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Tristão e Isolda Peep Show

# Refúgio

{Tristão e Isolda conversam por assovios

E

E

Suspensos no ar Junto aos pássaros Vêm a vida que tiveram

Desde quando Ainda não a teriam}

riem

riem

(Marcia Zanelatto)

<Isolda> Um estrangeiro entrará em minha casa Eu terei apenas 12 anos Ele estará doente, atingido por uma lança envenenada.

Ele tocará harpa e comoverá minha mãe, a Rainha, Que conhecerá todas as ervas Saberá extrair delas todo o veneno e toda cura. Por causa da música, Ela se compadecerá do estrangeiro e me deixará cuidando-lhe a ferida Enquanto preparará o antídoto. Eu olharei para o estrangeiro. Ele será para mim, eternamente, o homem mais belo que jamais verei.

E meu coração tremerá.

Terei vontade de matá-lo. Mas não o matarei. Anos depois, ele voltará para me buscar

Vencerá o inimigo do meu pai

E em troca pedirá minha mão.

Eu quase ficarei feliz, mas não.

O

estrangeiro terá a missão de me levar para desposar seu tio, o Rei Marcos.

E

essa será a notícia mais triste que eu ouvirei na minha vida.

Minha mãe me verá assim e sairá em meu socorro. Então, eu atravessarei os mares com uma garrafa em minha bagagem.

Nela, estará contido o vinho que me salvará da infelicidade.

O vinho do amor deverá ser bebido por mim e pelo Rei Marcos.

Mas minha criada, Brangia, saberá que eu amo o estrangeiro

E dará a ele de beber o vinho. Ela fará isso por mim.

O

estrangeiro se chamará Tristão

E

seu nome será dito para sempre junto ao meu.

>Tristão< Eu nascerei da morte de minha mãe E terei o nome do sentimento que o meu pai terá ao perdê-la. Meu pai me ensinará as artes da guerra, nas quais me tornarei perito E morrerá antes que eu complete 15 anos Eu serei órfão e terei não mais do que minha harpa e meus poemas musicais. Voltarei à terra de minha mãe, Onde meu tio Marcos reinará, E o conquistarei, não por laços de sangue:

Por meus talentos e minha lealdade. Darei grandes provas ao Rei O protegerei de seus inimigos e tornarei a Cornualha indivisível Um dia, o Rei escolherá uma esposa

E eu saberei onde encontrá-la, na Irlanda, E ela me será confiada. No entanto, uma grande tragédia advirá:

A poção mágica,

O vinho do amor, destinado ao meu tio

Será tomado por mim E eu verei em sua futura esposa Isolda O meu começo e o meu fim. Faíscas azuis sairão da minha pele -la, simplesmente, me fará suar como ao sol do meio-dia Sua boca terá gosto de mel

E seu cheiro me fará gemer de alegria! Me tornarei um viciado, Um dependente químico! Trairei meu tio e a desposarei antes dele Passarei a vida traindo, me escondendo e mentindo Somente para tomá-la em meus braços E farei isso sob qualquer risco. A morte será sempre menor que o amor. Um minuto ao seu lado Valerá mais do que uma vida inteira sem ela.

# Gira

{ rompem o céu raio e trovão num mar noturno negros tambores voz vagina abre a gira}

<Isolda> Singra Rema Canta Sua Fura Entra Abre Tara Bole Surta Flecha Rasga Cega Beija Cura Toma Tinge Pinta Borra Furta Pega Sobe Rompe Trinca Unta Chora Xinga Trepa Cheira Junta Isca Prende Mata Assa Julga Fixa Grafa Lavra Prova Suja Sonda Pede Topa Paga Surra Transa Fuça Sova Lambe Cruza Finca Talha Força Clama Uiva Sela Chimba Roda Gane Mia Ginga Brinda Rola Senta Dança Droga Pune Doma Funde Sangra Rompe Bate Monta Denta Mama Puxa Mete Lacra Suga Baba Voa Brinca Gira Roça Vinga Grita Fela Solta Unha Goza Berra Rasga Molha Mela Flama Bebe Liba Cava Caça Fuma Luta Rege Toma Pesa Corta Tasca Garfa Deda Trata Lança Cerra Malha Racha Chumba Soca Pia Vara Xinga Range Voa

Mente Morde Sorve Fode Funda Come Come Come Come come

# Um homem sob efeito {Patas trincam o chão Flamenco selvagem Rinchos Tempestade} <Tristão> Como como como como Como bicho feito do teu desejo Ex-homem Eterno cavalo Força e falo Reto às trompas de falópio

Quero teus trópicos Teu leite em meu leite Sou eu teu incandescente Teu incendiado Vem Isolda Navego teus cabelos Quero ser tua vagina Seja meu músculo Não há mundo Nem guerra arte e civilização Há plataforma de lançamento Outra dimensão Me doura a cara Enfrenta meu desejo Tenho estrelas para avançar Calda esse vinho bruxo Por todos os orifícios Nosso veneno Nosso mal secreto Muito mais que morte Morrer vivo Sou delírio e grito Na floresta dos teus pelos Na tua pele lisérgica Muito mais que bem Muito mais que mal Inexorável Isolda Dança fincada na minha lança

Me solda em tua boca pequena Meu pau teu pai Esquece o resto Nossa única chance São nossas cavernas Nossos hiatos Tu água Eu abismo Me afoga Na brasa líquida Da tua forja fina Vagina Teu talho lunar Me devora Eu quero ser devorado Vem me possuir Vem me vencer Vem Isolda minha guerra Sou tua Era Tua filha tua serva Me ensina me racha Me avermelha Não há mundo Não há nada lá fora Não há fora Tudo está dentro de nós Me fuça te furo Tu me sela Me descarna o peito

Eu teu mastro minha vela Enterra as unhas nessa quimera Deixa a carne sangrar Só me resta rir e chorar Venta teus sete ventos Na minha cara Não há mais metáfora Carne é carne Alma não é nada Me curra Isolda Me cura de ser homem Ser macho Em você eu sou o raio Elétricos nervos e sangue Deva subatômico Interplanetário Vênus Plutão Ânus coração O cavalo de fogo Cruza o ar

{estanque}

Façam das minhas entranhas Indecente poema E não se chegará A gravar no tempo O que se passa entre Tristão e Isolda.

# Mentiras {a dupla vida dos amantes}

< Isolda >

Meu amado rei:

Jamais vi neste rosto mais do que o rosto de um menino.

> Tristão <

Meu nobre rei:

Quero morrer cego e roto Se um dia olhei para a Rainha Isolda

< Isolda >

Ah, meu bom Rei, Deixai-me ir convosco às caçadas Não me abandonai a este que não chega a teus pés

> Tristão <

Estão vendo? A rainha é minha inimiga! Tem sido um sacrifício cuidá-la.

< Isolda >

Nunca jamais outro homem esteve entre minhas pernas senão o rei, meu marido.

> Tristão <

Amado Rei:

Se queres acreditar nestes que sempre me quiseram mal, Entendo Não troques tua corte por mim

< Isolda > Meu amado marido:

Bane este teu sobrinho, Tristão, para fora de nosso país Tira-o daqui se te importunam a respeito dele

> Tristão < Meu estimado Rei e Tio:

Se te protegi dos teus inimigos foi porque na vingança aprendi a amar Não me deves nada O teu sangue corre em minhas veias Mesmo que eu suma na poeira da estrada

# Banido { a porta é surrada acorda do sonho os amantes quem bate é o destino trágico}

{Tristão braços abertos Isolda qualquer canção murmura}

>Tristão< Chegaram Uma hora chegariam Assino minha sentença!

Banido Desterrado Degradado Proscrito Vi humilhar-se um homem por meu gesto

E este homem era um rei Deportado Expulso Condenado Expatriado Não fui eu, oh, Majestade, Foi o vinho! Traí sem medo de errar Cem mil vezes trairia Minha honra de guerreiro Meu anseio por honrarias Era vaga ilusão Do que O mel da vida Seria Entrego meu corcel Minha espada Minha armadura Levo o sorriso De Isolda Desmaiando de tanto amor Levo os gemidos De Isolda Tatuados em meus ouvidos Se o rei soubesse O que é amar assim uma mulher Se o rei soubesse O que o amor me faz sentir Ainda que abrisses meu ventre e dele bebesses meu sangue

<Isolda> Pensarás sempre em mim? Pensarás em mim até morrer?

{Os corpos

As mãos

Dos amantes

Se separam

Na escuridão}

# Amor e Morte {O claro E o escuro da lua: linha tênue intransponível} <Isolda> Que imensa angústia atormenta meu coração Me espera, Tristão, não morre Não morre, por favor, canta

Eu nunca me arrependeria! Me levem Frágeis soldados Me entreguem ao deserto Me joguem ao mar Me lancem na noite Me façam pagar qualquer preço:

Sai barato

<Tristão> E também depois

Enquanto eu corro Enquanto eu venço o mar

<Isolda>

Enfrento o oceano!

Longa caçada pelo teu cheiro

A lembrança da tua boca

Num copo vazio de vinho

<Tristão> A espera é tanta Que já não cabe dentro do peito Dormir é ventania Acordar é tempestade A morte arpeja Eu canto saudade

<Tristão> Tua ausência me inflama O sal dos mares que te guardam Resseca meu corpo Quebrame osso por osso

<Isolda>

Meus olhos embaçados de silêncio salgado já não encontram luz

O mar vence o tempo

Este frágil castelo de cartas

E as horas passam longe daqui Onde a morte te aguarda

<Tristão> Me esvaio Só a tua paisagem

<Isolda>

Tropeço na promessa da onda vaga

O lento lago evapora em lágrimas

Forma nuvens de barro Marujo, ergue a bandeira branca Que me revela

Me mostra ao continente Me dá sentido

<Isolda>

Essa água parada

Cruel como um espelho fosco:

Que me diz?

A vela inútil que não tremula: o que há?

Permanece inalterada Linda e nua Ao longe onde deliro

<Tristão> Oh, mar, me escondes a nau do amor? Isolda! Nada se move Mas sei que me ouves A voz desse moribundo lhe deita em rimas:

Nessa noite em que termino Vejo inteira a minha vida O que eu sei hoje sem ti nunca saberia Em meu peito Amor e morte São noite e dia

E a rocha negra que se tornou o céu:

Por que me fita indiferente? Silêncio é resposta

<Isolda>

Não te atrevas, Vento,

A me atrasar mais.

Movam-se, Águas!

Ergam-se, Marés! Eu sou Isolda,

A

que ama.

Eu lhes ordeno:

Movam-se!

Abre as asas, Leviatã, Sustenta meu desejo!

<Tristão> Vejo meu corpo Esvaziando-se devagar Este que me deu a festa do teu gosto A maciez da tua voz A loucura do teu cheiro O delírio do teu gozo A tua deslumbrante vista Meu corpo Meu melhor amigo Só ele e eu sabemos Isolda Ele esquecerá Eu, nunca

<Isolda>

É mentira, é mentira!

<Isolda>

É mentira, é mentira!

<Tristão> A bandeira negra foi hasteada

<Tristão> Isolda, não vieste!

<Tristão> Vida pra que vida? De mim levarás um naco de carne gasta Devastada, exaurida! Sinto medo de ir Medo de ir sem você, Isolda Eu que fui tão feliz Eis que me alcança agora o destino de ser triste.

<Isolda> Tristão Cadê a cor dos teus lábios? Pra onde foi o brilho dos teus olhos Qual o endereço? Que me serve esse corpo Sem a tua mão para o tocar? Me leva contigo nesse sonho Seremos eu, você e o mar

*

*

*

<Tristão>

Isolda

Olha daqui de cima, agora!

A Bretanha chora por nós

Os castelos se ajoelham As mulheres se calam Os exércitos arriam armas As crianças param

As ruas, mudas Isolda

A Bretanha chora por nós

Fim