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Excelentíssima Senhora Juíza de Direito da Vara da Fazenda Pública da Comarca

de Mogi das Cruzes

URGENTE

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO


PAULO, pelo Promotor de Justiça que esta subscreve, no uso de suas atribuições
legais, com fundamento no Preâmbulo da Constituição Federal e nos seus artigos
37 ‘caput’, 127 ‘caput’ e 129, III, no art. 103, I e VIII da Lei Complementar
Estadual nº. 734, de 26 de novembro de 1.993, no art. 25, IV, ‘a’ e ‘b’ da Lei
Federal nº. 8.625/93 (Lei Orgânica Nacional do Ministério Público) e consoante o
disposto no art. 1º, II c/c art. 5º, I da Lei Federal nº. 7.347/85, vem,
respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, promover a presente

AÇÃO CIVIL PÚBLICA,

pelo procedimento ordinário, com pedido de liminar em face do

DEPARTAMENTO DE ESTRADAS DE RODAGEM DO


ESTADO DE SÃO PAULO– D.E.R., autarquia estadual com sede na Avenida do
Estado, n°. 777, 3º andar, Bairro Ponte Pequena, na Cidade de São Paulo, Estado
de São Paulo, CEP 01107-000, representada por seu Superintendente, o Senhor
Clodoaldo Pelissioni, R.G. nº. 18.958.179-7/SP, C.P.F. nº. 110.318.288-93, pelos
motivos de fato e de direito a seguir articulados:

DOS FATOS

Em virtude de representações foram instaurados os


autos de Inquérito Civil de n°. 14.0341.0000105/2011-2, para apuração de
eventuais irregularidades decorrentes de radar eletrônico do tipo “OCR” -
“OPTICAL CHARACTER RECOGNITION” (reconhecimento de caracteres a partir de
um arquivo de imagem), instalado pelo DEPARTAMENTO DE ESTRADAS DE
RODAGEM DO ESTADO DE SÃO PAULO – D.E.R. na altura do quilômetro 58,6
da Rodovia Dom Paulo Rolim Loureiro (Rodovia SP-98), Vila Moraes, neste
Município, no sentido Mogi das Cruzes - Bertioga.

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Com efeito, as investigações foram iniciadas a partir de
representações formuladas pela Ordem dos Advogados do Brasil – Subseção de
Mogi das Cruzes, pela Polícia Militar Rodoviária e pelos advogados, doutores
Clodoaldo Aparecido de Morais e José Carlos de Souza, esta última instruída com
abaixo-assinado, todas em face do D.E.R., questionando multas decorrentes do
radar supra aludido, que teria sido instalado sem a observância das normas
legais, gerando grande número de autuações irregulares (fls. 08/203 e 230/236).

As representações acima indicadas apresentaram os


seguintes argumentos, em síntese: (a) a via em que o radar está instalado se
inicia em trecho sob responsabilidade do Município, onde há outros radares
instalados e a velocidade máxima permitida é de 60 km/h, enquanto o radar foi
instalado em trecho sob responsabilidade do D.E.R., com velocidade máxima
permitida de 50 km/h, não havendo quaisquer alterações ou circunstâncias na via
que justifiquem a redução do limite de velocidade de 60 km/h para 50 km/h -
também o fato de o local de instalação do radar ser distante do centro da cidade,
aproximando-se de via expressa, induziria os motoristas em erro quanto aos
limites de velocidade permitidos; (b) a sinalização do local é inadequada, sendo
que o D.E.R. teria retirado duas placas de sinalização de limite de velocidade de
60 km/h existentes no local antes do início da operação do radar; (c) a
instalação do radar teria contrariado as determinações constantes da Resolução
nº. 214/06 do Conselho Nacional de Trânsito - CONTRAN, que exige estudo
técnico acerca da necessidade de instalação do radar, bem como a garantia de
ampla visibilidade do equipamento; (d) o radar teria sido instalado apenas 150
metros após outro radar fixo, surpreendendo os motoristas - ademais, foi
instalado somente em um sentido da rodovia (Mogi - Bertioga), e antes dele há
uma enorme placa de aviso aos caminhoneiros sobre o horário de proibição de
tráfego, que dificulta a sua visualização; (e) o radar não flagra motocicletas,
perdendo seu propósito de dar segurança aos pedestres; e (f) existem vias de
terra que desembocam na Rodovia antes do trecho em que se localiza o radar,
mas não há, entre tais vias e o local do radar, nenhuma placa de sinalização
indicativa da existência de fiscalização eletrônica, tampouco de sinalização da
velocidade máxima permitida.

No local onde se encontra instalado o radar foram


realizadas duas manifestações públicas nos meses de janeiro e março de 2011,
conforme informação da Polícia Militar (fls. 230/236), e há notícia nos autos da
criação de associação de condutores/usuários da rodovia que se dizem lesados
em virtude das autuações oriundas da fiscalização do referido equipamento.

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Ademais, a imprensa local publicou – e ainda vem
publicando – diversas matérias jornalísticas sobre o radar objeto da presente
ação, com destaque para o impacto social causado pelo grande número de
multas originadas pelo radar, impacto este sentido precipuamente pelos
moradores da região, usuários frequentes da rodovia (fls. 49/82, 250 e Apenso).

Devidamente instado a prestar informações, o D.E.R.


manifestou-se por meio de ofício (fls. 238/243). O Órgão de Trânsito informou,
em resumo, que o radar foi instalado para atender a comunidade, buscando-se
maior segurança e a redução de acidentes; que a instalação obedeceu a critérios
como as características geométricas da via, a periculosidade do trecho, a
qualidade do pavimento, o volume diário de veículos que ali trafegam e a
proximidade de um posto de fiscalização rodoviária; que o local em questão
apresenta trânsito de pedestres e ciclistas; que o local recebeu a devida
sinalização de regulamentação de velocidade e de fiscalização eletrônica, estando
em conformidade com as Resoluções do CONTRAN de nºs. 146/03 e 214/06; que
no período de 28.11.2008 a 30.09.2009, lombadas eletrônicas funcionaram no
trecho da rodovia sob enfoque, as quais atualmente não mais se encontram em
funcionamento, permanecendo instaladas apenas em caráter educativo; que o
radar está em operação desde 11.11.2010, e é do tipo “OCR”, ou seja, embora
tenha por finalidade principal detectar veículos com documentação irregular,
também faz a medição das velocidades praticadas ao longo da via.

Foram efetuadas diligências pela Promotoria de Justiça


no local dos fatos a fim de constatar a existência, ou não, de irregularidades na
sinalização do radar (fls. 279/286), tendo sido percorrido o trecho registrado nas
imagens do CD anexado (fls. 286).

Posteriormente, foi realizada reunião na Promotoria de


Justiça com representantes do D.E.R. para tratar do assunto, na qual foram
apresentados Estudos de Segurança da rodovia e informações sobre o projeto
“OCR” (fls. 295/395). Finalmente, o Órgão de Trânsito enviou ao Ministério
Público informações complementares às anteriormente prestadas, conforme
havia sido acordado na reunião (fls. 403/428). Em ambas as oportunidades, o
D.E.R. defendeu a legalidade da instalação do equipamento.

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DO DIREITO

Da análise do que foi colhido nos autos, verifica-se,


primeiramente, que a forma como estão dispostas as placas indicativas de limites
de velocidade no trecho da rodovia em discussão induz o condutor em erro, na
medida que o trecho se inicia com placa indicativa de limite de velocidade de 60
km/h, existindo placas indicativas da redução para 50 km/h somente nas
proximidades dos quatro radares de controle de velocidade do tipo torre
(lombadas eletrônicas), não havendo quaisquer placas que indiquem a presença
do radar “OCR” ou o limite de velocidade por este tolerado.

Tal fato, apurado em sede de diligências, pode ser


constatado nas fotografias abaixo, ordenadas sequencialmente:

Fotografia nº. 1 – início do trecho - sinalização de velocidade máxima permitida


de 60 km/h.

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Fotografias nºs. 2 e 3 – primeira placa indicando a existência de fiscalização
eletrônica e sinalização de redução de velocidade para 50 km/h. Ao fundo, a
placa de cor azul aponta o início da “jurisdição” do D.E.R.

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Fotografias nºs. 4 e 5 – primeiro radar (lombada eletrônica) do trecho.

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Fotografias nºs. 6 e 7 – sinalizações de limite de velocidade de 50 km/h e de
fiscalização eletrônica, relativas ao segundo radar (lombada eletrônica) do
trecho.

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Fotografias nºs. 8 e 9 – segunda lombada eletrônica e radar do tipo “OCR”,
instalado após a mesma e sem sinalização própria; ao fundo, observa-se a
terceira lombada eletrônica do trecho, instalada em distância considerável com
relação à segunda.

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Como se pode observar das imagens acima dispostas, o
condutor/usuário da via, ao passar pela segunda lombada eletrônica dentro do
limite de velocidade de 50 km/h por ela estabelecido (fotografia 7), naturalmente
poderá deduzir que está autorizado a retomar o limite de velocidade estabelecido
no início do trecho, qual seja, de 60 km/h (fotografia 1), visto que teoricamente
só deveria reduzir novamente a velocidade quando alcançasse a terceira lombada
eletrônica, quando então será surpreendido pelo radar do tipo “OCR”, que
registra velocidades acima de 50 km/h, mas não conta com sinalização
própria e está localizado logo após a segunda lombada eletrônica.

Dessa forma, o radar assim posicionado, sem


sinalização própria, perde a sua função de prevenção de acidentes e passa a
constituir mera fonte de arrecadação, o que fere o principio constitucional da
moralidade, expressamente previsto no caput do artigo 37 da Constituição da
República e que deve pautar a atuação da Administração Pública e dos agentes
que a representam.

A moralidade administrativa, como postulado


constitucional, não deve ser anteposta, mas integrada à legalidade da atuação
do agente público, o que obriga a Administração ao cumprimento das normas
legais com observância das regras morais. Nesse contexto, a moralidade
administrativa serve, na maior parte das vezes, como norte para se distinguir o
uso da norma legal do seu abuso, uma vez que o abuso de poder pela
Administração Pública muitas vezes decorre do abuso do direito.

Ademais, a situação acima exposta fere também os


princípios constitucionais implícitos da razoabilidade e da proporcionalidade,
uma vez que não condiz com os referidos princípios a irreal expectativa de que os
condutores deduzam, sozinhos, que a placa sinalizadora do limite de 50 km/h
relativa à segunda lombada eletrônica vá servir a dois radares, quais sejam, a
lombada eletrônica e o radar “OCR” localizado logo após a mesma.

A atuação do agente público e os motivos que a


determinam devem ser razoáveis (adequados, sensatos, não excessivos) e o
resultado da atuação administrativa deve ser proporcional aos fatos ou motivos
que o ensejaram; não se afigura razoável exigir que os condutores deduzam que
a placa sinalizadora do limite de velocidade de 50 km/h diga respeito a dois
radares.

Nesse diapasão, preceitua o artigo 80, § 1º do Código


de Trânsito Brasileiro (“CTB”, Lei nº. 9.503/97) que a sinalização deverá ser
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colocada em posição e condições que a tornem perfeitamente visível e em
distância compatível com a segurança do trânsito.
Já a Resolução nº. 146/03 do CONTRAN, órgão máximo
normativo integrante do Sistema Nacional de Trânsito (conforme o artigo 7º,
inciso I do CTB), estabelece em seu artigo 5ºA, caput, que:

“Art. 5º A. É obrigatória a utilização, ao longo da via


em que está instalado o aparelho, equipamento ou
qualquer outro meio tecnológico medidor de velocidade,
de sinalização vertical, informando a existência de
fiscalização, bem como a associação dessa
informação à placa de regulamentação de
velocidade máxima permitida, observando o
cumprimento das distâncias estabelecidas na tabela do
Anexo III desta Resolução.”

Não é o que ocorre no presente caso, visto que,


consoante já salientado anteriormente e constatado através das fotografias
colacionadas, não há placas indicando a existência de fiscalização e de limite de
velocidade relativas ao radar “OCR”, o que contraria o dispositivo acima.

E complementa o art. 5º, caput, da mesma Resolução:

“Art. 5º. A fiscalização de velocidade deve ocorrer em


vias com sinalização de regulamentação de velocidade
máxima permitida (placa R-19), observados os critérios
da engenharia de tráfego, de forma a garantir a
segurança viária e informar aos condutores dos
veículos a velocidade máxima permitida para o
local.”

Portanto, não havendo no local sinalização que atenda


aos requisitos mínimos trazidos pela legislação, tampouco restando garantida a
segurança viária, não serão aplicadas as sanções por infração à legislação do
trânsito, e o órgão de trânsito com circunscrição sob a via deverá responder
objetivamente pela ausência, insuficiência ou incorreção na colocação da
sinalização, conforme estabelecido no artigo 90 do CTB:

“Art. 90. Não serão aplicadas as sanções previstas


neste Código por inobservância à sinalização
quando esta for insuficiente ou incorreta.
§ 1º O órgão ou entidade de trânsito com circunscrição
sobre a via é responsável pela implantação da
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sinalização, respondendo pela sua falta, insuficiência ou
incorreta colocação.
§ 2º O CONTRAN editará normas complementares no
que se refere à interpretação, colocação e uso da
sinalização.”

Assim, a aplicação conjugada dos princípios da


razoabilidade e da proporcionalidade implica o dever da Administração Pública de
pautar suas condutas em motivos razoáveis, adequados ou suficientes para o
atendimento efetivo do fim público objetivado pela norma jurídica (resultado
prático de interesse da sociedade). Tem-se, pois, no presente caso, desvio de
finalidade, uma vez que o objetivo precípuo dos radares eletrônicos não deve
ser a autuação dos condutores da via, mas sim a prevenção de acidentes e, no
caso do radar sob discussão, também a detecção de veículos com documentação
irregular. A atuação do agente público deve se pautar pelo interesse público, e
jamais por interesses pessoais, de terceiros ou de determinados grupos.

Outra questão a ser observada diz respeito à


visibilidade do radar “OCR”. Como se pode notar na Fotografia nº. 9, o radar está
instalado logo atrás de enorme placa que regula o tráfego de caminhões na
rodovia, o que, além de atrapalhar a visualização do radar pelo condutor,
também desvia a atenção do condutor cauteloso, que, ao atentar para os dizeres
da placa, acaba não percebendo a presença do radar. O modo como o radar está
disposto contraria, assim, o artigo 3º, § 2º da Resolução nº. 146/03 do
CONTRAN, que estabelece que:

“§ 2º Para determinar a necessidade da instalação de


instrumentos ou equipamentos medidores de
velocidade, deve ser realizado estudo técnico que
contemple, no mínimo, as variáveis no modelo
constante no item A do Anexo I desta Resolução, que
venham a comprovar a necessidade de fiscalização,
garantindo a ampla visibilidade do equipamento.
Toda vez que ocorrerem alterações nas suas variáveis,
o estudo técnico deverá ser refeito com base no item B
do Anexo I desta Resolução.”

Dessa forma, a instalação de radares eletrônicos só


será considerada regular se for garantida a ampla visibilidade dos equipamentos,
além do preenchimento dos demais requisitos legais exigidos.

Vale observar ainda que, não obstante o conceito de


“ampla visibilidade” seja subjetivo, devendo ser avaliado em cada caso concreto,
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é certo que no caso em questão claro está que não se garantiu a ampla
visibilidade do equipamento – a fotografia nº. 9 não deixa qualquer
dúvida.

Destarte, não merece atenção, no presente caso, a


alegação do D.E.R. no sentido de que o termo “ampla visibilidade” daria margem
a várias interpretações e não produziria “uma definição clara de posicionamento
dos equipamentos” (fls. 406), uma vez que no caso concreto os dados fáticos,
por si só, são aptos a afastar a possibilidade de “várias interpretações”.

Insta ressaltar também a existência de acessos à


rodovia no trecho sob enfoque que não receberam a devida sinalização indicativa
da existência do radar “OCR” e do limite de velocidade para ele estabelecido. Tais
acessos, relativos à saída do Condomínio Residencial Parque das Figueiras
(fotografia nº. 10), à Estrada Shoei Inui (fotografia nº. 11) e à Estrada Fazenda
Cuiabá (fotografia nº. 12) não contam com quaisquer placas indicando a
velocidade permitida na rodovia ou a presença de fiscalização.

Fotografia nº. 10 - saída do Condomínio Residencial Parque das Figueiras.

12
Fotografia nº. 11 - Estrada Shoei Inui.

Fotografia nº. 12 - Estrada Fazenda Cuiabá.

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Outro ponto a ser ressaltado é a existência do radar
somente no sentido Mogi das Cruzes/Bertioga; no sentido oposto, na mesma
altura, não há radar instalado, o que vai de encontro ao argumento do D.E.R. de
que o radar teria sido instalado visando à segurança dos ciclistas, dos pedestres
e da comunidade que habita o entorno, levando-se em consideração, ainda, que
não há calçamento para pedestres entre as duas vias da rodovia.

Tal fato pode ser observado na fotografia abaixo:

Fotografia nº. 13 – Sentido contrário da pista (Bertioga – Mogi); o radar “OCR”


está destacado no círculo à esquerda.

Algumas irregularidades apontadas foram aventadas


em recursos administrativos das multas interpostos pelos condutores de veículos
autuados pelo radar sob enfoque, tais como a ausência de placa de informação
sobre o equipamento, em desrespeito ao disposto no art. 5º A da Resolução
n°. 146/03 do CONTRAN.

E o próprio D.E.R. deferiu tais recursos. Assim agindo,


o demandado reconheceu a nulidade das penalidades impostas aos condutores
recorrentes em virtude das irregularidades alegadas pelos mesmos e aqui
constatadas (fls. 444/452).

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DA LIMINAR

Ante a gravidade dos fatos alegados, bem como


considerando a natural morosidade no julgamento desta demanda e a violação
das normas invocadas, na defesa dos interesses difusos verificados e estando
presentes os requisitos legais exigidos à espécie, quais sejam, o “fumus boni
juris” e o “periculum in mora” forçosa se torna a concessão de medida liminar a
fim de que seja regularizada a situação constatada, com urgência.

Com efeito, ficou perfeitamente delineado que o modo


pelo qual estão instaladas as placas indicativas dos limites de velocidade no
trecho em questão induz o condutor em erro. Ademais, é certo que quem trafega
na rodovia é surpreendido com o radar combatido, visto que o mesmo não tem
sinalização própria e está localizado logo após a segunda lombada eletrônica,
aproveitando-se da sinalização desta, o que faz presumir que a sua instalação
serve apenas como fonte de arrecadação desprovida de caráter preventivo de
acidentes, pois, conforme visto, o radar foi instalado apenas em um lado da
rodovia, que não dispõe de calçamento para dividir os sentidos opostos de
direção.

Sobremais, a visibilidade do equipamento é prejudicada


pela existência de placa de aviso aos caminhoneiros sobre a regulamentação de
tráfego no local, posicionada bem na frente do radar. Por fim, constatou-se que
inexistem placas sinalizadoras da existência do radar para os condutores que
ingressam na rodovia pela saída do Condomínio Residencial Parque das Figueiras,
pela Estrada Shoei Inui e pela Estrada Fazenda Cuiabá, tudo isso em dissonância
com a legislação regulamentar.

Violados, portanto, os princípios administrativos e


constitucionais da legalidade, moralidade, razoabilidade e proporcionalidade,
além da legislação infraconstitucional – Código de Trânsito Brasileiro e
Resoluções do CONTRAN n°s 146/03 e 214/06 -, o que configura o requisito do
‘fumus boni juris’.

De outra banda, o ‘periculum in mora’ está


caracterizado pelo fato de que, caso não seja tomada qualquer providência
imediata, outros tantos milhares de condutores ou proprietários de veículos
automotores certamente serão flagrados e autuados pelo mencionado radar, de
forma irregular e ilegal.

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Além do mais, urgente se faz preservar os direitos
daqueles que foram autuados desde a implantação do equipamento (11.11.10),
vez que além de terem que arcar com o pagamento dos valores das multas,
terão anotada em seus prontuários a pontuação prevista em lei, o que trará
prejuízos imensuráveis para os cidadãos que aguardam resposta eficaz do Poder
Público.

Dessa maneira, de rigor a concessão de liminar


objetivando compelir o DER, ‘inaudita altera pars’, a:

I - suspender imediatamente a função de


fiscalização de velocidade do radar do tipo “OCR” instalado na altura do
quilômetro 58,6 da Rodovia Dom Paulo Rolim Loureiro (Rodovia SP-98),
Vila Moraes, neste Município, no sentido Mogi das Cruzes – Bertioga,
enquanto não for regularizada a sinalização no local, com a retirada da
placa destinada aos caminhoneiros que impede a devida visualização do
equipamento E com a colocação de placas indicativas do radar nos
acessos do Condomínio Residencial Parque das Figueiras, da Estrada
Shoei Inui e da Estrada Fazenda Cuiabá;

II - suspender todas as multas por excesso de


velocidade já lavradas desde o dia 11.11.10 e os respectivos pontos
lançados no cadastro das carteiras de habilitação dos lesados, sob pena
de crime de desobediência e multa diária de R$ 200.000,00 (duzentos
mil reais) até o julgamento de mérito, valor este a ser carreado ao Fundo de
Reparação aos Interesses Difusos Lesados, nos termos dos artigos 3 e 12 da Lei
Federal nº. 7.347/85.

DO PEDIDO

Diante do exposto, requer seja a presente devidamente


registrada e autuada, instruída com os autos de inquérito civil n° 105/11, para
que a ação seja procedente para condenar o D.E.R. a:

I- proceder à efetiva regularização do radar do


tipo “OCR” instalado na altura do quilômetro 58,6 da Rodovia Dom Paulo
Rolim Loureiro (Rodovia SP-98), Vila Moraes, neste Município, no sentido
Mogi - Bertioga, conforme as Resoluções do CONTRAN de nºs. 146/03 e 214/06
e demais legislações aplicáveis, nos termos da liminar, providenciando-se a
instalação de placas sinalizadoras da existência de fiscalização eletrônica e do
limite de velocidade tolerado pelo radar “OCR”, e retirando-se, ainda, a placa
destinada aos caminhoneiros; e
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II- cancelar todas as multas por excesso de
velocidade (e a promover a retirada junto ao DETRAN dos respectivos
pontos lançados no cadastro das carteiras de habilitação dos lesados,
sem custos a estes) lavradas e impostas relativamente ao citado radar,
desde a sua instalação (11.11.10) até a data da sua efetiva
regularização, e a devolver os valores respectivos, devidamente
corrigidos, sob pena de multa diária de R$ 200.000,00 (duzentos mil
reais) em caso de descumprimento, sem prejuízo da configuração de
crime de desobediência.

DA CITAÇÃO

Autuada esta com os inclusos autos do Inquérito Civil,


requer, ainda, a citação do D.E.R., mediante deprecata, na pessoa de seu
representante legal, com a observância do disposto nos artigos 172, § 2º e 188
do Código de Processo Civil, para apresentar defesa, sob pena de lhe serem
aplicados os efeitos da revelia.

DAS PROVAS

Protesta comprovar o alegado por todas as provas em


direito admitidas, sobretudo pelas filmagens constantes do CD (fls. 286) e
documentos acostados ao Inquérito Civil, testemunhas, perícia, informações e
pareceres técnicos dos órgãos competentes, dentre outros.

Requer, ainda, a realização de inspeção judicial no local


em que está instalado o radar objeto da presente ação, conforme o artigo 440 e
seguintes do Código de Processo Civil, caso este Juízo a julgue necessária para a
melhor verificação dos fatos aqui trazidos, nos termos do artigo 442, I do mesmo
diploma legal.

DAS INTIMAÇÕES DO AUTOR

Sejam realizadas as intimações do Ministério Público de


todos os atos e termos do processo, nos moldes do art. 236, § 2 º do Código de
Processo Civil, mediante a entrega dos autos (art. 14, IV da Lei nº. 8.625/93 –
Lei Orgânica Nacional do Ministério Público), anotando-se a dispensa do
pagamento de custas, emolumentos e encargos, desde logo, nos termos do art.
18 da Lei nº. 7.347/85 e do art. 87 do Código de Defesa do Consumidor.

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DO VALOR DA CAUSA

Dá-se à causa o valor de R$ 1.000.000 (um milhão de


reais).

Mogi das Cruzes, 11 de maio de 2011.

Fernando Pascoal Lupo


Promotor de Justiça

Rafaela Gasperazzo Barbosa


Analista de Promotoria

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