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LUCY:

Uma releitura outsider


Com base nos ensinamentos de Jiddu Krishnamurti

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Quando o que nos interessa resolver com emergência é o problema de
transcendermos nossa atual consciência limitada pelas cargas do passado e pelo
medo, pouco nos importa qualquer sistema de resolvê-lo. Quando, DE FATO, o
que nos interessa é o problema da mutação total de nosso mental-emocional,
não nos interessa saber "como" efetuá-la. Nunca perguntamos "como?", porque
o "como" é o método, e o método significa crença nos fatores tempo, esforço,
prática e conhecimento prévio de resultado final; portanto, esse resultado final
não é nenhuma mutação, pois está ainda na esfera da consciência que trabalha
por imaginação, conjectura, vontade pessoal. Assim, o que podemos fazer é,
TÃO-SÓ, nos tornarmos totalmente percebidos da função da vontade pessoal e
completamente INDIFERENTES a ela; não teremos de batalhar contra ela, mas
devemos ter a PLENA PERCEPÇÃO de sua falsidade. Então, só nos interessará o
problema central: promover o depurador insight integrativo com sua criativa
revolução total. E quando esse depurador insight integrativo nos interessar no
mais alto grau, quando nada estiver diante dele, veremos que ele se realizará,
independentemente de nossa vontade.

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Uma das colunas que sustentam nossa atual e limitada consciência, está em
nossas incompletas experiências do passado, as quais nos deixaram profundas
marcas psicológicas, estejamos delas conscientes ou não. Quando não reagimos
totalmente a uma situação, ela deixa marcas memoriais. Quando reagimos com
a totalidade de nosso coração, de nossa mente, com todo nosso ser, fica
pouquíssima memória. É só quando não reagimos completamente a uma
situação, que há dor, confusão, luta. A luta, a confusão, a dor ou o prazer,
constituem a base da memória psicológica (não estamos falando da memória
técnica). Essas memórias psicológicas se conservam e se acrescentam
continuamente e são elas que reagem às novas situações que se nos
apresentam. Por conseguinte, o pensamento, sendo resultado da memória, é
sempre velho, e está sempre projetando o velho naquilo que é novo, desse
modo, adulterando-o. Portanto, pela força do pensamento, nunca podemos nos
ver plenamente livres de nosso limitante fundo psicológico. Portanto, isso que
chamam "liberdade de pensamento" é puro disparate, mais uma das ilusões
criadas pela velha consciência com base no medo. A memória psicológica reage
de forma mecânica, sem a nossa solicitação, interferindo nas nossas relações e
atividades, portanto, a memória psicológica é nociva, perigosa, pois nos
impossibilita ver a realidade da vida, sem a adulteração de nossas velhas
imagens. Para que possa ocorrer a explosão de um depurador e libertário
insight integrativo, a mente deve estar em silêncio, não tolhida pelo mecânico
movimento da memória.

Como podemos ver ao nosso redor, devido o avanço tecnológico, nosso viver
está se tornando cada vez mais mecânico, cada vez mais rotineiro, e nossas
relações, cada vez mais superficiais. Em vista disso, nos perguntamos: Há
alguma possibilidade real de efetuarmos uma radical e significativa revolução
em nossa vida? Não estamos falando de paliativas modificações momentâneas,
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circunstanciais. Estamos perguntando se podemos jogar fora tudo aquilo que
forçosamente colhemos ao longo dos anos, por força da propaganda familiar-
religiosa-cultural, para efetuar uma mutação total, não intelectualmente, porém
realmente. Eis o que somos, sem nada de original, nada de verdadeiro, somos
entes humanos copistas, imitadores, seres de "segunda mão". Essa é a nossa
vida. Ora bem, o que podemos fazer no sentido de operar uma significativa
mutação radical desse infeliz e limitado estado de ser? Como posso eu, que sou
o resultado das marcas do meu passado - esteja consciente delas ou não -, que
fui condicionado pela força disfuncional das circunstâncias ambientes a pensar,
sentir e agir de determinado padrão, padrão que condicionou e limitou a minha
mente, que me insensibilizou, que fez de mim uma mera simulação e não um
ente humano real, como posso operar uma revolução total, na qual eu possa
saber o que é liberdade, criação e amor? Como posso mudar a totalidade desta
limitada e separatista consciência?

Que possibilidade temos de tornar a mente nova, vigorosa, inocente, viva,


psicologicamente autossuficiente, plena de lucidez amorosa? Nossa vida é toda
um "processo" de desafio e reação; do contrário, a vida será como uma coisa
morta; a maioria de nós, a bem dizer, está morta. A vida, com efeito, é um
processo de desafio, uma exigência e uma "resposta", uma "libertária ação
criativa". E enquanto a resposta não for totalmente adequada ao desafio,
haverá atrito, batalha, tensão, sofrimento, medo e o constante sentimento de
insuficiência psicológica. Isto é bem óbvio. Enquanto não respondermos
totalmente e criativamente a qualquer problema, enquanto perpetuarmos a
resposta com o conteúdo imitativo do passado, teremos de viver em conflito, e
limitação, prisioneiros de uma escura e insignificante rotina. Compreende a
gravidade do problema?
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A vida atual exige — a menos que queiramos continuar vivendo muito
superficialmente, simulando saber o que é liberdade, felicidade e amor e,
portanto, viver uma vida sem o menor sentido — que façamos uma significativa
revolução mental-emocional em nós mesmos. Cabe-nos, pois, descobrir, POR
NÓS MESMOS, e não por meio da especulação de terceiros, se tal mutação
radical é possível. Quer dizer, é possível morrermos totalmente para o conteúdo
psicológico de nosso passado, morrermos totalmente para o que vivemos, para
que nossa mente se renove e revigore pelas qualidades do amor, o qual é
criação? Porque, nosso modo de pensar é sempre velho, mero processo de
imitação. Pensamos em reação a memória, a qual é sempre velha. Essa
memória é um resultado de nossas incompletas experiências passadas, e com
elas, de modo muito imaturo, queremos responder com completude, os
desafios das circunstâncias presentes. De modo algum podemos responder com
uma libertária ação criativa, se estamos algemados ao nosso acervo de
experiências incompletas, que constituem nosso fundo psicológico.

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A totalidade de nossa atual consciência com base no medo, embora a
chamemos de "superior" ou "inferior", é registro de experiências incompletas, é
memória psicológica. Nesse campo, que é a atual consciência, nada há de novo,
nada há de 100% original. Mesmo nossa pessoal concepção de Deus, de um "Eu
Superior", encontram-se na esfera dessa limitada consciência, portanto, não
passam de velhos pensamentos. E o pensamento é memória, é resultado de
incompleta experiência, de resposta inadequada aos acontecimentos da vida. O
pensamento é memória pessoal, interpessoal e transgeracional, é fruto de
propaganda milenar. Tudo que o pensamento sugere como forma de revolução,
é tão somente perpetuação de seu estado de inquietante conflito, em celas de
diferentes cores. O pensamento é tanto o carcereiro-prisioneiro como o
prisioneiro; por si só, não tem como saber o que é a verdadeira liberdade do
espírito humano.

O pensamento só pode criar por meio de imitação, por meio do passado,


portanto, sua criação não é real criação, é tão somente leve mudança do que
foi; sua criação depende da memória, da velha experiência, portanto, não pode
apresentar algo genuinamente novo. O pensamento é passado projetado.
Assim, o pensamento, por mais habilidoso e sagaz, e por erudito que seja,
jamais fará "explodir" o depurador insight libertário, nunca ocasionará a
significativa e radical mutação de nosso atual e limitado estado mental-
emocional. E essa revolução, essa mutação é absoluta e emergencialmente
necessária, para que possamos conhecer um modo de viver diferente, dotado
de real plenitude de ser. Sem isso, não temos como saber o que são profundas e
significativas relações, não temos como saber o que é real afeto e comunhão,
não temos como saber o que é o estado de amor transpessoal, que nada tem a
ver com o romantismo pessoal. Assim, é possível morrermos totalmente para a
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reativa e emotiva identificação com o movimento do pensamento? É possível
não mais sermos afetados por seu mecânico movimento adulterante,
separatista? Embora o pensamento seja necessário no que compete ao técnico,
no campo psicológico, o pensamento nenhuma possibilidade tem de criar uma
nova e significativa dimensão. Daí a questão: podemos morrer totalmente,
imediatamente, para o mecânico e não solicitado pensamento psicológico?

Nossa maior trave de tropeço está no nosso modo fragmentado de dar atenção
a algo; não sabemos o que é um estado de atenção plena, por isso nossa vida é
tão superficial, tão rotineira. Sem um estado de natural e plena atenção,
atenção que não é resultante de calculada vontade, torna-se impossível a plena
compreensão da atual e limitada estrutura mental pela qual pensamos,
sentimos e reagimos (nesse estado mental, não há como ocorrer uma ação real,
ação que não perpetue a separatista energia de atrito). Para se ter a plena
atenção de que falamos, não deve haver qualquer barreira entre o observador e
a coisa observada. Do contrário, não há a mínima possibilidade da ocorrência de
uma integrativa percepção libertária. Para poder observar, preciso livrar-me de
todos os preconceitos, minhas impressões, minhas tendências, meus achismos,
me libertar das pressões circundantes, etc; devo livrar-me de tudo isso,
totalmente, para poder saber o que é o estado de real atenção, onde se dá a
percepção plena, totalmente livre de qualquer adulteração de fundo pessoal.
Para poder observar, o medo não pode estar nos afetando. Enquanto existir
observador e coisa observada, pensador e coisa pensada, tem de haver medo,
incerteza, confusão. Observar a velha estrutura mental é o que nos dá a
possibilidade de nos abrirmos, pela primeira vez, para a plenitude da vida e de
suas relações.

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Na plena percepção da morte está a observação da vida. Nós não damos a plena
atenção ao viver, nem somos capazes de observar a morte. Quando sabemos
observar o viver, com todas as suas complexidades, com todos os seus temores,
agonias, dolorosa aflição, sentimento de insuficiência psicológica, solidão, tédio,
várias formas de apego, quando sabemos olhar o nosso viver (independente se
dele gostamos ou não, se nos dá prazer ou desprazer; trata-se apenas de
observar sem resistência alguma), seremos então capazes de observar a morte.
Porque então não mais haverá medo da morte, pois morrer é viver. Mas, nós
não sabemos como morrer para o nosso passado, não sabemos morrer para
tudo, todos os dias — para tudo o que aprendemos, para todas as coisas que
acumulamos, tais como o caráter, etc. Em qualquer coisa que existe
continuamente no tempo, não há nada de novo, por isso nosso constante
sentimento de insignificante rotina. Nós temos um enorme medo de colocar fim
a tudo o que conhecemos; findar, sem racionalizações, sem discussão, sem
verbalização (tal como acontecerá quando a morte física chegar, pois com a
morte não se discute). Só quando morrermos para o nosso passado, aqui e
agora, é que a morte passa a ter uma nova significação para nós, pois, só na
morte se encontra a beleza, se encontra o amor. A morte psicológica é uma
coisa maravilhosa, é o único fator pela qual podemos saber o que é liberdade
real. Morte psicológica significa renovação, mutação total, na qual AS IMAGENS
DO PENSAMENTO NÃO MAIS INTERFEREM, NÃO MAIS IMPULSIONAM AS
INCONSEQUENTES E DÉBEIS REAÇÕES EMOTIVAS, que tanto conflitos nos
causaram. Quando há a morte psicológica, quando há a morte com relação a
velha identificação com o movimento mecânico do pensamento, HÁ UMA COISA
TOTALMENTE NOVA, UMA COISA DE UMA DESCONHECIDA DIMENSÃO. Nesse
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desconhecida e nova dimensão, a mente se encontra totalmente vazia, em
silêncio, sempre se renovando, se revigorando, independente de quaisquer
circunstâncias; nessa dimensão ela é sempre criativa, uma coisa luminosa,
incorruptível, e há nela uma alegria que não é prazer. Só nessa desconhecida
dimensão, sabemos de fato, o que significam as palavras liberdade, felicidade,
amor e comunhão; fora dessa dimensão, são apenas, palavras.

A maioria de nós teme a morte, tanto a morte física, como a morte psicológica
para o que nos é conhecido. Por conseguinte, um dos nossos problemas é este:
Como nos libertarmos totalmente do medo, e não da morte. Porque a morte
deve ser uma coisa tão extraordinária como a vida. Quando se sabe viver,
quando nosso pensar e sentir não é mais adulterado pelas imagens do medo, a
vida é maravilhosa. Mas, como não sabemos viver, como não sabemos nos
desidentificar do conteúdo mecânico de nosso fundo psicológico, projetado
como pensamento, não sabemos o que é a morte. Em consequência, tememos
o viver e tememos o morrer, e por causa desse medo inventamos tantas teorias,
sistemas, crenças, programações. A questão, pois é esta: Temos possibilidade
de nos libertarmos totalmente do medo? Temos como morrer para a
inconsciente e mecânica identificação reativa-emotiva ao fluxo dos
pensamentos, os quais são memórias projetadas? Temos que morrer para a
identificação com o pensamento, pois é do pensamento, que surge toda
manifestação de medo. É por causa do medo que o pensamento busca por
prazer imediato, o qual por sua vez, alimenta o medo. Para que tal morte possa
ocorrer temos de estar PLENAMENTE, VIGOROSAMENTE ATENTOS. E não se
pode estar atento quando existe o observador, com suas imagens, as próprias e
as criadas pelas circunstâncias, pelas tendências, manias, inclinações, desejos e
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aversões, etc. Enquanto existir a identificação com tais imagens, das quais
emana o pensamento, o pensamento haverá sempre de criar medo.

Nossos impulsos reativos emocionais se tornam existentes por meio de


estímulos, por meio dos nervos. Por meio dos nossos adulterados sentidos,
nascem as emoções. E quase todos nós somos acionados pela emoção chamada
"prazer". Nossos impulsos reativos emocionais se tornam existentes por meio
dos estímulos, por meio do ambiente, igualmente, por meio da memória. Qual a
função das emoções na vida? Emoção é vida? Prazer é amor? Se emoção é
amor, este então é uma coisa que está se alterando a toda hora. Deixamo-nos
guiar por nosso inconsequentes impulsos reativos emocionais ou por ideias
intelectuais; destrutivas, tanto umas quanto as outras. Se somos guiados por
impulsos reativos emocionais ou pelo intelecto discursivo, somos levados ao
desespero, a conflito, porque as emoções e o intelecto NÃO NOS LEVAM A
PARTE ALGUMA, nos mantém prisioneiros em nosso quarto escuro. Mas, temos
que perceber que o amor não é prazer, que o amor não é desejo, que o amor
não é romantismo. A palavra "Roma", escrita de trás para frente, é "Amor"; o
prazer, o desejo, a sedução e o romantismo, são antíteses do amor real.

Temos de perceber que as emoções, os sentimentos, o entusiasmo, o


sentimento de ser bom, etc., NADA TÊM EM COMUM COM A VERDADEIRA
AFEIÇÃO, A VERDADEIRA COMPAIXÃO. Todos os sentimentos e emoções estão
ligados ao pensamento e, por conseguinte, conduzem ao prazer e à dor. O amor
não conhece dor, nem sofrimento, porque o amor não é produto do
pensamento, do prazer ou do desejo.

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Como já sabemos, nossa maior trave de tropeço está na qualidade de nossa
atenção, a qual nunca é plena, mas sim, fragmentada. Não vemos a totalidade,
só vemos em partes. Não pode haver o bem-aventurado e libertário estado de
atenção plena, quando há qualquer espécie de luta, de resistência, de forçosa
vontade. Se me esforço para prestar atenção, minha energia se gasta nesse
esforço e, portanto, não há ocorrer o estado de plena atenção. Não há atenção
plena quando de alguma maneira se tentar moldar a atenção, restringi-la, forçá-
la a tomar uma determinada direção de preferência pessoal. E não há atenção
quando o pensamento está funcionando de acordo com as inclinações pessoais,
o condicionado prazer, o desejo ou o temperamento, ou é impelido pelas
circunstâncias; vale dizer, se há qualquer espécie de imagem, não pode haver o
bem-aventurado estado de atenção plena e, sem ela, não é possível a explosão
da percepção integrativa e libertária; sem ela, continuamos prisioneiros de
nossa limitada consciência com base no medo. Assim, só pode haver o estado
de plena atenção, quando na observação, não mais ocorre a identificação
reativa-emocional com o fluxo de imagens que emergem do mecânico
pensamento, o qual é memória projetada, a qual é tempo. O tempo é um
processo de pensamento dentro do campo da limitada consciência, e a limitada
consciência é, ela toda, resultado do tempo e do pensamento; portanto, entre
os estreitos limites da atual consciência com base no medo, não é possível o
bem-aventurado estado de plena atenção. No extraordinário estado de plena
atenção, não há afetação de imagem, nem de tempo, nem de pensamento.
Nesse estado — que é meditação — não há observador nem coisa observada.

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O medo, de modo algum, é imanente ao ser humano. O que é o medo? O medo
não pode existir por si, mas só em relação com alguma coisa. Nós somos o
resultado do tempo, oriundos do animal ainda vivo em nós, em forma de medo.
É possível nos libertarmos imediatamente, plenamente, dessa herança animal
em forma de medo, sem a necessidade de nenhum método, nenhum sistema,
nenhuma programação? Para se conseguir tal mutação, o que precisamos é de
um estado de plena atenção, a começar por nós mesmos, porque nós mesmos
somos o resultado de todo esforço humano, de toda aflição humana, de todo
sofrimento humano; somos o resultado de nosso passado psicológico — o
passado da comunidade, o passado da espécie humana. Temos de observar a
nós mesmos, observar como falamos com os demais, observar e conhecer o que
pensamos e os motivos desse modo de pensar; observar a maneira como
tratamos os demais, nosso hábito alimentar, nossa maneira de andar, de olhar
outro ser humano, observar como olhamos e lidamos com a natureza; observar,
estar plenamente apercebidos de tudo isso, sem escolha, resistência ou
racionalização. Em virtude desse extraordinário estado de observação — se
formos capazes de levá-lo até o fim — veremos surgir um depurador e libertário
insight integrativo, com sua criativa mutação, o qual vem sem o sentirmos e
longe de qualquer conjectura pessoal.

No bem-aventurado estado de plena atenção, não há nenhuma afetação do


conteúdo de imagens, oriundas do fundo da memória. Quando conhecemos
plenamente o mecanismo da memória psicológica, podemos então, por
compreendê-la, colocá-la de lado. Para compreendermos esse limitante
mecanismo da memória, temos primeiro que ver a sua estrutura, como nasce,
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qual a sua função, e também onde ela não deve interferir. Não podemos, por
ação de forçosa vontade, nos libertar da afetação do conteúdo da memória. O
que podemos fazer é SÓ OBSERVAR MINUCIOSAMENTE A SUA AÇÃO, tão logo
se inicia, para isso, temos que estar extraordinariamente vigilantes, observando
em silêncio. Para descobrirmos qualquer coisa, temos de olhar; e para
podermos olhar, devemos estar em silêncio, ou seja, sem qualquer tipo de
imagem, conceito ou idealização. Quando sentimos a emergência desse olhar, a
própria urgência torna a mente silenciosa. Não temos primeiro uma mente
silenciosa e depois olhamos; ao contrário, a própria urgência de olhar o
movimento do mecanismo da memória, torna a mente quieta, silenciosa, em
estado de repouso. Esse próprio ato de observar a ação das imagens mentais,
coloca a mente em silêncio. Pode-se então observar a fonte de cada movimento
da memória, sem que a mesma adultere a percepção da realidade, por meio de
reativa identificação emotiva.

Nunca cessamos de acumular ideias, conceitos, amontoar palavras, adquirir


conhecimentos e cultura, de racionalizar e conjecturar. Mas, no que diz respeito
ao conhecimento da AÇÃO CORRETA, ação que não produza contradição e
conflito, portanto, que seja uma ação libertária, parece-nos uma das coisas mais
difíceis do mundo: agir racionalmente, assertivamente, saudavelmente, sem
conflito algum; agir com a totalidade de nossa mente, a mente integral, isto é,
não fragmentada, não adulterada por condicionamento, pela força do ambiente
em que vivemos, pelas tensões e pressões a que estamos sujeitos. Preferimos
ficar "verbalizando" ideias, limitadas percepções, levantando teorias,
conjecturas, do que vivermos com plenitude em nossos dias, inteiramente livres
de problemas, de perturbações, de aflições e de sofrimentos oriundos de
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atividades e relações superficiais. Parece que uma das coisas mais difíceis da
vida é vivermos completamente, integralmente, e não fragmentariamente:
sermos entes humanos totais em todas as nossas atividades e relações. Não
somos seres inteligentes porque funcionamos de modo fragmentado. A
inteligência só é possível quando a ação é integral. Nosso estado fragmentado
de ser, faz com que estejamos sempre a lutar, a lutar. Nunca há um momento
em que nossa mente esteja completamente vazia e, por conseguinte, em
silêncio, livre da afetação do processo formador de imagens conflitantes. Somos
produtos de nossos ambientes disfuncionais, ambientes movidos pelo medo e
não pelo amor, produtos das circunstâncias, do "amarrado" sistema de
educação, da arcaica e não questionada tradição em que vivemos. Mas a
significativa mutação mental-emocional requer sempre uma grande abundância
de energia para observar sem se identificar com o conteúdo observado. É muito
mais fácil ficar discutindo limitados pontos de vista, pois isso não exige
seriedade nem muita energia. Mas a séria dedicação para operar em si próprio,
por si mesmo, uma revolução psíquica total, isso exige uma energia tremenda.

Nós temos de compreender a totalidade do complexo processo de viver.


Vivemos e nos relacionamos muito superficialmente; exteriormente, talvez
sejamos capazes de levar uma vida bem simples, mas interiormente, somos
entes humanos muito complexos. Os motivos, as ambições, os medos, a
competição, a ansiedade e sofrimento perpétuos, tudo isso está em ação
interiormente. Ora, para se efetuar uma radical e significativa transformação
mental-emocional, é óbvio que se requer 100% de nossa energia. Pois bem, é
possível termos essa energia, sem conflito algum? Porque fomos condicionados

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a acreditar que a energia se efetua mediante esforço no tempo, isto é,
acreditamos que quanto mais nos esforçamos, mais energia adquirimos.

Temos que colocar a totalidade de nossa energia para prestar plena atenção ao
nosso sofrimento, a nossa ansiedade, aos nossos medos, ao nosso estado de
contradição, nosso sentimento de culpa e de insuficiência psicológica, nossos
apegos, frustrações, aflição, tédio infinito.

Não podemos prestar inteira atenção ao nosso sofrimento se desejamos que ele
seja resolvido de uma certa maneira, em conformidade com um certo padrão;
então, essa exigência de que ele seja resolvido de determinada maneira — que
é uma forma de condicionamento —, é um desperdício de energia. Mas, se
ficarmos simplesmente observando o fluxo do conteúdo que se processa em
nossa mente e coração, observando atenta e minuciosamente, sem reservas ou
reativa identificação emotiva, veremos então, por nós mesmos, através de uma
integrativa percepção libertária, que o problema, antes tão formidável, se
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tornará insignificante. Isso é o insight depurador, no qual se apresenta o estado
de inteireza do ser que somos. Essa própria atenção plena é a energia que
resolve todos os nossos problema e que nos liberte de um estado de
consciência estruturada no medo.

Temos que considerar como podemos acumular a energia que é necessária para
dissolver a atual estrutura mental com base no medo, da qual decorrem todos
os nossos conflituosos problemas. Temos muitos problemas, e não apenas um
problema pontual. E cada problema está relacionado com outro problema. Se
pudermos resolver o problema do qual surgem todos os demais problemas — a
a atual estrutura mental-emocional —, veremos que seremos capazes de
enfrentar outros problemas e de resolvê-los facilmente. A falta de atenção é
que é nociva e não a atenção. E quando sabemos que estamos desatentos, isto
é estar atento. Quando não percebemos que estamos desatentos, começam as
tribulações e as aflições inerentes ao problema. Precisamos descobrir como se
faz a acumulação da energia que não é gerada por meio de estímulo; há várias
formas de estimulação, tanto externas como internas. Mas, estamos nos
referindo à energia que não depende de nenhum estímulo. Porque, no
momento em que dependemos de alguma coisa, de alguém, de alguma
programação ou instituição, já estamos desperdiçando energia, uma vez que
estamos nos permitindo ao processo de condicionamento e ajustamento. Todos
nós temos dependido de doações psicológicas de terceiros, mas por meio delas,
não chegamos a nenhum lugar; continuamos no mesmo estado de inquietude,
ansiedade, insegurança e solidão; continuamos a sofrer da silenciosa dor
causada pelo sentimento de insuficiência psicológica e incapacidade de manter
uma genuína intimidade com outra forma de vida. É por causa de nosso atual
estado de consciência com base no medo, que dependemos psicologicamente
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das pessoas, e de outras formas de estímulo. E, no momento em que existe um
estimulante, seja psicológico, seja físico, esse estimulante nos embota a mente,
impede-nos de usar o nosso cérebro com 100% de suas células.

Muitos de nós precisamos de alguma forma de estimulante, um tipo de droga


de escolha — socialmente aceita ou não — para superar os constantes ataques
de ansiedade, inquietude, solidão ou para enfrentar a dolorosa rotina de uma
existência sem sentido. Se continuamos a usá-la, necessitamos desse
estimulante em doses cada vez maiores, a nossa mente se tornará cada vez
mais embotada, em vez de sensível, vigilante, desperta. Assim, quando
percebemos que qualquer forma de estímulo, externo ou interno, produz
inevitavelmente uma espécie de embrutecimento e indiferença, quando
percebemos isso como um fato verdadeiro, desaparece a necessidade de
estímulo. Nisso não há o conflito causador do desperdício de energia.

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Desde a mais tenra idade, nossa vida é conflito, competição, esforço, desde a
atenção dos pais entre os nossos irmãos, na escola, até os dias de colégio e
universidade. E, mais tarde, quando se tem que arrumar um emprego, há
conflito para se obter um emprego melhor, competição para alcançar uma
determinada posição, e melhorar cada vez mais essa posição. Do começo ao
fim, andamos em constante conflito, a lutar e lutar, tanto emocional como
intelectualmente. Tal esforço, que, como todo esforço, representa atrito, não
torna a mente sutil e capaz de funcionar livremente. Todo esforço deforma a
mente, corrompe o coração. Só quando cessa o esforço, temos ilimitada energia
interior, tornando-se nossa mente límpida como cristal e capaz de enfrentar e
resolver qualquer problema humano. Quando nossa mente funciona em sua
totalidade, não existe para ela, tal coisa como "problemas", mas sim,
oportunidades de amorosa e criativa ação integrativa. Assim, para que essa
total energia cerebral se torne existente, temos de compreender o
transgeracional condicionamento da necessidade de esforço. Se
compreendermos a natureza e a estrutura do esforço, possuiremos então a
energia necessária para dissolver a atual estrutura mental causadora de
problemas, ou para fazermos muito mais assertivamente o que temos que
fazer.

Temos de operar uma significativa mudança na estrutura de nossa mente


superficial. A mente da maioria de nós é muito superficial — a do "santo", do
padre, do pastor, dos ministros, a de outro qualquer. E a mente está
perenemente empenhada em tornar-se diferente, no que diz ao exterior, mas
não quer saber de ser diferente no que diz respeito a sua atual e limitada
estrutura embasada no medo. No momento em que prestamos atenção à nossa
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mente superficial, no momento em que percebemos que somos estreitos,
limitados, fúteis, que falamos demais por não ter nada de significativo para
dizer, nesse estado de atenção, já não somos mais fúteis e superficiais.

Necessitamos de energia, e essa energia se desperdiça quando há conflito e o


conflito continuará existente enquanto nossa vida for motivada pela busca de
prazer imediato (que é o que a maioria de nós está buscando). Vivemos para
termos prazer sexual, satisfazermos nossos condicionados apetites, fruirmos do
prazer da posição, do prestígio, da capacidade intelectual, da erudição. O prazer
é fabricado e alimentado pelo pensamento, pela memória. O pensamento é
quem cria o prazer, mas não pode criar o amor e a verdadeira comunhão.
Enquanto a mente for dependente do prazer, haverá sempre o medo de não
consegui-lo, de perder o objeto de seu prazer. E enquanto houver medo, haverá
esforço para fugir desse medo, para dissolvê-lo de alguma maneira. Tal esforço
é desperdício de energia. Temos de ver a estrutura, o significado do prazer,
temos de compreendê-lo e transcender a dependência psicológica que dele
temos.

Devido ao fato de, interiormente, sermos entes humanos vazios, superficiais,


presumidos, insignificantes, fazemos um enorme esforço, no qual há enorme
desperdício de energia, para "vir a ser" alguma coisa. Invejamos aqueles que
aparentam ser alguma coisa. Dentro d nós mesmos, ansiamos por ser ALGUÉM,
ser famoso, grande sabedor. Sabemos bem quantas coisas imaginamos e o
quanto sofremos com a inveja que surge da comparação. Desejamos ser pessoa
importante; desejamos ser heróis, como os outros foram ou são. Queremos ter
muita importância, exteriormente, enquanto interiormente estamos

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inteiramente vazios — embora repletos de um fundo de memórias de
experiências incompletas, com suas lembranças de prazeres e traumas —, tudo
do passado, cinzas frias de vivências ou experiências pretéritas. E porque
estamos vazios, tememos esse vazio e andamos perpetuamente empenhados
em "vir a ser alguma coisa"; alguma coisa pela qual possamos alcançar poder,
reconhecimento e prestígio. Mas, se dispensamos a totalidade de nossa atenção
ao nosso vazio, veremos que somos capazes de transcendê-lo. E, então, não
haverá mais esforço para ser alguma coisa. Saberemos então o que significa
viver sem exigência, sem expectativa alguma. Esse viver iluminará a si próprio.

Para que possa ocorrer a explosão de um libertário e depurador insight


integrativo, temos que compreender o que é meditação. Meditação não é
repetição de palavras, adoção de posturas, respirar de certo modo e repetir por
várias vezes um certo mantra. Isso é auto-hipnose pela qual a mente permanece
estúpida. A meditação exige um estado de constante vigilância, atenção ao
modo como nos comunicamos, como tratamos as pessoas, como andamos,
comemos, prestar atenção, mas sem nos fragmentarmos por meio da
concentração, que é em si, um processo separatista. A concentração não usa a
totalidade cerebral, faz uso apenas de um fragmento das células cerebrais.
Quando estamos plenamente atentos, podemos olhar cada pensamento, cada
movimento da mente e das emoções; não há isso que se chama "distração" e,
consequentemente, estamos em meditação, a qual é uma coisa maravilhosa,
porque traz com ela, lucidez. Meditação é lucidez, é silêncio disciplinador na
vida. Quando estamos atentos a cada palavra, a cada gesto, a tudo o que
pensamos, dizemos e sentimos, e a nossos "motivos", sem corrigi-los, daí
procede o silêncio e, desse silêncio, a disciplina que impede a adulteração, o
conflito e o desperdício de energia. Então, não há necessidade de esforço
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algum; dá-se um movimento completamente desconhecido, que independe do
tempo. O ente humano é então feliz, criativo, não fomenta a inimizade, não
causa infelicidade.

Levamos vidas vazias, superficiais, rotineiras, porque NÃO SENTIMOS a


realidade do que é o amor. Não se pode saber o que é amor, por meio de
conceitos, por meio de dialética, explicações, muito menos por meio de algum
sistema, método ou programação, como muitos de nós acreditamos. Tudo isso
são meros produtos de uma mente inquieta e confusa, são meros pensamentos
reunidos em conceitos, fórmulas. O homem que vive segundo fórmulas,
sistemas, métodos ou programações é um ente humano morto. É isso o que
acontece com muitos de nós. Portanto, não queremos saber de conceitos. O
amor não é prazer, o amor não é sedução, o amor não é romantismo, não é
desejo, não é ciúme, não é controle, não é posse ou domínio. Se formos capazes
de eliminar essas coisas, criaremos um espaço em nosso cérebro, onde possa
ocorrer o depurador insight integrativo, no qual desponta aquela região de
amorosa lucidez; só então, saberemos o que é a realidade do amor
transpessoal, a realidade da benevolência, da afabilidade, da delicadeza, da
beleza e da real comunhão.

Para saber o que é a realidade do amor, antes de tudo, é preciso saber como
renunciar os transgeracionais condicionamentos do mundo. Renunciar ao
mundo é ter a plena percepção do mundo, e, não, fugir dele. Para ter a plena
percepção do mundo, temos de OBSERVAR com muita lucidez.

21
Quando vemos com lucidez, amamos. Nós não temos amor no coração, ainda
que discursemos sobre o amor. Não havendo amor no coração, só nos resta a
sedução, o flerte, o romantismo, o prazer, o sexo, os quais confundimos como
sendo o amor. Para saber o que é a realidade do amor, temos que libertar a
nossa mente, temos que libertá-la do medo, de onde surgem os conceitos, os
sistemas, as programações. Não tenhamos medo, pois somos entes humanos e
não um rebanho, que vai para onde é tocado. Com essa liberdade, todas as
coisas se revestem de beleza e incontaminada energia e nada se converte em
problema.

O que tem significação É O QUE É, e não o que pensamos que deveria ser. A
plena percepção do que É exige liberdade para olhar, tanto exterior como
interiormente. Na realidade, não existe a divisão de exterior e interior. Trata-se
de um processo único; é a mente com base no medo que divide a vida em
fragmentos, que cria a ideia de exterior e interior. Em vista de tantas
complicações, tanta confusão e aflição, e do enorme esforço humano
22
despendido para construir uma sociedade que está se tornando cada vez mais
complexa e insensível, cada vez mais violenta e separatista, há possibilidade de
vivermos neste mundo totalmente livres de confusão e contradição e, portanto,
livres do medo oriundo de nossas marcas psicológicas do passado? A mente que
teme não pode, evidentemente, deixar de ser uma mente neurótica, não tem
como ter paz e adquirir a capacidade de saber o que é o amor.

Uma das maiores traves de tropeço, que nos impede de saber o que é o amor,
está na violência, não só exterior, como no interior. A violência não é apenas
física, pois toda a estrutura da nossa atual psique está baseada no medo que
produz violência. Esse esforço incessante para "vir a ser algo ou alguém", esse
constante ajustamento a um padrão, a incessante busca de prazer imediato e,
por conseguinte, o neurótico desejo de evitar tudo o que causa dor — o que
impede a capacidade de observar e compreender o que é — tudo isso faz parte
do medo e da violência. A agressividade, a competição, a constante comparação
entre O QUE É e o que pensamos que deveria ser — tudo isso são produtos do
medo, o qual gera várias formas de violência. Por causa do medo, andamos
sempre ansiosos, em constante estado de conflito, tanto com nós mesmos,
como com os demais. É possível a mente ficar totalmente livre desse medo
produtor de violência? Nós necessitamos de paz, tanto externa como
internamente, mas a paz não é possível sem liberdade, se não nos livramos
completamente dessa atitude agressiva perante a vida.

Pode nossa mente se libertar totalmente e imediatamente da limitante carga do


passado, de modo que se torne nova e olhe a vida de maneira inteiramente
diferente? O atual estado de nossa consciência é uma limitação.

23
Se estamos plenamente apercebidos de nosso processo mecânico de pensar,
sentir e reagir, observamos por nós mesmos que estamos a enganar-nos, a
mover-nos de um campo para outro, realizando meras fugas geográficas, mas
sempre levando conosco, a mesma limitada e separatista consciência. A
consciência é sempre limitada porque, nela, existe sempre o OBSERVADOR. O
observador, o censor, onde quer que esteja, causa a limitação da consciência,
impede o cérebro de funcionar em sua totalidade, consequentemente, impede
a explosão da libertária percepção integrativa, com sua dimensão de amorosa
lucidez.

Toda mudança ou revolução promovida pela vontade pessoal, pelo desejo de


prazer, pelo evitar ou fugir, pela pressão, pela tensão, pela conveniência, fica
dentro daquela limitada e calculista consciência e, por conseguinte, é sempre
limitada, sempre perpetuadora de conflito, ansiedade e confusão. No meu
24
sentir, se não nos libertarmos da limitação de nossa atual consciência, que nos
prende ao tempo, ao conteúdo de nosso passado de experiência incompletas,
em cujo centro está o limitado observador, continuaremos a sofrer,
infinitamente, continuaremos a viver numa enfadonha rotina, onde
desconhecemos o que é amor. Em vista disso, é possível esvaziar-se a totalidade
da limitada consciência, a totalidade da mente com base no medo, com todos
seus artifícios, apegos e vaidades, seus embustes, suas simulações, seus anseios
e códigos de moral, etc. — tudo isso com base essencialmente na busca de
prazer? Podemos nos libertar totalmente, esvaziar a nossa mente, de modo que
possamos olhar, agir, viver de maneira de todo nova, diferente? Digo que isso é
possível, mas não por motivo de vaidade ou de alguma extravagância
supersticiosa, mística. Só é possível se percebemos que o observador, o centro,
é a coisa observada. Requer-se muita maturidade, muita base emocional para se
chegar a esse ponto de percepção.

Vivemos em constante estado de inquietude e conflito, porque não sabemos


responder assertivamente às circunstâncias que se nos apresentam, as quais
estamos condicionados a vê-las como "problemas". Falta-nos a compreensão
total, a qual não é mera concordância emocional, sentimental diante o que é.
Há plena compreensão de qualquer circunstância, quando a mente se acha
totalmente quieta, sem que essa quietude tenha sido provocada, conseguida à
força de disciplina, o que requer tempo. Só então há plena compreensão do que
é e, na plena compreensão do que é, não existe qualquer tipo de consolação.
Isso acontece, com efeito, quando a mente se depara com aquilo que ela vê
como um "problema" qualquer. Depois de muito refletir a seu respeito, de
investigá-lo, examiná-lo de todos os lados, não encontra ela solução; vê-se
25
rodando em círculos, num escuro e confuso labirinto.A mente então, deixá o
problema de lado, tornando-se momentaneamente quieta em relação a ele. E
então, SUBITAMENTE, dá-se a explosão da integrativa percepção libertária. Não
é nada de extraordinário. A plena compreensão só pode vir quando há direta
percepção libertária, e não um processo de esforço no tempo que culmina
numa lógica conclusão.

Em vista disso, nossa questão é: Como podemos criar um novo estado mental-
emocional? Só poderemos criá-lo, se ocorrer uma revolução total em nós
mesmos, por nós mesmos; quando não tivermos medo, por termos
compreendido a natureza exata, a estrutura, o significado do medo; por termos
entrado diretamente em contato com ele, por termos nos permitido SENTI-LO
em cada célula do nosso ser, que é uma coisa que não deve ser evitada, porém
plenamente compreendida. Isso é possível? É possível compreendermos a
inteira estrutura do pensamento, que está sempre gravitando em torno de um
limitadíssimo centro; compreendermos a totalidade do mecanismo do pensar,
que é resultado da memória e, portanto, a causa da limitação da consciência? É
possível determos por completo o fluxo do mecânico e não solicitado
pensamento, funcionarmos completamente livres das marcas psicológicas de
nosso passado de experiências incompletas — conscientes delas ou não —, tal
como atualmente funciona nossa mente?

26
Precisamos ter a plena percepção de que a natureza exata de nosso estado de
contradição é a ideia e o fato — o que é. Se não houver nenhuma ideia, nenhum
conceito, nenhuma crença, nenhum dogma, nenhuma amanhã (que é sempre
uma idealização, uma ilusória conjectura), poderemos ter a percepção libertária
referente ao que é. Para termos a plena percepção do que é, não necessitamos
de ideias; só temos que observar. Nossa trave de tropeço é que fizemos da ideia
algo muito importante; agimos, funcionamos com base nas ideias, nos
conceitos, nas fórmulas, nos sistemas, nos métodos e nas programações, quase
sempre oriundas de doações psicológicas de terceiros. Todas as nossas
atividades derivam de ideias e, por conseguinte, há contradição entre ação e a
ideia. Temos uma ideia, um ideal, uma crença, e atuamos em conformidade
com ela, ou a ela ajustamos nossa "reação" (nesse modo de ser, nunca agimos
de fato). A ação libertária e criativa nunca pode ser ideia. A ideia, por ser
produto do tempo, é irreal; só a ação, que não depende do tempo, é real. Toda
ideia é puramente teoria. Assim, nos perguntamos: É possível agir sem ideia?

O grande problema é que, para a maioria de nós, não sabemos o que é


"observar". Nunca observamos nada, nem ninguém, em sua totalidade; nossa
observação é sempre fragmentada pela ideia, pela palavra, por uma conclusão,
um nome, uma crença, os quais adulteram a possibilidade de uma real e plena
observação. Só é possível observar plenamente quando o arquivo da memória,
em forma de pensamento, não está mecanicamente funcionando. Se estamos à
espera de alguma coisa, de não-sei-o-quê, esta expectativa nos impede a plena
percepção; a ideia, o conceito, o limitado conhecimento nos impede de
observar.
27
Assim, é possível observar, olhar, ver, sem a afetação dessa mecânica atividade
do nosso fundo psicológico, em forma de ideia, de pensamento? Onde a
memória interfere, não há integrativa percepção libertária. É possível
libertarmos a mente da adulterante carga do passado, por inteiro, e, se é
possível, como poderemos esvaziá-la? Só no vazio é possível a ocorrência de
algo novo. É possível colocarmos de lado, totalmente, o atual conteúdo de
nossa limitada consciência, que tem acumulado tantos conceitos, ideias e
incompletas experiências e se acha aprisionada nesse estado que tem por
centro o observador? Tendo feito a pergunta, cabe-nos descobri-lhe a resposta,
por nós mesmos. Não há autoridade, nem guru, nem sacerdote que possa
responder a tal pergunta; e alcançar o ponto em que, psicologicamente, não
dependeremos de ninguém, é o primeiro e provavelmente o último passo que
temos de dar.

28
Precisamos de um estado de quietude mental, não provocado pela vontade
pessoal. Podemos disciplinar a mente e torná-la quieta, podemos forçá-la,
controlá-la, porque temos uma ideia de que a ente deve ficar quieta, pois
esperamos nessa quietude, alcançar alguma coisa, ganhar ou realizar alguma
coisa, experimentar alguma coisa; isso não passa de ação calculista, a qual
somente perpetua o atual estado de consciência, limitada em seu
autocentramento. Essa quietude calculada, provocada, portanto, é uma coisa
estéril. Mas, a quietude é algo inteiramente diferente; esse silêncio vem
naturalmente, quando há compreensão e não há esforço algum.

A mente quieta, livre do medo, capaz de plena percepção, é um estado natural


quando existem as bases corretas, as quais não são resultantes de ideias,
conceitos, sistemas, métodos ou programações.

29
A questão de se é possível a mente aquietar-se tem de ser examinada em todas
as suas facetas, em todos os seus aspectos, com a totalidade de nosso ser e não
apenas por meio da limitada lógica e razão. É possível a mente aquietar-se, não
ser afetada pela carga do passado, deter seu mecânico e não solicitado
movimento de imagens e conceitos? É possível deixar de ficar tagarelando
perpetuamente? Para compreender isso, temos de examinar a questão do
pensamento e verificar se a mente, que inclui também o cérebro, pode tornar-
se quieta, apesar de suas reações.

Por meio do limitado intelecto, temos tentado todos os meios para fugir dos
nossos problemas, evitá-los ou encontrar algum pretexto para não resolvê-los.
Falta-nos provavelmente a capacidade, a energia, o impulso necessários para os
resolvermos e, tão habilmente preparamos as nossas vias de fuga, que não
percebemos sequer que estamos a fugir. Mostra-se necessária uma mudança
total, uma radical revolução de nossa capacidade de uso da totalidade da
estrutura cerebral, revolução que não seja uma "continuidade modificada" da
velha estrutura adulterada pela ação do medo, porém uma total mutação
psicológica que liberte as células cerebrais, de todo, de sua sujeição ao tempo;
que as tornem capazes de ultrapassarem a limitada estrutura do pensamento,
não para ingressarem numa certa idealizada região metafísica, porém, sim,
numa real, lúcida e impessoal dimensão atemporal, onde as células cerebrais
não mais estarão fechadas em sua adulterada estrutura e seus problemas.
Percebemos essa absoluta e emergencial necessidade de uma mudança
completa de nossa capacidade de uso cerebral.

30
Temos tentado muitos meios de superar nossa atual limitação da capacidade
cerebral: LSD, crenças, dogmas, sistemas de crença organizada, rituais com uso
de estimulantes, métodos de meditação, forçosas disciplinas e programações. E,
ao cabo de tudo isso, a mente tem permanecido exatamente a mesma: vulgar,
estreita, limitada, ansiosa, ainda que tenha passado por "lampejos de
iluminação", "flashes de lucidez". É isso o que anda fazendo a maioria de nós,
em nosso esforço para alcançarmos uma certa visão, um estado de lucidez, algo
que não seja produto do inseguro e confuso pensamento — somente para
voltarmos ao mesmo estado de inquietude, confusão e doloroso sentimento de
insuficiência psicológica. A verdadeira liberdade do espírito humano, nos parece
inexistente. Não sabemos o que significa liberdade, felicidade, comunhão, amor.
Só somos capazes de formar uma imagem, uma ideia, uma conjectura, uma
conclusão, a respeito desses estados de ser. Para experimentarmos tais estados,
os encontrarmos realmente, temos que deixar os estreitos limites cridos pelo
intelecto discursivo, e mergulhar num profundo exame, com muita penetração
do nosso processo pensante. Temos que nos perguntar: é possível nos
libertarmos totalmente, imediatamente — psicologicamente? Libertar nossa
mente do medo, do condicionamento da necessidade de esforço, de toda
espécie de ansiedade? Essa libertação deve ser inconsciente, isto é, não deve
ser deliberadamente provocada.

31
Nossa mente está agrilhoada, condicionada pela sociedade, por nossas
experiências incompletas, nossa herança racial, enfim, por todas as influências
que o homem está sujeito. Podemos nos libertar de tudo isso e, por nós
mesmos, descobrir um estado mental inteiramente incontaminado pela carga
psicológica colhida no tempo? Afinal, é isso o que todos nós estamos buscando.
Estamos cansados das diárias e superficiais experiências da vida, de seu tédio,
de sua trivialidade, desejamos alcançar, através da experiência, um estado
muito superior de consciência.

Como pode a mente tão condicionada pela experiência diária, pelo limitado
conhecimento, pelas influências sociais e econômicas — como pode essa mente
promover uma revolução total, uma mutação em si mesma? Porque, se isso não
for possível, estaremos condenados a permanecer na aflição, na ansiedade, na
“culpa”, no desespero, na superficialidade daquilo que pensamos ser relações e
32
no agonizante sentimento de insuficiência psicológica. Portanto, aquela é uma
pergunta válida e para ela teremos de achar uma resposta correta, não uma
resposta intelectual, verbal, uma conclusão, uma ideação, uma conjectura;
temos de achar a integrativa percepção libertária e “nela viver”.

Se queremos entrar naquela bem-aventurada região de amorosa lucidez, nós


temos que mudar. Há em nós muito do animal: agressividade, violência, avidez,
ambição, busca de sucesso, poder e prestígio, apego e esforço para dominar.
Podem esses remanescentes do animal ser totalmente erradicados, de modo
que a mente deixe de ser medrosa, violenta, agressiva? A menos que a mente
se encontre em perfeita harmonia, em completa tranquilidade, não há
possibilidade de descobrir-se aquela bem-aventurada região de amorosa
lucidez. Sem esse descobrimento, sem a total transformação da mente,
ficaremos vivendo no processo temporal da imitação animal, continuaremos
com o que era, a viver no passado. O passado não só está presente, mas
também o presente é o passado. Portanto, a mudança é uma necessidade
inadiável, porquanto nossa vida é bastante trivial, vazia, monótona e estúpida,
sem significação, sem profundidade. Tudo que o homem imaturo tem por
"viver", tudo isso, para um homem amadurecido, é muito pouco significativo.
Muitos de nós sabemos isso, mas não sabemos como fazer explodir uma
libertária e amorosa ação criativa; não sabemos como deter o processo
temporal, como findar com o condicionamento transgeracional e despertar
aquela dimensão de amor transpessoal.

33
Mudança, para a maioria de nós, significa um movimento em direção ao
conhecido. Ora, isso não é uma mudança real, porém uma continuação do que
era, num padrão superficialmente modificado. Todas as revoluções sociais se
baseiam nessa espécie de mudança, cuja essência é “imitação”. Quando falamos
em mudança, não se trata de mudança ou mutação de o que ERA para o que
DEVERIA SER. Temos a necessidade não só de mudança, mas também da
libertação total dos nossos limitantes condicionamentos, dos nossos temores,
as ansiedades, a total solidão e a monotonia da vida. Precisamos descobrir se
essa limitada estrutura de herança animal, pode ser totalmente demolida, para
que possa tornar-se existente um novo, qualitativo e lúcido estado mental. Esse
novo estado mental não pode ser preconcebido; se o é, trata-se meramente de
um conceito, de uma ideia; e uma ideia nunca é o real.

34
Para que ocorra uma significativa mutação em nosso atual estado de
consciência, temos que compreender a indevida importância que temos dado
ao prazer. Se não compreendermos o modo como lidamos com o prazer, a
mudança ficará sempre na dependência do prazer e da dor, da recompensa ou
da punição. O que todos queremos é prazer, cada vez mais prazer e não a
realidade do amor transpessoal. Queremos o prazer físico, do sexo, das posses,
do luxo, etc. — o qual é muito fácil de se compreender e de rejeitar — ou o
prazer psicológico, no qual estão baseados todos os nossos valores morais,
éticos, espirituais. Todas as nossas relações se assentam nessa base. O animal
só deseja o prazer e há muito do animal em nós. A menos que compreendamos
a exata natureza e estrutura do prazer, a mudança ou a mutação será uma mera
forma de continuidade do prazer, no qual está sempre contida a dor.

Porque buscamos com tanta persistência essa coisa chamada prazer? Por prazer
entendo o sentir-nos psicologicamente superiores, a violência e sei oposto, a
não violência. A violência proporciona grande prazer. Há enorme prazer em
adquirir, em dominar, em controlar; e, psicologicamente, no sentimento de
possuir uma certa capacidade, de ter alcançado algum objetivo importante, no
sentimento de se ser inteiramente diferente de outras pessoas. Nesse princípio
do prazer estão baseadas as nossas relações; nele se alicerçam nossos valores
morais e éticos. O supremo prazer não é só o sexo, porém a ideia de termos
descoberto Deus, de termos descoberto algo totalmente novo. Estamos
constantemente nos esforçando por alcançar esse prazer supremo. Nunca
refletimos sobre o que é o prazer, sobre se, psicologicamente, existe um estado
REAL de prazer. Por meio do pensamento concebemos ou formulamos o prazer
e desejamos alcançar e perpetuar esse prazer. O prazer, pois, nasce do pensar.
35
Cumpre compreender tudo isso muito profundamente, perceber com o máximo
de lucidez a estrutura inteira do prazer, em vez de tratarmos de nos livrar dele,
o que demonstra total ausência de maturidade, do modo como o fazem os
monges. Seria bastante absurdo e insincero, de nossa parte, dizermos não estar
em busca de prazer imediato. Todos o estão buscando. Só podemos nos libertar
da dependência do prazer, quando compreendemos plenamente a estrutura do
pensar e também a estrutura do mecanismo da memória, pois são eles que
criam, alimentam e perpetuam a busca do prazer. Em vista disso, surge a
pergunta: Como é possível uma ação que atinja a estrutura do prazer e que não
seja inspirada pelo desejo de mais prazer?

O homem vive há muitos milênios, há milhares e milhares de anos, e é o resíduo


de todos os tempos, o resultado do tempo infinito. A menos que o homem
ponha fim a limitante afetação do tempo, ficará preso a esta roda — a roda do
pensamento, da experiência e do prazer. Todos tememos a morte; e a morte é
36
uma coisa totalmente diferente do observador. Mas nunca se indaga o que é o
observador. Quem é que tem medo? Aquele que sente medo tem naturalmente
ideias neuróticas de toda espécie. Quem é o observador em relação ao medo? O
observador é o conhecido, com suas experiências, seu conhecimento, seu
condicionamento, seus prazeres, suas memórias — tudo isso constitui o
observador. O observador teme a morte, porque o observador é mortal. O que
é o observador? Apenas um pacote de ideias, fórmulas, imagens, memórias —
JÁ MORTAS.

A maioria de nós não percebe o quanto está confusa. Quando estamos


vinculados a uma dada fórmula, ou ao mais moderno sistema de pensamento
organizado, pensamos que estamos livres de confusão. Não estamos; e nossa
confusão só cessará quando não houver nenhum movimento do observador. Há
momentos em que pensamos não estar confusos, porém muito lúcidos; no
momento seguinte estamos confusos. Pensamos ter resolvido completamente
um problema, e esse mesmo problema torna a surgir num outro dia. Nos vemos
em confusão; e, de dentro dessa confusão, escutamos, buscamos uma
autoridade — a qual também é confusa. O que escolhemos nasce de nossa
confusão e, por conseguinte, É TAMBÉM CONFUSO.

Todo escolha é um ato nascido da confusão. Quando me vejo desorientado, na


incerteza, é então que escolho. A escolha é resultado da incerteza. Por causa de
minha confusão, desorientação, incerteza, falta de clarividência — por causa
disso escolho um guia; escolho determinada linha de ação; vinculo-me a um
determinado grupo, a uma determinada programação. Mas essa programação,
esse padrão de ação, a busca de determinado modo de pensamento resulta de
37
minha confusão. Se não estou confuso, se não há confusão de espécie alguma,
não há então escolha; vejo as coisas como são. Não atuo por escolha. A mente
capaz de escolher é, com efeito, uma mente muito confusa.

Não sabemos o que é liberdade. Os políticos e os religiosos, falam de liberdade,


mas não falam a sério. Traçaram um certo roteiro, certo padrão de
comportamento, de pensamento e ação para a libertação. Mas, nega-se a
liberdade quando há ajustamento, limites, fronteiras, quando há um forçoso
ajustamento a um padrão social ou religioso. Sabemos o que é liberdade? Há
liberdade quando há escolha?

Toda escolha, todo ajustamento, é um ato nascido da confusão. Se a mente está


confusa (e sabemos quais são as razões dessa confusão: os políticos, as
filosofias, os teólogos e sacerdotes com seus respectivos padrões de
38
pensamento, a nos dizer o que devemos fazer, o que não devemos fazer, o que
devemos crer e o que não devemos crer), o ente humano, em geral, se verá
desorientado, sem saber o que fazer. A meu ver, a coisa principal é que não
estejamos ligados a nenhuma organização, a nenhuma bandeira — religiosa,
política, sectária; não estar ligado a nada. Isso é dificílimo, porque por todos os
lados nos vemos pressionados a nos ligar a alguma coisa. É por causa de nossa
confusão que aceitamos a ligação, o ajustamento, a filiação. Pode a mente
entrar num estado completamente livre de vínculos e filiações? Pode a mente
que percebe a sua confusão, que reconhece que está ligada a uma determinada
norma de ação, social ou religiosa, quebrar todos os vínculos, não porque
alguém disse que deve fazê-lo, porém por compreender que qualquer padrão
de pensamento ou ação engendra mais confusão, mais insuficiência psicológica?

Ver-se completamente livre de vínculos é uma das coisas mais difíceis que há.
Nos comprometemos porque pensamos que tal compromisso nos conduzirá a
uma certa lucidez, uma certa facilidade de ação. E quando nenhum
compromisso temos, nos sentimos como que perdidos, desorientados, como
um estrangeiro, porque todos em volta de nós estão inconscientemente
comprometidos; todos estão presos nesta rede.

Ter a percepção libertária referente aos nossos problemas — principalmente no


que diz respeito a limitada estrutura mental-emocional da qual decorrem
nossos problemas —, é muito difícil, porque a mente exige que façamos alguma
coisa, que tomemos qualquer ação; que não podemos mais esperar, ficando
num confuso labirinto sem fim em busca do que fazer. Ora, por certo, a mente
que está confusa deve, antes de tudo, perceber que está perturbada e,
39
também, ter a plena percepção de que todo movimento procedente dessa
perturbação SÓ IRÁ CRIAR MAIS PERTURBAÇÃO. Não estar ligado a nada
significa estar psicologicamente completamente só; e isso exige plena
compreensão do medo. A trave de tropeço e que ninguém deseja estar só.

O "estar psicologicamente só" implica percebimento de tudo o que está


implicado nas várias formas de compromisso que o homem busca por causa de
sua confusão. Quando um ente humano amadurecido, plenamente saturado de
sua confusão, exige por libertação, há então esse percebimento dos fatos
decorrentes da confusão. Daí vem o "estar psicologicamente só". Então, esse
homem ESTÁ PSICOLOGICAMENTE SÓ, descobre sua AUTOSSUFICIÊNCIA
PSICOLÓGICA e é realmente um homem sem medo. Então, uma vez plenamente
percebido que toda ação nascida da confusão só conduz a mais confusão, se
não estamos mais comprometidos com nenhum sistema, método, programação
ou forma de ajustamento, qual é então a ação correta, uma vez que viver é agir?
Na atual consciência com base no medo, nossa ação é sempre de ajustamento a
uma ideia, um símbolo, uma ideologia, uma programação, uma filosofia, uma
experiência incompleta que tivemos, ou a nossos limitados conhecimentos,
nossas experiências acumuladas, nossas tradições, etc., sempre uma reação
com base no passado morto. Mas a ação libertária está sempre no presente
ativo. Em vista disso, existe alguma ação que não seja de ajustamento, que não
seja afetada pelo limitado conteúdo de nosso passado? Só quando estamos
plenamente livres da afetação das marcas psicológicas de nosso passado, temos
intensa e lúcida energia e paixão, a qual nada tem a ver com o condicionamento
de romantismo, com a "paixão carnal". Sem essa lúcida energia e paixão, somos
seres mecânicos, meros relógios de repetição, máquinas ajustadas pela
sociedade, pela propaganda, pelo meio familiar-cultural em que fomos criados,
40
ou pelos sistemas de crença organizada. Há uma extraordinária diferença entre
a escravizante paixão do prazer e a libertária paixão que nasce quando estamos
completamente libertados da confusão, quando há lucidez total. Essa lucidez só
se torna possível,com sua intensidade criativa, sua libertária paixão, sua
atemporalidade, sua impessoalidade, quando temos a plena percepção do que é
ação e se a ação pode ser livre da imitação, do ajustamento aos ditames da
sociedade, dos nossos temores, da nossa intrínseca indolência.

A maioria de nós, vive de modo mecânico; gostamos de repetir e tornar a


repetir, principalmente aquilo que nos proporciona grande prazer: o ato sexual
e as preferências gastronômicas. Isso se torna tanto mais importante, quanto
mais mecânica e superficial a sociedade se torna. É o que está acontecendo no
mundo. Quando o progresso é tecnológico, exterior, quando a prosperidade é
egocêntrica, o prazer se torna então da mais alta importância, seja o prazer do
sexo, seja o prazer da comida, seja o prazer da experiência religiosa. Estamos
enfrentando uma tremenda crise na vida. Alguns conhecem essa crise, que não
é econômica, nem social, porém uma crise na própria consciência limitada por
sua base de medo. E, para abrirmos caminho através dela, para reagirmos
assertivamente a essa crise, necessitamos de muita energia e seriedade.
Precisamos descobrir se a mente pode se libertar de seu condicionamento, e se
podem também se libertar a totalidade das células cerebrais, que vêm sendo
fortemente condicionadas há tanto anos e que têm seus próprios padrões de
reação. Quando a mente está sendo afetada pelo medo, só sabe "reagir" às
circunstâncias; não pode saber o que é "ação correta", "ação lúcida", "ação sem
ideia", portanto, com sua mecânica reação, somente reforça o próprio
condicionamento. Em vista disso, existe outra ação que não seja condicionante,
41
uma ação que não seja baseada na busca de prazer imediato? Pode haver
alguma ação não subordinada a um padrão egocêntrico? Existe alguma ação
não causadora de dependência psicológica? Para responder estas questões, não
há espaço para a prática do “passo a passo”, não há processo de exame no
tempo; não há processo gradual de compreensão: A percepção libertária não é
criada por um forçoso processo gradual, pelo tempo.

A mente confusa que busca pela lucidez de uma percepção libertária, só pode se
confundir cada vez mais, porque uma mente confusa não pode achar a lucidez
de tal bem-aventurada percepção. Está confusa; que pode fazer? Toda busca de
sua parte só levará a maior confusão. Não parecemos ter a plena percepção
disso. Quando a mente está confusa, devemos nos deter, deter toda e qualquer
atividade, e essa própria detenção é o começo do novo, o qual apresenta a
verdadeira liberdade do espírito. Tudo isso implica que deve haver um profundo
autoconhecimento — conhecimento de toda a estrutura de nosso pensar-sentir,
dos motivos, dos temores, das ânsias, da "culpa", do desespero. Para
conhecermos a totalidade do movimento de nossa mente, temos de estar
EXTREMAMENTE VIGILANTES, identificando o que nela passa mas, SEM SE
IDENTIFICAR com o que nela é observado; temos que observar sem resistência,
condenação ou reativa identificação emotiva, sem prazer ou desprazer, sem
aprovação nem reprovação — apenas observar e SENTIR. Essa qualidade de
observação produz, de forma natural, a negação da identificação com a velha e
disfuncional estrutura mental-emocional. Por conseguinte, o autoconhecimento
que surge pela retomada da plena sensibilidade, da capacidade de sentir, é o
começo da autossuficiência psicológica, da qual desponta a real sabedoria que
não é acumulo da carga do tempo. Nessa sabedoria está o findar de toda
42
dependência psicológica e seu decorrente sofrimento. O autoconhecimento não
pode ser adquirido num livro, nem por procurarmos um psicólogo, um
sacerdote, um guru. O autoconhecimento é a plena percepção verdadeira do
que é — o que há de fato em nós: dores, apegos, ânsias; vê-lo sem nenhuma
desfiguração. Desse pleno percebimento explode o integrativo e depurador
insight, do qual surge aquela dimensão de amorosa lucidez.

Para que haja autoconhecimento, tem de haver uma ação de aprender, de


momento a momento. Disseram-me muitas coisas a respeito de mim mesmo:
que sou a alma, a chama eterna, o "Puro Ser", o "Eu Sou", e sabe Deus o que
mais. Há dúzias de filosofias e ideias infantis: "eu superior", "eu inferior",
"realidade permanente", "natureza real", “cristo interior”, etc. Os gurus adoram
fazer uso desses termos. Desejo conhecer a mim mesmo; portanto, é bem óbvio
que TENHO QUE REJEITAR TUDO ISSO. Tenho de rejeitá-lo, observando a
maneira terrível como a mente tem sido facilmente influenciada e, portanto,
EXPLORADA. Somos escravos da propaganda — comercial, política, religiosa. É o
que somos, e para compreendê-lo plenamente, não podemos condenar aquilo
que em nós observamos. Não devemos julgar nada do que se apresenta em
nossa observação. Só temos que, simplesmente, observar e, para observar, não
deve haver condenação, nem justificação, nem racionalização, nem aceitação
conformista ao que é. Então observo para ver tal como sou e não como penso
que deveria ser. Vejo como realmente sou; não condeno e nem me conformo.
Só observo pacificamente. Vejo os movimentos, as tendências de meu pensar, o
padrão de meu pensar, sempre na ponte do tempo, passado-futuro, memória-
projeção, o padrão do meu sentir, os impulsos que clamam por uma
inconsequente reação emotiva, vejo minhas ansiedades, angústias, tristezas,
43
temores, apegos, meus motivos, minhas manias e tendências. Dessa qualidade
de observação pacifica, explode a ação que é a total negação do que foi, a total
libertação do processo mecânico do pensar e sentir.

Precisamos descobrir, por nós mesmos, se existe um estado de percebimento,


em que a carga das incompletas experiências de nosso passado não se
reafirmem continuamente, não adultere a percepção do aqui e agora. Temos de
reconsiderar toda a questão do tempo. Se há total percebimento da tentativa
de afetação do tempo, não há então continuidade de nosso antigo e
inconsciente impulso de reação emotiva. Quando estamos completamente
atentos, com nossa mente, nosso coração, nossos nervos, nossos olhos, nossos
ouvidos, com cada célula de nosso ser — quando a totalidade do que somos
está atento, não HÁ NENHUMA AFETAÇÃO DO TEMPO. Nossa trave de tropeço
está no fato de que, na maior parte do tempo, estamos desatentos, e nesse
estado de desatenção, criamos aflições para nós mesmos. Se estamos
plenamente atentos ao que está ocorrendo em nosso interior, bem como no
exterior, deixa de existir a mecânica identificação com o impulso reativo
emotivo, o qual cria fragmentação, separação e impede a suprema realização da
qualidade que é amor. A atenção está sempre no presente, no aqui e agora.
Nisso consiste a arte de viver em plenitude. Quando estamos atentos,
INTEIRAMENTE, com a totalidade de nosso ser, nesse estado a ação é
instantânea, lúcida, criativa e libertária. Quando há autoconhecimento, quando
estamos PENETRANDO PROFUNDAMENTE em toda a estrutura mental-
emocional, na natureza de nós mesmos, então a atenção se torna uma coisa
natural. Há grande beleza na atenção, pois, dela, explode aquela dimensão de
amorosa e libertária lucidez.
44
Existe uma sincronia de relação entre a atenção, energia e integrativa ação
libertária. A desatenção é dissipação de energia. Mas, nós somos exercitados
pela educação, pela estrutura familiar-social e psicológica da cultura, para
estarmos nos distraindo, nos entretendo, para estarmos desatentos. Outros
pensam por nós; pela sagaz propaganda, nos dizem o que devemos fazer, no
que devemos acreditar, o que devemos cultuar, o que devemos experimentar,
nos receitam drogas escapistas. E nós, em nosso estado de confusão e medo,
tais como indefesos carneiros, os seguimos. Tudo isso é desatenção. Quando há
autoconhecimento, quando estamos penetrando profundamente em nossos
medos, conhecendo as escuras camadas de nossa velha estrutura mental-
emocional, quando estamos alcançando a natureza exata de nós mesmos, então
a atenção se torna o nosso natural estado original. Nesse natural e pleno estado
de atenção, dá-se a "suprema explosão" da graça do amor. Nessa atenção
somos salvos de nossos conflitos.

45
A menos que resolvamos a questão fundamental referente a superação da velha
e disfuncional estrutura mental-emocional, a mente estará condenada a
deteriorar-se, a permanecer em seu estado de imaturidade. É possível deter
essa continua onda de deterioração, não só da mente e do coração, mas
também a deterioração proveniente da falta de zelo, de ardor, de paixão?

Para podermos compreender a totalidade da velha e disfuncional estrutura


mental-emocional, é óbvio que a identificação impulsiva-reativa-emocional,
oriunda da afetação do medo, deve terminar. Temos de sentir e compreender o
medo, não buscar por uma explicação do medo, mas compreender e
transcender a natureza do medo. Num assunto desta natureza, devemos nos
aprofundar com uma mente nova, uma mente que não esteja esperando nem
desesperada, uma mente capaz de observar de forma não reativa, de enfrentar
os fatos sem o menor estremecimento, sem a menor inquietação, o menor
medo ou ansiedade, caso contrário, não há a menor possibilidade da suprema
realização da integrativa percepção libertária. A menos que a identificação
reativa com relação ao medo seja dissipada, não teremos a possibilidade de
compreender a totalidade da estrutura de nosso atual estado de consciência e,
por conseguinte, transcender seu estado de limitação. A mente deve estar
completa e inteiramente livre do medo, porque a mente que tem medo, que
está num estado de desespero ou nutre a fantasia da esperança, com os olhos
no futuro, essa mente está envolta em nuvens, é uma mente confusa, incapaz
de pensar com lucidez, a não ser em assunto relativos ao seu condicionamento
técnico. Aí, ela até pode pensar com lucidez — o que também é raro, pois, em
geral, ela funciona mecanicamente. Mas, a mente que tem medo vive num
confuso e escuro labirinto; está sempre rodopiando em si mesma; a mente que
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está confusa, no desespero, na ansiedade, é incapaz de resolver qualquer coisa
fora do processo mecânico da existência. E, pelo que parece, a maioria de nós
vive mecanicamente, superficialmente, numa rotina sem sentido. Preferimos
não nos ocupar com assuntos profundos, como este da possibilidade de
superação da nefasta afetação do medo, resultante da carga de nosso assado; o
que preferimos mesmo, é buscar por entretenimento, por distração, por prazer
imediato. Por isso somos seres imaturos, sem nada de realmente significativo,
para compartilhar com a totalidade da espécie humana. Em vista disso, é
possível estar-se livre em todo o campo da mente, tanto no chamado
inconsciente, como no consciente?

Ao investigarmos, ao examinarmos a questão do medo, temos de abarcar o


campo inteiro, e não uma dada forma particular de medo, não nosso medo
“favorito” ou o medo que estamos evitando. Para compreendermos o medo em
sua totalidade, devemos olhá-lo não fragmentariamente, um medo neurótico
que sentimos. Devemos olhá-lo, como que “revirando suas vísceras”. Depois
podemos passar ao particular, considerar os detalhes, olhar a estrada que
estamos percorrendo, a cidade a que estamos nos dirigindo. Necessitamos de
compreensão total, e isso é um tanto difícil, porque estamos acostumados a
pensar em termos do “particular”, de fragmentos. O contato com a totalidade
do medo, exige atenção total; todo o nosso corpo, nossa mente, nosso coração,
nossos nervos, devem se achar no mais alto grau de intensidade. Só então há
atenção, só então há aquela extraordinária energia, a qual não se deixa levar
por nossos neuróticos impulsos emocionais reativos, os quais são usados pela
atual consciência limitada, como mecanismo para impedir a suprema realização
de um depurador insight integrativo. Só com essa qualidade de plena atenção,
47
podemos observar, compreender e transcender a atual consciência com base no
medo. No estado de plena atenção, não há a concentração fragmentária,
dividida, parcial, aplicada a um dado assunto; com ela vemos o todo, a
totalidade do medo, sua estrutura, sua significação e importância, o modo como
ele percorre o nosso interior. Se alcançarmos esse ponto, veremos então que
ocorre um “ponto de mutação”, onde o medo termina total e completamente,
porque não estamos mais fugindo pela palavra, pela verbalização, pelo símbolo,
pelo conceito, pela programação, ou por qualquer outra forma de doação
psicológica de terceiros. Uma pessoa só se torna plenamente atenta, quando os
problemas são urgentes e estabelecem um bem-aventurado “ponto de
saturação”. Sentimos e aceitamos imediatamente o desafio de descobrir um
modo de viver sem medo, com ele entramos em contanto com a totalidade de
nosso ser.

De ordinário, nunca estamos em contato direto com um problema, um desafio,


uma questão difícil, porque, quando surge o problema, já conjecturamos uma
solução para ele. Já temos uma conclusão, uma mente sagaz e "verbal", que
enfrenta a palavra, o desafio, com uma velha e ilusória resposta pronta. Por
conseguinte, não há contato real. "Estar em real contato" significa tocar e se
deixar tocar pela coisa, e não podemos entrar diretamente em contato com
uma dada coisa, se houver alguma ideia preconcebida, algum conceito, alguma
conclusão. Para entrar em contato direto com o medo, temos que compreender
que a mente está enredada por palavras, porquanto, todo o nosso pensar é
formulado por palavras, símbolos; temos de estar livres da estrutura verbal
criada pela fragmentação cerebral, pela mente com base no medo. Se
queremos entrar em contato direto com o medo, temos que tocá-lo e deixar
48
sermos tocado por ele. Se a pessoa é sagaz, dotada de um intelecto discursivo,
talentosa, erudita, cheia de "achar que sabe tudo", não pode tocá-lo de nenhum
modo; não há contato direto com ele. Se olharmos para isso com atenção plena,
sem se escorar em nenhuma conclusão pessoal, descobriremos o campo total
da mente, e a mente compreenderá a natureza limitante da palavra e dos
símbolos, como a palavra e o símbolo dão vida ao sentimento, e como a mente
preconcebe aquilo de que tem medo. Nesse estado de plena atenção, a
verbalização, o simbólico, o processo do pensar verbalmente, tudo termina e
estamos habilitados a entrar em contato direto com essa coisa chamada
"medo".

É muito importante compreender a questão do "tempo". Não se pode


compreender o amor e a morte através do tempo, através de palavras, de ideia,
de incompletas experiências pessoais. Esta questão do tempo é importante,
porque para compreender a morte temos que compreender o tempo; e
compreender a morte e o tempo é saber, compreender o que é o amor. Sem a
compreensão do medo, do tempo e, por consequência direta, o que é o amor, a
vida pouco significa. Podemos ter muito dinheiro, belas propriedades, sermos
publicamente conhecidos, estarmos no que pensamos ser uma "relação
saudável", mas isso tem pouquíssima significação. Quando a vida perde o seu
significado profundo, estamos então satisfeitos com a atividade superficial, que
leva a mais confusão, mais sofrimento, mais medo. Para ser criada uma nova
maneira de viver, uma nova ordem mundial, os problemas fundamentais da vida
devem ser plenamente e imediatamente resolvidos. O tempo psicológico — o
amanhã — é uma ideia criada pela mente confusa, inquieta. O amanhã é criado
pelo pensamento, porque este, percebendo sua impotência de realizar uma
radical mudança direta e imediata, inventa a ilusão do processo da gradualidade
49
e do esforço. Nesse processo do tempo psicológico, a memória é muito
importante e é ela quem cria a compulsão pela repetição do prazer, o desejo de
repetir amanhã. A repetição do prazer "amanhã" é continuada pelo
pensamento. O pensamento, pois, é tempo; porque se, psicologicamente, não
penso no amanhã, não há amanhã. O pensamento — que é o que somos — com
todas as suas memórias, condicionamentos, ideias, esperanças, desesperos,
apegos; a total solidão da existência — tudo isso constitui o tempo. O cérebro é
resultado do tempo, resultado de milhões de anos. Ele tem suas reações de
avidez, inveja, ambição, ciúme, ansiedade. E para compreender o estado
atemporal, aquele estado em que a afetação do tempo parou, temos de
investigar se a mente pode ficar totalmente livre de toda a experiência, que é
do tempo. Sem a morte do tempo psicológico, não há como se dar a suprema
realização do amor. Temos, portanto, de averiguar se é possível vivermos tão
completamente que não haja ontem, nem hoje, nem amanhã: só a plenitude
“deste momento”.

O importante é viver o AGORA. O agora é o resultado de ontem: o que


pensamos, o que sentimos, nossas lembranças, esperanças, temores, tudo o
que se acumulou. Se tudo isso não for compreendido e dissolvido, não podemos
viver no agora.

Não existe AGORA, por si só, porque a vida é um movimento total, infinito, que
dividimos, psicologicamente, em ontem, hoje e amanhã e, consequentemente,
inventamos o processo gradual para alcançarmos a realização da suprema
libertação do espírito humano. Isso é fazer como o homem que fuma ou bebe:
gradualmente abandonará o vício; para tanto precisará de tempo. Há isso
chamamos “evolução”. A mente, o cérebro, a estrutura inteira, só
compreenderá o estado mental em que a afetação do tempo não existe, após
50
ter compreendido a natureza exata da memória e do pensamento. Poderemos
então encarar de frente e compreender a natureza e a beleza da morte, aqui e
agora, não uma coisa que está distante, “lá longe” e que dela temos que fugir
ou inventar teorias.

Você já experimentou morrer para um prazer, para qualquer coisa que você
anseia, sem o impulso de reação emocional, sem MOTIVO, sem discussão:
morrer, simplesmente, para tudo aquilo? Se for capaz de fazê-lo, saberá o que
significa a morte, aqui e agora: esvaziar a mente, totalmente, de todas as coisas
do passado. Isso pode e deve ser feito. Essa é a única maneira de saber o que é
a plenitude do viver, pois a realidade do amor é isso, não?

Não sabemos o que amor; o que temos por amor, é uma "transação", na qual
temos garantido o prazer sexual e o alívio do medo do desamparo e da solidão.
Todos participamos desse jogo multigeracional, o qual é uma herança de nossa
51
animalidade. Temos muito do animal em nós. Se realmente soubéssemos o que
é o amor, não mais nos preocuparíamos com essa coisa chamada "sexo", não a
discutiríamos tão apaixonadamente como se tratasse de algo novo.
Conhecemos o amor apenas como apetite sexual, com sua carnalidade, suas
exigências, frustrações, desesperos, ciúmes, apegos e todos os tormentos da
mente humana, sempre rodando em círculos atrás dessa coisa chamada "amor".

O amor não é pessoal; não tem absolutamente nada a ver com a fórmula
idealizada pelo pensamento, e ele só pode nascer quando a memória, como
lembrança e projeção, como pensamento, com todas as suas exigentes
dependências e prazeres, morre psicologicamente. O amor é então coisa
inteiramente diferente. Não podemos falar a respeito do amor; não podemos
escrever livros, sem cessar, e "categorizá-lo" — como o fazem alguns ditos
religiosos —, tais categorias não existem, são resultantes de mentes confusas,
ansiosas, inquietas, que nunca souberam o que é a realidade do amor. Para
alcançarmos a suprema realização dessa coisa chamada amor, não só devemos
estar plenamente livres do medo, mas também deve se verificar a morte da
afetação do movimento na ponte do tempo e, por conseguinte, a plena
percepção da vida. Essa coisa que chamamos "viver" é ansiedade, silencioso
desespero oriundo de nossa insuficiência psicológica, da qual deriva o
sentimento de culpa, o desejo material e sexual, o sentimento de
separatividade, o enorme e rotineiro campo de batalha que conhecemos.
Quando morremos totalmente para essa "SIMULAÇÃO" de viver, não
parcialmente ou para certos fragmentos dessa simulação — então sabemos o
que é a plenitude do viver. A morte e o viver "coexistem"; e para que a morte e
a vida continuem a coexistir, temos que morrer para tudo todos os dias,
52
momento por momento. A mente se torne então fresca, nova, inocente,
LÚCIDA. Essa lucidez não vem por nenhum droga ou ritual, nenhuma
experiência estimulada. Ela paira acima de toda e qualquer experiência oriunda
do condicionado pensamento. O que a si próprio ilumina não necessita de
nenhum estímulo, de nenhuma experiência.

Não existe um método para se morrer todos os dias para tudo aquilo que
carregamos na memória. Temos que saber, por nós mesmos, se é possível viver
tão completamente cada dia, que não haja ontem e nem amanhã. Isso requer
muita meditação e percebimento interior. Não é questão de concordar nem de
discordar, nem de perguntar "como é que se morre de momento a momento?".
Ninguém pode nos dizer nada a esse respeito. A coisa exige extraordinária
energia e vigilância, discernimento, compreensão, percebimento, e a mais alta
sensibilidade — a qual não se deixa levar pelo inconsciente e inconsequente
impulso emocional reativo —, a qual é lúcida inteligência. Certas drogas tornam
a pessoa momentaneamente sensível num determinado fragmento do vasto
campo da vida. No resto do campo ela permanece insensível, embotada; e pelo
fato de tornar-se altamente sensível numa dada área, vendo cores, visões, e
tendo "experiências psicodélicas", a pessoa supõe que isso representa toda a
substância da vida. Mas, para compreender a totalidade da vida, ela tem de ser
totalmente sensível, física e psicologicamente. Pensa-se que se pode ser
altamente sensível, psicologicamente, porém, fisicamente, brutal, embotado e
insensível. A vida não pode ser dividida em fragmentos, cada fragmento em
conflito com os demais. Só conhecemos esse conflito, esse incessante esforço
até a morte. Na família, no trabalho, mesmo nos momentos tranquilos de nossa
vida, nunca há um instante de incausado silêncio, um estado isento de esforço.
Simulamos ser entes altamente civilizados, sofisticados, mas, o sofrimento é
53
nossa sina, e para terminarmos o sofrimento, temos que fazer o tempo morrer;
temos de compreender a natureza e a beleza da morte. Onde há amor, não há
sofrimento, para o próximo, para o homem ao nosso lado ou à nossa frente.
Onde está o amor — que nada tem de pessoal —, está terminado o sofrimento,
não há adoração do sofrimento.

Temos que ter a plena percepção quanto ao nosso ilusório condicionamento do


esforço. Nós estamos sempre fazendo esforço. Desde o momento em que
nascemos até morrermos, há esforço, luta para "vir a ser". Por que? Se
compreendermos corretamente essa luta, psicologicamente, interiormente,
então a existência exterior terá um significado inteiramente diferente. Temos
de compreender esse esforço, essa luta constante para "vir a ser". Há esforço
quando há contradição, quando há comparação, quando há idealização. O viver
sem comparação, sem idealização, exige enorme lucidez, inteligência e
extraordinária sensibilidade, porque não há então exemplo, não há alguma
coisa que deveria ser, não há ideal, não há herói. Começamos com o que
realmente somos; e para compreender o que somos não há nenhuma
necessidade de esforço ou comparação. Quando comparamos, destruímos o
que somos. Por que estamos sempre psicologicamente lutando, para colocar
fim em alguma peculiaridade que em nós observamos? Para colocar fim à
peculiaridade é preciso entrar diretamente em contato com ela, dentro de nós
mesmos, e isso não pode ser feito se há um ideal de como deveria ser. O oposto
criado pelo que deveria ser, cria o conflito, cria a contradição. Mas, se somos
capazes de olhar tal peculiaridade, completamente, com ATENÇÃO PLENA, não
há então esforço, nem conflito, nem luta. ELA MORRE. São os ideais absurdos,
extravagantes, imaturos, que estão a destruir o contato direto com a suprema
54
realidade. Podemos viver uma vida isenta de conflito e isso não significa
vegetar. Ao contrário, a mente se torna altamente vigilante, lúcida, inteligente,
enérgica, apaixonada. Onde não há conflito, explode a amorosa inteligência
criativa e integrativa.

Muitos de nós, pensamos que para alcançarmos uma nova maneira de viver,
precisamos praticar, forçosamente, algum tipo de programação. Uma nova vida
baseada numa ideologia não pode ser uma nova vida; é tão somente o velho,
superficialmente modificado. O que se faz necessário é uma mente nova, e não
a observância de uma técnica, de um novo método, uma nova programação,
uma nova filosofia, ou uma nova droga. E essa mente nova não nascerá se não
soubermos morrer para o apego a tudo o que é velho, morrer completamente,
psicologicamente, esvaziar a mente da totalidade do que ela adquiriu no
passado. Então, não necessitaremos de nome nenhuma para aquela coisa; nós a
estaremos vivendo plenamente; saberemos então o que é a bem-aventurança,
o que é a verdadeira liberdade do espírito humano. Neste mundo em que
estamos vivendo, tão cheio de caos, só a mente inocente, plenamente livre da
mecânica afetação de sua carga do passado, é capaz de resolver o problema do
viver, e não a mente técnica, complicada, confusa.

55
ALCANÇANDO 100% DA RENOVAÇÃO MENTAL
É fato notório que, embora a parte mecânica do cérebro esteja se
desenvolvendo rapidamente, se está processando uma deterioração no
restante das células cerebrais, o que impede que o cérebro funcione em sua
totalidade. Com a influência tecnológica, nossas relações estão se deteriorando,
estão se tornando cada vez mais superficiais. Há uma deterioração moral e ética
em todos os segmentos da sociedade, onde se vê cada vez mais corrupção. Isso
está acontecendo no mundo inteiro. Portanto, urgentemente temos que saber
se é possível deter a deterioração cerebral, a desintegração de uma mente
dotada de tão notáveis aptidões. Já levamos anos e anos cultivando o lado
mecânico-tecnológico da vida, mas não investimos na investigação, quanto a
possibilidade da mente funcionar totalmente livre do medo, totalmente livre da
carga psicológica do passado e, portanto, manifestar a suprema realização de
sua capacidade criativa-integrativa. Os problemas tecnológicos temos
conseguido resolver facilmente, mas o mesmo não podemos dizer quanto aos
problemas psicológicos que tanto nos afligem.

Pela vida toda ficamos perpetuando ou fugindo de nossos problemas, com eles
nos conformamos e morremos, sem saber o que é a plenitude do viver, a
realidade do amor e da comunhão. É possível a mente se libertar totalmente de
todos os seus problemas e funcionar em 100% de sua capacidade? São os
problemas que ficam sem solução os causadores da limitação, da destruição, da
deterioração da mente. É possível resolver cada problema ao surgir, sem lhe
proporcionar a oportunidade de criar dolorosas e confusas raízes na mente?
56
Quanto mais desses problemas formos levando conosco, tanto mais pesado se
torna o nosso fardo e tanto mais evidente é que a mente e a totalidade de
nossa humana existência se tornam mais e mais complexas, confusas e
conflituosas. Naturalmente, o cérebro, assim como a totalidade da mente —
que é a consciência em seu todo — se deterioram. Podemos viver neste mundo
de tantas influências, resolvendo todos os nossos problemas de maneira
assertiva, lúcida, amorosa? Os problemas só existem quando a resposta é
inadequada, quando é resultante de inconsequente e emotivo impulso reativo,
de outra maneira, quando há plena percepção libertária, não há problemas.
Quando somos incapazes de ter a libertária percepção integrativa, pela qual
podemos resolver plenamente nossos problemas, então, devido ao inadequado
impulso emotivo reativo, perpetuamos nossos problemas. A esses problemas,
que são sempre novos, reagimos mecânica e inconsequentemente ou com a
acumulação de incompletos conhecimentos ou experiências, de modo que
nunca temos uma lúcida e amorosa ação direta.

Exteriormente, temos um progresso tecnológico fantástico; exteriormente, a


todo momento ocorrem mudanças extraordinárias, entretanto,
psicologicamente, interiormente, não se vê nenhuma mudança realmente
significativa, nenhuma mudança que realmente altere o curso da consciência
humana para as futuras gerações. Há contradição entre o que está se passando
interiormente, e as vastas mudanças que estão ocorrendo exteriormente.
Interiormente, estamos algemados pela tradição; nossos mecânicos impulsos
emotivos reativos procedem de nosso fundo animal, e são limitadas, portanto,
perpetuadoras de conflito e separação. Um dos nossos maiores problemas é o
de renovar, de rejuvenescer a psique, de estabelecer a plena comunicação entre
57
as nossas células cerebrais, para que se dê a suprema realização da totalidade
criativa da consciência em estado de amor. É possível resolvermos este
problema?

O homem sempre tentou ultrapassar seus problemas, quer fugindo deles, por
meio de vários métodos, quer inventando crenças que ele espera possam
renovar a mente que está sempre se deteriorando. Procura passar por várias
experiências, esperando encontrar uma que transcenda todas as outras que se
mostraram insatisfatórias e que lhe dê a total compreensão da plenitude do
viver. Experimenta tantos meios diferentes — drogas, meditação, devoção,
flerte, sedução, sexo, saber, poder — e, todavia, malgrado todos esse métodos,
não parece ele capaz de dissolver o fator central, responsável pela deterioração
das células cerebrais: a constante afetação do medo. É possível esvaziar de todo
a mente, para que cotidianamente se renove e já não crie problemas para si;
para que seja capaz de enfrentar cada desafio de maneira tão completa e total,
que dele não fique resíduo algum, nenhuma marca psicológica, que se torne em
outro problema? É possível passar por todas as experiências que temos e, no
fim do dia, não restar um único resíduo, nenhuma imagem, nenhuma cicatriz
psíquica, para ser levado para o dia seguinte, salvo o conhecimento técnico?
Não confundamos as duas coisas. Se isso não for possível, então, naturalmente,
as células cerebrais se deteriorarão; outra coisa não lhes acontecerão senão se
desintegrarem. A questão é: pode a mente, que é resultado do tempo, da
experiência, de todas as influências, da cultura, do condicionamento social,
econômico, climático, alimentar, libertar-se e ficar sem nenhum problema,
sempre nova, sempre capaz de enfrentar imediatamente todo desafio que se
lhe apresenta? Se disso não formos capazes, morreremos em estado de conflito.

58
Nós não resolvemos de modo assertivo as nossas aflições; jamais satisfazemos
verdadeiramente os nossos apetites; jamais nos vemos livres de nosso doloroso
sentimento de insuficiência psicológica; estamos sempre presos a essa ilusória
roda de preenchimento e frustração; nossa vida, por causa de nossa atual
consciência com base no medo, foi sempre um campo de batalha. Temos de
encontrar solução para esta questão, não por meio de alguma programação ou
filosofia, porque, naturalmente, nenhuma delas pode resolvê-la com plena
lucidez, embora possa fornecer explicações. Resolvê-la é libertar-se de todos os
problemas e tornar as a totalidade das células cerebrais sumamente sensíveis,
ativas, em plena comunicação entre si. Nessa própria atividade, a mente é capaz
de liquidar todos os problemas que surgem.

Sabemos o que se entende por problema: a reação inadequada a uma dada


circunstância. Uma rede de desafios se apresenta interminavelmente a todas as
59
horas. Quanto mais vigilantes estamos, quanto mais refletidos somos, tanto
mais agudos se tornam os problemas.

Nosso atual e limitado estado de consciência é resultado do tempo; e, no


decorrer desse tempo, temos cultivado todas as tendências humanas. A família,
o sistema de educação, a sociedade, os sistemas de crença organizada, têm
condicionado e limitado a mente. Estamos sempre a traduzir todos os desafios
em termos de nosso condicionamento e, assim, se nos observarmos, o que em
geral acontece é que cada pensamento, cada movimento da mente é limitado,
condicionado, e o pensamento jamais pode ultrapassar a si próprio. Se não
tivéssemos experiências, adormeceríamos. Se não houvessem desafios, embora
com inadequados impulsos de reação emotiva e todos os consequentes
problemas, adormeceríamos. É isso o que está acontecendo com a maioria de
nós. Estamos sendo condicionados pelo movimento da carga do tempo, por
causa disso, reagimos de modo inadequado, sem lucidez; temos problemas; os
problemas se tornam de tal tamanho que somos incapazes de resolvê-los, e
eles, por conseguinte, nossas células cerebrais se tornam embotadas,
insuficientes e confusas. A confusão e a falta de adequadas AÇÕES crescem mais
e cada vez mais, e ficamos dependendo da experiência colhida no tempo, como
o meio de produzir o depurador e libertário insight de lucidez, de promover uma
transformação grandiosa, fundamental.Pode qualquer tipo de experiência
colhida no tempo, operar uma mudança radical no atual e limitado estado de
consciência, de modo que a liberte por completo da afetação da carga do
tempo? Eis o nosso problema! Nossa limitada consciência é o resultado da carga
do passado; NÓS SOMOS O PASSADO. E a mente que está funcionando no
campo do passado não poderá em tempo algum resolver qualquer problema.
60
Necessitamos de uma mente nova, livre da mecânica afetação da carga do
tempo; necessitamos de uma significativa revolução na psique. Pode essa
revolução ser realizada por meio do conteúdo colhido no tempo?

Uma das nossas traves de tropeço está na ilusória crença do fator tempo, como
sendo algo necessário para que possa ocorrer um depurador insight libertário.
Dependemos da experiência colhida no tempo, como meio de promover a
emergencial revolução no nosso atual estado de consciência. Pode alguma
experiência, que é produto do tempo, colocar fim na afetação do tempo, e
libertar em sua totalidade a capacidade das células cerebrais? É por nossas vidas
serem tão vazias, tão superficiais, tão monótonas, que acreditamos que
precisamos de "mais" experiências. Tivemos experiências sexuais; frequentamos
templos, igrejas, mesquitas; lemos dúzias e mais dúzias de livros; fizemos
maratonas de filmes, séries e vídeos; fizemos centenas de coisas que
acreditávamos serem necessárias, mas que se mostraram sem nenhuma
significação; e desejamos agora uma experiência suprema que venha dissipar
toda esta confusão causada por uma mente afetada pelo tempo, uma mente
com base no medo. Precisamos ter a plena percepção, por nós mesmos, do por
que ansiamos tanto por uma suprema experiência; uma experiência que se
mostre agradável, deleitável, que supere nosso atual e triste viver. Todas as
experiências estão sempre no passado, nunca no momento presente, e toda
experiência é reconhecível, pois, do contrário, não seria uma experiência. Se a
reconhecemos, ela já é conhecida, já é da limitada dimensão do tempo; do
contrário, não poderíamos conhecê-la. Agora, se é da dimensão do tempo,
como pode a experiência, não perpetuar o conflito? A mente que exige
experiência como meio de promover uma revolução radical na psique está
61
apenas pedindo uma perpetuação DO QUE FOI; por conseguinte, não há nada
de novo, nada de original, na experiência; a experiência, portanto, não pode
tornar a mente inocente.

É possível nos mantermos totalmente despertos, intensamente ativos,


inteligentes, sensíveis? Se a totalidade das células cerebrais são plenamente
sensíveis, extraordinariamente sensíveis, a mente não necessita de tempo
psicológico para ter a plena e libertária percepção do que é. Só a mente
embotada, a mente insensível, a mente que não funciona com a totalidade das
células cerebrais, é que exige tempo, experiência, porque espera que por meio
do tempo e da experiência, poderá colocar fim ao seu constante estado de
inquietude e conflito.

A mente é o resultado de muitos séculos, de milhares e milhares de anos.


Sempre funcionou no campo do conhecido. Dentro desse campo do conhecido,
não existe nada de novo. Todos os deuses que a mente inventou são do
62
passado, do conhecido; uma projeção de si mesma. Pode a mente, por meio do
pensamento — que é tempo —, da lógica e da razão — as quais estão
condicionadas ao tempo e espaço de seu estabelecimento —, promover uma
transformação, na qual se veja totalmente livre da limitante afetação do
tempo? Necessitamos de uma tremenda e imediata mutação psicológica, não
de uma mudança produzida por uma mente neurótica que acredita no esforço
gradual, num processo de "passo a passo" para que, num "amanhã", ocorra tal
idealizada mudança. A lógica, a razão, o conhecimento, nem as sagazes
atividades do intelecto discursivo, poderão operar essa radical revolução que
coloca fim a adulterante afetação do tempo. Então, o que poderá produzi-la?

Se o tempo, o amanhã, o esforço, o pensamento, a lógica, a razão, o discursivo


intelecto, a experiência, qualquer tipo de autoridade, não podem realizar uma
radical revolução no atual e limitado estado de nossa consciência; se nada disso
pode causar a total depuração e integração da totalidade das células cerebrais,
o que é que poderá realizá-la? Precisamos descobrir, por nós mesmos, a única
revolução que resolverá todos os nossos problemas. Temos de nos aplicar com
uma dose de total intensidade, paixão, sensibilidade e, portanto com uma alta
dose de inteligência, para podermos fazer uma investigação nos níveis mais
profundos de nossa consciência, até atingir sua exata natureza, e não podemos
alcançar tal dose de intensidade e paixão, se temos algum motivo, alguma
direção, alguma preferência, estipulada pela lógica e pela razão; pois, nesse
caso, a intensidade e a paixão são apenas o resultado do desejo de alcançar um
condicionado resultado e, por conseguinte, se torna um prazer, o qual perpetua
a consciência geradora de conflito. Onde há prazer, não há real paixão, não há
amor.
63
A mente que não sente a urgência de ter a plena percepção da limitada
estrutura de si mesma, que não tem a necessária paixão e intensidade para
descobrir se é possível se ver plenamente livre da afetação do tempo e do
medo, está morta, é uma mente estúpida, embotada, imatura, ainda que muito
sagaz e erudita. Essa urgência, essa paixão, essa intensidade total, é que criam a
energia necessária para atingir os níveis mais profundos, para atingir sua própria
essência, para abrir a totalidade das células cerebrais em seus núcleos e
reintegrá-las, de modo que possam ser plenamente sensíveis, lúcidas e
amorosamente criativas.

Para que a mente possa alcançar seus níveis mais profundos, “tocar sua exata
natureza”, precisa estar livre da palavra, sendo a palavra o símbolo, o conceito,
com tudo o que o encerra — conhecimento, tempo, etc. Para ter a plena
percepção, a totalidades das células cerebrais devem estar em silêncio, não
64
sendo afetadas pelo impulso reativo emotivo que clama por prazer imediato; ao
contrário, como é possível olhar alguma coisa? Esse silêncio das células
cerebrais ou pode ser produzido por um objeto tão imenso que torna a mente
silenciosa; ou ele resulta de que a mente compreende que, para olhar qualquer
coisa, tem de se aquietar; permanecer num natural estado de “não-saber”, de
“não-buscar”, num lúcido estado de “não-reação”. Para que a mente possa
observar seus níveis mais profundos, seus movimentos mais sutis, necessita de
liberdade e silêncio; não deve estar mais sendo tocada por doações psicológicas
de terceiros, por mais racionais e lógicas que estas sejam. Nesse estado de
liberdade e silêncio, não há interpretação, por parte do observador, daquilo que
está em si observando — sendo o “observador” todas as ideias, memórias,
experiências, que impedem a percepção plena, o depurador insight integrador.

Só a mente que está toda em silêncio, não por meio de forçosa disciplina ou
controle, oriundos de algum sistema ou programação, ou por causa da exigência
de experiências extraordinárias, pois tudo isso são futilidades — só a mente que
está toda em silêncio, pode conhecer a natureza exata de um estado mental
livre do medo. Só o silêncio total produzirá a revolução da totalidade das células
cerebrais — não o esforço, nem o controle, nem o processo gradual no tempo,
nem a doação psicológica de alguma autoridade. Esse silêncio é
extraordinariamente ativo; não é mero silêncio estático, resultante de alguma
forma de calculo autocentrado. A análise, a psicanálise, não dá liberdade, nem
produz silêncio, tanto mais porque requer tempo. Esse desejo de encontrar a
Verdade, de descobrir se é possível uma revolução radical na mente, só será
compreendido quando houver liberdade total e, por conseguinte, não houver
medo. Só há dependência de alguma forma de autoridade quando há medo.
65
Com a compreensão do medo, da autoridade e da rejeição de todos os desejos
de experiência — e essa é realmente a plenitude da maturidade — as células
cerebrais se tornam completamente silenciosas. Só nesse silêncio que é
SUMAMENTE ativo, pode se verificar a depuração e a integração da totalidade
das células cerebrais, e a suprema realização de seu estado de lúcida
criatividade amorosa. Só então a mente está apta para criar uma nova ordem
mundial com base no amor.

A tentativa de revolucionar radicalmente o atual e limitado estado de


consciência com base no medo, não pode ser denominado de “expansão da
consciência”, uma vez que o expandir da consciência exige um CENTRO que
esteja consciente de sua expansão. No momento em que existe um centro,
como ponto de partida da expansão, isso já não é expansão, porquanto o centro
limita sempre sua própria expansão. Se há um centro que me serve de ponto de
partida, embora eu chame isso de “expansão”, esse centro será sempre fixo,
será sempre limitado. Posso expandir-me dentro de um certo limite, mas, visto
que o centro é sempre fixo, não há expansão real.

Só conhecemos o espaço que existe por causa do centro observador, que está a
criar espaço ao redor de si. Ora, o centro pode expandir esse espaço por meio
da meditação, da concentração, etc. e tal; mas o espaço é sempre criado pelo
objeto. Enquanto existir o centro observador, ele criará espaço ao redor de si. O
expandir da consciência, um dos truques mais fáceis, fica sempre dentro do
limitado raio que o centro observador cria. Em tal espaço não há nenhum
liberdade. Não sou livre. Só há liberdade e, por conseguinte, um espaço
imensurável, quando não existe um centro observador.
66
A erudição e o conhecimento profundo de diferentes filosofias e ideias não
resolvem de maneira nenhuma nossas imensas complexidades e problemas
psicológicos. Para compreendermos tais problemas, requer-se uma série
intenção de examinar com toda a atenção tudo aquilo que está ocorrendo na
totalidade de nosso ser, para isso, é preciso silêncio do conteúdo da memória, a
qual adultera a plena percepção. Necessitamos de atenção que não seja
forçada, cultivada, "exercitada", pois este tipo de atenção, só perpetua conflito.
A plena atenção só se torna possível quando há liberdade, e quando não há
nenhum motivo. O motivo projeta sempre suas próprias exigências e, por
conseguinte, não há atenção, só conflito. A atenção também não é interesse. Se
há interesse, então a atenção se torna concentração, e a concentração nos
mantém fechados, limita nossa ação, impede a "explosão" da percepção
libertária. Só podemos ter a “percepção libertária” referente aos nossos
problemas, quando a concentração de pensamentos se detém por completo.
Essa própria observação não afetada pelo pensamento é, então, um catalisador
da percepção libertária.

67
A radical revolução da consciência requer plena e silenciosa observação dos
movimentos do pensar e do sentir, nunca aceitando, rejeitando e sem nos
deixar desanimar ou entusiasmar por aquilo que vemos. Se não conhecermos,
se não observarmos, em sua totalidade, nossos íntimos movimentos, cada
movimento de pensamento, de sentimento, nossas palavras e gestos, e o que se
esconde atrás das palavras e pensamentos — se não observarmos a totalidade
dessa estrutura psicológica pela qual funcionamos, não teremos nenhuma base
para a explosão da integrativa percepção libertária com sua lúcida ação criativa.
O que teremos será sempre, unicamente, a inevitável continuidade do limitante
e conflituoso passado. Mas, ao compreendermos toda essa estrutura, a
significação de nós mesmos, está então lançada, profundamente, essa base e
podemos, então, prosseguir, na descoberta de nossa exata natureza, totalmente
livre da afetação do tempo, portanto, livre do medo.

68
A radical revolução da consciência requer autoconhecimento: o conhecimento
alcançado por nós mesmos e não por meio de doações psicológicas de outrem.
Temos de reaprender a nos conhecer. Aprender não é um movimento de
conhecimentos acumulados. O aprender só pode ocorrer no presente ativo; não
é guardarmos o que aprendemos através da incompleta experiência, de nossas
atividades anteriores, da memória. Se estamos meramente acumulando, não há
o verdadeiro autoconhecimento, não podemos ver a nós mesmos, tal como
realmente somos. Se assim não o fizermos, a ação será produto de idealização
resultante do passado, portanto, nunca poderá apresentar algo novo. Separa-se
a ação da ideia, e daí a perpetuação de uma consciência conflitada, inquieta,
que sempre ajusta sua ação à ideia, ao padrão.

A radical revolução da consciência requer que penetremos em algo muito


profundo e urgente, algo que supere totalmente, tudo aquilo que foi criado
pelos intelectuais, filósofos, teólogos, sacerdotes, sistemas e programações,
uma vez que nossa vida, nossa existência diária é uma coisa monótona,
inteiramente inexpressiva. Temos nossas lembranças, nossos prazeres e
diversões — mas isso constitui uma parte insignificante de nossa existência.
Bem no fundo, se retirarmos essa camada superficial, encontramos enorme
descontentamento, com nossa vida, nossa insignificante existência, nossas
superficiais relações; e isso nos causa desespero, inquietude, dolorosa solidão.
Em razão desse desespero é que começamos a buscar, usando como
instrumento, nosso limitado e confuso intelecto discursivo, com o qual
tentamos dar uma significação intelectual ou emocional à nossa vida, a qual se
mostra, no decorrer do tempo, totalmente ilusória.

69
Buscamos, porque estamos descontentes, corroídos pela trivialidade, pela
insignificância de nossa existência (afora os conhecimentos técnicos de que
necessitamos para custear nossa existência e ter algum dinheiro, nossa
existência nada tem de significativo, ao ponto de poder ser compartilhado com
as futuras gerações). Há em nós esse enorme vazio, essa solidão, esse doloroso
e desesperador sentimento de insuficiência psicológica; e a fim de preenchê-lo,
buscamos. Mas, como estamos confusos, o que encontramos em meio de nossa
busca, é perpetuação de nossa confusão. Essa confusa busca é algo terrível,
porquanto, não conduz a parte alguma; não dissolve nossa limitada consciência
com base no medo. Portanto, a primeira coisa que devemos fazer, é ter a plena
percepção que temos que morrer psicologicamente para a busca de qualquer
espécie. Esta é uma pílula difícil de engolir, porque já estamos acostumados e
condicionados para buscar por doações psicológicas de terceiros. A busca se
torna um outro meio de fuga ao fato real — impede a libertária percepção
daquilo que realmente somos. É decisivo a plena compreensão disso. Temos
que vestir luto para o nosso buscar, temos que morrer para qualquer busca
psicológica. Só então teremos a possibilidade de saber o que é a liberdade da
autossuficiência psicológica.

70
Temos que morrer para toda forma de busca por doações psicológicas de
terceiros. Porque todo movimento de busca nos dá a ideia de que realmente
estamos nos movendo em direção de algo profundo e significativo; mas o que
acontece de fato é que não estamos em movimento, absolutamente. O que está
ocorrendo, quando buscamos, é um ilusório processo mental, do qual
esperamos resultados satisfatórios. O buscar é um limitante estado estático;
não é um libertário estado ativo. O estado real é essa solidão, esse vazio, esse
doloroso sentimento de insuficiência psicológica, esse incessante desejo de
felicidade, de real contato e comunhão, de descobrir uma realidade
permanente, a natureza exata de tudo que é. O buscar é próprio da mente que
tem medo de si mesma — daquilo que é. O homem que está ativo, o homem
inteiramente sem medo, é uma luz para si mesmo; não tem nenhuma
necessidade de buscar.

Em meio a essa solidão, esse sentimento de absoluta insignificância da


existência, podemos descobrir por nós mesmos — não por meio de filosofias,
programações, nem de psicanálise, nem de alguma religião organizada — e sem
sombra de dúvidas, se a vida tem alguma significação e real beleza? É
necessário investigar, examinar e, por meio desse exame, descobrir uma
realidade. Se projetamos nosso próprio condicionamento, nossos temores e
esperanças, nos veremos no mesmo escuro e confuso labirinto de antes.

71
A radical revolução da consciência requer, em primeiro lugar, a plena percepção
da total superficialidade de nossas vidas; temos de perceber a insignificância de
frequentar um escritório por quarenta anos, e lutar e lutar, até o fim, até à
morte; ou de preencher os esporádicos momentos em que não estamos
ocupados em ganhar dinheiro, a nos entreter com filosofias, crenças ou ideias;
ou, se temos dinheiro, de viajar para certos lugares, para aprender a meditar,
conforme o método de algum guru, e a estar vigilante. Tudo isso é muito
insignificante e infantil! Mas, nós temos de investigar; temos que descer nas
profundezas de nós mesmos; temos de descobrir, de fazer contato, com algo de
verdadeiramente significativo, não inventado pela mente. Para ocorrer a
suprema realização disto, tem de findar o buscar, para enfrentarmos o que
somos, tal como somos — o que HÁ realmente em nós.

72
Essa atenção não se conquista pela forçosa prática — que se torna um ato
mecânico. Com a plena atenção percebemos, por nós mesmos, a total futilidade
do que estamos fazendo e a superficialidade de nossas relações. Percebemos
que os meios maravilhosos que o homem tem inventado, e propagandeado em
coloridas mídias, para fugir de si próprio, e que o impedem de olhar a si mesmo
— ouvir concerto, visitar museus, caras viagens, etc. — não constituem toda a
substância da vida, não nos brinda com a liberdade e a plenitude do viver. A
consciência é sempre limitada, por mais que possamos ou esperamos expandi-
la, por meio de drogas lícitas ou ilícitas, pela prática de certas disciplinas,
sistemas ou programações. Existe sempre o centro observador; e onde existe
um centro de onde parte a observação, a expansão será sempre limitada. O
observador está sempre criando espaço ao redor de si, sendo esse o único
espaço que conhece. Dentro desse limitado espaço, tudo faz para fugir da prisão
que ele mesmo criou. Mas o observador é a coisa observada e, por conseguinte,
as experiências que ele busca, ficam sempre dentro dos estreitos limites
daquele espaço criado por ele próprio, não podem deixar de perpetuar
limitação e conflito. Só quando a mente percebe plenamente, compreende
totalmente a natureza exata do observador e da coisa observada, é que termina
a limitação e o conflito; e a cessação do conflito é essencial para que a mente se
torne completamente tranquila, livre, amorosa, criativa e integrativa. Podemos
então descobrir, “tocar” a essência da existência; não antes disso, não quando
somos imaturos, ambiciosos, invejosos, aquisitivos, apegados, quando estamos
buscando por mais e mais experiências. A mente que examinou e compreendeu
plenamente a ilusão da busca, está livre do medo e, consequentemente, há nela
completa quietação, tranquilidade, silêncio na totalidade das células cerebrais.
A meditação então se torna uma reveladora e maravilhosa atividade.

73
A mente agitada, a mente que tem problemas, a mente que está sempre e
incansavelmente buscando, indagando, criticando e forcejando para não
criticar, essa mente termina quando o observador, que está criando e
alimentando esse movimento, percebe que o buscador é a coisa que ele está
buscando. Esse processo, em seu conjunto, é uma espécie de meditação — sem
auto-hipnose, sem nenhuma exigência de resultado ou desejo. Só então
podemos encontrar, “tocar” aquilo que o homem vem buscando há séculos e
séculos, e que não tem que ver com crença, programação ou religião organizada
— com nenhuma dessas infantilidades. Naturalmente, para poder “tocar” e ser
“tocado” por essa coisa maravilhosa, é preciso existir a transpessoalidade do
amor; o amor que não é prazer, nem desejo.

Temos de compreender o amor transpessoal, em vez de neuroticamente


renunciarmos ao desejo e ao prazer, pois isso é mero recalcamento. Para se
74
compreender esta malfadada palavra “amor”, é necessário compreender a
natureza do morrer; porque amor e vida é morrer. Não se pode ter a plena
percepção da profundeza da vida, se não há o morrer para a totalidade do
conteúdo do passado, que é memória, que é o observador. Sem essa
compreensão, a vida é sem significação, a vida não tem comunhão, não tem
qualidade. Podemos ter muitos carros, mais propriedades, ser socialmente
conhecidos; mas a vida nada significa, não tem aquela qualidade que não é
produto de uma mente condicionada, de uma mente afetada pelo medo. Pelo
intelecto discursivo, podemos tentar criar uma significação para a vida, nos
ajustarmos a um padrão de qualidade de vida, por ele criado; entretanto, isso
nada significa. Para alcançarmos essa real significação do viver, essa imensa
realidade — e ela existe —, temos de nos libertar de nossa herança animal, do
animal agressivo, violento, homicida e tudo o mais que somos. Se não
conseguirmos, tal como os jurássicos animais, não importa o que fizermos,
nossa vida continuará vazia, numa rota de corrupção que conduz à
exterminação da espécie humana.

É necessário compreender, em sua totalidade, a estrutura animal que em nós


subsiste, não intelectual ou sentimentalmente, porém realmente, nos
colocando diretamente em contato com ele: com nossos mesquinhos ciúmes,
ansiedades, esperanças, apegos. Para o olharmos e compreendermos,
necessitamos de zelo, de afeição. O animal em nós pode nos assustar, pode ser
estúpido, pode ser tudo; mas, temos de olhá-lo e, para o fazermos,
necessitamos de zelo. Isso significa que não temos que destruir nada em nós,
nada temos de recalcar ou de controlar, de nada temos de fugir. Este é um dos
nossos maiores condicionamentos: reprimir ou soltar as rédeas. Temos de
75
compreender a estrutura do prazer, que é desejo, que é pensamento;
compreendê-lo, e não reprimi-lo, sem sublimá-lo, nem dele fugir. E para
compreendê-lo, temos de olhá-lo com zelo.

O percebimento sem escolha tem tremenda significação, pois só nesse estado é


possível examinar, o conteúdo do que trazemos na memória, em nossa voz
interior, em nossos sonhos, tudo mais. Tudo tem enorme significação, se
estamos plenamente apercebidos sem escolha, sem resistência; porque nosso
olhar então se torna lúcido e penetrante no mais alto grau. Já não somos mais
persuadidos por nossos inconsequentes e mecânicos impulsos reativos
emotivos ou pela propaganda familiar ou social. Podemos, então, olhar sem
adulterar o que olhamos. É o que fazemos quando nos vemos numa crise real.
Quando recebemos um choque psíquico, toda a nossa atenção se coloca em
prontidão; estamos vigilantes. Naturalmente, se o choque é forte demais, nos
paralisa. Isso é coisa diferente.

76
A vida, em seu todo, tem significação, importância, quando, livres plenamente
do medo, tocamos aquela coisa de outra dimensão, a qual o homem tem
buscado. De contrário, nada significa. Não podemos tocar aquela coisa de outra
dimensão, se a mente está inquieta, confusa, se está em guerra consigo mesma.

Que efeito pode ter a revolução radical da mente humana, a plena depuração e
integração das células cerebrais de uma só pessoa, em toda a raça humana? O
indivíduo é a entidade "localizada", a entidade local, condicionada, atual. O ente
humano é muito mais velho, é transgeracional. Se ocorrer uma mutação da
mente da entidade localizada, essa mutação influirá na consciência total, não só
do indivíduo, mas na totalidade da espécie humana? Vemos que a corrupta
sociedade precisa ser alterada, mas como? Percebendo-se os "direitos
adquiridos" dos políticos, dos militares, dos sacerdotes, dos homens de negócio,
é possível essa alteração? Nós somos a sociedade, psicologicamente falando. A
estrutura psicológica da sociedade é o que, psicologicamente, nós criamos. Não
é uma coisa diferente de nós. Nós temos medo, conflito e buscamos por poder,
o que faz de nossa vida, de nossa existência diária, um verdadeiro campo de
batalha. Dizemos: "Quero alterar tudo isso". Podemos fazer essa alteração, ou
devemos nos interessar pelo ente humano total, esse ente humano que vive há
dez mil ou há dois milhões ou há não sei quantos anos? Se for possível a
mutação nele, tudo então estará certo. A mera alteração de uma entidade local,
do indivíduo, não terá muita influência. Se nos limitarmos a cultivar o nosso
quintal, pouca coisa será feita. Mas, se nos interessamos pelo ente humano
total, então, essa mutação da psique — resultante do contato com aquela coisa
de uma dimensão não resultante do pensamento —, influirá sem dúvida na
qualidade de vida da sociedade.
77
Há tantos milhões de entes humanos a se debater na confusão e a viver
materialisticamente, que parece haver pouca esperança de que apareçam
pessoas esclarecidas em número suficiente para mudarem a atual e drástica
rota da consciência humana com base no medo. Mas, não devemos nos
preocupar com a multidão. Nós somos os responsáveis pela descoberta de
novos rumos, pela suprema realização de uma nova maneira de viver, pois
fomos nós que criamos este mundo de conflito, corrupção e violência, com os
nossos pensamentos, sentimentos, crenças e tradições. O ente humano total,
que é cada um de nós, tem de mudar, tem de passar por uma radical e
significativa transformação; precisa descobrir um modo de despertar a
totalidade criativa de suas células cerebrais. Não temos que nos preocupar com
números: temos que ser o “um” na frente do zero. Já se tem feito propaganda
demais. Propaganda nunca é verdade: é mentira! Quando houver amor,
saberemos por nós mesmos, quais são as verdadeiras relações com os homens.
Sem sermos uma manifestação ética de amor, queremos promover uma
mutação na sociedade; queremos mudar o homem; queremos prestar “bons
serviços”; queremos desfraldar bandeiras. Quando formos uma manifestação
ética de amor, não haverá problema algum. Faremos o que quisermos, e
nenhum mal advirá.

78
Não há nenhum guia, nenhum filósofo, nenhum instrutor; ninguém pode nos
guiar, no que diz respeito ao resgate de uma mente original, nova, que funcione
com a totalidade criativa das células cerebrais. Isso já foi tentado em vão. Têm
existido instrutores, gurus, sistemas, programações, salvadores, sacerdotes,
pequenos chefes sectários, com suas idiossincrasias e filosofias infantis; e,
dentre todos esses confusos homens, nenhum resolveu os problemas humanos
relativos ao resultado de todo tipo de adulteração de uma mente com base no
medo: a guerra, a nossa diária aflição, nosso desespero, nosso doloroso
sentimento de insuficiência psicológica, nossas íntimas agonias e inconfessável
solidão. O máximo que nos proporcionaram foram diferentes meios de fuga,
narcóticos que em nós fazem surgir vagas esperanças ou visões de uma nova
maneira de viver; entretanto, nenhuma mudança realmente significativa se
operou ainda; nenhum desses sistemas, métodos, rituais ou programações
conseguiu alterar fundamental e radicalmente a estrutura das células cerebrais,
a qualidade da mente humana.

79
Evidentemente, precisamos nos libertar de nossa tendência de buscar por
recursos externos, para que se torne possível a fundamental e radical
transformação mental-emocional. Isto significa estar livre de toda e qualquer
ligação, intelectual ou de outra natureza, livre de toda e qualquer filosofia,
sistema, método, programação, dogma, para que a mente possa OLHAR. Porque
a mente só está apta para olhar, para explorar, quando não se acha cercada por
seus próprio problemas ou esperanças, vinculada a nenhuma filosofia, nenhum
dogma, nenhuma igreja, a nenhuma ideia pessoal de “deus”. E esta me parece
uma das coisas mais difíceis. O olharmos nossos problemas atentamente, como
entes humanos, requer não só liberdade, mas também um extraordinário
estado de plena atenção.

80
Cabe somente a nós a enorme tarefa de descobrir como depurar a totalidade
das células cerebrais, visto que a maioria não deseja — DE FATO — resolver os
seus problemas resultantes de uma consciência adulterada pela afetação do
medo. Temos que descobrir — e não meramente ficar a tecer achismos
concordantes ou discordantes —, se é possível aos entes humanos libertarem-
se completamente de seu desespero, que dizer, libertarem-se totalmente do
medo e viverem, assim — agora e não num futuro idealizado — uma vida não
limitada pela crença pessoal, pelo tempo; se é possível libertar a mente dos
incontáveis séculos de condicionamento pela propaganda das igrejas, das
religiões, das programações, da família, da sociedade, das insinuações dos
outros, das revistas, dos jornais, dos políticos, dos sacerdotes, dos analistas: ter
uma mente livre. Do contrário, o homem estará condenado a uma eternidade
de ilusões, de penas, aflições e sofrimento.

Quanto mais inteligente a pessoa, quanto mais consciente de seus problemas e


dos problemas mundiais, tanto maior o seu desespero e a falta de significação
desta vida. Se considerarmos o estado atual do mundo, se torna bem evidente
que, quanto mais conscientes ficamos de todos esses complexos problemas,
tanto mais ardentemente desejamos uma mudança radical, revolucionária e
não simplesmente no nível tributário, econômico e social, pois as mudanças
dessa espécie nunca resolveram verdadeiramente nenhum problema humano.
Estamos nos referindo a uma revolução que deve operar-se num nível
totalmente diferente — na totalidade da estrutura cerebral, na psique, na
própria mente; e precisamos saber se isso nos é possível, essa revolução radical,
sem sermos guiados por nossas inclinações e temperamentos, ou impelidos

81
pelas circunstâncias, pela família, pela sociedade, pois uma mudança forçada
pelo externo, não é mudança alguma.

Cabe a nós a emergencial tarefa de investigar, sem busca por qualquer forma de
estímulo externo, se é possível termos o nosso olhar depurado por um insight
integrativo, o qual nos liberte da afetação da carga do passado, da afetação do
medo. Quem precisa de estímulo está na dependência psicológica de outrem,
está vinculado e, consequentemente, não pode saber que o que é liberdade,
portanto, já deixou de investigar. Temos medo de, por nós mesmos, investigar
os nossos problemas, de examiná-los, porque daí poderá resultar uma
revolução totalmente diferente daquela que desejamos. Assim, se desejamos
criar uma nova maneira de viver, dotada daquela região de amorosa lucidez (e
temos que criá-la, pois é a única esperança que resta ao homem), precisamos
de uma mente diferente, uma mente capaz de observar tudo isso, de observar
como vivemos de forma separatista, calculista e autocentrada; capaz de
observar tudo isso e rejeitar total e definitivamente esse antigo modo de viver,
porque só então é possível viver em liberdade, felicidade e amor transpessoal.

82
Precisamos urgentemente descobrir uma nova maneira de viver, um viver onde
nossa sensibilidade se encontra plenamente desperta, assim como o amor, o
qual é a única luz que, uma vez acesa, nunca se apaga. É bem evidente que os
políticos e os religiosos, nunca fora capazes de ascender essa chama em nossa
mente e coração. Eles falam de uma nova ordem mundial, mas nunca foram
capazes de realizá-la. Devemos nos interrogar, não por simples curiosidade,
porém do fundo de nosso desespero, ansiedade e doloroso sentimento de
insuficiência psicológica, qual a significação de tudo isso que o homem acreditar
ser vida. Precisamos nos indagar quanto a direção que estão seguindo os seres
humanos, que tipo de sociedade estamos criando para as futuras gerações.
Temos feito esta pergunta a várias pessoas eminentes, porém elas não possuem
resposta para ela. Todos têm uma fórmula, estão presos numa crença, numa
programação especulativa, numa certa esperança; mas, não se pode construir
uma nova sociedade, uma nova maneira de viver não calculista, não separatista,
não autocentrada, com base em esperanças, fórmulas, crenças, sistemas e
programações. Uma nova sociedade só pode ser edificada por um pequeno
grupo de pessoas dedicadas, não persuadidas pelo medo, pela ambição, pela
avidez, pela busca de prazer imediato. Precisamos encontrar uma resposta para
esta pergunta — não uma resposta sustentada em nossos "achismos", não uma
resposta especulativa, não uma resposta baseada na esperança ou num certo
mito fantástico: É possível a suprema realização de um depurador insight
integrativo, pela qual possamos viver e agir com a totalidade de nossas células
cerebrais, sem que as mesmas sejam adulteradas pela energia do medo e do
atrito?

83
É possível a fazer germinar a semente de uma nova cultura, de uma nova
sociedade, de uma nova mente, não moldada no velho padrão de ajustamento,
o qual se sustenta na ilusão da crença, na autoridade e no atrito? É possível um
novo estado mental que não pertença a religião alguma, a nenhum grupo,
classe, seita, isento das infantilidades que a mente confusa hoje pratica? Não sei
se você já se fez essa pergunta; a maioria de nós provavelmente anda tão
ocupada com seus próprios problemas, seus insignificantes projetos, ou está
presa na armadilha da tradição, a dar voltas e mais voltas, sem ter tempo para
momentos de ócio criativo, momentos de "lazer não condicionado", nem
vigorosa vontade de investigar. Essa é a triste situação da maioria de nós,
portanto, sem a capacidade para responder esta pergunta emergencial. Estará
tudo perdido? Já estará a consciência humana em declínio, sem nunca sequer
ter amadurecido? Bem me parece que os entes humanos, em todo o mundo, já
não tem fé em coisa alguma — nem nos deuses que o homem confuso e
amedrontado criou, nem nos neuróticos cientistas e filósofos, nem nos
corruptos políticos, nem nos livros, nem nos teólogos com seus pensamentos
condicionados. Como não se pode ter mais fé em ninguém, como,
fundamentalmente, também não temos fé em nós mesmos, porque andamos
tão confusos e incertos, tão atormentados por inumeráveis desejos; e como,
enfim, de modo nenhum devemos nos deixar guiar por alguém — cada um de
nós deve ser uma luz para si mesmo, como ente humano. O problema é muito
maior do que a mente pessoal que está tentando resolvê-lo. O desafio é
imenso: encontrar um estado mental, totalmente livre da crença na autoridade,
seja neste mundo ou num outro mundo possível (se é que de fato ele existe).
Temos de enfrentar esse desafio com a compreensão da totalidade deste
84
conturbado mundo humano. Se não encontrarmos uma resposta real,
significativa, nossas vidas continuarão no estado que se encontram agora:
vazias, sem valor e sem nenhum significado.

Precisamos descobrir se há um estado de lucidez, onde a ação não seja


proveniente de ajustamento ao conhecimento colhido no tempo, não
proveniente de incertas certezas emprestadas. O que geralmente acontece à
maioria de nós é que, depois de termos aprendido, de termos acumulado
conhecimento na memória, atuamos; ou, nesse atuar depois de aprender,
aprendemos mais coisas, que acrescentamos ao velho baú de memórias e
conhecimentos. É isso o que estamos sempre fazendo. Desse modo, toda nova
experiência é traduzida de acordo com o que temos acumulado e, assim, estou
sempre a aumentar os meus conhecimentos e, por conseguinte, nunca
aprendendo. Aprender só é possível no PRESENTE ATIVO, é ação, um
movimento que está sempre no AGORA; por conseguinte, aprender é ação —
não é atuar depois de aprender. A ação tem então um significado
completamente diferente, pois não produz contradição, repetição. Está-se,
então, sempre aprendendo, e a vida, por conseguinte, tem sempre uma
"mensagem nova"; nunca há um momento posterior ao aprender, nem ação
que foi "registrada" no passado, de modo que nunca há conflito com o presente
ou com o futuro. Isso exige enorme atenção e percebimento. À maioria de nós é
muito fácil "acumular conhecimento", "registrar dados", experiências e, depois,
atuar, ou melhor, reagir de acordo com esse limitado conhecimento adquirido.
85
Isso não é ação criativa, é repetitiva reação mecânica. Não requer muita
energia. Não requer muita atenção, percebimento, vigorosa intensidade. Mas,
se se compreende o significado da palavra "aprender", o que há, então, é um
vigoroso e real movimento no agora, sempre no agora; por conseguinte, nunca
há momento de conhecimento registrado, acumulado e de reação nele
baseado. Nesse real movimento, descobre-se algo realmente digno de ser
compartilhado com a totalidade da espécie humana.

Aprender é estar plenamente consciente, não daquilo que já sabemos, não


daquilo que trazemos do passado. O aprender só é possível quando há a plena
dissolução da afetação da carga psicológica do passado. O aprender é uma coisa
extraordinariamente vital, que produz abundante energia, porque nele não há
contradição, não há conflito. Nossa energia atual está sendo desperdiçada,
dissipada, perdida, entre o que foi registrado e acumulado pela experiência
passada, pela instrução, etc., etc., e o mecânico impulso reativo emotivo; e, por
essa razão, existe uma contradição: no ajustar a “reação” ao conhecimento
anteriormente registrado. Onde há contradição, há desperdício de energia; e
nossa vida é contradição, por conseguinte uma enorme dissipação de energia.

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Toda paixão que tem um “motivo pessoal” chega necessariamente a seu fim. E,
para compreender plenamente aquela outra dimensão de amorosa lucidez,
necessitamos daquela intensa e vigorosa paixão que não provém do intelecto
discursivo e tampouco da neurótica emoção ou do confuso sentimento; que não
pode ser despertada pela devoção a uma determinada norma de ação ou
pertencer a um certo grupo político ou religioso. Isso poderá com efeito,
momentaneamente proporcionar uma certa intensidade, um certo ardor, uma
certa impulsão, mas nos referimos a uma paixão mais difícil de se alcançar;
porque a paixão que se requer para qualquer ação assertiva deve ser sem
“motivo pessoal”. Em geral buscamos por satisfação pessoal, intelectual,
emocional, física, e o conforto, em várias formas. Ideológica ou
psicologicamente, exigimos essa satisfação, a qual, enquanto nos preenche, nos
desperta uma certa intensidade. Mas essa intensidade rapidamente declina e
tem de ser renovada, estimulada, impulsionada por doação psicológica de
terceiros, de modo que estamos sempre em busca de uma finalidade, uma certa
continuidade da paixão. Uma vida sem esse intenso ardor, sem essa paixão sem
causa, é inteiramente sem sentido. Pode haver alguma ocasião rara em que a
mente funciona sem “motivo pessoal”, sem desejo de reconhecimento, sem
desejo de satisfação, mas nossa vida e nossa conduta se baseiam, pela maior
parte, no desejo e na busca da continuidade do prazer imediato. A mente que
se acha presa nessa armadilha, condicionada por esse “princípio do prazer
imediato”, não pode descobrir o verdadeiro, não pode estabelecer contato com
aquela imaculada energia amorosa, que é de incondicionada beleza, que é a
essência una de tudo que É.
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