar, constavam os centros regionais intermediá-
rios, como Etiópia, Costa do Marfim, Quênia e Tanzânia (Mapa 16).
Na virada para o século XXI, em flagrante contraste com a década de 1990, as análises
acerca do crescimento da economia africana ante a ordem atual passaram a apontar taxas
de crescimento positivas, excetuando-se os países em guerra (BRUNEL, 2005). Demonstraram
também a explosão dos investimentos estrangeiros na África. Estes saltaram de US$ 9 bilhões,
em 2000, para US$ 62 bilhões, em 2008. Embora existam capitais de srcem diversa (america-
nos, franceses, brasileiros e indianos), as notícias convergem quanto à preponderância chine-
sa, um verdadeiro “desembarque” no continente.

32
Sobre o período, José Luiz Fiori chega a afirmar: “o continente africano ficou praticamente à margem dos fluxos de comércio e investimen-
to direto estrangeiro” (FIORI, 2008, p. 53).
33
O Globo, 24 fev. 2011, p. 25.
206 | África: integração e fragmentação

Mapa 15 – Redes e polaridades em 2000

Desde 2009, a China tornou-se o principal parceiro comercial africano, à frente da União
Europeia e dos Estados Unidos (CASTRO, 2010). Ainda em 2009, o volume de negócios entre
o gigante asiático e os países africanos atingiu a casa dos 114,8 bilhões de dólares. Os inves-
timentos diretos alcançaram cifras impensáveis décadas atrás, na ordem de 9,3 bilhões de
dólares. Nos últimos anos, esse país concedeu mais financiamentos para estradas, energia,
ferrovias e outros projetos de infraestrutura do que o Banco Mundial. 34

34
“As duas faces da África”.O Globo, 27 jun. 2010.
Cristina Pessanha Mary | 207

Mapa 16 – Investimentos chineses na África

Abundantes recursos minerais, como petróleo e gás, explicam o interesse estrangeiro, es-
pecialmente chinês, consumidor mais voraz decommodities na última década. De fato, a África
ostenta grandes reservas de tais riquezas. No tocante ao petróleo, por exemplo, o continente
hoje é peça cada vez mais importante no cenário mundial (PERRY, 2007). Destacamos a produ-
ção significativa do Sudão do Sul, da Argélia e da Líbia. Esta última, no rol das grandes reservas
mundiais de petróleo, ocupa a nona posição, seguida de perto pela Nigéria (décima nesse

rankingos). Tgrandes
entre al país detém a primazia
produtores da produção
mundiais.35
Outro africana e alcançaé aAngola,
polo petrolífero décimarespondendo
quar ta colocação
por
16% do petróleo comprado pela China, cota equivalente àquela importada da Arábia Saudita
(BENEWICH ; DONALD, 2009).
Não foi sem razão que os americanos voltaram a incluir o continente em sua agenda de
preocupações. Após a política de “baixo teor” para a África, característica dos anos 1990, os
Estados Unidos, em nome do combate ao terrorismo, mas visando a sua própria segurança
energética, vêm avançando, palmo a palmo, sobre as jazidas petrolíferas localizadas no litoral
35
US Energy Information Administration. Disponível em: <http//w ww.eia.doe.gov/countries>. Acesso em: 26 nov. 2011.
208 | África: integração e fragmentação

do golfo da Guiné e ampliando sua influência no Grande Chifre da África (FIORI, 2008). O
Quênia, por exemplo, deverá abrigar a sede do AFRICON, o comando militar que os americanos
estão instalando no continente (SEVARTAN, 2011).
Assim, a partir de 2000, com o crescimento dos preços do petróleo e de outras commodi-
ties, puxado pelo gigantesco consumo da China, vários países africanos foram alçados ao clube
dos países de rápido crescimento. Sob o impulso dos investimentos e do consumo estrangei-
ros, formando um “cinturão de crescimento veloz”, um naipe de países, com posição econômi-
ca e estratégica fortalecida pela exportação de recursos energéticos, emergiu naquele cenário.
Na África Subsaariana, nesse novo front do petróleo (Mapa 18), onde antes só havia a Nigéria,
agora temos também Angola, Sudão do Sul, Guiné Equatorial, República Democrática do
Congo, Gabão, Chade, Camarões e Mauritânia.
Com o avanço da globalização, toda aquela geografia ganhou complexidade, não apenas
pela expansão do front do petróleo. No avesso da integração dos países exportadores de pe-
tróleo e minerais, descortinou-se um vasto painel de contradições espaciais e tensões sociais.
Mesmo no interior do grupo de Estados rentistas, guardando as diferenças de conjuntura,
identifica-se um quadro do que, nos idos da década de 1960, Furtado (2008) denominou, em
relação ao caso venezuelano, “subdesenvolvimento com abundância de divisas”.
De modo geral, tais economias tornam-se prisioneiras das oscilações dos preços do óleo,
formados no mercado internacional, sujeitos a instabilidade econômica crônica. Nesses casos,
o aumento das disparidades sociais configura-se como for te tendência. De um lado, o rápido
enriquecimento de homens de negócios bem conectados e de governos inescrupulosos, be-
neficiados com as rendas auferidas dos recursos petrolíferos. De outro, as massas excluídas.
Acrescente-se a esse panorama as dificuldades para diversificação das atividades industriais.
Outro traço desse grupo de países diz respeito ao fato de os trabalhos mais lucrativos ficarem
a cargo de especialistas estrangeiros (PERRY, 2007).
A Guiné Equatorial ilustra bem tal faceta do processo de reconversão de algumas economias
africanas. Esta nação, de pequena dimensão, e tendo à frente do governo um presidente há mais de
ostenta uma das
30 anos no poder (eleito, pela Forbes, o oitavo governante mais rico do mundo),
36

maiores rendasper capita do planeta (28 mil dólares por habitante). Entretanto, o real padrão de vida
da população é precário: quase oito de cada dez habitantes sobrevivem com renda pouco acima de

um Adólar
atualporconfiguração
dia, enquanto apenas
espacial da 44%
ÁfricadaSubsaariana
população possui ainda
apresenta acessocontrastes
a água potável (CASADO,
relativos à distri-2010).
buição dos investimentos estrangeiros. Como estes buscam preferencialmente riquezas naturais, na
maioria das vezes desigualmente distribuídas, é fácil detectar descompassos entre a velocidade de
crescimento das economias mineiras ou petrolíferas e as demais. Enquanto, por exemplo, a econo-
mia de Botswana, ancorada na produção de diamantes, protagoniza um crescimento anual médio

36
O Globo, 7 mar. 2011.
Cristina Pessanha Mary | 209

em torno de 9% (considerado um dos mais rápidos do mundo), 37


o Zimbábue, país vizinho, patina
em imensa crise(política, econômica esocial). Nos poros desseprocesso de desenvolvimento desigual
e contrastando com a fluidez dos capitais que acessam o espaço africano, assistimos então à forma-
ção de novos limites territoriais, como as chamadas barreiras de contenção, erguidas para redirecio-
nar a circulação dos fluxos migratórios (HAESBAERT, 2010), como a cerca erguida entre Botswana e
Zimbábue. Em nome de sua segurança interna, Botswana pretende bloquear os migrantes indesejá-
veis provenientes da nação em apuros (PÓVOA NETO, 2011).

Mapa 17 – A nova fronteira do petróleo na África

37
Este crescimento gigantesco sofreu tremenda desaceleração com a crise de 2008. Hoje, se espera sua retomada. Botswana procura não
pautar suas exportações somente em diamantes, possui governo eleito democraticamente, investe bem em educação, no entanto, possui
altos índices de desemprego e ostenta um dos mais altos níveis de disparidade social no mundo. WORLD BANK. Botswana: Country Brief.
Disponível em http://web.worldbank./org. Acesso em: 23 fev. 2011.
210 | África: integração e fragmentação

Nesse quadro de ambivalência e contradições socioespaciais, é preciso apontar ainda o aumento


da distância entre a locomotiva africana, a República da África do Sul,
as demais
e nações do continen-
te. Esse país mantém sua posição de liderança. É de fato o grande destaque africano, responsável por
parte expressiva do produto e do comércio interno e externo do continente, respondendo por 1/4 do
PIB da África (LACOSTE, 2008).
Em razão dessa preponderância regional, aliada à busca por maior influência global, mediante
coalizões Sul-Sul, como a criação do Fórum de diálogo entre Índia Brasil e África do
(IBAS
Sul ou G3),
38

contrariando por vezes os interesses dos Estados Unidos, a República da África do Sul vem40sendo con-
siderada, ao lado de Brasil, Rússia,
Índia e China (economias BRIC),
39
como uma potência emergente.
A posição desse país, no topo dahierarquia de poder nocontinente africano, não se constitui uma
novidade e, como vimos, é em grande parte explicada por sua trajetória particular. Desde o período
colonial, o país apresentou uma base capitalista mais diversificada e sólida. O início
de uma nova fase
-apartheid,apenas facilitou sua integração a uma economia globaliza-
nos rumos políticos do país, pós
da. A República daÁfrica do Sulconta hoje com a primeira rede ferroviária do continente e o primeiro
parque automobilístico, e é cenário do desenvolvimento de tecnologias mais avançadas em matéria
de energia nuclear (LACOSTE, 2008).
No plano interno, entretanto, este espaço não está isento de contrastes. Ao lado de nações da
África Austral, tais como Namíbia, Botswana e Zimbábue, a República da África do Sul apresenta um
dos mais altos índices de desigualdade de toda a África (GRESH, 2006). Nem mesmo o Programa de
Reconstrução e Desenvolvimen to, idealizado logoapós a possede Nelson Mandela, em1994, alterou
esse perfil. O programa previa a “desracialização” da sociedade, por meio de ações afirmativas e maior
intervenção do Estado na economia. Buscava-se, assim, corrigir a pesada herança de desigualdades
entre brancos e negros, deixada pelas políticas do períodoapartheid
do . No desenrolar dos aconteci-
mentos, tais diretrizes foram diluídas (CABAÇO, 2010).
Segundo o sociólogo Patrick Bond, conselheiro junto a Mandela nos primeiros momentos do seu
governo, o país terminou por realizar um misto de neoliberalismo, com megaprojetos insustentáveis e
ações afirmativas. Tudo isso apimentado com retórica de apoio a políticas industriais mais coerentes. O
resultado, segundo a mesma fonte, foi o incremento da disparidade social, do desemprego, com agra-
vamento da degradação ambiental. O aumento da violência estaria estampado nos muros, cercas elé-
tricas, configurando o que o autor denominou de “corrida armamentista interna” (BOND, 2010, p. 303).

A análise
gimento de Cabaço
de uma (2010)
elite negra e asegue nessado
diminuição linha. Embora esse
contingente autormédia
da classe nos forneça
(agoradados sobre onível
com melhor sur-
38
Desde 2003, o Brasil, a Índia e a África do Sul vêm estabelecendo uma agenda conjunta na luta contra a pobreza, em prol do desenvolvi-
mento, do multilateralismo e da defesa de instituições e valores democráticos (LIMA; HIRST, 2009). Outra coalizão Sul-Sul é o G20, tam-
bém de 2003. Pertencem ao grupo países que contestam algumas diretrizes dos países desenvolvidos no interior da OMC (Organização
Mundial do Comércio) (OLIVEIRA et al., 2009, p. 3).
39
Em 2003, o economista Goldman Sachs identificou as nações que nos próximos 50 anos teriam muito mais força no cenário internacional.
Seriam elas: Brasil, Rússia, Índia e China, as economias BRIC (MACFARLANE, 2009). Possivelmente em razão da ação conjunta da África do Sul
com Índia e Brasil, alguns analistas passaram a incluir a África do Sul no grupo das economias BRIC, acrescentando o “S” de South Africa à sigla.
40
A noção de potência emergente pressupõe várias características, como: “preponderância regional, aspiração a um papel global e um
posicionamento de contestação à hegemonia dos Estados U nidos” (MACFARLANE, 2009, p. 75).
Cristina Pessanha Mary | 211

de vida), também aponta para a falta de horizonte dos estratos mais baixos da sociedade (negros).
Para ele“a desracialização da sociedade colonial não correspondeumelhoria
à das condições devida
material a que as populações aspiravam” (CABAÇO, 2010, p. 333).
Continuando a explorar o quadro de contradições decorrentes da reconfiguração socioespacial do
continente e como contraponto à primazia da África do 41
não
Sul,podemos deixar deassinalar o declí-
nio de regiões inteiras, antes tidas como promissoras, muitas imersas em sangrentos conflitos. Nesse
sentido, o caso da região do golfo da Guiné é emblemático.
Após o ciclo das independências realizadas ao longo da década de 1960, a economia de muitos
países da região, em grande parte impulsionada pelo êxito de culturas agrícolas, crescia bem, apre-
sentando estabilidade política, econômica e financeira. Este foi o caso da Costa dofim, Marda Libéria,
de Serra Leoa, de Gana eoutros. Na década de1970, houve ainda a arrancada do gigante populacional
africano, a Nigéria, ancorada na produção do petróleo.
No entanto, ao longo da década de 1990, a conjuntura de estabilidade começou a se desfazer.
Baixa de preços dascommodities, desemprego, pressão demográfica constituíram o pano de fundo
de várias crises. Esses fatores
, mesclados a episódios comosucessões políticas e clivagens de outra or-
dem, culminaram em guerras civis. Em Serra Leoa, Libéria e Costa do Marfim 42
a realidade alterou-se
profundamente. Tais nações ainda hoje convivem com sequelas de violentos conflitos e massacres.
Todos os cenários descritos até aqui,
incluindo-se o declíniode regiões inteiras e a ascensão de ou-
tras, fazem parte desse novo momento de inserção da África Subsaariana ante a globalização, pontas
de um mesmo processo de reterritorialização contraditório e desigual. Sendo assim, cabe a análise
mais acurada das perspectivas do continente nesse novo momento.

África: perspectivas com a integração

No âmbito de uma tipologia das relações entre centros e periferias, existem modos distin-
tos de articulação entre uns e outros (REYNAUD, 1992). Esses modos alteram-se conforme as
conjunturas. Assim, o enquadramento da África como “periferia abandonada”, predominante
nos anos 1990, projetando um cenário de forte propensão à “desconexão”, tendo em vista a

41
Um panorama de grande impacto, traçado em relação à vida na África do Sul, encontra-se no romance Desonra, de J. M. Coetzee, o pre-
miado escritor sul- africano. Seus personagens representam os diversos tipos e interesses surgidos nessa “nova África”. Temos, assim, um
retrato das contradições recentes no espaço sul-africano ainda tomado pelo ressentimento dos tempos do apartheid (ver COETZEE, 1999).
42
A guerra civil na Costa do Marfim (até a década de 1970 uma espécie de modelo de desenvolvimento africano) muito nos diz das dramáticas mu-
danças na região do golfo da Guiné. Embora a existência de diferenças culturais e econômicas entre as áreas setentrionais (mais pobres e de maioria
islâmica) e as meridionais (onde predomina o cristianismoe as religiões africanas) marque praticamente todo o golfoGuiné,
da nada parecia anunciar
a linha de clivagem que seestabeleceu entre norte e sul da CostaMarfim,
do entre os anos de 2002 e 2007. Nesse caso, forças em disputa pelo governo
encarregaram-se de acirrar diferenças. O conflito foi desencadeado a partir de disputas em torno da sucessão presidencial – mais precisamente, em
torno da candidatura de um muçulmano, como muitos, filho de imigrante proveniente do país vizinho, Burkina Faso. Tal ambição desencadeou forte
reação contrária, principalmente nas áreas meridionais do país. No sul, o desenho de uma identidade “autenticamente”marfinense ganhou vida.
Forças políticas, instaladas naquela regiãoapoiadas
e por igrejas episcopais, desenvolveram verdadeira cruzada contra os imigrantes (principalmente
os de Burkina Faso), voltando-se também contra as populações muçulmanas existentes no norte do país. Assim, um dos baluartes da estabilidade do
continente transformou-se no epicentro de uma crise que se espraiou pela região (LACOSTE, 2008).
212 | África: integração e fragmentação

partida de fluxos de homens e capitais das periferias em direção aos centros (estes cada vez
mais valorizados), esvaziou-se de sentido.
Nessa mesma direção, os novos elementos aqui apresentados, como o aumento dos inves-
timentos estrangeiros diretos e a construção de certa infraestrutura no continente, apontam
para outra relação da África com os centros mundiais de poder. Essa nova relação, que pode-
mos denominar de desigual e integradora, implica tanto exportações de matérias-primas das
periferias em direção aos centros, como fluxos de homens e capitais no sentido inverso, ainda
que fortalecendo uma relação extremamente desigual.
Em que pesem diferentes abordagens e metodologias, dificilmente algum analista hoje será
capaz de ignorar o novo papel africano ante o processo de globalização. O continente, alçado à
condição de “reserva energética” (e de minerais, e de biodiversidade) do mundo, tem sido perce-
bido como lócus privilegiado da nova corrida imperialista que ora se inicia (FIORI, 2008).
A metáfora de uma África “redimida”, salva por suas riquezas naturais, insinua-se. Ganha
força até mesmo a imagem do “dragão africano”.43 Tal visão, cara, talvez, aos investidores chi-
neses ou americanos, encontra-se, no entanto, longe da precisão. Por detrás dessa edificante
paisagem emerge um vasto leque de contradições, distantes de qualquer possibilidade de
igualização do espaço africano.
Provavelmente os cenários serão variados, alterando-se segundo a região e as circuns-
tâncias históricas. Entre os países da nova fronteira exportadora de petróleo e minério alguns
conseguirão, quem sabe, diversificar sua economia, enquanto os demais seguirão seu curso,
atados ao círculo de instabilidade dos preços das commodities. O mesmo tipo de disparidade
poderá incidir sobre as economias agroexportadoras. Existe ainda a possibilidade do aumento
da distância entre os polos, sul-africano e nigeriano, e os demais Estados subsaarianos. Isto se
a Nigéria não sucumbir a sua própria contradição de srcem, erguida sobre uma imensa cos-
tura de etnias, em constante disputa pelo controle do Estado. A fragmentação política desse
país poderia ampliar, ainda mais, o poder das redes ilegais do tráfico de drogas. Como se sabe,
Dakar no Senegal, Abidjan, na Costa do Mar fim, e Lagos, na Nigéria, são hoje centros interme-
diários, com redes organizadas e capazes de garantir a receptação e reexportação de drogas.
Guiné-Bissau, Serra Leoa e Libéria já se constituem como verdadeiras praças fortes de car téis
sul-americanos. A corrupção ou destruição de governos pode implicar imersão de territórios

nacionais inteirosdos
A articulação no circuitos
tráfico, oilegais
que sódafaria aumentar
economia comosasprocessos de exclusão do
redes internacionais (SMITH,
terror,2009).
como
no caso do contrabando de diamantes em Serra Leoa pela Al Qaeda, a formação de territó-
rios-zona por parte dessas redes em meio a uma Somália fragmentada e um Sudão dividido
(HAESBAERT; GONÇALVES, 2006), vetores de instabilidade, dificultam qualquer prognóstico
para o futuro do continente. Ainda mais se levarmos em conta os recentes levantes populares
no Norte Africano.

43
Essa imagem do dragão viria do Banco Africano de Desenvolvimento (BRUNEL, 2005).
Cristina Pessanha Mary | 213

Assim, em um rápido golpe de vista prospectivo, podemos descartar motivos para qual-
quer endosso em relação ao otimismo esboçado entre alguns analistas acerca da integração
do continente ante a globalização. Tampouco temos evidência para apostar nas versões ultra-
pessimistas da década de 1990.
Tomando por base nossas próprias observações, com as quais abrimos este capítulo, vol-
tamos a pontuar o princípio básico de toda e qualquer análise acerca do território: trata-se,
em primeira instância, das imponderáveis relações de poder (inclusive simbólico) entre os
homens. Sendo assim, ainda outra vez, talvez possamos afirmar que as esperanças para as
nações africanas de hoje são tantas quanto as desesperanças projetadas para o continente nos
últimos anos do século passado.
Finalmente, para destacarmos também a esfera cultural, das imagens e metáforas com as
quais a África é comumente representada, como enfatizado no início deste texto, não se trata
de rechaçá-las simplesmente como “falsas” ou “exteriores” à realidade africana. Até porque, a
exemplo da construção do Oriente pelo Ocidente, tão bem trabalhada por Edward Saïd (1990),
elas também entram na conformação de uma identidade africana “a partir de dentro”. Como
afirma muito apropriadamente o escritor moçambicano Mia Couto:

A maneira como os africanos se construíram como sujeitos é feita com base em estereótipos
da África criados fora da África. Os africanos os usam para saber de si mesmos. Eles vão romper
quando passarem, eles mesmos, aserem produtores de pensamentos próprios, um pensamento
que seja moderno, sem a obsessão de ser africano (o que émuito construído de fora), e eficiente,
capaz de criar respostas. [...] o que falta é os africanos [na rica multiplicidade de sua cultura,
acrescentaríamos] produzirem uma filosofia própria de intervenção no mundo moderno.44

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44
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OS AUTORES
Jorge Luiz BARBOSA
Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal Fluminense, mestre em Geografia
pela UFRJ e doutor em Geografia Humana pela USP, com pós-doutorado pela Universidade de
Barcelona; pesquisador CNPq.

Rogério HAESBAERT
Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal Fluminense, mestre em Geografia
pela UFRJ, doutor em Geografia Humana pela USP com estágio doutoral no Instituto de Ciências
Políticas de Paris e pós- doutorado na Open University, Inglaterra; pesquisador CNPq.

Ivaldo LIMA
Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal Fluminense, mestre em Geografia
pela UFRJ e doutor em Geografia pela UFF, com estágio doutoral na Universidade de Barcelona.

Cristina Pessanha MARY


Professora do Departamento de Geografia da Universidade Federal Fluminense, mestre em
Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR-UFRJ e doutora em História Social pela UFRJ; pesquisa
com apoio FAPERJ.

Carlos Walter PORTO-GONÇALVES


Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal Fluminense, mestre e doutor em
Geografia pela UFRJ, pesquisador CNPq e do Conselho Latino-Americano de Ciências Soci ais – CLACSO.

Pedro de Araújo QUENTAL


Licenciado e bacharel em Geografia pela Universidade Federal Fluminense, especialista em Mediação
Pedagógica em EAD pela PUC-RJ, mestre e doutorando em Geografia pela UFF.

João RUA

Professor do Departamento
fessor aposentado de Geografia
da UERJ, mestre da Pontifícia
em Geografia Humana Universidade CatólicadedoSão
pela Universidade RioPaulo
de Janeiro e pro-
e doutor em
Geografia Humana também pela USP.
PRIMEIRA EDITORA NEUTRA EM CARBONO DO BRASIL

Título conferido pela OSCIP PRIMA (www.prima.org.br)


após a implementação de um Programa Socioambiental
com vistas à ecoeficiência e ao plantio de árvores referentes
à neutralização das emissões dos GEE's – Gases do Efeito Estufa.

Este livro foi composto na fonte Myriad Pro, corpo 12.


Impresso na Globalprint Editora e Gráfica,
em Papel Polén Soft 80g (miolo) e Cartão Supremo 250 gramas (capa)
produzido em harmonia com o meio ambiente.
Esta edição foi impressa em abril de 2013.